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Revista SymposiuM

A entrevista inicial na clínica paper, attention focuses on the first interview in


the Speech Therapy Clinic.
fonoaudiológica The way the interview is conducted by most speech
therapists is still heavily influenced or even based
Profa. Flávia Luiza Costa do Rego on the medical model: the so-called anamnesis,
which tends to produce a questionnaire of the
Resumo guided interview type, which inevitably results in
a question/ answer scheme.
Todos os procedimentos que envolvem a prática The interviewee or his family should be consid-
clínica do fonoaudiólogo têm sua devida impor- ered as ‘good’ informers, and at this moment, the
tância e formam um todo que passa a compor o interviewer accepts what he hears as being the ex-
processo terapêutico . No entanto, neste artigo, o pression of a transparent language and literally re-
foco de atenção estará dirigido para o momento da vealing the whole truth.
entrevista inicial na clínica fonoaudiológica. Considering its importance, the first interview at
A maneira como a entrevista é realizada pela gran- the speech therapy clinic must be a point for re-
de maioria dos fonoaudiólogos ainda é aquela bas- flection for the speech therapist as it works as the
tante influenciada ou mesmo baseada no modelo gateway to treatment for the patient. From there
médico: a chamada anamnese, que tende a produ- on the therapist is able to gather all the data to
zir um questionário que leva a uma forma de en- analyze and decide on a course of action for the
trevista dirigida, em que, fatalmente haverá um language problems presented. Therefore it is im-
“jogo de perguntas e respostas”. portant to think about other ways to learn the full
O entrevistado ou a sua família devem figurar no background of the patient’s history for an anam-
contexto como “bons” informantes e, nesse mo- nesis in a question form is not enough.
mento, o entrevistador passa a aceitar o que lhe é
mencionado como sendo a expressão de uma lin- Key words : Anamnesis, interview, clinic, speech
guagem transparente e literalmente reveladora de therapy, therapist.
toda a verdade.
A entrevista inicial na clínica fonoaudiológica, por
seu caráter de importância, deve ser ponto de re- INTRODUÇÃO
flexão para o fonoaudiólogo, uma vez que funcio-

O
na como sendo a porta de entrada do paciente no s diferentes procedimentos que são exi-
tratamento. É a partir dela que o terapeuta conse- gidos na prática clínica do fonoaudiólogo
gue reunir dados para analisar e viabilizar sua de- têm sua devida importância e formam um
cisão em face da problemática da linguagem que é conjunto necessário que possibilita a constituição
apresentada, daí pensarmos que apenas uma da clínica fonoaudiológica, enquanto espaço
anamnese em forma de questionário não poderá terapêutico.
dar conta de encadeamentos da história do paci- Mais precisamente, irei enfocar situações que
ente. dizem respeito ao início do tratamento
fonoaudiológico, especificamente, sobre a primei-
Palavras-chave: anamnese, entrevista, clínica, ra entrevista.
fonoaudiológica, terapeuta. É possível constatar que, para a realização
da primeira entrevista, boa parte dos
Abstract fonoaudiólogos continuam optando pelo uso de
roteiros de anamneses previamente elaborados,
All procedures involving speech therapist clinical visando a detectar, principalmente, o quadro clíni-
practice are important and make a whole that in- co da patologia. Não estou desmerecendo a im-
forms the therapeutic process. However, in this portância de se conhecer o quadro clínico, pois

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ele é fundamental, porém é imprescindível que AS ENTREVISTAS


também apareça a história de vida da pessoa, e não
só da sua “doença”. O cenário que envolve a primeira entrevista
Provavelmente, essa forma de proceder di- é, sem dúvida, gerador de expectativas tanto para
ante da entrevista inicial deva-se ao fato de que a quem procura o tratamento quanto para o
maioria das instituições de ensino superior que terapeuta, isso porque é um momento permeado
graduam fonoaudiólogos tenham a preocupação de pela fala do paciente ou da sua família e do pró-
que seus formandos saiam dispondo de modelos prio terapeuta.
de anamneses, avaliações e planejamentos Selecionei duas situações para serem apre-
terapêuticos. sentadas. Dois casos em que foi usado o modelo
Na verdade, as anamneses ditas específicas, de entrevista semidirigida. Depois de composta a
exemplificando os casos de voz, gagueira, leitura e ficha de dados, onde se pode situar os pacientes
escrita, distúrbio articulatório, afasia e outros, cons- por nome, idade, sexo, filiação, endereço, ordem
tituem-se num bom instrumento para levantar os de nascimento e escolaridade, o espaço ficou des-
dados referentes à história orgânica do paciente, tinado para o relato do motivo da consulta assim
cronologicamente organizados. como para aquilo que o paciente ou a sua família
Por outro lado, é possível observar que, nos desejasse falar sobre o assunto.
últimos anos, iniciou-se um movimento dentro da
própria Fonoaudiologia que vem solicitando do Situação 1
fonoaudiólogo rever seus procedimentos diante do
seu fazer clínico. A Sra. V., mãe de R ( seis anos ), comparece
A questão da entrevista inicial, tida como o à primeira consulta, apresentando, como queixa, o
momento que inaugura o processo terapêutico, não fato de R. estar trocando letras na escrita, sem que
poderia deixar de ser analisada e estudada, favore- tenha problemas na fala.
cendo reflexões na conduta do fonoaudiólogo. Segundo ela, R. está concluindo a alfabeti-
Mudando de postura e maneira de agir na zação e a coordenadora da escola comunicou-lhe
clínica fonoaudiológica, valorizando o dizer do as dificuldades observadas na escrita do aluno,
outro, o fonoaudiólogo afasta-se do enfoque pri- solicitando que o mesmo realizasse tratamento
mordialmente patológico e, por sua vez, proporci- fonoaudiológico o mais breve possível, uma vez
ona espaço para o surgimento da pessoa com sua que, no ano seguinte, ele estaria cursando a pri-
singularidade, no contexto dessa clínica . meira série do Primeiro Grau menor.
Nesse caso, as anamneses, sendo substituí- Durante a sessão, a Sra. V. mostrou-se segu-
das por entrevistas semidirigidas, podem propor- ra ao abordar a história do seu filho, afirmando que
cionar a emergência da fala do paciente ou de sua R. era filho único, nunca teve babá, sendo ela pró-
família e de uma atitude de escuta por parte do pria a cuidar dele, uma vez que não trabalhava fora
fonoaudiólogo . Essa escuta busca, principalmen- de casa.
te, dar sentido à história do paciente, assim como Quanto à vida escolar da criança, a mãe re-
compreender o motivo da queixa e captar os senti- lata que ela estudava numa escola pequena, próxi-
dos diversos que terminam por escapar da queixa ma a sua casa, mas que ela optou por matriculá-la
manifesta. num estabelecimento de ensino que oferecesse o
Pela significação desse momento na clínica Primeiro Grau completo, evitando, assim, mudan-
fonoaudiológica, considero importante abordar o ças na proposta de ensino. Contudo, R. diz não
assunto, apresentar duas situações referentes à en- gostar da escola, tampouco da professora.
trevista inicial, aproveitando para dar continuida- Ao término da sessão e após marcarmos a
de à realização de reflexões sobre o tema. vinda de R. ao consultório, a Sra. V. faz uma afir-
mativa que é importante ser transcrita:

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Sra. V. : Antes de vir aqui, fui numa outra fono, ída do pai de casa, por vários dias.
mas não quis voltar lá. Numa sociedade como a nossa, normativa e
TP : Por quê ? prescritiva, que tende a gerar muitos preconceitos
Sra. V. : Não gostei do jeito que ela falava comigo. sociais (Freire, 1997), manter um casamento dian-
Ela parecia muito mecânica, às vezes insegura. Ela te de tais circunstâncias acaba por ser visto como
perguntava e eu respondia . Era assim o tempo algo negativo e que interfere no desenvolvimento
todo. e no comportamento do filho.
Quando a mãe de R. saiu, analisei, mais uma Dessa forma, pude constatar que a confis-
vez, as questões que podem envolver este primei- são não poderia se dar em qualquer situação. No
ro momento entre paciente e terapeuta. O nosso primeiro encontro, a Sra. V. não se sentiu
insucesso que ela relatara do primeiro encontro fez encorajada a entregar ao outro os relatos da sua
com que a mesma desistisse de retornar e verificar história de vida.
qual a proposta terapêutica que seria dirigida a seu
filho. Situação 2
Esse caso se tornou mais significativo para
mim, porque, aproximadamente um mês depois da J., sexo masculino, 39 anos, compareceu à
primeira consulta, algo de novo surgiu ao avaliar a primeira entrevista, apresentando um encaminha-
escrita de R. e perceber que as trocas de letras apre- mento do neurologista, solicitando um parecer
sentadas por ele aconteciam de for ma fonoaudiológico sobre seu caso .
assistemática. Como ele ainda se encontrava na al- O paciente relata que, desde criança, sente
fabetização, não poderia ver este quadro do ponto muita dificuldade para ler e escrever. Preferia não
de vista patológico. Porém, o que mais me chama- ir à escola e, por isso, às vezes, a mãe batia nele.
va a atenção em R. era seu comportamento bas- Seus irmãos e irmãs não apresentavam problema
tante instável: ora mostrava-se participativo, aten- semelhante ao dele .
to, colaborativo, ora comportava-se como uma cri- J. é o sétimo filho do casal e o caçula, por
ança dispersa, pouco participativa e desinteressa- isso ficava sempre mais evidente a problemática
da. dele quando a mãe o comparava com os demais
Convoquei a Sra. V. para uma sessão onde filhos. O entrevistado referiu como nível de esco-
pudéssemos expor as observações sobre o caso, laridade o Primeiro Grau completo, que, segundo
assim como recomendar um acompanhamento psi- ele, só conseguiu concluir quando já havia com-
cológico para R. Nessa mesma sessão, e pela pri- pletado 20 anos, tendo sido reprovado várias ve-
meira vez, a Sra. V. faz referência a uma série de zes.
acontecimentos que passaram a configurar melhor O mesmo disse ter um curso técnico em
a história de vida de R. manutenção de máquinas industriais que exigia
A Sra. V. confessa que seu filho era submeti- pouca leitura e mais atuação prática. Trabalha como
do a acompanhamento psicológico, mas que foi técnico em manutenção há 13 anos e, ultimamen-
interrompido por motivos financeiros: o marido te, tem sido uma exigência da empresa que os téc-
encontrava-se desempregado. Ademais, tem sido nicos participem de cursos de atualização e aper-
a família do cônjuge que vem assumindo as men- feiçoamento. Conseqüentemente, ele se vê obriga-
salidades da escola e do tratamento do a ler os vários manuais de instrução. Como sen-
fonoaudiológico, e o marido, dificilmente, terá te dificuldade para entender sua própria leitura, re-
chances de conseguir um novo emprego, por se tra- solveu procurar um neurologista, na tentativa de
tar de um alcoólatra e com tendências ao uso de saber como solucionar o seu problema.
drogas. Ele relata que se submeteu, a pedido do neu-
Toda situação vivida pela família é geradora rologista , a um exame de E.E.G. e tomografia axial
de muitos conflitos domésticos: a criança sempre computadorizada, e os laudos foram normais. Por
presenciava brigas do casal, culminando com a sa- essa razão, o médico recomendou que se subme-

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tesse a um tratamento fonoaudiológico. fazê-lo prosseguir no que vem relatando”.


Quando as explicações por parte de J. cessa- No caso, a entrevista inicial configura-se
ram, achei por bem questionar mais sobre sua in- como o procedimento que funciona, viabilizando
fância, relacionamento familiar e sua escolarida- a introdução da pessoa no universo clínico. É a
de. Segundo o paciente, sua infância não foi das partir dela que se pode deixar desvendar, sistema-
melhores – seu pai era alcoólatra –, por esse moti- ticamente, a história de vida do paciente, de sua
vo, presenciava cenas de discussões entre os pais. família e de sua patologia .
Sendo ele o filho mais novo, sentia-se Na primeira situação, aqui tomada como
inferiorizado em relação aos outros irmãos, pois exemplo, vemos a participação da Sra. V. tentan-
esses sempre conseguiam obter sucesso nas suas do, inicialmente, reproduzir a queixa da escola
atividades. Recorda-se que, após algumas repro- como algo transparente, que pudesse explicar a
vações, sua genitora o matriculou em um colégio problemática do seu filho . No entanto, a Sra. V.,
destinado a crianças deficientes, mas que ficou ao ser convocada para ouvir da fonoaudióloga seu
nesse local por curto período de tempo, passando parecer sobre o caso e a recomendação de uma te-
a voltar a conviver com crianças normais em uma rapia psicológica para seu filho, foi capaz de se
escola da rede pública de ensino. expressar, de relatar o cotidiano vivenciado no
Atualmente, teme perder o emprego, caso não contexto familiar, deixando mais evidente seu so-
consiga acompanhar o ritmo de seus colegas nos frimento e o do seu filho.
cursos de capacitação. É costume usar como es- Conforme nos alerta Mannoni (1981, p. 103),
tratégia, para compreender o texto, que as pessoas a força do terapeuta não deve repousar na onipo-
mais próximas leiam para ele os manuais de ins- tência da posição daquele que tem autoridade para
trução das máquinas. Assim, consegue captar me- interrogar, “mas sim na força de se aceitar como ponto de
lhor o sentido do que está escrito. encontro: é através dele, para além dele, que uma verdade
Há dois anos, tornou-se, juntamente com sua poderá ser apreendida pelo Outro. O seu papel é o de
esposa, adepto da religião evangélica, sentindo, permitir que o verbo se faça .”
dessa vez, a necessidade da leitura e da interpreta- Quando a Sra. V. sentiu que podia entregar
ção dos textos bíblicos. Reuniu-se com o pastor da ao outro os relatos mais íntimos da sua vida, ela o
sua igreja, explicou sua dificuldade e solicitou que fez, sendo que esse outro ofereceu condições a uma
não o incluísse em atividades que envolvessem lei- escuta respeitosa; afinal, relatar uma história de vida
tura , escrita e palestras para o público evangélico. não se faz em qualquer situação, nem a uma pessoa
Relatou, então, que, por todas essas razões, qualquer.
aceitou a sugestão do neurologista, pretendendo, A entrevista inicial, diante do contexto
assim, iniciar um tratamento fonoaudiológico. terapêutico, deve possibilitar, antes de tudo, um
encontro da pessoa com seu próprio eu, um eu que
DISCUSSÃO pretende sair de um contexto falso e poder depa-
rar-se com a sua realidade de buscar uma melhor
A entrevista inicial deve funcionar como qualidade de vida.
porta de entrada no tratamento. É a partir dela que Ainda relativo a esse caso, a criança não fala
o terapeuta consegue reunir dados significativos sobre sua problemática explicitamente, a criança é
da história do paciente que possibilita analisar e falada pelo outro, aqui representada pela sua
viabilizar sua intervenção frente à problemática genitora. Porém o seu comportamento demonstra
apresentada por este ou sua família. ser de uma criança que vive em conflito, o qual se
Segundo Freud (1969, p. 165), “o momento estende até mesmo ao seu aprendizado escolar.
da entrevista inicial é condição necessária, o Na segunda situação exemplificada, o pró-
terapeuta deixa o paciente falar quase todo tempo prio paciente fala sobre suas dificuldades e angús-
e não cabe aí dar maiores explicações; somente tias quanto à leitura e escrita, fala da tentativa de
aquelas que forem absolutamente necessárias para buscar, através de tratamento médico, a cura do

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seu problema, até agora sem muito sucesso, e na REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


esperança de que a Fonoaudiologia aponte uma
forma de aliviá-lo, promovendo melhores condi- ARANTES, L. M. G.- O Fonoaudiólogo este apren-
ções de lidar com o universo da leitura e escrita. diz de feiticeiro. In: LIER DE VITTO, M. F.
Nos dois casos, o favorecimento a uma con- FONOAUDIOLOGIA: no sentido da lingua-
dição de escuta, provavelmente, possibilitou que gem. São Paulo: Cortez, 1994.
a entrevista surgisse como um momento em que o
”verbo se fez“, abrindo espaço e interlocução, em BRANDÃO, H. H. N. Introdução à análise do discur-
que a linguagem passa a ser entendida como trans- so. Campinas, SP: UNICAMP, 1991.
parente e opaca ao mesmo tempo, cabendo ao
fonoaudiólogo, a partir da escuta do dizer do ou- FREUD, S. Obras psicológicas completas. Rio de Ja-
tro, atribuir significado e conceber um sentido iné- neiro : Editora Imago, 1969. v. 12.
dito à história relatada pelo paciente ou por sua
família. FREIRE, R. M. A linguagem como processo terapêutico.
Por outro lado, é importante que o paciente São Paulo : Plexus, 1997.
e / ou sua família se sintam confiantes no terapeuta.
Este, por sua vez, precisa também oferecer a sen- MANNONI, M. A primeira entrevista em psicanálise.
sação de segurança a quem o procura. Como afir- Rio de Janeiro : Campos, 1981.
ma Winnicott (1993, p. 39), o paciente necessita
da “ sensação de ser segurado, de que existe uma rede de MILLAN, B. A clínica fonoaudiológica: análise de um
segurança presente”, ou seja, é o que ele chamou de universo clínico. São Paulo : EDUC, 1993.
“holding”, circunstância necessária para que o pa-
ciente e sua família experimentem um sentimento PÊCHEUX, M. O. Discurso : Estrutura ou Acon-
de estabilidade e continuidade no tratamento. tecimento. Campinas, SP : Pontes, 1990.
Organizar a entrevista inicial de tal forma
que possibilite ao paciente revelar o motivo da QUINET, A. As 4 + 1 condições de análise. Rio de
consulta demonstra que o terapeuta não pretende Janeiro : Zahar, 1993.
ditar normas, mas, sobretudo, dispor-se a buscar
possíveis caminhos para o desenvolvimento da te- WINNICOTT, D. W. Princípios Winnicottianos. In:
rapia. GROLNICK, Simon A. Winnicott o traballho e o
brinquedo : uma leitura introdutória. Porto Ale-
gre : Artes Médicas, 1993.

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