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CRENÇAS

POPULARES
O QUE AS PESSOAS ACREDITAM
E O QUE A BÍBLIA REALMENTE DIZ

SAMUELE BACCHIOCCHI

Tradução
José Barbosa da Silva

Casa Publicadora Brasileira


Título original em inglês: 5 l Introdução
POPULAR BELIEFS
5 : Razões para Escrever este Livro
Copyri^hr © da edição em inglês: Biblical Perspectives, Berrien Spnngs, EUA. 8 i O Método
Direitos internacionais reservados. E
3 9 i O Estilo
Direitos de tradução e publicação em uo
9 : Agradecimentos
língua portuguesa reservados à
CASA PUBLICADORA BRASILEIRA 10 ; A Esperança do Autor
Rodovia SP 127-km 106
Caixa Postal 34 - 18270-970 - Tatuí, SP
Tel.: (15) 3205-8800 - Fax: (15) 3205-8900 11 1. A Natureza da Bíblia
Atendimento ao cliente: (15) 3205-8888
13 Ataques Históricos Contra a Bíblia
www.cpb.com.br
19 Errância Bíblica
1J edição: 3 mil exemplates
2012
27 Inerrância Bíblica
38 Compreensão Adventista Sobre a Natureza da Bíblia
Editoração: Paulo R. Pinheiro e Marcos De Benedicto
Projeto Gráfico: Filipe C. Lima
Capa: Vandir Dorta
48 2. A Imortalidade da Alma
IMPRESSO NO BRASIL / Printed in Brazil 50 : Relance Histórico da Crença na Imortalidade da Alma
60 \ Concepção do Antigo Testamento Sobre a Naaireza Humana
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 69 A Concepção do Novo Testamento Sobre a Natureza Humana
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
77 ; Concepção Dualista Versus Concepção Holística
Bacchiocchi, Samueie
Crenças populares : o que as pessoas acreditam e
o que a Bíblia realmente diz / Samueie Bacchiocchi ;
:raducão José Barbosa da Silva, - Tatuí, SP : Casa 90 i 3. Vida Após a Morte
Publicadora Brasileira, 2012.
FADBA-BIBLIOTECA 92 Crenças Sobre a Vida Futura
Titulo original: Popular Beliefs.
Tom bo: j-Vx-^'^ !"j 96 A Concepção Bíblica de Morte
l . Bíblia 2. Crenças 3. Teologia sistemática
í. Título.
111 ' Sheol no Antigo Testamento

117 Hades no Novo Testamento


CDD-230.046
índices para catálogo sistemático:
1. Crenças populares : Teologia sistemática ; 140 4. Inferno Corno Tormento Sem Fim
Cristianismo 230.046
142 ; A Concepção Tradicional e Popular de Inferno
149 Textos Bíblicos Usados Para Defender o Interno de Fogo
i 63 A Concepção Aniquilacionista de Interno
172 As Implicações Morais do Tormento Eterno
187 5. A Santidade do Domingo
191 , A Relação Teológica Entre o Sábado e o Domingo
198 ; Jesus e a Origem do Domingo l
-Ti
'
203 A Ressurreição e a Origem do Domingo
209 i Reuniões no Primeiro Dia da Semana e a Origem do Domingo VERDADES BÍBLICAS E
216 ; Jerusalém e a Origem do Domingo
220 i Roma e a Origem do Domingo
CRENÇAS POPULARES
225 - A Adoração do Sol e a Origem do Domingo

236 : 6. Mariologia Esta obra é resultado das frequentes abordagens feitas por
243 i A Perpétua Virgindade de Maria cristãos das mais diversas denominações a respeito das crenças
que adotaram. Eram participantes de meus seminários de fim de
254 ; A Imaculada Conceição de Mana
semana e assinantes de minha newsletter Endtime Issues que muitas
266 ! A Assunção Corporal de Maria vezes me perguntavam: "Por que algumas de minhas crenças não
275 : O Papel de Maria Como Mediadora e Redentora estão em harmonia com a Bíblia? Como elas podem ser antibí-
281 ' A Veneração de Maria blicas, se a grande maioria dos cristãos as defende?"
Para responder a perguntas como essas, dediquei trinta anos de
minha vida pesquisando e escrevendo 18 livros que analisam algu-
293 7. Uma Vez Salvo, Salvo Para Sempre
mas crenças populares da atualidade a partir da perspectiva bíblica.
295 Duas Concepções Sobre a Segurança Eterna da Salvação Grande parte dos 200 boletins que enviei por e-mail, durante dez
297 A Predestinação e a Perseverança dos Santos anos, para mais de 35 mil assinantes, também examina crenças po-
305 Argumento a Favor da Salvação Incondicional pulares a partir do ponto de vista histórico e bíblico. Este livro re-
presenta uma ampliação dos estudos postados em meus boletins, fa-
310 Argumento a Favor da Salvação Condicional
cilmente acessíveis no site www.biblicalperspectives/endtimesissues.
316 Salvação Assegurada, Mas Não Garantida
Razões para escrever este livro
8. Batismo Infantil Dois fatores principais me motivaram a passar uni ano de nu-
O Batismo Infantil nas Escrituras nha vida fazendo pesquisas adicionais para escrever o presente li-
vro. O primeiro fator é a minha paixão pela exatidão bíblica e
334 Avaliação dos Argumentos Favoráveis ao Batismo Infantil
histórica. Exemplo disso são os cinco anos que passei na Pontifícia
344 O Batismo Infantil na História Universidade Gregonana de Roma, na Itália, pesquisando oara
Problemas cem o Batismo Infantil minha tese de doutorado sobre a crença popular de que a mi;dan-
ça da adoração do sábado para o domingo veio pela autoridade de
Cristo e dos aoóstolos na comemoração da ressurreição do Senhcr.
CRENÇAS POPULARES JNTRODUÇÃp

As descobertas de minha tese From Sabbath to Sunday [Do Sábado rente com as Escrituras, a razão e a ciência. Em meu livro Immortaíity
Para o Domingo] acham-se resumidas no capítulo 5 deste livro, in- or Resunection? A Bíblica! Study on Human Nature and Destiny [Imor-
titulado "A Santidade do Domingo". O estudo mostra que a crença talidade ou Ressurreição? Um Estudo Bíblico Sobre a Natureza e o
popular da santidade do domingo carece de suporte tanto bíblico Destino do Homem] menciono mais de mil estudos feitos por pes-
quanto histórico. A observância do domingo teve sua origem por quisadores católicos e protestantes.
volta do primeiro século após a morte de Cristo, durante o remado do O pesado ataque académico efetuado contra o conceito dualista
imperador Adriano (l 17-138), como resultado da interação de fatores tradicional sobre a natureza humana acabará alcançando os membros
políticos, sociais, pagãos e religiosos. mais comuns das denominações cristãs. Quando isso acontecer, sobre-
As conclusões de minha pesquisa foram bem aceitas pela banca virá grande crise intelectual e pessoal em cristãos acostumados a crer
examinadora, constituída de cinco eminentes doutores jesuítas. Tan- que na hora da morte sua alma desencarna do corpo para continuar
to é que fui agraciado com a medalha de ouro do papa Paulo VI existindo na beatitude do paraíso ou nos tormentos do inferno. Mui-
por conquistar o maior grau de distinção académica summa cum lande tos cristãos ficarão amargamente decepcionados ao descobrir que sua
(com a maior das honras) em meu trabalho académico e tese From crença no pós-vida não possui fundamento bíblico. A Bíblia ensina
Sabbath to Sunday. Essa experiência me serviu de grande estímulo para claramente que os mortos em Cristo repousam na sepultura até a
reexaminar a validade bíblica e a exatidão histórica de outras crenças manhã da ressurreição.
populares, como as incluídas neste livro. O que é verdade em relação à crença popular na imortalidade da
O segundo fator que me motivou a escrever este livro foi a cres- alma também é com relação às outras crenças analisadas neste livro: pur-
cente necessidade de estudos capazes de ajudar cristãos sinceros e de gatório, tormento sem fim no inferno, intercessão dos santos, mediação
mente aberta a testar a validade de suas crenças, tomando como cri- de Maria, santidade do domingo, salvação incondicional e batismo de
tério a autoridade normativa das Escrituras. Cada vez mais cristãos crianças. A maioria dessas crenças populares remonta sua origem não
da atualidade questionam a autenticidade bíblica de algumas de suas às Escrituras, mas à filosofia platónica de uma natureza humana dupla,
crenças denominacionais. Isso acontece em parte devido ao novo cli- composta de corpo mortal e de alma imortal. A adoção dessa crendice
ma de liberdade intelectual, que estimula as pessoas a lançar um novo pagã, no 2° século, trouxe impacto devastador sobre as crenças e práticas
olhar sobre questões sociais, políticas e religiosas. Nos países ociden- cristãs.
tais, muitas pessoas já não se sentem obrigadas a aceitar cegamente as As crenças populares aqui analisadas foram objeto de pesquisa de
crenças da igreja que frequentam. Elas anseiam descobrir se aquilo em estudiosos pertencentes a diferentes credos. Em muitos casos, eles
que foram doutrinadas se baseia mesmo nos ensinos da Bíblia ou se adotavam posições frontalmente contrárias aos ensinos bíblicos. Men-
não passa de meras tradições religiosas. cionamos neste livro, que dedica um capítulo para cada crença popu-
Tome como exemplo a crença popular na imortalidade da alma, lar, algumas das descobertas feitas por esses pesquisadores.
analisada no capítulo 2 deste livro. Durante séculos, a maioria dos cris- Não resta dúvida de que os conhecimentos disponíveis em ma-
tãos aceitou e ainda aceita como verdade bíblica incontestável a con- téria de Bíblia devem causar muita angústia existencial em milhões
cepção dualista da natureza humana, segundo a qual o ser humano é de cristãos, ao descobrirem surpresos que algumas de suas crenças
composto de um corpo material e mortal e de uma alma espiritual e populares e tradicionais não possuem tundamento bíblico. O propó-
imortal. Porém, em anos recentes, muitos eruditos bíblicos, hiósoros sito deste estudo não é aumentar essa angústia, mas estimular todos os
e cientistas, reexaminando essa crença, descobriram que ela é incoe- cristãos comprometidos com a autoridade normativa das Escrituras a
INTRODUÇÃO

reexaminar suas crenças, rejeitando as que forem comprovadamente Que o Batismo Infantil Fez ao Batismo?]. Sua investigação meticulosa
antibíblicas, A esperança crista de uma redenção pessoal e cósmica desabona a crença popular de que o batismo infantil era comumente
deve se fundamentar nos ensinos da Palavra de Deus e não em tradi- praticado na igreja primitiva. Ele também ressalta as consequências ne-
ções humanas.
gativas do batismo infantil para a história da igreja.
O segundo estudo é de Hendrik Stander e Johannes Louw, dois
O método
especialistas em patrística, internacionalmente conhecidos e altamen-
Este livro analisa oito crenças populares a partir da perspectiva te respeitados. O título do livro deles é Baptism in the Eatiy Church
bíblica. Aceito a Bíblia como autoridade normativa para definir as
[Batismo na Igreja Primitiva]. Embora membros de igrejas reformadas
crenças e práticas cristãs. Pelo fato de as palavras das Escrituras conte- que praticam o batismo de crianças, esses dois eruditos apresentam
rem unia mensagem divina escrita por autores humanos que viveram um exame desapaixonado da história primitiva do batismo baseados
em situações históricas específicas, deve-se empregar todo empenho
num cuidadoso tratamento das fontes primárias. As conclusões a que
no sentido de entender seu significado dentro do contexto histórico. chegam desaprovam o ensino do batismo infantil adotado por suas
Estou convicto de que, para estabelecer o sentido original dos textos
igrejas. Menciono estudos como esses para mostrar que as conclusões
bíblicos e sua atual relevância, precisamos conhecer tanto o contexto deste livro são compartilhadas por competentes pesquisadores perten-
histórico como o literário desses textos. Essa convicção se reflete no
centes a diversas denominações.
método que adotei na análise dos textos bíblicos comumente empre-
gados para apoiar crenças populares. O estilo
Embora eu mesmo seja membro da Igreja Adventista do Sétimo Quanto ao estilo do livro, tentei redigi-lo em linguagem simples e
Dia, na qual trabalhei por mais de 35 anos como professor de Teologia
não técnica. Nos poucos casos em que é forçoso empregar um termo
e História da Igreja na Andrews Unrversity (estado do Michigan, Es- técnico, a definição vem entre parênteses. Para facilitar a leitura, cada
tados Unidos) e missionário na Etiópia, o objetivo deste livro é apre- capítulo é dividido em seçòes e subseções com tópicos apropriados.
sentar não urna defesa apologética do que os adventistas acreditam, Acompanha um breve resumo no fim de cada capítulo. Salvo espe-
mas uma exposição objetiva e honesta do que a Bíblia ensina.
cificação em contrário, todos os textos bíblicos citados são da Versão
De fato, os ensinos deste livro concordam com as crenças da Igreja Almeida Revista e Atualizada, 2a edição. Em alguns casos, enfatizei
Adventista; porém, seu objetivo é analisar crenças populares pela pers- uma palavra-chave ou outra de um texto bíblico pondo-a em itálico
pectiva bíblica, e nào denominacional. Um indício disso é a ausência para evitar abrir uma nota de rodapé, já que o leitor está ciente de que
quase total de referências às fontes advennstas. De um ponto de vista
a Bíblia em português não italiza as palavras.
pratico, todos os estudos académicos citados neste livro foram leitos
por pesquisadores não adventistas. Agradecimentos
Paradoxalmente, em numerosos casos, a lealdade denominacional E extremamente difícil para num citar todas as pessoas às quais
desses eruditos nào os impede de desafiar as crenças das próprias igre- sou grato por terem contribuído para a realização deste livro. InJ.i-
jas de que íazem parte. O capítulo 8, por exemplo, que trata do balis- retamente. tenho um débito para com os eruditos que escrevem m.
mo infantil, menciona dois importantes estudos publicados em 2005
artigos, brochuras e livros sobre as crenças populares aqui analisadas.
O primeiro pertence a DavidWright, especialista em patrística e au- Os escritos dessas pessoas estimularam meu pensamento e ampliaram
tor do livro intitulado What Hás Infant Bapmm Done to Baptúm? [O
minha compreensão e abordagem do assunte.
CRENÇAS POPULARES

Diretamente, quero expressar minha cordial gratidão a unia dúzia


g
de profissionais que encontraram uma brecha em sua agenda atarefada I
O
para revisar o texto original, tecendo preciosos comentários sobre o
estilo e o conteúdo. Não tenho palavras para expressar meu reconhe-
cimento pelo valioso serviço que me prestaram. A NATUREZA DA BÍBLIA:
Agradeço especialmente a Bruce Closser, PhD, que trabalhou du-
rante os últimos 30 anos como professor de inglês na Andrews Uni- ISENTA OU REPLETA DE ERROS?
versity. Ele deu uma contribuição significativa ao corrigir e melhorar
o estilo do texto. Debruçou-se durante muitas horas sobre os origi-
nais, reformulando as frases para que se parecessem mais com inglês e

O
menos com italiano. ponto de partida lógico para nosso exame bíblico de
Por último, mas não menos importante, devo expressar meu espe- algumas crenças populares é avaliar os conceitos vigen-
cial "muito obrigado" à minha esposa, que tem sido para mim cons- tes sobre a natureza da própria Bíblia. Isso se faz neces-
tante fonte de encorajamento e inspiração durante 46 anos de vida sário porque o modo como vemos a Bíblia determina, em última
conjugal. Ela me via muito pouco enquanto eu pesquisava e escrevia instância, o modo como definimos e testamos nossas crenças.
os 18 livros que escrevi. Sem o amor, a paciência e o estímulo dela, As opiniões mais comuns sobre a natureza da Bíblia podem ser
10
teria sido mais difícil para mim completar este último livro. resumidas em duas. Uma tem que ver com o conceito conhecido
como "errância bíblica", ou seja, "a Bíblia está repleta de erros";
A esperança do autor a outra diz respeito ao conceito de "inerrância bíblica", segundo
Este livro foi escrito com o desejo de ajudar cristãos de todos os o qual "a Bíblia está isenta de erros". Cada um desses pontos de
credos a reavaliar suas crenças populares à luz da autoridade normativa vista está sujeito a uma diversidade de interpretações. Em harmo-
da Bíblia. Em um tempo em que a maioria dos cristãos ainda defende nia com o objetivo de nosso estudo, limitaremos nossa análise aos
crenças populares originadas mais nas tradições humanas do que na ensinos principais de cada uma dessas teorias.
revelação bíblica, é imprescindível recuperar essas verdades bíblicas, A errância bíblica é o ponto de vista defendido por crí-
que Deus revelou para nossa salvação eterna. ticos liberais que acreditam ser a Bíblia um livro puramente
É minha esperança que este livro, fruto de muitos meses de dedi- humano, repleto de erros e destituído de revelações sobrena-
cada pesquisa, ajude cristãos de todos os credos a fazer distinção entre turais e manifestações miraculosas. Diante disso, o Antigo e o
verdades bíblicas e crenças populares, e a ampliar seu conhecimento Novo Testamento seriam produções literárias puramente hu-
do glorioso plano de Deus para sua vida. manas, que refletiriam as fraquezas dos seus autores humanos.
Por outro lado, evangélicos conservadores crêem na absolu-
Aoto dos editores: A versão original deste livro em inglês tem dez ta inerrância das Escrituras. Eles garantem que a Bíblia não
capítulos, mas, para torná-lo menos volumoso, dois capítulos foram possui qualquer tipo de erro em seus manuscritos originais.
suprimidos. Alguns chegam mesmo a postular que a inerrância se estende
a todas as referências que a Bíblia taz à história, geografia,
cronologia, cosmologia e ciência.
CRENÇAS POPULARES A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repletajde Erros?

Este capítulo procura mostrar que tanto a errância como a iner- A última parte apresenta a compreensão adventista do sétimo dia
rância são crenças que minam a autoridade da Bíblia por torná-la sobre inspiração e autoridade da Bíblia.Veremos que os adventistas ado-
ou demasiadamente humana ou demasiadamente divina. Isso nos faz tam um ponto de vista equilibrado sobre a inspiração das Escrituras,
lembrar que as heresias se infiltram de diferentes formas, às vezes rejei- quando reconhecem que sua fonte é divina, mas os escritores são hu-
tando abertamente a autoridade e o ensino das Escrituras, outras vezes manos e os escritos dessas pessoas contêm pensamentos divinos em
distorcendo sutilmente sua mensagem. linguagem humana. Corretamente compreendida, a dimensão humana
da Bíblia reforça sua origem e autoridade divina.
Objetivos do capítulo
Este capítulo analisa as controvérsias que existem tanto na "errân- Parte 1
cia" como na "inerrância" da Bíblia. Essas crenças populares antagóni- ATAQUES HISTÓRICOS CONTRA A BÍBLIA
cas são defendidas, em cada extremo, por críticos liberais e evangélicos
conservadores. Faremos primeiramente uma breve incursão histórica Imperadores romanos tentaram destruir a Bíblia
resgatando a origem de cada movimento; depois avaliaremos seus en- Durante os três primeiros séculos, alguns imperadores romanos
sinos à luz da perspectiva bíblica. tentaram eliminar o cristianismo destruindo a Bíblia. Em 22 de fe-
Para situar a atual controvérsia numa perspectiva histórica, investi- vereiro de 303 d.C., o imperador Diocleciano decretou que todo
garemos de fornia sucinta como a distribuição da Bíblia sofreu oposi- exemplar da Bíblia fosse entregue à polícia romana para ser queimado,
• :J • cão tanto fora como dentro da igreja. Isso nos ajudará a compreender Milhares de originais bíblicos valiosos foram destruídos em praça pú- :13

os implacáveis esforços do Maligno para impedir que a mensagem da blica. Muitos cristãos perderam a vida por se recusar a entregar seus
revelação divina alcançasse as pessoas sinceras. pergaminhos sagrados.
O capítulo está dividido em quatro partes. A primeira relata algu- O decreto imperial visava eliminar a presença da religião cristã,
mas tentativas feitas no passado para impedir a distribuição da Bíblia suprimindo sua luz orientadora e autoridade normativa. Destacados
por parte de imperadores romanos, da Igreja Católica, de reis e cléri- filósofos e funcionários do governo alegavam que o cristianismo era
gos ingleses, de líderes das igrejas protestantes, de países muçulmanos responsável pelas crises socioeconômicas que assolavam o império na-
e governos comunistas. quela época.
A segunda parte examina os estudos críticos da Bíblia, mais conheci-
dos como alta crítica. Esse movimento foi em grande parte responsável A Bíblia banida dos países muçulmanos
por minar a autoridade da Palavra de Deus durante os três últimos séculos. Com o advento do islamismo no século 19, países muçulmanos fun-
 terceira parte analisa a crença popular na inerrância bíblica con- damentalistas começaram a banir a Bíblia sistematicamente. Até os dias
forme ensinada convictamente por grande número de evangélicos, de hoje, a distribuição de Bíblias é proibida em países muçulmanos. E
segundo a qual Deus guiou a mente dos escritores sagrados de tal incontável o número de cristãos que perderam a vida por tentar distri-
maneira que eles foram impedidos de cometer qualquer erro. Muitos buir a Bíblia e/ou partilhar seus ensinos com muçulmanos receptivos.
supõem que a Bíblia seja isenta de erros não apenas no que diz respei- O êxito de governantes muçulmanos em niprimir a Bíblia e o cristia-
to a ensinos religiosos, mas também em áreas como geografia, astro- nismo fica evidente nos países por eles conquistados. Antes de os muçul-
nomia, história, cronologia e ciências naturais. Vamos mostrar que essa manos conquistarem o norte da África no século 17, por exemplo, países
suposição ignora a dimensão humana das Escrituras.
A NATUREZA DA BÍBLIA: isenta ou Repleta de Erros?

que produziram lideres religiosos do nível de Agostinho e Tertuliano. papa Pio IX advertiu os arcebispos e bispos italianos contra as sociedades
Hoje, cristãos e Bíblias praticamente não existem nesses países. bíblicas nestes termos:"Sob a proteção das sociedades bíblicas, de há mui-
A distribuição da Bíblia também sofreu ataques dentro da própria to condenadas por esta Santa Sé, eles distribuem aos fiéis, sob o pretexto
cristandade por parte da Igreja Católica e de diversos líderes da igreja de religião, a Bíblia em traduções vernáculas .Visto que infringem as regras
na Inglaterra. Mais recentemente, regimes comunistas também tenta- da igreja, essas versões foram corrompidas e audaciosamente distorcidas
ram impedir a Bíblia de circular e desacreditaram seus ensinos. Cada para produzir um vil significado. Compreendeis bem, pois, que esforços
um desses poderes, atuando de forma diferente, investiu violentamen- vigilantes e cuidadosos deveis envidar para inspirar em vosso povo fiel
te contra a Bíblia, impedindo que fosse distribuída entre os leigos. completo horror a esses livros pestilentos. Lembrai-lhes explicitamente, no
que diz respeito à escritura divina, que nenhum homem, estribando-se
Tentativas católicas de impedir a leitura da Bíblia
em sua própria sabedoria, pode reivindicar o privilégio de temeraria-
No passado, a Igreja Católica se opôs à tradução da Bíblia para a mente distorcer as escrituras dando-lhe um significado próprio, oposto
língua comum do povo e sua distribuição entre os leigos. O direito de ao significado que a santa mãe igreja adota e adotou."4
ler e ensinar a Bíblia era reservado somente ao clero. Ao chamar as Bíblias distribuídas pelas sociedades bíblicas de "li-
O Sínodo deToulouse, realizado em 1229 d.C. e presidido por um vros pestilentos", que deviam ser tratados pelos católicos fiéis com
emissário papal, celebrou o término das cruzadas albigenses aperfeiço- "absoluto horror", Pio IX expressa claramente a posição histórica do
ando o código da Inquisição e proibindo cristãos leigos de possuírem catolicismo em condenar a leitura da Bíblia pelo povo leigo. O moti-
'=-" exemplares da Bíblia. Prescreve o dogma 14: "Negamos aos leigos per- vo é que a leitura da Bíblia tem levado inúmeros católicos a descobrir
missão de possuir os livros do Antigo e Novo Testamento, a menos que que as crenças fundamentais do catolicismo se baseiam em tradições
alguém,por motivo de devoção, deseje possuir o Saltério ou o Breviário eclesiásticas, e não na autoridade bíblica.
para os divinos ofícios ou as horas da bendita Virgem; mas proibimos
ainda mais estritamente possuir qualquer tradução desses livros."' Os valdenses perseguidos por distribuir a Bíblia
O Concílio deTarragona, realizado em 1234 d.C., promulgou um Durante séculos, os valdenses enfrentaram perseguições física, civil
decreto semelhante. O Segundo Cânon determina que "ninguém e económica promovidas pela casa católica de Saboia, sob a acusação
possua os livros do Antigo e Novo Testamento na língua românica, de traduzir e distribuir porções da Bíblia. O massacre mais cruel de
e, se alguém os possuir, deve devolvê-los ao bispo local no prazo de valdenses inocentes ocorreu nos vales do Piemonte italiano em 1655,
oito dias após a promulgação deste decreto, a fim de que sejam quei- comandado pelo exército de Charles Emmanuel II, o católico Duque
mados".' de Saboia, Todo o mundo protestante ficou chocado com esse bru-
Em sua quarta assembleia, o Concílio deTrento (8 de abril de 1546) tal massacre de milhares de valdenses. Oliver Cromwell (1599-1658),
reiterou a inequívoca oposição católica à distribuição das Escrituras pe- Lorde Protetor da Inglaterra, protestou energicamente contra isso; e
las sociedades bíblicas porque "manifesto está. por experiência, que. se John Milton, seu ministro das relações exteriores e poeta, dedicou esta
a Santa Bíblia, vertida para a língua vulgar (idioma comum), for indis- famosa estrofe do Paraíso Perdido aos milhares de valdenses assassinados:
criminadamente permitida a todos, a audácia dos homens, proveniente Vinga, ó Senhor,Teus santos assassinados, cujos ossos
disso, vai causar mais mal do que bem".-3 Jazem dispersos nos frios montes alpinos,
Em suas duas encíclicas. QIÍÍ Phtribus e Nosiis et i\obisaitn. promulgadas Aqueles que guardaram Tua verdade tão pura do passado,
respectivamente em 9 de novembro cie 1846 e 8 de dezembro de 1848, o Quando todos os nossos pais adoravam troncos e pedras.
CRENÇAS POPULARES A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

A Bíblia na experiência de nossa família na Itália papa. John Wycliffe, teólogo e professor da Universidade de Oxford,
A propósito, foi um carpinteiro valdense que emprestou uma Bí- realizou a tradução em 1380 com a ajuda de seus companheiros. Pos-
blia a meu pai quando ele ainda era um jovem católico devoto. Ler teriormente, em 1388, a tradução foi revista por John Purvey, um
aquela Bíblia acabou por tornar-se não só o ponto crítico na expe- contemporâneo mais moço de Wycliffe.
riência religiosa de meu pai, mas também uma influência determi- A tradução tomou como base aVulgata Latina, visto que Wycliffe
nante no futuro de nossa família. Quando meu pai pediu a ajuda e seus companheiros não sabiam hebraico nem grego. Como a Bíblia
de um padre para esclarecer os textos bíblicos que contradiziam os de Wycliffe antecede à invenção da imprensa, as Bíblias manuscritas
ensinamentos católicos, o padre arrebatou a Bíblia das mãos de meu circulavam amplamente e eram lidas com grande avidez. Essas Bíblias
pai, dizendo: "Este livro só vai trazer confusão e desassossego para manuscritas puseram Wycliffe em conflito com os dignitários da igre-
sua alma. Deixe-o comigo." Meu pai perdeu a Bíblia e teve grande ja em Oxford, onde viveu e ensinou a maior parte de sua vida.
dificuldade em comprar outro exemplar, porque o principal forne- Wycliffe acreditava que a Bíblia precisava ser acessada por todos
cedor era a Sociedade Bíblica Estrangeira e Britânica, que atuava os cristãos, devendo ser disponibilizada para uso comum na língua do
clandestinamente a partir de um retiro anónimo. povo. Apesar da enorme oposição que sofreu, perseguiu esse objetivo
Sofri na pele a mesma oposição católica à distribuição da Bíblia com vigor e determinação.
durante os quatro verões que passei na Itália (1952-1956) vendendo Diversas vezes, Wycliffe foi levado a julgamento nos tribunais da
Bíblias a mim fornecidas pela Sociedade Bíblica Estrangeira e Britânica. igreja, mas seus amigos influentes o protegiam. Morreu por causas na-
Com a venda de Bíblias e outros livros religiosos, obtive bolsa de estudos turais em 1384, com a idade de 55 anos, e foi sepultado em sua igreja,
para frequentar a academia adventista do sétimo dia em Florença. Não em Lutterworth, em cuja parede há uma placa em que se lê que a Bíblia
foram poucas as ocasiões em que devotos católicos me procuraram para de Wycíiffe "atraiu sobre ele o ódio amargo de todos quantos mercan-
devolver as Bíblias que haviam comprado, porque o padre deles lhes dis- tilizavam a credulidade e a ignorância popular".
sera que eram Bíblias protestantes e que iam contaminar seu lar. Vinte e quatro anos depois da morte de Wycliffe, no ano 1408, um
Somente a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965) é que a sínodo se reuniu em Oxford para proibir formalmente a leitura da Bí-
Igreja Católica incentivou seus membros a ler as Bíblias católicas blia que ele traduzira para o inglês. Pessoas toram ameaçadas de exco-
anotadas. Essa decisão recente não promoveu nenhum aumento sig- munhão por lerem a Bíblia. A Inglaterra possuía uma Bíblia na língua
nificativo da leitura da Bíblia por parte de católicos porque, em países materna antes da maioria das outras nações, mas sua leitura era proibida.
católicos, a Bíblia ainda é vista como um livro que somente padres es- Apesar das punições severas, muita gente continuou a ler a Bíblia
tão autorizados a ler e a interpretar para o povo. Diante disso, a grande de Wycliffe às escondidas. O papa ficou tão furioso com a oposição
maioria dos católicos ainda é biblicamente analtabeta. Só confiam em feita por Wycliffe à igreja organizada e com sua tradução da Bíblia
qualquer ensinamento bíblico se for ensinado pelo padre. para o inglês que, 44 anos após a morte do reformador, no Concílio
de Coiistança. ordenou que os ossos de Wycliffe fossem exumados,
Clérigos ingleses tentaram impedir a distribuição da Bíblia queimados, reduzidos a pó e lançados ao no!
A Bíblia de WycliíFe. Incrível como pareça, até mesmo líderes O Novo Testamento de Tyndale. Outro notável exemplo de
eclesiásticos ingleses tentaram impedir a tradução e dnusão da Bí- tentativa para impedir a distribuição da Bíblia por parte de líderes
blia. A primeira Bíblia inglesa manuscrita, conhecida como Bíblia eclesiásticos ingleses ocorreu por ocasião da tradução inglesa do Novo
de vXVcliffe. sofreu forte oposição de clérigos ingleses e do próprio Testamento íeita por Tyndale a partir de textos gregos. Brilhante
CRENÇAS POPULARES A NATUREZA DA BÍBLi/V Isenta ou Repleta de Erros?

teólogo formado em Oxford e Cambridge, Tyndale se sentia muito os que tentaram contrabandear Bíblias para os países dominados por
angustiado com a ignorância do clero e do povo comum sobre a Bí- esse regime.
blia. Por isso, tomou a decisão de colocar o povo inglês em contato Sistemas políticos e religiosos autocráticos se sentem ameaçados
com a Palavra de Deus, traduzindo-a para a própria língua deles. No pela Bíblia porque a mensagem dela convida as pessoas a oferecer
entanto, teve que enfrentar forte oposição dos poderes seculares e dos a Deus primazia em sua vida. Quando as pessoas aceitam o Deus
potentados religiosos da Inglaterra. Por conta disso, foi forçado a partir da revelação bíblica e fazem dEle o primeiro e único em sua vida,
para a Alemanha a fim de continuar traduzindo o Novo Testamento para não mais se dobram às reivindicações de governantes políticos ou
o inglês. religiosos tirânicos que exigem absoluta lealdade para sua doutrina
Em 1526, os primeiros três mil exemplares da edição em formato ou partido.
in-oitavo do Novo Testamento em inglês de Tyndale foram publi- Conclusão. As tentativas passadas de suprimir a Bíblia, queiman-
cados emWorms, Alemanha. Quando os exemplares chegaram à In- do-a ou banindo-a, se demonstraram inúteis. Cristãos preferiram so-
glaterra, o bispo de Londres, CuthbertTunstall, ordenou que fossem frer tortura e morte a negar as verdades bíblicas que os tornaram
recolhidos e queimados na St. Pauis Cross, em Londres. Com o livres. A Bíblia permanece imbatível, ano após ano, como o livro mais
passar do tempo, o Novo Testamento de Tyndale se tornou a base vendido do mundo. Também continua a ser a maior força de renova-
para a tradução King James. ção moral da sociedade humana.
Pelo atrevimento de traduzir e publicar a Bíblia em inglês,Tyndale Voltaire, o renomado irreligioso francês que morreu em 1778, pre-
18
sofreu ataques implacáveis tanto do bispo Tunstall, de Londres, como disse que dentro de no máximo cem anos o cristianismo estaria ex-
de William Warham, o arcebispo da Cantuária, e de Thomas Moore, tinto. Em vez disso, por ironia da história, vinte anos após sua morte, a
o chanceler do parlamento inglês. Esses homens enviavam agentes Sociedade Bíblica de Genebra passou a usar a casa dele como gráfica
secretos para emboscá-lo, enquanto ele mudava continuadamente de para impressão e publicação da Bíblia! Nenhum outro livro na história
domicílio a partir de sua base na Antuérpia. foi tão odiado, queimado e proibido. No entanto, ainda sobrevive, al-
Por último, Tyndale foi detido e aprisionado no castelo deVilvor- cançando quase todas as pessoas do mundo com as suas quase duas mil
de, a poucos quilómetros de Bruxelas. No início de outubro de 1536, traduções. Seus princípios continuam a servir como fundamento moral
foi estrangulado no pátio do castelo. Foi tão eficaz a oposição contra de muitas sociedades.
a tradução inglesa do Novo Testamento feita por Tyndale que, dos 18
mil exemplares contrabandeados para a Inglaterra, restam apenas dois Parte 2
ERRÂNCIA BÍBLICA
exemplares conhecidos.
O insucesso das tentativas que se fizeram no passado para impedir
Ataques comunistas contra a Bíblia
a distribuição da Bíblia não enfraqueceu a determinação do diabo em
Nos últimos tempos, os governos comunistas tentaram desacredi- destruir a autoridade e influência deste Livro. Durante os últimos três
tar a Bíblia e impedir a distribuição dela em seus países. Serviram-se séculos, ele adotou uma nova estratégia, que quase destruiu o elevado
de medidas tanto ideológicas quanto legais. Do ponto de vista ideo- conceito que a Bíblia possui no mundo cristão. O resultado foi uma
lógico, ensinaram às pessoas que a Bíblia era uni livro cheio de fábu- crise teológica de proporções sem precedentes. Essa crise foi precipi-
las e superstições, que devia ser rejeitado pela mente esclarecida dos tada pela adoção de um novo método de investigar a Bíblia conhecido
comunistas. Do ponto de vista legal, detiveram e aprisionaram todos como "crítica da Bíblia" ou "alta crítica '.
_ A NATUREZApA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

vel auxílio no âmbito da introdução bíblica (data, autoria, autenticidade,


Definição de crítica da Bíblia conteúdos, destino, etc.)", reconhece ele, "[a crítica da Bíblia] tende a
A expressão "crítica da Bíblia" descreve a aplicação do moderno mé- difundir-se ilimitadamente para regiões em que a ciência exata não pode
todo literário e histórico-crítico no estudo da Bíblia. Em teoria, a inten- acompanhá-la, regiões onde muitas vezes a imaginação do crítico é a
ção da crítica da Bíblia seria aprimorar a compreensão da Bíblia por meio única lei."3
de um entendimento mais completo de sua mensagem e história literária. Esse método de pesquisa histórica e linguística não é exclu-
Na prática, o que a crítica da Bíblia faz é destruir qualquer confiança na sivo de nosso tempo. Métodos semelhantes foram utilizados no
origem divina da mensagem bíblica, porque pressupõe que seus escritos passado porTeodoro de Mopsuéstia (c. 350-428), que empregava
sejam apenas uma produção literária meramente humana, cheia de erros marcadores gramaticais e históricos para fazer a exegese de textos
e inteiramente condicionada pela cultura da época. bíblicos. O próprio Lutero empregou esse método em suas aná-
lises exegéticas de textos bíblicos. O que é nova é a abordagem
Baixa crítica radical de estudo de textos bíblicos, a qual consiste em rejeitar
Vale lembrar que a outra categoria de crítica, conhecida como "bai- a priori qualquer manifestação divina sobrenatural ou miraculosa
xa crítica", atua de forma diferente da alta crítica. A baixa crítica se pre- na história humana, o que obriga todos os elementos de prova a
ocupa em reconstituir de forma tão precisa quanto possível o texto dos sujeitar-se a esses pressupostos.
20 manuscritos originais a partir dos exemplares subsistentes. Devido à sua
função, a baixa crítica è comumente conhecida como "crítica textual". . O impacto negativo da crítica da Bíblia
21
Ela é mais objetiva do que a alta crítica, porque seu objetivo se limita à É possível perceber o impacto negativo da crítica da Bíblia sobre
análise dos manuscritos textuais disponíveis. o crescente número de eruditos bíblicos, pregadores e cristãos leigos,
que perderam a confiança na fidedignidade da Bíblia. Embora as Es-
Alta crítica crituras tenham sido historicamente consideradas a Palavra revelada
Com a alta crítica é diferente. Embora a alta crítica esteja interes- de Deus, hoje os críticos liberais se recusam a considerar a mensagem
sada na exatidão do texto, sua preocupação primordial é estudar os da Bíblia e a Palavra de Deus como sendo a mesma coisa.
escritos como literatura puramente humana, rejeitando a priori qualquer Um número crescente de líderes cristãos está engrossando o coro
possibilidade de inspiração divina dos escritores e de intervenção divina da incredulidade ao lançar dúvidas sobre a confiabilidade da Bíblia.
nos negócios humanos. A alta crítica investiga os dados referentes à Esse abandono de um elevado conceito da Bíblia terá impacto mais
composição, autoria, possível utilização de fontes e cultura que in- devastador sobre o tuturo das igrejas cristãs do que as tentativas do
fluenciou o texto. É por isso que frequentemente se distingue em crí- passado de destruir a Bíblia.
tica histórica, de fonte, de forma e de redaçào, dependendo do aspecto Os pressupostos antissobrenaturais da crítica bíblica influenciam
da alta crítica que está sendo examinado. os métodos empregados atualmente nos estudos bíblicos e na pre-
O problema fundamental com a aita crítica é ela depender mais das gação de muitos pastores. Falando de sua denominação religiosa (a
especulações subjetivas do crítico cio que da investigação científica veriíi- Igreja Batista). Clark H. Pinnock, respeitado erudito evangélico que
cávei.James Orr apresenta essa ideia ern seu relevante artigo sobre "crítica atuou como presidente da Evangeiical Theological Society. observa
da Bíblia" na International Standard Bible Enciclopédia [Enciclopédia Bíblica com uma nota de pesar que "grande número de líderes e pensadores
Padrão internacional], da qual foi redator-chefe. "Embora de inestimá- em rejeitado de iorma pública e inequívoca e.
CRENÇAS POPULARES A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

algumas vezes, renegado a crença na completa fidedignidade da Bíblia. da Bíblia, ensinando o conceito extremado de inspiração verbal. Os
[...] E somos forçados a admitir que essa mudança de opinião tem liberais reagiram a essa concepção radical indo para o outro extremo:
causado contínua e grave divisão entre grande contingente do povo rejeitando qualquer forma de revelação divina.
batista que adota o ponto de vista tradicional da Bíblia e a maioria Duas principais ideologias filosóficas influenciaram o desenvolvi-
dos professores de faculdades e seminários que abertamente não o mento da crítica da Bíblia, a saber, o racionalismo e o evolucionismo. O
adota".6 nacionalismo, resultado do movimento iluminista do século 18, tentou
Uma crise sem precedentes
reduzir o cristianismo a uma religião criada mais pelo raciocínio hu-
Com uma antevisão quase profética, o renomado teólogo sistemá- mano do que pela revelação divina.
tico A. H. Strong advertia já em 1918 contra os aspectos negativos da O evolucionismo aplicou ao texto bíblico a teoria da evolução das
crítica da Bíblia: "Qual o efeito deste método sobre os nossos seminá- espécies, do simples para o complexo, postulada por Darwin. O re-
rios teológicos? É privar a mensagem do evangelho de toda a confia- sultado foi uma concepção de religião bíblica como produto de uma
bilidade e fazer dos professores e estudantes disseminadores de dúvida. evolução religiosa. Como explica o historiador da igreja Earl Cairns,
[...] A descrença no ensino de nosso seminário é como uma névoa "os críticos enfatizaram que a ideia de Deus se desenvolvera a partir
enceguecedora que envolve lentamente nossas igrejas e abole gradu- de um primitivo deus da tempestade do Monte Sinai para o deus éti-
almente não só todos os pontos de vista confiáveis da doutrina cristã, co e monoteísta dos profetas".8
mas também toda convicção do dever de 'lutar zelosamente pela fé de O resultado final foi que, dentro de um período de tempo relati-
22
nossos pais'. Estamos deixando de ser evangelísticos e evangélicos; e, vamente curto, a Bíblia passou a ser vista como um documento niti-
com o tempo, se essa derrocada continuar, deixaremos até de existir."7 damente humano, destituído de qualquer autoridade transcendente.
Essas terríveis advertências ressaltam a crise sem precedentes pro- Logo, a Bíblia devia ser estudada e interpretada do mesmo modo que
vocada pela crítica da Bíblia. Acham-se em jogo aqui duas versões as outras literaturas, de acordo com os métodos da pesquisa literária.
de cristianismo: uma baseada na revelação divina e outra originada Infelizmente, o ato de forçar a Bíblia a se encaixar nas categorias da
na razão humana. Incrível como possa parecer, à medida que a au- literatura secular, além de lhe distorcer a mensagem, também lhe en-
toridade da Bíblia declina no mundo protestante, ascende a autoridade fraquece a capacidade de transformar vidas humanas.
do papa. A razão é simples. As pessoas se ofendem com a tirania, mas Enquanto a Reforma enfraqueceu a autoridade eclesiástica, a crítica
dão boas-vindas à voz da autoridade. E o papa fala com autoridade da Bíblia enfraqueceu a autoridade bíblica. O resultado é que, para mui-
a milhões de protestantes que já não sabem no que crer. Para eles, o tos pregadores e professores de seminários, a Bíblia já não constitui a
pontífice se tornou, como expressa o historiador eclesiástico Martin normativa e autorizada Palavra de Deus, reveladora de Sua vontade e
E. Marty, "uma fortaleza de fé ambulante" no meio de uma sociedade propósito para a humanidade, mas um livro falível que contém gemas
sem Deus (TV Gnide, 5 de setembro de 1987, p. 34). de verdade misturadas com erros.

As raízes ideológicas dos estudos críticos da Bíblia A crítica da Bíblia do Antigo Testamento
A crítica da Bíblia se desenvolveu nos séculos 18 e 19 como reação De modo geral, acredita-se que a crítica da Bíblia teve sua ori-
parcial aos rígidos ensinos protestantes, fundamentados no conceito gem nos séculos 17 e 18. Homens como Hugo Grotius (1583-1645).
de inspiração verbal. Para neutralizar os ensinos católicos durante o pe- Thomas Hobbes (1588-1679) e Baruch Spinoza (1632-1677), após
ríodo DÓs-reíorma, teólogos protestantes haviam exaltado a autoridade analisar a Bíblia como literatura comum, começaram a duvidar da

&ÍS5K
A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?
CRENÇAS POPULARES ;

autoria mosaica do Pentateuco, encarando-a como resultado de um


Uma avaliação da crítica da Bíblia
longa compilação de diversos redatores.
Pesquisadores posteriores desenvolveram a "teoria documentá- O problema fundamental do movimento crítico é sua recusa em
ria" do Antigo Testamento. O ponto culminante foi alcançado com aceitar determinadas limitações na pesquisa da Bíblia. Uma dessas li-
Julius Wellhausen em sua Prolegomena (1878), onde apresenta a bem mitações é imposta pelo caráter singular da Bíblia. Nenhum outro
conhecida hipótese documentária em quatro estágios (JEPD) de livro religioso exerceu semelhante impacto moral sobre as pessoas.
Graf-Welhausen. Segundo essa hipótese, o Antigo Testamento foi Segundo o relato bíblico, foi após a leitura da lei que o rei Josias
produzido entre o 9° e o 4° século antes de Cristo, por diversos es- se dispôs a arrependimento e reforma (2Rs 22:10-13; 23:1-25). A tra-
critores ou redatores, que reformularam o material de acordo com dução e a leitura feitas por Esdras de porções do Antigo Testamento
suas próprias tradições religiosas. promoveram reformas radicais na vida do povo (Ne 8:1-6; 9:1-3). A
A aplicação dos princípios da crítica da Bíblia não apenas alterou tradução e a distribuição da Bíblia no século 16 inspiraram movimen-
radicalmente as datas e a autoria dos livros do Antigo Testamento, mas tos de reforma em diversas partes da Europa. Nenhum outro livro, seja
também introduziu um estudo de suas fontes inteiramente secular e escrito por Platão, Maomé ou Buda, promove mudanças morais ou
evolucionista. apresenta tão elevado conceito de Deus como a Bíblia.
Isso significa que qualquer investigação crítica do santo livro deve le-
A crítica do Novo Testamento var em conta que a Bíblia não é apenas mais um dos muitos documentos
24 religiosos da antiguidade que subsistiram, mas um livro singular, cuja -^"'
Quase na mesma época, aplicaram-se os pressupostos antissobre-
naturais da crítica da Bíblia ao Novo Testamento. Em 1778, Herman dinâmica difere de qualquer outro livro. Somente com uma atitude de
Samuel Reimarus publicou seus Fmgments [Fragmentos], onde nega a reverência é possível realizar uma pesquisa bíblica autêntica.
possibilidade de milagres, alegando que os escritores do Novo Testa- Os críticos também devem aceitar que os indícios disponíveis para
mento eram mentirosos piedosos. testar a exatidão da Bíblia são limitados. Concluir que algumas decla-
A crítica liberal do Novo Testamento culminou na obra de rações do livro sagrado são inexatas só porque não concordam com a
Rudolf Bultmann, que estava determinado a demitologizar os escri- informação disponível significa ignorar que, em certos casos, a Bíblia é
tores do Novo Testamento. Segundo Bultmann, todas as referências a a única testemunha dos acontecimentos relatados. Novas descobertas rea-
céu, inferno, milagres, nascimento virginal, encarnação, ressurreição, lizadas no século 20 confirmaram, em muitos casos, a confiabilidade do
morte expiatória de Cristo, ascensão e segundo advento são mitos relato bíblico.
e superstições absurdas, inacreditáveis demais para pessoas modernas. Uma avaliação desse movimento seria incompleta se não men-
Para o teólogo alemão, o Novo Testamento é resultado de uma tra- cionássemos o espírito que anima a investigação crítica da Bíblia. Os
dição oral. na qual a igreja adicionou criativamente elementos sobre- críticos estão motivados por seus pressupostos ou por sua fé religiosa?
naturais à vida e ensinos de Jesus. Dessa perspectiva, deve-se estudar O que é supremo em sua forma de pensar: suas teorias ou sua fé? Os
a Bíblia a partir de uma abordagem existencial. As pessoas devem en- princípios fundamentais de uma fé bíblica são atos divinos de criação,
contrar autenticidade, segurança e significado para a existência delas revelação, encarnação, ressurreição, segundo advento e regeneração
além das palavras da Escritura. Bultmann exerceu grande influência pelo Espírito Santo,
sobre o pensamento de especialistas em Novo Testamento e líderes Mas os críticos liberais não aceitam essas crenças. No tini cias con- "•*
eclesiásticos das principais denominações religiosas. tas, a questão é: fundamentados em qual autoridade pesquisaremos a
CRÉN Ç A S POPULARES . . ANATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

Bíblia? Nosso raciocínio será guiado pelos pressupostos críticos ou O impacto negativo da crítica liberal requer um reexame respon-
pelo testemunho interno das Escrituras? Se dermos primazia às supo- sável da inspiração e autoridade da Bíblia. Na secào a seguir, veremos
sições dos críticos, então seremos obrigados a rejeitar na Bíblia tudo como cristãos conservadores reagiram aos ataques dos críticos liberais,
quanto não se ajuste a elas. Lamentável como seja, é isso o que tem desenvolvendo a "Doutrina da Inerrância Bíblica".
acontecido. Os críticos liberais decidiram investigar a Bíblia com base
em suas suposições humanistas e evolucionistas, sendo, consequente- Parte 3
INERRÂNCIA BÍBLICA
mente, compelidos a rejeitar os princípios fundamentais da fé cristã.
Quando as pessoas fazem de sua filosofia pessoal a autoridade su- A questão da inspiração e autoridade da Bíblia raramente preocupou
prema, não é preciso um passo muito grande para, em seguida, fazer os cristãos até um século atrás. Eles olhavam para as Escrituras como
de sua razão seu próprio deus. Para dizer a verdade, esta é a atitude a fonte de sua crença. Aceitavam a autoridade da Bíblia sem defini-la
adotada por alguns críticos liberais. Ao aceitar o pressuposto evolucio- em termos de estar isenta de erro. Nenhum dos principais credos
nista de que todas as coisas existem num estado de mudança e trans- católicos ou protestantes discute a noção de possíveis erros na Bí-
formação, eles presumem que Deus está mudando, que a Bíblia será blia. Somente a partir do século 19 essa questão dominou o cenário
superada e que o cristianismo logo se tornará uma religião obsoleta. religioso.
Isso nos deixa sem verdades absolutas, sem padrões morais, sem senti- Um íator importante que contribuiu para isso foi o impacto ne-
do para a vida presente e sem esperança para o nosso destino futuro. gativo da crítica liberal, que, conforme mencionado anteriormente,
26
reduziu a Bíblia a uma coleção de documentos religiosos cheios de 27
Conclusão
erros e dificuldades textuais. Esse movimento crítico fez com que
É possível resumir as duas principais características da crítica da muitos cristãos abandonassem seu compromisso para com a infalibili-
Bíblia em duas palavras: humanista e naturalista, É humanista porque dade da Bíblia. A fim de defender a posição cristã tradicional sobre a
pressupõe que a Bíblia é a palavra da humanidade sobre Deus, em vez inspiração e autoridade da Bíblia contra os ataques dos críticos libe-
de ser a Palavra de Deus à humanidade. rais, cristãos conservadores desenvolveram o que se tornou conhecido
É naturalista porque admite que a Bíblia seja resultado de um pro- como "Doutrina da Inerrância Bíblica".
cesso evolutivo, um livro que reflete a percepção do povo sobre Deus, Definir a doutrina da inerrância bíblica não é fácil porque ela
editado e emendado durante séculos. Essa concepção evolucionista ocorre de diversas formas. Davi d Dockery, erudito conservador dos
priva Deus, em última análise, de Seu poder criador e redentor. Tam- batistas do sul, identificou nove tipos, que variam desde o ditado
bém destitui a vida humana de sentido e de esperança num futuro mecânico até à inerrância funcional. 1 ' Em consonância com a finali-
glorioso. dade de nosso estudo, limitaremos nossos comentários aos dois pon-
O resultado final desse movimento crítico é que a Escritura perde tos de vista mais comuns de inerrância, conhecidos como inerrância
sua autoridade distintiva, tornando-se apenas uma peça de literatura "absoluta" e "limitada".
religiosa, importante pelos temas tratados, mas sem nenhuma autori-
dade normativa para definir crenças e práticas. Se a Rerorma enfra- Inerrância absoluta
queceu a autoridade eclesiástica quando exaltou a Sola Scrípíura, a crítica Dockery fornece uma requintada definição de "inerrância abso-
da Bíblia enfraqueceu a autoridade bíh/ica quando exaltou o raciocínio luta" a partir da perspectiva de um defensor: "Descobriremos que a
humano. Bíblia em seus autógrafos originais, devidamente interpretada, é fiel
CRENÇAS POPULARES , A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

em tudo quanto afirma no que diz respeito a todas as áreas da vida, Essa definição se assemelha à teoria do ditado verbal, negado pelo
da fé e da prática."10 estilo literário singular de cada escritor e pela existência de discrepân-
O Concílio Internacional de Inerrância Bíblica, criado para de- cias nos textos bíblicos. No entanto, muitos evangélicos consideram
fender a merrância das Escrituras contra os ataques de críticos libe- a aceitação dessa posição uni marco decisivo de ortodoxia. Equipa-
rais, formulou um conceito parecido. Em 1978, cerca de 300 líderes ram a autoridade da Bíblia com sua inerrância, porque presumem que,
de igrejas e pesquisadores evangélicos se reuniram em Chicago para se a Bíblia não se mostrar infalível em questões seculares, então não pode
participar de uma conferência patrocinada por essa entidade. Após três ser confiável em áreas religiosas mais importantes. Eles chegam ao ex-
dias de deliberações, publicaram o que ficou conhecido como The tremo de afirmar que os cristãos não podem ser evangélicos legítimos
Chicago Statement on Biblical Inerrancy [A Declaração de Chicago a menos que creiam na absoluta inerrância da Bíblia. Acreditam que a
Sobre a Inerrância da Bíblia]. negação dessa crença leva à rejeição de outras doutrinas evangélicas e ao
A declaração propõe-se a defender a posição de inerrância colapso de qualquer denominação ou organização cristã. Mostraremos
bíblica contra as concepções liberais da crítica da Bíblia. Os abaixo- em breve que essas alegações não têm fundamento bíblico nem histórico.
assinados procediam de uma diversidade de denominações evangéli-
Inerrância limitada
cas e incluíam eruditos de renome como James Montgomery Boice,
Cari F. H. Henry, Roger Nicole.J. I. Packer, Francis Schaeffer e R. C. Simpatizantes da inerrância limitada opõem-se à ideia de condi-
Sproul. A declaração explica em detalhes os artigos formados por cionar a autoridade da Bíblia à sua isenção de erros. Eles restringem
28
proposições paralelas do tipo "Afirmamos tal coisa" e "Negamos tal a exatidão da Bíblia apenas a questões de salvação e ética. Acreditam
coisa". Para o propósito deste estudo, citamos apenas as declarações que a inspiração divina não impediu os escritores bíblicos de come-
mais importantes: terem "erros" de natureza histórica ou científica, visto que esses não
"Afirmamos que, em sua totalidade, a Bíblia é inerrante, estando afetam a nossa salvação. Para eles, a Bíblia não é isenta de erros em
isenta de toda falsidade, fraude ou engano. Negamos que a infalibili- tudo quanto diz, mas é infalível em tudo quanto ensina a respeito de
dade e a merrância da Bíblia estejam limitadas a assuntos espirituais, fé e prática.
religiosos ou redentores, excluindo informação de natureza histórica Um bom exemplo desse posicionamento é a obra de Stephen T.
e científica. [...] Tendo sido inteira e verbalmente dada por Deus, a Bí- Davis. Em seu influente livro TJie Debate About the Bible: Inerrancy Versus
blia não possui erro ou falha em tudo quanto ensina, quer naquilo que Infalibility [O Debate Sobre a Bíblia: Inerrância Versus Infalibilidade],
declara a respeito dos atos de Deus na criação e dos acontecimentos Davis escreve: "A Bíblia é inerrante se, e somente se, não faz declarações
da história mundial, quer na sua própria origem literária sob a direção de falsas ou desencaminhadoras sobre qualquer tema. A Bíblia é infalível
Deus, quer no testemunho que dá sobre a graça salvadora de Deus se, e somente se, não faz declarações falsas ou desencaminhadoras sobre
na vida das pessoas. [...] Negamos que Deus, ao lazer esses escritores qualquer questão de fé e prática. Nesses sentidos, eu, pessoalmente, acho
usarem as próprias palavras que Ele escolheu, tenha anulado suas per- que a Bíblia é infalível, mas não inerrante."::
sonalidades [...]. As muitas restrições impostas à merrância com o fim de resgatar
"Afirmamos que, estritamente falando, a inspiração diz respeito a credibilidade da teoria fazem tanto sentido para o leigo mediano
apenas ao texto autográfico das Escrituras, o qual, pela providência de quanto expressões do tipo "a quadratura do círculo". Em última aná-
Deus. pode-se determinar com grande exatidào a partir de manuscri- lise, o que se discute não é se a Bíblia está isenta de erros, mas se ela e
tos disponíveis."11 confiável para nossa salvação. Argumentar que a inspiração divina irn-
CRENÇAS POPULARES o - ANATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

pediu os escritores bíblicos de cometer erros em questões de fé e prá- livro, Lindsell faz todo o possível para demonstrar o impacto negativo
tica, mas lhes permitiu cometer erros ao lidar com questões históricas que a tese da inerrância limitada supostamente causaria sobre as igrejas
e científicas, significa criar uma dicotomia absurda. e seminários evangélicos. Ele chega mesmo a nomear os principais es-
Seria o mesmo que dizer que a supervisão do Espírito Santo (ins- tudiosos evangélicos que se afastaram da doutrina evangélica cardeal da
piração) foi parcial e descontinuada, dependendo do assunto aborda- inerrância absoluta, passando a ensinar a inerrância limitada.
do. Tal ponto de vista é negado pela clara afirmação de que "Toda a As reações de ambos os lados foram intensas. O Seminário Teo-
Escritura é inspirada por Deus" (2Tm 3:16; itálico acrescentado). O lógico Fuller defendeu sua posição em favor da inerrância limitada
que se discute aqui não é se a Bíblia foi inspirada no todo ou em parte, publicando uma coleção de ensaios organizados por Jack Rogers, um
mas em que sentido o Espírito Santo influenciou os escritores bíbli- professor da instituição.13 Numa reação contrária, fundou-se o Concílio
cos a fim de garantir a fidedignidade de suas mensagens. Abordaremos Internacional Sobre Inerrância com o propósito declarado de defender
essa questão na última parte deste capítulo. a inerrância absoluta da Bíblia, conforme expressa na Declaração de
Chicago Sobre a Inerrância da Bíblia, citada anteriormente.
Uma breve história do debate sobre a inerrância No ano seguinte, Lindsell escreveu a segunda parte de sua obra,
Antes de analisar alguns dos problemas referentes à tese da iner- Tíie Bíble in the Balance [A Bíblia na Balança], na qual responde às
rância absoluta, é útil fazer um breve relato de sua história. Em seu críticas produzidas por seu livro anterior. Desde 1980, um exército de
artigo sobre "Inerrância Bíblica", Stephen L. Andrews apresenta um evangélicos eminentes tem aderido ao debate. Esse abrandou um pou-
= ' i = ' levantamento conciso do debate sobre o tema.13 Ele chama a atenção co, mas continua a dividir profundamente os evangélicos: inerrantistas ~
para o fato de que a maioria dos historiadores faz remontar a origem absolutos versus inerrantistas limitados. Ao que parece, o que alimenta
do debate sobre a inerrância entre os evangélicos ao fim do século 19, o debate e faz o povo cristão lutar entre si a esse respeito é o interesse
quando críticos liberais e fundamentalistas se digladiaram. Os chama- em defender interpretações denominacionais de doutrinas-chaves. A
dos teólogos de Princeton, A. A. Hodge e B. B.Warfield, foram os mais preocupação básica parece ser a interpretação das Escrituras, em vez
influentes na defesa da doutrina da inerrância bíblica.14 de sua inerrância.
A tese da inerrância, desenvolvida pelos teólogos de Princeton, pres-
Avaliação da inerrância absoluta
supõe que a Bíblia, para ser a "Palavra de Deus" no verdadeiro sentido,
deve ser merrante. Em termos bem simples, o raciocínio deles é o de A teoria da inerrância bíblica absoluta baseia-se, em grande parte,
que, se Deus é perfeito, a Bíblia deve ser perfeita (merrante), porque é a mais no raciocínio dedutivo do que numa análise indutiva dos textos
Palavra de Deus. Essa visão absoluta de inspiração, apesar dos protestos bíblicos. O argumento básico pode ser resumido em três proposições:
em contrário, resulta numa concepção de inspiração "verbal", o que (1) a Bíblia é a Palavra de Deus; (2) Deus nunca é o autor de erros; (3)
minimiza o fator humano. Esse ponto de vista foi combatido por James portanto, a Bíblia está isenta de erros.
Orr e G. C. Berkouwer, ambos defensores da tese da inerrância limitada. Lindsell expressa essa opinião claramente quando diz: "Uma vez
estabelecido que as Escrituras são 'inspiradas por Deus', segue-se
A Batalha de Haroid Lindsel! em Favor da Bíblia axiomaticamente que os livros da Bíblia estão isentos de erros, sendo
O debate começou a esquentar novamente na década de 1960, atin- confiáveis em toda e qualquer matéria."16 Em outras palavras, para os
gindo seu ponto de ebulição em 1976 com a publicação de The Battle inerrantistas, como diz Everett Harnson, "a inerrância é o resultado
for lhe Bíble LA Batalha em Favor da Bíblia], de Haroid Lindsell. Em seu natural da inspiração total"."
CRENÇAS POPULARES^ A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

Esse é um bom argumento? Será que inspiração implica merrân- "1. Incertezas históricas. Davi matou 40 mil homens a cavalo
cia absoluta, ou seja, um texto livre de imprecisões ou de qualquer (2Sm 10:18) ou 40 mil homens a pé (ICr 19:18)? Jesus curou o cego
tipo de erros? A Bíblia testifica de sua própria inspiração, mas não de Bartímeu ao Se aproximar da cidade de Jencó (Lc 18:35) ou quando
inerrância para todas as informações que transmite. Ela nunca define saía dela (Mc 10:46)? Era Hobabe cunhado de Moisés (Nm 10:29)
inspiração em termos de isenção de erros. Em vão se procurará uma ou sogro (Jz 4:11)? O galo cantou uma vez quando Pedro negou ao
passagem bíblica que ensine não haver a possibilidade de declarações Senhor (Mt 26:34, 69-75) ou duas vezes (Mc 14:66-72)? Cama (Lc
imprecisas ou erradas. A razão é que seus escritores não eram apolo- 3:36) se situa genealogicamente entre Sala e Arfaxade, ou não (Gn
gistas nem doutores em teologia sistemática, obrigados a lidar com as 11:12)?
concepções críticas da atualidade acerca da Bíblia. "2. Problemas numéricos e cronológicos. Os que mor-
As duas declarações clássicas sobre inspiração nos dizem que "toda reram da praga foram 24 mil, conforme Números 25:9, ou foram
a Escritura é inspirada por Deus" (2Tm 3:16), e "nunca jamais qual- 23 mil, conforme l Coríntios 10:8? Possuía Salomão 40 mil es-
quer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos trebarias de cavalos (IRs 4:26) ou eram 4 mil (2Cr 9:25)? Tinha
falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (2Pe 1:21). A Joaquim dezoito (2Rs 24:8) ou oito (2Cr 36:9) anos quando co-
questão é: em que sentido é a Bíblia "inspirada-soprada por Deus" e meçou a reinar? Acazias chegou ao trono com a idade de 22 (2Rs
escrita pelo "impulso" do Espírito Santo? 8:26) ou 42 (2Cr 22:2) anos? Davi era o oitavo filho de Jessé (lSm
Foi a Bíblia "inteira e verbalmente dada por Deus", como afirma a 16:10, 11) ou o sétimo filho (lCr 2:15)? O período dos juizes
32
Declaração de Chicago Sobre a Inerrância da Bíblia? Deus fez os es- durou 450 anos (At 13:20) ou cerca de 350 anos, como seria ne-
critores bíblicos "usarem as próprias palavras que Ele escolheu"? Parece cessário para que l Reis 6:1 esteja correto?" 1<s
improvável. Sabemos que os escritores bíblicos não registraram passi- Os resultados do recenseamento ordenado por Davi e levado a
vamente o que Deus lhes sussurrou aos ouvidos, pois cada um deles cabo por Joabe, chefe de seu exército, apresentam discrepâncias seme-
usou seu próprio estilo de escrever e as fontes de que dispunha. E fato lhantes. De acordo com 2 Samuel 24:9,Joabe relatou ao rei que "havia
conhecido que diversos livros da Bíblia foram compilados a partir de em Israel oitocentos mil homens de guerra, que puxavam da espada;
documentos mais antigos, tais como histórias de reis, genealogias e e em Judá eram quinhentos mil". Mas em l Crónicas 21:5, Joabe
tradições orais. A falibilidade dessas fontes se reflete claramente nas informou a Davi que "havia em Israel um milhão e cem mil homens
discrepâncias que encontramos na Bíblia. Alguns exemplos serão sufi- que puxavam da espada; e em Judá eram quatrocentos e setenta mil
cientes para ilustrar esse ponto. homens que puxavam da espada". Não resta dúvida de que os dois
conjuntos de números são bastante diferentes. Um deles é inexato.
Exemplos de discrepâncias na Bíblia Outro exemplo é o preço pago por Davi a Araúna, o jebuseu.
Num artigo intitulado "The Question of Inerrancy m Inspi- pela propriedade na qual o rei edificou um altar e ofereceu nele
redWntings" [A Questão da inerrância em Escritos Inspirados]. sacrifícios para fazer cessar a praga que dizimava o povo. De acordo
Robert Olson. ex-diretor do Ellen White Estate e meu antigo com 2 Samuel 24:24, Davi pagou 50 ciclos de prata pela eira. mas.
professor da área de Bíblia, apresenta um impressionante catálogo de acordo com l Crónicas 21:25, a soma paga foi de 600 ciclos de
de mexatidões bíblicas com que se defrontam os estudiosos. Por ouro. A diferença entre 50 ciclos de prata e 600 cicios de ouro e
amor i brevidade, transcrevemos apenas as duas primeiras listas gigantesca, podendo dificilmente ser explicada corno um erro co-
do catáioço: metido DÓI escriba.
CRENÇAS POPULARES A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

O estudo científico das leituras variantes dos manuscritos bíblicos


O Espírito Santo permitiu as discrepâncias avançou tanto que os pesquisadores de hoje podem estabelecer com
O que parece é que os dois escritores usaram duas fontes diferentes. surpreendente exatidào a leitura dos manuscritos originais. Além do
O Espírito Santo poderia ter contornado o problema das fontes confli- mais, esses problemas são poucos em comparação ao conteúdo de
tantes sussurrando os números corretos ao ouvido dos dois escritores.Tal toda a Bíblia, e não afetam os seus ensinos.
método teria eliminado as discrepâncias e evitado os debates académicos.
Mas o fato é que o Espírito Santo preferiu não sustar nem reprimir as Um único erro torna suspeita toda a Bíblia?
faculdades humanas dos escritores com o objetivo de garantir precisão Alguns inerrantistas afirmam que, a menos que a Bíblia esteja isen-
absoluta. Em vez disso, optou por permitir erros que não afetam nossa ta de erros em cada uma de suas declarações, a fidedignidade de todos
fé e prática. E insensato dizer a Deus que tipo de Bíblia Ele deveria ter os ensinos se torna suspeita. Nas palavras de Dan Fuller:"Se somente
produzido para que os livros sagrados fossem inspirados e inerrantes.19 uma de suas declarações [da Bíblia] estiver errada, a verdade de qual-
Não temos o direito de definir "inspiração" de acordo com nossos quer outra declaração se torna questionável."22
critérios subjetivos de inerrância, a fim de enfrentar o desafio dos estudos O problema com esse argumento é que ele condiciona a fidedigni-
críticos da Bíblia. Ao contrário, precisamos simplesmente olhar e ver o dade dos ensinos bíblicos à exatidão absoluta em detalhes históricos,
tipo de Bíblia que foi produzido sob a supervisão (inspiração) do Espírito geográficos e científicos. No entanto, em parte alguma os escritores
Santo. Quem olha para a Bíblia com a mente aberta concorda realmente bíblicos alegam que todas as suas declarações são infalíveis. A razão
"'"''* com a alegação de que ela é inspirada e autorizada para determinar nossas disso é que,.para eles, os acontecimentos ou as mensagens principais 35"
crenças e práticas, mas não para validar a pretensão de que ela é isenta de eram mais importantes do que seus detalhes circunstanciais.
erros.20 Um exemplo será suficiente para ilustrar esse ponto. Marcos nos diz
que, ao enviar os discípulos em uma missão evangelísticajesus lhes per-
Eram os manuscritos originais isentos de erros? mitiu levar um bordão:"Ordenou-lhes que nada levassem para o cami-
Defensores da inerrância absoluta alegam que somente os manus- nho, exceto um bordão; nem pão, nem alforje, nem dinheiro" (Mc 6:8).
critos originais eram inerrantes, mas não a Bíblia atual. Isso significa No entanto, Mateus e Lucas relatam Jesus proibindo especificamente
que as discrepâncias e erros existentes seriam supostamente resultado da o uso de bordão: "Não vos provêreis de ouro, nem de prata, nem de
transmissão do texto bíblico. Os exemplares originais dos diversos livros cobre nos vossos cintos, nem de alforje para o caminho, nem de duas
da Bíblia estariam isentos de erros porque Deus inspirou os escritores túnicas, nem de sandálias, nem de bordão" (Mt 10:9,10; itálico acrescen-
bíblicos a escreverem com exatidão. tado). "Nada leveis para o caminho: nem bordão, nem alforje, nem pão,
O apelo aos manuscritos originais para justificar os erros existentes nem dinheiro" (Lc 9:3; itálico acrescentado).
na Bíblia deixa uma porta de escape permanentemente aberta para Fica evidente que os dois relatos são contraditórios e que pelo
os merrantistas. Não importa quão patente seja um erro, eles podem menos um dos Evangelhos está equivocado. Mas essa incoerência não
sempre se desviar da questão alegando que se trata de um erro de destrói a confiança no evento relatado, a saber, Cristo comissionou os
transmissão, não presente na versão original. Esse argumento, como discípulos. Ao que parece, para os autores dos Evangelhos, os eventos
ressalta Stephen Davis,"parece intelectualmente desonesto, principal- eram mais importantes do que os detalhes.
mente quando não existem indícios textuais de que o erro suposto se A credibilidade das grandes doutrinas da Bíblia não depende da
deve de fato a um problema de transmissão". 21 precisão de detalhes circunstanciais. E infundado o temor de que, se
CRENÇAS POPULARES A NATUREZA DA BlBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

a inerrância cair por terra, as grandes doutrinas da Bíblia também


cairão. Para ser franco, muitos cristãos que não avalizam a teoria da Avaliação da visão católica
inerrância absoluta crêem nessas doutrinas. Ao fazer de seus ensinos tradicionais a "transmissão viva" da Pa-
lavra de Deus, "realizada pelo Espírito Santo",2'1 a Igreja Católica re-
A compreensão católica sobre a natureza da Bíblia
duziu em grande parte e substituiu por fim a autoridade da Bíblia.
Documentos oficiais católicos não discutem a questão da exatidão O cardeal James Gibbons reconhece esse fato quando declara: "As
do texto bíblico. Para a Igreja Católica, a exatidão da Bíblia é um fato Escrituras sozinhas não contêm todas as verdades nas quais um cristão
indiscutível, fundamentado em sua crença, claramente formulada no deve crer, tampouco prescreve de maneira expressa todos os deveres
novo Catecismo da Igreja Católica, de que "a Sagrada Escritura é o dis- que ele está obrigado a praticar."27
curso de Deus enquanto redigido sob a moção do Espírito Santo".23 Num tom semelhante, John L. McKenzie, professor da Universida-
Isto soa como unia "Teoria do Ditado", já que o próprio catecis- de Notre Dame, afirma: "A Bíblia é a Palavra de Deus, mas foi a igreja
mo define a Bíblia como o discurso de Deus registrado "sob a moção que proferiu a palavra. E a igreja que dá a Bíblia ao crente."28 Ao exal-
do Espírito Santo". O problema com o ensino católico é duplo. Por tar sua autoridade de ensinar, conhecida como Magistério, acima da
um lado, tenta fazer da Bíblia um livro estritamente divino que deve autoridade da Bíblia, a Igreja Católica conseguiu promulgar, ao longo
ser reverenciado como o corpo de Cristo. Por outro lado, enaltece a dos séculos, inúmeros dogmas que violam flagrantemente os inequí-
Tradição, isto é, os ensinos tradicionais da Igreja Católica, ao mesmo vocos ensinos da Bíblia. Analisaremos nos próximos capítulos alguns
36 , ' ' , .
'"-'" nível da natureza divina da Bíblia. ensinamentos católicos que são populares e antibíblicos: imortalidade 37r:
O Catecismo explica que a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus da alma, santidade do domingo, primazia papal, batismo infantil, ve-
escrita, enquanto a Tradição é a transmissão viva da Palavra de Deus con- neração e intercessão de Maria e dos santos, penitência, indulgências,
fiada à igreja. Em outras palavras, Deus Se revela através de duas agên- purgatório e tormento sem fim no inferno.
cias: a Bíblia e os ensinamentos tradicionais da Igreja Católica.
Citando o documento Dei Verbum ("Palavra de Deus"), do Precisa a Escritura ser suplementada pela tradição?
Concílio Vaticano II, assim reza o Catecismo: "Portanto, a Sagrada Constitui rematada arrogância uma igreja alegar que seus ensinos
Tradição e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e com- são a "transmissão viva" da Palavra de Deus, a qual conduz os fiéis à
penetradas entre si."24 Diz mais: "A Sagrada Tradição, por sua vez, "verdade plena", apenas parcialmente contida nas Escrituras. Mas é
transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de isso o que a Igreja Católica afirma: "A comunicação que o Pai fez
Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Após- de Si mesmo por seu Verbo no Espírito Santo permanece presen-
tolos, [...] donde resulta, assim, que a igreja não tira só da Sagrada te e amante na igreja."-'1 Através do Espírito Santo, "a voz viva do
Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por Evangelho ressoa na igreja e, através dela no mundo, leva os crentes
isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de à verdade plena'
piedade e reverência.'' 1 ' A noção de que a Bíblia contém apenas parcialmente as verdaUes
Essa declaração oficial expressa com surpreendente clareza o ensi- reveladas, as quais devem ser suplementadas pelo ensino da Igreja Ca-
no católico de que Scnptnra et Tradition (ou seja, Escritura e Tradição) tólica, nega a toda-suficiência das Escrituras. Paulo declara que "toda a
são os dois canais da revelação divina e constituem a autoridade nor- fc.scnr.ura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão,
mativa para a definição de crenças e práticas católicas. para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homcv".
CRENÇAS POPULARES

de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra" escrita e dada por inspiração divina por intermédio de santos homens de
(2Tm 3:16, 17). Note que a Bíblia contém todos os ensinamentos Deus que falaram e escreveram ao serem movidos pelo Espírito Santo.
necessários para um crente ser "perfeito e perfeitamente habilitado Nessa Palavra, Deus transmitiu ao homem o conhecimento necessário
para toda boa obra". Não há necessidade da tradição para completar para a salvação. As Escrituras Sagradas são a infalível revelação de Sua
a Escritura. vontade. Constituem o padrão de caráter, a prova da experiência, o au-
Jesus censurou energicamente a forma enganosa pela qual a tradi- torizado revelador de doutrinas e o registro fidedigno dos atos de Deus
ção pode minar a autoridade das Escrituras. "Jeitosamente rejeitais o na história."
preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição, [...] inva- Essa Crença Fundamental mostra que os adventistas concordam
lidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição" (Mc 7:9, 13). com os outros cristãos conservadores no particular de que a Bíblia é
A fim de legitimar a validade daquilo que ensinavam, os escritores divinamente inspirada e contém a infalível revelação da vontade de
do Novo Testamento apelavam constantemente para as Escrituras, e Deus para nossa vida. Eles aceitam plenamente a autoridade divina e a
não para a tradição (Mt 21:42;Jo 2:22; ICo 15:3,4; IPe 1:10-12; 2Pe completa fidedignidade das Escrituras, embora jamais tenham defen-
1:17-19). Paulo louvou os bereanos por comparar seus ensinos com dido a doutrina da inerrância bíblica.
a Escritura, e não com a tradição."[Os bereanos] receberam a palavra
Objeções adventistas à inerrância absoluta
com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se
as coisas eram, de fato, assim" (At 17:11). Os adventistas não endossam a doutrina da inerrância da Bíblia por
38
Não resta dúvida de que a revelação divina contida nas Escrituras cinco razões importantes. Primeiramente, os adventistas crêem que os
foi e continua sendo a autoridade final para definir as crenças e práti- escritores da Bíblia foram os autores de Deus, e não a pena do Espírito
cas cristãs. Qualquer tentativa de substituir a autoridade da Bíblia pela Santo. Eles estiveram totalmente envolvidos na produção de seus escritos.
autoridade do magistério de qualquer igreja representa, como disse Alguns deles, como Lucas, reuniram as informações entrevistando teste-
Jesus, uma maneira "jeitosa" de rejeitar o mandamento de Deus para munhas oculares do ministério de Cristo (Lc 1:1-3). Outros, como os
guardar a sua própria tradição, invalidando assim a Palavra de Deus autores de Reis e Crónicas, fizeram uso dos registros históricos de que
(Mc 7:9,13). dispunham. O fato de tanto os escritores como as suas fontes serem hu-
manos, torna irrealista insistir na tese de que não existem declarações
Parte 4 inexatas na Bíblia.
COMPREENSÃO ADVENTISTA SOBRE A Em segundo lugar, as tentativas dos merrantistas de conciliar as
O O
NATUREZA DA BÍBLIA
discrepâncias entre as descrições bíblicas do mesmo acontecimento
Os adventistas do sétimo dia defendem a Bíblia como a única re- resultam, muitas vezes, em interpretações distorcidas e forçadas da Bí-
velação da vontade e plano de Deus para a humanidade. Aceitam-na blia. Harold Lindsell tenta, por exemplo, conciliar os relatos divergen-
como a infalível e normativa autoridade para definir crenças e práti- tes da negação de Jesus por parte de Pedro ao cantar do galo propon-
cas. Crêem que nesse livro Deus oferece à humanidade os conheci- do que Pedro negou Jesus num total de seis vezes!31 É possível evitar
mentos necessários à salvação. essas especulações gratuitas simplesmente aceitando a existência de
A primeira Crença Fundamental da Igreja Adventista do Sétimo Dia discrepàncias irrelevantes nos relatos dos Evangelhos.
apresenta uma declaração concisa da crença da igreja sobre a Bíblia: "As Em terceiro lugar, ao basear a fidedignidade e a infalibilidade da
Bíblia na exatidão de seus pormenores, a doutrina da inerrância ignora
CRENÇA^POPULARES_ A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

que a função principal das Escrituras é a de revelar o plano de Deus da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. Os
para a nossa salvação. A Bíblia não tem a pretensão de nos fornecer in- homens dirão muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus.
formações geográficas, históricas ou culturais exatas, mas tão somente Ele, porém, não Se pôs à prova na Bíblia em palavras, em lógica, em
de nos revelar como Deus nos criou perfeitamente, nos redimiu com- retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não
pletamente e há de finalmente nos restaurar. Sua pena".34
Em quarto lugar, os adventistas entendem que a doutrina da iner- Os adventistas do sétimo dia reconhecem que existem discrepân-
rância da Bíblia não possui fundamento bíblico. Os escritores bíblicos cias ou imprecisões na produção da Bíblia e na transmissão de seu
jamais reivindicaram ser merrantes em suas declarações. Esse concei- texto. "Alguns nos olham seriamente e dizem:'Não acha que deve ter
to tenta tomar como ponto de partida a inspiração divina. Parte do havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores?'Tudo isso
pressuposto de que, se a Bíblia é divinamente inspirada, então deve ser é provável [...], [mas] todos os erros não causarão dificuldade a uma
igualmente inerrante. Mas a Escritura jamais equipara inspiração com alma, nem farão tropeçar os pés de alguém que não fabrique dificul-
inerrância. A natureza da Bíblia deve ser definida dedutivamente, isto dades da mais simples verdade revelada."35
é, considerando todos os dados fornecidos pela própria Bíblia, e não A existência de erros na produção ou transmissão do texto bíblico
indutivamente, ou seja, extraindo conclusões de premissas subjetivas. só é problema para aqueles que desejam "fabricar dificuldades da mais
Uma análise dedutiva das discrepâncias existentes na Bíblia não favo- simples verdade revelada". O certo é que o fato de existirem detalhes
40
rece a tese da inerrância absoluta. imprecisos não enfraquece a validade das verdades fundamentais re-
veladas na Escritura. ^
O papei humano na produção da Bíblia
Uma última razão por que os adventistas rejeitam a doutrina da iner- O caráter divino e humano da Bíblia
rância da Bíblia é o reconhecimento do papel humano na produção da Os adventistas baseiam sua doutrina sobre a natureza da Bíblia em
Bíblia. "A Bíblia aponta a Deus como seu autor; no entanto, foi escrita dois importantes versículos: "Toda a Escritura é inspirada por Deus"
por mãos humanas, e no variado estilo de seus diferentes livros apresenta (2Tm 3:16) e "nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade
as características dos diversos escritores. As verdades reveladas são todas humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos
dadas por inspiração de Deus (2Tm 3:16); acham-se, contudo, expressas pelo Espírito Santo" (2Pe 1:21). Esses versos enfatizam a natureza divino-
em palavras de homens. O ser infinito, por meio de Seu Santo Espírito, humana da Bíblia. Embora tenham sua origem em Deus, as mensagens
derramou luz na mente e no coração de Seus servos."52 dos escritores bíblicos foram expressas em linguagem humana, refletin-
De modo contrário à Declaração de Chicago Sobre a Inerrância da do a formação cultural e educacional dos escritores.
Bíblia, segundo a qual a Bíblia foi "verbalmente dada por Deus", os ad- Reconhecer a natureza divino-humana da Bíblia exclui as duas
ventistas crêem que o Espírito Santo impressionou os escritores da Bíblia concepções equivocadas sobre a Bíblia que discutimos neste capítulo.
com pensamentos, e não com palavras. "Não são as palavras da Bíblia que A primeira é a dos merrantistas. que superestima a dimensão divina da
são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas Escritura e subestima a participação humana, a fim de legitimar a ideia
palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem, que, de que o texto é completamente isento de erros.
sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos."-'-' A segunda concepção, liberal, é a dos críticos, segundo os quais os
Deus inspirou os homens, e não suas palavras. Isso significa que escritos bíblicos refletem apenas ideias e aspirações humanas. Para eles.
a Bíblia "não é a maneira de nensar e s esses escritos são produto de indivíduos de extraordinária capacidade
.CRENÇAS POPULARES,

intelectual e religiosa, que foram influenciados, não pela inspiração do


Espírito Santo, mas pela cultura de seu tempo.
' A NATUREZA DA BÍBLIA: lsenc_aou Repleta de Erros?

de um período de 1.600 anos; apesar disso, todos partilham o mesmo


ponto de vista sobre criação, redenção e restauração final. Unicamen-
Os adventistas rejeitam ambas as concepções, ou seja, tanto a dos te a inspiração divina poderia garantir a unidade temática subjacente
inerraiitistas como a dos críticos liberais. Em vez disso, defendem uma da Bíblia ao longo de séculos cie composição.
concepção equilibrada, alicerçada no próprio testemunho da Bíblia Outra indicação da natureza divina da Bíblia é o seu impacto sobre
(2Tm 3:16; IPe 1:21) acerca de seu caráter divmo-humano. as vidas e sociedades humanas. A Bíblia venceu o ceticismo, o precon-
O livro Nisto Cremos afirma: "Existe um paralelismo entre Jesus ceito e a perseguição do mundo romano. Transformou os valores e as
feito carne e a Bíblia: Jesus combinou em Si Deus e o homem; o práticas sociais das sociedades que lhe abraçaram os ensinos; conferiu
divino e o humano se tornaram Um. De modo similar, a Bíblia tam- um novo valor à vida, imprimiu senso de dignidade à pessoa humana
bém reúne o divino e o humano em um só. O mesmo que foi dito e novo status às mulheres e aos escravos; rompeu com a discriminação
de Cristo, pode ser afirmado da Bíblia: 'o Verbo Se fez carne e habi- social e racial; deu a inumeráveis milhões de pessoas uma razão para
tou entre nós' (Jo 1:14). Essa combinação divino-humana faz com viver, amar e servir.
que a Bíblia assuma um lugar absolutamente singular na literatura."36 O caráter divino da Bíblia também se revela em sua maravilhosa
concepção de Deus, da criação, da redenção e da natureza e destino
A dimensão humana da Bíblia do homem. Não encontramos essas concepções elevadas nos livros sa-
4 Pode-se ver a dimensão humana da Bíblia, por exemplo, no em- grados das religiões pagãs. Nos mitos da criação do Oriente Próximo,
prego do grego koiné, que era a língua do mercado, em vez do uso do por exemplo, os deuses geralmente encontram descanso ou eliminan-
grego da literatura clássica. Revela-a também o estilo literário árido de do deuses importunos ou criando seres humanos para trabalhar a hm
livros como o Apocalipse, que apresenta vocabulário limitado e alguns de que os deuses descansem.38
erros gramaticais. Está presente no aproveitamento de tradições orais No sábado da criação, porém, Deus encontra descanso não por ha-
por homens como Lucas, ou de registros escritos pelos autores de Reis ver subordinado ou destruído concorrentes nem por haver explorado o
e Crónicas. Reflete-se na expressão das emoções humanas, em textos trabalho de seres humanos, mas sim porque realizou uma criação perfeita.
como o Salmo 137, que, descrevendo o sentimento dos cativos hebreus Deus descansou no sétimo dia porque terminou "a Sua obra" (Gn 2:2, 3).
em Babilónia, exclama: "Filha da Babilónia, que hás de ser destruída, Ele parou de trabalhar como uma expressão de Seu desejo de estar com
feliz aquele que te der o pago do mal que nos fizeste. Feliz aquele que Sua criação, para dar às Suas criaturas não apenas coisas, mas a Si mesmo. •
pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra" (SI 137:8, 9). Esse conceito maravilhoso de um Deus que, durante a criação, penetra
Essa forma violenta de linguagem expressa emoções humanas ma- no tempo humano e, pela encarnação, penetra na carne humana a hm de
goadas, mas não o modo de falar divino. O Deus da revelação bíblica Se tornar Emanuel, "Deus conosco", acha-se ausente nas religiões pagãs,
não se compraz em esmagar bebés contra as rochas. É importante onde os deuses normalmente compartilham das fraquezas humanas.
lembrar que o Senhor "'não Se pôs à prova na Bíblia em palavras, em A notável natureza da Bíblia também se revela em sua miraculosa
lógica, em retórica". 37 preservação ao longo da história, apesar dos incansáveis esforços para des-
truí-la. Já mencionamos as tentativas teitas no passado por imperadores
A dimensão divina da Bíblia romanos, lideres de igrejas cristãs e regimes comunistas para suprimir a
A unidade fundamental dos ensinos da Bíblia aponta para sua na- Bíblia. A despeito de todas essas tentativas premeditadas para destruir o
tureza divina. Cerca de 40 autores escreveram 66 livros no decorrer Santo Livro, seu texto chegou até nós essencialmente inalterado. Alguns
r

CRENÇAS POPULARES A NATUREZA DA BÍBLIA: Isenta ou Repleta de Erros?

dos mais antigos manuscritos nos aproximam da composição dos origi- ter tanto divino quanto humano. Os advendstas crêem que a Bíblia é
nais, revelando a surpreendente exatidão do texto que chegou até nós. produto de uma misteriosa mistura de participação divina e humana.
Podemos confiar que nossas Bíblias são versões seguras das mensagens A fonte é divina, os escritores são humanos, mas os escritos contêm
originais. pensamentos divinos em linguagem humana. Essa combinação singu-
Por fim, considerações conceituais e existenciais asseguram a va- lar nos oferece uma revelação confiável e infalível da vontade de Deus,
lidade da Bíblia. Conceitualmente, a Bíblia oferece uma explicação e um plano para a nossa vida presente e destino futuro. Conforme está
razoável para a condição humana e a solução divina para os nossos declarado nas crenças fundamentais adventistas do sétimo dia: "As Es-
problemas. Existencialmente, os ensinos da Bíblia dão sentido à nossa crituras Sagradas são a infalível revelação de Sua vontade. Constituem
existência e nos oferecem razões para viver, amar e servir. Por meio o padrão de caráter, a prova da experiência, o autorizado revelador de
deles, podemos experimentar as ricas bênçãos da salvação. doutrinas e o registro fidedigno dos atos de Deus na história."39

CONCLUSÃO
Fizemos um rápido esboço histórico da controvérsia entre a errância 1 S. R. Maitland, Facts and Doatments (1832), p. 192-194.
e a merrância da Bíblia. Assinalamos que a Bíblia está sendo atacada hoje I D. Lortsch, Historie de Ia Bíble m France (1910), p. 14.

por amigos e inimigos. O pêndulo oscila para ambos os extremos. Por 3 Loraine Boettner, Roman Catholicism (1962), p. 97.

um lado, críticos liberais reduzem a Bíblia a um livro estritamente hu- 4 Nostís et Nobiscum #14, Papal Encydicals Online, www.papalencyclicals.
44
mano, cheio de erros e desprovido de revelações sobrenaturais e mani- net/Piu$09/p9nostis.htm. Itálico acrescentado. 45
festações miraculosas. Por outro lado, alguns evangélicos conservadores 5 James Orr, "Biblícal Criticism", International Standard Bible Encyclopedia,
sacralizam a Bíblia a tal nível que passam por alto a dimensão humana v. l, p. 120.
das Escrituras. Eles declaram, solenemente, que a Bíblia não possui erros 6 Clark H. Pinnock,"Baptists and Biblícal Authonty", em RonaldYoung-
de espécie alguma, inclusive em todas as suas referências a história, geo- blood, ed., Evangelicals and Inerrancy (1984), p. 155.
grafia, cronologia, cosmologia, ciência e assim por diante. 7 A. H. Strong, A Tour of the Missions: Observations and Conclusions (1918),
No tundo, tanto a inerrância como a errância são posições ex- p. 170-174.
tremistas e antibíblicas, visto que minam a autoridade da Bíblia, tor- s Earle E. Cairns, Christianity Through the Centuries:A History ofthe Christian
nando-a ou demasiado humana ou demasiado divina. A solução para Chitrch (1981), l, p. 412.
esses extremos se encontra na palavra-chave equilíbrio — equilíbrio que 9 David Dockery, "Variations on Inerrancy", SBC Today (maio de 1986).
reconheça o caráter tanto divino quanto humano da Bíblia. p. 10,11.
A seu modo. o catolicismo minou a autoridade da Bíblia ao de- 111 David Dockery, "Can Baprists ArTirm the Reliability and Authority of

clarar que seus ensinos tradicionais representavam a "viva transmissão" the Bible", SBC Today (marco de 1985), p. 16.
da Palavra de Deus. Isso possibilitou que a Igreja Católica, ao longo I I ''The Chicago Statement on Biblícal Inerrancy", appendix to Inernincy,

dos séculos, promulgasse grande número de ensinamentos antibíbli- ed. Norman L. Geiser (1980), D. 496.
cos, responsáveis em grande parte por conduzir inúmeros cristãos à 12 Stephen T. Davis, The Debate About thc Bible: Inerrancy Versus Infallibility

apostasia. (1977). D. 23.


A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem historicamente defendido 13 Stephen L. Andrew, "Biblícal Inerrancy". Chafer Theolooícal Semitiary
uma concepção equilibrada sobre a Bíblia, reconhecendo o seu cará- Journal 8 (2002): 2-2;.
CRENCAS_POPULARES

í4 Consultar Claude Welch. Protestant Thought in the Nincteenth Century, v. H. T. Rose (1954), p. 24-36. Uma abordagem breve, mas instrutiva, se
l (1972). encontra em Niels-Erik A. Andreasen, Tlie Old Testament Sabbath, SBL
15 Jack Rogers, ed., Biblical Aiithority (1977), p. 175. Dissertation Series 7 (1972), p. 174-182. No poema épico da criação
16 Harold Lindsell, "The Infallible Word", Chrístiaiiity Today, 25 de agosto babilónica Enuma Elish, o deus Marduque diz: "Criarei um selvagem,
de 1972, p. 11. Consultar também R. C. Sproul, "The Case for Iner- homem será o seu nome. Será encarregado do serviço dos deuses, para
rancy:A Methodological Analysis", em John W. Montgomery, ed., Cod's que estes descansem!" (James B. Pritchard, ed.,Anáent Near Eastern Texts
Inerrant Word (1974), p. 257. [1950] [UT krt A 206-211], p. 68.)
17 Everett Harrison, "The Phenomena of Scripture", em Cari F. H. Henry, > Nisto Cremos (2003), p. 14.
ed., Revelation and the Bíble (1958), p. 250.
18 Appendix A, em Graeme Bradford, More Than a Prophet (2007), p. 237,238.
' c) R. RendtorfF, "Pentateuchal Studies on the Move", Journal for the Stndy
of the Old Testament (1976), 3, p. 45.
2Í) Merrill C. Tenney, "The Legltimate Limits of Biblical Criticism", em
Evangelicak and Inerrancy, ed. Ronald Youngblood (1984), p. 33.
21 Stephen T. Davis (nota 12), p. 25.
22 Citado por Harold Lindsell, The Bíble in the Balance (1979), p. 220.
46
23 Catechism of the Catholíc Church (1994), p. 26. 47
24 Ibid.
23 Ibid.
2 6 Ibid.,p.25.

2' James Cardinal Gibbons, The Faith ofOur Fathers: Being a Plain Exposition
and Vindication ofthe Church Founded by Our Lordjesus Chríst, 110a edição
revisada (l917), p. 89.
28 John L. McKenzie, The Rotnan Catholíc Church (1971), p. 264.
29 Catechism, p. 25.
30 Ibid., itálico acrescentado.
31 Harold Lindsell, The Barde for the Bible (1976), p. 174-176.
52 Ellen G. Whhe, Mensaaens Escolhidas (1985), v. l , p. 25.
33 Ibid., p. 21.
34 Ibid.
35 Ibid., p. 16.
:* Nisto Cremos (2003), p. 21.
37 Ellen G.Whue, Mensagem Escolhidas (1985), v. l,p.21.
•'" Para consideração do tema, consultar R. Pettazzom, "Myths of Begin-
ning and Creation-Myths", em Essays on the Hisiory of Religion, trad.
<N : A IMORTALIDADE DA ALMA
_O
Z!
•l—i ;
morte e passa a viver para sempre e de maneira consciente no céu ou
"CL inferno (ou ainda no purgatório, para os católicos).
ro
U Mas será que a Bíblia ensina essa crença popular? Ensina que te-
mos uma alma imortal, que desencarna na hora da morte e prossegue
A IMORTALIDADE DA ALMA para o céu, inferno ou purgatório? Religiosos típicos irão responder
que "sim". A única coisa que fazem é imaginar que a Bíblia ensina a
imortalidade da alma. Isso é verdade? Certamente NÃO! Este capítulo
mostra que a noção de uma alma imortal coexistindo com um corpo
mortal é estranha para a Bíblia. Tem origem, sobretudo, nas filosofias
gregas pagãs, que gradativamente se introduziram no cristianismo.

D urante toda a história da humanidade, as pessoas se


recusaram a aceitar o caráter irrevogável da morte.Ten-
taram negar a realidade do fim da existência ensinando
diversas formas de vida após a morte. Um componente-chave
Veremos que a posição da Bíblia sobre a natureza humana não é
dualista, mas holística (corpo e alma não são dois componentes dis-
tintos, mas uma unidade indissolúvel). A alma é simplesmente o prin-
cípio que anima o corpo. Então, prepare-se para o que pode ser uma
desse ensino tem sido a crença na sobrevivência da alma em se- das grandes surpresas de sua vida!
parado do corpo depois que a pessoa morre.
Apesar dos avanços científicos em nossa compreensão sobre Objetivos deste capítulo
49
a natureza de vida, a popularidade da crença na imortalidade da Este capítulo persegue três grandes objetivos. Reconstituiremos
alma não diminuiu. Pelo contrário, ela está se espalhando hoje primeiramente e de maneira abreviada a história da crença na imor-
ainda mais rapidamente. Segundo recente pesquisa de opinião talidade da alma, enfocando a influência inicial dos filósofos gregos
pública, 71% dos norte-americanos acreditam em alguma forma Sócrates (470-399 a.C), Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-
de vida consciente após a morte.1 A popularidade dessa crença 322 a.C.) sobre o desenvolvimento da concepção cristã de nature-
pode ser creditada não somente aos ensinamentos tradicionais da za humana. Faremos depois uma breve consideração sobre o papel
Igreja Católica e das igrejas protestantes, mas também a fatores fundamental desempenhado por Tertuliano (155-240), Orígenes (c.
como a imagem glamorosa de médiuns e videntes, as sofisticadas 185-254), Agostinho (354-430) e Tomás de Aquino (1225-1274) em
pesquisas "científicas" em experiências de quase-morte e a po- induzir a igreja a adotar a teoria dualista da natureza humana.
pular comunicação espiritual da Nova Era com supostos espíritos Nosso segundo objetivo é definir o conceito bíblico de alma. O
do passado. estudo dos textos que contêm a palavra "alma" encontrados tanto no
Em consequência disso, poucas crenças são mais amplamente Antigo como Novo Testamento mostra que, contrariamente à crença
compartilhadas hoje do que a da "alma imortal". Quase todos popular, a alma não é uma parte imaterial e imortal da natureza hu-
conhecem essa crença. Se fizéssemos uma enquete, o religioso mana que sobrevive à morte do corpo, mas um princípio vital que
típico definiria a crença mais ou menos assim: um ser humano anima o corpo. A palavra "alma" é, repetidas vezes, usada como sinó-
é composto de corpo e alma. O corpo é a "concha" temporária, nimo da pessoa toda.
física, de carne e sangue, que abriga a alma. A alma é o com- Nosso terceiro objetivo é comparar e contrastar as implica-
ponente imaterial e imortal que abandona o corpo na hora da ções doutrinárias e práticas da concepção holística sobre a natureza
CRENÇAS POPULARES . A IMORTALiDADE DA ALMA

humana com o dualismo platónico adotado por católicos e pela Em parte alguma do mundo antigo foi a vida após a morte motivo
maioria dos protestantes. Veremos que as duas concepções exercem de preocupação tão profunda como no Egito. As incontáveis tumbas
impacto direto ou indireto sobre grande número de crenças e práticas desenterradas por arqueólogos ao longo do Nilo dão eloquente tes-
cristãs. O objetivo central deste estudo é levar os que anseiam pela temunho da crença egípcia na vida consciente após a morte. Os egíp-
verdade a compreender e aceitar o ponto de vista bíblico a respeito cios consumiam quantidade enorme de tempo e dinheiro a fim de se
de nossa natureza e destino. preparar para o outro mundo. Praticavam cerimónias elaboradas com
O material contido neste capítulo é, em grande medida, extraído vistas a aparelhar os faraós para a vida porvir, construindo gigantescas
do meu livro Immortality or Resurrection? [Imortalidade ou Ressurrei- pirâmides e outros túmulos bem trabalhados, abarrotados com os luxos
ção?]. Os leitores interessados podem encontrar nesse volume uma que o morto supostamente iria necessitar no mundo dos espíritos. O
abordagem mais completa sobre o assunto. Por amor à brevidade, te- famoso Livro dos Mortos, uma coíeçào de antigos textos funerários e
mas importantes como a concepção bíblica sobre o "espírito" huma- rituais, descreve com grandes pormenores o modo de enfrentar os de-
no foram deixados fora deste capítulo. safios do pós-vida.

Parte 1 Filósofos gregos promoveram a imortalidade da alma


RELANCE HISTÓRICO DA CRENÇA NA
A crença egípcia na imortalidade da alma existiu séculos antes do
IMORTALIDADE DA ALMA
50
judaísmo, helenismo, hinduísmo, cristianismo e islamismo. De acordo
A mentira da serpente expressa pela frase "não morrereis" (Gn com Heródoto, os gregos adotaram dos egípcios a crença na imorta-
3:4) tem ecoado ao longo da história humana até nosso tempo. Quase lidade da alma."Os egípcios foram também os primeiros a defender a
todas as sociedades crêem de alguma forma no pós-morte. A necessi- doutrina de que a alma humana é imortal", escreveu ele."Essa opinião
dade de tranquilização e segurança (em face do desafio que a morte foi adotada em diferentes períodos de tempo por alguns dentre os
representa para a vida humana) tem levado pessoas de todas as culturas gregos como se fosse sua própria."J
a formular crenças em alguma forma de vida após a morte. Tais cren- O filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.) viajou para o Egito a fim
ças, conforme veremos, refletern as tentativas humanas de alcançar de consultar os egípcios sobre o que eles ensinavam relativamente à
vida imortal mais por meio de especulações humanas do que por imortalidade da alma. De volta à Grécia, transmitiu esses ensinos a seu
revelação divina. discípulo mais famoso, Platão (428-348 a.C). No livro Fédon, Platão
relata o último diálogo de Sócrates com os amigos em seu último dia
Crença dos egípcios na imortalidade da alma de vida. Sócrates foi condenado a morrer por ingestão de cicuta por
E difícil determinar com precisão a origem histórica da crença na corromper os jovens de Atenas, ensinando-lhes "ateísmo", isto é, a
imortalidade da alma, visto que todas as civilizações antigas criam em rejeição dos deuses. O cenário foi uma prisão ateniense; e o tempo, o
alguma forma de vida consciente após a morte. O historiador grego verão de 399 a.C. Sócrates passou seus últimos dias discutindo a ori-
Heródoto, que viveu no 5° século antes de Cristo, conta, em sua obra gem, natureza e destino da alma humana com os amigos mais íntimos.
History [História], que os antigos egípcios foram os primeiros a en- No diálogo, Sócrates declara repetidas vezes que a morte é apenas
sinar que a alma do homem é imortal e separável do corpo. Após a "a separação entre a alma e o corpo", no qual está encerrada. A lin-
morte, a alma transmigraria por diversos animais antes de renascer sob guagem do filósofo é surpreendentemente parecida com a de muitas
a fornia humana. Estimava-se que o ciclo levasse três mil anos.' igrejas cristãs da atualidade. "A alma, cujo atributo inseparável é a
. A IMORTALIDADE DAAlMA
JCRENÇASPOPULARES^

vida, nunca admitirá o oposto da vida, a morte. Assim, a' alma se re- O mais influente escritor judeu helenístico, Filo de Alexandria
vela imortal, e, visto ser imortal, indestrutível. [...] Acreditamos que (c. 20 a.C.-47 d.C), tentou provar de forma sistemática a existência
haja tal coisa como a morte? Sem dúvida. E não é outra coisa senão de harmonia interna entre Platão e Moisés, isto é, entre o pensamen-
a separação entre a alma e o corpo? Morrer, então, consistirá em to religioso judaico e a filosofia grega. Ensinava que o homem tem
apartar-se da alma o corpo, ficando este reduzido a si mesmo e, por uma alma irracional em comum com todos os seres vivos e uma alma
outro lado, em se libertar do corpo a alma e se isolar em si mesma? racional em comum com as almas desencarnadas no céu. Na hora da
Ou será a morte outra coisa? [...] A morte é apenas a separação entre morte do corpo, a alma racional dos justos retorna ao plano dos seres
a alma e o corpo."4 Em Fédon, Platão também explica que existe um celestiais desencarnados, que são as almas, enquanto a alma dos ímpios
juízo após a morte para todas as almas, de acordo com as obras feitas sofrerá castigo eterno.7 Pouco a pouco, o ensino de Filo se infiltrou na
no corpo. As almas justas vão para o céu, e as ímpias para o inferno. 3 igreja cristã, já influenciada por uma forma modificada de platonismo,
O ensino platónico penetrou primeiramente no judaísmo helenísti- chamada neoplatonismo.
co, sobretudo pela influência do filósofo judeu Filo de Alexandria (c. 20
igreja cristã primitiva: imortalidade como dom
a.C.-47 d.C.), e, posteriormente, no cristianismo, em particular pela in-
recebido na ressurreição
fluência deTertuliano (c. 155-230), Orígenes (c. 185-254), Agostinho
(354-430) e Tomás de Aquino (1225-1274). Esses autores tentaram Cristo e os apóstolos ratificaram e esclareceram a concepção ho-
52 combinar o ponto de vista platónico da imortalidade da alma com a lística sobre a natureza humana do Antigo Testamento, ao ensinarem
doutrina bíblica da ressurreição do corpo. que a imortalidade não é uma propriedade humana inata, mas um
dom reservado aos justos, concedido por ocasião da ressurreição. Já os
Dois grupos de escritores judeus durante o pecadores impenitentes serão destruídos no juízo final.
período intertestamental Essa posição continuou inalterada em todos os escritos dos pais
Durante o período intertestamentário, ou seja, os quatro séculos que apostólicos (Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Didaquê, Bar-
separam o final do Antigo Testamento e o inicio do Novo Testamento, sur- nabé de Alexandria, Hérnias de Roma e Policarpo de Esmirna) e em
giram dois grupos de escritores judeus apócrifos. Os primeiros escritores uma notável linhagem de escritores que vieram depois, como Justino,
defendiam a concepção holística do Antigo Testamento de que a imorta- Irineu, Novaciano,Arnóbio e Lactâncio.
lidade não é uma propriedade inerente à natureza humana, mas um dom Lê Roy Froom conclui seu estudo sobre os escritos dos pais apos-
condicional de vida eterna concedido aos crentes na ressurreição. Esse tólicos (escritores que viveram mais próximo dos apóstolos) fazendo
ponto de vista, conhecido como "imortalidade condicional", culminou uma citação de uma pesquisa semelhante e exaustiva feita por Henry
no testemunho condidonalista dos Manuscritos do Mar Morto/' Constable, um padre irlandês anglicano, que diz: ''Do princípio ao
Uni grupo de escritores judeus, posteriormente, foi influenciado fim, não há neles [nos pais apostólicos] nenhuma palavra sobre imor-
pela crença grega na imortalidade da alma, oração pelos mortos e nega- talidade cia alma, que seja tão proeminente nos escritos dos pais pos-
ção da ressurreição. Esses ensinamentos, encontrados no que se conhe- teriores. A imortalidade é para eles direito assegurado aos redimidos.
cia como "escrituras apócrifas do Antigo Testamento", estão presentes [...] Nenhum deles expressa qualquer irase que possa ser interpretada
na Bíblia católica, mas ausentes na Bíblia protestante e no Antigo Tes- como conferindo aprovação à teoria da restauração após sofrimento
tamento hebraico. Abrangem l e 2 Macabeus, Baruque, Judite, adições no purgatório."8 Aphca-se a mesma conclusão aos diversos escritores
em Daniel e Ester, Eclesiástico.Tobias e Sabedoria de Salomão. posteriores mencionados no parágrafo anterior.
r
CRENÇAS POPULARES AJMORTALIDADE DA AJLMA

a restauração universal, até mesmo dos pecadores mais incorrigíveis,


Imortalidade inata infiltra-se tardiamente na igreja incluindo os demónios e o próprio Satanás. Defendia a ideia de que,
Foi a partir da última parte do 2° século que escritores cristãos ado- após um período de castigo corretivo, todos os pecadores seriam
taram uma versão modificada da concepção platónica de imortalidade postos novamente em definitiva sujeição a Cristo.
da alma. Os promotores mais influentes dessa nova doutrina foram Ter- O ensino de Orígenes se origina em grande parte da noção plató-
tuliano (155-240), Orígenes (c. 185-254), Agostinho (354-430) e Tomás nica de que a alma é uma substância imaterial e imortal. Em seu livro
de Aqumo (1225-1274). Diremos algumas palavras sobre cada um deles. De Prindpiis [Do Princípio], o teólogo grego se refere repetidas vezes
à "alma" como uma "substância" que participa da "natureza eterna"
Tertuliano e o tormento eterno e "dura para sempre". "Toda substância que participa dessa natureza
Tertuliano é considerado justificadamente o fundador da teologia eterna deve perdurar para sempre e deve ser incorruptível e eterna.""
latina. Nascido num lar pagão em Cartago, 110 norte da África, rece- Baseado na ideia de que a alma participa da natureza divina e
beu formação jurídica em Roma. Com a idade de 40 anos, voltou a não pode ser destruída, Orígenes raciocinava que a única forma de
Cartago, onde abraçou a fé cristã após testemunhar a coragem dos eliminar definitivamente o mal moral era Deus restaurar a todos, até
mártires e a vida piedosa dos cristãos. Suas numerosas obras apologé- mesmo ímpios incorrigíveis, após Seu "fogo consumidor [...] purifi-
ticas, teológicas e ascéticas em latim exerceram não pouca influência car inteiramente o mal".12
54
sobre o cristianismo latino. Tanto o tormento eterno para os pecadores, postulado por Tertu-
Tertuliano foi o primeiro a formular a doutrina do tormento eter- liano, quanto a purificação dos ímpios pelo fogo, ensinada por Orí- ~
no para os ímpios, quando aplicou a noção de imortalidade da alma genes, apesar de opostos, são ensinos antibíblicos, verdadeiros desas-
a salvos e não salvos. Ele ensinava claramente que "os tormentos dos tres para a verdadeira fé cristã. Um ameaça com um castigo eterno
perdidos serão coeternos com a felicidade dos salvos".9 que Deus nunca decretou, o outro promete uma salvação universal que
Embora rejeitasse o ensino platónico da pré-existência das almas, Deus nunca autorizou. Nas Escrituras, o mal é uma realidade deste
Tertuliano admitia o ensino platónico da imortalidade de todas as al- tempo presente, e não uma parte inevitável da eternidade. Ao permitir
mas. E justificava: "Pois algumas coisas se conhecem até pela natureza: que sua mente fosse guiada mais por filosofias pagãs do que pelos en-
a imortalidade da alma, por exemplo, é crida por muitos.[...] Posso sinos escriturísticos, homens brilhantes como Tertuliano e Orígenes
utilizar, portanto, a opinião de Platão, quando ele declara:'Toda alma é desenvolveram heresias que minaram as crenças e práticas cristãs no
imortal'."10 Note que ele cita a opinião de Platão para apoiar a crença decorrer da história do cristianismo.
na imortalidade da alma. Não faz nenhuma tentativa de validar tal
doutrina pela autoridade da Escritura, porque obviamente, conforme Agostinho define o ensino da alma imortal para a Idade Média
veremos, na Bíblia não existe essa coisa de alma separada do corpo. Agostinho (354-430), bispo de Hrpona, no norte da África, é com jus-
tiça considerado o pensador latino mais influente. Sua influência sobre a
Orígenes e a restauração universal teologia foi imensa, sobretudo até o século 13, quando apareceu Tomás de
A influência do dualismo platónico se manifesta especialmente Aquino.
nos escritos de Orígenes (c. 185-254), que veio a ser reconhecido A influência de Agostinho toi tão poderosa que suas teorias sobre a
como o homem mais erudito de sua geração. Havendo rejeitado a imortalidade natural da alma e o tormento eterno dos ímpios predo-
doutrina do tormento eterno de Tertuliano, promoveu, em vez disso, minaram através dos séculos. Certa vez, ele perguntou: "Que homem
CRENÇAS POPULARES
r A IMORTALIDADE DA ALMA

simples e analfabeto ou mulher obscura não acredita na imortalidade modo de pensar recebeu a influência de Anstóteles, para quem a alma
da alma e numa vida futura?" 13 Isso prova que já naquela época a era essencialmente um princípio vital. Mas Aquino se afastou de Aris-
crença na alma imortal se tornara amplamente aceita. Mas a validade tóteles ao reivindicar existência independente para a alma.
de um ensino não é determinado por sua popularidade, mas pela con- De acordo com Aquino, existe uma unidade substancial entre alma
formidade com o testemunho bíblico. e corpo; ou, mais exatamente, entre o princípio espiritual e o princí-
Para Agostinho, a morte significava a destruição do corpo, o que pio material, que se unem como "forma" e "matéria" a fim de estru-
permitia à alma imortal continuar vivendo ou na beatitude do paraíso turar um ser completo."É claro que a alma está naturalmente unida ao
ou no tormento sem fim do inferno. Na Cidade de Deus, ele escreveu corpo porque, por sua essência, constitui a forma do corpo. Portanto,
que a alma "é, portanto, chamada imortal porque, em certo sentido, é contrário à natureza da alma estar despojada do corpo."15
não cessa de viver e sentir; ao passo que o corpo é chamado mortal Aquino defendia a imortalidade da alma afirmando que ela consti-
porque pode ser deixado ao desamparo de toda a vida, sendo incapaz tui uma "fornia substancial" que existe independentemente do corpo,
de viver por si mesmo".14 mas que deseja se unir a ele novamente no dia da ressurreição. Ele
O teólogo de Hipona modificou a concepção platónica de alma se opunha tenazmente aos que defendiam a posição bíblica de que a
ao ensinar que o ser humano é uma alma racional que se utiliza de alma é o princípio que anima o corpo, que é mortal, até que Deus lhe
um corpo mortal e material, mas a alma não está aprisionada no corpo. confira na ressurreição o dom da imortalidade.
Ensinou também que a alma não preexistia eternamente, conforme A definição aquinense de alma imortal como a forma do corpo se
56
afirmava Platão, mas entrava na existência quando encarnava em um tornou o ensino tradicional da Igreja Católica, em vigor até o dia de 57
corpo. hoje. A linguagem de Aquino chega a se refletir no novo Catecismo da
A fornia modificada de platonismo defendida por Agostinho pre- Igreja Católica, que declara: "A unidade entre a alma e o corpo é tão
dominou em grande parte do pensamento medieval católico até o profunda que se deve considerar a alma como a 'forma' do corpo. [...]
aparecimento de Tomás de Aquino. Durante esse período, os ensinos A igreja ensina que cada alma espiritual é diretarnente criada por Deus
de Sócrates e Platão se tornaram tão amplamente aceitos que os dois - não é 'produzida' pelos pais - e é imortal: ela não perece quando da
homens eram com frequência considerados santos pré-cristãos divi- separação do corpo na morte e se unirá novamente ao corpo na res-
namente inspirados. surreição final."16
Essa definição do Catecismo da Igreja Católica representa em termos
Tomás de Aquino define a doutrina católica exatos aquilo que a Igreja Católica ensina, mas não aquilo que a Bíblia
tradicional da imortalidade da alma ensina.Veremos em breve que a doutrina de uma alma imortal que se
A maioria dos católicos romanos considera Tomás de Aquino separa do corpo no momento da morte é estranha aos ensinos da Bí-
(1225-1274), justificadamente, o seu maior teólogo. A maneira como blia. Origina-se, conforme demonstrou nosso estudo, de especulações
ele definiu a doutrina católica continua insuperável. No que diz res- dualistas gregas que acabaram pervertendo os ensinos da Palavra de
peito à natureza do homem, desenvolveu um dualismo menos radical. Deus.
enfatizando a unidade existente entre corpo e alma. A crença na sobreviv"—; H <r. ..Laia contribuiu para o desenvolvi-
Contrariamente à visão platônica-agostiniana, segundo a qual a mento da doutiina do purgatório, suposto lugar onde as almas dos
alma habita o corpo por certo oeríocio sem tormar com ele um ser mortos são purificadas mediante sofrimento de pena temporal por seus
substancial, Tomás de Aquino considera a alma a jorrna do corpo. Seu Pecados antes de ascenderem ao paraíso. Essa doutrina, bastante popular.
r
CREN^ASJ^OPyLARES A IMORTALIDADE DA ALMA

queimava as pessoas ainda vivas com estresse emocional e financeiro. grande dia final."21 A confissão declara em seguida que a crença no
Como expressa Ray Anderson:" A pessoa precisava ganhar bastante não purgatório é antibíblica.
só para viver, mas também para liquidar a 'hipoteca espiritual' em favor
dos mortos."17 Revitalização da crença na imortalidade da alma
O interesse público na vida da alma após a morte foi revitaliza-
Rejeição do purgatório pelos reformadores
do em nossa época não somente pelos ensinos da Igreja Católica e
A Reforma protestante surgiu, em grande medida, como reação das igrejas protestantes, mas também por diversas tentativas de se co-
às crenças supersticiosas medievais a respeito de almas expiando pe- municar com o espírito dos mortos por meio de médiuns, videntes,
cados no purgatório. Os reformadores rejeitaram como antibíblica e pesquisa "científica" em experiências de quase-morte e comunicação
irrazoável a prática da compra e venda de indulgências para reduzir a espiritual da Nova Era com os espíritos do passado.
permanência no purgatório da alma de parentes mortos. Apesar disso, Na década de 1960, o falecido bispo episcopal James A. Pike deu
continuaram a acreditar na existência consciente de almas no paraíso ampla e renovada atenção à ideia de se comunicar com o espírito dos
ou no inferno. mortos, ao confessar que conversava regularmente com seu falecido fi-
Calvino expressou esse modo de pensar de forma muito mais con- lho. Hoje, nossa sociedade está inundada de médiuns e videntes que
tundente que Lutero.ls No tratado Psychopannychiaig ["O sono da alma"], anunciam seus serviços em nível nacional por meio de TV, revistas, rádio
escrito por ele contra os anabatistas, segundo os quais a única coisa que e jornais.
58
as almas fazem entre a morte e a ressurreição é dormir, o reformador Em seu livro At the Hour ofDeath [Na Hora da Morte], K. Osis e
francês defende a ideia de que, entre a morte e a ressurreição - período E. Haraldson escrevem: "Contrariando expectativas, as experiências
conhecido como estado intermediário -, a alma dos crentes desfruta a espontâneas de contato com os mortos são uma coisa muito difun-
bem-aventurança do céu, enquanto a alma dos descrentes sofre os tor- dida. Numa pesquisa de opinião nacional, [...] 27% da população
mentos do inferno. No dia da ressurreição, o corpo é reunido com a norte-americana informaram ter encontros com parentes mortos,
alma, o que intensifica o prazer celestial ou as angústias infernais. Desde [...] viúvas e viúvos [...] relataram ter mantido encontros mais fre-
então, a maioria das igrejas protestantes aceitou a doutrina do estado quentes com o cônjuge falecido em 51% dos casos."22 A comunica-
intermediário, atitude que teve repercussão nos diversos credos e decla- ção com o espírito dos mortos não é um fenómeno exclusivamente
rações de fé.2" norte-amencano. Enquetes realizadas em outros países revelam uma
A Confissão de Westminster (1646), por exemplo, considerada a porcentagem semelhantemente elevada de pessoas que procuram os
declaração definitiva das crenças presbiterianas (calvinistas) no mun- serviços de médiuns para entrar em contato com o espírito de entes
do de fala inglesa, afirma: "Os corpos dos homens, depois da morte, queridos falecidos. 23
convertem-se em pó e vêem a corrupção; mas as suas almas (que nem
morrem nem dormem), tendo uma substância imortal, voltam ime- Conclusão
diatamente para Deus, que as deu. As almas dos justos, sendo então O levantamento que realizamos demonstrou que a mentira de Sa-
aperfeiçoadas na santidade, são recebidas no mais alto dos céus, onde tanás a Adão e E vá - "não morrereis" (Gn 3:4) - tem sobrevivido
vêem a face de Deus em luz e glória, esperando a plena redenção de diferentes formas ao longo da história humana, principalmente por
dos seus corpos; e as almas dos ímpios são lançadas rio inferno, onde meio da crença na imortalidade da alma e em sua separação do corpo na
ficarão, em tormentos e em trevas espessas, reservadas para o juízo do hora da morte. A popularidade dessa crença tem raízes no desejo de
_ CRÍNÇte POPULARES. = A IMORTALIDADE DA ALMA

desarmar a morte, dando às pessoas a falsa segurança de que possuem As pessoas que lêem as referências do Antigo Testamento a nephesh
dentro de si um elemento divino, capaz de continuar vivendo após a - que na versão King James foi traduzida 472 vezes como "alma" —
morte do corpo. Em essência, o que essa crença faz é anular a neces- com uma percepção dualista terão grande dificuldade em entender a
sidade da volta de Cristo para conceder imortalidade aos crentes na concepção bíblica de corpo e alma como sendo a mesma pessoa vista
ressurreição final. de diferentes perspectivas. Enfrentarão problemas em aceitar o signi-
Nossa única proteção contra a enganosa doutrina da imortalidade da ficado bíblico de "alma" como o princípio que anima tanto a vida
alma consiste em compreender com clareza o que a Bíblia ensina sobre humana como a vida animal. Também ficarão confusas em explicar
a constituição da natureza humana, notadamente a relação existente passagens bíblicas que falam da pessoa morta como uma nephesh-alma
entre o corpo e a alma. É para esse assunto que voltaremos agora nossa morta (Lv 19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm 5:2; 6:6, 11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13;
atenção. Ag 2:13). É inconcebível para elas que uma alma imortal morra junto
com o corpo.
Parte 2
A CONCEPÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO SOBRE O significado de "alma vivente"
A NATUREZA HUMANA
O pressuposto prevalecente de que a alma humana é imortal le-
O ponto de partida lógico para se estudar a visão da Bíblia sobre vou muitos a interpretar a frase "o homem foi feito alma vivente" (Gn
a natureza humana é o relato da criação do homem. Usamos aqui o 2:7, ARC) como "o homem obteve uma alma vivente". Numerosos
60
termo "homem" no sentido bíblico inclusivo significando homem pesquisadores que sabem a diferença entre o dualismo grego e a visão ?f
e mulher. holística da Bíblia sobre a natureza humana contestam essa interpre-
tação.
Génesis 2:7: "alma vivente" Por exemplo, em seu clássico estudo Anthwpology ofthe OldTesta-
A declaração bíblica mais importante para se compreender a na- ment [Antropologia do Antigo Testamento], Hans Walter Wolff faz o
tureza humana se encontra em Génesis 2:7. Como era de se esperar, seguinte comentário sobre Génesis 2:7: "O que nephesh [alma] signi-
esse texto constitui a base para muita discussão a respeito da nature- fica aqui? Certamente não alma [no sentido dualístico tradicional].
za humana, visto que fornece o único relato bíblico de como Deus Nephesh [alma] foi projetada para ser vista junto com a forma toda
criou o homem. O texto diz: "Então, formou o Senhor Deus ao do homem, e principalmente com a sua respiração; além disso, o ho-
homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e mem não tem nephesh [alma], ele é nephesh [alma] e vive como nephesh
o homem passou a ser alma vivente." [alma]."24
Historicamente, esse texto tem sido lido através das lentes do du- Até mesmo o pesquisador católico Dom Wulstan Mork reconhe-
alismo clássico. Parte-se do pressuposto de que o fôlego de vida que ce o tato de que, na Bíblia, alma corresponde à pessoa viva e total.
Deus insuflou nas narinas do homem não era outra coisa senão uma Em seu livro The Biblical Meanino of Man [O Significado Bíblico do
alma imaterial e imortal implantada no corpo material. E, assim como Homem], publicado com o imprimatur católico oficial, Mork escreve
a vida terrena começou com a implantação de uma alma imortal num contrariando as expectativas: "E a nephesh [alma] que dá vida ao bashar
corpo físico, de igual modo termina quando a alma sai desse corpo. [corpo], mas não como uma substância distinta. Adão não tem nephesh
Sendo assim, Génesis 2:7 tem sido historicamente interpretado com [alma]; ele é nephesh [alma], assim como ele é bashar [corpo]. Ao invés
base no tradicional dualismo corpo-aíma. de estar dissociado de seu princípio animador, o corpo constitui a
CRENÇAS POPULARES A IMORTALIDADE DAALMA

nephesh [alma] visível."25 Uma definição tão clara da visão bíblica sobre "alma vivente" como apenas "ser vivo". Em nossa Bíblia Almeida, essa
a natureza humana em um livro publicado com a aprovação católica locução aparece pela primeira vez em Génesis 2:7, quando se descre-
oficial é algo realmente encorajador. O problema é que o estudo aca- ve a criação de Adão. Mas na Bíblia hebraica, assim como na versão
démico de Mork, apesar de publicado com o imprimatur, não afeta a Almeida Corrigida, encontramos a mesma expressão já em Génesis
posição dualista católica tradicional, que se fundamenta na traditio, e 1:20, 21, 24 e 30. Em todos esses quatro versículos, nephesh hayyah
não na pesquisa bíblica. (alma vivente) se refere aos animais, embora os tradutores da maioria
De uma perspectiva escriturística, o corpo e a alma não são duas das versões em português tenham preferido traduzir por "seres viven-
substâncias diferentes (uma mortal e a outra imortal) habitando jun- tes" em vez de "almas viventes". Por quê? Simplesmente porque estão
tas dentro do ser humano, mas duas características da mesma pessoa. condicionados a pensar que os animais não têm alma, mas os seres
Johannes Pedersen sintetiza de forma admirável este ponto, por meio humanos têm uma alma imaterial e imortal.
de uma declaração bem conhecida: "O corpo é a alma em sua forma Norman Snaith, que acha essa tradução enganadora e "a mais re-
externa."26 H.Wheeler Robinson expressa o mesmo ponto de vista provável", reclama: "prejudica a imagem dos revisores [tradutores da
numa declaração igualmente famosa: "A ideia hebraica de personali- versão autorizada] o fato de haverem mantido essa diferença deso-
dade é a de um corpo animado, e não [como pensavam os gregos] de rientadora na tradução. [...] A locução hebraica deveria ser traduzida
uma alma encarnada."27 exatamente da mesma forma em ambos os casos. Fazer o contrário é
Recapitulando, podemos dizer que a frase "o homem passou a ser enganar a todos quantos não lêem em hebraico. Não há desculpa nem
:-''-""- nephesh hayyah [alma vivente]" não significa que, ao ser criado, o corpo de boa defesa. A tendência para atribuir o sentido de 'alma imortal' ao
Adão foi dotado de uma akna imortal como entidade distinta do corpo. termo hebraico nephesh e de traduzi-lo assim quando for conveniente
Significa, mais exatamente, que, como resultado da insuflação divina do é muito antiga, podendo ser encontrada já na Septuaginta."29
"fôlego de vida" no corpo inerte, o homem passou a ser um ser vivo e Basil Atkinson, antigo bibliotecário na Universidade de Cambridge,
respirante, nem mais nem menos. O coração começou a bater, o sangue propõe a mesma explicação. "Nossos tradutores [da versão autorizada]
a circular, o cérebro a pensar, e se ativaram todos os sinais vitais. Dito de ocultaram esse fato de nós, presumivelmente porque estavam tão ape-
forma mais simples, "uma alma vivente" significa "um ser vivo". gados a teorias teológicas vigentes para o significado da palavra 'alma'
Dom Mork ressalta as implicações práticas dessa definição de uma que se atreveram a não traduzi-la para o termo hebraico que se referia
forma bastante sugestiva: "O homem enquanto nephesh [alma] significa aos animais, embora a tenham usado na margem [da versão autorizada]
que é a sua nephesh [alma] que vai jantar, atacando um bife e o comendo. para os versos 20 e 30. Nesses versículos, encontramos 'criaturas que se
Quando vejo outra pessoa, o que vejo não é apenas o seu corpo, mas arrastam, de alma vivente' (heb.) (verso 20);'toda alma vivente [heb. ne-
a sua nephesh [alma] visível, porque, nos termos de Génesis 2:7, é isto o phesh] que se arrasta' (v. 21);'produza a terra alma vivente [heb. nephesh]
que o homem é: uma nephesh viva. Os olhos têm sido chamados de 'a conforme a sua espécie' (v. 24);'e a todo animal da terra, e a toda ave dos
janela da alma'. Isto é, na verdade, uma dicotomia. Os olhos - enquanto céus, e a tudo que rasteja sobre a terra, em que há alma vivente' (heb.
propriedade da pessoa viva — sào em si mesmos a revelação da alma."28 nephesh) (v. 30)."30
O emprego de nephesh (alma) nesses versículos para se referir a to-
Animais corno "almas viventes" dos os tipos de animais mostra claramente que nephesh não é uma alma
O fato de a Bíblia usar para os animais a mesma expressão que usa imortal concedida ao homem, mas o princípio anímico de vida ou
para o homem, nephesh hayyah (alma vivente), apoia o significado de "fôlego de vida", presente tanto nos seres humanos como nos animais.
CRENÇAS POPULARES A IMORTALIDADE DA_ALMA

O que distingue a alma humana da dos animais é o fato de terem sido 39). "A alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18:4, 20). Raabe suplicou
os seres humanos criados à imagem de Deus, isto é, com possibilidades aos dois espiões israelitas que salvassem a família dela, pedindo que
de semelhança com Deus, não disponíveis aos animais. É importante livrassem a alma (nephesh) deles da morte (Js 2:13). Nesses exemplos,
destacar, porém, que tanto o homem como o animal são almas, porque fica claro que a alma que estava em perigo e precisava de livramento
ambos compartilham do mesmo princípio vitalizante ou "fôlego de era a vida da pessoa.
vida". A alma enfrentava perigo proveniente não só de inimigos, mas
Em suma, no contexto da criação se emprega a palavra nephesh também da falta de alimento. Lastimando a condição de Jerusalém, diz
(alma) para designar o princípio anímico de vida, presente tanto nos Jeremias: "Todo o seu povo anda suspirando, buscando o pão; deram
seres humanos como nos animais. A esta altura, desejamos investigar as suas coisas mais preciosas a troco de mantimento para refrescarem
o emprego mais amplo de nephesh no Antigo Testamento. Visto que o a alma [nephesh]" (Lm 1:11, ARC). Os israelitas murmuraram no de-
termo ocorre 754 vezes na primeira parte da Bíblia e é traduzido de serto, porque já não havia carne como havia no Egito. "Agora, porém,
45 maneiras diferentes.31 dirigiremos nossa atenção apenas para as três seca-se a nossa alma [nephesh], e nenhuma coisa vemos senão este
principais formas de uso da palavra diretamente relacionadas com o maná" (Nm 11:6).
nosso objeto de estudo. O tema de perigo e livramento associado com a alma (nephesh) nos
permite ver como era vista a alma no Antigo Testamento: não como
Alma como pessoa necessitada um componente imortal da natureza humana, mas como a condição
64
Em seu excelente livro Anthropology of the Old Testament [Antro- incerta e insegura, da vida, algumas vezes ameaçada pela morte. Situ-
pologia do Antigo Testamento], reconhecido como um clássico por ações como essas que envolviam intenso perigo e livramento faziam
eruditos de diferentes convicções religiosas, HansWalterWolfTintitula os israelitas se lembrarem de que não passavam de almas (nephesh)
o capítulo que trata sobre a alma de ''Nephesh — o Homem Necessita- necessitadas, pessoas cuja vida dependia constantemente da proteção
do".13 A razão para essa caracterização de nephesh como "homem ne- e salvação divinas.
cessitado" fica evidente quando se lê os muitos textos que descrevem
nephesh (alma) em situações perigosas e com risco de morte. Aima como sede das emoções
Visto ter sido Deus quem fez o homem "alma vivente" e quem Por ser o princípio anímico da vida humana, a alma funciona
sustenta a alma humana, os hebreus, quando em perigo, recorriam a também como o centro das atividades emocionais. Referindo-se à
Deus encomendando a Ele a sua alma, isto é, a sua vida. Davi orou: sunamita, 2 Reis 4:27 diz: "A sua alma [nephesh] nela está triste de
"Livra a minha alma [nephesh] do ímpio" (SI 17:13, ARC);"Por amor amargura" (ARC). Davi clamou ao Senhor em busca de libertação
da Tua justiça, tira da tribulação a minha alma [nephesh]" (SI 143:11, de seus inimigos, dizendo: "A minha alma [nephesh] está profunda-
ARC). O Senhor merece ser louvado,"pois livrou a alma [nephesli] do mente perturbada. [...] Volta-te, Senhor, e livra a minha alma [ne-
necessitado da mão dos malfeitores" (Jr 20:13, ARC). phesh]" (S\
Pessoas temeram muito por sua alma (nephesh) (Js 9:24) quando Enquanto as pessoas aguardavam pela libertar^ Jc ÍVus, a alma
outros procuravam tirar-lhes a alma (nephesh) (Ex 4:19; l Sm 23:15). delas perdia vitalidade.Tory Ho^iv^aira que. "pelo fato de o salmista
Alguns tiveram que fugir para salvar sua alma (nephesh) (2Rs 7:7) ou muitas vezes ter escrito a partir dessa experiência [de perigo], os Sal-
se dispor para defender sua alma (nephesh} (Et 8:11); do contrário, a mos incluem expressões como 'desfalecia neles a aima' (SI 107:5), 'A
sua alma (nephesh} seria totalmente destruída (Js 10:28. 30. 32. 3o. 37, minha alma, de tristeza, verte lágrimas' (SI l 19:.28X;, 'desfalece-me a
CRENÇAS POPULARES A IMORTALIDADE DA ALMA

alma, aguardando a Tua salvação' (SI 119:81),'a minha alma suspira e a nephesh, toda a pessoa viva, é que é a causa do pecado. Por isso, nesse
desfalece pelos átrios do Senhor' (SI 84:2), e,'no meio destas angústias, versículo, a responsabilidade pelo pecado é atribuída à nephesh enquan-
desfalecia-lhes a alma' (SI 107:26).Jó perguntou:'Até quando afligireis to pessoa."33
a minha alma' (Jó 19:2)? Era também a alma que esperava por livra- Encontramos a mesma ideia em vários textos que falam sobre peca-
mento.'Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa' (SI 62:1). do e culpa. "Quando uma alma [nephesh} pecar por erro [...]" (L v 4:2,
'Aguardo o Senhor, a minha alma O aguarda; eu espero na Sua palavra' ARC); "E, quando alguma alma [nephesh] pecar, [...] então, levará a
(SI 130:5). sua iniquidade" (Lv 5:1, KJV);"Mas a alma [nephesh] que fizer alguma
"Visto que todo hebreu sabia que o livramento vem de Deus, sua coisa atrevidamente [...] tal alma [nephesh] será extirpada do meio do
'alma se refugiava' em Deus (SI 57:1) e 'tinha sede de Deus' (SI 42:2; seu povo" (Nm 15:30, KJV)."Eis que todas as almas [nephesh] são Mi-
63:1). Passado o perigo e superada a natureza intensa e precária da situ- nhas; a alma [nephesh] que pecar, essa morrerá" (Ez 18:4).Textos como
ação, a alma louvava a Deus pelo livramento recebido.'Gloriar-se-á no esses mostram claramente que a alma é a pessoa responsável que pensa,
Senhor a minha alma; os humildes o ouvirão e se alegrarão' (SI 34:2).'E toma decisões e comete pecados, estando sujeita, portanto, ao castigo
minha alma se regozijará no Senhor e se deleitará na Sua salvação' (SI da morte.
35:9)."- Qualquer atividade física ou psíquica é realizada pela alma, uma
Hans Walter Wolff assinala corretamente que o conteúdo emocio- vez que semelhante atividade sempre pressupõe uma pessoa viva, pen-
nal da alma é igualado à própria pessoa; não se trata de uma entidade sante e atuante. Não existe no Antigo Testamento nenhuma divisão
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independente. Ele cita como exemplo Salmos 42:5, l i e 43:5 em de atividade. entre a alma e o corpo, porque ambas são manifestações
que se encontra o mesmo cântico de lamentação e de autoexortação: da mesma pessoa. A alma inclui e pressupõe o corpo. "Na verdade",
"Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro escreve Mork, "os antigos hebreus não conseguiam conceber uma
de mim? Espera em Deus, pois ainda O louvarei". "Nesse ponto", coisa sem a outra. Não existe a dicotomia grega entre alma e corpo,
escreveu Wolff," nephesh [alma] é o indivíduo de vida necessitada, se- como duas substâncias opostas; mas, sim, uma unidade, o homem, que
dento de desejo."34 Não há nada nessas passagens que sugira ser a alma é bashar [corpo] de uma perspectiva e nephesh [alma] de outra. Bashar
uma parte imaterial da natureza humana dotada de personalidade e de constitui, portanto, a realidade concreta da existência humana, enquanto
consciência e capaz de sobreviver à morte. Mostraremos que a alma nephesh é a personalidade da existência humana."36
morre quando o corpo morre.
A alma e a morte
A alma como sede da personalidade
A sobrevivência da alma no Antigo Testamento está associada com
O Antigo Testamento considera a alma (nephesh) não apenas a sede a sobrevivência do corpo, haja vista que o corpo é a manifestação
das emoções, mas também a sede da personalidade. A alma é a pessoa exterior da alma. Isso explica por que a morte de unia pessoa é mui-
enquanto responsabilidade individual. Em Miqueias 6:7, lemos: "Darei tas vezes descrita como a morte da alma. "Quando ocorre a morte",
o meu primogénito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, escreve Johannes Pedersen, "é a alma que fica privada de vida nessa
pelo pecado da minha alma [nephesh]':" O contraste aqui não é entre ocasião. A morte não pode atingir o corpo ou qualquer outra parte
o corpo e a alma. Comentando esse texto, escreve o pesquisador católico da alma sem atingir a totalidade da alma. É por isso que se diz: 'ma-
Dom Wulstan Mork: "Isso não quer dizer que a alma humana seja a tar uma alma' ou 'ferir uma alma' (Nm 31:19; 35:15,30; Js 20:3. 9);
causa do pecado; e o corpo, o instrumento cia alma. Melhor dizendo. também se pode dizer:'ferir alguém no tocante à alma', ou seja, ferir
CRENÇAS POPULARES A IMORTALIDADE DA ALMA

alguém para que a alma seja morta (Gn 37:21;Dt 19:6, H;Jr 40:14,15). de existir separadamente do corpo. Pelo contrário, o que descobrimos
Não pode haver dúvida de que é a alma que morre; por conseguinte, foi que nephesh (alma) é o princípio anímico de vida, o fôlego de
são falsas todas as teorias que tentam negar essa realidade. É dito com vida, presente tanto nos seres humanos como nos animais. Na hora da
todas as letras que a alma morre (Jz 16:30; Nm 23:10), que é destruída morte, a alma para de funcionar como princípio vital que animava o
ou consumida (Ez 22:25, 27) e que expira (Jó 11:20)."37 corpo, visto que o destino da alma está indissoluvelmente ligado ao
Os leitores da Bíblia em português podem contestar a declaração destino do corpo, que é a manifestação visível da alma.
de Pedersen de que a alma morre, porque a palavra "alma" não ocorre
em todos os textos por ele citados. Falando, por exemplo, das cidades Parte 3
de refúgio, Números 35:15 diz: "para que, nelas, se acolha aquele que A CONCEPÇÃO DO NOVO TESTAMENTO
SOBRE A NATUREZA HUMANA
matar alguém [nephesh] involuntariamente". Como a palavra nephesh
(alma) não ocorre na maioria das traduções portuguesas, alguns po- O Novo Testamento mostra uma nítida continuidade da visão ho-
dem alegar que o texto está falando da morte do corpo, e não da lística da natureza humana seguida pelo Antigo Testamento. Embora
alma. A verdade dos fatos, porém, é que nephesh se encontra no texto popularmente aceito nessa época, o conceito de imortalidade da alma
hebraico. O problema é que os tradutores preferiram verter a palavra está completameiite ausente dos escritos do Novo Testamento, pois
como "pessoa", presumivelmente por acreditarem que a alma é imor- seus escritores eram fiéis aos ensinos do Antigo Testamento.
tal e não pode ser morta. A suposição deles, antibíblica e desencami- O Novo Testamento revela continuidade com o Antigo Testamento
:'== nhadora, é desabonada pelos textos que, mesmo na versão portuguesa, não só na compreensão da natureza e do destino do ser humano, mas
falam claramente da morte da alma. Por exemplo, Ezequiel 18:29 afir- também numa compreensão ampliada desses conceitos à luz da encar-
ma:'^ alma que pecar, essa morrerá" (ver também Ez 18:4). nação e dos ensinos de Cristo. Afinal de contas, Cristo é o verdadeiro
O destino da alma se acha interligado ao do corpo. Quando Josué líder da raça humana, visto que Adão "prefigurava Aquele que havia de
conquistava as diferentes cidades além do Jordão, o relato diz que "ele vir" (Km 5:14). Enquanto no Antigo Testamento a natureza humana
destruiu totalmente a toda alma [nephesh] que nela havia" (J s 10:28, está relacionada essencialmente com Adão, em virtude de sua criação e
30, 31, 34, 36, 38, ARC). A destruição do corpo é considerada igual l queda, no Novo Testamento a natureza humana está relacionada com
à destruição da alma. "Na Bíblia", escreve Edmund Jacob, "nephesh Cristo, em virtude de Sua encarnação e redenção. Cristo é a plenitude
[alma] se refere apenas ao cadáver antes de sua dissolução final, en- da revelação sobre a natureza, o significado e o destino do ser humano.
quanto ainda conserva os aspectos fisionómicos distintivos."3" Quan- O Novo Testamento emprega a palavra grega psyche (alma) em
do o corpo se decompõe fazendo com que suas características não conformidade com os significados fundamentais do hebraico nephesh
sejam mais reconhecíveis, nesse caso a alma não mais existe, porque (alma), encontrados no Antigo Testamento. Faremos um breve levan-
"o corpo é a alma em sua forma visível"."' Por outro lado, quando tamento do significado básico de psyche (alma), dando especial aten-
o corpo é lançado na sepultura com os antepassados, a alma também ção ao significado extensivo da palavra à luz dos ensinos de Cristo e
descansa em paz (Gn 15:15; 25:8;Jz 8:32: ICr 29:28). de Seu ministério redentivo.

Conclusão "Alma" como pessoa


Os diferentes empregos de nephesh (alma) no Antigo Testamento A palavra psyche (alma) no Novo Testamento denota a pessoa toca
nunca transmitem a ideia de uma entidade imaterial e imortal, capaz tto mesmo sentido que nephesh. no Antigo Testamento. Em sua defesa'
CRENÇAS POPULARES

perante o Sinédrio, por exemplo, Estêvão menciona que "setenta e


cinco almas [psyche]" da família de Jacó desceram ao Egito, a mesma
r A [MORTALIDADE DA ALMA

uma das muitas referências a atentado contra a alma, morte da alma e


salvamento da alma (psyche), e todas sugerem que a alma não é uma
parte imortal da natureza humana, mas constitui a própria vida física
quantidade de pessoas e o mesmo emprego da palavra encontrada
no Antigo Testamento (Gn 46:26, 27; Êx 1:5; Dt 10:22). No dia de que pode correr perigo. De acordo com o Antigo Testamento, a alma
Pentecostes, "quase três mil almas [psyche]" foram batizadas (At 2:41, (psyche) morre quando o corpo morre.
ARC) e "em cada alma [psyche] havia temor" (At 2:43). Falando da Jesus correlacionou a alma com comida e bebida. Disse Ele: "Não
família de Noé, Pedro relata que "oito almas [psyche] se salvaram pela andeis ansiosos pela vossa alma [psyche], quanto ao que haveis de co-
água" (IPe 3:20, ARC).Torna-se evidente em textos como esses que mer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.
o termo "alma" (psyche) é usado como sinónimo de pessoa. Não é a alma [psyche] mais do que o alimento, e o corpo, mais do que
Dentro desse contexto, podemos citar a famosa promessa de Cristo as vestes?" (Mt 6:25). A alma (psyche) está correlacionada aqui com
de dar descanso para a "alma [psyche]" dos que tomam o jugo dEle comida e bebida, e o corpo (exterior visível) com roupa.
sobre si (Mt 11:28). A expressão "descanso para a vossa alma [psyche]" Ao associar a alma com comida e bebida, Jesus mostra que a alma
vem de Jeremias 6:16, onde se promete descanso de alma aos que é o aspecto físico da vida, embora explique que a vida vale mais que
caminham de acordo com os mandamentos de Deus. O descanso comida e bebida. Os crentes devem elevar os seus desejos e pensamen-
que Cristo oterece à alma se alcança não quando a alma é libertada do tos para as coisas celestiais e viver para Cristo e a eternidade. Foi assim
corpo conforme o sentido do dualismo platónico, mas quando o crente que Cristo ampliou o significado da "alma", incluindo a vida superior
70
aceita Sua graciosa provisão da salvação ("Vinde a Mim") e vive em con- ou a vida etçrna que Ele veio oferecer à humanidade. O certo é que, 71
formidade com os princípios de vida que Ele ensinou e exemplificou ao associar a alma com comida e bebida, Cristo mostra que a alma é o
("aprendei de Mim"). aspecto físico de nossa existência, e não um componente imaterial de
nossa natureza.
"Alma" como vida
Salvando a alma ao perdê-la
O significado mais frequente para a palavra alma (psyche) no Novo
Testamento é "vida". De acordo com certa estimativa,psyche é tradu- Descobrimos que o Antigo Testamento emprega muitas vezes ne-
zido por "vida" 46 vezes."1" Nestes casos, "vida" fornece uma tradução phesh (alma) para designar a incerteza da vida, constantemente amea-
adequada do termo grego, empregado aqui com referência à vida físi- çada com a possibilidade de danos ou até mesmo de destruição. Não
ca. Para facilitar a identificação da palavra psyche encontrada no texto admira, portanto, que os antigos israelitas estivessem preocupados em
grego, nos textos bíblicos a seguir, psyche será traduzida literalmente salvar sua alma, livrar sua alma, restaurar sua alma à segurança e susten-
como "alma" nos lugares em que a ARA a traduz como "vida". tar sua alma com provisões, especialmente alimento. Nesse contexto,
No auge da tempestade, Paulo tranquilizou os membros do na- deve ter sido desconcertante para os judeus ouvirem Cristo dizer:
vio garantindo-lhes: "nenhuma alma [psyche] se perderá de entre vós, "Quem quiser, pois, salvar a sua alma [psyche] perde-la-á; e quem per-
mas somente o navio" (At 27:22; cf. 27:10). Neste contexto, o termo der a alma [psyche] por causa de Mim e do evangelho salvá-la-á" (Mc
grego está traduzido corretamente como "vida", porque Paulo estava 8:35; cf. Mt 16:25; 10:39; Lc 9:24, 17:33, Jo 12:25).
falando da perda de vidas. Um anjo disse a José: "Dispõe-te, toma o O impacto da declaração de Cristo sobre os judeus deve ter sido
menino e sua mãe e vai para a terra de Israel; porque já morreram os dramático, pois Ele teve a ousadia de proclamar que a alma deles só
que atentavam contra a alma [psyche] do menino" (Mt 2:20). Essa é poderia ser salva caso a perdessem por causa do Salvador. Os judeus
CRENÇAS POPULARES^
AIMORTALIDADE DA ALMA

desconheciam a ideia de salvar a alma mediante sua perda, pois esse


não era um conceito encontrado no Antigo Testamento. Cristo deu A morte da alma é a morte eterna
uma demonstração prática desse ensino tomando atitudes que culmi- Esse significado ampliado do termo alma (psyche) nos ajuda a com-
naram em Sua própria crucificação.
preender uma bem conhecida, mas muito mal compreendida, declara-
Ele veio para "dar a Sua alma [psyche] em resgate por muitos" (Mt ção de Cristo:"Não temais os que matam o corpo e não podem matar
20:28). Na qualidade de Bom Pastor, Ele "dá a alma [psyche] pelas a alma [psyche]; temei, antes, Aquele que pode fazer perecer no inferno
ovelhas" (Jo 10:11). Ao ensinar que, para alguém salvar sua alma, é ne- tanto a alma [psyche] como o corpo" (Mt 10:28; cf. Lc 12:4). Dualistas
cessário perdê-la, desistir dela, ofertá-la, Cristo ampliou o significado encontram nesse texto apoio para o conceito de que a alma é uma
do Antigo Testamento de nephesh (alma) como vida física, incluindo substância imaterial, que sobrevive em segurança à morte do corpo.
nela a vida eterna recebida pelos que estão dispostos a sacrificar sua Essa interpretação reflete a concepção dualista grega da natureza
vida (alma) presente por causa dEle. humana, e não a posição bíblica. A referência ao poder de Deus para
A igreja apostólica compreendeu que esse significado estendido da destruir a alma [psyche] e o corpo no inferno desmente a teoria de
alma apontava para uma vida de total compromisso com o Salvador, uma alma imaterial e imortal. Como a alma imortal pode ser imortal,
ludas e Silas se tornaram "homens que têm exposto a alma [psyche] se Deus é capaz de destruí-la junto com o corpo, no caso dos pecado-
pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo" (At 15:26). Epafrodito "se res impenitentes? Oscar Cullmann enfatiza: "Ouvimos o próprio Jesus
dispôs a dar a própria alma [psique]" pela obra de Cristo (Fp 2:30). declarar, em Mateus 10:28, que a alma pode ser morta. A alma não é
" O próprio apóstolo Paulo testemunhou: "Porém em nada considero
imortal."41 •
a alma [psyche] preciosa para mini mesmo, contanto que complete a Na discussão precedente, vimos que Cristo ampliou o significado
minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para teste- da alma (psyche) para designar não apenas a vida física, mas também
munhar o evangelho da graça de Deus" (At 20:24). a vida eterna recebida por aqueles que estão dispostos a fazer um
Se Paulo acreditava que a alma é imortal, é improvável que ele não compromisso sacrificai com o Salvador. Se esse texto for lido à luz
a valorizasse a ponto de perdê-la por causa do evangelho. Esses textos do significado ampliado que Cristo confere à alma, o sentido da de-
mostram que a igreja apostólica experimentara o novo e ampliado sig- claração é: "Não temais os que podem pôr um fim à vossa existência
nificado da alma, levando uma vida de total e abnegado compromisso terrena (corpo, soma), mas não podem aniquilar vossa vida eterna em
com Cristo. Os crentes compreendiam que só podiam salvar sua alma, Deus; temei, antes, a Deus, que pode destruir todo o vosso ser eter-
enquanto vida física, mediante a consagração dela ao serviço de Cristo. namente." A advertência de Cristo não ensina nada de imortalidade
O erro mais tolo que alguém pode cometer é "ganhar o mundo da alma. Pelo contrário, ensina que Deus pode destruir tanto a alma
inteiro e perder a sua alma [psique]" (Mc 8:36). É essa alma (psyche), a como o corpo.
vida que transcende a morte, que é o objeto primordial da redenção
(Hb 10:39; 13:17:Tg 1:21; IPe 1:9, 22). Embora o termo "alma" seja Paulo e a alma
usado com muito menos frequência no Novo Testamento do que no Em comparação com o Antigo Testamento, ou mesmo com os
Antigo, passagens-chaves como essas revelam uma significativa amplia- Evangelhos, raras são as vezes que Paulo utiliza o termo alma (psyclu)
ção do seu significado. O termo passou a incluir o dom cia vida eterna sm seus escritos. Ele emprega o termo apenas 13 vezes- (incluindo li-
recebida por aqueles que estão dispostos a sacrificar sua vida presente citações do Antigo Testamento) para se referir à vida física (Rni 11:3: Fp
Dor amor a Cristo. 2:30: iTs 2:8), a uma pessoa (Km 2:9; 13:1). bem como à sede da vida
ij
J
A IMORTALIDADE DA ALMA
CRENÇAS POPULARES

emocionai (Fp 1:27; Cl 3:23; Ef 6:6).Vale lembrar que o apóstolo nunca dade de vida tanto agora como na ressurreição. Ao enfocar o papel do
utiliza psyche (alma) para denotar a vida que sobrevive à morte. A razão Espírito, Paulo nega a imortalidade da alma. Segundo ele, é impor-
talvez seja o temor de que seus convertidos gentios compreendam o tante deixar bem claro que a nova vida do crente, tanto no presente
termo psyche (alma) de acordo com a concepção grega de imortalidade corno no futuro, é um dom inteiramente do Espírito de Deus. Não há
inata. nada de intrinsecamente imortal na natureza humana.
Para garantir que a nova vida em Cristo seria entendida como um A expressão "imortalidade da arma" não ocorre nas Escrituras. A pa-
dom inteiramente divino, e não como uma propriedade inata, Paulo lavra grega comumente traduzida por "imortalidade" em nossas versões
utiliza o termo pneuma (espírito), em vez de psyche (alma). Não resta da Bíblia é athanasia. O termo ocorre somente duas vezes no Novo Tes-
dúvida de que o apóstolo reconhece uma continuidade entre a vida tamento. A primeira vez se refere a Deus, "o único que possui imorta-
presente e a vida ressurreta, mas, por considerá-la um dom divino e lidade [athanasia], que habita em luz inacessível, a quem homem algum
não algo inerente à natureza humana, ele prefere usar pneuma (espí- jamais viu, nem é capaz de ver" (lTm 6:16). Evidentemente, imortali-
rito). 43 dade aqui significa mais do que existência infinita. Significa que Deus
Em sua famosa passagem sobre a ressurreição em l Coríntios 15, é a fonte da vida (Jo 5:26) e que todos os outros seres recebem a vida
Paulo mostra que emprega o termo psyche de acordo com o significado eterna dEle.
de "vida física" existente no Antigo Testamento. Ele explica a diferença A segunda vez em que ocorre a palavra "imortalidade" (athanasia)
entre o corpo atual e a ressurreição do corpo nestes termos: "Semeia-se é em l Coríntios 15:53 e 54 e refere-se à natureza mortal sendo re-
74
corpo natural \psychikon], ressuscita corpo espiritual \pneumatikon]" (ICo vestida de imortalidade no dia da ressurreição: "Porque é necessário
15:44). O corpo atual é psychíkon, literalmente "anímico", de psyche que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o
(alma), denotando um organismo físico sujeito à lei do pecado e da corpo mortal se revista da imortalidade [athanasia]. E, quando este cor-
morte. O corpo futuro, ressuscitado, é pneumatikon, literalmente "espi- po corruptível se revestir de incorruptibihdade, e o que é mortal se
ritual", de pneuma (espírito), denotando um organismo controlado pelo revestir de imortalidade [athanasia], então, se cumprirá a palavra que
Espírito de Deus. está escrita:'Tragada foi a morte pela vitória'."
O corpo ressuscitado se chama "espiritual", não porque não seja A esperança cristã se baseia não na imortalidade da alma, mas na
físico, mas porque é governado pelo Espírito Santo, em vez de pe- ressurreição do corpo. Se quisermos usar a palavra "imortalidade"
los impulsos carnais. Isso fica patente quando percebemos que Paulo com relação à natureza humana, não falemos da imortalidade da alma,
aplica à vida atual a mesma distinção entre o natural (psychikos) e mas da imortalidade do corpo (pessoa total) garantida pela ressurrei-
o espiritual (pneumatikos) contida em l Coríntios 2:14 e 15. Ali, Paulo ção. É a ressurreição que confere o dom da imortalidade ao corpo, ou
estabelece uma distinção entre o homem natural (psychikos), que não seja, à pessoa toda do crente.
é guiado pelo Espírito de Deus, e o homem espiritual (pneumatikos),
Conclusão
que é guiado pelo Espírito de Deus.
Nossa pesquisa sobre a torma como o Novo Testamento emprega
Nenhuma imortalidade natural o termo "alma" (psyche) mostra não haver respaldo para o conceito
Para Paulo, a continuidade entre o corpo atual e o futuro deve ser de alma como entidade imaterial e imortal, que sobrevive à mor-
encontrada não no significado ampliado da alma, contido nos Evan- te do corpo. Nada na palavra psyche (alma), sequer remotamente,
taz supor uma entidade consciente capaz de sobreviver à morte do
CRENÇAS POPULARES,
r A IMORTALIDADE DA ALMA

corpo. O Novo Testamento não apenas não endossa a crença da indique a possibilidade de a alma sobreviver ao corpo, mantendo-se
imortalidade da alma, mas também mostra claramente que a alma corno entidade consciente."44
(psyche) revela a vida física, emocional e espiritual. A alma é a pessoa
enquanto ser vivo, dotada de personalidade, desejos, emoções e ca- Parte 4
CONCEPÇÃO DUALISTA VERSUS CONCEPÇÃO HOLÍSTICA
pacidades cognitivas. A alma descreve a pessoa toda enquanto viva e,
portanto, inseparável do corpo. Alguém pode perguntar: "Que diferença faz se uma pessoa defen-
Cristo ampliou o significado de alma (psyche) para incluir o dom da de a posição dualista ou holística a respeito da natureza humana? Não
vida eterna recebida por aqueles que estão dispostos a sacrificar sua vida se trata de uma questão puramente académica?" Essas importantes
terrena por Ele, mas nunca sugeriu que a alma fosse uma entidade imate- perguntas serão oportunamente abordadas na última parte deste ca-
rial e imortal. Pelo contrário, Jesus ensinava que Deus pode destruir tanto pítulo. Veremos que aquilo em que os cristãos acreditam a respeito da
a alma quanto o corpo dos pecadores impenitentes (Mt 10:28). constituição de sua natureza humana determina em grande parte o
Paulo nunca emprega o termo "alma" (psyche) para designar vida que crêem a respeito de sua vida presente e destino final.
que continua após a morte. Pelo contrário, ele equipara a alma a nosso
organismo físico (psychikori), sujeito à lei do pecado e da morte (ICo Implicações do conceito dualista sobre a natureza humana
15:44). Para garantir que seus convertidos gentios compreendessem Mencionamos anteriormente que, do ponto de vista histórico, o
que não existe nada de intrinsecamente imortal na natureza humana, pensamento cristão popular sofreu profunda influência dos ensinos
76
o apóstolo emprega o termo "espírito" (pneuma) para descrever a nova dualistas de.Sócrates e Platão, promovidos de diferentes formas por
vida em Cristo, recebida de forma completa pelo crente como um Tertuliano, Orígenes, Agostinho e Tomás de Aquino. As implicações
dom do Espírito de Deus, tanto agora como na ressurreição. da posição dualista a respeito da natureza humana sobre as crenças e
Recapitulando nosso estudo sobre as concepções da natureza hu- práticas cristãs são de amplas e incalculáveis consequências. E possível
mana no Antigo e no Novo Testamento, podemos dizer que a Bíblia fazer apenas uma breve menção neste capítulo.
é coerente ao ensinar que a natureza humana é uma unidade indis-
solúvel. Nessa unidade, corpo, alma e espírito representam diferentes Implicações doutrinárias do conceito dualista
aspectos da mesma pessoa, e não diferentes substâncias ou entidades
sobre a natureza humana
que funcionam de forma independente. Essa visão holística da natu- Do ponto de vista doutrinário, grande número de crenças decorre
reza humana remove qualquer base para a crença na sobrevivência da ou depende do conceito dualista sobre a natureza humana. Por exem-
alma após a morte do corpo. plo, a crença na transição da alma, no momento da morte, para o paraíso,
Os adventistas tio sétimo dia defendem a visão holística da Bí- inferno ou purgatório se baseia na crença de que a alma é imortal
blia a respeito da natureza humana, amplamente rejeitada pela maio- por natureza, e sobrevive ao corpo após a morte. Isso significa que.
ria das igrejas cristãs. Para os adventistas, é mais importante estar em se a imortalidade inerente da alma é um conceito antibíblico, então
conformidade com a Escritura do que adotar crenças populares. crenças populares sobre paraíso, purgatório e interno precisam ser ra-
Em conformidade com isso. de acordo com o que está declarado em dicalmente modificadas e até mesmo rejeitadas.
sua confissão de fé, eles crêem que. na Bíblia, "o corpo e a alma exis- A crença de que. na hora da morte, a alma dos santos ascende i
tem em conjunto: ambos forniam uma união indivisível. A alma não beatitude do paraíso tem promovido a crença católica e ortodoxa
possui consciência separada do corpo. Não existe qualquer texto que no papei intercessório de Maria e dos santos. Se a alma cios santos está no
_ _ CRENÇAS POPULARES A IMORTALIDADE DA ALMA

céu, é viável presumir que eles podem interceder em favor das almas continuar mantendo o senso de expectativa de que Cristo vai des-
necessitadas da Terra. Sendo assim, cristãos devotos pedem a Maria e cer para ressuscitar os santos que dormem. A preocupação dominan-
aos santos que intercedam em favor deles. Tal prática vai de encon- te desses cristãos é chegar ao paraíso imediatamente, ainda que seja
tro ao ensino bíblico de que os santos não se acham no céu, mas nas como almas desencarnadas. Essa preocupação elimina quase todo o
sepulturas, aguardando ressuscitar por ocasião da segunda vinda de interesse na segunda vinda do Senhor e na ressurreição do corpo.
Cristo. Não bastasse isso, a Bíblia ensina claramente que existe "uni só Acreditar na imortalidade da alma significa considerar-se, pelo me-
Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem'' (ITm 2:5). nos em parte, imortal, no sentido de ser incapaz de ficar inconsciente
Se a conclusão do nosso estudo estiver correta, a saber, que a alma da existência. Uma crença assim estimula na pessoa a confiança em si
não sobrevive nem pode funcionar em separado do corpo, então é própria e na possibilidade de sua alma subir para o Senhor. Por outro
preciso rejeitar toda a doutrina do papel intercessório de Maria e dos lado, acreditar na ressurreição do corpo significa reconhecer que tanto
santos como invenção eclesiástica. Na verdade, aceitar a posição ho- a nossa vida presente como a vida eterna futura são um dom de Deus
lística da Bíblia sobre a natureza humana pode trazer consequências em Cristo, que voltará para ressuscitar os mortos e transformar os
assustadoras para crenças cristãs longamente aceitas como verdadeiras. vivos. Significa acreditar na segunda vinda/descida do Senhor à Terra
Semelhantemente, a crença de que, na hora da morte, a alma dos para encontrar crentes dotados de corpos, e não na ida /subida de almas
que são perdoáveis transita para o purgatório resultou na doutrina desencarnadas ao céu para encontrar com o Senhor.
de que a igreja na Terra tem poder de aplicar os méritos de Cristo No Novo Testamento, a parousia nos dá a garantia de uma consuma-
e dos santos às almas que sofrem no purgatório. No passado, isso ção final que se realiza pela ação de Cristo descendo à Terra em direção
era feito pela concessão de indulgências, ou seja, a remissão das pe- à humanidade, ao invés da ação individual de almas subindo ao céu em
nas temporais em virtude dos pecados perdoados. Foi essa crença direção a Ele. A esperança do advento não é uma recompensa ganha
que acabou motivando a escandalosa venda das indulgências, fato que após a morte, mas um encontro real na Terra entre crentes, dotados de
deflagrou a Reforma protestante. corpos, e Cristo, no glorioso dia da Sua segunda vinda. Esse encontro
Embora os reformadores tenham renegado a doutrina do purga- autêntico produzirá uma transformação que afetará a humanidade e a
tório como antibíblica, conservaram a doutrina do trânsito imediato natureza. Mas a crença na imortalidade individual e no imediatismo da
da alma após a morte para um estado de perfeita bem-aventurança felicidade celestial logo após a morte obscurece e oblitera essa ardente
(céu) ou para um estado de castigo permanente (inferno). Já vimos expectativa.
que esse último ensinamento é taxativamente negado pela Escritura. Outra implicação importante decorrente da esperança individu-
Portanto, é imprescindível dar continuidade à obra dos reformadores, alista numa imortalidade imediata é que ela neutraliza a esperança
rejeitando, como invenções eclesiásticas, as crenças populares sobre bíblica coletiva numa restauração final da criação e das criaturas (Rm
purgatório, indulgências, e o trânsito das almas para o céu ou inferno. 8:19-23; ICo 15:24-28). Quando o único futuro que realmente inte-
ressa é a sobrevivência da alma do indivíduo após a morte, a angústia
A imortalidade da alma enfraquece o segundo advento da humanidade desperta apenas interesse periférico e se ignora, em
O dualismo tradicional enfraquece a esperança na vinda do Salva- grande parte, o valor da redenção divina para todo este planeta. O
dor e obscurece e eclipsa a expectativa do segundo advento. A razão resultado último dessa crença, conforme assinalou Abraham Kuyper,
é óbvia. Se a alma do crente sobe imediatamente após a morte para é que "a maioria dos cristãos só consegue pensar, de longe, em sua
a beatitude do paraíso a fim de estar com o Senhor, fica bem difícil própria morte". 45
CRENÇAS POPULARES _ A IMORTALIDADE DA ALMA

associam a redenção com a alma humana, e não com o corpo huma-


Conceito errado a respeito do mundo futuro no. Descrevemos o trabalho missionário da igreja como o de "salvar
A crença numa alma espiritual e imortal também favoreceu o sur- almas". A dedução é que as almas são mais importantes do que os
gimento de crenças erradas a respeito do mundo futuro. O popular corpos.
conceito de paraíso corno um refúgio situado em algum lugar do Conrad Bergendoff chama a atenção para o fato de que "os Evan-
espaço superior, onde almas glorificadas vão passar a eternidade em gelhos não apoiam uma teoria de redenção que salva almas em se-
perene contemplação e meditação, inspirou-se mais no dualismo pla- parado dos corpos aos quais pertencem. O que Deus uniu, filósofos
tónico do que no realismo bíblico. Para Platão, os componentes ma- e teólogos não devem separar. Mas esses são culpados de divorciar o
teriais deste mundo eram maus e, portanto, indignos de sobrevivência. corpo e a alma dos homens, unificados por Deus na criação; e a culpa
O propósito era atingir o plano espiritual onde as almas, libertas da deles não diminui, ainda que aleguem que, agindo assim, o processo
casa-prisão do corpo material, desfrutariam de felicidade eterna. de salvação seria facilitado. Enquanto não tivermos uma teoria de
Nosso estudo mostra que tanto o Antigo como o Novo Testamen- redenção que atenda integralmente à necessidade do homem, temos
to rejeitam o dualismo entre o mundo material inferior e o mundo fracassado em compreender o propósito de Deus, que Se fez corpo a
espiritual superior. As Escrituras consideram a salvação final, inaugu- fim de poder salvar a humanidade".46
rada pela vinda do Senhor, não uma fuga da Terra, mas uma transfor-
mação da própria Terra. A visão bíblica do mundo vindouro não é a Dualismo na liturgia
•"•' de um refúgio celestial e espiritual habitado por almas glorificadas, mas a É possível perceber ainda mais frequentemente a influência do du-
deste planeta terreno e físico povoado por santos ressuscitados (Is 66:22; alismo em muitos hinos, orações e poemas cristãos. A frase de abertura
Ap 21:1). da oração fúnebre encontrada no The Book ofCommon Prayer [O Livro
de Oração Comum], da Igreja da Inglaterra, por exemplo, é remata-
Implicações práticas da concepção dualista damente dualista: "Visto haver agradado ao Deus Altíssimo em Sua
sobre a natureza humana grande misericórdia levar a alma do nosso querido irmão aqui faleci-
Em nível mais prático, a concepção dualista sobre a natureza hu- do, entregamos, pois, o seu corpo à terra."47 Uma expressão presente
mana promove o distanciamento entre a alma e o corpo e a supressão em outra oração, no mesmo ofício, denuncia o claro desprezo dualista
dos desejos físicos e impulsos naturais saudáveis. Contrariando a ideia pela existência física: "Com quem as almas dos fiéis, após serem liber-
bíblica de que a criação de Deus é boa, inclusive os prazeres físicos do tadas do fardo da carne, desfrutam alegria e felicidade."
corpo, a espiritualidade medieval promoveu a mortificação da carne Os versos do poeta cristão John Dorme apresentam de maneira
como meio de alcançar o ideal divino da santidade. bem clara a noção platónica de libertação da alma da casa-prisão do
Os santos eram ascetas que se devotavam basicamente à vila con- corpo: "Quando os corpos descem às sepulturas, das sepulturas sobem
templativa, afastando-se da fita activa. Haja vista que a salvação da alma as almas."48 Muitos dos hinos de nossos hinários são poemas dualistas
era considerada mais importante do que a preservação do corpo e as disfarçados. Falam desta Terra como "um sombrio deserto" e convi-
necessidades corporais eram, muitas vezes, intencionalmente negli- dam os crentes a erguer o olhar "para o céu". "Quero viver acima do
genciadas ou até mesmo reprimidas. mundo [...] no planalto celestial.'
A dicotomia entre corpo e alma, físico e espiritual, ainda está pre- Cristãos que acreditam nas palavras desses hinos podem um cila'
sente no pensamento de muitos cristãos da atualidade. Muitos ainda se decepcionar ao descobrir que seu lar eterno não está "acima do
A IMORTALIDADE DA ALMA
CRENÇAS POPULARES

mundo, [...] no planalto celestial", mas aqui em baixo, na Terra. Esse é espirituais da alma, mas também às necessidades físicas do corpo. Isso
o planeta que Deus criou, redimiu e irá. por fim, restaurar para ser a significa ensinar às pessoas como manter a saúde física e emocional.
nossa habitação eterna. E significa que os programas da igreja não devem descuidar das ne-
As extensas implicações práticas e doutrinárias da concepção dua- cessidades do corpo. E preciso incentivar a prática de um bom regime,
lista sobre a natureza humana que acabamos de considerar devem ser- exercícios físicos e atividades ao ar livre como parte importante da
vir para impressionar o leitor com a importância desse assunto. Não vida cristã.
se trata apenas de uma questão académica, mas de uni ensino bíblico Aceitar a concepção hoiística da Bíblia sobre a natureza humana
fundamental que afeta direta ou indiretamente grande número de significa optar por uma abordagem hoiística em nossos esforços evan-
crenças e práticas cristãs. gelísticos e missionários. Tal abordagem consiste não só em buscar
salvar a "alma" do povo, mas também em conquistar melhorias para
Implicações da concepção hoiística da Bíblia suas condições de vida, trabalhando áreas como saúde, alimentação e
sobre a natureza humana educação. A meta deve ser a de servir ao mundo, em vez de evitá-lo.
A concepção hoiística da Bíblia sobre a natureza humana, segundo Questões como justiça social, guerra, racismo, pobreza e desequilíbrio
a qual corpo e alma são uma unidade indissolúvel, criada e redimida económico devem constituir motivo de preocupação para aqueles
por Deus, nos desafia a considerar de urna forma positiva tanto os que acreditam que Deus está trabalhando para restaurar a pessoa toda
aspectos físicos quanto espirituais da vida. Honramos a Deus, não só e o mundo todo.
82 A educação cristã deve promover o desenvolvimento da pessoa
-"" com a mente, mas também com o corpo, porque nosso corpo é ''o
santuário do Espírito Santo" (ICo 6:19). toda. Isso significa que os programas escolares devem ter como obje-
A Escritura pede com insistência que apresentemos o nosso "cor- tivo o desenvolvimento mental, físico e espiritual da vida. Um bom
po por sacrifício vivo" (Rm 12:1). Isso significa que o modo como programa de educação física deve ser considerado tão importante
tratamos nosso corpo reflete a condição espiritual de nossa alma. Se quanto outros programas académicos e religiosos. Pais e professores
poluímos o corpo com fumo, drogas ou alimento que não é bom para devem estar preocupados em ensinar bons hábitos alimentares, o
a saúde, provocamos não apenas a poluição Jlsica do nosso corpo, mas devido cuidado com o corpo e a importância do exercício físico
regular.
também a poluição espiritual da nossa alma.
Para Henlee H. Barnette,"aquilo que as pessoas fazem aos outros e O conceito bíblico da pessoa como um todo também traz impli-
ao meio ambiente depende em grande parte daquilo que elas pensam cações para a medicina. A ciência médica desenvolveu recentemente o
sobre Deus, a natureza, eles próprios e seu destino".49 Quando os cris- que se conhece como medicina hoiística. Profissionais da saúde hoiística
tãos tiverem uma visão hoiística a respeito de si mesmos e do mundo "enfatizam a necessidade de se olhar a pessoa como um todo, incluin-
atual, como produtos da boa criação e redenção de Deus, ticarão con- do a condição física, a nutrição, a constituição emocional, o estado
vencidos e constrangidos a agir como administradores para Deus de espiritual, os valores do estilo de vida e o ambiente".5" Na festa de
seu próprio corpo e dos seres criados. formatura de 1975 da Escola de Medicina dajohns Hopkms Univer-
Slty, o Dr.Jerome D. Frank disse aos formandos:"Qualquer tratamento
Interesse na pessoa toda de doença que não leve em conta o espírito humano é visivelmente
O holismo bíblico leva-nos a ver a pessoa como um todo. Em falho."5' A cura e a conservação da saúde física devem sempre envolver
a totalidade da pessoa.
sua pregação e ensino, a igreja deve atender não só às necessidades
CRENÇAS POPULARES
A IMOfOAUDADEDAALMA

orando, correndo atrás de nuvens e bebendo leite de ambrósia. Pelo


Redenção cósmica
contrário, a Bíblia fala dos santos ressuscitados habitando aqui, o pla-
A posição holística da Bíblia sobre a natureza humana pressupõe, neta Terra, que será purificado, transformado e aperfeiçoado pela vin-
também, um conceito cósmico da redenção, que engloba o corpo e da do Senhor (2Pe 3:11-13; Rm 8:19-25; Ap 21:1). Os "novos céus e
a alma, o mundo material e o mundo espiritual. A separação entre o nova terra" (Is 65:17) não são um refúgio espiritual sem importância,
corpo e a alma, ou espírito, corresponde, muitas vezes, à divisão entre situado em algum lugar externo, no espaço. Pelo contrário, eles são o
o âmbito da criação e o âmbito da redenção. Tanto o catolicismo céu e a Terra atuais, restaurados à sua perfeição original.
como o protestantismo têm associado a redenção quase que exclusi- Os crentes entram na nova Terra não sob a forma de almas desen-
vamente à salvação de almas individuais, em detrimento da dimen- carnadas, mas como pessoas corporais ressuscitadas (Ap 20:4,Jo 5:28,
são física e cósmica da redenção. Retratam, frequentemente, os santos 29; ITs 4:14-17). Embora nada de impuro entre na Nova Jerusalém,
como peregrinos que vivem na Terra, mas que a ela não possuem ape- somos informados de que "os reis da terra lhe trazem a sua glória"
go, e cujas almas, na hora da morte, deixam imediatamente seu corpo e "lhe trarão a glória e a honra das nações" (Ap 21:24, 26). Esses
material para ascender rumo a um lugar abstrato chamado "céu". versículos sugerem que tudo de real valor que havia na antiga Terra,
O dualismo produziu uma atitude de desprezo para com o corpo inclusive as realizações de façanhas criativas, artísticas e intelectuais, há
e o mundo natural. Essa atitude de desdém para com o nosso planeta de encontrar lugar na nova e eterna ordem de coisas. A própria ima-
não está presente nos Salmos, onde o tema central é o louvor a Deus gem da "cidade" comunica a ideia de atividade, vitalidade, criatividade
por Suas magníficas obras. No Salmo 139:14, por exemplo, Davi ex- e relações autênticas.
clama: "Graças Te dou, visto que por modo assombrosamente mara- Lamentavelmente, perdeu-se essa visão concreta e terrestre descri-
vilhoso me formaste; as Tuas obras são admiráveis, e a minha alma o ta pela Bíblia a respeito do novo mundo de Deus; em grande parte, a
sabe muito bem." Aqui o salmista louva a Deus por possuir um corpo religiosidade popular a substituiu por um conceito etéreo e espiritua-
extraordinário, uma realidade bem conhecida por sua alma (mente). lizado de céu. Esse conceito sofreu a influência do dualismo platónico,
Esse é um bom exemplo do pensamento holístico, em que corpo e e não do realismo bíblico.
alma fazem parte da maravilhosa criação de Deus.
No Salmo 92, o salmista insiste para que se louve a Deus com ins- CONCLUSÃO
trumentos musicais, pois, diz ele, "me alegraste, Senhor, com os Teus A mentira da serpente."não morrereis" (Gn 3:4), tem sobrevivido
feitos; exultarei nas obras das Tuas mãos. Quão grandes, Senhor, são as ao longo de toda a história humana até nosso tempo. Nosso breve
Tuas obras!" (SI 92:4, 5). A alegria do salmista por seu admirável corpo e levantamento histórico rastreou a origem da crença na vida após a
pela maravilhosa criação se baseia em sua concepção holística do mun- morte entre os antigos egípcios, que investiam grande quantidade de
do criado como parte integrante de todo drama da criação e redenção. tempo e dinheiro em preparativos para a vida além do túmulo.
Os filósofos gregos Sócrates e Filo adotaram a crença egípcia na
Realismo bíblico
vida após a morte, mas a redefiniram em termos de uma alma imate-
A posição holística da Bíblia sobre a natureza humana também rial e imortal, que se lirv?r:<i Já casa-prisão do corpo mortal na hora
ateta nossa visão do mundo futuro. A Bíblia não vislumbra o inundo da morte. Para dcs, a morte consistia na separação entre alma e corpo.
porvir em termos de um paraíso etéreo, em que almas glorificadas r.sse ensinamento dualista achou guarida na igreja cristã em fins cio
irão oassar a eternidade, trajadas de vestes brancas, dedilhando harpas. 2° século.Tertuliano íoi quem o promoveu primeiramente, seguido por
CRENÇA5_PO_Py LARES A IMORTALIDADE DA ALMA

Orígenes, Agostinho e Tomás de Aquino. Para eles, a morte significava A obra que os reformadores iniciaram, eliminando o purgatório,
a destruição do corpo, o que permitia à alma imortal continuar a viver, deve agora ser completada pela rejeição das crenças populares con-
quer na beatitude do paraíso, quer no tormento sem fim do inferno. trárias às Escrituras. E improvável que uma tarefa monumental como
A crença na sobrevivência da alma contribuiu para o desenvolvi- essa seja realizada pela Igreja Católica ou alguma igreja protestante,
mento da doutrina do purgatório, suposto lugar em que a alma dos pois qualquer tentativa de modificar ou rejeitar doutrinas tradicio-
que morreram é purificada mediante o sofrimento de penas tempo- nais será interpretada como traição à fé tradicional, sendo suscetível
rais por seus pecados, antes de ter acesso ao paraíso. de causar divisão e fragmentação. Esse é um preço que a maioria das
Embora os reformadores tenham rejeitado a prática antibíblica e igrejas não está disposta a pagar; no entanto, é o preço que os fiéis
despropositada da venda de indulgências, cujo objetivo era reduzir a remanescentes devem pagar, a hm de cumprir sua missão de exortar
permanência no purgatório da alma de parentes falecidos, continuaram os crentes sinceros onde quer que estejam: "Sai dela, povo meu, para
a acreditar na existência consciente das almas no paraíso ou no inferno. que não sejas participante dos seus pecados" (Ap 18:4).
Hoje, a crença na existência consciente após a morte está se espa-
lhando rapidamente devido aos fatores mencionados anteriormente,
fazendo com que a maioria das pessoas acredite na mentira de Satanás, 1 Consultar Tabela 2.1 Crença Religiosa na Europa e nos EUA, emTony
segundo a qual, não importa o que se faz, ninguém vai morrer (Gn Walter, Ttie Eclipse of Etemity (1996), p. 32.

86 3:4), mas todos se tornam como Deus, vivendo para sempre. 2 James Bonwick, Egyptian Belief and Modern Thought (1956, reimpressão),
Para testar a validade dessa crença popular, analisamos as posições p. 80.
87
do Antigo e do Novo Testamento sobre a "alma". Descobrimos que 3 Heródoto, Euterpe, capítulo 123.
a Bíblia é coerente ao ensinar que a natureza humana é constituída 4 E J. Church, tradutor, Plato's Phaedo, em Library of Liberal Arts (1960),
de uma unidade indissolúvel, em que corpo, alma e espírito represen- número 30, p. 7, 8.
5 Ibid.,p. 66-69.
tam diferentes aspectos da mesma pessoa, e não diferentes substâncias
ou entidades que funcionam de forma independente. Essa concepção 6 Para uni excelente levantamento, consultar LeRoy Edwin Froom, Tlie
holística sobre a natureza humana elimina a base para a crença na so- Conditionalist Faith of Our Fathers (1966), v. l, p. 632-755.
brevivência da alma na morte do corpo. 7 Consultar Lê Roy Edwin Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers
Embora Cristo tenha ampliado o significado de alma (psychè) para (1966), p. 724-726.
incluir o dom da vida eterna recebida por aqueles que se dispõem a s lbid.,p. 801.
sacrificar sua vida terrena por amor a Ele, nunca sugeriu que a alma 9 C. F. Hudson, Debt and Grace as Related to the Doctrine of a Future Life
é uma entidade imaterial ou imortal. Ao contrário, Jesus ensinou que (1857), p. 326.
Deus pode destruir tanto a alma quanto o corpo (Mt 10:28) dos pe- "'Tertuliano, On the Resurrection, capítulo 3, Ante-Nicene Fathers, v. 3, p.
cadores impenitentes. 547; itálico acrescentado.
Chamamos a atenção para o fato de que a visão dualista a respeito " Orígenes, De Principiis. livro 4. capítulo l, seção 36, ern Ante-Nicene
da natureza humana apresenta implicações doutrinárias e práticas de Fathers, v. 4, p. 381.
longo alcance. Afeta, direta ou indiretamente, inúmeras crenças e prá- >2 Orígenes, Against Celsus. livro 4, capítulo 13. Ante-Nicene Fathers, v. 4,
ticas populares que vão de encontro à Bíblia. Algumas dessas crenças p. 502.
populares antibíbhcas serão analisadas nos capítulos seguintes. •'Agostinho, Epistle 137. capítulo 3.
r
_ _ ÇRENgASfORULARES. A IMORTALIDADE DA ALMA

14 Ante-Nicene Fathers (1995), v. 2, p. 245. 5!i Edmundjacob, "Nephesh," Theological Dictíonary ofthe NewTestament, ed.
13 Tomás de Aquino, Summa contra Gentiles IV, 79.
Gerhard Fnednch (1974), v. 9, p. 621.
39 Johannes Pedersen (nota 26), p. 171.
16 Catechísm of the Catholic Church (1994), p. 93.
411 A estimativa é de Basil F. C. Atkinson (nota 29), p. 14.
17 Ray S. Anderson, Tlieohgy, Death and Dying (1986), p. 104.
18 Consultar Hans Schwarz,"Luther's Understanding of Heaven and Hell", 41 Oscar Cullmann, "Immortality of the Soul or Resurrection of the
Interpretíng Lnther's Legacy, ed. F. W. Meuser e S. D. Schneider (1969), p. Dead?", em Immortality and Resurrection: Death in the Western World: Tu>o
83-94. Conflictina Currents ofThouoht, ed. Krister Stendahl (1968), p. 36, 37.
19 O texto desta obra se encontra em Calvin, Tracts andTreatises ofthe Refor- 42 Edward Schweizer, "Psyche", Theological Díctionary ofthe NewTestament,
med Faith, tradutor H. Beveridge (1958), v. 3. p. 413-490. ed. Gerhard Fnednch (1974), v. 9, p. 648, nota 188.
211 Consultar, por exemplo, Charles Hodge, Systematic Theology (1940), v. 3, 43 Este ponto de vista é expresso por Edward Schweizer (nota 42), p. 650.
p. 713-730;W. G.T. Shedd, DoomaticTheology (s.d.), v, 2, p. 591-640. G. C. Tony Hoff menciona também que "Paulo nunca empregou psyche para
Berkouwer, Tlie Retiirn of Chríst (1972), p. 32-64. uma vida que sobrevive à morte [...] [porque] ele estava ciente da possi-
21 Westmínster Confession, capítulo 32, conforme citação de John H. Leith, bilidade do sentido do termo ser distorcido naquela época. Sabia que a
ed., i(1977), p. 228. presença de uma tradição platónica poderia confundir seus convertidos
22 K. Osis and E. Haraldsson, At the Hour of Death (1977), p. 13. gentios" ("Nephesh and the Fulfillment It Receives as Psyche", em Toward
2j Ibid., p. 13, 14. Consultar também W. D. Rees,"The Hallucinations of a Biblical View ofMan: Some Readings, ed. Arnold H. De Graffe James H.
Widowhood", BMJ 4 (1971). p. 37-41; G. N. M. Tyrrell, Apparitions Olthuis.(1978), p. 114.
89
(l953), p. 76,77. 44 Nisto Cremos: 27 Ensinos Bíblicos dos Adventistas do Sétimo Dia (2003), p.
24 HansWalterWolff, Anthropoloay ofthe Old Testament (1974), p. 10. 120.
23 Dom Wulstan Mork, The Biblical Meaning ofMan (1967), p. 34. 43 Citado em G. C.Berkouwer, Tlie Retum ofChrist (1972), p. 34. O mesmo
26 Johannes Pedersen, Israel: Its Life and Culture (1926), v. l, p. 99. ponto de vista é expresso por Russell Foster Aldwinckle, Death in the
27 H.Wheeler Robinson, The Christian Doctrine ofMan (1952), p. 27.
Secular City (1972), p. 82.
2!í Dom Wulstan Mork (nota 25), p. 34. 46 Conrad Bergendoff, "Body and Spirit in Christian Thought", Tlie Lu-
29 Norman Snaith,"Justice and Immortality", ScottishJournal ofTheology 17 thcran Qitarterly 6 (1954), p. 188, 189.
4' Citado em D. R. G. Ovven, Body and Soul: A Study on the Christian View
(1964), p. 312, 313.
30 Basil F. C.Ackinson, Life and Immortality (s.d.), p. l, 2.
ofMan (1957), p. 28.
31 A tabulação é de Basil F. C. Atkinson (nota 30), p. 3.
48 Do poema de John Donne: "The Anniversary".
32 HansWalterWolff (no ta 24). p. 10. 49 Henlee H. Barnette, Ttie Church and the Ecological Crisis (1972), p. 65.
3" Encyclopedia Americana (ed. 1983), s. v. "Holistic Medicine", p. 294.
"Tory H o ff, "Nephesh and the Fulfillment It Receives as Psyche". em To-
iftird a Biblical View of Man: Some Readinos, ecis. Arnold H. De Graaff e 31 Citado por Norman Cousins. Anatoniy of an Illness (1979), p. 133. Entre
James H. Olthuis (! 978), p. 98. os muitos livros sobre medicina holística, estes são dignos de nota: Davici
34 Hans WalterWolff (nota 24^. p. 25. Allen et ai., Wiole Person Medicine (1980); Ed Gaeclwag, ed., Inner Bal-
35 Dom Wulstan Mork (nota 25), p. 40. ance: The Power of Holistic Hcalina (1979); Morton Walker, Total Healti::
36 tbid.,p. 41. Tlie Holistic Alternative to Traditional Medicine (1979): [ack La Patra. tic.it-
[ohannes Pedersen (nota 26). o. 1~9. íno:The Comina Revohition in Holistic Medicine (1978V
VIDA APÓS A MORTE

confirma que "a grande maioria dos norte-americanos continua a


acreditar que existe vida após a morte, que cada pessoa tem uma alma
rc: e que existe céu e inferno".-' "A crença na vida após a morte [...] é
U:
amplamente aceita: 8 em cada 10 norte-americanos (81%) acreditam
VIDA APÓS A MORTE numa vida futura, seja ela qual for. Outros 9% reconhecem a possibili-
dade de existir vida após a morte, embora não sejam taxativos. Apenas
um em cada dez adultos (10%) acha que, após a morte na Terra, não
existe vida de espécie alguma. A grande maioria dos norte-americanos
(79%) também concordou com a afirmação de que 'toda pessoa tem
uma alma capaz de viver para sempre, na presença ou na ausência de
crença na vida após a morte parece ter ressurgido da

A
Deus'."4
sepultura. Jornais e revistas falam sobre ela. Apresenta- A crença consciente ou subconsciente na vida após a morte se re-
dores de programas de entrevistas a discutem. Livros flete nos requintados arranjos funerais destinados a preservar os restos
populares como Life After Life [Vida Após a Vida], de Moody e corporais dos falecidos. No mundo antigo, abasteciam-se os túmulos
Kúbler-Ross, e Beyond Death's Door [Além da Porta da Morte], com comida, bebida, utensílios e roupas para a próxima vida. Algumas
de Maurice Rawlings, analisam históricos dos casos de experi- vezes sepultavam até mesmo escravos e animais junto com o cadáver
ências fora do corpo físico. Até mesmo pastores começaram a para lhe atender às comodidades necessárias no mundo do além. 91
pregar novamente sobre ela. Hoje os rituais mortuários são diferentes, mas ainda revelam uma
Considerada até pouco tempo atrás como relíquia de um crença subconsciente na vida após a morte. Embalsama-se o corpo
passado supersticioso por parte da comunidade secular, e como e ele é hermeticamente selado em um caixão de metal galvanizado
algo extremamente difícil de compreender por parte de muitos para retardar a decomposição. As pessoas vestem o defunto com a
religiosos, a crença na vida após a morte está reconquistando melhor roupa e o depositam sobre um forro aveludado guarnecido
a popularidade. Segundo uma pesquisa de opinião pública re- com almofadas macias. Despacham-no para seu destino acompanha-
alizada pela General Social Survey, uma quantidade bem maior do dos itens que lhe foram caros em vida, tais como anéis e fotos da
de norte-americanos adultos acreditava na vida após a morte na família. Sepultam-no de forma solene e silenciosa em um cemité-
década de 1990 do que ha década de 1970.' rio habilmente cuidado e circundado de flores, portões e guardas.
Embora a percentagem de protestantes que crêem na vida Encomendam os mortos ao ''perpétuo cuidado" do Senhor em um
após a morte tenha se mantido estável em 85%, é cada vez maior cemitério profissionalmente conservado e ajardinado, onde crianças
agora o número de católicos e judeus que acreditam nesse con- não brincam nem visitantes os perturbam.
ceito. "A porcentagem de católicos que acreditam na vida após Essa preocupação em enviar os entes queridos falecidos ao mundo
a morte aumentou de 67% para 85%> de 1900 até 1970. Entre dos mortos com dignidade e elegância revela o desejo de lhes garantir
os judeus, essa porcentagem aumentou de 17%) (1900) para 74% conforto na outra vida. Mas será que existe vida após a morte? Estão
(1970)." 2 os mortos conscientes ou inconscientes? Caso estejam conscientes,
Uma pesquisa realizada mais recentemente (2003) pelo podem eles se comunicar com os vivos? Estão desfrutando as gló-
conceituado Barna Research Group, de Ventura, na Califórnia. rias do paraíso, ou sofrendo os tormentos do inferno' Este capítulo
CRENÇAS POPULARES _y[DAAPjáSAMpRTE

pretende dar resposta a essas indagações, investigando a posição da após a morte do corpo. Vimos que essa crença é contrária à Bíblia,
Bíblia com respeito à morte e ao estado dos mortos. que define a morte claramente como a cessação da vida para a pes-
soa toda, corpo e alma.
Objetivos deste capítulo Para os propósitos deste estudo, mencionaremos brevemente como
Este capítulo dá continuidade à investigação da visão bíblica com as três maiores alas do cristianismo consideram a vida após a morte:
respeito à natureza humana, focalizando duas questões importantes. católicos romanos, protestantes conservadores e cristãos liberais.
Em primeiro lugar, qual é a posição bíblica sobre a morte? E, em se-
gundo lugar, qual é a condição dos mortos no período que se estende Concepção católica romana de céu, inferno e purgatório
entre a morte e a ressurreição? Tal período é comumente conhecido A Igreja Católica ensina que, quando uma pessoa morre, a alma
como "o estado intermediário". deixa o corpo, sendo imediatamente avaliada em um juízo particular,
Dividimos este capítulo em quatro partes. A parte l fornece uma que determina três destinos possíveis para a alma desencarnada: céu,
breve descrição das concepções a respeito da vida após a morte, prin- inferno ou purgatório.
cipalmente por parte de católicos e protestantes. Ambos acreditam na Céu. O novo Catecismo da Igreja Católica explica que a alma dos cren-
transição das almas salvas para o paraíso e das almas não salvas para o tes "que morrem na graça e na amizade de Deus, e que estão totalmente
inferno. Mas os protestantes rejeitam a crença católica no purgatório. purificados, vivem para sempre com Cristo". ° São admitidos imediata-
A parte 2 examina o ensino da Bíblia sobre a natureza da morte. mente nas recompensas eternas do céu, onde desfrutam comunhão com
: Porventura, a Bíblia ensina que a morte é a separação entre a alma a Trindade, a Virgem Maria, os santos e os anjos. "Na glória do céu, os 93"":
imortal e o corpo mortal? Ou ensina que a morte é a cessação da vida bem-aventurados continuam a cumprir com alegria a vontade de Deus."6
para a pessoa toda, corpo e alma? Em outras palavras, pela perspectiva Inferno. Inferno é o lugar onde aqueles que morreram "com pe-
bíblica, a morte é a cessação da vida para a pessoa toda ou a transição cados graves e impenitentes", não expiados pelos rituais da igreja,'
da alma para uma nova forma de vida? serão severamente punidos, sem qualquer esperança de alívio durante
As partes 3 e 4 analisam os ensinos do Antigo e do Novo Testa- a eternidade. Conforme ensina o catecismo da Igreja Católica: "As
mento com respeito ao estado dos mortos durante o estado interme- almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imedia-
diário. A questão fundamental que levantamos nas duas últimas partes tamente, após a morte, aos infernos, onde sofrem as penas do inferno,
do capítulo é a seguinte: Será que os mortos dormem em um estado 'o fogo eterno'."8
de inconsciência até a manhã da ressurreição? Ou a alma dos salvos O castigo do inferno dura para sempre, sem qualquer perspectiva de
entra imediatamente, após a morte, na glória do paraíso, enquanto a alívio ou misericórdia, mas o nível de tortura depende da gravidade do
alma dos não salvos se contorce no tormento do inferno? pecado de cada pessoa. Como os católicos, as igrejas ortodoxas orien-
tais crêem no inferno, mas ensinam que não conhecemos o tipo es-
Parte 1 pecífico de castigo.
CRENÇAS SOBRE A VIDA FUTURA
A doutrina de pecadores queimando eternamente no inferno faz
A crença em alguma forma de vida após a morte é comum na Deus parecer um pai desumano, que, desesperado, lança seus filhos
maioria das religiões cristãs e não cristãs. A razão, conlorme se res- rebeldes num torno horrível e depois guarda a chave em lugar seguro
saltou no capítulo anterior, é a crença comum na imortalidade cia para sempre. Falaremos mais sobre as implicações dessa crença popular
alma. a qual pressupõe a continuidade da vida consciente da alma no próximo capítulo.
VIDA APÓS A MORTE
CRENÇAS POPULARES

Purgatório. A Igreja Católica ensina que todos que "morrem de fala inglesa, afirma: "Depois da morte, os corpos dos homens se
na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente pu- convertem em pó e vêem a corrupção; mas as suas almas (que nem
rificados, [...] passam, após sua morte, por uma purificação a fim de morrem nem dormem), tendo uma substância imortal, voltam ime-
obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu."9 As almas diatamente para Deus, que as deu. As almas dos justos, sendo então
no purgatório são sistematicamente torturadas com fogo até pagarem aperfeiçoadas na santidade, são recebidas no mais alto dos céus, onde
a pena residual temporal por seus pecados. Quanto mais se precisa de vêem a face de Deus em luz e glória, esperando a plena redenção
purgação, mais a alma deve sofrer no purgatório. "'Trata-se de um tipo dos seus corpos; e as almas dos ímpios são lançadas no inferno, onde
de inferno temporário durante o qual as almas se tornam plenamente ficarão, em tormentos e em trevas espessas, reservadas para o juízo do
grande dia final."13 A Confissão continua afirmando que a crença no
limpas e aceitáveis para a admissão no céu.
Conforme reza o Catecismo da Igreja Católica, "a Igreja recomenda purgatório é antibíblica.
as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos de- A maioria dos protestantes conservadores acredita que só existem
funtos". 11 Isso significa que os amigos e membros da família podem dois destinos possíveis para a alma após a morte. Ou ela ingressa ime-
encurtar a estada de seus entes queridos no purgatório, mandando diatamente na glória do céu e da presença de Deus ou é enviada di-
celebrar missas, comprando indulgências e fazendo peregrinações a retamente às chamas do inferno para o castigo eterno, sem nenhuma
possibilidade de alívio. Qualquer outro destino para a alma. tal como
lugares sagrados.
As crenças a respeito de céu e inferno das igrejas ortodoxas orien- o purgatório católico, não passa de doutrina "inventada".
* tais seguem muito de perto as da Igreja Católica Romana; porém, Céu. O céu está reservado para aqueles que foram justificados pela
essas igrejas não possuem nenhuma crença formal a respeito do pur- fé na obra salvadora de Cristo. A alma dos fiéis sobe imediatamente
após a morte para o céu a fim de viver na presença de Cristo, en-
gatório.
quanto aguarda a ressurreição do corpo. Na ressurreição final, as almas
Concepção dos protestantes conservadores desencarnadas receberão corpos novos e incorruptíveis e viverão na
a respeito de céu e inferno presença de Jesus Cristo na nova Terra, onde não há mais dor, doença,
Mostramos no capítulo 2 que a Reforma protestante surgiu em gran- atividade sexual e depressão.
de medida como uma reação contra as superstições medievais com res- Inferno. Os evangélicos conservadores acreditam que, na hora
peito à vida após a morte no purgatório. Os reformadores rejeitaram, da morte, a alma daqueles que rejeitaram a Cristo será enviada para
como práticas antibíblicas, a compra e venda de indulgências como meio o inferno, um lugar de tormento e eterna separação de Deus. Porém,
de reduzir a permanência no purgatório da alma de parentes falecidos. variam os pontos de vista acerca de que castigos o inferno pode ofe-
Apesar disso, continuaram a acreditar que a alma dos fiéis desfruta a recer além de separar a alma de Deus.
bem-aventurança do céu, enquanto a alma dos descrentes padece os tor-
Concepção dos protestantes liberais a respeito de céu e inferno
mentos do inferno. No dia da ressurreição, o corpo seria reunido à alma,
o que intensificaria o prazer celestial ou as angústias infernais. Desde essa Em geral, os protestantes liberais acreditam que, por ocasião da mor-
época, a maioria das igrejas protestantes aceitou a crença no céu e no te, as pessoas vão ou para o céu, a fim de viver na presença de Deus, ou
inferno, conforme se refle te em seus diversos credos e declarações de fé. 12 para o inferno, a fim para experimentar a separação de Deus. Mas os
Por exemplo, a Confissão de Westmmster (1646), considerada a protestantes liberais defendem uma ampla variedade de pontos de vista
declaração definitiva das crenças presbiterianas (calvinistas) no mundo não tradicionais. Por exemplo, alguns detmem céu como a vitória do
CRENÇAS POPULARES. .VIDA APÓS A MORTE

altruísmo, e não como uni novo céu e uma nova Terra. "O céu são rela- cesso natural desejado por Deus, mas como algo antinatural oposto
ções cordiais, sinceras e amorosas", diz Lloyd Kalland, deão da Gordon a Deus. A narrativa do Génesis nos ensina que a morte entrou no
Divinity School.14 mundo como resultado do pecado. Depois de ter Deus ordenado a
Já para a maioria dos teólogos liberais, inferno é alienação de Adão que não comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal,
Deus. "Inferno é alienação, isolamento, desespero", diz o deão Lloyd acrescentou a seguinte advertência: "No dia em que dela comeres,
Kalland.15 Em seu livro Principies of Christian Theology [Princípios da certamente morrerás" (Gn 2:17). O fato de Adão e Eva não terem
Teologia Cristã], o Dr.John Macquarrie, do UnionTheological Semi- morrido no dia da transgressão levou alguns a concluir que os seres
nary, descreve inferno "não como algum castigo externo ou arbitrário humanos realmente não morrem porque têm uma alma consciente,
que se atribui ao pecado, mas apenas o efeito do próprio pecado, na que sobrevive à morte do corpo.
medida em que destrói o ser distintivamente pessoal do pecador". 16
Pecado e morte
Vida após a morte no islamismo, budismo e hinduísmo Essa interpretação alegórica dificilmente pode receber o apoio do
O espaço não permite mencionar os conceitos de vida após a morte texto, que, traduzido literalmente, afirma: "morrendo, morrereis". O
defendidos pelo islamismo, budismo e hinduísmo. Basta dizer que todos que Deus queria dizer era simplesmente que, a partir do dia em que
eles comungam a crença de que a alma sobrevive à morte do corpo. No desobedecessem, se iniciaria o processo da morte. De um estado em
hinduísmo, o objetivo supremo é atingir a moksha, isto é, a autorrealiza- que lhes era possível não morrer (imortalidade condicional), passaram
96
ção e libertação definitiva pela alma do ciclo de morte e renascimento. a um estado, em que lhes era impossível não morrer (mortalidade g7

Quando se alcança a moksha, a alma se torna uma com Deus. incondicional).


A breve descrição que fizemos anteriormente das principais con- Antes do pecado original, o que garantia a certeza da imortalida-
cepções católicas e protestantes a respeito da vida após a morte torna de era a árvore da vida. Depois do pecado original, Adão e Eva não
patente que todas essas opiniões populares derivam de duas pressupo- mais tiveram acesso a essa árvore (Gn 3:22, 23) e, consequentemente,
sições: (1) a morte é a separação entre a alma imortal e o corpo mor- começaram a experimentar a realidade do processo de morrer. Na
tal; (2) a alma é um componente independente, imaterial e imortal visão profética da nova Terra, a árvore da vida se encontra em ambos
que sobrevive à morte do corpo. os lados do rio como um símbolo do dom da vida eterna entregue
São esses pressupostos biblicamente corretos? Ensina a Bíblia que aos remidos (Ap 22:2).
a morte é a separação entre a alma imortal e o corpo mortal? A alma O pronunciamento divino encontrado em Génesis 2:17 estabelece
sobrevive à morte do corpo e continua a existir na bem-aventurança do uma clara relação entre a morte humana e a transgressão do manda-
paraíso ou no tormento do inferno- Para responder a essas perguntas, mento divino. Assim, vida e morte na Bíblia encerram importância
devemos dirigir nossa atenção agora para o exame da visão bíblica de religiosa e ética, porque dependem cia obediência ou desobediência
morte. humana a Deus. Esse é um ensino fundamental da Bíblia, a saber,
que a morte entrou neste niuruio como resultado da desobediência
Parte 2 humana (ii.ni 5:12; l Co 15:21). Isso não diminui a responsabilidade
A CONCEPÇÃO BÍBLICA DE MORTE do indivíduo em sua participação no pecado (Ez i8:4. 20). A Bí-
blia, no entanto, faz uma distinção entre a primeira morte, peia qual
todo ser humano passa como resultado do pecado de Adão (Rm 5:12.;
CRENÇAS POPULARES VI DA APÓS A MORTE

ICo 15:21). e a segunda morte a ser enfrentada após a ressurreição ressurreição de seu significado.21 Se os crentes já estão abençoados no
(Ap 20:6), como o salário pelos pecados individuais (Km 6:23). céu e os ímpios já estão atormentados no inferno, por que ainda se
precisa de juízo final? 22 Althaus conclui que a doutrina da imortalida-
Morte como separação entre a alma e o corpo de da alma separa o que é inseparável: o corpo e a alma, o destino do
Uma questão importante que devemos abordar a esta altura é a indivíduo e o do mundo.23
visão bíblica a respeito da natureza da morte. Sendo mais específico, O teólogo católico romano Peter Riga, do St. Marys College, re-
a morte é a separação entre a alma imortal e o corpo mortal, de modo conhece que a velha ideia de uma alma que sai do corpo na hora da
que. quando o corpo morre, a alma continua a viver? Ou a morte é a morte "não faz nenhum sentido"."O que existe é apenas o homem",
cessação da existência da pessoa toda, corpo e alma? continua ele, "o homem feito à imagem e semelhança de Deus. O
Historicamente, os cristãos foram ensinados que a morte é a se- homem foi criado em sua totalidade e será salvo em sua totalidade."24
paração entre a alma imortal e o corpo mortal, para que a alma so- Essa contestação feita pelo mundo académico atual à concepção
breviva ao corpo em um estado desencarnado. O novo Catecismo da tradicional de morte como separação entre a alma e o corpo surge
Igreja Católica afirma: "Pela morte, a alma é separada do corpo; mas, com muito tempo de atraso. É difícil acreditar que, durante a maior
na ressurreição. Deus restituirá a vida incorruptível ao nosso cor- parte de sua história, o cristianismo defendeu, de modo geral, uma
po transformado, unindo-o novamente à nossa alma."17 Augustus crença sobre a natureza e o destino do homem influenciado essencial-
Strong define a morte em termos similares em sua bem conhecida mente pelo pensamento grego, em vez dos ensinos da Bíblia.
Systematic Theology [Teologia Sistemática]: "A morte física consiste na O que é. ainda mais surpreendente é que nenhuma quantidade
separação entre a alma e o corpo. Difere da morte espiritual, que é de pesquisas bíblicas mudará as doutrinas tradicionais defendidas pela
a separação entre a alma e Deus."18 maioria das igrejas sobre o estado intermediário. A razão é simples:
embora os pesquisadores possam mudar e mudem, individualmente,
Vigoroso ataque de pesquisadores modernos seus pontos de vista doutrinários sem sofrer consequências devasta-
A concepção histórica mencionada acima, que vê a morte como doras, o mesmo não ocorre com as igrejas consolidadas. Uma igreja
a separação entre a alma e o corpo, tem sofrido vigoroso ataque da que introduz mudanças radicais em suas doutrinas tradicionais mina
parte de pesquisadores modernos. Alguns exemplos são suficientes a fé de seus membros e, por conseguinte, a estabilidade da instituição.
para ilustrar esse ponto. Por exemplo, o teólogo luterano Paul Althaus
afirma: "A morte é mais do que o afastamento entre a alma e o corpo. Morte como cessação da vida
A pessoa participa da morte tanto no corpo como na alma. [...] A fé Quando buscamos na Bíblia uma descrição para a natureza da
cristã nada sabe de uma imortalidade da personalidade. [...] Conhece morte, descobrimos muitas afirmações claras que requerem pouca ou
apenas um despertar da morte de fato através do poder de Deus. Só há nenhuma interpretação. Em primeiro lugar, a Bíblia descreve a mor-
existência após a morte mediante um despertamento da pessoa toda te como um retorno aos elementos a partir dos quais o homem foi
por ocasião da ressurreição."19 feito originalmente. Ao pronunciar a sentença sobre Adão após sua
Althaus argumenta que a doutrina da imortalidade da alma não desobediência, Deus disse: "No suor do rosto comerás o teu pão, até
faz justiça à seriedade da morte, visto que a alma passa ilesa através da que tornes à terra, [...j porque tu és pó e ao pó tornarás'' (Gn 3:19).
morte. 2 " Além disso, a ideia de que a pessoa pode ser totalmente feliz Essa afirmação chocante nos diz que a morte não é a separação entre
e abençoada sem o corpo nega a importância do corpo e esvazia a o corpo e a alma, mas o término da vida, que traz como resultado o
CRENÇAS POPULARES

apodrecimento e a decomposição do corpo. Por ter sido o homem


r VIDA APÓS A MORTE

não pode pensar. Salmo 115:17 expressa o mesmo pensamento: ''Os


criado de matéria perecível, sua condição natural é a mortalidade (Gn mortos não louvam o Senhor, nem os que descem à região do silên-
3:19). cio." Aqui, o salmista descreve a morte como um estado de "silêncio".
O estudo das palavras "morrer" e "morte" no hebraico e no grego Que contraste com a "ruidosa" opinião popular da vida após a morte,
revela que a Bíblia vê a morte como o término ou interrupção da segundo a qual os santos louvam a Deus no céu e os ímpios gritam
vida. A palavra hebraica comum para "morrer" é muth, que ocorre de angústia no inferno!
mais de 800 vezes no Antigo Testamento. Na grande maioria dos ca- Em terceiro lugar, a morte é descrita como um "sono". "Atenta
sos, emprega-se muth simplesmente para indicar a morte de homens e para mim, responde-me, Senhor, Deus meu! Ilumina-me os olhos, para
animais. Não há nenhum indício de que a palavra seja usada de forma que eu não durma o sono da morte" (Si 13:3). Essa caracterização da
distinta entre os dois. Um exemplo bem claro é o que se encontra em morte como "sono" ocorre com frequência no Antigo e no Novo
Eclesiastes 3:19: "Porque o que sucede aos filhos dos homens sucede Testamento, porque representa adequadamente o estado de inconsci-
aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o ência na morte. Mais adiante examinaremos o significado da metáfora
outro." do "sono", a fim de se compreender a natureza da morte.
A Bíblia hebraica usa maveth [a morte] em diversos lugares com
Descrições da morte no Antigo Testamento referência à segunda morte. "Tão certo como Eu vivo, diz o Senhor
O substantivo hebraico maveth, empregado no Antigo Testamento Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perver-
100
cerca de 150 vezes t geralmente traduzido como "morte", nos forne- so se converta do seu caminho e viva" (Ez 33:11; cf. 18:23, 32). Está 101
ce três importantes percepções sobre a natureza da morte. claro que "a morte do perverso" referida aqui não é a morte natural
Em primeiro lugar, na morte não há lembrança do Senhor: "Pois, pela qual passam todas as pessoas, mas a morte que Deus inflige aos
na morte [maveth], não há recordação de Ti; no sepulcro, quem Te dará pecadores impenitentes no fim do tempo. Nenhuma das descrições
louvor?" (SI 6:5). A razão pela qual na morte não há nenhuma lem- literais ou referências figurativas à morte no Antigo Testamento sugere
brança é simples: quando o cérebro morre junto com o corpo, cessa a sobrevivência consciente da alma ou espírito em separado do corpo.
toda atividade mental. "Sai-lhe o espírito, volta para a terra; naque- A morte é a cessação da vida para a pessoa toda.
le mesmo dia perecem os seus pensamentos" (SI 146:4, ACF). Visto
que na morte "perecem os pensamentos", fica evidente que nenhuma Referências à morte no Novo Testamento
alma consciente sobrevive à morte do corpo. Se o processo do pen- As referências do Novo Testamento à "morte", termo traduzido
samento, que geralmente é associado à alma, sobrevivesse à morte do pelo grego thanatos, não são tão esclarecedoras a respeito da natureza
corpo, então os pensamentos dos santos não pereceriam. Eles seriam da morte quanto às encontradas no Antigo Testamento. Isso se deve
capazes de se lembrar de Deus. Mas o fato é que "os vivos sabem que em parte ao fato de que, no Antigo Testamento, muitas das referências
hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma" (Ec 9:5). ã morte se encontram nos livros poéticos ou sapienciais de Salmos, jó
Em segundo lugar, na morte ou na sepultura é impossível louvar a e Eclesiastes. Esse tipo de literatura não existe no Novo Testamento.
Deus. "Que proveito há na minha morte [maveth], quando eu descer O mais importante é o taco do Novo Testamento encarar a morte a
à cova? Porventura Te louvará o pó? Anunciará ele a Tua fidelidade?" partir da perspectiva da vitória de Cristo sobre a morte. Esse tema, que
(SI 30:9, RS V). Ao comparar a morte com o pó, o salmista mostra domina o Novo Testamento, é determinante para a concepção cristã .1
claramente que não existe uma consciência na morte, porque o pó resoeito da morte.
CRENÇAS POPULARES

Pela vitória obtida sobre a morte, Cristo neutralizou o aguilhão da


morte (3Co 15:55); aboliu a morte (2Tm 1:10); venceu o diabo, que
r VIDA APÓS A MORTE

("Eis que estás para dormir com teus pais", Dt 31:16), e depois com
Davi ("e vieres a dormir com teus pais",2Sm 7:12,ARC) ejó ("agora
tinha o poder da morte (Hb 2:14); tem em Sua mão as chaves do remo dormirei no pó",Jó 7:21, KJV), até a declaração de Pedro de que ''os
da morte (Ap 1:18); é o cabeça de uma nova humanidade, o primo- pais dormiram" (2Pe 3:4). Se as almas dos "pais" estivessem realmente
génito dentre os mortos (Cl 1:18); regenerou os crentes para uma viva vivas no paraíso, os escritores bíblicos não poderiam ter se referido a
esperança, mediante a Sua ressurreição dentre os mortos (IPe 1:3). elas sistematicamente como estando "dormindo".
A vitória de Cristo sobre a morte afeta a maneira como o crente Outra palavra hebraica para "dormir" é yashen. O termo ocorre
compreende a morte física, espiritual e eterna. O crente pode enfrentar tanto como verbo,"dormir" (Jr 51:39,57; SI 13:3), quanto como subs-
a morte física confiante de que Cristo tragou a morte pela vitória e há tantivo, "sono". Essa última acepção figura no bem conhecido verso
de, na Sua vinda, despertar os santos que dormem (ICo 15:51-56). de Daniel 12:2: "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscita-
Os crentes que estavam espiritualmente "mortos" em delitos e rão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno."
pecados (Ef 2:1; cf. 4:17-19; Mt 8:22) foram regenerados para uma Repare que nessa passagem tanto os justos como os ímpios dormem
nova vida em Cristo (Ef 4:24). Os descrentes que continuam espiri- igualmente no pó da terra e serão ambos ressuscitados no final.
tualmente mortos durante toda a vida e não aceitam a providência Uma terceira palavra hebraica usada para o sono da morte é shenah.
salvadora de Cristo (Jo 8:21, 24) passarão pela segunda morte (Ap Jó faz esta pergunta retórica: "O homem, porém, morre e fica pros-
20:6; 21:8), no Dia do Juízo. Essa é a morte definitiva e eterna, da trado; expira o homem e onde está?" (Jó 14:10). Ele mesmo responde:
102
qual não há retorno. "Como as águas do lago se evaporam, e o rio se esgota e seca, assim 103
Os sentidos figurativos da palavra thanatos (morte) dependem in- o homem se deita e não se levanta; enquanto existirem os céus, não
teiramente de seu sentido literal como cessação da vida. Argumentar a acordará, nem será despertado do seu sono [shenah}" (Jó 14:11,12; cf.
favor da existência consciente da alma com base no sentido figurativo SI 76:5; 90:5). Eis uma descrição da morte repleta de forte realismo.
da morte é atribuir à palavra um significado que ela não possui. Isso Quando alguém exala o último suspiro, "onde está?", ou seja, "o que
vai de encontro às regras da língua e da gramática e destrói as relações resta dele?" Nada. Ele não existe mais.Torna-se como um lago ou rio
entre a morte física, a espiritual e a eterna. cujas águas secaram. Dorme na sepultura e "não acordará" enquanto
não chegar o fim do mundo.
Morte como sono no Antigo Testamento Alguém pode perguntar: Jó nos daria uma descrição tão negativa
Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a morte recebe com da morte se acreditasse que sua alma sobreviveria a ela? Se a morte o
frequência o nome de "sono". Antes de tentar explicar a razão por colocasse na imediata presença de Deus no céu, por que o patriarca
que a Bíblia emprega a metáfora do "sono", vejamos alguns exemplos. fala de acordar somente depois de não mais "existirem os céus" (Jó
O Antigo Testamento descreve a morte mediante o emprego de três 14:12),"até que viesse a minha libertação" (Jó 14:14, RS V)? Torna-se
palavras hebraicas que significam "sono". evidente que nemjó nem qualquer outro crente do Antigo Testamen-
A palavra mais comum, shachav, é utilizada na expressão recor- to estavam informados de uma existência consciente após a morte.
rente "[Fulano de Tal] dormiu com seus pais" (Gn 28:11; Dt 31:16;
2Sm 7:12: IRs 2:10). Encontramos esse belo eufemismo para a morte
Morte como sono no Novo Testamento
como um tio ininterrupto que se estende através do Antigo e do O Novo Testamento descreve a morte como sono com maior
Novo Testamento, desde a primeira vez em que é aplicado a Moisés frequência que o Antigo. A esperança na ressurreição, esclarecida e
CRENÇAS POPULARES
VIDA APÓS A MORTE

reforçada pela ressurreição de Cristo, dá novo sentido ao sono da As expressões "dormir" e "despertar", conforme empregadas na
morte dos crentes que despertarão na segunda vinda. Como Cristo Bíblia para os atos de entrar e sair de um estado de morte, são harmó-
dormiu no sepulcro antes de Sua ressurreição, assim dormem os cren- nicas e simétricas. Os dois verbos confirmam a ideia de que a morte
tes na sepultura à espera de sua própria ressurreição. não passa de um estado inconsciente semelhante ao sono do qual os
O Novo Testamento emprega duas palavras gregas para "sono". crentes vão despertar no dia da segunda vinda de Cristo.
A primeira é koimao, usada catorze vezes para o sono da morte. Um
termo derivado desse substantivo grego é koimeeteerion, de onde se Lázaro não passou pela experiência do pós-morte
originou a palavra cemitério. A segunda palavra grega é katheudein, ge- A experiência de Lázaro tem um significado especial pelo fato de
ralmente empregada para o sono comum. O Novo Testamento re- ele ter passado quatro dias na sepultura. Essa não foi uma experiência
corre a ela quatro vezes para designar o sono da morte (Mt 9:24, Mc de quase-morte, mas uma verdadeira experiência de morte.
5:39; Lc 8:52;Ef 5:14). Se, como se acredita popularmente, a alma deixa o corpo na hora da
Na hora da crucificação de Cristo, "muitos corpos de santos, que morte e vai para o céu, então Lázaro teria tido muita coisa para contar a
dormiam [kekoimemenon], ressuscitaram" (Mt 27:52). No original, o respeito da incrível experiência de passar quatro dias no paraíso. Os líderes
texto diz: "Muitos corpos de santos adormecidos ressuscitaram." Não religiosos e o povo teriam feito tudo a seu alcance para obter de Lázaro
se faz nenhum comentário sobre almas sendo reunidas a corpos. Fica o máximo de informação sobre o mundo invisível. Essas informações
evidente que as pessoas foram ressuscitadas integralmente, e não ape- teriam fornecido respostas para a questão da vida após a morte, tão ca-
' nas corpos. Falando figurativamente da morte de Lázaro, Jesus afirma: lorosamente debatida entre saduceus e fariseus (Mt 22:23,28; Mc 12:18, 105
"Nosso amigo Lázaro adormeceu [kekoimetai], mas vou para despertá-lo" 23; Lc 20:27,33).
0o 11:1 i). Ao perceber que fora mal compreendido, "Jesus lhes disse Mas Lázaro não teve nada para contar a respeito da vida após a
claramente: 'Lázaro morreu'" (Jo 11:14). Em seguida, apressou-Se em morte, porque, nos quatro dias em que permaneceu no túmulo, dor-
tranquilizar Marta:"Teu irmão há de ressurgir" (Jo 11:23). miu o sono inconsciente da morte. O que sucedeu a Lázaro aconteceu
Esse episódio é digno de nota, acima de tudo, porque nele Jesus também com as outras seis pessoas que ressurgiram dos mortos: o filho
descreve claramente a morte como um "sono" do qual os mortos vão da viúva (IRs 17:17-24), o filho da sunamita (2Rs 4:18-37), o filho da
despertar ao som de Sua voz. A condição de Lázaro na morte era se- viúva de Naim (Lc 7:11-15), a filha de Jairo (Lc 8:41,42,49-56),Tabita
melhante a um sono do qual se acorda. Cristo promete: "Vou para (At 9:36-41), e Eutico (At 20:9-12). Cada uma dessas pessoas reviveu
despertá-lo" (Jo 11:11). O Senhor cumpriu a promessa quando Se da morte como se fosse de um sono profundo, com sua individualidade
dirigiu ao túmulo e clamou em alta voz: "'Lázaro, vem para fora!' [E] e sentimentos originais, mas sem nenhuma experiência de pós-morte
saiu aquele que estivera morto" (Jo 11:43, 44). para contar.
O despertar de Lázaro do sono da morte pelo som da voz de Cristo A Bíblia sequer insinua que a alma de Lázaro, ou das outras seis
é comparável ao despertar dos santos adormecidos no dia da gloriosa pessoas ressurgidas dentre os mortos, tenha ido para o céu. Nenhum
vinda do Senhor. Eles também ouvirão a voz de Cristo e tornarão à dos ressuscitados relata unia "experiência celestial", pois nenhum
vida. "Vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão deles subiu ao céu. Isso se confirma na referência que Pedro tez a
a Sua voz e sairão" (Jo 5:28; et. Jo 5:25)."Porquanto o Senhor mesmo, Davi no discurso proferido no dia de Pentecostes: "Irmãos, seja-me
ciada <; Sua palavra de ordem, ouvida a voz do Arcanjo, f . . . ] e os mortos permitido dizer-vos claramente a respeito do patriarca Davi que
em Cristo ressuscitarão primeiro" (ITs 4:16). ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo permanece entre nós
CRENÇAS POPULARES VIDA APÓS A MORTE

até hoje" (At 2:29). Alguns poderão argumentar que o que estava beni-aventuranca celeste para explicar aos tessalonicenses que a tristeza
na sepultura era o corpo de Davi, não a alma dele, que havia subido deles era sem sentido. Por que deveriam eles se entristecer pelos entes
para o céu. Pedro nega essa interpretação afirmando taxativamente: queridos, se esses já estavam desfrutando da betn-aventurança celestial?
"Porque Davi não subiu aos céus" (At 2:34). A tradução de Knox diz: O motivo por que Paulo não os conforta dessa maneira certamente é
"Davi nunca subiu ao céu." A Bíblia Cambridge registra a seguinte porque sabia que os santos adormecidos não estavam no céu, mas na
observação: "Porque Davi não foi arrebatado. Melhor, não ascendeu. sepultura.
Ele desceu à sepultura e 'dormiu com seus pais'." O que dorme na Essa conclusão é compatível com a certeza dada por Paulo aos
sepultura, de acordo com a Bíblia, não é só o corpo, mas a pessoa leitores de que os cristãos vivos não se encontrariam com Cristo na
toda, que aguarda o despertar da ressurreição. Sua vinda antes dos que haviam adormecido. "Nós, os vivos, os que
ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os
Paulo e os santos adormecidos que dormem" (ITs 4:15). A razão é que "os mortos em Cristo res-
Nos dois grandes capítulos sobre a ressurreição, l Tessalonicen- suscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos
ses 4 e l Coríntios 15, Paulo se refere repetidas vezes àqueles que arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do
"dormem" em Cristo (ITs 4:13-15; ICo 15:6, 18, 20). A análise de Senhor nos ares" (ITs 4:16, 17).
algumas das declarações paulinas ajuda a compreender melhor o que O fato de os santos vivos encontrarem com Cristo ao mesmo tem-
o apóstolo quis dizer ao caracterizar a morte como um sono. po que os santos adormecidos mostra que estes ainda não estavam,
106
Escrevendo aos tessalonicenses, chorosos por entes queridos que ha- unidos com-Cristo no céu. Se a alma dos santos já estava desfrutando
viam descansado antes de presenciar a vinda de Cristo, Paulo os tran- a comunhão com Cristo no céu e iria descer à Terra junto com Cris-
quiliza garantindo que, se Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, assim to no Seu segundo advento, é óbvio que eles teriam uma inequívoca
também o Senhor, mediante Jesus, "trará, em Sua companhia, os que precedência sobre os santos vivos. Mas a verdade é que tanto os crentes
dormem" (ITs 4:14). Alguns defendem que Paulo está falando aqui de vivos como os mortos aguardam sua desejada união com o Salvador,
almas desencarnadas que, tendo ido supostamente para o céu na morte, uma união experimentada por ambos, simultaneamente, no dia da vin-
retornarão com Cristo quando Ele descer à Terra em Sua vinda. da de Cristo.
Essa interpretação ignora três pontos importantes. Em primeiro lu- A discussão paulina sobre os santos vivos em l Coríntios 15 con-
gar, a Bíblia não ensina em parte alguma que a alma sobe para o céu firma muito daquilo já mencionado em l Tessalonicenses 4. Depois
na hora da morte. Em segundo lugar, no contexto, Paulo não está fa- de ratificar a importância fundamental da ressurreição de Cristo para
lando de almas imortais, mas dos que "dormem" (ITs 4:13; cf. v. 14) a fé e esperança cristãs, Paulo explica que, "se Cristo não ressuscitou,
e dos "mortos em Cristo" (ITs 4:16). "Os mortos em Cristo ressuscita- [...] os que dormiram em Cristo pereceram" (ICo 15:17, 18). Se o
rão primeiro", a partir da sepultura (ITs 4:16), e não descerão do céu. apóstolo realmente acreditasse que a alma dos santos adormecidos
Nada sugere que corpos ressurgem da sepultura e almas descem do era imortal e estava desfrutando a bem-aventurança do paraíso, difi-
céu para se reunir com os corpos.Tal conceito dualista é desconheci- cilmente lhes teria dito que, sem a garantia da ressurreição de Cristo,
do para a Bíblia. eles iriam perecer. Se Paulo acreditasse na imortalidade da alma, pro-
Em terceiro lugar, se Paulo realmente acreditasse que "os mortos vavelmente teria dito que. sem a ressurreição de Cristo, a alma dos
em Cristo" não estavam de rato mortos na sepultura, mas vivos no céu santos adormecidos continuaria desencarnada por toda a eternidade.
na condição de almas desencarnadas, teria aoroveitado a condição de Mas Paulo não faz qualquer alusão a essa possibilidade; pois, para ele,
CRENÇAS POPULARES VIDA APÓS A MORTE

sem a garantia da ressurreição de Cristo, a pessoa toda (corpo e alma) Quando ouvimos ou dizemos que uma pessoa está morta, pensa-
pereceria. jttos automaticamente que não há mais esperança de fazê-la retornar à
E notável o fato de Paulo não mencionar, em um capítulo dedi- vida. Mas, quando dizemos que uma pessoa está dormindo no Senhor,
cado à importância e dinâmica da ressurreição, a suposta reunifica- expressamos nossa esperança de que ela será restituída à vida no dia
ção do corpo com a alma no dia da ressurreição. Se Paulo defendesse da ressurreição. A metáfora do "sono" não descreve apenas a condi-
essa crença, certamente teria feito alguma referência à reunião do ção adormecida dos mortos, mas a possibilidade de serem despertados
corpo com a alma, especialmente quando discute a transformação para a vida na manhã da ressurreição.
dos crentes do estado mortal para um estado imortal na vinda de Em terceiro lugar, emprega-se a metáfora do "sono" para sugerir
Cristo. Mas o único "mistério" que Paulo revela aqui é que "nem que não há consciência durante o tempo em que se dorme. Nesse
todos dormiremos, mas transformados seremos todos" (ICo 15:51). sentido, a metáfora fornece uma representação apropriada do estado
Essa mudança de natureza perecível para natureza imperecível sobre- inconsciente dos falecidos no intervalo entre a morte e a ressurreição.
vêm a todos, vivos e mortos, ao mesmo tempo, ao soar da "última Eles não têm consciência da passagem do tempo. Em seus primeiros
trombeta" (ICo 15:52). A mudança não tem nada que ver com al- escritos, Martinho Lutero expressou esse pensamento de forma muito
mas desencarnadas recuperando a posse de corpos ressuscitados. Pelo clara: "Assim como alguém adormece e acorda de repente pela manhã
contrário, é uma mudança da vida mortal para a vida imortal, tanto sem ter a mínima noção do que lhe aconteceu, também ressurgiremos
dos vivos quanto dos mortos em Cristo: o corpo mortal se reveste no último dia sem saber como ingressamos na morte e como dela nos
; "" da imortalidade (ICo 15:54). retiramos."25 Lutero escreveu novamente: "Dormiremos até que Ele 109
venha e bata na pequena sepultura ordenando: 'Levante-se, doutor
O sentido da metáfora do "sono"
Martinho!' Então eu ressuscitarei num abrir e fechar de olhos, e serei
O fato de a Bíblia utilizar com frequência a metáfora do "sono" feliz com Ele para sempre."26
para descrever o estado dos mortos em Cristo levanta a questão das Por uma questão de rigor histórico, é preciso ressaltar que, em seus
implicações dessa metáfora sobre a natureza da morte. Por que a Bíblia últimos dias de vida, Lutero rejeitou em grande medida a ideia de um
emprega essa metáfora e que conclusões podemos tirar a respeito da sono inconsciente dos mortos, ao que parece devido ao forte ataque
natureza da morte? Existem três razões principais para a utilização de Calvmo contra essa doutrina. Em seu Commentary on Génesis [Co-
da metáfora do "sono" na Bíblia. mentário Sobre Génesis], escrito em 1537, Lutero observa: "A alma
Em primeiro lugar, existe uma semelhança entre o "sono" dos desencarnada não dorme dessa maneira [sono regular]; pelo contrário,
mortos e o sono dos vivos. Ambos se caracterizam por uma condição ela fica desperta, enxerga os anjos e Deus e conversa com eles."2' A mu-
de inconsciência e inatividade, que é interrompida pelo despertar. As- dança de atitude de Lutero do estado de inconsciência para consciência
sim sendo, a metáfora do "sono" representa adequadamente o estado dos mortos serve apenas para demonstrar que até mesmo reformadores
inconsciente dos mortos s seu despertar no dia da volta de Cristo. influentes não ficaram isentos das pressões religiosas de sua época.
Em segundo lugar, o uso da metáfora do "sono" inspira esperança Nosso estudo sobre a metáfora do "sono" no Antigo e no Novo
na medida em que garante que haverá um despertar. Assim como uma Testamento mostrou que a Bíblia emprega com frequência essa figura
pessoa vai dormir à noite na esperança de que acordará na manhã de linguagem porque ela encapsula uma verdade vital: a de que oi
seguinte, o crente dorme no Senhor com a certeza de que será des- mortos que dormem em Cristo ficam inconscientes de qualquer lap-
pertado por Cristo na manhã da ressurreição. so de tempo até a ressurreição.
CRENÇAS^POPULARES VIDA APÓS A MORTE

Os crentes que morrem em Cristo adormecem e descansam in- é a perda do ser total, e não apenas a perda do bem-estar. A pessoa corno
conscientes até serem despertados quando Cristo os chamar de volta um todo descansa na sepultura em um estado de inconsciência carac-
à vida em Seu advento. terizado na Bíblia como "sono". O "despertar" desse sono ocorrerá na
secunda vinda de Cristo, ocasião em que Ele chamará de volta à vida
O significado e a base da imortalidade todos os santos que dormem. A metáfora do "sono" é realmente um
A imortalidade na Bíblia não é uma propriedade inata ao ser hu- belo, terno e reconfortante anúncio de que a morte não é o destino
mano, mas um atributo divino. O termo "imortalidade" vem do gre- final do homem. Para o sono da morte resta um despertar na manhã da
go athanasia, que significa ''sem mortalidade". O termo ocorre apenas ressurreição.
duas vezes: primeiramente com relação a Deus, "o único que possui
imortalidade" (lTm 6:16), e, em segundo lugar, com relação à mor- Parte 3
talidade humana, que deve ser revestida da imortalidade (ICo 15:53) SHEOL NO ANTIGO TESTAMENTO
por ocasião da ressurreição. Essa última referência refuta o conceito de A Bíblia emprega duas palavras para descrever o lugar de habitação
uma imortalidade natural da alma, porque afirma que a imortalidade é dos mortos: sheol no Antigo Testamento e hades no Novo Testamento.
algo de que os santos ressuscitados serão "revestidos". Não é algo que Ambas são frequentemente mal interpretadas para representar o lugar
já possuam. em que as almas desencarnadas continuam a existir após a morte e o
A Bíblia nunca sugere que a imortalidade é uma qualidade ou lugar de castigo dos ímpios (inferno). Sendo assim, é imprescindível
110
direito natural dos seres humanos. A presença da "árvore da vida" que estudemos o significado e o emprego bíblico desses dois termos.
no Jardim do Éden mostra que, para Adão conservar sua imortali-
dade, precisava comer constantemente do fruto da árvore da vida. A Traduções e interpretações de sheol
Escritura ensina que "se deve buscar a imortalidade" (Rm 2:7, RSV) A palavra hebraica sheol, que ocorre 65 vezes no Antigo Testamen-
e "revestir-se" dela (ICo 15:53). Assim como a vida eterna, ela é to, é traduzida por diferentes designações como "sepultura", "inferno",
dom de Deus (Rm 6:23) e é herdada (Mt 19:29) mediante o conhecimen- "abismo" ou "morte". Essas traduções divergentes tornam difícil para
to de Deus (Jo 17:3),por meio de Cristo (Jo 14:19; 17:2; Rm. 6:23). Para o leitor de língua inglesa [ou portuguesa] compreender o significado
Paulo, a imortalidade está vinculada exclusivamente à ressurreição de básico de sheol. A King James Version (KJV), por exemplo, traduz sheol
Jesus (ICo 15) como base e promessa para a esperança do crente. Os 31 vezes como "sepultura", 31 vezes como "inferno" e três vezes como
que insistem em buscar na Bíblia a ideia filosófica para a imortalidade "abismo". Isso significa que os leitores dessa versão bíblica são muitas
natural da alma ignoram a Palavra de Deus e corrompem a fé bíblica vezes induzidos erroneamente a crer que o Antigo Testamento ensina a
com ideias dualísticas creias.
O O
existência de um inferno no qual os ímpios são atormentados por seus
pecados.
Conclusão Na ARC, por exemplo, o Salmo 16:10 diz: "Pois não deixa-
Nosso estudo sobre a posição da Bíblia sobre a natureza da morte rás a minha alma no inferno". Um leitor desinformado suporá que
mostrou que tanto o Antigo como o Novo Testamento ensinam expli- o texto quer dizer simplesmente: "Pois não deixarás minha alma ser
citamente que a morte é a extinção da vida para a pessoa toda. Na morte atormentada no inferno." Uma leitura como essa constitui uma inter-
não existe nenhuma recordação ou consciência (SI 146:4:30:9; 115:17; pretação errada do texto, que, coníorme traduzido na RSV, diz apenas:
Ec 9:o). O espírito ou alma não existe em separado do corpo. A morte "Pois não me deixarás no Sheol". isto é, na sepultura. Simplesmente, o

l
CRENÇAS POPULARES VIDA APÔS A MORTE

salmista expressa a confiança de que Deus não o abandonará na sepul- dos mortos [sheol] um lugar cie castigo ou tormento. O conceito de
tura. Na verdade. Atos 2:27 aplica o texto exatamente assim a Cristo, um 'inferno' horrendo se desenvolveu em Israel somente durante o
que não foi deixado na sepultura pelo Pai. O texto não fala nada sobre período helenístico".31
um lugar de tormento. Em seu clássico estudo Israel: lis Life and Culture [Israel: Sua Vida e
Para evitar esse tipo de interpretação equivocada, a única coisa que Cultura],Johannes Pedersen afirma categoricamente: "Sheol é a tota-
a Revised Standard Version e ^ The New American Standard Bible lidade na qual todas as sepulturas se unificam. [...] Onde há sepultura,
fazem é transliterar os caracteres hebraicos da palavra para o alfabeto há sheol; e onde há sheol, há sepultura."32 Pedersen explica com rique-
latino: sheol. A Nova Versão Internacional geralmente traduz o termo za de detalhes que sheol é o lugar coletivo dos mortos, para onde vão
como "sepultura" (ocasionalmente como "morte"), com uma nota de todos os falecidos, sepultados ou insepultos. Essa conclusão se torna
rodapé: sheol Essa tradução reflete com precisão o significado básico evidente quando examinamos algumas formas como se emprega a
de sheol como sepultura ou, melhor ainda, lugar coletivo dos mortos. palavra sheol.
Diferentes traduções acabam refletindo muitas vezes as diferentes
crenças religiosas dos tradutores. Os tradutores da KJV, por exemplo, Etimologia e localização de sheol
acreditavam que na morte os justos iam para o céu e os ímpios para É incerta a etimologia de sheol. As derivações mais frequente-
o inferno; consequentemente, traduziram sheol por "sepultura" quan- mente mencionadas provêm de uma raiz que significa "pergun-
112
do se referia aos justos (pois o corpo destes repousava na sepultura), tar", "inquirir" e "enterrar a si mesmo".33 Em sua tese intitulada
mas '"inferno" quando se reteria aos ímpios (pois supunham que a "Sheol in the Old Testament" [Sheol no Antigo Testamento], Ralph
alma destes era atormentada no inferno). Abordagem semelhante foi Doermann sugere que sheol deriva de shilah, cujo significado fun-
adotada pelo especialista em Antigo Testamento Alexander Heidel,28 damental é "aquietar-se", "descansar". Ele conclui que, "se existir
criticado por manipular arbitrariamente os dados bíblicos.29 realmente uma ligação entre sheol e shilah, o termo tem que ver não
A maneira como a Bíblia utiliza o termo não endossa a interpre- com a localização da região dos mortos, mas com o caráter dos seus
tação de sheol como morada das almas (em vez de lugar de repouso ocupantes, que estão, acima cie tudo, 'em repouso'". 34 A diferença
do corpo na sepultura) ou de lugar de castigo para os ímpios, conhe- entre as duas palavras é relativa. O que é mais importante é o fato de
cido como inferno. Até mesmo John W. Cooper, que tenta defender a sheol designar um lugar em que os mortos descansam.
concepção dualista a respeito da natureza humana contra o vigoroso O sheol se localiza abaixo da superfície da terra, visto ser mencio-
ataque proveniente dos estudos académicos modernos, reconhece o nado muitas vezes em contraste com o céu para indicar os pontos
fato. Em seu livro Body, Sou/, and Life Everlasting [Corpo, Alma e Vida extremos do Universo. Sheol é o lugar mais profundo no Universo,
Eterna], Cooper afirma:"Talvez o fato mais interessante para o qual os assim como o céu é o mais elevado. Amos descreve a ira de Deus, da
cristãos devam atentar é o de que o termo [sheol] designa o lugar de qual ninguém pode escapar, nestes termos: "A-nii que desçam ao
repouso dos mortos, independentemente da religião adotada durante mais profundo abismo [sheol], a Mi:-.'> > ".-.Io os tirará de lá; se subirem
a vida. Sheoi não é o 'interno' a que os ímpios estão condenados e do ao céu, de lá os farei descer" i^Am 9:2,3). O salmista exclama de forma
qual os fiéis do Senhor são poupados na glória. [...] Não resta dúvida parecida:' Para onde me ausentarei do Teu Espírito? Para onde tugirei
de que crentes e não crentes vão todos para o sheol quando morrem.''3" cia "iua race? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais
O liberai The Interpreteis Dicrionary of the Bible declara com mais profundo abismo [sheol], lá. estás também" (SI 139:7. 8: cf.jó 11:7-9).
ênfase que "parte alguma do Antiao Testamento considera a habitação Por estar o sheol situado abaixo da terra, os morros chegam ate ele
CRENÇAS POPULARES VIDA APÓS A MORTE

"descendo", um eufemismo para ser sepultado na terra. Foi assim que


Jacó, ao ser informado da suposta morte de seu filho José, exclamou: Sheol como a região dos mortos
"Chorando, descerei a meu filho até à sepultura [sheol]" (Gn 37:35). Todas as características do sheol mencionadas acima descrevem
Talvez o exemplo mais claro da localização do sheol abaixo da terra seja com precisão a região dos mortos. Cova, lugar de destruição, terra das
o relato do castigo de Corá, Data e Abirão, que se haviam revoltado trevas, região do silêncio, terra sem retorno são todos nomes descri-
contra a autoridade de Moisés. "A terra debaixo deles se fendeu, abriu a tivos para a região dos mortos. Temos alguns casos também em que
sua boca e os tragou com as suas casas, como também todos os homens sheol ocorre em paralelismo com a morte e o túmulo: "Que a morte
que pertenciam a Corá e todos os seus bens. Eles e todos os que lhes os assalte, e vivos desçam ao Sheol; que fujam em terror para a sua se-
pertenciam desceram vivos ao abismo [sheol]; a terra os cobriu" (Nm pultura!" (SI 55:15, RSV). O paralelismo da passagem bíblica faz sheol
16:31-33). O episódio mostra claramente que a pessoa toda, e não ape- equivaler à morte e à sepultura.
nas a alma, desce para o sheol, para a região dos mortos. As diversas figuras empregadas para descrever o termo hebraico
servem todas para mostrar que sheol não é o lugar onde ficam espíri-
Características do sheol tos desencarnados, mas a região dos mortos. Anthony Hoekema, erudito
As características do sheol são essencialmente as mesmas da região calvinista, chega essencialmente à mesma conclusão em seu livro The
dos mortos, ou a sepultura. Em numerosas passagens, sheol se encontra Bible and the Future [A Bíblia e o Futuro], quando reconhece: "As
114
em paralelismo com a palavra hebraica 6o»; que significa "cova" ou diversas figuras aplicadas a sheol podem ser todas entendidas como se
qualquer tipo de cavidade subterrânea como uma sepultura. O sal- referindo à região dos mortos: diz-se que sheol possui ferrolhos (Jó
mista escreve: "Pois a minha alma está farta de males, e a minha vida 17:16 [ARC]), que é um lugar escuro e sombrio (Jó 17:13) e que
já se abeira da morte [sheol\. Sou contado com os que baixam à cova se configura num monstro de apetite insaciável (Pv 27:20; 30:15, 16;
[bor]" (SI 88:3,4, RSV)/" Nesse caso, o paralelismo equipara sheol com Is 5:14; He 2:5). Quando pensamos em sheol dessa forma, devemos
a cova, isto é, com o lugar de sepultamento dos mortos. lembrar que tanto os bons quanto os maus descem ao sheol quando
Sheol aparece várias vezes ao lado de abaddon, que significa "des- morrem, visto que ambas as classes entram na região dos mortos."3'
truição" ou "ruína.".36Abaddon figura em paralelismo com a sepultura: Qualquer tentativa de transformar o sheol em lugar de tormento
"Acaso, nas trevas [sheol\e manifestam as Tuas maravilhas? E a Tua para ímpios ou de habitação para espíritos/almas contradiz frontalmen-
justiça, na terra do esquecimento [abbadon]?" (SI 88:12). O fato de te a descrição bíblica de sheol como depósito subterrâneo de mortos.
sheol estar associado com abaddon, o lugar da destruição, mostra que
a região dos mortos era vista como lugar de destruição, e não como A condição dos mortos no sheol
lugar de sofrimento eterno para os ímpios. Visto que a morte é o término da vida e da vitalidade, o estado
Sheol também é caracterizado como "a terra das trevas e da som- dos mortos no sheol é descrito em termos opostos à ideia de vida tia
bra da morte" (Jó 10:21), onde os mortos nunca voltam a enxergar a Terra. Vida significa vitalidade e atividade; morte significa silêncio e
luz (S! 49:20: 88:12). É também "a região do silêncio" (SI 94:17; cf. matividade. Isto é verdade para todos, justos e ímpios. "Tudo sucede
115:17) e a terra sem retorno: "Tal como a nuvem se desfaz e passa, igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao perverso" (Ec 9:2).
aquele que desce à sepultura [sheol] jamais tornará a subir. Nunca mais Vào todos para o mesmo lugar, o sheol, a região dos mortos.
tornará à sua casa, nem o lugar onde habita o conhecerá jamais" (Jó Salomão retrata de maneira bem realista a condição dos mortos no
7:9,10). sheol: "No além [sheol], para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem
CREN£ASPOPUL_ARES.o .V}DA_APÓSA _MORJE

conhecimento, nem sabedoria alguma" (Ec 9:10). Fica evidente que sheol, O verão, e não outros. De saudade desfalece o meu coração dentro de
o reino dos mortos, é um lugar de não existência e não consciência. "Por- num" (Jó 19:25-27, NKJV).
que os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa Resumindo, a condição dos mortos no sheol, a região dos mortos,
nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória é de inconsciente inatividade, um repouso ou sono que prosseguirá
jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para até o dia da ressurreição. Nenhum dos textos analisados sugere que
sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol" sheol seja um lugar de punição para o ímpio (inferno) ou um lugar de
(Ec 9:5, 6). O principal argumento apresentado aqui é o de que a morte existência consciente para a alma ou espírito dos mortos. Como afir-
põe um ponto final em todas as atividades realizadas "debaixo do sol", e o ma categoricamente N. H. Snaith:"Um corpo morto, seja de homem,
que se segue à morte é o sheol, a região dos mortos, onde não há atividade, seja de ave ou de animal, está sem nephesh [alma]. No sheol, a habitação
conhecimento ou consciência. A Bíblia descreve tal estado como "sono". dos mortos, não há nephesh [alma]."38 Nenhuma alma está no sheol
A expressão "e dormiu com seus pais" (cf. IRs 1:21; 2:10; 11:43) simplesmente porque no Antigo Testamento a alma não sobrevive à
reflete a ideia de que os mortos se reúnem a seus antepassados no morte do corpo.
sheol em um estado de sonolenta inconsciência. A ideia de descansar
ou dormir no sheol ganha destaque em Jó, que exclama em meio a Parte 4
seus sofrimentos: "Por que não morri eu na madre? Por que não ex- HADES NO NOVO TESTAMENTO
; pirei ao sair dela? [...] Porque já agora repousaria tranquilo; dormiria, O Novo Testamento diz muito pouco sobre o estado dos mor-
>««,„, e^ entã0; haveria para mim descanso. [...] Ali, os maus cessam de per- tos durante o período entre o seu descanso e o despertar no dia da
turbar, e, ali, repousam os cansados" (Jó 3:11, 13,17). ressurreição. A segunda parte da Bíblia está mais preocupada com os
O repouso no sheol não é o repouso das almas que desfrutam a acontecimentos que marcam a transição entre esta era e a era futura: a
glória do paraíso nem das que se angustiam nos tormentos do inferno, volta de Cristo e a ressurreição dos mortos.
mas o repouso de corpos mortos dormindo em túmulos empoeira- Nossa principal fonte de informação sobre a posição do Novo
dos e cobertos de vermes. "Se eu esperar pela sepultura [sheol\o Testamento a respeito do estado dos mortos são as onze referências a
minha casa: se nas trevas estender a minha cama; se à deterioração eu hades (termo grego equivalente ao hebraico sheot) e cinco passagens
disser:'tu és meu pai; e aos vermes: vós sois minha mãe e minha irmã'; coniumente citadas para apoiar a crença na existência consciente da
onde está, pois, a minha esperança? [...] Descerá ela até as portas do alma após a morte.
Sheol? Descansaremos juntas no pó?" (Jó 17:13-16, NKJV). As cinco passagens são: (1) Lucas 16:19-31, onde encontramos a
Os mortos dormem no sheol até o fim. "O homem se deita e não parábola do rico e Lázaro; (2) Lucas 23:42 e 43, que relata a conversa
se levanta; enquanto existirem os céus, não acordará, nem será desper- entre Jesus e o ladrão na cruz; (3) Filipenses 1:23, onde Paulo fala do
tado do seu sono" (Jó 14:12). O despertar do sono depois de não mais seu "desejo de partir e estar com Cristo"; (4) 2 Coríntios 5:1-10, onde
existirem os céus é possivelmente uma alusão à vinda do Senhor no Paulo utiliza as metáforas da casa terrena/celeste e da condição de es-
fim dos tempos para ressuscitar os santos. Em todas as suas provações, tar nu/vestido para expressar seu desejo de "deixar o corpo e habitar
Jó nunca perdeu a esperança de ver o Senhor mesmo após a decom- com o Senhor" (2Co 5:8); e (5) Apocalipse 6:9-11, que menciona
posição de seu corpo. "Porque eu sei que o meu Redentor vive e por a alma cios mártires sob o altar clamando a Deus que lhes vingue o
hm Se levantará sobre a cerra; depois de destruída a minha pele. em sangue. As referências a hades do Novo Testamento serão tratadas mais
minha carne verei a Deus.Vê-Lo-ei por num mesmo, os meus olhos adiante.
CRENÇAS POPU LARES .VIDA APÓS A.MORTE

como "inferno" 41 e uma vez como "sepultura".42 A RSV translitera a


O significado e natureza do hades
palavra como "Hades".
A palavra grega hades passou a ser usada na Bíblia quando os tra- A tradução de hades como "inferno" é imprecisa e enganosa por-
dutores da Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento) a esco- que, com exceção de Lucas 16:23, o termo se refere sempre à sepul-
lheram para traduzir o hebraico sheol. O problema é que o mundo tura ou ao local dos mortos, e não a um lugar de castigo. Este último
grego empregava hades num sentido bem diferente de sheol. Enquanto recebe o nome de gehenna, termo que também ocorre onze vezes no
sheol no Antigo Testamento designava a região dos mortos, onde estes, Novo Testamento4^ e é traduzido corretamente como "inferno", já
conforme vimos, jaziam num estado inconsciente, hades na mitolo- que se refere ao lago de fogo, o lugar de condenação para os perdidos.
gia grega era o submundo em que a alma consciente dos mortos se Já hades é empregado no Novo Testamento como equivalente a sheol,
dividia em duas grandes regiões: um lugar de tormento e outro de a região dos mortos ou a sepultura.
bem-aventurança.
Edward Fudge propõe essa descrição concisa da concepção grega Jesus e o hades
de hades: "Na mitologia grega, Hades era o deus do submundo, tor- Nos Evangelhos, Jesus se refere a hades três vezes. A primeira men-
nando-se posteriormente o nome para o próprio mundo inferior. Ca- ção se encontra em Mateus 11:23, onde Jesus repreende Cafarnaum,
ronte transportava a alma dos mortos numa barca para o outro lado do dizendo: "Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Des-
rio Estige ou do rio Aqueronte, para a casa de Hades, onde Cérbero, cerás até ao inferno [hades]" (cf. Lucas 10:15). Hades aqui, como sheol
118
um cão monstruoso, guardava o portão para que ninguém escapasse. no Antigo Testamento (Am 9:2, 3; Jó 11:7-9), indica o lugar mais 119
O mito pagão continha todos os elementos da escatologia medieval: profundo no Universo, em contraste com o céu, o lugar mais elevado.
havia os agradáveis Elísios e o desprezível Tártaro, e até mesmo as pla- A segunda menção de hades no ensino de Jesus ocorre na pará-
nícies de Asfódelo, por onde podiam perambular fantasmas inidôneos bola do rico e Lázaro (Lc 16:23).Voltaremos em breve ao assunto. A
para nenhum dos destinos acima mencionados. Governando junto terceira ocorrência se encontra em Mateus 16:18, onde Jesus mani-
com Hades, estava sua rainha Prosérpina (ou Perséfone), que ele havia festa Sua confiança de que "as portas do Hades" não prevaleceriam
raptado do mundo superior."39 contra Sua igreja. O significado da expressão "portas do Hades"
Essa concepção grega de hades influenciou os judeus helenísticos, se esclarece mediante o emprego da mesma expressão no Antigo
durante o período intertestamental, a adotar a crença na imortalidade Testamento e na literatura judaica (3 Macabeus 5:51; Sabedoria de
da alma e a ideia de uma separação geográfica no submundo entre Salomão 16:13) como sinónimo de morte. Jó, por exemplo, faz a
justos e injustos. A alma dos justos seguia, imediatamente após a mor- seguinte pergunta retórica: "Porventura, te foram reveladas as portas
te, para a alegria celestial, a fim de ali aguardar a ressurreição, enquanto da morte ou viste essas portas da região tenebrosa?" (Jó 38:17; cf. Is
a alma dos injustos ia para um lugar de tormento no hades.40 A aceita- 38:18). Retratava-se o submundo como uma prisão cercada de ro-
ção popular dessa situação hipotética se reflete na parábola do rico e chedos íngremes, onde os mortos ficavam enclausurados. Portanto,
Lázaro, que analisaremos logo mais. o que Jesus quis dizer com "as portas do Hades" é que a morte não
Essa concepção grega clássica de hades como lugar de tormento prevaleceria contra a Sua igreja, obviamente porque Ele havia obti-
para os ímpios penetrou por fim na igreja cristã e influenciou ate do a vitória sobre a morte.
mesmo os tradutores da Bíblia.Vale ressaltar que a palavra hades, que Como todos os mortos, Jesus desceu ao hades, isto è, à sepultura,
ocorre onze vezes no Novo Testamento, é traduzida na KÍV dez vezes mas, diferentemente do restante, saiu vitorioso sobre a morte. "Porque

i
CRENÇAS POPULARES .VIDA APÔS A MORTE

não deixarás a Minha alma na morte, nem permitirás que o Teu Santo
O rico e Lázaro
veja corrupção" (At 2:27; cf. 2:31). Hades aqui é a sepultura em que
repousou o corpo de Cristo por apenas três dias e por isso não viu A palavra hades ocorre também na parábola do rico e Lázaro, mas
"corrupção", isto é, o processo de decomposição resultante de uma com um significado diferente. Embora nas dez referências que aca-
permanência prolongada na sepultura. Por causa da vitória de Cristo bamos de analisar hades se refira à sepultura ou à região dos mortos,
sobre a morte, o hades, a sepultura, é um inimigo derrotado. Por isso, na parábola do rico e do mendigo designa o lugar de castigo para os
Paulo exclama:"Onde está, ó morte, o teu aguilhào? Onde está, ó se- ímpios (Lc 16:23). Explicaremos em breve o motivo por que Jesus
pultura [hades], a tua vitória?" (ICo 15:55, KJV). Nesta versão bíblica, empregou o termo com esse sentido excepcional. Não resta dúvida
hades é traduzido corretamente como "sepultura", haja vista o seu de que os dualistas recorrem a essa parábola para apoiar o concei-
paralelismo com a morte. to de existência consciente de almas desencarnadas durante o estado
Cristo detém agora as "chaves da morte e da sepultura [hades]" (Ap intermediário (Lc 16:19-31). Devido à importância atribuída a essa
1:18). Ele tem poder sobre a morte e a sepultura. Isso Lhe permite parábola, precisamos analisá-la mais detidamente.
destrancar os túmulos e trazer os santos à vida eterna em Sua segunda Examinemos primeiramente os pontos principais da narrativa. Láza-
vinda. Em todas essas passagens, hades acha-se coerentemente associa- ro e o rico morrem. As situações de vida se revertem após a morte. Pois,
do com a morte, porque se constitui o lugar de repouso dos mortos, a quando morreu, Lázaro foi "levado pelos anjos para o seio de Abraão"
sepultura. Ocorre o mesmo em Apocalipse 6:8, onde o cavalo amarelo (Lc 16:22), enquanto o rico foi levado para o hades, onde era atormen-
™" tem um cavaleiro cujo nome é "Morte, e o Inferno [hades] o estava tado por chamas abrasadoras (Lc 16:23). Embora ambos estivessem se- y21
seo-uindo". A razão de "Hades" seguir a "Morte" é obviamente porque parados por um grande abismo, o rico podia avistar Lázaro no seio de
hades, na condição de sepultura, recebe os mortos. Abraão. Então, suplicou a Abraão que permitisse a Lázaro lhe prestar dois
No fim do milénio, "a morte e o além [hades]" vão entregar os favores: primeiramente mandar "a Lázaro que molhe em água a ponta
seus mortos (Ap 20:13). Depois "a morte e o inferno [hades] foram do dedo e me refresque a língua" (Lc 16:24) e, em segundo lugar, man-
lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago dar Lázaro avisar aos familiares dele para que se arrependessem, a fim de
de fogo" (Ap 20:14). Esses dois versos revelam coisas interessantes. não passarem pelo mesmo castigo. Abraão negou ambos os pedidos por
Primeiramente, nos dizem que o hades há de, por fim, entregar os seus duas razões. Primeira razão: havia um grande abismo que impossibilitava
mortos, o que mostra mais uma vez que hades é a região dos mortos. Lázaro de chegar até o rico (Lc 16:26). Segunda razão: se os familiares do
Em se°undo lugar, nos informam que, ao término de tudo, o hades homem rico "não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão
será lançado no lago de fogo. Por meio dessas imagens pitorescas, a persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos" (Lc 16:31).
Bíblia nos garante que, no fim. tanto a morte como a sepultura serão Antes de analisarmos a parábola, é preciso lembrar que, ao con-
destruídas. Essa será a morte da morte. ou. como diz Apocalipse, "a trário de uma alegoria corno Pilgrims's Progress [O Progresso do Pe-
segunda morte". regrino], em que cada detalhe comunica um significado, os detalhes
Este breve estudo sobre a maneira como o N ovo Testamento em- de uma parábola não possuem necessariamente qualquer significado
prega a palavra hades mostra claramente que o significado do termo e intrínseco, a não ser como "acessórios" para a narrativa. Visto que a
compatível com o de sheol no Antigo Testamento. Ambas as palavras parábola tem como objetivo ensinar uma verdade fundamental, os de-
designam a sepultura ou a região dos mortos, e não o lugar de castigo talhes não possuem necessariamente um sentido literal, a menos que
0 contexto o indique. Desse princípio surge outro: o ensino de uma
dos ímpios. 44

i
VIDA APÓS A MORTE
CRENÇAS POPULARES

parábola só pode ser legitimamente empregado para definir doutrina recompensa e o rico o seu castigo imediatamente após a morte e antes
se esse ensino for confirmado pelo conteúdo geral das Escrituras. do dia do juízo. Mas a Bíblia ensina claramente que as recompensas e
punições, bem como a separação entre salvos e não salvos, ocorrerão
Os problemas com a interpretação literal somente no dia da vinda de Cristo: "Quando vier o Filho do Homem
Os que interpretam a parábola como uma representação literal do es- na Sua majestade, [...] todas as nações serão reunidas em Sua presença,
tado dos salvos e não salvos após a morte enfrentam problemas intranspo- e Ele separará uns dos outros" (Mt 25:31, 32). "E eis que venho sem
níveis. Se a narrativa é uma descrição autêntica do estado intermediário, demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um
então precisa ser rigorosamente verdadeira e completamente coerente segundo as suas obras" (Ap 22:12). Paulo esperava receber "a coroa da
ponto por ponto. Mas, se a parábola é figurativa, então precisamos nos justiça" 110 dia do aparecimento de Cristo (2Tm 4:8).
preocupar somente com a lição moral nela contida. Uma interpretação Uma interpretação literal da parábola também contradiz o tes-
literal da narrativa sucumbe sob o peso de seus próprios absurdos e con- temunho uniforme do Antigo e do Novo Testamento de que os
tradições, como se torna evidente num exame mais cuidadoso. mortos, tanto justos como injustos, jazem silenciosos e inconscientes
Os que defendem a posição literal presumem que o rico e o men- desde o dia em que morrem até o dia da ressurreição (Ec 9:5, 6;Jó
digo eram espíritos desencarnados, destituídos de corpos. No entanto, 14:12-15,20, 21; SI 6:5; 115:17). Uma interpretação literal contradiz
a parábola descreve o homem rico como tendo "olhos" que vêem ainda o uso coerente de hades no Novo Testamento para designar a
e uma "língua" que não somente fala, mas também busca alívio do sepultura ou região dos mortos, e não um lugar de castigo. Cons-
122
"dedo" de Lázaro — todas partes corporais retratadas com existência tatamos que,.em dez de suas onze ocorrências, hades acha-se expli- 123
física, apesar de o corpo do rico estar devidamente enterrado na se- citamente relacionado com morte e sepultura. O uso excepcional
pultura. Será que o corpo dele foi levado para o hades junto com a de hades nessa parábola como lugar de tormento de fogo (Lc 16:24)
alma por engano? não procede das Escrituras, mas de crenças judaicas da época, in-
Um abismo separa Lázaro no céu (seio de Abraão) do rico no fluenciadas pela mitologia grega.
hades. Abismo grande demais para ser atravessado e, ao mesmo tempo,
Conceitos judaicos da época
tão pequeno que lhes permite conversar. Tomado literalmente, isso
significa que o céu e o inferno estão dentro de uma distância geográ- Felizmente, para a nossa investigação, dispomos de escritos ju-
fica um do outro suficiente para santos e pecadores poderem se ver e daicos que esclarecem a parábola do rico e Lázaro. Muito esclare-
conversar entre si eternamente. Reflita por um momento sobre a pos- cedor é o "Discourse to the Greeks Concerning Hades" [Discurso
sibilidade de pais estarem no céu vendo os filhos agonizando no hades aos Gregos a Respeito do Hades], escrito por Flávio Josefo. famoso
por toda a eternidade. Uma visão como essa não destruiria a própria historiador judeu que viveu na época do Novo Testamento (morto
alegria e paz celestial? É impensável que os salvos mantenham contato por volta de 100 d.C.). O discurso de Josefo se assemelha muito à
visual com seus entes queridos não salvos e conversem com eles por narrativa do rico e Lázaro. Nele, Josefo explica que "hades é uma
toda a eternidade através de um abismo que os divide. região subterrânea onde não brilha a luz deste mundo. [...] Essa
região é reconhecida como um lugar de custódia para as almas, para
Conflito com as verdades bíblicas as quais os anjos são designados como guardiães, e às quais se dis-
Uma interpretação literal da parábola contradiz algumas verdades tribui castigos temporários, convenientes ao comportamento e hábitos
de cada um." 45

;
CRENÇAS POPULARES . VIDA APÓS[A .MORTE

Josefo ressalta, no entanto, que o hades se divide em duas regiões. nização do judaísmo, de sorte que fazia parte do judaísmo na época
Uma delas é "a região da luz", para onde os anjos conduzem a alma de Jesus.
dos justos mortos, ao "lugar que chamamos o seio de Abraão".4'' A se- Nessa parábola, Jesus Se serviu de uma crença popular, não para
gunda região fica em "trevas perpétuas", para onde os anjos arrastam à endossá-la, mas para impressionar a mente de Seus ouvintes com uma
força a alma dos ímpios "destinados ao castigo".47 Esses anjos arrastam importante lição espiritual. Convém ressaltar que, até mesmo na pará-
os ímpios "para os arredores do inferno", para que vejam e sintam o bola precedente do administrador infiel (Lc 16:1-12). Jesus emprega
calor das chamas.48 Mas não os lançam propriamente no interno se- uma ilustração que não representa com exatidão a verdade bíblica.
não depois do juízo final. "Um abismo profundo e enorme se estabe- A Bíblia não endossa a prática de um administrador desonesto que
lece entre eles; de tal sorte que um justo que tem compaixão por eles reduz pela metade as dívidas dos credores a fim de obter deles alguns
não pode ser admitido, nem pode um que é injusto transpô-lo, ainda benefícios pessoais. A lição da parábola é fazer amigos (Lc 16:9), e não
que fosse ousado bastante para tentar fazer isso."4'' ensinar práticas comerciais ilícitas.
As notáveis semelhanças entre a descrição de hades feita por Josefo Embora John Cooper tenha produzido, a meu ver, a maior defesa
e a parábola do rico e Lázaro dispensam explicações. Em ambos os académica da concepção dualista sobre a natureza humana, ele reco-
relatos, temos as duas regiões que separam os justos dos injustos, o seio nhece que a parábola do rico e Lázaro "não nos revela necessariamen-
de Abraão como a habitação dos justos, um grande abismo que não te o que Jesus ou Lucas acreditavam sobre a vida após a morte, nem
pode ser transposto, e os habitantes de uma região capazes de enxergar fornece uma base sólida para a doutrina do estado intermediário. Pois
124
os de outra região. é possível que Jesus estivesse simplesmente usando o imaginário pó-
Josefo não é o único a descrever o hades dessa maneira. Outras pular, a fim de apresentar um conceito ético. Talvez ele não estivesse
literaturas judaicas50 apresentam descrições semelhantes. Isso significa endossando essas representações. Talvez não acreditasse nelas porque
que Jesus aproveitou a concepção popular a respeito da condição dos sabia que eram falsas".Dl
mortos no hades, não para defendê-la nem para refutá-la, mas para Depois Cooper faz a seguinte pergunta: "O que essa passagem nos
inculcar em Seus ouvintes a importância de dar atenção na vida pre- diz sobre o estado intermediário?" Ele mesmo responde de forma ca-
sente aos ensinos de Moisés e dos profetas, uma vez que essa atitude tegórica e honesta: "A resposta pode ser'Nada'. O argumento dualista
determina a felicidade ou a infelicidade no mundo futuro. não pode depender desse texto como apoio principal."52 A razão apre-
sentada é que é mais difícil extrair conclusões a partir das metáforas da
Como Jesus usava as crenças da época parábola. Cooper pergunta ainda: "Seremos seres corporais [no estado
A esca altura, talvez seja apropriado perguntar:"Por que Jesus conta intermediário]? Poderão os abençoados e os amaldiçoados ver uns aos
uma parábola baseada em crenças da época, que não representam com outros'""
exatidâo a verdade conforme apresentada nas Escrituras e em Seus
próprios ensinos?" A resposta é que Jesus alcançava as pessoas onde Jesus e o ladrão na cruz
elas se encontravam, aproveitando o que lhes era familiar para lhes Dualistas utilizam a breve conversa entabulada na cruz entre íesus e
ensinar verdades vitais. Muitos de Seus ouvintes criam num estado o ladrão penitente (Lc 23:42, 43) como grande prova para a existência
de existência consciente entre a morte e a ressurreição, ainda que tal consciente de fiéis mortos no paraíso antes da ressurreição. À vista
crença tosse contrária às Escrituras. Essa crença errónea tora adotada disso, é importante examinar de perto as palavras pró tendas por Jesus
durante o período intertestarnental como parte do processo de hele- ao ladrão arrependido.
.VIDA APÓS A MORTE
CRENÇAS POPULARES

Diferentemente do outro criminoso e da maioria da multidão, o


Quando os remidos entrarão no paraíso?
ladrão penitente cria que Jesus era o Messias. Por isso, suplicou-Lhe:
"Jesus, lembra-Te de num quando vieres no Teu reino" (Lc 23:42). Jesus Durante o Seu ministério, Jesus ensinou que os redimidos entra-
lhe respondeu: "Em verdade te digo hoje estarás comigo no paraíso" riam no Reino de Seu Pai por ocasião de Sua vinda:"Vinde, benditos
(Lc 23:43, RSV). Um dos grandes problemas na interpretação desse de Meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a
texto consiste na posição ocupada pelo advérbio "hoje" dentro da fundação do mundo" (Mt 25:34; 16:27). Paulo ensinou a mesma ver-
frase. A maioria dos leitores e comentaristas crê piamente que Jesus dade. Na segunda vinda de Cristo, os santos que descansam na sepul-
teria dito: "Hoje estarás comigo no paraíso." Entende-se dessa leitura tura serão ressuscitados e os santos vivos trasladados, e todos "seremos
que o ladrão iria para o paraíso com Cristo "naquele mesmo dia". 34 arrebatados [...] entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares,
O texto grego original, no entanto, não tem pontuação; e, tradu- e, assim, estaremos para sempre com o Senhor" (ITs 4:17). Somente
zido literalmente, diz assim: "Em verdade a ti digo hoje comigo esta- naquele tempo, após a ressurreição dos justos, é que o ladrão estará
rás no paraíso." O advérbio "hoje" (semeron) situa-se entre os verbos com Jesus no paraíso.
"digo" (lego) e "estarás" (ese). Isso significa que, do ponto de vista gra-
Quando Jesus voltou ao paraíso?
matical, o advérbio "hoje" pode aplicar-se a qualquer uni desses dois
verbos. Caso ele modifique o primeiro verbo, Jesus teria dito: "Em Os que interpretam a declaração de Cristo dando a entender que
naquele mesmo dia o ladrão íoi para o paraíso com Cristo supõem
verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso."
126 que tanto o .ladrão como Jesus ascenderam ao céu imediatamente
Mas os tradutores têm colocado os dois pontos antes do advérbio
"hoje" [ou acrescentado um "que" depois do verbo "dizer", no caso das após morrerem. A Bíblia não apoia essa conclusão.
traduções portuguesas], não por razões gramaticais, mas influenciados As Escrituras ensinam claramente que, no dia em que foi crucifi-
pela doutrina religiosa segundo a qual os mortos recebem sua recompen- cado, Cristo desceu à sepultura (hades). No Pentecostes, Pedro deixou
sa imediatamente após a morte. Seria melhor se os tradutores se limitas- claro que, de acordo com a profecia de Davi (SI 16:10), Cristo "nem
sem a traduzir o texto, deixando a tarefa de interpretação para os leitores. foi deixado na morte, nem o Seu corpo experimentou corrupção",
A questão com que nos deparamos é a seguinte:Jesus queria dizer mas Deus O ressuscitou (At 2:31, 32). Hades, como já vimos, está as-
"Em verdade te digo hoje..." ou "... hoje estarás comigo no paraíso '? sociado no Novo Testamento com a sepultura e a região dos mortos.
Os que defendem a última opção apelam para o fato de que o advér- Isso significa que Cristo dificilmente teria dito ao ladrão que naquele
bio "hoje" nunca ocorre com a expressão recorrente "em verdade te mesmo dia estaria com Ele no paraíso, quando sabia que naquele dia
digo". A observação é válida, mas o motivo para esse acréscimo ex- Ele iria repousar na sepultura.
cepcional do advérbio "hoje" à expressão "em verdade te digo" pode Os que argumentam que somente o corpo de Cristo foi para a
muito bem ter sido o contexto imediato. O ladrão pediu a Jesus que sepultura, mas que a alma dEle ascendeu ao céu, ignoram o que Jesus
Se lembrasse dele no futuro, quando viesse estabelecer o Seu reino disse a Mana no dia de Sua ressurreição: "Não Me detenhas; porque
messiânico. Mas Jesus respondeu que passou a Se lembrar dele imedia- ainda não subi para Meu Pai" (Jo 20:17). É evidente que Jesus não
tamente, "hoje", garantindo que o ladrão penitente estaria com Ele no esteve no céu durante os três dias em que ficou sepultado. Pelo con-
paraíso. Duas considerações importantes apoiam essa interpretação: trário, repousou na sepultura, aguardando o Pai trazê-Lo de volta à
v ida. Como se vê, teria sido praticamente impossível ao ladrão ter ido
(1) o tempo em que os salvos entrarão na posse de sua recompensa
no paraíso; e (2) o tempo em que o próprio Jesus voltou ao paraíso. com Jesus para o paraíso logo após a morte, visco que o próprio Jesus

:.
CRENÇAS POPULARES

não subiu para o Pai, a não ser alguns dias depois de Sua ressurreição.
Para compreender mais plenamente o sentido de estar "com Cristo
í VIDA APÓS A MORTE

sua tumultuada existência e estar com Cristo. Através dos séculos, cris-
tãos sinceros têm expressado o mesmo desejo, sem necessariamente
no paraíso", consideremos a maneira como Paulo emprega a expres- esperar ser introduzidos na presença de Cristo no momento da morte.
são "estar com Cristo". Deve-se interpretar a declaração paulina com base nos claros ensinos
do apóstolo a respeito do tempo em que os crentes se unirão a Cristo.
"Partir e estar com Cristo"
Escrevendo aos filipenses, Paulo admite: "[Meu] desejo [é o] de Com Cristo em Sua vinda
partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, Paulo enfoca essa questão em sua carta aos tessalonicenses, onde
por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne" (Fl 1:23, 24). explica que os crentes mortos, assim como os vivos, se unirão a Cristo
Dualistas consideram esse texto uma das mais fortes provas de que na não na morte, mas na vinda dEle. "Os mortos em Cristo ressuscitarão
morte a alma dos salvos entra imediatamente na presença de Cris- primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados
to. Robert Morey, por exemplo, chega a afirmar: "Esta é a passagem juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos
mais clara do Novo Testamento acerca do crente partir para estar com ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor" (ITs 4:16, 17).56
Cristo no céu após a morte. O contexto fala do desejo de Paulo de O "assim" (houtos) se refere ao que ele havia acabado de descrever
partir desta vida terrena rumo a uma vida celestial com Cristo. Não se como a forma pela qual os crentes estarão com Cristo, a saber, não
faz menção nem alusão de ressurreição nesta passagem."" pela morte, mas pela ressurreição ou trasladação na Sua vinda.
128
O problema fundamental dessa interpretação é a falha em reco- Deve-se enfatizar que, ao descrever a união de Cristo com os 129
nhecer que a declaração paulina "meu desejo é partir e estar com crentes na Sua vinda, Paulo nunca fala de almas desencarnadas se
Cristo" é uma declaração relacional, e não antropológica. Ou seja, a reunindo a corpos ressuscitados. Pelo contrário, fala dos "mortos em
declaração tem que ver com a relação que existe e continua a existir Cristo" sendo ressuscitados (ITs 4:16). Obviamente, o que ressuscita
entre o crente e Cristo mesmo na morte, e não com o "estado" do na segunda vinda de Cristo não são apenas corpos mortos, mas pes-
corpo e da alma entre a morte e a ressurreição. soas mortas. E a pessoa toda que ressuscitará e se reunirá com Cristo.
O Novo Testamento não está preocupado com o "estado" que existe Observe que os santos vivos se encontrarão com Cristo "juntamen-
entre a morte e a ressurreição, mas com a relação que existe entre o te" com os santos ressuscitados (ITs 4:17).Tanto os santos que agora
crente e Cristo através da morte. Essa relação de estar com Cristo não descansam como os que estão vivos se encontram com Cristo na
é interrompida pela morte, porque o crente que dorme em Cristo Sua vinda, e não na morte.
não tem consciência da passagem do tempo. A ausência total de qualquer referência paulina a um suposto re-
Para Paulo, os que "morrem em Cristo" estão "dormindo em encontro entre o corpo e a alma no tempo da re«' -• • -ci^úcui,
Cristo" (ICo 15:18; ITs 4:14). A relação deles com Cristo é unia a meu ver, a mais formidável ob'^1^ •" -onceico de sobrevivência
relação de proximidade porque não têm consciência da passagem do consciente da alma. SP "?*<••- acreditasse em algo assim, seguramente
tempo entre sua morte e ressurreição. Mas para os que continuam o teria mencionado, principalmente na detalhada discussão que faz
vivos, ligados ao tempo terreno, existe um intervalo entre a morte e do que acontecerá aos crentes mortos e vivos na vinda de Cristo
a ressurreição. Ao expressar seu desejo de''partir e e^tar com Cristo , (ITs 4:13-18; ICo 15:42-58). O fato de Paulo nenhuma vez sequer
Paulo não está fazendo uma exposição doutrinaria do que acontece sugerir a sobrevivência consciente de uma alma desencarnada e sua
na morte. Está apenas expressando o ardente desejo de ver encerrada reinclusão no corpo no dia da ressurreição mostra claramente que

m.
CRENÇAS POPULARES , VIDA APÓS A MORTE

esse conceito era inteiramente estranho tanto para ele quanto para "casa não feita por mãos", que é "eterna, nos céus". Depois acentua o
as Escrituras como um todo. contraste estabelecendo diferença entre a condição de estar revestido
da habitação celestial e a de estar despido.
"Habitar com o Senhor" A segunda seçào, nos versos 6 a 10, é mais objetiva e contrasta o
Em 2 Coríntios 5:1-10, Paulo expressa novamente a esperança de estar no corpo e, portanto, ausente do Senhor com deixar o corpo e
estar com Cristo, usando diversas metáforas surpreendentes. Essa passa- habitar com o Senhor. A declaraçào-chave ocorre no verso 8, onde
gem éjustificadamente considerada a crux interpretam, isto é,"a cruz dos Paulo garante: "Estamos em plena confiança, preferindo deixar o cor-
intérpretes", porque a linguagem figurada é críptica e aberta a diferen- po e habitar com o Senhor." Essa passagem tem sido objeto de uma
tes interpretações. Intérpretes dualistas procuram a todo custo extrair estupenda variedade de interpretações que discuto detalhadamente
dessa passagem, assim corno de Filipenses 1:22 e 23, definições exatas no meu livro Imnwrtality or Resurreaion? (p. 180-186).
da vida e da sobrevivência da alma após a morte do corpo. Mas essas
Modos de existência celestial e terrena
considerações se acham bem distantes de Paulo, que está usando a
linguagem poética da fé para expressar suas esperanças e temores a Depois de reler a passagem vezes sem conta, percebo que a pre-
respeito da vida presente e futura, e não a linguagem lógica da ciência ocupação de Paulo não é definir o estado do corpo antes e depois
para explicar a vida após a morte. da morte, mas sim contrastar dois modos de existência. Um deles
A passagem começa com a preposição "pois" (gar), mostrando as- é o modo de existência celestial, representado pelo "edifício [de
130
sim que Paulo retoma o raciocínio do capítulo 4:16-18, onde con- Deus], casa não feita por mãos, eterna, nos céus" (2Co 5:1). O outro 131
trasta a natureza temporal e mortal da vida presente, que "se corrom- é o modo de existência terrena, tipificado pela "casa terrestre deste
pe" (2Co 4:16), com a natureza eterna e imortal da vida futura, cujo tabernáculo", que "se desfaz" na hora da morte.
"eterno peso de glória [está] acima de toda comparação" (2Co 4:17). O significado das metáforas "vestir-se" ou "ser revestido" da "nossa
O apóstolo continua no capítulo 5 a desenvolver o contraste entre habitação celestial" tem mais que ver com aceitar a salvação provida
temporalidade e eternidade, empregando a imagem de dois lugares de por Cristo do que com "o corpo espiritual" concedido aos crentes na
habitação para representar essas características. segunda vinda. Pode-se perceber o apoio para essa conclusão no em-
"Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se des- prego figurativo de "habitação celestial" com referência a Deus e "ser
fizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, revestido" com referência à aceitação de Cristo por parte do crente.
eterna, nos céus. E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando A certeza de Paulo de que "temos da parte de Deus um edifício"
por sermos revestidos da nossa habitação celestial; se, todavia, formos (2Co 5:1) nos faz lembrar de versos como "Deus é o nosso refugio e
encontrados vestidos e não nus. Pois, na verdade, os que estamos neste fortaleza" (SI 46:1) ou "Senhor,Tu tens sido o nosso refúgio" (SI 90:l). 57
tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, Cristo Se refere a Si mesmo como um templo de forma bem parecida
mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, foi o com a metáfora paulma da habitação celestial, "não feita por mãos".
próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor Relata-se que Ele tenha declarado: "Eu destruirei este santuário edi-
do Espírito." (2Co 5:1-5). ficado por mãos humanas e, em três dias, construirei oucro, não por
Nessa primeira seção da passagem, Paulo emprega dois conjuntos mãos humanas" (Mc 14:58). Se Paulo estiver pensando dessa forma,
de metáforas contrastantes. Contrasta primeiramente "a casa terres- então a morada celestial c o próprio Cristo e o dom da vida eterna que Ele
tre'", que está sujeita à dissolução, com ''o edifício" da parte de Deus, preparou para os crentes.
CRENÇAS POPULARES VIDA APÓS A MORTE

Como, pois, faz o crente para se revestir da "habitação celestial"? terrena"; e o modo de existência celestial, representado pela "habita-
Examinar a forma como Paulo emprega a metáfora do revestimento ção celestial". O terreno é "mortal" e o celestial é imortal ("absorvido
talvez forneça uma resposta. "Porque todos quantos fostes batizados pela vida", 2Co 5:4). O terreno é vivenciado como "presente no cor-
em Cristo de Cristo vos revestistes" (Gl 3:27). Nesse texto, revestir-se po" e "ausente do Senhor" (2Co 5:6). O celestial é vivenciado como
tem que ver com aceitar a Cristo no batismo. Paulo também afir- "ausente do corpo" e "presente no Senhor" (2Co 5:8).
ma: "Este ser perecível precisa se revestir do que é imperecível, e o O fracasso em reconhecer que Paulo está falando sobre dois mo-
que é mortal precisa se revestir da imortalidade" (ICo 15:53, NEB). dos diferentes de existência, e não sobre a condição do corpo ou da
Revestir-se aqui representa a recepção da imortalidade na vinda de alma após a morte, tem induzido a desnecessárias e equivocadas espe-
Cristo. As duas referências sugerem a possibilidade de "revestir-se" culações a respeito da vida após a morte. Um bom exemplo disso é
numa nova vida em Cristo, que é confirmada pelo batismo, renovada a declaração de Robert Peterson: "Paulo confirma o ensino de Jesus
a cada dia e completada na parousia, quando ocorrerá o revestimento quando contrasta o estar 'presente no corpo' e 'ausente do Senhor'
definitivo mediante a mudança da mortalidade para a imortalidade. com estar 'ausente do corpo e presente no Senhor' (2Co 5:6, 8). Ele
Com base na interpretação acima, estar "nu" ou "despido" (2Co 5:3,4) pressupõe que a natureza humana é composta de aspectos materiais
talvez contraste com estar "revestido" de Cristo e do Seu Espírito. E e imateriais."38
muito provável que, para Paulo, "nu" simbolize não a alma despojada Essa interpretação é vazia porque nem Jesus nem Paulo estão
do corpo, mas a culpa e o pecado que resultam em morte. Quando interessados em definir a natureza humana ontologicamente, ou
132
pecou, Adão descobriu que "estava nu" (Gn 3:10). Ezequiel descreve seja, em termos de seus componentes materiais ou imateriais. Ao 133
por meio de uma alegoria como Deus vestiu Israel com ricas vestes contrário, o interesse deles é em definir a natureza humana de uma
para em seguida lhe expor a nudez por causa de sua desobediência perspectiva ética e relacional, em termos de obediência, pecado e
(Ez 16:8-14). Podemos pensar também no homem "que não trazia a justiça, mortalidade e imortalidade. Tal é o interesse de Paulo em 2
veste nupcial" nas bodas (Mt 22:11). E possível, pois, que estar "nu" Coríntios 5:1-9, onde ele fala dos modos de existência terrena e ce-
para Paulo significasse estar numa condição mortal e pecaminosa, des- lestial em relação a Deus, e não da composição material ou imaterial
tituído da justiça de Cristo. da natureza humana antes e depois da morte.
Paulo esclarece o que quis dizer por estar "nu" ou "despido" em
contraste com estar "revestido" quando diz: "Para que o mortal seja As almas debaixo do altar
absorvido pela vida" (2Co 5:4). O mesmo conceito se repete em l A última passagem a ser analisada é Apocalipse 6:9-11, que afirma
Coríntios 15:35, que faia da transformação global por que passa a na- o seguinte: "Quando Ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as
tureza humana na segunda vinda de Cristo:"Porque é necessário que almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e
este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo por causa do testemunho que sustentavam. Clamaram em grande voz,
mortal se revista da imortalidade" (lCo 15:53). dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas,
Em ambas as passagens (2Co 5:1-5 e ICo 15:35), Paulo não trata nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Então, a cad.i
do estado do corpo ou cia alma propriamente dita antes ou depois da uni deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousasse!;;
morte. Aliás, em l Coríntios 5, o apóstolo nunca fala da alma ou do ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número cio-
"corpo espiritual". Pelo contrário, o interesse de Paulo e mostrar o seus conserves e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente elos
contraste entre o modo de existência terrena, representado pela '"casa foram."
CRENÇAS POPULARES. VIDA APÓS A MORTE

Essa passagem é citada frequentemente para apoiar a crença de que escreveu: "Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacri-
a "alma" dos santos continua, após a morte, a existir no céu sob a for- fício" (2Tm 4:6). O apóstolo também confessa seu contentamento
ma de espírito desencarnado e consciente. Robert Morey, por exem- por estar sendo "oferecido por libação" por amor a Cristo (Fp 2:17).
plo, declara enfaticamente: "As almas são os espíritos desencarnados É por isso que os mártires cristãos eram tidos na conta de sacrifícios
dos mártires que clamam a Deus por vingança contra seus inimigos. oferecidos a Deus. O sangue deles derramado sobre a terra era simbo-
[...] Essa passagem sempre constituiu uma grande dificuldade para os licamente oferecido no altar celestial. Enxerga-se a alma deles sob o
que negam que os crentes ascendem ao céu na hora da morte. Mas a altar porque era dali que fluía simbolicamente o sangue dos mártires.
linguagem de João é clara a respeito de almas conscientes e ativas no
céu. Nenhuma representação do estado intermediário
Essa interpretação ignora que as cenas apocalípticas não consti- A representação simbólica dos mártires como sacrifícios oferecidos
tuem fotografias de realidades concretas, mas representações simbó- no altar celestial dificilmente pode ser utilizada para apoiar a ideia de
licas de realidades espirituais quase inimagináveis. João não recebeu que esses mártires se encontram no céu em existência desencarnada
uma visão de como o céu realmente é. No céu, é claro, não existem e consciente. George Eldon Ladd, um dos mais respeitados eruditos
cavalos brancos, vermelhos, pretos ou amarelos com guerreiros neles evangélicos, afirma acertadamente: "O fato de João ter visto a alma
montados. No céu, Cristo não Se parece com um cordeiro sangrando dos mártires sob o altar nada tem que ver com o estado dos mortos
134
devido a um ferimento à faca (Ap 5:6). Assim também, não há no céu ou com a condição deles no estado intermediário.Trata-se apenas de
"almas" de mártires comprimidas na base de um altar. Toda a cena uma fornia vívida de retratar o fato de terem sido eles martirizados 135
não passa de uma representação simbólica destinada a garantir aos que em nome de Deus."60
enfrentavam martírio e morte que, no final, Deus os vindicaria. Essa João vê a alma dos mártires repousando debaixo do altar não porque
promessa seria particularmente animadora para alguém que, como se encontrem em um estado desencarnado, mas porque aguardam que
João, sofria terrível perseguição por se recusar a tomar parte no culto a redenção se complete ("até que também se completasse o número
ao imperador. dos seus conserves e seus irmãos que iam ser mortos", Ap 6:11) e que
A forma como essa passagem utiliza a palavra "almas" (psychas) cons- ocorra a ressurreição deles na segunda vinda de Cristo. João descre-
titui unia exceção, pois o Novo Testamento nunca faz isso com refe- ve posteriormente o mesmo evento, dizendo: "Vi também tronos, e
rência a seres humanos no estado intermediário. A razão de ela ser nestes se sentaram aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi
mencionada aqui talvez se deva à morte antinatural dos mártires, cujo ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem
sangue foi derramado pela causa de Cristo. No sistema sacrificai do como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram
Antigo Testamento, o sangue dos animais era derramado na base a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na
do altar do holocausto (Lv 4:7,18, 25, 30). O sangue continha a alma fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos.
(Lv 17:11) da vítima inocente, oferecida em sacrifício expiatório [...] Esta é a primeira ressurreição" (Ap 20:4, 5).
a Deus em favor dos pecadores arrependidos. E por isso que se vê a A descrição dos mártires como "decapitados por causa do teste-
alma dos mártires sob o altar, dando a entender que o sangue deles munho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus", é bastante
havia sido derramado simbolicamente em sua base. parecida com a de Apocalipse 6:9. A única diferença é que no capí-
O Novo Testamento emprega a linguagem da morte sacrificai para tulo 6 os mártires mortos repousam, ao passo que no capítulo 20 eles
designar martírio em dois outros lueares. Ao enfrentar a morte. Paulo são trazidos à vida. Fica evidente que, se os mártires seriam trazidos à

í
CRENÇAS POPULARES VIDA APÓS A MORTE

vida no começo do milénio por ocasião da segunda vinda de Cristo, Sétimo Dia expressa adequadamente a conclusão de nossa pesquisa:
dificilmente estariam vivos no céu em um estado desencarnado en- "O salário do pecado é a morte. Mas Deus, o único que é imortal,
quanto repousavam na sepultura. concederá vida eterna a Seus remidos. Até aquele dia, a morte é um
Em suma, o propósito da visão dos mártires sob o altar celestial não estado inconsciente para todas as pessoas. Quando Cristo, que é a
é nos informar sobre o estado intermediário dos mortos, mas garantir nossa vida, Se manifestar, os justos ressuscitados e os justos vivos serão
aos crentes, especialmente aos mártires que na época de João e nos glorificados e arrebatados para o encontro de seu Senhor. A segunda
séculos subsequentes deram a vida pela causa de Cristo, que Deus, no ressurreição, a ressurreição dos ímpios, ocorrerá mil anos mais tarde.""1
final, irá vindicá-los.
1 Andrew M. Greeley e Michael Hout, "Americans 1 Increasing Belief m
CONCLUSÃO Life after Death: Religious Competition and Acculturation", American
O estudo que fizemos de todas as passagens bíblicas relevantes Sodoloaical Review (1999), 64, p. 813.
mostrou que o conceito de um estado intermediário durante o qual 2 Ibid.
a alma dos salvos desfruta a bem-aventurança do paraíso, enquanto a 3 The Bama Update,"Americans DesenheTheirViews about Life After De-

dos não salvos padece os tormentos do inferno, não procede da Bíblia, ath", 21 de outubro de 2003, www.barna.org/FlexPage.aspx?Page=Barn
mas do dualismo pagão grego. aUpdate&BarnaUpdateID= 150.
E de se lamentar profundamente que, durante boa parte de sua 4 Ibid.
136
história, o cristianismo tenha, de modo geral, sido desvirtuado pela 3 Catechism ofthe Catholic Church (ed. 1994), p. 267. 137
concepção dualista grega a respeito da natureza humana, segundo a "Ibid., p. 268.
qual o corpo é mortal e a alma, imortal. A aceitação dessa grave he- 7 "Hell", The Catholic Enciclopédia. R.C. Broderick (1987).

resia não só distorceu a tradução da Escritura, mas também fez surgir s Catechism ofthe Catholic. Church (1994), p. 270.

uma infinidade de outras heresias tais como o purgatório, tormento 9 Ibid., p. 268
sem fim no inferno, oração pelos mortos, intercessão dos santos, in- 10 Ibid.. p. 269.

dulgências e visão etérea do paraíso. Examinaremos algumas dessas 11 Ibid.

heresias populares nos capítulos subsequentes. 12 Consultar, por exemplo, Charles Hodge, Systernatíc Theohgy (1940), v. 3,

Enfrentamos hoje o desafio de ajudar as pessoas sinceras a resgatar a p. 713-730;W. G.T. Shedd, DoomaticTheokoy (s.d.), v. 2, p. 591-640; G. C.
concepção holística da Bíblia acerca da natureza e destino humanos, dis- Berkouwer, The Retitrn ofChrist (1972), p. 32-64.
sipando, assim, as trevas espiriaiais perpetradas por séculos de crenças su- 13 Westminster Confession, capítulo 32, conforme citado por John H.
persticiosas. Leith. ed.. Cn-eds ofthe Chnrclies (1977). p. 228.
Esse é o desafio que a Igreja Acivennsta do Sétimo Dia tem pro- 1 4 ''NewViews of Heaven & Hell". Tiw i n .•- ::..áo de 1967.

curado cumprir pela graça de Deus. O desafio de levar pessoas ao 13 Ibid.


redor do mundo a compreender, aceitar e viver os ensinos bíblicos "' Ibid.
fundamentais, grandemente ignorados ou até mesmo rejeitados em 17 Catnc!:iíin ofthe Cdtlwlíc Churcli 0994). p. 265.

nosso tempo. '* Augustus H. Strong. Synemaric Tlieoloay (1970), p. 982.


Analisamos neste capítulo a posição da Bíblia sobre a morte e o 19 Paul Aíthaus. Dic Lctzrcn Dinoe {1.957?. a 15"".

estado dos mortos. A 261 crença fundamental da Igreja Adventista do . 155.


CRENÇAS POPULARES
r VIDA APÓS A MORTE

21 Ibid. 42iCo 15:55.


:: Ibid.,p. 156. 43 Mt 5:22, 29, 30; 10:28:18:9; 23:15, 33; Mc 9:43, 45, 47; Lc 12: 5;Tg 3:6.
23 Ibid., p. 158. Para um ponto de vista semelhante a respeito da morte como 44 Karel Hanhart chega essencialmente à mesma conclusão em sua tese de
término da vida para o corpo e a alma, consultar John A. T. Robinson, doutorado apresentada na Universidade de Amsterdã. Escreve ela:"Con-
The Body.A Study in PaulineTheoIogy (1957), p. 14;Taito Kantonen, Life cluímos que essas passagens não lançam nenhuma luz clara e distinta so-
after Death (1952), p. 18; E. Jacob, "Death", The Interpreteis Dimanar}' of bre nosso problema [do estado intermediário]. No sentido de poder da
the Bible (1962), v. l, p. 802; Herman Bavmk, "Death", The International morte, região profunda, lugar de completa humilhação e julgamento, o
Standard Bible Encychpaedia (1960), v. 2, p. 812. termo Hades não vai além do significado de Sheol no Antigo Testamen-
24 "NewViews of Heaven & Hell". Time, 19 de maio de 1967, p. 34. to" (Karel Hanhart, "The Intermediate State in the New Testament"
25 Martin Luther, Werke (1910), XVII, II, p. 235. [tese doutoral, University of Amsterdam, 1966], p. 35).
26 Ibid, XXXVII, p. 151. 45 Josephus, Discourse to the Greeks Concerniria Hades, injosephus Complete
27 Ewald Plass, Wliat Luther Says (1959), v. l, par. 1132. Works, trad. William Whiston (1974), p. 637.
28 Alexander Heidel, The Gilgamish Epíc and the Old Testament Parallels 46 Ibid.
(1949), p. 170-207. 47 Ibid.
29 Consultar Desmond Alexander, "The Old Testament View of Life After 48 Ibid.
138
Death", Themelios 11 (1986), p. 44. 49 Ibid.
30John W Cooper, Body, Soul, and Life Everlasting: Biblical Anthropology and the 50 Para um breve levantamento da literatura judaica intertestamentária so-
139
Monism-Dualisrn Debate (1989), p. 61. bre a condição dos mortos no hades, ver Karel Hanhart (nota 44), p.
31 Theodore H. Gaster," Abode of the Dead", The Interpreteis Diaionary of 18-31.
ffce BiWe (1962), p. 788. 51 John W. Cooper (nota 30), p. 139.
32 Johannes Pedersen, Israel: Its Hf e and Ciiltnre (1991), v. l, p. 462. 52 Ibid.
33 Theodore H. Gaster, nota 31, p. 787. 53 Ibid.
34 Ralph Waiter Doermann, "Sheol in the Old Testament" (tese de PhD, 34 Norval Geldenhuys, Commentary on the Gospel oj Luke (1983), p. 611.
Duke University, 1961), p. 191. 53 Robert A. Morey, Death and the Afterlife (1984), p. 211, 212.
35 Consultar também SI 30:3; Pv 1:12; Is 14:15; 38:18; Ez 31:16. 36 Itálico acrescentado.
Jfl E usado em Números 16:33 para os rebeldes que "pereceram no 5/ieo/". 31 Itálico acrescentado.
37 Anthony A. Hoekenia, Tíie Bible and the Future (1979), p. 96. w Robert A. Peterson, Hell on Trial:Tlie Case for Eternal Punishment. (1995),
Jli N. H. Snaith,"Life after Death", Interpretation l (1947), p. 322. p. 28
•''' Edvvard William Fudge. Tlie FireThat Consumes: A Biblical and Historical 39 Robert A. Morey (nota 55), p. 214.
Study ofilit- Fi,,al Punishmmt (1989), p. 205. "" George Eldon Ladd, A Commentary on the Revelarion of John (1979). p.
4" Para uma discussão repleta 4e informações úteis a respeito da adoção da 103.
concepção grega de hades durante o período intertestamentário. consul- r'':Ví'ifo Cremos: As 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo

tar Joachim jeremias,"Hades", Tlieolooical Diaionary ofthe !\~en,:Testatin'iit- Dia (2008). p. 428.
ed. Gerhard Kittel (1974), v. l. p. 147, 148.
'• Mc 11:23: 16:18: Lc 10:15; 16:23;At 2:27,31:Ap l: 18,6:8; 20:13; 20: H-
INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

inferno] não se deve tanto à falta de integridade em proclamar a ver-


dade quanto à falta de estômago para pregar uma doutrina que eleva
U o sadismo a renovados níveis de requintes de crueldade. Algo dentro
deles lhes diz, talvez em um nível instintivo, que o Deus e Pai de nos-
INFERNO COMO so Senhor Jesus Cristo não é o tipo de divindade que tortura pessoas
(nem mesmo os piores pecadores) dessa maneira. Considero o silêncio
TORMENTO SEM FIM dos pregadores fundamentalistas um testemunho do anseio deles de
que se faca uma revisão na doutrina da natureza do inferno.'" Esse é
o anseio, acredito eu, que estimula alguns teólogos de hoje a revisar a
concepção tradicional e popular de inferno e propor interpretações

;• V
P oucos ensinamentos religiosos têm incomodado tanto a
consciência humana ao longo dos séculos como a con-
cepção tradicional, e ainda popular, de que o inferno é
um lugar em que os perdidos sofrem castigo consciente no corpo
alternativas destinadas a tornar o inferno mais tolerável.

Objetivos deste capítulo


A questão abordada neste capítulo não trata da existência do in-
e na alma por toda a eternidade. A ideia de que num único dia ferno como castigo final dos perdidos, mas da natureza do inferno. A
multidões são enviadas para o tormento sem fim do inferno per- pergunta fundamental que se faz é a seguinte: "A Bíblia apoia a crença
turba e angustia cristãos sensíveis. Afinal de contas, quase todos popular de que pecadores impenitentes sofrem no corpo e na alma 141
têm amigos ou familiares que já morreram sem fazer um com- castigo consciente no inferno de fogo por toda a eternidade? Ou
promisso com Cristo. A perspectiva de vê-los um dia agonizando ensina a Bíblia que os ímpios são aniquilados por Deus na segunda
no inferno pelos séculos dos séculos pode facilmente levar os morte, após sofrer um castigo temporário? Dito de outra maneira, o
cristãos a questionar como podem eles mesmos desfrutar as gló- inferno de fogo atormenta os perdidos eternamente ou os consome
rias do paraíso, enquanto alguns de seus entes queridos sofrem permanentemente?
castigo consciente por toda a eternidade. Não é de estranhar As duas primeiras partes deste capítulo analisam a concepção tradi-
que, hoje, raramente ouvimos sermões sobre o fogo do inferno, cional e popular de inferno como tormento eterno. Faremos a recons-
até mesmo de pregadores fundamentalistas ainda comprometidos tituição histórica dessa crença e, em seguida, examinaremos alguns dos
com essa crença. John Walvoord, um fundamentalista e acérri- principais textos bíblicos e argumentos utilizados para apoiá-la. A parte
mo defensor da concepção popular do fogo infernal, sugere que 3 apresenta o ponto de vista aniquilacionista de inferno como um lugar
muitos ministros da atualidade temem pregar uma doutrina tão da definitiva dissolução e aniquilação definitiva dos não salvos. Alguns
impopular. 1 Talvez, em parte, isso seja verdade. Mas o problema chamam essa posição de imortalidade condicional, visto que nosso estudo
pode ser que eles também estejam, até certo ponto, conscientes sobre a concepção holística da Bíblia a respeito da natureza humana
de que a crença tradicional e popular do fogo do inferno seja mostra que a imortalidade não é um atributo maço ao ser humano, mas
moralmente intolerável e biblicamente questionável. um dom divino concedido ••• is crentes sob a condição da resposta de íé.
Clark Pinnock, respeitado estudioso evangélico que atuou Deus não vai ressuscitar os ímpios para a vida imortal para lhes infligir
corno presidente da Evangélica! Theologicai Sociery, observa um castigo de aflição eterna. Ao contrário, os ímpios vão ressuscitar
percepnvarnente:"A relutância deles [em Drenar sobre o fogo do em condição mortal para receber o castigo que lhes era devido: sua
CRENÇAÍPOPULAR_E_S; INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

aniquilação definitiva. A parte 4 analisa as implicações morais do tor- Em seu livro Eneida, o famoso poeta romano Virgílio (70-19 a.C.)
mento eterno. nos apresenta uma breve descrição dos castigos angustiosos do inferno:

Parte 1 E agora gritos enfurecidos e lúgubres lamentos,


A CONCEPÇÃO TRADICIONAL E POPULAR DE INFERNO E guinchos de bebés avolumam o macabro coral.
Com poucas exceçÕes, a concepção tradicional de inferno tem Aqui se senta em vestes ensanguentadas a Fúria
dominado o pensamento cristão desde a época de Agostinho. Dito de Dia e noite a vigiar os portais do inferno.
forma simples, essa crença popular afirma que, imediatamente após a Aqui começais a ouvir gemidos terríveis,
morte, a alma desencarnada dos pecadores impenitentes desce ao in- E sons de chicotadas sobem aos ouvidos,
ferno para sofrer o castigo de um fogo literal e eterno. Na ressurreição, Por todos os lados os condenados se ferem nos seus grilhões
o corpo se reúne à alma, intensificando assim a angústia do inferno E amaldiçoam:"retinir de correntes, seu destino maldito".4
para os perdidos e o prazer do céu para os salvos. Essa crença popular
tem sido tradicionalmente defendida não só pela Igreja Católica, mas As figuras de linguagem usadas por Virgílio para descrever o in-
também pelas igrejas protestantes. ferno foram aprimoradas e imortalizadas por Dante Alighieri, famoso
poeta italiano do século 14. Em sua Divina Comédia, Dante descreve
A origem do inferno o inferno como um lugar de absoluto terror, em que os condenados
142
A doutrina do inferno de fogo tem sua origem na crença da imor- se contorcem e gritam, enquanto os santos se alegram nas glórias do 143
talidade da alma e dela depende. O conceito dualista da natureza hu- paraíso. No inferno de Dante, pecadores gemem em voz alta com o
mana, segundo o qual ela consiste de corpo mortal e alma imortal que sangue em ebulição, enquanto outros suportam a fumaça ardente que
sobrevive à morte do corpo, pressupõe um destino duplo para a alma: lhes queima as narinas. Outros ainda correm nus fugindo de uma
paraíso ou inferno. porção de serpentes mordazes.
Vimos, no capítulo 2, que a crença na imortalidade da alma re- Michelangelo usou seu talento para pintar as cenas do Inferno de
monta ao Egito. justificadamente denominado de a "mãe das supers- Dante no teto da Capela Sistina, uma capela particular do papa. Do
tições". Proveio de lá também a crença no inferno como lugar de lado direito de Cristo, os santos ressurretos recebem um corpo de res-
castigo eterno. Filósofos gregos e romanos atribuem frequentemente surreição enquanto ascendem em direção ao céu. Do lado esquerdo
ao Egito a invenção das beatitudes e terrores do mundo invisível.3 de Cristo, demónios com garfos arrastam, empurram e arremessam os
Egípcios, gregos e romanos partilham do conceito de que o pecadores impenitentes para dentro das caldeiras de chamas abrasado-
interno se localiza nas profundezas da Terra. O submundo era co- ras. Por fim, na parte inferior, vê-se a figura mítica de Caronte com
nhecido por diversos nomes, inclusive Orço. Erebo. Tártato e In- seus remos, que, auxiliado por seus demónios, empurra os condenados
terno, do qual deriva a expressão inglesa "infernal regions". Um para fora de seu barco para que se apresentem diante do juiz do infer-
monstruoso cão de três cabeças. Cérbero, guardava o portão do no iVtmos, outra figura mítica grega. Espíritos malignos odiosos roem
interno, impedindo a saída das regiões inferiores. Para se certificar o crânio dos sofridos pecadores, enquanto observam grotescos casos
de que não haveria n e n h u m a fornia de escape cia horrenda prisão, de diabólico canibalismo. Essas imagens - pintadas na mais importante
o interno era cercado por uma muralha tripla e um rio de fogo capela papal entre 1535 e 1541 - refletem a crença popular predomi-
chamado Fie^eton. nante dos horrores do interno de fogo.
CRENÇASPOPULARES .INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

arrependimento porque o tempo de arrependimento já passou. Na


Quando o inferno ateou fogo na igreja cristã? condição de "castigo eterno, aplica-se exclusivamente em retribuição
Quando foi que a horrível crença no castigo eterno dos perdidos aos pecados".'3
no togo do inferno penetrou na igreja cristã? Um levantamento nos Por último, o inferno é o justo castigo para a impiedade dos pe-
escritos dos primeiros pais da igreja sugere que essa crença foi ado- cados contra Deus. Ninguém tem o direito de se queixar da justiça
tada gradualmente a partir da última parte do 2° século, quase que divina. "Quem, senão um tolo, acharia que Deus foi injusto por infli-
na mesma época da crença na imortalidade da alma. Encontramos oir justiça penal aos que a mereciam ou por estender misericórdia a
passagens fazendo referências ao castigo dos ímpios no "fogo eterno" quem era indigno?"1"1
nos escritos de Justino Mártir, Inneu,Tertuliano, Cipriano de Cartago, Deus tem o direito de destinar pecadores à morte eterna, negando-
Lactando, Jerônimo, Crisóstomo e Agostinho, só para citar alguns. 5 lhes a salvação eterna. "Certamente não houve injustiça em Deus em
O escritor que exerceu o maior impacto na definição da doutrina não querer que eles se salvem, embora eles pudessem ter sido salvos se
católica do inferno de fogo foi Agostinho (354-430), o bispo de Hi- assim o quisessem."13 Agostinho pensava que a salvação e a condenação
pona. Considerado um dos teólogos católicos mais influentes, ele de- dependiam unicamente da soberana e inescrutável vontade de Deus (uma
finiu a doutrina do inferno de forma tão clara e bem estruturada que concepção adotada por Calvino), fazendo do Deus da Bíblia um Ser irra-
ela se tornou o ensino oficial da Igreja Católica até os dias de hoje. cional, caprichoso e injusto, mais digno de desprezo do que de adoração.
144
A definição agostiniana de inferno Definição católica de inferno
145
Muito cio que Agostinho escreveu sobre o inferno já era crença A sistematização feita por Agostinho da doutrina do inferno se man-
dos cristãos de sua época; mas ele sistematizou e defendeu as crenças teve definitiva para a Igreja Católica até os dias atuais, apesar das recentes
prevalecentes de uma fornia nunca vista. Dito de forma simples, a tentativas de se apagar o fogo do inferno. Em 1999, o papa João Paulo
concepção agostiniana do inferno consiste em cinco componentes II jogou um balde de água fria na popular imagem do inferno como
principais:" lugar de chamas intermináveis, quando negou que o interno fosse
;
Primeiro, o inferno é o destino real e eterno da maioria da huma- um lugar de tormento ardente. O pontífice descreveu o inferno como
nidade. ''Pois", conforme ele mesmo declara, "a verdade é que nem "a dor, frustração e vazio da vida sem Deus".16 Afirmou ainda que o
li todos.nem mesmo a maioria,se salvarão".'"A condenação eterna dos "lago de fogo e enxofre" referido no livro de Apocalipse era simbólico.17
ímpios é fato consumado."" Essas declarações causaram um breve mas intenso tumulto, particular-
Segundo, o inferno é implacável. "Os tormentos dos perdidos" mente entre cristãos fundamentalistas, que crêem piamente no inferno
serão "perpétuos" e "sem intermitências". 9 "Nenhum tormento que como um lugar de tormento abrasador e eterno.
conhecemos, prolongado através de tantas eras quanto pode conceber A tentativa do papa João Paulo II de apagar o fogo do inferno não
a imaginação humana, se compara a ele.""1 alterou a doutrina católica tradicional do 'n.ícino, cl^aiuente expressa
Terceiro, o míerno é sem fim porque os perdidos "não possuem no novo Catecisnm <1; /^/v/d <^.-,;Jiiai: "O ensinamento da igreja afirma
permissão para morrer". Para eles,"a própria morte não morre". 11 Os i exir-tc;ii_id e a eternidade do interno. As almas cios que morrem eni
perdidos são lançados no fogo eterno, "onde serão torturados pelos estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte aos inter-
séculos dos séculos".'•• nos, onde sofrem as penas do interno,'o togo eterno'. A pena principal
Quarto, o interno é o castigo da condenação eterna. Não permite do interno consiste na separação eterna de Deus, o único em quem o
CRENÇAS POPULARES INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais ''Na literatura cristã", escreve William Crockett, ''encontramos
aspira."18 blasfemadores pendurados pela língua; mulheres adúlteras que fizeram
O papa Bento XVI reafirmou essa posição católica tradicional a penteados para seduzir homens dependuradas pelo pescoço ou pelo
respeito do inferno de fogo em 28 de março de 2008, durante a ce- cabelo sobre lama fervente. Caluniadores mastigam a língua, ferros
lebração da missa na Igreja de St. Felicity & Martyred Sons, no norte incandescentes lhes queimam os olhos. Outros malfeitores sofrem de
de Roma. "O inferno", disse ele, "é uni lugar em que os pecadores formas igualmente pitorescas. Assassinos são lançados em poços cheios
realmente queimam em um fogo eterno, e não apenas um símbolo de répteis venenosos, e vermes lhes devoram o corpo. Mulheres que
religioso destinado a estimular os fiéis. [...] O inferno realmente existe praticaram abortos ficam enterradas até o pescoço nos excrementos
e é eterno, mesmo que ninguém mais fale sobre isso."19 dos condenados. Os que tagarelavam ociosamente durante as reuniões
da igreja jazem num charco de enxofre e piche incandescente. Demó-
Teorias protestantes de inferno
nios empurram idólatras para cima de penhascos e dali os arremessam
Havendo enfrentado imaginações desenfreadas sobre o purgatório para as rochas embaixo, apenas para serem empurrados para o alto
e o inferno, os reformadores Lutero e Calvino não só rejeitaram as novamente. Os que viraram as costas para Deus são girados e assados
crenças populares sobre o purgatório, mas também se recusaram a es- lentamente nas chamas do inferno."23
pecular sobre o tormento literal do inferno. Lutero, por exemplo, era O renomado teólogo norte-americano do século 18 Jonathan
capaz de falar sobre ímpios ardendo no inferno e desejando "uma pe- Edwards, afamado por seu sermão "Pecadores nas Mãos de um Deus
146
quena gota d'água",20 mas nunca preceituou uma interpretação literal Irado", descreveu o inferno como uma espumejante fornalha de fogo
do inferno. Para ele, "o mais importante não era alguém descrever ou líquido que enchia tanto o corpo como a alma dos ímpios: "O corpo se
não o inferno como se retrata e descreve vulgarmente". 21 encherá de tormento tão plenamente quanto possível, de modo que cada
João Calvino preferiu entender as referências ao "fogo eterno" parte dele ficará cheia de tormento. Eles sofrerão extrema dor; cada junta,
metaforicamente. "Concluímos que, das muitas passagens da Bíblia, cada nervo estará cheio de inexprimível tormento. Serão atormentados
a do fogo eterno é uma expressão metafórica." " A abordagem mais até mesmo na ponta dos dedos.Todo o corpo ficará cheio da ira de Deus.
cautelosa de Lutero e Calvino não deteve preeminentes pregadores O coração, as vísceras, a cabeça, os olhos, a língua, as mãos e os pés ficarão
protestantes posteriores de descrever o inferno como um mar de fogo cheios da fúria da ira de Deus. Muitas passagens da Bíblia assim o ensi-
no qual os ímpios queimam por toda a eternidade. nam."24 Segundo os jornais da época, depois de saírem dos sermões dele,
Durante os séculos subsequentes, pregadores protestantes se inspi- pessoas cometiam suicídio devido ao terror que o pregador lhes infundia.
raram mais nas descrições assustadoras dos tormentos do inferno feitas Charles Spurgeon, o famoso pregador britânico do século 19, fez
por Dante e Michelangelo do que na linguagem das Escrituras. Ater- unia descrição semelhante do destino dos ímpios: "No fogo, exatamen-
rorizaram suas congregações com sermões que mais pareciam shows te como o que temos na Terra, teu corpo jazerá para sempre, como
pirotécnicos. Não satisfeitos com a metáfora de fogo e fumaça do Novo amianto, sem nunca ser consumido; todas as tuas veias serão estradas
Testamento, alguns pregadores de mente mais criativa retrataram o in- para os pés da dor viajarem: cada nervo, uma corda na qual o diabo para
ferno como unia bizarra câmara de horror, na qual o castigo se baseia sempre tocará sua diabólica melodia do lamento indescritível do in-
no princípio de talião. Seja qual fosse o membro do corpo que pecasse, ferno." ls E difícil compreender corno o diabo pode atormentar mal-
esse membro devia ser punido no interno mais do que qualquer outro feitores, se ele próprio vai ser "lançado para dentro do lago de fogo e
m membro. enxofre" (Ap 20:10).
CRENCASPOfULARES__ .INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

Defesa renovada do inferno de fogo literal pelos protestantes Parte 2


Nos últimos anos, a doutrina tradicional e popular do inferno de TEXTOS BÍBLICOS USADOS PARA
fogo literal foi alvo de críticas de eruditos evangélicos conservadores DEFENDER O INFERNO DE FOCO
da estirpe de F. F. Bruce, Michael Green, Philip E. Hughes, Dale Moo-
.
dy, Clark H. Pmnock, W. Graham Scroggie, John R. W. Stott, John O testemunho do Antigo Testamento
' W.Wenham e Oscar Cullmann. Esses homens e outros abraçaram o O testemunho do Antigo Testamento a favor do castigo eterno
amquilacionismo, uma doutrina segundo a qual os ímpios ressuscitam se baseia em grande parte no emprego de sheol e de duas passagens
para receber seu castigo, que consistirá em sua aniquilação definitiva. principais: Isaías 66:22-24 e Daniel 12:1 e 2. A respeito de sheol, diz
Voltaremos a falar sobre isso na última parte do capítulo.26 John F. Walvoord: "Sheol era o lugar de castigo e retribuição. Isaías
Mas os defensores da concepção tradicional de inferno não ficaram [14:9-11] descreve os babilónios mortos no julgamento divino como
em silêncio. Alguns, como John H. Gerstner, autor de Repent or Perish27 sendo recebidos no sheol por todos aqueles que eles haviam matado
[Arrependam-se ou Pereçam] (1990), saíram na ofensiva. Outros como anteriormente."3"
J. í. Packer, Larry Dixon, Kendall Harmon, Robert A. Peterson e Donald O estudo que fizemos do termo hebraico no capítulo 3 mostra
Carson28 foram menos combativos, embora igualmente contrários ao que nenhum texto bíblico apoia a ideia de que sheol seja o lugar de
amquilacionismo. punição para os ímpios. O termo designa a região dos mortos, onde
148
Hoje, os defensores de um inferno de fogo literal e eterno são mais há sono, inconsciência e inatividade. O cântico de escárnio proferido 149
cautelosos em sua descrição dos sofrimentos por que passam os ímpios. por Isaías contra o rei de Babilónia é uma parábola, cujos personagens
Robert A. Peterson, por exemplo, conclui seu livro Hell on Trial.The Case - árvores personificadas e monarcas decaídos - também são fictícios.
for Eternal Punishment [O Inferno em Julgamento: Argumento a Favor Não pode ser usado para revelar o castigo dos ímpios no sheol, senão
do Castigo Eterno] dizendo: "O Juiz e Soberano do inferno é o pró- para predizer numa linguagem pictórica e vívida os juízos divinos que
prio Deus. Ele está presente no inferno, não como bênção, mas como sobrevêm ao opressor de Israel e seu destino final de ignomínia numa
ira. Inferno implica castigo eterno, perda completa, rejeição de Deus, tumba empoeirada, sendo comido pelos vermes. Interpretar essa pa-
sofrimento terrível e inexprimível tristeza e dor. A duração do inferno rábola como descrição literal do inferno significa ignorar a natureza
é interminável. Embora haja graus de castigo, o inferno é terrível para altamente figurativa e parabólica da passagem, cujo único objetivo é
todos os condenados. Seus ocupantes são o diabo, os anjos maus e os seres descrever a ruína de um tirano arrogante.
humanos não salvos."29
Refutar completamente todos os textos e argumentos usados para Isaías 66:24: o destino dos ímpios
defender a concepção tradicional a respeito do castigo eterno dos Alguns tradicionalistas consideram a descrição do destino dos ím-
ímpios ultrapassa o limitado espaço do presente capítulo. Os leito- pios encontrada em Isaías 66:24 o mais claro testemunho do Antigo
res interessados podem encontrar essas refutações em The F ire that Testamento sobre o castigo eterno. O cenário do texto e o contraste
Consumes [O Fogo que Consome (1982), de Edward Fudge, e no entre o juízo de Deus sobre os ímpios e Suas bênçãos sobre os justos.
meu livro Immortality or Resurrection? [Imortalidade ou Ressurreição?]. Estes vão desfrutar prosperidade e paz e adorar a Deus regularmente
Nossa contestação se limita aqui a umas poucas observações básicas, de um sábado a outro (Is 66:12-14, 23), enquanto os ímpios vão ser
algumas delas ampliadas na segunda parte deste capítulo. castigados com ''togo" (Is 66:15) e "consumidos" (Is 66:17"). Tal é o
CRENÇAS POPULARES .INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

cenário do decisivo versículo 24, que afirma: "Eles sairão e verão os com base mais na concepção deles de castigo final do que com base
cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu no que a figura de linguagem realmente significa.
verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um
Daniel 12:2: "horror eterno"
horror para toda a carne."
Peterson interpreta a frase "o seu verme nunca morrerá, nem o O segundo texto do Antigo Testamento mais utilizado pelos tradi-
seu fogo se apagará" no sentido de que "o castigo e a vergonha dos cionalistas para apoiar o castigo eterno é Daniel 12:2, que fala das duas
ímpios não têm fim; o destino deles é eterno. Não admira que sejam ressurreições: a dos bons e a dos maus. "Muitos dos que dormem no
repugnantes para toda a humanidade".31 pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha
A descrição feita por ísaías do destino dos ímpios se inspirou, e horror eterno." Peterson conclui sua análise desse texto afirmando:
possivelmente, na morte dos 185 mil soldados do exército assírio "Daniel ensina que, enquanto os justos ressuscitarão para uma vida sem
durante o reinado de Ezequias."Quando se levantaram os restantes fim, os ímpios ressuscitarão para um horror sem fim (Dn 12:2) ,"32
pela manhã, eis que todos estes eram cadáveres" (Is 37:36). Esse O termo hebraico demo n traduzido por "horror" aparece também
evento histórico talvez tenha servido para prefigurar o destino dos em ísaías 66:24, onde descreve os cadáveres não sepultados. Em seu
ímpios. Observe que os justos olham para "cadáveres" (heb. pege- comentário intitulado The Book of Daniel [O Livro de Daniel], André
rim), e não para gente viva. O que eles vêem é destruição, e não Lacocque ressalta que deraon significa, tanto "aqui [Daniel 12:2] como
tormento eterno. em ísaías 66:24, a decomposição dos ímpios".33 Isso quer dizer que o
150
O profeta menciona os "vermes" associados com os cadáveres, por- "horror" é causado pela repugnância devido ao apodrecimento dos
que eles aceleram a decomposição e representam a desonra dos cadá- corpos dos ímpios, e não por causa de um sofrimento interminável
veres privados de sepultamento (Jr 25:33; Is 14:ll;Jó 7:5; 17:14; At deles. Nas palavras de Emmanuel Petavel:"o sentimento dos sobrevi-
12:23). A Bíblia emprega com frequência a figura do fogo inextinguí- ventes é de asco, e não de piedade".34
vel para designar um fogo que consome (Ez 20:47, 48) e reduz tudo a Em suma, o pretenso testemunho do Antigo Testamento a favor do
nada (Am 5:5,6; Mt 3:12) .Vermes e fogo representam uma destruição castigo eterno dos ímpios é irrisório, senão inexistente. Já os indícios
total e definitiva. Para compreender o significado da frase "o fogo que a favor da completa destruição dos ímpios no escatológico dia do
não se apaga" é importante lembrar que conservar um fogo aceso para Senhor são ostensivamente claros. Os perversos perecerão "como a
queimar cadáveres na Palestina requer bastante esforço. Cadáveres não palha" (SI 1:4, 6), serão mortos pelo sopro do Senhor (Is 11:4), arde-
queimam facilmente, e a lenha necessária para consumi-los era escassa. rão no fogo "como espinhos cortados" (Is 33:12) e "morrerão como
Em minhas viagens pelo Oriente íMédio e Aírica, vejo muitas vezes mosquitos" (Is 51:6).
carcaças de animais parcialmente queimadas porque o fogo se apagou A descrição mais clara da destruição total dos ímpios se encontra
antes de consumir os restos mortais. na última página do Antigo Testamento: "Pois eis que vem o dia e arde
A imasjem de um fogo inextinguível comunica apenas a ideia de como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversida-
algo que é consumido ou completamente destruído pelo fogo. Não de serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o Senhor dos
tem nada que ver com o tormento de almas imortais. A passagem Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo" (Ml 4:1).
fala claramente de "cadáveres" que são consumados, e não de almas Aqui, a metáfora de um togo que tudo consome, que não deixa "nem
imortais atormentadas para sempre. Infelizmente, os tradicionalistas raiz nem ramo'', sugere completa consumição e destruição, e não tor-
•interpretam essa passagem e outras declarações semelhantes de Jesus mento perpétuo.
CRENÇAS POPULARES INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

lugar do castigo final, passando a chamar-se "vale amaldiçoado" (l


O testemunho de Jesus Enoque 27:2, 3), "tormento futuro" (2 Baruque 59:10. 11), "fornalha
Os tradicionalistas crêem que Jesus fornece a prova mais íorte a do Geena" e "abismo do tormento" (4 Esdras 7:36).
favor da crença deles no castigo eterno dos ímpios. Kenneth Kantzer,
respeitado líder evangélico que atuem como redator-chefe da revista Jesus e o fogo do inferno
Christianity Today, afirma: "Os que reconhecem Jesus Cristo como Se- Levando em conta esses antecedentes históricos, examinemos ago-
nhor não podem escapar à ciara e inequívoca linguagem com a qual ra as sete referências ao geena (inferno) nos Evangelhos. No Sermão
Ele adverte a respeito da terrível verdade do castigo eterno."35 da Montanha,Jesus declarou:"Quem lhe chamar [a seu irmão]:'Tolo',
Jesus ensina que o inferno (geena) é o lugar em que os pecado- estará sujeito ao inferno {geena] de fogo" (Mt 5:22). Afirmou também
res sofrerão tormento eterno ou destruição permanente? A fim de que é melhor arrancar o olho ou cortar a mão que faz a pessoa pecar
encontrar uma resposta para essa pergunta, examinemos o que Jesus do que o corpo inteiro ser "lançado no inferno {geena}" (Mt 5:29,30).
realmente disse a respeito do inferno. Expressa mais adiante o mesmo pensamento: é melhor cortar o pé ou
a mão ou arrancar o olho que íaz a pessoa pecar do que ser "lançado
O que é inferno (geena)? no fogo eterno", ser "lançado no inferno [geena] de fogo"(Mt 18:8, 9).
Antes de examinar as referências feitas por Cristo ao inferno (ge- Descreve aqui o fogo do inferno como "eterno".
ena), é útil considerar a etimologia da palavra propriamente dita. O Encontramos a mesma declaração em Marcos, onde por três vezes
152
termo grego geena é uma transliteração do hebraico "Vale de [os filhos Jesus afirma que é melhor cortar o membro que nos faz tropeçar do que
de] Hinnon", localizado ao sul de Jerusalém. Em tempo antigos, por ir "para o inferno \geena], para o fogo inextinguível", ser "lançado no
estar o lugar associado com a prática de sacrificar crianças ao deus inferno, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga" (Mc 9:44,
Moleque (2Rs 16:3; 21:6; 23:10), deram-lhe o nome de Tofete, que 46-48). Noutro lugar, Jesus repreende os fariseus por atravessar o mar e
quer dizer "nojo" ou "vergonha". Ao que parece, o vale se tornou a terra para fazer um convertido, tornando-o "filho do inferno [geena]
uma pira gigante para queimar os 185 mil cadáveres dos soldados duas vezes mais" (Mt 23:15). Por último, Ele adverte os fariseus de que
assírios, mortos por Deus na época de Ezeqmas (Is 30:31-33; 37:36). eles não escaparão à "condenação do inferno [geena]" (Mt 23:33).
Jeremias predisse que o lugar se chamaria "o vale da Matança" Ao passar em revista as alusões feitas por Cristo ao inferno (ge-
porque ficaria cheio com os cadáveres dos israelitas, quando Deus os ena), devemos primeiramente chamar a atenção para o fato de que
julgasse por seus pecados. "Portanto, eis que virão dias, diz o Senhor, nenhuma delas dá a entender que o inferno (geena) seja um lugar de
em que já não se chamará Tofete, nem vale do filho de Hinom, mas o tormento sem fim. O que é eterno e inextinguível não é o castigo,
vale da Matança; os mortos serão enterrados em Tofete por não haver mas o fogo. Já vimos anteriormente que no Antigo Testamento esse
outro lugar. Os cadáveres deste povo servirão de pasto às aves dos céus fogo é eterno ou inextinguível no sentido de consumir os cadáveres
e aos animais da terra; ninguém haverá que os espante" (Jr 7:32, 33). completamente.Tal conclusão recebe o apoio de Cristo qtianH^ --1
De acordo com Josefo, foi nesse mesmo vale que, depois do cerco verte para não temer seres humanos r-^-~^.-~ -•; . liata r o corpo, mas
de Jerusalém36 em 70 d.C., os corpos mortos dos judeus hcaram em- temer "Aquele que pode fa/er perecer no inferno [geena] tanto a alma
pilhados. Conforme vimos, Isaías contemplou em visão a mesma cena como o corpo (ivlt 10:28). A implicação é clara. Inferno é o lusar do
na matança escatológica dos pecadores por Deus no fim do mundo castigo final, que traz como resultado a destruição total de todo o ser,
(Is 66:24). Durante o período intertestamentário, o vale se tornou o corpo e alma.
„ INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM
CRENÇAS POPULARES ;

latamente. O fato de o lago de fogo no qual os ímpios são lançados


"Fogo eterno" ser chamado explicitamente de "a segunda morte" mostra claramente

Os tradicionalistas contestam essa conclusão porque noutras partes que ele provoca de fornia definitiva, radical e irreversível a extinção
Cristo se refere a "fogo eterno" e "castigo eterno". Em Mateus 18:8 e da vida.
9, por exemplo, Jesus repete o que disse anteriormente (Mt 5:29, 30)
Eterno no sentido de destruição permanente
sobre perder um membro do corpo a fim de escapar do "fogo eterno"
do inferno (geena). Encontramos uma referência ainda mais clara ao O adjetivo "eterno" se refere muitas vezes mais à. permanência do re-
"fogo eterno" na parábola das ovelhas e dos cabritos, na qual Cristo sultado do que à continuação de um processo. Judas 7, por exemplo, afirma
fala da separação que ocorre em Sua segunda vinda entre salvos e não que Sodoma e Gomorra sofreram "a pena do fogo eterno [aionios]"
salvos. Ele dará as boas-vindas aos fiéis no Seu remo, mas rejeitará os (ARC). Fica evidente que o fogo que destruiu as duas cidades é eter-
ímpios, sentenciando: "Apartai-vos de Mini, malditos, para o fogo eter- no não devido à sua duração, mas devido a seus resultados permanentes.
no, preparado para o diabo e seus anjos. [...] E irão estes para o castigo Assim também, o fogo do castigo final é "eterno" não porque dure
eterno, porém os justos, para a vida eterna" (Mt 25:41, 46).37 para sempre, mas porque, a exemplo de Sodoma e Gomorra, causa
Os tradicionalistas atribuem fundamental importância à ultima a destruição completa e permanente dos ímpios, uma condição que
passagem porque ela reúne tanto o conceito de "fogo eterno" como dura para sempre.
de "castigo eterno". Segundo a interpretação deles, a combinação dos Em quarto lugar, Jesus estava oferecendo uma escolha entre per-
154 dição e vida quando aconselhou: "Entrai pela porta estreita (larga é a
dois conceitos significa que o castigo é eterno porque o fogo que o
provoca também é eterno. Peterson chega ao extremo de dizer que porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a. perdição, e são muitos
"se Mateus 25:41 e 46 fossem os únicos versículos a descrever o desti- os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o cami-
no dos ímpios, a Bíblia ensinaria claramente a doutrina da condena- nho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela"
ção eterna, e seríamos obrigados a crer nela e ensiná-la com base na (Mt 7:13, 14).4" Jesus estabelece aqui o contraste entre um modo de
autoridade do Filho de Deus". JS vida confortável e pecaminoso que conduz para a perdição no inferno
A interpretação de Peterson desses dois textos cruciais ignora qua- e o caminho estreito de provações e perseguições que conduz para a
tro grandes considerações. Em primeiro lugar, o interesse de Cristo vida eterna no remo dos céus. O contraste entre perdição e vida sugere
nessa parábola não é definir a natureza da vida eterna ou da morte que o "fogo eterno" causa a destruição eterna dos perdidos, e não o
eterna, mas apenas confirmar que existem dois destinos. Não se dis- seu tormento eterno.
cute aqui a natureza de cada destino.
"Castigo eterno"
Em segundo lugar, conforme observa John Stott, "o fogo propria-
mente dito recebe a denominação de 'eterno' e 'inextinguível', mas se- A solene declaração de Cristo de que "irão estes para o castigo
ria muito bizarro se o que é lançado nele fosse indestrutível. Nossa eterno, porém os justos, para a vida eterna" (Mt 25:46) é, geralmente,
expectativa seria a oposta: seria consumido para sempre, e não atormen- considerada a prova mais clara de que os perdidos vão sofrer por toda
tado para sempre. Por essa razão, é a fumaça (indício de o fogo ter feito a eternidade. Mas será que essa é a única interpretação legítima do
seu trabalho) que 'sobe pelos séculos dos séculos' (Ap 14:11; cf. 19:3).""" texto? John Stott responde: "Não; agir assim é atribuir ao texto uma
Em terceiro lugar, o fogo é eterno (aíoníos) não porque tenha du- interpretação que necessariamente não está ali. O que Jesus disse foi
ração interminável, mas porque consome e aniquila os ímpios com- que tanto a vida como o castigo seriam eternos, mas não define nessa
CRENÇAS POPULARES, .INFERNO;CQMO TORMENTO SEMf IM

passagem a natureza nem de uma coisa nem de outra. O fato de haver possui imortalidade inerente (ITm 1:17; 6:16). Ele concede a imorta-
Ele falado em outro lugar da vida eterna como uma feliz consciên- lidade como o dom do evangelho (2Tm 1:10). O texto mais conhe-
cia de Deus (Jo 17:3) não quer dizer que o castigo eterno deva ser cido da Bíblia nos diz que os que não crêem no Filho Unigénito de
também uma experiência consciente de angústia na mão de Deus. Deus "perecerão" (apoktaí), ao invés de receberem a "vida eterna" (Jo
Ao contrário, embora tenha declarado que ambas as condições são 3:16). O destino final dos perdidos é a destruição pelo fogo eterno,
eternas, Jesus está contrastando os dois destinos: quanto mais diferentes e não o castigo pelo tormento eterno. Só é possível defender a ideia
forem, tanto melhor."41 do tormento eterno dos ímpios se aceitarmos a concepção grega da
Os tradicionalistas interpretam "castigo eterno" como "ser casti- imortalidade e indestrutibilidade da alma, um conceito estranho às
gado eternamente", mas não é esse o sentido da expressão. Como Escrituras.
observa perceptivamente Basil Atkinson: "Quando o grego emprega
O testemunho do Apocalipse
o adjetivo átomos (que significa 'eterno') com substantivos de ação, o
termo faz referência ao resultado da ação, e não ao processo. Assim O tema mais importante do livro do Apocalipse é o juízo finai
sendo, a expressão 'castigo eterno' é comparável à 'redenção eterna' e porque representa a maneira como Deus vencerá a oposição do mal
'salvação eterna', ambas expressões bíblicas. Ninguém espera que este- contra Ele e contra Seu povo. Sendo assim, é compreensível que os
jamos continuamente sendo redimidos ou salvos para sempre. Fomos que acreditam em fogo eterno do inferno encontrem apoio para sua
redimidos e salvos por Cristo de uma vez por todas e com resultados crença nas dramáticas metáforas do juízo final do Apocalipse. As vi-
156
eternos. Já o substantivo 'vida' não é um substantivo de ação, mas de sões citadas para apoiar a crença no castigo eterno são (1) a visão da
157
estado. Nesse caso, a vida propriamente dita é eterna."42 ira de Deus em Apocalipse 14:9-11 e (2) a visão do lago de fogo e
da segunda morte em Apocalipse 20:10, 14 e 15. Faremos uma breve
Penalidade de eterna destruição análise delas agora.
Um exemplo adequado de apoio a essa conclusão se encontra em
A visão da ira de Deus
2 Tessalonicenses 1:9, onde Paulo, falando daqueles que rejeitam o
evangelho, afirma: "Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, ba- Em Apocalipse 14, João vê três anjos anunciando o juízo final de
nidos da face do Senhor e da glória do Seu poder."43 A destruição Deus em uma linguagem cada vez mais forte. O terceiro anjo excla-
dos ímpios não pode ser eterna em sua duração porque é difícil ima- ma em voz alta: "Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a
ginar um processo de destruição eterno e inconclusivo. Destruição sua marca na fronte ou sobre a mão. também esse beberá do vinho
pressupõe aniquilação, A destruição dos ímpios é eterna (aionios) não da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e
porque o processo de destruição continue para sempre, mas porque será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na
os resultados são permanentes. Assim também o "castigo eterno" de presença do Cordeiro. A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos
Mateus 25:46 é eterno oorque os seus resultados são permanentes. E dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os
um castigo que vem como consequência de sua eterna destruição adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca
ou aniquilação. cio seu nome" (Ap 14:9-11).
A única maneira de os ímpios serem castigados eternamente seria Os tradicionalistas entendem que essa passagem,juntamente com
Deus dotá-los de vida imortal, na hora da ressurreição, para que ti- Mateus 25:46, são os dois textos bíblicos mais importantes de apoio
cassem indestrutíveis. Mas. de acordo com a Escritura, somente Deus a doutrina tradicional do inferno. Peterson conclui sua análise dessa

í
CRENÇAS POPULARES
INFERNO COMO TORMENTO SJMFIM

passagem dizendo: "Concluo, portanto, que, apesar das tentativas de nuar; porém, a respeito do próprio sofrimento, não afirma que ele vá
provar o contrário, Apocalipse 14:9-11 ensina inequivocamente que o continuar para sempre."46
inferno envolve tormento consciente e eterno para os perdidos. Para Essa conclusão se apoia no emprego da locução "dia e noite" em
ser franco, se a única coisa que tivéssemos fosse essa passagem, sería- Isaías 34:10, onde o fogo de Edom "nem de dia nem de noite se apa-
mos obrigados a ensinar a doutrina tradicional do inferno com base gará; subirá para sempre a sua fumaça". A hipérbole tem o objetivo
na autoridade da Palavra de Deus."44 de comunicar que o fogo de Edom continuaria aceso até consumir
Interpretar Apocalipse 14:9-11 de uma forma tão dogmática assim, tudo, depois se apagaria. O efeito seria destruição permanente, e não
como prova de um tormento literal e eterno, revela insensibilidade combustão para sempre. "De geração em geração jazerá devastada" (Is
para com a linguagem metafórica da passagem. Em seu comentário 34:10, RSV).
Revelation [Apocalipse],}. M. Sweet, respeitado especialista britânico
em Novo Testamento, demonstra maior cautela ao comentar a passa- O lago de fogo
gem: "Perguntar: 'o que o Apocalipse ensina, o tormento eterno ou A última descrição feita na Bíblia do castigo final contém duas
a destruição eterna?' é empregar (ou mal empregar) o livro como expressões simbólicas altamente significativas: (1) o lago de fogo e (2)
fonte de 'doutrina' ou informação sobre o futuro. João utiliza metá- a segunda morte (Ap 19:20; 20:10, 15; 21:8). Os tradicionalistas atri-
foras assim como Jesus usou parábolas (cf. Mt 18:32-34; 25:41-46) buem importância fundamental ao "lago de fogo", porque, para eles,
para enfatizar a tragédia inimaginável que é rejeitar a Deus e a bênção como o revela John Walvoord, "o lago de fogo é e serve de sinónimo
158
' inimaginável que é estar unido a Deus, enquanto ainda há tempo para para o lugar eterno de tormento".47
fazer algo a respeito."45 Infelizmente, o aviso é ignorado por aqueles Para determinar o significado do "lago de fogo", precisamos exa-
que escolhem interpretar literalmente passagens altamente figurativas minar as quatro vezes que ele ocorre em Apocalipse, o único livro da
como o texto em questão. Bíblia em que se encontra a expressão. A primeira referência ocorre
em Apocalipse 19:20, onde se afirma que a besta e o falso profeta "fo-
"Não têm descanso algum, nem de dia nem de noite"
ram lançados vivos dentro do lago de fogo que arde com enxofre". A
Os tradicionalistas interpretam a frase "não têm descanso algum, segunda referência se encontra em Apocalipse 20:10, onde João des-
nem de dia nem de noite" (Ap 14:11) como descritiva do tormento creve o resultado do grande último assalto de Satanás contra Deus: "O
sem fim do inferno. Mas a ideia que a frase comunica não é a duração diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo e enxo-
eterna de uma ação, mas a sua continuidade. João emprega a mesma fre, onde já se encontram não só a besta como também o falso profeta;
expressão "[nem] de dia e [nem] de noite" para descrever os seres e serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos dos séculos." O
viventes louvando a Deus (Ap 4:8), os mártires servindo a Deus (Ap lançamento do diabo no lago de fogo taz com que os habitantes dele
7:15), Satanás acusando os irmãos (Ap 12:10) e a trindade satânica subam de dois para três.
sendo atormentada no lago de fogo (Ap 20:10). A terceira e quarta referências estão em Apocalipse 20:15 e 21:8,
Em cada caso, o pensamento expresso é o mesmo: a ação prosse-
segundo as quais todos os ímpios também são lançados no lago de fogo.
gue enquanto perdura. Harold Guillebaud explica corretamente que
Fica claro que há um "crescendo" no qual todos os poderes e indivíduos
a frase "eles não têm descanso algum, nem de dia nem de noite'' (Ap malignos finalmente se submetem ao castigo final do lago de fogo.
14:11) "afirma com certeza que não haverá quebra nem interrupção
A questão fundamental é saber se o lago de togo representa um
no sofrimento dos seguidores da besta, enquanto o sofrimento conti-
interno de fogo perpétuo, no qual os ímpios sejam supostamente

k :
. INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM
CRENÇAS POPULARES ,

atormentados por toda a eternidade, ou se simboliza apenas a destruição milénio:"Sobre esses a segunda morte não tem autoridade." Mais unia
permanente do pecado e dos pecadores.Três principais considerações vez, o que se deduz é que os santos ressurretos não serão afetados pela
nos levam a crer que o lago de fogo representa a aniquilação final e segunda morte, ou seja, o castigo da morte eterna, obviamente porque
ressuscitarão para a vida imortal.
completa do mal e dos malfeitores.
Em primeiro lugar, a besta e o falso profeta, lançados vivos no lago A terceira e-a quarta referências estão em Apocalipse 20:14 e 21:8,
de fogo, são dois personagens simbólicos que representam não pessoas onde a segunda morte é equiparada ao lago de fogo, no qual foram
reais, mas governos civis perseguidores e religião falsa e corruptora. lançados o diabo, a besta, o falso profeta, a morte e a sepultura, bem
Sistemas políticos e religiosos não podem sofrer tormento consciente como todos os pecadores impenitentes. Em ambos os casos, o lago de
para sempre. De sorte que, para eles, o lago de fogo representa aniqui- fogo é a segunda morte, no sentido de que efetua a morte e destruição
eterna de pecado e pecadores.
lação completa e irreversível.
Em segundo lugar, o fato de "a Morte e o Hades" terem sido
O emprego da expressão "segunda morte"
"lançados no lago de fogo" (Ap 20:14, RSV) mostra novamente que
o lago de fogo é simbólico porque a Morte e o Hades (a sepultura) O significado da expressão "segunda morte" se esclarece no em-
são realidades abstratas, incapazes de serem lançadas no fogo ou serem prego que se faz dela no Targum, que é a tradução e comentário
por ele consumidas. Ao empregar essa figura de linguagem, João quer em aramaico do Antigo Testamento. O Targum utiliza a expressão
apenas enfatizar que a morte e a sepultura serão realmente destruídas diversas vezes para se reíerir à morte definitiva e irreversível dos
160 ímpios. Segundo Strack e Billerbeck, o Targum de jeremias 51:39 e 161
de forma definitiva e completa. Por meio de Sua morte e ressurreição,
Jesus conquistou o poder sobre a morte, mas é impossível receber a 57 contém um oráculo contra Babilónia que diz: "Eles morrerão a
vida eterna enquanto a morte não for simbolicamente destruída no segunda morte e não viverão no mundo vindouro."48 Aqui, a segun-
da morte é claramente identificada com a morte resultante do juízo
lago de fogo e banida do Universo.
final, a qual impede malfeitores de viver no mundo porvir.
"A segunda morte" Em seu estudo The New Testament and the Palestinían Targum to the
A terceira e decisiva consideração é o fato de o lago de fogo ser Pentateuch [O Novo Testamento e o Targum Palestino do Pentateuco],
definido como "a segunda morte":"Esta é a segunda morte, o lago de M. McNamara menciona os Targuns (comentários em aramaico) de
fogo" (Ap 20:14; cf. 21:8). Deuteronômio 33:6 e Isaías 65:6 e 22:14 e 15, que usam a expressão
Visto João explicar claramente que o lago de fogo é a segunda "segunda morte" para descrever a morte definitiva e irreversível. O
morte, é decisivo entendermos o que constitui "a segunda morte'' Targum de Deuteronômio 33:6 diz:"Viva Rúben neste mundo e não
nos tempos do Novo Testamento. A expressão ocorre quatro vezes morra a segunda morte, que é a morte que morrem os ímpios no
somente no Apocalipse. A primeira referência se encontra em Apoca- mundo porvir."4" No Targum de Isaías 22:14. o profeta afirma: "Este
lipse 2:11: "O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda pecado não será perdoado, até que morrais a segunda morte, diz o
morte." Aqui, a segunda morte se distingue da morte física, pela qual Senhor dos Exércitos."50 Em ambos os casos,"a sediada . , , , , . . . "
todo ser humano passa. A dedução é que os salvos, agraciados com a titui a destruição defmitiv- pela JLU! pa^aiu os ímpios no juízo finai.
vida eterna, não sofrem o dano da morte eterna. O Targum de óaias 65:6. que é bastante parecido com Apocalipse
A segunda referência à "segunda morte" ocorre em Apocalipse ^0:14 e 21:8. diz: "O castigo deles será no Geena, onde o foço quei-
20:6, no contexto da primeira ressurreição dos santos, no início do ma todo o dia. Eis que está escrito diante de Mini: "Eu não lhes darei
CRENÇAS POPULARES. INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

alívio durante a (sua) vida, mas lhes infligirei a paga pela iniquidade vemente a esse ponto, j unto com as implicações morais do tormento
que cometeram e lhes destinarei os corpos à segunda morte."51 No- eterno.
vamente, diz oTargum de Isaías 65:15: "E deixareis o vosso nome aos Em conclusão, a concepção tradicional de inferno era mais fácil
Meus eleitos por maldição, e o Senhor Deus vos matará com a segun- de ser aceita na Idade Média, período em que a maioria das pessoas
da morte, mas a Seus servos, os justos, chamará por outro nome."52 A vivia sob regimes autocráticos de governantes despóticos, que podiam
segunda morte é aqui explicitamente equiparada com a matança dos e efetivamente torturavam e destruíam seres humanos impunemente.
ímpios pelo Senhor, uma clara imagem da destruição final e não do Sob essas condições sociais, teólogos podiam em sã consciência atri-
tormento eterno. buir a Deus uma implacável disposição para a vingança e uma cruel-
Com base na acepção adotada pela literatura judaica, João utiliza a dade insaciável que hoje seria considerada demoníaca.
expressão "segunda morte" para definir a natureza do castigo no lago No presente, ideias teológicas passam por um minucioso crivo
de fogo, a saber, o castigo que tem como resultado final a morte eter- ético e racional, que proíbe atribuir a Deus a perversidade moral pres-
na e irreversível. Interpretar essa expressão como tormento consciente suposta pela crença popular no castigo eterno dos perdidos. Nosso
e eterno no fogo do inferno significa negar a sua acepção comum, senso de justiça exige que o castigo infligido seja proporcional ao mal
bem como o significado bíblico de "morte" como cessação da vida. praticado. Mas essa importante verdade é ignorada pela concepção
popular de inferno, que requer castigo eterno para pecados cometidos
Conclusão no curto espaço de uma vida.
162
Três importantes observações emergem da análise precedente da
163
concepção tradicional de inferno como lugar de castigo literal e eter- Parte 3
no dos ímpios. Em primeiro lugar, a visão tradicional de inferno de- A CONCEPÇÃO ANIQUILACIONISTA DE INFERNO
pende essencialmente de uma concepção dualista sobre a natureza Até tempos recentes, a maioria dos cristãos considerava a con-
humana, que exige a sobrevivência eterna da alma, quer em êxtase cepção aniquilacionista de inferno uma crença sectarista associada
celestial quer em tormento infernal. Já vimos que essa crença é es- principalmente com a igreja da qual faço parte, a Igreja Adventista
tranha à concepção holística da Bíblia a respeito da natureza humana, do Sétimo Dia. Esse fato levou muitos evangélicos e católicos a re-
segundo a qual morte designa a cessação total da vida para a pessoa. jeitar o aniquilacionismo a priorí, simplesmente porque parecia uma
Em segundo lugar, a concepção tradicionalista depende em gran- crença da "seita" adventista, e não uma crença popular e tradicional,
de parte da interpretação literal de imagens simbólicas, tais como o protestante ou católica.
Geena, o lago de fogo e a segunda morte. Essas figuras não se prestam
a uma interpretação literal, porque, conforme vimos, constituem des- Tática de desqualificação
crições metafóricas da destruição permanente do mal e dos malfeito- A estratégia de rejeitar uma doutrina a priori em virtude de estar
res. Até porque lagos são cheios de água, e não de fogo. ela associada com adventistas "sectários" se reflete nas titicas de des-
Em terceiro lugar, a concepção tradicional não fornece uma ex- qualificação adotadas contra os eruditos evangélicos que em tempos
plicação racional para o fato de a justiça divina infligir castigo inter- recentes rejeitaram a concepção tradicional de inferno como tormen-
minável a pessoas que cometeram pecados durante o curto espaço de to eterno e consciente e adotaram a concepção amquilacionista de
uma vida. A doutrina do tormento eterno consciente é incompatível interno. A tática consiste em difamar esses eruditos associando-os aos
com a revelação bíblica do amor e da justiça de D eus. Voltaremos bre- liberais ou aos adventistas sectários.

.
CRENÇAS POPULARES. INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

O respeitado teólogo canadense Clark Pinnock escreve: "Parece conviver com ele sem cauterizar seus sentimentos nem sucumbir à
que se descobriu um novo critério para a verdade, segundo o qual, se pressão. Mas as nossas emoções são um guia flutuante e duvidoso,
os adventistas ou os liberais defendem algum ponto de vista, esse deve não devendo, portanto, ser exaltadas a uma posição de supremacia na
ser necessariamente errado. Ao que parece, é possível decidir se uma determinação da verdade. Na qualidade de evangélico comprome-
crença é verdadeira ou não por sua afiliação, sem a necessidade de ser tido, minha pergunta deve ser - e é - não o que o meu coração me
posta à prova pelo critério público em debate aberto. Um argumento diz, mas o que diz a Palavra de Deus? E, para responder a essa per-
como esse, ainda que inútil numa discussão inteligente, pode ser eficaz gunta, precisamos fazer um novo levantamento do material bíblico
para os ignorantes que se deixam ludibriar por tal retórica."53 e abrir nossa mente (não apenas o coração) para a possibilidade de
Apesar das táticas de desqualificação, a concepção aniquilacio- a Bíblia apontar na direção do aniquilacionismo; e ser 'o tormento
nista de inferno está ganhando terreno entre evangélicos. O fato de eterno e consciente' uma tradição que precisa ceder à suprema au-
John R. W. Stott, teólogo britânico e pregador popular altamente toridade da Bíblia."56
respeitado, tê-la aprovado publicamente, sem dúvida, incentiva essa Em resposta ao apelo de Stott, de lançar um novo olhar sobre o
tendência."Por uma estranha ironia", escreve Pinnock,"essa posição ensino bíblico a respeito do castigo final, faremos um breve exame do
está recebendo cada vez mais reconhecimento devido à sua afiliação, que dizem o Antigo e o Novo Testamento, levando em conta os se-
contrariando a própria tática empregada contra ela.Tornou-se quase guintes pontos: (1) a morte como castigo do pecado, (2) a linguagem
impossível alegar que somente hereges ou quase hereges [como os da destruição, (3) as implicações morais do tormento eterno, (4) as
164
adventistas do sétimo dia] defendem esse ponto de vista, embora eu implicações judiciais do tormento eterno e (5) as implicações cosmo- 165
esteja certo de que alguns rejeitarão a ortodoxia de Stott precisa- lógicas do tormento eterno.
mente por causa disso."54
Preocupado com a possibilidade de provocar divisões nas comuni- Morte como castigo do pecado
dades evangélicas em que tem sido respeitado como líder, John Stott O ponto de partida lógico para a nossa investigação é o princípio
escreve: "Hesito em escrever essas coisas, por um lado porque tenho fundamental estabelecido em ambos os Testamentos: "A alma que pe-
grande respeito pela tradição milenar que alega possuir a verdadeira car, essa morrerá" (Ez 18:4, 20);"O salário do pecado é a morte" (Rm
interpretação da Bíblia, e não quero desprezá-la levianamente; e por 6:23). O castigo do pecado abrange, naturalmente, não só a primeira
outro lado porque a unidade da comunidade evangélica mundial sem- morte, aquela que todos experimentamos devido ao pecado de Adão,
pre significou muito para mim. Mas a questão é importante demais mas também o que a Bíblia chama de "a segunda morte" (Ap 20:14;
para ser abafada, e sou grato a você [David Edwards] por me desafiar 21:8), que, conforme vimos, é a morte definitiva e irreversível dos
a declarar minha atual preocupação. [...] Rogo por um diálogo franco pecadores impenitentes. Esse princípio básico nos diz, primeiramente,
entre evangélicos com base na Bíblia."" que o salário derradeiro do pecado não é o tormento eterno, mas a
morte permanente.
Apelo por um olhar diferente sobre o inferno A morte na Bíblia, como já ressaltamos no capítulo 3, é a cessação
Razões emocionais e bíblicas fizeram John Stott abandonar a da vida, e nno ,; separação da alma do corpo. Assim sendo, o castigo do
concepção tradicional de inferno e adotar a concepção aniquila- pecado é a cessação da vida. A morte (tísica), tal qual a conhecemos,
ciomsta. Confessa ele: "Emocionalmente, acho o conceito [de tor- sena de tato a cessação da nossa existência, se não fosse a realidade da
mento eterno) intolerável e não entendo como pessoas podem ressurreição (ICo 15:18). E a ressurreição que faz da morte (tísica)
____ CRENÇAS POPULARES INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

apenas um sono, transformando-a de término da vida em um sono


A linguagem de destruição no Antigo Testamento
temporário. Não existe, porém, ressurreição para a segunda morte. Ela
constitui a cessação definitiva da vida. Os escritores do Antigo Testamento parecem ter esgotado os re-
O Antigo Testamento ensinou essa verdade fundamental, princi- cursos do idioma hebraico para confirmar a completa destruição dos
palmente por meio do sistema sacrificai. O castigo para o pecado mais pecadores impenitentes. De acordo com Basil Atkinson, a Bíblia in-
grave era sempre e somente a morte da vítima substituinte, e nunca glesa traduz, em geral, 28 substantivos e 23 verbos hebraicos por "des-
sua tortura ou prisão prolongada. James Dunn observa perceptivamen- truição" ou "destruir". Emprega mais ou menos a metade dessas pala-
te que "a fornia pela qual a oferta pelo pecado lidava com o pecado vras para descrever a destruição final dos ímpios.58 Uma lista detalhada
era mediante a própria morte. O animal sacrificai, identificado com o de todas as ocorrências nos levaria muito além do limitado espaço do
ofertante no pecado deste, tinha que ser destruído a fim de destruir presente capítulo e se tornaria enfadonha para a maioria dos leitores.
o pecado que ele incorporara". 57 Dito de outra forma, a consumição Os leitores interessados podem encontrar uma análise abrangente des-
da oferta pelo pecado tipificava, de forma dramática, a destruição de- ses textos nos estudos feitos por Basil Atkinson e Edward Fudge. Exa-
finitiva de pecado e pecadores. minaremos aqui apenas uma amostragem dos textos mais importantes.
A separação que ocorria no Dia da Expiação entre verdadeiros e Vários salmos descrevem a destruição final dos ímpios por meio
falsos israelitas tipifica a separação que se dará no segundo advento. de metáforas dramáticas (SI 1:3-6; 2:9-12; 11:1-7; 34:8-22; 58:6-10,
Jesus comparou essa separação com a que ocorre entre o trigo e o 69:22-28; 145:17, 20). No Salmo 37, por exemplo, lemos que os ím-
joio no tempo da colheita. O tato de o joio ter sido semeado no pios ''murcharão como a erva verde" (v. 2), "serão exterminados" e "já não
meio do trigo bom, que representa "os filhos do reino" (Mt 13:38), existir[ao]" (v. 9, 10); eles "perecerão" e "em fumaça se desfarão" (v. 20);
deixa claro que o que Jesus tinha em mente era a Sua igreja. Trigo os "transgressores, serão, à uma, destruídos" (v. 38). O Salmo l, amado
e joio, crentes falsos e genuínos, coexistirão na igreja até a vinda e memorizado por muitos, contrasta o caminho dos justos com o dos
de Cristo. Quando chegar esse tempo, se fará a drástica separação ímpios. A respeito dos últimos, diz que "os perversos não prevalecerão
tipificada no Dia da Expiação. Os malfeitores serão lançados "na no juízo" (v. 5). Eles serão "como a palha que o vento dispersa" (v. 4).
fornalha acesa", mas os "justos resplandecerão como o sol, no rei- "O caminho dos ímpios perecerá" (v. 6). No Salmo 145, Davi volta a
no de seu Pai" (Mt 13:42, 43). afirmar: "O Senhor guarda a todos os que O amam; porém os ímpios
As parábolas de Jesus e o ritual do Dia da Expiação ensinam a mes- serão exterminados" (v. 20). Essa amostragem de referências sobre a
ma importante verdade: cristãos genuínos e falsos coexistirão até Sua destruição final dos ímpios se acha em perfeita harmonia com o ensi-
vinda. No advento, porém, ocorrerá a separação definitiva, quando no do restante das Escrituras.
pecado e pecadores serão erradicados para sempre, e um novo mundo
A destruição do dia do Senhor
será estabelecido.
Os profetas anunciam com frequência a destruição final dos ím-
A linguagem de destruição na Bíblia pios em ligação com o escatológico dia do Senhor. No capítulo de
A razão mais convincente para acreditar na aniquilação dos per- abertura de seu livro, Isaías declara que "os transgressores e os pecado-
didos no juízo final é o rico vocabulário e as figuras de retórica de res serão juntamente destruídos; e os que deixarem o Senhor perecerão"
"destruição" frequentemente empregadas no Antigo e no Novo Tes- (Is 1:28). A cena aqui descrita é a de uma destruição total, uma cena
tamento para descrever o destino dos ímpios. que fica ainda mais vívida ao ser reforçada pela metáfora de pessoas
CRENÇAS POPULARES_
.INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

queimando como material altamente inflamável, sem que haja nin-


que são exterminados (Lc 20:16), a um servo mau que será cortado em
guém para apagar o fogo: "O forte se tornará em estopa, e a sua obra,
pedaços (Mt 24:51, NTLH), aos galileus que pereceram (Lc 13:4, 5), às
em faísca; ambos arderão juntamente, e não haverá quem os apague"
dezoito pessoas esmagadas pela torre de Siloé (Lc 13:4, 5), aos antedi-
(is 1:31).
luvianos destruídos pelo dilúvio (Lc 17:27), ao povo de Sodoma e Go-
Já vimos anteriormente que encontramos na última página do An-
morra destruído pelo fogo (Lc 17:29) e aos servos rebeldes executados
tigo Testamento uma descrição bastante realista do contraste entre o
na volta de seu mestre (Lc 19:14, 27).
destino final dos crentes e o dos descrentes. Para os fiéis, que temem
Todas essas imagens apontam para a pena capital, seja individual
ao Senhor, "nascerá o sol de justiça, trazendo salvação nas suas asas"
ou coletiva. indicam morte violenta, precedida por maior ou menor
(Ml 4:2). Para os descrentes, o dia do Senhor "arde como fornalha;
sofrimento. As ilustrações empregadas pelo Salvador descrevem com
todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como
bastante realismo a destruição ou dissolução definitiva dos ímpios. Je-
o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de
sus perguntou: "Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àque-
sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo" (Ml 4:1).
les lavradores?" (Mt 21:40). E as pessoas responderam: "Fará perecer
A mensagem comunicada por essas imagens simbólicas é clara.
[apollumi] horrivelmente a estes malvados."
Enquanto os justos se regozijam na salvação de Deus, os ímpios são
Jesus ensinava a destruição final dos ímpios não só por meio de
consumidos como "restolho", de modo que não resta "nem raiz nem
ilustrações, mas também por meio de declarações explícitas. Ele afir-
ramo". Essa é, sem dúvida, uma cena de total consumição pelo fogo
168 ma, por exemplo: "Não temais os que matam o corpo e não podem
destruidor, e não uma cena de tormento eterno. Este é o modo como
matar a alma; temei, antes, aquele [Deus] que pode fazer perecer no 16ç,
o Antigo Testamento descreve o destino dos ímpios: destruição total e
inferno tanto a alma como o corpo" (Mt 10:28). John Stott comenta: "Se
permanente, e não tormento eterno.
matar é privar o corpo de vida, o inferno parece ser a privação tanto
Jesus e a linguagem de destruição da vida física como da vida espiritual, ou seja, a extinção do ser."39 Em
nosso estudo sobre esse texto 110 capítulo 3, chamamos a atenção para
O Novo Testamento segue de perto o Antigo Testamento quando
o fato de que Cristo não considera o inferno um lugar de tormento
descreve o destino dos ímpios, empregando palavras e ilustrações que
eterno, mas de destruição permanente de todo o ser - corpo e alma.
indicam destruição. As palavras gregas mais comuns são o verbo apollu-
Muitas vezes Jesus contrastou a vida eterna com a morte ou
mí (destruir) e o substantivo apoleia (destruição). Lança mão também
destruição. "Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão" (Jo 10:28).
de numerosas ilustrações pitorescas extraídas tanto da vida inanimada
"Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho
quanto da animada para descrever a destruição final dos ímpios.
que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela),
Jesus empregou diversas metáforas retiradas da vida inanimada a
porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para
fim de retratar a total destruição dos ímpios. Comparou-os a joio
a vida, e são poucos os que acertam com ela" (Mt 7:13, 14).Temos
atado em feixes para ser queimado (Mt 13:30, 40), peixes ruins que
aqui um singelo contraste entre vida <= """"'... -": ,:^,^a «ilicia,
são deitados fora (Mt 13:48), plantas daninhas que são arrancadas (Mt
em parte alguma. ?<; p ai H "rã., "perecer" ou '"destruição" para signifi-
15:13), árvores estéreis que são cortadas (Lc 13:7) e galhos secos que
car tormento eterno.
são queimados Q o 15:6;.
Conforme já mencionamos, as sete vezes em que Cristo empre-
Jesus empregou também ilustrações extraídas da vida humana para
gou o simbolismo de oeena toi para descrever a destruição dos ímpios
retratar o castigo dos ímpios. Comparou-os a arrendatários mfiéii
no 'inferno. Ao analisarmos as alusões feitas por Ele ao interno \geena\,
ir
CRENÇAS POPULARES J NFERNO COMO TORAAENTOSEAA FIM

constatamos que nenhuma delas indicava o inferno como lugar de exemplo aos que querem viver impiamente" (2Pe 2:6, RSV). Pedro
tormento sem fim. O que é eterno ou inextinguível não é o castigo, afirma aqui inequivocamente que a extinção de Sodoma e Gomorra
mas o fogo, que, como no caso de Sodoma e Gomorra, provoca a pelo fogo serve como exemplo do destino dos perdidos.
completa e permanente destruição dos ímpios, unia condição que Pedro torna a se referir ao destino dos perdidos quando diz que
dura para sempre. O fogo é inextinguível porque não pode ser apaga- Deus é "longânimo para convosco, não querendo que nenhum pere-
do enquanto não consumir o material combustível. ça, senão que todos cheguem ao arrependimento" (2Pe 3:9). As alter-
nativas propostas pelo apóstolo entre arrependimento e perecimento
Paulo e a linguagem de destruição nos fazem lembrar da advertência de Cristo: "Se, porém, não vos ar-
Os escritores do Novo Testamento empregam com frequência ver- rependerdes, todos igualmente perecereis" (Lc 13:3). O perecer a que
bos e substantivos de destruição para descrever o terrível castigo dos Ele se refere ocorrerá na vinda do Senhor, quando "os elementos se
ímpios. Falando dos "inimigos da cruz de Cristo", Paulo garante que "o dissolverão pelo fogo, e a Terra e as obras que nela existem serão quei-
S C '.
destino deles é a, perdição [apoleía]" (Fp 3:18, 19). Ao concluir sua carta madas" (2Pe 3:10, RSV). Uma descrição realista como essa da destrui-
aos gaiatas, o apóstolo adverte:"Quem semeia para a sua carne [natureza ção da Terra e dos malfeitores pela ação do fogo dificilmente permite
pecaminosa], da carne colherá destruição [phthora]; mas quem semeia para a possibilidade do "tormento sem fim do inferno".
o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna" (Gl 6:8, NVI). O dia do Se-
Outras alusões à destruição final dos ímpios
170
nhor virá inesperadamente,"como ladrão de noite; [...] eis que lhes [aos
ímpios] sobrevirá repentina destruição [olethros]" (ITs 5:2, 3). Na vinda Diversas outras alusões encontradas no Novo Testamento apontam 171
de Cristo, os ímpios "sofrerão penalidade de eterna destruição [olethron]" para a destruição definitiva dos perdidos. O autor de Hebreus adverte
(2Ts 1:9).Já vimos anteriormente que a destruição dos ímpios não pode repetidas vezes contra a apostasia ou incredulidade. Quem continua a
durar eternamente, visto ser difícil imaginar um processo de destruição pecar deliberadamente, depois de ter "recebido o pleno conhecimen-
inconcluso e eterno. Destruição pressupõe aniquilamento. to da verdade", enfrenta "certa expectação horrível de juízo e fogo
 vista do destino final que aguarda crentes e descrentes, Paulo fala vingador prestes a consumir os adversários" (Hb 10:27). O autor de-
muitas vezes daqueles como "os que estão sendo salvos [hoi sozome- clara explicitamente que aqueles que persistem em pecar contra Deus
noí\" e desses como "os que estão perecendo [hoi apollumenoi]" (lCo experimentarão por fim o juízo de um fogo intenso que os consumirá.
1:18; 2Co 2:15; 4:3; 2Ts 2:10). Essa caracterização comum mostra Note que a função do fogo é consumir pecadores, e não atormentá-los
que, para Paulo, o destino dos incrédulos era a destruição definitiva, e por toda a eternidade. Essa verdade é reiterada de maneira uniforme
não o tormento eterno. em toda a Bíblia.
Ao descrever o destino dos incrédulos, Judas guarda espantosa se-
Pedro e a linguagem de destruição melhança com 2 Pedro. Como Pedro. Judas chama a atenção para a
Pedro, à semelhança de Paulo, emprega uma linguagem de destrui- destruição de Sodoma e Gomorra, "como exemplo dos que sofrem o
ção para descrever o destino dos não salvos. Ele fala de falsos mestres castigo do fogo eterno" (Judas 7, NIV, tradução nossa). Já vimos que
que introduzem heresias dissimuladamente e trazem sobre si "repentina o fogo que destruiu as duas cidades é eterno, não por causa de sua
destruição" (2Pe 2:1). Pedro compara a destruição deles à do mundo duração, mas por causa de seus resultados permanentes.
antigo pelo dilúvio e à das cidades de Sodoma e Gomorra, reduzidas a Vimos anteriormente também que a linguagem de destruição está pre-
cinzas (2Pe 2:5, 6). Deus condenou-as "à extinção [...} , pondo-as como sente, sobretudo no livro do Apocalipse, porque o último livro da Bíblia

l
CRENÇAS POPULARES INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

representa a forma de Deus vencer a oposição do mal contra Si mesmo Deus revelado em Cristo e por Cristo? Deus tem duas caras? Ele é
e contra Seu povo. Um texto ainda não mencionado é Apocalipse 11:18, ilimitadamente misericordioso por um lado e insaciavelmente cruel
no qual, ao soar da sétima trombeta, João ouve os 24 anciãos dizerem por outro? Pode Deus amar tanto os pecadores a ponto de enviar Seu
que chegou ''o tempo determinado para serem julgados os mortos [...] Filho amado para salvá-los e, ao mesmo tempo, odiar tanto os peca-
e para destruíres os que destroem a terra". Aqui, novamente, o resultado dores impenitentes a ponto de sujeitá-los a um tormento cruel e sem
do juízo final não é condenação ao tormento eterno no inferno, mas a fim? Podemos razoavelmente louvar a Deus por Sua bondade, se Ele
destruição e a aniquilação. Deus é severo, mas justo. Ele não tem prazer tortura pecadores pelos séculos da eternidade sem fim?
na morte do ímpio, quanto mais em torturá-lo por toda a eternidade. Evidentemente, nossa intenção não é criticar Deus; mas Ele nos
Ele há de finalmente punir todos os malfeitores, mas a punição lhes trará deu uma consciência capaz de formular juízos morais. Pode a in-
como resultado a extinção eterna, e não o tormento eterno. tuição moral que Deus implantou em nossa consciência justificar a
Essa é a diferença fundamental entre a concepção bíblica de castigo insaciável crueldade de uma divindade que sujeita pecadores a um
final como completa extinção e a concepção tradicional e popular de tormento sem fim? Clark Pinnock responde a essa pergunta de forma
inferno como tormento e tortura sem fim. A linguagem de destruição bastante eloquente:"Existe uma forte repulsa moral contra a doutrina
e as metáforas de fogo consumidor que encontramos ao longo da Bíblia tradicional da natureza do inferno. Torturar alguém eternamente é
sugerem claramente que o castigo final dos ímpios é a extinção perma- algo intolerável do ponto de vista moral, pois descreve Deus agindo como
172
nente, e não o tormento sem fim no inferno. Com base nesse convin- um monstro sedento de sangue, que mantém um Auschwitz eterno para
cente testemunho da Bíblia, faço minhas as palavras de Clark Pinnock: Seus inimigos, aos quais não permite nem mesmo morrer. Como 173
"Espero sinceramente que os tradicionalistas parem de dizer que não pode alguém amar um Deus assim? Presumo que se deva temê-Lo;
há base bíblica para essa concepção [aniquilação], quando há uma base mas conseguiríamos amá-Lo e respeitá-Lo? Desejaríamos nos esforçar
tão sólida para ela."6" para ser igual a Ele em Sua falta de compaixão? Certamente a ideia
de tormento eterno e consciente eleva a problemática do mal a níveis
Parte 4 impensáveis."61
AS IMPLICAÇÕES MORAIS DO TORMENTO ETERNO
John Hick compartilha da mesma preocupação: "A ideia de cor-
A concepção tradicional de inferno está sendo contestada hoje pos queimando para sempre e sofrendo continuamente a intensa dor
í não só com base na linguagem de destruição e nas metáforas de fogo de queimaduras de terceiro grau sem ser consumidos e sem perder
consumidor que encontramos na Bíblia, mas também com base a consciência é tão cientificamente fantástico quanto moralmente
em considerações de ordem moral, judicial e cosmológica. É para es- revoltante. [...] O pensamento de que um tormento como esse é
sas considerações que voltaremos agora nossa atenção. Atentemos em deliberadamente infligido por um decreto divino é totalmente in-
primeiro lugar para as implicações morais da concepção tradicional de compatível com a ideia de Deus como amor infinito."" 2
inferno que descreve Deus como um torturador cruel, que atormenta
os ímpios por toda a eternidade. Inferno e Inquisição
Será que a crença no inferno como um lugar em que Deus queima
Deus tem duas caras? pecadores eternamente com fogo e enxofre não teria se inspirado na
Como é possível conciliar razoavelmente a concepção de interno Inquisição, tribunal eclesiástico que prendia, torturava e finalmente
que taz de Deus um torturador cruel e sádico com a natureza do e xecutava na ioan-ieira supostos "hereges" que se recusavam à aceitar
^CRENÇAS POPULARES ,INFERNOCOMO TORMENTOSEM FIM

o ensinamento tradicional da igreja? Os livros de história da igreja A melhor explicação que posso encontrar para a cauterização da
não estabelecem uma ligação entre ambas, evidentemente porque os consciência moral cristã daquela época eram as cenas e relatos cho-
inquisidores não justificavam suas ações com base em sua crença no cantes do fogo do inferno a que os cristãos eram constantemente
inferno de fogo para os ímpios. expostos. Essa concepção de inferno fornecia a justificativa moral para
Mas indaga-se: o que inspirou papas, bispos, concílios de igreja, imitarem Deus, queimando hereges com fogo temporal e consideran-
monges dominicanos e franciscanos, reis e príncipes cristãos a torturar do a relação dele com o fogo eterno que Deus lhes aplicaria no futuro.
e exterminar cristãos dissidentes, tais como os albigenses, valdenses e É impossível estimar o grande impacto que teve a doutrina do
huguenotes? O que influenciou, por exemplo, Calvino e seu Concí- inferno de fogo sem fim ao longo dos séculos para justificar a intole-
lio Municipal de Genebra a queimar Serveto (cientista espanhol que rância religiosa, a tortura e a queima de "hereges". A lógica é simples:
descobriu a circulação do sangue) na fogueira por persistir em suas se Deus vai queimar hereges no inferno por toda a eternidade, por
crenças antitrinitarianas? que a igreja não pode queimá-los agora até a morte? As implicações
Uma leitura da condenação de Serveto, publicada em 26 de outubro e aplicações práticas da doutrina do castigo do inferno eterno são
de 1553 pelo Concílio Municipal de Genebra, sugere que esses zelotes atemorizantes. Os tradicionalistas devem ponderar cuidadosamente
calvinistas acreditavam assim como os inquisidores católicos, que tinham sobre esses graves fatos. Afinal de contas, Jesus afirmou: "Pelos seus
o direito de queimar hereges da mesma forma que Deus os queimaria frutos os conhecereis" (Mt 7:20). E os frutos da doutrina do inferno
no inferno. Determinava a sentença: "Nós te condenamos, Miguel Ser- de fogo são assustadores.
174
veto, a ser detido e conduzido ao local de Champel, para ser amarrado a 175
uma estaca e queimado vivojunto com teus livros [...] até que teu corpo Tentativas de tornar o inferno mais tolerável
seja reduzido a cinzas; e dessa forma findarás teus dias a servir de exem- Não é de surpreender que, durante o curso da história, tenham sido
plo a outros que possam querer praticar coisas semelhantes."63 feitas várias tentativas para tornar o inferno menos infernal. Agostinho
No dia seguinte, após Serveto haver recusado a se confessar culpa- inventou o purgatório para reduzir a população do inferno. Alguns
do de heresia, "o carrasco o prende em cadeias de ferro até a fogueira teólogos protestantes da atualidade, como Hendrikus Berkhof e
em meio a feixes de varas, põe-lhe na cabeça uma coroa de folhas co- Zachary J. Hayes, propõem uma concepção purgatorial de inferno
bertas com enxofre e amarra o livro dele ao seu lado. A visão da tocha semelhante à doutrina católica do purgatório. Depois de passar algum
flamejante arranca dele um grito lancinante de 'misericórdia' em sua tempo sendo castigado no inferno, cada recluso ficaria suficientemen-
língua nativa. Os espectadores recuam com um estremecimento. As te purificado para ser aceito no céu.66
chamas logo o alcançam e consomem sua estrutura mortal no qua- Outros já tentaram retirar o fogo do inferno, substituindo o tor-
dragésimo quarto ano de uma vida atribulada". 64 mento físico por um tormento mental suportável. Na audiência geral
Philip Schaff, renomado historiador da igreja, conclui o relato da de quarta-feira, 28 de julho de 1999, o papa João Paulo II explicou
execução de Serveto dizendo: "A consciência e a piedade da épo- que o inferno não é um lugar físico, mas "o estado dos que volun-
ca aprovaram a execução, deixando pouco espaço para emoções de tária e definitivamente se separam de Deus". O pontífice negou que
compaixão."03 E difícil acreditar que não só católicos, mas até mesmo o inferno seja um lugar de tormento abrasador, descrevendo-o mais
devotos calvinistas aprovaram e assistiram impassíveis à queima do propriamente como ''a dor, a frustração e o vazio da vida sem Deus".67
médico espanhol que havia dado significativas contribuições à ciência Por incrível que pareça, a declaração do papa contradiz frontalrnente
médica, pelo simples motivo de não aceitar a divindade de Cristo. o novo Catecismo da Igreja Católica, que preceitua: "As almas dos que
CRENÇAS POPULARES INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a do por um juízo terrível e sofrendo "penalidade de eterna destruição"
morte aos infernos, onde sofrem as penas do inferno,'o fogo eterno'" (2Ts 1:9). Recuperar a concepção bíblica a respeito do castigo final
(§1035). soltará a língua dos pregadores para que proclamem a grande alter-
A semelhança de João Paulo II.Billy Graham acredita que "infer- nativa entre a vida eterna e a permanente destruição, sem o temor de
no é essencialmente eterna separação de Deus"."E esse", confessa ele, retratar a Deus como um monstro.
"é o pior tipo de inferno em que posso pensar. Mas acho que as pes-
soas têm dificuldade em acreditar que Deus vai permitir que pessoas implicações judiciais do tormento eterno
queimem para sempre no fogo literal. Acho que o fogo mencionado A concepção tradicional e popular de inferno é contestada hoje
na Bíblia é uma ardente sede de Deus que nunca pode ser aplacada."68 com base na concepção bíblica de justiça. Como disse John Stott de
Em uma entrevista concedida a Richard Ostling na revista Times, maneira clara e concisa: "É fundamental para ela [justiça] a crença
Billy Graham declarou:''A única coisa que eu poderia dizer com cer- de que Deus vai julgar as pessoas 'segundo as suas obras' (Ap 20:12),
teza é que inferno significa separação de Deus. Estamos separados de o que implica que o castigo será proporcional ao mal praticado. Os
Sua luz, de Sua companhia. Isso é estar no inferno. Quando se trata tribunais de justiça judaicos praticavam esse princípio aplicando cas-
de um fogo literal, eu não prego, pois não tenho certeza dis- tigos que se limitavam a uma retribuição exata: 'vida por vida, olho
so. Quando a Bíblia fala de fogo com relação ao inferno, essa pode por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé' (Ex 21:23-25).
ser uma ilustração de como vai ser terrível — não fogo, mas algo pior, Não haveria, pois, uma grave desproporção entre pecados cometidos
176
uma sede por Deus que não pode ser aplacada."69 Se o fogo do inferno conscientemeiite no tempo e o tormento consciente experimentado 177
é realmente "uma ardente sede por Deus que nunca pode ser aplaca- por toda a eternidade? Não estou minimizando a gravidade do pe-
da", então os ímpios não deveriam estar no inferno. Como Deus pode cado como rebelião contra Deus nosso Criador, mas questiono se o
enviar para o inferno pessoas que sentem uma sede abrasadora por Ele? 'tormento consciente e eterno' é compatível com a revelação bíblica
Essas engenhosas tentativas de minimizar o grau de dor do infer- da justiça divina."70
no, reduzindo-o de uma condição física para um estado psicológico, É difícil imaginar que tipo de vida, por mais rebelde que fosse,
não muda quase em nada a sua natureza, visto que continua a ser um mereceria o castigo definitivo do tormento eterno e consciente no
lugar de tormento sem fim. Em última análise, qualquer doutrina do inferno. Nas palavras de John Hick: "'A justiça nunca exige para
inferno deve ser aprovada no teste da consciência moral humana; e pecados finitos o castigo infinito da angústia eterna; um tormento
a doutrina do tormento eterno, seja literal, físico ou psicológico, não sem fim dessa natureza jamais serviria para qualquer propósito po-
passa nesse teste. O aniquilaciomsmo, por outro lado. pode passar no sitivo ou reformatório, precisamente porque nunca acaba; e torna
teste por duas razões. Em primeiro lugar, essa concepção não vê o impossível qualquer teodiceia [isto é, a defesa da bondade de Deus
inferno como tortura eterna, mas como extinção permanente dos com relação à presença do mal] cristã coer^nt- ... ,.--••<—._ ^^ OJ
ímpios. Em segundo lugar, reconhece que Deus respeita a liberdade males do pecado e do sotnme*""-. . • -r: ..ucin para sempre abrigados
de quem torna a decisão de não ser salvo. dentro da criação de rVus."
Nossa época precisa desesperadamente aprender o temor do Se-
nhor, e essa é uma das razões para se pregar sobre o juízo e o castigo A Bíblia desconhece a retaliação ilimitada
iinal. Precisamos advertir as pessoas de que aqueles que rejeitam os A noção de retaliação ilimitada é desconhecida para a Bíblia.
princípios de vicia de Cristo e Sua oferta de salvação acabarão passan-
INFERNO COMO TORMENTO SEMf [M
OlENÇAS POPJJ LARES

aplicar aos diversos tipos de delitos.Jesus impôs um limite ainda maior: Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras" (cf.
"Ouvistes que foi dito [...j. Eu, porém, vos digo" (Mt 5:38, 39). De Lc 12:47, 48). Os habitantes de Tiro e Sidom serão tratados com maior
acordo com a ética do evangelho, é impossível justificar a concepção compaixão no juízo final do que os de Betsaida, porque tiveram menos
tradicional de tormento eterno e consciente, porque tal castigo criaria oportunidades para compreender a vontade de Deus para a vida deles.
grave desproporção entre os pecados cometidos durante a vida e a Cristo faz alusão ao mesmo princípio na parábola dos servos fiel e
consequente punição por toda a eternidade. infiel: "Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor
Parte do problema é que, como seres humanos, não podemos con- e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade será punido com muitos
ceitualizar quanto tempo demora realmente o tormento eterno. Me- açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas
dimos a duração da vida humana em termos de 60, 70 e, em alguns dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi
casos, 80 anos. Mas o tormento eterno dá a entender que, mesmo dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito
depois de os pecadores terem agonizado no inferno por um milhão mais lhe pedirão" (Lc 12:47,48). No juízo final, cada pessoa será medida
de anos, seu castigo está apenas começando.Tal conceito está além da não pelo mesmo padrão, mas pela reação individual à luz recebida (ver Ez
compreensão humana. 3:18-21; 18:2-32;Lc 23:34Jo 15:22; ITm l:13,Tg 4:17).
Alguns raciocinam que, se os ímpios fossem punidos pela aniqui- Milhões de pessoas viveram, e vivem hoje, sem conhecer a Cristo
lação, "ficariam isentos do castigo e, portanto, não haveria castigo de como a suprema revelação de Deus e os meios de salvação. Essas pes-
espécie alguma".72 Esse raciocínio é estarrecedor, para dizer o míni- soas podem encontrar salvação em virtude de sua resposta de fé ao
''"•"" mo. Pressupõe que o único castigo que Deus pode aplicar aos injustos que sabem sobre Deus. "^
é atormentá-los eternamente. É difícil acreditar que a justiça divina só Paulo explica em. Romanos 2 que, "quando, pois, os gentios, que
possa ser satisfeita por meio do castigo do tormento eterno. não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não
O senso de justiça humana considera a pena de morte a mais seve- tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da
ra forma de punição que pode ser imposta por ofensas capitais. Não lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência
há razão para crer que o senso divino de justiça seja mais exigente e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se,
quando requer mais que a efetiva aniquilação dos injustos. Isso não no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos
constitui uma negação do princípio de graus de responsabilização, homens, de conformidade com o meu evangelho" (v. 14-16).
que, conforme veremos, determina a "gradação" do sofrimento dos É pelo fato de Deus ter escrito determinados princípios morais bá-
perdidos. O sofrimento punitivo, porém, não durará para sempre; ter- sicos em toda consciência humana que todas as pessoas podem ser res-
minará com a aniquilação dos perdidos. ponsabilizadas e ficar "indesculpáveis" (Rm 1:20) no juízo final. Será
uma surpresa encontrar, entre os redimidos, "pagãos" que nunca sou-
Gradação do castigo beram nada sobre as boas-novas da salvação por meio de agentes hu-
A extinção não exclui a possibilidade de graus de castigo. Cristo manos. Eles não perecerão porque simplesmente seguiram a luz da sua
ensina em diversos lugares o princípio de graus de responsabilização consciência.
com base na luz recebida. Em Mateus 11:21 e 22, Ele exclama:"Ai de ti,
As irnpíicações cosmológicas do tormento eterno
Corazim! Ai de ti. Betsaidai Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem
operado os milagres que em vós .se fizeram, há muito que elas se teriam Uma última objeção à concepção tradicional de interno é que
arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do 0 tormento eterno pressupõe a existência eterna de um dualismo

-,
CRENÇAS fOPULARES, . INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

cósmico. Céu e inferno, felicidade e dor, bem e mal continuariam, Durante os últimos 150 anos, os adventistas do sétimo dia têm sido
a existir para sempre lado a lado. É impossível conciliar esse ponto criticados por ensinar essa importante verdade bíblica, a saber, que
de vista com a visão profética do novo mundo, no qual não haverá o inferno de fogo bíblico não atormenta os perdidos eternamente,
mais "luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram" mas os consome permanentemente. Na atualidade, é encorajador ver
(Ap 21:4). Como seria possível esquecer o pranto e a dor se a agonia que pesquisadores e líderes de igreja respeitados, como o arcebispo
e angústia dos perdidos fossem presenciadas, como na parábola do rico William Temple, reconhecem que a crença adventista na aniquilação
e Lázaro (Lc 16:19-31)? dos perdidos é biblicamente correra e apoiam agora a crença adven-
A presença de incontáveis milhões sofrendo para sempre excru- tista, contestando e abandonando a crença popular no inferno como
ciante tormento, mesmo que fosse no acampamento dos não salvos, tormento eterno, com base em considerações de ordem bíblica, mo-
só poderia servir para destruir a paz e a felicidade do novo mundo. A ral, judicial e cosmológica.
nova criação se demonstraria falsa desde o primeiro dia, uma vez que Do ponto de vista bíblico, o tormento eterno nega o princípio
os pecadores continuariam a ser uma realidade eterna no Universo de fundamental de que o derradeiro salário do pecado é a morte, a ces-
Deus, e o Criador jamais seria "tudo em todos" (ICo 15:28). sação da vida, e não o tormento eterno. Além disso, as ricas figuras
O propósito do plano da salvação é, no final das contas, erradicar a de retórica e a linguagem de destruição usadas por toda a Bíblia para
presença de pecado e pecadores deste mundo. Só podemos verdadei- descrever o destino dos ímpios mostram claramente que o castigo
ramente dizer que a missão redentora de Cristo constituiu uma vitória final deles tem como resultado a aniquilação, e não o tormento cons-
180
completa se o diabo, seus demónios e os pecadores que ele tentou fo- ciente e eterno. 181
rem consumidos no lago de fogo e passarem pela extinção da segunda Do ponto de vista moral, a doutrina do tormento consciente e
morte. eterno é incompatível com a revelação bíblica do amor e da justiça
Em suma, pode-se afirmar que, pela perspectiva cosmológica, a divina. A intuição moral que Deus implantou dentro de nossa consci-
concepção tradicional de inferno perpetua um dualismo cósmico que ência não pode justificar a insaciável crueldade de um Deus que sujei-
contradiz a visão profética do novo mundo, no qual a presença de ta pecadores a tormentos intermináveis. Um Deus como esse mais se
pecado e pecadores se extinguira para sempre (Ap 21:4). parece a um monstro sedento de sangue do que com o amorável Pai
que nos revelou Jesus Cristo.
CONCLUSÃO Do ponto de vista judicial, a doutrina do tormento eterno con-
A concepção tradicional e popular de inferno como castigo sem tradiz a concepção bíblica de justiça, que exige a aplicação de
fim floresceu a partir da concepção dualista grega a respeito da na- castigo proporcional ao mal praticado. O conceito da retaliação
tureza humana, segundo a qual o ser humano se compunha de uni ilimitada é desconhecido para a Bíblia. A justiça nunca exigiria
corpo mortal e uma alma imortal. William Temple, arcebispo da Can- um castigo eterno para pecados cometidos no curto espaço da
tuária (1942-1944), reconhece acertadamente que,"se os homens não vida humana, sobretudo porque esse casHo-o .-_-_ p-":rc:
tivessem importado dos gregos o conceito antibíblico da indestruti- reformatórios.
bilidade natural da alma e não tivessem lido o Novo Testamento com Do pciiio cie vista cosmológico, a doutrina do tormento eterno
isso já em mente, teriam extraído do Novo Testamento não a crenC- Perpetua um dualismo cósmico que contradiz a visão profética cio
110 tormento eterno, mas na aniquilação. E o fogo que se chama aeo- novo mundo, livre da presença de pecado e pecadores. Se agonizantes
nian j eterno], e não a vida que se lança dentro deie .'•' pecadores vão permanecer unia realidade eterna no novo Universo de

l
CRENÇAS POPULARES .INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM

Deus, então dificilmente se pode afirmar que não haverá mais "luto, 4 Christopher Pitt, tradutor, Aeneid (1823), p. 385.
nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram" (Ap 21:4). D Para uma listagem prática das declarações feitas pelos primeiros pais da
Iniciamos este capítulo com a pergunta: será que a Bíblia apoia a igreja, consultar "The Early Church Fathers Speak on Hell", www.geo-
crença popular de que pecadores impenitentes sofrem o castigo cons- cities.com/Athens/Rhodes/3543/Hell.htm.
ciente do inferno de fogo no corpo e na alma por toda a eternidade? 6 Para um excelente levantamento sobre a concepção de inferno de Agos-
A meticulosa pesquisa que fizemos nos textos bíblicos relevantes mos- tinho, consultar George Hunsinger, "Hellfire and Damnation: Four
trou que essa concepção popular carece de apoio bíblico. Ancient and Modern Views", The Scottish Journal ofTlieology 51 (1998),
A Bíblia ensina que os ímpios ressuscitam com o objetivo de en- p. 406-434.
frentar o juízo divino. Esse consistirá na permanente expulsão da pre- ' Augustine, Tlie Enchridion on Faith, Hope, and Love, ed. Henry Paolucci
sença de Deus para um lugar onde haverá "choro e ranger de dentes". (1961), p. 97.
Após um período de sofrimento consciente e individual, conforme 8Ibid.,p.92.
V" ;
requer a justiça divina, os ímpios serão consumidos sem nenhuma 9 Ibid.
esperança de restauração ou restabelecimento. A restauração definitiva 10 Ibid.
dos crentes e a extinção dos pecadores deste mundo será a prova de 11 Ibid.
que a missão redentora de Cristo alcançou vitória completa. A vitória 12 Augustine, City of Goa, ed. Davíd Knowles (1972), XXI, 23.
de Cristo é sinal de que "as primeiras coisas passaram" (Ap 21:4), e 13 Ciíyo/GodXXI, 14.
182
'""^ apenas luz, amor, paz e harmonia existirão através da eternidade. 14 The Enchridion, p. 98.
183
15 Ibid., p. 95.
16 Reuters, 29 de julho de 1999.
'John F.Walvoord, "The LiteralView", em Four Views on Hell, ed.William 17 Maureen McKew, "Aw Hell! Who Put the Fire Out?", Villanova Maga-
Crockett(1992),p. 12. zine, verão de 2000, p. 16.
2 Clark H. Pinnock, "Response to John F.Walvoord", em Four Views on 18 Catechism ofthe Catholic Church (1994), parágrafo 1.035.
Hdl, William Crockett (1992), p. 39. 19 Richard Owen,"Pope Says Hell and Damnation Are Real and Eternal",
3 Em seu livro The Orígin and History of the Doctrine ofEndless Punishment, Timesonline, 28 de março de 2007.
Thomas Thayer escreve: "Ao tentar estabelecer as concepções egípcias 211 Martin Luther, Luther's Works: Commentaries on l Corinthians 7, l Corín-
sobre o assunto [do inferno], é difícil escolher entre os relatos confli- thians 15, Lectures on l Timothy (1873), v. 28, p. 144, 145.
tantes dos escritores gregos Heródoto, Diodoro Sículo, Plutarco, etc., e 21 Luther's Works, v. 19, p. 75.
os intérpretes modernos dos monumentais hieróglifos. Não obstante, no 22 John Calvin, Commentary on a Harmony ofthe Evangelísts, Matthew, Mark,
que diz respeito à questão principal, eles se acham em tolerável consenso andLuke (1949), p. 200,201.
[...] sobre toda a questão do juízo após a morte, as recompensas pela vida -'William V Crockett, "The Metaphoncal View", em Four Views on Hell,
justa e os castigos pela vida injusta, com todas as solenidades formais de ed.William Crockett (1992), p. 46,47.
julgamento e condenação originadas e aperfeiçoadas entre os egípcios. 24 Jonathan Edwards, em John Gerstner, Jonaihan Edwards on Heaven and
Elas foram tomadas de empréstimo pelos gregos, que efetuaram essas Hell (1980), p. 56.
alterações e acréscimos, conforme o sistema mais conveniente ao gemo e 23 Conforme citado por Fred Cari Kuehner, "Heaven or Hell?", em Fun-
as circunstâncias daquele povo" (p. 93). damentais ofthe Fauh, ed. Cari F. H. Henry (1975), p. 239.
..INFERNO COMO TORMENTO SEM FIM
CRENCASf pPyiARES
36 Josephus, War ofthejews 6, 8, 5; 5, 12, 7.
26 John Stott e David L.Edwards, Evangelical Essentials:A Liberal-Evangélica! 37 Itálico acrescentado.
Dialogue (1988); Philip E. Hughes, The Tme hnaoe:The Orioin and Destiny 38 Robert A. Peterson (nota 28), p. 47.
ofMan in Christ (1989); John W Wenham, "The Case for Conditional 39 John Stott e David L. Edwards (nota 26), p. 316.
Immortality", em Universalism and the Doctrine of Hell (1992); Edward 40 Itálico acrescentado.
Fudge, The FíreThat Consutnes:The Biblical Case for Conditional Immortal- 41 John Stott (nota 26), p. 317.
ity (1994); Clark Pinnock, "The Conditional View", em Fonr Views on
42 Basil F. C. Atkinson, Life and Immortality: An Examination of the Natwe
Hell (1997); Oscar Cullmann, Immortality of the Soul or Reswreaion of the
and Meaning of Life and Death as TheyAre Revealed in the Scriptures (s.d.),
Dead? (1958). P. 101.
27 John H. Gerstner, Repent or Perish (1990), p. 127. 43 Itálico acrescentado.
2!i J. I. Packer em Evangelical Affirmations (1990); Larry Dixon, The Other 44 Robert A. Peterson (nota 28), p. 88. Harry Buis expressa a mesma opinião
Side of the Good News: Confronting the Coníeniporary Challenges to Jesus'
quando escreve: "Estas passagens das epístolas e do Apocalipse dão provas
Teaching on Hei! (1992); Kendall Harmon, "The Case Against Condi-
de que os apóstolos seguem o exemplo de seu Mestre ao ensinar as sérias
tionalism: A Response to Edward William Fudge", em Universalism and
alternativas da vida. Eles ensinam claramente o fato de que o juízo, caso
the Doctrine ofHell (1992); Robert A. Peterson, Hell on Trial:The Case for
resulte em vida eterna ou em morte eterna, não é cessação da existência,
Eternal Punisliment (1995); D. A. Carson, The Gagging of God: Christianity
mas sim uma existência na qual os perdidos enfrentam os terríveis resulta-
Confronts Pliiralísm (1996). dos dos pecados. Ensinam que essa existência é sem fim" (nota 38, p. 48).
184 185
29 Robert A. Peterson (28), p. 200, 201. 45 J. P. M. Sweet. Revelation (1979), p. 228.
J "John F.Walvoord (nota l),p. 15. 46 Harold E. Guillebaud, The RighteousJudge:A Study ofthe Biblical Doctrine
31 Robert A. Peterson (nota 28), p. 32. Consultar também Harry Buis, The of Everlasting Punishment (s.d.), p. 24.
Doctrine of Eternal Punishment (1957), p. 13. 47 John F.Walvoord (nota 1), p. 23.
3 2 Ibid.,p.36. 48 Conforme citado por J. Massyngberde Ford, Revelation: Introdnction,
33 André Lacocque, Tíie Book of Daniel (1979), p. 241. Transladou and Commentary, The Anchor Bible (1975), p. 393.
34 Emmanuel Petavel, The Problem of Immortality (1892), p. 323.
49 M. McNamara, The New Testament and the Pakstinian Targum to the Pen-
•" Kenneth Kantzer, "Troublesome Questions", Christianity Today, 20 de tateuch (1958), p. 117.
março de 1987, p. 45. De forma semelhante. W.T. G. Shedd escreve: "O 50 Ibid.
mais forte apoio para a doutrina do castigo eterno é o ensino de Cristo, 51 Ibid., p. 23.
o Redentor do homem. Embora a doutrina seja claramente ensinada 52 Ibid.
nas epístolas paulinas e em outras partes da Bíblia, é improvável que, sem 53 Clark H. Pinnock (nota 2),p.l61.
as explícitas e reiteradas declarações do Deus encarnado, uma verdade í4ibid..p. 162.
tão terrível tivesse lugar cão ostensivo como sempre teve nos credos da
-"John Stott (nota 26), p. 319 320.
cristandade, [...j Cnsco não teria advertido os homens de forma tão
•"* Ibid.. n. 314. 315.
frequente e veemente como o fez contra 'o togo que não se apaga' e 'o
" James D. G. Dunn. "Pauis Understanding ot the Death of Jesus''. ,?;;;
verme que não lhes morre' caso tivesse conhecimento de que não ha
Reconríliation and Hope: \'cu: Testament Essays on Atonement and Eschafàlogy.
perigo futuro a lhes corresponder tão plenamente" (Doainatic Theolof}'
ed. Robert Banks (1974). p. 136.
[l888], p. 665. 666).

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..ÇMMÇASfOf ULARES c
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58 Basil F. C. Atkinson (nota 42), p. 103.
59 John Stott (nota 26), p. 315.
60 Clark H. Pmnock (nota 2), p. 147.

"' Ibid.,p. 149, 150.


62 John Hick, Death and Eternal Life (1976), p. 199, 201. A SANTIDADE DO DOMINGO
'" Conforme citado por Philip Schaff, History of thc Chrístian Church
(1958), v. 8, p. 782.
6 4 !bid.,p.785.

65 Ibid.,p.786.
66 Zachary J. Hayes,"The PurgatorialView," in Four Views on Hell, ed. Stan-

A
ley N. Gundry (1992), p. 89. crença mais popular compartilhada por católicos e pro-
hl Reuters, 29 de julho de 1999. testantes é a santidade do domingo. Ambas as tradições
hf! "Graham", Orlando Sentínel, 10 de abril de 1983. religiosas consideram o domingo o "dia do Senhor",
69 Billy Graham, entrevista para Richard Ostling, Time, 15 de novembro instituído por Cristo e os apóstolos para comemorar a ressurrei-
de 1993. ção do Salvador. No entanto, atualmente um alarmante declínio
70 John Stott (nota 26), p. 318,319. na guarda do domingo está contestando a concepção tradicional
186
71 John Hick, Death and Eternal Life (1976), p. 201. de que o primeiro dia da semana seja um dia santo. Na Itália,
'- Harry Buis,"Everlasting Punishment", Tlie Zondervan Pictorial Encyclope- meu país de origem, estima-se que apenas 5% dos católicos fre-
dia ofthe Bíble (1978), v. 4, p. 956. quentem regularmente as missas dominicais. Aproximadamente
'"' William Temple, Chrístian Faith and Life (1931), p. 8. 95% dos católicos vão à igreja apenas três vezes na vida: no batis-
mo, no casamento e no funeral.
A situação é essencialmente a mesma na maioria dos países
ocidentais, onde a assistência à igreja atinge menos de 10% da
população cristã. Para os líderes de igrejas, essa baixíssima fre-
quência a missas e cultos constitui uma ameaça à sobrevivência
não apenas de sua igreja, mas também do próprio cristianismo.
Afinal de contas, a essência do cristianismo é o relacionamento
com Deus, e, se os cristãos ignoram o Senhor no dia em que eles
consideram o dia do Senhor, as chances são de que ignorarão o
Senhor também nos outros dias da semana.
O então presidente norte-americano Abraão Lincoln, num
discurso proferido em 13 de novembro de 1862, ressaltou com
eloquência a função vital do sábado para a sobrevivência do cris-
tianismo: "Quando guardamos ou violamos o dia de sábado, no-
bremente preservamos ou torpemente desperdiçamos a última e
CRENÇAS POPULARES A SANTIDADE DO DOMINGO

a melhor esperança de soerguimento da humanidade."1 Obviarnem Q pontífice continua dizendo: "Como devem ser reiteradas ainda
para Abraão Lincoln, sábado queria dizer domingo. Mas isso não lr ,' •,c mais a sacralidade do dia do Senhor e a necessidade da partici-
valida o fato de que um dos mais notáveis presidentes dos Estado po na missa dominical! O contexto cultural em que vivemos, fre-
Unidos reconheceu no princípio da santificação do sábado a melho , e ntern ente marcado pela indiferença religiosa e o secularismo que
esperança para renovar e elevar seres humanos. teca o horizonte do transcendente, não deve nos fazer esquecer que o
Conscientes das consequências que trará a crise da guarda do do Ovo de Deus, nascido do 'domingo de Páscoa de Cristo' [aconteci-

mingo para o futuro do cristianismo, líderes de igrejas e teólogos estão mento pascal], deve retornar a ele como a uma fonte inesgotável, para
reexaminando a história e teologia do domingo num esforço para com preender melhor os traços da própria identidade e as razões da

promover de torma mais eficaz a santidade desse dia. sua existência."3

Apelos apaixonados dos papas por A santidade do domingo tem sua origem nos apóstolos
um reavivamento na guarda do domingo A atual "indiferença religiosa", manifestada através da alarmante
Em suas homilias e pronunciamentos oficiais, tanto o papa João Pau- negligência para com a guarda do domingo, convenceu Bento XVI
lo II quanto Bento XVI fizeram veementes apelos por um reavivamento de que é imprescindível "reafirmar ainda mais a sacralidade do dia do
na guarda do domingo. Em 31 de maio de 1998, o papa João Paiúo Senhor", fazendo-o retornar à sua "fonte inesgotável" encontrada em
II promulgou uma extensa carta pastoral, Dies Domini [O Dia do Se- sua origem "bíblica".
188
nhor], na qual aborda a questão da crise dominical. Ele lamenta que a Bento XVI expõe essa crença com surpreendente clareza mais 189
"baixíssima" frequência à missa aos domingos seja um indício de que adiante na mesma carta pastoral encaminhada ao cardeal Francis Arin-
"a té está fraca" e "diminuindo".2 E prediz que, se a tendência não for ze: "O domingo não foi escolhido pela comunidade cristã, mas pelos
revertida, pode ameaçar o futuro da Igreja Católica no terceiro milénio. apóstolos, aliás, pelo próprio Cristo, que, naquele dia,'o primeiro dia
"O dia do Senhor", afirma ele, "estruturou dois milénios da história da da semana', ressuscitou e apareceu aos discípulos (cf. Mt 28:1; Mc
igreja. Como poderíamos imaginar que ele deixa de moldar o futuro?"3 16:9; Lc 24:1; Jo 20: l,19; At 20:7; ICo 16:2), renovando a aparição
Bento XVI manifesta a mesma preocupação em suas homilias e 'oito dias depois' (Jo 20:26)." Mas será que Cristo santificou o domin-
cartas pastorais. Por ocasião do 43° aniversário da promulgação da go ao ressuscitar naquele dia? Essa importante questão será examinada
Constituição do Concílio Vaticano II sobre a sagrada liturgia, chama- liais adiante na terceira parte deste capítulo.
da Sacrosanctum Concilium, esse pontífice escreveu uma carta pastoral João Paulo II expressa a mesma convicção em sua carta pasto-
endereçada ao cardeal Francis Arinze, prefeito da Congregação para o ral Dies Domini, garantindo que a solução para a crise na guarda do
Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Nela ele afirma: "Paia domingo consiste em recuperar os fundamentos "bíblicos" da guarda
os primeiros cristãos, a participação nas celebrações dominicais cons- do domingo a fim de que se conserve a santidade desse dia. Hoje,
tituía sua expressão natural de pertencer a Cristo, da comunhão no Segundo ele, é "mais necessário do que nunca recuperar as r"-cíui'cia5

Seu corpo místico e da alegre expectativa do Seu retorno glorioso. 'Motivações doutrinais que estão na ba^e do preceito cciesial, para aue
Esse pertencer foi expresso heroicamente no que aconteceu aos már- pareça bem claro a tcdo< os fieis o valor imprescindível do domingo
tires de Abitene, que enfrentaram a morte, exclamando: 'Sine dointnic° "ávida cristã.""
non possiimiis', ou seja, não podemos viver sem nos reunirmos in° crença de que os fundamentos doutrinários da guarda do do-
a o nu se encontram em sua suposta origem "bíblica" fez com que
CRENÇAS POPULARES . .A SANTIDADE DO DOMINGO,

grande número de eruditos católicos e protestantes reexaminasse a 4. Reuniões no Primeiro Dia da Semana e a Origem do Domingo
origem do domingo, na esperança de provar sua origem, autoridade e S.Jerusalém e a Origem do Domingo
experiência bíblica.' 6. Roma e a Origem do Domingo
A principal questão abordada em recentes teses de doutorado, li- 7. A Adoração do Sol e a Origem do Domingo
vros e artigos é a relação entre o sábado e o domingo. Dito de tor-
Parte 1
ma simples, o que se procura saber é: o domingo se iniciou corno
A RELAÇÃO TEOLÓGICA ENTRE O SÁBADO E O DOMINGO
continuação do sábado, herdando assim a santidade sabática? Ou o
domingo surgiu como uma nova instituição, radicalmente diferente Existem atualmente duas principais teorias sobre a origem históri-
do sábado, estabelecida pela igreja para comemorar a ressurreição de ca do domingo e sua relação com o sábado bíblico. A concepção mais
Cristo mediante a celebração da ceia do Senhor? antiga e tradicional, datada do início do cristianismo, percebe uma
A fim de encontrar uma resposta para essa e outras perguntas re- descontinuidade radical entre o sábado e o domingo e afirma que o
lacionadas, passei cinco anos na Pontifícia Universidade de Roma, fa- domingo não é o sábado. Os dois dias diferem em origem, significado
zendo pesquisas para minha tese de doutorado sobre a maneira como e experiência.8
se deu a mudança do sábado para o domingo no início do cristianis- A concepção mais recente, formulada pelo próprio papa João Pau-
mo. Os resultados obtidos se encontram no meu livro From Sabbath lo II em sua carta pastoral Dies Domini, sustenta que o domingo co-
to Sunday:A Histórica! Investigation of the Ríse of Sunday Observance ín meçou com a corporificação e "plena expressão" do sábado; logo, o
190
Early Christianíty [Do Sábado Para o Domingo: Uma Pesquisa Histó- dia deve ser guardado como um imperativo bíblico, com raízes no 191
rica Sobre o Surgimento da Guarda do Domingo no Início do Cris- próprio mandamento do sábado.9
tianismo], publicado em 1977 pela gráfica da Pontifícia Universidade
Gregoriana. Este capítulo representa um breve resumo dos pontos Concepção tradicional: o domingo
foi instituído pela Igreja Católica
altos dessa tese.
Segundo o ponto de vista tradicional, adotado pela Igreja Católica
Objetivos deste capítulo e aceito pelas denominações protestantes que seguem a tradição lute-
O presente capítulo examina a crença popular da santidade do rana, o sábado foi uma instituição mosaica temporária dada aos judeus
domingo a partir de uma perspectiva bíblica e histórica. Daremos e abolida por Cristo, e, portanto, não mais em vigor para a cristandade
atenção aos principais argumentos bíblicos e históricos usados co- atual. Os cristãos adotaram a guarda do domingo não como uma con-
mumente para defender a origem apostólica da guarda do domingo. tinuação do sábado bíblico, mas como uma nova instituição estabele-
O capítulo se divide em seis partes, de acordo com o plano de traba- cida pela igreja para comemorar a ressurreição de Cristo mediante a
lho de minha tese From Sabbath to Sunday. Isso significa que cada parte celebração da santa ceia.
deste capítulo representa um resumo de toda a discussão encontrada em Teólogos e historiadores católicos consideram essa explicação um
cada capítulo do trabalho académico. São estas as sete partes do capítulo: fato consumado. Tomás de Aquino, por exemplo, fez uma declaração
^equívoca: "Na Nova Lei. a ^guarda do dia do Senhor tomou o lu<*ar ÍD

l . A Relação Teológica Entre Sábado c Domingo da guarda do sábado, não por virtude do preceito [o mandamento do
2. Jesus e a Origem do Domingo sábado], mas pela instituição da igreja e o costume do povo cristão."10
3. A Ressurreição e a Origem do Domingo Na tese que apresentou na Catholic University of America, Vin-
CRENÇAS POPULARES T A SANTIDADE DO DOMINGO

cent J. Kelly afirma em tom semelhante: "Alguns teólogos defendem darnento divino. Além disso, ao fundamentar a guarda do domingo
que Deus determinou diretamente o domingo como o dia de culto no mandamento do sábado, o papa fornece as mais vigorosas razões
da Nova Lei, que Ele próprio substituiu de maneira explícita o sába- morais para instar os cristãos a assegurar que "a legislação civil tenha
do pelo domingo. Mas essa teoria foi cornpletamente abandonada em conta o seu dever de santificar o domingo". 14
Defende-se agora de maneira geral que Deus simplesmente deu à Sua As tentativas feitas pelo papa e por outros líderes eclesiásticos de
igreja o poder para separar que dia ou dias lhe parecessem adequados fundamentar a guarda do domingo no mandamento do sábado rea-
como dias santos. A igreja escolheu o domingo, o primeiro dia da cende uma importante questão:"Se espera-se que os cristãos guardem
semana; e, no decorrer do tempo, acrescentou outros dias como dias o domingo como o sábado bíblico, por que não observar logo o sába-
santos."11 do?" O que havia de errado com o sábado bíblico, para que precisasse
Até mesmo o novo Catecismo da Igreja Católica (1994) enfatiza a des- ser alterado para o domingo? Aplicar o mandamento do sábado à
conrinuidade entre a guarda do sábado e do domingo: "O domingo se guarda do primeiro dia da semana, o domingo, pode ser desconcer-
distingue expressamente do sábado, ao qual sucede cronologicamente a tante, para dizer o mínimo, porque o quarto mandamento prescreve
cada semana; para os cristãos, sua observância espiritual substitui aquela do a santificação do sétimo dia da semana, e não do primeiro dia. Essa
sábado."12 confusão talvez explique o motivo por que muitos cristãos não levam
a sério a guarda do domingo.
Concepções recentes: o domingo é a
192 João Paulo II discorre eloquentemente sobre o desenvolvimento
continuação e "plena expressão" do sábado
teológico do sábado desde o repouso da criação (Gn 2:1-3; Ex 20:8- 193
Recentemente, estudiosos católicos e protestantes passaram a argu- 11) até o repouso da redenção (Dt 5:12-15). Ele ressalta que no Anti-
mentar que a guarda do domingo teve origem apostólica. De acordo go Testamento o mandamento do sábado está associado "não só com
com esses estudiosos, foram os próprios apóstolos que, nos primórdios o misterioso 'repouso' de Deus depois dos dias da atividade criadora
do cristianismo, escolheram o primeiro dia da semana como o novo (cf. Ex 20:8-11), mas também com a salvação oferecida por Ele a Isra-
sábado cristão para comemorar a ressurreição de Cristo. el na libertação da escravidão do Egito (cf. Dt 5:12-15). O Deus que des-
O papa João Paulo II defende detalhadamente esse ponto de vista cansa ao sétimo dia comprazendo-Se pela Sua criação é o mesmo que
em sua carta pastoral Dies Domini, promulgada em 31 de maio de mostra a Sua glória ao libertar os Seus filhos da opressão do faraó."15
1998. Nesse extenso documento (mais de 40 páginas), o papa faz ape- Por se tratar de um memorial da criação e redenção, "o 'sábado'
lo veemente por uma revitalização na guarda do domingo com base tem sido assim interpretado evocativamente como um elemento de-
no imperativo moral do mandamento do sábado. Para o sumo pontí- terminante naquele tipo de 'arquitetura sagrada' do tempo que carac-
tice, o domingo deve ser guardado não apenas como uma instituição teriza a revelação bíblica. Ele nos lembra que o Universo e a história
criada pela Igreja Católica, mas sobretudo como um imperativo moral pertencem a Deus, e o homem não pode servir no mundo como
do decálogo. A razão é que o domingo se originou supostamente colaborador do Criador se não levar a sério essa verdade constante-
como corporiricação e "plena expressão"' do sábado; devendo, portan- mente". 1 "
to, ser guardado como o sábado bíblico. 1 ''
João Paulo II se desvia da tradicional posição católica presumivel- Domingo como a corporificacão do sábado
mente porque deseja desafiar os cristãos a respeitar o domingo não Diante dessas protundas introspecções teológicas sobre o sábado
apenas como uma instituição da Igreja Católica, mas como um man- como uma espécie de "arquitetura sagrada ' do tempo, que marca o
CRENÇAS POPULARES. A SANT|DADE DO DOMINGO

desdobramento da atividade criadora e redentora de Deus, e corno riva de uma interação de fatores sociais, políticos, pagãos e religiosos.
a expressão definidora de nosso relacionamento com Deus, alguém Analisei esses fatores na minha tese From Sabbath to Sitnday.A. falta de
pode perguntar como o papa consegue desenvolver uma justificati- autoridade bíblica para a guarda do domingo talvez seja, na verdade, o
va teológica para a guarda do domingo. Ele faz isso apelando para o principal fator contribuinte para a crise dominical que João Paulo II
domingo como corporificação e plena expressão do sábado bíblico. justificadamente lastima.
Sem hesitar, João Paulo II aplica ao domingo a bênção e a santifica- A grande maioria dos cristãos, principalmente os do mundo oci-
ção que Deus destinara ao sábado na criação. "O domingo é o dia de dental, vê o domingo mais como um feriado favorável à busca de
descanso porque é o dia 'abençoado' por Deus e por Ele 'santificado', prazer e lucro pessoal do que como um dia santo destinado à busca da
isto é, colocado à parte dos demais dias para ser, entre eles, o 'dia do paz e da presença divina. A meu ver, o principal fator da secularização
Senhor'."17 do domingo é a prevalecente percepção de que não existe ordem
O mais importante é que o papa faz do domingo a "plena expres- bíblica para guardar o domingo como dia santo.
são" do sábado, argumentando que o domingo, na condição de dia A falta de convicção bíblica de que o domingo deva ser guardado
do Senhor, preenche as funções criativas e redentivas do sábado. Essas como o santo sábado talvez explique por que muitos cristãos não
duas funções, alega o papa, "revelam o sentido do 'dia do Senhor' no vêem nada de errado em dedicar suas horas dominicais a si mesmos,
âmbito de uma perspectiva unitária de teologia da criação e da sal- em vez de dedicá-las ao Senhor. Se houvesse uma forte convicção
vação".18 teológica de que o princípio da guarda do domingo foi estabelecido
194
O papa defende que os cristãos do Novo Testamento "assumiram por Deus na criação e depois "inscrito" no Decálogo, como o papa Vn';"
como festivo o primeiro dia depois do sábado" porque descobriram tenta provar, os cristãos se sentiriam compelidos a agir nessa confor-
que as realizações criativas e redentivas celebradas pelo sábado en- midade.
contraram "na morte e ressurreição de Cristo o seu cumprimento,
embora esse tenha a sua expressão definitiva apenas na parousia, com o Diferença em significado
retorno glorioso de Cristo".19 João Paulo II reconhece a necessidade de tornar a guarda do
A tentativa do papa de fazer do domingo a "extensão e expressão domingo um imperativo moral e procura fazer isso encontrando as
plena" do significado criativo e redentivo do sábado é algo muito ha- raízes do domingo no próprio mandamento do sábado. Mas isso é
bilidoso, mas carece de apoio bíblico e histórico. O Novo Testamento impossível, pois o domingo não é o sábado. Os dois dias encerram
não oferece nenhuma indicação de que os cristãos tenham interpre- significados e funções diferentes. Enquanto na Bíblia o sábado come-
tado o domingo como a corporificação do significado criativo e re- mora a perfeita criação de Deus, a redenção completa e a restauração
dentivo do sábado. De uma perspectiva bíblica e histórica, o domingo final, a mais antiga literatura patrística justifica o domingo como a
não é o sábado porque os dois dias diferem em autoridade, significado comemoração da criação da luz no primeiro dia da semana, símbolo
e experiência. cósmico-escatológico do novo mundo eterno tipificado pelo oitavo
dia, e como memorial da ressurreição de Cristo no domingo.:o
Diferença em autoridade
Nenhum dos significados históricos atribuídos ao domingo exige
A diferença em autoridade reside no fato de que, enquanto a santi- a prática de repouso ou adoração ao Senhor nesse dia. A Bíblia, por
ficação do sábado depende de um mandamento bíblico explícito (Gn exemplo, não sugere em parte alguma que a criação da luz no primei-
2:2, 3; Êx 20:8-11; Mc 2:27, 28; Hb 4:9). a guarda do domingo de- ro dia deva ser comemorada por meio de descanso e culto dominical
CRENÇAS POPULARES

semanal. Até mesmo o evento da ressurreição, conforme veremos, não prir o ritual na igreja, eles se dirigem sem dor na consciência para o
requer uma celebração dominical semanal ou anual. mercado, o jogo de bola, o salão de baile, o teatro, etc. Fiquei surpreso
A tentativa de transferir para o domingo a autoridade e o signi- ao descobrir que, mesmo nas regiões mais conservadoras do protes-
ficado bíblico do sábado está fadada ao fracasso, porque é impossível tantismo nos Estados Unidos, lojas eram abertas para o comércio logo
conservar a mesma autoridade, significado e experiência quando se que terminavam as cerimónias religiosas. A mensagem é clara: o res-
modifica a data de uma festa religiosa. Se uma pessoa ou organização, tante do domingo é para negócio, como de costume.
por exemplo, conseguisse mudar a data da Declaração da Indepen-
dência dos Estados Unidos de 4 de julho para 5 de setembro, dificil- Hora dominical de culto versus dia de descanso e adoração
mente se consideraria a nova data uma comemoração legítima do Dia O reconhecimento dessa realidade histórica levou o ilustre litur-
da Independência. gista católico Christopher Kiesling a propor em seu livro The Future of
Assim também, se a festividade do sábado é alterada do sétimo the Christian Sunday [O Futuro do Domingo Cristão] que se abando-
para o primeiro dia da semana, é quase impossível que o primeiro ne o conceito de domingo como dia de repouso a favor do conceito
dia consiga ser um memorial dos atos divinos de criação, redenção e de domingo como hora de culto. Seu raciocínio é que, se o domingo
restauração, que no passado foram associados à tipologia do sábado. nunca foi no passado um dia de total descanso e adoração, não há es-
Dar ao domingo o significado e a função teológica do sábado signifi- perança de torná-lo assim na atualidade, quando o que a maioria das
ca adulterar uma instituição divina, tornando santo um dia que Deus pessoas quer são feriados, e não dias santos.
196
criou para ser um dia comum de trabalho. Em contrapartida, celebrar o sábado significa não apenas assis- 197
tir a cultos religiosos, mas consagrar as 24 horas do dia ao Senhor.
Diferença em experiência O mandamento do sábado não diz: "Lembra-te do dia de sábado, para
A diferença entre o sábado e o domingo é também em experiência. o santificar frequentando as reuniões da igreja." O que o mandamento
Enquanto a guarda do domingo se inicia e mantém em grande parte requer é trabalhar seis dias e descansar no sétimo dia para o Senhor
como uni período de uma hora de culto, a santificação do sábado é (Ex 20:8-10). Isso significa que a essência da santificação do sábado
apresentada nas Escrituras como um período de 24 horas consagradas é a consagração do tempo. O ato de descansar para o Senhor (orna sabáticas
a Deus. Apesar dos esforços feitos por Constantino, pelos concílios da todas as atividades, sejam elas adoração formal ou companheirismo informal
igreja e pelos puritanos para fazer do domingo um dia inteiro de repou- e recreação, um ato de adoração, porque todas elas partem de um coração que
so e adoração, a realidade histórica é que guardar o domingo é sinóni- decidiu honrar a Deus.
mo de apenas frequentar a igreja nesse dia. João Paulo II reconhece essa O ato de descansar no sábado para o Senhor se torna o meio pelo
realidade histórica no capítulo 3 de sua carta pastoral, intitulado "O Dia qual os crentes entram no repouso de Deus (Hb 4:10), vivenciando da
da Igreja", seguido pelo subtítulo "A Assembleia Eucarística: O Cora- maneira mais plena e espontânea possível a percepção da presença,
ção do Domingo". O tema principal do capítulo é que o coração da da paz e do repouso de Deus. Essa experiência singular proporcionada
guarda do domingo é a participação na missa. Ele cita como exemplo pela santificação do sábado é bem diferente da guarda do domingo, visto
o novo Catecismo da Igreja Católica, que afirma: "A celebração dominical que a essência do feriado dominical não é a consagração do tempo, mas
do dia e da eucaristia do Senhor está no coração da vida da igreja."21 o comparecimento à igreja, sobretudo para tomar parte na eucaristia.
Para a maioria dos cristãos, o término da missa ou do culto domi- A luz do exposto, concluímos que a tentativa do papa de fazer
nical assinala também o término da guarda do domingo. Após curn- do domingo a corponficação Teológica e existencial do sábado está
CRENÇAS POPULARES

fadada ao fracasso porque os dois dias diferem radicalmente em auto- A intenção dos ensinos e atividades de Cristo no sábado não era
ridade, significado e experiência. preparar o terreno para o abandono do sábado e a adoção da guar-
da do domingo, mas, sim, mostrar o verdadeiro significado e função
Parte 2 do sábado, a saber, um dia para "fazer o bem" (Mt 12:12), "salvar a
JESUS E A ORIGEM DO DOMINGO vida" (Mc 3:4), libertar as pessoas de cativeiros físicos e espirituais (Lc
Um ponto de vista popular recentemente defendido por vários 13:16) e revelar mais "misericórdia" do que religiosidade (Mt 12:7).
estudiosos é o de que Cristo preparou o terreno para o abandono Ao chamar a atenção para essas funções vitais do sábado, Cristo
do sábado e a adoção da guarda do domingo em seu lugar por Suas provou que o "sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o
reivindicações messiânicas e Seu método provocativo de observar o homem por causa do sábado" (Mc 2:27). A forma como nosso Senhor
sábado, o que causou não pouca controvérsia com os líderes religiosos escolheu as palavras desse texto é cheia de significado. O verbo "fazer"
de Seu tempo. (ginomai) faz referência à "criação" original do sábado, enquanto a pala-
Um exemplo notável desse ponto de vista é o simpósio From vra "homem" (anthropos) sugere a função humana desse dia. E assim que,
Sabbath to th e Lord's Day [Do Sábado Para o Dia do Senhor] (1982), para estabelecer o valor humano e universal do sábado, Cristo retrocede
idealizado por sete pesquisadores norte-americanos e britânicos e à própria origem da instituição, logo após a criação do homem. Por
patrocinado pelaTyndale Fellowship for Biblical Research em Cam- quê? Porque, para o Senhor, a lei do princípio continua suprema.
bridge, Inglaterra. Considera-se esse simpósio a defesa mais compe- Apenas essa memorável e solene declaração é suficiente para re-
" ' = : ' tente da guarda do domingo em nosso tempo. Os autores sustentam futar a alegação, de que Cristo preparou o terreno para o abandono 199
que Cristo transcendeu a lei do sábado por meio de Suas reivindica- do sábado e a adoção do domingo; pois foi aí que Ele estabeleceu a
ções messiânicas. Ele agiu contra as tradições sabáticas prevalecentes validade permanente do sábado, apelando para a sua criação no prin-
a fim de conceder a Seus seguidores a liberdade de reinterpretar o cípio, quando Deus determinou que o sétimo dia funcionasse tendo
sábado e escolher um novo dia de culto que melhor expressasse sua em vista o bem-estar da humanidade.
nova fé cristã.
O problema fundamental dessa concepção é que interpreta de ma-
O sábado e o Salvador em Lucas
neira distorcida a intenção das atividades e dos ensinos "polémicos" Para compreender mais perfeitamente a relação entre o Salvador e
de Cristo relacionados ao sábado, que tinham o claro objetivo não de o sábado, é necessário estudar o material sobre o sábado encontrado
anular, mas de esclarecer o propósito divino do quarto mandamento. nos Evangelhos e em Hebreus. Uma vez que isso não é possível den-
Cristo agiu deliberadamente contra as falsas concepções prevalecentes tro do limitado espaço deste capítulo, dirigiremos brevemente nossa
a respeito do sábado não para pôr um fim à sua prática, mas para res- atenção apenas para o sábado em Lucas e em Hebreus. O estudo com-
taurar o propósito que Deus tinha em vista para esse dia. pleto se encontra no capítulo "O Salvador e o Sábado" do meu livro
Convém relembrar que, toda vez que foi acusado de violar o sába- The Sabbath under Crossfire [O Sábado Sob Fogo Cruzado].
do, Cristo refutou a acusação apelando para as Escrituras: "Não lestes Lucas abre seu relato a respeito do ministério de Cristo descre-
[...]" (Mt 12:3-5). Cristo nunca admitiu haver quebrado o manda- vendo-O como um guardador habitual do sábado: "No dia de sábado
mento do sábado. Ao contrário, tomava a defesa de Si mesmo e de Ele entrou na sinagoga como era Seu costume" (Lc 4:16, NIV). Ao
Seus discípulos contra a acusação de violação do sábado apelando para que parece, a intenção de Lucas era apresentar Cristo a seus leitores
as Escrituras. como uni modelo de observância sabática porque ele se refere ao
CRENÇAS POPULARES A SANTIDADE DO DOMINGO

costume de Cristo de guardar o sábado no contexto imediato de Sua 4:9). E por acreditar em Jesus Cristo que o povo de Deus pode, por
formação em Nazaré (''onde havia sido criado", verso 16). Isso sugere fim, vivenciar ("entrar", Hb 4:3, 10, 11) as "boas-novas" do descanso
que a referência que se faz é especificamente ao costume de Cristo de prometido por Deus no "sétimo dia" da criação (Hb 4:4).
santificar o sábado durante a juventude.
A palavra "sábado" ocorre 21 vezes no Evangelho de Lucas e oito Obsoleto ou em vigência?
vezes em Atos, 22 uma frequência duas vezes maior do que em qual- Ensina o livro de Hebreus que o sábado, assim como o templo
quer outro dos três Evangelhos. Sem dúvida, é uma indicação de que e suas cerimónias, perdeu sua função com a vinda de Cristo? Ou o
Lucas considera o sábado importante. Na verdade, Lucas não só inicia, sábado adquire novo significado e função com o primeiro advento?
mas também encerra o relato do ministério terreno de Cristo em um Vejamos agora o que Hebreus tem a dizer sobre isso.
dia de sábado, ao mencionar que o Salvador foi sepultado no "dia da Não há dúvida de que o escritor de Hebreus ensina claramente
preparação, e começava o sábado" (Lc 23:54). Diversos pesquisadores que a vinda de Cristo provocou uma decisiva descontinuidade com o
reconhecem nesse texto a preocupação de Lucas em mostrar que a sistema sacrificai da Antiga Aliança. Os capítulos 7 a 10 explicam com
comunidade cristã observava o sábado.23 minúcias como o sacrifício expiatório de Cristo e Seu subsequente
Por último, Lucas amplia seu breve relato do sepultamento de Cris- ministério celestial substituíram completamente a função tipológica
to declarando enfaticamente que as mulheres "descansaram no sába- ("figura e sombra", Hb 8:5) do sacerdócio levítico e do templo. Essas
do, em obediência ao mandamento" (Lc 23:56, NVI). Por que Lu- cerimónias, Cristo as "aboliu" (Hb 10:9). E por isso que elas ficaram
200
cas apresenta não só a Cristo, mas também os seguidores dEle como "antiquadas" e "prestes a desaparecer" (Hb 8:13). Mas será que o au- 201
observadores habituais do sábado? A resposta é que a intenção de tor de Hebreus coloca o sábado na mesma categoria, considerando-o
Lucas era apresentar Cristo a seus leitores como "um modelo de re- uma das instituições obsoletas da Antiga Aliança? Essa é de fato a con-
verência ao sábado".24 Um modelo assim desacredita a alegação clusão a que chegam pessoas como Bento XVI, ávidas por encontrar
de Bento XVI de que "o domingo não foi escolhido pela comunidade a origem do domingo no próprio Cristo. Mas um estudo cuidadoso
cristã, mas pelos apóstolos, aliás, pelo próprio Cristo". desse texto prova o contrário.
O texto apresenta de forma explícita e enfática o sabbatismos (o
O sábado em Hebreus
repouso do sábado) não como algo "antiquado" como o templo e seus
A discussão sobre o sábado em Hebreus é crucial para o nosso es- rituais, mas como um benefício divino que ainda "resta" (Hb 4:9). O
tudo porque mostra como a igreja do Novo Testamento compreendia verbo "restar" (apoloeipetai) está no tempo presente, o que traduzido
e vivenciava o sábado. O autor de Hebreus estabelece a relação entre literalmente significa "tem sido deixado". Assim, numa tradução lite-
o sábado e o Salvador associando Génesis 2:2 com o Salmo 95:11. Por ral, Hebreus 4:9 diz o seguinte: "Portanto, deixou-se unia guarda do
meio desses dois textos, o escritor de Hebreus explica que o descanso sábado para o povo de Deus."
do sábado concedido na criação (Hb 4:4) não se esgotou quando os O professor Andrew Lincoln, um dos colaboradores do simpósio
israelitas, sob a liderança de Josué, encontraram um lugar de descanso académico From Sabbath to the Lord's Day, provou que o termo sabba-
em Canaã, haja vista que Deus tornou a oterecer Seu descanso "muito tismos era usado tanto por pagãos como por cristãos como um termo
tempo depois" por meio de Davi (Hb 4:7; cf. SI 95:7, 8). técnico para a guarda do saoado. O termo é encontrado nos escritos de
Como resultado, o descanso sabático prometido por Deus ainda Plutarco. justino. Epitànio, as Constituições Apostólicas e o Martírio
aguardava sua plena realização elucidada com a vinda de Cristo (Hb ! de Pedro e de Paulo.2-"' Lincoln constatou que. eni cada um dos exemplos

i
CRENÇAS POPULARES. A SANTIDADE DO DOMINGO

acima, o termo designa a guarda ou celebração do sábado. A acepção da realidade de Cristo nega qualquer tentativa de fazer do domingo
corresponde à forma como a Septuagiiita emprega o verbo cognato a continuação do sábado, santificando-o como se fosse o sétimo dia.
sabbatizo (cf. Êx 16:23; Lv 23:32; 26:34b; 2Cr 36:21), que também se
Parte 3
refere à observância do sábado. Sendo assim, o escritor de Hebreus
A RESSURREIÇÃO E A ORIGEM DO DOMINGO
está dizendo que, desde o ternpo de Josué, existe a prática do repouso
sabático."26 O argumento mais popular usado para defender a origem apos-
O fato de "restar", de acordo com Hebreus 4:9, uma observância tólica do domingo é a ressurreição de Cristo e Suas aparições no
do sábado para os fiéis em Cristo desacredita de modo constrangedor primeiro dia da semana. Em vista de sua popularidade e importância,
a alegação de Bento XVI de que os primeiros cristãos mostravam que deve-se dar cuidadosa consideração a esse argumento.
pertenciam a Cristo celebrando o domingo. Em sua carta pastoral Dies Domini, João Paulo II afirma que os
primeiros cristãos "assumiram como festivo o primeiro dia depois do
O significado do repouso sabático sábado, porque nele se deu a ressurreição do Senhor".2S Ele argumenta
Estaria o autor de Hebreus apenas incentivando seus leitores a in- que, embora o domingo tenha suas raízes no significado criativo e re-
terromper suas atividades seculares no sábado? Levando-se em conta dentivo do sábado, o dia encontra sua plena expressão na ressurreição
a preocupação do escritor em contrariar a tendência de seus leitores de Cristo. "Embora o 'dia do Senhor' tenha suas raízes, como se disse,
em adotar costumes litúrgicos judaicos como meio de obter acesso na mesma obra da criação, e mais diretamente no mistério do 'repouso'
202
a Deus. ele dificilmente teria enfatizado apenas o aspecto físico da bíblico [sábado] -de Deus, é preciso fazer referência especificamente à 203
"cessação" da observância do sábado. Esse aspecto admite apenas uma ressurreição de Cristo para se alcançar o pleno sentido daquele."29
ideia negativa de descanso, um descanso que só serviria para estimu-
Importância vital atribuída à ressurreição
lar tendências judaizantes existentes. É óbvio, portanto, que o autor
atribui ao descanso do sábado um significado mais profundo. Pode-se Muitos estudiosos sustentam que a ressurreição bem como as apa-
perceber esse significado mais profundo na antítese que o escritor rições de Cristo no primeiro dia da semana constituem a justificativa
estabelece entre os que não conseguiram entrar no descanso de Deus bíblica fundamental para a origem da guarda do domingo.30 Já que
por causa da incredulidade (apeitheias, 4:6,11) - ou seja, falta de fé que João Paulo II oferece um breve sumário do presente argumento, vou
resulta em desobediência — e os que entram nesse descanso pela "fé" responder primeiramente aos seus comentários.
(pistei, 4:2, 3), isto é, fidelidade que resulta em obediência. Em sua carta pastoral, João Paulo II escreve: "Segundo o unânime
Para o autor de Hebreus, o ato de repousar no sábado não é apenas testemunho evangélico, a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos
um ritual rotineiro (cf. "sacrifício", Mt 12:7), mas, sim, uma respos- aconteceu no 'primeiro dia depois do sábado' (Mc 16:2, 9; Lc 24:l;Jo
ta de fé a Deus. Uma resposta assim envolve inevitavelmente não o 20:1). Naquele mesmo dia, o Ressuscitado manifestou-Se aos dois dis-
endurecimento do coração (4:7), mas a disposição para "ouvir a Sua cípulos de Emaús (cf. Lc 24:13-35) e apareceu aos onze apóstolos que
voz" (4:7). Isso significa vivenciar o repouso da salvação de Deus não estavam reunidos (cf. Lc 24:36; Jo 20:19). Passados oito dias - como
por obras, mas pela fé; não pelo fazer, mas por ser salvo pela fé (4:2, testemunha o Evangelho de João (cf. 20:26) -, os discípulos estavam
3, 11). No sábado, corno João Calvino expressa apropriadamente, os novamente reunidos quando Jesus apareceu e Se apresentou a Tomé,
crentes devem "parar de trabalhar a fim de permitir que Deus trabalhe mostrando os sinais da Sua paixão. Era domingo, o dia de Pentecos-
neles''. r Essa interpretação ampliada da santificação do sábado à luz tes, primeiro dia da oitava semana após a páscoa judaica (cf. At 2:1),
CRENÇASfOPU LARES ^ASjAtfnDADEDODOJíAINC^

quando, com a efusão do Espírito Santo, se cumpriu a promessa feita dia específico da semana em que ocorreu."36 Portanto, "dizer que
por Jesus aos apóstolos depois da ressurreição (cf. Lc 24:49; At 1:4, 5) o domingo era observado porque Jesus ressuscitou naquele dia",
Aquele foi o dia do primeiro anúncio e dos primeiros batismos: Pedro conforme declara S. V. McCasland, "é realmente um petitio prindpii
proclamou à multidão reunida que Cristo tinha ressuscitado e 'os que [petição de princípio], pois uma celebração dessa natureza pode ser
aceitaram a sua palavra receberam o batismo' (At 2:41). Foi a epifania comemorada mensalmente ou anualmente e, ainda assim, continuar
da igreja, manifestada como povo que congrega na unidade, indepen- sendo a observância de um dia específico".' 7
dentemente de toda a variedade, os filhos de Deus dispersos."31 Permitam-me mencionar brevemente sete argumentos principais
Muitos estudiosos católicos e protestantes concordam com João que desacreditam o suposto papel da ressurreição de Cristo na adoção
Paulo II que a ressurreição e as aparições de Cristo no primeiro dia da guarda do domingo.
da semana constituem a razão fundamental para a escolha do domin-
go por parte da igreja apostólica. Em sua tese de doutorado sobre a 1. Nenhuma ordem de Cristo nem dos apóstolos
origem do domingo, Corrado Mosna, estudante jesuíta da Pontifícia Nem Cristo nem qualquer dos apóstolos emitiram alguma ordem
Universidade Gregoriana, que trabalhou sob a direção de Vincenzo para uma celebração semanal ou anual da ressurreição de Jesus.Temos
Monachino (o mesmo professor que orientou minha tese), conclui: no Novo Testamento ordenanças concernentes ao batismo (Mt 28:19,
"Podemos concluir, portanto, com toda a certeza, que foi o evento da 20), à ceia do Senhor (Mc 14:24, 25; ICo 11:23-26) e ao lava-pés
ressurreição que determinou a escolha do domingo como o dia de (Jo 13:14, 15), mas não encontramos nenhuma ordem nem mesmo
204
adoração da primeira comunidade cristã."32 sugestão para comemorar a ressurreição de Cristo em um domingo "^f"
O cardeal Jean Daniélou expressa a mesma opinião: "O dia do Se- semanal ou num domingo de Páscoa anual.
nhor é uma instituição genuinamente cristã; sua origem se encontra
unicamente na realidade da ressurreição de Cristo no dia depois do 2. Cristo não instituiu um memorial para Sua ressurreição
sábado."33 Em um tom semelhante, escreve o pesquisador protestante Se Jesus quisesse memorializar o dia de Sua ressurreição, o tempo
Paul Jewett: "O que, poderá alguém perguntar, motivou especifica- ideal para instituir esse memorial teria sido no próprio dia em que Se er-
mente a primitiva igreja judaica a instituir o domingo como um dia gueu da tumba. Importantes instituições divinas como o sábado, o batis-
regular de culto? Como já vimos, deve ter tido algo que ver com a mo, a ceia do Senhor, todas remontam sua origem a um ato divino que
ressurreição, que, de acordo com o testemunho uniforme dos Evan- lhes assinalou o início. Mas, no dia em que ressuscitou, Cristo não reali-
gelhos, ocorreu no primeiro dia da semana."34 zou nenhum ato para estabelecer um memorial da Sua ressurreição. Ele
A despeito de sua popularidade, o suposto papel da ressurreição não disse às mulheres e aos discípulos: "Vinde à parte e comemoremos
na adoção da guarda do domingo carece de apoio tanto bíblico Minha ressurreição." Em vez disso, recomendou às mulheres: "Ide avisar
quanto histórico. Uni estudo cuidadoso de todas as referências à a Meus irmãos que se dirijam à Gakleia" (Mt 28:10) e aos discípulos:
ressurreição revela a incomparável importância do acontecimento, J ' "Ide [...], fazei discípulos [...],batizando-os" (Mt 28:19). Nenhuma des-
mas não fornece qualquer indicação a respeito de uni dia especial sas declarações do Salvador ressurreto revela a inte™1;" •: Jv '"emcrioli/ur
para comemorá-lo. Sua ressurreição fazendo do domingo o novo dia de descanso e culto.
Karold Riesenfeld observa: "Nos relatos da ressurreição nos O silêncio do !\Wo Testamento sobre o assunto é bastante sinto-
Evangelhos não existem declarações ordenando que o grande acon- Tútico, visco que a maioria dos livros que o compõe foi escrita muitcs
tecimento da ressurreição de Cristo devesse ser comemorado no anos depois da morte e ressurreição de Cristo. Se foi por volta da
CRENÇAS POPULARES

segunda metade do século que o domingo passou a ser visto como o From Sabbath to Sunday, discuto de maneira mais exaustiva os fatores
memorial da ressurreição, que cumpria as funções de criação/redenção sociais, políticos e religiosos que contribuíram para a mudança do sá-
do sábado do Antigo Testamento, como alega o papa. era de se esperar bado para o domingo e da Páscoa judaica para o domingo de Páscoa
encontrar no Novo Testamento algumas alusões ao significado e ob- romano.
servância religiosa do domingo semanal e/ou do domingo de Páscoa
anual. 4.0 domingo nunca é chamado de "dia da ressurreição"
A total ausência de qualquer dessas alusões mostra que essa mu- O Novo Testamento nunca chama o domingo de "dia da ressur-
dança ocorreu no período pós-apostólico, como resultado de uma reição". Designa-o sempre como "o primeiro dia da semana". As re-
interação de fatores políticos, sociais e religiosos, fatores que analisei ferências ao domingo como dia da ressurreição só aparecem a partir
em minha tese From Sabbath to Sunday. da primeira metade do 4° século.42 Por essa época, o domingo já se
V-t havia associado com a ressurreição e, por conseguinte, era chamado
• N C.', 3. Não há domingo de Páscoa no Novo Testamento de o "dia da ressurreição". Mas essa mudança ocorreu vários séculos
A ausência do domingo de Páscoa no Novo Testamento nega a após o início do cristianismo.
alegação do papa de que a celebração da ressurreição de Cristo em
um domingo semanal ou domingo de Páscoa anual se desenvolveu 5. A ceia do senhor não foi celebrada no domingo
"desde os primeiros anos após a ressurreição do Senhor".38 E fato para honrara ressurreição de Cristo
206
conhecido que, durante pelo menos um século após a morte de Je- Em sua tese -Sunday: The History ofthe Day of Rest and Worship in
sus, a Páscoa judaica era observada não no domingo de Páscoa como the Earliest Centuries of the Christian Church [Domingo: A História
comemorativo da ressurreição, mas na data de 14 de nisã (indepen- do Dia de Repouso e Adoração nos Primeiros Séculos da Igreja
dentemente do dia da semana) como uma celebração do sofrimento, Cristã], Willy Rordorf argumenta que o domingo se tornou o dia
sacrifício expiatório e ressurreição de Cristo. do Senhor porque esse era o dia em que se celebrava a ceia do Senhor.
O repúdio da contagem bíblica da Páscoa judaica, seguido pela Apesar de aceito por muitos, esse ponto de vista carece de apoio
adoção do domingo de Páscoa, é um fenómeno pós-apostóhco, atri- bíblico e histórico.
buído, de acordo com Joachim Jeremias, "à tendência para romper Historicamente, sabemos que os cristãos não podiam celebrar a
com o judaísmo"39 e evitar, conforme explica J. B. Lightfoot, "até ceia do Senhor de forma regular domingo à noite porque tais reu-
mesmo a aparência de judaísmo".40 niões eram proibidas pela lei romana da hetariae, que declarava ilegal
A introdução e promoção do domingo de Páscoa pela igreja todos os tipos de refeições comunitárias realizadas à noite.43 O gover-
de Roma, no 2° século, provocaram a bem conhecida controvér- no romano temia que reuniões noturnas se tornassem ocasião para
sia sobre a Páscoa (Controvérsia Quartodecimana), que finalmente conspirações políticas.
levou o bispo Vitor, de Roma. a excomungar os cristãos da Ásia Para evitar as batidas da polícia romana, os cristãos estavam sempre
Menor (c. 191 d.C.) por se recusarem a adotar o domingo de Pás- mudando o tempo e o local da celebração da ceia do Senhor. Por fim,
coa romano. 41 transferiram a cerimónia da noite para a manhã.44 Isso explica por que
Indicações como essas são suficientes para mostrar que, desde os Paulo é tão específico sobre a modo de celebrar a ceia do Senhor, mas
primórdios do cristianismo, não se celebrava a ressurreição de Cristo vago quanto à questão do tempo em que ela deveria ocorrer. Nota-se
em domingo semanal nem em domingo de Páscoa anual. Na tese que por quatro vezes ele repete a mesma frase: "quando vos reunis"
CRENÇAS POPULARES. ,A SANTIDADE DO DOMINGO

(ICo 11:18, 20, 33, 34). A frase subentende tempo indefinido, pro-
Parte 4
vavelmente porque não havia dia estipulado para a celebração dessa
REUNIÕES NO PRIMEIRO
ordenança. DIA DA SEMANA E A ORIGEM DO DOMINGO
6. A ceia do senhor comemora o sacrifício Para apoiar a alegação de que o domingo é uma instituição bíblica
de Cristo e não Sua ressurreição celebrada pela igreja apostólica, apela-se comumente para os seguintes
Muitos cristãos da atualidade consideram a ceia do Senhor o cen- textos bíblicos: (1) l Coríntios 16:2, (2) Atos 20:7-12 e (3) Apocalipse
tro do culto dominical em honra à ressurreição de Cristo, mas, como 1:10. Examino essas passagens detidamente em minha tese. 47 Neste
acabamos de ver, na igreja apostólica a santa ceia não era celebrada contexto, limito-me a algumas observações básicas.
no domingo nem estava associada à ressurreição. Paulo, por exemplo,
1 Coríntios 16:2: coletas cristãs no domingo?
que alega transmitir o que 'recebeu do Senhor' (ICo 11:23), declara
explicitamente que o rito comemorava nào a ressurreição de Cristo, O plano de arrecadar fundos no primeiro dia da semana, re-
mas Seu sacrifício e a segunda vinda ("anunciais a morte do Senhor, até comendado por Paulo em l Coríntios 16:1-3, é comumente cita-
que Ele venha" [ICo 11:26]). do como prova de que os cristãos se reuniam para cultuar aos do-
mingos, durante os tempos apostólicos. João Paulo II, por exemplo,
7. A ressurreição não é a razão principal afiança que, "desde os tempos apostólicos, o domingo tem sido um
208 para a guarda do domingo nos documentos mais antigos momento de partilha fraterna com os mais pobres.'No primeiro dia 209
As referências explícitas mais antigas à guarda do domingo da semana, cada um de vós ponha de parte, em sua casa, o que tiver
se encontram nos escritos de Barnabé (c. 135 d.C.) e de Justino podido poupar' (ICo 16:2).Trata-se aqui da coleta organizada por
Mártir (c. 150 d.C.). Ambos os autores mencionam a ressurreição Paulo em favor das igrejas pobres da Judeia".48
corno um motivo para a guarda do domingo; no entanto, apenas João Paulo II considera o plano recomendado por Paulo nesse
a indicam como o segundo entre dois motivos. Assim, ela é im- texto, de arrecadar fundos no primeiro dia da semana, uma clara
portante, mas não predominante. A primeira motivação teológica indicação de que a igreja cristã se reunia para adorar naquele dia.
de Barnabé para a guarda do domingo é escatológica: o domingo Muitos eruditos católicos e protestantes concordam com esse ponto
na condição de "o oitavo dia" representaria "o começo de outro de vista. 49 Para Corrado Mosna, o fato de Paulo designar a "oferta"
mundo". 45 A primeira razão de Justino para os cristãos se reunirem em 2 Coríntios 9:12 como "serviço" (leiturgia) "mostra que a coleta
no domingo é a inauguração da criação: "porque ele é o primeiro [de l Coríntios 16:2] estava associada ao culto de adoração domini-
dia no qual Deus, transformando as trevas e a matéria prima, criou cal da reunião cristã".-11
o mundo". 4 " As diversas tentativas de ir além do que e^' _,• n te avelam inven-
As sete razões apresentadas acima bastam para desacreditar a alega- tividade e originalidade, mas se fi-i.' •-^ntam em argumentos base-
ção de que a ressurreição de Cristo no primeiro dia da semana provo- ados na interpreta^-:*' e não na informação real fornecida pelo texto.
cou o abandono do sábado e a adoção do domingo. A verdade é que, Observe, acima de tudo. que nada nos textos sugere reuniões publicas,
inicialmente, se celebrava a ressurreição de fornia mais existencial do visto que a coleta devia ser feita "em casa" (par'hfauto). A expressão dá
que litúraica, isto é, mais por representar unia vida cristã vitoriosa do que a entender que a captação de recursos devia ser teita individualmente
por ser uni dia especial de adoração. e em oarticuiar.
CRENÇAS POPULARES
.ASANTIDADE DO DOMINGO

Se a comunidade cristã estivesse se reunindo aos domingos, parece


paradoxal que Paulo recomendasse que cada um pusesse de parte, em Atos 20:7-11: encontro em Trôade no primeiro dia da semana
casa, as ofertas. Por que os cristãos deveriam depositar suas ofertas Atribui-se fundamental importância a Atos 20:7-11 porque con-
em casa no domingo, se nesse dia se reuniam para o culto? Será que tém a única referência explícita do Novo Testamento a uma reunião
não se devia levar dinheiro ao culto dominical? cristã realizada "no primeiro dia da semana [...] com o fim de partir
o pão" (At 20:7).João Paulo II supõe que o encontro consistiu numa
Propósito do plano de arrecadação de fundos
reunião dominical costumeira "em que os fiéis de Trôade estavam
Paulo diz claramente qual era o propósito do plano de arrecada- reunidos 'para partir o pão' [isto é, a celebração eucarística]". 51
ção de tundos no primeiro dia da semana: "para que se não façam Numerosos pesquisadores compartilham do ponto de vista do papa.
coletas quando eu for" (lCo 16:2). Portanto, o plano é proposto F. F. Bruce, por exemplo, insiste que essa declaração "é a prova inequí-
não para incentivar o culto de domingo com as ofertas coletadas, mas voca mais antiga da prática cristã de se reunir para adorar nesse dia".52
para garantir uma coleta substancial e eficiente quando da chegada Paul Jewett declara de forma semelhante que "temos aqui o mais antigo
do apóstolo. A oferta devia ser posta de parte periodicamente ("no e claro testemunho de reunião cristã com o propósito de adorar no
primeiro dia da semana."),pessoalmente ("cada um de vós"),privativa- primeiro dia da semana".53 Teríamos muitas outras declarações seme-
mente ("ponha de parte, em casa") e proporcionalmente ("conforme a lhantes a essas.
sua prosperidade"). Essas conclusões categóricas se apoiam, acima de tudo, no pres-
210
A essa mesma comunidade, em outra ocasião, Paulo julgou neces- suposto de que o verso sete representa "uma fórmula fixa" para dês- "
sário enviar irmãos para que "preparassem de antemão a vossa dádiva crever o tempo habitual ("No primeiro dia da semana") e a natureza
já anunciada, para que esteja pronta como expressão de generosidade ("para partir o pão") do culto cristão primitivo.Visto, no entanto, que
e não de avareza" (2Co 9:5). O apóstolo desejava evitar embaraços a reunião ocorreu à noite, o pão íoi partido após a meia-noite (v. 7,
tanto para os doadores como para os arrecadadores, ao encontrá-los 11) e Paulo deixou os fiéis ao amanhecer, podemos perguntar: foram
"desapercebidos" (2Co 9:4) da oferta. Para evitar problemas dessa na- o "tempo" e a "natureza" do encontro em Trôade algo regular ou ex-
tureza, ele recomenda um tempo (o primeiro dia da semana) e um traordinário, tendo em vista a partida do apóstolo?
lugar (a casa de cada um).
Talvez Paulo mencione o primeiro dia da semana motivado mais Reunião especial de despedida
por razões práticas do que teológicas. Esperar até o fim da semana ou O contexto mostra claramente que era uma reunião especial de
do mês para pôr de parte as contribuições ou economias de alguém despedida por causa da partida de Paulo, e não um culto dominical
seria contrário às boas práticas orçamentarias, visto que, nesses períodos, regular e costumeiro. O encontro começou na noite do primeiro dia,
a pessoa poderia se achar de bolsos e mãos vazios. Por outro lado, se, no o que, segundo a contagem judaica, correspondia ao nosso sábado à
primeiro dia da semana, antes de planejar qualquer gasto, o crente se- noite, e prosseguiu até domingo cedo. quando Paulo íoi embora. Por
parasse o que planejava doar, o restante podia ser distribuído para aten- ter sido um encontro noturno motivado pela partida do apóstolo ao
der todas as necessidades básicas. O texto, portanto, propõe um valioso amanhecer é muito improvável que indique uma celebração domini-
plano semanal para garantir uma contribuição substancial e metódica a cal regular.
favor dos irmãos pobres de Jerusalém. Extrair mais significado do texto Paulo teria observado com os crentes somente a noite de domingo
seria distorcê-lo. e viajado durante a parte clara do dia. Se isso não era permitido ao
CRENÇAS POPULARES. . AJANTIDADE DO DOMINGO

sábado, não teria sido também o melhor exemplo de santificação do de algum alimento antes de poder continuar sua exortação e retomar
domingo. A passagem sugere, conforme observa F. J. Foakes-Jackson, a viagem.
que "Paulo e seus amigos não podiam, como bons judeus, viajar no No entanto, se Paulo tomou a ceia do Senhor antes da refeição nor-
sábado; por isso, seguiram viagem logo que foi possível (At 20:11), na mal, agiu contrariamente à instrução dada havia pouco aos coríntios
madrugada do primeiro dia. O sábado havia terminado ao pôr do sol".5J a quem recomendou encarecidamente satisfazer a fome comendo em
casa, antes de se reunir para celebrar a ceia do Senhor (ICo 11:2,22,34).
O partir do pão O Novo Testamento, como se observou anteriormente, não ofere-
A expressão "partir o pão" (klasai artori) merece um exame mais ce nenhuma indicação a respeito de um dia fixo para a celebração da
atento. O que ela realmente significa no contexto dessa passagem bí- ceia do Senhor. Embora Paulo recomende aos fiéis de Corinto um dia
blica? Que os cristãos se reuniram para um jantar de confraternização, específico para colocar de parte suas ofertas no recesso de seus lares,
ou para celebrar a santa ceia? Nota-se que partir o pão era apenas uma relativamente à celebração da ceia do Senhor diz repetidas vezes na
parte necessária e costumeira dos preparativos para uma refeição con- mesma epístola e ao mesmo povo: "quando vos reunis" (ICo 11:18,
junta. O ato de o anfitrião dividir um pão em fatias assinalava o início 20, 33, 34), sugerindo tempos e dias indeterminados.
da refeição. Na maioria das culturas europeias, cumpre-se a mesma A explicação mais simples para essa passagem é que Lucas mencio-
função quando se diz buon appetito (bom apetite) aos convidados. Esse na o dia da reunião não por ser domingo, mas muito provavelmente
: ritual dá permissão a todos para começarem a comer. porque (1) Paulo "devia seguir viagem no dia imediato" (At 20:7),
"—•- A literatura pós-apostólica emprega a expressão "partir o pão" (2) o milagre extraordinário de Eutico ocorreu naquela noite e (3) 213
como designação técnica para a ceia do Senhor. Mas não é esse o sig- o tempo serve de referência cronológica adicional e importante para
nificado nem o emprego comum no Novo Testamento. Na verdade, descrever o desdobramento da viagem de Paulo.
o verbo "partir" (klao) seguido pelo substantivo "pão" (anos) ocorre
Apocalipse 1:10: "o dia do Senhor"
quinze vezes no Novo Testamento. Nove vezes o termo se refere ao
ato de Cristo de partir o pão quando alimentou a multidão, quando A terceira passagem crucial do Novo Testamento usada para defen-
celebrou a última ceia e quando comeu com os discípulos após Sua der a origem apostólica da guarda do domingo se encontra no livro do
ressurreição (Mt 14:19; 15:36; 26:26, Mc 8:6; 8:19; 14:22; Lc 22:19; Apocalipse. João, exilado na "ilha chamada Patmos, por causa da palavra
24:30; 24:35); duas vezes o verbo descreve Paulo iniciando e partici- de Deus e do testemunho de Jesus" (Ap 1:9), escreve: "Achei-me em
pando de uma refeição (At 20:11, 27:35); duas vezes descreve real- espírito, no dia do Senhor [en te kuriake hemera]" (Ap 1:10).
mente o partir do pão da ceia do Senhor (ICo 10:16; 11:24); e duas João Paulo II alega que esse verso "testemunha o costume de dar
vezes é usado como referência geral ao ato de os discípulos ou crentes a este primeiro dia da semana o nome de 'dia do Senhor' (1:1C). A
partirem o pão juntos (At 2:46; 20:7). partir daí, isso seria uma das características 'que distinguiam os cristãos
Em nenhum desses casos é a ceia do Senhor explícita ou tecnica- do mundo circunstante. [...] De fato, quando os cristãos diziam'dia do
mente designada como "o partir do pão". Além disso, o partir do pão Senhor', faziam-no atribuindo ao termo a plenitude de sentido que
era seguido por uma refeição: "e comeu" (geusamenos,ht 20:11). Lucas lhe vem da mensagem pascal:'Jesus Cristo é o Senhor' (Fp 2:11; cf. Ac
utiliza o mesmo verbo em três outros casos com o significado explícito 2:36; ICo 12:3).";;
de satisfazer a torne (At 10:10; 23:14; Lc 14:24). Sem dúvida, Paulo A declaração papal dá a entender que os cristãos do Novo Tes-
estava faminto depois do prolongado discurso que oroíeriu. e precisava tamento não só cnamavam. o domingo de "o dia do Senhor", mas
CRENÇAS POPULARES
A SANTIDADE DO DOMINGO

também expressavam, por meio dessa designação, a sua fé no Senhor de se esperar que o novo nome para o domingo fosse usado de forma
ressurreto. Muitos pesquisadores compartilham da mesma opinião. coerente em ambos os livros, sobretudo levando-se em conta que eles
Corrado Mosna. por exemplo, escreve enfaticamente: "Mediante a foram escritos pelo mesmo autor, na mesma época e na mesma área
expressão 'dia do Senhor' (Ap 1:10), João pretende indicar especifi- geográfica.
camente o dia em que a comunidade celebra em conjunto a liturgia Se a nova designação "dia do Senhor" já existia antes do fim do 1°
eucarística."5" Os católicos empregam o termo "liturgia eucarística" século e expressava o significado e a natureza da adoração dominical
para descrever a celebração da ceia do Senhor em honra ao Senhor cristã, João não teria tido motivos para empregar a expressão judaica
ressurreto. "primeiro dia da semana" em seu Evangelho. Portanto, o fato de a
Uma análise detalhada do texto nos levaria além do limitado es- expressão "dia do Senhor" ocorrer no livro apocalíptico de João, mas
paço deste capítulo. Em minha tese From Sabbath to Sunday, dedico não em seu Evangelho, onde se menciona explicitamente o primeiro
vinte páginas (111-131) à análise desse verso. Para os propósitos do dia em ligação com a ressurreição (Jo 20:1) e as aparições de Jesus (Jo
presente capítulo, apresento apenas duas observações fundamentais. 20:19, 26), sugere que o "dia do Senhor" de Apocalipse 1:10 dificil-
Em primeiro lugar, a afirmação de que a expressão "dia do Senhor" mente poderia se referir ao domingo.
refere-se ao domingo não se baseia em evidência internas do livro do
Apocalipse ou do restante do Novo Testamento, mas em três testemu- Nenhuma celebração do domingo de Páscoa na Ásia Menor
nhos patrísticos do fim do 2° século, a saber: Didaquê 14:1, Epistola aos Uma segunda e importante consideração que desacredita a ale-
214
Maonésíos 9:1, de Inácio; e o apócrifo Evangelho de Pedro 35, 50. Dos gação do papa de que o domingo era chamado "dia do Senhor", no
três, no entanto, só no Evangelho de Pedro, escrito no fim do 2° século, "sentido da proclamação da Páscoa", é o fato de que o livro do Apo-
é o domingo realmente designado pelo termo técnico "do Senhor calipse é endereçado às sete igrejas da Ásia Menor, que não observa-
[kuriake]". Em dois diferentes versos se lê: "Ora, na noite em que o vam o domingo de Páscoa. Ao contrário, observavam a Páscoa judaica
dia do Senhor [He kuriake] amanheceu [...] estrondou uma grande voz sempre na data bíblica de 14 de nisã. Polícrates, bispo da província da
no céu" (v. 35);"Na madrugada do dia do Senhor [tes kuriakes] Maria Ásia Menor, convocou um concílio de líderes de igrejas da região (c.
Madalena [...] chegou ao túmulo" (v. 50, 51). 191 d.C.) para discutir a ordem recebida do bispo Victor, de Roma,
Vale lembrar que, enquanto nos Evangelhos autênticos, Mana para adotarem o domingo de Páscoa. A decisão unânime dos bispos
Madalena e as outras mulheres se dirigiram ao túmulo "muito cedo, asiáticos foi rejeitar o domingo de Páscoa e manter a datação bíblica
no primeiro dia da semana" (Mc 16:2; cf. Mt 28:l;Lc 24:l;Jo 20:1), da Páscoa judaica. 3 '
o apócrifo Evangelho de Pedro diz que elas foram "na madrugada À luz desses fatos, seria um paradoxo entender que o apóstolo
do dia do Senhor". O uso da nova designação "dia do Senhor" em João, ao escrever aos cristãos da Ásia Menor, empregou a expressão
vez de o "primeiro dia da semana" mostra claramente que, no fim "dia do Senhor" para se referir ao domingo de Páscoa. Pois. como
do 2° século, alguns cristãos se referiam ao domingo como "o dia do registrou Polícrates, João observava a Páscoa judaica, na data fixa
Senhor". de 14 de nisã, corno faziam os cristãos da Ásia Menor. O cardeal
Mas não é esse o sentido que se pode extrair da leitura de Apo- Jean Daniélou. respeitado estudioso católico, reconhece timidamen-
calipse 1:10. Prova disso é que, se o domingo já tivesse recebido a te esse fato quando escreve: "No Apocalipse (1:10), quando a páscoa
nova designação "dia do Senhor" no fim do 1° século, quando tbrarn ocorre em 14 cie nisã, a palavra [dia do Senhor] talvez não signifique
escritos tanto o Evangelho domingo."'8
li
CRENÇA_S POPULARES, A SANTIDADE DO DOMINGO

O único dia em que João conhecia como o "dia do Senhor" até o


O domingo começou em Jerusalém
fim do 1° século, quando escreveu o livro do Apocalipse, era o sába-
porque foi ali que Cristo ressurgiu
do. Esse é o único dia que Cristo proclama ser "do Senhor [kurios]".
"Porque o Filho do Homem é senhor do sábado" (Mt 12:8). A primeira suposição equivocada é a de que Jerusalém deve ser o
berço da guarda do domingo porque foi onde Jesus ressurgiu no pri-
O escatológico dia do Senhor meiro dia da semana. Alega-se que, imediatamente após a ressurreição
O contexto imediato que antecede e sucede Apocalipse 1:10 de Cristo, os apóstolos "já não se sentiam mais à vontade no culto
contém referências inequívocas ao escatológico dia do Senhor. Isso sabático judeu"; 39 por isso, passaram a honrar a ressurreição de Cristo
sugere a possibilidade de que o "dia do Senhor" em que João foi num dia cristão distinto, o domingo; e num lugar cristão distinto, a
transportado em visão poderia ter sido um dia de sábado, no qual igreja.
contemplou o grande dia da vinda de Cristo. Que visão poderia Essa hipótese carece de apoio bíblico e histórico; pois, para a igreja
ter dado mais coragem ao idoso apóstolo no exílio por causa de apostólica, a ressurreição era uma realidade existencial que devia ser
seu testemunho a favor de Cristo? Além disso, o sábado está, íntima vivida vitoriosamente pelo poder do Salvador ressurreto, e não uma
e escatologicamente, associado ao segundo advento. O encontro prática litúrgica associada com a adoração no domingo. Demonstramos
com o Senhor invisível no tempo, no sábado semanal, é um pre- anteriormente que nada no Novo Testamento prescreve ou mesmo
lúdio do encontro como o Senhor visível no espaço, no decisivo sugere a comemoração da ressurreição de Jesus no domingo. O pró-
216
dia de Sua vinda. prio nome "dia da- ressurreição" somente aparece na literatura cristã
Em suma, as tentativas de encontrar apoio bíblico para o culto no início do 4° século.
dominical nas referências do Novo Testamento à ressurreição (Mc Se a primitiva igreja de Jerusalém foi pioneira em promover a
16:2,9;Lc 24:l,Jo 20:1), à reunião noturna de despedida no primei- guarda do domingo porque já não se sentia à vontade com a guarda
ro dia da semana emTrôade (At 20:7-11), ao plano de contribuição do sábado judaico, era de se esperar um rompimento nessa igreja, logo
pessoal no primeiro dia da semana mencionado por Paulo em l em seu início, com as tradições e cultos religiosos judaicos. Mas o que
Coríntios 16:1-3 e à referência ao "dia do Senhor" em Apocalipse ocorre é exatamente o oposto.
1:10 devem ser vistas como bem-mtencionadas, mas destituídas de Tanto o livro de Atos quanto vários documentos judaico-cristãos
apoio bíblico. revelam claramente que a composição étnica e a orientação teológica
da igreja de Jerusalém eram profundamente judaicas. Lucas caracteriza
Parte 5 os membros da igreja de Jerusalém como "zelosos da lei" (At 21:20).
JERUSALÉM E A ORIGEM DO DOMINGO Essa é uma descrição precisa, que dificilmente admitiria o abandono
Intimamente relacionada com o suposto papel da ressurreição está de um preceito-chave da lei, a saber, o sábado.
a ideia popular de que a igreja de Jerusalém foi pioneira no abando-
Somente a igreja de Jerusalém tinha autoridade
no do sábado e na adoção do domingo. No capítulo 5 - "Jerusalém
suficiente para mudar o sábado para o domingo
e a Origem do Domingo" — da minha tese F mm Sabbath to Sunday.
dediquei-me a uma análise detalhada desse ponto de vista. Minha A segunda suposição equivocada é a de que somente a igreja de
pesquisa revela que essa concepção popular se apoia em três principais Jerusalém, que foi a igreja-mãe da cristandade, possuía autoridade e
suposições eqinvocadas. respeito suficientes para persuadir codas as igrejas cristãs espalhadas
__ÇREMÇASjpgpy LARES. _ A SANJIDADEJpp DOMINGO

pelo Império Romano a mudar seu dia semanal de adoração do sá- sionaram Paulo a provar ao povo que ele também andava "guardando
bado para o domingo. Igrejas menos influentes jamais poderiam ter a lei" (At 21-24), submetendo-se a um rito de purificação no templo.
efetuado tal mudança. Com base nesse profundo comprometimento com a observância da
O problema fundamental com essa suposição é não reconhecer lei, é difícil conceber que a igreja de Jerusalém tenha revogado um de
que a igreja de Jerusalém não possuía nem a autoridade nem o desejo de seus preceitos-chave - a observância do sábado - e dado o primeiro
mudar o sábado para o domingo, simplesmente porque era composta passo na instituição do culto dominical.
quase exclusivamente de cristãos judeus zelosos no cumprimento da
lei, em geral, e do sábado, em particular. Paulo aprendeu a guardar o domingo dos líderes apostólicos
Apego à lei. O apego da igreja de Jerusalém à lei mosaica se A terceira suposição equivocada é a de que Paulo aprendeu a guar-
reflete nas decisões do primeiro concílio de Jerusalém, realizado por dar o domingo com os dirigentes apostólicos da igreja de Jerusalém
volta de 49/50 d.C. (ver At 15). A assembleia isentou da circuncisão e ensinou essa prática a seus convertidos gentios. A razão dada para
somente "irmãos de entre os gentios" (At 15:23). Não se fez nenhuma essa suposição é que Paulo dificilmente poderia ter sido o primeiro a
concessão aos cristãos judeus, que deviam continuar a circuncidar os abandonar o sábado e a adotar o domingo sem suscitar a oposição de
filhos. seus irmãos judeus.
Não bastasse isso, das quatro providências aplicáveis aos gentios A ausência de qualquer eco de controvérsia seria sinal de que Paulo
pelo concílio de Jerusalém, uma é de natureza moral (abstenção das teria aceitado a guarda do domingo conforme lhe foi ensinada pelos
218
"relações sexuais ilícitas"), mas três são cerimoniais (até mesmo os irmãos judeus, promovendo essa prática entre as igrejas gentílicas que
gentios deviam abster-se "das contaminações dos ídolos [...] e de [co- fundou.
mer] carne de animais sufocados e [...] sangue" (At 15:20). Essa pre- Em seu livro The Lord's Day [O Dia do Senhor], Paul Jewett ratifi-
ocupação do concílio de Jerusalém com a contaminação ritual e com ca: "Se Paulo houvesse introduzido o culto dominical entre os gentios,
as leis dietéticas judaicas reflete seu apego à lei cerimonial judaica e às parece provável que a oposição judaica teria acusado a temeridade
suas ordenanças. Seria impensável que uma igreja assim, em sua fase dele em pôr de lado a lei do sábado, como aconteceu com referên-
inicial, promovesse a mudança do sábado para o domingo. cia ao rito da circuncisão (At 21:21)."60 Jewett e outros interpretam
A declaração de Tiago, no concílio de Jerusalém, apoiando a pro- a ausência de tal oposição como indicativo de que Paulo aceitou e
posta de isentar os gentios da circuncisão, mas não das leis mosaicas promoveu a guarda do domingo conforme lhe foi ensinada pela co-
em geral, também é significativa: "Porque Moisés tem, em cada cida- munidade judaica.
de, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido A suposição está correta em ahrmar que Paulo não poderia ter
todos os sábados" (At 15:21). A maioria dos intérpretes reconhece sido o pioneiro na guarda do domingo sem suscitar a oposição dos
que, tanto em sua proposta quanto em sua justificativa, Tiago reafirma irmãos judeus, mas está incorreta em sugerir que os irmãos judeus
a obrigatoriedade da lei mosaica, que era habitualmente ensinada to- ensinaram a Paulo a guarda do domingo. A verdade é que os cristãos
dos os sábados na sinagoga. judeus eram profundamente comprometidos com o cumprimento da
A última visita de Paulo a Jerusalém. A última visita de Paulo lei em geral e do sábado em particular. A ausência de qualquer con-
a Jerusalém fornece esclarecimento adicional. O apóstolo íoi informa- trovérsia entre Paulo e os irmãos judeus revela mais propriamente que
do por Tiago e pelos anciãos de que milhares de judeus convertidos o sábado nunca se tornou uma disputa na igreja apostólica, pois era
eram "zelosos da lei" (At 21:20). Os mesmos líderes, em seguida, pres- fielmente observado por todos os cristãos.
Com base nas considerações acima, concluímos que a igreja de
Jerusalém dificilmente poderia ter mudado o sábado para o domingo,
tendo em vista que, de todas as igrejas cristãs, era ela a mais estrita
! -A_SANTIDADEDppOMjNCO

pelo incêndio de Roma, o bairro judaico de Trastevere não foi atin-


gido pelas chamas.62 Esse fato sugere que, em 64 d.C., as autoridades
romanas não consideravam mais os cristãos de Roma uma seita judai-
e leal às tradições religiosas judaicas, tanto do ponto de vista étnico ca, mas um movimento religioso distinto. A razão mais provável é que,
quanto do teológico. naquela época, os cristãos de Roma não participavam mais nos cultos
da sinagoga, como ainda se fazia na Palestina.
Parte 6
ROMA E A ORIGEM DO DOMINGO 3. A preeminência do bispo de Roma
Deve-se procurar o berço da guarda do domingo numa igreja gentíli- Um terceiro aspecto importante é a "autoridade preeminente"
ca influente, sem raízes judaicas expressivas. No decurso de minha in- exercida pelo bispo de Roma após a destruição de Jerusalém em 70
vestigação, descobri provas cumulativas que apontam para a igreja de d.C. Por ser o bispo da capital do Império Romano, o bispo de Roma
f;.
V' Roma como o lugar mais provável da origem da guarda do domingo. assumiu a liderança das comunidades cristãs em geral. Sua liderança
É ali que se encontram as condições sociais, religiosas e políticas que era reconhecida, por exemplo, por Inácio, Policarpo e Irineu, todos os
permitiram e estimularam o abandono da observância do sábado e a quais viveram no 2° século.63
adoção do culto no domingo em seu lugar. Provas tangíveis da liderança do bispo de Roma são o papel pio-
Por razões de concisão e clareza, mencionarei apenas os sete prin- neiro que ele desempenhou ao promover a mudança do banquete
220
cipais indícios que apontam para a igreja de Roma como o berço da sabático para o jejum sabático e a mudança da data da Páscoa judaica
i 221
guarda do domingo. para o domingo de Páscoa. Ele era o único que reunia autoridade su-
ficiente para influenciar a maioria dos cristãos a adotar novas práticas
1. Predominância de convertidos gentios religiosas, corno o domingo semanal e o domingo de Páscoa anual.
Em primeiro lugar, a igreja de Roma era composta predominan-
temente por conversos gentios. Paulo em sua epístola aos Romanos 4. Medidas repressivas contra os judeus
afirma explicitamente: "Dirijo-me a vós outros, que sois gentios! Para compreender a razão por que o bispo de Roma tomou a
Visto, pois, que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu minis- frente no processo de abandono do sábado e adoção do domingo, é
tério" (Rm 11:13). Isso significa que, enquanto a igreja de Jerusalém importante considerar um quarto e importante fator: as medidas re-
era constituída quase exclusivamente de judeus cristãos profunda- pressivas de natureza fiscal, militar, política e religiosa impostas pelos
mente comprometidos com suas tradições religiosas, como a santi- romanos sobre os judeus, começando com a Primeira Revolta Judaica
ficação do sábado, a igreja de Roma compunha-se principalmente contra Roma em 66 d.C. e culminando com a Segunda Revolta Ju-
de conversos gentios influenciados por práticas pagãs tais como a daica em 135 d.C. Essas medidas, introduzidas pelo governo romano
adoração ao Sol com o seu dia do Sol."1 para punir os judeus por conta das violentas rebeliões que eles pro-
moviam em vários lugares do império, foram especialmente sentidas
2. Diferenciação inicial com relação aos judeus na cidade de Roma, que contava com uma grande população judaica.
A irmandade predominantemente gentílica da igreja de Roma, ao Do ponto de vista fiscal, os judeus se viram sujeitos a um imposto
que parece, contribuiu para unia diferenciação entre cristãos e judeus. discriminatório (o ^.scus judaícus), introduzido porVespasiano e mten-
Indicativo disso é que, quando Nero em 64 d.C. culpou os cristãos iuicado primeiramente por Domiciano (81-96 d.C.) e mais tarde por
_CRENÇ_ASfOPU LARES _ A SANTIDADE DO DOMINGO

Adriano. Isso significava que os judeus tinham de pagar urna multa nhecida como a Revolta de Barkosheba. As legiões romanas por ele
fiscal pelo simples fato de serem judeus. Do ponto de vista militar, comandadas sofreram muitas baixas.
Vespasiano eTito esmagaram a Primeira Revolta Judaica (66-70 d.C.); Quando finalmente capturou Jerusalém, o imperador decidiu tratar
e Adriano, a Segunda Revolta Judaica (132-135 d.C.). Do ponto de o problema judaico de forma radical. Massacrou milhares de judeus e
vista religioso, Vespasiano (69-79 d.C.) aboliu o Sinédrio e o cargo levou milhares deles como cativos para Roma. Fez de Jerusalém uma
de sumo sacerdote.64 Tais medidas repressivas contra os judeus foram in- colónia romana, mudando seu nome para Aelia Capitolina. Proibiu ju-
tensamente sentidas em Roma, onde havia grande contingente judaico. deus e cristãos judeus de jamais entrar na cidade. E, o que é mais im-
portante para a nossa investigação, Adriano baniu de todo o império
5. Propaganda antijudaica a prática da religião judaica em geral e da observância do sábado em
Um quinto fator importante foi a propaganda antijudaica levada a particular.66
cabo por grande número de autores latinos, que começaram a depreciar Nessa época de crise, por razões de conveniência, muitos cristãos
os judeus racial e culturalmente, ridicularizando, sobretudo, a santifica- seguiram a orientação do bispo de Roma no sentido de mudar o tempo
ção do sábado e a circuncisão como exemplos de superstições judaicas e o modo de observar as duas instituições mais distintivas do judaísmo:
degradantes. Para esses autores, o não trabalhar no sábado era um exem- o sábado e a Páscoa. O sábado foi mudado para o domingo, e a Páscoa
plo da preguiça dos judeus. É possível encontrar comentários desdenho- para o domingo de Páscoa, a fim de evitar qualquer semelhança com
sos contra os judeus ainda nos escritos de Sêneca (m. 65 d.C.), Pérsio o judaísmo.
222
(34-62 d.C.), Petromo (c. 66 d.C.), Quintikano (c. 35-100 d.C.), Marcial ;223
7. Teologia cristã de desprezo para com os judeus
(c. 40-104 d.C.), Plutarco (c. 46-119 d.C.)Juvenal (125 d.C.) eTácito (c.
55-120 d.C.), todos eles residentes em Roma na maior parte de sua vida Para entender o que contribuiu para tais mudanças históricas,
profissional. precisamos mencionar um sétimo fator importante: o desenvol-
Na década de 60 do 1° século, surge com Sêneca (c. 4 a.C.-65 vimento de uma teologia cristã de desprezo para com os judeus.
d.C.) uma nova onda de antissemitismo literário, que refletia sem dú- Foi isto o que aconteceu: quando a religião judaica em geral e o
vida o novo estado de ânimo da época contra os judeus. Esse fervo- sábado em particular foram proscritos pelo governo romano e es-
roso estóico protestava contra os costumes dessa "raça amaldiçoada" carnecidos pelos escritores romanos, começou a aparecer todo um
(sceleratissime gentis), principalmente contra a observância do sábado: conjunto de literatura cristã Adversusjudaeos ("Contra os Judeus").
"Ao introduzir um dia de descanso em cada sete, eles perdem em Seguindo o exemplo dos escritores romanos, os autores cristãos
ociosidade quase um sétimo da vida; e, deixando de agir em momen- desenvolveram uma teologia "cristã" de separação dos judeus e de
tos de urgência, muitas vezes sofrem prejuízos."63 desprezo a eles. Costumes tipicamente judaicos, como a circun-
cisão e a guarda do sábado, foram estigmatizados como sinais da
6. Legislação antissabática de Adriano depravação judaica. 67
O sexto fator, e o mais decisivo a influenciar a mudança do dia O ato de condenar a observância do sábado como sinal da impie-
de culto do sábado para o domingo, foi a legislação antijudaica e dade judaica contribuiu para o abandono do sábado e a adoção do
antissabática promulgada pelo imperador Adriano em 135 d.C. Adria- domingo. A ideia era deixar claro às autoridades romanas que o cris-
no publicou oficialmente esse decreto após três anos de sangrentos tianismo era uma religião distinta do judaísmo, mas identificada com
combates (132-135 d.C.) que visavam esmagar a revolta judaica, co- o paganismo romano.

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CRENÇAS POPULARES . A-SANTIDADE DO DOMINGO

formar a observância do sábado, de um dia de festa e alegria, em


Medidas adoçadas pela igreja de Roma' um dia de jejum e tristeza. O propósito do jejum no sábado não
Para compreender como a igreja de Roma se empenhou em afas- era reforçar a espiritualidade da celebração desse dia. Pelo contrá-
tar os cristãos da guarda do sábado e incentivar o culto dominical em rio, conforme declarou enfaticamente o decreto do papa Silvestre
seu lugar, mencionaremos rapidamente as medidas teológicas, sociais (314-335 d.C.), ó jejum sabático destinava-se a mostrar "desprezo
e litúrgicas adotadas por essa igreja. pelos judeus" (exacmtione Judaeorum) e por sua "festividade" no sá-
bado (destructione dborum).69 A tristeza e a fome resultantes do jejum
Medidas teológicas capacitariam os cristãos a evitar "parecer guardar o sábado com os
Do ponto de vista teológico, o sábado foi reduzido de uma insti- judeus" e os incentivariam a entrar de forma mais motivada e alegre
tuição criada por Deus em favor da humanidade para uma instituição na guarda do domingo.
mosaica dada exclusivamente aos judeus como uma marca registrada
da depravação deles. Justino Mártir, escrevendo de Roma por volta do Medidas litúrgicas
2° século, afirma em seu Diálogo com Trifo que a observância do sábado Do ponto de vista litúrgico, o bispo de Roma decretou que não
era uma ordenança mosaica temporária, imposta por Deus exclusiva- se realizasse nenhuma reunião ou celebração eucarística no sábado. O
mente aos judeus como "uma marca para distingui-los para o castigo papa Inocêncio I (402-417 d.C.) declarou, por exemplo: "Conforme
que eles tanto merecem por suas infidelidades".68 a tradição da igreja, nesses dois dias [sexta-feira e sábado], não se deve
224
É difícil compreender como um líder de igreja da estirpe de Justino, em absoluto celebrar os sacramentos."'" 225
que se tornou mártir pela fé cristã, pôde rejeitar o sentido bíblico do sába- Dois historiadores eclesiásticos da época, Sócrates e Sozomen,
do como o sinal do compromisso da aliança com Deus (Êx 31:16,17;Ez confirmam o decreto de Inocêncio. Sozomen (c. 440 d.C.) relata que,
20:12, 20), reduzindo-o a um sinal da depravação judaica. O que é ainda enquanto "o povo de Constantinopla e quase todos em toda a parte se
mais difícil de aceitar é que ninguém tenha condenado academicamente reúnem aos sábados e no primeiro dia da semana, Roma e Alexandria
uma teologia tão absurda e embaraçosa de desprezo pelos judeus - uma te- nunca observam tal costume".71
ologia que descaradamente interpreta mal instituições divinas como o sába- Em suma, as evidências históricas referidas acima mostram que a
do, a fim de dar sanção bíblica à repressão política e social contra os judeus. igreja de Roma adotou medidas teológicas, sociais e litúrgicas para
A trágica lição da história é que a necessidade de ser politicamente esvaziar o sábado de qualquer significado religioso, promovendo, no
correio, apoiando políticas populares imorais, tais como o extermínio lugar dele, a guarda do domingo.
de judeus, muçulmanos e hereges ou a prática da escravidão, fez de al-
guns teólogos e líderes de igreja biblicamente inçarmos. Eles elaboraram Parte 7
A ADORAÇÃO DO SOL E A ORIGEM
teologias antibíblicas destinadas a sancionar práticas populares imorais.
DO DOMINGO
É impossível calcular os danos causados à sociedade e ao cristianismo
por essas teologias cie conveniência. O contexto social, político ; t-pitg;^»o e as condições acima men-
cionadas explicam i>or que o sábado foi mudado para domingo, nias
Medidas sociais não expilam por que a escolha recaiu sobre o domingo e não sobre
Do ponto de vista social, a reinterpretação negativa do sábado qualquer outro dia da semana, como, por exemplo, a sexta-feira (o dia
como sinal da impiedade judaica levou a igreja de Roma a trans- da paixão de Cristo';.
CRENÇAS POPULARES A SANTIDADE DO DOMINGO

A adoração do Sol e o domingo no primeiro dia e a ressurreição do Sol da Justiça ocorrida no mesmo
A influência da adoração ao Sol no dia do Sol [designação para o dia caíram coincidentemente no domingo.
primeiro dia da semana] fornece a explicação mais plausível. O culto Em seu Commentary on Psalm 91 [Comentário Sobre o Salmo 91],
ao 5o/ Invictus (O Sol Invencível), conforme demonstrou Gaston H Eusébio (263-339) escreve: "O Logos transferiu por intermédio da
Halsberghe em sua tese, "predominou em Roma e em outras partes Jsfova Aliança a celebração do sábado para o nascimento da luz. Ele nos
do império a partir da primeira parte do 2° século da era cristã".72 O outorga um tipo do verdadeiro repouso no redentivo dia do Senhor, o
deus Sol invencível se tornou o chefe dos deuses do panteão romano primeiro dia da luz. [...] Neste dia da luz, o primeiro dia e o verdadeiro dia
e passou a ser adorado principalmente no Dies Solis, isto é, "o dia do do Sol, quando nos reunimos após o intervalo dos seis dias. celebramos
Sol", conhecido em nosso calendário como "domingo". os sábados santos e espirituais. [...] Todas as coisas que foram prescritas
para o sábado, nós as transferimos para o dia do Senhor, que é mais au-
Provas indiretas torizado, mais altamente considerado e primeiro em distinção e mais
Evidências tanto diretas quanto indiretas confirmam a influência honroso do que o sábado judeu. De fato, é nesse dia da criação do
do culto solar sobre a origem do domingo. Indiretamente, há indica- mundo que Deus declarou: 'Haja luz, e houve luz'. E também nesse
ções de que as pessoas que haviam adorado o deus Sol em sua vida dia que o Sol da Justiça ressurgiu para as nossas almas."77
i anterior de paganismo trouxeram consigo para a igreja diversas práti- Essa declaração de Eusébio, bispo de Cesareia, considerado o pai
•••• "~ cãs pagãs. A existência desse problema é evidenciada pelas frequentes da história eclesiástica, é importante por dois motivos. Primeiro, por-
repreensões feitas por líderes da igreja àqueles cristãos que veneravam que atribui à igreja a responsabilidade pela mudança do sábado para
o deus Sol, especialmente no dia do Sol.73 o domingo: "Todas as coisas que foram prescritas para o sábado, nós
Emprega-se muitas vezes a simbologia do Sol para representar as transferimos para o dia do Senhor." Segundo, porque apela para
Cristo.74 A mais antiga representação pictórica de Cristo (datada de a criação da luz no primeiro dia da semana como justificativa para a
cerca de 240 d.C.), descoberta sob o confessionário da Basílica de guarda do domingo.
São Pedro durante uma escavação realizada em 1953-1957, é um Num tom semelhante, Jerônimo (342-420), o tradutor daVulgata
mosaico que retrata Cristo como o deus Sol conduzindo uma qua- Latina, explica: "Se ele é chamado de dia do Sol pelos pagãos, estamos
driga, a carruagem desse deus. 75 O nascer do Sol se tornou também mais dispostos a reconhecê-lo como tal, uma vez que foi nesse dia que
a orientação para a oração e para as igrejas cristãs.Já o dies natalis solis a luz do mundo apareceu e o Sol da Justiça ressuscitou."73
invicti, o aniversário do Sol Invencível, que os romanos celebravam
CONCLUSÃO
em 25 de dezembro, foi adotado pelos cristãos para a celebração do
nascimento de Cristo.' 6 A conclusão da presente pesquisa, realizada durante o período de
mais de cinco anos na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma,
Prova direta é a seguinte: a mudança do sábado para o domingo ocorreu não pela
A utilização da simbologia solar fornece a indicação mais direta autoridade de Cristo ou dos apóstolos, mas como resultado da inte-
para justificar a efetiva guarda do domingo. Os pais da igreja invocam ração de fatores sociais, políticos, pagãos e religiosos. O antijudaísmo
com frequência os temas da luz e do Sol a fim de desenvolver uma levou muitos cristãos a abandonar a observância do sábado para se
justificativa teológica para o culto dominical. A criação divina da luz diferenciarem dos judeus numa época em que a religião judaica em
geral e a observância do sábado em particular foram proscritas do
CRENÇAS PpPULARES A SANTIDADE DO DOMINGO

Império Romano. A adoração ao Sol influenciou na adoção da guarda


do domingo como forma de os cristãos se diferenciarem dos judeus e 1 Citado por R. H. Martin, The Day: A Manual on the Christian Sabbath
se integrarem aos costumes e ciclos do Império Romano. (1933), p. 184.
A mudança do sábado para o domingo não consistiu simplesmen- 2 Dies Domini, parágrafo 5.
te numa questão de nomes ou ordem numérica, mas de autoridade, 3 Dies Domini, parágrafo 30.
significado e experiência. Foi a substituição de um dia santo, instituído 4 Letter of His Holiness Benedia XVI w Cará. Francis Arinze on the Oaasion
por Deus para possibilitar que nós crentes vivenciássemos de forma ofíhe Study Day in Honourofthe 43rd Anniversary of the Promnlaation of the
mais livre e plena a presença e a paz divina em nossa vida, por um dia Constitution on the Sacred Lituroy. Sacrosanctum Conálium, From theVatican,
de festa eclesiástica, que acabou se tornando uma ocasião para a busca 27 de novembro de 2006.
do prazer e do lucro pessoal. 5 Ibid.
Essa mudança histórica afetou em muito a qualidade de vida cristã 6 Dies Domini, parágrafo 6.
de inúmeras pessoas que, ao longo dos séculos, têm sido privadas da 7 Consultar, por exemplo, Corrado S. Mosna, Storia delia Domenica dalle ori-
renovação física, moral e espiritual que o sábado visa proporcionar. A aínifino agli Inizí dei V Secolo (1969); Jean Daniélou, TJie Bible and Líturgy
mudança também contribuiu para o alarmante declínio na frequência (1956); Paul K.Jewett, The Lord's Day: A Theological Guide to the Christian
à igreja, declínio que ameaça a sobrevivência de igrejas históricas em Day ofWorship (1972); Pacifico Massi afirma categoricamente: "A res-
numerosos países do Ocidente. surreição é a única explicação plausível para a origem do domingo" (La
228
Numa época em que papas, clérigos e estudiosos empenham es- Domenica nella Storia delia Salvezza [1967], p. 43). F. A. Regan assevera: 229
forços combinados para promover a santidade do domingo com base "Do estudo dos textos acima, alguém pode razoavelmente concluir que
em uma pretensa origem apostólica, os líderes da igreja deviam ajudar durante os primeiros tempos da igreja só havia uma festa litúrgica e essa
os cristãos a entender que a guarda do domingo é uma elaboração festa era a comemoração semanal da ressurreição de Cristo" ("Dies Do-
pós-apostólica, que carece de autoridade, significado e experiência minica and Dies Solis:The Beginning of the Lords Day in Christian An-
bíblica. tiquity", tese de doutorado, The Catholic Umversity of America [1961],
O fato de vivermos numa cultura agitada e cheia de pressões faz p. 191); Consultar também Josef A. Jungmann, The Early Lituroy to the
com que nossa vida reclame por algo que lhe possibilite alívio, reno- Time of Gregory the Great (1959), p. 19-21; também The Mass oj the Roman
vação e reorganizaçãojustarnente o que está reservado para o povo de Rite: Irs Origín and Development (1951), v. l, p. 15;Y. B.Tremei,"Du Sabbat
Deus em Seu santo dia, o sábado. au Jour du Seigneur", Lumière et Vie (1962), p. 441.
A redescoberta do sábado nesta era cósmica pode muito bem ser s Consultar, por exemplo, Donald A. Carson, editor, From Sabbath to the
para os cristãos modernos a expressão adequada de uma fé cósmica, Lord's Day (1982).
uma fé que abraça e une a criação, a redenção e a restauração final; o 9 Dies Domini, parágrafo S.
passado, o presente e o futuro; o homem, a natureza e Deus; o mundo lf 'Thonias Aquinas, Swnma Tlieologica (1947), II, O, 122,An. 4, p. 1702.
presente e o mundo porvir. E uma fé que reconhece a soberania de " ]. Kelly, Forbiddeu Snnday and Fcast-Day Occupations (1943). p. 2: Papa
Deus sobre toda a criação e sobre a vida humana mediante a consa- João XXIII, Mater et Magistra, trad. William J. Gibbons (1961), p. 76.
gração a Ele de uma fração de tempo; unia fé que cumpre o verdadei- ressalta: ''Por muitos séculos a Igreja Católica decretou que os cristãos
ro destino do crente no tempo e na eternidade; uma fé que trata o dia guardassem =>«« dia de repouso no domingo e que estivessem presen-
do Senhor corno o dia santo de Deus. tes no mesmo dia ao Sacrifício Eucarístico." John Gilmarv Shea, "Tru.1
CRENÇAS POPULARES A SANTIDADE DO DOMINGO

Observance of Sunday and Civil Laws for Its Enforcement", Tlje American -4 Max Turner, "The Sabbath, Sunday, and the Law in Luke/Acts", no
Catlwlic Quarterly Review 8 (1883), p. 139, escreve: "O domingo, como o simpósio From Sabbath to the Lord's Day (1982), p. 102.
dia da semana separado para adoração pública obrigatória do Deus Al- 23 Andrew T. Lincoln, "Sabbath, Rest, and Eschatology in the New Testa-
tíssimo, a ser santificado pela suspensão de todo trabalho servi], comércio ment", no simpósio From Sabbath to the Lord's Day (1982), p. 213.
e ocupações mundanas e pela prática de solenidades devocionais, não 26 Ibid.

passa de criação da Igreja Católica." Martin J. Scott, Things Catholics Are 27 John Calvin, Institutes of the Christian Religion [1965], v. 2, p. 337. Karl
AskedAbout (1927),p. 136, acrescenta: "Agora a igreja [...] instituiu, p ela Barth observa perceptivamente que, ao repousar no sábado seguindo o
autoridade de Deus, o domingo como o dia de culto." exemplo de Deus (Hb 4:10), o crente "participa conscientemente na
12 Catechism of the Catlwlic Church (1994), p. 524. salvação provida por Ele [Deus]" (Church Dogmatic [1961], v. 3, parte 2,
13 Dies Domini, parágrafo 17. p. 50).
14 Ibid., parágrafo 67. 28 Dies Domini, parágrafo 18.

13 Ibid., parágrafo 12. 29 Dies Domini, parágrafo 19

"' Ibid., parágrafo 15. 30 Consultar nota 7.

17 Ibid., parágrafo 14. 31 Dies Domini, parágrafo 20.


18 Ibid., parágrafo 17. 32 Corrado S. Mosna, Storia delia Domenica dalle origini fino agli Inizi dei V
19 Ibid., parágrafo 18. Sccolo (l969), p. 44.
230
20 Para uma discussão da teologia do domingo conforme desenvolvida na 33 Jean Daniélou, The Bible and Liturgy (1956), p. 242. *^£{-
literatura cristã primitiva, consultar o capítulo 9 — "The Theology of 34 Paul K. Jewett, Tlie Lord's Day: A Theological Cuide to the Christian Day of
Sunday"- de minha tese Froni Sabbath to Sunday: A HistoricalInvestigation Worship (1972), p. 57. Pacífico Massi afirma categoricamente:"A ressur-
ofthe Rise of Sunday Observance in Early Christíanity (1977), p. 270-302. reição é a única explicação plausível para a origem do domingo" (La Do-
21 Dies Domini, parágrafo 32. Citado do Catechism of the Catholíc Church menica nella Storia delia Salvezza [1961], p. 43). EA. Regan declara: "Do
(nota 12), p. 525, parágrafo 2177. No parágrafo 46 de Dies Domini,Joio estudo dos textos acima se pode razoavelmente concluir que, durante os
Paulo afirma: "Sendo a Eucaristia o verdadeiro coração do domingo, primeiros dias da igreja, havia uma única festa litúrgica e essa festa era a
compreende-se por que razão, desde os primeiros séculos, os Pastores comemoração semanal da ressurreição de Cristo" ("Dies Dominica and
não cessaram de recordar aos seus fiéis a necessidade de participarem na Dies Solis: The Beginning of the Lords Day in Christian Antiquity",
assembleia litúrgica." tese doutoral, The Catholic University of America [1961], p. 191). Con-
22 Lc 4:16, 31; 6:1, 2, 5,6, 7. 9; 13:10, 14-16; 14:1, 3, 5; 23:54, 56; At 1:12; sultar tambémJosef A.Jungmann, The Early Liturgy to theTime ofGregory
13:14,27,42,44: 15:21; 16:13; 17:2; 18:4. the Great(l959),p. 19-21.
23 Consultar, por exemplo, í. Howard Marshall, The Gospel ofLuke (1978). 33 O Novo Testamento apresenta a ressurreição de Cristo como a essência
p. 883; F. Godet, A Coininentary on the Gospel of Saint Luke (1870), II, p. da proclamação, té e esperança apostólica. Consultar, por exemplo, At
343; A. R. Leaney, A Conmientary on the Gospel Aaordino to Saint Luke. 1:22; 2:31; 4:2, 10, 33; 5:30; 10:40; 13:33-37; 17:18, 32; 24:15, 21; 26:8;
1966, p. 288. Os tradutores da Nova Versão Internacional sugerem o ICo 15:11-21; Rjn 10:9; 1:1-4; 8:31-34; 14:9; ITs 1:9, 10.
mesmo ponto de vista: "Em seguida, foram para casa e prepararam per- 36 Harold Riesenfeld,"The Sabbath and the Lord's Day", The Gospel Tradi-
fumes e especiarias aromáticas. E descansaram no sábado, em obediência tion: Essays by H. Riesenfetd (1970), p. 124.
ao mandamento'' (Lc 23:56). 37 S. V. McCasland. "The Origin of the Lords Day", Journal of Biblical
CRENÇAS POPULARES.
_ASANTIpADEpOpOAAINGO

Literature 49 (1930), p. 69. Paul Cotton afirma em tom semelhante: "Não Earhest Centuries ofthe Christian Church (1968), p. 218; consultar também
há nada na ideia da ressurreição que origine necessariamente a guarda do Corrado S. Mosna (nota 7), p. 53.
domingo como um dia de culto" (From Sabbath to Suntlay [1933], p. 79). 60 Paul K.Jewett (nota 34), p. 57.J. A.Jungmann, The Mass ofthe Roman Rite
•*' Dies Domini, parágrafo 19. (1950), v. 1. p. 20 e seguintes, afirma que a substituição do sábado pelo
39 Joachim Jeremias,"Paska", Theological Dictionary of the NewTestament, ed domingo ocorreu entre o martírio de Estêvão e a perseguição do ano 44
Gerhard Fnednch (1968), v. 5, p. 903, nota 64. d.C., como resultado da perseguição judaica. A informação disponível
40 J. B. Lightfoot, TheApostolic Fathers (1885), v. 2, p. 88. sobre a igreja de Jerusalém desmente esse ponto de vista.
Para uma discussão da controvérsia da Páscoa e suas implicações para 61 Leonard Goppelt, Lês Origines de l'Églíse (1961), p. 202, 203.
a origem da guarda do domingo, consultar minha tese From Sabbath to 62 Por volta do ano 64, Nero identificou os cristãos como uma entidade
Sunday (1977), p. 19S-207. separada, bem distinta dos judeus. Para falar a verdade, o imperador, de
42 Consultar, por exemplo, Eusébio de Cesareia, Commentary on Psalm 91, acordo com Tácito (c. 55-120 d.C.), "lançou a culpa [do incêndio sobre
Patrologia Graeca 23, 1168; Apostolic Constitntions 2, 59, 3. Para textos e eles] e infligiu as mais requintadas torturas sobre uma classe odiada por
discussão, consultar C. S. Mosna, Storia delia Domcnica, p. 233-240. sua abominação, chamada de cristãos pela população" (Tacitus, Annales
43 Para uma discussão sobre a lei hetariae, consultar Samuele Bacchiocchi, 15,44).
From Sabbath to Sunday, p. 95-98. 63 Para uma discussão da preeminência do bispo de Roma, consultar From
232
44 A carta de Plínio ao imperador Trajano (112 d.C.) indica a mudança Sabbath to Sunday (nota 7), p. 207-212.
da ceia do Senhor da tardinha para a manhã. Discuto o documento em 64 Consultar -Ernest L. Abel, The Roots qfAnti-Semitism (1943), p. 97; S. W.
minha tese From Sabbatli to Sunday, p. 96. Baron, A Social and Religious History ofthejews (1952), v. 2, p. 10.
43 The Epistk ofBarnabas 15, 8. 65 Seneca, De Superstitiones, citado por Agostinho em A Cidade de Deus. Sê-
46 Justin Martyr, l Apology 67 neca também diz: "Entretanto, os costumes dessa raça maldita ganharam
4> Consultar o capítulo 4 de minha tese From Sabbath to Sunday, intitulado tal influência que são agora recebidos em todo o mundo. Os vencidos
"Three New Testament Texts and the Origin of Sunday". promulgaram leis sobre os seus vencedores." Depois ele acrescenta o que
48 Dies Domini, parágrafo 70.
pensava das instituições sagradas judaicas: "Os judeus, no entanto, estão
49 Consultar minha tese From Sabbath to Sunday, p. 90-94.
conscientes da origem e do significado de seus ritos. A maior parte rea-
311 Corrado S. Mosna (nota 7), p. 7.
liza um ritual sem saber por que assim o fazem" (ibid.).
31 Dies Domini, parágrafo 21.
66 As fontes rabímcas falam muito sobre as restrições impostas por Adria-
32 F. F. Bruce, Commentary on the Book oftheActs (1954), p. 407, 408.
no, cujo reinado é comumente reterido como "n ora da perseguição
33 P. K. Jewett (nota 34;, p. 61.
[shemad]" ou "a era do edito {aezar'~'\" < i . Ivrauss, "Barkokba", Jewish
54 F.J. Foakes-Jackson. The Aas of rhe Apostles (1945), p. 187. Encyclopedia [1907], II,n S C '• \o a seguir é uma amostra de decla-
33 Dies Domini, parágrafo 21. rações írequent"?;ne;ice encontradas no Talmude a respeito das políticas
36 Corrado S. Mosna ínota 7), p. 21. anP;uJ ".cãs adotadas por Adriano: "O governo de Roma havia emitido
Para textos e discussão sobre a controvérsia da Páscoa cristã, consultar uni decreto proibindo o estudo da Tora e a circuncisão dos falhos e orde-
Irivni Sabbath to Sunday (nota 7). p. 1.98-207. nando a profanação do sábado. O que fizeram judali b. Shamnufa e seus
"Mean Daméiou, The First Six HundredYean (1964), v. l, p. 74. companheiros? Foram consultar certa matrona que todos os romanos
39Willy Rordorf. Sunday: The History of the Day of Rest and IVorship in íhe notáveis costumavam visitar. Ela lhes .iisse:'íde e anunciai vossa rnstez.;
CRENÇAS POPULARES ^ A SANTIDADE:_DO DOMINGO

durante a noite.'Eles foram e anunciaram à noite, chorando:'Ai de nós! 70 O papa Inocêncio I (402-417 d.C.) estabeleceu em seu célebre decreto
Em nome do Céu, não somos nós vossos irmãos, não somos nós todos que no sábado "não se deve comemorar nenhum dos sacramentos" (Ad
filhos de uma única mãe? Em que somos diferentes de cada nação e Decentium, Epist. 25, 4, 7, Patroloaia Latina 20, 550); Sozomen (440 d.C.)
língua para que emitísseis esses severos decretos contra nós?'" (Rosh Ha- relata que em Roma ou Alexandria não se realizava nenhum encontro
shana 19a em The Babylonian Talimid, trad. I. Epstein [1938], XIII, p. 78). religioso aos sábados (Historia Ecdesiastica 7, 19); cf. Sócrates, Historia
Baba Bathra 60b afirma algo parecido: "subiu ao poder um governo que Ecdesiastica 5, 22.
emite decretos cruéis contra nós e que nos proíbe a observância da Tora 71 Sócrates, Ecdesiastical History 5, 22; NPNE 2a ed., II, p. 132.
e dos preceitos [...]" (Babylonian Talmud, XXY p. 246). 72 Gaston H. Halsberghe, The Cult of Sol Inviaus (1972), p. 26. O estudo é
6/ Escritores cristãos produziram um conjunto de literatura antijudaica parte da série Oriental Relígions in the Roínan Etnpíre. editada pela maior
condenando os judeus tanto social quanto teologicamente. Está para autoridade no assunto, M.J.Vermaseren.
além do âmbito do presente estudo examinar essa literatura. A lista a se- 73 Jack Lindsay fornece em seu livro Origin ofAstrology (1972), p. 373-400,
guir de autores e/ou escritos importantes talvez sirva para conscientizar um levantamento conciso sobre a influência de crenças astrológicas a
o leitor da existência e intensidade do problema: The Preaching of Peter, respeito do cristianismo primitivo. A ironia tão frequentemente mani-
The Epistle ofBarnabas, Apoloay de Quadratus (perdida), Apology de Aris- festa na história é que, embora alguns cristãos lutem heroicamente em
tides, The Disputation betiveenjason and Papiscus concerning Christ, Dialogue uma frente de batalha, podem ter seu território infiltrado pelo inimi-
withTrypho dejustino, Against thejews de Miltíades (obra lastimavelmen- go em outra frente.Tertuliano, por exemplo, rejeitava veementemente a
234
te perdida), Against thejews de Apolinário (também inexistente), On the acusação pagã de que a alegria dos cristãos no domingo era motivada 235
Passover de Melito, The Epistle to Diognetus, Tlie Gospel of Peter, Against the pela adoração ao Sol (ver Apology 16, l, e Ad Nationes l, 13,1-5, ANFIII,
Jeivs de Tertuliano, Against Celsus de Orígenes. Para um levantamento p. 31, 122). Mas. por outro lado, repreende severamente os cristãos por
excelente de literatura cristã antijudaica do 2° século, consultar F. Blan- comemorarem festas pagãs dentro da própria comunidade (On Idolatry
chetiére, "Aux Sources de l'anti-judaisme chretien", Revue d'Histoire et 14, ANFIII, p. 70).
de Phibsophie Religíeuse 53 (1973), p. 353-398. ' 4 Para exemplos da aplicação literária do tema do Sol a Cristo, consultar
68 Justin Martyr, Dialogue with Trypho, 23, 3. From Sabbath to Sunday, p. 253, 254.
69 A histórica declaração do papa Silvestre reza o seguinte: "Se todos os 75 Consultar E. Kirschbaum, The Tomb ofSt. Peter and St. Paul (1959), p. 3
domingos devem ser observados alegremente pelos cristãos em virtude e seguintes; Archeologia Cristiana (1958), p. 167. O mosaico veio à luz
da ressurreição, então todos os sábados em virtude do sepultamento de- durante escavações realizadas entre 1953 e 1957 sob o altar da Basílica
vem ser considerados em desprezo pelos judeus (exsecrationejudaeomtn). de São Pedro.
Na verdade, o sábado foi um dia de lamento para todos os discípulos do ' 6 Para uma discussão sobre os documentos literários, consultar From Sab-
Senhor, enquanto prevaleceu a alegria para os exultantes judeus. Mas rei- bath to Sunday, p. 254-261.
nou tristeza para os apóstolos em jejum. Da mesma maneira que ficamos " Eusebius, Commentaria in Psaltnos 91, PG 23,1169-1172.
tristes com os tristes pelo sepultamento do Senhor, podemos nos alegrar :" Jerônimo, In die dominicã Paschae homilia, CCL 78, 550, l, 52; o mesmo
com eles no dia da ressurreição do Senhor. De fato, não é apropriado em Agostinho, Contra Fausturii 18, 5: em Sertno 226, PL 38. 1099. Agos-
praticar, por causa dos costumes judaicos, o consumo de alimentos (des- tinho explica que o domingo é o dia da luz porque no primeiro dia da
tructiones cibonim) e as cerimónias dos judeus'' (S. R. E. Humbert, Adversus criação "Deus disse:'Haja luz! E houve luz.' E Deus tez separação entre a
Graccorum Calwnnias 6, Patrologiá Laiina 143, 933). luz e as trevas. E chamou Deus a luz Dia e as trevas, Noite (Gn 1:2-5)."
o:
! . AAARIOLOCIA

"Bi Czestochowa, na Polónia, as visitas ao santuário da Madona Negra já


±i\: atingem as cifras dos 5 milhões por ano, concorrendo com Fátima e
03 : Lourdes, desde que João Paulo II o visitou em 1979. Em agosto últi-
U
mo [1991], o papa falou naquela cidade a l milhão de jovens católicos.

MARIOLOGIA No ano passado [1990], em Emmitsburg, Maryland, dobrou para 500


mil o número de pessoas que visitaram um dos mais antigos dos 43
principais lugares marianos dos Estados Unidos, o Santuário Nacional
da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes."3
Numa matéria de capa intitulada "The Meaning of Mary" [O
Significado de Maria], a revista Newsweek resume a história de Ma-

E
scritores religiosos falam frequentemente da era moder- ria dizendo: "O segredo do misterioso poder de Maria pode estar
na como "A Era de Maria". Um artigo de capa da re- justamente aqui: por não ter história própria, ela seduz cada nova
vista Time intitulado "The Search for Mary" [A Busca geração a criar uma imagem dela. A Bíblia apresenta apenas fragmen-
Por Maria] adverte: "Numa época em que cientistas debatem as tos de relatos em que se pode apoiar [...]. A partir dessa escassa linha
causas do surgimento do Universo, tanto a adoração como os con- de desenvolvimento, Maria cresce gradualmente em estatura. Para
flitos a respeito de Maria atingem níveis fora do comum. Ocorre surpresa geral, essa obscura mãe judia absorveu e transformou as mais
em escala mundial, entre pessoas comuns, um despertar religioso em poderosas deusas pagãs. Ela é tanto a Madona que dá a vida quan-
torno da Virgem. Milhões de fiéis, muitos deles jovens, acorrem to a Pietà que recebe os mortos. Depois que o ascetismo se tornou
aos santuários mananos. Ainda mais extraordinário é o número um caminho privilegiado para a santidade cristã, Maria se converteu
de pessoas que alega ter visto em anos recentes aparições da Vir- na virgem perpétua, o modelo de castidade e abnegação. Em 431, o
gem, desde a Jugoslávia até o Colorado, nos Estados Unidos."1 Concílio de Éfeso promulgou a primeira declaração dogmática sobre
Ao que parece, o mundo se mistificou e ficou seduzido pelo Maria: ela devia ser honrada como Theotokos, a Portadora de Deus
constante encanto e fascínio das aparições de Maria. ou Mãe de Deus [...]. No século 19, muito tempo depois de muitos
Segundo a Time, cresce o número de pessoas que fazem pere- reformadores protestantes haverem rejeitado o culto da Virgem como
grinações a santuários religiosos: "em Lourdes, o maior santuário disparate papista, o papa Pio IX proclamou o dogma católico da ima-
de peregrinação da França, a frequência anual saltou em dois culada conceição."4
anos 10%, chegando a 5,5 milhões"; o interesse em santuários
marianos está crescendo à medida que "pessoas do mundo todo João Paulo: um papa mariano
[...] viajam distâncias enormes para demonstrar pessoalmente sua O rápido crescimento de peregrinos a santuários marianos é ani*^
veneração pela Mãe de Jesus. O século 20 se tornou o século ofuscado por relatos de supostas novas aparir^.., , '•-• Maria em dife-
das peregrinações mananas". 2 As estatísticas apresentadas pela rentes partes do mundo. Tal fenómeno crouxe grande satisfação ao
Time retorçam a rapidez com que cresce o interesse por Mana. falecido t>rpri jcão Paulo li. cuja devoção a Mana estava impregnada
''Em Fátima, Portugal, o santuário que marca a aparição de Ma- em sua pátria polonesa. Quando João Paulo se sagrou bispo em 1958.
na a três crianças em 1917 atrai 4.5 milhões de peregrinos por mandou decorar seu brasão de armas com um "M" de ouro e esco-
ano. oriundos de um número cada vez maior de países, [...j Em lheu como lema Totus tnus Saiu Maria, que em latim significa: "Eu
__ÇREN_ÇASPOPULARES
,MARIOLOGIA
sou totalmente teu, Maria". "Durante as incontáveis visitas que fez a
Maria], o pesquisador luterano Charles Dickson fala de Maria como
santuários marianos, João Paulo invocava a Madona em quase todos
um "excelente modelo da autêntica esperança cristã. É a esperança
os discursos e orações que proferia. Ele cria piamente que a interces-
para toda a humanidade. Essa releitura e entendimento esclarecido da
são pessoal de Maria lhe poupara a vida quando foi baleado em 1981,
comunidade protestante ajudarão a redirecionar a atenção de todo o
na Praça de São Pedro. À semelhança de muitos outros, o pontífice
mundo cristão para Maria, não como um ponto de divisão, mas como
também estava convencido de que 'Mana pôs um fim ao comunismo
em toda a Europa."3 a verdadeira ponte de unidade para todos nós" ?
Em seu artigo "Protestants and Maria Devotion: What About
Em 8 de outubro de 2000, diante da imagem da Virgem de Fátima,
Mary?" [Protestantes e Devoção Mariana: O que Há Sobre Maria?], o
João Paulo II consagrou o mundo e o novo milénio a "Maria Santís-
teólogo metodista Jason Byassee escreve: "Dizer'Ave, Maria, cheia de
sima". Aliás, Maria tem destaque nos ensinamentos de todos os papas,
graça, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte' parece
e constitui aspecto importantíssimo na vida de milhões de católicos.
expressar um acréscimo extrabíblico. Mas pedir a Maria que rogue
Maria é vista como ponte ecuménica por nós talvez não seja propriamente uma oração antiprotestante.Agir
assim pode talvez até mesmo salvaguardar o dogma cristológico e
Maria está se tornando cada vez mais a ponte ecuménica entre
proteger contra o patriarcalismo. Quem sabe? Maria pode ser, afinal
protestantes, muçulmanos e a Igreja de Roma. Em 21 de novembro
de contas, precisamente a chave para o futuro do ecumenismo."9
de 1964, o Concílio Vaticano II previu em sua Dogmatic Constitution
A colaboração entre pesquisadores protestantes e católicos para
""•"•*• on the Church [Constituição Dogmática da Igreja], chamada Lumen
apreciar o mérito de Maria no Novo Testamento exemplifica a busca
Gentium, que as intercessões de Maria "diante do Filho na comunhão
ecuménica por uma redescoberta da mãe do Salvador. O resultado
de todos os santos" talvez conseguisse "reunir em paz e harmonia, e
mais perceptível dessa busca conjunta é o livro Mary in the NewTesta-
em um único povo de Deus", todas as famílias da Terra (§ 69). Na-
ment [Maria no Novo Testamento] (1978), escrito por uma equipe de
quela época, os protestantes acharam ridícula tal predição, mas hoje a
pesquisadores católicos romanos e protestantes históricos. Outra im-
situação mudou. Publicações protestantes recentes a respeito de Maria
portante obra é Tlie Mother o/God [A Mãe de Deus], resultado de uma
mostram que ela realmente pode ser a ponte ecuménica que unirá
conferência entre teólogos anglicanos e ortodoxos orientais. E mais
cristãos de todos os credos, eliminando gradativamente a rejeição aos
dogmas católicos sobre Maria. 6 uma obra: The One Mediator, the Saints, and Mary [Um Único Media-
dor, os Santos e Maria] (1992), que reúne uma série de conferências
Após listar as sete principais publicações escritas em regime de
realizadas entre pesquisadores católicos e luteranos. Por paradoxal que
colaboração entre pesquisadores católicos e protestantes, o anglicano
pareça, algumas das mais importantes reavaliações de Maria nos últi-
John Macquarne concluiu: "Por paradoxal que seja, algumas das mais
mos anos são da autoria de pesquisadores protestantes oriundos das
importantes interpretações da doutrina mariana deste século chega-
mais diferentes denominações.
ram até nós por meio de pesquisadores protestantes pertencentes às
mais diversas denominações. Maria não pertence a nenhuma igreja Pode Maria se tornar a ponte de união
ou denominação. Ela é a mãe daqueles qua 'têm o testemunho de Jesus''''1 entre católicos e muçulmanos?
Cada vez mais escritores protestantes aceitam Maria como a es-
Maria pode se tornar a ponte de união entre católicos e muçul-
perança para a unidade ecuménica de todos os credos. Em seu li-
manos, já que é reverenciada por ambas as religiões. Oradores enfati-
vro A Protestam Pastor Looks at Mary [Um Pastor Protestante Analisa
zaram esse ponto em uma recente conferência cristão-islâmica sobre
CRENÇAS POPULARES MARIOLOGIA

o papel desempenhado por Mana em cada religião. Na conferência, da Igreja Católica, que afirma: "A Igreja tem alta consideração pelos
Janan Najeeb, diretora da Coalizão das Mulheres Muçulmanas de Mi- niuçulmanos. Eles adoram a Deus, que é único, vivo, subsistente, mi-
Iwaukee, falou sobre o papel de Maria na fé islâmica. Disse ela: "Os sericordioso e altíssimo, o Criador do céu e da Terra, que também
muçulmanos não crêem que Maria, conhecida no islã como 'Mariam', fala aos homens. Eles se empenham em se submeter sem reservas aos
seja a mãe de Deus. Também não acreditam que ela esteja imune à decretos ocultos de Deus, assim como Abraão se submeteu ao plano
pecaminosidade humana, porque não possuem noção de pecado ori- de Deus, cuja fé os muçulmanos associam à própria fé deles. Embo-
ginal. Mas os muçulmanos reverenciam Maria como a mãe de Jesus, ra não reconheçam Jesus como Deus, veneram-nO como profeta; e
um dos cinco maiores profetas - embora não o filho de Deus. Para a honram também Sua virgem Mãe, chegando mesmo às vezes a invocá-la
fé islâmica, Maria é unia 'santa aperfeiçoada', cuja pureza e fidelidade devotadamente"^
fizeram dela um exemplo a ser seguido por todos os muçulmanos. Fica evidente que a estima católica para com o Islã sofreu uma mu-
"Todos os muçulmanos são ensinados desde a mais tenra idade a dança fundamental de religião dos "infiéis" para a dos fiéis que adoram
amar, reverenciar e honrar Maria. É difícil encontrar um muçulmano o mesmo Deus de Abraão e veneram a mesma Maria, mãe de Jesus. A
que não se edifique espiritualmente ao ler a história de Maria. O determinação dos papas em desenvolver uma parceria com muçulma-
alcorão menciona Maria mais vezes que a Bíblia, de acordo com Na- nos decorre do simples fato de que o total de l ,3 bilhão de muçulmanos
jeeb. O capítulo 19 do alcorão — intitulado 'Mariam' — é dedicado a ultrapassa o um bilhão de católicos. Ao reconhecer a legitimidade da
Maria. De fato, ela é a única mulher mencionada nos textos sagrados fé islâmica, o papa está facilitando a aceitação muçulmana do papel
240
dos muçulmanos por seu nome próprio, e não por uma referência, tal desempenhado pelo pontífice como líder de uma futura Nova Or-
corno 'esposa de' ou 'filha de'. Tão significativa é a posição dela no dem Mundial.
Islã que muitos estudiosos islâmicos acreditam que ela tenha sido uma
Objetivos deste capítulo
profetisa."10
Maria está se tornando cada vez mais o argumento em comum O objetivo geral deste capítulo é revelar a estratégia oculta da
entre católicos e muçulmanos. Em 1952, o arcebispo Fulton Sheen Igreja Católica em desenvolver dogmas que elevem Mana a posições
dedicou um capítulo de seu livro The World's First Love [O Primeiro e funções similares às de Cristo e do Espírito Santo. A meta é fazer
Amor do Mundo] a Maria. Nesse capítulo, intitulado "Mary and the de Maria uma corredentora, capaz de dispensar graça e salvação. Para
Moslems" [Maria e os Muçulmanos], ele expressou sua firme crença realizar tal intento, a Igreja Católica desenvolveu pelo menos seis pa-
de que os "muçulmanos se converterão por fim ao cristianismo, gra- ralelos significativos entre os ensinos bíblicos a respeito de Jesus e de
ças à devoção que eles já dedicam à Virgem Maria. Na verdade, Deus Maria, Sua mãe.
Pai parece contar com um plano especial para atrair os muçulmanos
para Jesus por meio de Sua Mãe, Maria" (www.michaeljournal.org/ A Bíblia ensina que Cristo nasceu sem pecado e viveu uma vida
marymoslems.htm). sem pecado.
Em anos recentes, tanto o papa João Paulo II como Bento XVI A Igreja Católica declara que Mana foi concebida sem a man-
trabalharam com ahnco para desenvolver uma nova parceria entre o cha do pecado original e viveu uma vida sem pecado.
papado e o Islã com. base na crença de que católicos e muçulmanos
adoram o mesmo Deus de Abraão e veneram a mesma Maria, mãe A Bíblia ensina que só Cristo oferece graça e salvação.
de Jesus. Tal crença se expressa claramente no novo e oncia! Catecismo A Igreja Católica ensina que Mana dispensa graça e salvação.
CRENÇAS POPULARES MARIOLOCIA

blica. O capítulo se divide em cinco partes que correspondem a


A Bíblia ensina que Cristo ascendeu ao céu para atuar como Rei cada uma dessas crenças.
dos reis.
Parte 1
A Igreja Católica ensina a assunção corporal de Maria ao céu
A PERPÉTUA VIRGINDADE DE MARIA
para ocupar a posição de rainha do céu.
O primeiro paralelo que a Igreja Católica tenta traçar entre Cristo
A Bíblia ensina que Cristo é o único Mediador e Redentor. e Maria é o de impecabilidade. Como Cristo, supõe-se que Maria foi
A Igreja Católica ensina que Mana é Mediadora e Correden- sem pecado desde a concepção até sua assunção corporal ao céu. Tal
tora. ensinamento tem sido promovido por meio de dois importantes dog-
mas conhecidos como perpétua virgindade e imaculada conceição.
A Bíblia ensina que o Espírito Santo é o Auxiliador e Advogado Foi o Sínodo de Latrão realizado em 649 que ressaltou pela primeira
dos crentes. vez o caráter tríplice da virgindade de Maria, a saber, que "Maria foi
A Igreja Católica ensina que Mana é a Auxiliadora e Advogada virgem antes, durante e depois do nascimento de Jesus Cristo". 12 Isso
dos crentes. significa, conforme explica o apologista católico Ludwig Ott, que
"Maria deu à luz de forma miraculosa sem a abertura do útero e o
A Bíblia ensina que Cristo, junto com o Pai e o Espírito Santo, é rompimento do hímen, e, consequentemente, também sem dores".1"5
-"—"* Deus Santíssimo. A crença católica de que Maria foi uma virgem perpétua, isto é, que
A Igreja Católica ensina que Maria também é Santíssima. ela viveu toda a sua vida como virgem e morreu virgem, é celebrada na
liturgia católica como Aeiparíhenos, "sempre virgem". O novo Catecismo
Devido à exaltação de Maria a uma posição semelhante à de Cristo da Igreja Católica reafirma essa crença,quando diz:"O nascimento de Cris-
e da crescente aceitação de Maria entre católicos e protestantes como to não lhe diminuiu, mas santificou a integridade virginal de Sua mãe. A
a esperança de unidade ecuménica para todos os credos, cumpre-nos liturgia da igreja celebra Mana como a Aeiparthenos 'sempre virgem'.14
examinar as crenças populares a respeito de Maria à luz das Escrituras. O Catecismo resume a crença na virgindade perpétua de Maria
Para facilitar o estudo, seguiremos a ordem abaixo: afirmando: "Maria permaneceu virgem concebendo seu Filho, vir-
gem ao dá-lo à luz. virgem ao carregá-lo, virgem ao alimentá-lo de
1. A Perpétua Virgindade de Maria seu seio, virgem sempre."Í3 A virgindade de Maria é vista como uma
2. A Imaculada Conceição de Maria condição prévia essencial para ela "servir, na dependência dele e com
3. A Assunção Corporal de Maria ele, pela graça cie Deus, ao mistério da redenção".' 0
4. O Papel de Maria Como Mediadora e Redentora O Catecismo continua afirmando: "Obedecendo, [ela] se fez causa
5. A Veneração de Mana de salvação tanto para si como para todo o género humano. Do mes-
mo modo, não poucos antigos Padres dizem [...]: 'O nó da desobedi-
O procedimento que seguimos na análise dessas crenças po- ência de E vá foi desfeito pela obediência de Mana; o que a virgem
pulares sobre Mana é simples. Primeiramente, expomos a defesa E vá ligou pela incredulidade a virgem Mana desligou peia fé". Com-
católica (e. onde for relevante, a defesa protestante) de suas crenças parando Mana com Eva, chamam Mana de 'mãe dos viventes' e com
sobre Maria; depois submetemos tais crenças a uma avaliação bí- frequência afirmam:'Veio a morte por Eva e a vida por Maria'."17
_CRE_NÇAS POPULARES MARIOLOGIA

Repare que, para os católicos, a perpétua virgindade de Maria e O reformador suíço Ulrico Zwínglio (1484-1531) escreveu sobre
sua impecabilidade vitalícia a capacitam a servir como redentora a virgindade perpétua de Maria: "Creio firmemente que Maria, de
e dispenseira da graça de Cristo. Tal crença, conforme veremos logo acordo com as palavras do evangelho, na condição de virgem pura nos
mais, está expressa claramente na encíclica Ubi Primum, promulgada gerou o Filho de Deus, e que tanto antes como depois do parto se
por Pio IX em 2 de fevereiro de 1849. Esse tipo de ensino é taxati- manteve sempre uma Virgem pura e intacta."22 Noutro lugar, Zwín-
vamente negado pela Bíblia, que ensina a existência de "um só Deus glio reafirmou: "Estimo imensamente a Mãe de Deus, a sempre casta
e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" e imaculada Virgem Maria; Cristo nasceu da Virgem mais pura."~ J
(!Tm2:5). A aceitação quase universal da permanente virgindade de Mana
por parte dos reformadores, bem como a generalizada relutância deles
Defesa católica da perpétua virgindade de Maria em declarar Maria uma pecadora, foi progressivamente rejeitada por
'-£' Tomás de Aquino emprega vários argumentos para defender a seus seguidores. A razão dessa ruptura com o passado se deveu em
\C<
perpétua virgindade de Maria. Argumenta, por exemplo, que, se parte a um novo exame das passagens bíblicas utilizadas para apoiar
Maria tivesse mantido relações sexuais com José após o nascimento a perpétua virgindade de Maria. As práticas idólatras que se desen-
de Jesus, isso teria sido "uma afronta ao Espírito Santo, cujo santuário volveram em associação com a veneração de Maria e a rejeição do
foi o útero vaginal onde Ele formou a carne de Cristo; portanto, celibato clerical também levaram muitas igrejas protestantes a rejeitar
seria uma indecência que fosse profanado pelas relações sexuais com finalmente diversas crenças católicas sobre Maria.
244
homem". 18 ; 245
Aquino conclui sua defesa da perpétua virgindade de Maria com Anglicanos e católicos de acordo sobre Maria
estas palavras: "Devemos, pois, simplesmente afirmar que a Mãe de Em anos recentes, conforme já mencionado, a oposição protes-
Deus, assim como toi virgem ao concebê-Lo e dar-Lhe à luz, assim tante à veneração de Maria enfraqueceu bastante. Exemplo disso é a
permaneceu virgem posteriormente. [...] Maria deu à luz de forma declaração de 57 páginas emitida pela Comissão Internacional Con-
miraculosa sem a abertura do útero e o rompimento do hímen, e, junta de Anglicanos e Católicos Romanos Para a Devoção e Doutrina
consequentemente, também sem dores."19 Essa crença católica é ex- Marianas. Um ponto-chave discutido no acordo é o "ponto de vista
pressa pelo título de "perpétua virgindade". de não católicos de que a imaculada conceição de Maria, sua isenção de
pecado original e consequente impecabilidade contradizem o ensino
Os reformadores criam na perpétua virgindade de Maria bíblico de que 'todos pecaram' (Rm 3:23), sendo Jesus a única exce-
Contrariando as expectativas, os reformadores protestantes reafir- ção (Hb 4:15)". O acordo refuta essa tradicional objeção protestante,
maram sua crença na perpétua virgindade de Maria. Martinho Lutero dizendo: "Podemos reafirmar conjuntamente que a obra redentora de
(1483-1546), por exemplo, continuou fiel à tradição católica quando Cristo atingiu Maria nas profundezas de seu ser e em seus inícios mais
escreveu: "É um artigo de fé que Maria é a Mãe do Senhor, e ainda remotos sem violar a Escritura." Com respeito à atitude protestante
virgem. [...J Cristo, acreditamos, saiu de um útero deixado perfeita- anterior de rejeitar a crença católica na assunção de Mana ao céu no
mente intacto.' 0 ' 1 O reformador francês João Calvino (1509-1564) fim de sua vida, o acordo declara: "Em conjunto, podemos reafirmar o
não íoi tão protuso em seu louvor a «Viana como Martinho Lutero, ensino de que Deus levou a abençoada Virgem Mana para a Sua glória
mas não lhe negou virgindade perpétua. O termo mais comumente na plenitude de seu ser em conformidade com as Escrituras, visto que
empregado por ele para se referir a Maria foi "Santa Virgem"."1 Deus recebeu a outros diretamente ;'Elias, Estêvão, o ladrão na cruz).""4
••

CRENÇAS POPULARES MARIOLOCIA

Acerca de outros aspectos importantes da crença católica a respeito do nascimento de seu filho Jesus (Is 7:14; Mt 1:18-25; Lc 1:26, 27),
de Mana, como sua perpétua virgindade, seu papel redentor e sua mas não sugere em parte alguma que ela permaneceu virgem depois
veneração por meio de orações dirigidas a ela, o acordo revela que disso. Devem-se procurar as raízes do dogma da perpétua virgindade
teólogos anglicanos procuram meios de abraçar, pelo menos em parte, de Maria no ambiente pagão da era pós-apostólica, quando se im-
tais crenças.Torna-se evidente que a oposiÇcão protestante à devoção e primiu forte ênfase ao celibato dentro de certas religiões pagãs (as
veneração mariana está se enfraquecendo gradativamente. virgens vestais de Roma pagã, por exemplo) e seitas gnósticas "cris-
tãs". As relações sexuais, mesmo dentro do casamento, eram muitas
Argumentos católicos com base na Bíblia
vezes suspeitas de pecado. Foi esse ponto de vista que levou Agostinho
O dogma católico da perpétua virgindade de Mana se baseia não (354-430) a ensinar que o pecado original se transmitia através da
em ensinos bíblicos comprovados, mas em suposições dogmáticas. Pro- procriação mediante relações sexuais.
va disso é o fato de pesquisadores católicos citarem apenas uns poucos A associação de sexo com pecado fez surgir a ideia de que era
versículos bíblicos para apoiar a suposta perpétua virgindade de Maria. inconcebível Maria ter mantido relações conjugais normais após o
O apologista católico Ludwig Ott, por exemplo, resume esses versos nascimento de Jesus. Para ser impecável e santa, Maria tinha de ser
da seguinte forma: "A partir da pergunta que Maria faz ao anjo, Lucas virgem antes e depois do nascimento de Jesus. Seu hímen precisava
1:34:'Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?', de- permanecer intacto durante e após o parto, a fim de ela alcançar o
duzem [alguns teólogos católicos] que ela havia tomado a resolução de mais elevado estado de santidade. Essa ideia se consolidou na tradição
""^ ' permanecer sempre virgem com base na iluminação especial de Deus. do celibato para padres e freiras.
247
Outros chamam atenção para o fato de que o Redentor moribundo A noção toda da perpétua virgindade de Maria solapa a integridade
confiou Sua Mãe aos cuidados do discípulo João (Jo 19:26),'Mulher, e humanidade da encarnação de Cristo, ao pressupor que Ele não só foi
eis aí teu filho', o que pressupõe que Maria não teve outros filhos além concebido, mas também nasceu miraculosamente pelo Espírito Santo. Na
de Jesus."2" condição de Deus-homem, Cristo dificilmente poderia ter Se tornado
Os católicos interpretam as referências aos "irmãos" de Jesus (cí. em todas as coisas "semelhante aos irmãos" (Hb 2:17), participando da
Mt 13:55; Mc 6:3; Gl 1:19) como referências a primos de Jesus, e "mesma natureza" (Hb 2:14, RSV), se tivesse sido posto para fora
não a irmãos de sangue. Outros estudiosos católicos, na esperança de do ventre de Maria de torma miraculosa, deixando o hímen dela
preservar a perpétua virgindade de Maria, sugerem que talvez esses intacto. Se tanto a concepção de Cristo quanto o Seu nascimento
"irmãos" fossem filhos de José, de um casamento anterior. Os ensina- foram, no estrito sentido da palavra, obra do Espírito Santo, a quem
mentos católicos dão grande importância a esse último ponto, visto Maria apenas emprestou o ventre durante nove meses, então a in-
que, para eles, o sexo está associado a pecado, enquanto a virgindade e tegridade e humanidade da encarnação de Cristo ficam seriamente
considerada um pré-requisito para alcançar um nível mais elevado de comprometidas.
pureza e, finalmente, a santidade.
Deus criou o sexo
RÉPLICA BÍBLICA À PERPÉTUA VIRGINDADE DE MARIA
A ideia da virgindade perpétua de Maria como um todo se baseia
na crença irrazoável de que o sexo é pecaminoso. A Bíblia renega
A origem pagã e as implicações da perpétua virgindade
tal crença. A primeira declaração relativa à sexualidade humana se
.a hor; encontra em Génesis l :27:"E criou Deus o homem à Sua imagem; à

.;
MARIOLOCIA
CRENÇAS POPULARES

imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou" (ARC).Vale lem- Tiveram José e Maria intimidade sexual
brar que, embora depois de cada ato prévio de criação, a Escritura diga após o nascimento de Jesus?
que Deus viu que "isso era bom" (Gn 1:12,18, 21,25), após a criação
Mateus sugere que Mana e José levaram urna vida sexual normal
do ser humano como macho e fêmea, ela diz que Deus viu que "era
após o nascimento de Jesus. O autor declara, por exemplo, que, "sem
muito bom" (Gn 1:31).
Essa primeira avaliação divina da sexualidade humana como "mui- que tivessem antes coabitado, [Mana] achou-se grávida pelo Espírito
to boa" mostra que, para as Escrituras, as relações sexuais entre ho- Santo" (Mt 1:18). A expressão "ter coabitado" (de sunerchomat) inclui
a ideia de intimidade sexual (cf. l Co 7:5). O versículo dá a entender
mem e mulher são parte da excelência e perfeição da criação original
que, posteriormente, José e Maria ''coabitaram" e mantiveram relações
de Deus. No entanto, o dogma da virgindade perpétua de Maria nega
sexuais.
a concepção positiva da Bíblia a respeito do sexo, além de depreciar as
n't C• Mateus declara também que José "não a conheceu [a Maria], en-
mulheres que optam pelo casamento em vez do celibato.
quanto ela não deu à luz seu filho, o primogénito" (Mt 1:25, KJV).
Nos ensinamentos católicos, uma mulher que se devota à família,
A expressão "não conheceu" sugere que José não manteve relações
educando os filhos no temor de Deus, dificilmente pode alcançar o
sexuais com Maria até após o nascimento de Jesus. Nas Escrituras um
mesmo estado de santidade de uma mulher que escolhe permanecer

m 248
virgem para servir ao Senhor. Um ensino como esse jamais pode ob-
ter o apoio da Bíblia, que elogia mulheres consagradas a Deus como
homem conhece uma mulher mantendo intimidades sexuais com ela.
"E conheceu Adão a. Eva, sua mulher, e ela concebeu"(Gn 4:1, ARC).
A frase "ela deu à luz o seu filho primogénito" (Lc 2:7; Mt 1:25)
Ana por se dedicar à educação de Samuel (ISm l e 2).
sugere que Maria teve seu filho de modo normal, e não de forma mi-
O nascimento de Cristo foi normal raculosa. A Escritura não menciona a participação do Espírito Santo
durante o nascimento de Jesus.
A crença de que Maria permaneceu virgem durante e depois do
O advérbio "enquanto" [heos hou] na frase José "não a conheceu,
nascimento de Cristo é negada por todas as descrições do aconteci-
enquanto ela não deu à luz seu filho, o primogénito" (Mt l :25, KJV) dá
mento, que apontam para um nascimento normal. Lucas, por exem-
a entender que, após o nascimento de Jesus, o casal manteve relações
plo, escreve: "Ela deu à luz o seu filho primogénito, enfaixou-o e o
conjugais normais. Como ressalta Jack Lewis, "em outras partes do
deitou numa manjedoura" (Lc 2:7). Paulo fala de Cristo como
"nascido de uma mulher" (Gl 4:4). Em Mateus, o anjo explica Novo Testamento (Mt 17:9; 24:39; Jo 9:19), a palavra enquanto (heos
hou), seguida por uma negativa, sempre sugere que a ação negada re-
a José: "Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus"
almente ocorria posteriormente". 26 Não há razão válida para supor
(Mc 1:21).
Nenhum desses textos emprega as palavras comuns para milagre, que Mateus 1:25 seja uma exceção. S" ,'•<',tieus quisesse comunicar a
ideia da perpétua virgindade de -'lana, ele simplesmente teria escrito:
sinal ou prodígio. Não há referência a anjos ou ao Espírito Santo ex-
"Mas José jamais a conlj^ccu."
traindo Jesus miraculosamente para fora do útero de Maria. A única
coisa que eles nos dizem é que Maria "deu à luz o seu filho primogé- Jesus é chamado de o primogénito de .Maria
nito" (Lc 2:7). A ideia de que Cristo nasceu sem sair pelo canal natural
cie parto ou sem causar dor se encontra apenas em escritos apócrifos Em Lucas 2:7, Jesus é chamado de o "primogénito" (prototokon) de
Maria. Embora o termo "primogénito" não sugira necessariamente
gnósticos do 2° e 3° séculos, mas não nos livros inspirados do Novo
que Maria teve outros filhos, o sentido natural é que ela os teve. Se
Testamento.
;
CRENÇAS POPULARES , ..MARIpLpGIA

a perpétua virgindade de Maria fosse uma crença comum nos tem- de Maria. Alguns argumentam que os "irmãos e irmãs" mencionados
pos do Novo Testamento, Lucas teria simplesmente escrito que ela eram meios-irmãos e meúw-irmãs de Jesus, filhos da parte de José, de
deu à luz seu único Filho. Isso teria certamente resolvido a questão. um casamento anterior, o que preservaria a perpétua virgindade
Repare que Lucas escreveu seu Evangelho muito tempo depois do de Maria. Outros seguem o argumento de Jerònimo, de que eles
nascimento de Cristo, possivelmente após o falecimento de José e eram primos de Jesus, e não irmãos consanguíneos. 2 '
Maria. Se Jesus fosse o único filho de Mana, o evangelista teria, em O principal argumento utilizado para defender tais interpretações
retrospectiva, usado a palavra "unigénito" (monogenes), e não a palavra é que no idioma hebraico não existem substantivos específicos para
"primogénito" (prototokori). No contexto, "primogénito" sugere que designar parentes. A palavra hebraica ah e a aramaica alia podem sig-
Maria teve outros filhos. O fato de todos os Evangelhos declararem nificar tanto irmão como meio-irmão, primo, sobrinho ou qualquer
que Jesus teve irmãos e irmãs parece confirmar isso. parente consanguíneo.
Isso acontece no hebraico, mas não no grego. Essa interpretação
Quem eram os irmãos e irmãs de Jesus?
ignora que todos os quatro Evangelhos foram escritos em grego, e não
Na Bíblia, há diversas e inequívocas referências aos irmãos e irmãs em hebraico. Há, de fato, na língua grega duas palavras distintas para
de Jesus no contexto de Sua família imediata. Esses textos sugerem irmãos e primos. A palavra grega para irmão é adelphos e para primo
que eles eram irmãos de fato, e não primos, como crêem muitos ca- é anepsíos. Colossenses 4:10 emprega este último termo para mostrar
tólicos. Mateus, por exemplo, escreve: "Não é este o filho do carpin- que Marcos é primo (anepsios) de Barnabé. Mas as referências aos ir-
250
teiro? Não se chama Sua mãe Maria, e Seus irmãos,Tiago,José, Simão mãos e irmãs de-Jesus jamais utilizam a palavra "primo". Soubessem os
251'
e Judas? Não vivem entre nós todas as Suas irmãs?" (Mt 13:55, 56; cf. escritores dos Evangelhos que Tiago, José, Simão e Judas eram primos
Mc 6:3). O texto dá a entender que Jesus tinha uma família grande, de Jesus, teriam usado a palavra anepsios para evitar confusão.
de pelo menos quatro irmãos e duas irmãs. O Novo Testamento sempre usa as palavras "irmão" e "irmã" em
Até mesmo João, o mais místico de todos os Evangelhos, sugere um ambiente de família e sempre se referindo a um irmão (ou irmã)
que Jesus não era filho único. "Depois disto, desceu Ele para Ca- legítimo e literal (Mc 1:16,19; 13:12;Jo 11:1, 2; At 23:16; Rm 16:15).
farnaum, com Sua mãe, Seus irmãos e Seus discípulos" (Jo 2:12). Por que deveríamos supor que Mateus usou os termos "irmãos" e
"Dirigiram-se, pois, a Ele os Seus irmãos e Lhe disseram:'Deixa este "irmãs" figurativamente, se ele emprega o termo "mãe" literalmente?
lugar e vai para a Judeia, para que também os Teus discípulos vejam Se "irmã" é literal em Atos 23:16 (irmã de Paulo), não há razão para
as obras que fazes'" (Jo 7:3). interpretar a mesma palavra em um sentido diferente em Mateus 13:56.
Paulo também se refere a Tiago como "irmão do Senhor" em suas Há um princípio estabelecido em hermenêutica segundo o qual as
cartas aos Gaiatas e Coríntios. "Decorridos três anos, então, subi a Je- palavras devem ser compreendidas em seu sentido literal, a menos que
rusalém para avistar-me com Cefas e permaneci com ele quinze dias; a interpretação literal envolva uma óbvia contradição.
não vi outro dos apóstolos, senão Tiago, o irmão do Senhor" (Gl 1:18, No grego antigo, palavras específicas indicam diferentes membros
19). "E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, da família. Por exemplo: adelphos = irmão; adelphe = irmã; anepsios —
como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?" (lCo primo; adelphos ouch omopatrios — meio-irmão; adelphe ouch omopatria
9:5; itálico acrescentado). — meia-irmã; progonos = enteada ou enteado. Isso sugere que Mateus,
Os apologistas católicos apresentam duas explicações principais João e Paulo teriam esclarecido, se fosse necessário, que os irmãos e
para conciliar esses textos com sua crença na perpétua virgindade irmãs de Jesus eram na verdade meios-irmãos e irmãs.
CRENÇAS POPULARES MARIOLOGJA

As descrições das viagens de José e Maria, primeiro para Belém e conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente,
depois para o Egito, fornecem apoio indireto para essa conclusão. Lu- a esposa, ao seu mando" (ICo 7:3). Qualquer abstinência deve ser
cas nos diz que José e Mana viajaram de Nazaré "a fim de alistar-se" por consentimento mútuo, "por algum tempo" para "novamente vos
(Lc 2:5). Se José tivesse pelo menos seis filhos do primeiro casamento, ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência"
era de se esperar que estes viajassem com a família, principalmente (!Co7:5).
porque se supunha que também estavam na obrigação de se alistar. O
Jesus confiou Sua mãe a João porque ela não tinha filhos?
fato de Lucas mencionar apenas José e Maria sugere que, na época de
seu contrato de casamento, José não tinha filhos. É difícil acreditar que Para muitos apologistas católicos, o fato de Jesus na cruz ter con-
um homem piedoso como José tenha abandonado os filhos para se fiado Sua mãe ajoão, dizendo:"Mulher, eis aí teu filho!" (Jo 19:26), é
casar com Maria. prova de que Maria não teve outros filhos. Ludwig Ott, por exemplo,
O relato de Mateus sobre a fuga do Egito também fornece suporte escreve: "O fato de o Redentor, à beira da morte, confiar Sua mãe
para essa conclusão. Um anjo instrui José, em sonho, dizendo: "Dis- a proteção do discípulo João (Jo 19:26) - 'Mulher, eis aí teu filho' -
põe-te, toma o menino e Sua mãe, foge para o Egito e permanece lá pressupõe que Maria não tinha outros filhos além de Jesus."28
até que eu te avise" (Mt 2:13). Após a morte de Herodes, o mesmo Essa suposição ignora o fato de que os irmãos de Jesus naquela épo-
anjo disse a José: "Dispòe-te, toma o menino e Sua mãe e vai para a ca não eram crentes (Jo 7:5) e presumivelmente não estavam presentes
terra de Israel; porque já morreram os que atentavam contra a vida do na crucifixão. O argumento que, de acordo com a lei mosaica, o parente
252
menino" (Mt 2:20). consanguíneo mais próximo tinha o dever de cuidar de Maria ignora o 253"
Em ambos os casos, os viajantes eram apenas José, Maria e o me- fato de que Jesus demonstrava compaixão por Sua mãe na ausência de
nino Jesus. A Bíblia não menciona seis filhos, resultado de um suposto quem deveria cuidar dela. Cristo também ensinou que o compromisso
casamento anterior de José. Teria José deixado os outros filhos em com Ele supera os laços de sangue mais íntimos. Quando Sua mãe e
Nazaré por vários anos até ele e Maria voltarem do Egito com Jesus? irmãos apareceram no lugar em que Ele ensinava, o Mestre declarou:
Parece improvável, visto que todos os membros da família eram obri- "Quem é Minha mãe e quem são Meus irmãos? E, estendendo a mão
gados a se alistar. Tais considerações nos levam a concluir que Maria para os discípulos, disse: Eis Minha mãe e Meus irmãos. Porque qual-
provavelmente teve outros filhos além de Jesus. quer que fizer a vontade de Meu Pai celeste, esse é Meu irmão, irmã
e mãe" (Mt 12:48-50). Com exceção de Sua mãe, a própria família do
Maria decidiu permanecer virgem para sempre? Salvador não cria nEle naquela época. Portanto, Ele só podia entregar
Da pergunta feita por Mana ao anjo em Lucas 1:34 -"Como será Sua mãe aos cuidados de um crente. E João estava perto de Jesus e era
isto, pois não tenho relação com homem algum?" - alguns católicos confiável para essa tarefa.
concluem que Maria decidiu permanecer virgem pelo resto da vida.
Conclusão
Mas, se ela tomou essa decisão, por que ficou noiva de José (Mt 1:13)'
A ideia de José e Mana vivendo em um estado de perpétuo celi- O dogma católico da perpétua virgindade de Maria visa prrv<T?.r
bato vai de encontro ao ideal de Deus para o casamento, cujo objetivo que Mana era sem pecado corno Cristo poro"; M V -, ngem antes,
é unir homem e mulher como "uma só carne" (Gn 2:24: Mt 19:5, 6). durante e depois do parto de se\ Fi"i<\J^us. A alegação da perpetua
Depois da primeira intimidade sexual, existe a responsabilidade con- virgindade é u^i-d,"! para provar a contínua impecabilidade de Ma-
tinua de marido e mulher honrarem os deveres conjugais:"O marido na. Tal dogma carece de qualquer prova bíblica razoável. As poucas
CRENÇAS POPULARES MARIOLOGIA

passagens empregadas em sua detesa sequer fazem alusão ao assunto. A predição de Schaff de que o último passo na glorificação de
Mas a Igreja Católica não depende de autoridade bíblica para definir Maria seria a proclamação do dogma da assunção dela ao céu cum-
seus ensinos. Ela reivindica autoridade independente para definir seus priu-se em 1950, apenas 57 anos após a morte do historiador. Schaff
próprios dogmas, escrever suas próprias leis e criar seus próprios "in- ressalta que a progressiva glorificação de Maria está de acordo com o
tercessores" (2Ts 2:4). "progresso na adoração de Maria e a multiplicação de festividades de-
A verdade bíblica é que, como todos os verdadeiros crentes, Maria dicadas a ela. A adoração a Maria chega mesmo a eclipsar a adoração a
era uma pecadora salva pela graça de Deus mediante a fé, e não por Cristo. Ela, a mulher terna, compassiva e amorável, é mais invocada por
qualquer justiça ou graça diferenciada concedida a ela na concepção, sua poderosa intercessão do que seu divino Filho. Faz-se dela a fonte
nem por qualquer voto de virgindade dentro do casamento como de toda graça, a mediadora entre Cristo e o crente, sendo virtualmente
meio de alcançar santidade mais elevada. Ela foi uma mulher abençoa- colocada no lugar do Espírito Santo. Quase não existe um epíteto de
da porque deu à luz o Filho de Deus e O criou numa família singular. Cristo que devotos católicos romanos não apliquem à Virgem".30
O dogma da perpétua virgindade de Maria é uma superstição anti-
ga imposta a devotos que nunca tiveram oportunidade de estudar esse A definição do dogma da imaculada conceição
assunto peia perspectiva da Bíblia. E triste saber que ainda hoje milhões Algumas pessoas confundem o dogma católico da imaculada conceição
de pessoas sinceras seguem de forma ingénua um sistema de ideias que de Maria com a doutrina bíblica da concepção virginal de Cristo. Embora a
se opõe frontalmente às verdades divinamente reveladas na Palavra de concepção de Jesus tenha sido realmente imaculada (sem pecado), a Igreja
254
Deus. Católica aplica esse dogma a Maria, e não a Jesus. Alega-se que Maria foi
preservada do pecado original desde o momento em que foi concebi-
Parte 2 da até o fim de sua vida. Explicaremos a seguir como isso supostamente
A IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA aconteceu.
O paralelo entre a concepção virginal de Cristo ensinada pela Bíblia O dogma oficial da imaculada conceição, conhecido como Ine-
e a conceição imaculada de Maria é outra etapa nas doutrinas católicas ffabílis Deus, foi promulgado pelo papa Pio IX em 8 de dezembro
em desenvolvimento que exaltam Maria no lugar do Salvador Jesus de 1854, por ocasião da Festa da Conceição. Na presença de mais de
200 cardeais, bispos e outros dignitários, Pio IX definiu e proclamou
l Cristo. Existe uma progressão lógica nos dogmas católicos sobre Maria,
de forma que cada um se fundamenta no outro, ampliando a distância solenemente esse dogma, dizendo: "Nós declaramos, pronunciamos e
entre os ensinos bíblicos e os ensinamentos católicos marianos. definimos que a doutrina segundo a qual a bendita virgem Maria, no
Philip Schaff, renomado historiador eclesiástico do século 19, ob- primeiro instante de sua concepção, por graça singular e privilégio do
serva corretamente que, "do ponto de vista romano, esse dogma [da Deus onípotente, e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador
imaculada conceição] completa a mariologia e manolatria desenvol- do género humano, foi preservada imune de toda mancha do pecado
vida etapa por etapa, desde a perpétua virgindade de Mana até sua original é uma doutrina revelada por Deus; por essa razão, deve ser
isenção de pecado após a concepção do Salvador, prosseguindo depois firmemente e constantemente crida por todos os fiéis."jl
para sua isenção de pecado após o parto e, por fim. para a isenção de
A glorificação de Maria como um canal de graça e redenção
pecado original e hereditário [na concepção j. A única coisa que resta
agora é oficializar o dogma da assunção dela ao céu, que há muito A promulgação do dogma da imaculada conceição representa o
constitui crença popular na igreja Católica."'' Ponto máximo do processo de glorificação de Mana como um canal
CRENÇAS POPULARES MARIOLOGIA

de graça e de redenção para a humanidade. O propósito do dogma se Por fim, o ministério celestial de Maria obscurece o papel redentor
revela na encíclica Ubi Primum que Pio IX enviou aos bispos em 2 de de Cristo porque, se é possível obter esperança, graça e salvação por
fevereiro de 1849 pedindo a opinião deles e encorajando a coopera- intermédio de Maria, o ministério intercessório e redentor de Cristo
ção deles em promover a aceitação do dogma da imaculada conceição, se torna desnecessário. A adoração a Maria na religiosidade popular
que iria promulgar em breve. suplanta a adoração a Cristo. O resultado final é a adoração idólatra da
A encíclica contém declarações reveladoras: "Desejamos ansiosa- criatura em lugar do Criador.
mente que, tão breve quanto possível, vós nos deis o vosso parecer
a respeito da devoção que anima vosso clero e povo no que diz res- Os mecanismos da imaculada conceição
peito à imaculada conceição da bendita virgem e como ardentemen- Para entender a definição católica da imaculada conceição de Ma-
:
te incandesce o desejo de que essa doutrina seja definida pela Sé ria, é necessário explicar primeiramente o conceito dualista do catoli-
Apostólica. E especialmente, veneráveis irmãos, desejamos saber o que cismo acerca da natureza humana. Dito de fornia simples, os católicos
vós mesmos, em vosso sábio julgamento, pensais e desejais sobre essa e a maioria dos protestantes crêem que todo ser humano nasce com
questão. [...] Estamos certos de que será vosso prazer cooperar zelosa um corpo mortal e unia alma imortal. Observamos no capítulo 2 que,
e diligentemente com nossos desejos e que prontamente nos suprireis em anos recentes, muitos estudiosos católicos e protestantes rejeitaram
com as respostas que solicitamos."''" a teoria dualista platónica da natureza humana para abraçar a posição
Depois de apelar aos bispos para que aceitassem a crença na imaculada holística bíblica de corpo e alma.
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conceição de Maria e angariassem para ela o apoio popular, a encí- De acordo com a visão dualista, na concepção o corpo se forma no 257
clica continua declarando: "O fundamento de toda a nossa confiança, útero da mãe como resultado da inseminação do pai. No momento
como bem o sabeis, veneráveis irmãos, se encontra na bendita virgem da concepção do corpo, a alma é criada e infundida no corpo. O pro-
Maria. Pois Deus confiou a Maria os tesouros de todas as boas coisas, cesso recebe o nome de animação, isto é, a implantação de uma anima
a fim de que todos venham a saber que por intermédio dela obtemos (que é o termo latino para "alma") no corpo. Cada alma é infundida
toda esperança, toda graça e toda salvação. Pois é a vontade divina que no corpo com a mancha do pecado original. Em circunstâncias nor-
obtenhamos tudo por intermédio de Mana."33 Mais de 600 prelados mais, supõe-se que essa mancha seja removida pelo batismo logo após
responderam e, com exceção de quatro, todos aprovaram a definição o nascimento da criança.
papal da imaculada conceição. No caso de Maria, no entanto, a mancha do pecado original não
Note que essa encíclica papal expressa claramente o que a maioria foi removida pelo batismo, mas excluída completamente de sua alma
dos apologistas católicos tende a negar, a saber, a crença de que, por na hora da concepção. Em outras palavras, o corpo de Maria foi
intermédio de Maria, "obtemos toda esperança, toda graça e toda sal- infundido com uma alma pura, sem a mancha cio pecado original.
vação. Pois é a vontade divina que obtenhamos tudo por intermédio Além disso, foi-lhe conferida uma santidade especial, que excluiu
de Maria". Ao fazer de Mana a dispenseira de "toda esperança, toda do corpo dela a n'--.,, "Ca ae todas as emoções, paixões e inclinações
sjraça e toda salvação", a Igreja Católica exalta Maria à posição reden-