Você está na página 1de 8

Documentação fotográfica em MO 485

PROPOSTA DE DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA


EM MOTRICIDADE ORAL
Oral motricity photographic registration proposal
Michelly Cristina da Silveira (1), Cássia Sígolo (2), Maíra Quintal (3), Eulália Sakano(4), Adriana Tessitore (5)

RESUMO

Objetivo: propor um protocolo específico para documentação fotográfica do paciente na área de


Motricidade Oral. Método: foi utilizada uma câmera digital fixada em um tripé e foram realizadas
fotografias padronizadas corporais e de face. Realizou-se ainda, a teleradiografia lateral contrastada
com bário sobre a língua. Resultados: as fotografias facilitaram a visualização dos nossos resultados
terapêuticos. Conclusão: concluiu-se que a documentação proposta auxilia no diagnóstico e no estu-
do do prognóstico do paciente, bem como, pode ser utilizado como material auxiliar nas orientações
aos responsáveis e ao paciente.

DESCRITORES: Documentação; Fotografia; Fonoaudiologia

■ INTRODUÇÃO No decorrer do tempo, alguns profissionais per-


ceberam a importância de usar, e, até mesmo,
A Motricidade Oral (MO) é definida como o campo criar protocolos específicos para que pudessem
da Fonoaudiologia voltado para o estudo e/ou pesqui- obter parâmetros e registros mais confiáveis. Os
sa, bem como para a prevenção, avaliação, diagnós- fonoaudiólogos da área de MO também procura-
tico, desenvolvimento, habilitação, aperfeiçoamento ram desenvolver parâmetros, que lhes dessem a
e a reabilitação dos aspectos estruturais e funcio- possibilidade de registrar os dados iniciais e con-
nais, das regiões orofaciais e cervicais 1. firmar as mudanças que ocorrem nos pacientes
já tratados 2.
A área da motricidade oral atuou durante mui-
(1)
Fonoaudióloga do Setor de Fonoaudiologia do Ambulatório tos anos de maneira empírica, avaliando as es-
de Respiração Oral da Disciplina de Otorrinolaringologia no truturas – lábios, língua, bochechas e funções
Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas;
Terapeuta no Conceito de Reabilitação Orofacial e Corporal
orofaciais – de maneira subjetiva, isolada, sem
Castillo Morales. fazer relação com os aspectos ósseos e
(2)
dentários. O fonoaudiólogo tinha dificuldade em
Fonoaudióloga do Setor de Fonoaudiologia do Ambulatório
de Respiração Oral da Disciplina de Otorrinolaringologia no estabelecer parâmetros que facilitassem o diag-
Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas; nóstico. Em muitos casos, ficava sem resposta o
Mestranda em Saúde da Criança e do Adolescente pela porquê de alguns pacientes evoluírem mais rapi-
Universidade Estadual de Campinas.
damente e melhor 3.
(3)
Fonoaudióloga do Setor de Fonoaudiologia do Ambulatório Os fonoaudiólogos precisam e devem filmar e
de Respiração Oral da Disciplina de Otorrinolaringologia no fotografar sua avaliação, para que assim possam
Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas;
Especialista em Motricidade Oral; Terapeuta no Conceito de
documentar e comprovar o que foi visto, assim
Reabilitação Orofacial e Corporal Castillo Morales. como apreciar as melhoras decorrentes do trata-
(4)
mento 4,5.
Médica otorrinolaringologista; Chefe do Ambulatório de
Respiração Oral do Hospital das Clínicas da Universidade Para atuação nessa área, é imprescindível a reali-
Estadual de Campinas; Doutora em Ciências Médicas pela zação de uma entrevista inicial, uma avaliação clínica
Universidade Estadual de Campinas. e uma avaliação miofuncional, bem detalhadas. Com
(5)
Fonoaudióloga Responsável pelo Setor de Fonoaudiologia o objetivo de tornar-se mais fidedigna, faz-se necessá-
do Ambulatório de Respiração Oral da Disciplina de ria a complementação por meio de documentação fo-
Otorrinolaringologia no Hospital das Clínicas da tográfica da face, da relação oclusal dentária e da pos-
Universidade Estadual de Campinas; Doutoranda em
Ciências Médicas pela Universidade Estadual de Campinas;
tura corporal. A análise funcional é tão importante quan-
Especialista em Motricidade Oral e Professora do Centro to a análise estática que é realizada por meio de filma-
de Especialização em Fonoaudiologia Clínica. gem das funções estomatognáticas 6.

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006


486 Silveira MC, Sígolo C, Quintal M, Sakano E, Tessitore A

Os fonoaudiólogos especialistas em motricidade importante o uso da análise radiográfica com uti-


oral têm tido uma preocupação constante, a respeito lização de contraste, seguindo normas que as-
de uma avaliação mais quantitativa/ qualitativa e os segurem a manutenção da posição da coluna
progressos possam ser mensurados antes e depois cervical e do complexo orofacial, para comple-
do tratamento 7,8. mentar a análise fonoaudiológica das estruturas
Com a evolução da atuação e estudos frente à do sistema estomatognático 16,17.
MO, tais registros ficaram cada vez mais importan- Sabe-se que a postura corporal global interfere na
tes. No entanto, por mais que a documentação posição da cabeça, que por sua vez é diretamente
odontológica venha sendo aprimorada, não é sufici- responsável pela postura da mandíbula e da língua
ente para que o fonoaudiólogo consiga obter informa- na cavidade oral. Isso é, comprovado porque há, na
ções, que venham a suprir as necessidades para um relação do crânio com a coluna cervical, uma inter-
diagnóstico mais preciso das partes moles e das fun- venção entre mandíbula e osso hióide. A relação en-
ções desenvolvidas pela região orofacial 9. tre sistema estomatognático e postura de cabeça
Assim, sugere-se manter documentação dos pa- também pode ser estabelecida se considerarmos que
cientes com fotos, exames clínicos, radiografias, as duas regiões possuem algumas conexões nervo-
vídeos e fitas gravadas de entrevistas 10. Com isto, sas em comum. A posição anormal da cabeça altera
poder-se-á fazer uma avaliação mais global do paci- as relações bio-mecânicas crânio-faciais e crânio-
ente 11. mandibulares influindo no crescimento e na postura
Quando à permissão do paciente e/ou responsá- corporal do indivíduo, sendo importante a
veis (conforme o caso), deve-se fotografar e filmar o interceptação dos desvios funcionais nos seus está-
mesmo a cada dois ou três meses para controle pre- gios iniciais 18-20.
ciso das modificações e resultados finais. O profissi- A cabeça mal posicionada em relação ao pesco-
onal deve objetivar o exame e tratamento a fim de ço compromete sua musculatura (principalmente o
mostrar ao paciente e outros profissionais o que a músculo escaleno, o esternocleidomastóideo e o
Fonoaudiologia pode fazer. A comprovação de dados platisma) e acarreta alterações para a coluna no in-
ajuda a tornar a profissão mais científica 12. tuito de compensação 21.
A documentação estática é necessária para rela- Apenas quando conhecemos os processos fisio-
cionar a postura crânio-oro-cervical com a postura lógicos normais é possível entender os diversos pro-
corporal. Com esta documentação, integra-se à ava- cessos patológicos na região do complexo orofacial.
liação estática a funcional, verificando quais as ca- Função é cada atividade e cada mudança. É o termo
pacidades para a execução das funções genérico que relaciona cada parte do complexo
estomatognáticas, a mímica e as dificuldades do com- orofacial e os transforma num sistema dinâmico atra-
plexo orofacial 13. vés de atividades coordenadas. A alteração de qual-
É importante a relação entre crânio, coluna cervical quer parte do complexo orofacial manifesta-se não
e sistema estomatognático, devendo, suas estrutu- apenas localmente, mas perturbando o equilíbrio do
ras serem avaliadas em conjunto e tratadas de modo sistema orgânico. O sistema estomatognático não
integral 14,15. pode separar-se de sua relação com as estruturas
Dentro da documentação dos pacientes de anatômicas da cabeça e do pescoço, devendo ser
MO, a teleradiografia lateral com uso de contraste examinadas e tratadas integralmente 22,23.
radiopaco deve ser considerada exame comple- Existe um número crescente de trabalhos que
mentar 2. apontam as inter-relações entre funções
Por meio desta é possível uma visibilização mais estomatognáticas e postura de cabeça ou postura
objetiva da língua, isto é, visibilizar as diversas regi- corporal global, quer seja mostrando as influências
ões desta e sua relação com as estruturas vizinhas, dessas relações na postura dos órgãos
com o osso hióide, a coluna cervical e o crânio. As fonoarticulatórios, ou apontando a importância de um
estruturas crânio-oro-cervicais mantêm uma estreita correto posicionamento para a prática de exercícios
relação entre si, portanto interferem na posição habi- orofaciais, ou ainda, propondo novos métodos de tra-
tual da língua. A língua sendo um tecido mole, pode balho abrangendo técnicas corporais 24-27.
ser alterada por qualquer movimento de extensão ou Sabe-se que o corpo humano não é constituído
flexão da cabeça 16,17. por compartimentos estanques. Estuda-se seu fun-
Em sua evolução histórica a Fonoaudiologia cionamento de forma dividida, por motivos didáticos,
freqüentemente baseia-se em análises subjeti- mas ele trabalha harmoniosamente de forma
vas, não padronizadas, para a avaliação da posi- encadeada e organizada, se inter-relacionando. En-
ção da língua. A importância de uma análise ob- controu-se significância entre a mastigação e a pos-
jetiva decorre da necessidade de obtenção de tura corporal. As alterações posturais devem ser
dados clínicos, que comprovem as possibilida- corrigidas para que se possa ter uma mastigação e
des de acomodação da língua em cada caso. É deglutição adequadas 28,29.

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006


Documentação fotográfica em MO 487

Deve-se observar a atitude postural funcional ade- · Vista anterior


quada sem deixar de lado os apoios e as funções · Vista posterior
dos pés, visando regular a postura com conceitos · Vista lateral direita
neurofisiológicos modernos e analisando como es- · Vista lateral esquerda.
tes fatores incidem no complexo orofacial. As com- A iluminação deficiente ou superexposição da luz
pensações, bloqueios e fixações corporais devem ser podem provocar sombras que acentuam pregas e ci-
avaliados na postura global e relacionados aos movi- catrizes, distorcendo uma realidade. Recomenda-se
mentos e posturas orofaciais 30. o flash eletrônico ou adaptar a sala como estúdio fo-
O uso de protocolos específicos de documenta- tográfico para tomadas de fotografias pré e pós-trata-
ção fonoaudiológica tem melhorado o raciocínio clíni- mento 33,34 .
co na busca de diagnóstico e prognóstico mais apro- Em relação ao fundo fotográfico, o mesmo preci-
priado no distúrbio miofuncional orofacial 31. sa ser liso, uniforme e opaco para evitar reflexos 35.
Atualmente, lança-se mão de exames comple- No enquadramento da fotografia científica o moti-
mentares que não vem substituir o exame clínico que vo principal deve ficar no centro da moldura e nunca
continua indispensável, utilizam-se documentações em posição excêntrica 36.
enriquecendo o nosso diagnóstico e prognóstico 32. Alguns cuidados foram tomados no
A tecnologia fornece dados que facilitam não só a posicionamento do paciente para uma adequada pa-
anamnese, mas o prognóstico, o tratamento dronização fotográfica. O mesmo manteve a cabeça
fonoaudiológico e multidisciplinar 21. posicionada com seu olhar dirigido horizontalmente.
Partindo desta premissa, de que o fonoaudiólogo Para isso, foram afixados alguns pontos de referên-
necessita da documentação como apoio para melhor cia demarcados previamente nas paredes da sala. É
desenvolver seu trabalho, é que se tem como objetivo importante lembrar que para as fotografias da face e
propor um protocolo específico para documentação pescoço, a região cervical deve estar sempre desco-
fotográfica do paciente na área de MO. berta, o paciente não deve portar óculos, boné, brin-
cos, colar, jóias, lenço ou qualquer outro objeto e as
■ MÉTODOS mulheres não devem usar maquiagem.
Para que a documentação de imagens na pesqui-
A casuística foi constituída por pacientes do Am- sa científica torne seus resultados passíveis de
bulatório de Respiração Oral da Disciplina de mensuração, é fundamental que sejam seguidas as
Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Uni- padronizações propostas, principalmente quanto às
versidade Estadual de Campinas. posições e os ângulos fotográficos. Dessa forma, tor-
Foram avaliados 50 pacientes, sendo excluídos os na-se possível a reprodução das imagens para o
que não apresentavam respiração oral. Destes, 25 eram mesmo e outros pacientes, assim como no pré e pós-
do gênero feminino e 25 do gênero masculino. A idade tratamento 33.
variou de 05 a 15 anos. A coleta foi realizada no segun- Para a teleradiografia lateral contrastada, o paci-
do atendimento no próprio ambulatório. ente permaneceu em pé e descalço com a cabeça
Para esta proposta de documentação foi utilizada em posição de maior conforto. Foi espalhada uma
a câmera fotográfica digital Sony, modelo Mavica FD75, camada fina de contraste de sulfato de bário sobre a
pela facilidade de rápida visualização e garantia do superfície da língua e a radiografia foi tomada após
bom resultado 33. uma deglutição espontânea.
Para fotos faciais, fixamos a câmera em um tripé A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de
a uma distância de 1,5m do paciente, que permane- Ética em Pesquisa do Centro de Especialização em
ceu sentado na frente do terapeuta. A centralização Fonoaudiologia Clínica, sob número164/05.
da fotografia foi feita no terço médio da sua face. Não
foi utilizado zoom, exceto no registro do vedamento ■ RESULTADOS
labial e da mordida com abridor de boca.
O paciente foi fotografado nos seguintes ângulos 6,13. A análise comparativa das fotos pré e pós trata-
· Face com lábios entreabertos mento demonstra os resultados do tratamento
· Face com vedamento labial mioterápico. É ilustrado apenas um caso como
· Aproximação do vedamento labial exemplificação da proposta.
· Perfil facial com lábios entreabertos O caso demonstrado neste artigo é do gênero
· Perfil facial com vedamento labial masculino, 14 anos, respirador oral por desvio de
· Foto da mordida com abridor de boca. septo. O tratamento fonoterápico iniciou-se após
Para fotos corporais, o paciente permaneceu de a cirurgia de correção do desvio de septo nasal.
pé. A distância do paciente foi estabelecida de acor- Iniciou o tratamento em 05/02/2003 e terminou em
do com altura do mesmo. A centralização foi feita na 07/08/2003, portanto com intervalo de seis meses
região do umbigo. de tratamento.

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006


488 Silveira MC, Sígolo C, Quintal M, Sakano E, Tessitore A

Na seqüência são apresentadas as documenta- A Figura 9 (pré-tratamento) demonstra a oclusão


ções fotográficas comparando o pré e o pós-trata- dentária com uma linha de espaçamento entre os
mento fonoaudiológico. dentes. Na Figura 10 (pós-tratamento) a oclusão
Na Figura 1, realizada com o paciente com os dentária apresenta-se equilibrada, com todos os en-
lábios entreabertos, pode-se observar que o lábio caixes dentários.
superior está levemente encurtado, pois a gengiva da Na análise corporal, o fonoaudiólogo pode verifi-
região incisiva está exposta, e as comissuras labiais car a ocorrência ou não de alterações posturais,
apresentam-se levemente abaixadas. Já na Figura 2 para que, se necessário, realizar o encaminhamento
(pós-tratamento), nota-se que o lábio superior está adequado.
mais ativo cobrindo toda a gengiva antes exposta. A Figura 11 (foto corporal frontal) demonstra
Na Figura 3 (pré-tratamento), nota-se abaixa- as assimetrias de ombros, mamilos, mãos; ob-
mento das comissuras labiais com assimetrias, em serva-se também a inclinação da cabeça para a
que a comissura direita apresenta-se mais abaixa- esquerda.
da comparada com a esquerda. A mesma Na Figura 12 (foto corporal dorsal) verifica-se a
assimetria manifesta-se em toda a face, nas nari- assimetria de ombros mais evidenciada, assimetria
nas e nos olhos. Na Figura 4 (pós-tratamento), nota- de altura das mãos e o “S” na coluna vertebral
se um equilíbrio facial. deflagrando uma possível escoliose.
A Figura 5 (pré-tratamento) ressalta-se a hiperatividade Nas Figuras 13 e 14 observa-se a relação de
da região do mento, assim como a sucção labial execu- cabeça e pescoço com o corpo e, neste caso, a
tada pelo paciente para conseguir vedar os lábios. No cabeça apresenta-se anteriorizada em relação ao
pós-tratamento (Figura 6) nota-se o quanto a musculatu- corpo. Nota-se também uma hiperextensão de jo-
ra mentual se equilibrou, assim como os lábios. elhos. Somando aos achados das Figuras 11 e
No perfil facial pré-tratamento é evidente a 12, foi sugerido o encaminhamento para um fisio-
anteriorização da mandíbula e de toda hiperatividade terapeuta realizar uma avaliação mais aprofundada
do mento. O ângulo naso-labial apresenta-se aberto da postura corporal 6,13.
(Figura 7). Na Figura 8 (pós-tratamento) nota-se mo- A Figura 15 demonstra a posição habitual da lín-
dificação da postura da mandíbula, diminuição do gua que neste caso encontra-se com o ápice e dorso
ângulo naso-labial e equilíbrio da musculatura lingual rebaixados sem vedamento posterior com
mentual e labial. palato mole 16,17.

Figura 1 - Face frontal com lábios entreabertos Figura 2 - Face frontal com lábios entreabertos
Pré-tratamento (05/02/2003) Pós-tratamento (07/08/2003)

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006


Documentação fotográfica em MO 489

Figura 3 - Face frontal com oclusão labial Figura 4 - Face frontal com oclusão labial
Pré-tratamento (05/02/2003) Pós-tratamento (07/08/2003)

Figura 5 - Definição maior da oclusão labial Figura 6 - Definição maior da oclusão labial
Pré-tratamento (05/02/2003) Pós-tratamento (07/08/2003)

Figura 7 - Perfil facial Figura 8 - Perfil facial


Pré-tratamento (05/02/2003) Pós-tratamento (07/08/2003)

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006


490 Silveira MC, Sígolo C, Quintal M, Sakano E, Tessitore A

Figura 9 - Oclusão dentária Figura 10 - Oclusão dentária


Pré-tratamento fonoaudiológico (05/02/2003) Pós-tratamento fonoaudiológico (07/08/2003)

Figura 11 - Figura 12 - Figura 13 - Figura 14 -


Foto corporal frontal Foto corporal dorsal Foto corporal direito Foto corporal esquerdo

Figura 15 - Teleradiografia lateral com contraste na língua - PHL: Ápice e dorso da língua rebaixados
sem vedamento posterior em palato mole

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006


Documentação fotográfica em MO 491

■ DISCUSSÃO fonoaudiólogo pensar sobre as compensações


adotadas por cada indivíduo, bem como a necessida-
Por meio da documentação fotográfica proposta de de intervenção de outros profissionais para melhor
pode-se observar com clareza a real evolução do pa- evolução do caso.
ciente durante o processo terapêutico, bem como É importante que o fonoaudiólogo desperte seu
utilizar o material como auxílio nas orientações e interesse pela pesquisa e divulgação de resultados
explicações dadas ao mesmo. obtidos no atendimento clínico, pois assim, poderá
Muitos autores já relatavam a necessidade da dividir experiências e multiplicar conhecimentos na
busca de artifícios que colaborassem com a avalia- sua própria área ou nas áreas afins.
ção fonoaudiológica no sentido de torná-la mais ob- Portanto, um mesmo protocolo, aplicado sempre
jetiva 2-10,31. da mesma maneira, em muitos indivíduos, fornece
Afirmam ainda que, a utilização de acompanha- muitas possibilidades, pois se torna um verdadeiro
mento fotográfico é muito importante, pois é possível banco de dados 2.
concretizar tal trabalho, mostrando a evolução do tra- Este trabalho traz uma proposta para a padroni-
tamento além de ser um recurso que enriquece mui- zação da documentação fonoaudiológica para os
to a terapêutica 6,9. casos de Motricidade Oral, sugerindo a
Vale lembrar que a utilização de exames comple- complementação de fotos corporais e do raio-X de
mentares não vem substituir de modo algum o exa- língua. Todos os outros trabalhos publicados sobre
me clínico detalhado que continua fundamental e in- documentação fotográfica não têm o foco nas rela-
dispensável 6,14,21. ções posturais, assim como o posicionamento ha-
Conforme demonstrou a literatura, é fundamental bitual da língua 4-6,9,31-35.
analisar o complexo orofacial junto à postura corpo-
ral, uma vez que o sistema estomatognático não pode ■ CONCLUSÃO
separar-se de sua relação com a cabeça e o pesco-
ço, sendo eles indissociáveis, tal como uma unidade Concluiu-se que a documentação proposta auxi-
sincrônica 13,14,18, 20,23,28,30. lia no diagnóstico e no estudo do prognóstico do pa-
As imagens registradas facilitam uma visão mais ciente, bem como pode ser utilizada como material
ampla quanto à relação craniocervical, permitindo o auxiliar nas orientações a pais e paciente.

ABSTRACT

Purpose: to propose a specific protocol for photographic register of Oral Motricity patients. Methods:
a digital camera mounted on a tripod was used. Standardized photos of body and face were taken. A
tele-radiography modified by using contrast with barium which was spread over the patient’s tongue
was taken. Result: the pictures made easy the visualization of our therapeutic results. Conclusion:
so far it is possible to conclude that the proposed documentation helps in the diagnosis process and
prognosis analysis, and it may be used as supplementary material for guiding patients and parents on
the best treatment to follow.

KEYWORDS: Documentation; Photography; Speech, Language and Hearing Sciences

■ REFERÊNCIAS 4. Marchesan IQ. Como avalio e trato as alterações da


deglutição. In: Marchesan IQ, organizadora. Tratamento da
1.Documentos oficiais 01/2001 e 02/2002 do Comitê deglutição: a atuação do fonoaudiólogo em diferentes paí-
de Motricidade Oral (MO) da Sociedade Brasileira de ses. São José dos Campos: Pulso; 2005. p. 149-211.
Fonoaudiologia (SBFa). 5. Marchesan IQ. Avaliando e tratando o sistema
2.Marchesan IQ. Protocolo de avaliação miofuncional estomatognático. In: Lopes Filho OC, organizador. Tratado
orofacial. In: Krakauer LH, Di Francesco RC, de fonoaudiologia. São Paulo: Roca; 1997. p. 763-80.
Marchesan IQ, organizadores. Respiração oral: abor- 6. Tessitore A. Abordagem mioterápica com estimulação
dagem interdisciplinar. São José dos Campos: Pul- de pontos motores da face. In: Marchesan IQ, Bolaffi C,
so; 2003. p. 55-80. Gomes ICD, Zorzi JL, organizadores. Tópicos de
3.Rahal A, Pierotti S. Eletromiografia e cefalometria na fonoauidologia. v. 2. São Paulo: Lovise. 1995. p. 75-82.
fonoaudiologia. In: Ferreira LP, Befi-Lopes DM, Limongi 7. Junqueira P. Avaliação e diagnóstico fonoaudiológico em
SCO, organizadores.Tratado de Fonoaudiologia. São motricidade oral. In: Ferreira LP, Befi-Lopes DM, Limongi
Paulo: Roca; 2004. p. 237-53. SCO, organizadores. Tratado de fonoaudiologia. São Pau-

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006


492 Silveira MC, Sígolo C, Quintal M, Sakano E, Tessitore A

lo: Roca; 2004. p. 230-6. terapia. In: Coelho-Ferraz MJP, organizadora. Respi-
8. Rahal A, Lopasso FP. Eletromiografia dos músculos rador bucal uma visão multidisciplinar. São Paulo:
masseteres e supra-hiódeos em mulheres com oclusão Lovise; 2005. p. 209-18.
normal e com má oclusão classe I de Angle durante a fase 20. César AM, Garibaldi A, Di Nino CQM, Krakauer L. A
oral da deglutição. Rev CEFAC. 2004; 6(4):370-5. influência da postura de cabeça no padrão mastigatório.
9. Tanigute CC. A documentação como ferramenta para o Rev CEFAC. 2004; 6(3):259-65.
diagnóstico e controle de terapia. In: Marchesan IQ, 21. Mendes AFT, Barbosa TC, Nicolosi R. Enfoque
organizadora. Tratamento da deglutição: a atuação do fonoaudiológico. In: Coelho-Ferraz, organizadora. Respira-
fonoaudiólogo em diferentes países. São José dos Cam- dor bucal uma visão multidisciplinar. São Paulo: Lovise; 2005.
pos: Pulso; 2005. p.107-16. p. 181-94.
10. Carvalho GD. SOS respirador bucal: uma visão funcional 22. Castillo-Morales R. Terapia de regulação orofacial. São
e clínica da amamentação. São Paulo: Lovise; 2003. 63 p. Paulo: Memnon; 1999. 195 p.
11. Tessitore A. Intervenção fonoaudiológica breve junto 23. Krakauer LH, Guilherme A. Relação entre respiração
à odontologia. In: Sociedade Brasileira de bucal e alterações posturais em crianças: uma análise des-
Fonoaudiologia, organizadora. Fonoaudiologia hoje. critiva. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 1998; 2(1):18-25.
Collectanea Symposium – Série Medicina & Saúde. São 24. Sampaio MA. O respirador bucal uma visão holística.
Paulo: Frôntis; 1998. p. 111-20. In: Coelho-Ferraz, organizadora. Respirador bucal uma vi-
12. Marchesan IQ. Avaliação e terapia dos problemas da são multidisciplinar. São Paulo: Lovise; 2005. p. 63-78.
respiração. In: Marchesan IQ, organizadora. Fundamentos 25. Walpin LA. Posture: the process of body use: principles
em fonoaudiologia: aspectos clínicos da motricidade oral. and determinants. In: Gelb H. New concepts in
Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 1998. p. 23-6. craniomandibular and chronic pain management. London:
13. Tessitore A. Alterações oromiofuncionais em res- Mosbu-Wolfe; 1994. p. 373.
piradores orais. In: Ferreira LP, Befi-Lopes DM, Limongi 26. Cunha DA, Silva HJ, Fontes MC, Paixão C, Maciel A.
SCO, organizadores. Tratado de Fonoaudiologia. São Reeducação postural global (RPG): contribuições ao paci-
Paulo: Roca; 2004. p. 261-76. ente respirador oral em fonoterapia. Rev Soc Bras
14. Rocabado M. Relaciones biomecanicas de las Fonoaudiol. 2002; 7(2):53-9.
regiones craneales, cervicales e hioideas. Ortodoncia. 27. Vilanueva P, Valenzuela S, Santander H, Zúñiga C, Ravera
1994; 58(115):51-6. MJ, Miralles R. Efecto de la postura de cabeza em
15. Silva APPP, Vitaluio RAB, Martinez M, Chiappetta mediciones de la via aérea. Rev CEFAC. 2004; 6(1):44-8.
ALML. Correlação entre postura corporal e mastigação 28. Barbarisi FG, El Hage SMD, Tessitore A, Mitre EI. Atu-
após a dentição mista. Rev CEFAC. 2004; 6(4):363-9. ação do impluso distal de pés e mãos na emissão da síla-
16. Tessitore A, Crespo NA. Análise radiográfica da posição ba (te). Rev CEFAC. 2004; 6(4):350-7.
habitual de repouso da língua. Pró-Fono R Atual Cient. 29. Bonatto MTRL, Silva MAA, Costa HO. A relação entre
2002; 14(1):7-16. respiração e sistema sensório-motor oral em crianças
17. Mory MR, Baroni LEC, Tessitore A, Assencio-Ferreira disfônicas. Rev CEFAC. 2004; 6(1):58-66.
VJ. Análise radiográfica da posição habitual da língua nos 30. El Hage SMD. Proposta fonoaudiológica para avaliação
portadores de distoclusão. Rev CEFAC. 2003; 5(6):231-4. da alimentação em pacientes com paralisia cerebral: abor-
18. Silva KLL, Limongi SCO, Flabiano FO, De Val DC. dagem preliminar. Rev Cienc Med. 2001; 10(2):57-63.
Relação entre a postura corporal e a respiração em 31. Silva JH, Cunha DA. Avaliação e tratamento das
crianças com alterações sensório-motoras. Rev Soc alterações da deglutição. In: Marchesan IQ,
Bras Fonoaudiol. 2004; 9(1):25-31. organizadora. Tratamento da deglutição: a atuação
19. Carvalho FM. O respirador bucal na visão da fisio- do fonoaudiológico em diferentes países. São José
dos Campos: Pulso; 2005. p. 133-48.
32. Silva HJ, Cunha DA. Considerações sobre ouso
do paquímetro em motricidade oral. Rev Cons Fed
Fonoaudiol. 2003; 2(4):59-64.
33. Hochman B, Nahas FX, Ferreira LM. Fotografia
aplicada na pesquisa clínico-cirúrgica. Acta Cir Bras.
Recebido em: 19/07/2006 2005; 20(2):19-25.
Aceito em: 09/10/2006 34. Morello DC, Converse JM, Allen D. Making uniform
photographic records in plastic surgery. Plast
Endereço para correspondência: Reconstr Surg. 1977; 59(3):366-72.
Rua Boaventura do Amaral, 736 / 91 35. DiBernardo BE, Adams RL, Krause J, Fiorillo
Campinas – SP MA, Gheradini G. Photographic standards in plastic
CEP: 13015-190 surgery. Plast Reconstr Surg. 1998; 102(2):559-68.
Tel: (19) 32540342 36. Zarem HA. Standards of photography. Plast
E-mail: michellycs@hotmail.com Reconstr Surg. 1984; 74(1):137-46.

Rev CEFAC, São Paulo, v.8, n.4, 485-92, out-dez, 2006