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Beatriz Figueiredo de Rezende – RA: 154763

CE 593 – Economia Brasileira Contemporânea II

Resenha do texto: Cutucando Onças com Varas Curtas (2015) – SINGER, A.

Singer sustenta que a dissolução da coalizão produtivista e a formação de uma


frente burguesa antidesenvolvimentista se evidenciou com as políticas adotadas pelo
governo Dilma que “cutucou muitas onças com varas curtas”. Segundo o autor, o
ativismo estatal por meio do “ensaio desenvolvimentista” alienou camadas de
empresários e resultou na unidade antidesenvolvimentista.
Destaca-se no primeiro mandato de Dilma, na chamada nova matriz econômica,
diversas políticas anticíclicas, que tiveram como consequência oposição de interesses.
Em primeiro lugar, a política de redução dos juros, tida como fundamental e estrutural
a fim de colocar as “taxas de juros em níveis normais para uma economia sólida e com
baixo risco”, o que foi considerado a principal batalha da nova matriz. Entre agosto de
2011 e abril de 2013, a taxa básica de juros reduziu de 12,5% para 7,25% (valor mais
baixo alcançado pela taxa Selic), com juros real a menos de 1% ao ano (0,619%,
precisamente), semelhante aos praticados nos centros capitalistas avançados. Para
“normalizar” o custo do crédito, o Executivo pressionou os bancos privados a
baixarem também seus spreads. Além disso, em maio de 2012 alterou-se as regras de
remuneração da caderneta de poupança, para permitir a continuação da Selic pelo BC.
Um segundo instrumento foi o uso intensivo do BNDES, que estabeleceu uma
robusta linha de crédito subsidiado para o investimento das empresas por meio de
repasses recebidos do Tesouro. O aporte no primeiro mandato de Dilma foi de 400
bilhões de reais, potencializando o Programa de Sustentação do Investimento (PSI),
que era dirigido à “produção, aquisição e exportação de bens de capital e inovação
tecnológica”. Uma terceira atuação foi a aposta na reindustrialização, com o
lançamento do Plano Brasil Maior, em agosto de 2011, que visava “sustentar o
crescimento econômico inclusivo num contexto econômico adverso”. Dentre as
medidas propostas estavam: o investimento do BNDES de quase 600 bilhões de reais
na indústria até 2015, a redução do IPI sobre bens de investimento e a ampliação do
MEI (microempreendedor individual). Como quarta medida, Singer ressalta as
desonerações da folha de pagamento para quinze setores intensivos em mão de obra,
em abril de 2012. Em 2014, chegou a desoneração atingiu 42 setores, o que poupou
cerca de 25 bilhões de reais anuais aos empresários. Uma quinta atuação foi na
infraestrutura, com o lançamento em agosto de 2012 do Programa de Investimentos em
Logística (PIL), um pacote de concessões para estimular o investimento em rodovias e
ferrovias.
Outro importante vetor político foi a reforma do setor elétrico. Em setembro de
2012, a Medida Provisória 579 coloca como objetivo o barateamento em 20% o preço
da eletricidade, a fim de que a indústria possa reduzir custos e ganhar competitividade
em relação aos importados. Essa Medida Provisória teve como um de seus efeitos a
diminuição do valor de mercado das empresas envolvidas, o que causou perdas aos
investidores, em um setor que, segundo Belluzzo “é todo financeirizado”. A sétima
política ressaltada por Singer, foi a política de desvalorização do real, o segundo
objetivo principal da nova matriz, uma vez que o câmbio valorizado “agravava as
dificuldades da indústria nacional”. A desvalorização da moeda foi de 1,65 real por
dólar em fevereiro de 2012 para 2,05 em maio de 2012 (uma queda de 19,52%).
Ressalta-se também o controle de capitais, que tinha como objetivo impedir que
a entrada de dólares valorizasse o real e prejudicasse a competitividade dos produtos
brasileiros. Para tanto, tomou-se providências de controle sobre os fluxos de capital
estrangeiro, por meio de alterações das alíquotas do IOF sobre investimentos
estrangeiros de portfólio e também por meio de controle de capital sobre as captações
externas, inclusive sobre empréstimos intercompanhias. Por fim, também há uma
política de proteção ao produto nacional. Em 2011 eleva-se em 30 p.p. o IPI sobre os
veículos importados ou que tivessem menos de 65% de conteúdo local. Em fevereiro
de 2012, a Petrobras fecha acordo para alugar 26 navios-sondas a serem construídos no
Brasil, com 55% a 65% de conteúdo nacional. Em julho de 2012, lança-se o Programa
de Compras Governamentais, que beneficiam a produção nacional para setores de
maquinas e equipamentos, veículos e medicamentos. Em setembro de 2012, aumenta-
se impostos de importação de cem produtos. Percebe-se, com essas medidas, uma
nítida inflexão desenvolvimentista.
Há inúmeras explicações para as causas do deslocamento da burguesia
industrial para uma frente única burguesa contra o ensaio desenvolvimentista. Uma
primeira aponta para as características estruturais da atual burguesia industrial que
possui uma mistura entre capital da indústria e das finanças, em que o componente
financeiro compõe grande parte dos lucros. Uma segunda visão foca na centralidade da
luta de classes, que propõe que as políticas de pleno emprego, que fortaleceram os
sindicatos e que resultou em elevação dos salários reais, tendem a afastar os
empresários que perdem poder de regular o emprego por meio do investimento. Uma
terceira explicação, sustentada por Bresser, enfatiza o papel da ideologia do
pensamento rentista que mobilizou um enorme aparato de formulação e divulgação de
criticas ao ensaio desenvolvimentista, por meio de críticas anti-intervencionistas que se
baseavam na incompetência, no arbítrio, no autoritarismo e na corrupção do governo
Dilma. Uma quarta análise, coloca ênfase no fato de que Dilma teria subestimado o
poder do constrangimento externo e que para compensar a retração das exportações
com a ampliação do mercado interno, o Brasil precisaria romper com os parâmetros da
ordem global, limitando o movimento dos capitais e obrigando-os a investimento de
interesse nacional. Uma quinta narrativa, é a de que Dilma teria aberto excessivas
frentes de luta simultaneamente, e que a quantidade de interesses empresariais
contrariados catalisou a solidariedade intercapitalista que acabou por unificar o
conjunto do capital contra a “nova matriz”. Singer ressalta que é essas explicações são
complementares ajudam a compreender as razões que justificam a dissolução da
coalizão produtivista e a formação da frente única burguesa antidesenvolvimentista.