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A FONOAUDIOLOGIA ASSOCIADA À ODONTOLOGIA

Marília Gabriela Rodrigues Franco

INTRODUÇÃO

Atualmente fala-se muito em atendimento multidisciplinar;


com isso, resolvemos levantar alguns aspectos que tornam a
fonoaudiologia e a odontologia áreas de atuação interligadas.
Sabemos que a odontologia é responsável pelo estudo e
tratamento das desordens dentárias e oclusais. Também é de
conhecimento que há uma área da fonoaudiologia voltada para o
tratamento das alterações de tônus muscular facial e de
posicionamento dos órgãos fonoarticulatórios – OFA - (lábios,
bochecha e língua); bem como a adequação das funções
neurovegetativas (respiração, sucção, mastigação e deglutição) e da
fala.
Estando o desenvolvimento, o crescimento e o posicionamento
das estruturas crânio faciais intimamente relacionados com a
posição dentária, a oclusão e o desenvolvimento e posicionamento
dos órgãos fonoarticulatórios e da musculatura oral; torna-se fácil
observar a inter relação das duas ciências, já que o processo de
desenvolvimento dentário e oclusal atua diretamente sobre as
estruturas musculares, e, consequentemente, sobre a realização das
funções orais e vice-versa.

DISCUSSÃO

É observada a reabilitação oral multidisciplinar principalmente


em indivíduos que apresentem as seguintes alterações:
 Desordens têmporo-mandibulares;
 Maloclusões e
 Respiração bucal.
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Marília Gabriela Rodrigues Franco

Antes de relatarmos as alterações observadas nestes tipos de


desordens e o correlacionamento de tratamento, é importante
lembrarmos de aspectos que influenciarão no prognóstico e na
conduta terapêutica, como, por exemplo:
 Etiologia das desordens (orgânica ou funcional / alteração
oclusal de etiologia óssea ou dentária);
 Fase da dentição (decídua, mista ou definitiva);
 Idade;
 Tipo facial;
 Tratamentos (ortodôntico, otorrinolaringológico, neurológico
etc); e
 Hábitos deletérios correlacionados.

Para que se possa detectar alterações de tônus muscular e de


postura dos órgãos fonoarticulatórios, bem como inadequações
durante a realização das funções, é essencial que conheça-se o
padrão normal destes.
Deve-se, portanto iniciar uma avaliação fazendo-se uma
observação espontânea dos órgãos fonoarticulatórios tanto em
repouso como durante a realização das funções orais. Também
deve-se realizar a observação da movimentação dos OFA a partir de
ordem verbal, imitação e manipulação dos mesmos.
É de relevância observar a conformação do palato e
movimentação do mesmo, o estado e a oclusão dos dentes, ausência
ou presença e tamanho das amígdalas, freios lingual e labiais e tipo
facial.
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Os lábios, em condições normais, devem permanecer ocluídos,


se tocando levemente, sem pressão. Este padrão é observado tanto
em repouso, quanto durante a realização da mastigação e
deglutição.
O tônus bochecha será observado através da palpação e
durante a realização das funções. Por exemplo; bochechas com
aspecto mais flácido, associado à participação excessiva da
musculatura perioral durante a realização das funções, bem como a
não centralização do bolo alimentar durante o processo de
deglutição podem indicar uma diminuição de tônus.
A língua, quando em condição e funcionalidade normal, não
deve em momento algum tocar ou interpor-se entre os dentes (com
exceção durante a emissão dos fonemas linguodentais / t /,/ d /,
/ n /,/ l / e /  / quando pode haver o contato da língua com as
paredes internas dos dentes superiores. Porém, não é exercida
pressão e/ou força contrária daquela sobre estes.).

POSTURA DA LÍNGUA EM REPOUSO


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Durante a realização das funções devemos observar:


sucção : - posição dos lábios;
- pressão dos lábios;
- movimentação da língua;
- movimentação da bochecha.

Mastigação: - incisão dos alimentos;


- selamento labial;
- movimentos da mandíbula;
- mastigação uni ou bilateral;
- participação da musculatura perioral;
- centralização do bolo alimentar.
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MÚSCULOS DA MASTIGAÇÃO

DIFERENTES ETAPAS DA DEGLUTIÇÃO COM INTUITO DE ILUSTRAR O


POSICIONAMENTO DA LÍNGUA DURANTE A REALIZAÇÃO DA MESMA
Deglutição: - posição dos lábios/selamento labial;
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- pressão dos lábios e mentalis;


- posição da língua;
- participação da musculatura perioral;
- realização em única ou várias etapas;
- presença de tosse e/ou engasgos;
- presença de restos alimentares no vestíbulo.

Relataremos agora algumas alterações de motricidade oral


onde é realizado tratamento multidisciplinar de fonoaudiólogos e
odontólogos.

DESORDENS TÊMPORO-MANDIBULARES
Indivíduos com disfunções de ATM (articulação têmporo-
mandibular) apresentam alterações de sistema motor oral – SMO -
(musculatura) e funções neurovegetativas – FNV - devido ao mau
posicionamento e movimentação inadequada da mandíbula.
Após o tratamento odontológico ou concomitante com este
deve haver intervenção fonoaudiológica, visando a adequação da
musculatura oral e estabilização das funções alteradas.
Em geral são observadas as seguintes alterações:
 Língua flácida e anteriorizada;
 Mastigação ruidosa, de boca aberta e/ou unilateral;
 Deglutição atípica;
 Assimetria facial;
 Distorção na fala e/ou movimento atípico de mandíbula durante a
mesma.

MALOCLUSÕES
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Conforme a alteração de oclusão são observadas algumas


características gerais de SMO e FNV

MORDIDA ABERTA ANTERIOR


 Tendência à hipotonia da musculatura oral;
 Postura de língua alterada;
 Deglutição com interposição de língua e contração de mentalis;
 Alteração do tônus dos lábios;
 Ceceio anterior.

MORDIDA CRUZADA POSTERIOR UNILATERAL


 Assimetria facial, com desvio para o lado do cruzamento;
 Alteração da musculatura da mastigação, principalmente do m.
masseter;
 Hipotonia e hipofunção da musculatura do lado do balanceio e
hipertonia e hiperfunção do lado do cruzamento;
 Mastigação unilateral devido à diminuição do espaço vertical e da
impossibilidade de fazer o balanceio.

ARCO MANDIBULAR MENOR EM RELAÇÃO AO MAXILAR


 Lábio superior hipofuncionante, podendo estar hipo, normo ou
hipertônico;
 Lábio inferior hipotônico, freqüentemente retrovertido e podendo
estar em oclusão com os incisivos superiores; havendo sucção
deste, o mesmo pode apresentar-se hipertônico;
 Língua mal posicionada, com dorso alto e ponta baixa;
 Tendência a anteriorização de mandíbula, para aumentar o
espaço intra oral nas funções de fala e deglutição;
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 Deglutição com interposição do lábio inferior atrás dos dentes


superiores, pressionamento atípico de língua e participação
excessiva da musculatura perioral.

POSICIONAMENTO DE LÍNGUA CARACTERÍSTICO NESTE TIPO DE


MALOCLUSÃO

ARCO MANDIBULAR MAIOR EM RELAÇÃO AO MAXILAR


 Língua hipotônica, alargada e posicionada no soalho da boca;
 Mastigação verticalizada, sem lateralização de mandíbula e com
pressionamento atípico de dorso de língua contra o palato;
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 Deglutição com pressão atípica de dorso de língua e participação


da musculatura perioral; há anteriorização de língua e pode
ocorrer movimento associado de cabeça.

POSICIONAMENTO DE LÍNGUA CARACTERÍSTICO DESTE TIPO DE


MALOCLUSÃO

RESPIRAÇÃO BUCAL
Primeiramente, é importante levantarmos as possíveis causas
da respiração bucal, afim de melhor conduzirmos o caso e
traçarmos um planejamento terapêutico adequado.
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LOCALIZAÇÃO DAS ADENÓIDES; QUANDO HIPERTRÓFICAS,


OBSTRUEM A CAVIDADE NASAL, GERANDO UMA RESPIRAÇÃO BUCAL
DE ETIOLOGIA ORGÂNICA

Quando respiramos pelo nariz (juntamente com o


funcionamento adequado das outras funções neurovegetativas),
estimulamos o crescimento e o desenvolvimento crânio facial, pela
ação da musculatura que estimula os ossos, de modo correto.
Se existe respiração bucal, essa estimulação pode se dar de
modo inadequado, favorecendo um crescimento e desenvolvimento
desarmônico.
Indivíduos respiradores bucais podem vir a desenvolver
problemas associados como:
Alterações crânio faciais e dentárias
 Crescimento crânio facial predominantemente vertical;
 Dimensões faciais estreitas;
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 Palato ogival;
 Hipodesenvolvimento dos maxilares;
 Maloclusão

Alterações dos OFA (órgãos fono-articulatórios)


 Hipertrofia, hipotonia e hipofunção dos músculos elevadores da
mandíbula;
 Alteração de tônus com hipofunção dos lábios e bochechas;
 Lábio superior retraído ou curto e inferior evertido ou interposto
entre os dentes;
 Anteriorização da língua ou elevação do dorso para regular o
fluxo de ar;
 Propriocepção bucal alterada.

Alterações das funções orais


 Mastigação ineficiente;
 Deglutição atípica;
 Fala imprecisa, com excesso de saliva e alto índice de ceceio.

Outras alterações possíveis


 Cabeça mal posicionada em relação ao pescoço;
 Ombros caídos para frente, comprimindo o tórax;
 Olheiras;
 Sialorréia e ronco;
 Menor rendimento físico e cansaço freqüente.
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Não necessariamente todas as características relatadas


correlacionadas com as diferentes alterações odontológicas estarão
presentes em indivíduos que apresentem estas desordens.

HÁBITOS QUE INTERFEREM NO DESENVOLVIMENTO DA


MUSCULATURA ORAL

“Os padrões habituais e danosos da conduta muscular


freqüentemente são associados ao crescimento ósseo deturpado ou
retardado, mal posições dentárias, distúrbios dos hábitos
respiratórios, dificuldades na fala e perturbação no equilíbrio da
musculatura facial.”(Moyers, 1991)
Os hábitos mais freqüentemente encontrados, associados a tais
alterações são:
 Manutenção prolongada da alimentação pastosa;
 Sucção digital;
 Sucção de chupeta;
 Sucção de lábio inferior e
 Uso ininterrupto de mamadeira.
Os hábitos citados acima podem ser um fator desencadeante
e/ou manutensor de alterações de postura e tônus da musculatura
oral. Isso se deve à pressão inadequada que estes exercem sobre os
dentes e a postura alterada de lábios e língua durante a realização
de tais. No caso da manutenção prolongada da alimentação pastosa,
observa-se um hipofuncionamento da musculatura oral para
realização das funções de mastigação e deglutição, as quais,
provavelmente, não irão desenvolver-se adequadamente.
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BICOS ORTODÔNTICOS

O bico ortodôntico foi desenvolvido com o intuito de estimular o


trabalho com a musculatura anterior, promovendo um padrão mais
maduro de deglutição e prevenindo certas alterações morfológicas
das estruturas crânio faciais e da musculatura facial.

CONCLUSÃO

Com base no que foi exposto fica evidente a necessidade de


reabilitação oral multidisciplinar em determinados casos;
observando-se a influência de alterações musculares no padrão
oclusal, sendo a recíproca de igual ocorrência.
É observado, também, que o tratamento multidisciplinar implica
em um melhor prognóstico e recuperação das alterações orofaciais
relatadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A FONOAUDIOLOGIA ASSOCIADA À ODONTOLOGIA
Marília Gabriela Rodrigues Franco

Moyers,R.E.. Ortodontia. Ed. Guanabara Koogan - Rio de Janeiro, 1991

Gomes,I.C.D.; Proença,M.G. & Limongi,S.C.O.. Temas de Fonoaudiologia.


Cap. Avaliação e Terapia da Motricidade Oral. Ed. Loyola – São Paulo, 1991

Marchesan,I.Q.; Bolaffi,C.; Gomes,I.C.D. & Zorzi,J.. Tópicos em


Fonoaudiologia. Cap. Alterações de Funções Orais nos Diversos Tipos Faciais e
A Importância do Trabalho Respiratório na Terapia Miofuncional. Ed. Lovise -
São Paulo, 1995

Padovan,B.A.E. Reeducação Mioterápica nas Pressões Atípicas de Língua:


Diagnóstico e Tratamento. Separata do artigo publicado na revista “Ortodontia”,
vol.9, nº 1 e 2, janeiro – abril, 1976; maio – agosto, 1976

Altmann,E.B.C.. Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional em


Pediatria. Cap. Deglutição Atípica. Ed. Sarvier – São Paulo, 1990