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A tirania da mente descontínua: reflexões

sobre a classificação e o parentesco dos


seres vivos
Por
Matheus Coelho

Reconstrução de um macho de Homo erectus baseada no esqueleto intitulado Sangiran


17 e datado entre 1,3 e 1 milhão de anos. Foto: S. Entressangle/E.Daynès -
Reconstruction Atelier Daynès Paris

Retirado e adaptado do trecho “O conto da salamandra”, da obra “A Grande


História da Evolução”, de Richard Dawkins
Por Matheus Coelho

Os nomes são uma ameaça para a história evolutiva. Não é segredo que a paleontologia
é uma área polêmica na qual há inclusive algumas inimizades pessoais. E se formos
procurar o porquê de dois paleontologistas estarem brigando, na maioria das vezes
descobriremos que é por causa de um nome. Esse fóssil é Homo erectus ou Homo
sapiens arcaico? E esse é um dos primeiros Homo habilis ou um dos últimos
Australopithecus? Evidentemente é dada uma imensa importância a tais questões, mas
com frequência se trata de minúcias. Elas até lembram questões teológicas, e suponho
que assim temos uma pista da razão de suscitarem essas desavenças exaltadas. A
obsessão por nomes separados é um exemplo do que denomino tirania da mente
descontínua.

Na Grã-Bretanha, a gaivota-argêntea e a gaivota-de-asa-escura são espécies claramente


distintas. Qualquer pessoa pode diferenciá-las, sobretudo pela cor da parte de cima das
suas asas. As gaivotas-argênteas têm a parte de cima das asas em tom cinza prateado, e
as de asa escura têm cinza-escuras, quase pretas. Mais importante: as próprias aves
também sabem fazer a distinção, pois não se hibridizam apesar de se encontrarem
frequentemente e às vezes até se reproduzirem lado a lado em colônias mistas. Por isso,
os zoólogos sentem-se plenamente justificados em dar-lhes nomes diferentes, Larus
argentatus e Larus fuscus.

Eis uma observação interessante: se acompanharmos a população de gaivotas-argênteas


na direção oeste até a América do Norte e depois na volta ao mundo através da Sibéria
até retornarmos à Europa, notaremos um fato curioso. As “gaivotas argênteas”, à
medida que contornamos o polo, gradualmente se tornam menos parecidas com
gaivotas-argênteas e mais semelhantes às gaivotas-de-asa-escura, até por fim
descobrirmos que as nossas gaivotas-de-asa-escura-pequenas do oeste da Europa são a
outra ponta de um continuum aneliforme que começou com as gaivotas-argênteas. E,
cada estágio ao longo do anel, as aves são suficientemente parecidas com suas vizinhas
imediatas no anel para intercruzar-se com elas. Isto é, até chegarmos aos extremos do
continuum, quando o anel morde a ponta da própria cauda. A gaivota-argêntea e a
gaivota-de-asa-escura-pequena na Europa nunca se intercruzaram, embora sejam ligadas
por uma série contínua de colegas que se intercruzam por todo o caminho até o outro
lado do mundo.

Esse fato está nos mostrando na dimensão espacial algo que sem dúvida sempre
ocorreu na dimensão temporal. Suponhamos que nós, humanos, e os chimpanzés,
sejamos uma espécie em anel. Pode ter acontecido: um anel que talvez subisse por um
lado do vale do Rift (onde acredita-se que tenha ocorrido a vicariância que levou a
espécie ancestral à bifurcação nas linhagens Homo, humanos, e Pan, chimpanzés) e
descesse pelo outro, com duas espécies totalmente separadas coexistindo no extremo sul
do anel, mas um continuum ininterrupto de intercruzamento por todo o caminho de
volta até o outro lado. Se isso fosse verdade, que efeito teria sobre nossas atitudes em
relação à outra espécie? E sobre todas as aparentes descontinuidades?

Muitos dos nossos princípios legais e éticos dependem da separação entre o Homo
sapiens e todas as outras espécies. Entre as pessoas que consideram o aborto um pecado
(inclusive aquela minoria que chega ao ponto de assassinar médicos e explodir clínicas
de aborto), muitos comem carne sem pensar no que estão fazendo e não se preocupam
se chimpanzés são presos em zoológicos e sacrificados em laboratórios. Será que
pensariam duas vezes caso pudéssemos traçar um continuum vivo de intermediários
entre nós e os chimpanzés? Sem dúvida pensariam. No entanto, aconteceu, só por mero
acidente, de todos os intermediários estarem mortos. Só por causa desse acidente
podemos confortavelmente imaginar com grande facilidade um enorme abismo entre
nossas duas espécies — ou, aliás, entre duas espécies quaisquer.

Já mencionei o caso do perplexo advogado que me interpelou depois de uma


conferência. Munido de toda a sua proficiência jurídica, ele veio discutir a seguinte
questão interessante: se a espécie A evolui para a espécie B, ele ponderou, tem de
chegar um ponto em que uma criança pertence à nova espécie B, mas seus pais ainda
são da espécie A. Membros de diferentes espécies não podem, por definição,
intercruzar-se, e no entanto sem dúvida um filho não seria tão diferente de seus pais a
ponto de ser incapaz de intercruzar-se com a espécie deles. Será que isso — remata ele,
sacudindo seu metafórico dedo daquele jeito especial que os advogados, pelo menos nos
filmes de tribunal, aperfeiçoaram como sua característica — deita por terra toda a ideia
de evolução?

Isso equivale a dizer: “Quando você aquece uma chaleira de água fria, não existe um
momento específico em que a água deixa de estar fria e se torna quente; portanto é
impossível preparar uma xícara de chá”. Como sempre procuro virar as questões em
uma direção construtiva, falei ao advogado sobre as gaivotas-argênteas, e acho que ele
se interessou. Ele insistira em classificar os indivíduos firmemente em uma ou em outra
espécie. Não admitia a possibilidade de um indivíduo estar a meio caminho entre duas
espécies, ou a um décimo do caminho da espécie A para a espécie B. A mesma
limitação de pensamento tolhe os intermináveis debates sobre quando exatamente no
desenvolvimento de um embrião ele se torna humano (e quando, por implicação, o
aborto deve ser considerado equivalente a assassinato). Não adianta dizer para essa
gente que, dependendo da característica humana que nos interesse, um feto pode ser
“meio humano” ou “um centésimo humano”. “Humano”, para a mente qualitativa,
absolutista, é como “diamante”. Não existem casas no meio do caminho. As mentes
absolutistas podem ser uma ameaça. Elas causam sofrimento real, sofrimento humano.
É isso que chamo de tirania da mente descontínua.

Para certos propósitos, os nomes e as categorias descontínuas são exatamente aquilo de


que precisamos. Os advogados, aliás, precisam deles o tempo todo. Crianças não podem
dirigir, adultos podem. A lei precisa estipular um limiar, por exemplo o décimo oitavo
aniversário. É revelador o fato de as seguradoras terem uma posição muito diferente
quanto à idade adequada para esse limiar.

Algumas descontinuidades são reais, por quaisquer critérios. Você é uma pessoa e eu
sou outra, e nossos nomes são rótulos descontínuos que indicam corretamente nossa
separação. O monóxido de carbono é de fato distinto do dióxido de carbono, não existe
sobreposição. Uma molécula consiste em 1 átomo de carbono e 1 de oxigênio, ou 1 de
carbono e 2 de oxigênio. Nenhuma tem 1 átomo de carbono e 1,5 de oxigênio. Um gás é
letalmente venenoso, o outro é necessário para as plantas produzirem as substâncias
orgânicas das quais todos dependemos. O ouro é distinto da prata. Cristais de diamante
são realmente diferentes de cristais de grafite. Ambos são feitos de carbono, mas os
átomos de carbono dispõem-se naturalmente de dois modos muito distintos. Não há
intermediários.

A mente descontínua também espreita sob todos os números oficias que indicam o
número de pessoas “abaixo da linha de pobreza”. Podemos indicar a pobreza de uma
família especificando sua renda, preferencialmente expressa em termos reais do que ela
pode comprar. Ou podemos dizer que “X está com uma mão na frente e outra atrás” ou
que “Y é podre de rico”, e todo mundo saberá o que queremos dizer. Mas são
perniciosas as contagens ou porcentagens espuriamente precisas de pessoas que
estariam acima ou abaixo de uma linha de pobreza estipulada de forma arbitrária. São
perniciosas porque a precisão que essa porcentagem implica é de imediato desmentida
pela artificialidade sem sentido da “linha”. Linhas são imposições da mente
descontínua. Ainda mais politicamente sensível é o rótulo de “negro” em oposição ao de
“branco” no contexto da sociedade moderna — em especial a americana. A meu ver, a
raça é mais um dos muitos casos em que não precisamos de categorias descontinuas e
que podemos dispensar a menos que se apresente um argumento extremamente
eloquente em seu favor.
Eis outro exemplo. Nas universidades da Grã-Bretanha, as avaliações são classificadas
em três classes distintas: primeira, segunda e terceira classe. As universidades de outros
países fazem algo equivalente, mesmo que com nomes diferentes, como A, B, C etc. O
que eu quero dizer é que os estudantes não se separam nitidamente em bons, medianos e
fracos. Não existem classes separadas e distintas de habilidade ou empenho. Os
examinadores esforçam-se para inserir os alunos em uma escala numérica
minuciosamente contínua dando notas ou pontos que se destinam a ser adicionados a
outras notas do gênero ou manipulados de modo matematicamente contínuos. A
pontuação nessa escala numérica contínua fornece mais informações do que a
classificação em uma das três categorias. Mesmo assim, apenas as categorias
descontínuas são publicadas.

Em uma amostra muito grande de estudantes, a distribuição de capacidade e mestria


costuma ser uma curva normal, com alguns obtendo resultados excelentes, alguns com
resultados péssimos e muitos entre esses dois extremos. Pode não ser uma curva
simétrica, mas com certeza suavemente contínua e se tornaria mais suave conforme
fossem adicionados mais estudantes na amostra.

Alguns examinadores (em especial, espero ser perdoado por acrescentar, os de matérias
não científicas) parecem mesmo acreditar que existe uma entidade distinta chamada
mente de primeira classe, ou “mente alfa”, a qual um estudante inquestionavelmente
possui ou não possui. A tarefa do examinador seria separar os primeiros dos segundos e
os segundos dos terceiros, exatamente como podemos separar ovelhas de cabras. A
probabilidade de que na realidade exista um continuum suave que passe brandamente
por todos os intermediários entre a pura ovelhice e a pura cabrice é uma coisa difícil de
ser entendida por certos tipos de mentalidade.

E quanto às ovelhas e cabras propriamente ditas? Existem drásticas descontinuidades


entre espécies ou será que elas se fundem umas com as outras como as notas de exame
de primeira e da segunda classe? Se olharmos para os animais sobreviventes, a resposta
normal é: sim, existem drásticas descontinuidades. Exceções como as gaivotas são
raras, mas relevantes, pois traduzem para o domínio espacial a continuidades que
normalmente encontramos apenas no domínio temporal. As pessoas e os chimpanzés
sem dúvida são ligados por uma cadeia contínua de intermediários e por um ancestral
comum, mas os intermediários estão extintos; o que resta é uma distribuição
descontínua. O mesmo se aplica a pessoas e macacos e a pessoas e cangurus, só que os
intermediários extintos viveram muito tempo atrás. Como os intermediários quase
sempre estão mortos, é comum cometer-se impunemente o erro de supor que existe uma
drástica descontinuidade entre cada espécie e todas as demais. Mas aqui estamos
tratando da história evolutiva dos mortos e dos vivos. Quando falamos de todos os
animais que já viveram, e não só dos que estão vivos hoje, a evolução nos diz que
existem linhas de continuidade gradual ligando precisamente cada espécie a todas as
demais. Quando o assunto é história, mesmo espécies modernas aparentemente
descontínuas como ovelhas e cães são ligadas, pelo ancestral que elas têm em comum,
em linhas ininterruptas de suave continuidade.

Ernst Mayr, o papa da evolução no século XX, apontou a ilusão da descontinuidade —


sob seu filosófico nome de essencialismo — como a principal razão de a compreensão
evolutiva ter chegado tão tarde na história humana. Platão, cuja filosofia pode ser vista
como a inspiração para o essencialismo, acreditava que as coisas reais são versões
imperfeitas de um arquétipo ideal de seu tipo. Pairando em algum lugar do espaço ideal
está um coelho essencial, perfeito, que tem a mesma relação com um coelho real que o
círculo perfeito de um matemático tem com um círculo desenhado no pó. Até hoje
muita gente acalenta firmemente a ideia de que ovelhas são ovelhas e cabras são cabras
e que nenhuma espécie jamais poderá dar origem a outra porque, para fazê-lo, teriam de
alterar sua “essência”.

Essência não existe.

Nenhum evolucionista pensa que as espécies modernas se transformam em outras


espécies modernas. Gatos não viram cachorros, ou vice-versa. O que ocorre é que gatos
e cachorros evoluíram de um ancestral comum, que viveu há dezenas de milhões de
anos. Se todos os intermediários ainda estivessem vivos, a tentativa de separar cães de
gatos seria fadada ao fracasso, como acontece com as gaivotas. Longe de ser uma
questão de essências ideais, separar gatos e cães só se mostra possível por causa do
afortunado (ponto de vista dos essencialistas) fato de que os intermediários por acaso
estão mortos. Platão talvez achasse irônico se soubesse que, na realidade, é uma
imperfeição — a esporádica má fortuna da morte — que possibilita separar qualquer
espécie de outra. Isso evidentemente vale para a questão de separar os seres humanos de
nossos parentes mais próximos — e, com efeito, também dos nossos parentes mais
distantes. Num mundo de informações perfeitas e completas, informações fósseis tanto
quanto informações recentes, seria impossível dar nomes distintos aos animais. Em vez
de nomes separados precisaríamos de escalas graduais, do mesmo modo como as
palavras quente, morno, fresco e frio são substituídas de modo mais eficaz por escalas
graduadas como Celsius ou Fahrenheit.

Hoje, a evolução é universalmente aceita como um fato pelas pessoas pensantes, e por
isso poderíamos esperar que as intuições essencialistas em biologia tivessem, por fim,
sido superadas. Infelizmente isso não ocorreu. O essencialismo não quer dar o braço a
torcer. Na prática, ele não costuma ser um problema. Todos concordam que Homo
sapiens é uma espécie diferente (e a maioria até diria que é um gênero diferente) de Pan
troglodytes, a espécie dos chimpanzés. Mas também todos concordam que se traçarmos
a árvore genealógica humana em direção ao passado até o ancestral comum, voltando
depois em direção ao futuro até os chimpanzés, os intermediários por todo o caminho
formariam um continuum gradual no qual em cada geração um indivíduo teria sido
capaz de intercruzar-se com seu genitor ou seu filho do sexo oposto.

Pelo critério do intercruzamento, cada indivíduo é membro da mesma espécie que a de


seus pais. Isso é uma conclusão mais do que esperada, para não dizer banal de tão óbvia,
mas só até percebermos que ela gera um paradoxo intolerável na mente essencialista. A
maioria dos nossos ancestrais, por toda a história evolutiva, pertenceu a espécies
diferentes da nossa por qualquer critério, e nós certamente não poderíamos ter
intercruzado com eles. No Período Devoniano, nossos ancestrais diretos eram peixes.
No entanto, embora não pudéssemos intercruzar com eles, estamos ligados por uma
cadeia ininterrupta de gerações ancestrais, cada uma delas capaz de intercruzar-se com
seus predecessores imediatos e com seus sucessores imediatos nessa cadeia.

À luz desse fato, como é vasta a maioria das discussões exaltadas sobre a nomeação de
fósseis específicos de hominídieos! O Homo ergaster é amplamente reconhecido como
a espécie predecessora que originou o Homo sapiens, e assim aproveitarei essa ideia
para o que vem a seguir. Em princípio, nomear o Homo ergaster como uma espécie
separada do Homo sapiens poderia ter um significado preciso, mesmo sendo impossível
testar isso na prática. Significa que, se pudéssemos voltar ao passado em nossa máquina
do tempo para conhecer nossos ancestrais Homo ergaster, não poderíamos intercruzar
com eles. Mas suponhamos que, em vez de desembarcarmos diretamente na época do
Homo ergaster, ou, na verdade, de qualquer outra espécie extinta em nossa linhagem
ancestral, parássemos nossa máquina do tempo a cada mil anos ao longo do caminho e
trouxéssemos para bordo um passageiro jovem e fértil. Transportamos esse passageiro
ou passageira em direção ao passado até a próxima parada, mil anos antes, e o
libertamos (ou a libertamos: peguemos alternadamente alguém do sexo feminino e do
masculino a cada parada). Contanto que o nosso passageiro de cada parada pudesse
adaptar-se aos costumes sociais e linguísticos locais (uma tarefa e tanto!), não haveria
barreiras biológicas para que ele se intercruzasse com um membro do sexo oposto de
mil anos antes. Agora pegamos um novo passageiro, digamos que dessa vez seja do
sexo masculino, e o transportamos mil anos em direção ao passado. Mais uma vez, ele
também seria biologicamente capaz de fecundar uma fêmea de mil anos antes do
período em que ele se originou. Essa ligação em cascata continuaria em direção ao
passado até a época em que nossos ancestrais estavam no mar. Poderia prosseguir
retrocessivamente sem interrupção, chegar aos peixes, e ainda assim seria verdade que
cada passageiro transportado mil anos antes de sua época seria capaz de
intercruzamento com seus predecessores. No entanto, em algum ponto, que poderia ser
1 milhão de anos, mas talvez pudesse ser menos ou mais tempo do que isso, não
poderíamos intercruzar com um ancestral, apesar de o passageiro que tivéssemos trazido
a bordo na última escala poder fazê-lo. Nesse ponto, poderíamos dizer que viajamos até
encontrar uma espécie diferente.

A barreira não surgiria subitamente. Nunca haveria uma geração na qual fizesse sentido
dizer, sobre um indivíduo, que ele é Homo sapiens mas seus pais são Homo ergaster.
Podemos pensar nisso como um paradoxo, se preferirmos, mas não há razão para supor
que alguma criança jamais tenha sido membro de uma espécie diferente da de seus pais,
muito embora a ligação em cascata de pais e filhos se estenda retrocessivamente dos
humanos até os peixes e além deles. Na verdade, isso não é paradoxal para ninguém
além dos mais ferrenhos essencialistas. Não é mais paradoxal do que afirmar que nunca
houve um momento no qual uma criança em crescimento deixa de ser baixa e passa a
ser alta. Ou em que uma chaleira deixa de estar fria para estar quente. A mente jurídica
pode julgar necessário impor uma barreira entre a menoridade e a maioridade — a
batida da meia-noite do 18º aniversário ou seja lá qual for o momento estipulado. Mas
qualquer um pode ver que isso é uma ficção (necessária para certos fins). Quisera eu
que mais pessoas pudessem entender que o mesmo se aplica ao momento, digamos, em
que um embrião se torna
“humano”!

Os criacionistas adoram as “lacunas” no registro fóssil. Mal sabem eles que os biólogos
também têm boas razões para adorá-las. Sem lacunas o registro no registro fóssil, todo o
nosso sistema de nomeação de espécies soçobraria. Os fósseis não poderiam ser
nomeados; teriam de ser designados por números ou por posições num gráfico. Ou
ainda, em vez de se discutir acirradamente sobre se um fóssil é “de fato”, digamos, um
Homo ergaster ou um Homo habilis mais recente, poderíamos chamá-lo de habigaster.
Muito se pode dizer em defesa dessa ideia. Não obstante, com frequência nos sentimos
mais à vontade usando nomes separados para as coisas quando falamos sobre elas,
talvez porque nosso cérebro tenha evoluído em um mundo no qual a maioria das coisas
realmente se encaixa em categorias distintas, e em particular no qual a maioria dos
intermediários entre espécies vivas estão mortos. Mas “O conto da salamandra” explica
por que se trata de uma imposição humana e não algo profundamente arraigado no
mundo natural. Usemos os nomes como se eles refletissem de fato uma realidade
descontínua, mas, cá entre nós, lembremos sempre que, ao menos no mundo da
evolução, isso não é mais do que uma ficção conveniente, uma concessão às nossas
limitações.

Para saber mais sobre o problema do conceito de espécie:


1: https://goo.gl/IArsuC
2: https://goo.gl/GMn66Y