Você está na página 1de 13

311

PROPOSTA DE PROTOCOLO DE AVALIAÇÃO CLÍNICA


DA FUNÇÃO MASTIGATÓRIA

Proposal for mastication clinical evaluation protocol


Melina Evangelista Whitaker (1), Alceu Sérgio Trindade Júnior (2), Katia Flores Genaro (3)

RESUMO

Objetivo: elaborar um protocolo de avaliação clínica da função mastigatória, visando auxiliar o fono-
audiólogo a identificar e interpretar os sinais clínicos de alterações na dinâmica da mastigação, além
de possibilitar comparações de acompanhamento de tratamento e entre diferentes avaliadores.
Métodos: este protocolo foi elaborado com base na prática clínica de fonoaudiólogos que responde-
ram a um questionário enviado por e-mail; na literatura, segundo a identificação dos pontos comuns a
todos os protocolos de avaliação da mastigação; além da experiência dos fonoaudiólogos do Hospital
de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo. Resultados: o protocolo
de avaliação clínica da mastigação contempla aspectos relacionados aos aspectos morfológicos e
à neurofisiologia da função mastigatória: Conclusão: este trabalho contribui com a Fonoaudiologia,
uma vez que busca, de maneira mais completa possível, critérios para a avaliação da mastigação,
norteando a atuação fonoaudiológica clínica baseada em evidências.

DESCRITORES: Avaliação; Mastigação; Sistema Estomatognático

„„ INTRODUÇÃO envolvida, assim como das demais funções relacio-


nadas 2-5. Frente à dificuldade de se encontrar ins-
O fonoaudiólogo que atua na área de Motrici- trumentos clínicos padronizados para tal, surgiu a
dade Orofacial volta seu trabalho para a pesquisa, proposta deste trabalho.
prevenção, avaliação, diagnóstico, desenvolvi- A mastigação é o ato de morder e triturar o ali-
mento funcional, habilitação, aperfeiçoamento e mento, a qual constitui um ato fisiológico e com-
reabilitação dos aspectos estruturais e funcionais plexo, que envolve atividades neuromusculares
das regiões orofacial e cervical 1. e digestivas. Com relação a esta última função,
Dentre as funções orais tem-se a mastigação e, destaca-se a ação da amilase salivar durante a tri-
portanto, o fonoaudiólogo é um dos profissionais turação dos alimentos, facilitando a deglutição e a
aptos a diagnosticar as disfunções mastigatórias, ação das enzimas digestivas do estômago e, prin-
bem como tratá-las. Ressalta-se que para que o cipalmente, do pâncreas. O sistema mastigatório
trabalho seja realizado adequadamente, faz-se pode ser considerado como uma unidade funcional
necessário o diagnóstico preciso e correto da alte- constituída pelos seguintes componentes: dentição,
ração, envolvendo a avaliação detalhada da função estruturas periodontais de suporte maxilar e mandi-
bular, articulação temporomandibular, musculatura
mastigatória e de lábios, bochechas e língua, teci-
(1)
Fonoaudióloga do Hospital de Reabilitação de Anomalias
Craniofaciais da Universidade de São Paulo, HRAC-USP, dos moles que revestem essas estruturas, assim
Bauru, SP; Mestre em Ciências da Reabilitação pelo Hos- como a inervação e vascularização que suprem
pital Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universi- esses componentes 2,3. É uma função aprendida
dade de São Paulo.
que depende de vias neurais e conexões sinápticas
(2)
Cirurgião – Dentista; Docente do Departamento de Ciên-
cias Biológicas da Faculdade de Odontologia de Bauru da estabelecidas e comandadas pelo córtex cerebral.
Universidade de São Paulo, FOB-USP, Bauru, SP; Profes- Assim, aparece posteriormente devido ao aumento
sor Titular. do espaço intra-oral, a irrupção dos dentes, a matu-
(3)
Fonoaudióloga; Docente do Departamento de Fonoaudio-
ração de todo arcabouço neuromuscular e o pro-
logia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universi-
dade de São Paulo, FOB-USP, Bauru, SP; Livre-Docente. cesso, em curso, de remodelação das articulações
Conflito de interesses: inexistente tempomandibulares 4-6.

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


312  Whitaker ME, Trindade Júnior AS, Genaro KF

Existem vários fatores que influenciam a função gadas, descrevendo quais funções, como avaliava
mastigatória de forma a alterá-la. Esses fatores e a justificativa para a verificação dessa função.
podem envolver alterações estruturais ou funcio- Os questionários foram enviados por meio de
nais do sistema estomatognático, que desenca- correio eletrônico e, ao reenviar o questionário pre-
deiam um desequilíbrio, do qual um dos sinais enchido ao e-mail da autora, os fonoaudiólogos
pode ser a disfunção mastigatória. Assim, devido participantes, firmavam seu Consentimento Livre e
à complexidade da função mastigatória, são rea-
Esclarecido.
lizadas análises de cada aspecto da mastigação,
como duração dos atos e ciclos mastigatórios, força De um total de 350 questionários enviados, 70
de mordida, movimentos mandibulares, eficiência retornaram preenchidos. Após análise dos ques-
mastigatória, entre outros, com técnicas diferencia- tionários recebidos e da literatura consultada, um
das tecnologicamente. Desta forma, o diagnóstico protocolo de avaliação foi proposto.
das alterações mastigatórias, e das estruturas que Este projeto de pesquisa recebeu aprovação do
a envolvem, torna-se preciso e o tratamento direcio- Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição onde o
nado para cada caso. Alguns métodos instrumen- mesmo foi realizado (protocolo 288/2003).
tais de avaliação possibilitam a obtenção de dados
objetivos, porém, nem sempre fazem parte da prá-
„„ RESULTADOS
tica clínica fonoaudiológica. Deste modo, torna-se
necessário que a avaliação clínica da mastigação,
ou seja, não instrumental, possa analisar individual- Para facilitar a análise da avaliação da masti-
mente cada aspecto e, ao mesmo tempo, avaliar a gação, além da observação feita pelo profissional
função mastigatória como um todo, de forma prática durante o processo de avaliação, também se reco-
e padronizada. menda a filmagem desse procedimento para todos
Nesse sentido, a literatura é muito escassa no os casos, a fim de se realizar uma análise mais
que diz respeito aos métodos não instrumentais detalhada posteriormente. Propõe-se que a filma-
padronizados para o estudo da mastigação, uma dora esteja posicionada em tripé, sempre a mesma
vez que as pesquisas priorizam os métodos ins- distância da cadeira do paciente, que deverá estar
trumentais, em detrimento dos não instrumentais. sentado com apoio plantar adequado e em uma
Isto prejudica a objetividade dos dados, tanto em cadeira sem apoio para a cabeça, de modo a não
pesquisa quanto na comparação de casos clínicos, limitar seus movimentos. Um painel que trace o
quando a avaliação é realizada por avaliadores dis- plano horizontal e vertical deve ser posicionado
tintos sem o mesmo treinamento ou formação. atrás dele, servindo de referência em relação à
Assim, o objetivo deste trabalho foi elaborar um postura corporal e dos órgãos que participam da
protocolo de avaliação clínica da função mastigató- mastigação 7. Ressalta-se que este método possui
ria, visando auxiliar o fonoaudiólogo a identificar e vantagens como ser um método acessível, de baixo
interpretar os sinais clínicos de alterações na dinâ- custo, evitando-se a repetição da avaliação funcio-
mica da mastigação, além de possibilitar compara- nal por várias vezes e possibilitando uma análise
ções de acompanhamento de tratamento e entre sem a presença do paciente. Como desvantagens,
diferentes avaliadores. pode-se destacar a necessidade de critérios para
a mesma, visando à comparação entre si, como a
„„ MÉTODOS padronização da mesma distância entre a filmadora
e o paciente, a luminosidade adequada da sala de
filmagem, a marcação dos planos horizontal e ver-
Elaborou-se um questionário (Figura 1) a ser res-
tical atrás do paciente, além de possibilidade de
pondido por fonoaudiólogos de diferentes regiões
constranger o paciente durante a avaliação, modi-
do Brasil, a fim de se obter dados sobre a avaliação
ficando sua mastigação habitual na presença da
da função mastigatória realizada pelos mesmos.
câmera.
Esse questionário constava de 5 questões envol-
vendo dados da história clínica, aspectos morfoló- A seguir encontram-se os itens propostos para
gicos do sistema estomatognático, assim como a a avaliação e a descrição da forma de avaliação
avaliação da função mastigatória propriamente dita. dos mesmos e, em anexo é apresentada a ficha de
Essas questões eram descritivas e o fonoaudiólogo avaliação elaborada. Na mesma constam: a iden-
deveria relatar os aspectos observados, os mate- tificação do paciente, incluindo seus dados pes-
riais e procedimentos utilizados, os exames com- soais, escolaridade, profissão, endereço; além da
plementares realizados, entre outros; bem como identificação do profissional que está solicitando a
deveria citar se outras funções orais eram investi- avaliação.

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


Protocolo de avaliação da mastigação  313

Avaliação Clínica da Função Mastigatória

1. IDENTIFICAÇÃO
Nome:_________________________________________________________ Gênero: ______
D/N: ____ / ____ / ____ Idade: ____________ Telefone: _______________________
Escolaridade: ______________ Profissão: __________ Encaminhado por: _________________
Endereço: ___________________________________ Cidade/Estado: ___________________

2. FUNÇÃO MASTIGATÓRIA

1. Alimentos testados: ____________________ 2. Tamanho da porção :____________________

3. Apreensão: anterior 4. Movimento mandibular:  vertical e lateral


 lateral  vertical
 posterior  mínimo
 parte com as mãos  ausente
 quebra com os dentes

5. Lado inicial da função: Teste 1 :  D E 6. Tipo mastigatório:  bilateral alternado


Teste 2 :  D E  bilateral simultâneo
Teste 3:  D E  unilat. prefere ncial __
Teste 4 :  D E  unilat. crônico __

7. Musculatura perioral:  ausente 8. Lábios:  selados


 pouca  afastados as vezes
 acentuada  afastados

9. Tremor:  ausente 10. Contração de masseteres:  forte


 lábios  regular
 língua  fraca
 mandíbula

11. Coordenação dos movimentos:  adequada 12. Escape anterior do alimento:  ausente
 inadequada  presente

13. Amassamento com a língua:  ausente 14. Movimento de cabeça:  ausente


 presente  presente

15. Local da trituração:  anterior 16. Respiração durante a função:  nasal


 posterior  oro-nasal/oral

17. Ruídos nas ATMs:  ausente 18. Tempo mastigatório ( ___ seg.)
 estalo ____  adequado
 crepitação ___  lento
 rápido
19. N.º de ciclos mastigatórios: ____ 20. Formação do bolo:  com pleto
 parcial
 não forma

21. Presença de :  tosse 22. Dor durante a mastigação:  não


 engasgo  sim _________
 dispnéia
 alteração na coloração facial

Figura 1 – Protocolo utilizado

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


314  Whitaker ME, Trindade Júnior AS, Genaro KF

23. Teste de eficiência mastigatória:

Amêndoa 1 (mastigação habitual): Tempo: ___ segundos


N.º de ciclos: ___
Tipo de partículas:  A B C D E
Amêndoa 2 (10 segundos): ___________________________________________________
Tipo de partículas:  A B C D E

Amêndoa 3 (20 segundos): ___________________________________________________


Tipo de partículas:  A B C D E

Amêndoa 4 (40 segundos): ___________________________________________________


Tipo de partículas:  A B C D E

Amêndoa 5 (tempo e n.º de ciclos da amêndoa 1):


Tipo de partículas:  A B C D E

Classificação:  EM ótima (partículas B na 2ª Amêndoa)


 EM boa (partículas B na 3ª Amêndoa)
 EM regular (partículas A e B na 3ª Amêndoa)
 EM ruim (ausência de partículas A na 4ª Amêndoa)
 EM péssima (presença de partículas A na 4ª Amêndoa)

3. SÍNTESE DO CASO
___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________

4. CONDUTA
 Encaminhamento (área/motivo): ___________________________________________
 Terapia miofuncional: __________________________________________________

Avaliador: _________________ ___________ Data: ___ / ___ / ___

Figura 1 – Protocolo utilizado (continuação)

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009 30


Protocolo de avaliação da mastigação  315
1. Alimentos testados deve estar lateralizada para o lado inicial e os den-
Sugere-se que a avaliação da mastigação seja tes deste mesmo lado em oclusão. Também pode
realizada com pão ou biscoito tipo wafer, sendo o ser utilizada a palpação, com um leve toque nos
primeiro de custo baixo e de fácil aceitação entre músculos masseteres, percebendo qual o lado de
os pacientes e o segundo apresenta um tempo maior contração do músculo. Além disso, pode-se
maior de conservação, sem modificação de suas observar o 1º, 3º, 5º e 7º ciclos mastigatórios, repe-
propriedades. Além disso, existem parâmetros em tindo-se o teste 4 vezes. Se durante três testes o
relação ao tempo mastigatório, número e duração lado inicial da mastigação coincidir, este é o lado
dos ciclos mastigatórios 8,9. Para a avaliação da efi- sugestivo de preferência mastigatória 14.
ciência mastigatória, recomenda-se a utilização de
amêndoas 10. 6. Tipo mastigatório
Verifica-se todos os ciclos mastigatórios, identifi-
2. Tamanho do alimento cando o número de ciclos realizados em cada lado
Sugere-se uma porção de 2cm ou ¼ de biscoito (direito e esquerdo). Recomenda-se que este pro-
tipo waffer e, quando for utilizado o pão francês, cedimento seja realizado posteriormente, a partir da
recomenda-se o mini pão francês, cortando-se uma análise da filmagem.
fatia da região central do pão, de 1cm de espessura Segundo critérios utilizados por alguns auto-
e tomando-se ¼ desta fatia 8,9. Para a avaliação da res 7,15, a mastigação será classificada como uni-
eficiência mastigatória são necessárias 5 amên- lateral predominante quando houver mais de 66%
doas, a serem consumidas uma por vez 10. dos ciclos mastigatórios realizados em um único
lado. Quando houver mais de 95% de ciclos mas-
3. Preensão do alimento tigatórios realizados em um único lado, será clas-
Este aspecto refere-se ao início da mastigação, sificada como unilateral crônica. Além destas clas-
correspondendo à fase incisal da mesma, cabendo sificações, o tipo mastigatório pode ser bilateral
ao examinador observar o local da cavidade oral alternado, havendo nesses casos, predominância
onde a incisão ocorre 11. Pode localizar-se na região de movimentos verticais e laterais da mandíbula
anterior, quando realizada com os dentes incisivos ou bilateral simultâneo, quando estes movimentos
centrais e laterais; na região lateral, quando reali- forem verticais 16.
zada pelos incisivos laterais em conjunto com os
caninos e até pré-molares ou, ainda, região poste- 7. Musculatura perioral
rior, quando realizada com os pré-molares e mola- Por meio da observação visual verifica-se a par-
res. Pode-se, também, observar que o paciente ticipação da musculatura perioral durante os ciclos
posiciona o alimento entre os dentes, mas não mastigatórios. Para a realização da mastigação, há
realiza a atividade de corte, utilizando os dentes participação da musculatura perioral, que deve ser
anteriores como alavanca para quebrar o alimento. discreta. No entanto, quando a participação dessa
Além disso, o paciente pode partir o alimento com musculatura for acentuada ou quase estática, há
as mãos antes de posicioná-lo entre os dentes, não indícios de anormalidade 17.
ocorrendo, portanto, a fase incisal da mastigação 6,7.
Em condições favoráveis, em geral, esta preensão 8. Lábios
do alimento é realizada na região anterior. Deve ser observada a postura labial durante a
realização da função mastigatória, verificando se
4. Movimento mandibular os mesmos permanecem selados, pois evitam o
Deve ser avaliado por meio de palpação, per- escape anterior do alimento, bem como auxiliam
cebendo-se a excursão da mandíbula, somado na manutenção da pressão intra-oral para a ejeção
à observação visual. Considera-se adequado os do bolo alimentar para a faringe 18,19. Também, os
movimentos de abertura inclinados para o lado de lábios podem encontrar-se afastados durante toda
não trabalho e os de fechamento dirigidos para a mastigação, sendo visualizado o bolo alimentar
o lado de trabalho, isto é, o lado da trituração 12, dentro da cavidade oral ou, ainda, encontrarem-se
portanto, presença de movimentos laterais. Quando ora selados e ora afastados 16.
o alimento encontra-se mais triturado, o movi-
mento predominante da mandíbula se dá no plano 9. Tremor
vertical 13. Avaliado por meio de observação dos tecidos
periorais durante a realização da função mastiga-
5. Lado inicial da mastigação tória, sendo necessário especificar em qual estru-
Deve-se observar os movimentos mandibulares tura oral o mesmo ocorre. A presença deste sinal
no primeiro ciclo mastigatório, em que a mandíbula sugere incoordenação dos movimentos mandibula-

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


316  Whitaker ME, Trindade Júnior AS, Genaro KF

res, hipotonicidade dos músculos mastigatórios e, cisão dos mesmos. A presença de incoordenação
principalmente alterações neurológicas 20. dos movimentos mandibulares sugere alterações
no controle motor dos músculos mastigatórios 13,17.
10. Contração de Masseteres
Avaliada por meio de palpação digital, posiciona- 12. Escape anterior do alimento
se os dedos bilateralmente na face do paciente na Por meio de visualização, verifica-se a presença
região dos músculos, enquanto o mesmo executa de acúmulo de alimento nas comissuras labiais, bem
a função mastigatória. Com um leve toque nessa como o escoamento do mesmo entre os lábios 24.
região, percebe-se sua contração, classificando-a,
subjetivamente, em forte, regular ou fraca. A con- 13. Amassamento com a língua
tração do masseter durante a função mastigatória A partir da visualização e análise da filmagem,
pode estar intimamente relacionada com o tônus verifica-se a presença de esmagamento do bolo ali-
deste músculo 6,7,16. mentar com a língua contra o palato duro, notando-
Esta contração muscular também pode ser veri- se a movimentação vertical ou póstero-anterior da
ficada por meio de eletromiografia, uma vez que língua. Quando essa situação ocorre, em geral, os
os fonoaudiólogos entrevistados relataram sua uti- lábios encontram-se afastados. Entretanto, se os
lização na avaliação clínica. Vale enfatizar que, o lábios estiverem selados, observa-se movimenta-
registro do potencial de ação é variado conforme a ção mandibular vertical e anterior 25.
característica do alimento, quantidade do mesmo,
tipologia facial, entre outros fatores 8,21-23. Cabe 14. Movimento de cabeça
lembrar, também, que o registro eletromiográfico Observa-se durante a avaliação direta e na aná-
varia de um equipamento para outro, o que dificulta lise da filmagem, se há compensação postural da
a comparação dos mesmos entre os diferentes cabeça durante a mastigação. Por esta razão, reco-
equipamentos. menda-se que o paciente não esteja com a cabeça
apoiada, de forma a não limitar os movimentos
11. Coordenação dos movimentos espontâneos apresentados. Utiliza-se como refe-
A partir da visualização e análise da filmagem, rência, o painel com os planos horizontal e verti-
observam-se os movimentos mandibulares de cal, localizados atrás do paciente, como mostra a
fechamento, lateralização e abertura, assim como Figura 2. Pode-se encontrar a cabeça em posição
os movimentos dos lábios e da língua quanto à pre- centralizada, mantendo o plano oclusal paralelo ao

Figura 2 – Posicionamento ideal de um paciente a ser avaliado quanto à função mastigatória

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


Protocolo de avaliação da mastigação  317
solo com a cabeça estática. Ainda pode ocorrer a 18. Tempo mastigatório
inclinação da cabeça para um dos lados, ou ainda, O tempo mastigatório, em segundos, será men-
realizar movimentos diversos como se estivesse surado utilizando-se um cronômetro, o qual será
“ajudando” os dentes a realizarem trituração 26,27. acionado imediatamente no início da fase incisal e
interrompido quando iniciar a primeira deglutição,
15. Local da trituração do alimento observada pela elevação da laringe, caracterís-
A partir da visualização e análise da filmagem, tica do início da fase faríngea da deglutição, como
nota-se o local da cavidade oral em que está ocor- manobra para proteção das vias aéreas 24. Este pro-
rendo a trituração do alimento. Esta pode locali- cedimento deve ser repetido três vezes para se cer-
zar-se na região posterior (molares e pré molares), tificar do tempo mastigatório. Estudos mostram que
mas também pode ocorrer na região anterior, com o tempo médio está entre 11,17±1,78 8 e 15,4±3,6
os dentes anteriores, como compensação, princi- segundos para o biscoito tipo waffer (porção de 2
palmente nos casos de má-oclusão 6,28. Quando os cm) 9 e de 26,3±8,8 segundos para ¼ do mini pão
lábios encontram-se afastados, esta observação é francês 9 ou de 12,79±2,6 segundos uma porção de
mais fácil, pois se verifica a localização anterior do pão francês, equivalente a ¼ de uma fatia de 1 cm
alimento. Entretanto, quando os lábios estiverem de espessura 8.
selados, verifica-se a partir da movimentação man-
dibular vertical e protrusiva 29. 19. Número de ciclos mastigatórios
Deve ser analisado por meio da filmagem, obser-
16. Respiração durante a mastigação vando-se a quantidade de movimentos mastigató-
Durante o exame direto ou na análise da filma- rios realizados durante a mastigação de um deter-
gem, verifica-se o modo respiratório durante a fun- minado alimento. Na literatura, há relato de 14 8
ção mastigatória, observando-se a coordenação a 15 ciclos mastigatórios 21, em média, para o pão
entre essas duas funções. Se os lábios estiverem francês, e de 13 ciclos para o biscoito tipo waffer 8.
selados durante a mastigação, a respiração está
ocorrendo por via nasal. Porém, se os lábios esti-
verem afastados assistematicamente ou abertos, 20. Formação do bolo
apresentando respiração ruidosa e ofegante, tritu- Em um segundo teste, o avaliador deve orientar
ração ineficiente dos alimentos, além da diminui- o paciente a não deglutir o alimento triturado, já nos
ção do número de ciclos mastigatórios e do tempo momentos finais da mastigação que antecedem a
mastigatório, tais características são sugestivas de deglutição. O mesmo deve deixar o bolo alimentar
respiração oronasal ou oral 2,30. Uma vez que exista pronto para ser deglutido, posicionado de maneira
indicativo de respiração oronasal ou oral, deve-se habitual e, em seguida, mostrá-lo ao avaliador
encaminhar o paciente para um médico otorrinola- antes de degluti-lo. O avaliador observa a forma-
ringologista para investigação da permeabilidade ção do bolo alimentar, se o mesmo é coeso, bem
das vias aéreas superiores. como o local onde o mesmo foi posicionado, se na
região do sulco longitudinal da língua ou espalhado
17. Ruídos nas ATMs pela cavidade oral. O bolo alimentar pode não ter
sido formado totalmente, mas com presença de
Cabe lembrar que uma articulação saudável
resíduos na cavidade, ou ainda, permanecendo o
não apresenta ruídos. Assim, deve ser investigado,
alimento espalhado pelo interior da cavidade oral
por meio da ausculta das ATMs com estetoscópio,
sem formação do bolo alimentar. O adequado é que
a presença desse evento, conforme já relatado na
todo o alimento esteja posicionado sobre a língua,
literatura 31. Quando se nota algum ruído nesta arti-
na região central, não restando resíduos espalha-
culação, os mesmos devem ser classificados em
dos no interior da cavidade oral 16.
estalidos ou crepitação, verificando se os mesmos
são unilaterais ou bilaterais. Estalo é caracterizado Quando o paciente abrir a boca para o avaliador
por um ruído derivado do movimento do côndilo ao observar o bolo alimentar, este irá verificar se o ali-
passar pela banda posterior do disco articular; pode mento foi devidamente triturado, apresentando uma
ocorrer na abertura ou no fechamento da boca, forma homogênea, ou se restam partículas grandes
representando algum grau de deslocamento do que não foram trituradas adequadamente, mas que
disco articular. Enquanto que a crepitação, referida serão deglutidas desta forma 6,32.
como um “ruído de areia”, “pisar em folhas secas” Deve-se lembrar que tanto o número de ciclos
ou “ranger de ossos fraturados”, ocorre na presença mastigatórios, quanto a formação do bolo alimentar
de deslocamento ou de lesões do disco articular e podem variar de acordo com as características e
de doença degenerativa articular, uma vez que a tamanho do alimento testado, como já foi descrito
superfície articular torna-se irregular 6,31. nos itens 1 e 2.

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


318  Whitaker ME, Trindade Júnior AS, Genaro KF

21. Presença de tosse, engasgo, dispnéia O sistema de tamises, composto por três penei-
ou modificação na coloração facial ras com orifícios dos respectivos tamanhos: 4,75
Estes aspectos devem ser observados durante mm, 4 mm e 2 mm, dispostas de maneira que os
a mastigação, o esperado é que o paciente consiga alimentos fragmentados passem progressivamente
conter o bolo na cavidade oral até o momento da do maior para o menor orifício, após lavadas por
deglutição. Todos estes sinais podem ser indicati- água corrente por 60 segundos. As partículas de
vos de escape posterior do alimento durante a mas- cada amêndoa são então classificadas de acordo
tigação 24. com seus tamanhos: A, com tamanho acima de
4,75 mm; B com tamanho menor que 4,75 mm e
22. Dor durante a mastigação maior que 4 mm e C com tamanho menor que 4 mm
Deve-se verificar durante a mastigação quais- e maior que 2 mm. A partir dessa análise, a efici-
quer modificações na expressão facial do paciente, ência mastigatória é classificada em ótima, quando
bem como questioná-lo sobre a presença de dor houver ausência de partículas A e presença de pou-
ou desconforto em algum momento da realização cas partículas B após a fragmentação da 2ª amên-
desta função, em que local e em que intensidade doa; boa, quando houver ausência de partículas A
ocorreu 6,7. e presença de poucas partículas B após a fragmen-
tação da 3ª amêndoa; regular, quando tiver poucas
partículas A e B após a fragmentação da 3ª amên-
23. Teste de eficiência mastigatória doa; ruim, quando o paciente não se encaixa em
A verificação da trituração adequada do bolo nenhuma das classificações anteriores, porém não
alimentar pode ser realizada a partir do teste de há partículas A após a fragmentação da 4ª amên-
eficiência mastigatória. Recomenda-se o uso do doa e péssima, quando o paciente não se encaixa
método de utilização de amêndoas como alimento em nenhuma das classificações anteriores, porém
de teste e um sistema de tamises com peneiras há presença da partículas A após a fragmentação
com orifícios variados, como ilustrado na Figura 3 da 4ª amêndoa.
10
. Solicita-se ao indivíduo a ser avaliado, a mastiga-
ção de 5 amêndoas. A 1ª amêndoa deve ser mas-
tigada de forma habitual, a 2ª amêndoa deve ser „„ DISCUSSÃO
triturada por 10 segundos, a 3ª e a 4ª amêndoas por
20 e 40 segundos respectivamente e, a 5ª amên- A Fonoaudiologia tem buscado objetividade
doa utiliza-se o mesmo tempo e número de ciclos nas avaliações que comprovem a efetividade da
mastigatórios realizados durante a mastigação da intervenção fonoaudiológica, incentivando os pes-
1ª amêndoa. quisadores a investigarem as variações da norma-

Figura 3 – Sistema de tamises, peneiras de diferentes tamanhos de orifícios

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


Protocolo de avaliação da mastigação  319
lidade para que, somente com estes dados, possa número de ciclos mastigatórios para o biscoito tipo
aplicá-los na prática clínica. A função mastigatória waffer (2cm) e o pão francês (2cm) foi de 14,85 e de
desperta interesse de várias ciências como a Fono- 14,78, respectivamente.
audiologia, Odontologia, Fisioterapia e Medicina. Assim, sugere-se que a avaliação da mastiga-
Sabendo, assim, que o fonoaudiólogo é o profissio- ção seja realizada com pão ou biscoito tipo waffer,
nal apto para prevenir, diagnosticar e reabilitar as sendo o primeiro de custo baixo e fácil aceitação
alterações das funções estomatognáticas, a mas- entre os pacientes 16 e o segundo com um tempo
tigação torna-se parte importante da atuação deste maior de conservação, sem modificação de suas
profissional. propriedades.
A ideia de se propor uma avaliação clínica da Já o tempo de mastigação foi avaliado 21 em
função mastigatória baseada em estudos já realiza- alimentos com diferentes consistências: 1 pedaço
dos, de diversas áreas, não bastaria, se esta ava- de maçã com casca (1cm de diâmetro, cortada
liação não fosse, além de completa e com respaldo em forma de bolinhas), 1 rodela de banana (1cm
científico, acessível para os fonoaudiólogos apli- de espessura), 1/4 do mini pão francês, 1 casta-
carem em sua prática clínica, nos seus diferentes nha de caju e encontrou os seguintes valores, para
locais de atuação. indivíduos normais: 74s, 75s, 77s e 77s, respecti-
Uma das primeiras preocupações com a avalia- vamente. Em outro estudo 9 que também avaliou
ção da função mastigatória deve ser em relação ao a duração dos ciclos mastigatórios nos mesmos
tipo e à quantidade do alimento a ser oferecido ao alimentos e nas mesmas quantidades, além de
paciente durante a avaliação clínica, para que se avaliar 1 bolacha tipo waffer e 1/4 de biscoito tipo
tenham parâmetros normativos e de comparação água e sal, foram obtidos os seguintes tempos de
entre os diferentes casos. Sabe-se que o tipo de mastigação, em segundos: Banana: 9,6; Pão: 26,3;
alimento modifica a função mastigatória, em rela- Waffer: 15,4; Bolacha de água e sal: 11,4; Maçã:
ção ao tempo dos ciclos e ato mastigatório, número, 10,4 e Castanha: 11,6. A diferença nos tempos de
frequência e ritmo dos ciclos mastigatórios e movi- mastigação destes alimentos testados corroboram
mentos mandibulares 23,32-34. os dados da literatura, em relação à variação das
Assim, ao mastigar um alimento mais consis- características da mastigação de acordo com cada
tente e numa maior quantidade, haverá o aumento tipo de alimento.
do número de ciclos mastigatórios, bem como da Na literatura há relato de correlação entre a
amplitude dos movimentos mandibulares, o que duração da mastigação obtida na avaliação com o
demonstra a necessidade de se utilizar, sempre cronômetro e a duração da mastigação obtida na
que possível, a mesma quantidade de alimento avaliação eletromiográfica (EMG), observando que,
na avaliação, para que se tenham parâmetros de a média da duração do tempo mastigatório para
comparação. o biscoito waffer foi de 12,95 e para o pão foi de
São necessários que os dados da história clí- 15,39, havendo uma correlação positiva entre a
nica sejam delineadores da escolha do alimento, duração do tempo total da mastigação da avaliação
de acordo com a queixa, preferência alimentar e EMG e da avaliação com o cronômetro 8.
dificuldades apresentadas pelo paciente, isso por- Se o pão ou o biscoito waffer forem os alimen-
que existe o mecanismo modulador da força mas- tos escolhidos para a realização da avaliação, na
tigatória por meio dos receptores periodontais, que quantidade proposta, os tempos de mastigação
modifica a força mastigatória e o número de ciclos devem estar de acordo com a literatura 8,9 e, sendo
mastigatórios, de acordo com as características que um tempo maior corresponderia a uma masti-
físicas do alimento 29. Isto quer dizer que, de nada gação lenta e um tempo menor, a uma mastigação
adiantaria, para fins de comparação, a utilização de rápida, devendo-se levar em consideração a quan-
um mesmo alimento nas avaliações se, a quanti- tidade oferecida para teste. Estes dados devem ser
dade deste não estiver padronizada. relacionados com os dados colhidos na história clí-
Encontra-se, na literatura, um estudo sobre a nica, na qual o paciente deverá comparar sua velo-
avaliação do número de ciclos mastigatórios em cidade de mastigação com os outros membros da
indivíduo normais e com disfunção craniomandibu- família ou pessoas com quem divida o momento de
lar (DCM), em alimentos de diferentes consistên- alimentação.
cias 21. Os valores de referência encontrados, no Após a definição dos tipos e das quantidades
grupo controle estudado, foram, em média, de 12 dos alimentos a serem utilizados, deve-se solicitar
tanto para ¼ de fatia de pão francês, quanto para ao paciente que mastigue de forma habitual e seja
1cm de maça cortada em forma de bolinhas e 11 o quanto menos interferido pelo avaliador, de modo
ciclos para fatias de 1cm de banana e uma semente que a mastigação não se modifique na presença do
de castanha. Já de acordo com outro estudo 8, o mesmo 16.

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


320  Whitaker ME, Trindade Júnior AS, Genaro KF

Deve ser observada, inicialmente, a forma de ção dos dentes, gerando forças inter-oclusais em
corte do alimento, também chamada de preensão decorrência da contração isométrica dos músculos
do alimento ou mordida, correspondente à fase levantadores da mandíbula, que partem o alimento
incisal da mastigação. A forma de preensão do ali- em partículas menores.
mento nos fornece dados importantes a respeito da Os movimentos mandibulares poderão estar
condição dentária do indivíduo, força de mordida e limitados na presença de DTM anquilose manbibu-
condição dos movimentos mandibulares. Fatores lar 6,7,31, bem como devido à presença de próteses
como deformidades dentofaciais, anquilose de ATM sem retenção adequada 10. Já a incoordenação,
e perdas de elementos dentários anteriores podem imprecisão e presença de tremor durante a execu-
alterar este aspecto 6,7,31. Diante de boa condição ção destes movimentos podem ocorrer em altera-
dentária e oclusal, além da adequada movimenta- ções neurológicas degenerativas como, na escle-
ção da mandíbula, espera-se que esta preensão rose lateral amiotrófica e doença de Parkinson 24.
ocorra na região anterior 2,16,31, dado o papel cor-
tante dos dentes incisivos. Entretanto, diante de Tosse, engasgos, dispnéia e modificações na
alterações estruturais, esta pode ocorrer com os coloração do paciente podem ocorrer durante a
dentes laterais ou, ainda realizar o corte com as mastigação, devido ao escape posterior do ali-
mãos, como forma adaptativa do sistema estoma- mento, cujo avaliador também deve atentar-se,
tognático 2,6,7. principalmente, na presença de alterações neuroló-
gicas. Geralmente, ocorre por dificuldade de man-
Os movimentos mandibulares devem ser obser- ter o bolo alimentar na cavidade oral, deixando-o
vados em relação à coordenação e a precisão dos
escoar para a faringe antes do disparo do reflexo de
movimentos e a presença de tremor. E, apesar de
deglutição. Esta dificuldade pode ser decorrente de
haver ampla variação dos movimentos mandibu-
alterações sensitivas ou motoras no sistema diges-
lares que representam padrões variados de mas-
tivo 2,24.
tigação, dentro da normalidade, segundo análises
computadorizadas destes movimentos, é possível a Muitas vezes o paciente realiza compensações
observação dos movimentos mandibulares por meio da função, apresentando movimentos de cabeça,
da movimentação da musculatura perioral 17. Com trituração do alimento com os dentes anteriores,
isso, a participação da musculatura perioral deve amassamento do alimento com a língua que, tam-
ser correspondente aos movimentos mandibulares; bém devem ser considerados durante a avaliação,
uma participação exagerada ou quase estática des- para análise das causas da disfunção 24.
tes tecidos indica anormalidade de movimentos. Durante os movimentos mandibulares é neces-
Consideram-se adequados os movimentos de sário analisar a postura dos lábios, que devem estar
abertura inclinados para o lado de não trabalho e selados, a fim de evitar o escape anterior dos alimen-
os de fechamento dirigidos para o lado de trabalho, tos, bem como auxiliam na manutenção da pressão
isto é, o lado da trituração 12. Quando o alimento intra-oral para a ejeção do alimento para a faringe
encontra-se mais triturado, o movimento predomi- para que ocorra o processo normal de deglutição 2.
nante da mandíbula se dá no plano vertical 13. Desta Lábios desocluídos durante a mastigação podem
forma, pode-se classificar os movimentos mandibu- estar diretamente relacionados com a presença de
lares em laterais, quando há lateralização do ali- deformidades dentofaciais, como dimensão vertical
mento na cavidade oral e alternância nos lados de do terço inferior da face aumentada e, principal-
trabalho ou, ainda, verticais quando os dois lados mente, alteração do modo respiratório 18,19.
forem de trabalho 31,35. Os movimentos mandibula- De acordo com os questionários respondidos,
res se alteram de acordo com o grau de trituração houve a sugestão de que fosse observado o lado
do alimento, onde quanto mais triturado, maior pre- em que se inicia a mastigação. Isto pode ser reali-
domínio de movimento vertical da mandíbula 23. zado pela observação dos movimentos mandibula-
Assim, no processo de mastigação normal, os res, onde a mandíbula deve estar lateralizada para
fenômenos espaciais que ocorrem na mandíbula aquele lado e os dentes deste lado em oclusão, ou
durante os ciclos mastigatórios são as fases de por meio de palpação tocando levemente a região
abertura da boca, na qual a mandíbula se abaixa, dos músculos masseteres, percebendo em qual
com relaxamento dos músculos levantadores e a lado há maior contração. Em seguida, utiliza-se a
contração isotônica dos músculos abaixadores da mesma estratégia para classificar a contração do
mandíbula; de fechamento da boca, momento no músculo masseter. De acordo com a literatura 14,
qual a mandíbula se eleva pela contração isotônica o lado em que se inicia a função mastigatória,
dos músculos levantadores e pelo relaxamento geralmente é coincidente com o tipo mastigatório.
reflexo dos músculos abaixadores da mandíbula; Tal investigação complementa a avaliação do tipo
e fase oclusal, na qual há contato e intercuspida- mastigatório.

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


Protocolo de avaliação da mastigação  321
Assim, o tipo de mastigação, que diz respeito ao O questionamento sobre a presença de dor ou
lado preferencial de mastigação, pode ser concor- desconforto durante a mastigação, em que inten-
dante com o lado em que se inicia a mastigação ou sidade, em que local e em que momento aconte-
com a lateralidade cerebral 14 ou ainda, segundo o ceu deve fazer parte da avaliação, para que sejam
critério utilizado por alguns autores 7,15, é conside- realizados o diagnóstico preciso e o direcionamento
rada uma predominância unilateral, quando houver adequado de tratamento 6.
mais de 66% dos movimentos mastigatórios daquele Foi observado que quanto mais lenta é a mas-
lado e, mastigação unilateral crônica, quando hou- tigação, melhor é a trituração do bolo, sendo este
ver mais de 95% de movimentos daquele lado. melhor formado. Em contrapartida, a mastigação
Sugere-se a proposta deste autor 15, classifi- rápida não promove uma boa trituração do alimento
cando o tipo mastigatório de bilateral alternado, e mantém as partículas espalhadas na boca, sem a
bilateral simultâneo, unilateral crônico ou predomi- formação adequada do bolo, o que dificulta a deglu-
nante unilateral, por ser um método mais fácil de ser tição e a digestão dos alimentos. O método proposto
aplicado e relatado em pesquisas científicas. Para na literatura 10 apresenta etapas claras e bem defi-
a classificação do tipo mastigatório, é necessária a nidas, além de ser prática e viável de ser realizado
análise do número de ciclos mastigatórios totais e na prática clínica, para a avaliação da trituração do
de cada lado. Aconselha-se que esta análise seja bolo alimentar, isto é, da eficiência mastigatória.
realizada posteriormente, a partir da filmagem. A classificação da eficiência em ótima, boa,
A presença de ruídos nas ATMs podem indicar regular, ruim e péssima fornece dados de como se
DCM, assim devem ser investigados por meio da encontra a função mastigatória de acordo com as
ausculta da ATM 31. Casos de DCM têm sido ampla- características observadas em cada aspecto, uma
mente estudados, uma vez que possuem inúmeros vez que a eficiência mastigatória é o resultado final
fatores desencadeantes, tornando muitos indiví- da mastigação como um todo.
duos expostos a tal disfunção 6,7.
Ao final deste estudo verifica-se que apesar da
Para se investigar a formação e a trituração do investigação da literatura, é importante enfatizar
bolo, deve-se orientar o paciente a não deglutir o ali- que para a avaliação clínica, ainda existem poucas
mento triturado e sim, prepará-lo para a deglutição, normalizações, pois muitos aspectos investigados
devendo ser mostrado antes da deglutição, para ainda baseiam-se em critérios subjetivos, os quais
verificar a fase de organização. Deve ser observado dependem da experiência do profissional, inviabili-
se há formação de bolo, isto é se aquele alimento zando, muitas vezes, comparações dos resultados
triturado está centralizado na língua e se, além de entre diferentes profissionais e centros de pesquisa.
centralizado está bem triturado, se apresenta uma Este fato evidencia a necessidade de novos estu-
forma homogênea ou ainda são visualizadas par- dos nessa área.
tículas não trituradas. A trituração inadequada do
bolo alimentar diminui a superfície de contato para
a ação das enzimas digestivas, o que dificulta a „„ CONCLUSÃO
degradação do alimento ingerido 29.
O período entre a fase incisal e o momento que Este trabalho propôs apresentar um roteiro para
antecede a deglutição com a elevação da laringe, a avaliação clínica da mastigação e desta forma,
corresponde ao tempo mastigatório, mensurado por acredita-se ter contemplado aspectos importantes
meio de cronômetro. Sabe-se que o tempo de mas- da mastigação, proporcionando ao fonoaudiólogo
tigação varia de acordo com o tipo de alimento, por uma melhor definição de critérios a serem utilizados
isso é necessário padronizá-lo 29. durante a avaliação da função mastigatória.

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


322  Whitaker ME, Trindade Júnior AS, Genaro KF

ABSTRACT

Purpose: to elaborate a protocol for the clinical evaluation of the masticatory function, aiming at aiding
the speech pathologist to identify and interpret the clinical signals of the masticatory disorders, in its
dynamics, in addition to allowing for inter-judge comparison and treatment continuation. Methods: this
protocol was elaborated based on the clinical practice of the speech pathologists that answered to a
questionnaire sent by email; in the literature, according to the identification of the common points to all
chewing evaluation protocols; in addition to the experience of the speech pathologists of HRAC/USP.
Results: the protocol for the clinical chewing evaluation considers aspects related to morphologic
aspects and neurophysiology of the masticatory function. Conclusion: this study contributes to
Speech Pathology, once that it searches, in the most possible complete manner, criteria for evaluating
the chewing, guiding the clinical speech-language performance based on evidences.

KEYWORDS: Evaluation, Mastication; Etomatognatic System

„„ REFERÊNCIAS consistências. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2006;


11(3):170-4.
1. Comitê de Motricidade Oral. Sociedade Brasileira 10. Carvalho LEP. Avaliação do nível de satisfação,
de Fonoaudiologia. Documento oficial 04/2007. capacidade, eficiência e performance mastigatórias
2. Cattoni DM. Alterações da mastigação e em pacientes reabilitados com próteses fixas totais
deglutição. In: Ferreira LP, Befi-Lopes DM, Limongi inferiores sobre implantes, sob carga imediata
SCO, organizador. Tratado de fonoaudiologia. São [dissertação]. Bauru (SP): Universidade do Sagrado
Paulo: Roca; 2004. p.277-91. Coração; 2002.
11. Berretin-Félix G, Jorge TM, Genaro KF.
3. Felício CM. Desenvolvimento normal das
Intervenção fonoaudiológica em pacientes
funções estomatognáticas. In: Ferreira LP, Befi-
submetido à cirurgia ortognática. In: Ferreira LP,
Lopes DM; Limongi SCO, organizador. Tratado
Befi-Lopes DM, Limongi SCO, organizador. Tratado
de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca; 2004.
de fonoaudiologia. São Paulo: Roca; 2004. p.
p.195-211.
495-511.
4. Zhao L, Monahan R. Functional assessment of 12. Mioche L, Bourdiol P, Monier S. Chewing
the stomatognathic system. Clin Plast Surg. 2007; behavior and bolus formation during mastication of
34(3):1-9. meat with different textures. Arch Oral Biol. 2003;
5. Gomes FCS, Melo LF, Chiappetta ALML. Aspectos 48(3):193-200.
do padrão mastigatório na dentição decídua e mista 13. Komiyama O, Asano T, Suzuki H, Kawara M,
em crianças de três a nove anos. Rev CEFAC. Wada M, Kobayashi K, et al. Mandibular condyle
2006; 8(3):313-9. movement during mastication of foods. J Oral
6. Felício CM, Melchior MO, Silva MAMR, Celeghini Rehabil. 2003; 30(6):592-600.
RMS. Desempenho mastigatório em adultos 14. Nissan J, Gross MD, Shifman A, Tzadok L, Assif
relacionado com a desordem temporomandibular e D. Chewing side preference as a type of hemispheric
com a oclusão. Pró-Fono. 2007; 19(2):151-8. laterality. J Oral Rehabil. 2004; 31(5):412-6.
7. Felício CM, Mazzetto MO, Bataglion C, Silva 15. Tay DK. Physiognomy in the classification of
MAMR, Hotta TH. Desordem temporomandibular: individuals with a lateral preference in mastication. J
análise da frequência e severidade dos sinais e Orofac Pain. 1994; 8(1):61-72.
sintomas antes e após a placa de oclusão. J Bras 16. Felício CM, Ferreira CLP. Protocol of orofacial
Ortodon Ortop Facial. 2003; 8(43):48-57. myofunctional evaluation with scores. Int J Pediatr
8. Arrais RD, Genaro KF, Sampaio ACM. Função Otorhinolaryngol. 2008; 72(3):367-75.
mastigatória em indivíduos normais: duração do 17. Pignataro Neto G, Bérzin F, Rontani RMP.
ato e do ciclo mastigatório. Anais do 12º Simpósio Identificação do lado de preferência mastigatória
internacional de Iniciação Científica da Universidade através de exame eletromiográfico comparado ao
de São Paulo; 2004, 23-24 nov; Ribeirão Preto, visual. Rev Dent Press Ortodon Ortop Facial. 2004;
Brasil. p. 788. 9(4):77-85.
9. Melo TM, Arrais RD, Genaro KF. Duração 18. Cunha DA, Silva GAP, Motta MEFA, Lima
da mastigação de alimentos com diferentes CR, Silva HJ. A respiração oral em crianças e

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009


Protocolo de avaliação da mastigação  323
suas repercussões no estado nutricional. Rev 27. Cesar AM, Garibaldi A, Di Ninno CQM, Krakauer
CEFAC. 2007; 9(1):47-54. dx.doi.org/10.1590/ L. A influência da postura anteriorizada da cabeça
S1516-18462007000100007 no padrão mastigatório. Rev CEFAC. 2004;
19. Duarte LIM, Ferreira LP. Respiração e 6(3):259-65.
mastigação: estudo comparativo. Rev Dental Press 28. Pastana SG, Costa SM, Chiappetta ALML. Análise
Ortodon Ortop Facial. 2003; 8(4):79-87. da mastigação em indivíduos que apresentam
20. Groher ME. Distúrbios de deglutição em idosos. mordida cruzada unilateral na faixa-etária de 07 a
In: Furkim AM, Santini CS, organizador. Disfagias 12 anos. Rev CEFAC. 2007; 9(3):339-50. dx.doi.
orofaríngeas. Carapicuiba: Pró-Fono; 1999. org/10.1590/S1516-18462007000300008
p.97-108. 29. Douglas CR. Tratado de fisiologia aplicada à
21. Berretin-Felix G, Genaro KF, Trindade fonoaudiologia. 1. ed. São Paulo: Robe; 2002.
IEK, Trindade Júnior AS. Masticatory function 30. Silva MAA, Natalini V, Ramires RR, Ferreira LP.
in temporomandibular dysfunction patients: Análise comparativa da mastigação de crianças
eletromyographic evaluation. J Appl Oral Sci. 2005; respiradoras nasais e orais com dentição decídua
13(4):360-5. Rev CEFAC. 2007; 9(2):190-8. dx.doi.org/10.1590/
22. Oncins MC, Freire RMAC, Marchesan IQ. S1516-18462007000200007
Mastigação: análise pela eletromiografia e 31. Bianchini EMG. Articulação temporomandibular:
eletrognatografia: seu uso na clínica fonoaudiológica. implicações, limitações e possibilidades fonoaudio-
Dist Comun. 2006; 18(2):155-65. lógicas. 1. ed. Carapicuiba: Pró-Fono; 2000. 402p.
23. Kohyama K, Mioche L, Bourdiol P. Influence of 32. Hatch JP, Shinkai RS, Sakai S, Rugh JD,
age and dental status on chewing behaviour studied Paunovich ED. Determinants of masticatory
by EMG recordings during consumption of various performance in dentate adults. Arch Oral Biol. 2001;
food samples. Gerodontol. 2003; 20(1):15-23. 46(7):641-8.
24. Padovani AR, Moraes DP, Mangili LD, Andrade 33. Felício CM, Fernandes RSM, Silva MAMR.
CRF. Protocolo fonoaudiológico de avaliação Investigação da relação entre o tipo mastigatório
do risco para disfagia (PARD). Rev Soc Bras e o limite de movimento lateral da mandíbula. Rev
Fonoaudiol. 2007; 12(3):199-205. Soc Bras Fonoaudiol. 2005; 10(2):71-6.
25. Nishigawa K, Nakano M, Bando E. Study of jaw 34. Filipic S, Keros J. Dynamic influence of food
movement and masticatory muscle activity during consistency on the masticatory motion. J Oral
unilateral chewing with and without balancing side Rehabil. 2002; 29(5):492-6.
molar contacts. J Oral Rehabil. 1997; 24(9):691-6. 35. Teixeira ML. Avaliação do movimento mandibular
26. Ueda HM, Kato M, Saifuddin M, Tabe H, em pacientes com fissura transforame incisivo.
Yamaguchi K, Tanne K. Differences in the fatigue [dissertação]. Bauru (SP): Universidade de São
of masticatory and neck muscles between male and Paulo; 2000.
female. J Oral Rehabil. 2002; 29(6):575-82.

doi: 10.1590/S1516-18462009005000030
RECEBIDO EM: 10/04/2008
ACEITO EM: 19/01/2009

Endereço para correspondência:


Melina Evangelista Whitaker
Rua Dr. Antônio Prudente, 4-152
Bauru – SP
CEP: 17016-010
E-mail: mirian3m@uol.com.br

Rev CEFAC, v.11, Supl3, 311-323, 2009

Você também pode gostar