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Capa

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Tradução de Albano Martins

Contracapa

Saberás que não te amo e que te amo


pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,


para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
¦
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.


Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Ficha Técnica

CEM SONETOS DE AMOR


Autor: Pablo Neruda
Título original: Cien Sonetos de Amor
Tradução: Albano Martins
Direcção gráfica: Loja das Ideias Capa: Joana Quental
© Fundación Pablo Neruda, 1959
© para a edição portuguesa CAMPO DAS LETRAS - Editores, S.A., 2004 Rua D. Manuel II, 33 -
5.0 4050-345 Porto
Telef.: 226 080 870 Fax: 226 080 880
E-mail: campo.letrass@mail.telepac.pt
Site: www.campo-letras.pt
Impressão: Tipografia do Carvalhido - Porto
1.a edição: Maio de 2004
Depósito legal n.°: 211689/04
ISBN: 972-610-818-7
Código de barras: 9789726108184
Colecção: Campo da Poesia - 63

Página de rosto
CEM SONETOS DE AMOR
Pablo Neruda
Tradução de Albano Martins
Campo das Letras

A MATILDE URRUTIA

Senhora minha muito amada, grande foi o meu sofrimento ao escrever estes mal chamados sonetos,
que bastantes dores me causaram, mas a alegria de tos oferecer é maior que um prado. Ao decidir-
me a escrevê-los, bem sabia que ao lado de cada um, por afeição, escolha e elegância, os poetas de
todas as épocas colocaram rimas que soaram como joalharia, cristal ou tiro de canhão. Eu, com
muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim
devem chegar aos teus ouvidos. Caminhando por bosques e areais, por lagos perdidos, por
cinzentas latitudes, tu e eu recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhos submetidos ao vaivém da
água e da intempérie. De tais suavizadíssimos vestígios construí, com machado, faca, navalha, estas
estâncias de amor e edifiquei pequenas casas de catorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que
adoro e canto. Assim estabelecidas as minhas razões de amor, entrego-te esta centúria: sonetos de
madeira que só existem porque tu lhes deste vida.
Outubro de 1959

Manhã

<Página em branco>

Matilde, nome de planta ou pedra ou vinho,


do que nasce da terra e dura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo estio brota a luz dos limões.

No teu nome passam navios de madeira


rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e as suas letras são a água de um rio
que desagua em meu coração calcinado.

Oh nome descoberto sob uma trepadeira


como a porta dum túnel desconhecido
que comunica com a fragrância do mundo!

Oh invade-me com tua boca abrasadora,


perscruta-me, se quiseres, com teus olhos nocturnos,
mas deixa-me em teu nome navegar e dormir.

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II
Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo,
que solidão errante até chegar a ti!
Os comboios continuam vazios rolando com a chuva
Em Taltal a primavera não amanheceu ainda.

Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos,


juntos da roupa às raízes,
juntos pelo outono, pela água, pelas ancas,
até sermos apenas tu e eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que o rio arrasta,


a embocadura da água do Boroa,
pensar que separados por comboios e nações

tu e eu devíamos simplesmente amar-nos,


com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.

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III

Áspero amor, violeta coroada de espinhos,


matagal eriçado entre tantas paixões,
lança das dores, corola da cólera,
por que caminhos e como chegaste à minha alma?

Porque precipitaste o teu fogo doloroso,


subitamente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumo te indicaram a minha
morada?

O certo é que a noite pavorosa tremeu,


a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol impôs a sua presença celeste,

enquanto o cruel amor me cercava sem tréguas


até que, lacerando-me com espadas e espinhos,
abriu no meu coração um caminho abrasador.

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IV

Lembrarás aquela encosta caprichosa


a que os aromas palpitantes treparam,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Lembrarás os dons da terra:
irascível fragrância, lama de ouro,
ervas do matagal, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.

Lembrarás o ramo que trouxeste,


ramo de sombra, de água e de silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.

E aquela vez foi como nunca e sempre:


vamos ao sítio onde nada espera
e achamos tudo o que nos está esperando.

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Que a noite te não toque, nem o ar nem a aurora,


só a terra, a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
a lama e as resinas do teu país fragrante.

De Quinchamali onde te moldaram os olhos


aos teus pés para mim criados na Fronteira
tu és a argila escura que conheço:
nas tuas ancas toco de novo todo o trigo.

Tu não sabias talvez, araucana,


que quando antes de amar-te me esqueci dos teus beijos
o meu coração ficou lembrando a tua boca

e andei como um ferido pelas ruas


até perceber que havia encontrado,
amor, meu território de beijos e vulcões.

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VI

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro


e aos lábios, sedento, ergui o seu sussurro:
era talvez a voz da chuva soluçando,
um sino partido ou um coração cortado.

Algo que de tão longe me parecia


oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e húmida negrura das folhas.

Ali, despertando dos sonhos do bosque,


o ramo de aveleira cantou na minha boca
e seu perfume errante subiu no meu critério

como se me procurassem de repente as raízes


que abandonei, a terra que perdi com a infância,
e ali fiquei ferido pelo aroma errante.

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VII

"Virás comigo", disse, sem que ninguém soubesse


onde e como pulsava o meu estado doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada a não ser uma ferida aberta pelo amor.

Repeti: vem comigo, como se estivesse a morrer,


e ninguém viu na minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que crescia em silêncio.
Oh amor, esqueçamos a estrela com espinhos!

Por isso quando ouvi a tua voz repetir


"Virás comigo", foi como se soltasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que da sua adega submersa subisse


e outra vez na boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.

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VIII

Se não fosse porque os teus olhos têm a cor da lua


de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque és uma semana de âmbar,

se não fosse porque és o instante amarelo


em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és também o pão que a lua fragrante
elabora passeando a sua farinha peio céu,

oh, bem-amada, eu não te amaria!


No teu abraço, eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,

e tudo vive para que eu viva:


sem ir tão longe posso ver tudo:
na tua vida vejo tudo o que vive.
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IX
Ao golpe da onda contra a pedra insubmissa
a claridade explode e instaura a sua rosa
e o círculo do mar reduz-se a um cacho,
a uma só gota de sal azul que tomba.

Oh radiante magnólia solta na espuma,


magnética viajante cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal desfeito, deslumbrante agitação marinha.

Juntos, tu e eu, meu amor, selamos o silêncio,


enquanto o mar destrói suas permanentes estátuas
e derruba as suas torres de furor e brancura,

porque na trama destes tecidos invisíveis


da água desenfreada, da incessante areia,
nós mantemos a única e perseguida ternura.

19

Suave é a bela como se música e madeira,


ágata, telas, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erguido a fugitiva estátua.
Para a onda dirige sua contrária frescura.

O mar molha brunidos pés copiados


à forma recém-impressa na areia
e seu fogo feminino de rosa é agora
apenas uma bolha batida pelo sol e pelo mar.

Ai, que nada te toque a não ser o sal do frio!


Que nem o amor destrua a primavera intacta.
Formosa, reverberação da indelével espuma,

deixa que as tuas ancas imponham na água


uma nova dimensão de cisne ou de nenúfar
e a tua estátua navegue pelo cristal eterno.

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XI

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,


e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.

Estou faminto do teu riso saltitante,


das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado na tua formosura,


o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo


à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

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XII

Plena mulher, maçã carnal, lua ardente,


espesso aroma de algas, lodo e luz fundidos,
que escura claridade entre as tuas colunas se abre?
Que antiga noite toca o homem com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,


com ar abafado e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um único mel derrotados.

Beijo a beijo percorro o teu pequeno infinito,


as tuas margens, os teus rios, as tuas minúsculas aldeias,
e o fogo genital transformado em delícia

corre pelos estreitos caminhos do sangue


até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser mais que um raio na sombra.

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XIII

A luz que dos pés te sobe à cabeleira,


a turgência que envolve a lua forma delicada,
não é de nácar marinho, nunca de prata fria:
tu és de pão, de pão amado pelo fogo.

A farinha ergueu o seu celeiro contigo


e cresceu aumentada pela idade venturosa,
quando os cereais duplicaram teu peito
meu amor era o carvão trabalhando na terra.

Oh, pão a tua fronte, as tuas pernas, a tua boca,


pão que devoro e nasce com a luz todas as manhãs,
bem-amada, bandeira das padarias,

o fogo deu-te uma lição de sangue,


com a farinha aprendeste a ser sagrada,
e com o pão o idioma e o aroma.

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XIV

Falta-me tempo para celebrar os teus cabelos.


Preciso de contá-los e louvá-los um a um:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu quero ser apenas o teu cabeleireiro.

Na Itália baptizaram-te de Medusa


pela encrespada e alta luz da tua cabeleira.
Eu chamo-te desgrenhada e esguedelhada minha:
o meu coração conhece as portas do teu cabelo.

Quando te perderes nos teus próprios cabelos,


não me esqueças, lembra-te de que te amo,
não me deixes ir perdido sem a tua cabeleira

pelo mundo sombrio de todos os caminhos


que só tem sombra, dores transitórias,
enquanto o sol não sobe à torre do teu cabelo.

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XV

Há muito tempo que a terra te conhece:


tu és compacta como o pão ou a madeira,
és corpo, cacho de segura substância,
tens peso de acácia, de legume dourado.

Sei que existes não só porque teus olhos voam


e dão luz às coisas como janela aberta,
mas porque de barro te fizeram e cozeram
em Chillán, num forno de adobe estupefacto.

Os seres derramam-se como ar ou água ou frio


e vagos são, desvanecem-se ao contacto do tempo,
como se moídos fossem antes de morrerem.
Tu cairás comigo como pedra no túmulo
e assim por nosso amor que não foi consumido
continuará vivendo connosco a terra.

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XVI

Amo o pedaço de terra que tu és,


porque dos prados planetários
outra estrela não tenho. Tu repetes
a multiplicação do universo.

Teus grandes olhos são a luz que me resta


das constelações destroçadas,
a tua pele palpita como os caminhos
que na chuva percorre o meteoro.

De muitas luas foram para mim as tuas ancas,


de sol inteiro a tua boca profunda e sua delícia,
de muita luz ardente como mel na sombra

teu coração queimado por longos raios vermelhos,


e assim percorro o fogo da tua forma beijando-te,
pequena e planetária, pomba e geografia.

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XVII

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio


ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem


dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,


amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,


tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

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XVIII
Andas pelas montanhas como a brisa que passa
ou a corrente brusca que desce da neve
ou então a tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na folhagem.

Toda a luz do Cáucaso cai sobre o teu corpo


como num pequeno vaso interminável
em que a água muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.

Nos montes o velho caminho de guerreiros e por baixo


enfurecida brilha como espada
a água entre muralhas de mãos minerais,

até que, de repente, tu recebes dos bosques


o ramo ou o relâmpago dumas flores azuis
e a insólita seta de um aroma selvagem.

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XIX

Enquanto a vasta espuma de Isla Negra,


o sal azul, o sol nas ondas te molham,
eu observo os trabalhos da vespa
empenhada no mel do seu universo.

Vai e vem, equilibrando seu recto e loiro voo


como se de um arame invisível deslizasse
a elegância do baile, a sede da sua cintura,
e os homicídios do aguilhão maligno.

De petróleo e laranja é o seu arco-íris,


como um avião procura entre a erva,
com um rumor de espiga voa, desaparece,

enquanto tu sais do mar, nua,


e regressas ao mundo cheia de sal e sol,
reverberante estátua e espada da areia.

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XX

Minha feia, tu és uma castanha despenteada,


minha bela, tu és formosa como o vento,
minha feia, da tua boca podem fazer-se duas,
minha bela, teus beijos são frescos como melancias.
Minha feia, onde estão escondidos os teus seios?
São minúsculos como duas taças de trigo.
Gostaria de ver duas luas no teu peito:
as gigantescas torres da tua soberania.

Minha feia, o mar não tem na sua loja as tuas unhas,


minha bela, flor a flor, estrela por estrela,
onda por onda, amor, contei teu corpo:

minha feia, amo-te pela tua cintura de ouro,


minha bela, amo-te por uma ruga na tua fronte,
amor, amo-te por seres clara e seres escura.

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XXI

Oh que todo o amor propague em mim a sua boca,


que não sofra um instante mais sem primavera,
à dor eu só vendi as minhas mãos,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.

Cobre com teu perfume a luz do mês aberto,


fecha as portas com a tua cabeleira,
e em relação a mim não te esqueças que se acordo e choro
é porque em sonhos sou apenas uma criança perdida

que entre as folhas da noite procura as tuas mãos,


o contacto do trigo que tu me comunicas,
um arroubo cintilante de sombra e de energia.

Oh, bem-amada, e nada mais que sombra


por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.

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XXII

Quantas vezes, amor, te amei sem te ver e talvez


sem me lembrar,
sem reconhecer teu olhar, sem olhar-te, centáurea,
em regiões hostis, num meio-dia ardente:
tu eras só o aroma dos cereais que amo.

Vi-te talvez, imaginei-te ao passar erguendo uma taça


em Angol, à luz da lua de Junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e soou como o mar desmedido.
Amei-te sem o saber, e procurei a tua memória.
Nas casas vazias entrei com lanterna para roubar
o teu retrato.
Mas eu já sabia como eras. De repente

enquanto ias comigo toquei-te e a minha vida parou:


estavas diante de mim, reinando sobre mim, e ainda reinas.
Como fogueira nos bosques, o fogo é o teu reino.

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XXIII

Foi luz o fogo e pão o luar rancoroso,


o jasmim duplicou seu estrelado segredo,
e do terrível amor as suaves mãos puras
deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.

Oh amor, como, subitamente, das feridas


fizeste o edifício da doce firmeza,
venceste as unhas perversas e ciumentas
e hoje perante o mundo somos como uma só vida.

Assim foi, assim é e assim será até que,


meu selvagem e doce amor, minha amada Matilde,
o tempo nos mostre a flor final do dia.

Sem ti, sem mim, sem luz já não existiremos:


então para além da terra e da sombra
o esplendor do nosso amor continuará vivo.

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XXIV

Amor, amor, à torre do céu as nuvens


subiram como triunfantes lavadeiras,
e tudo ardeu em azul, tudo foi estrela:
o mar, a nau, o dia se exilaram juntos.

Vem ver as cerejeiras da água constelada


e a chave redonda do rápido universo,
vem tocar o fogo do azul instantâneo,
vem, antes que as suas pétalas se consumam.

Aqui há apenas luz, abundância, cachos,


espaço aberto pelas virtudes do vento
até entregar os últimos segredos da espuma.

E entre tantos azuis celestes, submersos,


perdem-se nossos olhos adivinhando apenas
os poderes do ar, as chaves submarinas.

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XXV

Antes de amar-te, amor, eu nada tinha:


vacilei pelas ruas e pelas coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que aguardava.

Conheci salões cinzentos,


túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que teimavam sobre a areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,


caído, abandonado e abatido,
tudo era inalienavelmente alheio,

tudo era dos outros e de ninguém,


até que a tua beleza e a tua pobreza
encheram o outono de presentes.

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XXVI

Nem a cor das dunas terríveis em Iquique,


nem o estuário do Rio Doce da Guatemala,
mudaram teu perfil conquistado ao trigo,
o teu estilo de uva grande, a tua boca de guitarra.

Oh coração, oh minha desde o silêncio total,


desde os cumes onde a trepadeira reinou
até às desoladas planícies de platina,
em toda a pátria pura te repetiu a terra.

Mas nem áspera mão de montes minerais,


nem neve tibetana, nem pedra da Polónia,
nada alterou a tua forma de cereal viajante,

como se argila ou trigo, guitarras ou cachos


de Chillán defendessem em ti seu território
impondo o poder da lua silvestre.

36

XXVII
Nua, és tão simples como uma das tuas mãos,
lisa, terrestre, minúscula, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua, és delgada como o trigo nu.

Nua, és azul como a noite em Cuba,


tens trepadeiras e estrelas no cabelo,
nua, és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.

Nua, és pequena como uma das tuas unhas,


curva, subtil, rosada até que o dia nasce
e entras no subterrâneo do mundo

como num longo túnel de roupas e trabalhos:


a tua claridade apaga-se, veste-se, desfolha-se
e volta a ser outra vez uma mão nua.

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XXVIII

Amor, de grão em grão, de planeta em planeta,


a rede do vento com seus países sombrios,
a guerra com seus sapatos de sangue,
ou então o dia e a noite da espiga.

Por onde passámos, ilhas, pontes ou bandeiras,


violinos do fugaz outono crivado,
a alegria repetiu os lábios da taça,
a dor deteve-nos com sua lição de pranto.

Em todas as repúblicas o vento desfraldava


sua bandeira impune, sua glacial cabeleira,
e logo a flor regressava aos seus trabalhos.

Em nós, porém, nunca se calcinou o outono.


E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.

38

XXIX

Vens da pobreza das casas do Sul,


das regiões duras do frio e terramotos
que, mesmo quando os seus deuses rolaram para a morte,
nos deram a lição da vida na argila.
Tu és um cavalinho de argila preta, um beijo
de barro escuro, amor, papoila de argila,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
mealheiro de lágrimas da nossa pobre infância.

Moça, tu conservaste o coração de pobre,


os pés de pobre acostumados às pedras,
a boca que nem sempre teve pão ou delícia.

Tu és do Sul pobre, donde a minha alma vem:


no seu céu a tua mãe continua a lavar roupa
com a minha. Por isso te escolhi, companheira.

39

XXX

Tens do arquipélago as fibras do lariço,


a carne trabalhada pelos séculos do tempo,
veias que conheceram o mar das madeiras,
sangue verde caído do céu na memória.

Ninguém recolherá meu coração perdido


entre tantas raízes, na amarga frescura
do sol multiplicado pela fúria da água,
ali vive a sombra que não viaja comigo.

Por isso tu deixaste o Sul como uma ilha


povoada e coroada de plumas e madeira
e eu senti o aroma dos bosques errantes,

encontrei o mel escuro que conheci na floresta,


e em tuas ancas toquei as pétalas sombrias
que nasceram comigo e construíram a minha alma.

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XXXI

Com loureiro do Sul e orégão de Lota


te coroo, pequena rainha dos meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que a terra elabora com bálsamo e folhagem.

Tu és, como aquele que te ama, das províncias verdes:


de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
pela cidade andamos, como tantos, perdidos,
com medo de que fechem o mercado.

Bem-amada, a tua sombra tem perfume de ameixa,


os teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
o teu coração é uma pomba de mealheiro,

o teu corpo é liso como os seixos na água,


os teus beijos são cachos orvalhados,
e eu, a teu lado, vivo com a terra.

41

XXXII

A casa de manhã com a verdade revolta


de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direcção, errante como um pobre barco,
entre os horizontes da ordem e do sono.

As coisas querem arrastar vestígios,


aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer prolongar o dia anterior.

Ordenadora, tu passas vibrando como abelha


tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.

E então de novo a claridade se constrói:


as coisas obedecem ao vento da vida
e a ordem impõe seu pão e sua pomba.

42

Meio-dia

<Página em branco>

XXXIII

Amor, dirigimo-nos agora para a casa


onde a trepadeira sobe pelas escadas:
antes de tu chegares chegou ao teu quarto
o verão nu com pés de madressilva.

Nossos beijos errantes percorreram o mundo:


a Arménia, espessa gota de mel desenterrado,
Ceilão, pomba verde, e o Yang Tsé separando
com antiga paciência os dias e as noites.

E agora, ó bem-amada, pelo mar crepitante


como duas aves cegas voltamos ao muro, a
o ninho da distante primavera,
porque o amor não pode voar sem se deter:
ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,
ao nosso território regressaram os beijos.

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XXXIV

Tu és filha do mar e prima do orégão,


nadadora, o teu corpo é de água pura,
cozinheira, o teu sangue é terra viva
e tuas regras são floridas e terrestres.

À água baixam teus olhos e levantam as ondas,


à terra tuas mãos e saltam as sementes,
em água e terra tens propriedades profundas
que em ti se unem como as leis da argila.

Náiade, o teu corpo corta a turquesa


e já ressuscitado floresce na cozinha
de tal modo que assumes quanto existe

e por fim dormes rodeada por meus braços que afastam


da sombra sombria, para que tu descanses,
legumes, algas, ervas: a espuma dos teus sonhos.

XXXV

A tua mão voou dos meus olhos para o dia.


A luz entrou como uma rugira florida.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.

A tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,


galhetas com azeite amarelo,
corolas, fontes e, sobretudo, amor,
amor: a tua mão pura poupou as colheres.

A tarde foi-se. Secretamente a noite deslizou


sobre o sono dos homens sua cápsula celeste.
A madressilva soltou um triste aroma selvagem.

E a tua mão voltou voando do seu voo


a fechar suas penas que julguei perdidas
sobre os meus olhos devorados pela sombra.

47

XXXVI
Coração meu, rainha do aipo e da masseira:
pequena pantera do fio e da cebola:
gosto de ver brilhar o teu império diminuto,
as armas da cera, do vinho, do azeite,

do alho, da terra por tuas mãos aberta,


da substância azul acesa em tuas mãos,
da transmigração do sonho na salada,
do réptil enrolado na mangueira.

Tu, com tua podadora levantando o perfume,


tu, com a direcção do sabão na espuma,
tu, subindo as minhas loucas escadas e escadotes,

tu, esquadrinhando os sinais da minha caligrafia


e descobrindo na areia do caderno
as letras transviadas que procuravam a tua boca.

48

XXXVII

Oh amor, oh raio louco e ameaça purpúrea,


visitas-me e sobes pela tua fresca escada
o castelo que o tempo coroou de neblinas,
as pálidas paredes do coração fechado.

Ninguém saberá que foi apenas a delicadeza


construindo cristais duros como cidades
e que o sangue abria túneis infelizes
sem que a sua monarquia derrubasse o inverno.

Por isso, amor, a tua boca, o teu pé, a tua luz, as tuas
penas,
foram o património da vida, os dons
sagrados da chuva, da natureza

que recebe e aumenta o peso do grão,


a tempestade secreta do vinho nas adegas,
a labareda do cereal na terra.

49

XXXVIII

A tua casa ao meio-dia soa como um comboio,


zumbem as vespas, cantam as caçarolas,
a cascata enumera os feitos do orvalho,
o teu riso desdobra o seu trinado de palmeira.
A luz azul do muro conversa com a pedra,
assobiando como um pastor chega um telegrama
e, entre as duas figueiras de voz verde,
Homero sobe com sapatos misteriosos.

Só aqui a cidade não tem voz nem pranto,


nem termo, nem sonatas, nem lábios, nem corneta,
mas um discurso de cascata e de leões,

e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces,


plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas,
ou partiste e sabe-se que começou o inverno.

50

XXXIX

Mas esqueci que as tuas mãos alegravam


as raízes, regando rosas enredadas,
até que as tuas impressões digitais floriram
na absoluta paz da natureza.

Como teus animais de estimação, o alvião e a água


acompanham-te, mordendo e lambendo a terra,
e é assim que, trabalhando, geras
fecundidade, fogosa frescura de cravos.

Amor e reverência de abelhas peço para as tuas mãos


que na terra confundem sua estirpe transparente,
e até em meu coração abrem a sua agricultura,

de tal modo que sou como pedra queimada


que de repente, contigo, canta, porque recebe
a água dos bosques por tua voz conduzida.

51

XL

Era verde o silêncio, molhada era a luz,


tremia o mês de Junho como uma borboleta
e no austral domínio, vinda do mar e das pedras,
Matilde, tu atravessaste o meio-dia.

Ias carregada de flores ferruginosas,


algas que o vento sul tortura e esquece,
ainda brancas, gretadas pelo sal devorador,
as tuas mãos levantavam as espigas da areia.
Amo os teus puros dons, a pele de pedra intacta,
as unhas oferecidas pelo sol dos teus dedos,
a boca derramada por toda a alegria,

mas, para a minha casa próxima do abismo,


dá-me o atormentado sistema do silêncio,
o estandarte do mar esquecido na areia.

52

XLI

Desgraças do mês de Janeiro quando o indiferente


meio-dia instaura a sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho duma taça cheia
enche a terra até aos seus limites azuis.

Desgraças deste tempo semelhantes a uvas


pequenas que juntaram verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie divulga os seus cachos.

Sim, germes, dores, tudo o que palpita


aterrado, à luz crepitante de Janeiro,
amadurecerá, arderá como arderam os frutos.

Divididos estarão os pesares: a alma


soprará como o vento, e a morada
ficará limpa com o pão fresco na mesa.

53

XLII

Radiantes dias balanceados pela água do mar,


concentrados como o interior duma pedra amarela
cujo esplendor de mel a desordem não derrubou:
preservou a sua pureza de rectângulo.

Crepita, sim, a hora como lume ou como abelhas


e é verde a tarefa de mergulhar nas folhas,
até que lá no alto a folhagem é
um mundo cintilante que se apaga e sussurra.

Sede do fogo, abrasadora multidão do estio


que constrói um Éden com umas quantas folhas,
porque a terra de rosto escuro não quer sofrimentos,

mas frescura ou fogo, água ou pão para todos,


e nada deveria dividir os homens
a não ser o sol ou a noite, a lua ou as espigas.

54

XLIII

Busco um sinal teu em todas as outras,


no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos meio submersos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.

De repente parece-me que te distingo as unhas


compridas, fugitivas, sobrinhas duma cerejeira,
e é o teu cabelo que passa outra vez e parece-me
ver arder na água o teu retrato de fogueira.

Olhei, mas nenhuma tinha a tua pulsação,


a tua luz, a argila escura que trouxeste do bosque,
nenhuma tinha as tuas minúsculas orelhas.

Tu és total e breve, única entre todas,


e assim contigo vou percorrendo e amando
um vasto Mississipi de estuário feminino.

55

XLIV

Saberás que não te amo e que te amo


pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,


para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse


nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.


Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

56

XLV
Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.

Não te afastes uma hora porque então


nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,


ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe


que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer.

57

XLVI

Das estrelas que contemplei, molhadas


por rios e orvalhos diferentes,
escolhi apenas a que amava
e desde então durmo com a noite.

Da onda, de uma onda e outra onda,


verde mar, verde frio, verde ramo,
escolhi apenas uma onda:
a onda indivisível do teu corpo.

Todas as gotas, todas as raízes,


todos os fios da luz vieram,
tarde ou cedo me vieram ver.

Eu quis para mim a tua cabeleira.


E de todos os dons da minha pátria
só escolhi teu coração selvagem.

58

XLVI

Quero ver-te no ramo atrás de mim.


Pouco a pouco converteste-te em fruto.
Não te custou surgir das raízes
cantando com tuas sílabas de seiva.

E aqui estarás primeiro em flor fragrante,


na estátua dum beijo convertida,
até que o sol e a terra, o sangue e o céu,
te outorguem a delícia e a doçura.

Verei no ramo a tua cabeleira,


o teu signo amadurecendo na folhagem,
aproximando as folhas da minha sede,

e a tua substância encherá a minha boca,


o beijo que subiu da terra
com teu sangue de fruto enamorado.

59

XLVIII

Dois amantes ditosos fazem um só pão,


uma só gota de luar na erva,
deixam, ao andar, duas sombras que se juntam,
deixam somente um sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:


não se prenderam com fios mas com perfume,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A felicidade é uma torre transparente.

O ar, o vinho acompanham os dois amantes,


a noite oferece-lhes as suas pétalas felizes,
têm direito a todos os cravos.

Dois amantes ditosos não têm fim nem morte,


nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
são eternos como a natureza.

60

XLIX

É hoje: o ontem sucumbiu por completo


entre dedos de luz e olhos de sono,
amanhã chegará com passos verdes:
nada detém o rio da aurora.

Nada detém o rio das tuas mãos,


os olhos do teu sono, ó bem-amada,
tu és movimento do tempo que passa
entre luz vertical e sol sombrio,

e o céu fecha sobre ti as suas asas


levando-te e trazendo-te a meus braços
com pontual, misteriosa cortesia:

por isso canto o dia e a lua,


o mar, o tempo, todos os planetas,
a tua voz diurna e a tua pele nocturna.

61

Cotapos diz que o teu riso desce


como um falcão duma brusca torre
e, na verdade, atravessam a folhagem do mundo
com um só relâmpago da tua natureza celeste

que cai, e corta, e saltam as línguas do orvalho,


as águas do diamante, a luz com suas abelhas
e lá onde o silêncio vivia com sua barba
estalam as romãs do sol e das estrelas,

desmorona-se o céu com a noite sombria,


ardem à lua cheia sinos e cravos,
e correm os cavalos dos correeiros:

porque sendo tão pequena como és


deixas cair o riso do teu meteoro
electrizando o nome da natureza.

62

LI

O teu riso pertence a uma árvore fulminada


por um raio, por um relâmpago prateado
que do céu cai partindo-se na copa,
abrindo a árvore em duas com uma única espada.

Só nas terras altas da folhagem com neve


nasce um riso como o teu, ó bem-amante,
é o riso do ar solto nas alturas,
hábitos de araucária, ó bem-amada.

Serrana minha, autêntica chilanense,


corta com as facas do teu riso a sombra,
a noite, a manhã, o mel do meio-dia,

e que saltem para o céu as aves da folhagem


quando como uma luz dissipadora
teu riso atravessa a árvore da vida.
63

LII

Cantas e ao sol e ao céu com teu canto


a tua voz debulha o cereal do dia,
falam os pinheiros com sua língua verde:
trinam as aves todas do inverno.

O mar enche os seus subterrâneos de passos,


de sinos, de cadeias e gemidos,
tilintam metais e utensílios,
soam as rodas da caravana.

Mas só a tua voz escuto, e sobe


a tua voz com voo e precisão de flecha,
desce a tua voz com gravidade de chuva,

a tua voz espalha altíssimas espadas,


regressa a tua voz carregada de violetas
e em seguida acompanha-me pelo céu.

64

LIII

Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada:


as necessidades do homem, da mulher e da vida:
para este sítio corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a queimadura comum.

Honra às tuas mãos que voam preparando


os brancos resultados do canto e da cozinha,
salve, ó integridade dos teus pés corredores,
viva a bailarina que baila com a escova.

Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,


aquele atormentado estandarte da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes

são hoje este repouso do teu sangue no meu,


este leito estrelado e azul como a noite,
esta simplicidade sem fim da ternura.

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Tarde

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65

LIV

Esplêndida razão, luminoso demónio


do cacho absoluto, do meio-dia rectilíneo,
aqui estamos finalmente, sem solidão e sós,
longe do desvario da cidade selvagem.

Quando a linha pura cerca a sua pomba


e o fogo condecora a paz com seu alimento,
tu e eu erguemos este celeste resultado.
Razão e amor vivem nus nesta casa.

Sonhos furiosos, rios de amarga certeza,


decisões mais duras que o sonho dum martelo
caíram na dupla taça dos amantes.

Até que na balança se ergueram, gémeos,


a razão e o amor como duas asas.
Assim se construiu a transparência.

69

LV

Espinhos, vidros partidos, enfermidades, lágrimas


assediam noite e dia o mel dos seres felizes
e de nada servem a torre, a viagem, os muros:
a desgraça atravessa a paz dos que dormem,

a dor sobe e desce e aproxima as suas colheres


e não há homem sem este movimento,
não há dia de anos, não há tecto nem cerca:
é preciso ter em conta este atributo.

E também não aproveitam, no amor, olhos fechados,


profundos leitos longe do pestilento ferido,
ou do que passo a passo conquista a sua bandeira.

Porque a vida é pegajosa como cólera ou rio


e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos duma imensa família de dores.

70

LVI

Acostuma-te a ver atrás de mim a sombra


e que as tuas mãos saiam do rancor, transparentes,
como se na manhã do mar fossem criadas:
o sal deu-te, meu amor, proporção cristalina.

A inveja sofre, morre, esgota-se com meu canto.


Um a um agonizam seus tristes capitães.
Digo amor, e o mundo povoa-se de pombas.
Cada sílaba minha traz a Primavera.

Então tu, minha flor, meu coração, bem-amada,


és nos meus olhos como a folhagem
do céu, e vejo-te reclinada na terra.

Vejo o sol transportar cachos para o teu rosto,


olhando para o alto reconheço os teus passos,
Matilde, bem-amada, diadema, bem-vinda!

71

LVII

Mentem os que disseram que perdi a lua,


os que profetizaram meu futuro de areia,
asseveraram tantas coisas com línguas frias:
quiseram proibir a flor do universo.

"Nunca mais cantará o âmbar rebelde


da sereia, tem apenas o povo."
E mastigavam seus contínuos papéis
patrocinando o olvido para a minha guitarra.

Atirei-lhes aos olhos as lanças deslumbrantes


do nosso amor cravando teu coração ao meu,
reclamei o jasmim que as tuas pegadas deixavam,

perdi-me de noite, sem luz, sob as tuas pálpebras


e, quando a claridade me envolveu,
nasci de novo, dono das minhas próprias trevas.

72

LVIII

Entre os espadões de ferro literário


eu passo como um marinheiro distante
que não conhece as esquinas e canta
por cantar, como se não fosse por isso.

Dos atormentados arquipélagos trouxe


o meu acordeão com borrascas, rajadas de chuva louca,
e um hábito lento de coisas naturais:
elas determinaram meu coração silvestre.

Assim, quando os dentes da literatura


morderam meus honrados calcanhares,
voltei, sem saber, cantando com o vento

aos armazéns chuvosos da infância,


aos bosques frios do Sul indefinível,
lá onde a minha vida se encheu com teu aroma.

73

LIX

Pobres poetas a quem a vida e a morte


perseguiram com a mesma tenacidade sombria
e depressa são cobertos por impassível pompa,
entregues ao rito e ao dente funerário.

Esses — obscuros como pedrinhas —, agora


atrás dos cavalos arrogantes, estendidos
vão, governados enfim pelos intrusos,
entre os ajudantes de campo, a dormir sem silêncio.

Antes e já seguros de que o morto está morto


fazem das exéquias um festim miserável
com perus, porcos e outros oradores.

Espiaram a sua morte e ofenderam-na então:


só porque a sua boca está fechada
e já não pode responder ao seu canto.

74

LX

É a ti que fere o que quis fazer-me mal


e o golpe do veneno contra mim dirigido
passa como por uma rede entre as minhas dores
e em ti deixa uma mancha de ferrugem e de insónia.

Não quero, amor, ver na lua florida


da tua fronte passar o ódio que me espreita.
Não quero que no teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida a sua inútil coroa de punhais.

Onde vou vão atrás de mim passos amargos,


onde me rio um esgar de horror copia a minha cara,
onde canto a inveja amaldiçoa, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me deu:
é um fato vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.

75

LXI

Trouxe o amor o seu cortejo de dores,


o seu longo raio estático de espinhos,
e fechamos os olhos para que nada,
para que nenhuma ferida nos separe.

Não é culpa dos teus olhos este pranto;


as tuas mãos não cravaram esta espada:
não buscaram teus pés este caminho:
a teu coração chegou o mel sombrio.

Quando o amor como uma imensa onda


nos estilhaçou contra a pedra dura,
nos amassou como uma única farinha,

caiu a dor sobre outro doce rosto


e assim na luz da estação aberta
se consagrou a primavera ferida.

76

LXII

Ai de mim, ai de nós, bem-amada,


quisemos simplesmente amor, amar-nos,
e no meio de tantas dores decidiu-se
que apenas nós os dois saíssemos feridos.

Quisemos para nós o tu e o eu,


o tu do beijo, o eu do pão secreto,
e assim era tudo, eternamente simples,
até que o ódio entrou pela janela.

Odeiam os que não amaram o nosso amor,


nem outro amor qualquer, desventurados
como as cadeiras de um salão vazio,

até que rolaram na cinza


e o seu rosto ameaçador
se apagou no crepúsculo apagado.

77
LXIII

Não andei apenas pelas terras desertas onde a pedra


de sal é como a rosa única, a flor enterrada
pelo mar, mas pela margem dos rios que atravessam a neve.
As alturas amargas das cordilheiras conhecem meus passos.

Emaranhada, sibilante região da minha pátria selvagem,


lianas cujo beijo mortal se enreda na selva,
lamento molhado da ave que passa soltando
os seus calafrios,
oh região de perdidas dores e pranto inclemente!

Não são meus apenas a pele venenosa do cobre


ou o salitre estendido como estátua jacente e nevada,
mas a vinha, a cerejeira premiada pela primavera

são minhas, e eu pertenço como átomo negro


às áridas terras e à luz do outono nas uvas,
a esta pátria metálica erguida por torres de neve.

78

LXIV

De tanto amor a minha vida tingiu-se de violeta


e andei de senda em senda tomo as aves cegas
até chegar à tua janela, minha amiga:
tu sentiste um rumor de coração partido

e então das trevas subi ao teu peito,


sem ser e sem saber fui à torre do trigo,
surgi para viver nas tuas mãos,
saí do mar para a tua alegria.

Ninguém pode contar o que te devo, é evidente


o que te devo, amor, e é como uma raiz
nascida na Araucânia o que te devo, amada.

É sem dúvida estrelado tudo o que te devo,


e o que te devo é como o poço duma zona silvestre
onde o tempo guardou relâmpagos errantes.

79

LXV

Matilde, onde estás? Notei, em baixo,


entre a gravata e o coração, e em cima,
certa melancolia intercostal:
é que tu estavas, de súbito, ausente.

Fez-me falta a luz da tua energia


e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é uma casa sem ti,
ficam apenas trágicas janelas.

De puro taciturno o tecto ouve


cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:

e assim te espero como casa abandonada


e tornarás a ver-me e a habitar-me.
De outro modo as janelas me entristecem.

80

LXVI

Não te quero senão porque te quero


e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te apenas porque a ti eu quero,


a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,
e a medida do meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.

Consumirá talvez a luz de Janeiro,


o seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história apenas eu morro


e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.

81

LXVII

A forte chuva do Sul cai sobre Islã Negra


como uma só gota transparente e pesada,
o mar abre as suas folhas frias e recebe-a,
a terra aprende o húmido destino duma taça.

Alma minha, dá-me em teus beijos a água


salobra destes meses, o mel do território,
a fragrância molhada por mil lábios do céu,
a paciência sagrada do mar no inverno.
Algo nos chama, todas as portas se abrem sozinhas,
a água relata um longo rumor às janelas,
cresce o céu para baixo atingindo as raízes,

e assim o dia tece e destece a sua rede celeste


com tempo, sal, sussurros, impulsos, caminhos,
uma mulher, um homem, e o inverno na terra.

82

LXVIII

(Carranca de Proa)

A menina de madeira não veio por seu pé:


apareceu ali de repente sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam-lhe a cabeça,
o seu olhar tinha a tristeza das raízes.

Ali ficou a olhar as nossas vidas abertas,


o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia desbotando as suas pétalas graduais.
Velava, sem nos ver, a menina de madeira.

A menina, coroada pelas antigas ondas,


estava ali com seus olhos desfeitos:
sabia que vivemos numa rede distante

de tempo e água e ondas, sons e chuva,


sem saber se existimos ou somos o seu sonho.
Esta é a história da menina de madeira.

83

LXIX

Não ser é talvez ser sem que tu sejas,


sem que vás atravessando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e pelos ladrilhos,

sem essa luz que transportas na mão


que outros não verão talvez dourada,
que talvez ninguém saiba que crescia
como a origem vermelha da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses


brusca, estimulante, a conhecer a minha vida
rajada de roseira, trigo do vento,
e desde então eu sou porque tu és,
e desde então tu és, eu sou, nós somos
e por amor serei, serás, seremos.

LXX

Vou ferido talvez, mas não sangrando,


por um dos raios da tua vida
e a meio da floresta a água me detém:
a chuva que desaba com seu céu.

Toco então o coração caído com a chuva:


sei que os teus olhos penetraram ali
pela extensa região do meu pesar
e solitário surge um murmúrio de sombras:

Quem é? Quem é? Mas nome não teve


a folha ou a água escura que palpita
a meio da floresta, surda, no caminho,

e assim, meu amor, soube que fui ferido


e ninguém ali falava além da sombra,
da noite errante, do beijo da chuva.

85

LXXI

De pena em pena o amor atravessa as suas ilhas


e cria raízes que o pranto logo rega,
e ninguém pode, ninguém pode evitar os movimentos
do coração que passa silencioso e cruel.

Assim tu e eu procurámos um espaço, outro planeta


onde o sal não tocasse a tua cabeleira,
onde por minha culpa não houvesse dores,
onde sem agonia viva o pão.

Um planeta enredado de distância e de folhas,


um deserto, uma pedra cruel e desabitada,
com nossas próprias mãos queríamos construir

um ninho duro, sem danos, sem feridas, sem palavras,


e o amor não foi assim, mas uma cidade louca
onde as pessoas empalidecem nas varandas.

86

LXXII
Meu amor, o inverno regressa aos seus quartéis,
a terra instala os seus presentes amarelos
e passamos a mão sobre um país distante,
sobre a cabeleira da geografia.

Partir! Hoje! Em frente, rodas, naus, sinos,


aviões acerados pelo diurno infinito
para o odor nupcial do arquipélago,
por longitudinais farinhas de usufruto!

Vamos, levanta-te, põe o teu diadema e sobe


e desce e corre e trina com o ar e comigo,
tomemos os comboios da Arábia ou Tocopilla,

sem mais que transmigrar para o pólen distante,


para aldeias lancinantes de farrapos e gardénias
governadas por pobres monarcas sem sapatos.

87

LXXIII

Lembrarás talvez aquele homem franzino


que da escuridão saiu como um punhal
e, antes que nós soubéssemos, já sabia:
viu o fumo e decidiu que ele vinha do fogo.

A pálida mulher de cabeleira negra


surgiu como um peixe do abismo
e entre os dois ergueram contra o amor
uma máquina armada de dentes numerosos.

Homem e mulher podaram montanhas e jardins,


desceram aos rios, escalaram os muros,
instalaram nos montes a sua atroz artilharia.

O amor soube então que se chamava amor.


E quando ergui meus olhos para o teu nome
o teu coração de súbito traçou o meu caminho.

88

LXXIV

O caminho molhado pela água de Agosto


brilha como se fosse aberto em plena lua,
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.
Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e peixes,
o vapor das ilhas invade a região,
palpita o mar sobre a luz do Chile.

Tudo se reconcentra como o metal, escondem-se


as folhas, o inverno dissimula a sua origem
e somos apenas cegos, sem cessar, simplesmente.

Simplesmente submetidos ao leito secreto


do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, caem as lágrimas da natureza.

89

LXXV

Esta é a casa, o mar e a bandeira.


Errávamos por outros longos muros.
Não encontrávamos a porta nem o som
depois que partimos, como alguém que morreu.

E por fim a casa abre o seu silêncio,


ao entrar pisamos o abandono,
os ratos mortos, o adeus vazio,
a água que chorou nos canos.

Chorou, chorou a casa noite e dia,


gemeu com as aranhas, entreaberta,
debulhou-se do alto dos seus olhos negros,

e agora de repente devolvemos-lhe a vida,


povoamo-la e não nos reconhece:
precisa de florir e não se lembra.

90

LXXVI

Diego Rivera, com a paciência do urso,


procurava na pintura a esmeralda do bosque
ou o cinábrio, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.

Pintava o imperioso traje do teu nariz,


a centelha das tuas pupilas atrevidas,
as tuas unhas que alimentam a inveja da lua
e, na pele estival, a tua boca de melancia.

Colocou-te duas cabeças de vulcão acesas


pelo fogo, pelo amor, pela origem araucana,
e sobre os dois rostos dourados da argila

cobriu-te com o casco dum incêndio bravio


e ali secretamente ficaram enredados os meus olhos
na tua torre absoluta: a tua cabeleira.

91

LXXVII

Hoje é hoje com o peso de todo o tempo ido,


com as asas de tudo o que será amanhã,
hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
e a composição dum novo dia.

À tua boca erguida para a luz ou para a lua


juntaram-se as pétalas de um dia consumido,
e ontem vem trotando pela rua sombria
para que lembremos o teu rosto que morreu.

Hoje, ontem e amanhã comem-se andando,


consumimos um dia como uma vaca ardente,
o nosso gado espera com seus dias contados,

mas no teu coração o tempo deitou sua farinha,


o meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
para a minha alma tu és o pão de cada dia.

92

LXXVIII

Nunca terei, não tenho nunca. Na areia


a vitória deixou seus pés perdidos.
Sou um pobre homem disposto a amar seus semelhantes.
Não sei quem és. Amo-te. Não dou, não vendo espinhos.

Alguém saberá talvez que não teci coroas


sangrentas, que combati a burla
e que em verdade enchi a preia-mar da minha alma.
Paguei a vileza com pombas.

Eu nunca tenho porque diferente


fui, sou, serei. E em nome
do meu amor mutante proclamo a pureza.

A morte é só pedra do esquecimento.


Amo-te, beijo na tua boca a alegria.
Tragamos lenha. Acenderemos uma fogueira na montanha.
93

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Noite

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LXXIX

De noite, amada, prende o teu coração ao meu


e que no sono eles dissipem as trevas
como um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.

Nocturna travessia, brasa negra do sono


interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade dum comboio desvairado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.

Por isso, amor, prende-me ao movimento puro,


à tenacidade que em teu peito bate
com as asas dum cisne submerso,

para que às perguntas estreladas do céu


responda o nosso sono com uma única chave,
com uma única porta fechada pela sombra.

97

LXXX

De viagens e dores, meu amor, regressei


à tua voz, à tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.

Para todos os homens peço pão e um reino,


peço terra para o lavrador sem ventura,
que ninguém espere trégua do meu sangue ou do meu
canto.
Mas ao teu amor não posso renunciar sem morrer.

Por isso toca a valsa da lua serena,


a barcarola na água da guitarra
até que, sonhando, a minha cabeça se incline:

que todas as insónias da minha vida teceram


esta grinalda onde a tua mão vive e voa
velando a noite do viajante adormecido.

98

LXXXI

Já és minha. Repousa com teu sono no meu sono.


Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite em suas rodas invisíveis
e ao meu lado és pura como o âmbar adormecido.

Nenhuma outra, amor, dormirá com meus sonhos.


Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma outra viajará pela sombra comigo,
apenas tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados


e deixaram cair suaves signos sem rumo,
teus olhos fecharam-se como duas asas cinzentas,

enquanto eu sigo a água que levas e me leva:


a noite, o mundo, o vento fiam o seu destino,
e sem ti já não sou senão apenas o teu sonho.

99

LXXXII

Meu amor, ao fechar esta porta nocturna


peço-te, amor, uma viagem por um escuro recinto:
fecha os teus sonhos, entra com teu céu nos meus olhos,
estende-te no meu sangue como num largo rio.

Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo


no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
salve, ó sombra, intermitente companheira!

Nesta nau ou água ou morte ou nova vida,


uma vez mais unidos, adormecidos, ressuscitados,
somos o casamento da noite com o sangue.

Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,


mas é o teu coração que distribui
no meu peito os dons da aurora.

100

LXXXIII
É bom, meu amor, sentir-te de noite ao pé de mim,
invisível no teu sono, seriamente nocturna,
enquanto eu desenredo as minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.

Ausente, teu coração navega pelos sonhos,


mas o teu corpo assim abandonado respira
procurando-me sem me ver, completando o meu sono
como uma planta que se duplica na sombra.

Erguida, serás outra que viverá amanhã,


mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos

algo fica aproximando-se na luz da vida


como se o selo da sombra marcasse
com fogo as suas secretas criaturas.

101

LXXXIV

Uma vez mais, amor, a rede do dia extingue


trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e entregamos à noite o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e da terra.

Só a lua no meio da sua página pura


sustenta as colunas do estuário do céu,
o nosso quarto adopta a lentidão do ouro
e as tuas mãos vão e vêm, preparando a noite.

Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio


de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge as suas uvas tempestuosas,

até que somos apenas um só espaço escuro,


uma taça onde cai a cinza celeste,
uma gota no pulso dum lento e longo rio.

102

LXXXV

Do mar para as ruas corre uma vaga bruma


como o bafo de um boi enterrado no frio,
e as compridas línguas de água acumulam-se cobrindo
o mês que às nossas vidas prometeu ser celeste.

Outono precoce, favo sibilante de folhas,


quando sobre as aldeias palpita o teu estandarte
cantam mulheres loucas soltando os rios,
os cavalos relincham na direcção da Patagónia.

Há no teu rosto uma trepadeira vespertina


que cresce silenciosa levada pelo amor
até às ferraduras crepitantes do céu.

Inclino-me sobre o fogo do teu corpo nocturno


e não amo apenas os teus seios mas o outono
que espalha na bruma o seu sangue ultramarino.

103

LXXXVI

Oh Cruz do Sul, oh trevo de fósforo fragrante,


com quatro beijos hoje a tua formosura penetrou
e atravessou a sombra e o meu chapéu:
a lua caminhava redonda pelo frio.

Então com o meu amor, com a minha amada, ó diamantes


de geada azul, serenidade do céu,
espelho, tu apareceste e a noite encheu-se
com tuas quatro adegas cintilantes de vinho.

Oh palpitante prata de peixe polido e puro,


cruz verde, salsa da sombra radiante,
pirilampo condenado à unidade do céu,

descansa em mim, fechemos os teus olhos e os meus.


Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.

104

LXXXVII

As três aves do mar, três raios, três tesouras,


atravessaram o céu frio rumo a Antofagasta,
por isso o ar ficou trémulo,
tudo tremeu como bandeira ferida.

Solidão, mostra-me a tua incessante origem,


o caminho exclusivo dos pássaros cruéis,
e a palpitação que sem dúvida precede
o mel, a música, o mar, o nascimento.

(Solidão sustentada por um rosto constante


como uma grave flor sem cessar estendida
até abarcar a pura multidão do céu.)

Voavam asas frias do mar, do Arquipélago,


rumo às areias do Noroeste do Chile.
E a noite fechou o seu ferrolho celeste.

105

LXXXVIII

O mês de Março regressa com sua luz escondida


e peixes enormes deslizam pelo céu,
uma bruma terrestre avança secretamente,
uma a uma caem em silêncio as coisas.

Por sorte nesta crise de atmosfera errante


tu reuniste as vidas do mar e do fogo,
o movimento cinzento da nau de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.

Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,


fogo que baila e sobe a invisível escada
e desperta o sangue no túnel da insónia

para que se consumam as ondas no céu,


o mar esqueça os seus bens e leões
e o mundo caia nas redes escuras.

106

LXXX1X

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:


quero que a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passem uma vez mais sobre mim a sua frescura:
que sintam a suavidade que mudou o meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, dormindo, te espero,


quero que os teus ouvidos continuem a ouvir o vento,
que sintas o perfume do mar que ambos amamos
e continues a pisar a areia que pisamos.

Quero que tudo o que amo continue vivo


e a ti amei-te e cantei-te sobre todas as coisas,
por isso, ó florida, continua a florir,

para que alcances tudo o que o meu amor te ordena,


para que a minha sombra passeie pelos teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.
107

XC

Julguei que ia morrer, senti próximo o frio,


e de quanto vivi só a ti deixava:
a tua boca era o meu dia e a minha noite terrestres
e a tua pele a república fundada por meus beijos.

Nesse momento acabaram os livros,


a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de existir, menos os teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos persegue,


é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
as ai, quando a morte vem bater à porta,

há só o teu olhar para tanto vazio,


só a tua claridade para não continuar a ser,
só o teu amor para fechar a sombra.

108

XCI

A idade cobre-nos como a chuva miúda,


interminável e árido e o tempo,
uma pluma de sal roça o teu rosto,
uma goteira corroeu o meu fato:

o tempo não distingue as minhas mãos


dum voo de laranjas nas tuas:
pica com neve e enxada a vida:
a tua vida, que é a minha vida.

A minha vida, que te dei, enche-se


de anos, como o volume de um cacho.
À terra regressarão as uvas.

E lá em baixo o tempo continua a existir,


a esperar, a chover sobre o pó,
ávido por apagar até a ausência.

109

XCII

Meu amor, se eu morrer e tu não morreres,


meu amor, se tu morreres e eu não morrer,
não concedamos à dor mais território:
não há extensão como aquela que vivemos.

Pó no trigo, areia nas areias,


o tempo, a água errante, o vento vago
levou-nos como grão navegante.
Podíamos não encontrar-nos no tempo.

Este prado onde nos encontramos,


oh pequeno infinito! o devolvemos.
Mas este amor, meu amor, não terminou,

e assim como não teve nascimento,


não tem morte, é como um longo rio,
muda apenas de terras e de lábios.

XCIII

Se alguma vez o teu peito parar,


se algo deixar de arder nas tuas veias,
se na tua boca a voz morrer sem ser palavra,
se as tuas mãos se esquecerem de voar e adormecerem,

Matilde, amor, deixa teus lábios entreabertos


porque esse último beijo deve continuar comigo,
deve ficar imóvel na tua boca para sempre
para que assim na minha morte me acompanhe também.

Morrerei beijando a tua boca fria,


abraçando o cacho perdido do teu corpo,
e procurando a luz dos teus olhos fechados.

E assim, quando a terra receber nosso abraço,


iremos confundidos numa única morte
viver para sempre a eternidade de um beijo.

111

XCIV

Se eu morrer, sobrevive-me com tanta força pura


que despertes a fúria do pálido e do frio,
de norte a sul levanta os olhos indeléveis,
que a tua boca de guitarra soe de nascente a poente.

Não quero que vacilem nem teu riso nem teus passos,
não quero que morra a minha herança de alegria,
não chames o meu peito, estou ausente.
Habita a minha ausência como uma casa.
É uma casa tão vasta a ausência
que nela passarás através das paredes
e suspenderás os quadros no ar.

É uma casa tão transparente a ausência


que eu, sem vida, te verei viver
e, se sofreres, meu amor, morrerei outra vez.

112

XCV

Quem se amou como nós? Procuremos


as antigas cinzas do coração queimado
e que um a um ali caiam nossos beijos
até que a flor desabitada ressuscite.

Amemos o amor que consumiu seu fruto


e à terra desceu com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
a sua inquebrantável espiga delicada.

Do amor sepultado por tanto tempo frio,


por neve e primavera, por esquecimento e outono,
aproximemos a luz duma nova maçã,

da frescura aberta por uma nova ferida,


como o amor antigo que caminha em silêncio
numa eternidade de bocas enterradas.

113

XCVI

Esta época em que me amaste passará,


penso eu, por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.

Nenhum dos que urdiram esta hora,


dos que conversaram com o fumo,
governantes, traficantes, transeuntes,
continuará a mover-se nos seus fios.

Ir-se-ão os cruéis deuses com seus óculos,


os peludos carnívoros com um livro,
os parasitas e os pipipasseyros. (Nota 1)

E quando o mundo estiver lavado


outros olhos nascerão na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.

Nota 1 - Neologismo nerudiano, de tradução impossível. A palavra é constituída pelo elemento pipi,
que significa piolho (mas também novato, inexperiente), e passeyro, sobrenome do poeta uruguaio
Ricardo Paseyro. Trata-se, ao que parece, dum ajuste de contas, em que Neruda ridiculariza o
referido poeta, com o qual andou desavindo. (N. do T.)

114

XCVII

É preciso voar neste tempo, para onde?


Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não levantaram os pés do viajante.

É preciso voar a cada instante como


as águias, as moscas e os dias,
é preciso vencer os olhos de Saturno
e implantar ali novos sinos.

Já não bastam sapatos nem caminhos,


já não serve a terra aos errantes,
as raízes já atravessaram a noite,

e tu aparecerás em outra estrela


decididamente transitória,
em papoila enfim convertida.

115

XCVIII

E esta palavra, este papel escrito


pelas múltiplas mãos duma única mão,
não fica em ti, não serve para os sonhos,
cai na terra: ali se continua.

Não importa que a luz ou o louvor


se derramem e transbordem da taça
se foram um tenaz tremor do vinho,
se de amaranto se tingiu a tua boca.

Mais não quer a sílaba tardia,


o que uma e outra vez traz o recife
das minhas lembranças, a irritada espuma,

mais não quer que o teu nome escrever.


E, embora o cale o meu sombrio amor,
a primavera di-lo-á mais tarde.
116

XCIX

Outros dias virão, será entendido


o silêncio de plantas e planetas
e quantas coisas puras passarão!
Terão cheiro de lua os violinos.

O pão será talvez como tu és:


terá a tua voz, a tua condição de trigo,
e outras coisas falarão com tua voz:
os cavalos perdidos do outono.

Embora não seja como está estabelecido,


o amor encherá grandes barricas
como o antigo mel dos pastores,

e tu no pó do meu coração
(onde haverá enormes armazéns)
entre melancias irás e voltarás.

117

No meio da terra afastarei


As esmeraldas para te ver
E tu estarás copiando as espigas
Com uma pluma de água mensageira.

Que mundo! Que profunda salsa!


Que navio navegando na doçura!
E tu talvez e eu talvez topázio!
E não haverá separação nos sinos.

E haverá apenas o ar livre,


As maçãs levadas pelo vento,
O suculento livro na ramada,

E lá onde os cravos respiram


Criaremos uma roupagem que resista
à eternidade de um beijo vitorioso.

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Índice
A Matilde Urrutia 7

Manhã

I. Matilde, nome de planta ou pedra ou vinho - 11


II. Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo - 12
III. Áspero amor, violeta coroada de espinhos - 13
IV. Lembrarão aquela encosta caprichosa - 14
V. Que a noite te não toque, nem o ar nem a aurora- 15
VI. Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro - 16
VII. "Virão comigo", disse, sem que ninguém soubesse - 17
VIII. Se não fosse porque os teus olhos têm a cor da lua - 18
IX. Ao golpe da onda centra a pedra insubmissa - 19
X. Suave é a bela como se música e madeira - 20
XI. Tenho tome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo - 21
XII. Plena mulher, maçã carnal, lua ardente - 22
XIII. A luz que dos pés te sobe à cabeleira - 23
XIV. Falta-me tempo para celebrar os teus cabelos - 24
XV. Há muito tempo que a terra te conhece - 25
XVI. Amo o pedaço de terra que tu és - 26
XVII. Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio - 27
XVIII. Andai pelas montanhas como a brisa que passa - 28
XIX. Enquanto a vasta espuma de Isla Negra - 29
XX. Minha feia, tu és uma castanha despenteada - 30

121

XXII. Quantas vezes, amor, te amei sem te ver e talvez... 32


XXIII. Foi luz o fogo e pão o luar rancoroso 33
XXIV. Amor, amor, à torre do céu as nuvens 34
XXV. Antes de amar-te, amor, eu nada tinha 35
XXVI. Nem a cor das dunas terríveis em Iquique 36
XXVII. Nua, és tão simples como uma das tuas mãos 37
XXVIII. Amor, de grão em grão, de planeta em planeta 38
XXIX. Vens da pobreza das casas do Sul 39
XXX. Tens do arquipélago as fibras do lariço 40
XXXI. Com loureiro do Sul e orégão de Lota 41
XXXII. A casa de manhã com a verdade revolta 42

Meio-dia

XXXIII. Amor, dirigimo-nos agora para a casa 45


XXXIV. Tu és filha do mar e prima do orégão 46
XXXV. A tua mão voou dos meus olhos para o dia 47
XXXVI. Coração meu, rainha do aipo e da masseira 48
XXXVII. Oh amor, oh raio louco e ameaça purpúrea 49
XXXVIII. A tua casa ao meio-dia soa como um comboio 50
XXXIX. Mas esqueci que as tuas mãos alegravam 51
XL Era verde o silêncio, molhada era a luz 52
XLI. Desgraças do mês de Janeiro quando o indiferente 53
XLII. Radiantes dias balanceados pela água do mar 54
XLIII. Busco um sinal teu em todas as outras 55
XLIV. Saberás que não te amo e que te amo 56
XLV. Não estejas longe de mim um dia que seja, porque 57

122

XLVI. Das estrelas que contemplei, molhadas 58


XLVII. Quero ver-te no ramo atrás de mim 59
XLVIII. Dois amantes ditosos fazem um só pão 60
XLIX. É hoje: o ontem sucumbiu por completo 61
L. Cotapa diz que o teu riso desce 62
LI. O teu riso pertence a uma árvore fulminada 63
LII. Cantas e ao sol e ao céu com teu canto 64
LIII. Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada 65

Tarde

LIV. Esplêndida razão, luminoso demónio 69


LV. Espinhos, vidres partidos, enfermidades, lágrimas 70
LVI. Acostuma-te a ver atrás de mim a sombra 71
LVII. Alentem os que disseram que perdi a lua 72
LVIII. Entre os espadões de ferro literário 73
L1X. Pobres poetas a quem a vida e a morte 74
LX. É a ti que fere o que quis fazer-me mal 75
LXI. Trouxe o amor o seu cortejo de dores 76
LXII. Al de mim, ai de nós, bem-amada 77
LXIII. Não andei apenas pelas terras desertas onde a pedra 78
LX1V. De tanto amor a minha vida tingiu-se de violeta 79
LXV Matilde, onde estás? Notei, em baixo 80
LXVI. Não te quero senão porque te quero 81
LXVII. A forte chuva do Sul cai sobre Islã Negra 82
LXVIII. A menina de madeira não veio por seu pé 83
LXIX. Não ser é talvez ser sem que tu sejas 84

123

LXX. Vou ferido talvez, mas não sangrando 85


LXXI. De pena em pena atravessa as suai ilhas 86
LXXII. Meu amor, o inverno regressa aos seus quartéis 87
LXXIII. lembrarão talvez aquele homem franzino 88
LXXIV. O caminhe molhado pela água de Agosto 89
LXXV. Cota é a caia, o mar e a bandeira 90
LXXVI. Diego Rivera, com a paciência do uno 91
LXXVII. Hoje é hoje com o peio de todo o tempo ido 92
LXXVIII. Nunca terei, não tenho nunca. Na areia 93

Noite
LXXIX. De noite, amada, prende o teu coração ao meu 97
LXXX. De viagens e dores, meu amor, regressei 98
LXXXI. Já és minha. Repousa com teu sono no meu sono 99
LXXXII. Meu amor, ao fechar ata porta nocturna 100
LXXXIII. É bom, meu amor, sentir-te de noite ao pé de mim 101
LXXXIV. Uma vez mais, amor, a rede do dia extingue 102
LXXXV. Do mar para as ruas corre uma vaga bruma 103
LXXXVI. Oh Cruz do Sul, oh trevo de fósforo fragrante 104
LXXXVII. As três aves do mar, três raios, três tesouras 105
LXXXVIII. 0 mês de Março regressa com sua luz escondida 106
LXXXIX. Quando eu morrer quero as tuas mãos nos... 107
XC. Julguei que ia morrer, senti próximo o frio 108
XCI. A idade cobre-nos como a chuva miúda 109
XCII. Meu amor, se eu morrer e tu não morrerei 110
XCIII. Se alguma vez o teu peito parar 111
XCIV. Se eu morrer, sobrevive-me com tanta força pura 112
XCV. Quem se amou como nós? Procuremos 113

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XCVI. Esta época em que me amaste passará 114


XCVII. É preciso voar neste tempo, para onde 115
XCVIII. E esta palavra, este papel escrito 116
XCIX. Outros dias virão, será entendido 117
C. No meio da terra afastarei 118

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Últimos títulos da colecção CAMPO DA POESIA

54 A Árvore do Sábado António Barbedo


55 A Hora Perdida Jorge Gomes Miranda
56 Ciclo da Cal Luísa Freire
57 Onde Correm as Águas Nuno Higino
58 Algumas Trovas de Haver o Mar e um Post Scriptum Vasco Costa Marques
59 O Som do Vermelho Amadeu Baptista
60 Crescente Branco Vergílio Alberto Vieira
61 Hiperlíricas José-Alberto Marques
62 De Palavra em Punho José Fanha
63 Cem Sonetos de Amor Pablo Neruda

FIM

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