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OBJETO E MÉTODO DA ANÁLISE INSTITUCIONAL

René Lourau

Um novo espírito científico

Félix Guattari escrevia recentemente, apresentando um número de Recherches (revista


do movimento institucionalista):

“A análise institucional implica um descentramento radical da enunciação


científica. Mas, para consegui-lo, não basta dar a palavra aos sujeitos envolvidos –
às vezes uma questão formal, inclusive jesuítica. Além disso, é necessário criar as
condições de um exercício total, paroxístico mesmo, desta enunciação. A ciência
nada tem a ver com medidas justas e compromissos de bom tom. Romper, de fato,
as barreiras do saber vigente, do poder dominante, não é fácil... É todo “um novo
espírito científico” que precisa ser refeito1.

Este texto, sob a forma de um manifesto, indica o que está por construir e o que se
precisa realizar: “um descentramento radical”. Neste capítulo, trataremos de apontar como se
efetuará tal descentramento e quais são os “centros” deslocados pelo movimento.

A ANÁLISE

Análise Institucional: trata-se, em princípio, de definir cada um dos termos e de


estabelecer em que se modificou seu conteúdo.

Antes de mais nada, que significa o termo análise? Começaremos pela definição de
Yves Barel.

“Em que consiste o método analítico? Baseia-se, essencialmente, na


hipótese de que é possível explicar e compreender uma realidade complexa
decompondo-a em elementos simples, analisando cada elemento e somando, ou
pondo uma depois da outra, essas análises. O método analítico não rechaça as
relações nem a interação entre os elementos. Mas se baseia na idéia de que tais
relações são mais bem explicadas através da ação dos elementos, pois aquelas
não explicam esta ação. Sejamos um pouco mais precisos: para estudar o papel
de um elemento no conjunto, o passo clássico do método analítico consiste em
fazer variar, experimental ou idealmente, este elemento, permanecendo
constantes os demais; ou então em manter constante este elemento enquanto os


Objeto y método del análisis institucional. Em El Análisis Institucional. Madri: Campo Abierto, 1977 
versão a partir da qual foi efetuada a presente tradução. Publicado anteriormente em francês (Pour n° 32, 1973).
Tradução: Patrícia Jacques Fernandes e Heliana de Barros Conde Rodrigues.
1
Liminaire de Recherches, Março, 1973.

1
demais variam. Desta forma, procedendo elemento por elemento ou relação por
relação, podemos chegar a uma compreensão do conjunto.2”
Eis a definição “clássica” de análise. Ao falar de análise nas ciências humanas
(psicanálise, análise institucional, socioanálise) também se tem por alvo a decomposição de
um todo em seus elementos. A isto se acrescenta a idéia de interpretação: interpretar um
sonho ou uma fala de grupo é passar do desconhecido ao conhecido; é uma operação de
deciframento. Freud compara o descobrimento do inconsciente ao deciframento de
hieróglifos. Aqui, a análise se transforma em hermenêutica 3. Procede-se trazendo à luz o que
está escondido e só se revela pela operação que consiste em estabelecer relações entre
elementos aparentemente disjuntos. Trata-se de reconstruir uma totalidade que se havia
rompido.

Marx utiliza muitas vezes o mesmo termo  a análise  em O Capital. Especifica


ser ela necessária somente quando as relações sociais não são imediatamente visíveis e,
sobretudo, na relação de exploração. Com efeito, a exploração é visível no sistema feudal. O
discurso analítico não é necessário, no caso. Porém a exploração se acha dissimulada no
sistema capitalista e, para que venha à luz, para que se revele, uma análise torna-se então
necessária.

O ESCONDIDO, O INCONSCIENTE, O INIBIDO

As instituições formam a trama social que une e atravessa os indivíduos, os quais, por
meio de sua práxis, mantêm ditas instituições e criam outras novas (instituintes).

As instituições não são somente os objetos ou as regras visíveis na superfície das


relações sociais. Têm uma face escondida. Esta face, que a análise institucional se propõe a
descobrir, revela-se no não dito. O ocultamento é produto de uma repressão. Poderíamos
falar, aqui, de uma repressão social que produz o inconsciente social. Aquilo que se censura é
a palavra social, a expressão da alienação e a vontade de mudança. Do mesmo modo que há
um retorno do reprimido durante os sonhos ou nos atos falhos, há um “retorno do reprimido
social” nas crises sociais.

2
YVES BAREL. A análise dos sistemas: problemas e possibilidades, mimeo, 1973. Do mesmo autor “A
reprodução social: sistemas viventes, invariância e mudança”, Paris: Anthropos, 1973. Y. Barel acrescenta:
“Nenhuma investigação científica, incluindo a abordagem sistêmica, pode prescindir do método analítico. Tudo
o que dizem os grandes teóricos do sistema é que o método analítico, perfeitamente adaptado ao estudo dos
sistemas simples (na prática, alguns sistemas físicos), torna-se inadequado para o estudo dos sistemas mais
complicados”.
3
Hermenêutica: ciência da interpretação do que está oculto.

2
Descobrir o não-dito, o censurado, foi a obra de Marx e Freud, os dois grandes
desmascaradores.

Marx, pondo em evidência a luta de classes como significado do movimento da


história e a instituição da mais-valia capitalista (mascarada pela instituição do salário); Freud,
descobrindo o inconsciente, oculto sob uma ordem institucional criadora de racionalizações.
Tanto um como outro nos convidam a uma investigação acerca do oculto através de um
questionamento das instituições ocultantes, sejam elas da ordem da racionalização ou da
ideologia. Esta investigação é uma hermenêutica que implica o desvelamento da repressão do
sentido por meio da análise dos fatores de desconhecimento. Este ocultamento se completa
através de mediações institucionais que permeiam toda a sociedade.

Assim, as leis, as regras, os preconceitos que limitam a sexualidade a sua “função” de


procriação ocultaram a verdade sobre o desejo sexual. A luta instituinte contra essas regras
instituídas se manifestou em comportamentos ou obras artísticas condenados: destruiu-se
Urbano Grandier, como se fez posteriormente com as obras de Diderot ou Sade.

Estas manifestações de não-conformidade com o instituído são, elas mesmas,


reveladoras da natureza do instituído. São o ANALISADOR. Do mesmo modo, a Comuna de
Paris foi o revelador do Estado de classe e de sua verdade; assim, Marx descobre através da
Comuna o que é realmente o Estado.

Marx e Freud elaboraram suas teorias graças ao que revelavam os dispositivos


analisadores: a prática revolucionária, o cerimonial da cura psicanalítica.

OS ANALISADORES

O “novo espírito científico” encontrou sua origem na mudança profunda a partir da


qual é o analisador que realiza a análise. Encontraremos um exemplo desta mudança no
número de Recherches anteriormente citado. A análise institucional já não significa, hoje em
dia, o que era em sua primeira fase psicoterapêutica (Saint-Alban, Cour-Cheverny), ou seja, a
técnica que consiste em manipular as “instituições” de cura para tratar os enfermos. Já não
significa um uso das instituições para produzir o material da análise. A análise institucional é,
atualmente, a irrupção na cena política dos antigos “clientes” dos analistas. É a transformação
de uma palavra terapêutica, até agora escravizada pelos analistas, em uma palavra política,
liberada e liberadora, dos analisadores. É o ataque conduzido sobre o próprio terreno onde até

3
então se mantinha a dominação analítica. Passa-se, portanto, da noção de análise à de
analisador.

Também nesta noção voltamos a encontrar a idéia essencial da decomposição de uma


totalidade nos elementos que a compõem. O analisador químico é aquele que decompõe um
corpo em seus elementos, produzindo, em certa medida, uma análise. Neste caso,
encontramo-nos nas ciências físicas. Não se trata de interpretar neste primeiro nível, mas de
decompor um corpo. Não se trata de construir um discurso explicativo, mas de trazer à luz os
elementos que compõem o conjunto.

Quando Pavlov chama de “analisadores” o córtex, os órgãos dos sentidos, quer


sublinhar o fato de o aparelho neurológico produzir uma primeira “análise” do mundo
exterior. A partir desta primeira análise, construíram-se as teorias. Mas o sistema nervoso
realiza, antes, uma ordenação: efetua-se, assim, uma primeira interpretação da realidade. Ao
retomar o conceito de analisador nos trabalhos de psicoterapia institucional, Torrubia e
Guattari se inspiram, sem fazer referência explícita a isso, nesta definição de analisador. Com
efeito, chama-se analisador, em uma instituição de cura, aos lugares onde se exerce a palavra,
bem como a certos dispositivos que provocam a revelação daquilo que estava escondido.

A introdução do termo neste contexto marca, por conseguinte, uma evolução da


prática institucionalista.

– em um primeiro momento, as “instituições” eram concebidas como instrumentos


terapêuticos.

– em um segundo período, sem eliminar totalmente a primeira orientação, estas


instituições (a “grade” ou emprego do tempo, as reuniões, etc. ...) aparecem como
reveladoras, catalisadoras do sentido: realizam, elas mesmas, a análise.

Mais adiante veremos como a contra-sociologia utiliza o mesmo termo. Mas antes é
necessário dizer algumas palavras acerca das instituições.

AS INSTITUIÇÕES

A existência de obras4 dedicadas a examinar as diferentes acepções do termo


instituição, a destruir e reconstruir o conceito, nos permitirá recordar aqui apenas o essencial.

4
R. LOURAU: L’Analyse Institutionnelle, 1969 (A Análise Institucional, Vozes, 1975). GEORGES
LAPASSADE: Groups, organisations, institutions. Gauther Villars, 1967 (Grupos, organizações e instituições,
Francisco Alves, 1977).

4
Primeiro, as instituições são normas. Mas elas incluem também a maneira como os
indivíduos concordam, ou não, em participar dessas mesmas normas. As relações sociais
reais, bem como as normas sociais, fazem parte do conceito de instituição. Seu conteúdo é
formado pela articulação entre a ação histórica de indivíduos, grupos, coletividades, por um
lado, e as normas sociais já existentes, por outro.

Segundo, a instituição não é um nível da organização social (regras, leis) que atua a
partir do exterior para regular a vida dos grupos ou as condutas dos indivíduos; atravessa
todos os níveis dos conjuntos humanos e faz parte da estrutura simbólica do grupo, do
indivíduo.

Logo, pertence a todos os níveis da análise: no nível individual, no da organização


(hospital, escola, sindicato), no grupo informal bem como no formal, encontramos a dimensão
da instituição.

UM SISTEMA DE REGRAS

As instituições aparecem em primeiro lugar e têm sido definidas como sistemas de


regras que determinam a vida dos indivíduos, dos grupos sociais e das formas sociais
organizadas. Com freqüência, estas últimas  fábrica, hospital, escola, sindicato...  são
chamadas de instituições. Não se trata de uma confusão entre duas acepções diferentes do
termo, visto que podemos considerar certas formas sociais singulares como sistemas de regras
unidos a outros sistemas de regras, formando, em conjunto, o tecido institucional da
sociedade. Falar da escola como instituição é simplesmente falar de um sistema de regras
organizado segundo uma estrutura espacial imediatamente expressiva, mais clara que a
instituição do matrimônio ou do salário, que definem, todavia, o verdadeiro “nível” da
instituição.

Assim, um “estabelecimento” seria uma instituição, da mesma forma que uma lei
estabelecida.

O termo instituição pode referir-se também às constituições políticas, às leis, aos


aparelhos encarregados da execução e do controle dessas leis, bem como aos preconceitos, às
modas, às superstições, etc.

Todas essas regras, normas, costumes, tradições etc., que o indivíduo encontra na
sociedade, são o que está instituído e que o sociólogo pode estudar de maneira objetiva. Esta

5
ordem do instituído foi privilegiada tanto por aqueles que têm uma concepção objetiva do
direito quanto pela sociologia positivista.

Neste sentido, para Durkheim, a instituição é assimilada ao instituído. Acompanhando


Saint Simon, Augusto Comte e Spencer, Durkheim considera as instituições como pura
coação exterior, imposta pela sociedade como uma necessidade de regulação social. Admite
que as instituições podem deixar de desempenhar seu papel e que é necessário modificá-las,
mas a iniciativa de uma mudança é devolvida ao próprio instituído, aos organizadores a
serviço do Estado. Esta é uma concepção ao mesmo tempo positivista (a instituição é uma
“coisa”, um “fato social” que coage o homem a partir do exterior) e funcionalista (seguindo
um modelo biológico: as instituições se encarregam da regulação da sociedade para prevenir a
anomia, ou seja, o aniquilamento da coesão social).

Esta concepção funcionalista corresponde à dos antropólogos como Malinowsky, aos


culturalistas americanos, a Parsons (estruturo-funcionalismo).

Todas estas concepções consideram as instituições essencialmente sob o aspecto do


instituído, incluindo as exigências da sociedade para seu funcionamento.

Em todas estas teorias, de Durkheim a Parsons, escotomiza-se uma dimensão


importante da instituição, que é o instituinte, ou seja, o fato de que a instituição, embora se
apresente como um fato exterior ao homem, necessitou de seu poder instituinte. Além disso,
se o homem sofre as instituições, também as cria e as mantém por meio de um consenso que
não é somente passividade frente ao instituído, mas igualmente atividade instituinte, a qual,
além disso, pode servir para pôr em questão as instituições. O fato de que uma instituição seja
contestada também faz parte dela.

Em uma postura contrária a esses sistemas objetivos, exteriores ao homem, que não
estudam a instituição senão como regras de funcionamento social, alguns autores elaboraram
uma concepção a partir da psicologia. Para Monnerot, por exemplo, as instituições são objetos
imaginários. São sistemas de defesa contra a angústia que se projetam no exterior. A
compreensão das instituições passa pela compreensão do plano individual. É por empatia com
uma pessoa que se poderá compreender o papel das instituições. Aqui, voltamo-nos para a
questão da implicação. A ela retornaremos posteriormente.

O INSTITUINTE CONTRA O INSTITUÍDO

6
Desde suas origens, a corrente institucionalista pôs ênfase na relação antagonista entre
o instituinte e o instituído e nos processos ativos da institucionalização. A alienação social
significa a autonomização institucional, a dominação do instituído fundada no esquecimento
de suas origens, na naturalização das instituições. Produzidas pela história, elas acabam por
aparecer como fixas e eternas, como algo dado, condição necessária e trans-histórica da vida
das sociedades.

Este esquecimento (“efeito Weber”: a ignorância institucional e instituída), este não-


dito que fundamenta os discursos analíticos sobre o silêncio em lugar de fazê-lo sobre o que
os institui, eis o que a análise institucional faz aparecer, interrogando o ato de instituir que
definiu a instituição.

Os processos históricos de crise, de mudança e de revolução são o laboratório da


sociedade instituinte. Mas a aproximação ao instituinte também pode passar pelo estudo de
momentos de “efervescência” (Durkheim) passíveis de serem observados, em certas
sociedades, nas festas e nos transes coletivos. As cerimônias ditas de possessão ritualizam a
evocação do instituinte original. Mas nestes ritos, devido a serem ritos, só encontramos o
instituinte arrefecido, re-produzido, ainda mantido no esquecimento das condutas sociais de
origem.

A cultura dos oprimidos (especialmente dos ritos dionisíacos) reproduz e repete a


recordação deformada e atrofiada de um projeto originário de liberação e de
institucionalização coletiva: na parte mais secreta, mais codificada e simbolizada, os ritos de
possessão e de transe “contam” um passado de luta contra a opressão, falam da “magia negra”
da revolta e do entusiasmo coletivos; em suma, mediante um discurso indireto, indicam tudo
aquilo que forma o núcleo de qualquer experiência revolucionária.

Assim, na revolução, as novas instituições (contra-instituições) aparecem e se


desenvolvem, para depois regredir e desaparecer com a subida do novo poder, para passar a
um inconsciente coletivo que é o inconsciente político das sociedades.

NÍVEIS E INSTÂNCIAS

Em certas obras de orientação institucionalista, como Chaves da Sociologia, por


exemplo, a instituição é apresentada como um nível de análise, posterior aos níveis do grupo e
da organização.

7
Tal descrição deve ser modificada. Com efeito, se admitimos que a instituição é,
fundamentalmente, aquilo que mantém a existência dos indivíduos, grupos e organizações (“a
instituição faz o homem”, escrevia Rousseau) e que os atravessa (por exemplo, é a divisão
instituída do trabalho que determina a organização da empresa), é necessário apresentar a
instituição e a análise institucional em outros termos.

De fato, e isto tem uma importância metodológica essencial, a instituição atravessa


todos os níveis de uma formação social determinada.

A tradição marxista situa as instituições na “superestrutura” da sociedade.

Estas instituições políticas, objeto de uma “ciência” específica  a “ciência política”


no sentido clássico do termo  , são as instituições do governo – o aparelho de Estado –, bem
como as instituições supranacionais e internacionais. Definem um campo específico, por
oposição outros setores da sociedade. Implicam, portanto, uma separação das instâncias da
formação social, ao mesmo tempo que uma certa autonomia do político. Marx, a partir de
Hegel, em sua critica da filosofia hegeliana do Estado e do Direito, localiza as instituições
(em geral) na superestrutura, junto com as ideologias. Não utiliza explicitamente o conceito
de instituição a não ser quando analisa a base econômica da sociedade.

Ora, a base econômica da sociedade se define por meio das relações de produção que
estão institucionalizadas: a venda da força de trabalho, por exemplo, se articula em um
sistema institucional5. Não se trata de descrever as instituições econômicas (o crédito, o
banco, o mercado) como faz atualmente a ciência econômica clássica6. Tampouco de analisar
a “institucionalização da vida econômica”7.

Finalmente, as ideologias não existem em um céu de idéias, independentemente de


suportes materiais (materialidade dos meios) e de determinações econômicas (as instituições
da indústria cultural, da edição e, de modo geral, da produção de mensagens são cada vez
mais as instituições econômicas da indústria cultural: atualmente existem supermercados da
cultura, trustes de editores). Os aparelhos ideológicos são atravessados pelo “econômico” e
pelo “político”.

Hoje em dia já não é possível conceber as instituições como um estrato, uma instância
ou um nível de uma formação social determinada. Pelo contrário, é necessário definir a
5
Cf. PAUL CARDAN: Marxismo y teoria revolucionaria. Socialisme ou Barbarie, n° 39, marzo-abril, 1965, n° 40,
junio-agosto, 1965 (Retomado em “A instituição imaginária da Sociedade”, Paz e Terra, 1986).
6
Cf. La economia institucional.
7
TALCOTT PARSONS: La institucionalización de los valores e las motivaciones de la actividad ecnomica, en:
“Psychologie sociale”. Levy-Dunod, Paris, 1965.

8
instituição como um “cruzamento de instâncias” (econômica, política e ideológica) e afirmar,
além do mais, empregando a linguagem da análise institucional: se é certo que toda instituição
é atravessada por todos os “níveis” de uma formação social, a instituição deve ser definida
necessariamente pela transversalidade8.

Sendo assim, não podemos considerar a instituição como um nível, porque se encontra
presente também em todos os outros. Trata-se de uma dimensão fundamental que atravessa e
funde todos os níveis da estrutura social.

Podemos apontar o lugar específico do conceito de instituição nos níveis de análise


por meio de um gráfico. Ele indica essencialmente que a instituição não é um “nível” ou uma
“instância” da realidade e da análise. É uma instância que atravessa as outras instâncias: a da
organização, a do grupo, a da relação.

A INSTITUIÇÃO É O INCONSCIENTE POLÍTICO

Insistimos muitas vezes no não-dito, no oculto, na ignorância institucional (Max


Weber). A partir daí, sugerimos que a análise poderia ser concebida como uma hermenêutica.

Mas ainda é necessário explicar a origem do desconhecimento, do esquecimento


institucional. Devemos indicar o motivo de sermos ignorantes e, inclusive, cegos ante nossas
instituições, bem como a que razão se deve que tal ignorância geralmente não seja levada em
conta nas ciências sociais.

A hipótese fundamental é que o Estado de classe é o lugar originário da repressão. A


ilusão institucional e o desconhecimento são necessários para que o sistema social se
8
Esta revisão do conceito de instituição tem conseqüências práticas, especialmente na prática social, na mudança
social. Um só exemplo é suficiente para demonstrá-lo: trata-se do problema clássico, no movimento operário,
das relações entre os partidos e os sindicatos, e das relações destes dois tipos de instituições com a mudança
social. Se admitimos, de fato, que as instituições são “atravessadas tanto pelo econômico como pelo político e o
ideológico”, pôr em prática este princípio tem conseqüências imediatas sobre a teoria da organização
revolucionária e do processo revolucionário (em outra linguagem, que será especificada em seguida, sobre uma
teoria da mudança social). Esta posição teórica conduziria a duas conseqüências:
a) Renunciamos a separar a luta econômica (que seria função das instituições sindicais) e a luta política
(reservada aos partidos). Mas os partidos e os sindicatos inspirados no marxismo não param de oscilar entre o
economicismo (que define as instituições como puros reflexos) e a orientação anarco-sindicalista que privilegia,
ao contrário, a contestação das instituições e uma certa problemática institucional.
b) A partir das considerações anteriores e em função do que acabamos de enunciar, seria necessário
acabar com a separação atual entre a luta institucional (definida por outros, como veremos, como uma “luta de
civilização” e inclusive como “revolução cultural”) e a luta definida como diretamente política (abolição da
propriedade privada dos meios de produção e, sobretudo, tomada do poder de Estado).

9
mantenha, para a estabilidade das relações sociais dominantes, produzida e reproduzida pelas
instituições.

O Estado centralizado tanto funciona tanto como fonte de repressões quanto, além
disso, mediante todos os seus mecanismos e aparelhos ideológicos, como produtor
permanente do desconhecimento institucional.

Daremos um exemplo. Nas atuais lutas das minorias nacionais, o programa consiste
em destruir a hegemonia instituída das linguagens dominantes, sua tirania. Estas lutas são os
analisadores da dominação do Estado centralizado, as fontes diretas de sua destruição. As
minorias etnolingüísticas põem em suspenso o estatismo. Lançam-se contra o centralismo
cultural, contra a colonização e a repressão das línguas e das culturas dominadas.

Eis como funcionam esta dominação e esta repressão: em nome das línguas
dominantes, os idiomas invalidados são taxados de bárbaros, da mesma maneira que as
religiões decaídas são rebaixadas à categoria de bruxaria e de magia.

As instituições desqualificadas se transformam sempre em instituições malditas,


diabólicas, reprimidas e, finalmente, destruídas. Devido à mesma dinâmica histórica, a
religião vencida se transforma em magia negra e a linguagem inferiorizada se torna dialeto
(patoá) e depois dialeto regional, até que desaparece.

Os berberes da África do Norte tiveram um alfabeto, mas atualmente os signos


dispersos do mesmo só são encontrados nos motivos decorativos dos tapetes berberes.

Estes signos foram dispersados, esquecidos e reprimidos, a base material da língua foi
destruída; o cultural reprimido só aparece em fragmentos disjuntos – signos materiais agora
separados de seu sentido.

As culturas reprimidas sobrevivem, contudo, no inconsciente das sociedades. Mas seus


farrapos se dissimulam, se deformam e se reduzem ao estado de signos disjuntos, como
podemos observar em alguns ritos de possessão9. Em tais ritos, o retorno do reprimido se
traduz pelo uso de “tacos”, de perjúrios, de inversões de sentido, de jogos de palavras em que
se expressa, de forma dissimulada e indireta, a contestação da linguagem dos grupos
dominantes, ao mesmo tempo que a recordação das lutas dos oprimidos.

A EXPERIMENTAÇÃO

9
Vale assinalar que os processos de possessão da Idade Média eram também os processos da Ocitânea.

10
O objetivo da análise institucional em situação de intervenção é validar o conceito de
analisador. Esta proposição dá imediatamente a impressão de ter uma finalidade
experimentalista. Conquanto não se trate de ratos e macacos, decerto o aspecto experiencial
ou experimental está sempre presente na intervenção socioanalítica. Quando os alunos
submetidos à pedagogia institucional se recusam a ser cobaias de seu professor; quando os
enfermos de um hospital psiquiátrico afirmam que se os médicos aparecem como os
“capitalistas”, eles, os enfermos, são os “proletários”; quando, após haverem lido os resumos
das intervenções socioanalíticas10, os católicos dizem que nada têm a ver com as amostras de
população de Lévi-Strauss, fica claro que a relação de dominação geralmente existente na
experimentação é trazida à luz, independentemente do que pensem dela o pedagogo, o
psiquiatra, o socioanalista.

Nos seminários autogestionados, a autogestão aparece como um dispositivo artificial e


sem eficácia direta sobre a mudança social. A autogestão de um seminário de curta duração
ou de uma intervenção socioanalítica, que dura alguns dias somente, não é a autogestão de
uma turma ou de um estabelecimento escolar. No caso de um estabelecimento, pomos em
marcha um verdadeiro projeto social de transformação.

Todas as situações de análise e de intervenção estão baseadas no manejo de


analisadores construídos e artificiais (a cura psicanalítica, o T. Group, etc. ...), atualizados
com o objetivo de fazer emergir, como disse Freud, um material analisável. O “cerimonial da
cura analítica” é, de fato, um dispositivo quase experimental de conhecimento. Os
analisadores construídos definem o “laboratório social”: para as ciências sociais, constituem o
equivalente do laboratório.

O cientificismo, em sentido estrito, é a reprodução do laboratório no campo das


ciências sociais e psicológicas. Não é o que propomos com a teoria dos analisadores naturais
e artificiais. Trata-se, aqui, de equivalência, e não de reprodução ou de imitação. O conceito
de analisador é, pelo contrário, o único meio de ultrapassar a oposição e o antagonismo que de
fato existem, atualmente, entre as ciências humanas experimentais e as ciências humanas
clínicas.

A FUNÇÃO DO INTELECTUAL ANALISTA

O projeto da análise institucional, acompanhando o ponto de vista da tendência 


insistir mais na luta anti-institucional do que na construção de um novo sistema filosófico –, é
10
Cf. Les analyseurs de l’église.

11
menos acrescentar algo à sociologia crítica (anti-sociologia) do que propor uma alternativa
aos modelos de análise e de intervenção social.

Aqui, “propor” deve ser entendido da seguinte maneira: em tempo “normal” (ou seja,
durante um período “frio”), a teoria da análise social, produto de práticas sociais de
intervenção, é somente uma atividade de intelectual. Este último tem por tarefa, portanto,
enunciar proposições (e não ditar dogmas científicos) extraídos das relações que estabelece
entre as práticas sociais e sua própria prática social, sempre menos rica que a das categorias
ou dos grupos confrontados diretamente (originariamente) à exploração. Fica claro, assim,
que tais proposições não são produtos de seu espírito mais, ou menos brilhante, tampouco
puros “reflexos” de lutas levadas a cabo pelos outros. Mais precisamente, trata-se do
resultante teórico, ou debilmente prático-teórico, dos efeitos da prática social dos outros sobre
a do intelectual, a qual compreende principalmente, e às vezes unicamente, a prática da
escritura e da fala. O intelectual não é o analisador e sim o analista, com possibilidade de
tomar consciência dos efeitos dos analisadores que desencadeiam sua intervenção (analista
tanto no sentido mais amplo do termo quanto no sentido técnico da palavra em certas ciências
sociais). Não tem apenas de reconhecer e legitimar, ou inclusive exaltar, a existência dos
analisadores; deve compreender que somente os analisadores o constituem como analista.
Lutero ou Calvino não existem como dirigente teóricos de um movimento protestante, mas
sim como produtos intelectuais do movimento, que acaba por negá-los como efeitos. Não há
de um lado Robespierre como dirigente teórico do movimento jacobino e, de outro, as seções,
clubes ou massas jacobinas. Existe um movimento jacobino, analisador das contradições da
revolução burguesa, que acaba por negar seus dirigentes teóricos e derrubá-los.

Entre Lenin (e outros dirigentes teóricos bolcheviques) de um lado e o movimento


revolucionário russo de outro, entre a gênese teórica e a gênese social de 1917-21, as relações
são tão estreitas que, sem este “encontro”, o anônimo jogador de xadrez acostumado às
tabernas de exilados não teria escrito O Estado e a Revolucão nem A enfermidade infantil
nem a plêiade de textos e de discursos que, de 1917 até sua morte, constituem o diário de
bordo sociológico de um dos fatos mais importantes da história humana, que poderíamos
denominar “o fracasso da profecia racional”.

A primazia do analisador sobre o analista, ainda que este último seja simultaneamente
um analisador extraordinário  como é o caso dos grandes dirigentes acima mencionados
 , não vale apenas para as relações entre massas e dirigentes. Aplica-se igualmente às
relações entre dirigentes opostos, mesmo se, na maior parte dos casos, a história não canoniza

12
os verdadeiros rivais dos heróis: o analisador de Lutero também é Müntzer, dirigente da
guerra dos camponeses, da “primeira revolução social alemã” (Engels). Calvino tem seu
Miguel Servet, Robespierre tem seus contrários, Lenin tem Makhno e Stalin tem Trotsky. É
negando e sendo negados por esses opositores ou desviantes radicais que os dirigentes
triunfantes se constituem positivamente, criam seu campo teórico e o campo de ação de seu
poder. Neste sentido, o que existe para nós na qualidade de proposições do protestantismo, do
jacobismo e do bolchevismo é a produção de gêneses sociais dramáticas e trágicas, e não uma
série de etapas mais ou menos capitais ou medíocres de uma gênese teórica integrável em uma
história das idéias religiosas e políticas. Melhor ainda que nos casos de Lutero, de
Robespierre ou de Lenin, através de Calvino se percebe como vinte anos de lutas
compuseram, aumentaram desmesuradamente, transformaram e orientaram definitivamente
uma obra teórica. A instituição cristã – obra muito mais analisadora das contradições
calvinistas que o livro teórico do analista Calvino – é atravessada, de um extremo a outro,
pelas correntes e alvoroços sociais: cada página está teoricamente determinada pela
necessidade de manter ou de reafirmar as débeis relações de força estabelecidas entre o
ditador de Genebra e seu clique. Trata-se de uma obra contra-teológica e contra-sociológica,
pulsando no mesmo ritmo que a contra-instituição genebrina, e não de uma obra de crítica
teológica, como poderia ser a de Erasmo, na mesma época. Erasmo, Adorno ou Marcuse,
atuando sobre a elite intelectual mas não chegando a ser, eles mesmos, influenciados pelas
massas, diferem de Lutero, de Calvino e de tantos outros dirigentes locais da reforma.

IMPLICAÇÃO METÓDICA

O conceito de implicação, que tende a tomar o lugar do de “contratransferência


institucional”, opõe-se radicalmente às pretensões de objetividade fixadas pelos pesquisadores
em ciências sociais. Assim, por exemplo, no n° 28 da revista Pour, dedicado à “análise
sociológica das organizações” e compilado por um membro do centro de sociologia das
organizações (E. Friedberg), várias notas insistem na neutralidade do sociólogo. Vejamos: “O
sociólogo é exterior ao campo que investiga, não participa... O sociólogo, como o etólogo, na
medida do possível, deve fazer tabula rasa de suas experiências anteriores, de seus valores,
de suas opiniões ou preconceitos. Sua pessoa deve apagar-se ante a realidade empírica sob
seus olhos... É obvio que o êxito destas reuniões depende de duas condições: é preciso que o
sociólogo apareça, aos olhos dos indivíduos a entrevistar, como interlocutor neutro e
independente em relação à estrutura de poder da organização estudada. Daí a importância de

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seu estatuto de ‘observador exterior’” etc... Portanto, a análise organizacional define a posição
do sociólogo-especialista em termos que significam distanciamento em relação ao objeto. A
análise institucional, ao contrário, contrapõe a implicação do analista a tal distanciamento.

A implicação deseja pôr fim às ilusões e imposturas da “neutralidade” analítica,


herdadas da psicanálise e, de modo mais geral, de um cientificismo ultrapassado, esquecido
de que, para o “novo espírito científico”, o observador já está implicado no campo da
observação, de que sua intervenção modifica o objeto de estudo, transforma-o. Inclusive
quando o esquece, o analista é sempre, pelo simples fato de sua presença, um elemento do
campo.

A questão da implicação fora há muito levantada por alguns críticos do objetivismo.

Segundo a corrente fenomenológica, é fazendo-se psicólogo que o sociólogo pode


compreender esses “estados vividos” de sociedade que são as formas sociais chamadas grupo,
organização, instituição, sociedade...

A introdução da instituição como interioridade é fundamental, mas parcial:

– Fundamental, já que introduz a dialética na observação, permitindo evitar a


confusão dos positivistas entre o objeto real e o objeto de conhecimento. Segundo
Merleau-Ponty, o sociólogo acede ao conhecimento não só pela observação de um
objeto exterior, mas igualmente canalizando sua própria implicação no momento
da observação. Assim, por exemplo, não se pode reconhecer a especificidade do
sistema de parentesco “enquanto não tenhamos conseguido instalar-nos na
instituição circunscrita desta forma”.

– Parcial, na medida em que se detém em uma simples compreensão, sem


explicação possível dos fenômenos sociais.

Apesar disso, Merleau-Ponty vai mais longe do que os que se detêm na


“compreensão” das instituições por meio de uma análise do vivido. Para ele, estudar o social
“é saber como este pode ser simultaneamente uma coisa a conhecer e uma significação”,
como pode ser em si e para nós.

Mostra a necessidade de enlaçar a análise e a implicação, propondo um passo que


consiste no “vai-e-vem do homem em situação ao objeto, e do objeto ao homem em situação”.

Deste modo, superando a contradição entre a concepção da instituição que dela faz
uma coisa exterior ao homem (sociologia positivista) e a que faz dela um puro objeto interior

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imaginário (fenomenologia social), orientamo-nos em direção a uma concepção da instituição
que sintetiza as instâncias objetiva e imaginária.

O exemplo mais claro de uma instituição simultaneamente exterior e interior ao


indivíduo é a linguagem, a qual consiste em um sistema de regras que o indivíduo encontra já
dado, exterior a ele, e que os lingüistas podem estudar objetivamente; ao mesmo tempo, a
língua é uma instância interior ao sujeito, que é instituinte pela fala. Esta dialética entre o
exterior e o interior funda os sistemas simbólicos.

Às vezes se diz que a desmistificação da “neutralidade” realizada, em ato, pela análise


institucional, bem como o acento que pomos sobre nossas implicações se traduzem em
“narcisismo” por meio da irrupção do desejo não controlado dos analistas na intervenção. Esta
crítica desconhece profundamente a teoria dos analisadores construídos: quando dizemos que
o analisador deve substituir o analista – de qualquer modo, na realidade é sempre o analisador
que dirige a análise –, queremos indicar, como regra fundamental, que o analista não deve
procurar subtrair-se aos efeitos analisadores do dispositivo de intervenção.

A importância que a corrente institucionalista outorga à implicação do analista implica


uma comoção na noção de ciência social. Trata-se, principalmente, de acabar com o falso
problema por excelência: a oposição entre consciência imediata ou ingênua, de um lado, e
consciência reflexiva, a teoria, a ciência etc, por outro ... Aqui volta a intervir a teoria dos
analisadores como mediação entre a experiência e qualquer conhecimento “verdadeiro”, tanto
no nível de nosso corpo como no das construções intelectuais mais abstratas, passando pelo
nível da consciência social e do saber social. A ideologia da análise, seu sistema conceitual,
bem como seu corpo e seu sexo são elementos do dispositivo analisador.

Quando o psicólogo social experimentalista procura validar uma hipótese baseada em


conceitos como influência ou agressividade relativa, é evidente que uma grande parte (não
quantificável?) de seu “material experimental” está constituída pela adesão mais ou menos
racional e consciente que ele manifesta quanto às teorias ideológicas, sistemas de moral em
que tais conceitos desempenham um papel importante ou secundário. É exatamente neste
sentido que se pode falar acerca das relações que o experimentador (e pesquisador) estabelece
com seu objeto, quaisquer que sejam as pretensões de neutralidade relativa que ainda
encontremos hoje na pena de certos pesquisadores em ciências sociais. A distinção entre
objeto real e objeto de conhecimento, embora possa ser útil em certas fases do estudo, deve
ser criticada e negada como uma recaída no idealismo cientificista, avatar do idealismo

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religioso. Aquilo que habitualmente se considera escória da ciência  os inconvenientes e
limites ao ponto de vista neutralista  deve ser, pelo contrário, colocado no centro da
investigação. O importante para o investigador não é, essencialmente, o objeto que “ele
mesmo se dá” (segundo a fórmula do idealismo matemático), mas sim tudo aquilo que lhe é
dado por sua posição nas relações sociais, na rede institucional. A partir desta perspectiva,
fica evidente que a maior parte dos artigos que aparecem nas revistas acadêmicas – de
sociologia ou de psicologia, por exemplo – são quase tão “sérios” como as seções de
horóscopo dos jornais.

IMATURIDADE DA TEORIA

Quando a análise institucional em situação de intervenção (Socioanálise) for


conhecida e reconhecida como prática social, ao menos em certos setores do sistema social;
quando ela tiver definido com maior precisão seus objetos, suas estratégias e suas formas
específicas de atuação, certamente se poderá ir mais longe. Atualmente, a situação paradoxal
consiste na necessidade de construir a teoria, a prática e a intervenção a partir de cortes de
situações incompletas, de pequenos fragmentos de intervenção realizados rapidamente, com
poucos especialistas práticos bem formados e com poucas ocasiões para formá-los.
Entretanto, para poder intervir de forma mais profunda, mais ampla, ou seja, não somente
durante quatro dias de sessões e sim durante meses e anos, seria necessário dispor dessa teoria
geral, que só progredirá efetivamente quando forem reunidas condições de trabalho
demorado. Nesse momento, a pesquisa-ação terá dado um passo decisivo11. Porém não
estamos nesse momento. A situação atual da intervenção institucional nos parece ser a
seguinte: as intervenções curtas e limitadas, realizadas em um setor igualmente limitado de
instituições culturais e religiosas, não permitem ir muito além de um nível descritivo dos
funcionamentos, sob a forma em que aparecem quase imediatamente, após poucas horas de
consulta, e/ou desde o momento da análise da encomenda. Seriam necessárias intervenções
muito mais extensas para começar a explorar e a reconstruir o conjunto de uma formação
social na medida em que esta se simboliza ou se resume em uma forma social determinada
(escola, fábrica, hospital etc.). A teoria psicanalítica e a prática terapêutica não teriam
avançado muito se o número de sessões jamais houvesse ultrapassado cinco ou dez. Hoje em
dia, para alguém que tome a obra de Freud apenas no nível de seu discurso articulado,
mediante uma abordagem filosófica e contemplativa, o resultado aparece, em sua totalidade,
acabado, sem mostrar a base de pesquisa-ação e as condições de busca que permitiram a

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construção de tal discurso. Deve-se frisar que os problemas ditos técnicos estão muito menos
explorados.11

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Les analyseurs de l’église. A obra contém monografias de intervenções realizadas em sessões de curta
duração (4 ou 5 dias em média). Inclui também uma teoria da intervenção socioanalítica, bem como uma análise
da relação das intervenções com o sistema de instituições religiosas (o aparelho ideológico da religião, a igreja e
“instituições” com a missa, a reza, o batismo, etc.).

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