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UFRB - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA

CAHL – CENTRO DE ARTES, HUMANIDADES E LETRAS


Departamento de História
GCAH332 – História da América
Docente: Nuno Gonçalves
Discente: Max Silva Menezes de Miranda

Texto Avaliativo

“Nos caminhos jazem dardos quebrados;


Os cabelos estão espalhados.
Destelhadas estão as casas,
Incandescentes estão seus muros.
Vermes abundam por ruas e praças,
E as paredes estão manchadas de miolos arrebentados.
Vermelhas estão as águas, como se alguém as tivesse tingido,
E se as bebíamos, eram água de salitre.
Golpeávamos os muros de adobe em nossa ansiedade
E nos restava por herança uma rede de buracos.
Nos escudos esteve nosso resguardo
Mas os escudos não detêm a desolação...” ¹
Nostalgia de Ancestros

La Rinconada, Peru
2009

Lá em cima, de Kay Pacha até Hanan Pacha, onde Mama Killa chora a prata e Inti, o
primeiro Inca, transpira o ouro do Apu, um irregular e criativo manto de neve cobre os
colossais cerros. Aqui, na cidade mais alta do mundo, entre a incontável trama de
ladeiras de pedra, postes tortos carregam mais que sua espessura de gordos e mal
amarrados fios elétricos. Eles se espalham em baixa altura por La Rinconada, como uma
teia de grossas borrachas pretas, injetando os comerciais de TV, programas de auditório
e noticiários distópicos em cada uma das milhares de casas metálicas, de tetos baixos e
finas e vacilantes paredes cinzas. Manko Puma veste sua terceira camisa de lã, põe dois
punhados de folhas de coca na capanga a tiracolo, dá um último gole no café e se
agacha para beijar a testa da filha Chaska, que dormia um sono profundo enquanto a
aurora desmanchava a noite como uma inquieta aquarela por secar. Sua companheira
Waylla esquentava a cabeça e as orelhas com um lindo e colorido gorro e bocejava
enquanto colocava uma tampa no leite quente de Chaska: logo ela acordaria para ir à
escola. Hasta más tarde, Manko sai pela frágil porta, as maçãs do rosto se contraindo à
intensidade do frio, seu cansaço se juntando a uma multidão - de homens vestidos de
fardas de obras e fuligem, de teimosa esperança e cruel necessidade – a uma multidão
que aos poucos se apertava pelas ruas da gélida favela, ziguezagueando entre os filetes
de esgoto a céu aberto que se capilarizam por todo lugar. Eles seguem num ritmo
constante, alguns sorriem ao se cumprimentar, outros encaram o chão sem precisar olhar
os obstáculos à frente.
Outro ônibus chegava do Terminal Terrestre Tupac Amaru, em Juliaca. Seus freios
rangiam, a fumaça da combustão escapava mau humorada e uma dúzia de famílias e
errantes solitários desembarcava ali para sonhar a sorte, vindos de qualquer lugar onde
viver já não era possível. O novo cheiro no ar fez algumas crianças rirem umas com as
outras enquanto tapam o nariz.
Trinta mil pessoas vieram a morar aqui nessas condições, em busca dessa sorte. Até
2012 mais vinte mil virão. O que assusta é o acordo feito com as empresas mineradoras
no sistema chamado cachorreo: o sujeito trabalha por vinte e oito dias na mina para a
empresa, e nos outros dois dias seguintes, o que ele achar e puder carregar nos ombros é
o salário. Se achar. Na cidade há um posto de saúde onde trabalha um único médico,
apesar dos problemas de saúde que acompanham a roleta russa da corrida do ouro que
reduzem a expectativa de vida da população para cinquenta anos, em função (além da
inevitável falta de oxigênio da altitude) da comum realidade do envenenamento por
mercúrio – substância utilizada no processo de separação do ouro da rocha. Na cidade
há uma força policial de vinte pessoas para aplicar a lei dos homens num território com
trinta mil almas coabitando, apesar do volume de crimes, assassinatos e roubos que
acontecem às vezes à luz do dia. Não há água potável em La Rinconada. O que é usado
no dia-a-dia vem das geleiras nos cumes do Apu. Pra beber, pra cozinhar, pra lavar e
manter o corpo. É a mesma água que corre podre e insistente, sem encontrar solo suave
pra se decompor e dar prosseguimento ao processo de feitura e mudança da vida. O
chão é pedra.
Semana passada, Waylla arrastou dois grandes sacos cheios de entulhos, lascas e
pedaços de pedra escura triturada ao pó – despejos das mineradoras nos aterros que
circundam a cidade – para fora da minúscula casa. Despejou-os num pequeno tanque de
pedra cheio d’água, misturando tudo até parecer uma rala lama. Depois, de um
frasquinho de vidro cor de âmbar, deixou o mercúrio escorrer até uma bacia, onde o
misturou com a água barrenta. Seu saião rosa com bordados verdes e amarelos ainda
justificava a atenção de Waylla com o colorido que lhe ia sobre o corpo, mesmo sob um
sol que quase não iluminava por entre um céu pouco disposto a fazer mais do que
impedir que o lugar inteiro congele de vez. Com um pano de algodão, a mulher coou o
conteúdo da bacia, parando ocasionalmente para espreme-lo. Um estranho brilho branco
esguichava com o restante da água de volta para a bacia. Estranho e perigoso. A água, o
pó e o mercúrio saíam do pano e uma rígida e quase imperceptível bola de ouro ficava.
Esses eram os últimos sacos do mês que passou. Depois de repetir esse esquema com
toda a água do tanque, o ouro que ela levar para um dos vários compradores na cidade
mais próxima lhe renderá uma média equivalente a duzentos e cinquenta dólares num
mês. A etapa seguinte é colocar o parco ouro na ponta dobrada de uma colher e deixa-la
no abraço vermelho da brasa viva: assim evapora o que quer que tenha sobrado de
mercúrio entranhado no ouro, e logo em seguida a substância tóxica condensa no ar frio
de uma janela próxima onde crianças brincam agasalhadas, ou ao se entrelaçar com o
frio oxigênio nas narinas de um mineiro, ou ainda nas sempre presentes e divinas capas
de neve do Apu, se escondendo entre as dobras de seu manto, esperando o momento de
se esgueirar num copo de café ou numa panela ocupada em lançar o cheiro da sopa
pelas quatro paredes de um lar. Os sintomas de envenenamento por mercúrio são
nefastos, e, independente da quantidade ingerida, a morte se torna uma questão apenas
de quando.
Diferente do dia de hoje para Waylla e Manko Puma, vez ou outra algum mineiro
consegue um bom dinheiro e sai dali, levando seus filhos com a certeza de lhe assegurar
uma educação e um futuro melhores. Os que ficam se reúnem às portas para se despedir
e alimentar os próprios magros sonhos.
Depois da queda das Torres Gêmeas em setembro de 2001, o dólar, moeda de troca
entre as comunidades internacionais, perdeu a confiança do mercado. Do dia seguinte ao
desabamento dos imensos edifícios até 2009, o ouro e outros metais preciosos como a
prata, milenarmente conhecidos e confiáveis elementos de troca, tiveram seus preços
dobrados, triplicados, quadruplicados... Nesse período o valor do ouro subiu 235%.
Nesse mesmo período, La Rinconada deixou de ser um acampamento isolado de poucos
mineiros para se tornar uma cidade com dezenas de milhares de peruanos e peruanas em
busca da benção de brilho eterno do Apu, “o suor do Sol”. A queda das Torres foi
produto de uma nova contenda entre a civilização do ocidente (na face dos EUA) e os
Estados islâmicos.
Em 1492, num eco anterior do choque dessas civilizações, al-Zugabi, o último rei da
dinastia muçulmana Nasrida, rende Granada de volta ao domínio dos Reis Católicos de
Castela, após uma guerra de reconquista secular da península até então moura. Só em
Granada, o último reduto de Maomé na Ibéria, foram dez anos de derramamento de
sangue. No mesmo ano, antes de zarpar de Palos de la Frontera, três navios, num deles
Colombo, encapsulavam a semente de uma futura mentalidade ocidental, uma semente
semântica de concepções políticas, econômicas e culturais cujos desenvolvimentos
moldarão a paisagem das vidas nessas terras.
Em 1511, o frei franciscano Gerónimo de Aguilar, acompanhado de mais dezesseis
homens e duas mulheres, içou as velas de uma embarcação no atual Panamá em direção
ao que hoje é Santo Domingo, advogar uma disputa em sua colônia no centro
administrativo espanhol. O barco naufraga na península de Yucatán, algumas pessoas
morrem no incidente. O restante, após serem capturados por Maias que ali moravam,
tiveram a honra de alimentarem com seu sangue os deuses. Apenas Aguilar e outro
espanhol, Gonzalo Guerrero, conseguiram escapar. Eles são recapturados como
escravos de um outra comunidade Maia. Eventualmente Gerónimo de Aguilar se torna
chefe guerreiro do Senhor de Chektumal, desposa uma rica mulher dali, e vê das pernas
de sua mulher nascer a materialização definitiva da desigual costura que ligará a
narrativa eurocristã ocidental e as narrativas desse continente que veio a ser conhecido
como América, ou o primeiro mestiço que se tem registro na Nova Espanha.
Essas (e outras) dramáticas rimas cronológicas não destacam tanto um significado
metafísico quanto ondulações numa vasta cadeia temporal de ações, eventos e
narrativas, reverberações dialéticas no continuum einsteiniano de Kay Pacha; Ch’ixi, a
justaposição de diferentes temporalidades coexistindo sem se excluir nem se misturar.
E é nessa semelhança semântica que a colonização se reformula mantendo sua essência.
La Rinconada mata com uma mão e presenteia com a outra. A mineradora Tridente
despeja seus rejeitos de qualquer forma no local, e quando um dos frequentes
desabamentos acontece no coração da montanha, ceifando a vida de um trabalhador, não
há indenização para a família, nem contrato que assegure direito algum, muito menos lei
trabalhista que trate de outra coisa. Pensado inicialmente para ser temporário, o primeiro
sistema de trabalho compulsório aplicado pelos invasores no “Novo Mundo” foi a
encomienda. À diferença do feudalismo, o conquistador era agraciado por um tempo
pela coroa espanhola com a produção de uma determinada terra, e não com a sua posse
permanente. Ansioso pela esperada aquisição de poder e tendo à disposição uma força
de trabalho abundante (a dos nativos), o encomendero os enfiava quase o dia todo na
escuridão sufocante do interior da terra, munindo-os apenas com folhas coca e álcool
par a suportar o trabalho penoso. As mortes aconteciam (aconteceram, e acontecem) aos
montes, chegando a reduzir a quase nada as populações de alguns lugares, o que a longo
prazo inviabilizava o progresso do imperialismo espanhol. Então, na América
Espanhola, a encomienda é substituída por formas mais brandas de trabalho
compulsório, deixando os colonizados apenas com o suficiente pra prosseguir, procriar
e alimentar a potência imperial. Ontem foi o Império de Fernando e Isabel, hoje é o
Império do capital financeiro, do qual as mineradoras de La Rinconada, do Cerro de San
Pedro de Potosí, de San José, ou de outros lugares, são alguns dos tentáculos.
Antes de entrar na escuridão da mina, Manko Puma testa a lanterna no chapéu preso à
cabeça relembrando as palavras do xamã na noite anterior. Entre as místicas nuvens do
Apu Intihuatana, Manko colocou em cima de um pedregulho, com as estrelas como
testemunhas, cerveja de milho, folhas de coca e suas preces, enquanto a voz do homem
santo do povo Q’ero soava límpida na vastidão da noite das alturas andinas:

“En la cima de Pukullu*


paja alta de oro,
a la hora en que canta el gallo,
a la medianoche,
me acerco a ti
para celebrar y para adorar.
Padre montaña,
no has de enojarte.

Dentro del pukullu


picaflor, esmeralda verde,
a la medianoche
mi compañero en el llanto,
ayúdame a implorar,
ayúdame a adorar,
no te niegues,
en el corazón da la montaña
tú creciste." ²

À escuridão que rodeia a multidão de mineiros na garganta de pedra, Manko Puma


repete num sussurro, No te niegues, en el corazón da la montaña tú creciste. Ao cair da
noite, Waylla masca folhas de coca enquanto adiciona alguns sacos de lixo coloridos
aos cerros dos aterros à céu aberto de La Rinconada. Chaska também boceja de cansaço
e se espreguiça sentindo os joelhos, doídos até agora depois de passar a tarde inteira
com a mãe nos montes de pedras rejeitadas pelas mineradoras, em busca de algum fosco
e vago brilho que possa se somar à renda ao final do mês. Essa noite, a menina olhava
as lágrimas de Mama Killa se derramando nas montanhas com o coração apertado
porque Manko não retornara. Como a esposa-irmã de Inti, Waylla chora pelo
companheiro e se agarra em seu íntimo à lembrança de que um sacrifício de sangue era
muito apreciado e honrado. E Intihuatana os ouviu todos, porque na noite seguinte a
pequena Chaska foi dormir com o coração apertado de saudade, mas agarrada com um
punhado de pepitas de suor do Inca.
Notas

1 – Manuscrito anónino de Tlatelolco (1528), edição fac-símile de E. Mengin,


Copenhage, 1945, fl. 33.
2 – Literatura Quechua (1993), Edmundo Bendezú Aybar, pg. 226.Traduzido para o
espanhol por José María Arguedas (1952).
* Construção de pedras planas, uma espécie de chullpa incaica, e interiormente uma
espécie de catacumba. (Nota de Ernesto Quispe)

Referências bibliográficas

https://elcomercio.pe/peru/puno/estudiaran-puno-adaptacion-cuerpo-humano-ciudad-
alta-mundo-noticia-575547
https://es.wikipedia.org/wiki/La_Rinconada_(Per%C3%BA)
https://www.nationalgeographic.com/magazine/2009/01/gold/