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Capa

José Jorge Letria

Mouschi,
o gato de Anne Frank

ilustrou
Danuta Wojciechowska

EDIÇÕES ASA
Contracapa

Os livros da Série Azul da colecção ASA JUVENIL são recomendados para crianças a
partir dos 10 anos.
Ficha Técnica

Asa Editores II, 2002


ISBN: 972-41-2822-9
Depósito legal nº 184307/02
2ª edição: Setembro de 2002
Execução gráfica
GRAFIASA
Rio Tinto, Portugal
Página de rosto

José Jorge Letria

Mouschi,
O gato de Anne Frank

ilustrou
Danuta Wojciechowska

EDIÇÕES ASA
O meu nome é Mouschi e fui, durante dois anos, o gato de uma menina chamada Anne
Frank. Só não passei mais tempo com ela, com a sua família e com as outras
pessoas que viviam escondidas num anexo com sótão em Amesterdão, porque um dia
vieram uns homens fardados que falavam alemão e tinham gestos e vozes
ameaçadores e levaram com eles todos os que ali viviam em segredo. Nesse momento
fiquei sem ninguém que pudesse cuidar de mim e, para não ter o mesmo destino que
as pessoas que acabavam de ser presas, esgueirei-me por entre as pernas dos
soldados e dos oficiais, que acentuavam com sonoras batidas de tacão as suas
ordens, e desapareci nas ruas desertas e tristes, buscando o alimento que
pudesse garantir a minha sobrevivência.
Já passaram alguns anos e continuo a sentir muitas saudades da minha amiga Anne
Frank, mesmo quando me lembro das vezes em que ela me dava um pequeno piparote
para eu sair de cima das páginas do diário que ela escreveu naquele anexo quase
sem luz, durante os dois anos que ali passou escondida.

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Suponho que os meus leitores sabem como são os gatos. A curiosidade é o que têm,
ao mesmo tempo, de melhor e de pior. É boa porque os leva a interessarem-se
pelas coisas e pelas pessoas e a observarem-nas incessantemente, e é má porque,
com frequência, faz deles intrusos no espaço que pertence a quem deseja estar só
para pensar ou para escrever.
Eu, para não fugir à regra, sentia uma grande tentação de ler o que aquela
menina de rosto esguio e olhos tristes mas muito vivos escrevia todos os dias no
seu caderno. Lendo os seus comentários, eu podia ficar a saber o que ela pensava
das pessoas que com ela viviam no anexo e também a meu respeito, já que eu,
embora seja gato, quase fazia parte daquele grupo como se fosse um verdadeiro
ser humano.
Quem nada conhece acerca de Anne Frank há-de querer saber por que motivo vivia
escondida com a família num anexo com sótão, em Amesterdão, em vez de levar uma
vida normal como quase todas as raparigas da sua idade. A razão era tão simples
quanto trágica. É que Anne Frank, nascida em Frankfurt, na Alemanha, era judia e
os homens que nesses anos governavam aquele país e uma boa parte da Europa
ocupada pela força perseguiam e matavam os judeus, transformando-os no seu
principal inimigo e na justificação de toda a sua brutalidade.
Foi essa a razão que levou os pais de Anne, em 1942, a refugiarem-se num anexo
que fazia parte do edifício onde estava instalada a empresa de seu pai.

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Era essa a única maneira de desaparecerem sem de facto saírem do local onde
viviam. Ali, apesar do medo que todos os dias os atormentava, podiam ter alguma
paz e, sobretudo, a garantia de que não seriam levados, pelo menos tão cedo,
para um campo de concentração, local onde os homens que aterrorizavam a Alemanha
mantinham presos os judeus e todos aqueles que se opunham às suas ideias e,
principalmente, aos seus métodos.
Se lerem com atenção o diário que Anne Frank escreveu, hão-de reparar que ela, a
certa altura, fala de mim. Ela começou a escrever o seu diário numa sexta-feira,
dia 12 de Junho de 1942, data em que festejava o seu 13º aniversário. Sei tudo
isto porque ela mo contou, já que, nessa época, ainda não nos conhecíamos.
Sei que esse foi um dia muito feliz para ela. Apesar de o mundo já se encontrar
em guerra, ela estava longe de poder imaginar todo o horror que a esperava e que
acabaria com a sua morte. Aqueles que me lêem agora nem podem supor como me
custa usar essa palavra, sobretudo quando falo da minha querida Anne Frank.
Um dia, ela deixou-me a primeira frase do seu diário. Dizia o seguinte: "Espero
poder confiar-te tudo, como nunca o pude ainda fazer com ninguém, e espero que
sejas para mim um grande apoio". No interior da capa, Anne colou uma fotografia
sua de que gostava muito e escreveu: "Que bonita fotografia! Não é?" E era
mesmo. Ali estava o seu sorriso doce e o seu olhar inteligente e sempre atento.

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Ali estava a minha querida Anne Frank com tudo aquilo que este pobre gato que
teve o prazer de ser seu amigo tanto apreciava nela. Ela tinha acabado de fazer
treze anos quando escreveu estas palavras.
Nesse dia de aniversário, o último que passou em liberdade, Anne recebeu livros,
caixas de bombons, um "puzzle", uma jóia e o diário que viria a ser o seu
companheiro e o seu principal confidente nos dois anos que ainda lhe restavam
para viver.

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Eu entrei na vida de Anne Frank por mero acaso. Muito pequeno ainda, fui
encontrado na rua por Peter van Pels, no diário tratado pelo nome de Peter van
Dann que, com a família, se juntou a Anne, aos pais e à irmã Margot no
esconderijo. O nosso encontro deu-se no dia 13 de Julho de 1942, e eu acho que
Anne gostou de mim logo desde o início. Não fez comentários do género "que lindo
gatinho!" ou "ainda bem que nos trouxeste um novo amigo, Peter", mas eu senti
nos seus pequenos olhos cheios de brilho um contentamento que não precisa de
palavras para se fazer entender.
Tal como os gatos, Anne passou várias semanas a fazer o reconhecimento, quase
centímetro a centímetro, daquela que iria ser a sua casa e das outras pessoas
nos dois anos que se iam seguir. Eu fiz o mesmo, procurando orifícios no soalho,
pedaços de fio de lã ou de arame com que pudesse brincar e principalmente fendas
donde pudessem sair ratos ou baratas que sempre gostei tanto de caçar.
Infelizmente, aquele espaço estava mais fechado que um ovo antes de o partirem
para ser estrelado. E percebe-se porquê.

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É que qualquer orifício por onde pudesse sair luz ou som do interior do
esconderijo representava uma ameaça para a já escassa segurança daquelas pessoas
sem destino certo.
Ainda assisti a verdadeiras sessões de costura em que participavam Anne e o
resto da família, tapando com pedaços de pano cozidos uns aos outros todos os
espaços por onde pudesse sair uma centelha de luz.
- Sai já daqui, Mouschi! Não vês que estamos a trabalhar e que este trabalho é
muito sério? - disse-me Anne várias vezes, nessa altura, em tom de ralhete,
vendo-me enredar-me a seus pés nas linhas que usavam para tapar o pequeno
postigo e outras superfícies por onde pudesse entrar ou sair luz.
E a pobre Anne, que não gostava de silêncio e que adorava rir e falar em voz
alta, foi obrigada, como todos os moradores do refúgio, a passar dias inteiros a
sussurrar e a andar descalça para não fazer qualquer ruído que denunciasse a
presença de tanta gente escondida naquele anexo e no sótão que tinham por cima.
Eram todos judeus como ela e tinham a esperança de que os tempos maus passassem
e pudessem finalmente ver o sol e falar normalmente, sem medo de serem
descobertos e presos.
Anne, por brincadeira, costumava dizer que estava condenada a fazer menos
barulho que um ratinho, e nem ela imaginava como aquela comparação aguçava o meu
instinto de caçador.

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Claro que onde não podia haver buracos abertos para sair luz também não podia
haver entradas e saídas de gatos, o que me obrigou a viver dia a dia, minuto a
minuto, aquele cativeiro, o qual, por um lado, me entristecia e, por outro, me
dava um grande conforto. Ali, eu estava entre amigos, tinha a comida de que
precisava para viver e podia dormir as treze ou catorze horas que um gato
costuma dormir por dia. É certo que a falta de exercício me tornou preguiçoso,
porque o espaço era muito apertado, mas nem por isso descuidei a minha higiene
pessoal, o mesmo acontecendo com todos os meus companheiros de esconderijo.
Naquele anexo quase sem luz, a disciplina era muito grande. Cada um conhecia bem
o seu lugar e a sua função, mas, ainda assim, à noite, eram frequentes as
discussões porque as pessoas viviam numa grande tensão, atormentadas pela
suspeita e pelo medo. E a verdade é que todos eles arriscavam muito mais do que
eu. Arriscavam a liberdade e a própria vida, e eu arriscava-me apenas a perder
as pessoas que cuidavam de mim e de quem eu gostava e a tornar-me um gato vadio,
o que acabou, de facto, por acontecer no dia em que os soldados alemães
descobriram o refúgio.
Devo confessar que pensei várias vezes na possibilidade de fugir num momento em
que o postigo se abrisse para deixar entrar o ar da noite e a luz trémula das
estrelas, mas acabei sempre por desistir.

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E tinha boas razões para isso: gostava muito de Anne e da sua família, tinha
pena delas por causa do drama que estavam a viver e, por outro lado, preguiçoso
como era, não tinha muita vontade de me aventurar nos telhados e nas ruas
cinzentas de uma cidade ocupada por gente muito má e sem respeito por nada nem
por ninguém.
Naquele esconderijo eu passei a admirar os seres humanos ao observar o que pode
fazer a sua imaginação quando estão ameaçados e têm que lutar pela
sobrevivência. Quem poderia adivinhar que, por trás de uma porta pintada, havia
tantas divisões ocupadas e uma vida tão bem organizada em todos os seus
pormenores? Nem o gato mais manhoso se atreveria a pensar em tão engenhosa
hipótese.
Já me esquecia de vos dizer que Anne escrevia o seu diário para uma amiga
inventada a que deu o nome de Kitty, que, curiosamente, é nome de gato ou de
gata.
Mas o certo é que o nome e a amiga foram inventados antes de eu ter entrado no
esconderijo, amedrontado, ao colo de Peter.
Logo nas primeiras semanas percebi que Anne Frank não era uma menina como as
outras. Era já uma escritora, embora estivesse só no princípio, e eu acho que
teria sido uma grande escritora e uma grande jornalista se a sua vida não
tivesse acabado tão cedo e da forma terrível como acabou.
Os gatos gostam de se sentar sobre os tampos das secretárias, observando as
pessoas a escrever.

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É um espectáculo que lhes dá prazer e, sempre que podem, dão uma sapatada
brincalhona na caneta que lança as palavras sobre a página. Anne não gostava que
eu fizesse isso e várias vezes me repreendeu, deixando-me amuado durante umas
horas ou mesmo durante uns dias. Depois acabei por perceber a razão por que isso
acontecia, desculpando-lhe os maus modos e o desconforto que as minhas inocentes
brincadeiras lhe causavam. Eu tinha dificuldade em compreender aquilo que ela,
uma noite, quase bichanando (bichanando, digo bem) ao meu ouvido, me explicou
com a inteligência que punha em tudo quando dizia ou fazia:
- Tens que perceber, Mouschi, que aquilo que eu escrevo é a minha única forma de
liberdade. Cada frase, cada página é uma espécie de porta que se abre para a luz
e, por isso, eu não gosto daquilo que me distrai e me rouba tempo quando eu
estou concentrada.
Eu, como era gato, e ainda por cima um gato jovem, tinha dificuldade em
compreender que aquela menina tinha perdido tudo o que contara para ela - os
amigos, a escola, o sonho, a liberdade - e que aquele diário era um postigo que
se abria para o exterior e a iluminava por dentro como uma vela que o vento não
conseguia apagar ou uma estrela distante mas infinitamente amiga.
Anne nunca se deixou derrotar pela tristeza e, por isso, os seus dias eram
cheios de traquinices e de perguntas que levavam os companheiros de refúgio, a
começar por Peter e pela irmã Margot, a considerarem-na, com frequência,
impertinente e mal-educada.

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Mas ela não era nada disso. Era apenas uma menina a mostrar a si própria e aos
outros que, apesar da desgraça em que vivia, não estava disposta a desistir.
Havia uma palavra que ali ninguém podia pronunciar. Essa palavra era Gestapo, o
nome da polícia política do ocupante alemão, e, só de pensar nela, todos
tremiam. Quando, fora de horas, havia um ruído de passos ou um toque na porta,
todos pensavam na palavra maldita, mas ninguém se atrevia sequer a murmurá-la,
tamanhos eram os calafrios que provocava.
Ainda hoje, mesmo sendo um gato, quando penso nessa palavra e no que ela
significava, fico com o pêlo todo eriçado como se tivesse na minha frente um
canzarrão pronto a mandar-me desta para melhor.

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Quem nunca ouviu falar de Anne Frank e da sua história há-de perguntar: "Mas
como é que eles, estando fechados num anexo, sem poderem sair à rua, conseguiam
ter tudo aquilo de que precisavam para viverem o dia-a-dia?"
É aqui que aparece o nome de uma senhora chamada Miep Gies. Ela e outras três
pessoas traziam regularmente para o esconderijo alimentos, produtos de higiene e
alguns livros. Sem eles e sem a sua ajuda corajosa, a família Frank e os seus
companheiros de refúgio não teriam podido sobreviver tanto tempo. Aos poucos,
fui-me afeiçoando bastante a Miep, que não era judia mas que fazia tudo para
ajudar aquelas pessoas aflitas e sem liberdade. Os seus rostos eram a única
coisa do exterior que elas conseguiam ver, para além da cor, umas vezes triste e
outras alegre, do céu e da torre da igreja.
Quando Miep, que era empregada do Sr. Frank, batia à porta, dando os toques
combinados para tranquilizar os refugiados, eu sentia uma grande alegria e
roçava-me demoradamente pelas suas pernas.

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Acho que lhe fiz mesmo alguns pequenos rasgões nas meias, mas ela nunca ralhou
comigo nem me empurrou para longe, como faziam às vezes outros ocupantes do
esconderijo.
Houve mesmo uma noite, logo no princípio, em que todos festejámos no sótão
secreto o primeiro aniversário do casamento de Miep. Ela e o marido levaram os
alimentos e foi Anne quem escreveu a ementa, usando muitas palavras em francês
para dar um ar mais fino ao jantar de festa. Chegou até a ser confeccionado um
delicioso molho de carne, coisa muito rara naquela época porque a manteiga valia
quase tanto como ouro.
Para além de Miep Gies, fomos ajudados pelos senhores Kluger e Kleiman, que
nunca deixaram de cuidar dos negócios do Sr. Frank, dando a ideia de que ele
estava ausente em parte incerta.
Uma noite, ouvimos pancadas fortes na porta e todos ficámos gelados de medo,
receando que o esconderijo tivesse sido descoberto. Mas não, era o Sr. Kleiman,
que, por um motivo qualquer, tinha chegado fora da hora combinada com coisas
importantes para dizer.
Certo dia, juntou-se ao grupo um novo hóspede, o Sr. Pfeffer, a quem Anne, no
seu diário, chama Alberto Dussel. Foi ele quem, chegando depois dos outros,
trouxe notícias terríveis da triste sorte de milhares de judeus holandeses,
presos e levados para campos de concentração. Todos ficaram horrorizados com as
notícias, mas, por outro lado, sentiram-se reconfortados por acharem que, no
meio de tantas desgraças, tinham a sorte de não ter sido descobertos.

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Num esconderijo como aquele, mesmo com limpeza e disciplina, tudo, com o tempo,
acaba por se tornar insuportável. Até o próprio tempo. E no Inverno era ainda
pior porque a temperatura descia e havia uma tristeza no ar que tornava
ridículos e inúteis todos os passatempos, desde os jogos de cartas até às
adivinhas e às perguntas de algibeira sobre livros e filmes. Todos tinham apenas
vontade de chorar ou de gritar, mas nem uma coisa nem a outra, por razões
diferentes, era aconselhável.
Nem mesmo nos piores momentos Anne, Peter e Margot deixaram de estudar com a
ajuda dos mais velhos, embora duvidassem que os conhecimentos que adquiriam
viessem alguma vez a mostrar-se úteis. O importante era não estar parado, era
não deixar cair os braços, não desistir. E eles nunca desistiram, mostrando uma
invejável dose de coragem.

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A partir de certa altura, a vida no refúgio tornou-se ainda mais difícil porque
os fornecedores de alimentos deixaram de poder contar com as senhas de
racionamento que davam acesso às gorduras. Assim, todos os ocupantes do anexo
ficaram reduzidos a almoços e jantares feitos à base de batatas e couves de
conserva, que tinham um cheiro nauseabundo. Por outro lado, o sossego que era
preciso para poderem dormir era cada vez mais prejudicado pelo ruído nocturno
dos aviões dos Aliados que bombardeavam os alemães. Aí renascia a esperança. Se,
por um lado, tinham dificuldade em dormir, por outro, percebiam que a libertação
podia estar perto.
Em busca de uma confirmação para esse desejo, encostavam com o máximo cuidado o
ouvido a um aparelho de rádio para ouvirem as emissões inglesas da BBC e ficavam
a saber que todos os dias havia pequenos avanços, mas não os bastantes para
poderem sair em liberdade.
Um dia, Miep conseguiu fazer chegar ao anexo alguns sacos de feijão encarnado e
foi uma festa para todos.

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A dieta de batatas e couves mal cheirosas ia ser substituída por outra de
feijão. Não era nada de especial, mas sempre em uma mudança e essa mudança
alegrava-me, porque, como por aquelas bandas não havia comida para gatos, eu
comia o mesmo que todos os outros e nunca ninguém me ouviu miar como forma de
protesto.
A verdade é que, quando estavam a içar os sacos para o sótão, um deles rompeu-se
por baixo e milhares de feijões caíram, fazendo um grande barulho. Ficámos todos
aterrorizados, pois, como aquilo aconteceu durante o dia, alguém podia ter
ouvido e passado a palavra sobre a existência de estranhos ruídos no prédio.
Felizmente isso não aconteceu e, passados uns dias, com o perigo já afastado,
todos rimos com o sucedido.
Certa manhã, Anne veio ter comigo e disse-me com um ar muito sério, como se
fosse comunicar-me uma notícia grave:
- Mouschi, desculpa, mas vais ter que ir uns tempos morar para o sótão.
- Porquê, será que me portei mal? - perguntei eu no meu agudo linguajar de
gato.
- Não, nada disso, Mouschi; o que acontece é que a Senhora van Dann ouviu lá em
cima uns ruídos muito estranhos. Primeiro, pensámos que era alguém que andava a
espiar-nos. Depois, descobrimos que são umas ratazanas gordas que nos andam a
comer as reservas de alimentos.

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- Muito bem - apressei-me a responder -, irei para o sótão com o maior gosto, e
ai da ratazana que me aparecer à frente.
Anne e todos os outros ocupantes do anexo ficaram-me muito agradecidos, pois a
verdade é que, nas semanas seguintes, apanhei quatro ratazanas que, por sinal,
tinham exactamente o pêlo da mesma cor que as fardas dos soldados alemães que
levavam os judeus para os campos de concentração. Pode, assim, imaginar-se a
alegria que eu sentia ao dar-lhes caça. Era como se, com as minhas garras
afiadas, eu estivesse a vingar toda aquela pobre gente.
Mas quem eu vinguei de uma forma muito especial foi Peter, que, um dia, tentou
ir ao sótão e, ao pôr a mão sem olhar, foi mordido por uma ratazana, ficando com
a camisa cheia de sangue. Felizmente que havia álcool no anexo e a ferida foi
logo desinfectada. Se tal não tivesse acontecido, o pobre rapaz poderia ter tido
uma infecção muito grave. Eu nunca tirei isto a limpo, mas acho que as ratazanas
no sótão do anexo eram uma espécie de guarda especial dos alemães, espiando para
eles e destruindo as escassas reservas alimentares dos refugiados. Deviam ter
tudo bem calculado, ou não pertencessem à família das ratazanas.
Entretanto, todas as noites, os aviões ingleses continuavam a voar por cima das
nossas cabeças, bombardeando posições aqui e acolá, mas não conseguindo ainda
atingir o objectivo principal, que era a derrota final das tropas ocupantes.

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A minha admiração por Anne Frank nunca parou de aumentar. Apesar das
dificuldades com que vivia naquele espaço acanhado, mal iluminado e de cheiro
pouco agradável, ela nunca parou de escrever. Para além do diário, começou a
escrever histórias que eram fruto da sua fantástica imaginação. Nessa altura,
ela era já uma escritora, mas acho que só o seu pai, de quem ela gostava muito,
é que tinha a certeza disso, e eu também. Às vezes, enquanto me acariciava o
pêlo, contava-me pequenas histórias que, durante a noite, no sossego do seu
minúsculo recanto, iria passar a escrito. Para ela e só para ela, eu punha-me de
barriga para o ar, ronronando, num sinal de amor e de entrega, coisa que os
gatos só fazem às pessoas de quem gostam muito. E quando a via chorar às
escondidas, enroscava-me nas suas pernas esguias de menina ainda a crescer e
dizia-lhe baixinho:
- Não chores, minha querida Anne, que qualquer dia tudo volta ao normal e então
as pessoas irão perceber a grande escritora que tu és.
Ela sorria, limpava as lágrimas à manga da blusa e parava de chorar, murmurando:

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- Ai, Mouschi, Mouschi, se eu tivesse a certeza de que isso pode ser verdade!
Houve um dia, naquela rotina triste do anexo, em que os corações bateram mais
depressa. Isso aconteceu quando o Sr. Frank descobriu que a porta do esconderijo
tinha sido arrombada. Só deu a notícia aos outros quando teve mesmo a certeza do
que sucedera Um ladrão, ou vários ladrões, tinham levado consigo duas caixas com
dinheiro e, o que foi pior ainda, senhas de racionamento que chegavam para
comprar mais de cem quilos de açúcar. Todos ficaram paralisados de medo, não
tanto pelo que acabara de desaparecer, mas sim com o receio de que os ladrões
tivessem notado algo de estranho que apontasse para a sua presença naquele
espaço disfarçado. Felizmente isso não aconteceu. Passaram vários dias e ninguém
veio procurar os Frank e os outros refugiados.
- Imagina - disse-me Anne - que os ladrões tinham ido dizer aos alemães que nós
estamos aqui escondidos!
Tal não aconteceu, mas eu, pelo sim pelo não, passei a fazer de sentinela, junto
da porta, tentando caçar os ladrões. Uma boa e inesperada arranhadela na cara e
nas mãos havia de pô-los em fuga como ratazanas amedrontadas.

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Durante aqueles dois anos, Anne não parou de crescer. As roupas com que chegara
ao anexo tinham deixado de lhe servir. Por isso passou a usar as da irmã e as da
mãe.
Com o passar do tempo foi ficando cada vez mais triste. Os dias piores eram os
domingos. Para não ficar lavada em lágrimas, deitava-se a dormir e, quando
acordava, voltava a escrever. A escrever cada vez mais. Mas o seu diário já não
tinha mais páginas e Anne, para não parar de escrever, usava agora os livros de
contabilidade que Miep lhe trazia com regularidade do escritório do pai.
Eu vi a minha querida Anne tomar-se mulher e acho mesmo que ela chegou a
apaixonar-se por Peter, que era um rapaz tímido e de poucas falas, com a mania
das palavras cruzadas. Se eu, em vez de gato, fosse homem, tinha feito Anne
feliz e até teria conseguido libertá-la daquele anexo e da tristeza que o
tornava cada vez mais acanhado, cinzento e irrespirável, como uma prisão sem
grades.
Uma tarde, vi Anne no sótão a ajudar Peter a fazer as suas enfadonhas palavras
cruzadas.

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Vi como os seus olhos brilhantes e meigos se fixavam nos dele, que os desviava
por timidez. Depois, avançaram os dois para junto da clarabóia e deram as mãos
e, em seguida, um beijo apressado. Eu, nesse momento, senti que ia morrer com os
ciúmes que sentia de Peter. E pensei com os meus bigodes de felino aprisionado:
"O que tem ele que eu não tenho? Ela gosta mais de mim do que dele. É a mim que
faz confidências e carícias. Por que será então que ele fica a ganhar?"
A resposta não podia ser mais simples e evidente. Eu não passava de um gato e
Peter, mesmo sendo pouco interessante, era um rapaz quase da idade de Anne, que
despertava para o amor na idade em que uma rapariga começa a namorar e a sentir
que tem corpo e que o corpo não serve só para alimentar, para trabalhar e para
se pôr em movimento de um lado para o outro.
Anne cresceu e eu também, e o anexo tornou-se dia-a-dia mais pequeno para nós,
para as nossas brincadeiras e para os nossos sonhos. Várias vezes pensei em
fazer um buraco largo no tecto do esconderijo para fugirmos os dois, mas acabei
sempre por desistir da ideia porque ela nunca aceitaria partir comigo.
- Ai, Mouschi - dizia-me ela, uma vez por outra -, se eu ao menos tivesse asas
como os pardais e os corvos que vejo poisados na torre da igreja.

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E eu, se pudesse, dava-lhe essas asas, ou então transformava-me em pássaro para
a levar para muito longe daquela prisão em que vivíamos amedrontados, daquele
caixote silencioso em que batiam vários corações ao mesmo tempo, com medo de uma
denúncia, de uma visita inesperada ou da chegada das ratazanas da Gestapo,
falando aos gritos e ameaçando tudo e todos com a tortura e com a morte.
Talvez por ser gato, eu nunca consegui perceber o que pode levar os homens a
fazerem tanto mal uns aos outros, destruindo tudo, insultando e matando, como se
o espaço que há no mundo não chegasse para viverem todos lado a lado. Claro que,
no mundo dos gatos, nem tudo é pacífico. Temos os nossos conflitos, as nossas
lutas, normalmente por causa de comida ou de alguma fêmea a querer acasalar, mas
rapidamente fazemos as pazes e vai cada um para seu lado dormir uma soneca
descansada, à espera da refeição seguinte.
Como sou gato, no anexo vivia obcecado com a higiene, e devo confessar que, a
partir de certa altura, deixei de suportar o cheiro de tantos corpos a
partilharem o mesmo espaço. Eu sei que esse era, para Anne, um dos maiores
problemas. Frequentemente, havia nos seus olhos brilhantes mas cercados por
olheiras profundas os sinais de um grande enjoo e de um grande cansaço. Eu
ronronava para a distrair, mas a verdade é que não conseguia ter grande êxito.
Mesmo assim, até ao último dia, eu nunca deixei de tentar, porque gostava de
Anne mais do que de tudo o que havia na vida. E um amor de gato é arisco,
imprevisível, muitas vezes distante, mas nem por isso um amor menor ou menos
sentido e sofrido.

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Nem sempre foi fácil a relação entre Anne e Margot. Nem sempre são fáceis as
relações entre irmãs ou irmãos. Ambas estavam a crescer, tinham feitios
diferentes e eram forçadas a partilhar um espaço que lhes roubava a liberdade e
que se tornava cada vez mais apertado e irrespirável.
Mas, a partir de certa altura, Margot começou a tratar Anne de uma maneira
diferente, sentindo que ela já era uma pessoa adulta, com sentimentos e
preocupações iguais aos das pessoas crescidas.
Reparei mesmo que passaram a escrever cartas uma à outra, como se fosse grande a
distância que as separava. Era essa a forma de dizerem de um modo mais sentido
aquilo que as palavras ditas cara a cara nem sempre permitem dizer. Já com a
mãe, a Sra. Frank, as coisas estavam longe de ser simples. Tinham discussões
frequentes porque a mãe achava que Anne não devia dar opinião sobre tudo, muito
menos sobre aquilo que ela pensava serem apenas assuntos de adultos. Uma vez ou
outra, quando a Sra. Frank ralhava com Anne, eu enroscava-me nas suas pernas
para a distrair e só ficava tranquilo quando a ouvia lamentar-se:

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- Como se não bastassem todos os problemas que temos, ainda vem agora este gato
pedir-me comida.
Muitas vezes, para fazer Anne feliz, pensei caçar um dos pardais que pousavam no
telhado do anexo, junto do postigo, mas depois desistia da ideia, por achar que
não era justo tirar a vida a quem tinha as asas e a liberdade com que nós
sonhávamos todos os dias.
Anne e Peter estavam cada vez mais vezes juntos no sótão e eu achava mesmo que
se tinham tornado namorados e que Margot se sentia feliz por ver a irmã feliz e
que, ao mesmo tempo, tinha ciúmes dessa felicidade. No anexo ninguém se opunha a
esse namoro que dava um toque de alegria à tristeza e ao silêncio de todos os
outros.
E eu só podia ficar contente por ver Anne feliz. Acho que se ela fosse um
animal, seria um gato como eu, rebelde, esquiva, ágil e observadora. E acho que
se eu fosse humano, em vez de felino havia de ser o namorado ideal para esta
menina judia que ninguém tinha o direito de tornar infeliz.
Por falar em felicidade houve um dia, em Março de 1944, em que vi Anne mais
contente do que nunca. Na véspera, ela ouvira um responsável holandês exilado em
Londres a dizer que, depois da guerra, seriam recolhidos todos os diários e
outros documentos e testemunhos que falassem da ocupação. Aí, ela teve a
esperança de que as muitas centenas de páginas que escrevera no esconderijo
viessem a ser lidas e publicadas.

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- Sabes, Mouschi - confidenciou-me ela -, o meu maior sonho, depois da guerra, é
vir a ser jornalista e uma escritora célebre. Se tudo aquilo que eu escrevi
tiver alguma qualidade e vier a ser publicado em livro, talvez esse sonho possa
realizar-se.
Nesse momento, eu desejei ser editor de livros ou director de um jornal para
poder ajudar a realizar os sonhos da minha querida Anne.
Anne está mesmo apaixonada por Peter e o pai, que a ama muito, anda preocupado
com o tempo que eles passam juntos no sótão, longe do olhar indiscreto dos
outros ocupantes do anexo.
Talvez para ninguém saber o que ela pensa e sente, guarda cuidadosamente os seus
escritos, as páginas do diário, os contos e as cartas, numa velha pasta de
cabedal que o pai lhe deu.
Anne sabe que o dia da libertação está perto. Por isso, quando na rádio inglesa,
sempre com o volume muito baixo, ouve a notícia do desembarque das Tropas
Aliadas numa praia de França, sente que uma imensa alegria a invade e que tudo
volta de novo a valer a pena. Gosta de Peter e admite mesmo que um dia, já com
as vidas de todos normalizadas, ele poderá vir a ser seu marido. Dentro de seis
dias fará 15 anos e sente que já é uma mulher por aquilo que já sofreu e que já
escreveu.
Apesar da esperança, que põe nos lábios e nos olhos de todos a réstia de um
sorriso, o anexo continua a ser uma prisão, um lugar onde se vive e se respira
com muita dificuldade.

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Ao longo daqueles quase dois anos, Miep não faltou uma única vez, trazendo
alimentos, livros, notícias da Holanda e do resto do mundo em guerra e sobretudo
o exemplo e a força da sua grande coragem. Digo bem: grande coragem, pois ela
arriscava-se todos os dias, se fosse vigiada e seguida, a condenar os seus
amigos à pior das sentenças e a ser presa e talvez mesmo morta. Mas nunca
desistiu.
Todos vivem agora numa tremenda ansiedade, correndo de um lado para o outro,
como se estivesse por um fio a saída daquele maldito anexo. Para mim e para as
minhas brincadeiras de gato aprisionado numa grande caixa sem luz, a paciência
de todos é muito pouca e só Anne perde algum tempo comigo, acariciando-me e
fazendo-me pequenas confidências que depois passará a escrito nas páginas do seu
diário.
Como fixei todas estas datas e pormenores? É simples. É que um gato também tem
inteligência e memória, principalmente para as pessoas de quem gosta.

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No dia 21 de Julho, Anne escreve a última página do seu diário. Sabe que ainda
tem que esperar mais algum tempo, mas acredita que serão bons os momentos que
estão para vir.
Os outros ocupantes do anexo, cada vez mais impacientes e nervosos, fazem planos
para depois da libertação, sem saberem que entre os empregados da empresa do Sr.
Frank já houve quem tivesse dado pela existência do esconderijo e de vida humana
dentro dele.
O dia 4 de Agosto nasceu quente e abafado. O Sr. Frank, depois de fazer a sua
higiene matinal, dirigiu-se para o quarto de Peter para dar, como habitualmente,
a sua lição de inglês. Olha para o relógio. São 10 e 30. Peter fica pálido e
aponta para o chão. Ouvem-se passos ruidosos na escada que conduz ao anexo.
Passados poucos minutos, cinco homens, um com a farda da polícia alemã e os
outros trajando à civil, entram no esconderijo de pistolas na mão. Os ocupantes
do anexo não conseguem articular uma palavra. Eu, aterrorizado e percebendo que
o pior está a acontecer e que não é pesadelo ou ilusão, escondo-me debaixo de
uma cama, mas em posição de observar tudo o que está a passar-se.

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O homem fardado pergunta com dureza ao Sr. Frank onde estão o dinheiro, as jóias
e as senhas de racionamento. Depois, pega na pasta de cabedal que tem os textos
de Anne e despeja-a no chão com violência. Anne tenta correr para ele, mas o pai
impede-a.
Ao fim de poucos minutos, os oito ocupantes do esconderijo são conduzidos num
camião até ao comissariado da polícia alemã. Miep chega entretanto e consegue
recolher do chão todas as folhas escritas por Anne, guardando-as cuidadosamente
numa gaveta da sua secretária. Pouco tempo depois, a polícia chega para esvaziar
todo o anexo. Os escritos da minha querida Anne estão a salvo. Nesse dia, em que
fiquei no esconderijo sem saber o que havia de fazer à minha pobre vida,
consegui fugir para a rua, deslizando, com agilidade de felino, pelo meio das
pernas dos soldados e dos polícias.
Mais tarde ouvi Miep dizer que todos eles tinham sido levados para campos de
concentração e que a minha querida Anne Frank tinha morrido no campo de
concentração de Bergen-Belsen, em Março do ano seguinte. O pai foi o único
habitante daquele anexo que conseguiu sobreviver. Mais tarde, regressa a
Amesterdão para tomar conta de tudo o que tinha a ver com a memória da filha
que, entretanto, viria a tornar-se famosa em todo o mundo após a publicação do
seu diário.
E eu? Bem, eu fiquei algum tempo a cargo da minha amiga Miep, que sabia bem o
estado de desespero em que me encontrava, e depois fugi.

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Foi pena não me terem levado com os ocupantes do anexo para o campo de
concentração. Ao menos teria acabado os meus dias ao pé da minha querida Anne.
Mas quem havia de querer um gato prisioneiro num campo de concentração?
Ainda assisti à libertação de Amesterdão e ao fim da guerra. Tornei-me gato
vadio e andei pelas ruas a passear, dolorosamente, a minha tristeza e a minha
revolta. Um dia, decidi passar junto do prédio da Prisengracht, quase colado ao
canal, para recordar os tempos vividos com Anne naquele anexo com sótão.
Acreditem que não foi fácil reencontrar essa memória, que era para mim como uma
ferida por cicatrizar. Vi no passeio, do outro lado da rua, um homem muito magro
e de olhar vazio e distante. Era o Sr. Otto Frank, o pai de Anne. Dando-me conta
do seu sofrimento e da sua solidão, evitei chamar a sua atenção, roçando-me
pelas suas pernas. Como iria ele lembrar-se do pobre Mouschi depois de tanto ter
sofrido? Observei-o à distância enquanto ele mantinha o olhar fixo nas águas
turvas do canal. Era como se tentasse encontrar um sinal, um rasto, um pedaço de
vida e de memória a flutuar nas águas. Miei docemente, à distância, para me
despedir dele e de tudo aquilo que ali tão perto passáramos junto. Eu sabia que
tínhamos em comum a mesma saudade e a mesma dor, sim, porque um gato, mesmo
esquecido na solidão das ruas, também tem sentimentos e recordações que o
acompanham até ao fim. Por isso, até me despedir deste mundo, nunca deixei de me
interrogar: como foi possível tanta crueldade? Porquê? Porquê?

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Ainda sobrevivi alguns anos à minha amiga que mudou para sempre o rumo da minha
vida. Por fim, morri como os gatos costumam morrer: discretamente, sem alarido,
fazendo da morte uma coisa muito secreta e íntima. Nunca mais encontrei quem
gostasse de mim como a menina de olhos pequenos, inteligentes e brilhantes que
hoje toda a gente conhece.
Quando virem no céu de Junho uma pequena estrela de brilho trémulo sobre o céu
de Amesterdão, podem ter a certeza que essa estrela é Anne Frank. A outra
pequenina ao seu lado direito sou eu, o seu querido gato Mouschi.
Não me perguntem como foi que escrevi tudo aquilo que acabei de vos contar neste
livro, porque há coisas que não podem nem devem ser explicadas, muito menos por
um gato.
Uma coisa é certa. Passaram tantos anos e eu, no pequeno céu dos gatos mortos de
tristeza e solidão, nunca mais me esqueci da minha querida Anne Frank, nem nunca
mais cheguei a perceber o que pode levar os seres humanos a serem por vezes tão
cruéis e tão violentos.
Se eu soubesse chorar, mesmo transformado em personagem deste livrinho de
memórias, teria sempre duas lágrimas guardadas: uma para Anne e outra para o meu
amor por ela. Quem matou esta menina merece ser castigado eternamente por todas
as estrelas que há no céu.

36
FIM

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