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Parte Geral - Doutrina

A Aposentadoria por Idade na Modalidade Híbrida sob o Ponto de Vista do Princípio da Dignidade da Pessoa
Humana

The Old Retirement in the Hybrid Modality under the Point of View of the Principle of the Dignity of the Human
Person

IARA MARIA DOS SANTOS OLIVEIRA SEVERIANO1


Pós-Graduada em Direito Previdenciário da Rede de Ensino LFG/Anhanguera, Advogada (9148 OAB/RN), Associada ao Fernandes & Carvalho Advogados
Associados.

RESUMO: O presente estudo é resultado da pesquisa sobre a incidência do princípio da dignidade humana, um direito fundamental de nossa Carta
Maior, a partir de artigos e publicações, sobre aposentadoria por idade híbrida do segurado especial. Para tanto, a abordagem ocorreu por duas
frentes: a legal e a doutrinária. A assertiva problematiza de que forma o inciso III do art. 1º da CF/1988 garante a dignidade da pessoa humana na
materialização da aposentadoria por idade híbrida. Concluiu-se que o acesso à Previdência concretiza "o fazer" da dignidade da pessoa humana
àquele homem trabalhador e, mesmo, ao homem do campo.

PALAVRAS-CHAVE: Dignidade; aposentadoria; trabalhador rural híbrido.

ABSTRACT: The present study is the result of research on the incidence of the principle of human dignity, a fundamental right of our Senior Charter,
from articles and publications, on the hybrid age pension of the special insured. For this, the approach took place on two fronts: legal and doctrinal.
The assertion problematizes how section III of article 1 of the CF/1988 guarantees the dignity of the human being in the materialization of retirement
by hybrid age. It was concluded that access to Welfare concretizes "the doing" of the dignity of the human person, that working man, and even, the
man of the field.

KEYWORDS: Dignity; retirement; rural-hybrids worker.

SUMÁRIO:Introdução; 1 Aposentadoria por idade e suas modalidades; 1.1 Noções introdutórias; 2 Requisitos da aposentadoria por idade
do trabalhador rural; 3 O princípio da dignidade da pessoa humana como vetor de análise na aposentadoria por idade rural na modalidade
híbrida; Conclusão; Referências.

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INTRODUÇÃO
Em tempos de ideias conflituosas e dúbias nos tribunais superiores, de claro desentendimento entre os que deveriam ser
guardiões das leis, pautaremos na nossa pesquisa discussões acerca de como o princípio da dignidade humana materializa-se na
aposentadoria híbrida, a nossa contribuição persegue esta seara.
O presente trabalho científico terá por finalidade traçar os principais aspectos da aposentadoria por idade (B 41), trazendo à
tona a Leinº 11.718, de 20 de junho 2008, que incluiu os §§ 3º e 4º no art. 48 da Lei nº 8.213/1991, que possibilitou aos segurados
rurais, para fins de aposentadoria, a inserção do tempo de atividade laboral urbana no preenchimento da carência para
aposentadoria por idade do segurado especial.
Já existe vasta bibliografia que nos oferece um arcabouço teórico-metodológico nesta seara, como as pesquisas
desenvolvidas por Berwanger (2008)2, Bramante (2011)3, Pozza (2013)4, Rubin (2015)5, Folmann e Soares (2015)6.
Os passos metodológicos a serem percorridos no itinerário da pesquisa assentam-se na revisão da bibliografia sobre o
tema, que se constituirá na coleta de dados extraídos de doutrina, artigos científicos, dissertações, entre outros pertinentes à
temática em comento, os quais servirão de norte ao trabalho em apreço, de modo a enriquecê-lo.
Compreender o contexto histórico-social e as diretrizes que compõem a aposentadoria por idade do agricultor pessoa física
é de suma importância para o intérprete da lei. O tema foi escolhido devido a controvérsias quanto à aplicabilidade da Lei nº
11.718/2008 no âmbito do próprio INSS, que reconhece o benefício de forma limitada, na medida em que não o reconhece
quando a última atividade laborativa do segurado foi desenvolvida na cidade. Dessa forma, urge que se estabeleçam padrões
objetivos de interpretação.
Sendo assim, acredita-se que esta pesquisa tem relevância social e acadêmica na esfera previdenciária, já que consiste na
produção de novos conhecimentos e contribui para a efetividade do direito material dos trabalhadores rurais vinculados ao RGPS;
além disso, possibilita ao operador do Direito adquirir novas experiências tanto em questões profissionais como também pessoais.
Portanto, nosso principal objetivo consiste em apresentar clareza e definições históricas sobre a aposentadoria por idade híbrida
do agricultor segurado especial, preceituando seus requisitos e analisando-o sob a ótica do princípio da dignidade da pessoa
humana, corolário dos direitos fundamentais.

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O presente artigo será dividido em três tópicos. O tópico primeiro faz uma breve explanação sobre o instituto da
aposentadoria por idade, sendo este, dentro do grupo de benefícios pagos pelo INSS, o que visa proteger o trabalhador do risco
social pertinente ao excesso da idade. Os aspectos da evolução histórica do instituto no Brasil também são pontuados.
O segundo tópico aborda quais critérios o segurado campesino precisa preencher para a concessão da aposentadoria por
idade rural, seja na via administrativa, seja na via judicial. Durante essa parte do trabalho, busca-se debater o enquadramento do
agricultor pessoa física como segurado especial harmonizando a Instrução Normativa nº 77/2015 do INSS com o entendimento
pacificado no Judiciário.
Após o estudo do conceito, enquadramento legal, requisitos etários e cômputo de carência, objetiva o terceiro tópico
analisar o princípio da dignidade da pessoa humana em sua dimensão ontológica e a aposentadoria por idade híbrida do
agricultor. Esse capítulo também se presta a perquirir se o Estado tem cumprido a obrigação de promover condições que
viabilizem as pessoas de viverem com dignidade.
1 APOSENTADORIA POR IDADE E SUAS MODALIDADES

1.1 Noções introdutórias


Para uma abordagem mais ampla do tema e alinhamento conceitual, faz-se necessário apresentar alguns dados históricos
sobre a Previdência Social para, logo após, realizar sintética análise da aposentadoria por idade.
O conceito de "risco social" em Assis7 tem a ver com a probabilidade de qualquer membro da sociedade ser privado dos
meios essenciais à sobrevivência, por causa de eventualidades inerentes à vida do homem. Nesse norte, a invalidez, a velhice, o
acidente, a morte, entre outros, são considerados, para Neves (200 p. 27), como riscos sociais, e o Estado - na posição de
garantidor do bem-estar social - passou, a partir do século XVII, com a edição da famosa Lei dos Pobres, a criar meios de
proteção para evitar um desfalque na estabilidade econômica e social do indivíduo diante de tais acontecimentos. Com o tempo,
deu-se a criação de um sistema estatal securitário, coletivo e compulsório (Previdência Social), em que a vontade das partes seria
irrelevante.

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Na Carta Política de 1988, essa proteção social dá-se por meio da Seguridade Social, que congrega ações nas áreas da
saúde, seguro, desemprego, Previdência Social e assistência social, os quais têm, inclusive, regulamentação infraconstitucional
própria. Para Ferreira (2002, p. 65, apud Pulino, 2001, p. 34),
enquanto a Constituição Federal estabelece, no art. 196, que a saúde "é direito de todos", enfatizando ainda que as ações
nessa área da seguridade social são de "acesso universal" e, no art. 203, que a assistência social dirige-se "a quem dela necessitar",
para a previdência social, diferentemente, determina no art. 201, caput, que ela há de ser organizada em "caráter contributivo e filiação
obrigatória".
Isso significa que a previdência social constitui-se como um seguro social, em que o trabalhador contribui para posterior
cobertura de riscos e contingências sociais, como a idade avançada, a doença, acidentes, o desemprego involuntário, a invalidez,
a maternidade , a reclusão etc.
Cabe ainda destacar que a Previdência Social do Brasil, cuja gestão coube ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), é
regulamentada especialmente pela Lei nº 8.212/1991 (Lei de Custeio), Lei nº 8.213/1991 (Lei de Benefícios) e Decreto nº
3.048/1999 (norma infralegal regulamentadora geral do plano de benefícios e beneficiários do RGPS). Estrutura-se sob dois
alicerces: o público e o privado. Interessa ao estudo o sistema de previdência público do RGPS, integrado por todos os
trabalhadores que exercem atividades remuneradas.
Dessa forma, os beneficiários do Regime Geral de Previdência Social (trabalhadores filiados na condição de empregado e
empregado doméstico; e inscritos, na condição de segurado especial, contribuinte individual, trabalhador avulso e facultativo), ao
verterem contribuições mensais à Previdência Social com base na renda auferida, terão acesso a pelo menos quatorze benefícios,
entre eles a aposentadoria por idade.
Tendo com pressuposto a proteção do risco social "idade avançada", a aposentadoria por idade no ordenamento jurídico
brasileiro deu-se por meio da Lei nº 3.087/1960, mais conhecida como LOPS (Lei Orgânica da Previdência Social). Como nessa
época8 não havia nenhum critério que diferenciasse os termos idoso e velho, a LOPS a instituiu com nomenclatura de
"aposentadoria por velhice". Contudo, conta Ladenthin9 que, devido ao preconceito dos próprios segurados, em 1991, a Lei nº
8.213/1991 mudou de nome, passando a ser chamada de "aposentadoria por idade". Nesse diapasão, o risco social, que antes
era velhice, passou a ser idade avançada.

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O fato gerador da aposentadoria por velhice na Lei nº 3.807/1960 era a idade de 65 anos para o homem e 60 anos para a
mulher. Além da idade, havia ainda a exigência da qualidade de segurado (tinha que estar contribuindo no momento em que se
protocolou o pedido da aposentadoria), e da carência de 60 contribuições mensais, isto é, apenas cinco anos de contribuição.
Com a edição da Lei nº 8.213/1991, o fato gerador desse benefício continuou sendo a idade, e a faixa etária para postular o
pedido de aposentadoria continuou sendo a mesma, contudo o período da carência da aposentadoria por idade urbana passou a
ser de 180 contribuições. Por causa dessa grande mudança - de 5 para 15 anos de contribuição -, foi necessário estipular regras
de transição para aqueles inscritos na Previdência Social até 24.07.1991 garantindo o direito desses segurados. Além de trazer a
tabela de transição, o art. 142 da Lei de Benefícios estabeleceu a data do requerimento como o marco para a contagem do tempo
de carência.
Porém, no ano de 1995, com a publicação da Lei nº 9.032/1995, o art. 142 foi alterado, modificando a tabela de transição ali
transcrita e estabelecendo, na parte final do dispositivo, que a carência da tabela seria fixada levando-se em conta "o ano em que
o segurado implementou todas as condições necessárias à obtenção do benefício", ou seja, no ano em que o segurado atingiu a
idade e o tempo de 15 anos de contribuição, não importando se o requerimento do benefício no INSS foi feito em momento
posterior a essas conquistas.
Diante de inúmeras críticas na doutrina quanto ao critério do preenchimento simultâneo das condições autorizadoras da
aposentadoria por idade do trabalhador urbano, o STJ10, em vários julgados, decidiu que não era obrigatório esse preenchimento
cumulativo (idade e carência). Também foi sedimentado pela jurisprudência pátria a possibilidade de concessão do benefício,
ainda que o segurado, na época do requerimento, não detenha mais a qualidade de segurado. O do próprio INSS passou a adotar
esse posicionamento (Instrução Normativa nº 45, de 11 de agosto de 201011).

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Além da aposentadoria por velhice, a LOPS, em seu art. 3º, trouxe também ao ordenamento jurídico brasileiro a
aposentadoria por velhice compulsória:
3º A aposentadoria por velhice poderá ser requerida pela empresa (sic), quando o segurado houver completado 70 (setenta)
anos de idade ou 65 (sessenta e cinco) conforme o sexo, sendo, neste caso, compulsória, garantida ao empregado a indenização
prevista nos arts. 478 e 497 da CLT, e paga pela metade.
Essa modalidade de aposentadoria destina-se apenas ao segurado empregado obrigatório - empregado e empregado
doméstico -, uma vez que apenas a empresa/empregador poderá protocolar o requerimento. A idade mínima de 70 anos para o
homem e 65 anos para a mulher, a carência de 180 contribuições e a qualidade de segurado são requisitos que o trabalhador
deverá ter preenchido quando do requerimento feito pelo empregador.
Assim como a Lei nº 3.807/1960, a Lei nº 8.213/1991 destinou apenas um artigo (art. 51) para tratar da aposentadoria por
idade compulsória. Logo, o que de fato mudou naquela e nesta, além da nomenclatura, foi a questão da indenização dos arts. 478
e 479 da CLT; antes era devida pela metade e agora é paga de forma integral.
Sintetizando, hodiernamente, na legislação previdenciária brasileira, além da aposentadoria por idade do trabalhador
urbano e da aposentadoria por idade compulsória, há ainda a aposentadoria por idade do trabalhador rural e a aposentadoria por
idade híbrida. Com características que lhes são peculiares, a aposentadoria por idade do trabalhador campesino e a
aposentadoria por idade híbrida serão analisadas separadamente em tópico próprio a seguir.

2 REQUISITOS DA APOSENTADORIA POR IDADE DO TRABALHADOR RURAL


A inclusão da população rural na previdência social antes de 1988, conforme Berwanger (2008, p. 77), deu-se de forma
parcial e tímida. Essa compreensão, na nossa visão, é perfeitamente correta, pois, embora já existisse o Funrural12 e o Plano
Básico de Previdência Social13, na prática, os trabalhadores rurais continuavam sem proteção.

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Mais tarde, com o Plano de Assistência do Trabalhador Rural - Prorural -, regulamentado pelo Decreto nº 69.919, de
11.01.1972, o rol de beneficiários foi ampliado14; contudo, os benefícios assegurados pelo Prorural aos trabalhadores rurais eram
bem restritos quando comparados aos do trabalhador urbano. Afora isso, exclusivamente o chefe da família, geralmente o
homem, tinha o direito de acessar o Prorural. A mulher, nessa época, não tinha qualidade de segurada; tinha apenas qualidade de
dependente apta a postular o benefício de pensão por morte, em caso de falecimento do cônjuge trabalhador rural.
Além dos serviços de saúde e assistência social, os benefícios concedidos pelo Prorural aos trabalhadores rurais foram a
aposentadoria por velhice aos 65 anos, a aposentadoria por invalidez, pensão por morte e auxílio-funeral15. Diz o decreto que o
valor da aposentadoria por velhice seria de meio salário -mínimo.
Com o advento da Constituição Federal de 1988, importantes avanços foram registrados nos direitos previdenciários dos
trabalhadores rurais. Todas as categorias do gênero trabalhador rural16 passaram a integrar o Regime Geral da Previdência social,
com igualdade de direitos em relação aos trabalhadores urbanos, tendo por base o princípio da uniformidade e equivalência dos
benefícios e serviços às populações urbanas e rurais.
No tocante à aposentadoria, a idade foi reduzida em cinco anos para os trabalhadores rurais e para os que exercem suas
atividades em regime de economia familiar, e o valor dos benefícios foi fixado em um salário -mínimo. Contudo, ressalta Adriane
Bramante de Castro Ladenthin17 que "o benefício ainda era exclusivo do homem, não se estendendo o direito às trabalhadoras
rurais, salvo se comprovassem ser chefes ou arrimo de família". Sobre essa questão, apenas a partir de 1991, com a Lei nº 8.213,
os benefícios e serviços foram estendidos aos demais integrantes do grupo familiar, fossem eles homens ou mulheres.
Atualmente, com alterações produzida pela EC 20/1998, a aposentadoria por idade dos trabalhadores rurais encontra-se
prevista no art. 201,§ 7º, II, da CF/1988:

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Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma de regime geral, de caráter contributivo e de filiação obrigatória,
observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da lei, a:
[...]
§ 7º É assegurada aposentadoria no regime geral de previdência social, nos termos da lei, obedecidas as seguintes condições:
[...]
II - sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade, se mulher, reduzido em cinco anos o limite para os
trabalhadores rurais de ambos os sexos e para os que exerçam suas atividades em regime de economia familiar, nestes incluídos o
produtor rural, o garimpeiro e o pescador artesanal. (grifos nossos)
Desse modo, entre os requisitos concessórios para a aposentação do segurado rural, está a idade de 55 anos para a
mulher e 60, para o homem, começando a ser computado, para fins de tempo de contribuição, na via administrativa e na judicial, a
partir de 12 anos de idade (art. 7º, § 1º, II, da IN 77/2015; Súmula nº 05 da TNU; STJ, REsp 335213/RS). Há também a carência,
que, no caso do segurado especial18, segundo Folman e Soares (2015, p. 112), "não se configura pelo efetivo recolhimento das
contribuições mensais, mas corresponde à comprovação do exercício de atividade rural no período imediatamente anterior à data
do requerimento (DER)". Nesse sentido, dispõe o art. 39, I, da Lei nº 8.213/1991:
Art. 39. Para os segurados especiais, referidos no inciso VII do art. 11 desta lei, fica garantida a concessão:
I - de aposentadoria por idade ou por invalidez, de auxílio-doença, de auxílio-reclusão ou de pensão, no valor de 1 (um) salário
mínimo, e de auxílio-acidente, conforme disposto no art. 86, desde que comprove o exercício de atividade rural, ainda que de forma
descontínua, no período, imediatamente anterior ao requerimento do benefício, igual ao número de meses correspondentes à carência
do benefício requerido.
Sobre a locução "no período, imediatamente anterior ao requerimento do benefício", entende a doutrina e a jurisprudência
nacional que ao trabalhador rural é exigida a qualidade de segurado19, uma vez que, tendo o segurado deixado de desenvolver a
atividade campesina antes de completar a idade exigida para a aposentadoria por idade rural, este não fará jus ao benefício, pois
a Lei nº 10.666/2003, que dispensa essa condição, não é aplicada aos trabalhadores rurais.

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Então, em poucas palavras, pode-se dizer que a idade, a carência e a qualidade de segurado são pressupostos que devem
ser preenchidos pelo rurícola para a obtenção do benefício de aposentadoria por idade rural.
Por fim, alerte-se que, para que o agricultor tenha direito à idade reduzida, é necessária a comprovação da atividade rural e
sobre a aceitação da prova da atividade rural no INSS, é importante asseverar que esta se dá após análise criteriosa. De início,
vale ressaltar que, conforme o art. 63 do Decreto nº 3.048/1960, essa prova não pode ser feita exclusivamente por testemunhas,
exceto em caso de força maior ou caso fortuito. Na verdade, a prova testemunhal é um complemento do que está se pretendendo
provar por meio de documentos.
O art. 62, § 2º, II, do Decreto nº 3.048/1999 e o art. 106 da Leinº 8.213/1991 trazem, de forma exemplificativa, uma lista de
documentos que servem para comprovar a atividade rural. Além desse rol, conforme a Súmula nº 06 da TNU, é possível, para fins
de prova, a utilização de documentos dos integrantes do grupo familiar a que pertence o segurado. Todavia, os documentos
apresentados pelo segurado, seja de terceiros ou do próprio trabalhador, hão que ser contemporâneos ao exercício da atividade
rural, ou seja, não podem ser gerados antes do início ou após o término da atividade campesina.
Pontue-se ainda que esses documentos não precisam ser de todo o período rural que se queira fazer prova, sendo
perfeitamente aceitável na via administrativa e judicial documentos datados de forma intercalada. Tal assertiva, de acordo com
Folman (2015, apud Savaris, 2008, p. 246), deriva do princípio da presunção de conservação do estado anterior, pelo qual
"presume-se que o segurado continuou a atividade rurícola nos períodos não comprovados, mas precedidos de comprovação".

3 O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO VETOR DE ANÁLISE NA APOSENTADORIA POR IDADE
RURAL NA MODALIDADE HÍBRIDA
Felizmente, com o passar dos anos, as leis previdenciárias têm evoluído de acordo com a sociedade; no entanto, como se
sabe, nem sempre foi assim.
Até o ano de 2008, conforme abordado acima, existiam apenas duas modalidades de aposentadoria por idade: a
aposentadoria urbana e a aposentadoria rural. Assim, ou o segurado era urbano ou o segurado era rural, sendo, neste último
caso, admitidos períodos curtos de trabalhos urbanos.

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Em meio a um cenário de êxodo rural, em busca de outras oportunidades, com a consequente descontinuidade no trabalho
campesino, foi publicada a Lei nº 11.718/2008, que entre outras alterações, inseriu o § 3º no art. 48 da Lei nº 8.213/1991 com a
seguinte redação:
Art. 48. [...]
§ 3º Os trabalhadores rurais de que trata o § 1º deste artigo que não atendam ao disposto no § 2º deste artigo, mas que
satisfaçam essa condição, se forem considerados períodos de contribuição sob outras categorias do segurado, farão jus ao benefício
ao completarem 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e 60 (sessenta) anos, se mulher. (grifos nossos)
Em apertada síntese, na aposentadoria híbrida rural é assegurado ao segurado rural mesclar o período urbano ao período
rural para o preenchimento do tempo equivalente à carência da aposentadoria rural (15 anos), sendo aceito, inclusive, no âmbito
administrativo.
Exemplificando: João laborou na lavoura, conforme provas apresentadas ao INSS, de 2000 até 2005. Em janeiro de 2006,
ele conseguiu um trabalho na cidade e mudou-se com toda a família. No início do ano de 2012, João foi demitido e retornou à
roça, onde passou a sobreviver novamente da agricultura até o ano de 2016, época em que requereu e lhe foi concedido o
benefício de aposentadoria por idade rural, na modalidade híbrida.
Frise-se que, no exemplo acima, o pedido de aposentadoria por idade rural híbrida só foi deferido devido às alterações
promovidas pela Lei nº 11.718/2008, uma vez que, antes de 2008, só era considerada, para fins de aposentadoria, a efetiva
atividade desenvolvida exclusivamente no campo. O tempo de trabalho urbano de 5 anos do caso prático acima, para fins de
aposentadoria por idade rural, seria excluído da contagem dos 15 anos. Ora, João contabilizou apenas 9 (nove anos) na
agricultura. Se, porventura, não houvesse a Lei nº 11.718, o pedido de João teria sido indeferido, já que é exigida a comprovação
de 180 meses de atividade puramente rural, ainda que intercalada.
Outrossim, é necessário pontuar que a faixa etária na aposentadoria rural por idade híbrida não é reduzida como na
aposentadoria rural propriamente dita. Ou seja, apesar de ainda ser uma aposentadoria rural, a idade é de 60 anos para a mulher
e 65, para o homem.
Junto com isso, é importante esclarecer que o cálculo do valor do benefício será feito pela média aritmética simples dos
maiores salários de contribuição correspondentes a 80% (oitenta) de todo o período contributivo, conforme estabelece o art. 29,
II, da Lei nº 8.213/1991. Isso quer dizer que o valor do benefício pode ultrapassar um salário -mínimo, se houver salário de
contribuição; se não houver, o valor será fixo, ou seja, um salário -mínimo.

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Ora, no geral, trata-se de uma importante conquista do agricultor, muitas vezes tratado pela legislação com desdém. Essas
e outras conquistas emanam do princípio da dignidade da pessoa humana, que, por meio do subprincípio da igualdade (art. 5º,
caput, da CF/1988) em seu sentido material, autoriza o legislador a tratar igualmente os iguais e desigualmente as situações
desiguais.
Na Carta Maior, a dignidade da pessoa humana encontra-se prevista no art. 1º, III, com a legenda "Dos Princípios
Fundamentais", in verbis:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...]
III - a dignidade da pessoa humana;
[...]
Dessa forma, a dignidade da pessoa humana constitui-se como uma norma fundamental, com um valor supremo, um dos
pilares mais importantes do ordenamento jurídico brasileiro. Essa dignidade exalta o homem (homem/mulher) como sendo o
centro de tudo, cujos direitos fundamentais, segundo os ensinamentos de Miranda (p. 170, apud Ferreira 2002, p. 7), a
Constituição enuncia e protege.
No âmbito da previdência social, o princípio da dignidade humana espalha seus reflexos em vários subprincípios, e, a título
de simples exemplo, citamos o art. 201, § 4º, da Constituição Federal, que proíbe a instituição de prestação previdenciária cujo
valor seja inferior ao salário -mínimo legal.
Seguindo esse norte, as prestações pecuniárias em dinheiro que são disponibilizadas pela previdência ao segurado, em se
tratando de idade avançada, doença, desemprego involuntário, morte, entre outros, denota a ideia de tentativa do legislador em
garantir ao trabalhador e sua respectiva família meios indispensáveis de manutenção, conforme dicção do próprio art. 1º da Lei de
Benefícios.
Persistindo nesse raciocínio, o termo "meios indispensáveis de manutenção" refere-se a condições mínimas de vida, ou
seja, moradia, educação, saúde, alimentação, higiene, lazer, vestuário e transporte. Dessa forma, conclui-se que o intuito das
prestações prescritas no art. 18 da Lei nº 8.213/1991 é o de garantir, ao segurado, existência com dignidade.

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Por tudo o que aqui foi exposto, acredita-se que uma das formas de instrumentalização do princípio da dignidade da
pessoa humana, senão a principal, é a garantia, por parte do Estado, por meio da seguridade social, de manutenção da vida do
indivíduo. Os benefícios previdenciários são, na verdade, instrumentos de viabilização desse direito fundamental na medida em
propicia ao segurado e a sua família, com a renda do benefício, uma alimentação, uma consulta médica, uma vestimenta, o
financiamento da casa própria etc.

CONCLUSÃO
É inquestionável que o direito à aposentadoria, ou seja, o acesso à Previdência concretiza "o fazer" da dignidade da pessoa
humana àquele homem trabalhador e, mesmo, ao homem do campo, em um país que ocupa o 13º no ranking de desigualdade
social, de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH), elaborado pelas Nações Unidas.
O desenvolvimento do presente estudo possibilitou uma análise sobre o benefício previdenciário da aposentadoria por
idade e suas modalidades, com enfoque na aposentadoria por idade híbrida do segurado especial.
A aposentadoria por idade do Regime Geral de Previdência Social encontra-se prevista no art. 201, I, da Carta Maior, bem
como na Leinº 8.213/1991, arts. 48 a 56; no Decreto nº 3.048/1999, arts. 51 a 55; na Instrução Normativa INSS/Pres nº 77/15,
arts. 225 a 233, além de algumas disposições encontradas em legislação esparsa (9.876/1999, 10.666/2003, LC 142/2013 etc.).
Tem como principal objetivo a cobertura do risco social idade avançada.
Antes de ser regulamentada na Constituição Federal de 1988, a aposentadoria por idade foi prevista, inicialmente, pela Lei
Eloy Chaves, de 1923, e pela LOPS (que também previu a aposentadoria compulsória), de 1960. Note-se, contudo, que até aqui
apenas o trabalhador urbano tinha acesso a tais benefícios.
Sobre os trabalhadores rurais, conclui-se, ao longo da pesquisa, que, em termos de proteção previdenciária, essa classe
enfrentou tempos de abandono. O direito de requerer o benefício da aposentadoria por idade só veio quarenta e oito anos após a
inauguração da previdência urbana.

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A partir de 1988, com a Carta Política tendo como premissa maior o princípio da dignidade da pessoa humana, houve um
grande avanço da legislação previdenciária em relação aos trabalhadores rurais. A redução etária em favor do rurícola e a
possibilidade de este poder inserir períodos de atividade urbana na contagem do tempo para fins de aposentadoria por idade
híbrida são exemplos da aplicação do subprincípio da igualdade material, que tem como vetor o próprio princípio da dignidade da
pessoa humana. Com isso, os objetivos propostos foram alcançados.
Em projeto futuro, propõe-se a analisar, em pesquisa de campo, a concessão, na via administrativa (agência do INSS em
Mossoró/RN), o benefício de aposentadoria híbrida ao segurado especial possibilitando, assim, uma avaliação mais ampla de
casos concretos e consequente evolução do pensamento jurídico.

REFERÊNCIAS
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de contratação de financiamentos rurais de que trata o § 6º do art. 1º da Lei nº 11.524, de 24 de setembro de 2007; e altera as Leis
nºs 8.171, de 17 de janeiro de 1991, 7.102, de 20 de junho de 1993, 9.017, de 30 de março de 1995, e 8.212 e 8.213, ambas de 24
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