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Revisitando o Estado Novo, através das Imagens da

Grande Exposição Nacional de Pernambuco 1939-1940

RITA DE CÁSSIA GUARANÁ BELLO


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA

REVISITANDO O ESTADO NOVO, ATRAVÉS DAS IMAGENS DA GRANDE


EXPOSIÇÃO NACIONAL DE PERNAMBUCO
1939-1940

RITA DE CÁSSIA GUARANÁ BELLO

ORIENTADOR: PROF. DR. RENATO ATHIAS

Dissertação de Mestrado apresentada


ao Programa de Pós-Graduação em
Antropologia, como exigência do
exame de qualificação para obtenção do
Grau de Mestre em Antropologia.

Recife
2006
REVISITANDO O ESTADO NOVO, ATRAVÉS DAS IMAGENS DA GRANDE
EXPOSIÇÃO NACIONAL DE PERNAMBUCO
1939-1940

RITA DE CÁSSIA GUARANÁ BELLO

Dissertação defendida e aprovada em de abril de 2006

Banca Examinadora:

Prof. Dr. RENATO ATHIAS


Orientador
Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE

Prof. Dra. MARIA DO CARMO BRANDÃO


Examinador Interno
Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE

Prof. Dr. MANOEL CORREIA DE ANDRADE


Coordenador da Cátedra Gilberto Freyre
Examinador Externo
Dedico este trabalho a minha irmãzinha Sandra
Carolina, pela paciência e dedicação a esta sua
irmã e a sua família, pela pessoa que ela é, um
exemplo de obstinação, que não esmorece diante
das dificuldades e agruras da vida.
RESUMO

O presente trabalho busca aprofundar a percepção antropológica sobre as


especificidades culturais no período estadonovista em Pernambuco, 1937-1945, através
da análise da Coleção Fotográfica sobre a Exposição Nacional de Pernambuco, evento
que concentrou e divulgou os principais aspectos ideológicos do período estadonovista
em Pernambuco e no Brasil. A pesquisa investiga o contexto político, social e cultural do
qual esta produção visual tornou-se efetivamente um documento iconográfico e
etnográfico suscetível de análise. Nesse sentido, um dos objetivos da presente
dissertação é integrar o conteúdo imagético a respeito da sociedade pernambucana e
brasileira a uma abordagem analítica da antropologia visual. A metodologia utiliza a
coleção fotográfica, como fonte para análise das questões políticas, econômicas e
culturais, para identificar as especificidades culturais desse período da História do
Brasil. Revisitando as décadas de 30 e 40, período de vigência desse regime político,
através das imagens da Exposição Nacional. As imagens iconográficas, que constituem o
objeto visual central desta dissertação, apontam e estabelecem os aspectos políticos,
econômicos e culturais da sociedade recifense, e de sessenta e seis municípios de
Pernambuco, dezesseis estados federais, nas décadas estudadas, exibidas na coleção
fotográfica da Exposição Nacional. Foi utilizada a metodologia da antropologia visual,
com o objetivo de discorrer a respeito dos meandros culturais que configuram o campo
visual como elemento reflexivo de traços sociais e culturais.
ABSTRACT

In this dissertation we aim at giving a closer look at the anthropologic perception and its
cultural specifications during the “Estadonovista” period in Pernambuco from 1937 to
1945, based on the photographic collection about the National Exposition of
Pernambuco. In this event, the main ideological aspects of the “Estadonovista” period in
Pernambuco and in Brasil were launched. This project aims at investigating the
political, social and cultural context, where the visual production became an effective
iconographic and ethnographic document. One of the main objectives of this dissertation
is to merge the imagery context of the Pernambucana and Brazilian society with an
analytical approach of the visual anthropology. The photographic collection is used here
as a means to analyses political, economical and social issues, identifying the cultural
specifications of this Brazilian Historical period and also going back to the 30¨s and 40¨s
through the National Exposition images of this political regime. The iconographic
images and the visual objects used in this dissertation establishes and aims at the
political, economical and social aspects of the Recifence society, sixty-six municipalities
of Pernambuco and sixteen Federal states from the 30¨s and the 40¨s shown at the
National Exposition photographic collection. We share the anthropology Visual
methodologically aiming at reflecting about the cultural cores which set the visual field
as a reflective element of social and cultural traces.
AGRADECIMENTOS

Agradeço inicialmente a Deus, pela sua infinita bondade para comigo, pela sua
proteção, e pelas condições necessárias para que eu pudesse iniciar e terminar este trabalho.

Um agradecimento especial a minha irmãzinha, Sandra Carolina, pela infinita


paciência para comigo, pelo seu apoio, por não ter permitido que eu desistisse de lutar, diante
dos obstáculos, e pelos comentários tão pertinentes em relação à dissertação.

Ao Dr. Renato Athias, meu orientador, que acreditou desde do início nesta
pesquisa, ainda enquanto projeto, e pela paciência e sabedoria com que me conduziu pelos
caminhos do saber antropológico.

Aos meus pais e familiares, que contribuíram para a conclusão desde estudo.
Aos colegas de Curso, principalmente Letícia Querette e Graça Vieira, pelo incentivo e
amizade.

Ao Professor Dr. Manoel Correia de Andrade, pela sua sensibilidade e


delicadeza em responder minhas indagações.

Às funcionárias do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Regina, Ana


e Miriam, pelo apoio e dedicação aos alunos do Curso de Mestrado.

Ao Corpo Docente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia,


principalmente Cida, Peter, Roberta, Rosilene, Salete, pelo estímulo e atenção aos alunos.

Um agradecimento especial aos informantes: D. Maria do Carmo, Sr.


Francisco, Professor Manuel Correia de Andrade, D. Maria Alice, D. Maria das Dores, D.
Irinete, Sr. Aroldo Praça, D. Antonia Rosa, por toda a boa vontade em responder minhas
perguntas, depoimentos tão necessários e importantes para a conclusão deste trabalho.

Ao CNPQ, pelo subsídio à pesquisa, sem o qual este trabalho não poderia ter
sido concluído.
SUMÁRIO

LISTA DE FOTOS ................................................................................................................ 9

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 11

2. ENQUADRANDO A EXPOSIÇÃO NACIONAL ........................................................... 24


2.1 Os Políticos e a Exposição Nacional........................................................................... 40

2.2 Monumentos e Modernidade ...................................................................................... 45

2.3 Alteridade na Exposição Nacional .............................................................................. 57

2.4 Doutrina e Educação .................................................................................................. 65

3. ANTROPOLOGIA: CONTEXTO E FOTOGRAFIA....................................................... 69


3.1 Imagem e Memória Social.......................................................................................... 75

4. A GRANDE FEIRA DA DIVERSIDADE ....................................................................... 77


4.1 Os Stands dos Estados................................................................................................ 81

5. O PROJETO PEDAGÓGICO CULTURAL DO ESTADO NOVO .................................. 93


5.1 A Questão Cultural..................................................................................................... 94

5.2 A propaganda: O Fascínio das Imagens Fotográficas ................................................ 101

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 112

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................ 115

8. APENDICE ................................................................................................................... 121


9

LISTA DE FOTOS

01. Portão de acesso da Exposição....................................................................................... 11


02. Jornal Folha da Manhã mostrando os pavilhões em construção ...................................... 18
03. Jornal Folha da Manhã mostrando os operários trabalhando na construção .................... 18
04. Stand do Departamento de Viação e Obras Públicas mostrando uma maquete e fotos .... 22
05. Stand da cidade de Limoeiro mostrando diversos produtos locais .................................. 22
06. Stand da reforma do Porto do Recife mostrando a maquete, fotos e gráficos .................. 23
07. Stand da cidade de Caruaru mostrando o artesanato e diversos mostruários da economia
local .............................................................................................................................. 23
08. O Interventor do Estado de Pernambuco discursando durante a Exposição..................... 24
09. Stand do município de Vitória mostrando os produtos da economia local ...................... 29
10. Stand da Usina Santa Teresinha mostrando a Usina ....................................................... 31
11. Pavilhão dos Municípios do Estado de Pernambuco mostrando seu portal de entrada..... 34
12. Stand da cidade de Catende mostrando as máquinas de sua usina................................... 34
13. Stand da cidade de Olinda mostrando a diversidade de sua cultura................................. 35
14. Visitantes da Exposição Nacional .................................................................................. 37
15. Stand das Maquetes dos Prédios .................................................................................... 38
16. Agamenon Magalhães discursa no palanque .................................................................. 41
17. Agamenon Magalhães em um palanque, ao lado de Apolônio Sales............................... 42
18. Waldemar Falcão, Ministro do Trabalho discursando..................................................... 42
19. Apolônio Sales, Secretário da Agricultura de Pernambuco discursando ......................... 43
20. Apolônio Sales .............................................................................................................. 43
21. A. Campo de Oliveira, Comissário Geral da Exposição Nacional................................... 43
22. Hall de Abertura da Exposição Nacional........................................................................ 44
23. Pavilhão Anticomunista, em frente a um dos lagos do Parque 13 de Maio ..................... 47
24. Pavilhão do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio............................................. 49
25. Stand do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários ..................................... 50
26. Stand da reforma do Bairro do Recife ............................................................................ 52
27. Pavilhão da Prefeitura do Recife .................................................................................... 54
28. Stand da Cruzada Social Contra o Mocambo mostrando um painel e algumas pessoas... 55
29. Stand da Fábrica de Tecido Paulista mostrando seus produtos........................................ 57
30. Stand da Fábrica de Seda e Algodão de Pernambuco ..................................................... 58
31. Stand da Fábrica Pilar mostrando seus biscoitos e massas .............................................. 59
10

32. Stand da Saboaria do Recife, exibindo várias barras de sabão ........................................ 59


33. Stand da fábrica Cibalena, com medicamentos e panfletos............................................. 60
34. Stand da Fábrica Frigidaire expondo geladeiras ............................................................. 61
35. Stand das Indústrias Matarazzo, revelando produtos em alumínio .................................. 62
36. Stand da Fábrica Beija Flor, mostrando diversos produtos alimentícios.......................... 63
37. Stand das Organizações do Norte com mostruários diversos .......................................... 63
38. Pavilhão das Tintas Ypiranga......................................................................................... 64
39. Pavilhão das Indústrias Pernambucanas ......................................................................... 65
40. Stand da Máquina do Caroá........................................................................................... 66
41. Stand do Refeitório mostrando mesas e cadeiras ............................................................ 67
42. Stand do Estado do Ceará com mostruário da cultura local ............................................ 77
43. Stand do Estado do Amazonas ....................................................................................... 82
44. Stand do Estado do Rio de Janeiro mostrando diversos produtos.................................... 83
45. Stand do Estado do Rio Grande do Sul exibindo três empresas locais ........................... 84
46. Stand do Pará, decorado no estilo marajoara .................................................................. 85
47. Stand do Estado do Piauí ............................................................................................... 86
48. Stand do Estado da Paraíba mostrando suas tradições .................................................... 87
49. Stand do Estado de Alagoas com diversos políticos ....................................................... 88
50. Stand do Estado do Rio Grande do Norte....................................................................... 89
51. Stand do Estado de Sergipe, com alguns políticos e um contorno do mapa do Brasil...... 90
52. Pavilhão Oficial de Pernambuco .................................................................................... 91
53. Stand com políticos e suas esposas ................................................................................ 93
54. Parque Shagai, mostrando um de seus brinquedos.......................................................... 93
55. Stand da Secretaria de Saneamento do Estado................................................................ 93
56. Stand do Município de Nazaré da Mata mostrando aspectos de sua economia................ 93
57. Pavilhão do Governo Nacional ...................................................................................... 98
58. Stand do Ministério da Agricultura ................................................................................ 99
59. Monumento a Getúlio Vargas e a Agamenon Magalhães ............................................. 100
60. Discurso do Presidente do Departamento Nacional do Café ......................................... 103
61. Folha da Manhã, inauguração do ambiente açucareiro ................................................. 105
62. Folha da Manhã, inauguração da Exposição................................................................. 106
63. Folha da Manhã, propaganda da Exposição Nacional................................................... 109
11

1. INTRODUÇÃO

FOTO - 01

A presente dissertação, intitulada: “Revisitando o Estado Novo, através das


Imagens da Grande Exposição Nacional de Pernambuco, 1939-1940”, aborda as
especificidades culturais representadas no acervo imagético referente à Exposição Nacional
de Pernambuco, objetivando recuperar a memória social deste evento, através das imagens
12

fotográficas. Visando identificar as representações socioculturais do Estado Novo. Analisando


as fotografias sobre esta Mostra Industrial como fonte de interpretação etnográfica, é possível
identificar representações sobre economia, indústria e cultura durante esse regime político.
Examinando como a sociedade recifense participou desse evento. A feira industrial foi
realizada no Recife. Foi desenvolvida uma análise iconográfica, procurando apreender o
significado do conteúdo das fotografias, descrevendo-as, realizando uma incursão nas cenas
representadas, de modo a relacioná-las ao momento histórico retratado nesta coleção
fotográfica, composta por 99 imagens. Observa-se a diversidade cultural existente em 66
municípios de Pernambuco, 16 estados federais, 169 indústrias e fábricas. A concretização
desse trabalho ganhou sustentação na medida em que foi possível relacionar os estudos sobre
acervo fotográfico e a Exposição ao período estadonovista em Pernambuco, quando o Estado
se encontrava sob a Intervenção de Agamenon Magalhães (1937-1945). O Interventor exercia
absoluto controle sobre a produção e organização dos eventos, bem como sobre os meios
oficiais de reprodução fotográfica da época.

Esse acervo é composto por 18 fotografias de pavilhões, 77 de stands diversos,


dos quais: 11 de estados federais, 10 de municípios do Estado, 18 de fábricas, empresas, lojas,
6 de usinas de açúcar, 5 de Secretarias Municipais, uma do Ministério da Agricultura, 10 de
políticos e personalidades discursando, uma sobre o Parque de Diversões Shangai, 1 do
refeitório dos funcionários da Exposição, 2 sobre os portões de entrada da Exposição, uma da
Casa de Detenção do Recife, 3 de maquetes, 3 de cooperativas agrícolas, 3 de Institutos de
Aposentadoria e Pensão dos Industriários e dos Bancários. Essa coleção permite vislumbrar a
industrialização, a urbanização, o cotidiano dessa população, através de suas práticas
culturais, composta por um universo de representações sociais, econômicas e culturais,
contido em um registro imagético. O senhor Batista, autor da coleção, eternizou em suas
imagens as especificidades culturais de uma determinada época da história deste Estado, um
mosaico das diferentes populações das regiões brasileiras, informações que vão além de
símbolos materiais estabelecidos pela representação imagética. Seu repertório visual refletiu
as nuances do contexto social e, intrinsecamente, as ligações culturais. As fotografias,
sobretudo as dos stands dos estados e dos municípios de Pernambuco, revelam as
particularidades culturais que caracterizam cada sociedade. enfatizando os aspectos
econômicos, políticos e sociais e demarcando o papel que cada um desempenhava na
sociedade brasileira do período de 1930-1940.
13

No decorrer do trabalho, discutiremos o papel dos eventos, mais


especificamente, da Exposição Nacional, na instituição do Estado Novo. Entendemos que, na
instauração dos governos de Vargas e de Agamenon, os grandes eventos desempenharam uma
função inadiável na formação de um ideário do Estado Novo, já que havia a necessidade de
unificar o país, em tempo hábil, e apenas as escolas não teriam condições e muito menos
velocidade suficientes para tornar viável a proposta política do Estado Novo.

A fotografia, inventada no século XIX, ofereceu uma nova dimensão às


possibilidades de registro de imagens, até então do domínio do pintor paisagista, retratista ou
gravurista. Assim, viajantes, exploradores, missionários, comerciantes e pesquisadores
introduziram novos equipamentos de registro no conjunto de sua parafernália de viagem,
produzindo inúmeras imagens e constituindo algumas das mais importantes coleções
fotográficas hoje conhecidas. Anunciada por Daguerre, em 1839, na França, a fotografia
revolucionou a arte do desenho. “A natureza aparece retratando-se a si mesma, copiando as
suas obras, assim como as da arte. Não em painéis fugidios, como os rios e os lagos, mas em
matéria que retém o simulacro do objeto visível e o fica repetindo, com a mais cabal
semelhança, caindo depois do ausente” (PEIXOTO; MONTE-MOR, 1999, p.5).

O século XIX já foi conhecido como a era dos museus, quando diversas
coleções foram constituídas, a partir do contato com as terras coloniais e organizadas através
da coleta de objetos, materiais e documentos, desenhos, fotografias e filmes. Guardar e
colecionar são práticas culturais presentes na sociedade humana, manifestações instantâneas
diante da reprodução de uma paisagem, de um lugar, de um ritual ou prática de trabalho, da
imagem de si ou da imagem do outro. A preservação dessa imagem-memória existe desde as
primeiras gravuras e pinturas, fotografias e filmes. Sua fixação no tempo e no espaço permitia
não somente relembrar e reviver, como também transmitir conhecimento às gerações
posteriores, introduzindo, principalmente, uma dimensão comparativa entre sociedades e
culturas. A prática de colecionar documentos foi uma atividade cotidiana da Interventoria de
Agamenon, quase todos os eventos públicos foram fotografados ou filmados.

A figura do colecionador surgiu na França e na Itália, no século XVI,


interessado em conservar elementos da Antigüidade e da natureza. Surgiram os gabinetes de
curiosidades ou enciclopédias, que acumulavam objetos da história natural e humana. Ao
longo do tempo, esses gabinetes desapareceram e surgiram as coleções organizadas por meio
14

de princípios seletivos e classificatórios que articularam o conhecimento e a produção das


artes, das letras e das ciências.

Os museus modificaram o caráter dessas coleções particulares, multiplicando e


diversificando seus acervos, adotando outros critérios de classificação e seleção que
possibilitaram a sua divulgação no mundo inteiro. Pautados por esta perspectiva, surgiram as
coleções de fotografias etnográficas e filmes de registro, que permitiam “ver” outros povos,
outras culturas. Mostrar “o outro” através de sua imagem “real” foi o caminho encontrado por
vários museus para criar centros e laboratórios que integrassem fotógrafos em suas equipes, e
também financiar expedições científicas de pesquisadores (PEIXOTO; MONTE-MOR, 1999).

Desempenharam um papel importantíssimo na exibição de acervos e coleções,


no século XIX, as Exposições Universais e suas diversas versões. A partir de 1862, a
fotografia passou a participar como um dos produtos exibidos pelo Brasil nestes eventos.
George Leuzinger, na Exposição de 1862, em Paris, surpreendeu os europeus exibindo suas
belas fotografias panorâmicas tiradas no Brasil. A Exposição Antropológica de 1882, no Rio
de Janeiro, marcou época na vida da Corte, com uma galeria de retratos que exibia imagens de
índios Botocudos, trazidos de Minas Gerais e do Espírito Santo. Telas a óleo, pintadas de
acordo com os cortes da antropologia física, retrataram as populações indígenas da época.
Desde esta época, até os dias atuais, ocorreram inúmeras mostras industriais, com diversas
temáticas. Cito esta, em particular, para exemplificar como as exposições são eventos capazes
de mostrar, de comunicar as diversas culturas humanas. O Brasil, no período do Estado Novo,
expõe sua cultura em várias Exposições Universais. As de maior destaque foram: Golden
Gate, Exposição Internacional de São Francisco, de 1939, com o Pavilhão Brasileiro
enfatizando o Departamento Nacional do Café; a Feira Mundial de Nova York, de 1939; a
Exposição Histórica do Mundo Português, em 1941, conforme Williams (2001).

A partir da coleção fotográfica que versa sobre a Exposição Nacional, verifica-se


como a fotografia revolucionou, desde sua criação, a comunicação, a medicina, as investigações
policiais, as artes, e como enriqueceu a interpretação e a análise de momentos e situações. Neste
trabalho, ressalto a diversidade de objetos culturais contidos nessas imagens. A fotografia fala
de coisas que a linguagem escrita não conseguiria expressar. Destaco como as imagens
fotográficas permitem ao antropólogo pensar, analisar, relatar, relacionar, entre outras questões,
o contexto histórico cultural mais amplo que envolve aquele que opera a câmara,
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principalmente quando esse acervo se refere a um acontecimento como uma exposição


industrial, que expõe inúmeras especificidades culturais, modos de vida, tradições e costumes.

Neste trabalho, parto do princípio de que a fotografia é um texto, tal como


Novaes (1998) assinala, ao afirmar que a fotografia pode ser utilizada como forma de
expressão, como texto, e não apenas como documento ou registro, num trabalho de cunho
antropológico. Ela é registro, mas é, acima de tudo, interpretação, uso deliberado do eu na
escolha do que registrar: o eu elege o que ficará para sempre impresso no papel, como dado
da realidade, como testemunho da verdade. “A fotografia tira sua especificidade justamente
de sua ambigüidade entre arte e documento, entre mito e registro, entre sugestão e função”
(PIZA, 1999, p.88). O registro fotográfico possibilita diversas interpretações, devido
principalmente ao tema dessas imagens versar sobre uma exposição industrial que reuniu,
numa capital federal, em época de poucos recursos tecnológicos ligados à comunicação,
diversas representações sociais e culturais de quase todas as regiões do Brasil e da maioria dos
municípios de Pernambuco. As imagens informam os costumes e hábitos dos integrantes
dessa comunidade.

Este trabalho relacionou o contexto histórico e os fatos ocorridos no Estado


Novo com o conteúdo das imagens, possibilitando verificar que a Exposição realmente
expressa características da ideologia estadonovista, como o nacionalismo exacerbado; a
ênfase às obras públicas, a perseguição aos direitos individuais dos cidadãos, o racismo,
práticas discriminatórias contra negros, mulatos, judeus, umbandistas, anarquistas e
comunistas, realizadas pela Interventoria de Agamenon Magalhães, a urbanização, a
construção de grandes edifícios, a valorização das indústrias locais, o incentivo à agricultura.
A exposição iconográfica sobre produtos industriais de quase todos os estados brasileiros,
representados por cerca de 150 empresas, incluindo o mostruário de seus produtos, objetos,
maquetes, retratos, gráficos, painéis, e outros, constitui uma oportunidade instigante de
analisar as características culturais da população da época, conhecer seu modo de vida, os
detalhes do cotidiano dessas sociedades, seu comportamento, crenças, alimentação, vestuário,
costumes, criações artísticas, dentre inúmeros outros aspectos de sua vida. Esses registros são
únicos, revelam as especificidades socioculturais retratadas nesse evento, reunindo cerca de
249 expositores, com um público estimado em 600 mil pessoas. Na elaboração deste trabalho,
além da análise da coleção fotográfica, foram utilizados periódicos como o jornal da
Interventoria de Pernambuco: Folha da Manhã, o Álbum intitulado “Catálogo Oficial da
Grande Exposição Nacional de Pernambuco”, relatórios do Governo, além de pesquisas à
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literatura relativa ao período de vigência do Estado Novo no Brasil, e sobre antropologia


visual, que ofereceram o suporte metodológico adequado.

Devido à restrita bibliografia existente sobre a Exposição Nacional de


Pernambuco, a maior parte encontrada nos periódicos da época e sobretudo no Catálogo Oficial,
transcrevemos uma parte considerável do Catálogo, documento imprescindível para a realização
deste trabalho. Esse Álbum tem 54 páginas, contendo 64 fotografias, adicionadas de propaganda
e informações sobre os organizadores do evento, os stands, os pavilhões, as indústrias, as lojas,
usinas, laboratórios, os Interventores dos estados, as fábricas, diretores do Departamento
Nacional do Café, firmas, 11 estados federais que participaram da Feira, as Casas Bancárias,
armazéns. Uma relação de todos os expositores, incluindo o endereço, telefone e o pavilhão
onde estavam localizados, num total de 233. Além de gráficos, mostrando os produtos
exportados pelo Estado. Uma descrição da cidade do Recife, discriminando suas belezas e
características. Uma lista dos prêmios conferidos aos expositores que se destacaram na Mostra
Industrial, em diversas categorias e modalidades, por setores industriais, trabalhos escolares,
produtos diversos. Os estados vencedores foram: Pará, Paraíba, Rio Grande do Norte,
Amazonas, Ceará, Alagoas, Piauí, Bahia, Maranhão, Sergipe, Rio de Janeiro, Rio Grande do
Sul. A premiação incluía medalhas de ouro, prata e bronze.

Na análise do que foi a Grande Exposição Nacional de


Pernambuco é de direito salientar a sua perfeita organização técnica, desde os
primórdios até a fase final, em que o comissário Geral Senhor A Campos de
Oliveira e o comissário adjunto Sr. J. L Frois Arantes revelaram superiores
conhecimentos e qualidades insuperáveis comprovadas no êxito do grande
evento.Tivemos o Pavilhão Nacional, em que se pode facilmente admirar o que vem
sendo esta obra do Governo da República e de seus titulares, numa seqüência de
serviços inestimáveis a (sic) causa do bem coletivo. A homogeneidade dos
sentimentos brasileiros elevando-nos num conceito das outras nações civilizadas.
(ÁLBUM CATÁLOGO).

Foi realizado um filme sobre a Exposição Nacional, documentando os stands,


pavilhões, o parque e demais atrações da feira industrial. Entretanto, não foi possível encontrar
este filme, cuja referência foi obtida em pesquisas bibliográficas (GOMINHO, 1998).

Analisando os aspectos visuais das imagens e relacionando com os contextos


históricos da época, com base nas obras referentes ao tema proposto, desenvolveu-se uma
pesquisa bibliográfica documental referente à cultura recifense da época da exposição,
investigando aspectos sociais e culturais das décadas de 30 e 40, com a análise iconográfica
das imagens. Com relação às práticas metodológicas desenvolvidas durante a pesquisa de
campo, a base deste trabalho, representada pela coleção fotográfica sobre a Exposição,
17

encontra-se no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano. Para as fotografias sem


nenhuma informação escrita adicional, foram pesquisadas informações sobre o evento no
próprio Arquivo Público, onde encontramos o Álbum Catálogo, bem como nos periódicos da
época, localizados também no Arquivo. Foram também realizadas visitas à Biblioteca Pública
do Estado, à Fundação Joaquim Nabuco e ao Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco,
onde encontramos pouco material sobre o assunto. Para reconstituir a história da Exposição,
foram cruzados os dados obtidos na bibliografia pesquisada com o conjunto de subsídios
visuais contidos na coleção fotográfica. Esta coleção foi encomendada pela Interventoria de
Agamenon Magalhães, produzida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (Deip),
órgão do governo responsável pelo controle à imprensa e à propaganda no Estado. O
fotógrafo incumbido de registrar o evento foi o Sr. Ernesto Batista, profissional contratado
pelo Deip. Percebe-se, no conjunto do acervo fotográfico, o extremo cuidado em documentar
os pavilhões, os stands, os acontecimentos que eternizaram essa Mostra Industrial. O senhor
Batista organizou os senhores e senhoras, que seriam fotografados com requinte de detalhes,
atenção e preparo, cada um vai sendo arrumado para sair na foto, o que era comum nas fotos
de grupos, de conjunto, não naquelas de multidão.

A época do Estado Novo foi marcada por grandes Exposições Industriais,


organizadas pelo Governo de Getúlio Vargas; dentre as exposições nacionais ocorridas
durante o período, podem ser citadas: a Exposição do Governo Nacional, realizada em 1938,
no Rio de Janeiro; a Exposição do Livro Brasileiro, em 1940; a Exposição do Estado Novo,
em 1941. As exposições incluíram indústrias, empresas, novidades tecnológicas, atrações de
lazer, representações culturais, como informa Garcia (1982). Com relação à Exposição de
Pernambuco, se destacou devido ao grande número de expositores participantes, à técnica de
construção de pavilhões, a mais avançada da época. No evento foram apresentadas as mais
adiantadas tecnologias de recreação para os visitantes, como apresentação de cantores, parque
de diversões, peças teatrais. No acervo desta exposição visualizamos, entre outros temas, o
vestuário, a arquitetura e a riqueza cultural de seus participantes, assim como outros
elementos e indícios culturais que essas imagens preservam. O acervo fotográfico encontra-se
em bom estado de conservação.

Foram analisados e interpretados artigos do Jornal Folha da Manhã, periódico


que constitui uma das fontes mas completas para o estudo da história da Exposição Nacional;
este documento pertence ao Arquivo Público Jordão Emerenciano, e se encontra em precárias
condições de conservação. Entretanto, relata detalhes do evento, utilizando uma grande
18

quantidade de instantâneos dos pavilhões e dos stands, das personalidades que visitaram a
Exposição. Vale mencionar que foram encontradas algumas cópias das fotos da coleção
fotográfica neste jornal. Selecionamos algumas imagens da Folha da Manhã para exemplificar
a ênfase dada a este evento: este periódico documentou, desde a etapa de construção dos
pavilhões até o dia de seu encerramento, relatando cada momento, a data de inauguração de
cada pavilhão ou stand, a visita de personalidades marcantes da época, sempre enriquecendo
com abundante registro fotográfico. Podemos verificar, no artigo da Folha da Manhã, os
detalhes da construção dos pavilhões da exposição, o grande número de operários contratados,
as técnicas mais modernas de construção empregadas, para proporcionar maior segurança aos
participantes.(fotos-02 e 03).

FOTOGRAFIA DO JORNAL FOLHA DA MANHÃ

FOTO 02 FOTO 03

A metodologia utilizada para esse trabalho foi a análise etnográfica, iconográfica


e interpretativa, a pesquisa está situada no âmbito da antropologia visual, que trata de todos os
aspectos da cultura visíveis a partir da comunicação não verbal, passando pelo ambiente
construído pela encenação ritual e cerimonial, dança, arte, até a cultura material; esta última se
divide em dois grupos de interesse: um se concentra na análise do filme etnográfico e o outro se
preocupa com pesquisas comparativas e análises das formas visual, figural e televisual. Como
espaço para compreensão da cultura, identidade e semiótica social. A antropologia visual
oferece a instrumentação metodológica adequada para o desenvolvimento da pesquisa proposta.
Constitui uma área emergente e, de certa forma, contemporânea. Nos últimos anos, o
crescimento dessa área vem sendo construído com força e embasamento hermenêutico. Como
19

recurso secundário de observação de campo, o processo de registro visual da realidade foi


utilizado como suporte importante desde Malinowski (1884-1942).

O antropólogo Bronislaw Malinowski (1976) foi um dos precursores do uso da


imagem, em seus trabalhos. Por meio da fotografia, foi realizado um primoroso tratamento
entre texto e imagem, conjugando-os num discurso antropológico. Em “Os Argonautas do
Pacífico Ocidental”, publicado em 1922, Malinowski apropriou-se da prática fotográfica,
numa exploração midíática, na qual o utensílio visual possibilita ligar-se ao texto. Ou seja,
descobriu o entrelaçamento entre sentido e significação, ampliando, assim, o espaço
etnográfico. Foi o primeiro a mostrar como o documento iconográfico possui um significado e
uma força complementar ao texto escrito. Então, iniciava-se a percepção sobre a metodologia
da apropriação imagética e que fatos disfarçados a olho nu eram provavelmente apreendidos
para a contemplação mais detalhada a posteriori, sendo provedora de significações.

No intuito de recuperar a memória social deste evento, foram realizadas entrevistas


com visitantes da Exposição, que buscaram recordar as impressões e os fatos ocorridos,
informações ricas de emoção e que contribuíram para a análise das representações socioculturais
desse período. Para a execução dessa etapa, alguns obstáculos tiveram que ser superados: o
primeiro deles foi localizar essas pessoas, pois já se haviam passado 66 anos da realização do
evento, as pessoas que dele participaram são hoje idosos, com mais de setenta anos. Estas pessoas
foram localizadas, inicialmente, através de indicações de amigos, na própria Universidade Federal
de Pernambuco, e através de anúncios colocados em clubes da Terceira Idade,1 locais
freqüentados pelos idosos. Foram visitados 08 clubes, situados nos seguintes bairros: Afogados (2
clubes), Santo Amaro (2 clubes), Casa Forte (1 clube), Madalena (1 clube), Rio Doce, na cidade
de Olinda, (1 clube), bairro do Janga, em Paulista, (1 clube). Nesses locais foram realizados os
primeiros contatos. Ao todo, foram entrevistados 08 idosos, com idades que variavam entre 79 e
89 anos. A maioria das entrevistas ocorreu nas residências dos entrevistados, foi utilizado o
gravador com microfone embutido, a técnica que se adequava melhor a esta pesquisa foi a do
depoimento pessoal. De acordo com Dermatini (1988), o trabalho com a memória social do idoso
facilita e enriquece a pesquisa, sobretudo pela sua experiência de vida, sendo testemunha de um
momento marcante na história de Pernambuco, a Exposição Nacional de Pernambuco. Os
conteúdos das entrevistas contribuíram para compor parcelas da memória desse evento. Os
entrevistados se mostraram receptivos, os ambientes eram sempre acolhedores, todos

1
Locais de encontro dos idosos, para recreação e comemoração de datas festivas, organização de passeios e
viagens.
20

demonstraram emoção ao relembrarem momentos de sua mocidade, sobretudo quando


observaram as imagens do passado, contidas nas fotografias da Exposição Nacional. Examinando-
as, alguns identificaram fábricas e seus produtos, costumes da época, histórias curiosas,
momentos da Exposição, como os discursos dos políticos, apresentações de cantores populares, o
parque de diversões Shangai, fatos que comprovam como um documento iconográfico também
constitui um meio de ativar a memória dos envolvidos. A narrativa dos entrevistados envolvia
acontecimentos marcantes em suas vidas, ligadas às mudanças trazidas com a Interventoria de
Agamenon Magalhães, em Pernambuco. As pessoas entrevistadas foram: Sr. Aroldo Praça, D.
Irenete Maria Barbosa, Professor Dr. Manoel Correia de Andrade, D. Antonia Rosa dos Santos,
D. Maria das Dores de Lima, Sr. Francisco José da Silva, D. Maria Alice do Nascimento e D.
Maria do Carmo Pereira. Para dar o suporte teórico metodológico às entrevistas foram consultadas
as obras de Montenegro (1992) e Bosi (1983).

Segundo Gaskell (2001, p.58), no trabalho com documentos fotográficos são


necessários alguns cuidados, o primeiro diz respeito à autenticidade da imagem fotográfica, se
ela é original, se não foi falsificada ou manipulada. Deve-se verificar a autenticidade das
imagens iconográficas, situando o contexto histórico da época em que foi produzidos o
artefato, verificando qual o fotógrafo que fez a coleção e qual a situação em que foi produzido
o documento. Tal documento deve ser investigado, para analisar a veracidade do seu
conteúdo, através de pesquisas bibliográficas e documentais. No caso da coleção de
fotografias sobre a Exposição Nacional, comprovou-se sua veracidade, pois o evento foi todo
documentado em jornais e revistas, além de ter sido produzido um catálogo específico e
desenvolvida uma pesquisa bibliográfica. Os documentos fotográficos apresentam
ambigüidades, por este motivo deve-se ter cuidado com sua veracidade. Para um observador,
um registro fotográfico pode apresentar várias interpretações, de acordo com sua habilidade e
percepção do mundo, em outras palavras um mesmo documento fotográfico pode ser
interpretado de várias maneiras, dependendo do observador, de sua história de vida e de sua
cultura. A fotografia pode fornecer os dados para se investigar as especificidades de
mudanças históricas, sociais e políticas de uma sociedade.

Selecionei algumas fotografias da coleção, para que, durante as entrevistas com


os entrevistados, estas imagens representassem um meio de reavivar a memória, o que
realmente foi constatado: as fotografias serviram de ponte para a construção dos fatos e
acontecimentos vividos por estas pessoas, facilitaram a reconstrução da história oral do
acontecimento e da vida do entrevistado. Em relação à história da vida do cidadão, ela foi útil
21

para a pesquisa, pois o exame dos álbuns de fotografias de sua vida auxiliou na identificação
das especificidades socioculturais do Estado Novo. Percebi, nas entrevistas, durante a fala dos
informantes, uma grande emoção, principalmente quando olhavam as fotografias e
relembravam sua infância e mocidade.

Recapitulando

No capítulo 1 abordaremos dois momentos: no primeiro, discutiremos os


acontecimentos e fatos históricos e sociais que determinaram a realização da Exposição Nacional,
demonstrando como o período do Estado Novo no Brasil, 1937-1945, marcou profundamente a
sociedade, pois esse regime político impôs práticas políticas, sociais e culturais que perduraram
por décadas, após o seu término. Utilizamos como norte, no trabalho, a coleção fotográfica sobre
a Exposição, analisando as fotografias e assim construindo o ambiente em que essas imagens
foram produzidas. Pontuaremos os principais fatos sobre o período estadonovista em
Pernambuco, durante a intervenção de Agamenon Magalhães (1937-1945). Subdividimos as
imagens por temas: os políticos discursando, os pavilhões, os stands, sempre relacionando as
informações visuais com o contexto histórico daquela década.

No segundo capítulo apresentamos alguns fundamentos teóricos que trabalham


com questões sobre antropologia e fotografia, acervo imagético e memória social,
relacionamos estes temas as fotografias da Exposição Nacional

No terceiro capítulo descrevemos alguns momentos da Exposição Nacional,


destacando os organizadores, as atrações artísticas, baseados nas fotografias sobre os stands
federais e nas informações do Álbum Catálogo Oficial da Grande Exposição Nacional de
Pernambuco, utilizando também as informações dos periódicos da época.

No quarto e último capítulo, discorreremos sobre a influência exercida pelo


projeto ideológico do Estado Novo nas questões culturais e, sobretudo, a utilização dos meios
de comunicação, a propaganda, nos jornais, no rádio, nos grandes eventos e no cinema, a
doutrinação pedagógica e imagética, termo emprestado de Morais (2002), que revela o projeto
pedagógico cultural imagético, construído pelo Estado Novo.
22

Distribuímos, pelos capítulos, depoimentos de testemunhas que vivenciaram o


cotidiano da Exposição Nacional, também transcrevemos vários trechos do Álbum Catálogo
da Exposição, um dos únicos documentos escritos sobre este evento.

No âmbito da antropologia visual, as seguintes obras foram fundamentais para a


construção desse trabalho, os Cadernos de Antropologia e Imagem, principalmente os números
5, 8, 10 e 14, editados pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade do
Rio de Janeiro, trabalhos que tornaram viável a idéia de efetivar a pesquisa com as imagens,
especialmente os trabalhos com fotografia. Foi também consultada a obra: “Horizontes
Antropológicos”, o número 2, organizada por Cornélia Eckert e Nono Godolphim, que chama a
atenção para uma maior coerência e propriedade nos estudos com as imagens.

Em relação às influências historiográficas, o trabalho do pesquisador José


Maria de Souza Neto, ”Sonhos de Nabucodonosor: aspectos da propaganda do Estado Novo
em Pernambuco”, foi de fundamental importância na realização e reflexão do período
estadonovista em Pernambuco, na sua análise sobre os grandes eventos promovidos pela
Interventoria, para consolidar seu projeto ideológico. Dessa maneira, acreditamos ter feito
uma visita ao período estadonovista, realizando uma releitura das fotografias deste evento. No
stand do Departamento de Viação e Obras Públicas, (foto 04), mostruários de equipamentos
hidráulicos da época, maquete e fotos de tubulações. No stand da cidade de Limoeiro,
encontram-se maquetes de um prédio, artesanato, fotografias e diversos produtos da economia
local (Foto 05). O stand da reforma do Porto do Recife, com uma maquete mostrando os
arrecifes e várias fotos. (foto 06). O stand de Caruaru mostra seu rico artesanato (Foto 07).
23

FOTO-04 FOTO-05

FOTO-06 FOTO-07
24

2. ENQUADRANDO A EXPOSIÇÃO NACIONAL

FOTO-08

Para situarmos o universo em que foram produzidas as fotografias da


Exposição Nacional de Pernambuco, faz-se necessário conhecer alguns fatos e
acontecimentos relacionados aos ideais políticos vigentes no tempo do evento, no cenário
local e nacional. A Exposição Nacional foi uma gigantesca feira industrial que movimentou a
cidade do Recife, concentrando, nesta capital, representações sociais e culturais de todas as
regiões do Brasil. Uma constante na Exposição foram as cerimônias públicas com discursos
dos políticos.

Segundo Tota (1994, p. 8), o Brasil da década de 20 e início da década de 30 se


encontrava em profunda crise, política e econômica, decorrente da situação mundial,
principalmente da queda da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, que afetou a economia
mundial e o Brasil, que já se encontrava em conflito, tornou-se ainda mais vulnerável a esses
acontecimentos.
25

No cenário político nacional, o início da década de 30 foi marcado pela crise


nas oligarquias agrárias2 da República Velha, disputa pelo poder político e alternância do
poder nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Com o rompimento desta hegemonia, devido
à cisão da própria oligarquia, novos grupos surgiam e questionavam esta República
Oligárquica, camadas da sociedade como: intelectuais, burocratas, as classes média e alta, que
articulavam movimentos revolucionários para afastar os avanços do movimento comunista e
as reivindicações dos trabalhadores, devido ao desemprego e à paralisação da indústria,
reflexos de 1929. Articulou-se um movimento tenentista que começou a contestar o domínio
político desse grupo dominante. A tensão era crescente e culminou com a revolução de 1930,
causada pelos conflitos entre os grupos políticos paulista e mineiro, os levantes armados dos
tenentes pelos estados do Brasil. As tensões sociais, a crise econômica e a sucessão
presidencial ocasionaram um clima de conflito no país. As grandes oligarquias dividiram-se.
Dessa divisão nasceu a Aliança Liberal, representando Minas Gerais, Rio Grande do Sul e
Paraíba, com o apoio de grupos industriais emergentes, da classe média e de setores da
burocracia militar e civil. Contra a oligarquia cafeeira do Partido Republicano Paulista (PRP)
e do poder central, a Aliança Liberal lançou como candidato à Presidência da República o
governador gaúcho, Getúlio Vargas. Este partido propunha inovações na política, como o voto
secreto e o voto feminino, que agradaram as massas trabalhadoras urbanas. Com a eleição
fraudada pela oligarquia, em favor de seu candidato, Getúlio Vargas perde as eleições. Teve
início então um levante armado, dirigido pelos tenentes descontentes com o resultado das
eleições presidenciais. Getúlio Vargas toma posse na Presidência da República, com a
deposição de Washington Luis, graças a um levante armado dos tenentes. Vargas governou
com grandes poderes, auxiliado por ministros – tenentes, civis, como José Américo de
Almeida e Lindolfo Collor. Em 1937, um golpe estabelece o Estado Novo, estruturado através
da legitimação de uma estrutura sindical atrelada a uma legislação trabalhista, apresentada aos
trabalhadores como uma doação, apesar de ter sido fruto das lutas e conquistas operárias.
Segundo Carone (1989), a industrialização teve forte participação neste momento do país, a
busca de crescimento do mercado interno, o estímulo à produção nacional a partir da crise de
1930, a recessão, principalmente da indústria de bens de capital, o processo de
industrialização necessitava de um estado forte e centralizador. Em 1933, foi eleita a

2
Grupo político que dominava e controlava uma região ou um estado .Durante a República Velha(1889-1930),
as oligarquias rurais eram formadas por grandes proprietários de terras, exerciam o poder pelo controle dos
partidos e das eleições municipais e estaduais, fazendo eleger seus candidatos. As oligarquias dominantes eram
as de São Paulo e Minas Gerais, ligadas ao café e à pecuária.
26

Assembléia Constituinte, incumbida de elaborar a Carta Magna e de garantir a eleição de


Getúlio Vargas para presidente da república através do voto direto.

Surgiram movimentos contrários ao Governo Vargas, reivindicavam o fim dos


latifúndios, o cancelamento da dívida externa, defendida pela Aliança Nacional Libertadora.
Havia os integralistas, inspirados na teoria nazi-fascista. Devido a essas ameaças, em abril de
1935 Getúlio Vargas faz aprovar, no Congresso Nacional, a Lei de Segurança Nacional,
estabelecendo que qualquer ato poderia ser considerado atentatório à segurança nacional e
passível de severas penas. A lei atingiu os sindicatos, o movimento operário e o partido
comunista. A Aliança Nacional Libertadora foi fechada em junho de 1935. Getúlio Vargas e
seu Ministro do Trabalho, Agamenon Magalhães organizam e implantam medidas para
formar um regime forte e autoritário. Foram criados: o Tribunal de Segurança Nacional e o
Departamento de Imprensa e Propaganda, DIP, que implantou o estado de sítio. A repressão
era implacável e violenta nas cidades.

A imprensa foi um ponto bastante favorável à revolução de 1930 e à


preparação e execução do golpe de 1937. Através dos jornais, doutrina-se a população com
idéias de patriotismo e progresso que seriam promovidos pelo Governo. Getúlio Vargas
implanta e deflagra o golpe de 1937, nomeando para os estados Interventores aliados a seu
plano de Governo. O golpe de estado foi baseado em articulações por políticos e alguns
setores da sociedade, como os militares e a Ação Integralista Brasileira.

De acordo com Carone (1982), o Governo de Getúlio preparou o “plano” de


um suposto golpe comunista, em setembro de 1937, as articulações envolviam o Exército, o
Partido Integralista e políticos de sua confiança. Através dessas alianças e da instabilidade
política no país, o governo forja um incidente: valendo-se de um falso documento do
integralista Mourão Filho, o documento relatava um plano terrorista. Getúlio declara que o
documento descreve os massacres e desrespeito aos lares e às igrejas, medidas que os
comunistas tomariam ao alcançar o poder. É decretado o estado de sítio e a suspensão das
garantias constitucionais. A partir daí, multiplicaram-se as prisões indevidas, foram criados
campos de concentração e colônias agrícolas para a “Reeducação” Moral e Cívica dos
cidadãos que haviam se “desviado” do projeto do governo. É implantado todo um sistema
autoritário e violento de controle à população. O golpe foi deflagrado em 10 de novembro de
1937, com uma nova constituição elaborada por Francisco Campos, tendo como modelo a
Constituição Fascista da Polônia, e por isso recebendo o apelido de Polaca. Ela manteve a
27

república federativa, mas restringiu o poder dos estados, bem como das Assembléias
Legislativas. A Carta de 1937 manteve alguns direitos individuais, a igualdade perante a lei e
a inviolabilidade do domicílio, assim como o ensino primário obrigatório e gratuito. Ao
mesmo tempo, proibiu os estrangeiros de exercer uma série de atividades econômicas e
políticas, dando as bases legais para o fechamento das organizações de italianos e alemães,
durante a Segunda Guerra Mundial.

Segundo Andrade (1995), Getúlio fecha a câmara dos deputados, o Senado, as


Assembléias Estaduais, elimina a autonomia dos estados, fortalece a ação da Polícia Política.
Em cada secretária da segurança pública criou uma Delegacia da Ordem Política e Social
(Dops), que passava a vigiar e punir, muitas vezes sem motivo aparente e por conta própria,
os cidadãos de quem desconfiava. O Estado Novo concluía a obra iniciada em 1930,
aperfeiçoando as leis trabalhistas, solidificando o atrelamento dos sindicatos ao Governo. O
Estado passou a intervir efetivamente na economia. A política de intervenção na economia era
favorável aos empresários e industriais, na medida em que facilitava a exportação de bens de
produção, enquanto desaconselhava a importação de bens de consumo. A intervenção do
Estado na economia tendia a ser mais intensa no setor da indústria básica. O Governoo era, na
verdade, um agente da industrialização. Esta industrialização iniciou-se com a implantação de
dois planos: a construção da hidrelétrica de Paulo Afonso e as obras da usina de Volta
Redonda, com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional.

A legitimação do Estado Novo, período compreendido entre 1937 e 1945, foi


forjada na figura de Getúlio Vargas, com o projeto de táticas voltadas para a doutrinação e
conquista da população através do trabalhismo, doutrina que enaltecia o trabalho, e as boas
relações entre o presidente (Ditador) Getúlio Vargas e os trabalhadores. Estas relações não eram
mais mediadas pelo Legislativo, destitudo por ele, dissolveu os partidos políticos e concentrou
em suas mãos todos os poderes de mando, baseando seu governo na propaganda das idéias
nacionalistas do Estado Novo. Todos esses acontecimentos determinaram e influenciaram na
realização da Exposição Nacional, idealizada para difundir os ideais estadonovistas.

Com a instalação do Estado Novo, em Pernambuco, Agamenon Magalhães foi


nomeado, por Vargas, interventor do estado. Era aliado de Getúlio e um político experiente e
autoritário. A elite política pernambucana sonhava com modernidade, asfalto, avenidas. Tudo
com o pano de fundo, o autoritarismo. Recife, orgulhava-se das novidades que começaram a
fazer parte do seu cotidiano. A modernidade, a urbanização o progresso, trazidos através da
28

iluminação elétrica, da industrialização, implantadas pela interventoria. Magalhães tomou


posse no cargo de interventor no ano de 1937. Homem enérgico e com grande senso de
oportunidade, implantou em Pernambuco um governo forte e centralizador, concentrou em
suas mãos todos os poderes políticos e sociais, de modo a controlar o Estado em todos os
sentidos. Exerceu um controle administrativo da situação, colocando nas secretarias estaduais
personalidades locais, aliados políticos que comungavam com as idéias do Estado Novo.
Idealizou a Exposição Nacional, objetivando a divulgação de seu projeto de governo e de suas
obras, frente à Interventoria. A Exposição, nos fins da década de 30, exerceu a função de
divulgação do projeto pedagógico, imagético e cultural idealizado pela Interventoria, projeto
que lançava mão da cultura como forma de confirmar as suas ações, utilizando os meios de
comunicação, isto é, a propaganda, a arte do convencimento, para levar ao grande público as
mudanças trazidas pelo Estado Novo, em Pernambuco. Este evento desempenhou um papel
fundamental na introdução de referenciais sociais e simbólicos ligados à modernização em
curso, os padrões modernos de relacionamentos difundem-se na cidade, mediados pelas novas
mercadorias e equipamentos de infra-estrutura modernos, exibidos e introduzidos na cidade
do Recife, surgindo cada vez mais avenidas e bairros, é a urbanização. Agamenon estabeleceu
vínculos fortes com a Igreja Católica, escolhendo secretários católicos, como os senhores
Manoel Linhares, para a pasta da Fazenda, Etelvino Lins, para a pasta da Segurança Pública;
Apolônio Sales, para a pasta da Agricultura, com o objetivo de se beneficiar da influência da
Igreja Católica nas paróquias. Remanejou diretorias de sindicatos, órgãos e entidades do
Estado, implantando sempre pessoas de sua confiança e aliados da nova ordem, até mesmo
para cargos cuja nomeação dependia do governo federal.

Para as prefeituras, nomeou novos prefeitos, com novas diretrizes, destaque


para o ruralismo 3 e com a criação de subsídios para os pequenos agricultores, a moralidade
administrativa, um plano para evitar o êxodo do campo para a capital, animando as cidades a
desenvolver os pequenos ofícios, o artesanato e a indústria doméstica. Incentivou as
prefeituras para que participassem da Exposição, destinando-lhes uma verba extra na
montagem dos stands; contou com a presença de 66 prefeituras municipais. Determinando que
fossem fotografados todos os stands. Vitória trouxe mostruários de sua economia e de sua
cultura, os móveis, as bebidas, a farinha, os couros e as peles, as fotografias, o artesanato, uma
imensa variedade de produtos e objetos produzidos nesta cidade.

3
Ações voltadas para os pequenos agricultores rurais do interior de Pernambuco, promovidas pela Interventoria
de Agamenon, objetivando valorizar o pequeno agricultor.
29

FOTO-09

O controle político nas prefeituras demonstrava a doutrinação política e a


repressão imposta nestes municípios, auxiliados pela Igreja Católica, exercendo influência
sobre os cidadãos e os trabalhadores. A partir de 1937, a política, sobretudo a de Agamenon,
visava o monitoramento da população em favor de seus ideais autoritários e antidemocráticos.
Nos municípios do Estado de Pernambuco, o poder de alcance da doutrinação ideológica
estadonovista era intensificado através da catequização nas paróquias, induzindo a população
a aceitar e concordar com as novas diretrizes do regime político em curso. A Igreja Católica
se faz representar na fotografia, através de imagens sacras.

Os meios de comunicação, a imprensa e o rádio tiveram um papel fundamental


na divulgação da ideologia desse regime. O Estado assumiu o controle com a censura à
imprensa e aos outros meios de comunicação. Com o objetivo de centralizar e coordenar a
propaganda nacional, o Governo Central cria, em dezembro de 1938, o Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP). O DIP atingia, em todo o país, as áreas de imprensa,
divulgação, rádio difusão, teatro, cinema e turismo.

No Estado de Pernambuco, foi criado o Departamento Estadual de Imprensa e


Propaganda (Deips), que realizou uma intensa campanha contra as doutrinas “exóticas” e
“anticristãs”, expondo os comunistas e simpatizantes à execração pública. O Deips era
responsável, ainda, pela censura à imprensa, com atuação nos jornais menos ligados à linha
Estadonovista, em estreita colaboração com a polícia política. De acordo com Pandolfi (1984,
p.52), o esquema de propaganda e de divulgação das realizações do Estado Novo era muito
30

bem articulado, em Pernambuco. O interventor de Pernambuco doutrinava a população, todos


os dias, através do seu jornal “Folha da Manhã”, com distribuição matutina e vespertina.
Nessas ocasiões, convidava a população para visitar a Exposição, divulgando as principais
atrações programadas para o dia seguinte. Essas informações eram veiculadas cotidianamente,
em editoriais e notícias, enfatizando a doutrina Estadonovista, empregando principalmente
uma generosa quantidade de imagens fotográficas, objetivando despertar a curiosidade da
população. Agamenon, nome pelo qual era conhecido o Interventor do Estado, além do jornal
Folha da Manhã, tinha um programa diário na Rádio Clube de Pernambuco, onde era lido o
seu artigo denominado “A Nota do Dia”.

O programa de doutrinação ideológica organizado pelo Governo ditatório de


Agamenon foi elogiado pelo Presidente e outros interventores dos estados brasileiros. O
Interventor de Pernambuco, em sua coluna diária, mantinha um contato direto com a população,
explicava a doutrina, orientava e respondia as indagações que lhe eram feitas por correspondência.
Escrevia em linguagem simples e direta, sobre os mais variados assuntos: cultura, política,
problemas administrativos. Um de seus artigos discorreu sobre a Exposição Nacional,
descrevendo o esforço dispendido para a realização do evento, dando destaque para suas atrações.

O tratamento dado à imprensa era um exemplo vivo da centralização e do


autoritarismo do regime político vigente no País. Em Pernambuco, além da censura oficial
exercida pelo Deips, cujo diretor era Nilo Pereira, Agamenon interferia em toda a imprensa, nos
jornais, do Commercio e Diário da Manhã, de forma que as noticias do Estado Novo eram
divulgadas, apesar desses jornais pertencerem a opositores do regime (PANDOLFI, 1984, p. 53).

Pernambuco era considerado, pelo Governo Central, um exemplo de aplicação


bem sucedida do governo. A Interventoria propagava intensamente as suas realizações e
intensificava suas ações opressoras e autoritárias, para implementar seu projeto maior, a
recuperação econômica e social deste Estado. Pandolfi (1984, p. 54) afirma que, para este fim,
a interventoria usou a repressão e mobilizou as associações, entidades e sindicatos, utilizando-
se dos vários segmentos da sociedade. Esta mobilização era controlada e orientada pelos
dirigentes do regime. Assim, com esta prática conjunta entre organizações da sociedade e
coibição, o Interventor organizava grandes eventos e festejos cívicos pelo Estado; o
aniversário do golpe de 1937, o aniversário da administração Agamenon Magalhães, o 1º de
maio, as grandes exposições, destacando-se a Exposição Nacional e demais datas nacionais
eram bastante comemoradas e exerciam um papel importante no projeto pedagógico
31

imagético do Governo, educando e, ao mesmo tempo, convencendo a população sobre o êxito


dessa doutrina política, através do poder educativo que esses eventos possuíam.

Ao assumir a interventoria, Agamenon define, como prioridades do seu


programa de governo: a urbanização da cidade e a recuperação do mundo rural. Crítico
incansável da democracia urbana e a favor da alternativa de um intervencionismo estatal em
todas as esferas de vida econômica, política e social, defendeu uma maior proteção oficial
para as atividades agrícolas do país. Para Incentivar a agricultura de subsistência, faz um
acordo com os usineiros do Estado, destinando 5% da área cultivada pelos canaviais para este
tipo de agricultura; incentivava a policultura, através de uma campanha veiculada pelos meios
de comunicação, Aconselhando a população a cultivar gêneros alimentícios. O governo
fortalece as medidas implementadas pelo Instituto do Açúcar e do Álcool, organismo criado, a
nível nacional, em 1933, para financiar os usineiros, através do Banco do Brasil, libertando a
Indústria do Açúcar de exploração do intermediário. As usinas exibiram seu cotidiano nos
stands, registrados nas imagens fotográficas.

O stand da Usina Santa Terezinha apresentava, em primeiro plano, um grande


painel, com gráfico da produção de açúcar e álcool dos anos de 1928 a 1939, localizado ao
lado da maquete da usina. Logo abaixo, outro gráfico mostrava a construção da estrada de
ferro da usina, a maquete reproduzia a casa grande, um símbolo dos senhores de engenho
pernambucanos, uma vasta vegetação, e a estrada de ferro percorrendo toda a extensão da
usina. Na imagem foi exaltado o gráfico, sobre o aumento da produção nos anos de 1937 e
1939, período do Estado Novo.(FOTO -10).

FOTO-10
32

A Interventoria de Pernambuco, através de cooperativas, abriu estradas para


ligar o interior e a capital do Estado. Implantou hospitais no interior, para dar condições de
vida ao homem do campo. Combateu a seca no Sertão, através do Serviço de Criação de
Açudes e Irrigação, apesar da indústria das secas: medidas autoritárias tomadas pelos grandes
latifundiários no interior do Estado, para expulsar os agricultores de suas terras. Visando
atingir os pequenos núcleos de atividades pastoris e agrícolas no Sertão, Agamenon incentiva
prioritariamente a industrialização e a agricultura, baseado no desenvolvimento da indústria
local, principalmente a a têxtil, importante em Pernambuco. O incentivo à agricultura,
vinculada ao desenvolvimento, a valorização ao rural, a matéria-prima regional do Estado, o
trabalho operário, o projeto estadonovista de doutrinação ideológica, baseada na repressão e
na censura dos meios de comunicação, Algumas dessas diretrizes políticas foram
evidenciadas nas imagens da Exposição, como o incentivo às cooperativas agrícolas do Sertão
e do Agreste, o apoio ao pequeno agricultor, que podem ser observadas nos stands de
prefeituras municipais e fábricas.

O estilo de Agamenon era direto e sem rodeios, assim ele governou durante os
oito anos, imprimindo um caráter autoritário à sua administração, marcando sua passagem
pelo Palácio das Princesas, como nenhum outro governante já houvera feito. Magalhães
assume o governo do Estado, fruto do golpe, com duas finalidades: implantar o Estado Novo
em Pernambuco e soerguer o Estado, do ponto de vista político e econômico, que se fundem
em um objetivo maior e mais profundo, o de mudança da sociedade pernambucana,
considerada degradada por anos de anarquia.

Sob todos os pontos de vistas com que se analise o evento, num


julgamento sincero da obra de um governo inteligente e equilibrado, poder-se-á
constatar o esforço e os nobres objetivos dos que fizeram a Exposição como síntese
da evolução dos nossos costumes, decorrente do regime instituído pelo Estado
Novo. De todos os recantos do País, sem que houvesse a discrepância dos
regionalismos mórbidos e deturpantes, surgiram as cooperações mais expressivas
na organização dos “stands”, cujos mostruários documentavam o labor incessante
de um povo e de seus dirigentes. Nenhum detalhe, por menos importante que nos
parecesse, deixou de ser esboçado nos gráficos demonstrativos do progresso
material que atingimos, salientando-se, em todos, a larga visão do Governo
Federal, na tarefa de engrandecer o Brasil. Nas possibilidades do seu admirável
esforço e patriotismo incontestável (ALBUM CATÁLOGO).

O Estado Novo incentivava demonstrações públicas de solidariedade inter-


classes, promovendo, no dia do trabalhador, um desfile em que operários, trabalhadores e
donos de fábrica marchavam juntos, celebrando a grandeza do Estado Novo. Agamenon
imprimiu seu caráter; como idealizador da Exposição, não mediu esforços para trazer para
33

Pernambuco as representações culturais dos diversos estados do Brasil, apoiado por Vargas,
que o tinha como amigo e parceiro político, contando com a colaboração da sociedade
pernambucana, principalmente os industriais, aderindo à grande cruzada pelo soerguimento
do Estado. Agamenon entendia que deveria exercer o papel de grande líder desse movimento,
por isso imprime logo um estilo de eficiência à sua administração, salientando a honestidade e
lisura daqueles com quem trabalhava. Possuía uma visão clara do Estado e seus problemas,
com soluções como: o urbanismo, desenvolver o interior para que os centros urbanos,
principalmente a capital, não sofressem com o inchaço populacional. Defendia a criação da
riqueza e a intervenção direta do Estado na economia. Muitas de suas idéias foram criadas
anos antes da sua administração, em 1921, quando apresentou uma monografia para concorrer
à cátedra de geografia geral do Ginásio Pernambucano, intitulada, “O Nordeste Brasileiro,”
em que descreve o problema do semi-árido brasileiro, afirmando que o sertanejo está
abandonado à própria sorte e tudo de que precisa é mais apoio do Governo. Ele defende uma
canalização das águas do Rio São Francisco, para amenizar a seca entre Pernambuco e Ceará,
desenvolvendo toda essa região, com os campos semeados. As cidades, Recife
principalmente, melhorariam conseqüentemente. Pretendia promover a industrialização de
matérias-primas locais, como a cana e o algodão, expandindo a indústria para o Agreste e o
Sertão, aproveitando as fibras e as sementes oleaginosas que poderiam ser industrializadas.
Agamenon valorizou a economia do Sertão e do Agreste, incentivando a participação dos
municípios na Exposição.

Nos stands eram ressaltados os produtos agrícolas, comerciais e industriais,


ficavam no Pavilhão dos Municípios do Estado, cujo portal de entrada foi construído em estilo
dórico, uma arquitetura arrojada. Os destaques ficavam por conta da diversidade de
mostruários artesanais e industriais e o grande número de visitantes diários em suas
dependências. Através da fotografia, pode-se ver, ainda, árvores próximas ao portal do
pavilhão, um canteiro, ao lado do portão, e, de relance, um banco de cimento. Ao lado
esquerdo do portão de acesso do pavilhão está localizado o prédio da Escola Normal do
Estado, hoje Câmera dos Vereadores. Priorizando o exterior do pavilhão, o fotógrafo Batista
eternizou a austeridade destes prédios (FOTO-11).
34

FOTO-11

Para seu Francisco, operário aposentado de 80 anos, um dos senhores que


tivemos a oportunidade de entrevistar no dia 25 de agosto de 2005:

“Andei por toda a Exposição, levei muito tempo para ver todas as
coisas, não foi possível ver tudo em um dia, ainda tinha o parque de diversões, onde
me diverti com os brinquedos e jogos. Um dos Pavilhões que mais gostei foi dos
Municípios do Estado,que chamou minha atenção com a imensidade de imagens e
produtos agrícolas, e industriais expostos. Quando visualizei as fotografias da
exposição o que chamou mais minha atenção foram às máquinas da Usina
Rosadinho, pois visitei este local e pude conhecer essas máquinas pessoalmente,
eram diferentes das outras que eu já conhecia. Lembro-me do que meu pai contava
sobre Agamenon e seu governo, dizia que essa Exposição foi feita para a população
se divertir e conhecer as novidades da época, ele era homem bom, fazia tudo pelo
povo, ajudava as viúvas, mandava construir” casas para os pobres, todos tinham
um grande respeito por ele, diferente de hoje, que não há mais respeito pelos
governantes. Eu sinto muitas saudades daquela época de meu tempo de mocidade,
tempo em que os políticos eram honestos.”

FOTO-12
35

No stand da cidade de Catende, máquinas, utilizadas na Usina Roçadinho, diversos


gráficos e um painel repleto de fotografias do município de Catende, onde existia uma das usinas
mais prósperas de Pernambuco, com destaque para a produção econômica do açúcar. No painel
ainda há fotografias da produção agrícola, a pecuária e as usinas; o stand apresenta garrafas de
aguardente, uma escada de madeira, mostras do artesanato, bordado, pintura, as especificidades
culturais dos senhores de engenho, uma inflûencia marcante na cultura de Pernambuco.
Localizado também, neste Pavilhão, o stand do município de Olinda, cuja imagem revela parcelas
do cotidiano dos habitantes da cidade, representações da economia, política, cultura: móveis,
quadros, painéis, fotografias, gráficos, objetos de decoração, estátuas de santos, brasões,
mostruários do folclore, as tradições, os costumes. Observam-se ainda exemplares de utensílios
domésticos, uma rica diversidade no mostruário da cidade de Olinda. Este stand foi premiado com
a medalha de ouro, devido à riqueza de objetos. O nome Olinda está escrito com lâmpadas acesas.
Na maioria dos stands nota-se o grande número de representações culturais, mas particularmente
o stand de Olinda se destacou, pela variedade de práticas culturais, caracterizando o discurso do
Governo Agamenon que estimulava o desenvolvimento da cultura local, no âmbito de suas
diretrizes políticas (Foto-13).

“Se falarmos no Departamento Nacional do Café, no Instituto do


Café, no Instituto Nacional do Mate e no Ambiente Açucareiro que tiveram seus
Pavilhões no certame, somente nos cumpre ressaltar o muito que concorreram para
o brilhantismo da Grande Exposição Nacional de Pernambuco, difundindo as
riquezas do Brasil, a valorização da nossa indústria e da nossa agricultura, padrão
de Glória e de Triunfo para nossa pátria” (ÁLBUM CATÁLOGO).

FOTO-13
36

Agamenon, na sua política, valorizava o desenvolvimento econômico do


interior, apoiando as cidades e disponibilizando recursos para o seu desenvolvimento.
Contudo, a economia do Recife colhia os frutos temporões do apogeu originado do açúcar e
do algodão, que se aproximavam da exaustão. No início do século XX, a cana-de-açúcar e o
algodão sofrem sua maior crise, perdendo lugar para o comércio internacional, a primeira por
causa do açúcar da beterraba, já o algodão nunca teve real mercado, aproveitava falhas dos
produtores. A usina favorecia o meio urbano, sobretudo o Recife, porque ao usar máquinas
mais modernas, dispensando mais empregados, criava um exército de reserva para as fábricas
da capital. As indústrias tiveram que se desenvolver e se diversificar para atender as usinas e
foi construída uma malha ferroviária, ligando o Recife a outros municípios da região
Nordeste, conforme afirma Andrade (1995). Da mesma forma, a produção do algodão fez
florescer fábricas têxteis e de aproveitamento do óleo. Na coleção fotográfica podem ser
observadas cerca de 40 fotografias de stands de fábricas e empresas pernambucanas, cujo
potencial se desenvolveu nesse período. Na Exposição, são retratadas as senhoritas elegantes
e bem vestidas, e as mais simples, do povo, em um mesmo cenário, participando juntas de um
acontecimento ímpar para o Recife, que não ocorria normalmente no cotidiano da cidade.

O Recife mostrava-se fortemente dividido, de um lado era a Veneza


Americana, com suas senhorinhas e rapazolas finos, do outro era a Mucambópolis, da gente
sem elegância e sem bons modos (GOMINHO, 1998). Agamenon desejava fazer essa última
desaparecer para que a outra se destacasse. Criou-se, desse modo, uma divisão entre esses
tipos de pessoas; assim, o centro da cidade foi redesenhado para os modernos, enquanto os
pobres eram silenciosamente expulsos, os vendedores ambulantes e “carregadores de piano”
foram proibidos de trabalhar na cidade, as manifestações, como maracatu, eram consideradas
artes menores, a separação atingia até os meios de transporte, com os bondes de gente fina e
os bondes de gente atrevida. “Essa gente fina era convocada a deixar de freqüentar o barbeiro
e passar a usar a Gilete Azul, modo mais moderno, cômodo e econômico de se manter
elegante” (GOMINHO, 1998). Mas, a mudança teria que ser mais profunda: para que os
cidadãos fizessem parte da grande Metrópole, teriam que passar por mudanças no vestuário e
na perfumaria pessoal (foto-14).
37

FOTO-14

Da mesma forma, o Recife sombrio, dos mocambos, mal vestido, daqueles que
não usavam a última moda, nem freqüentavam os locais mais nobres, os moradores da região
de aterro, residindo nos casebres, ou velhos sobrados, funcionando como pensão, tinham que
desaparecer, porque faziam de Pernambuco um Estado doente. Do cotidiano da capital faziam
parte a exploração econômica, a violência, o abuso, a insalubridade e as doenças, que
atingiam homens, mulheres e crianças; o crescimento desordenado acompanhou o surgimento
da indústria e gerou trabalhadores insatisfeitos com as condições de trabalho e com a vida,
obrigados a viver em favelas, cortiços e mocambos. Agamenon considerava caótica a
situação, sendo necessário reformar totalmente corpos e mentes, estruturas e instituições.
Durante os oito anos de interventoria não cessou de combater aqueles que considerava seus
inimigos, o Recife dos mocambos, que foi considerado oponente do progresso, tendo que
desaparecer; então ocorreu uma grande expulsão dos pobres. Contrataram-se arquitetos e
paisagistas franceses para redecorar a cidade, o centro da capital, sendo os mocambeiros
deslocados para os morros e para o interior. Dessa forma, o conjunto arquitetônico, os becos e
ruelas foram substituídos por prédios com elevadores e largas avenidas modernas. Verificam-
se essas ações nas maquetes dos prédios modernos em construção no Recife, nas fotos da
coleção sobre a Exposição (Foto-15).
38

FOTO-15

Em depoimento colhido por Montenegro (1992), um morador dos mocambos


conta que: “No governo de Magalhães, ele mandava derrubar as casas com todos os móveis e
dizia que pobre ia morar de macaco pra lá. Quer dizer, que macaco já fica nas linhas: de
macaco pra lá é que pobre ia morar, sabe como é”.

A Era Vargas marcou profundamente a história desse país, trazendo


lembranças amargas para alguns, destacando-se a falta de liberdade de expressão e
associação; a prisão e a tortura para aqueles que não se adequassem ao sistema
governamental; o controle das atividades dos cidadãos era absoluto, proibindo manifestações
culturais sem a autorização do governo, chegando ao ponto de interferir na principal festa
profana da população brasileira, o carnaval, proibindo marchinhas. A intervenção do Estado
na economia do país possibilitou o crescimento da industrialização, como também sua postura
em valorizar o homem trabalhador, que contribuiu para o desenvolvimento do país.

Uma nova nação estava sendo redefinida, com ênfase no progresso, na


modernização, na relação capital-trabalho, todos esses setores controlados pelo Estado. Estas
ações desenvolvidas na cidade do Recife provocaram, na população, as mais variadas reações:
aceitação, resistência, louvação e crítica. Gilberto Freyre, sociólogo, escritor e poeta, como
Mario Sette, defendiam as tradições e costumes no bairro do Recife, as lembranças históricas,
os pontos turísticos da cidade. Manuel Bandeira, poeta, apoiava a causa saudosista. A cidade
sofria grandes mudanças, as transformações urbanísticas implantadas, reformando ou
39

destruindo o antigo, causando lamentações em muitos, pela ausência de espaços, de


lembranças, de sentimentos, de história, e com elas práticas que descreviam a cidade.

Gilberto Freyre, em seu Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do


Recife, publicado em 1934, apresentava o Recife de outrora, dos piratas ingleses, dos
holandeses, dos crimes, das assombrações, das cabeças de padres ideólogos rolando pelo
chão, dos fantasmas de moças nuas. E não a cidade em processo de modernização. O escritor
Mario Sette defendia a modernização e o progresso, mas sem perder as referências históricas e
culturais que singularizam a tradição. Magalhães defendia os valores tradicionais, as raízes
trazidas pela sua origem sertanense. Em seu plano de ação, exigia delimitação de espaço,
urbanismo e ruralismo. Ele pretendia solucionar os problemas rurais, em especial a questão de
fixação do homem à terra, e com isso tornaria o Recife uma cidade moderna. Para resolver
esse problema, os prefeitos do interior receberam orientações específicas, intensificando
medidas de higiene, educação, alimentação e trabalho para no interior do Estado.

A Prefeitura da Cidade do Recife se empenhava numa campanha de disciplina dos


costumes negligentes, tentando oferecer uma solução para o comércio ambulante. O objetivo era
transformar a configuração urbana e os modos de vida de seus habitantes, marcados pela
aristocracia da cana-de-açúcar. Havia um movimento de implantação de mudança de hábitos,
procurando livrar o centro da cidade de seus traços rurais, matutos. A época era de revalorizações
da cultura popular, momentos preciosos de busca de características de brasilidade, de construção
da identidade nacional. O ato de ir à Exposição Nacional significava, nesse entendimento, muito
mais do que diversão e passeio representavam o contato com a cultura, com o universo do homem
concreto, com o passado, com as novidades trazidas pela Interventoria para a sociedade
pernambucana. Era um espaço de encontro, de festa, de músicas, de múltiplas finalidades, de
novidades, de contato com tradições e costumes de outras regiões do Brasil, um espaço de
socialização, onde os visitantes apreciavam as mudanças advindas da modernização, a valorização
da cultura popular, os aspectos socioculturais, singulares, de cada região brasileira que participou
da Exposição. Para dona Antonia Rosa, com 83 anos, professora aposentada, uma das visitantes
da Exposição:

“A Exposição foi uma festa, um acontecimento para aquela época


tudo muito organizado e caprichado, os pavilhões impressionavam com seu
tamanho, havia muitas imagens, fotografias e produtos de outras cidades
brasileiras, os stands dos estados, repletos de objetos, o stand que mais gostei foi o
do Pará, porque era maravilhoso, todo ornamentado e decorado, com coquinhos e
babaçus em abundância, fibras vegetais, cerâmicas e até mesmo um aquário de
peixes amazônicos vivos. Cada noite era dedicada a um público, tinha a noite dos
40

moços, onde eu fui com minhas primas e amigas,me lembro que havia música e
alguns brinquedos, das crianças Todos que foram à Exposição fizeram comentários
sobre este stand, eu fui ao evento com minha família, naquele tempo as famílias
saiam juntas, não havia violência, as pessoas viviam tranqüilas, a Exposição foi um
espetáculo para os olhos e para as mentes.”

2.1 Os Políticos e a Exposição Nacional


A Exposição alterou o cotidiano da cidade do Recife, porque havia uma grande
movimentação de operários na construção dos pavilhões e, também, pelas expectativas
geradas pela intensa propaganda veiculada nos jornais e nas rádios, meses antes da sua
inauguração, fazendo com que a população do Recife esperasse ansiosa pelas novidades que
seriam exibidas no evento. Como conta dona Maria das Dores, vendedora aposentada, de 79
anos, uma das visitantes da Exposição, em seu depoimento, no dia 20 de julho de 2005:

’Todo dia os jornais noticiavam as maravilhas que a gente ia ver


na Exposição, eu queria conhecer o Parque de Diversões, o jornal dizia que seria
um dos mais modernos, e foi mesmo, a roda gigante foi uma das maiores que
apareceu nesta cidade, tinha vários brinquedos modernos, barracas de jogos com
brindes, tinha pipoqueiro e algodão doce, eu e meus irmãos nos divertimos muito
nesse parque A iluminação elétrica do parque era muito bonita, todos ficavam
admirados com tantas luzinhas que deixavam tudo claro Quando vi a foto da
Matarazo, recordei-me que estive nesse local, onde tinha muitos brinquedos,
trenzinhos lindos”.

Através das imagens, observa-se como a Exposição foi também utilizada pelos
dirigentes estadonovistas para divulgar suas diretrizes políticas, nos discursos proferidos em
palanques armados nas ruas do Parque Treze de Maio. Em 4 (quatro) fotografias do acervo
iconográfico o tema versa sobre discursos políticos. Numa delas, Agamenon discursa, em um
palanque, com personalidades da época; usando terno branco e óculos, fala à frente de um
microfone, olhando para o público, seu olhar é sereno e determinado: os outros políticos são
interventores de outros estados brasileiros. Todos sabem que estão sendo fotografados, alguns
estão olhando para Agamenon Magalhães, outros fazem pose e olham para a câmera, todos
vestindo terno e gravata, peças do vestuário masculino sempre presentes naquela época, numa
postura que sugere altivez e formalidade. Na parte de trás e acima, em segundo plano na foto, a
fiação de energia elétrica, equivalente a um milhão e duzentas mil velas, que foi inaugurada para a
Exposição, iluminando todo o Parque Treze de Maio. A iluminação elétrica tinha sido inaugurada
um ano antes, em 1938, pelo Prefeito do Recife, Novaes Filho4. Em frente ao palanque está
escrito: autoridades, informando a todos que aquele espaço era destinado apenas a elas. (Foto-16)

4
Folha da Manhã, Recife, 14 de dezembro de 1939.p.1.
41

FOTO-16
Em outra fotografia sobre o evento, novo discurso é proferido, agora pelo
Secretário da Agricultura do Estado, Apolônio Sales, na inauguração do stand da Secretaria da
Agricultura; destaca-se o largo sorriso do Interventor de Pernambuco, demonstrando sua
alegria pelo sucesso do evento; Agamenon está de terno branco, de óculos, com o chapéu em
uma das mãos, olhando atentamente para Apolônio Sales. Ao seu lado, outros políticos, entre
eles, Waldemar Falcão, Antonio Campos de Oliveira, todos formalmente vestidos, de terno.
No lado esquerdo da imagem, há um gráfico, mais ao centro uma imagem e à direita um
arranjo de flores, provavelmente. As mulheres constituem uma personagem rara nas fotos da
exposição, devido principalmente à sua pouca participação na vida pública pernambucana,
face aos preconceitos machistas e patriarcais vigentes naquela sociedade. Contudo, percebe-se
um rosto feminino ao lado dos homens.

Na imagem eternizada do dia da inauguração do evento, Agamenon Magalhães


fez seu discurso anunciando as festas inaugurais da exposição, tendo ao lado Apolônio Sales,
de terno escuro, braços cruzados e semblante tenso; à sua direita outros políticos, como o
Interventor do Rio de Janeiro, Maurício Cunha. Agamenon mantinha uma postura firme e
determinada, um detalhe interessante é seu punho fechado sobre o palanque, revelando uma
atitude autoritária, característica, peculiar à sua personalidade. Os discursos refletiam as
ideologias antidemocráticas e anticomunistas, exaltadas pelas obras e diretrizes ufanistas5,
ressaltando uma suposta unidade do conjunto6. (Foto-17)

5
Jornal Folha da Manhã, Recife, 17 de dezembro de 1939.p.1.
6
Jornal Folha da Manhã,Recife,18 a 22 de dezembro de 1939.
42

FOTO-17
Em outro momento registrado, ainda na solenidade de inauguração, o Ministro
do Trabalho, Waldemar Falcão, discursa no parque, em um palanque armado para esta
solenidade. Ele veio a Pernambuco representando o Presidente da República, Getúlio Vargas.
Ao seu lado está Agamenon Magalhães, olhando-o atentamente, com ares de altivez; à
esquerda, Apolônio Sales, o Comissário da Exposição, A. Campos de Oliveira, e o Interventor
do Rio de Janeiro, Maurício Cunha. O ar solene e austero envolvia a todos, assim como o
vestuário formal e pomposo, tudo deveria deixar transparecer o desenvolvimento econômico
implantado pelo Estado Novo. (Foto-18).

FOTO-18
43

Em foto da cerimônia de inauguração discursa entusiasmado Apolônio Sales,


tendo à esquerda o presidente do Departamento Nacional do Café, Jaime Guedes, Agamenon
Magalhães, Waldemar Falcão e A.Campos de Oliveira. À direita está um soldado fardado,
expressando a presença da polícia política no cotidiano da população recifense, como um
símbolo de controle, inibindo qualquer ação que possa prejudicar a cerimônia. Nota-se, nas
imagens, que os palanques estão bem iluminados. O fotógrafo, Senhor Batista, prioriza foto,
as imagens dos políticos do Estado Novo. (Foto-19)

FOTO-19

FOTO-20 FOTO-21

As fotos 20 e 21 retratam, respectivamente, os Srs. Apolônio Sales, Secretário da


Agricultura, que orientou os trabalhos de organização da Exposição, e A. Campos de Oliveira, o
Comissário da Feira Industrial, que cuidou da segurança. Para James Clifford (1998), as imagens
fotográficas podem guardar histórias sobre questões de parentesco, de propriedade e outras,
relacionadas à memória social das famílias em que são produzidas. Estes registros imagéticos
44

produzidos durante um evento público têm um valor etnográfico incontestável, pois constituem
valiosa documentação para a construção antropológica e histórica das circunstâncias, no caso
presente, da cidade em que ocorreu este evento. O fotógrafo registrou, na inauguração o Hall de
Abertura da Exposição; na foto do portal de entrada, batida à noite, chamava a atenção sua beleza
e grandiosidade, uma imponente abertura dava acesso às demais dependências do evento. Nesta
majestosa entrada constava seu nome: Exposição Nacional, o ano em que começou, 1939, e em
que terminou, 1940. É possível destacar, na fotografia, vários componentes de importância
ideológica – doutrinária, característica do Estado Novo, dentre as quais as bandeiras dos Estados
participantes do evento, enfatizando o nacionalismo. Em segundo plano, um monumento
construído em homenagem ao então Presidente da República, Getúlio Vargas, e ao Interventor de
Pernambuco,. No interior, destacam-se os brinquedos e atrações do parque de diversões, que
faziam parte dos atrativos da Exposição. A foto registra o grande número de populares, militares,
autoridades, a participação de mulheres. Há iluminação em cada um dos lados do portão de
acesso, com duas colunas apresentando o mapa do Brasil, bastante iluminado.A fotografia
informa detalhes, como o grande número de visitantes à Exposição; militares, em primeiro plano,
crianças, mulheres, costume característico de uma sociedade patriarcal das décadas de 30 e 40 em
Pernambuco, a separação de grupos de mulheres conversando, e de grupos apenas de homens,
uma nítida distinção de gêneros. A imponência do portão de acesso chamava a atenção de quem
passava pelo local, a iluminação intensa e o fato da relevância dada à Exposição pelos próprios
freqüentadores, trajados formalmente. Em síntese, uma fotografia que representa o êxito da
Exposição, principalmente devido ao grande número de visitantes.

FOTO-22
45

2.2 Monumentos e Modernidade


O acervo imagético contém 15 fotografias registrando os pavilhões do evento,
dos quais um dos mais visitados foi o Anti-Comunista, um prédio pomposo, com quatro
portas de acesso, situado em frente a um dos lagos do Parque 13 de Maio. Ao seu lado
estavam hasteadas várias bandeiras do Brasil e destacavam-se os postes de iluminação. O
recinto interno continha numerosa documentação referente a idéias e práticas comunistas da
época. Havia vários quadros, com imagens contra o comunismo. Neste local foram
ministradas várias conferências, abordando temas diversos, mas todos relacionados a essa
doutrina, sempre transmitindo um discurso negativo em relação a essa teoria. As conferências
mais aplaudidas e de maior público foram as relacionadas às seguintes temáticas: O
comunismo e a destruição da família; e o comunismo e a Igreja. A representação simbólica
alcançada por este pavilhão foi surpreendente, encontram-se referências a suas conferências
em diversos documentos: Relatório do Governo, jornais, Álbum Catalogo Oficial da
Exposição Nacional. Este pavilhão representou uma das armas utilizadas pela Interventoria
para conquistar o apoio da população, estratégia que favoreceu o projeto contra o comunismo
e seus seguidores. Foi um dos símbolos da ditadura de Agamenon Magalhães, que o combatia,
no Estado, com todas as suas forças. Para aqueles que não comungavam com as idéias do
Interventor, foi uma amostra do poder autoritário e repressivo, através de uma perseguição
implacável aos comunistas e simpatizantes. Na época, o comunismo era considerado, pelo
Estado Novo, uma doutrina contra os ideais de Getúlio Vargas e Agamenon: antidemocrático,
antiliberal. O Partido, em Pernambuco, conforme Montenegro (1992, p.116), tinha uma
representativa participação no Legislativo: 9 deputados, e 12 vereadores, com princípios
liberais e democráticos, o comunismo tinha uma expressiva aceitação na classe trabalhadora.
Ciente desse fato, Agamenon organizou uma estratégia de luta contra o comunismo, que
envolvia uma propaganda contra essa doutrina, nos jornais e nas rádios, objetivando afastar os
trabalhadores das diretrizes democráticas desta teoria. Segundo entrevista concedida pelo
professor Manuel Correia de Andrade, da Universidade Federal de Pernambuco, atualmente
coordenador da Cátedra Gilberto Freyre:

“Eu assisti a inauguração da Exposição, morava na rua do


Hospício, toda noite eu ia pra lá, era aluno do curso secundário, tinha 17 anos. Eu
assisti a inauguração do pavilhão Anticomunista; havia uma paranóia muito
grande contra o comunismo, dizia-se, por exemplo, que os comunistas tomavam café
comendo crianças, e que as moças eram estupradas pelos comunistas, que eles eram
inimigos da família e tinha gente que acreditava. Este pavilhão foi um dos setores
mais visitados, por estes motivos. A Exposição foi muito rica para a época, muitos
painéis. Agora bem menos procurado foi o pavilhão dos Municípios. O professor faz
46

comentários sobre as fotografias: Eu sou do interior, era aluno do colegial,


naquela época, eu não tinha formação nenhuma. Vivia-se na ocasião o Estado
Novo, um decreto de Getúlio de 10 de novembro de 1937, que procurava salientar a
importância do Estado, da propriedade privada, da família, da religião, inclusive o
Interventor Federal, Agamenon, era um entusiasta do Estado Novo, tinha formação
de direita, então procurou reviver um pouco os Municípios, este pavilhão era
interessante também. Por exemplo, aqui tem a Usina Santa Terezinha, do grupo
Pessoa de Queiroz. Havia, em Pernambuco, três grandes usinas: a Santa Terezinha,
Catende, e a Central Barreiros, da família de Estácio Coimbra, a mais moderna de
Pernambuco. Estácio foi uma figura a quem o Estado deve, os filhos não tinham o
espírito empreendedor do pai. A Usina Pedrosa, da família de Carlos de Lima
Cavalcante, antecessor de Agamenon, e muito perseguido por ele. A Companhia de
Tecidos de Paulista, grande produtora de tecidos, situada na cidade de Paulista,
era conhecida pelos irmãos Lundgren: Artur, Frederico e Herman, esse vivia no sul,
o Artur vivia aqui e ele tinha função política no tempo de Estácio Coimbra. O Artur
chegou a ser prefeito de Olinda, eles eram muito germanófilos, na época da guerra
foram muito perseguido, porque diziam que eles davam apoio aos nazistas,e depois
Agamenon organizou um campo de concentração em Aldeia, eles eram filhos de
suecos. A T.S.A.P. era situada em plena cidade, na rua Visconde de Suassuna, do
grupo Pessoa de Queiroz. Os Pessoa de Queiroz, eram três irmãos: João, com
tecidos, Francisco, e José, dono do Jornal do Commercio. A fábrica Pilar fabricava
biscoitos e massas, da família turtor, e era localizada dentro do Recife, tenho a
impressão que ficava perto da igreja do Pilar. Esta era a fábrica Cibalena, havia
outros laboratórios como dos Vasconcelos. O que era bom, também os stands dos
estados, este do Pará chamava muita atenção por causa dos produtos que
trouxeram , sobretudo perfumes e comidas, por exemplo a essência patchouli. A
fábrica Matarazzo, na época era o maior grupo industrial do Brasil, agora a
fábrica Beija-Flor é uma fábrica formada por dois italianos, Pedro Renda e Priore,
fazia uma série de biscoitos, cereais, caramelos, ah! eu comia muitos caramelos e
ela concorria com outra fábrica famosa a FrateliVita, era uma fábrica formada por
dois italianos, era famosa por fabricar o guaraná e a água gasosa, a gasosa era de
dois tipos de limão e de maçã; minha mulher falou há poucos dias sobre outro tipos,
mas eu não me lembro. No mesmo ano tinha havido o Congresso Eucarístico
Nacional, ficou famoso porque veio o Cardeal Dom Sebastião Nunes, vieram
também os Príncipes da família Imperial, houve uma serie de cerimônias religiosas
Agamenon aproveitou para fazer um trabalho contra o comunismo; ele era terrível,
ele expulsou muita gente do Estado, era um homem muito duro. Eu fui estudante de
direito em 41, o choque entre a Faculdade de Direito e Agamenon era terrível, ele
não brincava. Na Exposição foram usadas muitas fotografias e painéis, que na
época eram muito pouco usados. Esta foi uma exposição típica para consolidar a
doutrina do Estado Novo, Agamenon queria governar por mais de vinte anos”..

Comprova-se, segundo esse depoimento, que foi empregado um uso maciço de


imagens para convencer a população acerca do crescimento econômico fomentado pelo
regime estadonovista. (Foto-22).

Através da imagem negativa do comunismo, Agamenon conquistava o apoio


político e financeiro das classes dominantes. Com esta adesão dos industriais pernambucanos,
o Interventor implantou a legislação social; os sindicatos foram controlados pela
Interventoria, que em cada um deles colocava pessoas de sua confiança, líderes sindicais que
atuavam em colaboração com a polícia política, por isso qualquer liderança nascente era logo
podada, com a caracterização de comunista. Assim o Governo vigiava os passos dos
trabalhadores, nos sindicatos, e evitava as lutas de classes, exterminando as idéias comunistas
47

que viessem a ressurgir, combatendo o comunismo, como uma ação para intimidar os
empresários pernambucanos. O Governo conseguia também o apoio financeiro dos
empresários para as obras de assistência social, utilizando os mesmos argumentos contra o
comunismo. Para conquistar a simpatia dos trabalhadores e das classes dominantes, o Poder
Central utilizava-se da demagogia política, afirmando lutar contra o lucro excessivo e a
especulação comercial. O Chefe do Governo conclamava a população para que agisse como
se cada um fosse um policial, a exercer funções policiais.

Inaugurou-se o Pavilhão Anti - Comunista, onde se encontravam


os quadros mais positivos e reais da Ideologia Vermelha, amontoado de todas as
misérias que se entronizam nas almas descrentes e nos espíritos propícios ao
materialismo exótico. O que se viu e analisou apresentado pelo Ministério da
Justiça foi o símbolo de um guante de ferro desfechado contra o Comunismo, foi a
tela rubra em se desenharam os acervos da inconstância extremista, cuja doutrina
permanece amortecida entre nós. Neste mesmo pavilhão foram apresentadas ao
público várias palestras sobre o comunismo, ministrados por professores, mestres,
políticos. Uma das mais assistidas pelo público foi a palestra intitulada A Igreja e o
comunismo, ministrada pelo professor Ruy de Ayres Bello (ÁLBUM CATÁLOGO).

FOTO-23

O cidadão fiscalizava tanto o crime como os exploradores da população, o


incentivo era constantemente veiculado pela imprensa. Com este procedimento, o Governo
transmitia a idéia de que os habitantes da cidade estavam participando da administração
estadual.

Preocupados com o crescimento desordenado das cidades e com uma crescente


massa de trabalhadores desocupados, desempregados, os dirigentes e articuladores do Estado
Novo fundamentaram suas idéias em um governo forte, centralizador e autoritário. Já os
48

trabalhadores enxergavam o comunismo como um caminho de salvação para a população sem


emprego e sem “orientação” de vida.

O projeto Estadonovista contava em aproveitar esta população de trabalhadores


com uma política social trabalhista que colocava sob o controle do Estado a organização
sindical. Entretanto, as organizações dos operários lutavam contra esta opressão. Os projetos e
obras relativos às conquistas dos proletários foram divulgados no Pavilhão do Ministério do
Trabalho, Indústria e Comércio. O registro fotográfico mostra um prédio suntuoso, em cuja
parte frontal há uma bandeira do Brasil hasteada; o prédio tem uma torre, com uma porta de
acesso no centro; de cada lado aparecem quatro janelas. No alto da torre está a bandeira do
Brasil hasteada. Há também alguns postes de iluminação. É evidente, nessa imagem, a
grandiosidade do prédio, com arquitetura moderna, uma das características estadonovistas, a
grandiosidade até mesmo nas construções, difundindo idéias de progresso e sucesso.

Para a construção dos pavilhões, Agamenon encomendou os materiais mais


modernos da época. No interior desse pavilhão estavam expostas as representações políticas e
econômicas concebidas pelo Estado Novo, as legislações trabalhistas, o incentivo à indústria e
ao comércio. O fotógrafo eternizou as áreas externas do prédio, destacando a arquitetura e o
ambiente que o cerca. (Foto-21)

Para o projeto ideológico do Governo, a construção do homem novo era uma


das prioridades, com destaque para a valorização ao trabalhador e à sua lida, principalmente
pelas transformações nas questões trabalhistas ocorridas nos anos 30 e 40, no Brasil. Nesse
período foi elaborada toda a legislação que regulamenta o mercado de trabalho no Brasil, e
trata da reabilitação, do papel e do lugar do operário no País. O Estado Novo adotava uma
política de amparo ao homem brasileiro, valorizando seu esforço, auxiliando com cursos
profissionalizantes, incentivando e reconhecendo seu desempenho, pois considerava a lida um
alicerce capaz de sustentar a economia do Estado. O ideal de justiça social é explicitado como
o ideal de ascensão social incentivado pelo Estado. A recuperação do valor social e a
humanização do trabalho eram metas que o Estado Novo deveriam atingir. A política de
valorização dos empregados estabelecida pelo Estado implicava na importância dada ao
homem do povo, que lutava para melhorar de vida, através de seus esforços e de seu ganha-
pão; a ascensão social dos operário estava relacionada à intervenção do poder público, única
força capaz de superar os problemas sociais dessa classe.
49

FOTO-24

O Governo criticava o Taylorismo, que cultuava a máquina como mais


eficiente na produção, elegia o Fordismo, doutrina que não desprezava a máquina, mas
atentava para a necessidade do trabalho humano. O Estado pretendia desmecanizar o homem
e humanizar a máquina, para resolver a questão da espiritualização da lida. O objetivo era
superar as conseqüências negativas da mecanização pela aplicação de uma organização
científica do oficio, voltada para o elemento central da produção, o operário. O Estado tem
uma visão totalistarista do exercício profissional, não distingue atividades intelectuais e
manuais, tinha o proletário, o homem do povo, como uma pessoa humana. Foram criados,
durante o Estado Novo, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e o Ministério da
Educação e Saúde, na década de 30, com o intuito de resolver e superar os problemas dos
profissionais brasileiros. Na verdade, a meta do Estado Novo era controlar as ações dos
labutadores pernambucanos, através de medidas paliativas, impondo sua doutrina por meio de
práticas educativas, para isso utilizando os grandes eventos e a propaganda política. A nova
política social do Governo tomou várias providências em relação à capacidade produtiva do
lidador, dentre elas: indenização devido à perda da saúde; indenização por incapacidade para
a ocupação; desenvolvidas pela Previdência e pela Assistência Social têm destaque os seguros
sociais, usados para preservar a saúde do laborioso. Na Exposição, esses direitos adquiridos
pelos trabalhadores, estão representados na fotografia do stand do Instituto de Aposentadoria
e Pensão dos Industriários, localizado no Pavilhão do Ministério do Trabalho, Indústria e
Comércio, onde se destacam vários políticos, entre eles o Interventor Agamenon Magalhães,
além de algumas autoridades, o stand apresenta várias maquetes e muitas fotografias,
50

demonstrando os serviços prestados por esse Instituto. Foi de grande importância a criação
desse órgão para os trabalhadores do Estado, pois lhes proporcionou garantias e direitos
trabalhistas, em caso de acidente ou morte as famílias receberiam pensão, auxílio por
incapacidade ou invalidez. Essa conquista constituiu um fato marcante do Governo Vargas.

“Por sua vez, o Pavilhão do Ministério do Trabalho reafirmou,


com dados interessantes e de certo modo impressionantes, o quanto já atinge no
acerto de nossas leis trabalhistas, amparando-se, positivamente as classes
laboriosas do País. O Pavilhão das Indústrias Pernambucanas ultrapassou a
expectativa dos mais exigentes observadores, surpreendendo a todos os visitantes,
com o que se produz atualmente em Pernambuco. Tecidos que rivalizam com o sul
do país e do estrangeiro foram expostos nos stands da Grande Exposição Nacional
de Pernambuco. Com o traço marcante do progresso que se acentua no glorioso
Leão do Norte .E o Pavilhão das Municipalidades, esboço que representa o
trabalho dos prefeitos do interior do Estado de Pernambuco, teve o seu merecido
destaque no certame. Obras de Arte – Verdadeiros surtos da inteligência bem
formada receberam aplausos de viva simpatia, suscitados pelo público em geral”
(ÁLBUMCATALOGO).

FOTO-25

Em 1930, foi consolidado o princípio da medicina social no Brasil, um


programa do Governo que envolvia os seguros sociais contra invalidez, doenças, mortes,
acidentes de trabalho, seguro maternidade, todos visando a proteção da saúde do trabalhador.
Desta forma, ele passava a ser assistido pelo Estado, que se preocupava com sua saúde física e
psíquica. A medicina social compreendia um conjunto de práticas que envolviam noções de
higiene, sociologia, pedagogia e psicopatologia. Além disso, eram feitos alguns enfoques
sanitários, visando a proteção do corpo e da mente desses indivíduos. No próprio interesse do
progresso do País, formou-se operários fortes e saudáveis, com grande capacidade de
produção, fortalecidos pela nova legislação social e sanitária, visando o crescimento
51

econômico da nação. Para Gomes (1982, p. 157), o Estado Nacional, outra denominação do
Estado Novo, por meio dessa iniciativa tentava amenizar as causas da pobreza e doença,
promovendo a satisfação das necessidades básicas do homem: alimentação, habitação e
educação. Os exemplos foram a criação do Serviço de Alimentação da Previdência Social
(Saps), em 1940, organizado pelo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários,
possibilitando vitalidade física aos profissionais. No terreno da política habitacional, foram
criadas as Ligas Nacionais Contra os Mocambos, que traduziam a preocupação do Interventor
pernambucano com as condições de moradia da população da periferia da cidade do Recife; e
os planos de construção de casas populares, desenvolvidos pelos Institutos e Caixa de Pensão
no Distrito Federal.

Outra medida adotada por Agamenon foi a realização de um processo


educativo, uma série de práticas morais e cívicas veiculadas nas escolas, centros educativos,
sindicatos e organizações, visando a construção de uma identidade cultural brasileira nova, de
um espírito concreto de nacionalidade que pudesse se sobrepor às subjetividades e
singularidades regionais e individuais, impondo formas políticas que deveriam veicular um
padrão de cultura expressando a nova imagem internacional do País: sensual e malicioso, das
frutas tropicais, e da vestimenta da baiana,”reconhecido pelo seu lado folclórico, pelo
berimbau e pelo pandeiro”(ORTIZ, 1991, p. 204). A valorização da natureza, das riquezas
nacionais, do povo fraterno, afetivo, mostrava uma união entre as desigualdades sociais. Estes
Projetos foram apresentados nos discursos realizados na Exposição.

O projeto do Governo buscava a modernização e urbanização das capitais dos


Estados. Em Pernambuco, a questão urbana e social estava sendo priorizada, mas uma outra
questão também se destacou, a indústria, que necessitava de desenvolvimento nos moldes do
capitalismo.Uma entre as que mais cresceram foi a do turismo, que expunha a imagem do
Brasil exótico, não demonstrava as misérias e as obsoletas infra-estruturas urbanas das
cidades do País. Nesse sentido, a Exposição representou uma vitrine, exibindo, em seus
pavilhões e stands, os projetos de modernização e urbanização criados pelos dirigentes do
regime estadonovista, para desenvolver política e economicamente o País. O urbanismo
estava sendo implantado no País desde 1930, consistia na criação e recriação das cidades. No
Recife, houve a demolição do bairro de Santo Amaro, dando lugar a uma larga avenida, então
denominada 10 de Novembro, hoje conhecida como Avenida Guararapes. Visando a
remodelação da cidade, da capital, foram feitos o alargamento e calçamento de ruas, a
substituição dos paralelepípedos por asfalto, a abertura de avenidas. A municipalidade
52

promovia uma série de aquisições de terrenos, desapropriações e demolições de bairros: Santo


Antônio, São José e Santo Amaro. A urbanização de ruas e praças, com arborização nestes
locais. A reforma do bairro de Santo Antônio é demonstrada na imagem, em sua maquete,
onde se nota o prédio dos Correios, a avenida Guararapes, o Prédio do Trianon, a ponte
Duarte Coelho e o rio Capibaribe. Há também um mapa, com o projeto de pavimentação da
avenida Caxangá, e outro mapa com o plano de reforma do centro do Recife. Há ainda
algumas fotografias do centro da Cidade. Um grupo de alunos de escolas aparecem estudando
as reformas propostas pelo plano de urbanização da capital pernambucana.(FOTO-26)

FOTO-26

A urbanização da cidade do Recife contou com a participação de engenheiros,


urbanistas e sindicatos dos engenheiros, da Great Western (ferrovia), da Tramways
(Companhia de Energia e Transportes), do saneamento, do porto, da saúde pública e da
Prefeitura. “Os jardins foram cuidados pelo paisagista Roberto Burle Marx, que floreava o
Recife de flamboyants, baraúnas e bougainvilles. A Prefeitura cedia espaços a comerciantes,
um exemplo disto foi a casa Sloper, localizada na esquina da rua Nova com a rua da Palma,
no bairro de Santo Antônio” (GOMINHO, 1998, p.87). A modernização continuava,
substituindo antigos sobrados e igrejas históricas por novas vias de tráfego e altos e modernos
edifícios, como o prédio do antigo Grande Hotel, onde funciona atualmente o Fórum de
Justiça, situado às margens do Capibaribe, lugar nobre naquela ocasião, considerado moderno
para a época.
53

Foi editado o Guia da Cidade do Recife, para propagar a modernidade


crescente da cidade e incrementar o turismo no Estado. Surgiam novas vias de tráfego e altos
e modernos edifícios, como o Grande Hotel, no Recife Antigo, obra realizada durante a
Interventoria. Foi encorajado o setor de material de construção, como é o caso das olarias,
visando o fabrico de tijolos para as edificações e construções populares e concedidos
incentivos aos investimentos: redução ou isenção de taxas e impostos para construtores de
habitações populares e para a classe média. Neste período de interventoria de Agamenon,
foram construídos os edifícios Duarte Coelho, na Avenida Conde da Boa Vista, e, neste, o
cinema São Luiz, O edifício Ouro Branco, na rua Nova, e o alicerce do edifício dos correios e
telégrafos, na avenida Guararapes.

O Prefeito do Recife, Novais Filho, durante a administração de Agamenon


Magalhães construiu obras de aterro, de pavimentação e urbanização, arborização urbana,
reformas de jardins, pontes e pontilhões como: o Parque 13 de Maio, a ponte Duarte Coelho,
urbanizou a praia de Boa Viagem, estendeu a iluminação pública, a edificação das vilas populares,
iluminou o Capibaribe e concluiu, em 1944, a substituição da energia a gás pela elétrica.

Novaes Filho ativou a Comissão do Plano da Cidade, presidida por ele e pelo
Diretor de Obras Municipais, representantes da Secretaria de Viação e Obras Públicas, do
Instituto Arquitetônico e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco,
da Associação da Imprensa, do Estado Maior de 7a. Região Militar, do Departamento
Nacional do Saneamento, da Escola de Belas Artes. A Comissão revelou o interesse em
resguardar a face histórica do Recife, sendo construídas a estação central na Praça das Cinco
Pontas e a avenida Dantas Barreto (GOMINHO, 1998, p. 100).

A Prefeitura do Recife foi representada na Mostra Industrial por um Pavilhão


que também foi fotografado e compõe a coleção. (Foto-27). No momento da fotografia, o
pavilhão estava todo iluminado, situação que acontecia em todas as noites do evento.
Simbolizando a iluminação elétrica, modernização, a arquitetura implantada pelo prefeito do
Recife, Antonio Novais Filho, o prédio apresenta uma arquitetura arrojada e requintada para a
época. No interior do pavilhão encontravam-se as obras realizadas pela Prefeitura, exibidas e
expostas em maquetes, fotografias, painéis, quadros, gráficos. Na parte central do pavilhão
pode-se avistar uma cúpula imponente, toda decorada e iluminada. Nesta cúpula há uma porta
de entrada, na parte central; o pavilhão tem quatro janelões do lado esquerdo, quatro do lado
54

direito, além da porta de entrada. Esse pavilhão foi um dos mais visitados e admirados da
Exposição, conforme atestam os jornais da época.

FOTO-27
O pavilhão da Prefeitura salientou o dinamismo do Prefeito do
Recife Novais Filho, nas mais fortes realizações do seu período administrativo
dotando-nos de uma capital que progride e que se civiliza aos olhos de todo os
visitantes.Tivemos igualmente o Pavilhão das Indústrias e Comércio, cuja
finalidade alcançou o mais completo êxito, expondo uma diversidade de produtos da
indústria e do comércio e seus mostruários belíssimos. O que é produzido é o que
demonstra o trabalho incessante dos brasileiros, na ânsia incontida de positivar a
capacidade do nosso povo, os seus mostruários bem o disseram durante os dias
decorrentes da Exposição. Não menos merecedores de justa menção, tornaram-se
os Pavilhões do Norte, do Nordeste e dos Estados do Sul, reafirmando o indiscutível
valor dos que representam o Governo da República nas diversas partes do Brasil,
solidificando o prestígio da nossa cultura (ÁLBUM CATALOGO).

A prefeitura criou, em dezembro de 1937, a Diretoria de Reeducação e


Assistência Social, e a Cruzada ou Liga Social Contra o Mocambo, sociedade civil,
supervisionada pelo município e que tinha como presidente de honra Agamenon Magalhães,
cujo stand se encontrava no Pavilhão da Prefeitura do Recife. O fotógrafo retratou este stand,
enfatizando um painel com os nomes dos sindicatos e o número de empregados e
empregadores pertencentes a esta entidade, um grupo de políticos, engenheiros e o Interventor
de Pernambuco, de perfil, ao seu lado o Ministro Waldemar Falcão, pousando para a foto.
Alguns políticos estão olhando para o painel, e outros integrantes da Cruzada Social Contra o
Mocambo estão pousando para o fotógrafo, todos de terno (Foto-28).
55

FOTO-28

O acesso à casa própria era uma questão relevante para o Estado, porque
implicava na tranqüilidade coletiva e no amparo à família. Essa era a base moral do homem.
O Governo voltava-se para a população, enfocando a linguagem como meio de atingí-la, de
chegar ao homem. E ter uma casa, um teto, era o sonho do trabalhador brasileiro. A questão
da habitação e dos mocambos foi tratada pelo Estado Novo como urgente, no sentido
nacionalista, patriótico, reeducativo. Outros governos já haviam se preocupado com esta
realidade dos Mocambos, mas foi nesta administração que o tema foi incrementado, sendo
ativados vários órgãos para o combater o problema e para a criação de vilas operárias.
Algumas decisões envolviam providências como o aterramento dos mangues e alagados.

A solução para a questão social em Pernambuco passava pela Cruzada Contra o


Mocambo. Fundada em junho de 1939, a Liga Social Contra o Mocambo era composta pela
Prefeitura, Governo do Estado, engenheiros, empresários do comércio e da indústria e o
proletariado, universitários, imprensa e classe artística; cada um com função própria e
compondo várias comissões. A luta contra os mocambos era fortalecida pela Igreja Católica,
como questão de caridade cristã, e pelo projeto organizado e estruturado de Agamenon, em
substituir os mocambos por vilas populares, através de campanhas de reeducação de seus
habitantes, para que aceitassem a solução imposta pelo Governo e concordassem com o projeto
de intervenção na cidade, para melhoria da vida da população. Magalhães elevou os salários dos
engenheiros para 1.410 contos de réis; eram considerados os operários do progresso estes
construtores de habitações decentes para os moradores sofridos dos mocambos. O Governo
56

encomendou uma pesquisa, para saber a quantidade de casebres existentes na cidade do Recife,
além de incluir informações sobre o perfil econômico e social dos seus habitantes e
proprietários. Foi criada, em 1938, a Comissão Censitária dos Mocambos do Recife, cujos
trabalhos seriam desenvolvidos em conjunto com a Prefeitura do Recife.

Em 1938, na mesma época, realizou-se a III Semana de Ação Social,


promovida pela Ação Social Católica, com o intuito de colher informações sobre as condições
de vida do operariado urbano e rural, os serviços assistenciais do Estado e a aplicação das leis
trabalhistas. Tanto a Comissão Censitária quanto o Grupo de Ação Social concordaram sobre
a predominância de mocambos de taipa cobertos de palha, mas discordaram sobre seus
habitantes. O relatório da III Semana de Ação Social destacou o problema habitacional.
Seguindo os argumentos de Gilberto Freyre e Josué de Castro, o relatório sugeriu que o
mocambo poderia existir, mas com as devidas medidas sanitárias, fato que chegou a ocorrer,
mas sem divulgação, pois não representava a tão desejada extinção dos mesmos, nem um
investimento promissor como as casas de alvenaria. Com o resultado apurado no inquérito da
Comissão Comunitária, a Prefeitura e o Estado agiram com a confirmação da existência de
uma população trabalhadora com o poder aquisitivo favorecido, com a implantação do Salário
Mínimo; foi então viabilizado o oferecimento das habitações (GOMINHO, 1998, p. 112).

Na imprensa, os artigos de Agamenon, na Folha da Manhã, e de outros


jornalistas, enalteciam a campanha contra os mocambos7. Entretanto, ocorreram violentos e
implacáveis desalojamentos dos seus habitantes, não noticiados pelos jornais do Governo.
Muitos moradores tiveram suas casas derrubadas e foram obrigados a voltar para o interior do
Estado, outros se aventuravam para o sudeste, São Paulo e Rio de Janeiro, e outros se abrigaram
nos morros do Recife. Algumas benfeitorias, contudo, foram realizadas pela Liga Social Contra
os Mocambos. A cidade foi iluminada, ganhou energia elétrica, água, transporte e escolas.

Esta mobilização e empenho em corrigir a situação dos mocambeiros era uma


determinação do presidente Getúlio Vargas, que envolvia recursos decretados por Vargas, no
intuito de viabilizar os rendimentos a Caixa de Aposentadoria e Pensões e do Instituto
Nacional de Previdência para financiar moradias a seus associados. A campanha da Liga
Social Contra o Mocambo serviu para os industriais construírem vilas para seus operários;
estes recebiam doações de terrenos para a construção das vilas. Assim, foram construídas as
Vilas das Lavadeiras, Vila das Costureiras e a Vila Popular da Macaxeira, dentre outras.

7
Folha da Manhã, 10 de setembro de 1939. p.3.
57

2.3 Alteridade na Exposição Nacional


No setor industrial, o Recife possuía, nos anos 30, 1.148 empresas de pequeno,
médio e grande porte, nos mais variados ramos de atividades e serviços (GOMINHO, 1998, p.
27). Em valores produzidos e número de empregados, destacavam-se as indústrias de tecidos,
de óleos, sabão, doces, chocolates, caramelos, farinha de trigo, curtume, biscoitos, massas
alimentícias, bebidas, móveis, fósforo, dentre muitas outras. Algumas dessas fábricas estão
representadas nas fotografias da Exposição. A imagem apresenta o stand da Companhia de
Tecidos de Paulista, fundada em 1892, por José Adolfo Rodrigues de Lima, e posteriormente
incorporada à Companhia Fiações e Tecidos de Pernambuco. O stand foi organizado de forma
belíssima, com vários rolos de tecidos espalhados, de estamparias variadas e tecidos lisos,
finos, uma manequim, usando vestido estampado, o mapa do Brasil, destacando as cidades
onde existiam filiais da fábrica. Havia ainda um painel representando a matriz de Paulista, e
informações nas paredes, sobre o fornecimento de tecidos para as Casas Pernambucanas. A
diversidade de tipos e estamparias fez deste stand um dos mais elogiados da Exposição,
segundo o Álbum Catálogo Oficial do evento.

FOTO-29

O valor das indústrias têxteis para Pernambuco é indiscutível, sua qualidade era
apreciada no estrangeiro, esta indústria estava bem equipada e era bastante empreendedora. O
destaque reservado pela Interventoria para estas fábricas, nos jornais foi intenso e amplo. Os tecidos
participavam do cotidiano das populações de várias condições sociais, eram produtos de uso
popular, com uma qualidade superior aos similares. Apenas as tecelagens empregavam, em 1931,
58

cerca de 5.463 operários, distribuídos entre doze companhias; destes, 1.232 eram da Companhia de
Fiação e Tecidos de Pernambuco, e 1274 trabalhavam nos três cotonifícios de Othon Bezerra de
Melo, em Apipucos, Siqueira Campos e rua do Muniz (GOMINHO, 1998, p. 29).

FOTO-30
A fotografia representa o stand da Tecelagem da Seda e do Algodão de
Pernambuco (T.S.A.P), onde se destacam amostras de alguns tecidos de seda, com variadas
cores, uma manequim com uma saia em várias tonalidades. O requinte do stand chama a
atenção, devido à diversidade dos mostruários. A indústria têxtil era um dos pilares da
economia de Pernambuco e seus produtos eram exportados para outros países e estados do
Brasil, devido à sua altíssima qualidade e valor. No stand, destaca-se a beleza dos tecidos, o
luxo, e percebe-se que se destina à classe alta da sociedade, políticos, senhores de engenho,
intelectuais, para serem usados em ocasiões de festas e comemorações. No stand ainda estão
espalhadas tiras de tecidos, e uma cortina de seda, em segundo plano, como decoração. Bem
evidente, do lado esquerdo, o brasão da T.S.A.P.

No stand da fábrica Pilar, de biscoitos e massas (foto-31), se observa um imenso


painel, ao centro, com o desenho do prédio da fábrica, com a palavra progresso na frente. Do lado
direito, as figuras de um homem e duas mulheres trabalhando na agricultura, as mulheres carregando
trigo, e o homem trabalhando na terra, imagem indicativa da valorização do trabalho e do trabalhador,
enfatizada pela Interventoria. Acima do desenho está escrito a palavra vitalidade. No lado esquerdo
está a figura de uma mulher, com o busto nu, cercada de vegetação típica do Nordeste, palmeiras,
cactos, a palavra em destaque é beleza, que sobrevive à diversidade do clima. A mensagem visual e
59

verbal envolve a idéia de progresso, vitalidade e beleza, representada na produção de massas e


biscoitos. A indústria significando progresso, a vitalidade produzida pelo alimento, massas e biscoitos,
representados pela matéria-prima trigo e pelo trabalho, beleza destacada nas embalagens e no próprio
produto. No stand estão expostas latas de biscoitos, dos vários tipos fabricados pela Pilar, embalagens
bastante decoradas em madeira e as latas de alumínio, uma matéria-prima de vanguarda, que veio para
conquistar o espaço da cerâmica e do ferro como materiais mais resistentes e bonitos; no stand ainda
se destaca o nome Pilar, entre as latas de biscoitos, três casinhas em miniatura em estilo europeu. As
embalagens são decoradas com vários temas, paisagens de Pernambuco, figuras de índias, de casais,
rostos de crianças, flores, etc, com ênfase no artesanato. O painel, ao destacar a produção do trigo,
matéria- prima de importação, associa a produção das massas e biscoitos de requinte europeu à região
Nordestina e à economia de Pernambuco.

FOTO-31

FOTO-32
60

A fotografia reproduz o stand da Fábrica de Sabão, onde estão distribuídos, em


prateleiras, os utensílios de limpeza produzidos, nota-se os produtos prontos em três
prateleiras, também formando pirâmides de diferentes tipos de sabões amarelos, azuis e
pretos. Um painel, em primeiro plano, traz a figura de uma barra de sabão amarelo. No stand
está escrito o endereço da fábrica e o ano de sua inauguração, 1864, em letras garrafais,
afirmando ser a mais antiga do Recife. Caixas dos sabões estão no chão, e uma em cima de
um banco, no centro da imagem.

As fábricas e indústrias foram muito bem representadas através de seus stands,


sendo ressaltada a importância do sabão, um produto bastante utilizado no cotidiano da
população, na limpeza das casas e dos vestuários, numa época em que não existia grande
variedade de produtos de limpeza, como atualmente.

FOTO-33

A fotografia retrata o stand da fábrica Cibalena, destacando-se, em primeiro


plano, um painel com o prédio da indústria, ruas, casas e edifícios. O stand está composto
também por duas prateleiras, com frascos, garrafas e embalagens de medicamentos para
várias enfermidades: gripe, dores, anemia, tosse, o “ferrophytina”,para a anemia, o phytina,
que aumenta a atividade física e cerebral, o resyl, para gripe e bronquite, e a cibalena, para
dores, que também é sedativo. Há ainda folhetos explicativos sobre as enfermidades e
medicamentos produzidos pela indústria.
61

O desenvolvimento das indústrias e fábricas de medicamentos reflete o


crescimento da cidade do Recife, como um centro industrial, demarca a mudança e o valor de
hábitos, a maquinária substituindo as produções caseiras. Estes stands simbolizando fábricas
evidenciam o destaque dado pela Interventoria, e pela própria Exposição, à preservação da
saúde da população, principalmente dos operários e dos trabalhadores da indústria e comércio.
Trabalhador sadio contribui melhor na produção.

FOTO-34

A fotografia representa o stand da fábrica Frigidaire, de geladeiras, para


conservação de alimentos, expondo algumas unidades em tamanhos e modelos diversos. Na parte
de cima da geladeira, decorando-a, está a figura de um pingüim de louça, representando as
temperaturas baixas do Pólo Norte, o frio intenso. Há um móvel ornamentado e decorado com a
figura do pingüim. A decoração é singela. O desenvolvimento e a facilidade trazidos pelas
geladeiras para o cotidiano das donas de casa e para as comunidades em geral foram
transformações sensacionais, que representa o progresso trazido pela fábrica de geladeiras para a
vida das pessoas. Na Exposição, este stand foi destaque e fez bastante sucesso. Em segundo plano,
na foto, há o stand da Adolpho de Figueroa, distribuidores, apresentando rádios, brinquedos, uma
manequim, objetos do cotidiano da sociedade recifense naquelas décadas.

A imagem reproduz o stand da Metalúrgica Matarazzo, uma indústria de


alumínio e derivados. Como destaque, o próprio valor das metalúrgicas, para a época, pois
significavam uma tecnologia de ponta, proporcionando inúmeros benefícios para a população,
62

no seu cotidiano. No stand estão diversos objetos e utensílios domésticos e industriais. Pode-
se enfatizar a grande importância do alumínio para o comércio, pois, na época da exposição,
era largamente utilizado em diversas embalagens de produtos, como óleos de cozinha,
alimentos e materiais de limpeza. Outro destaque do alumínio foi com relação aos utensílios
de cozinha; sua utilidade era inquestionável, quase todos eram fabricados em alumínio, desde
a caneca até o bule, passando pela chaleira, caldeirões, leiteiras, frigideiras e jarras.

FOTO-35

O stand ainda apresenta uma variedade de brinquedos, os meios de transporte,


mais modernos da época, armamentos, jogos, utensílios domésticos; fogões de cozinha, o
stand está localizado no Pavilhão da Indústria e Comércio.

Podem-se observar, ainda, embalagens de produtos comestíveis, junto aos


objetos domésticos e as embalagens de produtos de limpeza e combustível. A fotografia
mostra a imagem de um Brasil moderno, no cotidiano da indústria e do transporte. O
documento é importante para o estudo da utilização de novos materiais e criação de um
novo estilo de vida. Demonstra a produção dos utensílios domésticos pela indústria, em
detrimento do artesanato.Vale salientar que a metalúrgica significa um avanço técnico,
principalmente com a construção da usina siderúrgica de Volta Redonda, marco inicial da
industrialização brasileira.
63

FOTO-36

A fotografia expõe o stand da fábrica Beija-Flor, fundada por Pedro Renda;


apresenta produtos alimentícios: cereais, arroz, feijão, café, latas de produtos; tonéis,
caramelos, em belíssimas embalagens, latões, fotografias, embalagens coloridas enfileiradas
em prateleiras, móveis, estantes, máquinas. No Estado Novo, a busca por um Brasil moderno,
industrial, favoreceu eventos ufanistas, como a Grande Exposição Nacional.

FOTO-37

A imagem fotográfica representa o stand da Têxtil Organização do Norte e


Indústrias Previlegiadas, com uma variedade enorme de representações agrícolas, industriais e
64

comerciais, como: estopas de todas as qualidades, colchões de fibra vegetal, polidores


brilhantes, algodão, pólvora, produtos têxteis em grande escala; palma da seda e fibras em
geral. Pode-se ver na foto, alguns políticos: Agamenon Magalhães em primeiro plano,
trajando terno branco, usando um par de óculos de grau; ao seu lado, Apolônio Sales, dentre
outros, todos de terno branco, alguns segurando o chapéu. Duas mulheres aparecem na foto,
uma logo à frente do restante das pessoas e a outra entre os homens, ambas trajando vestidos
estampados, bem penteadas e usando os adereços da época.

FOTO-38

A fotografia exibe um pavilhão em formato de uma lata de tinta com alça, as


tintas Ypiranga, do tamanho de um prédio. Este surpreendeu a todos, por exibir uma técnica
de construção inovadora para a época. Estavam escritas, na lata, várias informações sobre esta
indústria. Na parte de cima do pavilhão, a figura de um pintor de parede, com um pincel na
mão, o nome Ypiranga e o rosto de um índio. Na frente do prédio, alguns móveis. Esta
fábrica, sediada na cidade do Rio de Janeiro, trouxe amostras de tintas e esmaltes. A foto
apresenta ainda árvores e postes de iluminação, transmitindo uma mensagem de progresso,
65

desenvolvimento e tecnologia avançada, princípios defendidos pelo Governo. As fábricas de


tintas trouxeram beleza e requinte, tanto para residências como para os prédios públicos.

As empresas mais desenvolvidas de Pernambuco exibiram seus produtos em


stands situados no Pavilhão das Indústrias Pernambucanas, com cerca de 146 empresas no
total, documentadas na coleção fotográfica estudada.

FOTO-39

A fotografia mostra, em primeiro plano, um dos lagos do Parque Treze de


Maio, apresentando, em sua superfície, algumas plantas aquáticas. Em segundo plano, vários
coqueiros e, por trás, o Pavilhão das Indústrias Pernambucanas; registrado externamente, a
arquitetura é arrojada e as dimensões grandiosas, característica das construções do período
político discutido. (FOTO-27). O crescimento da economia foi intenso, gerado principalmente
pelo desenvolvimento das indústrias e do comércio, setores que trouxeram para a Feira um
total de 146 estabelecimentos pernambucanos, entre fábricas, lojas, e indústrias.

2.4 Doutrina e Educação


O projeto de Agamenon não se restringia à política ou à economia, pretendia
reformar as mentes dos cidadãos. Diversos campos da vida diária, especialmente no Recife,
foram objeto de mudanças. Assim, o Departamento da Educação foi transformado em um
órgão controlador e irradiador do novo projeto pedagógico e imagético, que deveria imprimir
o ideário estadonovista, mudando a mentalidade do povo; através de um processo
66

hegemônico, a escola tornava-se um elemento divulgador do ideário estadonovista, realçando


as virtudes cristãs e patrióticas das crianças e combatendo o comunismo. A infância recebeu
um tratamento especial durante a Mostra industrial: além do parque de diversões, destinado a
seu entretenimento, a Interventoria organizou visitas de grupos de crianças das escolas
primárias do Recife, para enriquecer seus conhecimentos em relação à cultura local e regional.
A fotografia exibe uma máquina de desfibrar o caroá, uma fibra vegetal típica do Sertão
nordestino, usada para fazer cordas, sacarias e tecidos em geral. O aproveitamento da fibra é
feito por extrativismo, sua indústria chegou a ser uma atividade promissora em Pernambuco,
nas décadas de 30 e 40, recebendo incentivos especiais do Interventor, cujas diretrizes
políticas incluem o desenvolvimento da economia do Sertão nordestino. Na foto, um grupo de
crianças de escolas primárias do Recife manuseando as fibras do caroá, todas em uniforme
escolar. Aparece ainda, um painel com gráficos do município de Alagoa de Baixo, com as
obras ali realizadas pelo Estado Novo. (Foto-40)

FOTO-40

O crescimento econômico trouxe a fundação de várias escolas, entre elas a


Escola Doméstica de Pernambuco, atendendo a clientela feminina, e o Internato Profissional
Cinco de Julho, para jovens delinqüentes. A política estadonovista buscava sanar os males
físicos e morais da população, pelo menos no discurso áudio-visual defendido pela imprensa.
A alimentação do trabalhador constituía uma das preocupações do Interventor de
Pernambuco, que encomendou pesquisas visando oferecer-lhe um cardápio balanceado. Uma
das medidas foi a implantação de refeitórios nas fábricas, cujo cardápio era assinado por Josué
67

de Castro. Na Exposição, também foi construído um refeitório para os funcionários que


estavam trabalhando no Parque. (Foto-41)

FOTO-41

No entanto, a principal preocupação era o combate ao comunismo, que poderia


desvirtuar os trabalhadores e infligir idéias de democracia e de uma luta de classes.
Agamenon inovou o contexto de participação operária no Governo, com os Centros
Educativos Operários, criados por um grupo de católicos. Nestes centros o operariado fazia a
educação primária, secundária e profissional, educação social, trabalhista e cívica; ofereciam
também assistência médica e dentária. O objetivo prioritário dos centros era orientar os
setores das classes trabalhadoras mais atingidos pela propaganda comunista, para uma estreita
cooperação com o poder público. A idéia principal dessa obra de assistência social era realizar
um trabalho de saneamento e profilaxia da sociedade, ela deveria ser, em última instância, um
obstáculo à luta de classes (GOMINHO, 1998, p.112). Era um plano de reeducação e
assistência social para as classes trabalhadoras. Espalhavam-se pela cidade informações sobre
os cursos profissionalizantes, as salas de costuras, os cursos de literatura e economia do lar.
Os centros educativos operários cultivavam o aperfeiçoamento técnico e uma maior
identificação dos operários com seus próprios interesses, como a preparação de donas de casa,
num trabalho de reeducação da família, e de seu papel na sociedade, a criação de bons hábitos
e o exercício de uma profissão. O escoteirismo era bastante utilizado pelos centros operários.
Agamenon ordenava que as prefeituras da capital e do interior organizassem o escoteirismo
como fonte de patriotismo e conduta cristã ideal para os futuros cidadãos.
68

A Exposição Nacional, assim como outros grandes eventos organizados pela


Interventoria, tinham o objetivo de doutrinar, educar e disciplinar a sociedade. Para consolidar
esta estratégia, o Governo contou com o apoio das classes artísticas, principalmente cantores,
músicos, atores de teatro e do rádio, considerados valiosos instrumentos de propaganda
política. Os que não apoiavam e comungavam com as idéias do Estado Novo eram
reprimidos.

A indústria foi bastante favorecida com a entrada do Brasil na Segunda Grande


Guerra: ganhou incentivos do Governo Vargas, que fez um acordo com os países aliados,
principalmente os Estados Unidos: Vargas cedeu as Bases Militares do Recife e de Natal para
os aliados e, em troca, recebeu apoio financeiro para a construção da Usina Siderúrgica de
Volta Redonda.

O Brasil entrou na Segunda Grande Guerra Mundial e passou a fabricar


alimentos e utensílios em um ritmo nunca visto antes. No Recife, Agamenon incentivava o
trabalho exaustivo dos operários, em um grande ideal de patriotismo e doação de sacrifícios à
pátria, desta forma a indústria foi incentivada e ganhou espaço em Pernambuco. A guerra
inicialmente foi, na verdade, mais um alicerce para a edificação do Estado Novo no Brasil. A
participação dos soldados brasileiros na guerra teve uma repercussão nacional, movimentos
de patriotismo e civismo eram registrados por todo o país. As músicas eram compostas para
levantar o moral dos soldados e da população em geral. A escassez de produtos alimentícios
provocou o racionamento e o controle dos preços.
69

3. ANTROPOLOGIA: CONTEXTO E FOTOGRAFIA


Revivendo a memória da Exposição Nacional, através das fotografias, percebe-
se o contexto social da época. Barthes (1984) destaca, nas fotografias, seu valor interpretativo
e rico de subjetividade. De um modo geral, ele cria pontes de significados com elementos
específicos da fotografia, certos detalhes, a partir de suas experiências subjetivas,
possibilitando leituras que vão além do estudium, expressos na percepção do contexto social
em que foi tirada a fotografia, evocando camadas mais profundas da memória. O autor
enfatiza a riqueza etnográfica contida nas fotografias de eventos, acontecimentos, lugares,
pessoas, de família, de instituições, comunidade e outras.

As iconografias são fontes de análise e interpretação da realidade social; como


afirma Alegre (1998), a iconografia gerada pelas artes plásticas e pelas artes gráficas (pintura,
desenho, fotografia, computação gráfica e escultura) representa um leque de amplas
possibilidades no campo antropológico, como fonte documental capaz de captar e analisar a
realidade. Abre-se uma nova área interdisciplinar, em que o antropólogo procura interpretar as
peculiaridades da linguagem visual para analisar os efeitos das imagens sobre a vida social,
seu lugar nas representações e nos sistemas simbólicos, bem como discutir as implicações da
disseminação do uso das imagens, as suas funções no mundo contemporâneo, o valor dos
meios técnicos de produção e reprodução visual, entre outros., O destaque para a utilização
das imagens nas ciências sociais reflete vários empregos desses registros visuais, na análise,
interpretação da realidade, do cotidiano e dos eventos, sociais, políticos e econômicos, como
representações do conhecimento antropológico, sociológico e histórico. A antropologia
utiliza-se de técnicas para agrupar esse conhecimento e explicitar como os outros representam
a si mesmo e ao outro nas imagens.

Considero relevante mencionar como Bronislaw Malinowski (1922) realizou


seus estudos etnográficos através de registros visuais, fotografias e do diário de campo. Ele
relaciona seus textos com os registros pictóricos e chegou a afirmar que foi com as fotografias
que escreveu seus textos, documentando toda a vida e cultura dos nativos das ilhas Trobiam,
utilizando fotografias, desenhos e mapas, e por meio delas desenvolveu suas descrições e
interpretação dessas culturas.

Citei Malinowski como exemplo para justificar a importância do uso das


fotografias como objeto de estudo etnográfico e interpretativo das culturas, situando como
70

meu objeto de estudo as imagens da Grande Exposição Nacional (1939-1940), que


representou, na época, para a Interventoria, um avanço em termos de organização,
empreendimento, público visitante e, sobretudo, da propaganda, veiculada pelos jornais,
rádios e revistas. Foram expostos aspectos da cultura material e social, o comportamento, o
folclore e representações de quase todas as prefeituras do Estado de Pernambuco, nos stands
que enfatizavam a cultura, os produtos da economia e da indústria, prestigiados e fortalecidos
pela presença de todas as regiões do Brasil em stands e pavilhões. Utilizei, como ponto de
estruturação na pesquisa, a descrição e interpretação iconográfica dos aspectos culturais dos
representantes pernambucanos e brasileiros na Exposição, a diversidade dos grupos sociais
que compuseram essas diversas culturas.

Segundo Benjamin (1994), as novas tecnologias estão se sobrepondo aos


homens, às suas experiências, às suas tradições e aos seus valores morais e éticos. A
tecnologia desumaniza o homem e menospreza as bases culturais da sociedade moderna.
Benjamin analisa como a falta de experiência no homem, rodeada de tecnologia, torna-o
pobre de sentimento, de experiências, de valores que possam ser transmitidos de pai para
filho. Diante dessas reflexões de Benjamin faço uma relação com a importância da
preservação e continuidade das experiências da cultura, dos valores morais e éticos, sobretudo
em eventos, como exposições, onde são expostas parcelas da vida e da cultura das pessoas e
das regiões, características culturais que precisam ser conservadas, por exemplo: o folclore, as
histórias infantis, o artesanato e as danças e culinária típicas de cada região, e tantos outros
aspectos fundamentais para a sociedade moderna.

Para Mead (1999), não bastaria somente falar e discursar em torno do homem,
apenas descrevendo. Chegou a hora de expô-lo, mostrá-lo, torná-lo visível, para melhor
compreendê-lo e conhecê-lo. Esta autora serviu de suporte a esta pesquisa, na sua análise e
interpretação das culturas. Moreira Leite (1998), em sua análise sobre fotografias, sobretudo
sobre famílias relacionando essas imagens ao contexto histórico da época, foi outra autora
bastante consultada nas interpretações fotográficas deste trabalho.

Em relação ao valor interpretativo das imagens fotográficas, menciono uma


análise Peixoto (1995) sobre o estudo da socialização de velhos em parques públicos, os
espaços públicos: praças, parques e jardins funcionam como espaço de sociabilidade, onde se
desenvolve a relação social, cria-se um sentimento de pertencimento a um espaço territorial
determinado. Os espaços públicos de lazer representam um cenário propício para desenvolver
71

relações sociais entre os freqüentadores, um cenário ao ar livre onde várias camadas e classes
sociais se encontram e se relacionam. No exame das imagens fotográficas ou/e
cinematográficas pode-se expor relações sociais desenvolvidas nos parques e praças, verificar
o desenrolar das atividades realizadas pelos personagens sociais. O estudo dessas imagens
revela momentos únicos. É o instante captado que dá conta da realidade. O registro
fotográfico traz “o algo mais” que a observação a olho nu muitas vezes não percebe ou deixa
escapar. Na análise dessas imagens afloram os sentimentos saudosistas, sobretudo de pessoas
que, hoje na faixa da terceira idade, reconhecem lugares, amigos já falecidos, produtos
extintos, fragmentos do cotidiano de suas vidas, revividas através da memória social contida
nestas imagens. As imagens fotográficas atuam também como instrumento de rememoração
de outro tempo, do passado longínquo. Relacionando estes aspectos com a riqueza etnográfica
contida em fotografias e coleções de eventos ocorridos em parques ou praças públicas,
destaco a importância interpretativa destas imagens como resgate da memória social destes
eventos e, principalmente, como análise etnográfica.

Godolphim (1995) identificar, como uma das características da mensagem


etnográfica: apresentar descrições de realidades discursivas. A descrição deve ser uma
narração descritiva, uma percepção da cultura descrita por verossimilhança. Com isto, a
incorporação das fotografias deve ocorrer de forma similar, pois as fotos não só podem ajudar
na descrição, como de fato reconstituir o “clima” das situações vivenciadas, nas cores em que
elas se apresentavam, criar um ambiente de probabilidade e persuasão. As imagens não só
revivem um estar lá, mas sedimentam os alicerces do caminho da descrição e interpretação e
auxiliam na articulação das tramas de indução, ajudam na compreensão das interpretações.
Nesta perspectiva, a imagem não meramente ilustra o texto, nem o texto explica a imagem,
ambos se complementam, concorrem para propiciar uma reflexão sobre os temas em questão.

Considerando a peculiaridade das imagens fotográficas, o seu uso na pesquisa


de campo não pode se ater unicamente no seu caráter documental, ou a análise do conteúdo da
imagem, deve-se considerar especialmente o processo imagético e o processo de atribuição de
significados produzidos pelos atores sociais.

Nas últimas décadas, vários antropólogos produtores de imagens realizaram


trabalhos integrando etnografia e videogramas (filmes ou fotos) no fazer antropológico, e assim
desenvolvem no campo da antropologia visual, o aprofundamento da abordagem em que a
articulação entre pesquisa e imagens é pensada em níveis equivalentes. Um exemplo disso: a
72

imagem em movimento registra a fala e o conteúdo ricos em significados gestuais, mímicos e


olhares, que muitas vezes passam despercebidos ao antropólogo. O filme, o vídeo ou a
fotografia atuam assim, como complemento à escrita, revestindo-a de um sentido próprio; além
de um excelente instrumento de análise, ele é um veículo de difusão especifica e eficaz.

Bittemcourt (1998), afirma com bastante propriedade, que a contribuição


trazida pela imagem é rica em relação à etnografia e não se resume apenas à valorização da
técnica que gera imagens similares ao mundo sensível, mas reside no fato de que elas são
produtoras de uma experiência humana. Na realidade, a fotografía e os meios visuais, quando
utilizados como instrumentos etnográficos, ampliam as condições para o estabelecimento para
um diálogo fecundo com outros universos culturais. Esse instrumento possui características
específicas que permitem elucidar as experiências sociais como forma de prática simbólica.

Segundo Clifford (1998), à fotografia possui inúmeras leituras, trata-se de um


registro visual que inclui a memória e a identidade de comunidades, os cenários dos lugares
onde estas imagens são produzidas. O autor salienta ainda a importância das coleções
existentes nos museus, a necessidade da valorização e interpretação do conteúdo destas
coleções, as questões de parentesco, de propriedade registradas nas obras, nas imagens e nas
histórias coletadas pela tradição viva, questões que são evitadas nas exposições dos grandes
museus, onde as relações familiares e a história local estão diluídas, no patrimônio da arte ou
numa narrativa sintética da história. O significado dos objetos recolhidos, das imagens e das
histórias para as comunidades indígenas, para os clãs, está concentrado nessas iconografias
que fazem das coleções dos museus. Além da memória social das cidades, que pode também
ser encontrada nas coleções de fotografias, desenhos, textos e objetos contidos nessas
coleções. Os significados locais das lembranças, das histórias reinventadas podem ser
encontradas nessas coleções.

Clifford (1998), destaca as exposições locais e regionais, ocorridas em museus,


e refere-se em particular a uma exposição localizada no centro cultural de Mosqueiam, no
Canadá, cujo acervo compõe-se de uma série de fotografias que servem de documentos para a
história do povo local, desde o inicio do século XX até hoje. Foi realizada uma seleção
cronológica sobre a história de cada família da reserva tribal; cada família foi representada
por fotografias sendo identificado cada um de seus componentes. Clifford ressalta que todo o
museu é local, um exemplo disso: o Louvre é parisiense e destaca a cultura da França. O
Metropolitan é um estabelecimento típico de Nova York. Estes grandes museus refletem sua
73

cidade e sua região, mas também transcendem esta especificidade e representam uma herança
nacional e internacional, ou “Humana”.

Pinheiro (2000) analisa a fotografia não só como indício duplo do real, mas
como possibilidade metafórica, texto indireto e cheio de reentrâncias, onde a coisa retratada
pode esconder-se para além da imagem no imaginário. Para a autora a fotografia é uma
confluência entre arte e ciência, entre arte e antropología, não só porque traz em si mesma
esta vocação, mas porque é portadora de uma carga intensa de ambigüidades e subjetividade
que gera inúmeras possibilidades de leituras, de diálogos, de trocas. Num primeiro momento,
a fotografia esteve presente na antropologia, como suporte do vivido, registro do exótico,
como registro da diferença. A fotografia está presente na arte como possibilidade de
ampliação do conhecimento sobre o mundo visível, a câmara via mais do que o homem; ela
possibilitava ângulos e percepções do momento que o olho não conseguia captar, era uma
extensão do olho humano, via mais do que o homem.

Por algum tempo a fotografia ocupou, na antropologia, um espaço de mera


ilustração e ganhou, na arte, outras funções. Ao mesmo tempo em que funcionava como
registro de ações, performances, ela adquiriu o lugar de objeto de arte. A fotografia em si
questiona o lugar da obra única irreprodutível.

Hoje, a fotografia ocupa, um lugar de destaque nas discussões antropológicas,


seja como método, com possibilidade imediata de troca e diálogo, seja como uma outra
narrativa. Na pluralidade do uso da fotografia na antropologia, existem aqueles que tentam
utilizá-la apenas como prova do que foi visto, advogando para si um olhar asséptico: Isto é a
realidade vista por eles.

Para Berjamim (1994), a imagem pode ser percebida fielmente em uma


fotografia, mais do que na própria realidade que a gerou, na medida em que a reprodutividade
técnica dessa forma de representação tem a capacidade de nos aproximar dos objetos,
libertando-os do seu caráter místico, de sua aura.

A natureza que fala, a câmera não é a mesma que fala ao olhar, é


outra, especialmente po que substituiu um espaço trabalhado conscientemente pelo
homem, um espaço que ele percorre inconscientemente. Percebemos, em geral, o
movimento de um homem que caminha, ainda que em grandes traços, mas nada
percebemos de sua atitude na fração de segundo em que ele dá um passo. A
fotografia nos mostra essa atitude, através dos seus recursos auxiliares. Câmara
lenta, ampliação. Só a fotografia revela esse inconsciente óptico, como só a
psicanálise revela o inconsciente pulsional. (BERJAMIM, 1994, p. 54).
74

De acordo com Peixoto (1999), Franz Boas foi um dos primeiros antropólogos
a usar as fotografias e os filmes no trabalho de campo. Boas utilizava os recursos as técnicas e
tecnologias mais avançadas da sua época para as questões etnológicas. Foi um inovador, ao
elaborar as primeiras fotografias de um Potlatch Kwakiutl. Boas estava convencido de que a
descrição e análise de certas práticas culturais só eram possíveis através do registro de
imagens.

É interessante destacar como Franz Boas criou uma metodologia de pesquisa


que incorporava os instrumentos de registro de imagens, tendo por objetivo a captação dos
diferentes modos de comportamentos e práticas sociais de uma dada sociedade. Boas foi um
grande incentivador do uso dos registros visuais nas pesquisas etnográficas.

Esta foi a proposta também de George Murdock que, em 1924, realizou um


estudo sobre 18 povos exóticos espalhados pelo mundo inteiro, fixando imagens, 118
fotografias, para análise posterior(Apud PEIXOTO, 1999).

Marceu Mauss foi também um dos grandes incentivadores do uso das imagens
na pesquisa de campo. Em sua obra, “Manual de etnografia”, ele convida os etnógrafos a
capturarem fotografica e cinematograficamente tudo o que fosse possível, durante o trabalho
de campo; ele assinala a importância dos métodos de observação material, os registros
fotográficos e fonográficos.

Mauss propõe, em um dos textos mais citados pelos antropólogos visuais,


“Techniques Du Corps”, que os estudos sobre o comportamento humano ou o conjunto de
hábitos do corpo sejam realizados fotografica e cinematograficamente, com imagens em
câmera lenta, para se perceber os gestos e as técnicas do corpo específicos de cada sociedade.

Uma das obras clássicas na história da antropologia visual foi a de Margaret


Mead, e Gregory Bateson, “Balinese Character”. Esta obra se destaca pela originalidade em
combinar fotos e textos; foram tiradas 25 mil fotografias, das quais 789 foram utilizadas na
elaboração do livro. Os autores usaram as imagens para mostrar práticas, condutas e
comportamentos culturalmente estereotipados, que dificilmente poderiam ser descritos em
palavras. Faço referencia a esta obra para destacar a importância e a grande contribuição das
imagens, seja nas fotografias ou filmes, para a antropologia, no âmbito da interpretação e
análise das culturas das diversas sociedades humanas.
75

3.1 Imagem e Memória Social


Davallon (1999, p.23) afirma que as transformações tecnológicas, o
desenvolvimento da imprensa e dos meios de registro das imagens e dos sons constituem o
saber dos acontecimentos, que afastam hoje a necessidade de armazenar a memória social
na cabeça dos sujeitos sociais. Esta memória social está sendo guardada nos arquivos das
mídias, é através da observação de uma cerimônia pública, como uma Exposição Industrial,
que ocorrem vários jogos entre a referência, de um lado, à imagem de memória social
existente, e do outro lado a produção de uma nova memória. A produção de uma nova
memória, o registro do acontecimento, constitui memória, como este exemplo político-
social referente ao registro da realidade da memória social; entre a reprodução de um
acontecimento e a função social da instituição existe a distância entre a realidade de fato e a
significação. A memória social possui uma dupla dimensão, como fato social de
significação. Baseado nisso, Davallon (1999, p. 29) fez uma reflexão sobre a imagem
contemporânea como operadora de memória. Para que ocorra memória, é preciso que o
acontecimento saia da indiferença é preciso que ele faça impressão. Segundo Halbwachs
(1990), memória é o que ainda é vivo na consciência do grupo; para o indivíduo e para a
comunidade, é preciso que o acontecimento lembrado reencontre sua vivacidade, que ele
seja reconstruído a partir de dados e de noções comuns a membros da comunidade social. A
memória coletiva constitui aquela que retém, do passado, o que é vivo na consciência do
grupo. A memória coletiva é capaz de conservar o passado e, ao mesmo tempo, é frágil, pois
o que é vivo na consciência do grupo desaparece com o fim deste grupo.

Halbwachs (1990) afirma que a diferença entre a história coletiva e a memória


é que a história resiste ao tempo e a memória não resiste, pois nem todo o registro de um
acontecimento constitui, necessariamente, um fato da memória social, pois falta um operador
desta memória, que são os objetos culturais: livros escritos, imagens, filmes, arquiteturas e
outras formas de registro, que são os documentos históricos nos quais os acontecimentos são
preservados.

Um evento como uma Exposição Industrial, por exemplo, foi registrado numa
coleção fotográfica, eternizada, na estrutura do objeto acontece um entrecruzamento entre a
história e a memória coletiva, a Exposição Nacional de Pernambuco situa-se como memória
social, um acontecimento que uniu a resistência ao tempo e a capacidade de impressão, de
vivacidade. Logo, a lembrança social do grupo resistirá ao tempo. Este momento histórico
76

torna-se elemento vivo da recordação coletiva, a imagem como operadora da memória social.
A publicidade também utiliza a imagem como complemento do enunciado lingüístico, para
representar as qualidades de um produto e conduzir o leitor a se recordar destas qualidades e
assim tornar-se consumidor deste produto. Estes exemplos indicam, para períodos e
modalidades distintos, a eficácia da imagem na memória social. A imagem concreta é uma
produção cultural, possui eficácia simbólica. Pois aquele que observa uma iconografia
desenvolve uma atividade de produção de significação e oferece uma liberdade de
interpretação, é o conteúdo legível, pode variar conforme as leituras de imagens, pois as
imagens comportam um programa de leituras: recepção.

Esta aproximação entre as formas e o texto permite um trabalho com os


sistemas de oposição e com as relações entre emissor, receptor, mensagem e contexto. A
imagem é um dispositivo de comunicação, além de ser um dispositivo durável no tempo. Em
segundo lugar, a imagem é um operador de simbolização, entrecruzando as oposições formais
e a instância textual – a materialidade e sentido completariam a sua totalidade, a imagem é
interpretada e analisada, reproduzindo suas significações; ela própria possibilita suas leituras,
seus programas de leituras, “do mesmo modo que a recepção do mito ou os gestos litúrgicos
que seguem a estrutura do mito da receitada leitura é, em si mesma, uma pequena recitação,
ato que fornece a ela sua razão de ser”. Reconhecendo a importância e o destaque que a figura
exerce em nossa sociedade, como divulgadora dos acontecimentos e como componente da
memória na sociedade. A reflexão teórica sobre fotografia na memória social é de
fundamental importância na compreensão do evento Exposição Nacional de Pernambuco,
considerando que o maior acervo documental sobre o tema está representado por fotografias e
notícias de jornais.
77

4. A GRANDE FEIRA DA DIVERSIDADE

FOTO-42

O Recife foi palco de grandes festas e congressos, dentre os quais o evento que
inaugurou o Parque Treze de Maio, o III Congresso Eucarístico Nacional. Neste local ocorreu
a Exposição Nacional. Alguns desses eventos eram utilizados para impingir a doutrina
ideológica do Estado Novo, dentre os quais o III Congresso Eucarístico Nacional, ocorrido em
setembro de 1939. O Parque Treze de Maio foi finalmente inaugurado e um espaço reservado
para este seminário. O Congresso representou mais que um acontecimento religioso, ocorreu
78

na semana da pátria e a mensagem divulgada era uma exaltação ao patriotismo e à mulher


brasileira. Marcava, em seus temas de estudo, o compromisso de cada componente da
sociedade para a resolução da questão social. Assim, cada segmento foi direcionado para uma
tarefa, por exemplo, ao clero cabia reconquistar as massas trabalhadoras, aos seminaristas
auxiliar a ação católica, aos homens colaborar com as obras sociais, às senhoras educar a
sociedade cristã, aos moços combater a infiltração de idéias marxistas na sociedade. Havia
uma cooperação entre Governo e Igreja, fortalecendo o Estado Novo e difundindo as
aspirações da Igreja Católica.

O Parque 13 de Maio seria, daí em diante, o espaço para a realização de


numerosos e significativos acontecimentos sociais. No mesmo ano, no mês de dezembro, dia
16, às 18 horas, aconteceu a inauguração da Exposição Nacional, evento de grande destaque
para a política, economia, cultura e para a industrialização, em Pernambuco e no Brasil.
Mobilizou grande número de profissionais, a Prefeitura da cidade do Recife e representações de
16 estados federais e 66 municípios de Pernambuco. A Exposição foi idealizada para perpetuar
as transformações ocorridas com o Estado Novo em diversas áreas da vida política e social.

A dinâmica de associações entre imagem e relações sociais entre culturas


distintas levanta algumas reflexões quanto ao fato da iconografia, muitas vezes, ser o ponto de
partida para reformular dados culturais relevantes. E, acima de tudo, traduz pontos que
somente a imagem é capaz de sublinhar num discurso hermenêutico ou numa premissa, no
campo das idéias. As imagens da Coleção Fotográfica, de certo modo, são uma revelação
dentre a iconografia produzida dos anos 30 a 40, pois, com o registro das pessoas que
habitavam as regiões brasileiras, é possível perceber as distinções de cada cultura. A
diversidade de produtos da cultura material (roupas e artefatos) expostos nessa Coleção
indicam os costumes, os hábitos dessas populações.

O evento foi divulgado pelos meios de comunicação da época. O rádio era um


veículo utilizado constantemente, pelo Estado Novo, para difundir sua doutrina através da
palavra, em diferentes formas: discursos, novelas, peças teatrais. O cinema também era de
grande utilidade: filmes encomendados pela Interventoria mostravam as realizações e faziam
propaganda do Governo. Com o mesmo objetivo, ou seja, de mostrar as realizações do
regime, passando uma imagem de sucesso e prosperidade estadonovista, eram organizadas
grandes exposições nacionais ou regionais, dentre as quais merecem destaque: a Exposição do
79

Livro Brasileiro, ocorrida no ano de 1940, a Exposição Retrospectiva do Ministério da


Guerra, em 1940, a Exposição do Estado Novo, em 1941, a Exposição Brasil Novo em 1942.

No Estado Novo organizavam-se diversificadas comemorações, exposições,


manifestações, inaugurações, visitas, onde se reuniam desde grandes contingentes de pessoas
até pequenos grupos. Os eventos eram grandiosos, com destaque para o aniversário de
Agamenon Magalhães, de Getúlio Vargas, o Dia do Trabalho, em 1 de maio, a revolução de 30,
comemorada no dia 3 de outubro, o aniversário de implantação do Estado Novo e diversas
outras datas significativas para o Governo. As comemorações aconteciam em estádios de
futebol ou em praças públicas, parques ou avenidas. Semanas ou meses antes do evento, o rádio
e a imprensa em geral divulgavam todas as programações previstas, convidando a população a
participar, criando um clima de expectativa em torno das festividades, como ocorreu com a
Exposição Nacional, anunciada três meses antes de sua inauguração, pela Rádio Clube de
Pernambuco e por diversos jornais de grande circulação, na época8. Segundo dona Irenete
Maria, dona de casa de 84 anos, uma das visitantes do evento e nossa entrevistada.

“A Exposição foi uma feira gigantesca, se via de tudo, produtos


modernos, embalagens de alumínio, novidade para a época, móveis, tecidos,
sementes, brinquedos, roupas, muitas fotografias, gráficos, mapas, painéis. Além de
diversões, apresentações de cantores famosos naqueles tempos. Os stands dos
estados eram os mais visitados, porque revelavam o modo de vida daquelas pessoas,
suas tradições e costumes. Gostei muito também do Parque Shangai, onde andei na
roda gigante e na equitação infantil. Naquele tempo, as mulheres se davam ao
respeito, não é como hoje, que as mulheres andam nuas pelas ruas, sem vergonha
ou pudor. Eu me lembro que a minha mãe, eu e as outras moças e senhoras fomos
vestidas, na moda da época, de chapéu, luvas, vestidos bem a baixo dos joelhos, não
se podia mostrar as pernas, uma moça de família não fazia estas coisas. Estas
fotografias me trouxeram lembranças alegres do meu tempo de juventude, das
festas, desta exposição, onde se viu muitas novidades para o Recife”.

Em dezembro, de 1939, teve início a feira da diversidade, a Grande Exposição


Nacional de Pernambuco, demonstrando as conquistas econômicas e políticas do Governo de
Agamenon, cultivando as imagens do progresso e êxito das idéias estadonovistas; cada
município do Estado procurou demonstrar seu nível de desenvolvimento no setor econômico,
político, cultural e suas tradições. Cada Secretaria montou seu pavilhão, seu stand, repleto de
fotografias e imagens que enchiam os olhos dos visitantes.

A Exposição Nacional ofereceu uma coletânea de atrações artísticas e culturais,


envolvendo apresentações de bandas musicais, peças teatrais, exibição de documentários e
filmes, apresentados no Cinema Meridional, construído especialmente para esta finalidade.

8
Folha da Manhã, Recife 8 de dezembro de 1939. p.8.
80

Foram realizadas festas diárias, homenageando grupos específicos de


participantes, como: a noite das senhorinhas, a tarde infantil, o dia da imprensa, a noite de
Portugal, o dia dos municípios, o dia da cidade, em homenagem ao Recife. Na ocasião, eram
servidos coquetel aos convidados e oferecidas diversas outras atrações.

As Exposições de produtos ou objetos, obras de artes comércio e indústria são


meios de expor e transmitir, sobretudo, os aspectos culturais das sociedades que as realizaram.
O objetivo de expor estes bens é demonstrar o desenvolvimento daquela sociedade. As
grandes exposições agrícolas, comerciais e industriais organizadas pelos governos ou por
particulares, através dos produtos expostos, visam principalmente valorizar as novas
tecnologias e o desenvolvimento científico ou artístico alcançado por este governo ou por este
grupo. As exposições ainda permitem inter-relações entre os freqüentadores, através das
trocas de informações. O grau de desenvolvimento de um país, região ou cidade será
identificado através dos mostruários, dos produtos e serviços em exposição, sua organização e
repercussão. Nesta questão, o papel do registro é fundamental para perpetuar o momento, o
evento e a memória da sociedade que o realizou. Para imortalizar este momento, o uso de
fotografia é imprescindível, como forma de eternizar o acontecimento.

A Exposição Nacional teve como idealizador Agamenon Magalhães, sob a


orientação do Secretário da Agricultura, Apolônio Sales. A Exposição movimentou a vida da
sociedade recifense, desde seu primeiro dia, 16 de dezembro de 1939, até 3 de março de 1940.
Vinculada à Exposição, como meio de entretenimento, havia um parque de diversões,
denominado Parque Shangai.

No Parque 13 de Maio foram erguidos grandiosos pavilhões dispondo de


avançadas tecnologias para a época. Pavilhão das Indústrias e Comércio; da Prefeitura do
Recife – expondo as obras do Prefeito Novais Filho; do Norte; do Nordeste; dos Estados do
Sul; do Ministério do Trabalho – mostrando os avanços na legislação trabalhista; das
Indústrias de Pernambuco – apresentando tecidos que faziam concorrência com os produzidos
no sul do País e no estrangeiro; das Municipalidades;Pavilhão Oficial do Estado; Pavilhão
Anti – Comunista, do Ministério da Justiça.

E o Parque 13 de Maio, notável obra de urbanismo da Prefeitura


do Recife, foi o local escolhido para o evento e que proporcionou aom visitantes e
freqüentadores quase três meses de estudos das nossas riquezas, sem, lhes faltar,
simultaneamente, a parte recreativa que foi bastante agradável. Finalmente tivemos
um Complexo das realizações do Presidente Getúlio Vargas e dos Interventores dos
Estados, nas múltiplas nuances do ambiente Nacional, nos dias que decorreram –
81

Período de paz e de tranqüilidade – e que se retratou na efetivação do grão (sic)


educativo a que vamos alcançando. Eis o que representou a Grande Exposição
Nacional de Pernambuco – amparada pela mais sabia orientação patriótica do
Interventor Agamenon Magalhães, com seu espírito realizador e culto, que se
constituiu um dos maiores intérpretes do regime instituído pelo Estado Novo”
(ÁLBUM CATÁLOGO).

A representação do Governo Federal na Exposição Nacional se destaca com a


assinatura de um crédito, no valor de 550 contos de réis, feita pelo próprio presidente da
República, Getúlio Vargas. Esse crédito liberado pelo Governo Federal se destinava às
despesas com a construção e a propaganda da Exposição e com os Pavilhões Nacionais, locais
onde foram apresentadas as realizações do Governo Federal.

O programa desenvolvido para a inauguração da Grande Exposição Nacional,


que ocorreu no dia 16/12/1939, contou com grandes atrações: políticos estadonovistas,
destacando-se a presença de Waldemar Falcão, representando o presidente Getúlio Vargas; a
cantora da Rádio Tupi Haydee Marcante, que ofereceu shows ao público da Exposição.
Apresentaram-se também Zé Coió; teatro de variedades e outros atrativos, como o parque de
brinquedos Shangai, que possuía atrações eletrônicas como autopista; roda gigante, equitação
infantil e outras atrações. Para a inauguração, a Rádio Clube de Pernambuco preparou uma
programação especial, com a Orquestra da Cidade do Recife, que apresentou músicas cariocas
e as novidades para o carnaval de Pernambuco, contando com artistas locais. Participaram 66
municípios do Estado e de 16 estados federais, com a presença de quase todos os estados da
Região Nordeste.

4.1 Os Stands dos Estados


O Estado do Amazonas apresentou-se, com 35 produtos diferentes, sendo seu
representante o Doutor Elphego Jorge de Souza. Os representantes dos estados eram
entrevistados pelo jornal Folha da Manhã e palestravam sobre seus estados. No stand do
Estado do Amazonas têm destaque os produtos de exportação, como as diversas espécies de
madeira, o látex, matéria-prima da borracha, o cacau, o cumarú, de onde se extrai óleos
empregados na indústria de perfumaria e na farmacêutica, a indústria do guaraná, bebida
energética da Região Amazônica, perfumes, arte e pintura. Pode-se ver amostras desses
produtos em exposição no stand, além de gráficos e painéis, como a belíssima pintura que
representa o seringueiro, trabalhador daquela região, que entra na floresta para extrair o látex;
outros tiram as variedades de madeiras da floresta; ou o fruto do guaraná, do qual é feita uma
bebida energética conhecida em quase todo o mundo. O stand apresentou a diversidade da
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fauna e da flora da Floresta Amazônica, além dos povos indígenas que habitam essa região:
fotografias, móveis, fibras nativas, a juta indiana aclimatada em Parintins pelos imigrantes
japoneses, representações da cultura e do ambiente do Estado do Amazonas.

FOTO-43

O Estado do Rio de Janeiro compareceu com um total de 33 empresas distintas


e tinha como representante o Doutor Mauricio Cunha. O stand com requinte e organização
marcantes, destacou-se por se tratar da capital federal, percebendo-se o esmero com que foi
decorado. Apresenta mobílias, louças inquebráveis, tecidos em rendas e linho, brinquedos,
cerâmica de Itaipava, sanifícios, fechaduras, sardinhas de São Gonçalo, tintas e vernizes São
Gonçalo, vidros e cerâmicas, curtumes, minerais, e outros mostruários da economia, política e
cultura do Estado, bem como um belíssimo painel representando os pescadores, vendo-se
ainda as montanhas, a praia e peixes: ao lado desse painel, várias fotografias, dos pontos
turísticos da cidade. Há também mostras de artesanato, como vasos, peças de decoração,
esculturas em bronze, utensílios domésticos, pratos, bules, cinzeiros e outros objetos. É
relevante o destaque dado ao pescador e ao seu trabalho, dignificando o trabalho do homem.
Na parte central encontra-se um busto: em cima de uma coluna há outro painel, representando
as frutas do Estado: do seu lado, encontra-se uma foto do Interventor do Rio de Janeiro,
Amaral Peixoto.
83

FOTO-44

O Estado do Maranhão foi representado pelo Doutor Alfredo Bruno, que


palestrou sobre suas realizações enquanto Interventor. Expondo diversos tipos de produtos:
manufaturados; produtos químicos; artesanais; materiais das indústrias caseiras; produtos
agrícolas; oleaginosos; o babaçu e seus subprodutos, a indústria da pesca, as indústrias têxteis,
os produtos farmacêuticos, os cereais, as indústrias açucareiras, os trabalhos escolares, os
óleos, as indústrias extrativas, as indústrias de rede de dormir, os bordados e trabalhos de
agulha, os produtos da culinária regional, objetos em couro, a cerâmica, os minerais, o
algodão hidrófilo, os trabalhos manuais, os livros, cigarros e fumos, móveis e pinturas. O
Estado de São Paulo apresentou o Pavilhão do Instituto do Café Paulista.

Durante a Exposição foram oferecidos serviços de apoio aos visitantes, como


um posto para crianças perdidas, um serviço de Pronto Socorro e uma Guarnição do Corpo de
Bombeiro. E ainda podia-se encontrar funcionando uma agência telegráfica dos Correios. No
decorrer da Feira personagens como os políticos estadonovistas e fatos históricos como o
golpe de 1930 eram glorificados. Através do rádio divulgavam-se livros de autoria de
brasileiros. Na mostra industrial foram ressaltadas as regiões e cidades por suas belezas
naturais e suas riquezas culturais, as evocações históricas.

Foi feito um documentário sobre o cotidiano da Exposição, encomendado pela


Interventoria, e realizado pela Meridional Filmes. Na Exposição, a imprensa, os livros e
revistas eram exibidos para divulgação da produção artística, dos recursos e das condições do
país, representadas pelas imagens dos stands das capitais participantes: no stand do Estado do
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Rio Grande do Sul uma representativa imagem podia ser vista, com tonéis de vinhos
envelhecidos, entrelaçados por uma fita. Este stand é formado por três indústrias: o Frigorífico
Nacional Sul Brasileiro Ltda, exibindo diversas embalagens de seus produtos industrializados,
bandeirinhas do Brasil; o Instituto do Vinho, mostrando grandes variedades de vinhos,
também ornamentado com bandeirinhas do Brasil; e a Livraria Globo, que trouxe exemplares
de obras literárias, mostrando os livros arrumados em prateleiras e estantes, diversos cartazes
com fotografias, um cartaz com a imagem de um homem com um disco de vinil da época. O
diferencial nesse stand era o mostruário de fábricas de ponta, e o desenvolvimento
educacional do Estado, apresentando apenas 20% de analfabetismo, contrastando com os
números dos demais estados brasileiros, cuja divulgação foi proibida pelo governo de
Agamenon. Por apresentar clima temperado, o Rio Grande do Sul recebeu grande imigração
européia. Estas imagens informam os hábitos alimentares, o vestuário, os costumes típicos de
cada região brasileira. As atividades socioeconômicas ligadas à agricultura e à industria
determinaram novas relações sociais, atitudes da modernidade.

FOTO-45

Na foto do stand do Estado do Pará nota-se o destaque dado à pintura


Marajoara; decorando a parte externa do stand, inúmeros objetos expostos; uma diversidade
de produtos alimentícios, fotografias, gráficos, vários tipos de madeiras, espécies botânicas. A
castanha, o cacau. Representações de várias indústrias e fábricas do Estado: fibras têxteis,
aniagem, cordas e fios, confeitos, biscoitos e massas, doces de frutas paraenses, sabonetes e
85

perfumas, vinhos de frutas e óleos de patauá, botões de madrepérola e massa, couros de


crocodilos, artefatos de borracha, pneumáticos e câmeras de ar, óleos e farinhas de cereais,
bebidas, com evidência para o guaraná, artigos de cerâmica, tintas de escrever, sucos de caju,
extrato do guaraná, peles de animais silvestres, empresa de beneficiamento da borracha,
Comércio, Agrícola e Indústria do Timbó Ltda, Comercial Paranaense do Pau Rosa, artigos de
arte; móveis de cipó e madeira, artigos da arte doméstica, bordados, quadros pintados a óleo.
A Companhia Ford Indústria do Brasil trouxe artigos, trabalhos fotográficos e diversos outros
produtos.Vale salientar o artesanato, muito divulgado e apreciado na época. Este stand foi
premiado com várias medalhas de ouro concedidas pela Comissão Julgadora, presidida pelo
Secretário da Agricultura, Apolônio Sales, pois foi um dos mais apreciados, devido à
variedade de produtos expostos, sua organização e beleza. Participação de destaque foi a do
Museu Paraense Emilio Goeldi, com 120 exemplares de animais vivos e aquários de peixes
ornamentais da Amazônia. O local foi montado e decorado pelo pintor Euclydes Fonseca,
inspirado na arte Marajoara. O Interventor do Estado do Pará era o Dr. José Carneiro da Gama
Malcher. Ficou bem evidenciado o valor que o Estado Novo concedia à indústria e ao
comércio, interligados com a agricultura, o artesanato e o incentivo ao trabalhador. Os
materiais expostos possibilitam conhecer a produção do Pará, numa época em que os meios de
comunicação eram limitados.

FOTO 46
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A imagem do stand do Estado do Piauí, localizado no Pavilhão do Norte. O


Interventor deste estado é o Sr. Leônidas de Mello, de terno preto. Identifica-se ainda o
Agamenon Magalhães, de terno branco e óculos, com um chapéu na mão, o Sr. Apolônio Sales,
Secretário da Agricultura e organizador da Exposição; Sales está ao lado de sua esposa, uma
senhora muita bem vestida, vestido estampado, chapéu e luvas. Pode-se notar representações de
vários objetos fabricados no Estado e exportados para o exterior: produtos agrícolas, fibras,
peles de animais, tecidos, cerâmicas, artefatos de couro, farmacêuticos, indústrias de móveis,
jóias de prata e ouro, objetos de arte decorativos, óleos vegetais, bebidas, usinas de açúcar,
trabalhos escolares. Além dos mostruários do Governo do Piauí, da Diretoria de Agricultura, do
Liceu de Artes e Ofícios, das Fazendas Nacionais do Piauí e da Prefeitura Municipal de Pedro
II. No stand percebe-se o desenho do mapa do Brasil, localizado em segundo plano. Vale
salientar a ênfase dada pela Interventoria às questões referentes à industrialização, à
modernização, e á formalidade, cultuando as tradições morais e religiosas.

FOTO 47

Exibindo o stand do Estado da Paraíba. A imagem é repleta de informações


visuais; este estado trouxe inúmeros exemplos de sua economia, política, cultura, expondo suas
tradições e costumes. Podem-se ver muitas fotografias, gráficos, quadros, mobílias, tecidos,
produtos agrícolas, industriais, espécies botânicas, vinhos, algodão, óleos, café, açúcar refinado,
cimento, azeites, peles de carneiro e diversos outros produtos. O Interventor é o Sr. Argemiro de
Figueiredo. Esse stand foi muito elogiado pelos visitantes. Foram premiados pela Comissão
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Julgadora: o governo do Estado da Paraíba, o Departamento de Estatística e de Educação, as


empresas de cimento; a Companhia Paraíba de Cimento Portland, o Município de Teixeira, pela
exibição de ouro e pepitas, a fábrica de móveis “A Cama Paraibana”, os produtos farmacêuticos
do Laboratório Bioquímico, a Usina São João, os vinhos das fábricas Sanhana e Tito Silva, os
minérios da Companhia de Mineração do Nordeste S/A. O Município de Itabaiana, as
cooperativas de pesca João Pessoa, e a Companhia de Pesca Norte do Brasil, e a S. Procópio
Água Mineral Santa Rita, de acordo com o Álbum Catálogo Oficial da Exposição. Destacando
nesta foto aspectos da vida do povo paraibano.

FOTO 48

No registro visual do stand de Alagoas; pode-se observar um grupo de políticos


e autoridades, entre eles Agamenon Magalhães, Apolônio Sales, Gercino Pontes, Doutor
Américo Melo e o Interventor de Alagoas, Doutor Osman Loureiro. Exibe também vários
painéis na parede do fundo, várias fotos mostrando a Cachoeira de Paulo Afonso, mostruários
de minerais. Na frente das autoridades encontram-se duas colunas com exemplares da
economia e cultura do estado; na parte de baixo das colunas estão algumas pedras usadas pela
indústria de construção, simbolizando o progresso e o crescimento econômico. Estão
presentes também os produtos dos municípios de: Arapiraca, Santana do Ipanema, Alagoas,
Mata Grande e Palmeiras dos Índios, da Inspetoria de Plantas Têxteis, do Departamento
Estadual de Estatística, do Instituto de Educação e Instrução Primária, do escultor Leonardo
Viana, da pintora Miriam Lima, da Escola de Aprendizes Artífices, da Cia. Nacional de
Petróleo. Os tecidos, os couros, as madeiras, os mosaicos, os perfumes, as bebidas, os
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medicamentos, as pinturas representam aspectos da sociedade alagoana. Vale ressaltar que foi
exposto o que há de melhor em cada estado, seu ponto forte, através de grandes imagens,
fotografias, gráficos, painéis, com o objetivo de atingir todas as parcelas da sociedade.

FOTO 49

O stand do Rio Grande do Norte, com políticos e autoridades, o Interventor de


Pernambuco, no centro da fotografia, usando um terno claro, o Secretário de Agricultura
Apolônio Sales, ao seu lado, sua esposa, com vestido estampado, chapéu e bolsa, o
Interventor do Rio Grande do Norte, Rafael Fernandes, o Secretário de Estado Aldo
Fernandes Melo. Os homens segurando seus chapéus, todos de terno, muito elegantes,
legitimando a solenidade e a pompa que o evento exigia. Pode-se ver, na parede, em segundo
plano, gráficos, mapas, redes, tecidos, mostruários do artesanato do Rio Grande do Norte. As
respectivas indústrias apresentaram seus produtos neste stand; indústrias de couro, de
beneficiamento de algodão, de óleos, de minérios, de arreios, têxteis, de carnaúba, de sabão,
de instrumentos musicais, de fogões, de borracha, de sal, manteiga e de fotografias. A
Diretoria de Estatística, as Cooperativas Escolares, o Departamento do Cooperativismo
mostraram seus produtos e serviços neste stand. No discurso político do Estado Novo era
evidente a aclamação ao progresso e ao desenvolvimento e crescimento do país, amparado nas
riquezas econômicas dos estados.
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FOTO 50

A fotografia representa o stand de Sergipe, onde se podem notar vários


políticos e autoridades, entre eles, Agamenon, Apolônio Sales, alguns militares, o Interventor
de Sergipe, Doutor Erônides de Carvalho. Identifica-se na imagem, ainda, o mapa do Brasil,
bastante representativo, um painel, com fotografias da capital, Aracaju, exibindo o cotidiano
do Estado, um retrato do presidente Getúlio Vargas. Alguns exemplares da economia e da
agricultura do Estado: arroz, cana, fumo e algodão, milho e feijão, vários tecidos, que
representam a indústria têxtil, uma das principais do Estado, sal, bebidas alcoólicas, charutos,
a fábrica Serigy de leite de coco, molho para mesas, féculas, artes fotográficas, desenhos e
mapas, artigos de arte; estatuetas, quadros, móveis, bordados, bombons e caramelos, óleos.
Esse Estado se destacou na construção de hospitais e abrigos, dentre eles o leprosário e o
abrigo para menores delinqüentes: Cidade dos Menores Getúlio Vargas e a Colônia de
Psicopatas. Foto-51.
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FOTO-51

Para Pernambuco foi construído especialmente “O Pavilhão Oficial de


Pernambuco”, formado por dois prédios retangulares, um à esquerda, e o outro à direita, e um
ao centro, menor, de formato esférico. Destacam-se dois quadros na frente do edifício, com
motivos referentes à cultura e ao cotidiano do povo, pode-se observar as praias e os homens
pescando, barcos e rua, carros de boi. Na construção do centro, encontra-se desenhado o
formato do mapa do Estado. e a bandeira do Estado, postes de iluminação e uma placa de
identificação. Neste pavilhão, conforme o Álbum Catálogo Oficial da Exposição, foram
retratados, em maquetes, gráficos, mapas, desenhos, produtos, as obras da Interventoria de
Agamenon Magalhães, como os Centros Educativos Operários, a industrialização, a
urbanização das cidades, a Liga Social Contra o Mocambo, a valorização aos pontos turísticos
da capital, as praias, as igrejas seculares, as tradições e o folclore, bem como a ênfase à
propaganda contra as doutrinas comunistas e integralistas, os grandes eventos promovidos. No
interior deste encontravam-se diversos materiais representados através de fotografias,
cartazes, servindo como exemplo do projeto imagético do Estado Novo.
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FOTO 52
Quanto ao Pavilhão Oficial do Estado Pernambuco basta afirmar
que foi um testemunho do que tem sido a administração do Interventor Agamenon
Magalhães, monumento da honradez e do trabalho, cercado que se encontra de
auxiliares dignos, capazes, portanto de uma cooperação proveitosa (ÁLBUM
CATÁLOGO).

No sábado, dia 16 de dezembro de 1939, houve a inauguração do Pavilhão


Oficial do Estado de Pernambuco. Estavam presentes grandes autoridades: o Ministro do
Trabalho Waldemar Falcão, Agamenon Magalhães, Secretários de Estado e o Prefeito do
Recife Novais Filho, o Comandante da 7a. Região Militar, interventores dos demais estados,
bem como representantes da justiça do Distrito Federal. Ainda podiam-se observar os
representantes da Associação Comercial, do Sindicato dos Usineiros e das indústrias, dentre
outros. Na mesma data, foram inaugurados vários outros pavilhões: o do Ministério do
Trabalho, o da Indústria Pernambucana, o da Indústria e Comércio, o dos Municípios do
Estado; o do Departamento Nacional do Café; o do Ambiente Açucareiro; o da Usina de
Leite. A cobertura jornalística da feira foi realizada por jornais do Recife, jornais de outros
estados e pelo jornal Folha da Manhã, com seu representante, José Campelo. Fazendo parte do
Ministério da Justiça, havia o Pavilhão Anti-Comunista, que tinha como responsável pela
propaganda doutrinária o Sr. Vieira Pinto. A Exposição foi um sucesso de público e de crítica,
recebeu a visita de várias autoridades, de grande parte da população do Pernambuco e de
outros estados.
92

Durante as cerimônias o Ministro do Estado, Agamenon Magalhães e o


Ministro Waldemar Falcão fizeram vários discursos, transmitidos pela Hora do Brasil e pela
Rádio Clube de Pernambuco.

A Exposição Nacional funcionou diariamente, do dia 16 de dezembro de 1939


ao dia 03 de março de 1940, das 17:00 h às 23:00 h, nos domingos e feriados e das 15:00 h. às
24:00 h, nos dias de semana. Recebeu um púbico total de aproximadamente 600.000 pessoas.
Uma Comissão Julgadora elegeu os melhores expositores entre os stands e os pavilhões
participantes da Exposição. A premiação consistia em medalhas de ouro, prata e bronze. Um
total de 150 medalhas foi distribuído aos vencedores, dentre eles: os stands do Pará; Paraíba;
Rio Grande do Norte; Ceará; Amazonas, e várias indústrias e fábricas de Pernambuco e de
outros estados.

Resolvemos transcrever uma parte razoável do Álbum Catálogo Oficial da


Exposição, considerando ser esse documento a fonte mais completa sobre o evento. As
demais são os periódicos da época e pequenas citações em bibliografias, exceto a coleção
fotográfica, onde as informações são visuais:

O testemunho eloqüente de que somos um povo rico, capaz dos


mais altíssimo sacrifícios e das mais elogiadas renúncias, tivemos na Exposição para
a qual concorreram a Indústria, a Agricultura, o Comércio e todas as Instituições
proveitosas, num afan (sic) dignificante de concretizar-se a superioridade da nossa
raça, quer no sentido prático, a que se aliam o trabalho e a paciência dos que
desejam vencer quer na concepção dos benefícios que o certame nos trará como
também no progresso das futuras exposições, quando tivemos de recapitular a
administração do Presidente Getúlio Vargas, a (sic) sombra dos argumentos da
Justiça e da verdade (ÁLBUM CATÁLOGO).
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5. O PROJETO PEDAGÓGICO CULTURAL DO ESTADO


NOVO

FOTO-53 FOTO-54

FOTO-55 FOTO-56

No stand (Foto-53) nota-se uma separação entre homens e mulheres, homens de


um lado e mulheres do outro. Ao centro está o Secretário de Agricultura, Apolônio Sales, ao lado
Valdemar Falcão e Agamenon Magalhães. Com muitos gráficos. Na foto do Parque Shangai
observa-se um dos brinquedos mais visitados do Parque, com casais e crianças. No stand da
Secretaria de Saneamento do Estado, equipamentos hidráulicos, tubulações, fotografias do projeto
de saneamento das casas, apresentados pela Secretaria, um busto de Agamenon. No stand da
cidade de Nazaré da Mata, aspectos da cultura local, em mostruários diversos.
94

5.1 A Questão Cultural


Para podermos analisar as especificidades culturais nas fotografias do evento
ocorrido no período do Estado Novo, no Brasil, é preciso identificar os aspectos políticos,
econômicos e sociais vigentes na época. O êxito do ideário estadonovista foi um dos
principais alicerces que garantiram a divulgação e permanência no poder político neste
período conhecido na História do Brasil como Estado Novo. O papel da ideologia política e
cultural foi fundamental para sua manutenção no cenário político.

É necessário definir ideologia: sistema de símbolos, fontes extrínsecas de


informações em torno dos quais a vida humana pode ser padronizada, mecanismo extra
pessoal para a percepção, compreensão, julgamento e manipulação do mundo. Os padrões
culturais religiosos, filosóficos, estéticos, científicos, ideológicos, fornecem um gabarito ou
diagrama para a organização dos processos sociais e psicológicos (GEERTZ, 1978). Através
do projeto doutrinário, concebido por intelectuais modernistas, a nação brasileira começou a
ingressar na era da modernização. Entretanto, foi um processo conduzido e controlado pelo
Estado Novo.

Dessa forma, é no contexto nacional dos anos 30 que se pode entender o


significado das propostas autoritárias e centralizadoras dos intelectuais que formularam esta
nova ideologia, capaz de responder aos impasses da nação e às orientações para o Estado.
Estes se auto-atribuem um papel messiânico na vida nacional; alguns deles participavam dos
grupos modernistas. Dentre eles, destacam-se: Almir de Andrade, um dos principais ideólogos
da doutrina estadonovista, inclusive com a publicação da revista: “Cultura Política,” onde
divulgou suas idéias sobre cultura e formulava o projeto político e cultural do Estado Novo,
em conjunto com outros representantes desse regime. Têm destaque: Carlos Drumnond de
Andrade, Gustavo Capanema, Ministro da Educação do Governo Vargas, Gilberto Freyre,
Alceu Amoroso Lima, dentre outros.

Almir de Andrade, durante o período em que dirigiu a Revista “Cultura


Política” (1941/1945), foi um dos principais ideólogos do regime de 37. Pode-se destacar a
importância desse autor, enquanto intérprete das idéias do regime político estadonovista,
formulando projetos ideológicos, baseado em uma proposta eminentemente cultural. O
destaque de sua obra foi relacionar a ação política do governo às tradições culturais
brasileiras. O regime instaurado em 1937 assume, como ideário, a crença de que cada povo
deve construir suas instituições, obedecendo às inspirações históricas do seu tempo. Nesta
95

perspectiva, o intelectual é visto como capacitado a captar imediatamente as aspirações do


inconsciente coletivo de um povo. Segundo Almir de Andrade, existem, entre a cultura e a
política, traços de união. A política empresta à cultura uma organização, um conteúdo
socialmente útil, um sentido de orientação para o bem comum. (OLIVEIRA; VELOSO;
GOMES, 1982).

Para compreendermos as questões referentes à cultura abordadas no Estado


Novo pontuamos as idéias de Almir de Andrade, ideólogo do regime. Para ele, são
determinadas situações históricas que permitiram o desdobrar da vida social, baseando seu
postulado nos fundamentos de Montesquieu, que afirma: “o que molda as leis de um povo é
sua tradição, seus costumes, hábitos e crenças”. Andrade combina traços particulares da
história dos povos com uma versão evolucionista e determinista da vida social. É uma
combinação de historicismo com evolucionismo, aplicada ao mundo social, conceito ligado à
sociologia. A corrente modernizadora e racionalista do saber; a revalorização do passado; a
importância dos aspectos culturais aparecem como fontes de interpretação da vida social, já
que podem ser colocados dentro de um espaço científico (NISBET, 1952). A história
entendida como a vida desenrolando-se no tempo, como a fusão do passado com o presente na
mesma corrente evolutiva (OLIVEIRA; VELOSO; GOMES, 1982). Deveria ter seu estudo
completado pela análise sociológica. Aqui o que importa é o homem social, o homem
enquanto produtor de acontecimentos, de instituições, de transformações históricas. A cultura,
ou seja, tudo que o homem produz ou em que acredita, no esforço coletivo de adaptação ao
meio e de realização de suas necessidades, aparece como objetivo do estudo na análise da
sociedade.

Este processo de construção cultural estaria submetido à seleção natural dos


mais aptos. A cultura, além de ser a expressão do espírito de um povo, deveria produzir um
sistema de vida social adaptada às condições existentes. O conceito de cultura, divulgado e
enfatizado pelo Governo, considerava-a como um conjunto de manifestações populares que
devem ocorrer sob a tutela do Estado. Esta apreciação sobre a cultura é veiculada pelas
diversas revistas e jornais oficiais.

A revalorização da cultura nacional, estimulada também pela corrente


modernista, buscava uma retomada das raízes da nacionalidade brasileira nos moldes do
autoritarismo estadonovista e no catolicismo tradicional, sobretudo na tentativa de fazer do
culto dos símbolos e líderes da pátria a base mítica do Estado Forte que se constituía.
96

Percebemos este fato nos stands da Exposição Nacional, em fotografias de


Getúlio Vargas e de Agamenon Magalhães. A vida política do país sofreu grandes
transformações, exemplificadas pelas práticas e representações criadas nesse período,
construídas sob a proteção de uma nova concepção de política e de uma relação entre Estado e
Sociedade. Neste período, as decisões tomadas a nível público afetaram substancialmente o
privado, isto é, as decisões políticas atingiram particularmente o cotidiano da população. Para
o aparelho do Estado somente era considerado cidadão aquele que trabalhasse e pertencesse a
uma corporação. Constantemente eram estimuladas e cobradas, através de um processo
educativo, várias práticas morais e cívicas.

Desta forma, fica claro que somente novos princípios institucionais, juntamente
com a representação que se tinha da nação e do povo brasileiro, legitimariam o regime, por
meio de intervenções nos diferentes setores da sociedade, reguladas por dispositivos culturais
que difundiam seus princípios doutrinários. Sem dúvida, uma política de proteção à família e
ao trabalho, ao homem do presente e do futuro tinha que dar ênfase especial à educação. Pois
só pelo ensino se poderia construir um povo integrado. A intervenção do Estado Novo fixava
os postulados pedagógicos principais à educação dos brasileiros, tendo em vista uma série de
valores, dentre os quais: o culto à nacionalidade, à disciplina, à moral e ao trabalho. O
trabalho era um sistema pedagógico completo, como um ideal educativo, que seria
implementado através de medidas como a adoção dos trabalhos manuais nas escolas e a
difusão e valorização do ensino profissionalizante.

O Governo atuou além das fronteiras do ensino sistemático, engajando-o em


uma dimensão cultural de valorização e preocupação com a arte. O Estado Nacional, outra
denominação para o Estado Novo, utilizava-se da arte popular, reconhecendo seu valor e seu
poder de sugestão. Com destaque para as músicas populares, sendo criado um grande número
de composições, entre elas: samba-canções; frevos; marchinhas de carnaval. Os compositores
eram estimulados e orientados pelo DIP a compor músicas com temas que valorizavam o
trabalho e o trabalhador esforçado, e as que não se enquadrassem nesses temas eram
proibidas. O rádio e a canção popular eram instrumentos valiosos de propagação e
doutrinação política. Além do programa A Hora do Brasil, o DIP tinha um controle total sobre
tudo e todos os assuntos relacionados à música popular, como concursos, espetáculos,
inclusive o carnaval (CABRAL, 1975). O Estado Novo articulou sua ideologia lançando mão
de funções repressoras, autoritárias e antidemocráticas. Inovou, pois foi um governo que se
legitimou recorrendo a aparatos ideológicos sofisticadíssimos e audaciosos. Este foi um
97

elemento central do projeto político, dando-lhe materialidade, efetuando sua organização e


integrando o conjunto dos atores sociais de forma diferenciada. O novo jogo discursivo traduz
uma nova concepção do mundo, reativando as representações incumbidas de legitimar as
diretrizes do novo governo.

Para se legitimar frente à população, o Estado organizava grandes eventos,


objetivando promoção e modernização. A Exposição Nacional foi um claro modelo desta
finalidade. Toda a temática desenvolvida pelo discurso estadonovista pode ser remetida a um
núcleo comum, a nova concepção de cultura, que se apresenta como integrada ao político. Era
disseminada principalmente pela revista oficial do regime, “Cultura Política”, cujo tema
corriqueiro era a recuperação do passado, que significava toda uma argumentação destinada a
valorizar a nova ordem. Cujo mérito seria de buscar no passado as raízes da brasilidade, a
valorização e recuperação do passado. Difundiam-se inúmeras mensagens de cunho
nacionalista e patriótico, de forma a enaltecer a nação e despertar, na população, o orgulho
pelo seu país.

Exemplo desta prática foi a imagem do pavilhão do Governo Nacional na


Exposição, com arquitetura moderna para a época. A construção era composta por dois
prédios retangulares e compridos, entre eles um outro prédio maior, de forma oval, com três
portas de acesso. Em cada prédio retangular havia um janelão. Podem-se notar duas pessoas
caminhando, em frente ao pavilhão. Ao fundo, observa-se outro pavilhão, de cada lado dos
prédios retangulares, um mastro com uma bandeira hasteada. A informação visual revela a
grandiosidade dos prédios, um dos itens do projeto do Governo. No interior destes prédios
havia representações de 4 ministérios: da Guerra, Marinha, Agricultura e da Viação e Obras
Públicas; mostruários dos produtos da indústria bélica, fotografias, gráficos, produtos
agrícolas, obras de saneamento, calçamento das ruas da cidade do Recife, demonstrados em
grandiosos stands.

De acordo com o testemunho de D. Maria Alice, advogada aposentada de 79


anos, sobre a Exposição:

“Há, eu me lembro, essa exposição teve de tudo, uma banda de


música, cinema ,teatro, foi uma grande festa da diversidade cultural, viam-se
expostos nos stands uma variedade de produtos e objetos de outros estados do
Brasil, práticas culturais de diversas sociedades. “Claro que na época eu não tinha
consciência desse fato, somente agora, olhando essas fotografias é que me faz
98

recordar dos momentos na Exposição, as belezas do Pará, o aquário de peixes


vivos, amazônicos, os mostruários do stand do Paraná, as apresentações de
cantores da época no teatro construído no parque, mas o que mais despertou minha
curiosidade foi o Pavilhão do Governo Nacional, onde havia o Ministério da Viação
e Obras Públicas, com maquetes de varias tubulações no interior das casas”.

Os apelos patrióticos eram visíveis neste Pavilhão, a bandeira nacional, a


fotografia de Vargas e Agamenon, o incentivo às tradições brasileiras e o nacionalismo
exacerbado.

FOTO 57

Esses convites cívicos, além de obscurecer as relações de classe, por igualar


todos sob a categoria da brasilidade, visavam despertar a confiança em relação ao país. O
discurso do Governo estimulava a população a acreditar nas potencialidades da nação,
sugerindo otimismo em relação ao futuro, com a finalidade de despertar a credibilidade em
relação às diversas medidas propostas. Os recursos naturais e o caráter nacional
possibilitavam um futuro grandioso para o país. As grandes extensões territoriais, as terras
férteis produzindo tudo (as grandes jazidas) eram citadas e descritas nos discursos, na
imprensa, em livros, programas radiofônicos, documentários cinematográficos e em feiras,
como a Exposição Nacional. Essa ênfase dada ao desenvolvimento, patriotismo e
modernização das cidades, à industrialização, à valorização ao trabalho e ao trabalhador eram
princípios do projeto do Governo. O incentivo à agricultura, aos produtos regionais foi um
fato marcante, observado na fotografia do stand do Ministério da Agricultura, uma das áreas
mais desenvolvidas e estimuladas pelo Governo, no âmbito nacional e local, valorizando as
99

culturas locais. Na foto, observa-se uma variedade de mostruários de produtos agrícolas,


muitos gráficos, exibindo o desenvolvimento das culturas locais, algumas mudas dos
principais cultivos agrícolas brasileiros, uma diversidade de fotografias das plantações; cana-
de-açúcar, café, algodão, milho, dentre outros. Esse stand simbolizou o progresso econômico
trazido pelo Estado Novo, os gráficos apresentam números de crescimento das exportações e
das produções nacionais, temas presentes nos discursos nacionalistas do governo de Getúlio e
de Agamenon.

FOTO 58

Um outro aspecto do discurso do governo, veiculado pelos meios de


comunicação da época, remete ao culto à imagem do presidente Getúlio Vargas e,
particularmente em Pernambuco, à do Interventor, Agamenon Magalhães, associado à figura
de um herói, que corresponde ao sucesso da empreitada, executor do projeto do Estado Novo.
Vincula-se Vargas à idéia de um mito, um ser de qualidades admiráveis. Com sua capacidade
de liderança e comunicação com o povo, ele realizou o projeto deste regime político, através
da democracia autoritária, a fórmula que melhor se ajustou às características do território
nacional, o discurso autoritário e disciplinador veiculado pela propaganda estadonovista. Com
a presença do Líder da Nação, como centro político simbólico do novo estado, uma
construção recorrente praticamente em todos os artigos que tratam da questão da ordem
política nesse período. Vale assinalar ainda que essa presença tem fortes sanções, na
jurisprudência daquele Governo, que fortaleceu o executivo e aboliu os partidos, praticando
atos autoritários e ditatóriais. Getúlio, pelas condições jurídicas e políticas com que conduzia
o País, torna-se de fato o centro operacional do regime político vigente. Uma fotografia da
100

Exposição exibiu um monumento erguido na avenida principal do parque, construído para


homenagear o Presidente da República e o Interventor de Pernambuco, simbolizando o herói e
o mito. É emblemática a imagem de Vargas e Agamenon como representantes do Estado
Novo e ídolos do povo, aclamados por muitos como protetores dos pobres e das viúvas. O
monumento mostra, em uma das faces, a imagem do presidente Getúlio Vargas, na outra está
o mapa do Brasil, na parte superior um mastro com a bandeira do Brasil, hasteada. No lado
esquerdo, um palanque, onde eram realizados os discursos, em segundo plano, algumas casas,
uma torre, um mastro com auto falante. À direita, o Pavilhão das Indústrias Pernambucanas,
postes da iluminação elétrica, implantados pelo prefeito Novaes Filho, nesse ano de 1939. É
importante destacar como a imagem influencia o observador, pois transmite uma mensagem
imediata, como é o caso da figura soberana de Getúlio Vargas.

FOTO 59

Um projeto bem estruturado foi desenvolvido para implementar a construção


da imagem carismática de Getúlio Vargas, veiculado pela propaganda, que produzia um
verdadeiro culto ao Líder do Governo e a Agamenon, em Pernambuco. A idéia do Estado
Novo era simbolizada pela figura de Vargas, considerado um político genial, um homem que
101

se preocupava com os pobres, com a população carente, aclamado como “o pai dos pobres”.
A publicidade em torno de Getúlio, produzida pelo DIP, exaltava suas qualidades, ao mesmo
tempo em que divulgava mensagens de otimismo e grandeza. Proibia a divulgação de
qualquer informação contrária, principalmente os atos autoritários e violentos praticados pelo
líderes do Estado Novo. Foi intensa a perseguição e repressão aos seguidores das religiões
afro-umbandistas, judeus, italianos e alemães.

5.2 A propaganda: O Fascínio das Imagens Fotográficas


Durante o período estadonovista pernambucano, sob a Intervenção de
Agamenon Magalhães, a imprensa desempenhou um papel fundamental na consolidação do
projeto político. No decorrer dessa administração, os meios de comunicação de massa tinham
um caráter doutrinador e formador, pois os governantes não dispensavam sua utilização para a
construção de uma mentalidade estadonovista, na tentativa de inserir o Brasil na tão sonhada
modernidade. Foi levado em consideração, pelo regime ditatorial, o poder educativo que as
imagens possuíam. No governo de Agamenon, a imprensa, o rádio, as imagens fotográficas e
o cinema, além de promoverem uma cultura áudio-visual, também foram utilizados como
meios pedagógicos na instituição de um imaginário desta doutrina política. Para isso, nas
entrelinhas do governo é construído um projeto pedagógico imagético, que, por sua vez, tem
validade a partir da censura, para efetivar o sucesso desse regime. Atuando como um dos
principais instrumentos de censura, o DIP foi de importância fundamental, pois era um dos
mecanismos de difusão da imagem do Estado Novo. Foi criado em 1938, subordinado ao
Presidente da República, e tinha órgãos filiados em vários estados, os chamados Deips;
incluía as seguintes divisões: divulgação, rádio-difusão, teatro, cinema, turismo e imprensa,
cujos objetivos seriam de centralização, coordenação e orientação da propaganda nacional
interna e externa. Esse órgão sistematizava as informações para os ministérios e entidades
públicas e privadas, veiculando matérias da propaganda nacional (CARONE, 1978). A
Imprensa é o setor mais eficiente do DIP, voltada prioritariamente para o exercício da censura
e da propaganda do regime, veiculando o discurso estadonovista nos jornais, revistas, rádios,
cinema, teatro e demais veículos de massa, que se mostraram altamente eficazes na defesa do
ideário do regime. Na cobertura jornalística sobre a Exposição, os jornais que se destacaram
foram a Folha da Manhã e O Diário de Pernambuco, divulgando quase diariamente a
programação do evento.
102

O projeto ideológico estadonovista possuía também uma dimensão pedagógica


imagética implantada pelo Governo, para cooptar o apoio popular; na difusão da doutrina.
Durante o Estado Novo, as diversas instituições atuaram no sentido de reprodução, através da
ideologia, das relações vigentes; entretanto, o papel mais significativo coube à propaganda, ou
seja, à Informação.

O Estado Novo foi implantado subitamente, através de um golpe de Estado. O


Congresso e o Legislativo, federal e estaduais, foram fechados, o sistema eleitoral deixou de
existir, os partidos foram extintos, em síntese, toda a estrutura político-administrativa,
legitimada pela ideologia até então vigente, foi desmontada e substituída por outra. Nessas
condições, não era possível esperar que a escola, a igreja, a família ou os sindicatos, por meio
de suas atividades, pudessem reproduzir, em curto tempo, a legitimação ideológica da nova
situação, cabendo à propaganda esta tarefa. Assim, esta difundia, de forma ampla e imediata,
as mensagens legitimadoras, deixando às outras instituições a tarefa de reforçá-las em longo
prazo (GARCIA, 1982).

Para a realização da propaganda foi estruturado um sistema de controle, em


que o Estado monopolizava todos os meios de produção e difusão de idéias. Foram criados
vários órgãos para efetivar o controle, aos quais competia dirigir a divulgação do ideário,
manipulando permanentemente todos os recursos e meios de comunicação disponíveis.
Concomitantemente, o ambiente externo foi remodelado para se adequar aos princípios e
normas do novo regime. As construções, a decoração em geral, os nomes das ruas e
logradouros, as placas, tudo era organizado para se adequar às idéias anunciadas pela
propaganda; a intensificação da vida pública, ao reunir a população em comemorações,
inaugurações, exposições e festividades diversas, sugeria uma imagem de unanimidade. A
propaganda foi realizada de forma intensa e racional, através de órgãos específicos,
estruturados de modo a permitir o amplo controle sobre todos os meios e recursos de
comunicação, tendo à frente o DIP, responsável por todas as funções de censura e
publicidade. Suas atribuições eram de coordenação, incentivo, promoção, direção, patrocínio,
organização da censura e anúncio nacional, manifestações artísticas em geral, festas
populares, concertos, conferências, feiras.

A propaganda foi eficaz, por dispor de um volumoso número de informações


sobre os diversos aspectos da realidade brasileira. Para tanto, contava com os dados do
Serviço de Inquérito Político Social (Sips). Este órgão criou uma rede de informações em
103

todas as cidades do país, recrutando profissionais liberais, médicos, os párocos dos


Municípios, os políticos, pessoas influentes nas comunidades. O Sips contava, em 1939, com
uma coleção de 44 fichas básicas de cada um dos 1574 municípios brasileiros, em que
constavam a situação geográfica, econômica, política, cultural e social de cada município.
Além desses documentos, o Sips organizava duas monografias sobre o conjunto das
características de cada município, nos anos de 1938 e 1939 e outra sobre cada um dos 4842
distritos em que se subdividiam os municípios. O Sips mantinha também um sistema de
organização de recortes de jornais, livros e relatórios enviados por estudiosos. Esses subsídios
foram de grande importância para a organização e montagem dos stands dos municípios na
Exposição Nacional. Além do arquivo de jornais, revistas e folhetos de propaganda, nacionais
e estrangeiros, este organismo tinha acesso às noticias enviadas pelo serviço de pesquisa de
documentação e estatística dos Ministérios, dos demais órgãos e do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (GARCIA ,1982).

O núcleo da propaganda estadonovista era formado pela palavra falada, os


discursos de Agamenon e outros políticos, proferidos durante a Exposição, forneciam o
conteúdo básico da propaganda (FOTO-60).

FOTO - 60

Outros meios de comunicação eram utilizados para reproduzir os discursos,


reforçando e esclarecendo os pontos essenciais. Havia controle direto sobre jornais, estações
de rádio e produtores cinematográficos, pertencentes ao governo. O rádio consistia em um
104

meio valioso para propaganda, devido à velocidade e amplitude com que atingia e difundia
suas mensagens. No Brasil, graças ao alto índice de analfabetismo, cerca de 56,04%, em
1940, este meio de comunicação tinha uma importância significativa, pelo seu poder de
atingir essa parcela da sociedade. Ciente dessa importância, o Governo estabeleceu que a
rádio-comunicação constituía um serviço público cuja utilização dependia da concessão do
poder central. No início dos anos 30, adquiriu prestígio entre a população, com os primeiros
programas humorísticos, musicais, transmissões esportivas, rádio-jornalismo e as primeiras
novelas (GARCIA, 1982). Diariamente, era transmitido, para todo o país, o programa de rádio
oficial do Governo: a Hora do Brasil, cujo conteúdo incluía discursos, os atos e
empreendimentos do Governo, as descrições de regiões percorridas pela comitiva
presidencial, notícias internacionais. A Hora do Brasil era forçosamente retransmitida em
estabelecimentos comerciais, veiculada também por alto-falantes instalados em logradouros
públicos, praças e avenidas, nas diversas cidades do interior do país.

Nesse período a polícia é modernizada e atua sempre que os princípios e as leis


não são cumpridos ou é ignorada: quem discorda do ideário estadonovista perturba os
equilíbrios da sociedade. As orientações e leis advindas do Estado Novo devem ser cumpridas
à risca, caso contrário a mão forte do Estado autoritário é violenta e reprime, através da
polícia, qualquer ato considerado de rebeldia.

O cinema constituía outro meio de divulgação da ideologia estadonovista,


sendo bastante utilizado pela propaganda, principalmente, através de documentários de
exibição obrigatória, que mostravam as comemorações e festividades públicas, as realizações
do Governo e as solenidades oficiais. Nesses documentários, a Administração Federal
selecionava os fatos que favoreciam sua imagem grandiosa e eram exibidos no cinema, por
ser este uma das formas de lazer preferido pelo povo brasileiro.

Na década de 30, a imprensa se modernizou; máquinas novas foram adquiridas


para que pudessem reproduzir melhor os discursos oficiais as noticias do governo, descrições
de inaugurações, realizações e comemorações. As notícias publicadas nos jornais eram
censuradas rigorosamente, chegando a ter 60% de suas matérias fornecidas pela Agência
Nacional, órgão do Governo.

A produção e edição de livros, com destaque para os sociais e políticos, foi


outro recurso utilizado para divulgar a ideologia do Governo. Em 1941, o DIP oferecia uma
105

média de uma obra editada a cada oito dias, promoviam-se concursos, premiando romances e
comédias que levassem aos homens que trabalhavam nas fábricas e oficinas uma mensagem
de valor educativo. Muitas obras publicadas pelo DIP eram dedicadas a justificar o golpe de
37. A literatura de cordel também reproduzia o engrandecimento do regime e do seu chefe.

Agamenon, percebendo o poder de convencimento e de alcance inerente das


imagens, particularmente das imagens fotográficas, intensificou cada vez mais o uso dos
veículos de comunicação de massa: O jornal Folha da Manhã, de sua propriedade, um dos
principais jornais em circulação na época, fundado em 21 de novembro de 1937. Com seu
grande poder de alcance, era utilizado nas campanhas propagandistas promovidas pelo seu
Governo, atingindo grande parte da população, veiculando sua ideologia de progresso,
autoritarismo e desenvolvimentismo. Constituindo uma fonte histórica e antropológica,
devido também à sua riqueza imagética, enquanto a maioria dos jornais da época prestava
pouca ou nenhuma atenção às fotografias, o jornal de Agamenon era repleto delas. Nas duas
edições diárias da Folha da Manhã, as imagens fotográficas exerceram papel crucial na
construção e fortalecimento das idéias e do projeto estadonovistas. Contrariamente ao Jornal
do Commercio, que apresentava apenas ilustrações pagas, propagandas dos filmes em cartaz,
reclames destes ou daqueles produtos. Quanto ao Diário de Pernambuco, as imagens
concentravam-se nas manchetes de primeira página, diminuíam, em quantidade, à medida que
se adentrasse no jornal (SOUZA NETO, 2005 p.46).

FOTO-61
106

A Folha da Manhã era uma extravagância em termos fotográficos e ilustrativos.


A primeira e a última página, as capas principais, comportavam inúmeras fotos, que muitas
vezes se sobrepunham, e como não havia espaço para tantas ilustrações, eram feitas
montagens, um bom exemplo da prática ilustrativa da Folha: na primeira capa, local das
manchetes mais importantes, abaixo da frase chamativa: “EXPOSIÇAO NACIONAL DE
PERNAMBUCO” de fotos que preenchem a página, registrando em detalhes a inauguração
do ambiente açucareiro e os discursos dos políticos, durante as festas de natal e ano bom(cic).

Outro excelente exemplo também se encontrava na primeira capa, abaixo da


frase chamativa. É mais uma linguagem de cinema e das histórias em quadrinhos que
propriamente linguagem de jornais, os quadrados contam cada qual uma pequena passagem
do acontecimento e, de relance, mesmo o leitor mais preguiçoso ou desatento poderá ter
noção dos principais aspectos desses acontecimentos; mais abaixo, para os mais habituados à
leitura, seguia-se uma nota explicando, uma por uma, todas as fotos.

Essa manchete ilustra bem o volume de imagem que compunham as capas da


Folha da Manhã. Porém, ela se apresentava muito arrumada, os quadrinhos todos formando
um quadrado maior. O estilo da Folha da Manhã era menos organizado. Um representativo
estilo ilustrativo da Folha da Manhã encontra-se abaixo: as imagens se sobrepõem em grande
quantidade, num excesso de informação visual, devido à riqueza do acontecimento, a
inauguração, os detalhes do evento, os costumes, o vestuário dos políticos, as tradições, cada
momento da cerimônia documentado nas imagens.

FOTO-62
107

As reportagens eram recheadas de imagens e ilustrações, que falavam sem


palavra, possuíam o poder de comunicar às pessoas as “maravilhas” promovidas pela
Interventoria. Era a doutrinação do ideário estadonovista, formando a opinião pública, uma
invasão diária da imprensa no cotidiano da população, passando a ser um instrumento
legislativo do Governo.

Os fotógrafos eram um componente fundamental para a elaboração da imagem


que o Estado Novo queria apresentar aos pernambucanos. O regime, através de seu jornal,
celebrava a força e o poder dos artistas da câmara fotográfica, ao mesmo tempo em que
percebia sua força ameaçadora. Os fotógrafos eram um elemento onipresente em Pernambuco,
durante o dia ou a noite, na madrugada ou clareando o dia; a toda hora, em qualquer
momento, os profissionais estavam sempre dispostos a cumprir o seu dever. Registrando as
solenidades, os eventos, acontecimentos políticos, nada escapava a seu faro de “perdigueiro”,
registrando tudo com sua máquina e seu empenho profissional e artístico.

Os repórteres fotográficos eram apresentados como possuidores de um poder


que fascinava; mesmo diante do Presidente Vargas eles não se intimidavam, pediam que o
Presidente levantasse o braço ou que não sorrisse e ele atendia.9 Esses artistas da câmera eram
incansáveis em seu trabalho, ninguém discutia com eles. Eram os senhores absolutos do
registro do presente. Todos obedeciam a este captador de imagem, se desejassem preservar-se
para a posteridade (SOUZA NETO, 2005, p.150). O fotógrafo registrava cenas sobre os
acontecimentos em geral, eram artistas sensíveis que eternizavam os momentos em imagens.

A descrição do trabalho do fotógrafo feita pelo jornal Folha da Manhã


envolve práticas diversas. Segundo o jornal, ele chega, observa o ambiente e arma a sua
parafernália. É um momento único, tanto para o trabalho do artista como para o sucesso da
cerimônia. Ele produz um fragmento da realidade, essa mesma realidade que retrata sem
retoques. O fotógrafo era “o rei da criação”, recebia um bom salário, oito mil reis, era um
profissional bem pago, pois de sua habilidade e arte dependia o sucesso das cerimônias e
eventos promovidos pelo Estado Novo, divulgados com semanas antecedência (SOUZA
NETO, 2005, p.152). A fotografia de primeira página em alguns jornais de Pernambuco
comprovou o êxito da Exposição Nacional. No relato de dona Maria do Carmo, professora
aposentada de 81 anos:

9
A rua, a tirania dos phtotógrafos. Folha da Manhã, Recife, 10 de Maio de 1939. Edição vespertina, p.03.
108

“Os jornais da época, principalmente a Folha da Manhã e o


Diário de Pernambuco, publicaram notícias sobre a Exposição. Muito tempo antes
de sua inauguração, os jornais mostravam a construção dos pavilhões, fizeram uma
cobertura total do evento mostrando todos os detalhes da organização, da
inauguração, os acontecimentos diários. A Exposição representou um instrumento
pedagógico muito eficaz, com muitas imagens, fotografias, painéis, maquetes, para
educar a sociedade pernambucana, exibindo a economia, a política e a cultura dos
estados federais e dos municípios de Pernambuco. Eu me recordo bem dos stands
das fábricas de tecidos, porque minha mãe era costureira, e ela me levou para
conhecer esses stands, os mais bonitos foram das indústrias de Tecidos de Paulista,
com uma variedade imensa de cores e estampas.”

O rádio, a imprensa, o cinema e as ruas mostravam intensamente imagens do


Governo, um discurso imagético. Nos cinemas, antes das exibições, o Estado se encarregava
de fazer a sua propaganda. Além da doutrinação de Agamenon Magalhães, havia sempre, nas
edições, as imagens do presidente Getúlio Vargas; nas ruas, nas paredes e nos prédios lá
estava sua figura. Um mundo cercado por imagens, que modelavam e exigiam uma nova
forma de pensar e de se comportar na sociedade.

O cinema era o meio mais importante de propaganda, depois da imprensa. No


plano nacional, o cinema teve um papel importante na política do Estado Novo, que ao mesmo
tempo lhe conferia um caráter educativo. Na Interventoria de Agamenon, o cinema educativo foi
um dos instrumentos utilizados para executar seu projeto pedagógico imagético, divulgando suas
propostas doutrinárias, em documentários sobre eventos e comemorações. O Deip exercia uma
forte censura sobre este meio educativo, controlando as exibições dos filmes.

Da mesma forma que o trabalho do fotógrafo é fundamental para o sucesso de


um evento, pode ser prejudicado se for realizado sem o controle de regras rigorosas, pode
causar graves prejuízos. Os fotógrafos são os novos tiranos, revelam a realidade como de fato
ela é. Seria um caso de polícia se o jornal afirmasse que se deveria proibir o serviço dos
fotógrafos de rua, ”porque o Recife está se tornando a cidade mais feia do mundo,” graças ao
trabalho deles (SOUZA NETO, 2005, p.153).

O modelo do Estado Novo, para os fotógrafos, é o mesmo que para o restante da


sociedade; uma vez disciplinados e doutrinados, condicionados pela mão autoritária do regime,
esses profissionais são elementos imprescindíveis para a população e, sobretudo, para o próprio
Governo, realçando e salientando os bons combates e as boas obras. Porém, agindo por conta
própria, revelam o que de pior e de mais feio existe na cidade, segundo a visão da Interventoria.
Essa incerteza é característica das relações estadonovistas. Percebe-se como as imagens
fotográficas foram utilizadas para consolidar a ideologia do Governo, doutrinando profissionais,
109

como os fotógrafos, para enaltecer as grandezas do desenvolvimento trazido para Pernambuco


com a instituição do Estado Novo. Ao mesmo tempo, esses profissionais são repreendidos e
sofrem as mesmas sanções daqueles contrários ao regime, caso não correspondam ao que se
deseja. A Interventoria encomendou uma coleção fotográfica da Exposição Nacional, que
ressaltasse o desenvolvimento, o progresso, a beleza de seus mostruários, então o fotógrafo
eternizou as imagens de prosperidade, seguindo as instruções recebidas.

FOTO-63

De acordo com o depoimento do senhor Aroldo Praça, jornalista aposentado de


89 anos, que visitou a Exposição Nacional:

“Este evento foi um acontecimento único no Recife, nunca se tinha


visto tantas novidades juntas aqui em Recife, os pavilhões monumentais, a
organização dos stands, o esmero nos mínimos detalhes dos stands, principalmente
naqueles que exibiam a cultura pernambucana, as comidas típicas, as tradições, as
músicas, o folclore.” Seu Aroldo era repórter esportivo, trabalhava na Folha da
Manhã, e tinha orgulho do seu trabalho, foi testemunha do progresso trazido para o
Recife com essa Exposição, tanto em termos educativos, como técnico-cultural,
promovendo o desenvolvimento do Estado nas questões culturais e educacionais A
Exposição tinha uma coisa engraçada, aquele relógio da Faculdade de Direito
funcionava, era para agente saber a hora de ir para casa, - dez horas, onze horas,
menino, hora de ir para casa. Eu vi coisas extraordinárias na Exposição, a Pilar, de
Pessoa de Queiroz, a fábrica dos Lundgren, a Usina Santa Teresinha, a maior do
Estado, o Pavilhão dos municípios do Estado. Eu entrava de graça, tinha muita
diversão, você se distraia, o joguinho do jaburu. Ia-se pra lá de qualquer jeito, de
bonde, de pé, era tudo muito organizado e bonito, não havia muita sofisticação.
Tinha muita quantidade de imagem para época com muita qualidade. Naquele
tempo havia a força das máquinas. O local da Exposição foi extraordinário,não
havia nada na época com tanto brilho, tanto que o negocio foi tão sério, que ali foi
por muitos anos a Festa da Mocidade, controlada pela Faculdade de Direito, tinha
110

pastoril, roda gigante, era uma festa de família. A Exposição era um negócio
inédito. Ela ocupava o Parque Treze de Maio, que ocupava até a avenida Mário
Melo, tudo era a festa, era um mundão. Todos estavam muito bem vestidos
socialmente vestidos, como pedia a ocasião, agente olhava aqueles stands com
respeito e admiração, aquilo era uma novidade porque a faárica Paulista tinha 700
lojas em todo Brasil, era uma curiosidade nascente, as pessoas da época todos
comentaram, tudo foi uma surpresa.”

Os documentos visuais produzidos pelo fotógrafo simbolizam como a


Interventoria pernambucana usava as imagens fotográficas, como também os meios de
comunicação existentes na época, com o objetivo de convencer e doutrinar os cidadãos
pernambucanos sobre o desenvolvimento econômico e político construído pelo Estado Novo.

É relevante considerar que a iconografia documentada pelo fotógrafo


Batista estava a serviço de um Governo ditatorial e autoritário, a Interventoria de
Pernambuco. Todavia, ao levantar fontes históricas, apreende-se aspectos das relações
sócio-culturais que promovem a discussão entre o material imagético e o conteúdo
antropológico. Dessa maneira, tornou-se possível elaborar interpretações que conduzem à
constituição da alteridade na coleção fotográfica. De tal modo, se analisou a influência
político-ideológica e sobretudo cultural do regime estadonovista, como também a conduta
social da sociedade da época, com o objetivo de ampliar o entendimento sobre os sistemas
de significados inerentes às imagens fotográficas.

Mergulhamos no período do Estado Novo (1937-1945) para fazer uma


reconstrução das práticas sociais e culturais contidas nas imagens da Exposição Nacional,
levando em consideração, principalmente, o projeto-pedagógico-cultural imagético do
Governo de Agamenon, desenvolvido através da propaganda, difundindo os grandes eventos
organizados pela Interventoria, como foi a Exposição, caracterizados pelo uso maciço de
imagens: fotografias, painéis, mapas, gráficos, e o cinema. Encontramos, na coleção
fotográfica, um universo de representações sociais e culturais referentes às influências desse
período. Sendo assim, é preciso perceber que o contexto histórico estudado permeou as
interpretações sobre a coleção fotográfica da Exposição.

O legado iconográfico do Estado Novo em Pernambuco reflete a vida social e


as particularidades regionais brasileiras através do olhar da Interventoria. O registro
iconográfico desse período estabelece-se de modo mais próximo da realidade do Brasil,
durante o regime político do Estado Novo. Vale destacar a presença constante, nas imagens,
de símbolos do nacionalismo e do ufanismo, representados por bandeiras do Brasil, retratos
111

do presidente Getúlio Vargas e do Interventor pernambucano Agamenon Magalhães, produtos


regionais, característicos da economia de cada região, as tradições, os costumes, o folclore e
demais artefatos culturais expostos nas fotografias da Exposição Nacional.

Ademais, é importante salientar a valiosa contribuição dos depoimentos dos


idosos e idosas que visitaram a Exposição e comprovaram as afirmações e argumentos
constantes deste trabalho, buscando em suas memórias os fatos que envolveram este evento.

Desenvolvendo uma reflexão entre imagem e memória social, demonstrando a


importância dos suportes visuais enquanto artefatos da memória social, sobretudo quando se
trata de uma coleção fotográfica, que conta sua história em imagens, como é o caso da
coleção fotográfica sobre a Exposição Nacional.

Contudo, o universo imagético concebido pela Interventoria desenvolveu-se no


segmento da antropologia visual, na qual a coleção fotográfica ultrapassa as funções utilitárias
que o Governo pretendia, documenta um evento visando sua perpetuação política, e passa a
desempenhar um outro tipo de função: a de representação social e cultural.
112

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O interesse e o uso da fotografia na pesquisa antropológica não é recente, a
fotografia teve um lugar privilegiado nas ciências sociais nesses últimos 30 anos, como
assinalam vários autores (GODOLPHIM, 1995; ALEGRE, 1998; SAMAIN,1998;
NOVAES,1998; ECKERT, 1999; MONTE-MOR,1999; PEIXOTO,1999) que nos serviram
de suporte teórico para esta pesquisa. Vários outros antropólogos já trabalham coleções
fotográficas de um determinado lugar e de um momento histórico específico. Referimo-nos ao
trabalho realizado pela antropóloga Fraya Frehse (2005): “O tempo das Ruas – Na São Paulo
de Fins do Império”, através da análise de fotografias da época, de um acervo de um
fotógrafo específico que retratava as ruas de São Paulo. Com essa pesquisa, a autora procurou
compreender a história urbana, as mediações simbólicas entre os indivíduos e a cidade.

Á luz desses exemplos, esta dissertação está baseada em uma pesquisa


realizada em fontes fotográficas de um momento do Estado Novo, com a intenção de
desvendar e analisar a memória social da Exposição Nacional, utilizando imagens e
entrevistas realizadas com 8 pessoas (ver lista no apêndice) que participaram efetivamente
desse evento. Conversar com essas pessoas e analisar as fotografias nos deram respaldo
metodológico para compreender antropologicamente o que se situava ao redor, nos entornos
da Exposição Nacional. Com isso, procuramos, onde nos foi possível, identificar as
especificidades socioculturais da sociedade dos anos 40 na capital pernambucana, através de
seus participantes, expositores, que refletiram as características do período do Estado Novo no
Brasil. As fotografias forneceram as informações etnográficas necessárias para a elucidação
das questões levantadas durante a pesquisa.

Diversos autores lidam com fotografia como recurso visual, dentre os quais
(Collier J 1978) e muitos pesquisadores buscam a fotografia como um recurso metodológico e
técnico de ampliação de um trabalho de campo; este trabalho de pesquisa procurou utilizá-la
para buscar compreender um determinado período de tempo e ampliar o olhar sobre as
questões culturais pertinentes a esse momento histórico. Observou-se como as fotografias
exibiram o cenário político do período do Estado Novo no país, dando ênfase à
industrialização, representada nas fotografias da Exposição pelas fábricas têxteis, pelas
indústrias de massas, biscoitos, óleos, sabões. Elas falaram de um projeto centrado na
urbanização e modernização das cidades, focaram a industrialização através das fotos,
maquetes de prédios e de bairros do Recife que até hoje são marcas desse período.
113

O pavilhão anticomunista, apresentado na página 47, mostra claramente a


perseguição e a intensa publicidade contra o comunismo. Um austero prédio que surpreendeu
muito, de acordo com os entrevistados, os visitantes da Feira. A campanha anticomunista
caracterizava um dos princípios do Estado Novo e era utilizado a Polícia Política para
intimidar os simpatizantes e a população em geral. Nas fotografias dos políticos percebemos
sempre a presença de Agamenon Magalhães, como líder político pernambucano, que
contribuiu para o êxito desta doutrina ideológica, agindo politicamente como ditava as
diretrizes estadonovistas. As fotografias mostraram um veículo propagandista que impingia
para à sociedade da época as realizações desta doutrina ideológica: o incentivo ao progresso
expresso nos stands e pavilhões do evento.

Procuramos reconstruir a história desta Feira Industrial, Com base nas imagens
fotográficas, como uma possibilidade do uso das iconografias para a recuperação da memória
social de eventos tais como esse da Exposição Nacional. Na realidade, são objetos culturais,
registros em que este acontecimento está preservado, onde a memória pode ser encontrada.
Nas fotografias dos stands dos Estados Federais e dos Municípios de Pernambuco, tais como
são apresentadas respectivamente nas páginas 77 a 90 e 22 a 35, são visualizadas, de um lado,
a diversidade de objetos utilizados pela sociedades dessas localidades e, por outro, as práticas
culturais da sociedade na época.

Os grandes eventos eram utilizados constantemente para promover a ideologia


estadonovista, nos quais as imagens fotográficas representavam um eficaz instrumento de
convencimento dos postulados desta doutrina política, as exposições comunicavam as ações
realizadas pelo regime ditatorial de Vargas.

Considerando os dados apurados, sobretudo nas entrevistas com os visitantes


da Exposição, evidenciou-se que a sociedade local da época vivenciou esse acontecimento,
com sentimento de orgulho pela grandeza e ostentação do evento promovido por Pernambuco.
Grande parte dos membros da sociedade recifense participou efetiva e ativamente,
freqüentando diariamente os pavilhões e assistindo as atrações exibidas pelos organizadores
da Exposição.

A participação massiva referida anteriormente nos leva a crer que houve um


sucesso na doutrinação política ideológica veiculada pela propaganda estadonovista,
observada nas matérias dos jornais da época.
114

Durante a leitura dos jornais da época e do material coletado para essa pesquisa
pudemos aferir que o ambiente da Exposição envolvia a todos, em um clima de festa e alegria,
toda noite assistia-se a várias atrações artísticas e os discursos dos políticos empolgavam a
população com mensagens de sucesso e progresso trazidos com o advento das realizações de
Getúlio Vargas.

Entretanto, as contradições marcavam este período, tanto na política como nos


questões culturais. O nacionalismo está marcado pela super-valorização a cultura nacional,
principalmente os novos hábitos: o incentivo ao uso da gilete azul, fazendo com que as
pessoas deixassem de freqüentar o barbeiro, o estímulo ao engajamento dos trabalhadores nos
Centros Educativos Operários, impostos pela ditadura de Agamenon, as mudanças causadas
pela modernização em curso. As perseguições aos comunistas e umbandistas, a repressão aos
membros da sociedade que não apoiassem as ações da ditadura de Agamenon.

Ao ter-se trabalhado na coleção fotográfica sobre essa Exposição, pode-se


comprovar que efetivamente as imagens eternizam uma época e se colocam em um lugar da
memória. E, ao mostrar as fotografias da coleção aos nossos entrevistados, muitos deles
assinalaram que as transformações e mudanças estruturais nas áreas culturais e políticas foram
efetivadas nesse período. Essas fotografias provocaram lembranças na memória dos
entrevistados que direcionaram a um debate sobre as reformas estruturais do Estado Novo.

Como foi demonstrado nos capítulos 1, 3, e 4, o fotógrafo Batista, autor das 99


fotografias sobre o evento, registrou a Exposição priorizando os pavilhões e stands onde estavam
expostos as obras e realizações do Estado Novo, os políticos estadonovistas discursando em
palanques, a participação da sociedade pernambucana, os frutos da economia dos municípios de
Pernambuco e, finalmente, os empreendimentos realizados pelo prefeito do Recife.

Chegamos as seguintes conclusões em relação a o acervo imagético produzido


pelo fotografo Batista, esse enfatizou o registro da cultura material exposta nas imagens
fotográficas, cerca de 80% da coleção, a ausência da participação feminina nas fotografias,
presentes em apenas 6 imagens.

Uma das formas de legitimação do governo estadonovista ocorreu por meio das
imposições ideológicas e culturais concebidas pelos intelectuais que formularam o projeto
ideológico doutrinário veiculado pela imprensa. Estas mudanças permearam a vida cotidiana da
sociedade pernambucana, influenciando os hábitos dos cidadãos. Era a cultura estadonovista que
115

disciplinou e conquistou a população, intervindo no sistema educacional, através de reformas e


dos Centros Educativos Operários. O uso da arte popular, das músicas, do teatro em fim das
manifestações culturais contribuiu fortemente para o êxito desta doutrina politica.

Buscava-se, por intermédio das reportagens e fotografias veiculadas pela imprensa


oficial, oferecer uma identidade cultural à cidade. A fotografia presta-se a isto, pois favorecer a
manipulação da realidade: omite-se. elimina-se o que não se quer mostrar; daí a imagem oficial.
Nesse contexto o fotógrafo jornalista desempenhou um papel importantíssimo, pois esse
profissional registrou os detalhes do cotidiano da cidade do Recife sob a intervenção do Estado
Novo, seguindo a orientação do governo, mas imprimindo seus traços culturais.

A própria coleção fotográfica sobre a Exposição Nacional representa um exemplo


do modo como o registro fotográfico e o fotógrafo colaboraram efetivamente para a perpetuação
das obras e ideais dessa doutrina autoritária.

Finalmente, vimos que o Estado Novo introduziu o uso da imagem fotográfica


como um meio eficaz de propaganda, favorecendo seus interesses, na medida em que todos os
eventos promovidos pelo regime eram fotografados de forma intensa, imensas quantidades de
imagens foram expostas em jornais e espalhadas nas ruas, com o intuito de persuadir a
sociedade da época.

Acredita-se que, por meio deste trabalho, se possa contribuir para incentivar e
valorizar o uso da imagem e de coleções fotográficas, incrementando seu potencial nas
ciências humanas.
116

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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121

8. APENDICE

LISTA DOS ENTREVISTADOS

Francisco José da Silva..................................................................................... 34

Antonia Rosa dos Santos .................................................................................. 39

Maria das Dores de Lima ................................................................................. 40

Manuel Correia de Andrade ............................................................................. 45

Irenete Maria Barbosa ...................................................................................... 79

Maria Alice do Nascimento .............................................................................. 97

Maria do Carmo Pereira ................................................................................. 108

Aroldo Praça .................................................................................................. 109

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