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DIA SE PERGUNTOU QUEM ERA
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Notas dos depoimentos de Davide Prosperi e Julián Carrón no Dia de Início de Ano dos adultos e dos
universitários de CL da região italiana da Lombardia. Fiera Rho-Pero, 25 de setembro de 2010
Portopalo de Capo Passero, Sicília (Itália), 1999.
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Notas dos depoimentos de Davide Prosperi e Julián Carrón no Dia de Início de Ano dos adultos e dos universitários de CL da região italiana da Lombardia. Fiera Rho-Pero, 25 de setembro de 2010

JULIÁN CARRÓN

No início deste ano, peçamos ao Espíri- to o dom da sabedoria para que possamos entender qual é o problema dos problemas – o sentido da vida – e nos tornemos real- mente disponíveis a perseguir a modalida- de com a qual o Mistério nos alcançou e

continua a nos alcançar agora.

Ó vinde, Espírito Criador

Saudações a todos aos que estão presen- tes e aos que nos acompanham ao vivo de várias regiões da Itália e do exterior. Leio o

telegrama que enviamos ao Papa: Santidade, cinquenta mil adultos e estudantes universitá- rios de Comunhão e Libertação reunidos em Milão e que acompanham ao vivo, a partir de uma dezena de cidades italianas e do exterior para o Dia de Início de Ano, gratos a Deus pela beleza da Vossa viagem ao Reino Uni- do, desejam entregar em Vossas mãos toda a própria pessoa para estar, como Vossa Santi- dade, ao serviço de um Outro, a fim de tornar o anúncio de Jesus Cristo acessível aos irmãos homens. Numa sociedade indiferente e hostil à fé, ao aprofundar o carisma de Dom Giussani confirmamos o empenho em tornar transpa- rente Cristo ressuscitado, resposta inesgotável às perguntas do coração de cada um.

DAVIDE PROSPERI

Como cabe a mim evidenciar os passos dados durante o ano passado, leio algumas li- nhas de Dom Giussani, contidas em O cami- nho para a verdade é uma experiência, e que resumem de modo eficaz o que vivemos: “O cristianismo não nasce como fruto de uma cultura nossa ou como descoberta da nossa inteligência: o cristianismo não se comunica ao mundo como fruto da modernidade ou da eficácia de nossas iniciativas. O cristianis- mo nasce e se difunde no mundo pela pre-

sença do ‘poder de Deus’: ‘Deus, in nomine Tuo salvum me fac’ (Por vosso nome, salvai- me Senhor; e daí-me a vossa justiça). Este poder de Deus se revela em acontecimentos que constituem uma realidade nova dentro do mundo, uma realidade viva, em movi- mento, e portanto uma história excepcional e imprevisível dentro da história dos homens

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e das coisas” (L. Giussani, O caminho para a verdade é uma experiência, São Paulo: Ed. Cia. Ilimitada, 2006, p. 153). Isto também nos ajuda a entender a tarefa de uma presença cristã na socieda- de. Acabamos de escutar que não se trata, antes de tudo, de uma sabedoria nossa ou do fruto das nossas iniciativas, pelas quais é possível celebrar quando esta presença é reconhecida ou, pelo contrário, correr para consertar quando é atacada. Se fosse assim não seríamos mais capazes de nos ma- ravilhar por nada, no fundo tudo já seria codificado, sabido. Pelo contrário – como ouvimos – a potência de Deus se revela em acontecimentos que constituem uma reali- dade nova dentro do mundo. Bem, nós aqui hoje queremos dizer que este ano fomos testemunhas e participamos de acontecimentos, alguns mais evidentes, que envolveram todo o Movimento, e outros que cada um pode encontrar na própria ex- periência pessoal. Lembro, acima de todos, o gesto de Roma no dia 16 de maio com o Papa, quando já nas semanas anteriores for- mos introduzidos a um juízo diferente, não ideológico, sobre o significado daquele gesto, tanto que muitos de nós, talvez por compro- missos firmados precedentemente, decidi- ram participar no último momento, mesmo em meio a obstáculos e impedimentos. So- bre isso, todos nos lembramos de que, nesta mudança, também a respeito das decisões to- madas, fomos ajudados pelo que Carrón nos disse: “Nós não vamos a Roma antes de tudo para defender o Papa, mas para reconhecer e afirmar a rocha sobre a qual estamos an- corados neste momento de provação para a Igreja”. Isto mudou o olhar sobre aquilo que fazíamos, pois introduziu uma posição hu- mana nova, ao ataque, que entra nas coisas desarmada, para conhecer, para entender mais. Sem dúvida esse foi um dos êxitos im- previstos do trabalho de Escola de Comu- nidade deste ano, e certamente a Escola de Comunidade de Carrón (que foi possível de ser acompanhada por todos os que o dese- jassem) é o ponto que alcançou a todos nós, mostrando-nos este método em ação.

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“ ... um página uM dia se perguntou quem era ” ... No Meeting de Rímini

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No Meeting de Rímini tivemos um refle- xo desta positividade diante da realidade que se encontra. Pensemos ao que significaram os tantos testemunhos sob várias frentes, que agora, por brevidade não cito, mas que podem ser encontrados numerosos na revista Passos. Sinteticamente podemos dizer que a esperan- ça que vem da experiência cristã nos torna surpreendentemente – deixem-me dizer, tam- bém inesperadamente – capazes de enfrentar todas as condições, talvez até as mais difíceis, experimentando uma inteligência de iniciati- va e, ao mesmo tempo, uma plenitude de ale- gria que não precisa reduzir a dramaticidade daquilo que está sendo vivido, como talvez, pelo contrário, muitas vezes somos levados a fazer para não cairmos no desespero. E, então, vem a pergunta: de onde vem tudo isso? O que está por trás? Um mês atrás, em La Thuile, durante a Assembleia Interna- cional de Responsáveis de Comunhão e Li- bertação, Carrón retomou Giussani que disse:

“A realidade não deve ser arquivada por já sabermos [depois do encontro cristão], por já termos tudo. Nós temos tudo, mas só compre-

endemos o que é esse tudo [isto é, o que seja Cristo] no choque, ou melhor, no encontro com as circunstâncias, com as pessoas, com os acontecimentos” (“Viver é a memória de Mim”, Assembleia Internacional de Responsá- veis de Comunhão e Libertação, p. 52). Um exemplo extraordinário disto foi outra passagem fundamental do ano passado, que absolutamente não devemos perder, que foi o artigo de Carrón no jornal La Repubblica (de 4 de abril passado), referindo-se à tempestade sobre a pedofilia que investiu a Igreja. Diante da grande contradição que se experimenta (mas isto é verdade para qualquer contradi- ção, é verdade para a dor em si) se impõe em nós uma necessidade insaciável de justiça e de verdade. Nada basta para curar a ferida que se abriu, nada daquilo que nós podemos fazer, pois a justiça que cada um de nós espe- ra não é apenas que nos seja restituído o que nos foi tirado, aquilo em que tínhamos colo- cado a nossa esperança, as nossas expectati- vas; a justiça para a qual somos feitos é muito mais do que ser recompensados, aquilo que nós realmente esperamos é mais do que »

Texas (EUA), bombeiros em treinamento.

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Capriva do Friuli (Itália), vinhedos de Collio.

isso, é uma superabundância. A este pro- pósito há um episódio muito significativo dos primeiros tempos de Madre Teresa em Calcu- tá: a jovem freira se deparou com um pobre moribundo abandonado no meio da rua, o acolheu na sua casa, o medicou, cuidou dele. Pouco depois o homem morreu, mas antes de morrer pronunciou estas palavras: “Vivi toda a vida como um cão e agora morro como um rei”. Madre Teresa provavelmente não tinha feito mais do que uma enfermeira, talvez com compaixão, poderia ter feito naquela situação, e no entanto aquele homem disse aquelas pa- lavras. O que ele viu? O que pode ter visto que tinha esperado por toda a vida? No olhar de Madre Teresa brilhava o olhar de Cristo, na sua voz vibrava a voz de Cristo: era isso o que ele tinha esperado por toda a vida, encontrar este olhar. Dizia ainda Carrón em La Thuile:

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“A verdade não é algo abstrato, é esse Amor que se dobrou sobre o nosso nada, […] esta comoção pelo nosso nada. […] Esta é a nossa responsabilidade: converter o eu ao Aconte- cimento presente, ou seja, a esse Amor que se curvou sobre mim” (J. Carrón, “Viver é a me- mória de Mim”, op. cit., pp. 8-9). Confiar-se a este olhar é o convite que re- cebemos também do Papa na Praça de São Pedro. A palavra que domina a preocupação de quem guia a Igreja é a palavra “conversão”, e o Papa o lembrou ainda na semana passada,

por ocasião da visita histórica na Grã Breta- nha pela beatificação do cardeal Newman:

“Newman ensina-nos que se acolhermos a verdade de Cristo e comprometermos a nos- sa vida por Ele, não pode haver separação entre aquilo em que cremos e o modo como vivemos a nossa existência. Cada nosso pen- samento, palavra e ação devem visar a glória de Deus e a difusão do seu Reino” (Bento XVI, Vigília de oração para a beatificação do cardeal John Henry Newman, Londres, 18 de setembro de 2010). Portanto, te pedimos, neste novo ano que começa: o que é essa conversão do eu para o acontecimento presente, à qual te- mos sido convidados?

JULIÁN CARRÓN

1. A humAnidAde que nAsce dA fé

Celebramos este Dia de Início de Ano ainda impressionados com os gestos que aconteceram neste verão: das férias das nossas comunidades ao Meeting, desde a Assembleia Internacional dos Responsáveis às equipes dos universitários e dos colegiais de CL; e, mais recentemente, com a viagem do Papa à Grã Bretanha. O que ele enfati- zou por ocasião dessa visita nos leva a en- tender os desafios que a nossa fé é chamada a enfrentar hoje. Uma comparação com o

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“ ... um página uM dia se perguntou quem era ” ... que ele disse vai

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que ele disse vai nos ajudar a contextualizar a dimensão do percurso que estamos fa- zendo e nos oferece ainda mais razões para percorrer a caminhada. Bento XVI viajou – como todos sabemos – para um dos lugares mais secularizados do mundo e nos testemunhou o que é uma pre- sença. Estava bem consciente do alcance da viagem, como ele próprio disse esta semana, ao falar das etapas que percorreu: “Ao me di- rigir aos cidadãos daquele país, encruzilhada da cultura e da economia mundial, sempre tive em mente todo o Ocidente, dialogando com as razões dessa civilização e comunican- do a insuperável novidade do Evangelho, do qual ela está impregnada” (Bento XVI, Audi- ência geral, Praça de São Pedro, 22 de setem- bro de 2010). Para demonstrar que novidade é essa, naquele contexto, o Santo Padre se serviu da figura de Newman, cuja beatifica- ção era o motivo fundamental da sua viagem:

“Newman – segundo o seu próprio relato – refez a caminhada de toda a sua vida à luz de uma poderosa experiência de conversão, que aconteceu quando ele era jovem. Foi uma ex- periência imediata da verdade da Palavra de Deus, da objetiva realidade da Revelação cris- tã, tal como foi transmitida pela Igreja. Tal ex- periência, ao mesmo tempo religiosa e inte- lectual, teria inspirado a sua vocação para ser ministro do Evangelho, o seu discernimento da fonte de ensinamento respeitável na Igreja de Deus e o seu zelo pela renovação da vida eclesial, na fidelidade à tradição apostólica. No final da vida, Newman descreveria o pró- prio trabalho como uma luta contra a cres- cente tendência a considerar a religião como um fato puramente privado e subjetivo, uma questão de opinião pessoal. Aí está a primeira lição que podemos aprender com a sua vida:

em nossos dias, quando um relativismo inte- lectual e moral ameaça enfraquecer os pró- prios fundamentos da nossa sociedade, New- man nos recorda que, como homens e mulhe- res criados à imagem e semelhança de Deus, fomos criados para conhecer a verdade, para encontrar nela a nossa definitiva liberdade e a realização das mais profundas aspirações hu- manas. Numa palavra, fomos pensados para

conhecer Cristo, Ele próprio o caminho, a ver-

dade e a vida (Jo 14,6)” (Bento XVI, Vigília

de

oração...,

18 de setembro de 2010). De fato,

se a religião é um fato puramente privado e

subjetivo, uma questão de opinião pessoal, a consequência é óbvia: o relativismo. O relati- vismo minimiza a capacidade do homem de conhecer a verdade, de encontrar nela a defi- nitiva liberdade e a realização das aspirações

humanas mais profundas, isto é, de encontrar resposta completa para as suas exigências. De fato, se o homem não encontra uma resposta para essa aspiração, para essa exigência, tudo se torna relativo, tudo é opinável e nada será capaz de capturar todo o seu eu. Ao invés disso, o Papa disse: “À multi- dão de fiéis, especialmente aos jovens, quero repropor a luminosa figura do cardeal Newman, intelectual e crente, cuja mensagem espiritual pode ser sintetizada no testemunho de que a via da consciência não é o enclausu- ramento no próprio eu, mas abertura,

“À luz do que diz o Papa, podemos entender a dimensão do percurso que estamos fazendo para escapar da fratura entre saber e crer, que relega o crer para a esfera do subjetivo, da opinião pessoal”

conversão e obediência Àquele que é Caminho, Verdade e Vida” (Bento XVI, Au- diência geral, 22 de setembro de 2010). À luz disto, podemos entender o alcance do percurso que estamos fazendo para esca- par da fratura entre saber e crer, que relega o crer para a esfera do subjetivo, da opinião pessoal, porque o homem não seria capaz de conhecer a verdade realizadora da vida. Mas esse é um problema que diz respeito somente aos intelectuais, como Newman, ou tem a ver com todos nós? Aqui adquire todo o seu alcance o apelo à conversão que o Papa está lançando insisten- temente a toda a Igreja. Mas ninguém levará de fato a sério esse apelo se não o sentir urgen- te para si próprio. As canções que entoamos podem nos ajudar a entender essa urgência:

“Era um homem mau, / mas mau, mau, mau” (C.Chieffo, “L´uomo cattivo”, Il libro dei can- ti, Jaca Book, Milão 1976, p. 291). O termo “mau” tem aqui o significado de “imoral”, mas não no sentido costumeiro, em que o re- duzimos a incoerência ética, mas no sentido mais profundo de uma inadequada rela- »

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página uM “ ... um dia se perguntou quem era ” ... ção com o Ser.

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ção com o Ser. Diz Dom Giussani: “Uso a palavra moral ou moralidade em seu sentido mais profundo, substancial, que é a postura da pessoa frente ao Ser, isto é, frente à vida, à existência, como origem, consistência, des- tino” (L. Giussani, L´io rinasce in un incontro 1986-1987, Bur, Milão 2010, p. 42). Que esse é o sentido da palavra, aqui podemos vê-lo pela sequência do canto. Quando se levantava de manhã, não sentia remorso por algo que es- tivesse errado, não: “Quando se levantava de manhã, / tudo o incomodava, / a co- meçar pela luz; até o café com leite”. E

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“Se não ocorrer agora, nós não saberemos quem Jesus é verdadeiramente, mas com Ele, quando Ele acontece de novo, quando Ele vence em nós esse mal- estar, começamos a entrar no real, na verdade do real”

nós podemos até ter feito o encontro cristão, e também acordar de manhã e se incomodar com tudo, bem o sa- bemos. Mas isso não é obstáculo para o Senhor: “O Senhor do céu / tantos presentes lhe mandava; ele apenas os observava, / e às vezes até mesmo re- clamava deles”. O resultado dessa nos- sa incapacidade de captar a realidade tal como ela é, ou seja, dom, presente, em sua verdade – o que nos levaria a ser gratos, a expressar gratidão tão logo abrimos os olhos – o resultado é ficarmos impedidos de fazer a expe- riência de realização da vida, como se vê pelo fato de que o que prevalece é a

lamentação como sentimento último de si mesmo. Não existem santos, caros amigos! A vida não é poupada a ninguém, nem sequer depois do encontro cristão. Se olharmos lealmente, sem medo, para a nossa experiência humana, é difícil evitar a comoção quando cantamos I Wonder: “Enquanto caminho, debaixo do céu, [como um vagante desanimado posso sentir todo o maravilhamento, toda a admira- ção] me surpreendo de que Jesus tenha vindo morrer por uma pobre gente faminta como eu e você” (“I Wonder”, Canti, Cooperativa Edi- toriale Nuovo Mondo, Milão 2002, p. 283). O mal-estar que experimentamos e a inca- pacidade de sairmos sozinhos de nós mesmos nos mostram como são pertinentes estas ob- servações. Este mal-estar e este lamento po- dem se tornar a ocasião para que cada um de nós conheça quem é Cristo, porque “nós não

sabemos quem ele era” (título da canção de A. e G. Roscio-A. e G. Agape, Canti, op. cit., pp. 206-207); se não ocorrer agora, nós não saberemos quem Jesus é verdadeiramente, mas com Ele, quando Ele acontece de novo, quando Ele vence em nós esse mal-estar, co- meçamos a entrar no real, na verdade do real, como aquele homem mau: “Mas um dia se perguntou quem era/ que lhe dava a vida,/ um dia se perguntou quem era que lhe dava o amor”. Isto é, o homem começa a perceber verdadeiramente Quem lhe dá a vida. Come- çamos, então, a mudar a nossa posição frente às coisas e começamos a ver o que antes não víamos: “a cor da uva” e “a criança que lhe sor- ria”. Quantas crianças já tinha visto sorrir, mas de fato não as via! Então “pôs a mão no cora- ção/ e chorou quase um dia inteiro”. É isso que possibilita ao Senhor nos dar tudo: “E Deus o viu e sorriu;/ tirou-lhe a sua dor,/ e depois lhe deu ainda mais vida,/ deu-lhe ainda mais amor”. A conversão, amigos, a consciência plena da realidade, tem um objetivo claro:

mais vida, mais amor. Uma pessoa me escreve: “Caríssimo padre Julián, foi muito difícil decidir lhe escrever, mas a insistência de um amigo foi uma boa razão para fazê-lo. O que está caracterizando a minha vida é o pedido, o pedido para que Cristo me comunique a Sua natureza. Há meses me separei da minha mulher e estou vivendo na dor e na dificuldade. Este ano, depois de anos de distanciamento do Mo- vimento, voltei a participar das férias da co- munidade, porque eu desejava que meu filho pudesse ver e participar de algo que é maior do que ele, do que eu, do que as circunstân- cias dolorosas e difíceis que estamos viven- do. Depois de dois dias de stand by, onde eu ficava como espectador, essa coisa aconteceu comigo, sofri o impacto de um fato (eu, com minha dor, com minha angústia, com o meu nada). Um abraço que despertou meu cora- ção de novo, e isso foi o início de uma pro- posta para a minha vida, que primeiramente partiu do meu coração e que encontrou vida na companhia em volta de mim. Embora in- digno, me senti objeto de uma imensa mi- sericórdia, senti que a vida estava de volta.

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O encontro com um amigo, o seu olhar, o olhar apaixonado dos rostos do dia-a-dia que estavam em torno de mim e que olha- vam a todo momento a vida como um dom de um Outro e não tinham medo do próprio coração: ali entendi que nada sabia a respeito de Jesus, não havia entendido nada de Jesus, embora tivesse sido guia de uma comunida- de, embora tivesse visto Dom Giussani. Eu não tinha entendido nada, e comecei a dizer:

Eu quero Te conhecer, Jesus. Por muito tempo eu estive no Movimento e na Igreja pensan- do que sabia quem era Jesus, observando se os outros aderiam à minha ideia de Jesus e da vida, ou até mesmo verificando se Jesus se adequava à minha ideia. Conhecer esse amigo, a maneira como me olhava, embora sendo um desconhecido, alargou aquela fen- da que tinha se aberto. O verão acabou sen- do o tempo da memória (quantas vezes eu ouvi Dom Giussani dizer isso e experimentei fazê-lo, sempre naufragando no meu limite), o tempo para buscar esse olhar e ir aonde eu era olhado assim, aonde a realidade era olha- da assim, e jogar-me dentro. Passei o verão girando pelo litoral, encontrando os amigos, revendo aquele olhar, li muito para rever esse olhar, por toda parte eu buscava aquele olhar.

Assim, foi abrindo caminho dentro de mim a concepção profunda [isto é conversão!] de que eu sou um dom para mim mesmo, que eu sou um dom, e por isso a minha vida deve ser um pedido, se eu quiser respeitar a minha natureza. Assim, não passa um dia que eu não deseje aquele olhar, para aprender quem sou eu e conhecer adequadamente a realida- de, e comecei a olhar assim, me surpreendi olhando tudo dessa maneira. Assim, não passa um dia sem que o meu pedido se torne uma disponibilidade à realidade, até querer encontrá-Lo todos os dias nos sacramentos e na oração, fundamento desse meu ser e da nossa unidade. Os problemas permanecem, a angústia sempre ataca e a dor, às vezes, é tão forte que chega a queimar na carne, mas isto não é objeção à verdade do que eu vi, à verdade daquele olhar, ou melhor, dentro da minha liberdade (tal como consigo, como posso), a dor escancara o meu pedido, é uma estranha e misteriosa convivência de dor, alegria e felicidade!”. Olhemos para este testemunho: o que é que derrota o relativismo, essa redução da razão e da liberdade que nos impede de co- nhecer e de aderir à verdade que nos dá mais vida, mais amor? A contemporaneidade »

Trieste (Itália), litoral de Mandracchio.

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Los Palacios (Espanha), quadrilha.

de Cristo, a única em condição de magne- tizar a nossa razão e a nossa afeição quando encontra em nós a disponibilidade testemu- nhada por esse amigo. Não importa em qual estado nos encontremos, nem os anos em que ficamos afastados do Movimento. Essa contemporaneidade, essa força de Deus, se torna presente por meio dos aconte-

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do, e eles falaram ao meu, especialmente com a sua presença e com o testemunho da sua fé. [ ] ... Aos numerosos adolescentes e jovens, que me acolheram com simpatia e entusiasmo, pro- pus que não perseguissem objetivos limitados, contentando-se com escolhas cômodas, mas que visassem coisas maiores, ou seja, buscar a verdadeira felicidade, que só se encontra em

cimentos, ou de testemunhos como esses que

Deus. [

]

Quis também falar ao coração de to-

vimos neste verão [europeu]. Mas o Senhor continua a ter piedade do nosso nada e nos presenteou com uma testemunha ainda mais espetacular: o próprio Papa. Ele é uma teste- munha dessa vitória sobre o relativismo, não apenas por suas palavras, mas sobretudo pelo que testemunhou, pela maneira como se colo- cou. De fato, o Papa não defendeu apenas a na- tureza verdadeira do homem frente a qualquer redução, mas se dirigiu à pessoa sem reduções, ao que é mais original na pessoa, mais profun- do do que todas as incrustações culturais: o co- ração; e o fez testemunhando hoje a paixão que Cristo tem pelo homem. Ele disse: “Nas quatro intensas e belíssimas jornadas transcorridas naquela nobre terra, tive a grande alegria de falar ao coração dos habitantes do Reino Uni-

dos os habitantes do Reino Unido, sem excluir ninguém, sobre a verdadeira realidade do ho- mem, sobre as suas necessidades mais profun- das, sobre o seu destino último” (Bento XVI, Audiência geral, 22 de setembro de 2010). O que o Papa testemunhou? Deu testemu- nho daquilo que Cristo é capaz de fazer com um homem que se torne disponível, que per- mita ser gerado por Ele. Cristo gera uma cria- tura tão nova que deixa a todos sem palavras. Isso se vê pelo uso da razão, testemunhado pelo Papa, por uma inteligência da fé que se torna inteligência da realidade, pela liberdade de se colocar sem ambiguidades frente à rea- lidade, diante de todos, por uma humildade que desarma e que deixa todo mundo atônito, pela ingênua ousadia de dar um testemunho

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“ ... um página uM dia se perguntou quem era ” ... ardoroso, apaixonado e inteligente

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ardoroso, apaixonado e inteligente de Cristo. Todos ficaram sem palavras ao ouvi-lo. Basta consultar os jornais ingleses. Cito apenas um, o editorial do The Telegraph: “Alguém pode ter-se sentido ofendido com estas palavras, dado o fracasso do Vaticano – agora admiti- do corretamente por Bento XVI – na gestão dos graves crimes de uma pequena minoria do próprio clero. Mas suspeitamos que mui- tas outras pessoas tenham colocado de lado as próprias reservas em relação à Igreja e con- fessaram a si mesmas: Ele tem razão” (The Te- legraph, 17 de setembro de 2010). Esta é a humanidade que nasce da fé, uma estatura humana capaz de dar contribuição decisiva à vida dos homens. Quem de nós não desejaria uma humanidade assim, a capaci- dade de se colocar – em nossos ambientes de trabalho, como também nas universidades, na família ou no meio dos amigos, sozinhos ou em grupo – com esta inteligência e esta liber- dade, com esta paixão por cada um? Para che- gar a esse ponto, amigos, é preciso continuar o nosso percurso porque essa humanidade não se torna mecanicamente nossa; não nos iluda- mos: é preciso uma trajetória de conversão – como a de Newman – para derrotar dentro de nós a influência do relativismo, que dificulta o conhecimento da verdade, essa verdade que nos dá mais vida e mais amor.

2. As três reduções

Mas como o relativismo (este clima cul- tural que torna difícil a atuação dessa capa- cidade de conhecer a verdade da realidade) incide sobre nós, que encontramos o acon- tecimento cristão? De novo Dom Giussani se torna nosso companheiro de caminhada e identifica três reduções.

a) A primeira é a prevalência da ideolo- gia sobre o Acontecimento: “A relação com a realidade que o homem vive de manhã até à noite pode ser uma iniciativa contínua, uma tentativa contínua frente ao que acontece e ao que ele experimenta; ou então o homem pode ser movido, pode deixar-se mover por algo, pode obedecer a alguma coisa que não nasce, não brota do seu modo de reagir às coisas que

encontra, com as quais se depara, mas dos

preconceitos [terrível!]. O ponto de partida do cristão é um Acontecimento. O ponto de par- tida de todo o resto do pensamento humano é uma certa impressão e avaliação das coisas, uma certa posição que alguém assume antes de enfrentar as coisas, sobretudo antes de jul- gá-las” (L. Giussani, L´uomo e il suo destino. In cammino, Marietti, Gênova 1999,

p. 109). E isso acontece diante das mesmas coisas! Ouçam o que um de vocês me diz: “Caro Julián, o caminho que você está nos levando a fazer revela- se cada vez mais determinante para mim e para muitos amigos. A Escola de Comunidade sobre a esperança (É possível viver assim?, Cia. Ilimita- da, São Paulo 2008, pp. 147-210) fez emergir de modo clamoroso o pro- blema: quantos de nós não viviam a certeza! Inclusive para pessoas que estava há muito tempo no Movi- mento, a vida se apoiava de fato em outras coisas e a esperança – efeti- vamente vivida – só se mantinha se as circunstâncias fossem favoráveis.

“O que é que derrota o relativismo, essa redução da razão e da liberdade que nos impede de conhecer e de aderir à verdade que nos dá mais vida, mais amor? A contemporaneidade de Cristo, a única em condição de magnetizar a nossa razão e a nossa

afeição”

Uma coisa importante foi repen- sar a minha responsabilidade (guio uma Escola de Comunidade, e sou o prior de um grupinho de Fraternidade), e percebi estar se tornando mera função: depois de tantos anos de Movimento temos sempre a respostinha correta, com a qual todos estão de acordo, vamos atrás de uma frase tirada de um outro livro de Giussani, fazemos ou- tras citações apropriadas, o amigo mais velho nos diz sempre alguma coisa interessante que pontualmente citamos nos encontros; e tudo isso nos ajuda a nos sairmos bem. O proble- ma é que raramente eu dava uma contribui- ção de experiência real, vivida à luz do que estávamos dizendo. Eu era o primeiro a não entrar na realidade com a hipótese que nos era sugerida, e, portanto, eu era o primeiro a ser enquadrado pelas circunstâncias. Frente aos problemas da vida, colocar-me diante das coisas que nos são ditas às vezes me irritava, porque eu queria algo que resolvesse o meu

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página uM “ ... um dia se perguntou quem era ” ... problema, não estava interessado

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problema, não estava interessado em algo que me colocasse na posição justa; inclusive os testemunhos, paradoxalmente, às vezes até me deixavam incomodado, aumentavam o meu ceticismo; bem lá no fundo eu me di- zia: o que aconteceu com eles jamais acontecerá comigo. Foi uma graça eu ter percebido isso! Os Exercícios foram um ponto de questiona- mento decisivo, comecei a enfrentar

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“O cristianismo é um acontecimento,

e por isso está presente, é o ponto de partida do cristão, não é ideologia ou preconceito, mas acontecimento. Só o reconhecimento desse fato impede que nos tornemos escravos de uma

a realidade procurando estar cons- ciente do desafio que lançávamos, e a esse propósito conto um fato que me impressionou bastante. Um ami- go estava enfrentando a realidade do trabalho com uma superficialidade tal que me deixava chocado, colocan- do em risco um ótimo emprego que, se perdido, jogaria a numerosa fa- mília numa situação dramática; não dava bola para a realidade, deixava- se guiar pelo preconceito e pelo gosto pessoal. Isso me desagradava muito e eu dizia para mim mesmo: como isso é possível? Só que, refletindo sobre o que significava essa provocação,

ideologia”

percebi que eu fazia a mesma coisa ao enfrentar a realidade. Portanto, o Mistério, através daquela circunstância, esta- va me corrigindo. Surpreendentemente fiquei comovido, me senti amado como nunca, e desde então começou na minha vida uma di- nâmica nova: a realidade começa (devagarzi- nho, mas está começando) a ser o lugar onde Alguém nos chama, e isso dá um gosto até então desconhecido. Antes eu tinha a impres- são de que nada de novo poderia acontecer no quotidiano. Agora acontece sempre tudo – ou melhor: Tudo –, as situações, inclusive as pesadas, começam a ser enfrentadas com ímpeto, ousadia, com o desejo renovado de ir em frente. É evidente que essa energia não

vem de mim! Como fico comovido e mara- vilhado ao ver tão claramente que Cristo me transforma! E quem seria, se não Ele? Outras vezes eu diria ceticamente Sim, agora é assim, mas depois tudo voltará ao que era antes; isso não me importa mais: Ele próprio pensará em reconstruir tudo, até que eu O reconheça de novo, comovendo-me mais uma vez. Somen-

te o meu não, com as mãos tapando os olhos, pode impedir o meu renascimento”. Esse amigo nos testemunha, de maneira positiva, que sem que o homem perceba, é como se no juízo sobre as coisas se infiltrasse um discurso já ouvido (a palavra justíssima, a respostinha, o preconceito que faz aparecer bem). Todo este ideologismo é mais comum do que pensamos! Ao invés, o cristianismo é um acontecimento, e por isso está presente; e o ponto de partida do cristão não é a ideolo- gia ou preconceito, mas um acontecimento. Só o reconhecimento deste fato impede que nos tornemos escravos de uma ideologia, que é o desenvolvimento lógico do preconceito. A úl- tima forma da ideologia é a negação dos fatos, que tornam esse acontecimento contemporâ- neo, agora, deixando-nos à mercê da interpre- tação: Não existem fatos, só interpretações (F. Nietzsche, Frammenti postumi 1885-1887, in Opere, Adelphi, Milão 1975, vol.VIII, fr. 7 (60),

p.299).

Dá calafrio só de pensar na encruzilhada em que nos encontramos: “A Sua presença tornou-se visível, tangível e experimentável pelo fato de mudar a vida das pessoas que es- tão na comunidade, na companhia. Por isso, a lucidez com que se percebe o testemunho de alguém, do outro – mesmo não sendo ele o chefe –, a agudeza com que se percebe o testemunho, ainda que furtivo, todo discreto, presente nas pessoas da comunidade, é o sinal mais grandioso da honestidade de que faláva- mos antes. Inversamente, não existe nenhum sinal maior da desonestidade do que, dentro da companhia, notar os defeitos. Similes cum similibus facillime congregantur: a pessoa cap- ta o que é semelhante a si. Se em você pre- domina o mal [mau, mau, mau], você viverá lamentando o mal; se em você predomina a busca da verdade, você descobrirá a verdade” (L. Giussani, Uomini senza patria 1982-1983, Bur, Milão 2008, p. 277). Essa é a tentativa extrema de evitar a conversão: negar a exis- tência dos fatos, dos acontecimentos (porque se o cego de nascença não fosse curado, aí os judeus não precisariam mudar de atitude; portanto, basta negá-lo, para se continuar tei- mosamente no próprio caminho).

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  • 12 NOVEMBRO 2010

página uM “ ... um dia se perguntou quem era ... ”
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b) Introduzo uma segunda redução: a redução do sinal a mera aparência. “Se o homem cede às ideologias dominantes, sur- gidas da mentalidade comum, verifica-se uma luta, uma divisão, uma separação entre sinal e aparência; daí se segue a redução do sinal a mera aparência. Quanto mais se tem consciência do que o sinal é, mais se enten- de o desastre de um sinal reduzido a mera aparência. O sinal é a experiência de um fa- tor presente na realidade que me remete a outro. O sinal é uma realidade experimen- tável, cujo sentido está em outra realidade; o sinal revela o significado conduzindo a uma outra realidade. Por isso, não seria razoável, humano, esgotar a experiência do sinal ao seu aspecto perceptivamente imediato, ou aparência. O aspecto perceptivamente ime- diato de qualquer coisa, a aparência, não mostra toda a experiência que temos das coisas, porque não fala do seu valor de si- nal” (L. Giussani, L´uomo e il suo destino. In cammino, op. cit., p. 112). Vejam este testemunho: “Oi, Julián, dese- jo contar-lhe um fato que aconteceu comigo durante o pré-Meeting (eu trabalho na pre- paração, como sempre, repartindo as respon- sabilidades com outros), fato que, sem aquilo que você nos mostrou nestes anos, pelo modo como mergulhamos no que acontece e no tra-

balho de Escola de Comunidade, teria deixa- do tudo escorrer pelos dedos, como água. O fato é o seguinte: uma noite, depois do traba- lho na feira, fui jantar com alguns amigos de Cremona e de Milão, e um deles me diz: ‘Está conosco um jovem que não é do Movimento e eu o convidei para vir também. Algum pro- blema?’. Absolutamente não, lhe digo. E assim nos encontramos num pequeno restaurante à beira da praia, para comer peixe. Esse jovem é um operário de 23 anos e, não sendo do Mo- vimento, não sabia o que seria o Meeting, nem o que esperar dele. De repente, ele intervém:

Ilha Sagar (Índia), peregrinos em busca de purificação no Gange.

‘Nestes dias na feira, vi logo os estandes em que vocês trabalham e quais os estandes nos quais trabalham os operários das firmas de preparação de eventos’. Eu fiquei impressio- nado com essas palavras dele, era a primeira vez que participava do pré-Meeting e estava na feira há apenas dois dias. No dia seguin- te, procurou por toda parte um padre para se confessar (o que não fazia há seis anos). Esse fato – a clareza do juízo que deu repentina- mente na noite anterior e o que aconteceu no dia seguinte – me provocou e me questio- nou profundamente. Eu me perguntei: Mas o que foi que ele viu? Exatamente o que viam os meus olhos e os olhos de todos os outros que giravam pela feira, nada mais e nada me- nos, e ninguém fez nenhum discurso nem »

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NOVEMBRO 2010

13

página uM “ ... um dia se perguntou quem era ” ... Lalibela (Etiópia): a celebração

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um

dia se perguntou quem era

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Lalibela (Etiópia): a celebração do Timkat, a Epifania dos etíopes ortodoxos.

»

sermão para ele. Mas, então, como é que a

mesma coisa provocou um empurrão no co-

ração dele, ao passo que para mim era tudo

normal e óbvio? Mas, então, para reconhecer

a grande Presença é mesmo verdade que o

problema não é o que vejo, não precisa de fato

sensacional, mas tudo depende de como eu

estou diante da realidade, tal como ela vem ao

meu encontro! Não pude deixar de lado esse

fato, e a partir daquele momento tudo mudou

para mim: as coisas eram as mesmas de todos

os dias, mas tudo era diferente e quando ter-

minou o Meeting voltei para o trabalho, e esta-

va ansioso para recomeçar a trabalhar, porque

entrar na realidade com esse olhar desejoso

de descobrir como eu seria surpreendido pelo

Mistério, quais fatos aconteceriam dentro da

normalidade do trabalho, é justamente aquilo

que mais desejo, porque nada, nada mesmo, é

contra mim. Obrigado por estar nos desafian-

do, acompanhando-nos paternalmente, mas

sem poupar-nos de nada”.

Dom Giussani explica isso muito bem: “A

grande tentação do homem é esgotar a ex-

periência do sinal, de uma coisa que é sinal,

interpretando-a apenas em seu aspecto per-

ceptivamente imediato. Não é razoável, mas

todos os homens são levados, pelo peso do

pecado original, a ser vítimas do aparente, do

que aparece, porque soa como a forma mais

fácil da razão. Há uma certa atitude de espíri-

to que faz mais ou menos isso com a realidade

do mundo e da existência (as circunstâncias,

a relação com as coisas, a família a ser consti-

tuída, os filhos a educar

...

):

acusa o golpe, mas

breca a capacidade humana de penetrar nele

à procura do significado, para o qual inega-

velmente o fato mesmo da nossa relação com

a realidade solicita a inteligência humana. Ou

seja, bloqueia-se a própria capacidade da in-

teligência humana de penetrar nele em busca

do significado, para o qual somos solicitados

pela nossa relação com o que nos impressio-

na. A inteligência humana não pode deixar

de deparar com alguma coisa sem perceber

que ela, de algum modo, é sinal de uma outra

realidade, insinua a existência de uma outra

realidade. Um eco desses conceitos podemos

encontrar numa afirmação de Hannah Aren-

dt: A ideologia não é a ingênua aceitação do

visível, mas a sua inteligente destituição. A ide-

ologia é a destruição do visível, a eliminação

do visível como sentido das coisas que aconte-

cem, o esvaziamento do que vemos, tocamos,

percebemos. Assim, não temos mais relação

com nada. Quando Sartre fala das suas mãos

página uM “ ... um dia se perguntou quem era ” ... Lalibela (Etiópia): a celebração
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  • 14 NOVEMBRO 2010

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um

“ ... um página uM dia se perguntou quem era ” ... – Minhas mãos, o

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dia se perguntou quem era

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Minhas mãos, o que são as minhas mãos? –,

define-as como a distância imensurável que

me divide do mundo dos objetos e me separa

deles para sempre, operando assim uma des-

tituição do visível, do aspecto contingente.

A destituição do contingente é, por exemplo

[vejam como Dom Giussani expõe plastica-

mente a coisa], afirmar que o que acontece

acontece porque acontece, evitando assim o

impacto e a exigência de olhar o presente, um

determinado presente, em sua relação com a

totalidade” (Ibidem, pp. 112-113).

Assim, não precisamos mais mudar, não

precisamos mais nos converter. Eu fico real-

mente atônito diante de certas interpretações

que esvaziam o que acontece entre nós ...

Dom Giussani termina esse ponto alertan-

do-nos para a luta que se dá atrás dos basti-

dores: “A sensibilidade para perceber todas

as coisas como sinal do Mistério é a tranqui-

la verdade do ser humano [já o vimos: até o

recém-chegado é capaz de fazê-lo]. A ela se

opõe a tirania de quem tem nas mãos o po-

der, motivado por uma ideologia que nega

esta consideração que o homem atribui a uma

coisa” (Ibidem, p. 114).

c) Por que acontece isso? Pela terceira re-

dução, isto é, porque reduzimos o coração a

sentimento: “Nós tomamos o sentimento, e

não o coração, como o motor último, como

a razão última do nosso agir. O que isto quer

dizer? Que a nossa responsabilidade se tor-

na vã justamente por ceder ao uso do senti-

mento como predominante sobre o coração,

reduzindo assim o conceito de coração ao de

sentimento. Ao invés, o coração representa e

age como o fator fundamental da persona-

lidade humana; o sentimento não, porque

tomado sozinho o sentimento age como re-

atividade, no fundo é animalesco. Ainda não

compreendi – diz Pavese – qual a tragicidade

da existência [

...

]

No entanto, é clara: é preci-

so vencer o abandono voluptuoso e deixar de

considerar os estados de espírito como escopos

em si mesmos. O estado de espírito tem ou-

tro objetivo, para ser digno: tem o objetivo

de uma condição colocada por Deus, pelo

Criador, através da qual nos purificamos. Ao

passo que o coração indica a unidade de sen-

timento e razão. Isso implica uma concepção

de razão não bloqueada, uma razão segun-

do toda a amplitude da sua possibilidade: a

razão não pode agir sem o que se chama de

afeição. É o coração – razão e afeti-

vidade – a condição da atuação sa-

dia da razão. A condição para que

a razão seja razão é que seja reves-

tida de afetividade e assim mova o

homem todo. Razão e sentimento,

razão e afeição: esse é o coração do

homem” (Ibidem, pp. 116-117).

3.

A

vitóriA

sobre

o

relAtivismo:

A memóriA

Esta observação de Dom Gius-

sani pode nos ajudar a identificar o

caminho da vitória sobre o relativis-

mo, e com isso pretendo terminar.

Quando nos surpreendemos

vendo o acontecimento prevale -

cer sobre a ideologia, o sinal so-

bre a aparência, o coração sobre o

sentimento? Poderíamos colocar

diante dos olhos uma imagem que

facilitasse essa compreensão? Eu,

como vocês, estou cercado por

“Quando nos surpreendemos

vendo o acontecimento prevalecer sobre a ideologia, o sinal sobre a aparência, o coração sobre o sentimento? Poderíamos colocar diante dos olhos uma imagem que facilitasse essa compreensão? Ajudou-me muito o critério que Dom Giussani nos

oferece

...

testemunhos, por fatos excepcio-

nais que me deixam maravilhado, porque

documentam a contemporaneidade de

Cristo. E eu me perguntava: Mas quando

foi que esses fatos me levaram a reconhecê-

Lo? Ajudou-me muito o critério que Dom

Giussani nos oferece: “Quando pensamos

n’Ele seriamente, com coração, no último

mês, nos últimos três meses, de outubro até

agora? Nunca. Não pensamos nunca n’Ele

como João e André pensavam enquanto o

ouviam falar. Se fizemos perguntas sobre

Ele foi por curiosidade, análise, exigência

de análise, de busca, de esclarecimento.

Mas que tenhamos pensado n’Ele como al-

guém realmente apaixonado pensa na pes-

soa pela qual se apaixonou (mesmo aqui

rarissimamente acontece, pois tudo é cal-

culado com base no retorno!), puramente,

de modo absolutamente, totalmente dis-

tanciado, como puro desejo de bem ...”

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NOVEMBRO 2010

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página uM “ ... um dia se perguntou quem era ” ... » (Giussani, É possível

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dia se perguntou quem era

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»

(Giussani, É possível viver assim?, 2ª ed.

São Paulo: Companhia Ilimitada, 2008, p.

272-274).

Aí se contrapõem dois modos de conhe-

cer. Pensar n’Ele seriamente, com o coração,

significa pensar como João e André pensa-

vam n’Ele. Olhavam-no enquanto falava,

totalmente tomados, magnetizados

“Pensar n’Ele seriamente, com o coração, significa pensar como João e André pensavam n’Ele. Olhavam-no enquanto falava, totalmente tomados, magnetizados pela Sua presença. Com essas palavras, o que Dom Giussani está descrevendo? A memória”

pela Sua presença, onde a razão,

que os ajuda a entrar nas profunde-

zas do mistério daquela pessoa, era

salva pela afeição. Como isto é dife-

rente da prevalência da mera curio-

sidade, análise, pesquisa para escla-

recimento, onde a razão é reduzida

a mero instrumento – o sinal redu-

zido a aparência –, porque separada

da afeição. Que diferença abissal!

Quem conhece melhor: o que pensa

como o apaixonado pensa na pessoa

amada ou quem está ali para fazer

uma análise? Como gostaríamos de

ser olhados? Quem captaria melhor

o valor do nosso eu? A verificação

de que saímos dessa redução de nós

mesmos – que somos razão e afei-

ção – e da realidade é quando sur-

preendemos em nós mesmos a experiência

sintética de João e André; porque aí, nesse

encontro, aconteceu a primeira vitória so-

bre o relativismo, e portanto isso nos ofere-

ce o critério para reconhecê-la sempre.

Com essas palavras, o que Dom Giussa-

ni está descrevendo? A memória: “Assim, o

cristianismo é um acontecimento e, por isso,

está presente, está presente agora, e a sua

característica é que está presente como me-

mória; onde a memória cristã não é idêntica

a lembrança, ou melhor, não é lembrança, e

sim a própria Presença novamente” (L. Gius-

sani, L´uomo e il suo destino. In cammino,

op. cit., p. 111). O cristianismo nasce como

acontecimento que se encarna no presente

como memória. E a memória é o conteúdo

da consciência do cristão. Entendemos bem

isso olhando João e André: era Cristo quem

dominava o olhar deles, e por isso a memória

é a vitória sobre o relativismo, porque fomos

criados para conhecer o Cristo. O que nos

falta é “a existencialidade da memória” (L.

Giussani, L´io rinasce in un incontro, op. cit.,

p. 47), não a temos nem mesmo no canto dos

olhos, nos diz Dom Giussani.

Quanto ainda temos que caminhar na

conversão para que isso se torne familiar!

Basta vê-lo em quão poucas vezes surpreen-

demos em nós a experiência de João e André

enquanto O olhavam falar, e percebo quan-

do, pela graça de Deus, fui salvo de mim

mesmo, pela redução em que havia caído.

Aconteceu comigo esta semana, em diver-

sas ocasiões em que eu estava todo apegado

a algo que eu estava vendo através da pes-

soa que me contava a história; por exemplo,

fiquei de boca aberta quando uma pessoa

me contava como, no momento culminante

de um namoro, se surpreendeu ao perceber

a imponência da presença de Cristo, que a

deixou inteiramente inquieta: essa pessoa é

a primeira a ser vencedora nessa situação.

E isso facilita em mim fazer novamente no

presente a experiência de João e André, tan-

to é verdade que me surpreendi, na manhã

seguinte, enquanto fazia o silêncio, a pensar

naquelas pessoas que me haviam arrancado

da minha redução para ficar todo magneti-

zado com a Sua presença.

Sem esse acontecimento, a ruptura entre

saber e crer não pode ser superada, e o rela-

tivismo vence, porque nada consegue magne-

tizar totalmente o meu eu. Isso revela, ainda,

quanta atenção precisamos dedicar ao real,

que exigência precisamos ter de Cristo: que se

torne carnalmente presente. Nós podemos re-

duzir João e André a uma lembrança do pas-

sado, e não fazer deles o critério para julgar a

nossa experiência agora. Com o uso do episó-

dio evangélico que vimos, Dom Giussani tira

João e André da possível redução sentimental,

fazendo deles o critério para reconhecer a vi-

tória sobre o relativismo.

Para alguns começa a ser assim: “Caro Ju-

lián, tenha paciência, mas de vez em quando

não resisto à vontade de lhe escrever, já que

não posso conversar pessoalmente com você.

Quando encontrei um amigo recém-chegado

da última Assembleia Internacional dos Res-

ponsáveis, creio que compreendi o que a mu-

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  • 16 NOVEMBRO 2010

página uM “ ... um dia se perguntou quem era ... ”
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-lher de André e seu irmão Simão viram

quando ele voltou do encontro [com Cristo].

Não lembro de nenhuma palavra do que o

amigo me disse (inclusive porque ele estava

muito agitado), mas observei seus olhos, seu

coração, e esperei ansiosamente chegar pelo

correio a revista, com seu precioso suple-

mento. Só esta noite, finalmente, a recebi. Na

página 8 fiquei paralisado. Você diz [na reali-

dade, é Dom Giussani quem diz]: Quando foi

que pensamos n’Ele seriamente, com o coração,

no último mês, nos últimos três meses, de ou-

tubro até agora? Nunca”. Perdoe-me, mas do

fundo do coração gostaria de dizer: Sempre.

Não conseguiria nem respirar se todo dia não

O encontrasse desse modo. É assim, eu não

posso mais viver sem que todos os dias suce-

da isso. Eu lhe agradeço de coração porque o

trabalho feito este ano com você, seguindo-o

tão de perto que até sinto fisicamente a sua

respiração, me tornou capaz de não desistir

jamais, de mergulhar em cada circunstância

da vida, feia ou bonita, positiva ou negativa,

e ficar comovido só diante do maravilha-

mento de tal evidência, totalmente doada,

totalmente gratuita. Quero dizer que Ele está

presente sempre, tanto na luminosidade do

sol quanto na chuva insidiosa ou na escuri-

dão pesada da noite; e é sempre relação viva,

e quando não há relação, dos dois, nunca é

Ele que está faltando”.

Lago de Grado (Itália), vale de pesca.

Qualquer que seja a forma através da qual

acontece agora, a vitória sobre o relativismo

terá sempre como critério aquele apego único

a Cristo presente, que João e André documen-

tam para sempre e que não poderá jamais ser

reduzido a uma nossa análise e menos ainda a

um comentário ou a uma mera emoção. Sinais

dessas reduções são o mal-estar e a lamenta-

ção. A alternativa ao mal-estar e à lamentação

é a vida como memória: “Viver é a memória

de Mim”! E por isso Dom Giussani insiste:

“Para esta luta diária contra a lógica do poder,

para esta vitória quotidiana sobre o aparente e

o efêmero, para afirmar esta presença consti-

tutiva das coisas em seu destino que é Cristo,

que movimento pessoal é necessário! É a re-

vanche da pessoa sobre a alienação do poder.

Que movimento pessoal!” (L. Giussani, L´io

rinasce in un incontro, op. cit., p. 194). Este

movimento pessoal é a conversão.

Amigos, temos que decidir o que fazer

quando crescermos: continuar a nos conten-

tar com “segundas opções”, como as descreveu

o Papa aos jovens britânicos (dinheiro, carrei-

ra, etc.), continuando a ser levados pela onda,

sem jamais tomar posição séria em relação a

Cristo; ou entregar-nos a Ele. O problema

»

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NOVEMBRO 2010

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para muitos de nós é que já somos adultos e

adendo à coisa realmente importante, que se-

o tempo voa. Por isso, no início deste ano faço

ria a palavra. No entanto, a Igreja desafia cons-

votos de que vocês decidam, peçam, mendi-

tantemente essa redução que nós fazemos do

guem para pertencer a Ele, cedam à atração

cristianismo, convidando-nos a participar de

d’Ele. Só assim poderemos ver acontecer em

um acontecimento, do acontecimento da Sua

nós a derrota do relativismo. Basta não nos

presença agora, que é este gesto eucarístico,

contentarmos com menos do que Ele, como

onde nos é proposta de novo a Palavra, com

nos testemunha o décimo leproso. Graças a

toda a Sua força, no seio deste acontecimen-

Deus há entre nós cada vez mais

“Graças a Deus

to da Sua presença, que veremos

pessoas que não se contentam

ocorrer na transformação do pão

com a cura, nem com a bela com-

há entre nós

e do vinho no corpo e no sangue

panhia dos outros nove: assim

cada vez mais

de Cristo.

como o décimo, é Ele que que-

pessoas que não

Isso não é ideologia; é um even-

rem! A companhia verdadeira é

to. É dentro desse evento que po-

feita por “décimos leprosos”, por

se contentam com

demos entender toda a dimensão,

pessoas como o décimo leproso.

a cura, nem com

toda a importância que damos à

Esta é a nossa responsabilidade,

a bela companhia

conversão. Ele, presente em nosso

depende de nós. Neste sentido, o

dos outros nove:

meio, contemporâneo a nós, nos

trabalho pessoal e a responsabili-

dade pelos outros coincidem. Por

assim como o

dirige esse chamado à conversão

por meio das leituras (Am 6,1.4-7 e

isso, a frase de Dom Giussani – A

décimo, quer

1Tm 6,11-16) que acabamos de ou-

responsabilidade é a conversão do

justamente Ele!”

vir, e que nos dizem qual é o alcance

eu ao acontecimento presente – é

do chamado à conversão.

um resumo do que nos cabe: não

Podemos estar aqui – como diz

poderemos dar uma contribuição para a vitó-

o profeta Amós – despreocupados e seguros,

ria sobre o relativismo se nós, por primeiro,

sem entender verdadeiramente que o proble-

não cumprirmos a trajetória. Se caminharmos

ma dos problemas é a relação da vida com o

juntos, poderemos nos tornar uma presença,

Mistério, como o homem da parábola, que vi-

uma diversidade na sociedade, mostrando a

via todo distraído, atento a outras coisas. Mas

verdade do que o Papa diz e testemunha. Cada

– como nos diz São Paulo – há Alguém que

um de nós precisa estar bem consciente da

nos chama: “Procure alcançar a vida eterna”,

responsabilidade diante de Deus, do trabalho

porque essa é a questão, amigos, como o Mis-

que somos chamados a realizar, para podê-lo

tério evoca de novo e tantas vezes.

 

testemunhar em qualquer ambiente.

Mas conosco acontece como àquele ho-

 

Como testemunha um presidiário: “Olhan-

mem rico do Evangelho, cuja passagem aca-

 

do para mim mesmo, hoje, tenho a consciência

bamos de ouvir (Lc 16,19-31), o qual, tão logo

de que, me libertando dos estereótipos e das ca-

chega ao outro lado da vida, toma consciência

deias sociais e culturais posso entrar numa rea-

da verdade, da dimensão eterna da vida, se

lidade nova. Esta beleza é única, irrepetível”.

apressa em ajudar às pessoas que ama, à sua

 

família; e o que lhe ocorre pedir a Abraão?

 

HOMILIA NA SANTA MISSA

“Peço-lhe que mande Lázaro à casa do meu

JULIÁN CARRÓN

 

pai, porque tenho cinco irmãos. Advirta-o se-

 

veramente para que eles também não venham

 

O sinal mais simples de que o cristianismo

parar neste lugar de tormento”. “Mas Abraão

 

é um acontecimento, e não uma ideologia, é

respondeu: eles têm Moisés e os Profetas. E

justamente o gesto que estamos celebrando.

ele: Se algum dos mortos for até eles, se con-

E até que ponto a ideologia cresce em nós ou

verterão. E Abraão respondeu: Se não escutam

incide sobre nós se vê pelo fato de que muitas

Moisés e os Profetas, não serão convencidos

vezes pensamos que esse gesto é apenas um

nem que alguém ressuscite dos mortos”.

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