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Anais do XI Encontro Internacional da ANPHLAC

2014 – Niterói – Rio de Janeiro


ISNB 978-85-66056-01-3

Entre o Armageddon e a Nova Jerusalém: temores


apocalípticos e esperanças milenaristas no fundamentalismo
religioso norte-americano (1970-1980)

Daniel Rocha*

Nesta comunicação, buscaremos fazer uma breve discussão das


relações que se estabeleceram entre concepções escatológicas e discursos
políticos no fundamentalismo protestante norte-americano entre os anos de
1970-1980. Inicialmente, trataremos da permanência, ao longo da história
norte-americana, tanto do forte apelo das questões escatológicas quanto da
crença que os Estados Unidos seriam um povo eleito por Deus, uma nação
excepcional, fundada em determinados valores e virtudes, que possui uma
missão a desempenhar no mundo. Em seguida, analisaremos o pré-
milenarismo dispensacionalista, corrente teológica majoritária dentro do
fundamentalismo protestante, e a grande penetração que as perspectivas
apocalípticas em relação aos “sinais dos tempos” e o iminente e catastrófico
final do mundo tiveram na sociedade norte-americana nos primeiros anos da
década de 1970 – popularizadas, especialmente, pelo best-seller de Hal
Lindsey, The Late Great Planet Earth (1970). Por fim, faremos uma discussão a
respeito do impacto da politização do discurso fundamentalista a partir de
meados da década de 1970 – com a ascensão da chamada Christian Right –
nas reflexões escatológicas das grandes “estrelas dispensacionalistas”, como
Hal Lindsey e Tim LaHaye.

Via de regra, ao longo da história, os períodos de crise são o terreno


ideal para o surgimento de surtos de novas e velhas ideias escatológicas. O
tumultuado século XVII inglês foi um terreno fértil para interpretações das
profecias do fim dos tempos a partir dos conflitos políticos e religiosos.
Perseguições internas e ameaças externas começaram a ser vistas através de

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imagens bíblicas e, em alguns casos, como cumprimento das profecias


relativas ao fim dos dias. Crenças de cunho escatológico/milenarista sobre a
Inglaterra como um povo eleito, os inimigos da Reforma – especialmente o
Papa – como hostes satânicas, a iminência do fim do mundo, o fim do milênio
para alguns e o aguardo pelo seu início em breve para outros, etc. se faziam
presentes nos discursos de grupos radicais como os ranters e os Homens da
Quinta Monarquia e mesmo de não tão radicais assim como os presbiterianos.
Tais expectativas milenaristas e temores apocalípticos atravessaram o mar
rumo à América.

As expectativas de uma Inglaterra puritana, modelo a ser seguido pelas


demais nações do mundo, são transplantadas para o continente americano. A
crença no fato de ser um povo escolhido por Deus e a convicção de que
deveriam criar um Estado fundamentado nos princípios cristãos e que serviria
de paradigma para a redenção do mundo tenebroso desembarcou nos Estados
Unidos juntamente com os puritanos. Para eles, a sociedade exemplar deveria
ser construída dentro da história. O experimento no Novo Mundo seria o
“projeto-piloto” de um reino milenar de Cristo, através de seu povo, na Terra:

Um povo eleito por Deus mostraria para a humanidade como


criar um país a partir de princípios éticos e moralmente
virtuoso: essa seria sua missão providencial. Tal qual um farol
para o mundo, aqueles homens acreditavam que estavam não
só criando um sistema inédito, mas de alcance universal. Uma
criação única, modelo que eles iniciavam e que a humanidade,
inevitavelmente iria seguir. Na perspectiva deles, era o único
caminho moral possível e qualquer outro modelo estaria na
direção errada.1

Nas crenças escatológicas da Nova Inglaterra puritana podemos


observar algumas imagens que vão reverberar no imaginário político norte-
americano posterior. Inicialmente, é interessante observar que o que
poderíamos chamar de um pós-milenarismo2 puritano é um pouco distante
daquele do Imperium Christianum. O reino não seria implantado de cima pra
baixo por meio de um monarca fiel que “cristianizaria” a sociedade, mas sim
através da constituição de uma sociedade distinta do mundo pecaminoso e que

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funcionaria a partir das leis e instruções divinamente ordenadas e reveladas no


texto sagrado – tendo a lei mosaica como principal referência. O grande
modelo não estava num reino futuro ainda aguardado. O modelo a ser seguido
era o do outrora povo eleito: o Israel do Velho Testamento. Assim como eles,
os puritanos sentiam-se como um povo diferenciado e escolhido por Deus para
uma missão especial.

A perspectiva milenarista é um elemento essencial para se


compreender a forma como os Estados Unidos encararam – e ainda encaram –
sua missão no mundo. O povo de Deus luta as batalhas do Senhor e seus
inimigos são, dessa forma, inimigos de Deus. Juntamente com a demonização
do inimigo, ocorre a sacralização de sua própria sociedade e cultura. E não só
em relação a padrões morais e devoção religiosa, mas também em valores do
mundo da política, economia, etc. E tal “evangelho americano” deve ser levado
ao mundo. Junto com a mensagem da salvação em Cristo, os norte-
americanos sentiam um “chamado” para também disseminar seus valores
políticos e culturais. A nação eleita deveria levar a salvação política para os
povos que tateavam em trevas. As lutas contra as heresias tornaram-se lutas
contra a tirania, e os Estados Unidos abraçaram a crença de ter um papel
essencial para a construção de um mundo novo, cristão e democrático. A ideia
de um Manifest Destiny influenciou de maneira decisiva a política externa
norte-americana “legitimando”, em nome da propagação da verdade e
democracia, até mesmo intervenções violentas. Os “ianques” estariam
cumprindo uma missão divina.

E, especialmente até o período da Guerra Civil, a crença pós-milenarista


era a concepção escatológica norte-americana por excelência. Religiosos
avivalistas do século XVIII como Jonathan Edwards e do século XIX, como
Lymann Beecher e Charles Finney, compartilhavam com figuras não
necessariamente religiosas a crença de que o advento de uma sociedade
diferenciada e abençoada se cristalizaria na América. Para alguns o reino de
Deus na terra; para outros o progresso contínuo trazendo riqueza e felicidade
sem precedentes para todos. As esperanças dos americanos estavam
voltadas, assim como no antigo Israel, para as promessas de Deus dentro da

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história. Cantava-se as belezas do celeste provir, mas aguardava-se, de fato,


os mil anos de felicidade na terra, mas especificamente na América do Norte.
De acordo com Commager3:

Desde o início, a maioria dos norte-americanos, exceto os


escravos negros, acharam este mundo um paraíso e não um
purgatório. Apesar do que dissessem ou cantassem, preferiam
esta vida à próxima e, quando pensavam no céu, julgavam-no
funcionando sob uma constituição norte-americana.

O predomínio das perspectivas escatológicas otimistas começou a ser


ameaçado somente a partir das desilusões da Guerra Civil. O final do século
XIX vê surgir um movimento religioso – o fundamentalismo – e uma perspectiva
escatológica pré-milenarista – o dispensacionalismo – que viriam a colocar em
cheque o otimismo norte-americano. Essa perspectiva crítica via, a partir das
últimas décadas do século XIX, a construção não de uma Nova Jerusalém,
mas sim de uma nova Sodoma e Gomorra em terras americanas.

II

Antes de prosseguir, façamos uma pequena parada para entender o que


seria o dispensacionalismo, do qual Hal Lindsey foi o mais importante
representante na década de 1970. O dispensacionalismo é um método de
interpretar a Bíblia atribuído a John Nelson Darby (1800-1882), um pastor
anglicano que deixou a Igreja da Irlanda, tornando-se um dos líderes do
movimento “a-denominacional” conhecido como Irmãos de Plymouth. Segundo
os dispensacionalistas, a Bíblia anuncia uma perspectiva de história dividida
em sete eras ou “dispensações” e, em cada uma delas, Deus apresentaria um
diferente plano de salvação e, em todas elas, o homem falharia, havendo nova
crise e nova intervenção divina na história humana. As dispensações seriam as
seguintes: 1) a “Inocência”, que terminaria com a Queda e a expulsão de Adão
e Eva do Paraíso; 2) a “Consciência”, que findaria com o Dilúvio; 3) “O Governo
Humano” que seria encerrado em Babel; 4) a Promessa” que acabaria na
escravidão no Egito; 5) a “Lei”, que terminaria com a crucificação de Cristo; 6) a
“Graça” ou “Período da Igreja”, que terminaria no que os dispensacionalistas
chamam de “A Grande Tribulação”, a Batalha do Armageddom e a Segunda

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vinda de Cristo; por fim 7) o “Milênio” onde Cristo reinaria pessoalmente na


Terra junto aos seus santos. Após os mil anos Satanás iniciará uma última
rebelião que será aniquilada pela intervenção divina. Com a derrota de Satanás
entrar-se-á na eternidade da Jerusalém Celeste.

A interpretação dispensacionalista das profecias bíblicas tornou-se


popular nos EUA após a Guerra Civil em contraposição ao otimismo pós-
milenarista que marcava a maioria das igrejas protestantes tradicionais norte-
americanas. Opondo-se à crença nas virtudes humanas e no progresso
contínuo, o dispensacionalismo advogava o total controle de Deus sobre a
história e a iminência do fim dos tempos. O dispensacionalismo difundiu-se
rapidamente através de encontros e conferências bíblicas, sendo abraçado por
várias lideranças, especialmente conservadoras, do protestantismo americano
como Reuben A. Torrey e James Hall Brookes, figuras importantes no
movimento que depois veio a ser conhecido como fundamentalismo. Mas,
talvez o mais importante discípulo do sistema de Darby tenha sido Cyrus
Ingerson Scofield que organizou a conhecida Bíblia de Estudos Scofield,
lançada originalmente em 1909 – no mesmo período em que começaram a
circular os famosos The Fundamentals -, que se tornou um enorme sucesso de
vendas e o grande texto de referência dos dispensacionalistas.

Seu pessimismo em relação às possibilidades humanas quanto ao


aperfeiçoamento da sociedade e sua interpretação literalista do texto bíblico
tornaram o pré-milenarismo dispensacionalista a grande opção escatológica
das principais lideranças fundamentalistas protestantes norte-americanas ao
longo do século XX. Mas, como dissemos anteriormente, a figura que colocaria
as crenças (e especulações) dispensacionalistas na ordem do dia dos
religiosos e, também, dos “não-tão-religiosos-assim” nos Estados Unidos foi
Hal Lindsey e seu livro de sucesso assombroso: The Late Great Planet Earth
(traduzido no Brasil como A Agonia do Grande Planeta Terra)4 escrito em
parceria com C. C. Carlson. Publicado originalmente em 1970, se tornou um
grande best-seller, tendo vendido, até 1990, mais de 28 milhões de
exemplares5. Segundo Woljcik6, The Late Great Planet Earth foi o livro de
nãoficção mais vendido nos Estados Unidos na década de 1970. Suas obras

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posteriores também tiverem enorme sucesso, com vendas na casa dos milhões
de cópias. Lindsey é um dos poucos autores a ter, simultaneamente, três livros
na lista dos mais vendidos elaborada pelo New York Times. The Late Great
Planet Earth também recebeu uma “versão documentário” (1979) para os
cinemas, que contava, além dos comentários de Lindsey, com a narração do
renomado ator/diretor Orson Welles. As ideias de Lindsey, especialmente a de
que haverá um arrebatamento7 dos crentes antes do retorno de Cristo, também
influenciaram o filme cristão A Thief In The Night de 1972, que alcançou grande
sucesso no público religioso norte-americano e teve outras três sequências.

A capacidade e, em vários momentos, a criatividade de Lindsey em


conseguir relacionar e “encontrar” nas profecias bíblicas os acontecimentos da
segunda metade do século XX podem ser consideradas o grande motivo do
seu sucesso junto ao público norte-americano. No livro lemos: “A coisa que
espanta aos que têm estudado as Escrituras proféticas é que aguardamos o
cumprimento destas profecias em nossa época. Alguns dos acontecimentos
futuros, preditos há centenas de anos, soam como se estivéssemos lendo os
jornais de hoje”8. Entre os “sinais dos tempos” elencados por Lindsey como
confirmações de que o fim estaria realmente próximo, destacam-se, no
contexto internacional: o retorno dos judeus a Israel, que havia se tornado
novamente uma nação em 1948; a retomada da cidade de Jerusalém pelos
judeus em 1967; o surgimento da Rússia como uma superpotência (segundo
Lindsey uma inimiga de Israel); o ressurgimento do Império Romano na forma
de uma confederação de dez nações, provavelmente através da Comunidade
Econômica Européia; o aumento de guerras, revoluções e desastres naturais,
etc. Desses o principal sinal enfatizado por Lindsey é o ressurgimento de Israel
como nação9.

E, dentro da linha de raciocínio que nos interessa diretamente aqui, além


de olhar para os sinais vindos do exterior, Lindsey aponta também para
sintomas do fim que podiam ser observados nos EUA da virada da década de
1960 para 1970: aumento do uso de drogas aliado a novas formas de
religiosidade não cristãs – inclusive o satanismo explícito - que emergiram no
rastro dos movimentos de contracultura; o afastamento de muitas igrejas

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cristãs das verdades fundamentais do cristianismo; o movimento ecumênico; o


declínio do poderio bélico e econômico dos EUA; a decadência dos family
values, etc. E, em 1970, a perspectiva de Lindsey quanto ao futuro de seu país
era bastante sombria. Compartilhando da perspectiva de vários
fundamentalistas e pré-milenaristas da época, Lindsey via a cultura norte-
americana do final da década de 1960 como irremediavelmente corrupta 10. A
denúncia da fraqueza norte-americana em deter o avanço comunista e a futura
passagem do “bastão” da liderança do ocidente para o reino do Anticristo na
Europa (que terá por base o Comunidade Econômica Européia) são preditos
várias vezes no livro. Os últimos dias seriam sombrios para a nação que um dia
foi sonhada como um prenúncio da implantação do reino de Deus na Terra:

Os Estados Unidos deixarão de liderar o mundo ocidental; em


matéria de finanças, a Europa ocidental estará em evidência,
tomando a dianteira. O caos político interno, causado pelas
rebeliões de estudantes e subversão dos comunistas,
começará a carcomer a economia de nosso país. A falta de
princípios morais em líderes e cidadãos enfraquecerá a lei e a
ordem, ao ponto de resultar num estado de anarquia. O poderio
militar dos Estados Unidos, embora presentemente o maior do
mundo, já se encontra neutralizado, porque ninguém tem a
coragem de fazê-lo se impor decisivamente. Ao colapso
econômico seguir-se-á o das forças armadas. O único meio de
frear este declínio da América seria um despertamento
espiritual em larga escala.11

Apesar da possibilidade de “salvação” no caso de um “despertamento


espiritual”, o foco da fala de Lindsey é muito maior na condenação iminente e
mesmo no castigo divino pela apostasia americana. Comparando o “Império
Americano” ao Império Romano, Lindsey diz que Roma “se desintegrou e isto
partiu de dentro de si mesma; infelizmente, existe na América, hoje, o mesmo
declínio moral que levou à derrocada de Roma”.12 O discurso e a própria
preferência escatológica de Lindsey13 são o reflexo de sua época: crise interna
e externa, ameaça de destruição nuclear, esfriamento da fé cristã no país, etc.
Nesse contexto, o “Jeremias” Lindsey denuncia os pecados da nação, anuncia

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a condenação iminente e o cativeiro babilônico (ou seria soviético?) que se


avizinha.

III

Dez anos após o lançamento de The Late Great Planet Earth, Hal
Lindsey lança The 1980s: Countdown to Armageddon, publicadono Brasil em
1981 com o título Os anos 80:contagem regressiva para o Juízo Final.Embora
não tenha tido a mesma repercussão do primeiro livro, sua obra de 1980
permaneceu por mais de 20 semanas na lista do New York Times de livros
mais vendidos.14 Entre o lançamento dos dois livros ocorreu uma grande
mudança nas relações entre religião e política nos EUA. E os reflexos e
influência de tais mudanças podem ser sentidos no texto de Lindsey.

Como visto anteriormente, as principais lideranças fundamentalistas


norte-americanas viram os anos 1960 como o “fundo do poço” moral do país:
os fracassos militares, a juventude “perdida”, a desordem interna e o avanço de
ideias socialistas em solo americano seriam reflexo disso. O efeito da
dissociação entre moralidade e política atingira a própria Casa Branca com o
caso Watergate. Começou a ganhar espaço o discurso que atribuía à
degeneração moral e ao abandono dos princípios cristãos os fracassos
internos e externos dos EUA. A mão de Deus estaria pesando sobre a América.

Vários atos do Executivo, do Congresso e do Judiciário tornaram-se alvo


de pesadas críticas das lideranças religiosas. E, a partir dos primeiros anos da
década de 1970, algumas dessas lideranças abandonaram o discurso
derrotista e de certa conformidade com a “degradação” moral nacional e
começaram a se mobilizar no sentido de “resgatar” a influência das virtudes
cristãs na sociedade e de combater a iniquidade que proliferava na esfera
pública. Talvez o estopim de tal mobilização tenham sido as decisões da
Suprema Corte sobre o fim das orações nas escolas públicas e, especialmente,
o caso Roe vs. Wade de 1973 em que foi reconhecido o direito ao aborto nos
EUA. Jerry Falwell, conhecido pastor conservador batista, que possuía um
programa de TV de enorme audiência, toma a frente do movimento que recebe
o nome de Maioria Moral. Esse movimento se tornou uma grande força política
nos EUA e tinha como principais bandeiras: a defesa dos “valores da família” (o

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que incluía a oposição ao aborto em qualquer caso, o combate à expansão dos


direitos dos homossexuais e, também, a restrição à pornografia); a volta da
prática das orações e o ensino do criacionismo nas escolas públicas; o
combate à disseminação do comunismo juntamente com uma defesa ferrenha
do capitalismo e do “modo de vida” americano; a defesa de uma postura Pró-
Israel por parte do governo norte-americano (talvez uma influência direta das
ideias de Lindsey); entre outras.

Com essa organização como grupo de pressão e com o enorme espaço


na mídia que várias lideranças do movimento possuía, especialmente Falwell e
Pat Robertson, essa nova Direita Cristã ganhou cada vez mais espaço na
arena política norte-americana, tanto na oposição a políticos que não
abraçavam suas bandeiras quanto no apoio àqueles que simpatizavam com
sua luta. Sua força foi fundamental na eleição e durante o governo Reagan,
tornado-se um elemento importantíssimo para a virada conservadora na
política norte-americana. O discurso perdeu o tom predominantemente
pessimista, e a possibilidade de uma reconciliação com seu Deus, com seus
valores fundacionais e com seu papel redentor da humanidade começaram a
fazer parte da retórica político-religiosa de algumas lideranças
fundamentalistas.

Em The 1980s: Countdown to Armageddon, Hal Lindsey repete várias de


suas previsões e busca mostrar a realização de algumas profecias. Nesse
sentido não há grandes mudanças em relação ao seu livro de 1970. O que
surge como novidade é o grande espaço dado à discussão de questões
concernentes ao futuro dos EUA e, também, à defesa de várias bandeiras da
Direita Cristã. A crítica à fraqueza do governo norte-americano no combate ao
avanço do comunismo no mundo aparece em várias partes do livro.
Lembremo-nos de que o livro foi lançado no final do governo Jimmy Carter,
nessa altura dos acontecimentos já muito criticado, especialmente pelos grupos
mais conservadores que viriam a abraçar a candidatura de Ronald Reagan na
eleição seguinte. Nesse quadro, Lindsey diz que, para um futuro próximo,
“existem várias possibilidades para os Estados Unidos, por exemplo: tomada
pelos comunistas; destruição através de um ataque nuclear soviético

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inesperado (...); passar a depender da confederação das 10 nações; um


destino bem mais agradável do que qualquer um dos acima”.15 O Lindsey de
1980 é muito mais programático e busca indicar de maneira mais efetiva as
medidas a serem tomadas e os caminhos a serem seguidos para que os EUA
desempenhem um papel relevante nos últimos dias. E o caminho não se
restringe apenas a orar por um reavivamento espiritual.

“Embora nenhum método seja perfeito, o sistema democrático,


capitalista, de livre empresa, produziu maior liberdade, prosperidade e
independência financeira para um maior número de pessoas do que qualquer
outro sistema na História”.16 O modo de vida americano e o próprio capitalismo
devem ser defendidos contra os inimigos internos e externos. Lindsey não
adverte apenas contra o perigo da expansão soviética – que deve ser freada
por uma política externa mais agressiva e através do incremento do poderio
bélico norte-americano17. Uma série de políticas internas equivocadas, que iam
na contramão dos “santos” valores capitalistas e da livre empresa: as principais
críticas de Lindsey direcionam-se ao que ele chama de políticas
assistencialistas herdadas do New Deal – que estavam fazendo os americanos
desvalorizarem sua tradição de trabalho duro e empreendedorismo – e o
inchamento da máquina estatal. Essas políticas – expansão do aparato estatal
e aumento da dependência de recursos do Estado para a sobrevivência dos
indivíduos – “cheiravam” a socialismo e estavam muito distantes dos reais
valores americanos18. Os governantes “devem estar dispostos a cortar as
ostentações do governo, a impedir a exploração do sistema de bem-estar
social, a manter nossos compromissos com os nossos aliados e a lutar contra a
expansão comunista”19.

Depois de suas declarações de amor aos valores do governo e da


economia norte-americanos, Lindsey retoma a necessidade de um verdadeiro
comprometimento espiritual para impedir os sofrimentos do porvir. Lindsey20
fala de quatro razões pelas quais Deus estaria preservando os EUA como um
“país livre”: 1) a grande quantidade de “verdadeiros crentes no Senhor Jesus” e
o despertamento espiritual que os EUA estariam vivendo nos últimos anos; 2) o
fato de os EUA enviar e manter missionários por todo o mundo; 3) o apoio dado

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pelos EUA aos judeus e ao Estado de Israel (apropriando-se da promessa feita


a Abraão: “abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te
amaldiçoarem”21); 4) as orações do povo de Deus rogando sua misericórdia e
sua bênção sobre o país.

No Hal Lindsey da década de 1980 já encontramos ecos de uma


jeremiad que, sem deixar de alertar quanto aos perigos da apostasia espiritual
e da falta de compromisso com seus valores fundacionais, apresenta a
inviolabilidade da missão e do caráter excepcional do povo americano. Um
povo que tinha, desde os Pais Peregrinos, “como missão construir uma
sociedade moralmente virtuosa e que serviria de exemplo para outros povos.
Tinham, portanto, um destino a cumprir”.22 E, mesmo nos momentos finais da
história humana, tal papel de luzeiro para o mundo deveria ser assumido.
Entretanto, como o discurso pessimista do pré-milenarismo dispensacionalista
conseguiu permanecer “viável” mesmo com o processo de politização do
fundamentalismo? Se os dispensacionalistas eram vistos como meros
espectadores de uma história que sabiam de antemão, por que aderiram à
proposta de engajamento e mobilização política das lideranças da direita
cristã?

Para tentar compreender essa aparente contradição é importante


analisarmos os textos de Tim LaHaye, um dos fundadores e uma das
lideranças mais destacadas da Maioria Moral e, ao mesmo tempo um dos
maiores disseminadores das crenças dispensacionalista, tendo se tornado,
anos mais tarde, o autor mais bem sucedido do dispensacionalismo com a sua
série de ficção apocalíptica Left Behind, escrita em coautoria com Jerry
Jenkins23. Pastor batista na Califórnia, LaHaye pastoreava uma grande igreja
na região de San Diego e foi responsável pela implantação de várias escolas
cristãs na Califórnia. Diferentemente de Lindsey que, embora tenha escrito
livros sobre outros temas, se notabilizou por seus escritos sobre escatologia,
LaHaye escreveu vários livros de sucesso sobre diferentes áreas da vida cristã,
especialmente sobre o combate à depressão, o controle do temperamento e,
inclusive, sobre preceitos para uma vida sexual sadia para os casais cristãos.
Junto com sua esposa Beverly, LaHaye escreveu The Act of Marriage: The

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Beauty of Sexual Love que vendeu mais de 2,5 milhões de cópias24. No terreno
da escatologia, LaHaye teve muito sucesso ainda nos anos 1970 com seu livro
Beggining of the End (1972) e mais uma série de outros trabalhos, onde
advoga as crenças básicas do fundamentalismo, enfatizando a postura pré-
tribulacionista em relação ao Arrebatamento.

LaHaye também foi uma das mais importantes lideranças do processo


de politização do discurso fundamentalista no final da década de 1970 e início
da década de 1980. Foi um dos apoiadores de primeira hora dos
posicionamentos de Jerry Falwell e junto com ele foi um dos fundadores da
Maioria Moral. Juntamente com Listen America! de Jerry Falwell e do Christian
Manifesto de Francis Schaeffer, talvez a obra de mais importância para o
delineamento dos discursos e atuação da Maioria Moral tenha sido The Battle
for the Mind (1980) de LaHaye. Nela o autor mostra como os Estados Unidos
foram sendo corrompidos pelo que ele chama de “humanismo secularista” que
vinha ganhando o controle cultural da nação através da educação, da mídia,
das organizações na sociedade civil e do próprio governo. Ele repete, em seus
termos, o discurso da “maioria silenciosa” e da necessidade de líderes que
venham trazer esses americanos conservadores para dentro da arena política.
Battle for the Mind pode ser visto como um manifesto declarado de
chamamento dos cristãos para uma culture war ou, numa expressão mais
espiritualizada, para uma luta pela alma da nação. Os humanistas vêm
profanando a santidade dos Estados Unidos não respeitando nem a herança
cultural dos Pais Peregrinos25.

LaHaye se mostra ciente da questão dispensacionalismo X engajamento


político. Para ele, dispensacionalismo não é sinônimo de apatia. LaHaye critica
aqueles que, por verem como inevitável o avanço do mal nos últimos dias, se
abstém da participação das questões políticas. Embora LaHaye também siga
as interpretações das profecias numa perspectiva muito próxima da de Lindsey,
ele tem um posicionamento mais otimista quanto às possibilidades em relação
ao papel dos Estados Unidos nos tempos do fim. Ele inclusive tem uma
interpretação sui generis da profecia de Ezequiel 38 e 39, onde ele faz uma
“acrobacia exegética” para encontrar os Estados Unidos entre os inimigos de

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Gogue. Interpretando uma passagem onde Deus fala das intenções malignas
de Gogue de se apoderar das riquezas de Israel, LaHaye coloca seu foco no
versículo 13 do capítulo 38 de Ezequiel que diz o seguinte: “Sebá e Dedã, e os
mercadores de Társis, e todos os seus leõezinhos te dirão: Vens tu para tomar
o despojo? Ajuntaste a tua multidão para arrebatar a tua presa? Para levar a
prata e o ouro, para tomar o gado e os bens, para saquear o grande despojo?”
Ele fala da dificuldade para se identificar quem seriam Sebá e Dedã, mas
Társis ele, a partir de algumas identificações bíblicas que falam dos navios
dessa nação e da interpretações de alguns “estudiosos da Bíblia” – que não
são citados –, entende que seja uma referência à Inglaterra, a grande potência
marítima. E os “leõezinhos” seriam os Estados Unidos, Canadá e Austrália: “a
referência a ‘leões jovens’ indicaria nações originalmente filhas de Társis, ou
seja, da Inglaterra. Portanto, podemos concluir com razão que as democracias
oriundas especialmente da Inglaterra estão representadas no versículo 13”.26

Além de encontrar indícios da Guerra Fria na profecia de Ezequiel e de


achar um lugar para os Estados Unidos na Bíblia, LaHaye insere uma
justificativa para a necessidade de uma luta pela alma da nação. Se não há
nenhuma referência bíblica sobre uma “decadência moral” dos inimigos de
Gogue – poder-se-ia até mesmo advogar o contrário, dado que seriam aliados
de Israel – então, a crença na interpretação dispensacionalista pré-tribulacional
não seria incompatível com a (re)cristianização da América”. Advogando que a
tentativa de invasão de Israel pelos russos será o evento que precederá o
período de sete anos de Tribulação27 e o Arrebatamento dos crentes, a fala de
LaHaye abre a seguinte perspectiva: os Estados Unidos podem estar gozando
de plena saúde espiritual quando do momento da invasão de Gogue a Israel
nos últimos dias. Antes do arrebatamento, os norte-americanos podem muito
bem estar vivendo em um período de paz e avivamento espiritual em seu país.

IV

Concluindo, podemos dizer que nos Estados Unidos, o pós-milenarismo


seria a perspectiva escatológica mais coerente com os mitos políticos da
nação, com seu sentido de missão e sua noção de excepcionalidade. Uma
tradição pós-milenarista, iniciada com os puritanos, levada à frente por

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avivalistas como Jonathan Edwards – que chegou a dizer que a “Glória [dos
Santos] dos Últimos Dias começaria provavelmente na América” 28 – e
defendida com unhas e dentes pela grande maioria das igrejas protestantes no
século XIX sempre buscou compatibilizar o “mito da América” com a ideia dos
mil anos de felicidade precedendo o retorno de Cristo. Mesmo as correntes não
muito afeitas a questões religiosas, “secularizaram” o milênio – como o haviam
feito anteriormente alguns iluministas com seus sonhos de uma sociedade
perfeita ordenada pela razão – com seus discursos sobre a singularidade
daquela nação e seu trajeto rumo ao progresso ininterrupto e à criação de um
modelo de sociedade a ser exportado para todo o mundo. Apesar da
esmagadora maioria dos fundamentalistas sustentarem uma crença pré-
milenarista, eles estão profundamente arraigados numa crença nacionalmente
dominante que fala da singularidade e protagonismo histórico dos Estados
Unidos e do american way of life.

O discurso fundamentalista sempre mencionou a “fé dos nossos pais”, a


“herança cristã” do país, etc. Uma idílica Christian America pré-existente, ou,
ao menos, idealizada pelos Pais Peregrinos, era o padrão e o destino pelo qual
a nação deveria se pautar. O pessimismo escatológico dos fundamentalistas
sempre esteve ligado à aparente impossibilidade de resgatar ou estabelecer tal
“sociedade cristã”. A vitoriosa “América Secular” foi construída a partir de
outros sonhos: sonhos da glorificação do homem e não de Deus. Essa nação
contestada pelos fundamentalistas, apesar de seu sucesso econômico e militar,
era como, nas palavras da parábola, uma casa edificada sobre a areia 29, que
não conseguiria se manter de pé quando viessem a chuva e os ventos. Mas,
partindo dessa percepção, poderíamos nos perguntar junto com Girardet30: “A
ordem que o Outro é acusado de querer instaurar não pode ser considerada
como o equivalente antitético daquela que se deseja por si próprio estabelecer?
O poder que se atribui ao inimigo não é da mesma natureza daquele que se
sonha possuir?”

Nossa hipótese é de que a adesão dos fundamentalistas ao pré-


milenarismo, especialmente em sua vertente dispensacionalista, e o sucesso e
repercussão das interpretações de Hal Lindsey foi uma resposta, em termos

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escatológicos, viável para um grupo que se alimentava do discurso da “crise”. A


pregação do pré-milenarismo seria a jeremiad do fundamentalismo para uma
nação que “perdeu o alvo”. A estrutura da jeremiad fundamentalista fala,
inicialmente, de um povo que foi guiado por Deus para uma nova terra, onde
teriam a missão de criar uma sociedade verdadeiramente cristã, que serviria
como exemplo para um mundo em trevas. Suas leis deveriam refletir os valores
bíblicos e seus habitantes deveriam ser cristãos fervorosos. Assim seriam
abençoados e prosperariam em todas as suas empreitadas. Entretanto, esse
povo foi infiel para com o seu Deus e fez para si “bezerros de ouro”. Do alto
dos seus púlpitos – e, mais tarde, de seus programas de rádio e TV – os
“jeremias” fundamentalistas diziam: “o meu povo trocou a sua glória por aquilo
que é de nenhum proveito. Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai
verdadeiramente desolados, diz o Senhor. Porque o meu povo fez duas
maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram
cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas”.31 O “povo de Deus” agora
afirmava sua segurança no sucesso econômico, no poderio bélico e num saber
científico que não colocava o Criador em suas equações.

Para esse povo infiel, as promessas de Deus transformaram-se em


maldição. As profecias que diziam respeito a eles não falavam mais de
bênçãos terrenas, mas sim de punições eternas. Uma perspectiva quase
vetero-testamentária de nação eleita – onde o foco estaria na salvação coletiva
de um povo e não na salvação individual - que vinha da tradição puritana perde
espaço para uma noção de salvação individual, do encontro do povo de Deus
não mais num espaço geográfico determinado, mas na “igreja espiritual” que
será retirada da terra, segundo a interpretação dispensacionalista, no dia do
Arrebatamento. O joio precisava ser separado do trigo. As promessas de Deus
permaneciam, mas elas eram somente para o “remanescente fiel”. E esse povo
separado reinaria sobre a terra no milênio, mas não mais num milênio que seria
fruto do progresso humano, e sim num milênio a ser inaugurado
sobrenaturalmente pela direta intervenção divina. O lugar da sociedade perfeita
é fora da história: no reinado pessoal de Cristo na terra durante os mil anos de
encarceramento de Satanás.

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Em contextos onde a decadência da sociedade é vista como


irremediável e os sinais da iminência do fim são enxergados em toda parte, a
jeremiad fundamentalista tende a enfatizar o juízo final e a reforçar a chamada
ao arrependimento e à conversão individuais. O mundo, a nação e às
instituições estão à mercê da ação demoníaca. Os fundamentalistas,
especialmente após 1925, colocaram, cada vez mais, as crenças
dispensacionalistas no centro de seu discurso. A sua batalha pela “alma da
nação” estava perdida. O Hal Lindsey de 1970 falava da possibilidade de um
reavivamento espiritual da nação como uma chance para deter a correnteza de
incredulidade e devassidão que tomava conta dos Estados Unidos do final da
década de 1960, mas não demonstrava muita esperança em relação ao seu
advento. Estejamos prontos para o arrebatamento, pois os sinais da vinda de
Cristo são iminentes. O lugar do milênio é no pós-história. Este mundo está
destinado à destruição. O presente de apostasia e pecado “apagava” a luz que
vinha do futuro e só deixava à vista as densas trevas da punição eterna para
um povo que não foi fiel para com seu Deus.

Entretanto, a tradição da jeremiad americana, aquela que sempre


relembra os norte-americanos da inviolabilidade de sua missão, possui raízes
muito mais profundas. O ciclo conservador que se inicia na década de 1970
abre uma “janela de esperança”. Deus permaneceria fiel às suas promessas
para os norte-americanos se “o meu povo, que se chama pelo meu nome, se
humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus
caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a
sua terra”.32 O sucesso da Maioria Moral e suas vitórias no campo político
mudaram o tom da jeremiad fundamentalista, especialmente em suas
implicações escatológicas. Os arroubos nacionalistas de Tim LaHaye e Jerry
Falwell apontam para um “reacender” da luz que vem do futuro e impulsiona os
Estados Unidos para seu destino glorioso. Como vimos, mesmo no discurso do
pessimista Hal Lindsey já encontramos, a partir do final da década de 1970,
ecos de uma jeremiad que, sem deixar de alertar quanto aos perigos da
apostasia espiritual e da falta de compromisso com seus valores fundacionais,
apresenta a inviolabilidade da missão e do caráter excepcional do povo
americano. E, mesmo nos momentos finais da história humana, tal papel de

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luzeiro para o mundo deveria ser assumido. O pré-milenarismo seria um


discurso apropriado, em determinadas épocas e entre determinados grupos –
minoritários e com uma autoconsciência de vítimas ou perseguidos - como um
escape para seus temores e tensões, especialmente o medo quanto à não-
realização de sua almejada civilização cristã dentro da história.

*
Universidade Federal de Minas Gerais, Bolsista da CAPES. Contato:
danielrochabh@yahoo.com.br
1
JUNQUEIRA, Mary A. Estados Unidos: a consolidação da nação. São Paulo: Contexto, 2001.
(p. 34-35).
2
Na perspectiva pós-milenarista, o reino milenar precederia o retorno de Jesus, cuja vinda
marcaria o final do milênio e o início da eternidade na Jerusalém eterna e sem mácula. É uma
perspectiva mais próxima daquela que Eusébio de Cesareia e alguns cristãos do período
constantiniano tinham quanto ao reino milenar. Seria uma expectativa de que “a vinda do Reino
se daria após a implantação da civilização cristã; por isso, a cristianização da sociedade seria
uma preparação para a vinda do Reino de Deus” (MENDONÇA, 1984, p. 55). Ao pós-
milenarismo se oporiaa perspectiva pré-milenarista, que advoga que o reinado de mil anos de
justiça e felicidade de Jesus Cristo na Terra, anunciado no livro do Apocalipse, só ocorreria
após o retorno visível de Cristo para reinar com os seus. Portanto, o reino de Deus seria
implantado na Terra somente após uma intervenção sobrenatural divina, que daria um fim à
história dos homens e seus governos.
3
COMMAGER, Henry Steele. O espírito norte-americano: uma interpretação do pensamento e
do caráter norte-americano desde a década de 1880. São Paulo: Cultrix, 1969. (p. 173).
4
Na confecção deste trabalho utilizamos a versão em inglês – LINDSEY, Hal; CARLSON, C.C.
The late great planet earth. Grand Rapids: Zondervan, 1970 – e a primeira edição da tradução
para o português – LINDSEY, Hal; CARLSON, C.C. A agonia do grande planeta Terra. São
Paulo: Mundo Cristão, 1973.
5
ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e
no islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. (p. 369).
6
WOLJCIK, Daniel. The end of the world as we know it: faith, fatalism and Apocalypse in
America. New York: New York University Press, 1997. (p. 37).
7
Crença bastante popular entre os adeptos do pré-milenarismo dispesacionalista que afirma
que os crentes serão literalmente arrebatados da Terra (desaparecerão repentinamente) para
junto de Deus nos céus antes do período do governo do Anticristo (chamado de A Grande
Tribulação). Estes arrebatados retornarão à Terra com Cristo para reinar com Ele durante mil
anos.
8
LINDSEY, Hal; CARLSON, C.C. A agonia do grande planeta Terra. São Paulo: Mundo
Cristão, 1973. (p. 19).
9
Em um certo momento ele até ousa colocar uma data limite para o advento da Segunda Vinda
de Cristo: “Que geração? Obviamente, pelo contexto, a geração que veria os sinais – o
principal deles o renascimento de Israel. Uma geração, na Bíblia, é algo como quarenta anos.
Se esta dedução é correta, então dentro de quarenta anos mais ou menos, a partir de 1948,
todas estas coisas poderão acontecer. Muitas pessoas eruditas, que têm estudado as profecias
da Bíblia toda a sua vida, creem assim” (LINDSEY; CARLSON, 1973, p. 50).
10
WOLJCIK, Daniel. The end of the world as we know it: faith, fatalism and Apocalypse in
America. New York: New York University Press, 1997. (p. 45).
11
LINDSEY, Hal; CARLSON, C.C. A agonia do grande planeta Terra. São Paulo: Mundo
Cristão, 1973. (p. 171).
12
LINDSEY, Hal; CARLSON, C.C. A agonia do grande planeta Terra. São Paulo: Mundo
Cristão, 1973. (p. 87).
13
Lindsey é bem explícito na condenação de qualquer perspectiva escatológica de cunho
otimista – que anuncie a possibilidade de um reino de felicidade e justiça que preceda a
parousia - ou que postergue a iminência do fim: “Nenhuma pessoa entendida, que tenha
respeito próprio e que veja as condições do mundo, bem como odeclínio acelerado da

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influência cristã atualmente, nenhuma delas é mais ‘pós-milenista’. Somos ‘premilenistas’”


(LINDSEY; CARLSON, 1973, p. 163).
14
Cf. BOYER, Paul S. When time shall be no more: prophecy belief in modern american
culture. Cambridge: Harvard University Press, 1992. (p. 5).
15
LINDSEY, Hal. Os anos 80:contagem regressiva para o Juízo Final. São Paulo: Mundo
Cristão, 1981. (p. 112).
16
LINDSEY, Hal. Os anos 80:contagem regressiva para o Juízo Final. São Paulo: Mundo
Cristão, 1981. (p. 121).
17
Em certo momento Lindsey afirma: “Num mundo decaído, a paz, a segurança e a liberdade
só podem ser mantidas por um poder suficientemente forte para desestimular os que se
inclinam à conquista. Quanto mais poderosas as forças armadas de um país, tanto menores as
possibilidades de que jamais venham a lutar. Essa é a razão pela qual a Bíblia apóia a
manutenção de uma poderosa força militar. E a Bíblia está dizendo aos Estados Unidos que se
fortaleçam de novo. Um exército fraco irá encorajar a União Soviética a começar uma guerra
total” (LINDSEY, 1981, p. 129).
18
Em vários momentos Lindsey parece espelhar o discurso de engajamento político-eleitoral
da Maioria Moral em passagens como: “Precisamos fazer uma limpeza em Washington e
eleger um Congresso e um Presidente que acreditem no sistema capitalista. Nosso Congresso
foi dominado e controlado desde 1955 por homens e mulheres que não crêem realmente no
capitalismo” (LINDSEY, 1981, p. 125); e: “Precisamos colocar no governo indivíduos atuantes
que não só irão refletir a moral bíblica em suas funções, mas também moldarão a política
interna e externa de modo a proteger nosso país e nossa maneira de viver” (LINDSEY, 1981, p.
137).
19
LINDSEY, Hal. Os anos 80:contagem regressiva para o Juízo Final. São Paulo: Mundo
Cristão, 1981. (p. 137).
20
LINDSEY, Hal. Os anos 80:contagem regressiva para o Juízo Final. São Paulo: Mundo
Cristão, 1981. (p. 137-138).
21
Cf. Genesis 12:3.
22
JUNQUEIRA, Mary A. Os discursos de George W. Bush e o excepcionalismo norte-
americano. Margem (São Paulo), n. 17, 2003. p. 163-171. (p. 169).
23
Left Behind é uma série muito popular nos Estados Unidos e também nos ambientes
influenciados pelo fundamentalismo protestante ao redor do mundo, inclusive no Brasil. A
história é, basicamente, uma interpretação literalista do livro do Apocalipse dentro do contexto
geopolítico das décadas de 1990 e 2000. O arrebatamento pré-tribulacional dos crentes ocorre,
o Anticristo controla a ONU e cria um sistema econômico global integrado. Enquanto isso, um
pequeno grupo de cristãos norte-americanos, que devido à sua falta de fé foram “deixados pra
trás” no advento do Arrebatamento, combate as forças do mal, aguardando o desfecho final.
Essa série de livros (12 volumes) já havia vendido até 2004 mais de 62 milhões de cópias
(MARSDEN, 2006, p. 249). Tal “aventura apocalíptica” ganhou também versões
cinematográficas de sucesso e acabou até nas telas dos videogames. Por ser um lançamento
posterior ao período definido para o presente estudo, não entraremos em maiores detalhes
sobre Left behind.
24
Cf. Weber (2004, p. 192).
25
“Today the humanists ridicule the Puritan work ethic, free enterprise, private ownership of
land, and capitalism – even though these concepts, which emanated from biblical teaching,
have produced the greatest good for the largest number of people in history” (LAHAYE, 1980, p.
39).
26
LAHAYE, Tim. O começo do fim. São Paulo: Vida, 1985. (p. 84).
27
Outros autores dispensacionalistas entendem que essa invasão ocorrerá no meio do período
da Tribulação.
28
Cf. SCHLESINGER JR., Arthur M. Os ciclos da história americana. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1992. (p. 15).
29
Cf. Mateus 7:24-27.
30
GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. (p.
62).
31
Cf. Jr 2:11-13.
32
Cf. II Cr. 7:14.

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