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TRÊS HISTÓRIAS DE LEITURA: SEXO, ANALFABETISMO E LETRAMENTO LITERÁRIO

O Leitor, Bernhard Schlink:


Romance contemporâneo alemão.
Tema principal: dilemas morais que todos vivemos em determinados momentos em
nossas vidas e o peso de nossas escolhas naquilo que somos.
1ª História: historia de amor
Um jovem de 15 anos, filho de um professor de filosofia, apaixona-se por uma mulher
de 36 anos, cobradora de bonde. Relação com componente de iniciação sexual para o
jovem e controlada pela mulher. Encontros com banho, sexo e leitura. O rapaz pouco
sabe sobre Hanna, que se recusa a falar de seu passado. Um dia ela abandona o
emprego e desaparece.
2ª historia: historia de exclusão social
Michael está concluindo o curso de Direito. Participa do julgamento de mulheres que
trabalhavam como carcereiras dos campos de concentração nazistas. Para sua
surpresa, descobre que uma delas é Hannah, que é julgada culpada e condenada à
prisão perpétua. Na condenação pesou, por um lado, sua atitude arrogante frente ao
Tribunal, quando se esperava arrependimento, e o fato de ter assumido que
selecionava as moças mais fracas para lerem para ela, poupando-as do trabalho duro
no campo, mas enviando-as para a morte certa em Auschwitz. Nesse julgamento, ele
percebe o segredo de Hanna, que justifica algumas de suas ações, é que ela é
analfabeta e essa é a razão que a leva a confessar coisas que não cometeu.
3ª historia: letramento literário
Michael se torna professor de Direito, resolve reencontrar Hanna por meio da leitura.
Sabendo que é analfabeta, passa a gravar e enviar para a prisão fitas cassetes em que
lê livros para ela. Após alguns anos, recebe uma carta em que ela agradece as fitas,
pois está aprendendo a ler. Cumpridos 18 anos de pena, Hanna será liberada. Michael
providencia o necessário para reintegrá-la, reencontrando-a pessoalmente uma
semana antes da liberação. Na véspera da saída, Hanna suicida-se em sua cela.
Michael descobre que quando Hanna aprendeu a ler, passou a devorar obras sobre o
holocausto e que, depois disso, Hanna muda de comportamento e busca cada vez mais
o isolamento e abandono de si mesma que culmina com a morte.

Começa com um mundo básico, higiene e sexo, e mediação da leitura, por meio de
Michael. Hanna deseja participar do mundo, mas não consegue por falta de domínio
da escrita. Por isso seu mundo é básico, reduzido e sente-se deslocada. Sociedade que
valoriza a escrita. Iletrada politica e juridicamente, Hanna não entende o que viveu e a
sua vergonha em admitir que não sabe ler só amplia suas dificuldades de inserção
social. Não saber ler levou a decisões desastrosas em sua vida. Não saber ler acaba por
ser uma barreira para ser e estar no mundo.
Quando aprende a ler, e aprendeu a ler lendo literatura, Hanna pode, finalmente, dar
sentido ao que viveu. Antes limitada pelo analfabetismo, Hanna conseguiu, por meio
de textos literários, adquirir consciência de sua vida e estabelecer um sentido para sua
experiência. O isolamento que buscou e abandono de seu corpo testemunham que ela
compreendeu as consequências funestas de seus atos, do que participou, do que
ajudou a construir. A questão é que, com a leitura dos livros, dos testemunhos sobre
os campos de concentração, Hanna passou a saber o que a levara até aquele ponto de
sua vida, a compreender não só o que havia acontecido em termos históricos, mas
também em si e para si mesma. E entender a si mesmo é adquirir consciência e se
localizar no mundo e localizar o mundo em seu horizonte de vida. Hanna havia
experienciado o mundo por meio das palavras – literatura testemunhal do holocausto,
e essa experiência havia dado um novo e terrível sentido ao que vivera concretamente,
mas que não conseguira até então realmente compreender. A partir do que leu, sua
realidade se transformou e o que foi vivido ganhou um novo significado, que o campo
de concentração na prática e o julgamento não puderam lhe dar, porque essas
vivencias a excluíam do mundo, eram movimentos de exclusão e Hanna não podia
compreender nem a eles, nem a si mesma dentro deles, porque eles não lhe
permitiam ver a si, o mundo e os outros em um todo coerente como a literatura lhe
proporcionou. É isso que faz o letramento literário. Ele inclui o leitor no mundo das
palavras, mas de uma maneira que proporciona uma integração profunda e singular no
universo letrado.
Ela se suicida porque não consegue contemplar a possibilidade de perdão, retomar a
vida “normal”, sem que se reconheça que se transformou, que agora é uma leitora.

Nessas 3 historias percebe-se que todos somos construídos tanto pelos textos que
atravessam culturalmente nossos corpos quanto pelo que vivemos. É nessa
intersecção entre vida e texto, linguagem e munda, que se localiza a literatura. É por
essa localização que o texto literário oferece ao leitor particularidades. Espaço
privilegiado de construção do que somos e da comunidade a que pertencemos. A
literatura permite que se viva o outro na linguagem, que se incorpore a experiência do
outro pela palavra, sem deixar de ser nós mesmos.

ENTRE VÍTIMA E PERPETRADOR


Helmut Galle
Hanna Schmitz não representa o perpetrador da SS exemplar, senão o seu oposto.
Trata-se de um livro sobre a relação entre a geração dos perpetradores / espectadores
e a geração dos seus filhos.
Resumo da obra:
O autor recorda seus 15 anos, quando se apaixona por uma mulher mais velha,
madura e maternal. Ela quer que seu amante leia para ela, em voz alta, os textos
estudados no colégio.
Anos depois, sendo estudante de direito, ele assiste com seus colegas a um processo
contra o pessoal da vigilância de um campo ligado a Auschwitz e reconhece sua antiga
amante entre as guardas acusadas. Ao contrario das outras, ela não se defende de
uma maneira astuta e assume a culpa da atrocidade central: durante o transporte para
o oeste, os judeus tinham sido aprisionados numa igreja e lá dentro foram queimados
durante um ataque de bombas, em que salvaram-se duas pessoas, uma mulher e sua
filha. Todas as acusadas negam sua responsabilidade, mas quando o juiz quer
comparar a letra escrita no relatório oficial daquele incêndio com a letra escrita de
Hanna, ela assume a culpa. Este comportamento e mais um detalhe levam o narrador
à solução do mistério: no campo ela tinha suas favoritas que liam para ela em voz alta.
Com esses dados e mais sua experiência pessoal, o protagonista compreende que ela
era analfabeta. Que, para esconder isso, mudou do seu emprego da Siemens para a SS,
e que ela agora aceita a pena de prisão para um crime que não cometeu.
Durante os anos do cárcere, ela recebe fitas gravadas do seu ex-amante e começa a
aprender a ler e escrever, acumulando uma biblioteca particularmente de textos sobre
os campos.
Um dia antes do fim da pena, ela se enforca na cela.
Deixa patente que a pessoa que representa o perpetrador nazi escapa ao estereotipo
do demônio sádico.
A ruptura entre a geração da guerra e a geração dos anos 1960 era possível primeiro
porque os laços de família, na sociedade contemporânea, estão se enfraquecendo
cada vez mais; e segundo porque a herança histórica era insuportável. A crítica e o
distanciamento era inevitável. A ruptura era necessária para que os fatos atrozes em
sua inteira complexidade viessem à tona. E para estabelecer um discurso político que
permitisse detectar e combater qualquer tendência suspeita a criar situações análogas
ao terceiro reich. E também por razões da identidade coletiva daquela geração, que
não podia se basear na identificação com os atores de um crime de tal dimensão. E
também para que a geração dos pais começasse a pensar de novo sobre seu passado.
Há fases da literatura a partir de 1945 – Jörn Rüsen – primeiro, ainda predominavam
pessoas ativas na época nazista, em que a literatura apresenta o ex-perpetrador sob
uma forma demoníaca. Em segundo, predominam os filhos que se encontram numa
relação vital com os responsáveis pelo Holocausto. Eles escolhem uma estratégia para
distanciar-se de tudo que levou ao desastre, excluindo uma parte de sua descendência
genética e histórica. Na ficção se encontram constelações que favorecem a vitimização
de representantes da segunda geração pela primeira. Por fim, a dos netos, já se
encontra em uma relação histórica com a segunda guerra. Pode assumir a
responsabilidade histórica como um elemento histórica da sua própria identidade.
Os filhos dos perpetradores não podem se aliviar da herança histórica. Eles se
encontram involuntariamente num contínuo vital, que os vincula à geração anterior.
Com vistas a uma identidade nacional e histórica dos alemães, será necessário
recuperar a geração dos culpados e manter, ao mesmo tempo, o significado negativo
do holocausto.
Para algumas pessoas, o modelo literário permite experimentar emoções e atitudes
até então consideradas tabus.
Será necessário assumir a herança da culpa e da vergonha e será necessário terminar
com a auto-estilização como vítima. A culpa dos pais alemães frente aos filhos não é a
mesma que a culpa frente aos judeus.

O LEITOR, DE BERNHARD SCHLINK


Micaela da Silva Marques Moura
Questões: quando nascemos temos de carregar a culpa das gerações anteriores? E
quando amamos alguém temos de nos sentir culpados por tudo que a outra pessoa fez
antes de nós a conhecermos? O leitor: experiências amorosas de um jovem rapaz de
15 anos, Michael Berg, com Hanna Schmitz de 36 anos, cujos encontros estão
marcados por um ritual: Michael lê alto para Hanna, tomam banho e depois fazem
amor. Isso dura um verão, até Hanna desaparecer.
7 anos depois Michael é estudante de direito e faz parte de um grupo de alunos que
assistem a um processo de acusação a ex-guardas de campos de nazis e, para a
surpresa de Michael, Hanna faz parte das acusadas. A partir daqui a historia desenrola-
se abordando temas que vão desde o conflito de gerações dos anos 60 na Alemanha, o
sentimento da vergonha, o analfabetismo, o dever moral de agir diante de uma
injustiça, a questão da culpa dos alemães, o direito à memoria e à verdade até ao
direito de defesa.
Temática do analfabetismo: Hanna faz tudo para que ninguém descubra que ela não
sabe ler ou escrever, colocando até sua liberdade em risco. Mas Michael descobre, e
isso gera nele sentimentos de culpa e responsabilidade. Fala com seu pai, professor de
filosofia, que fala sobre Kant e Hegel e questões morais. A distancia entre o
protagonista e seu pai reflete o conflito de gerações do pós-guerra alemão.
Dividido em 3 partes, anos 90, analepses cronológicas, perspectiva do eu-narrador,
entre o jovem e o adulto. Recorre-se a várias técnicas narrativas, como relato, discurso
direto e monólogos interiores.
Bernhard Schlink é jurista e professor da universidade de Humboldt em Berlim e
recebeu muitos prêmios pelo romance, que também se transformou em um filme, de
Stpehen Daldry.

DEMOCRACIA, TOTALITARISMO E ANALFABETISMO EM O LEITOR, DE BERNHARD


SCHLINK
A literatura possibilita dialogar sobre momentos importantes da historia, trazendo as
memorias, diálogos e olhar de protagonistas e outras pessoas que vivenciaram o
período. A obra de Schlink nos permite descortinar as memorias de um momento da
historia em que as pessoas foram transformadas em peças de um Estado, agindo não
como sujeitos autônomos, com valores éticos-morais, mas supostamente em nome de
um bem coletivo maior, que seria a construção de uma nação forte.
Hanna Schmitz e o mal banal
Mundo obrigado a prestar contas com os horrores de um passado ainda vívido, do
Holocausto. Para isso, surgiram muitas ficções, como a de Schlink. Constitui-se de
memorias o relato de seu narrador-personagem, Michael Berg, um homem de meia
idade, que olha em retrospecto acontecimentos que o marcaram aos 15 anos de
idade, quando tem um caso de amor com uma mulher 20 anos mais velha, Hanna
Schmitz. Depois de um tempo, ele a reencontra no banco dos réus em um tribunal de
crimes de guerra.
Contado em 3 partes, em enredo fragmentado, com quebra de cronologia, permeadas
por fluxos temporais, com avanços e recuos. Estrutura não linear.
Primeira parte: rememora a paixão e relação com Hanna, seus encontros amorosos,
com um ritual definido por ela: banho, leitura de obras literárias, amor. A relação
chega ao fim quando Hanna, misteriosamente desaparece.
Segundo momento: sete anos depois da separação, Michael acompanha o julgamento
de acusados de guerra como parte das atividades de seminário do curso de Direito. No
tribunal, 5 mulheres são julgadas e, dentre estas, Hanna. Nesse contexto, revela-se um
pouco mais sobre ela. Descobre-se que, durante a guerra, Hanna alistara-se na SS, indo
trabalhar como guarda em um campo de concentração. A principal peça de acusação
recai sobre a morte de mulheres prisioneiras, deixadas queimar no interior de uma
igreja em chamas, cujas chaves das portas estariam sob o controle das 5 guardas.
Durante o processo de julgamento, Hanna tem um comportamento patético e absurdo
sobre os fatos da acusação, com posicionamentos que ajudam a incriminá-la ainda
mais.
O enigma é decifrado quando Michael junta as peças e infere que o real motivo de
Hanna ter tal atitude seria o fato ocultado por ela veementemente de ser analfabeta.
Revelado o segredo de Hanna.
Nazismo, direitos humanos e democracia
1933: Adolf Hitler – chanceler. Massacres implementados como política de Estado,
baseados em discursos morais e antiliberais. Predomínio do partido nazista. Nesse
sistema, a ordem normal seria aquela em que as pessoas servem ao Estado, ainda que
esse servir lhes roube direitos coletivos ou fira sua liberdade de consciência e seus
valores ético-morais. Assim, os agentes do sistema judiciário, ao invés de se colocarem
como guardiães, se aliaram ao executivo e ao legislativo para legitimar um Estado
pautado supostamente nos interesses da pátria, se superpondo às liberdades dos
componentes da sociedade. As ideologias que veem a necessidade de supressão da
política e de submissão de todos os indivíduos ao país, passando por cima dos direitos
dos grupos que compõem a sociedade, estão na base dos regimes totalitários.
Em O Leitor, a protagonista, Hanna, alega que suas ações como guarda da SS (a polícia
secreta nazista) se pautavam no cumprimento de ordens e no que devia ser feito. No
julgamento, quando questionada sobre o porquê de, em um incêndio na igreja, ela não
ter aberto as portas para que aquelas mulheres pudessem sair para escapar da morte,
Hanna surpreende ao alegar tão somente que seguia a ordem normal. Hanna não
questionava, fora contratada para seguir ordens e as seguia. Julgamento morais em
regimes pautados no interesse nacional acabam por destituir os indivíduos de suas
crenças e valores ético-morais, por isso não caberia discutir ou explicar, mas apenas
cumprir um dever, estabelecido como s ordem normal. O leitor traz a complexa
discussão sobre a relação ente direito e moral no mundo contemporâneo. Hanna
permite problematizar as vidas de milhares de pessoas que vivenciaram aquele
momento e tentaram cumprir seus deveres como cidadãos, como se tudo estivesse em
sua logica e ordem normais. Quando não conseguem enxergar os direitos das
mulheres aprisionadas em uma igreja em chamas, elas aceitam a retirada de suas
práticas culturais, crenças e valores éticos para assumir a condição de agentes do
Estado. O direito fica pervertido da condição de um instrumento para zelar pela
república em algo que existe no sentido de trazer benefícios a alguns a partir da
exclusão de muitos, tornando o estudo das obras literárias sobre o período
fundamentais para compreendê-lo.
Em o leitor, abrem-se as portas para um passado sombrio, em uma Alemanha povoada
por fantasmas do holocausto. Relatividade da situação, a desconstrução de Hanna, ao
ser encurralada em julgamento que a expõe e faz dela o monstro que deve ser julgado
e encarcerado, para dar fim a um passado que deve ser resolvido. Para além de vítimas
e carrascos, temos pessoas comuns que buscavam sobreviver dentro de um regime
político que as desumaniza, através das ideologias e das condições sociais impostas.
Eichmann X Hanna e a banalidade do mal (Schlink e Arendt)
Schlink opera dentro dos domínios de seu maior conhecimento e formação, pois é
jurista, professor de direito e de filosofia.
Dentre os livros mencionados em o leitor, Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a
banalidade do mal, de Hannah Arendt, é uma referencia crucial para a compreensão
da personagem Hanna. Essa obra, publicada em 1963, deriva da cobertura do
julgamento de Adolf Eichmann, agente da SS. foragido na Argentina, é capturado num
subúrbio de Buenos Aires, em 11 de maio de 1960 pela Mossad, polícia secreta de
israel, e levado a Jerusalém para ser julgado por seus crimes, dentre outros, contra o
povo judeu, sendo condenado à pena de morte por enforcamento. O julgamento
acontece tardiamente. Os materiais de Arendt saem publicados como artigos na The
New Yorker, e depois reunidos em livro. À época, suas reflexões levantaram polemicas.
Um dos motivos é por que contrariou as expectativas, já que Arendt, uma judia
evadida de um campo de concentração, não vira em Eichmann um monstro
sanguinário, espumando ódio aos judeus, como muitos esperavam. No tribunal de
Jerusalém, encerrado em uma cabine de vidro, ela o achou um sujeito normal, pai de
família, comum. Fica-se sabendo que “os assassinos não eram sádicos ou criminosos
por natureza; ao contrario, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles
que sentiam prazer físico com o que faziam”. Na engrenagem nazista, tudo aparentava
uma normalidade, em que todos cumpriam burocraticamente os deveres do ofício,
culminando no extermínio – solução final. Sustentando-se nisso, Eichmann se defende
alegando ter sido apenas um funcionário consciencioso, cumprindo ordens de
superiores, esforçando-se para realiza-las de forma competente, da melhor maneira
possível com “zelo e dom de organização”. Se não fizesse isso, poderia ser punido, por
não realizar bem seu trabalho. E declara não nutrir ódio aos judeus, o que Arendt
avalia não ser mentira.
Arendt disseca a personalidade do acusado, revelando um homem vazio, habituado a
frases feitas. Juízes pensaram que esse vazio era fingido, mas não. Era uma conversa
genuinamente vazia, para Arendt, pois entende que o homem era vazio. Ele estava
sendo sincero. As pessoas não eram sádicas ou pervertidas, mas comportavam-se
dentro de uma normalidade, com apoio das massas. Teoria da engrenagem. Se não
fosse Eichmann, seria outro, pois a maquina burocrática nazista produzia seres
cumpridores de ordens. Extermínio racionalizado, logica de destruição em massa, que
transformou os sujeitos em “pequenos dentes da engrenagem”, com incapacidade de
pensamento, de reflexão e julgamento. Qualquer um poderia ser um Eichmann. Assim,
o mal se torna banal.
Confluência de reflexões entre os dois autores e entre Hanna e Eichmann. A
equivalência entre Hanna e Eichmann não é exata, simples ou linear, mas apresenta
pontos em comum e algo de essencial: a banalidade do mal.
Ambos têm como centro de discussão os julgamentos e tribunais da segunda guerra.
Arendt cobre o julgamento de Eichmann, Schlink o de Hanna. Sobre os acusados
recaem crimes de mesma natureza, aos quais reagem de maneira similar.
Hanna é analfabeta, Eichmann teve instrução escolar, mas teve percalços nisso, “não
conseguiu terminar a escola secundaria, nem se formar na escola vocacional para
engenharia. Ao longo de toda a sua vida, Eichmann enganou as pessoas sobre suas
primeiras dificuldades”.
Os dois têm reações patéticas aos interrogatórios. Hanna demonstra não ter
capacidade de reflexão sobre o significado das ações. Alega cumprimento de dever.
Eichmann: incompetência com a forma de se expressar: sua única língua: “oficialês”.
“Sempre foi genuinamente incapaz de pronunciar uma única frase que não fosse um
clichê.
Atualidade do problema: a banalidade do mal, sendo a incapacidade de pensamento,
reflexão e julgamento, podendo ser produzida por seres normais, comuns e não por
sádicos, pervertidos, pode se manifestar sempre que essas condições se
apresentarem. As portas para a banalidade do mal devem estar sempre sob vigia.
Hanna Schmitz e a transfiguração do mal na vergonha de ser analfabeta
Desumanização em função da ausência da capacidade de ler e escrever. Estigma do
analfabetismo como rebaixamento de sua condição humana. Bastaria Hanna ter dito
ao juiz que era analfabeta e que, portanto, não poderia ser autora daquele fatídico
relatório para que esta peça de acusação perdesse em parte seu potencial probatório
de culpabilidade. Mas ela submete-se à sanção para fugir da degradação da vergonha
de ser analfabeta. Relação de poder e dominação entre letrados e iletrados.
Na engrenagem nazista, Hanna era isso: apenas a força de trabalho braçal. Era um
dente dessa engrenagem. Precisava cumprir seus deveres como cidadã fazendo o
trabalho para o qual fora contratada. Não tinha competência para avaliar / ponderar
as ordens recebidas e nem precisava fazê-lo porque o lugar destinado nas sociedades
ocidentais para os analfabetos é esse: o do cumprimento tácito e subserviente das
decisões tomadas pelo polo oposto na escala do letramento, o pensador, aquele que
sabe, conhece, porque é detentor do código no qual são cifradas tais decisões.
Do relativo desamparo à redenção e da redenção ao desamparo absoluto