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A FORM AÇÃO DO ESTILO

PFl A

AS S I MI LAÇÃO D O S A U T O R E S
ANTOINE ALBALAT
ANTÔNIO ALBALAT

A FORMAÇÃO DO ESTILO
PELA

ASSIMILAÇÃO DOS AUTORES


TRADUÇÃO DE

CÂNDIDO DE FIGUEIREDO

5 .a E D I Ç Ã O

LIVRARIA C L Á S S I C A EDITORA
A. M. T e i x e i r a & C .* ( F i l h o s )
Praça dos R estauradores, 17
LISBO A —1 9 4 4
DUAS PALAVRAS DO TRADUTOR

O S r . A n tô n io A lb a la t, o e m in e n te c ritic o lite ­
rário, cuja Arte de Escrever co n ta j á 1 6 edições, e
cu ja Formação do Estilo v a i n a s é tim a , expõe a
in d o le e o a lca n ce desta ú ltim a obra nas s e g u in te s
p a la v r a s :
— « T ra ta -se de e x p o r como se p o d e a p re n d e r a
escrever, e stu d a n d o e a ss im ila n d o os p ro cesso s dos
b ons escrito res, j á q u a n to ao estilo d e sc ritiv o , j á
q u a n to ao estilo a b stra c to .
« D e c o m p o r êsses processos, e x tr a i-lo s d o s a u to ­
res célebres e m o s tr a r com o se a p lic a m , ta l é a m ir a
dês te livro .
« A s obras, q u e c o n s titu e m cu rso s de lite r a ­
tura, re c o m e n d a m u n ic a m e n te a a ss im ila ç ã o , com o
m étodo de fo r m a ç ã o do e s tilo ; m a s e sq u iv a m -se a
dizer-nos como se deve a s s im ila r e O que se deve
assimilar.
« T en to p re e n c h e r esta la c u n a . »
E p reencheu-a. P o r isso, p e rc o rre u as o b ra s
exem plares dos g r a n d e s m estres, d esd e a lite r a tu r a
clássica, até à lite r a tu r a fr a n c e s a , a n tig a e m o d e r n a ;
e, colhendo nesse percurso centenares de m odelos
elu cid a tivo s, a co m p a n h o u -o s da sua apreciação cri­
tic a , fa z e n d o ressaltar dêles a beleza de todo o
g ê n e ro , que é dado im ita r , e acaso os defeitos que
é m iste r r e fu g ir .
S ã o tão evidentes com o ponderosas as v a n ta g e n s
que o escritor in cip ien te e q u a lq u er estu d io so poderá
a u fe rir da a ten ta observação dos fa c to s literários,
n este livro rep ro d u zid o s, e da ju d ic io s a critica , com
que os rodeia o S r . A lb a la t.
E n a tu r a l porém , que ao leitor m eticu lo so e
in g ê n u o ocorra u m a objecção :
— S e o a u to r do livro conhece os processos e os
m eios, com que se pode ser escritor célebre, I p o r
que será que êle próprio não é e xtra o rd in á rio esti­
lista ou escritor de p rim e ira o rdem ?
C o m efeito, o S r . A lb a la t não é escritor de
p rim eira o r d e m : é p e d a g o g o e critico ilustre,
ro m a n cista de elevado m é r ito ; m as a sua nom eada,
m o rm e n te fo r a de F ra n ç a , está lo n g e de ser inve­
já v e l. B a sta rá notar-se que o seu nom e ainda não
teve cabida no Grande Dicionário dos Escritores do
Mundo Latino, onde aliás estão reg ista d o s nom es
tão m odestos com o o m e u .
M a s a objecção não é p ro ced en te, p ela s im p le s
ra zã o de que è m u ito verd a d eira a c o n h e c id a s e n ­
ten ça da com édia de D e s to u c h e s : Ia critique 0St
aisée et I’art est difficile.
P o r o u tra s p a la v r a s : o a p a re c im e n to de u m
g ra n d e e scrito r não é m era m en te a r e s u lta n te d o
m ais lo n g o e p ro ficien te e stu d o : d e te r m in a -o a
in tim a a lia n ça dêsse estudo com o c h a m a d o g ê n io ,
isto é, com p red ica d o s que só a n a tu r e z a co n ced e.
O tra b a lh o e o estudo m e to d iz a m as p r o d u ç õ e s
g e n ia is, dão v ig o r e b rilh o ao que é esp o n tâ n e o e
in g é n ito .
T em -se obsei-vado, p o r exem p lo , que os g r a n d e s
d ic io n a rista s, os g r a n d e s g r a m á tic o s , co n h ecen d o
em bora to d o s os recursos da p a la v ra , to d o s os
processos de m elh o r escrever, ra ra m e n te são escri­
tores de p rim e ira o rd e m . E êste fa c to acresce a
um a o b serva çã o , que p o r m a is de u m a v e z ten h o
J e ito : os g r a n d e s sá b io s são, g e r a lm e n te as c r ia tu ­
ras m enos a p ta s p a ra v u lg a r iz a r a ciên cia .
P arece isto p a ra d o x o , e é v e rd a d e p a lp á v e l.
N a s nossas escolas p r im á r ia s e se c u n d á ria s, servem
de texto livros, que, r e d ig id o s e m b o ra p o r c ie n tis ­
tas respeitáveis, c o n s titu e m v e rd a d e ira s c a la m id a -
des p e d a g ó g ic a s e literá ria s. K m r e g r a , os sábios
poderão ter a p ren d id o tu d o , m a s n u n c a a p re n d e ra m ,
n em se aprende, a fa la r a cria n ça s. A s im p lic id a d e
e a clareza da exposição p ro v ê m m u ito m en o s d o
estu d o e do saber, do que da p ró p r ia n a tu r e za do
hom em .
A êste respeito, è ju s tiç a p o n d e ra r que o
S r . A lb a la t n em sem pre é sim p le s e claro, especial­
m e n te se o im a g in a m o s fa la n d o co n n o sco , com
e stra n g e ir o s. K p o ssível que a su a d icçã o não
ofereça d ific u ld a d e s aos seus c o n te r r â n e o s ; m a s no
seu o r ig in a l, no fra n c ê s, não n o -la s evita a n ó s ,
aos e stra n g e ir o s. T e m às vezes a fo r m a tão in cisiv a ,
tão cortada, que nos é d ifíc il se g u ir-lh e o pensa­
m e n to e tr a d u z ir -lh e a id éia . D á -n o s às vezes a
im p ressão de que o u v im o s u m m a rselh ês ou um
g a sc ã o , to rn e a n d o u m a expressão o u d a n d o -lh e
se n tid o , que não é co rren te n a lite r a tu ra do seu
p a is nem está p re v e n id o n o s m elh o res crítico s
fr a n c e s e s . i
A estas d ific u ld a d e s , com que o tr a d u to r teve
d e lu ta r , acresce a in d a a c ir c u n s tâ n c ia de que o
a u to r , escreven d o esp ecia lm en te p a r a a F ra n ç a ,
u sa expressões que nã o p o d em ter tra d u ç ã o litera l,
e que, tra d u zid a s livrem en te, lhe fa ls e ia m o s
in tu ito s .
P ro c u re i, com o pude, ven c e r essas e o u tr a s
d ificu ld a d es, preferin d o a in te rp re ta ç ã o e x a c ta d o
p en sa m ento do a u to r a c in ze la r fra se s de relêvo
lite rá rio ; pelo que, fio que o m e u tr a b a lh o ,
em bora carecendo de p rim o re s lite rá rio s, n ã o re a ­
liza o p ro ló q u io do traduttore traditore, e c o n tr i­
b u irá p a ra a d ifu sã o , en tre nós, d a n o tá v e l e
u tilissim a obra do S r . A n tô n io A lb a la t.

L isb o a , 1-111-912.

C. de F.
C A P ÍT U L O I

A leitura, como p r o c e s s o geral de a s s i m i l a ç ã o

Como se deverá ler? —Métodos falsos de leitura. —Desen­


volvimento do gôsto. — A verdadeira leitura. — A lei­
tura e o talento. — Será necessário ler-se muito ? —
Fim da leitura. — Quais os autores que se devem ler ?
— Resultados benéficos da leitura.

A l e i t u r a p o d e s e r c o n s id e ra d a co m o a p r ó p r i a
fo n te d e to d o s os p ro c e ss o s d e a s s im ila ç ã o do
e s tilo ; e n g e n d ra -o s e re s u m e -o s ; s e rá , p o is , o p r i n ­
c íp io g e r a l do m é to d o , e x p o s to n e s te liv r o .
L e r é e stu d a r, lin h a a lin h a , u m a obra lite r á r ia .
A le i tu r a f o r m a a s n o ss a s fa c u ld a d e s , fa z q u e
as d e sc u b ra m o s, d e s p e r ta a s id é ia s , a le n t a a i n s p i ­
ração. E p e la l e i t u r a q u e n ó s n a s c e m o s p a r a a
v id a in te le c tu a l. É a p ó s a l e i t u r a q u e n o s t o r n a ­
m os e s c rito re s . E n s in a - n o s a a r t e d e e s c re v e r,
com o n o s e n s in a a g r a m á tic a e a o r to g r a f ia .
A le itu r a é a m a is n o b r e d a s p a ix õ e s . N u t r e a
alm a, com o o p ão n u t r e o n o s s o c o rp o .
12 A FO RM AÇÃ O D O B 8 T IL .O

D iz ia N a p o le ã o I , e ra S a n ta - H e le n a , re fe rin -
d o -se a H u d s o n L o w e , q u e o c o ib ia d o s sens
p a s s e io s :
— « E s te h o m e m d e v ia c o m p r e e n d e r q u e o e x e r­
c íc io é tã o n e c e s s á rio a o s m e u s m e m b ro s , com o a
l e i t u r a ao m e u e s p ír ito > (*).
A fo n s o K a r r c h a m o u à l e i t u r a « u m a a u s ê n c ia
a g r a d á v e l d e n ó s p r ó p r io s » .
Os g r a n d e s e s c r ito r e s p a s s a r a m m e ta d e d a s u a
v id a a le r.
D iz ia M o n te s q u ie u :
— « U m q u a r to d e h o r a d e l e i t u r a c o n so la -m e
d e q u a lq u e r d e s g o s to .»
U m liv r o ó u m a m ig o , co m q u e se p o d e c o n ta r
s e m p re .
A fo n s o D a u d e t e s c re v ia a u m c o n fra d e , v e r­
g ad o à dor de u m g ra n d e lu to :
— « L e ia m u ito ! »
R e c o rd e m o s a p r im e ir a l e i t u r a d a n o s s a j u v e n ­
tu d e . Q u e im p re s s ã o ! Q u e e s to n te a m e n to ! O s a n o s
n ão p o d e m e x p u n g ir t a l re c o rd a ç ã o . D o m in a a
v id a ! C o n tu d o , esse p r im e ir o l i v r o n ã o p a s s a v a
ta lv e z d e u m liv r o o r d in á r io , q u e a c h a r ía m o s
in s ig n ific a n te , se o to r n á s s e m o s a l e r h o je .

f 1) B o n a p a r t e , e m B r i e n n e , e r a u m g r a n d e ledor. N ão
lhe escapava u m livro d a b ib lio teca d o colégio. — E r a s m o
escreveu sóbre a le itu ra u m a c a r t a curiosa, pouco conhe­
cid a e q u e seria longo c i t a r a q u i. V e r tam b ém Séneca,
( c a r t a 84).
A FORM AÇAO DO B J S T IL .O 13

A m a io r part© d o s M a n u a is de L ite r a tu r a in s is ­
te m so b re a n e c e s s id a d e d a le i tu r a .
In fe liz m e n te , a p e n a s d ã o c o n s e lh o s s u p e rfic ia is .
S e g u n d o eles, d e v e -se l e r ta l o u ta l a u to r , s e g u n d o
a in c lin a ç ã o q u e se te m p a r a ta l o u ta l g ê n e r o :
e s tu d a r B o ssu e t, se se a p r e c ia m os p e río d o s l a r ­
g o s ; L a -F o n ta in e , se se p r e f e r e o p i n t u r e s c o ;
C o rn e ille , se se p r o c u r a a g r a n d e z a ; e B a c in e , se
se a m a a v e rd a d e .
T a n to s g o sto s p e sso a is! ta n to s a u to r e s d if e r e n te s !
H á laços q u e p r e n d e m a L a - F o n ta in e o h o m e m
em to d a a id a d e . N ã o são a s s u a s f á b u la s to d a a
v id a h u m a n a , p o s ta e m c e n a ? N ã o se e n c o n tr a
n elas, a cad a p á g in a , u m s e n tim e n to a p a r d e c a d a
lição, u m a lá g r im a ap ó s u m s o r r is o ?
E m g e ra l, H o rá c io ó m e n o s a p re c ia d o p e la
m o c id a d e ; é p re c iso te r - s e v iv id o m u ito , p a r a se
p o d e r a p re c ia r a j u s t e z a d a s u a m o ra l.
É p re c iso t e r re c e b id o as liç õ e s, m u i ta s v e z e s
a m a rg a s , d a e x p e riê n c ia , p a r a s e r d is c íp u lo d a q u e la
sa b e d o ria p r á tic a , em q u e a p r u d ê n c ia e a m o d e ­
ração se to r n a m a r e g r a d a v id a e o id e a l d a v i r ­
tu d e !. . .
E s ta esp écie d e c o n s e lh o s n ã o te m u tilid a d e
p rática.
N ão c reio q u e se t i r e s e m p r e p r o v e ito d e l e r o
que se p re fe re . O p e r ig o d e ta l e s c o lh a é d e ix a r -
mo-nos g u ia r p e lo d e c liv e dos d e fe ito s q u e te m o s,
m uito m a is q u e p e la n e c e s s id a d e d a s q u a lid a d e s
que se p ro c u ra m .
14 A form a çã o do b s t il o

T a lv e z lu c rá s s e m o s m a is e m e x p e r i m e n t a r a
l e i t u r a do q u e n ão a m a m o s.
D e m a is, a q u e le s c o n s e lh o s n ã o e n s i n a m o m is ­
t e r d e e sc re v e r.
E is a q u i o p r in c íp io q u e se d e v e a d o p ta r , p a r a
le r com v a n t a g e m :
D e v e m o s l e r a u to r e s , c u jo e s tilo p o d e e n s in a r
a e s c r e v e r ; e p ô r d e la d o a q u e le s , c u jo e s tilo n ã o
e n s in e a e s c re v e r.
D e p o is , h á a u to r e s , d e q u e m se p o d e , e o u tr o s
d e q u e m se n ão p o d e , a s s im ila r o s p ro c e s s o s .
D e v e m -se le r os p r im e ir o s , d e p r e f e r ê n c ia a o s
se g u n d o s .
Os C ursos de L ite r a tu r a p ro p õ e m v á r io s m é to ­
d o s : a a n á lise , o com pilam ento d a s exp ressõ es esco­
lh id a s, de p en sa m en to s b rilh a n te s, a le itu r a em voz
a lt a . . .
P e la a n á lise , p o d e-se f ix a r a q u ilo q u e se l e u ;
ela p o ré m n ã o e n s in a a e s c re v e r. J u l g a r a p r o d u ­
ção d os o u tr o s n ã o n o s to r n a c a p a z e s d e p r o d u ­
z ir. M u ito s c rític o s , c o n h e c e d o re s p r á tic o s d o s c a m -
b ia n te s lite r á r io s , s e ria m in c a p a z e s d e d a r p r o v a s
de ta le n to .
A p r e c ia r ó u m a a r te , co m o ó u m a a r t e t e r
estilo .
D issem o s n u m a o b ra p r e c e d e n te (*) c o m o d e v e
s e r fe ita a a n á lis e li te r á r ia , p a r a s e t i r a r d e la 1

( 1) A A r te de E scre ver, ensinada em v inte liç õ e s .


A FORM AÇÃO DO B S T IL O

a lg u m a u tilid a d e . D e v e te n d e r m e sm o à d e c o m ­
p o s iç ã o d o ta le n to e d o s m eio s de execução*
C h a m a m o s a a te n ç ã o do le ito r p a r a a q u e la p a s­
sa g e m .
A « c o m p ila ç ã o d e e x p re ss õ e s e sc o lh id a s > é
i g u a l m e n t e u m e n g a n o (!).
O u tr o r a , ta m b é m n o s im p u n h a m , p a r a n o e
e n s i n a r o la tim , a c o m p ila ç ã o de e x p re ssõ e s esco ­
lh id a s , q u e a p e n a s p o d ia m s e r v ir , q u a n d o m u i t o r
p a r a c o m p o r u m la tim a rtific ia l.
S e ria p r e f e r ív e l ú m c a tá lo g o d e expressões-
o rig in a is .
D u c ré cio , H o rá c io , Y e rg ílio e T á c ito p o d e r ia m
m i n i s t r a r e x e m p lo s d e u m a lín g u a p in tu r e s c a ,
d ig n a d e s e r e stu d a d a .
O s n o sso s liv r o s só h a b ilita v a m a f a z e r d is c u r ­
so s la tin o s , só p ro d u z ia m d is c íp u lo s h á b e is e m
fix a r a tr iv ia lid a d e , m a s in c a p a z e s d e c r i a r im a ­
g e n s e as p a la v r a s d a lin g u a g e m a r tís tic a .
O s m a u s re s u lta d o s de ta l s is te m a a g r a v a m - s e
no fra n c ê s , q u a n d o se te m em m ir a i m i t a r a s
e x p re ssõ e s elegantes dos g ra n d e s e s c rito re s .

(!) E x i s t e u m G u ia P r á t i c o d e A n á l i s e L i t e r á r i a por*
M r. P . M o n e t , p r o f e s s o r d e R e t ó r i c a n o A t e n e u d e B r u g e s *
É o m e lh o r livro q u e conheço sôbre essa m a t é r i a ; c o n té m
excelentes c o n s e lh o s . P o r o u t r o l a d o , M r . G e o r g e s R e n a r d ,
n u m liv ro d e v a l o r , O M é to d o C ie n tific o d a H i s t ó r i a L i t e r á~
ria (A lcan), e s c r e v e u u m i n t e r e s s a n t e c a p í t u l o s ô b r e a a n á ­
lise i n t e r n a e e x t e r n a d e u m a o b r a .
16 À FO R M A Ç Ã O DO B S T IL O

O d e fe ito d a q u e la s c o m p ilaçõ es e s tá e m serem


fe ita s sem d isc rim in a ç ã o .
N ão h á lim ite s ; q u e r se t r a t e d e expressões,
q u e r de tre c h o s, tu d o se copia.
P e rd e -s e te m p o em r e tin ir co isas m ed ío c re s,
q u e p o d em o c u p a r a m e m ó ria , m a s q u e n ã o e n s i­
n a m a e sc re v e r.
E o h e rb á rio , o n d e a p la n ta m o r ta e s tá r o t u ­
la d a , m as n ão e stu d a d a .
E p reciso , pelo c o n trá rio , q u e a l e i t u r a seja
u m a im p re g n a ç ã o g e ra l, u m a verd a d eira tra n sfu sã o .
C o p ia r ex p ressõ es, a in d a q u e o rig in a is , n ão
b a s ta .
O q u e se d ev e p r o c u r a r ó a s s im ila r o tom , o
garbo de espírito, a sen sib ilid a d e, o processo ín tim o
oculto, q u e fazem e n c o n tra r p re c is a m e n te o g ê n e ro
d e b elezas q u e se a d m ira m .
P o rta n to , o fim d a le itu r a ó a m a d u re c e r a in te ­
lig ê n c ia , p ro d u z ir u m a acção reflex a, fe c u n d a r-n o s
c ria n d o em nós as q u a lid a d e s q u e n o ta m o s.
N u m a p a la v ra , a le itu r a d ev e d a r talento. V e re ­
m o s com o.
E sta m o s, p o is, lo n g e de q u e re r a s s im ila r e x c lu ­
s iv a m e n te o lado a rtific ia l do e stilo .
E a essência q u e p ro c u ra m o s , e ó a essência
q u e e n c o n tra re m o s a tra v é s d a fo rm a e p e la p ró p ria
fo rm a (1).

(!) A i m ita ç ã o e x c lu s i v a d a s f ó r m u l a s , d e t u d o o q u e
é « e x p e d i e n t e » n o m i s t e r d e e s c re v e r , foi l e v a d a pelo
▲ FORM AÇÃO D O E 8 T IL O 17

O u tr o p e rig o dos c a d e rn o s de e x p re ssõ e s é q u e


e s te r iliz a m a in s p ira ç ã o , a c o s tu m a n d o o e s p ír ito a
u m a m a n ia d e c o le c c io n a r s u p e rfic ia lm e n te .
A m a io r p a r te dos p ro fe s s o re s c o n d e n a m -n o s ,
e c e rto s M a n u a is m a n d a m s u b s titu í- lo s p o r e x tr a c -
to s d e p ensam entos e sc o lh id o s, is to ó, p o r u m a
c o m p ila ç ã o d e c o n sid e ra ç õ e s e d e p o n to s d e v is ta .
D e v e d iz e r-se à m o c id a d e :
— « L e ia m , de lá p is n a m ão , e v ã o n o ta n d o o
q u e os im p re s s io n e . »
D iz u m d a q u e le s C ursos de L ite r a tu r a :
— « T ra ta -s e a q u i, n ão de r e a b i lit a r o m é to d o
d e su sa d o dos c a d e rn o s d e e x p re s s õ e s . . . O e x e r c í­
c io q u e p ro p o m o s ó m u ito d if e re n te . N o s p o e ta s ,
n o s o ra d o re s, n o s h is to ria d o re s , n o s m o r a lis ta s ,
e n c o n tra m -s e m u ita s v ezes, j á o d isse m o s, p e n s a ­
m e n to s p ro fu n d o s , as m a is d as v e z e s rá p id o s ,
s o b re o h o m e m , as s u a s v ir tu d e s , os s e u s v íc io s ,
a s su a s p a ix õ e s, as su a s re la ç õ e s c o m os se u s
s e m e lh a n te s , com a s u a n a tu r e z a , c o m D e u s ,
e n fim so b re tu d o q u e d iz re s p e ito à n a tu r e z a .

Richesource, a té o rid íc u lo m a is re v o lta n te . E n s i n o u u n i ­


cam ente a a rte do plagiato, a a r te d a tra n sp o siç ã o servil,
o m eio d e s e r m o s e s c r i t o r e s e o r a d o r e s e x c e l e n t e s , « s e m
gênio, s e m t r a b a l h o , s e m e s t u d o » . P u b l i c o u m a i s d e v i n t e
v o lu m es , q u e s ã o p u r o s i m b r ó g l i o s . P e r c o r r i a l g u n s . E d e s a -
n i m a d o r , p ela v u l g a r i d a d e ; e, c o m o m é t o d o , e s s e n c i a l m e n t e
estéril. R i c h e s o u r c e , e m 1666, a b r i u u m e s c r i t ó r i o n a p r a ç a
D a u p h in e , p a r a d a r lições d e e s t i l o . F l é c h i e r e l o g i a - o n a
s u a R e tó r ic a dos P r e c io s o s .
2
18 A FORM AÇÃO DO B S T IL O

« E m n o ssa c a r te ir a , d e v e m e n c o n t r a r - s e a p o n ­
ta d a s, co m u m tr a ç o le v e , t o d a s a q u e la s p a ssa ­
g e n s ; d e p o is, ao c h e g a r m o s a c a sa , p a s s a m o s p a ra
u m c a d e rn o e s p e c ia l o b o le t im d o d ia .
«M as, b a s t a r á e s c r e v ê - la s lo g o , s e m o u tr a
o rd e m , q u e n ã o s e ja a s u c e s s ã o d o s d ia s e d a s
le i tu r a s ?
« N ão ! p a r a q u e t a l t r a b a l h o s e ja v e r d a d e ir a ­
m e n te ú t i l , é p re c is o q u e os p e n s a m e n to s se a p ro ­
x im e m , s e g u n d o a s u a n a t u r e z a , a fim d e q u e se
to r n e p o s s ív e l a c o m p a ra ç ã o e d e q u e se e sc la re ­
ç a m , se c o m p le te m , se c o m e n te m u n s a o s o u tro s .
« E a s s im q u e e le s se i n s i n u a r ã o o m e l h o r pos­
sív e l, n o e s p írito , e q u e e s te a lc a n ç a r á m e lh o r
s u b s tâ n c ia , ao m e s m o te m p o q u e o h á b i t o d a q u e ­
la s a p ro x im a ç õ e s lh e d a r á u m a f o r ç a e u m a e x te n ­
são s in g u la r e s . »
N ão creio n a e ficácia d e s te m é to d o .
A c h o -o tã o e s té r il, c o m o o c a d e r n o d e e x p re s ­
sões, j á re fe rid o .
E a in d a u m a m a n e ir a m e c â n ic a d e m o b ila r a
m e m ó ria , d e e m b o n e c a r a l i t e r a t u r a .
O M a n u a l e m q u e s tã o p r o p õ e u m e x e m p lo do
q u e d ev e s e r e ss e g ê n e r o d e e x t r a c t o s s u p e rio re s .
C o n siste em c o p ia r o q u e d iz e m o s g ra n d e s
e s c rito re s la tin o s o u fra n c e s e s , s o b r e u m a ss u n to
d ado, — a g ló ria , a v i r t u d e , a c o r a g e m .
N o te m o s q u e ta l t r a b a l h o j á se a c h a fe ito n as
tá b u a s a n a lític a s , q u e c o m p l e ta m c e r t a s edições
clássicas, e n tr e e la s a d e P a s c a l e a d e M o n ta ig n e .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 19

P r e g u n ta - s e q u a l o p ro v e ito q u e u m a lu n o pode
t i r a r d a q u e le h e rb á rio filosófico. S e rá êle p o rv e n ­
t u r a c a p a z d e i n v e n t a r p e n s a m e n to s e q u iv a le n te s ,
q u a n d o t i v e r a n o ta d o os d o s m e lh o re s a u to r e s ?
P o r q u e se n ão h á -d e c o p ia r à r is c a tu d o o q u e
se e sc re v e so b re a P a te r n id a d e , so b re o O rgulho, a
V id a , a H u m a n id a d e , o Coração, a E x p e r iê n c ia , a
R a zã o , e tc .?
N ão in sista m o s.
O u tro s liv ro s , p a r a o d e s e n v o lv im e n to d a s d is ­
posições lite r á r ia s , re c o m e n d a m a l e i t u r a em v o z
a lta , p e la ra z ã o de q u e a a r te de le r p r e s u m e a
a r te d e s e n tir , e de q u e , p a r a se c o m p r e e n d e r b e m
u m te x to , é p re c iso s a b e r s u b lin h a r - lh e a s e n to a ­
ções, o se n tid o .
— « A q u e le q u e n ão sab e t r a d u z i r d e v iv a v o z
os p e n sa m e n to s e os s e n tim e n to s d o s g r a n d e s m e s ­
tr e s e to r n a r se n s ív e l a to d o s os o u v id o s a h a r m o ­
n ia d a p o esia o u d a p ro s a d esses m e s tr e s , p r o v a
q u e os n ao c o m p re e n d e , q u e n e m s e q u e r os s e n te .
O m e lh o r le ito r, com o o m e lh o r a c to r d r a m á tic o ,
ó a q u e le q u e m e lh o r a p re n d e as b e le z a s d o s e u
a u to r. P a r a q u e se ja o se u in t é r p r e t e , é p re c is o
co m eçar p o r lh e t e r p e r s c r u ta d o to d a a p r o f u n d i ­
dade e d is tin g u id o to d o s os c a m b i a n t e s .»
E s ta te o ria ó in s u s te n tá v e l.
A a rte d e le r ó u m ta le n to e sp e c ia l.
P o d e ler-se m a l e s e n tir - s e p r o f u n d a m e n te as
belezas de u m a o b ra .
A tim id e z im p e d e q u e se ja m o s b o m le ito r .
20 ▲ FORM AÇÃO DO H 8 T IL .O

M u ita s p e sso as s e r ia m le ito r e s , a c to r e s , c a n to ­


re s e o ra d o re s , se p o s s u ís s e m a p r u m o e se não
c o ra sse m com o so m d a s u a v o z . S e r á p o r q u e
n ão s in ta m o q u e n ã o p o d e m e x p r i m i r ? C o n tu d o ,
h á ta n t a s m a n e ir a s d e l e r !
A le i t u r a m o n ó to n a p o d e s e r a tr a e n t e , com o
a le i t u r a c a m b ia n te .
— < P a r a l e r b e m u m li v r o , — d iz e m - n o s ainda,
— c o n c e n tre m -s e , v e ja m se h á u m a id é ia g e ra l que
r e s u m a a o b r a ; e m s e g u i d a , t r a t e m d e s e p a r a r as
id é ia s secu n d á ria s, d e f o r m a q u e se fix e o p lan o ;
v e ja m se os d e se n v o lv im e n to s sã o n a t u r a i s , lo g ic a ­
m e n te d e d u z id o s ; e x a m in e m c a d a c a p ítu lo , içada
p á g in a , p a r a v e r a q u a lid a d e d o s p e n s a m e n to s , o
s e u v a lo r e a s u a p r o f u n d i d a d e . >
O c o n se lh o ó b o m , c o m a c o n d iç ã o d e se não
e s p e r a r d e le r e s u lta d o a l g u m . E m q u e ó q u e ta l
m é to d o fo rn e c e rá o e s tilo ?
E x a m in a i u m P u b e n s p o r e sse p r o c e s s o ; tira i
d e le o p e n s a m e n to d o m in a n te , o p la n o , a com po­
sição , as p ro p o rç õ e s , os d e s e n v o lv im e n to s , os p o r­
m e n o re s . A p r e n d e s te s a p i n t a r ? D e m a n e ira
nenhum a!
O m ú s ic o , o filó so fo , o c r ític o , le r ã o p ro v e ito ­
s a m e n te d e s s a m a n e ir a . A q u e l e q u e q u e r e a p re n d e r
a e s c re v e r le r á d e o u t r a f o r m a .
S e ja q u a l f ô r o a s p e c to , p o r q u e se e n c a re a
le itu r a , u m a q u a lid a d e ó i n d i s p e n s á v e l : o gosto.
O gosto é a fa c u ld a d e de s e n t ir as belezas e os
defeitos de u m a obra.
A FORM AÇÃO DO E 8 T IL .O 21

E s ta fa c u ld a d e n ã o é d a d a a to d a a g e n te . R a r a ­
m e n te é c o m p le ta . T e m os s e u s excessos, as su a s
a s p e re z a s e os se u s re v e se s.
-L iterato s, com o T eófilo G a u tie r , n ã o a m a m
M o liè re .
O u tro s , co m o L a m a r tin e , n ã o c o m p re e n d e m
L a - F o n ta in e .
R a c in e foi d e te s ta d o p o r b o n s e s c rito r e s .
U m p o e ta d isse -m e q u e B e r n a r d im d e S a in t-
- P ie r r e e s c re v ia m al.
Ê s te s fa c to s são f r e q ü e n te s em a u to r e s , q u e só
a p ro v a m o s e u m é to d o e os se u s p ro cesso s.
T iv e m o s u m a época, em q u e a n o ssa l i t e r a t u r a
r e p u d ia v a S h a k e s p e a re e a d m ir a v a C a m p is tr o n .
O g o s to su p õ e s e n s ib ilid a d e , im a g in a ç ã o , v i v a ­
c id a d e , s e n tim e n to e p r in c ip a lm e n te d e lic a d e z a .
L a - B r u y è r e ti n h a ra z ã o , q u a n d o d is s e :
— « H á n o s h o m e n s m a is v iv a c id a d e q u e g o s to ,
ou , p a r a m e lh o r d iz e r, h á p o u c o s h o m e n s , c u jo
e s p ír ito se ja a c o m p a n h a d o d e g o s to firm e e d e
c rític a ju d ic io s a . *
D id e ro t ta m b é m d i z i a :
— « E x is te m m il v e z e s m a is p e ss o a s em c o n d i­
ções de o u v ir u m b o m g e ó m e tra , d o q u e d e o u v ir
u m p o e ta ; p o r q u e h á m il p e sso as d e b o m se n so ,
p o r u m a só d e g o s t o ; e m il p e sso a s d e g o s to p o r
u m a só de g o s to r e q u in ta d o » (*).

(!) D i d e r o t , C a r ta s o b r e o s s u r d o s -m u d o s .
22 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

O g o s to te m t i d o a s s u a s t i r a n i a s ; im p ô s leis,
r e g r a s , u m id e a l d e a r t e e s t é r i l a u m a geração
i n t e i r a d e a r t i s t a s (}).
F o i a s s im q u e B o il e a u d e s c o n h e c e u R o n sa rd e
q u e H o m e r o fo i d e s p r e z a d o p e lo s p a rtid á rio s de
P e r r a u l t , q u e r e p r e s e n t a v a m e n tã o a c u ltu r a inte­
le c tu a l fra n c e sa .
E i s p o r q u e H i p ó l i t o R i g a u l t e s c re v e u :
— « Q u e m p o d e r i a t e r m a is g o s to q u e R acine e
B o i l e a u ? E t o d a v i a B o ile a u d e s c o b re em Homero
a n o b re za , q u e H o m e r o n u n c a p ro cu ro u , e Racine
i n v e n t a A r c a s , u m d e s s e s g e n tis -h o m e n s , que,
c o m o d iz M .me D a c ie r , A g a m e m n o n u n c a igua­
l o u » (2).
P o r t a n t o , p a r a se l e r c o m d isc e rn im e n to ó
n e c e s s á r io g o s to .
S ó o g o s to i l u m i n a a l e i t u r a , m o s tr a as belezas
e o s d e f e ito s .
M a s , se é n e c e s s á r io à p r io r i, n ã o esqueçamos 1

( 1 ) N o s é c u l o x v i i , a p r i m a z i a é c o n c e d i d a a Vergílio
e n ã o a H o m e r o , a p e s a r d a l u t a d e M . mc D a c ie r , de Boi­
l e a u e d e R a c i n e . O s é c u l o x v m é p o r V o l t a i r e , contra
r ^

S h a k e s p e a r e . L a H a r p e r e n e g a E s q u i l o . A c ê rc a do gôsto,
v e j a m - s e o s E n s a i o s s o b r e o G ô s to , d e M a r m o n t e l e de Mon­
t e s q u i e u ; D a L i t e r a t u r a , 2.a p a r t e , u , d e M . mc S t a é l ; A ntigo
R e g i m e , i, d e T a i n e ; o D i c i o n á r i o F ilo s ó fic o , vb. gôsto de
V o l t a i r e ; L a - B r u y è r e , i, i o , e t c . ; D i d e r o t , R e fle x õ e s sôbre
T e r ê n c io ; V a u v e n a r g u e s , J o u b e r t , etc.
(2) H . R i g a u l t , H i s t ó r i a d a Q u e s tã o dos A n tig o s e dos
M o d e rn o s, p . 360.
a f o r m a ç à o d o ejstilo 23

q u e a le itu r a , p o r s u a v ez, o c ria , o a u m e n ta , o


tra n s fo rm a .
D iz J . J . R o u s s e a u :
— «O g o sto a p e rfe iç o a -se p e lo s m esm o s m eio s
q u e a s a b e d o r i a ... E x e rc ita m o -n o s em v e r com o
e m s e n tir , ou, a n te s, u m a v id a d e lic a d a não ó m ais
q u e u m s e n tim e n to d elicad o e fin o . . . Q u a n ta s
c o isa s se n o ta m a p e n a s pelo s e n tim e n to e d e q u e
é d ifíc il d a r a r a z ã o !. . . O g o s to é com o o m ic ro s ­
có p io do ju lg a m e n to ; ó ele q u e p õ e os p e q u e n o s
o b jecto s ao nosso alcan ce.
« Q u e é, pois, n e c e ssá rio , p a r a o c u l t i v a r ?
E x e rc ita rm o -n o s em v e r, assim co m o em s e n ­
t i r » (1).
r

E à le itu r a q u e se d ev e p e d ir e ste e x e rc íc io .
P*a r a isso, a le i tu r a d e v e s e r v a ria d a .
E p re c iso c o n h e c e r a a r te sob to d o s os a sp e c to s,
p a ra e sc a p a r às te o ria s e x c lu s iv a s e aos p r e c o n ­
ceito s d e esco la.
E sfo rç a i-v o s p o r ta n to p r im e ir a m e n te e m n ã o
to m a r re so lu ç ã o a lg u m a . P e r s u a d i- v o s d e q u e n ã o
h á re a lism o , n e m id e a lis m o , n e m b o m n e m m a u
assu n to (não d i r e i : n e m m o r a l ) ; m a s d e q u e ,
a p a rte a m o ra l, c o n d iç ã o p r im o r d ia l d e to d a a o b ra ,
a g ran d e in te rro g a ç ã o é e s ta :
— « H a v e rá ta le n to em d a d a o b r a ? P o r q u e o
h á? E como p osso a p r o v e itá - lo ? >(*)

(*) R o u s s e a u , N o v a H e lo ís a , i . a p a r t e , c a r t a x u .
24 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

S e u m liv r o , r e p u ta d o b o m , v o s c u sta ler,


d o m in a i-v o s .
A c o s tu m a i-v o s a c o m p r e e n d e r a q u ilo de qne
n ã o g o s ta is , p a r a q u e v e n h a is a g o s ta r daquilo
q u e n ã o c o m p re e n d íe is .
O e s p ír ito te m a s s u a s in ju s tiç a s , a s suas par-
c ia lid a d e s , os s e u s a f a s ta m e n to s in s tin tiv o s .
C o n h e ç o a lg u m a s p e sso a s q u e se convenceram
d isso p o r d iv e r s a s v e z e s, p a r a s a b o r e a r o ad m irá­
v e l M o n ta ig n e , q u e d e v ia s e r o liv r o fa v o rito de
to d o o lite r a to .
I n s ta n tâ n e a m e n te , c o isa n e n h u m a s e a ssim ila (x).
O liv r o q u e n ã o p o d íe is s u p o r t a r h á dez anos,
a p re c ia i-lo h o je .
E o q u e o u tr o r a a d m irá v e is , a g o ra vos enfada.
A l e i t u r a s u p e rfic ia l, r á p id a , in c o m p le ta , eis o
f la g e lo !
O s v e rd a d e iro s le d o re s fa la m g ra v e m e n te ,
m e s m o d o s liv ro s q u e lh e s d e s a g ra d a m .
S o m e n te os m a u s le d o re s le v a n ta m objecções.
R e c o rd e m o s o q u e d isse G o e th e :
— « N ão h á o b ra m á q u e n ã o c o n te n h a a lg u m a
co isa b o a !»
P o u c a s p e sso a s te r ã o c o ra g e m p a r a d iz e r que
n ã o lêem .
E lo g ia i-lh e s R o u s s e a u , M o n te s q u ie u , C hateau^
b r ia n d , o E m ilio .

C1) J o u b e r t d is s e : « N ã o n o s t o r n a m o s m u i t o in s tru í­
d o s q u a n d o só Ie m o s a q u i l o q u e n o s a g r a d a » .
A FORM AÇÃO DO B S T IL O 25-

R e sp o n d e rã o d e s d e n h o sa m e n te , p o r n ã o te r e m
lid o ; p re fe rirã o g u a r d a r a s u a fa lsa o p in iã o só p a r a
si, a c o n fe ssa r q u e n ão tê m d ir e ito d e f o r m a r o p i­
n iã o .
D iz ia G cethe, nos ú ltim o s a n o s d a s u a v id a f
em 1830:
— « A p re n d e r a ler é a m a is d ifíc il d a s a r te s .
D e d iq u e i-m e a isso o ite n ta a n o s e n ão m e p o s s a
d a r p o r s a tis f e ito .»
A s belezas lite r á r ia s são i n a l t e r á v e i s ; e p o d e m
reco n h ecer-se, a tra v é s d e fo rm a s v a riá v e is .
Os c o stu m e s de e s p írito , os p re c o n c e ito s d o
escola c ria m -n o s in ju s ta s re s is tê n c ia s .
P a r a b em se c o m p re e n d e r u m a u to r , p a r a s e
a m a re m , p o r e x e m p lo , os n o sso s e s c rito r e s c o n ­
te m p o râ n e o s, é p re c iso q u e n o s c o m p e n e tr e m o s
d e sta v e rd a d e : q u e o estilo evoluciona como a lín ­
g u a e q u e a a r t e e s tá s e m p re em m o v im e n to .
H o je em d ia, j á se n ã o p o d e e s c re v e r, co m o s e
escrev ia no sécu lo x v in .
N o sécu lo v x i i i n ã o se e s c re v ia co m o n o
século x v ii, e o e stilo do sé c u lo x v i i já n ã o é o
do século x v i.
V íto r H u g o é o ig u a l de R o n s a rd .
A s Cartas do m e u m oinho, d e D a u d e t, p o d e m p a s ­
sa r p o r clássicas; L a m a r t in e é s u p e r i o r a M a lh e r b e .
M .me S tá e l d i z : ! '
— «O estilo d e v e s o f r e r m u d a n ç a s p e la r e v o lu ­
ção q u e se o p e ra r n o s e s p ír ito s e n a s in s titu iç õ e s ,
p o rq u e o estilo não c o n s is te n a s a m b a g e s g r a m a -
26 ▲ FORM AÇÃO DO E S T IL O

tic a is ; d e v e a te n d e r ao f u n d a m e n to d as idéias, à
n a tu r e z a d o s e s p ír ito s ; n ã o é u m a sim p le s forma.
O e s tilo d as o b ra s é co m o o c a r á c te r d e u m hom em ;
e sse c a r á c te r n ã o p o d e s e r e s tr a n h o às su as opi­
n iõ e s n e m ao s s e u s s e n tim e n to s ; m o d ifica todo. o
s e n s e r » (x).
J o u b e r t e x p lic a a in d a a q u e s tã o , d iz e n d o :
— « S e n ó s q u is é sse m o s e s c re v e r h o je, como se
e s c re v ia n o te m p o d e L u ís X I V , so b re to d a a espé­
c ie d e a s s u n to s , n ã o te r ía m o s v e rd a d e no estilo,
p o r q u e n ão te m o s os m e sm o s h u m o r e s , as mesmas
o p in iõ e s , os m e sm o s c o s tu m e s . . . A té o próprio
b o m g o sto , n esse caso, p e r m ite q u e n o s afastemos
d o m e lh o r g o s t o ; p o is o g o s to m u d a com os cos­
tu m e s , a té o p ró p rio b o m g o s to » (2).
A lg u m a s pessoas lê e m p a r a p a s s a r o tem po e
s ó p e n s a m em se d is tr a ir .
E s tã o fo ra d o p le ito . (*)

(*) M . me S t á e l , D a L i t e r a t u r a , 2 .a p a r t e , ca p . v n .
(2) O s p e n s a m e n t o s d e J o u b e r t c o n t ê m delicadas
o b s e r v a ç õ e s s ô b r e o e s tilo . J o u b e r t é u m excelente escri­
t o r . S a i n t - B e u v e p r e s t o u - l h e a l t a m e n t e j u s t i ç a . — O estilo
e a l í n g u a s ã o r i o s q u e c o r r e m . O s G o n c o u r t , no seu elogio
d e L a - B r u y è r e , v i r a m b e m isso ( C h a r le s D e m a illy , cap. i).
V e j a - s e t a m b é m O E s tilo , p o r E r n e s t o H e llo , o V íto r Hugo
d e P a u l o d e S a i n t - V i c t o r e a c o n c l u s ã o d e J . J . Weiss
( O s c o s tu m e s e o T e a tr o , p á g . 74), s ô b r e a m u d a n ç a defini­
t i v a . o p e r a d a n a l í n g u a f r a n c e s a p o r V í t o r H u g o . Nisard
j u l g a v a i n g e n u a m e n t e q u e L a r m a t i n e p a s s a r i a (E stu d o s de
C r i t i c a e d e H is tó r ia ) .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 27

Os e r u d ito s lê e m p a r a d o c u m e n ta r o q u e sab em .
A p e n a s tê m u m fim : c la ssific a r n o ta s , n a s q u a is
in s c r e v e m o b se rv a ç õ e s, e x tra c to s , te x to s , d a ta s , etc.
A êsses é in d if e r e n te o v a lo r lite r á r io .
O v e rd a d e ir o lite r a to d e v e le r com o a r tis ta .
P a r a isso, é n ecessá rio d e ix a r as id é ia s q u e dão
o s M a n u a is.
O g ra n d e p rin c íp io é ê s te :
É preciso ler p a r a descobi'ir, a d m ir a r e a s s im ila r
o talento.
U m a só coisa n o s d e v e p r e o c u p a r n u m li v r o :
Saber se nêle há talento. TJm livro sem talento é
in d ig n o de a tr a ir a nossa atenção.
In te rê s s e , v id a , com oção, m o v im e n to , d e p e n ­
d e m do ta le n to q u e u m a o b ra c o n té m .
M as, em q u e c o n siste o ta le n to ?
E com o re c o n h e c ê -lo ?
E v id e n te m e n te o g o s to n o -lo d i r á ; m a s são
n e cessário s p o n to s d e c o m p a raç ã o , is to é, l e i t u r a .
A e d u c a ç ã o d o g o s to e x is te .
r

E a lg u m a s v e z e s m u ito le n ta , co m o a e d u c a ç ã o
do o u v id o , n a m ú sic a .
E eis q u e s u r g e e s ta g r a v e in t e r r o g a ç ã o :
D evem le r-s e m u ito s a u to r e s , o u d e v e m le r-s e
poucos a u to re s ? ;
Ou e n tã o :
Q ue a u to re s se d e v e m le r ?
S e g u n d o P lín io , é p re c is o l e r « m u ito os a u t o ­
res, m as não m u ito s a u to r e s » , o q u e s ig n if ic a :
«Só se d ev em le r liv r o s b o n s » .
28 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

N e s te p o n to , S ó n e c a é f o r m a l :
— « A l e i t u r a d e u m a m u l ti d ã o d e au to re s e j
d e o b r a s d e to d a a e s p é c ie p o d e r ia dar-se por
c a p r i c h o o u in c o n s tâ n c ia . F a z e u m a escolha de
e s c r ito r e s , p a r a te d e te r e s n e la e fortificares-te
c o m o s e u g ê n io , se q u e r e s a u f e r i r a ssim recorda­
ç õ e s, q u e t e s e ja m f ié is . . . A q u e le s q u e passam a
v i d a a v i a j a r , a c a b a m p o r t e r m ilh a r e s d e compa­
n h e i r o s e n e m s e q u e r u m a m ig o . A m esm a coisa
a c o n te c e n e c e s s à r ia m e n te a q u e m se d e scu id a de
se r e l a c i o n a r c o m u m a u t o r f a v o r ito , p a ra lançar,
c o r r e n d o , u m o l h a r r á p i d o s o b re to d o s ao mesmo
te m p o * (J).
B o n a ld d e m o n s tr o u e lo q u e n te m e n te os incon­
v e n ie n te s do ex cesso d as le itu ra s .
L e r m u i to s l i v r o s é c o r r e r - s e o risc o de cair
e m r e m in is c ê n c ia s .
T o r n a - s e in á b i l o i n d i v í d u o p a r a p ro d u z ir , e já
n ã o p o d e s e r o r ig in a l.
E s t e in c o n v e n i e n t e d e g r a n d e n ú m e r o de livros
fa z ia - s e s e n t i r j á n o te m p o d e H o b b e s , q u e, falando
d e a l g u n s s á b io s d o s e u te m p o , d iz ia , graciosa­
m e n te :
— « S e e u ti v e s s e l i d o t a n t o s liv r o s como F. e
F . , s e r i a tã o i g n o r a n t e c o m o e le s sã o * (2).

(!) C a r t a s a L u c i l i o 2 e 84.
(2) B o n a l d , O b r a s , m i s c e l . l i t . , t. 1, p . 521 : D a multi~
'P lic id a d e d o s li v r o s .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 29

P e t i t d e J u l l e v i l l e é m e n o s s ó b rio n o s se u s
c o n se lh o s.
N ã o o a s s u s ta a q u a n tid a d e d e liv ro s .
D iz e l e :
— « J u lg a m , acaso, q u e u m e s t u d a n t e d ilig e n te
n ã o p o ssa ti r a r , p e lo m e n o s, u m a h o r a p o r d ia p a ra
le r ? A d m ita m o s q u e essa h o r a s e ja d if íc il d e se
o b te r em ce rto s d ia s. N o s d ia s fe ria d o s , n ã o se
p o d e rã o t i r a r tr ê s o u q u a t r o ? U m a h o r a p o r d ia ,
e m m édia, p e rfa z tre z e n ta s -e -s e s s e n ta -e -c in c o h o r a s
n u m ano, o u m il- q u a tr o c e n ta s - e - s e s s e n ta h o r a s em
q u a tro anos.
« E m m il- e -q u a tro c e n ta s h o ra s , p o d e m le r-s e
le n ta m e n te , e a té co m a p e n a n a m ã o , o ite n ta v o lu ­
mes em oitavo, de q u in h e n ta s p á g in a s cada u m .
« O e s tu d a n te q u e f o r m a r u m p la n o d e l e i t u r a ,
p r u d e n te m e n te c o n c e b id o e r e s t r i n g id o , te r á , ao
fim de q u a tr o an o s, a d q u ir id o u m f u n d o d e c o n h e ­
c im e n to s, in f in ita m e n te p re c io s o p a r a a c o m p o s i­
ção» (*). i
S e m e lh a n te s p re v is õ e s sã o e x c e s s iv a s .
U m a v a s tís s im a l e i t u r a o fe re c e in c o n v e n ie n te s .
S p en cer d iz q u e h á e s tô m a g o s q u e a b s o r v e m
m uito e d ig e re m p o u c o , e o u tr o s q u e , c o m m u i t o
pouco a lim e n to , tu d o a s s im ila m .
E is a n o ssa c o n c lu s ã o : ,
P a ra se f o r m a r o g o s to , p a r a se a d q u i r i r j u í z o 1

(1) P e t i t d e J u l l e v i l l e , O d is c u r s o f r a n c ê s , p . 87.
30 A F O R M A Ç Ã O D O JE S T IL O

s e g u ro , im p a rc ia lid a d e c rític a , u m d isc e rn im e n to


c la ro , ó p re c iso le re m -s e m u ito s a u to re s, de p ri­
m e ira , d e s e g u n d a e d e te r c e ir a o rd em .
É a c o n d ição de u m a e d u c a ç ã o lite r á r ia com pleta.
U m m éd ico a d q u ir e a c e rte z a do se u diagnós­
tic o , v e n d o m u ito s e n fe rm o s.
P a r a a ssim ila ç ã o do m is te r d e e sc re v e r, isto é,
p a r a c ria çã o do p ró p rio ta le n to , ó p re fe rív e l a
e sc o lh a d e a lg u n s e s c rito re s s u p e rio re s .
S ó u m , não, — se g u n d o o a d á g io :
Tem o o homem de u m só livro.
P o d e r ia le v a r à im ita ç ã o s e r v i l ; m a s esco­
lh e m -s e os q u e d ife re m e n tr e si, co n serv an d o -se
os m e lh o re s.
E v e rd a d e q u e H om ero, a B íb lia , D on Q uixotey
Shakespeare são m ais q u e liv ro s ú n ic o s. Contêm
to d a a a rte , todo o id eal, to d a a v e rd a d e h u m a n a .
O m e lh o r s e ria lerem -se p rim e iro as boas o b ra s ;
s e rv iria m , ao d ep o is, de c rité rio p a ra ju l g a r as
o u tra s , q u e p o d e ria m e n tã o se r lid a s sem perig o .
E is a q u i o p rin c íp io :
F o r m a r , p elo e s tu d o dos e s c rito re s su p erio res,
u m corpo d e d o u trin a s , q u e p e rm ita m ju lg a r os
e sc rito re s v u lg a re s .
P a ra a p re n d e r a a r te d e e s c re v e r pelo estu d o
dos m odelos, não ó n e c e ssá rio le re m -se m u ita s obras.
O essen cial ó q u e se ja m boas.
S. C ip ria n o lia c o n tin u a m e n te T e rtu lia n o .
S a n to A g o stin h o , T e rtu lia n o e a B íb lia eram
os liv ro s p re fe rid o s de B o ssu e t.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 31

R o u s s e a u n ão la r g a v a n u n c a M o n ta ig n e e P i n -
ta rc o .
A r a y o t e os a u to r e s la tin o s p r o d u z ir a m M o n ­
t a i g n e ; e os trá g ic o s g re g o s , R a c in e ; C h a te a u ­
b r ia n d re lia se m p re B o rn a rd im d e S a in t- P ie r r e -
T o d o s os nossos e s c rito re s fo ra m g r a n d e s le ito ­
res, in c lu s iv a m e n te J o s ó d e M a is tre .
A c re rm o s L a m a rtin e , n a s s u a s C o n fid ên cia s,
M a is tre d e v ia te r « lid o p o u c o >.
O ra M aistre, pelo c o n tr á r io , d e s d e a id a d e d e
v in te an o s, fa z ia c o m p ila ç õ e s, em q u e « a n a lis a v a
e re su m ia as su a s l e i t u r a s ; le n d o s e m p re , d e p e n a
n a m ão, a m o n to a v a , n a q u e le s a r s e n a is d e c iê n c ia r
a e ru d iç ã o , q u e a d m iro u to d o s os s e u s le i t o ­
re s» (*).
S ab e-se q u e L a - F o n ta in e se re c o n h e c e u p o e ta r
com a le i tu r a de u m a o d e de M a lh e rb e , e q u e
to m o u p r im e ir a m e n te a q u e le a u to r p o r m o d e lo -
E m s e g u id a , le u M a ro t, R a b e la is e a A s tr e ia
de U rfé , o n d e n e m tu d o é m a u (2).
Só e n tã o c o m p re e n d e u q u e a in g e n u id a d e e o
p in tu re s c o e ra m a s u a v e r d a d e ir a v o cação .

(*) A l b e r t o B l a n c , M e m ó r ia s e C o r r e s p o n d ê n c ia d e J o s é
de M a istre, p . 64. — J . d e M a i s t r e , è le p r ó p r i o s e r e f e r e a.
isto, nos s eu s S e r õ e s .
Veja-se t a m b é m , s ô b r e os e x t r a c t o s d e l e i t u r a , M a d a m e
S w e tc h in e , t. 1, c a p . n , p e l o C o n d e d e F a l l o u x .
(2) V e ja m - s e os i n t e r e s s a n t e s e x t r a c t o s q u e d ê l e d e u
S a in t-M a rc G i r a r d i n , n o s e u C u r s o d e L i t e r a t u r a D r a m á t i c a -
32 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

S ó d e v e u a M a lh e rb e « o seu nascim ento poé­


tico com o d isse m u ito b e m C h a m fo rt.
G-rócio a c o n s e lh a v a aos h o m e n s de E stad o a
le i tu r a d o s p o e ta s trá g ic o s .
A g u e s s e a u , b o m e s c rito r , lia -o s ta m b é m .
A r n a u d c o n h e c ia b e m o f r u to q u e se pode tirar
-da le i tu r a a te n ta de u m a u to r . C o m o lh e preg u n -
ta s se m o q u e e ra p re c iso f a z e r p a r a se o b te r bom
•estilo, r e s p o n d e u :
— « L e ia C ícero.
— M as, — to r n o u a p esso a q u e o c o n su lta ra , —
e u q u e ria a p re n d e r a e sc re v e r b e m em francês.
— N esse caso, — to r n o u A r n a u d , — le ia C ícero !»
E fe c tiv a m e n te , p a ra a a r t e de esc re v e r, como
p a r a as b e la s - a r te s , e x is te m p rin c íp io s gerais
c o m u n s aos a n tig o s e aos m o d e rn o s, de que se
p o d e t i r a r p a rtid o , n ão só n a s lín g u a s originais,
m a s a té n as tra d u ç õ e s .
E m C ícero e n c o n tra -se a am p lificação , o talento,
a g ra ç a , a a g u d e z a , o e n c a n to , os re c u rs o s de um
e s c r ito r , em co n d içõ es de p ro c e sso s p rá tic o s.
N o c a p ítu lo d a A m p lificação , fa la re m o s a êste
re s p e ito .
U m h o m e m q u e n ão lê é u m ig n o ra n te .
U m lite r a to q u e n ã o lê p e rd e m e ta d e dd talento
q u e p o d e ria te r .
A le itu r a a lim e n ta a im a g in a ç ã o , e fá-la voltar,
q u a n d o se p e rd e .
E u m c o n tá g io , a q u e n in g u é m se exim e.
A q u e le s q u e não são e s c rito re s comovem-se.
▲ FORM AÇÃO DO E S T IL O 33

A q u e le s , q u e p ro c u ra m o e s tilo , e n tr a m , co m a
l e i t u r a , em e b u liç ã o p r o d u tiv a . J u l g a m , c o m p a ­
r a m , d e s c o b re m re c u rs o s e p ro cesso s. O eco d a
p a la v r a e s c r ita n ã o os d e ix a m ais.
A.s m u lh e r e s lêem , p a ra s e n tir.
O s s á b io s lêem , p a r a se in s tr u i r .
O s li te r a t o s lêem , p a ra sa b o re a r o ta le n to .
À s p r im e ir a s b a s ta a ficção.
O s s e g u n d o s p ro c u ra m a e ru d iç ã o .
S o m e n te os ú ltim o s a s s im ila m a a r te .
E s ta te rc e ira m a n e ira d e le r é a ú n ic a b o a p a r a
f o r m a r o e stilo .
O e s tilo é u m esfo rço de e x p re s s ã o , q u e se
d e s e n v o lv e c o n tin u a m e n te .
— « T o d o s os d ia s a p re n d o a e s c r e v e r » — d is s e
u m g r a n d e p ro s a d o r.
F l a u b e r t a ju n t a v a :
— « A p ro s a n u n c a te m fim . »
N ão h á g o z o m a is p ro fu n d o q u e a l e i t u r a d e
u m b elo e s tilo .
A o m o d ific a r-se a id é ia q u e te m o s d o e s tilo
com a m a d u r e z a do n o sso e s p ír ito , o p r a z e r q u e
se e x p e r im e n ta é s e m p re n o v o .
O c o n ta c to d a n o ssa in te lig ê n c ia c o m u m a o b ra
su p e rio r c ria u m a f o n te d e re la ç õ e s , d e o b s e r v a ­
ções, de lições e d e e x e m p lo s , u m c a m p o d e b e le z a
e de an álise in e s g o tá v e l.
S e te n d e s h o r a s v a g a s , e m p r e g a i-a s e m le r,
a n te s de p ro d u z ir.
E m P a ris , lê -se p o u c o .
3
34 A FORMAÇÃO DO B 1 8 T IL .O

N ã o e s p e r e is v i v e r a li, p a r a c o m e ç a r as vossas
le itu ra s .
D ig a m o s a g o r a c o m o se d e v e l e r u m liv ro .
A l g u m a s p e s s o a s f o lh e ia m - n o à lig e ira , para
d e p o is se p r o n u n c i a r e m g r a v e m e n t e .
E s s a s sã o i n u m e r á v e i s .
O u t r a s p e r c o r r e m u m li v r o , p a r a fa z e r uma
i d é i a d o c o n j u n t o ; d e p o is , t o r n a m a lê-lo e estu­
d a m - n o . O m é to d o é b o m .
C o n tu d o , p a r a n ã o d e s a n im a r m o s co m a obri­
g a ç ã o d a q u e l a s e g u n d a l e i t u r a , p re firo a leitu ra
v a g a r o s a , r e f ie c tid a e t o t a l , q u e n ã o d isp en sa tam ­
b é m do d e v e r d e re le r.
A v a n ç a r g r a d u a l m e n t e n o c o n h e c im e n to de
u m a u t o r é u m p r a z e r e m in e n te m e n te aprovei­
tá v e l.
P o r m i n h a c o n ta , h a b i t u e i - m e a le r lentam ente
e n ã o m e t e n h o d a d o m a l c o m isso .
N u n c a li co m a p e n a n a m ão.
C o n te n t o - m e e m s u b l i n h a r c o m u m risco de
l á p i s a s p a s s a g e n s d i g n a s d e s e r a n o ta d a s ou admi­
ra d a s.
C o n c l u í d a a l e i t u r a , e m b o r a ao fim de muitos
d ia s , r e s u m o a o b r a n u m c a d e r n o , com o nome do
a u to r. * ;
E s c r e v o a m i n h a im p r e s s ã o c r ític a ; indico os
p o n to s a c i t a r o u a e s t u d a r .
O p r o c e s s o p a r e c e - m e b o m e m u i ta gente pro­
c e d e a s s im .
O e s s e n c i a l é n ã o h a v e r in te r r u p ç ã o .
A F O R M AÇAO DO BJ8TJLO 35

A se n saç ã o q u e se p o d e t e r d e u m a o b ra
d o p e n d e d a c o n tin u a ç ã o d a le itu r a .
C re io q u e é p re c iso a b s te rm o -n o s de d e c o ra r.
R e c a iría m o s n o s in c o n v e n ie n te s dos e x tra c to s
d e tr e c h o s o u de e x p re ssõ e s e sco lh id as.
A le i tu r a d ev e d a r u m a im p re s s ã o to ta l, q u e se
tr a n s f u n d a em nós p re c is a m e n te , v is to q u e é to ta l.
I s to n ão im p e d e , j á se sab e, de se to m a re m a p o n ­
ta m e n to s . E m b re v e d ire m o s com o O).
O m odo de le r d e p e n d e d o te m p e r a m e n to
pessoal.
E m to d o caso, e s e m p re n e c e s s á rio re le r.
A le i tu r a re p e tid a é a p e d ra filo so fal d o ta le n to .
N ão dão v o n ta d e de se r e le r as co isas m e d ío c re s .
Q u e re is s a b e r se u m a o b ra ó b o a ?
P e g a i- lh e de n o v o , p a ssad o s a lg u n s m e se s.
S e fô r m á, não a p o d e re is r e le r . *.
S e fô r boa, o fe re c e rá n o v o sa b o r.
O q u e se d u z p rim e iro é o in te r e s s e , o m o v i­
m e n to , a v id a , o fim d a co m p o sição . 1

( 1 ) J . J . R o u s s e a u e s c r e v e u e x c e l e n t e s re flex õ es s ô b r e
a m a n e i r a d e l e r ( N o v a E lo is a , i .a p a r t e , c a r t a x ii ; e 6 . a
parte, c a rta v). R o l l i n , n o seu T r a ta d o d o s E s tu d o s (i, D a le i­
tu r a dos liv ro s f r a n c e s e s ) , d á c o n s e l h o s s ô b r e a m a n e i r a c o m o
se deve ler. Alas as o b s e r v a ç õ e s , t i r a d a s d o s e x e m p l o s q u e
in d ic a , são e x c l u s i v a m e n t e g r a m a t i c a i s , i n t e l e c t u a i s o u m o ­
ra is . S ó de m u i t o l o n g e se r e l a c i o n a m c o m « a r te de e s c r e v e r »,
q u e é a n o ssa p r e o c u p a ç ã o . P l u t a r c o t a m b é m t e m b e l a s
p á g i n a s sô b re a L e itu r a d o s P o e ta s ( O b r a s M o r a is ) . L o c k e
a c o n s e lh a v a a c o p i a r e x t r a c t o s d e b o n s a u t o r e s .
36 ▲ FORMAÇÃO DO B J8 T IL .O

Só d e p o is é q u e se p o d e e x a m i n a r a força
do c o n ju n to , o re le v o d o s p o r m e n o r e s , os meios
e m p re g a d o s, o ta le n to e a s q u a lid a d e s d e exe­
cução.
E n t r e os a u to r e s , q u a is e s c o lh e r ?
I n c o n te s tà v e lm e n te , o s c lá s s ic o s ; d e p o is, os
g ra n d e s e s c rito r e s d o s é c u lo x i x .
A n o s s a m o c id a d e c o n te m p o r â n e a fa z m a l em
d e s p re z a r os n o sso s c lá ssic o s.
A q u e le s q u e se c h a m a m os N o v o s, a p ó s e stu ­
d o s s u m á rio s , a p re s s a m -s e a v o l t a r a s c o sta s aos
se u s liv ro s d e c o lé g io e p r o c u r a m d e p re fe rê n c ia
os e s tra n g e iro s , a r e s p e ito d o s q u a is a p re d ile c ç ã o
n ã o p a ssa d e u m a m o d a .
N ão lh e s fa le m d e R o u s s e a u .
M o n te s q u ie u fá-lo s s o r r i r .
B u ffo n p a re c e -lh e s a n tiq u a d o .
A lg u n s n ão p o d e m s u p o r t a r C h a te a u b ria n d
e lo u v a m E m ílio Z o la p o r o t e r a lc u n h a d o de
« ro co có ».
A té a c h a m p e q u e n o a B o s s u e t.
Só c o n c e d e m ta le n to a o s l i t e r a t o s e x ó tic o s.
T a in e in d ig n a -o s .
S ão n o ru e g u e s e s , fin la n d e s e s , r u s s o s , d in a m a r­
q u eses, tu d o q u e se q u is e r , e x c e p to fra n c e se s .
N ão os im ite m o s (1).1

( 1 ) E s t a s j u d i c i o s a s o b s e r v a ç õ e s , c o m o m u i t a s o u tra s
d ê s t e liv ro , s ã o a b s o l u t a m e n t e a p l i c á v e i s a v á r i a s n ac io n a­
l i d a d e s , e s p e c i a l m e n t e à p o r t u g u e s a . P o r t a n t o , c o m relação
A FORM Aç Ao DO BJ8TILO 37

F a ç a m o s dos g r a n d e s e s c r ito r e s d o n o sso p a ís


a b ase d a n o ssa e d u c a ç ã o lite r á r ia .
L e a m o s os clássico s, p o rq u e sã o os n o sso s m e s ­
tre s , p o r q u e e s c re v e ra m n a n o ssa lín g u a , p o r q u e a
n o ssa l i t e r a t u r a v e io d eles e, fin a lm e n te , p o r q u e é
o ú n ic o m eio p rá tic o d e a p r e n d e r a e s c re v e r.
A e d u c a ç ã o clássica q u e se d á n o c o lé g io é
in s u fic ie n te .
É p re c iso re c o m eç á -la , lo g o q u e se c h e g u e a
p e n s a r liv re m e n te .
F a z ia m -n o s a d m ir a r os b o n s a u to r e s , m a s n ão
e ra p e la s ra z õ e s q u e d e sc o b rim o s m a is ta r d e .
É p re c iso r e le r tu d o , se q u e re m o s t e r u m a id é ia
do e s tilo .
A n te s d e se e s tu d a re m os a u to r e s e s tr a n g e ir o s ,
saib am o s q u a n to v a le m os nossos.
P o r ta n to , os nossos clássico s d e v e m s e r a n o ss a
le itu r a p rin c ip a l, à p o rfia co m os c lá ssic o s g r e g o s e
la tin o s, H o m e ro à f r e n te , p r in c ip a lm e n te H o m e r o ,
q u e é u m m u n d o , e q u e p o d e, r ig o r o s a m e n te , tu d o
s u b s titu ir .
A le i tu r a d a s tra d u ç õ e s d e a u to r e s g r e g o s é u m a
n ecessid ade p a r a a q u e le q u e q u e r e a p r o f u n d a r a

a P o r t u g a l , o n d e o a u t o r d iz B u ffb n , M o n te s q u ie u , R o u s ­
sea u , podem os d i z e r V i e i r a , S o u s a , B e r n á r d e z ; e o n d e d iz
C h a tea u b ria n d , e T a in e , p o d e m o s d i z e r C a s t il h o , H e r c u la n o ,
L a t in o . , .
( N . do t r a d u t o r ) .
38 A FORM AÇÃO DO B8 T IL O

n o s s a l i t e r a t u r a c lá s s ic a , p o r q u e e s t a s a i u d ire c ta -
m e n t e d o s L a t i n o s e d o s G -re g o s.
D e u m a b o a l i t e r a t u r a , i s t o é , d o e s t u d o a te n to
d o s a u to r e s , d e d u z e m - s e c e r t a s c o n c lu s õ e s , d e que
fo rm a re m o s as d iv is õ e s d e s ta o b ra .
E s s a s c o n c lu s õ e s i m p u s e r a m - s e - n o s , ao fim de
v in te an o s d e le itu ra .
Q u a n t o m a i s r e f i e c t i m o s , m a i s e la s n o s p a re ­
c e r a m r e s u m i r o s p r ó p r i o s p r i n c í p i o s d a a r t e de
e sc re v e r.
A p r i m e i r a c o is a q u e n o s d e v e im p r e s s io n a r ,
n u m a b o a l i t e r a t u r a é a i m p o r t â n c i a c a p ita l que
s e d e r a o p la n o , à c o m p o s iç ã o d e u m a o b ra , à
s u a u n i d a d e d e e x c e p ç ã o e a o e n c a d e a m e n to das
p a rte s .
E s t a s q u a l i d a d e s s u p l a n t a m a s o u t r a s . A essên­
c ia s o b r e l e v a à f o r m a .
D e p o is , s u r g i r ã o p r i n c í p i o s f e c u n d o s .
V e r i f i c a r e m o s q u e o t o m p e c u l i a r a t a l o u tal
a u t o r p r o v é m d o j o g o d e f r a s e s , d o s p ro cesso s do
e s tilo , d o t r a b a l h o d e e x e c u ç ã o .
M a s t a l j o g o , l o n g e d e s e r o r e s u l t a d o de um
m é t o d o a r t i f i c i a l , é o r e s u l t a d o d a s e n s ib ilid a d e
i n t e r i o r , e é e s s a s e n s i b i l i d a d e q u e é n e c e s s á rio ser
a p r o p r i a d a , e n ã o a p a r t e m a t e r i a l d o m is te r de
e sc re v e r.
À m e d i d a q u e l e r m o s , n o t a r e m o s q u e o gosto, o
m o v i m e n t o d e e s p í r i t o , a s e x p r e s s õ e s d e u m autor,
s e t r a n s f u n d e m e m n ó s e q u e n ó s im ita m o s , sem o
q u e r e r , o e s tilo q u e n o s a p a ix o n a .
A FORM A ÇÃ O DO E S T IL O 39

H á p o is u m a a s s im ila ç ã o , p o ssív e l p e la im i­
ta ç ã o 0 .
V e re m o s q u e nos a d v ê m g ra n d e facilidade»
g r a n d e v o n ta d e d e im it a r esses e stilo s p re fe rid o s .
M as v e rific a re m o s ta m b é m q u e se p o d e e v it a r
a im ita ç ã o s e rv il, e fic a rm o s n a b o a im ita ç ã o , q u e
c o n s is te em a v a lia r b e m as coisas q u e o u tr o s d is ­
s e r a m já .
N o ta re m o s ta m b é m q u e , d e s p e r ta d a p e la le i­
t u r a , a n o ssa fa c u ld a d e de in s p ira ç ã o to m a u m a
fo rç a n o v a , e s e n tir-n o s-e m o s c ap azes d e d e s e n ­
v o lv e r la r g a m e n te o q u e a c h a m o s a p e n a s in d ic a d o
n o u tr a p a rte .
E te re m o s c o m p ro v a d o u m f a c t o : q u e a a r t e do
d e s e n v o lv im e n to ó, p o r si só, m e ta d e d a a r t e d e
e sc re v e r. D a í o m é to d o d e am p lificação .
E is a q u i os p rim e iro s c a p ítu lo s d e u m a te o r ia
d a fo rm a ç ã o do e s tilo : a ssim ila ç ã o p e la im ita ç ã o ,
co m p ro c e sso s d e e sfo rç o s s e c u n d á rio s — im ita ç ã o ,
a m p lific a ção , e tc .
D ep o is, p r e g u n ta r e m o s a n ó s p r ó p r io s co m o se
p o d em a s s im ila r os e stilo s, e q u e e s tilo s são e s s e s ;
o q u e se d e v e to m a r d e le s e em q u e m e d id a se
poderão a s s im ila r.
A le itu r a c o m p a ra d a d o s a u to r e s e n s in a r - n o s - á
q u e cad a e stilo te m o s e u g o s to d if e r e n te . 1

(1) O q u e o p r o v a é q u e v e m o s a u t o r e s d e s e n v o l v e ­
re m -se ü n i c a m e n t e p o r i m i t a ç ã o . P r o v a - o a c o m p a r a ç ã o
entre H om ero e V ergílio.
40 A FORM AÇÃO DO H ST1LO

N ão so p r o c u r a em B o s s u e t o q u e a g ra d a em
V o lta ire .
M o n te s q u ie u a b u n d a em q u a lid a d e s , que não*
c a ra c te riz a m V o lta ir e n e m B o ssu e t.
O q u e n o s e n c a n ta em S a in t-S im o n não o des­
c o b rim o s n o Télémaeo.
O e s tilo d e P a s c a l é de u m a essên cia, de que se
n ão e n c o n tr a r ia u m a g o ta em B e r n a r d im de S ain t-
- P i e r r e ; etc.
O q u e n o s le v a a a d m itir u m a p rim e ira e
g r a n d e classificação dos e s tilo s : o estilo descritivo
ô u colorido, e o estilo de id éia s ou abstracto.
U m a p á g in a do E sp írito das L e is, com p arad a a
u m a p á g in a d e A ta la } é s u fic ie n te p a ra o demons­
tr a r .
T e re m o s p o r ta n to de e s tu d a r p rim e iro a assim i­
lação do e stilo d e s c r itiv o ; d ep o is, a assim ilação do
e s tilo a b s tra c to .
E x a m in a re m o s o e stilo d e s c ritiv o n a su a fonte e
o r ig e m ; e, em se g u id a , n a s su a s d iv e rs a s m anifesta­
ções: p in tu re s c o , im a g e n s , re a lid a d e , v id a intensa.
P a r a o e s tilo a b s tr a c to o u d e id éias, seriamos
lev ad o s à co n clu são de q u e o s e u processo mais
g e ra l e m a is fe c u n d o c o n s is te n a a n títe s e .
Os a u to re s q u e u s a r a m e s te e s tilo são num ero­
sos e fo rm a m m e ta d e d a n o ssa li te r a t u r a francesa.
E n fim , re s u m ire m o s e ste tr a b a lh o n u m últim o
c a p ítu lo so b re o a tic is m o d o e stilo , isto é, o estilo
in a s s im ilá v e l n a a p a rê n c ia , sem processos e sem
re tó ric a .
a f o r m a ç Ao d o e s t il o 41

D e s te p r im e ir o c a p ítu lo so b re a l e i t u r a s a ir ã o
p o is a s d iv is õ e s d e s te l i v r o :
A s s im ila ç ã o p o r im ita ç ã o , p la g ia to e a m p lif i­
cação ;
A s s im ila ç ã o d o e s tilo d e s c r i t i v o ; a v e r d a d e ir a ,
d e s c riç ã o e u n id a d e d a im ita ç ã o d e s c r itiv a , a tr a v é s
d o s a u to r e s ; o fa lso e stilo d e s c r itiv o , a d e s c riç ã o
g e ra l e a am p lific a ç ã o d e s c r itiv a ;
A ssim ila ç ã o d o e s tilo a b s tr a c to o u d e i d é i a s : a
a n títe s e , c o n s id e ra d a com o u m p ro c e sso g e r a l do-
e s tilo d e id é ia s ; a u n id a d e d a im ita ç ã o d ê s te p r o ­
cesso, a tr a v é s d o s a u to r e s c lá s sic o s ;
F in a lm e n te , o e s tilo s e m r e tó r ic a .
C A P ÍT U L O I I

Assimilação por imitação

Que é a originalidade ? —A originalidade por imitação. —


A imitação. —Processos de Vergílio. — Formar imi­
tando : Chénier. —A imitação. — Opinião de JBoileau.
— Opinião de Racine. — Exemplos de imitação. —
A imitação nos grandes escritores. — O exemplo de
Lamartine. — Em que consiste a boa imitação.

A im ita ç ã o c o n s is te em tr a n sp o rta r p a r a o nosso


próprio estilo as im a g e n s, a s id é ia s o u as expressões
de u m estilo a lh eio .
A im ita ç ã o ó o p ro c e sso m a is g e ra l, o m a is
eficaz, o m ais c o r r e n te n a a r te d e e s c re v e r.
E s tá c o n sa g ra d o p o r tra d iç ã o .
E p e la im ita ç ã o q u e se c r io u a n o ssa l i t e r a t u r a
fran cesa, sa íd a d a s l i t e r a t u r a s g r e g a e la t in a , e
è tam b ém p e la im ita ç ã o q u e se f o r m a m ta le n to s
in d iv id u a is.
C orneille, B o ile a u , R a c in e , M o liè re , L a - F o n -
ta in e , L a -B ru y è re , to d o s os n o ss o s c lá ssic o s t i r a ­
ra m os seu s a s s u n to s , e m u ita s v e z e s as s u a s
form as, d o s e s c rito re s d a a n tig u id a d e .
44 A FORM A ÇÃ O DO E S T IL O

I m i t a r n ã o ó c o p ia r , n e m é p a r o d i a r .
A p a ró d ia é a im ita ç ã o c u r t a e s e r v i l ; ó, com o
v e re m o s, u m e x e rc íc io d e e s tilo , u m m e io m ecâ n ic o
d e d e ita r a m ã o ao q u e n ã o ó n o s s o .
Q u a n to ao p la g ia to , ó o r o u b o d e s le a l e con­
d e n á v e l.
A b o a im ita ç ã o c o n s is te e m a p r o v e i t a r p a rte
d a s c o n c e p ç õ e s o u d a e x p o s iç ã o d e o u t r e m , e p ô -las
e m o b ra , s e g u n d o a s q u a li d a d e s p e s s o a is e o m odo
d e v e r d o im ita d o r . L o n g e d e s u p r i m i r o m é rito
in d iv id u a l, e s te p ro c e s s o s e r v e p a r a o c r ia r .
A o r ig in a lid a d e r e s i d e n a m a n e i r a n o v a de
e x p r i m i r a s c o isa s j á d ita s .
A e x p re s s ã o m o d ific a c o m p l e t a m e n t e a s idéias.
H o rá c io d i s s e :
— «O n e g r o d e s g o s to m o n t a d e tr á s d o c a v a ­
le iro . »
Q u e m n ã o h á - d e a c h a r B o il e a u o r ig in a l, p o r
e le d iz e r :
— «O d e s g o s to s a l ta p a r a a g a r u p a e g a lo p a
c o m o c a v a l e i r o .»
A im ita ç ã o d e F e d r o , d e E s o p o e d o s v e lh o s
f a b u lá r io s n ã o i m p e d i u L a - F o n t a i n e d e s e r o m ais
p e sso al d e to d o s o s n o s s o s e s c r i to r e s .
S e, co m o d iz T e ó filo G ra u tie r, ó v e r d a d e q u e a
« p o e sia é u m a a r t e q u e se a p r e n d e » , é p re c iso
a p r e n d e r a lg u r e s e s ta a r t e .
N ão d e v e m o s z o m b a r d o v e r s o p a r a d o x a l do
p o e ta :
« Q u e m p o d e r e i e u i m i t a r , p a r a t e r g ê n io ? »
A f o r m a ç Ao do e s t il o 45

Q u a n d o H o rá c io d e n u n c ia v a o « s e rv il r e b a ­
n h o d o s im ita d o re s » , a ss in a la v a a fa lsa im ita ç ã o ,
a c ó p ia in e r te , a p a rá fra s e fria .
E le s a b ia , m e lh o r q u e n in g u é m , êle q u e ta n to
d e v ia ao s G re g o s, q u e a a ss im ila ç ã o d o ta le n to
d e o u tr e m é e x c e le n te m é to d o p a ra se a d q u ir ir
ta le n to .
É n e c e ssá rio p a r tir m o s d e s te p r in c íp io , in c o n ­
te s tá v e l p a ra todos a q u e le s q u e e s tu d a r a m as
o rig e n s e a filiação dos a u to re s , q u e o ta le n to
(e a lg u m a s v ezes o g ên io ), n ã o se c r ia p o r s i só.
D iz ia F l a u b e r t :
— «O ta le n to c o m u n ic a -se s e m p re p o r i n f u s ã o .»
T r a d u z in d o u m e s tu d o d e E d g a r P o ê , B a u d e ­
la ire , p o e ta e n fe rm iç o , m a s s in c e r a m e n te a p a ix o ­
n a d o d a fo rm a p e rfe ita , d e c la r a v a :
— « E d g a r P o ê r e p e tia p o r s u a l i v r e v o n ta d e ,
êle, u m o r ig in a l c o n su m a d o , q u e a o r ig in a lid a d e
e ra q u e s tã o de a p r e n d iz a g e m » í 1).
N a s u a F ilo so fia da Composição, E d g a r P o ê
a ju n ta te x tu a lm e n te e s ta s p a la v r a s :
— « . . . 0 caso é q u e a o r ig in a lid a d e . . . n ã o é,
com o a lg u n s s u p õ e m , u m n e g ó c io d e i n s t i n t o o u
de in tu iç ã o . G e ra lm e n te , p a r a a e n c o n tr a r m o s , é
preciso tr a b a lh a r b a s t a n t e ; e, p o s to q u e e la s e ja
u m m é rito p o s itiv o d a m a is e le v a d a c a te g o r ia , é
m en o s o e s p írito d e in v e n ç ã o q u e o e s p ír ito d e

(1 ) B a u d e l a i r e , t r a d , d a s H i s t ó r i a s G r o te s c a s e S é r i a s .
46 A FORM AÇÃO DO K S T IL O

n e g a ç ã o o q n e n o s m in is tr a os m e io s de a atin-
g ir.
Q u in tilia n o n ã o e s ta v a lo n g e dessa opinião,
q u a n d o e s c re v ia :
— « E fe c tiv a m e n te , n ão se p o d e d u v id a r dela:
a a r t e c o n s is te , em g r a n d e p a r te n a im itação , pois,
se a p r im e ir a coisa, se a m a is essen cial, foi in v en ­
ta r , n a d a ta m b é m p o d e ria s e r m a is ú til, do que
to m a r e x e m p lo s o b re o q u e foi b e m in v en tad o .
P o is n ão p a ssam o s to d a a v id a a q u e re r fazer
a q u ilo q u e a p ro v a m o s n o s o u t r o s ? . . . N ós vemos
q u e to d a s as a rte s , nos se u s in íc io s, ap resen taram
u m m o d elo q u a lq u e r p a ra i m i t a r ; e, n a verdade,
d e d u a s u m a : o u nos a sse m e lh a re m o s àq u eles que
a n d a ra m b em , o u se re m o s d ife re n te s. O ra, ó raro
q u e a n a tu r e z a nos faça s e m e lh a n te s a o u tro s :
so m o -lo m u ita s v ezes p e la im ita ç ã o * (*).
L a -B ru y è re , q u e im ito u im o rta lm e n te T eofrasto
v erificav a, com m e la n c o lia , q u e tu d o se disse antes
de nós e q u e c h e g a m o s j á ta r d e .
O E c le sia ste s, m u ito a n te s dele, tin h a d ito :
— « N ad a h á d e n o v o d e b a ix o do S ol.»
E v e ja m o q u e p e n s a v a M u sse t, q u e im ito u
la rg a m e n te B y ro n :
— « J á rae a c u s a ra m de q u e e u im ita v a B yron.
Os sen h o res não sa b e m q u e ele im ita v a T u lc i?
N ad a é de n in g u é m : tu d o p e rte n c e a todos. E pre- 1

(1 ) Q u i n t i l i a n o , I n s titu iç õ e s O r a tó r ia s , lí x, cap. ii.


▲ f o r m a ç A o d o b b t il o 47

ciso s e r ig n o r a n te com o u m m e s tre -e sc o la , p a r a


q u e a lg u é m se p o ssa v a n g lo r ia r de t e r p r o f e r id o
ao m e n o s u m a p a la v r a , q u e n in g u é m n e s te m u n d o
te n h a d ito a n te s . I m i t a r ó s im p le s m e n te p l a n t a r
c o u v e s » (*).
L a - F o n ta in e c o n fe ssa v a o s e u p ro c e sso h a b i ­
tu a l, e m v erso s e n c a n ta d o r e s :

— « T ran sv ia-se em cam in h o s tortuosos


q u e m n ã o a d m i r a os G r e g o s e os R o m a n o s .
É verdade q u e a lg u n s im itadores
s ã o os c a r n e i r o s d o p a s t o r m a n t u a n o .
E u n ã o p r o c e d o a s s i m : g u i a r m e d e ix o ,
e às vezes m e a v e n t u r o a a n d a r s o z i n h o .
E não conhecerei n u n c a o u tr a p rá tic a . »

O essen cial, q u a n d o se im ita , e s tá e m n ã o c o p ia r


o m o d elo , m a s em o p ô r em e v id ê n c ia .
É p re c iso p r o c u r a r o u tr a coisa, o u d iz e r d e
o u tr a m a n e ir a o q u e o u tr e m d isse .
S e a lg u é m e s c r e v e s s e :
— «O s z ig u e z a g u e s d o r a io p r e c ip ita m - s e e

(!) A s i m i t a ç õ e s d e M u s s e t e n c h e r i a m u m v o l u m e .
V eja -se s ô b r e ê s t e a s s u n t o T a i n e , A n t i g o R e g i m e , p . 351 ;
C a ro , F im do s é c u lo X I X , 11, p. 173 ; B r u n e t i è r e , E v o lu ç ã o d a
P o e sia L ir ic a , e u m c u r i o s o a r t i g o n a R e v i s t a E n c ic lo p é d ic a ,
1893, p. 321. A p e s a r d a d i f e r e n ç a d e c ô r h i s t ó r i c a , o a u t o r
de N a m o u n a foi t a m b é m e s p i r i t u a l m e n t e i m i t a d o p e l o a u t o r
de M c e le n is, L u í s B o u i l h e t , d e q u e m S a i n t - B e u v e d i z i a q u e
« a p a n h a v a a s p o n t a s d e c i g a r r o d e M u s s e t ». V e j a - s e t a m ­
bém M.me A c h e r m a n .
48 A FORM AÇAO D O EJ8T1L.O

c a e m n a á g u a * — d ir íe is com C h ateau b rian d ,


fa la n d o do r a io :
— < 0 se u lo sa n g o d e fo g o s ilv a e apag a-se nas
ág u as. >
S e a lg u é m d i s s e :
— «O s re lâ m p a g o s b r i lh a m e fe re m os roche­
d o s » ; — e sc re v e re is a in d a co m C h a te a u b r ia n d :
— «Os re lâ m p a g o s e n ro sc a m -se nos roche­
d o s. >
E m p re g o u -s e a « c in tila ç ã o d a s e stre la s» .
A . D a u d e t e s c re v e u :
— « O v e n to a v iv a as e s t r e l a s .»
E M a u p a ssa n t, em U m a n o ite de N a t a l :
— c A s e s tre la s tre m e m de frio . »
A q u e le q u e e n c o n tr a p ro cesso s de im itação e
q u e sab e a p lic á-lo s e tra n s fo rm á -lo s , é u m homem
d e g ê n io !
Y e rg ílio im ito u a ss id u a m e n te H o m ero , não
«6 q u a n to ao p lan o , m a s ta m b é m qu an to à
•expressão.
N ão h á ta lv e z u m a c o m p a ra rã o n a E neida, que
não e ste ja n a llía d a o u n a O disséia.
T eó crito é im ita d o d e m a is p e rto ain d a. Em
Y e rg ílio e T e ó c rito , h á c o m u n id a d e d e assuntos,
a s m esm as im a g e n s.
O gónio de Y e rg ílio e s ta v a n a s u a lín g u a, no
« eu estilo, re q u in ta d o de m e la n c o lia p ro fu n d a e de
v iv o m atiz.
N ele, a expressão e o e stilo são d e u m grande
poeta.
A FORM AÇÃO D O JB S T IL O 49

A q u e le s q u e lh e s u c e d e ra m , C lá u d io , L u c a n o ,
S ílio I tá lic o im ita ra m -n o , com o ele im ita r a os se u s
p re d e c e sso re s (1).
D iz M . B e n o is t:
— «V e rg ílio im ito u T e ó c rito n a s s u a s B u c ó li­
cas, n ão só q u a n to à esco lh a d o s a s s u n to s , se n ã o
ta m b é m q u a n to ao e stilo e à v e rsific a ç ã o . A p r o v e i­
ta - lh e v e rs o s e n a rra ç õ e s c o m p le ta s , c o n te n ta n d o -s e
a lg u m a s vezes em tr a d u z ir > (2).
F o x d iz ia :
— « A d m iro V e rg ílio m a is do q u e n u n c a , p o r
a q u e la fa c u ld a d e , q u e ele te m , d e d a r o r i g in a l i­
d a d e à s su a s m a is e x a c ta s im ita ç õ e s. »
E e ra e s ta a o p in iã o de S a in t- B e u v e :
— « A p r im e ir a E g lo g a , is to ó, a p r im e ir a em
d a ta , e s tá to d a m a tiz a d a d a s m a is g ra c io s a s im a ­
g e n s de T e ó c rito ; assim com o o p r im e ir o liv r o d a
E n e id a se e x o r n a com as m a is c é le b re s e as m a is
c la ra s c o m p a ra ç õ e s d e H o m e ro , é e m p r im e ir o
lu g a r , e n o s p o n to s m a is em e v id ê n c ia , q u e e le as
a p ro v e ita e c o n sig n a . E m v ez d e se e m b a r a ç a r c o m (*)

(*) V e ja -s e , p a r a as i m i t a ç õ e s d e V e r g í l i o , a e d i ç ã o d e
V e r g í li o , de H e y n e ; o c a p . d e Q u i c h e r a t ( P r o s ó d ia L a t i n a ) ;
Schoell, L i te r a tu r a R o m a n a ; e s o b r e t u d o os d o i s v o l u m e s
d o s E s tu d o s G r e g o s s ô b re V e r g í l i o , d e E i c h o f f , o n d e se
acham citadas tôdas as p a ssa g e n s e m p re s ta d a s . — V ergílio
recebeu n u m e r o s o s e m p r é s t i m o s d e É n i o , Á t i o e C a t u l o ;
tiro u p a s s a g e n s i n t e i r a s a N é v i o ( M a c r ó b i o , S á t . v), e tc .
(2) E . B e n o i s t , E s tu d o sô b re V e r g í l i o .
4
50 ▲ FORM A ÇÃ O DO B S T IL O

isso , h o n ra -s e a té , e a d o rn a -s e com as su a s im ita ­


ções, liso n je a n d o -se d elas, co m g r a tid ã o (J).
C o m p ro v a n d o a u n iv e r s a l im ita ç ã o , q u e os poe­
ta s fizeram d e H o m e ro , V o lta ire c o n c lu ía :
— «S e è ste p a i d a p o esia q u ise sse r e to m a r dos
se u s d e s c e n d e n te s tu d o q u a n to lh e s e m p re sto u ,
q u e n o s r e s ta r ia d a E n e id a , d a J e ru sa lé m , do
O rlando, dos L u s ía d a *, d a H e n r ía d a e d e tu d o o
q u e se n ão o u sa n o m e a r n e s te g ê n e ro ?>
Os d o is m a is ilu s tr e s ex em p lo s d a fo rm ação do
ta le n to p e la im ita ç ã o b e m c o m p re e n d id a são V er-
g ílio e n tr e os a n tig o s, e C h é n ie r e n tr e os m o d ern o s.
U m ex em p lo , tira d o de V e rg ílio , m o s tra rá a
e x celên cia d a q u e le p ro ced im en to .
E is a q u i a d escrição de u m a tem p estad e ,
c o p ia d a de H o m e ro :

T e n d o fa la d o a s s im , a j u n t o u as n u v e n s , a g i t o u o m a r, e
e x c ito u to d o s os so p ro s im p e t u o s o s de m il espécies de vento,
e c o b r iu d e n e v o e ir o o m a r e a t e r r a . A n o ite p re c i p it a - s e do
céu . L o g o o E u r o e o N o t o se a r r o j a m , b e m co m o o v io le n to
Zéfiro e o B ó r e a s , q u e v a r r e o éter, a r r a s t a n d o v a g a s e n o rm e s .
E e n t ã o os jo elh o s d e U lisses v e r g a r a m d e s u s to , e t
g e m e n d o , d is s e :
« A i d e m i m ! q u e d e s g r a ç a d o eu s o u ! q u e m e i r á su ce­
d e r com ê s te ú l t i m o g o l p e ? R e c e io q u e a d e u s a m e t e n h a
fa la d o v e r d a d e em t u d o , q u a n d o me d is s e q u e s ô b re o m a r,
a n t e s de eu c h e g a r à t e r r a n a t a l , se e n c h e r i a a m e d i d a d a s
m i n h a s d e s g r a ç a s : eis q u e se c u m p r e t u d o issol D e q u e
n u v e n s J ú p i t e r re v e s te to d o o cé u ! e a g i t a o m a r , e os

(x) S a i n t - B e u v e , E stu d o sóbre V e r g ílio .


▲ FORM A ÇÃ O D O E S T IL O 51

s o p r o s d e t o d o s o s v e n t o s c r u z a m - s e a l i : t e n h o a g o r a a c e r­
t e z a d a m i n h a p e r d a i n e v i t á v e l . T r ê s o u q u a t r o v ezes feli­
zes os G re g o s, q u e m o rre ra m n a v a s ta p lan ície de T ró ia ,
e m s e r v i ç o d o s Á t r i d e s I P o r q u e n ã o m o r r i e u e n ã o fech ei
o m eu d estin o , no d ia em q u e os T roianos, em m assa, me
a t i r a v a m os seus d ard o s, em volta de A q u iles m o rib u n d o ?
S e e u t i v e s s e m o r r i d o e n t ã o , os G r e g o s t e r i a m feito g r a n d e
e s p a n to e firm ado o m eu renom e.
M a s a g o r a está d ec id id o q u e m o rre re i m ise rà v e l-
m en te...»
— Q u a n d o d e i x a m o s a i l h a (é U l i s s e s q u e c o n t a ) , e
q u a n d o já n ã o v í a m o s t e r r a , m a s s o m e n t e o céu e o m a r ,
e n t ã o o filho d e S a t u r n o , J ú p i t e r , d e t e v e u m a n u v e m
n e g ra , por cim a do navio, e o m a r obscureceu-se em v o lta
d e le . O n a v i o p o u c o m a i s a n d o u , p o r q u e q u á s i e m s e g u i d a
v eio, s o p r a n d o , o Z éfiro, com u m r e d e m o i n h o r á p i d o . A f ô r ç a
d o v e n t o q u e b r o u o s d o is c a b o s q u e s e g u r a v a m o m a s t r o ;
o m a s t r o c a i u p a r a t r á s , e to d o s os a p a r e l h o s d o n a v i o r o l a ­
ra m n a c o b e rta , in d o ferir, à p ro a, a cabeça do p ilô to e
q u e b r a r - l h e t o d o s o s ossos ao m e s m o t e m p o ; e o p i l ô to ,
se m e lh a n te a u m m e r g u lh a d o r , caiu d a a m u r a d a , e os a le n -
t o s d a v i d a a b a n d o n a r a m - n o . J ú p i t e r t r o v e j o u ao m e s m o
t e m p o e l a n ç o u s ô b r e a e m b a r c a ç ã o o r a i o . A n a u o s c ilo u
tô d a , f e r i d a p e lo t r o v ã o d e J ú p i t e r e e n c h e u - s e d e e n x o f r e ;
os m e u s c o m p a n h e i r o s c a í r a m d o n a v i o .
S em elh an tes a g ra lh a s , em volta do navio n eg ro , e ra m
levados s ô b r e as v a g a s e a l g u m d e u s l h e i m p e d i a o r e g r e s s o .

E is a g o ra a im ita ç ã o d e V e r g ílio :
E l e disse e, c o m o c o n t o d a s u a l a n ç a f e r i u a e n c o s t a
d a m o n t a n h a ; e os v e n t o s , f o r m a n d o c o m o u m e s q u a d r ã o ,
na s a í d a , q u e se lh e s d a v a , p r e c i p i t a m - s e e c o b r e m a t e r r a
com o s e u t u r b i l h ã o . C a e m s ô b r e o m a r e r e v o l v e m - n o
todo, a t é o f u n d o d o s a b i s m o s ; — a o m e s m o t e m p o o E u r o
e o N o to , e o v e n t o d a Á f r i c a , f r e q ü e n t e e m t e m p e s t a d e s ,
52 A F O R M AÇÃ.O D O B S T IL O

i m p e l e m c o n t r a a p r a i a as v a g a s m o n s t r u o s a s . C o n fu n d e-se
logo o c l a m o r d os h o m e n s e o r a n g e r d a c o r d o a l h a .
N u m i n s t a n t e , as n u v e n s o c u l t a r a m o c é u e o d ia aos
o lh o s dos T r o i a n o s : u m a n o i t e e s c u r a p e s a s ô b r e a s o n d a s . A.
ab ó b a d a celeste t r o v e jo u e o a r r a s g a - s e com f r e q ü e n t e s re lâ m ­
p a g o s : t u d o faz p r e s s e n t i r aos h o m e n s a m o r t e a m e a ç a d o ra .
A ê s te a s p e cto , E n e i a s s e n te - s e com o p a r a l i s a d o de frio
e m to d o s os s e u s membros*, g e m e , e, l e v a n t a n d o as mãos
p a r a os a s t r o s , p ro fe re es tas p a l a v r a s :
« Ó t r ê s o u q u a t r o vezes felizes a q u ê le s q u e , sob os olhos
d e s e u s p ais, j u n t o d a s a l t a s m u r a l h a s d e T r ó i a , t i v e r a m a
d i t a d e s u c u m b i r ! Ó m ais v a l e n t e d os G r e g o s , filho d e T id e u ,
p o r q u e n ã o p u d e e u c a i r t a m b é m n a s p l a n í c i e s d e ílio n e
d e r r a m a r o m e u s a n g u e , a lé m o n d e jaz o t e r r í v e l Heitor,
fe rid o p o r A q u ile s , a lé m o n d e jaz o g r a n d e S a r p e d ã o , onde
o S i m o e n t e a r r a s t a e r o l a n a s s u a s o n d a s t a n t o s escudos,
c a p a c e t e s e co rp o s d e h e r ó i s ! »
E n t r e t a n t o , a t e m p e s t a d e e n f u re c e -s e c a d a vez mais.
D o s v i n t e n a v io s , d e q u e se co m p õ e a fro ta de Eneias,
a m a i o r p a r t e d i s p e r s o u - s e ; u n s l a n ç a r a m - s e c o n t r a os
c a c h o p o s , os o u t r o s d ão à costa d e Á fric a, n a s sirtes e nos
b a n c o s d e are ia . U m d os n av io s a f u n d a - s e à s u a vista.
O u t r o , a q u e le q u e c o n d u z ia os L ício s e o fiel O ro n te , sob
os p r ó p r i o s o lh o s d e E n e ia s , recebe u m v io le n to golpe de
m a r , q u e o t o m a d a p r o a à p ô p a ; o piloto é a r re b a ta d o de
b o rd o e é a p r i m e i r a v í t i m a . Q u a n t o ao navio, trê s vezes
a o n d a q u e o e n v o lv e o faz v o l t e a r sôbre si m esm o e a bôca
d o re d e m o in h o o d e v o r a . A p e n a s se a v i s t a m a l g u n s homens
a nado, sô b re o im e n s o abism o, a r m a s , re m o s, pranchas
f l u t u a n t e s e os d e s tro ç o s d a s r i q u e z a s de T ró ia .

V ê-se, p o r e sta co m p aração , q u ão su p e rio r é a


te m p e sta d e de H o m ero à de V e rg ílio .
E m H om ero, os p o rm e n o re s são m ais empol­
g an tes.
▲ FORM AÇÃO DO E S T IL O 53

V e r g ílio im ita -o s e te m a p e n a s d e v e rd a d e ir a ­
m e n te o r i g in a l o s e g u i n te : a o n d a o f a z voltear
sôbre s i m esm o .
C o n tu d o , a te m p e s ta d e de V e r g ílio faz b o a
f ig u r a , n ã o é p a r a e s q u e c e r, e ó c a ra c te rís tic a .
P o rq u ê ?
P o r q u e a q u e la im ita ç ã o , c u ja e ssê n c ia n ã o b a s­
t a r i a p a r a le g itim a r o v a lo r d e V e r g ílio , é e x e c u ­
ta d a com re lê v o , g ra ç a s ao e s tilo d o p o e ta la tin o .
É o e s tilo d e V e r g ílio q u e d á o r ig in a lid a d e
à q u e la im ita ç ã o , p e la e x p re s s ã o a d m irá v e l, p e la
n a tu r e z a d a s p a la v r a s , p e la q u a lid a d e d o s e p íte to s
e p e la r iq u e z a d a lin g u a g e m .
O ca so d e A n d r é C h é n ie r é ta m b é m in t e r e s ­
s a n te .
S a b e -s e q u e o g r a n d e m o v im e n to li te r á r io d a
R e n a s c e n ç a fo i u m a re n o v a ç ã o d a l i t e r a t u r a g re c o -
la tin a .
R o n s a r d fo i o c a u d ilh o d a q u e la re n o v a ç ã o .
C h é n ie r fo i-lh e n o e n c a lç o .
A o b ra e o ta le n to d e C h é n ie r e x p lic a m -s e p e la
im ita ç ã o , le v a d a ao e s ta d o d e a s s im ila ç ã o p e r f e ita .
E n c o n tr a - s e n a e d iç ã o c r ític a d e B e c q d e F o u r -
q u iè re s a e x p o s iç ã o c o m p le ta d a s im ita ç õ e s d e
C h é n ie r, as p a s s a g e n s im ita d a s , e a té a s s im p le s
n o ta s, p ro je c to s d e im ita ç ã o , e tc . í1).

( ]) V e ja -s e t a m b é m , n o p r i m e i r o a p ê n d i c e d a q u e l a
o b ra a form ação de M ille v o y e pela im ita ç ã o de C h é n ie r,
p. LX X V JII.
54 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

9
E o ex e m p lo m ais c o n c lu d e n te e o m ais in s tru ­
tiv o q u e se p o d e d a r n a n o ssa te o ria .
C h a m a m o s a a te n ç ã o do le ito r p a ra a q u e le livro
in d isp e n sá v e l.
C h é n ie r n ã o te m ta lv e z u m a peça, u m quadro,
u m a cen a, q u e não te n h a id o b u s c a r aos antigos.
O u tro liv r o d e B ecq de F o u r q u iè r e s e n sin a nos
q u e C h é n ie r co leccio n av a as im a g e n s dos antigos,
p a r a as tr a n s p o r t a r p a ra si.
E s tu d a n d o C h é n ie r à lu z d a q u e le s do is livros,
c o m p ro v a r-se -á a ex celência, a u tilid a d e e o modo
p rá tic o do p rocesso d e im ita ç ã o (x).
D iz F o u r q u iè r e s :
— « C h é n ie r, se se fez im ita d o r dos antigos,
foi p a ra se to r n a r r iv a l deles.
« Q u ad ro s, p e n sa m e n to s, se n tim e n to s, de tudo
se ap o d era, p ro c u ra n d o , com o p o eta fran cês, excedê-
-los, p elo m en o s ig u a lá -lo s, no se u p ró p rio terreno.
« S e H o m ero , T e ó c rito , V e rg ílio , H o rácio não
tiv e sse m m a is q u e lh e e n sin a r além da lin g u a g e m ,
da d icção p o ética, e não o in ic ia sse m no q u e há de
m ais d ifíc il, de m ais p rim o ro so , de m ais delicado
em to d a s as a rte s , is to é, n a fo rm a, ta lv e z lh es não
desse senão u m a aten ção e ru d ita , sab en d o bem , ele,
filósofo e m o ra lista , q u e as ciên cias, os h áb ito s, os1

( 1 ) « C h é n i e r é u m m e s t r e n a i m i t a ç ã o » , disse Vítor
H u g ó ( L itté r . e t P h i l . m e lé e s. — S u r C h é n i e r ) . — Cf. C artas
C r itic a s sobre a v id a , as ob ra s e os m a n u s c r ito s de C hénier.
( C a r p e n t i e r , 1875).
A FORM AÇÃO DO H S T IL O 55

c o s tu m e s , tu d o m u d o u d esd e a a n tig u id a d e , e q u e
d o ra -a v a n te a lira só d e v e rá e m p re s ta r os seu s
a c o rd e s a p e n sa d o re s novos.
« P a c ie n te e laborioso, êle le v a n ta v a -se a n te s do
r o m p e r do d ia , re to m a n d o cada m a n h ã os se u s p ro ­
je c to s d a v ésp era, acab an d o u m esboço, d e lin e a n d o
u m id ílio o u u m a elegia. Os seu s m a n u s c rito s tes­
te m u n h a m a m u ltip lic id a d e e, ao m esm o te m p o , a
d iv e rs id a d e dos se u s tra b a lh o s.
« V o lta v a c o n tin u a m o n te aos seu s q u e rid o s a u ­
to res g re g o s, ao seu H o m ero , ao se u P ín d a r o , ao se u
A ris tó fa n e s, pelo q u a l tin h a g ra n d e p red ilecção .
« E stu d a v a -o s, an o tav a-o s, p ro m e te n d o a si
p ró p rio im ita r ta l p a ssag em , d e se n v o lv e r ta l p e n ­
sa m e n to , a p ro p ria r-se de ta l o u ta l ex p ressão .
M u ita s v ezes, co p iav a deles e x tra c to s.
« M as, nessas in u m e rá v e is le itu ra s , não era
le v a d o p o r u m desejo confuso de e ru d iç ã o ; u m fim
lógico, fixo, o a tr a i, o m a n té m se m p re n a m esm a
lin h a , e êsse fim êle p ro p rio no-lo d e s v e n d o u :
< Saber ler e saber p en sa r, p relim in a res in d is p e n ­
sáveis da arte de escrever.
« D em ais, u m a d a s g ra n d e s q u a lid a d e s de
A n d ré C h é n ie r, q u a lid a d e q u e êle p o ssu ía com o os
m ais a lto s e sp írito s, e ra u m a n o tá v e l re c tid ã o em
v e r e ju lg a r .
c D irig in d o -s e ao fim q u e êle m ira v a , A n d ré
d e v ia p a ssar p rim e iro p e la im ita ç ã o ; esfo rçar-se
assim p o r a d a p ta r a lín g u a fra n c e s a à p in t u r a dos
a s s u n to s m ais h a b itu a is à lín g u a g r e g a ; d ep o is,
56 ▲ FORM AÇÃO DO E S T IL O

te n d o e n tã o à s u a d isp o siç ã o u m a lín g u a adestrada


n esse p o ético e x e rc íc io , s e r v ir - s e d e la p a ra a pin­
t u r a d e a s s u n to s n o v o s e fra n c e se s e p a ss a r assim
d a im ita ç ã o à c ria çã o , m e r g u lh a n d o in te ira m e n te
n a v id a m o d e rn a . E isso m o s tr o u lü c id a m e n te , no
p o e m a d a In v e n ç ã o .
« O s e g u n d o p ro cesso , m a is co m p lex o , consiste
n a c ria ç ã o p o r a ssim ila ç ã o a n te r io r .
« E s s e p ro cesso escap a m u ita s vezes à crítica, e
os p ró p rio s p o e ta s n e m s e m p re d ão p o r êle.
« S e ria n ecessário s u b ir m u ito a lto , p a ra desco­
b r i r as p rim e ira s fo n te s d a in sp ira ç ã o .
« M as, em A n d ré , a a r te d e ix a -se o b se rv a r em
to d o s os g r a u s d e fo rm ação .
« A s s im , o le ito r p o d e rá v e r a "V eleg ia do liv ro m
d e T ib u lo , e d e p o is a ele g ia aos irm ã o s D e-P ange.
« "Vejam com o A n d ré im ita T ib u lo , o q u e om ite,
o q u e êle a c re sc e n ta, o q u e êle m odifica.
« D ep o is d a E le g ia aos irm ã o s D e-P ange, leia-se
a Jovem C ativa, e v eja-se o se u tra b a lh o de assi­
m ilação e d e ap ro p ria ç ã o , q u e p re c e d e u aquela
p é ro la lite r á r ia .
« A a lm a de A n d ré id e n tific o u -se com os pen­
sa m e n to s do p o e ta la tin o , com o se íô sse u m segundo
m olde, d o n d e êsses p e n sa m e n to s re n o v a d o s saíram
fecu n d ad o s p o r u m a m e d ita ç ã o in te r n a e in a­
tin g ív e l. >
P o rta n to , a boa im ita ç ã o é u m a q u e stã o v ita l
p a ra a form ação do e s tilo ; se rv il, m a ta o ta le n to ;
bem com preendida, cria-o e a u m e n ta -o .
A FORM AÇÃO D O B JS T IL O 57

E x iste n a s id éias n m fu n d o q u e p e rte n c e a to d a


a g e n te . E a m a n e ira de as e x p rim ir, e d e as d esen ­
v o lv e r, o q u e c o n s titu i o v a lo r lite rá rio .
P o d e-se v e r se m p re e c o m p re e n d e r de o u tr a
m a n e ira a q u ilo q u e foi v is to e co m p re en d id o p o r
o u tro s .
M r. d e M au rep as d iz ia :
— «O s e sc rito re s são pessoas q u e s u b tra e m dos
a u to re s tu d o q u a n to lh e s ap etece. »
A te o ria do c lim a e dos m eios a c h a -se em
L a -B ru y è re e no p a d re D u -B o s.
V ejam o p a rtid o q u e d ela tir o u T a in e .
B o ileau s e n tia b em e sta s v e rd a d e s, q u a n d o
c e n su ra v a a P e r r a u l t os se u s a ta q u e s c o n tra os
A n tig o s .
D iz ia e le :
— « Q ual é p o is o m o tiv o q u e o r e v o lta c o n tra
os A n tig o s ? S e rá o ^receio de q u e se m acu lasse,
im ita n d o -o s? M as, p o d e rá a lg u é m n e g a r q u e , m e rc ê
dessa im ita ç ã o , os nossos m a io re s p o etas tê m sid o
bem s u c e d id o s? P o d e rá n e g a r-se q u e C o rn e ille
tira ss e os s e u s m e lh o re s tre c h o s de T ito L ív io , de
D ion C ássio, de P lu ta rc o , d e L u c a n o e de S é n e c a ?
N ão se sab e q u e fo ra m Sófocles e E u ríp e d e s q u e
fo rm a ra m B a c in e ? P o d e rá d iz e r-se q u e n ão foi
de P la n to e T e rê n c io q u e M o liè re tir o u as g ra n d e s
d e licad ezas d a su a a r te ? » (*).1

( 1) B o i l e a u , C a r ta a P e r r a u lt, 1700.
58 ▲ FORM A ÇÃ O DO B 8T1LO

O p ró p rio R a c in e , q u e ta n to se s e rv ira dos


G re g o s , tr a d u z ir a a té q u á s i lite r a lm e n te cen as de
E u ríp e d e s ; e R a c in e e s ta v a c o n v e n c id o de que
fa z ia o b ra s o rig in a is, p ro c u ra n d o n o v id a d e s no
q u e e x is tia já .
D iz e9 le :
— « E o c o n trá rio dos nossos p o e ta s, q u e só dizem
c o isa s v a g a s , q u e o u tro s d is s e ra m j á a n te s deles
e c u ja s ex p ressõ es são re b u sc a d a s. Q u an d o saem
d isso , j á se não sab em e x p r im ir e caem n u m a
se q u id ã o , q u e ó p io r a in d a q u e os se u s plag iato s.
P e lo m e u la d o , não sei se f u i b e m su c e d id o ; mas,
q u a n d o faço v erso s, p en so se m p re em d iz e r o que
a in d a se não d isse n a n o ssa lín g u a » (x).
T o d as as lite r a tu r a s v iv e ra m de im itação .
T ra n s m ite m -s e as in sp ira ç õ e s, as n a rra tiv a s , as
im a g e n s , as idéias.
Os a ssu n to s d a m a io r p a rte d as fáb u la s de
L a -F o n ta in e re m o n ta m a té E so p o e F e d ro .
Os p ró p rio s G regos e x p lo ra ra m as su a s tra d i­
ções e as su a s le n d a s tra d ic io n a is.
Os L a tin o s im ita ra m os G re g o s; a lim e n ta ra m
o s séculos x v i, x v ii e x v i i i ; e, p o r su a vez, a
nossa época n eles re te m p e ra o se u gênio.
Os T roféus d e H e ró d ia , as tra d u ç õ e s de L econte
d e L isle, a m ito lo g ia de B a n v ille e a té a poesia
d e M oréas o u de H e n r iq u e R é g n ie r, relacionam -se 1

( 1) R a c in e , C a r ta a M a u c r o ix , 29 de A b ril de 1Ó95.
A FORM A ÇÃ O DO E S T IL O 59

d ir e c ta m e n te c o m A n d r é O h ó n ie r, q u e se in s p ir o u
em T e o c rito (*).
I m ita r u m a u to r ó p o rta n to o b se rv a r os se u s
p ro cesso s d e e s tilo , a o r ig in a lid a d e d a s s u a s e x p r e s ­
sões, as s u a s im a g e n s , o s e u m o v im e n to , a n a t u r e z a
a té do s e u g ó n io e d a s u a s e n s ib ilid a d e . E a p r o ­
p r ia r , p a ra o t r a d u z i r d e o u t r a m a n e ir a , o q u e e le
te m d e b elo , p o n d o d e p a r t e o q u e ó m e d ío c re .
E is a q u i com o H o rá c io a p r e s e n ta u m p e n s a m e n to
sim p le s e c o m u m — a m o r te n ã o p o u p a n in g u é m .
— € A p á lid a m o r te to c a c o m o m e s m o p ó as
h ab itaçõ es dos p o b re s e as to r r e s d o s ric o s . *
M a lh e rb e s e r v iu - s e d o m e s m o p e n s a m e n t o :
« A m o rte tem rigores desm edidos.
P o d e m o -la exorar.
q u e e l a , s e m p r e c r u e l , c e r r a os o u v i d o s ,
e deixa-nos g rita r. »

D e p o is, a c re s c e n ta , im ita n d o H o r á c i o :
« O s pobres, q u e v eg etam n as m a n s a r d a s ,
o b e d e c e m - l h e à s leis :
e c o n t r a e la , n o p a l á c i o , os g u a r d a s
não defendem os reis.» 1

( 1) P a t i n , n a s u a M is c e lâ n e a , t e m u m b e lo e s t u d o
s ô b r e a I n flu ê n c ia d a im ita ç ã o no d e s e n v o lv im e n to d a s l i t e ­
r a tu r a s . A s s i n a l e m o s t a m b é m o s i n t e r e s s a n t e s a r t i g o s d e
F r e d e r i c o L o liée, m u i t o c o m p e t e n t e n a q u e l a s m a t é r i a s ; o
belo l i v r o d e R é m y d e G o u r m o n t s ô b r e a E s t é t i c a d a L i n ­
g u a F r a n c e s a ; e, c o m o t r e c h o s q u e p o d e m s e r v i r d e m o d e ­
los, a s t r a d u ç õ e s e as a d a p t a ç õ e s d e u m b o m p o e t a , a p a i x o -
60 A FORM A ÇÃ O DO H J8 T ID O

Y e rg ílio , fa la n d o d© u m a e s p é c ie d e c a rv a lh o ,
d is s e :

« . . . Q u a e q u a n tu m v e r tic e a d a u r a s
A e t h e r i a s , t a n l u m r a d ic e s i n t a r t a r a t e n d i t .

( G e ó r g i c a s , L . 11, v . 291).

( L i t e r a l m e n t e : O s e u c u m e e le v a - s e tã o a lto
n o s a re s, q u ã o p r o f u n d a s sã o a s s u a s r a íz e s nos
in fe rn o s ).
E L a - F o n ta in e n ã o fica a b a ix o d o s e u m o d elo ,
n e s te s v e rs o s s u b l i m e s :

« O v e n t o r u g e e, r e d o b r a n d o e s f o r ç o s ,
p ro stra o carv alh o anoso,
c u jo v é r t i c e o s a l t o s c é u s t o p e t a ,
e q u e no b á ra tro a raiz a f u n d a . »

( L . 1, f á b u l a 22).

A im ita ç ã o p o d e c o n s e n t i r e m a p r o p r i a r o m odo
e a lg u m a s e x p r e s s õ e s d e u m a u t o r , s e m a p r o p r ia r

n ad o pela a n t ig u id a d e , M a rc o s L e g r a n d . V e j a m - s e tam bém


a s i m it a ç õ e s , q u á s i l i t e r a i s , d a s n o s s a s e p o p e i a s francesas^
q u e V í t o r H u g o n o s d e u e m A y m e r i l l o t , n o C a s a m e n to de
R o la n d , e t c . ( V i d . P e q u e n a s E p o p e i a s d e L e ã o G a u t i e r , etc.)
V i l l e m a i n , e m 1812, n a d i s t r i b u i ç ã o d o s p r ê m i o s d o con­
c u r s o d o s c o l é g i o s r e a i s d e P a r i s , p r o n u n c i o u u m b elo dis­
cu rso sôbre a im itação.
A FOKMA ç A o DO K 8 T IL .O 61

o p e n s a m e n to ; o u a p r o p r ia r o s e u p e n s a m e n to ,
sem c o p ia r o m o d o n e m a e x p re s s ã o (J).
L a m o th e L e - V a y e r p e n s a v a q u e e ra m a is lo u ­
v á v e l e x t r a i r b e lezas lite r á r ia s d o s A n tig o s do q u e
d o s M o d ern o s.
A b s o lv ia o p la g ia to c o m e tid o c o n tr a os G re g o s,
m a s q u e r ia q u e os se u s c o n te m p o râ n e o s fo s s e m
re s p e ita d o s (2).
Im ita m o s com m a is lib e rd a d e , q u a n d o n o s
so co rrem o s de u m a l í n g u a e s t r a n h a ; m a s ó n e c e s­
sá rio g o sto p a ra n ã o c a irm o s n o e sc o lh o d a
tra d u ç ã o , q u e ó a rid e z e s e c u ra .
Q u an d o se e n c o n tr a m em a u to r e s e s tr a n g e ir o s
p e n s a m e n to s e x a g e ra d o s , d e v e m o s, o m a is p o s s ív e l,
re d u z i-lo s à s u a v e rd a d e n a tu r a l.
A ssim , em P la u to , o A v a r e n to s u p õ e -s e r o u ­
b ad o p e lo s e u e s c ra v o ; re v is ta -o e, d e p o is d e lh e
te r fe ito a b r i r as d u a s m ão s, o r d e n a - lh e : a terceira.
O r a s g o é e x p re ss iv o .
A p a ix ã o m a is f o r te n ã o p o d e c e g a r, a p o n to s
de fa z e r e s q u e c e r q u e o h o m e m n ã o te m tr ê s m ã o s.
M o liè re t i r a m e lh o r p a r tid o d e t a l id é ia .
R e v is ta d a s as m ão s, o A v a r e n to d i z : E a o u tr a ?
A q u i o A v a r e n to n ã o p e d e tr ê s m ã o s ; e s tá cie(*)

(*) N a H i s t ó r i a d e F r a n c is c o I, d e G a i l l a r d , p o d e l e r - s e
u m a boa im itaç ão d a P a s s a g e m dos A lp e s , d e T ito L ív io .
C om pare-se ta m b é m a descrição d a peste em T u c íd id e s ,
Boccácio, P a d r e B a r t h é l e m y e M a n z o n i .
(2) B a y l e , D ic io n á r io , a r t . E p h o r e .
62 ▲ FORM A ÇÃ O DO E 1 S T JL .O

ta l fo rm a a b s o rto p e la s u a p a ix ã o , q u e s u p ô s t e r
v is to a p e n a s u m a .
E u m e x a g e r o a d m is s ív e l.
C r e v ie r a c o n s e lh a q u e se e s c o lh a m b e m os
a u to r e s , a q u e m q u e r e m o s i m i t a r , e q u e n o s p o n h a ­
m o s e m g u a r d a c o n tr a o s s e u s d e f e i to s .
D e c id e c o m a p r u m o e s t a q u e s t ã o d e li c a d a :
— « B o ssu e t é g ra n d e , m a s d e s i g u a l ; F le c h ie r
ó m a is ig u a l, m a s m e n o s e le v a d o e m u i t a s v ezes
m u ito f l o r i d o ; B o u r d a l o u e é j u d i c i o s o e só lid o ,
m a s d e s p re z a a g r a ç a ; M a s s illo n é m a i s r ic o em
im a g e n s , m a s m e n o s f o r t e e m r a c io c ín io s . D e se jo
p o is q u e o o r a d o r se n ã o c o n t e n t e c o m a im ita ç ã o
d e u m só d e s te s m o d e lo s , m a s q u e t r a t e d e r e ü n i r
e m s i to d a s as s u a s d i f e r e n t e s v i r t u d e s > í 1).
C o n s e lh o f á c il d e d a r , m a s d i f í c i l d e s e g u ir.
H á e m c e r to s a u t o r e s i m a g e n s e e x p re ssõ e s,
q u e fo ra m m u i t a s v e z e s im i t a d o s .
D e v e re m o s e s q u e c e r - n o s d e l a s p a r a p r o c u r a r
as m e n o s c o n h e c id a s , a s m a i s r a r a s e a s m ais
c u rio s a s ?
N e c e s s á rio ó q u e se n ã o c o m p a r e n in g u é m a
u m a flo r, q u e só v i v e u u m d i a e q u e m u r c h o u à
ta rd e .
A im ita ç ã o d e s t e p e n s a m e n t o p o d e s e r consi­
d e ra d a , e f e c tiv a m e n te , c o m o e s g o t a d a .
B o s s u e t d is s e : (*)

(*) C r e v i e r , R e t ó r i c a F r a n c e s a , t . n , ú l t i m o c a p ítu lo .
A F O R lá A Ç iO DO K 8 T IL O 63

— « A s e n h o ra d e s a p a re c e u , e n tr e a m a n h ã
o a n o ite , co m o a e r v a d o s c a m p o s ; d e m a n h ã ,
florescia, com a g e n tile z a q u e s a b e is . À noite,,
v im o -la m u r c h a . . . »
F a la n d o d a v id a c u r t a dos h o m e n s , M a ssilo n
d isse ta m b é m :
— « A lg u n s h á , q u e , m a l a s s o m a m n a te r r a ,
acabam e n tre a m a n h ã e a n o ite, e q u e , s e m e lh a n -
te s à flor dos campos, n ã o tê m in te r v a lo e n tr e o
m o m e n to q u e os vê a b r ir e a q u ê le q u e os v ê f a n a r
e d e sa p a re c e r. »
F é n e lo n e s c re v e u n o TeJém aco:
— «O s h o m e n s passam co m o as flo re s q u e se
o sten ta m de m a n h ã e q u e à tarde estão sêcas e c a l­
c a d a s aos p ó s.»
E a c re s c e n ta , q u a tr o lin h a s d e p o is :
— « R e c o rd a -te d e q u e e s s a b e la id a d e n ã o
p a s s a d e u m a flor, q u e , p o u c o d e p o is d e a b rir,,
s e c a r á .»
M a lh e rb e te v e i g u a l p e n s a m e n to :

« V iv e u o q u e v iv em rosas,
o espaço de u m a m a n h ã . »

E is a q u i u m n o v o e x e m p lo d o b o m ê x ito , q u e
pode t e r a im ita ç ã o d e u m a im a g e m , q u e se e n c o n ­
tr a e m V e r g ílio e q u e D e lille t r a d u z i u p o r estas-
p a la v ra s :

«D o alto dêstes ro c h ed o s
E u vejo a c a b r a p e n d e r . . . »
64 A FO RM AÇA o DO B A T ID O

R o n sseau e sc re v e u :
— « . . . o ra e n o rm e s r o c h e d o s p e n d ia m e m r u í ­
n a s p o r c im a d a m i n h a c a b e ç a .»
( N o v a H e l o í s a , i, c a r t a x x m ) .
D u p a ty :
— « E s ta s o n d a s , e s ta a l t u r a , e s te a b is m o , estes
ro c h e d o s , p e n d e n te s e m p r e c i p í c i o . . . »

( C a r ta s s ô b re a I t á l i a . — A g r a n d e C a s c a t a ) .

L a m a rtin e :

« E nestes p in h e ira is e rochedos b rav io s,


Q u e p en d em sôbre as á g u a s . . . »

(O L a g o ).
M u s s e t:

« O cabrito q u e pasce e saltita sem m êdo


n a aresta do ro c h e d o . . . »

(S a la d a à L u a ).
"V ítor H u g o :

« A q u e d a m ais p ro fu n d a
pende d a m ais elev ad a c u m e e ir a . . . »

H o rá c io , d i s s e r a :

S o l v i t u r a c r is h i e m i s .

V e r g ílio ta m b é m :

S o lv u n tu r f r i g o r e m em b ra .
A PORM AÇAO DO B S T IL O 65

M o n ta ig n e :
— «O hom em v a i e s p a n ta d o a p ó s as c o isa s
f a tu r a s . >
(E n s a io s , m , i . a l i n h a ) .
C h a te a u b ria n d :
— « F i c a r b o q u ia b e r to n o s lo n g e s a z u la d o s .»
( M e m ó r ia s , I n j â n c i a e m C o m b o u r g ) .

; M a lh e r b e :
« A fim d e q u e t u d o e x i s t a ,
n a d a e x i s t e e t e r n a m e n t e . »> I
( S ô b r e a to m a d a d e M a r s e lh a ) ,
R acan:
«No m undo n ad a perdura,
senão a tr a n s f o r m a ç ã o .»
( O d e s . — A v in d a d a p r i m a v e r a ) .

« O c rim e faz a v e rg o n h a , m a s n ã o o c a d a fa ls o . >


( T o m á s C o r n e i l l e , C o n d e d ’E s s e x , i v , m ) .

« A v e r g o n h a e s tá n o c rim e e n ã o n o s u p l í c i o .»
( V o l t a i r e , A r t e m i s a , f r a g m e n t o , iv , m ) .

D iz m u ito b e m L a v e a u x (x) :
— « E m te r m o s d e l i t e r a t u r a , e n te n d e -s e , p o r
im ita ç ã o , a c ó p ia d a s im a g e n s , d o s p e n s a m e n to s ,
dos s e n tim e n to s , q u e se e x tr a e m d o s e s c r ito s d e (*)

(*) L a v e a u x , D ic io n á r io d a s D ific u ld a d e s d a L í n g u a
F rancesa.
5
66 A F O R M A Ç .Ã .O D O B J8 T IL .O

a lg u m a u to r , e d© qu© s© f a z u s o , q u e r d ife re n te ,
q u e r a p ro x im a d o , q u e r e x c e d id o ©m re la ç ã o ao
o r i g i n a l . . . V e r g íl io i m i t a o r a H o m e r o , o r a Teó-
c rito , o r a H e s ío d o , o r a o s p o e ta s d o s e u te m p o ; e
fo i p o r t e r t i d o t a n t o s m o d e lo s q u e s e t o r n o u ta m ­
b ém n u m a d m irá v e l m o d e lo . . .
« A im ita ç ã o d e v e s e r f e i t a d e u m a m a n e ira
n o b r e , g e n e ro s a , c h e ia d e li b e r d a d e .
« A boa im ita ç ã o é u m a c o n tin u e i in v e n ç ã o .
« E p re c is o , p o r a s s im d iz e r , q u e o im ita d o r
se tr a n s f o r m e n o s e u m o d e lo , e m b e le z a n d o os sens
p e n s a m e n to s , e, p e la fe iç ã o q u e lh e s d e r , se ap ro ­
p r i e d e le s , e n r iq u e c e n d o o q u e se l h e e x t r a i e dei­
x a n d o a q u ilo q u e n ã o p o d e e x o r n a r . »
N ã o se p o d e d i z e r m e l h o r ; m a s é p r e c is o ain d a
h a v e r ta to e p ru d ê n c ia .
[R eco rd em o s o c o n s e lh o d e S é n e c a :
— « O c u lte m o s c o m i n d ú s t r i a o q u e tira m o s e
m o s tr e m o s s o m e n te o q u e é n o sso .
c S e se r e c o n h e c e m n u m a o b r a a l g u n s tra ç o s de
u m a u t o r q u e e s tim á s s e is p a r t i c u l a r m e n te , se ja isso
u m a p a r e c e n ç a d e f ilh o e n ã o o r e t r a t o , v is to q u e o
r e t r a t o é u m a c o is a m o r t a . P o i s q u ê ! n ã o se v e rá de
q u e m e u i m i t o o e s t il o , d e q u e m to m o oú pensa­
m e n to s e a m a n e i r a d e a r g u m e n t a r ? C r e io m esm o
q u e n ã o se d a r á p o r t a l , s e se t r a t a r d e um
h o m e m h á b i l » (*).

(!) S é n e c a , C a r ta a L u c í l t o , 8 4 .
A FORM AÇÃO UO E S T IL O 67

Os n o sso s clá ssic o s fra n c e s e s e s m e ra ra m - s e em


p r a tic a r os se u s c o n se lh o s e e m d a r o r ig in a lid a d e
à s s u a s có p ias.
B o ile a u n ã o c o ra v a d e i m i t a r os A n tig o s .
C o n fe ssa s e r « u m m e n d ig o , c o b e r to c o m os
d e sp o jo s d e H o rá c io » .
T o c o u em to d o s os a s s u n to s d e H o r á c io e a p e ­
n a s te m de v e r d a d e ir a m e n te o r i g in a l a s u a E s ta n te
de Côro.
B o ssu e t e s tu d a v a e a s s im ila v a a B íb lia , os
P a d re s , S . G re g ó rio d e N a z ia n z o , T e r tu l ia n o ,
S a n to A g o s tin h o e H o m e ro .
D iz ia -se q u e ele se d e ita v a le n d o H o m e ro , e q u e
se le v a n ta v a d e p o is com « p e n s a m e n to s g e n ia i s » (2).
O a s s u n to d a s p r in c ip a is p e ç a s d e S h a k e s p e a r e
tin h a j á sido tr a ta d o a n te s d ele.
R a c in e e x t r a i u d o s G re g o s o a s s u n to p a r a as
su a s tr a g é d ia s , e fez s u a s a s c e n a s p r i n c i p a i s
dessas tra g é d ia s .
E is a q u i o q u e e le d e c la ra n o s e u s e g u n d o
p re fá c io d e B r it â n ic o :
— « T r a b a lh e i s o b re m o d e lo s, q u e m e t i n h a m
a u x ilia d o e x tr e m a m e n te n a d e s c riç ã o , q u e e u q u e ­
r ia fa z e r, d a c o r te d e A g r ip i n a e d e N e r o .
« C o p iei as m in h a s p e r s o n a g e n s , s e g u n d o o
m e lh o r m o d e lo d a a n tig u id a d e , is t o é, s e g u n d o
T á c ito ; e e s ta v a e n tã o tã o a b s o r to n a l e i t u r a (*)

(*) B e s p l a s , E lo q ü ê n c ia d a C a r n e .
68 A FORM AÇÃO DO E IS T IL O

d a q u e le e x c e le n te h is to r i a d o r , q u e n ã o h á sequer
u m r a s g o b r i l h a n t e n a m i n h a tr a g é d ia , q u e êle
n ã o tiv e s s e c r ia d o . Q u is e r a i n c l u i r n e s ta com pila­
ç ã o u m e x t r a c t o d a s m a is b e la s p a s s a g e n s que
p r o c u r e i i m i t a r ; m a s a c h e i q u e esse e x tr a c to ocupa­
r i a q u á s i t a n t o l u g a r c o m o a t r a g é d i a » (J).
E n o p r e f á c io d e F e d r o :
— « P o s to q u e e u t e n h a s e g u id o c a m in h o um
p o u c o d i f e r e n te d o d e E u r íp e d e s , n o s e g u im e n to da
a c ç ã o n ã o d e ix e i d e e n r i q u e c e r a m i n h a p e ç a com
t u d o q u a n t o m e p a r e c e u m a is b r i l h a n t e n a dele. >
A a s s im ila ç ã o p o r im ita ç ã o é a b a se d e todos
o s p r e c e ito s l i t e r á r i o s .
E o q u e f a z ia d i z e r a u m p o e t a :
— « Q u e e s t r a n h a in v e s tig a ç ã o a d a s gen ealo ­
g i a s ! O b o m H o m e r o . . . p r o d u z i u V e rg ílio , que
c r i o u o p ie d o s o E n e ia s ; V e r g íl io p r o d u z iu Tasso,
q u e c r i o u A r m i n d a e C lo r in d a , do q u e B oileau
n ã o g o s t a v a ; o T a s s o p r o d u z i u sa b e D e u s o quê,
a H e n r ía d a . A H e n r ía d a c r io u B a o u r-E o rm ia n .
F o i a s s im q u e a t r a g é d i a g r e g a , esse o cean o m a­
je s to s o e s u b lim e , d e p o is d e t e r p r o d u z id o R acine
e A l f i e i r i . . . , p r o d u z i u a q u e la s ra m ific a ç õ e s toscas
d e p e q u e n o s c h a rc o s , q u e se e s g o ta m a in d a , aqui
e a lé m ao so l, e q u e se c h a m a m a e sc o la de Cam-
p is tr o n » (2).

(x) S e g u n d o prefácio d e B r itâ n ic o .


(2) M u s s e t , M is c e lâ n e a ( R e v i s t a F a n tá s tic a , xu).
A FORM Aç A o DO B 3 8 T IL O 69

S a in t-B e u v e fêz s a lie n ta r as in ú m e ra s e in co n s­


c ien tes im itaçõ es, q u e s e g u ira m o e x e m p lo de
C h a te a u b ria n d .
D iz e l e :
— « N ão se e n c o n tra ria u m a só p á g in a , em
to d o s os escrito res, q u e n ão te n h a o se u g e rm e
em C h a te a u b ria n d .»
L a m a rtin e , no seu C urso F a m ilia r de L ite ra ­
tura, c ita u m a p a ssag e m d e S a in t-B e u v e , em q u e
o ilu s tre crítico m o s tra a se m e lh a n ç a de c e rta s
Meditações, O Isolam ento, O C rucifixo, O H o m em ,
O Passado, com p assag en s c é le b re s d e C h a te a u ­
b rian d . . . (*).
Só podem os in d ic a r s u m à ria m e n te a e x c e lê n c ia
do processo de im ita ç ã o e a su a tra d iç ã o c o n s ta n te
em lite ra tu ra .
V o ltarem o s a ela, no nosso c a p ítu lo so b re a
descrição, a p ro p ó s ito de C h a te a u b ria n d , H o m e ro
e F la u b e rt.
E is a q u i u m ex em p lo q u e p ro v a q u e a im ita ­
ção, pelo m en o s com o e x e rc íc io in ic ia l, d e te r m in a
a form ação dos ta le n to s m a is p esso ais.
T ra ta -se a in d a de L a m a rtin e .
O p ró p rio a u to r d as M editações e n c e to u a s u a
carreira, im ita n d o (2).

(!) C u rso F a m ilia r d e L ite r a tu r a , e x e rc íc io c l x v .


(2) J ú l i o L e m a i t r e p u b l i c o u c u r i o s o s e s t u d o s s ô b r e as
p rim e ira s im ita ç õ e s d e L a m a r t i n e .
70 A FORM AÇÃO DO H B T IL .O

C o n fe ssa p r i m e i r a m e n te q u e C h a te a u b r i a n d foi
u m dos q u e lh e a b r i r a m o h o r i z o n t e d a poesia
m o d e rn a .
E a c re s c e n ta :
— «O s p o e ta s a n ti- p o é tic o s d o s é c u lo x v m , V ol­
ta ir e , D o r a t, P a r n y , D e lille , F o n t a n e s , L a -H a rp e ,
B oufL ers, v e rs ific a d o r e s e s p i r i t u a i s d a e sc o la dege­
n e r a d a d e B o ile a u , f o r a m e m s e g u i d a o s m eu s
m o d e lo s d e p ra v a d o s , n ã o d e p o e s ia , m a s d e v e rsi-
ficação.
« E s c r e v i v o lu m e s d e d e te s tá v e is e le g ia s am o­
ro s a s a n te s d a id a d e d o a m o r , à im ita ç ã o desses
fa lso s p o e ta s (x).
« D e A n d r é C h é n ie r a in d a se n ã o t i n h a p u b li­
c a d o n e n h u m v o lu m e . E u a p e n a s c o n h e c ia d ele a
s u b lim e e d iv i n a e le g ia d a J o v e m C a tiv a , cita d a
e m p a r t e p o r C h a te a u b r ia n d .
« P o s to q u e A n d r é C h é n ie r , n o s e u v o lu m e de
v e rso s, s e ja a p e n a s u m g r e g o d o p a g a n is m o , e, p o r
c o n s e q ü ê n c ia , u m d e lic io s o p a s tic h a d o r , u m p seu d o -
- A n a c r e o n te d e u m a f a ls a a n t i g u i d a d e , a e le g ia da
J o v e m C a tiv a t i n h a a n o ta v e r d a d e i r a , g r a n d io s a e
p a té tic a d a p o e s ia d a a lm a . 1

(1) « É n o t ó r i o q u e o s h o m e n s m a i s o r i g i n a i s , o s m ais
b e m d i s p o s t o s , c o m o a s u a c a r r e i r a d e v e d a r d i s s o , em
breve, a p ro v a b r ilh a n te , p e la in v e n ç ã o , p r i n c i p i a m sem pre
p o r im ita r o poeta, q u e m a is lh e s e x c ito u o e n tu sia sm o .»
( H . J o l y . R e v is t a F ilo s ó fic a , t . x i v , p . 2 0 6 ). B r u n e t i è r e d isse:
« A im itação é o n o v iciado d a o r i g i n a l i d a d e . »
A F O R M A y A .O D O B 8 T IL .O 71

« A q u e le s v e rs o s tin h a m sa íd o , n ã o d a s u a im a ­
g in a ç ã o , m a s do se u c o ração , co m as s u a s lá g r im a s .
« E is o se g re d o d a e le g ia tr á g ic a d a J o v e m
C a tiv a , q u e em n a d a se a s s e m e lh a à f a m ília d e
e le g ia s g re g a s , q u e lê m o s, m a is ta r d e , n a s o b ra s
d o m esm o a u to r .
«A o lê-la, e x c la m e i lo g o : E is o p o e ta ! E s ta r e v e ­
lação d eu , c o n tra m in h a v o n ta d e , o to m a a lg u m a s
e x p e riê n c ia s d e p o esia v a g a e in fo rm e , q u e e u e s c r e ­
v ia ao acaso, n as m in h a s h o ra s v a g a s d a a d o le s c ê n c ia .
« E n c o n tra m -se a lg u r e s v e s tíg io s d e la n a e le g ia
in titu la d a a F ilh a do P esca d o r, q u e n u n c a fo i
c o n clu íd a n e m p u b lic a d a p o r m im . C o n c lu o -a e
p u b lic o -a a q u i p e la p r im e ir a v e z . . .
«N ela se e n c o n tr a r á , a tr a v é s d a s r e m in is c ê n c ia s
g re g a s de T e ò c rito e A n a c r e o n te , q u a l q u e r i m p r e s ­
são de A n d r é C h é n ie r . . . * (*).
A o b ra , d e q u e fa la L a m a r t in e e c u ja t r a n s ­
crição s e ria m u ito e x te n s a , fa z le m b r a r , e f e c tiv a -
m e n te , A n d r é C h é n ie r :

Q u a n d o a fa ce m o r e n a i n c l i n a s s ô b r e a b i l h a . . .

Sôbre a fig u eira p r ó d ig a de a ç ú c a r . . .

S o b e!a, a s s e n t a s - t e e n t r e a s o m b r a e o s f r u t o s . . .
• * • • • • • • • • « • • • • • • • • • •

C o lh e s n o o u t o n o e p õ e s n o t a b u l e i r o o s figos,
Q u e o v e n t o d o m a r s a l g a e o sol re c o z e .

(!) L am artin e, C u rso de L ite r a tu r a , exercício x x m .


72 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

D iz Q a i n t i l i a n o :
— « U m d o s p e r ig o s d a m á im ita ç ã o e defeitos
d e u m a u t o r é a d q u i r i r s o m e n te o s v íc io s, que se
r e la c io n a m c o m a s s u a s q u a lid a d e s .
« S u b s t i t u i - s e a e le v a ç ã o p e la f o r m a em polada,
a c o n c is ã o p e la s e q u id ã o , a f o r ç a p e la tem eridade,
a g r a ç a p e lo m a u g o s to , a h a r m o n ia p e la desor­
d e m , e a s im p lic id a d e p e la n e g lig ê n c ia .
E C íc e ro d i s s e :
— « V i m u i t a s v e z e s im it a d o r e s copiarem o que
h a v i a d e m a is f á c il e a t é o q u e e r a d efeitu o so e
v ic io s o n o s e u m o d e lo . C o m e ç a m p o r e sc o lh e r mal.
E , se o s e u m o d e lo , e m b o r a m a u , tiv e s s e qu alq u er
q u a li d a d e b o a , d e ix a m - n a e só lh e a p ro v e ita m os
d e f e ito s . »
E f e c t i v a m e n t e , t u d o s e t o r n a in s íp id o e desco-
lo r id o so b a p e n a d a q u e le s q u e n ã o tê m talento
b a s t a n t e p a r a s a b e r i m i t a r , p o r q u e a im itação
su p õ e ta le n to .
S e m d is p o s iç õ e s p a r a a a r t e d e e sc re v e r, todos
os e s fo r ç o s d e im i t a ç ã o se t o r n a m e s té re is .
O u s e c o p ia s e r v i l m e n t e o u s e fica m u ito abaixo
d o m o d ê lo .
A im it a ç ã o n ã o é p o r t a n t o tã o f á c il co m o se julga.
R esum am os. i
H á d u a s e s p é c ie s d e i m i t a ç ã o :
U m a é o e x e r c íc io l i t e r á r i o , in d iv id u a l, de
o r d e m p r i v a d a , e x c e l e n t e m e io d e f o r m a r o estilo,
e q u e c o n d u z a o p a s t i c h o , d e q u e fa la re m o s no
c a p ítu lo s e g u in te .
▲ FORM AÇÃO DO E S 8 T ID O 73

A o u tr a , a v e r d a d e ir a , é u m a im p re g n a ç ã o
g e r a l ; é o c o n ju n to d a s id é ia s e d a s im a g e n s , q u e
a c a b a m p o r s e r a s s im ila d a s .
E é a c o m b in a ç ã o d e s te s e le m e n to s d ig erid o s
q u e d e s e n v o lv e a o r ig in a lid a d e p e sso a l.
A b o a im ita ç ã o c o n d u z à a ss im ila ç ã o e c o n ­
fu n d e -s e com ela, p o is c o n siste , co m o d iz ia D a c ie r,
e m a d a p ta r o espírito ao colorido de u m a u to r.
S o m o s d a o p in iã o d e E r n e s to H e lo , q u a n d o
d iz :
— « S e o c o n se lh o d a R e tó r ic a , o c o n se lh o d e
im ita r os g r a n d e s e s c rito re s o u a q u e le s q u e a s s im
se c h a m a m , ó u m c o n se lh o rid íc u lo , o c o n se lh o d e
os a ss im ila rm o s s e ria u m c o n s e lh o sé rio .
« P o d e su c e d e r e fe c tiv a m e n te q u e , ao p e n e t r a r ­
m os n o g ê n io d e u m g r a n d e h o m e m , fiq u e m o s
im p re g n a d o s , c o m p e n e tra d o s d e le e q u e a lg u m a
coisa d e le p a sse p a ra n ó s . . . Is s o n ã o se p o d e rá
fa z e r p e la có p ia, p elo d e s c o b rim e n to d e u m p r o ­
cesso, m as p o r u m a c o m u n ic a ç ã o ín t im a d e c a lo r
e de v id a • . .
« O e s c rito r d á o s e u e s tilo , q u e r e d iz e r, a s u a
p a la v ra . É p e r m itid o a lim e n ta rm o -n o s d e l a » (J).
D e v e m o s t e r s e m p re d ia n te dos o lh o s os g r a n ­
d e s m o d elo s c lá s sic o s ; p re o c u p a r-n o s in c e s s a n te ­
m e n te com os se u s p e n s a m e n to s , a s u a fo rm a e o
se u e s tilo ; p e n s a r n a s d e s c riç õ e s d o s m e s tre s , se

(!) E r n e s t o H elo , O E s tilo , p. 20.


74 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

d e s c r e v e m o s ; n o s g e s to s e lo q ü e n te s dos g ra n d e s
o ra d o re s , se f a la m o s ; n a s m e lh o re s fra se s dos
p r in c ip a is h is to r ia d o r e s , se h is to r ia m o s ; n o s belos
v e rs o s d a n o s s a lí n g u a , se p o e ta m o s.
É e s te o p r ó p r io m é to d o d e im ita ç ã o , e ó o que
X io ngin e x p r im e n e s te a d m ir á v e l c o n s e lh o :
— « E p re c is o q u e in te r r o g u e m o s s e m p r e : Com o
é q u e H o m e ro t e r i a d ito i s t o ? . . . Q u e te r ia feito
P la tã o , D e m ó s te n e s o u m e sm o T u c íd id e s (se se
t r a t a r d e h is tó r ia ) , p a r a e s c r e v e r is to e m estilo
s u b l i m e ? P o is q u e os g r a n d e s h o m e n s , q u e nos
d is p o m o s a im ita r , a p re s e n ta n d o -s e -n o s a ss im à
n o ss a im a g in a ç ã o , n o s s e r v e m co m o d e a rc h o te e
n o s e le v a m a a lm a q u á s i tã o a lto co m o a id éia
q u e n ó s c o n c e b e m o s d o s e u g ê n io , p rin c ip a lm e n te
s e fix a rm o s b e m i s t o : « Q ue p e n sa ria H om ero ou
D em ó sten es do q u e digo, se m e escu ta ssem ? q u e ju ízo
f a r i a m de m im ? * E f e c tiv a m e n te , n ã o s u p o ría m o s
t e r u m m e d ío c re p r ê m io p a r a d i s p u t a r , se p u d é s ­
se m o s im a g i n a r q u e ir ía m o s s è r ia m e n te d a r c o n ta
d o s n o sso s e s c rito s p e r a n t e tã o c é le b re tr ib u n a l,
e n u m ta b la d o o n d e tiv é s s e m o s ta is h e r ó is p o r
ju i z e s e t e s t e m u n h a s . »
C A P ÍT U L O I I I

0 Pasticho í1)

O pasticho como bom exercício. — Caracteres do pasti­


cho. —Exemplos de pasticho. — Opinião de Carlos
Nodier. —Hompsy.

O p a s tic h o é a im ita çã o a r tific ia l e s e r v il das


expressões e dos processos de estilo de u m a u to r.
Os e s c rito re s o r ig in a is , is to é, a q u e le s q u e tê m
u m m o d o d e d iz e r c a r a c te r ís tic o , são os m a is
fá c e is d e p a s tic h a r .
A lg u n s , co m o L a - F o n ta in e , sã o in i m i tá v e i s ,
p o rq u e se n ã o c o n s e g u e p e n e t r a r a s u a fe iç ã o
e p o rq u e se n ã o s a b e co m o e le s p r o c e d e r a m p a r a
t e r g ê n io .

( 1) N ã o c o n h e ç o e m p o r t u g u ê s e x p r e s s ã o o u t ê r m o ,
q u e c o r r e s p o n d a p r e c i s a m e n t e a o i t a l i a n o p a s tic c io , q u e ,
p ro p riam en te, é têrm o de p in tu ra , e que, afrancesado, deu
p a s tic h e . P a r ó d ia s e r i a t ê r m o v e r n á c u l o , m a s , c o m o e n v o l v e
sem p re a idéia de b urlesco ou rid ícu lo , n ão re p re s e n ta r ia
c o m e x a c t i d ã o o i t a l i a n o p a s tic c io . A c h o p o r t a n t o p r e f e r í ­
vel o a p o r t u g u e s a m e n t o p a s t i c h o .
( N . do t r a d u t o r ) .
76 A FORM AÇÃO DO H JS T IL O

M a rm o n te l n a r r a , c o n tu d o , q u e V o lta ir e , n a su a
a d o lescên cia, c o n s e g u iu f a z e r p a s s a r u m a fá b u la
d e L a m o tte p o r u m a f á b u la d e L a - F o n ta i n e .
B o s s u e t e s c r e v e u ta m b é m u m a f á b u l a la tin a ,
q u e p u b lic o u s o b o n o m e d e F e d r o .
O s e x e m p lo s d e p a s tic b o são n u m e r o s o s .
P o u c a s c ita ç õ e s fa re m o s .
A lg u m a s são c é le b re s e b a s t a r ã o p a r a d a r u m a
id é ia d e s te g ê n e ro d e e x e r c íc io .
L a - B r u y è r e , a d e s tr a d o e m to d o s os se g re d o s
d o e s tilo , im ito u m u i t o b e m M o n ta ig n e , n u m
tre c h o , q u e fic o u c lá s s ic o :
« N ã o gosto de u m h o m e m , a q u e m e u n ã o p o ssa ser o
p rim e iro a d irig ir-m e n e m a c u m p r i m e n t á - l o , a n te s que
êle m e c u m p r i m e n t e , s e m q u e m e a v i l t e a s e u s o l h o s e sem
q u e eu m e i l u d a s ô b r e o b o m c o n c e i t o q u e ê le faz de si
p ró p rio .»
M o n taig n e diria :
« Q u e r o e s t a r à m i n h a v o n t a d e e s e r a f á v e l e cortês,
sem rem orsos n e m o u t r a c o n s e q ü ê n c ia . N ã o po sso absolu­
t a m e n t e p r o c e d e r c o n t r a a m i n h a t e n d ê n c i a e i r a l é m do
m e u n a t u r a l , q u e m e l e v a p a r a a q u ê l e q u e e n c o n t r o no
m e u c a m i n h o . S e n d o êle m e u i g u a l e n ã o m e u i n i m i g o ,
a n t e c ip o - m e ao s e u b o m a c o l h i m e n t o , i n t c r r o g o - o s ô b r e a
s u a boa d i s p o s i ç ã o e s a ú d e , o f e r e ç o - l h e o s m e u s se rv iç o s ,
sem m e s a l i e n t a r e s e m m e d e p r i m i r .
« D e s a g ra d a -m e a q u ê le q u e , pelo c o n h e c im e n to que
t e n h o d os s e u s c o s t u m e s e m o d o s d e p r o c e d e r , m e t i r a
aquela lib erd ad e e f r a n q u e z a ; c o m o r e c o r d a r - m e , bem a
p ro p ó s ito e à m a i o r d i s t â n c i a a q u e e u v e j o ê s s e h o m e m ,
de a p a re n ta r o rosto g r a v e e a t i t u d e a l t i v a , q u e lh e signi­
fique q u e j u l g o v a l e r m a i s d o q u e ê l e ? , e, p o r isso, lem-
b r a r - m e d a s m i n h a s b o a s q u a l i d a d e s e c o n d i ç õ e s e d a s s u as
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 77

qualidades m ás, e fazer d ep o is c o m p a r a ç ã o ? É t r a b a lh o


d e m a s ia d o e n ã o m e s i n t o c a p a z d e t ã o s ú b i t o e g r a v e
raciocínio.
« E, q u e isso m e t i v e s s e s u c e d i d o u m a v ez , n ã o d e i x a r i a
de me r e b a i x a r e d e m e d e s m e n t i r n u m s e g u n d o l a n c e ; n ã o
posso fo rç ar-m e a s e r a l t i v o p a r a c o m a l g u é m . »

Ê gte p a stic h o é b o m , m a s é frio e m o s tr a o


a rtifíc io do estilo.
F a lta -lh e v i d a ; é o d e fe ito d o s p a s tic h o s .
Não se p o d e c o p ia r a a lm a d e u m a u to r .
O p astich o n ão p o d e s e r se n ã o u m e x e rc íc io
de g in á stic a lite r á r ià .
Tem a p en as v a lo r, co m o m e io d e p ro fis s ã o e
não é p ro p ria m e n te u m fim .
E sc rito re s v u lg a r e s c o n s e g u ir a m r e a l iz a r e x c e ­
len tes p a stich o s.
A p re e n d e r o m o d o d e u m a u t o r m o s tr a o p r o ­
veito q u e se t i r o u d a s u a le i tu r a .
Q u an to m ais se g o s ta d e u m a u to r , m a is v o n ­
tade h á de o im ita r .
C hega-se q u á s i a p e n s a r co m o ele.
r

E a id e n tific a ç ã o d a s e n s ib ilid a d e i n t e r i o r q u e
faz e n c o n tra r e x p re ssõ e s a n á l o g a s ; m a s a s e m e ­
lhança, em g e r a l, lim ita -s e ao c o n to r n o e x te r io r .
Os p a s tic h o s são q u á s i s e m p r e frio s , s e ja q u a l
fôr a ilu sã o q u e a fo rm a d e r ; f a lta o b r i l h o i n t e ­
rior, fa lta a in s p ira ç ã o p e s s o a l e e s c o r r e g a - s e lo g o .
F r u to n a tu r a l d a le i tu r a , o p a s tic h o é o r d in à -
ria m e n te o p r o d u to d e u m a f a c ilid a d e in c o n s c ie n te ,
in v o lu n tá ria e m u ita s v e z e s ir r e s i s tí v e l.
78 A FORM AÇÃO DO B 38TIL .O

D is s e B a y le :
— « S u c e d ia -m e n a m i n h a m o c id a d e , q u a n d o
e s c re v ia a lg u m a c o isa lo g o e m s e g u i d a à le itu ra
d e c e rto a u t o r , q u e as fra s e s d e s te a u t o r mo
v in h a m à p e n a , s e m m e r e c o r d a r d is tin ta m e n te
d e a s t e r lid o * (!).
E u m e x c e le n te r e s u l ta d o , f á c il d e r e n o v a r e
q u e fo rm a o e s p ír ito lite r á r io .
— « P a r a f a z e r a c o n tr a fa c ç á o d e m o d o sensí­
v e l, d o e s tilo d e u m p o e ta , p r e n d e m o - n o s com
c e rto s tr a ç o s c a r a c te r ís tic o s , e x a g e r a m o - lo s e p ro ­
c e d em o s co m o c a r i c a t u r is ta s , q u e c h e g a m pelo
m e io fá c il d o esb o ço , a u m a s e m e lh a n ç a a d m irá ­
v e l, m a s sem g r a ç a » (2).
O p a s tic h o é, e f e c tiv a m e n te , u m d o m que
to d o s p o d e m te r .
E s c r ito r e s v u lg a r e s , e in c a p a z e s d e e s tilo p es­
so a l, c o n s e g u e m i m i t a r a d m i r a v e l m e n t e o estilo
d e o u tr e m .
O m a is b e lo e x e m p lo q u e se c o n h e c e d e bom
p a s tic h o é a h i s t ó r i a d e L e - S u i r e , a liá s m au
e sc rito r.
A u t o r d o A v e n tu r e ir o F r a n c ê s , L e - S u i r e p u b li­
c a ra u m ro m a n c e , p r e f a c ia d o p o r u m a c a r ta de
J . J . R o u sseau .
♦A c a r ta te v e ê x ito e n o r m e ': e s t a v a tã o bem

C1) B a y l e , O b r a s, t . iv , p . 754.
(2) F r a n c i s c o W e y , O b s e r v a ç õ e s s ô b r e a l í n g u a e a
c o m p o s iç ã o lite r á r ia , 548.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 19

im ita d a , q n e R o u sseau , ao lê-la, ficou c o n fu n d id o ,


ao re c o n h e c e r o se u p ró p rio e sp írito , as su a s id é ia s
e a té o se u estilo.
C h e g o u a p r e g u n ta r a si p ró p rio se n ão te r ia
e sc rito a q u e la carta.
B a ra g n o n , u m dos m a is h á b e is pastichadores
q u e e u conheço, d izia-m e que, n u m a c e rta época
da su a vida, não p o d ia le r u m a u to r sem c e d e r à
n ecessidade de o im ita r. O e stilo de B o s s u e t a p a i­
xo n ara-o de ta l fo rm a, q u e se a p ro p rio u u m p o u c o
dele e as suas id éias to m a v a m ta m b é m a fo rm a
n a tu ra l do g ra n d e o rad o r.
E is a q u i u m a c a rta à B o ssu e t, o n d e a h a b ili­
dade de B a ra g n o n é d e v e ra s n o tá v e l:

D eus, q u e re g e m o n à r q u i c a m e n t e o U n i v e r s o ; q u e d i s ­
pôs o nosso corpo, sob a d o m i n a ç ã o d e u m c h e fe ; q u e , à
frente d a p r i m e i r a so cied a d e h u m a n a , colocou o p a i c o m o
um rei, e à fre n te d a Ig r e j a u m m o n a r c a i n f a l í v e l , q u i s
significar-nos p o r e s t a p o lític a s u p r e m a q u e a p e r fe iç ã o d o
governo resid e n a m o n a r q u i a e q u e u m a n a ç ã o p o d e j u l -
g ar-se boa, j u s t a e p r ó s p e r a , à p r o p o r ç ã o q u e se r e g u l e p o r
êsse ideal.
Contudo, vemos por tôda a p a rte a m o n a r q u ia d e sp re ­
zada. A té m esm o o v ig á rio do R ei u n i v e r s a l a d e s a c o n s e l h a
aos nossos F r a n c e s e s ; e os p r í n c i p e s , a b a n d o n a n d o - s e ao
e s p írito d e i g n o r â n c i a e d e p r a z e r , c o n s e r v a m d e l a u m a
noção m u i t o m e n o s p u r a q u e a dos s ú b d i t o s .
S e r á v e r d a d e , S e n h o r , q u e , d i r i g i n d o a s u a c o n s c iê n c i a
e o seu p r o c e d i m e n to p a r a essa g r a n d e id éia, d e s p r e z o u
todos os p r in c íp io s e t a m b é m as r e a l i d a d e s ?
O S e n h o r d eu m u i t o à m o n a r q u i a ; e, a i n d a q u e essa
fidelidade lh e t e n h a i m p o r t a d o a s v a n t a g e n s , os e m p r e g o s
80 A FORM AÇÃO DO H S T IL O

a s h o n r a s , a q u e o d e s t i n a v a o s e u n a s c i m e n t o , a s u a indole
m o r a l e o s e u m é r i t o d i s t i n t o , t u d o i s s o é d e p r e c i á v e l , aos
s e u s o l h o s ; p o is , p o r m e l h o r c i d a d ã o q u e o S e n h o r seja,
n u n c a se s u p ô s n e c e s s á r i o a o E s t a d o . M a s , s e n d o a m aior
d a s d e s g r a ç a s o p e n s a r m a l , o S e n h o r n ã o p o d e p e d i r a si
p r ó p r i o c o n t a s e s c r u p u l o s a s d o s e u p e n s a m e n t o , v i s t o que,
ta n to o P a p a com o o R ei, p a re c e m ju lg á -lo q u im èricam en te.

( C a r t a s a u m r e a l i s t a , i).

H á n e s ta s lin h a s o to m e os a m b a g e s p e c u lia ­
r e s a B o s s u e t e q u e n ã o p a r e c e m t e r s id o p ro c u ­
ra d o s .
E o p a s tic h o a d e q u a d o .
O a u to r d e s te p a s tic h o b o s s u e t i s t a , e m b o ra ele
p r ó p r io e s c r ito r m u i to p u r o , p u b l i c o u e m a R evista
B r a n c a , so b o t í t u l o d e « M e m ó r ia s I n é d ita s e
I m p r e v is ta s » d e S a i n t S im o n , u m a s é r ie d e a r ti­
g o s , em q u e os p ro c e s s o s d e S a in t- S im o n são
a d m ir à v e lm e n te a c e n tu a d o s .
C ite m o s u m e x t r a c t o :

O p r í n c i p e d e V . . . , se é p r e c i s o a d m i t i r - s e aquele
e s t r a n h o p r i n c i p a d o , d e s a p a r e c e u , p o r e s s a é p o c a , d a cena
d o m u n d o , o n d e , d u r a n t e t a n t o t e m p o e p o r n a d a , se e m b r e ­
n h a r a , a fim d e f a z e r f i g u r a d e f i d a l g o . M o r r e u d e s p re z a d o
p o r to d o s os q u e o c o n h e c i a m e, se é n e c e s s á r i o d izê-lo em
d e t r i m e n t o d a n a t u r e z a h u m a n a , m a i s t e m i d o a i n d a que
d e s p r e z a d o . E r a u m a a l m a d e l a m a , q u e f e r m e n t a v a sem ­
p r e , e à s u p e r f í c i e d a q u a l a r r e b e n t a v a m c o n t i n u a m e n t e , em
b o l h a s e n v e n e n a d a s , a s a t r o z e s s u s p e i t a s , a s c a l ú n i a s infa­
m e s , a s d e la ç õ e s , q u e f e r e m e q u e m a t a m . T i n h a o hábito
d e se i n t r o d u z i r n a i n t i m i d a d e d a s f a m í l i a s , d e a d e s v e n d a r ,
s o b c o lo r d e d e d i c a ç ã o e d e s e r v i ç o s , o s m a i s í n t i m o s e
A FORM AÇAO DO B S T IL O 81

d e l i c a d o s . D e p o i s , e r a p o r b e lo s e s c u d o s q u e l h e c o m ­
p r a v a m o s i l ê n c i o , e, q u e m o n ã o fizesse, c o n h e c e r i a o
pêso d a s m a i s o d i o s a s p r o p o s t a s , a s u a m u l h e r u l t r a ­
j a d a , s u a m ã e , i r m ã o u f i l h a , a r r a s t a d a s p e l o ló d o , e
tu d o isto u r d id o com a m a io r s e g u r a n ç a e o m a is in fern al
espírito. Foi um m ilag re q u e, d u r a n t e q u a r e n t a anos, g a s ­
to s a s s i m , s e m q u e n e n h u m a c o n s i d e r a ç ã o d e i d a d e , d e
sex o o u d e v i r t u d e , p u d e s s e m a ç a i m a r - l h e a m a l í c i a ,
n e n h u m p a i , n e n h u m m a r i d o h o u v e q u e , c o r t a n d o - l h e as
g o e l a s , l h e fe ch asse p a r a s e m p r e a s f a u c e s d o m a l d i t o cão
d a n a d o . C e rtam en te a todos se i m p u n h a m os se u s g r a n d e s
a r e s , pois p a s s a v a p o r v a l e n t ã o , , e d e a l g u n s r a r o s d u e l o s ,
e m que o ad v ersário fôra to cad o , s o u b e ra f o r m a r u m a
reputação de e s p a d a c h im . É a q u i q u e c o n v é m a d m i r a r
sôbre q u e a p a r ê n c i a s se f u n d a m p o r v e z e s t a i s f a m a s ;
no seu í n t i m o , êle e r a m a i s q u e c o b a r d e , e t ã o c o b a r d e
co m o n o c i v o ; m a s t e v e s e m p r e a h a b i l i d a d e d e p r o p o r
a p a r t i d a a q u e m ê le s a b i a q u e l h a n ã o d e v i a a c e i t a r
e d e c o n d e s c e n d e r , p o r s u a c o n t a , c o m os c a r t é i s u n i ­
cam ente d aq u e le s, d e q u e m c o n h e c ia a d e s ig u a ld a d e , n a s
alm a s .
P o r fim , e s t a v a t ã o n o t o r i a m e n t e d i f a m a d o , e t ã o c o n h e ­
cida era a s u a in d ig n id a d e , q u e n e n h u m h o m e m d e bem
lh e a c e i t a v a u m c a r t e l .

N ão se p o d e r ia a s s im i la r m e lh o r o m o d o d e
d iz e r d e u m a u t o r .
M u ito s p r o s a d o r e s e x e c u ta r a m c o m p e rfe iç ã o o
p a s tic h o .
U m d o s m e lh o re s é o c a p ítu lo , e m e s tilo I m p é ­
rio , e s c r ito p o r E d m u n d o A b o u t, n o H o m e m de
O relha R a c h a d a , p á g . 1 3 0 .
E c o n h e c id a a tr a d u ç ã o , e m f r a n c ê s a n ti g o , d e
D a p h n is et Gloé, p o r P a u l o L u í s C o u r r ie r .
6
82 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

M .me R ic c o b o n i c o n c lu iu , n o s e u e stilo , a
M arian a d e M a r iv a u x .
T o d o s c o n h e c e m a s c é le b re s p o e s ia s , a tr ib u íd a s
a C lo tild e d e S u r v i l l e .
B o ile a u d e ix o u - n o s d u a s o b r a s - p r i m a s do g ê ­
n e ro , a s s u a s d u a s c a r t a s a V iv o n r e , im ita d a s de
V o i t u r e e d e G rués d e B a lz a c .
T a in e e s c r e v e u u m a d ú z ia d e s o n e to s , ao g o sto
d e H e r é d ia .
O r o m a n c is ta H . d e B a lz a c t e n t o u ig u a lm e n te
a s s im ila r o v e lh o e s tilo f r a n c ê s n o s se u s Contes
D rô la tiq u e s.
A lb e r t o S o re l, h is to r i a d o r g r a v e , te m u m m a­
r a v ilh o s o ta le n to d e p a stich a d o r.
F e z im ita ç õ e s d e V í t o r H u g o , q u e se ria m
d ig n a s d e s e r p u b lic a d a s .
A s s in a le m o s f in a lm e n te a p ro s a f a n ta s is ta de
F r a n ç o is d e N io n , q u e , p r in c ip a lm e n te n o s seu s
Ú ltim o s T r ia n o n s , c o n s e g u iu r e a l iz a r e x c e le n te ­
m e n te o e s tilo d o sé c u lo x v i i i .
O M a r q u ê s d e R o u r e d iz q u e o p a s tic h o é
fá c il, p o r q u e é, e f e c tiv a m e n te , m u i to fá c il apa­
n h a r os d e fe ito s d e u m a u to r , e d á -n o s n o seu
tr a b a lh o u m a s é rie d e c u rio s o s p a s tic h o s d e
R a b e la is , S e v ig n é , P a s c a l, L a - B r u y è r e , R o u s ­
s e a u (*). |1

( 1 ) R e f l e x õ e s sô b re o e s tilo o r i g i n a l , p e l o M a r q u ê s de
R o u r e , 1828, p . 23. |
A FORM AÇÃO DO E J8T IL O 83

M as R o u r e fez m a l e m p r e t e n d e r q u e , o q u e
se c h a m a o r ig in a lid a d e , c o n s is ta p r e c i s a m e n t e n o s
d e fe ito s d e u m a u to r , e q u e u m e s c r i to r é o r i g i n a l
a p e n a s p e lo s s e u s e x c e sso s.
S ab e-se q u e C a rlo s N o d ie r p a s s o u a s u a m o c i­
d a d e a p a s tic h a r. A e sse e x e rc íc io é q u e e le d e v e u
u m a p a r te dos se u s m im o s li te r á r io s .
E is a q u i u m a d a s s u a s f r a s e s , m u i t o b e m p a s -
tic h a d a de B e rn a rd im d e S a i n t - P i e r r e :

Na grade cerrad a, q u e g u a r n e c e a s u a ja n e la r ú s tic a ,


a c a p u ch in h a do P e r u d e p e n d u r a , p o r to d o s os la d o s , os
seus tim b a le s , d e u m v e r d e - m a t e e a s s u a s c o r n u c ó p i a s
a rro x a d a s , e n q u a n t o u m a v e l h a h e r a , d e c o r a ç ã o n a t u r a l d a
casa do pobre, g u a r n e c e t ô d a a p a r e d e e x t e r i o r c o m o s e u
fresco co lo rid o , d o n d e p e n d e m r a m i n h o s d e b a g a s , n e g r a s
como az ev ich e.

E m su m a , o p a s tic h o n ã o p o d e s e r s e n ã o u m
ex ercício lite r á r io m o m e n tâ n e o .
E bom g e r a lm e n te p o r s e r c u r to .
D isse N o d ie r:
— « N ão m e c o n v e n c e ria d a p e rfe iç ã o d e u m a
im itação de e stilo , d e u m a c e r ta e x te n s ã o , p o r q u e
o sistem a d a co m p o siç ã o m e d e s e n g a n a r ia , m e s m o
q u an d o a c o m p o siç ã o d a fra s e m e ilu d is s e . A s s i m ,
co m p re en d erei b e m q u e G u ilh e r m e d o s A u t e l s o u
a lg u m dos se u s c o n te m p o râ n e o s , c o m t a n t o e s p í­
rito com o ele c o n s e g u is s e i n t e r c a l a r e m P a b e la i s
um c a p itu lo z in h o q u e lig a s s e c o m o r e s to , s e m
84 A FORM AÇÃO DO B J S T I L .O

in s p i r a r s u s p e i t a s ; m a s s e r i a d i f í c i l p e r s u a d ir - m e
d e q u e e le tiv e s s e f e ito o ú l t i m o l i v r o > (x).
S o b o m o d e s to t í t u l o d e E sco rço s P o é tic o s, Gas-
tã o H o m p s y p u b l i c o u u m a c o le c ç ã o d e p o esias,
a c o m p a n h a d a s d e c u r io s o s c o m e n tá r io s .
G ad a u m a d a q u e la s p e ç a s é im it a ç ã o d e u m
a u to r .
H á n o ta s p e ss o a is, q u e n o s m o s t r a m a v a n ta ­
g e m d a q u e le m é to d o .
D iz H o m p s y :
— « P a r a s e r u m p o u c o d a o p in iã o d e to d a a
g e n te , n ã o r e c o m e n d a r e i o p a s t i c h o c o m o u m dos
m e lh o re s m e io s d e c h e g a r a o e s t u d o p o é tic o ; con­
tu d o , c o n s id e rá -lo - e i t o d a v i a c o m o e s tu d o ú til,
q u e le v a a p r o f u n d a r o s s e g r e d o s d o s m e s tre s e
q u e , p o r isso m e s m o , c o n v id a a a d q u i r i r re c u rs o s
p e sso a is.
« E s p a lh e i a l g u n s p a s t ic h o s n e s t a o b r a , acau-
te la n d o -m e , c o n tu d o , d e n ã o a b u s a r , p o s to q u e o
p r o v e ito q u e t i r e i d e le s s e ja d o s m a i s in e g á v e is.
« C a rlo s A s s e lin e a u , n u m a r t i g o a r e s p e ito de
B a u d e la ir e , e s c r e v e :
— « T o d o s f iz e r a m o s e u p e q u e n o L a g o , o sen
p e q u e n o F e ito de a r m a s do r e i J o ã o , a s u a p e q u e n a
C om édia da M o r te , a s u a p e q u e n a B a la d a à L u a » .
A r
« E s te m e n o s p r e z o e x p li c a - s e . E u m conselho

___________ *_______

(*) C a r l o s N o d i e r ( E . d e N . . . ) , Q u e s t õ e s d e L ite r a tu r a
L e g a l , p . 57. •
A FORM AÇÃO D O EJBTIL.O 85

d e q u e d e v e m o s d esco n fiar, e n o re v e rs o d o q u a l
e s ta ria a q u e d a , se n o s a d s tr in g ís s e m o s a esse
g ê n e ro de ex ercício .
« M al se c o m p re e n d e u m a e x c lu s ã o a b s o lu ta .
« A cópia, a im ita ç ã o , o p a s tic h o , são u m a
r e g r a de ed u cação, p o r o n d e to d o s p a s s a m , d e s d e
o e s tu d a n te dos lic e u s ao d a s esco las s u p e r io r e s .
«N ão h á m o tiv o s p a r a o e x c l u i r d o a p r e n d i­
zado poético, com a c o n d ição d e h a v e r a p r u d ê n ­
cia de o c o n v e rte r em h á b ito » (*).1

(1) G . H o m p s y , E s c o r ç o s P o é tic o s , p . 42.


C A P ÍT U L O IV

Da amplificação

A amplificação, processo geral do estilo. — A amplifica­


ção. —Exemplos práticos. —Os processos do estilo
de Cícero. —A amplificação e os sermões. — O pro­
cesso do estilo de Demóstenes. —Voltaire. — A ampli­
ficação em La-Brnyère.

A am plificação c o n s is te e m d e s e n v o lv e r as
idéias pelo e stilo , d e m a n e ir a q u e se lh e s d ê m a io r
adorno, m a is e x te n s ã o e m a is fo rç a .
L o n g in d e fin iu -a a s s i m :
— <U m acréscim o de p a la v ra s . »
P o d e e x e rc e r-se a a m p lific a ç ã o e m u m a f r a s e
de u m a u to r o u n a s n o ssas p r ó p r ia s fra s e s .
E e x c elen te p ro cesso p a r a se f o r m a r o e s tilo .
R eco m en d a-se n o e n s in o clá ssic o .
U m a p a la v ra p o d e r e s u m ir o s o n h o d e A t a l i a .
R acin e fêz d e la u m a n a r r a t iv a .
A v e rd a d e ira a m p lific a ç ã o ó a a r t e d e d e s e n v o l­
v er u m a ssu n to , in s u f ic ie n te m e n te a p r e s e n ta d o .
D e u m a id é ia fa z e re m -s e d u a s .
E n c o n tra re m -s e as a n títe s e s d e u m p e n s a m e n to .
88 A FO R M A Ç A O D O K 8T IL O

D e s d o b ra re m -s e os p o n to s de v is ta .
A ju n ta r e m - s e tre c h o s co m o v en tes.
S a lie n ta r-s e o q u e se d isse.
A c r e s c e n ta r o p o rm e n o r, e v ita n d o a p ro lix i-
d ad e.
F e c u n d a r a e s te rilid a d e .
A p lic a r , fin a lm e n te , e v a r ia r to d o s os recursos
d a a r te d e e s c re v e r; ta l é o a lv o q u e se d ev e te r
e m v is ta p a ra a am p lificação .
O u tro ra a b u sa v a -se d e ste p ro cesso , u tiliza n d o -o
n a á r id a com posição de v erso s la tin o s.
E s te m é to d o d a v a m a u s re s u lta d o s , p o rq u e os
estu d io so s, p o ss u in d o a p e n a s, su p e rfic ia lm e n te , o
g ê n io la tin o , n ão tin h a m in s p ira ç ã o p a ra desen­
v o lv e r a id éia.
F a z ia m v erso s à c u n h a , com m e d id a , o u p re­
c o n iz a v a m o e stilo dos o rad o res ro m an o s, ap an h ad o
d e cor.
N a lín g u a fran cesa, a am p lificação d a v a m elho­
re s r e s u lta d o s ; e ra a b ase d a a r te d e e sc re v e r.
D ig a o q u e d is s e r d ela A n to n in o R o n d e le t (J),
n u m a o b ra d e co n sid eraçõ es g e ra is, em que
d e b a ld e se p r o c u r a r ia u m ex e m p lo , a am plificação
não p ro ced e sem in v e n ç ã o .
A in v en ção é o d e sc o b rim e n to .
A am plificação é a re a liz a ç ã o p r á tic a ; resu m e
essen cialm en te o d o m d e e sc re v e r.

(!) A. R o n d e l e t , A A r t e de E s c r e v e r , p. 1 7 1.
A FORM AÇAO DO E S T IL O 89

A a m p lific a ç ã o n ã o é b e m o re v e rs o d a s o b r ie ­
dade.
D e s e n v o lv e r u m a s s u n to q u e n ã o p re c is a s e r
d esen v o lv id o , d i l u i r p e r íf r a s e s e id é ia s s im p le s ,
s o b re c a rre g a r in u t i l m e n t e o e s tilo , ó c a ir, e fe c tiv a -
m e n te , n a p r o lix id a d e e n a d ifu s ã o .
U m q u a d ro , u m a p a is a g e m , u m r e t r a t o , u m a
alocução têm a p e n a s v a lo r p e la c o n d e n sa ç ã o .
U m a descrição, p o ré m , d e d u a s p á g in a s p o d e
se r tão bela com o u m r e s u m o d e v i n t e lin h a s .
E m o u tro s te rm o s , h á a b o a e a m á a m p lif i­
cação.
Os a ssu n to s p o u c o v a le m .
A m a n e ira de t r a t a r d eles é q u e é o tu d o .
N ão c e n s u re m o s p o r ta n to o s p ro fe s s o re s q u e
dão aos se u s d is c íp u lo s a s s u n to s d e a m p lific a ç ã o
a n tiq u ad o s, ta is c o m o : p ô r d o sol, te m p e s ta d e ,
m an h ã de p r im a v e r a , ta r d e d e o u to n o , o c a ir d a
neve, etc.
O q u e é c e n s u r á v e l é a c o n s e lh a r o b o rd ã o d e
expressões tr iv i a is p a r a d e s e n v o lv e r a q u e le s a s s u n ­
tos e a p r o v a r q u e se e m p r e g u e m p o rm e n o re s , q u e
se rv ira m já , p o r e x e m p lo , p a r a u m a d e s c riç ã o d e
te m p e stad e , p ô r d o sol, m a n h ã d e p r i m a v e r a , e tc .
A

E ste p ro cesso d e s a c r e d ito u a a m p lific a ç ã o .


0 v ício h a b i t u a l c o n s is te e m d is s o lv e r p e n s a ­
m entos s im p le s p e lo s p ro c e s s o s d e s o b e rn a l, r e p e ­
tin d o os v e rb o s s in ô n im o s e a ju n t a n d o e p íte to s
aos s u b s ta n tiv o s .
9

E e s te o m eio in f a lív e l d e e n f r a q u e c e r o e s tilo .


90 A FORM ÀÇAO DO H 8T1LO

N as su a s C artas de D u p u is e Cotonnet, A lfredo


d e M u sse t z o m b o u e s p iritu o s a m e n te do gên ero de
am plificação, d e q u e a escola ro m â n tic a tan to
a b u so u .
Os se u s dois h e ró is escolhem u m te x to clássico
e eis com o eles o d e se n v o lv e m :

T exto, tirado da primeira das Cartas


de uma Religiosa Portuguesa

« C o n sid era, m e u am or, a té que p o n to fôste


im p re v id e n te ! A h ! desgraçado! fô ste tra íd o e traís-
te -m e com esp eran ças en g a n a d o ra s! U m a paixão,
so b re a q u a l t u tin h a s feito ta n to s projectos, não
te cau sa p re se n te m e n te senão u m m o rta l desespero,
q u e só se pode co m p arar à cru eld ad e da ausência,
q u e o cau sa! P o is q u ê ! esta a u sê n c ia . . .»

Estilo romântico

« C o n s i d e r a , m e u a m o r ad o rad o , m e u anjo, meu bem,


m e u coração, m i n h a v i d a ; t u , q u e eu id o la tro com tôdas
a s forças d a a l m a ; t u , a m i n h a a le g r ia e o m eu desespero;
t u , o m e u riso e as m i n h a s l á g r i m a s ; t u , a m i n h a v id a e a
m i n h a m o r t e ! — a té q u e p o n to terrív e l u l t r a j a s t e e despre-
z a s te os n o b re s s e n tim e n to s , de q u e o teu coração estava
ch eio e esqueceste a s a l v a g u a r d a d o h o m em , a ú n ic a fôrça
d a fra q u eza , a ú n ic a a r m a d u r a , a ú n ic a c o u raça, a única
v is e ira c a íd a n o c o m b ate d a v ida, a ú n ic a asa de anjo, que
p a l p i t a sôbre nós, a ú n i c a v i r t u d e q u e c a m i n h a sôbre as
o n d a s , como o d iv in o R e d e n to r, a previsão, i r m ã da adver­
sid ad e.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 91

« F ô s t c t r a í d o c t r a í s t c ; fôste e n g a n a d o e e n g a n a s t e ,
receb este o g o l p e e r e s t i t u í s t e - o ; p e n s a s t e a c h a g a e fe ris te ;
a v e r d e e s p e r a n ç a f u g i u p a r a l o n g e d e nós. U m a p aix ão
tão r e p l e t a d e p r o j e c t o s , t ã o c h e i a d e s e i v a e d e p o d e r , tão
cheia d e re c e io s e d e d o c e s l á g r i m a s , t ã o rica , t ã o b ela,
tão n o v a a i n d a e q u e b a s t a v a p a r a u m a v i d a i n t e i r a d e
angústias e delírios, de a le g ria s e de te rro res e de su p re m o
o lv id o ; — e s t a p a i x ã o , c o n s a g r a d a p ela f e l i c i d a d e , j u r a d a
p e r a n te D e u s , c o m o u m j u r a m e n t o d e c i ú m e ; e s t a p a ix ã o ,
q u e nos p r e n d e u u m a o o u t r o c o m o u m a c o r r e n t e d e fe rro ,
fechada p a r a s e m p r e , c o m o a s e r p e n t e u n e a s u a p r è s a ao
tr o n c o flexível d o b a m b u ; — e s t a p a i x ã o q u e foi a n o s s a
p ró p ria a lm a , o s a n g u e d a s r o s s a s v e i a s e o p u l s a r d o
nosso c o ração ; e s t a p a i x ã o e s q u e c e s t e - a , a n i q u i l a s t e - a , p e r -
deste-a p a r a s e m p r e ! O q u e e r a a t u a a l e g r i a e o t e u p r a ­
zer não é a g o r a p a r a ti s e n ã o u m m o r t a l d e s e s p ê r o , q u e só
sc pode c o m p a r a r à a u s ê n c i a , q u e o c a u s a ; — p o i s q u ê ! e s t a
a u s ê n c ia ... etc., e tc .»

E is a q u i o s e g u n d o e x e m p lo ( R e tr a to d e d u a s
c ria n ç a s ):

T exto de B ernardim de S a in t-P íerre


em <P au lo e V irgín ia»

« N e n h u m p e s a r lh e s fiz e ra a in d a e n r u g a r a
fronte, n e n h u m a in te m p e r a n ç a c o r r o m p e r a o s e u
sangue, n e n h u m a p a ix ã o d e s g r a ç a d a lh e s d e p r a ­
vara o c o ra ç ã o ; o a m o r, a in o c ê n c ia e a p ie d a d e
d e se n v o lv ia m , d e d ia p a r a d ia , in e f á v e is e n c a n to s
nas su as a lm a s, n o s s e u s ro s to s , n o s s e u s a s p e c to s
e m o v im e n to s .»
02 A FORM AÇAO DO E JS T IL O

E s t i lo ro m & n tlc o

« N e n h u m p e s a r p re c o c e l h e s e n r u g a r a a f r o n t e i n g ê ­
n u a ; n e n h u m a in te m p e ra n ç a lh es c o rro m p e ra o sangue
n o v o , n e n h u m a p a i x ã o d e s g r a ç a d a l h e s d e p r a v a r a o cora­
ç ã o i n f a n t i l , f r e s c a flor m a l e n t r e a b e r t a . O a m o r c â n d id o , a
in o cên c ia d e olhos azuis, a su a v e p ie d a d e transform avam
c a d a d i a a b e l e z a s e r e n a d a s u a a l m a r a d i o s a em graças
inefáveis, nos s e u s d elicad o s aspectos e nos seus harmo­
n i o s o s m o v i m e n t o s » (*).
A • 1
E ste s d o is e x e m p lo s m o s tr a m q u e tu d o o que
se j u n t o u ao te x t o clá ssic o é i n ú t i l , in sig n ific a n te
e o rd in á rio .
Q u in tilia n o t i n h a ra z ã o em c o m p a r a r u m a frase
m u ito c a rre g a d a d e a d je c tiv o s a u m e x é rc ito , onde
c a d a so ld a d o tiv e s s e a tr á s d e s i o s e u c ria d o de
q u a r to .
C íc e ro fic o u s e n d o o r e i d a a m p lific a ç ã o , q u e o
to r n o u o m a io r p r ín c ip e d a a r t e o ra tó ria .
D iz e l e :
— « O m é r ito d a e lo q ü ê n c ia é a m p lific a r as
coisas, a d o r n a n d o - a s ; e e s s a a r t e d e a u m e n ta r um
o b je c to e d e o e le v a r a c im a d e le p r ó p r io serve
ta m b é m p a ra o d i m i n u i r e p a r a o r e b a i x a r . »
A a m p lific a ç ã o e r a p a r a C íc e ro a a r te de
a u m e n t a r o u a d o r n a r u m a s s u n to , u m p e n sa m e n to ,
u m a r g u m e n to , u m q u a d r o . M a s s a b e -s e q u e um 1

(1) A . d e M u s s e t , C a r ta s de D u p u i s e C o to n n e t, I .• c a rta.
a f o r m a ç Ao d o e s t i l o 03

ou dois tra ç o s e x p lic a tiv o s n ã o c o n s titu e m o q u e


se ch am a v e r d a d e ir a a m p lific a ç ã o .
A la rm o n tel t i n h a p o is ra z ã o em d iz e r q u e , e m
H om ero, a m p lific a r a id ó ia d a f o r ç a d o s s e u s
heróis, n ão ó e x a g e r a r o p e s o d a s s u a s a r m a s ;
não é a m p lific a r a id ó ia d a b e le z a d e H e le n a ,
fazer m u d a r, à s u a v is ta , a in d ig n a ç ã o d o s v e lh o s
troianos, n u m a te r n a a d m ira ç ã o .
«E sta m a n e ir a d e e n g r a n d e c e r é u m a h ip ó r b o le
p assag eira; a a m p lific a ç ã o p e d e u m d e s e n v o lv i­
m ento o rn a m e n ta d o » (}).
Sejam os f r a n c o s : a a m p lific a ç ã o , q u e C íc e ro
aconselha e q u e é a p r o v a d o s e u ta le n to , é s i m ­
plesm ente o s o b e rn a l, o a m á lg a m a , o a b u s o d o s
term os c a m b ia n te s e s in ô n im o s , a a r t e d e a j u n t a r
e de v a ria r os s u b s ta n tiv o s , v e r b o s , e p íte to s , e tc .
Processo d e a c u m u la ç ã o e g ra d a ç ã o , m é to d o d e
D upuis e C o to n n e t, e m p r e g a d o c o m g ó n io .
O içam os o o r a d o r r o m a n o :

P odem os a c a s o o l h a r a b o a fé c o m o o q u e h á d e m a i s
sagrado n a v i d a , e n ã o s e r m o s i n i m i g o s d e u m h o m e m ,
que, c h a m a d o q u e s t o r , se a t r e v e u a d e s p o ja r , a a b a n d o n a r , a
tra ir e a a ta c a r o s e u c ô n s u l , u m c ô n s u l q u e l h e c o m u n i c a r a
os seus s e g re d o s , e n t r e g a r a o s e u c o f re e c o n f i a r a t o d o s os
seus i n t e r e s s e s ? P o d e r e m o s a c a s o e s t i m a r o p u d o r e a
castidade, e v e r t r a n q ü i l a m e n t e o s c o n t í n u o s a d u l t é r i o s d e
Verres, a s u a im o r a lid a d e , a s s u a s p r o s t i tu i ç õ e s , a s s u a s i n f â ­
mias d o m é s t i c a s ? N ã o p o d e i s s o f r e r o m é r i t o d o s h o m e n s

(!) M a r m o n t e l , L iç õ e s d e L i t e r a t u r a , t . i, p . 128.
94 ▲ F O R M A Ç A O D O XDST1DO

n o v o s : d e sp re za is a s u a r e g u l a r i d a d e , a s u a p ru d ê n c ia e
q u e r e r i c i s a p a g a r os s e u s t a le n to s , s u fo c a r a s u a v i r t u d e (1).
A m a i s V c rre s , sim , creio-o ; n a f a lt a d e v ir tu d e , de m érito,
d e in o cên cia , de p u d o r, de ca stid a d e, e n c o n t r a r e i s encantos
n a s u a co n versa çã o , n a s u a d e lic a d e za , n os se u s conheci-
tos, e t c , . . . (**).

C ícero p o ssu i a ta l p o n to o g ó n io d a p alav ra,


u m e s p írito tão s u b til, ta is im p re v isto s no cam-
b ia n te , q u e a tin g e p o r esse m eio o ra tó rio g ran d es
efeito s de elo q ü ên cia.
M as vê-se o p e rig o q u e ta l im ita ç ã o pode ofe­
re c e r a u m ta le n to v u lg a r.
C ícero ó u m virtuoso q u e e x e c u ta variações.
O rn a m e n ta , re p e te , d iv e rsific a e, com o d iz
A u g e r , « esg o ta a s u a lín g u a » .
A cada p á g in a dos seu s d iscu rso s, lêem -se pas­
sag en s, m ais o u m en o s lo n g a s, n e ste g ó n e ro :
« D ize -n o s, T u b e r ã o : q u e fazia a t u a e s p a d a n os cam ­
p o s d e F a r s á l i a ? q u e m p r o c u r a v a e la f e r i r ? C o n t r a quem
se v o lta v a a t u a a r m a ? D o n d e te v i n h a essa c o r a g e m , êsse
fogo q u e b r i l h a v a n o teu o l h a r , êsse a r d o r q u e te infla­
m a v a ? Q u a i s e r a m os t e u s p ro je c to s e o s t e u s d ese jo s? »

O u e n tão isto , c o n tr a Y e r r e s :

Q u e h o m e m i m a g i n a i s vós q u e c i t a m o s p a r a êste tri-

( 1) « O d i s t i s , d e s p i c i t i s , c o n t e m n i t i s . .
(*) « S i n o n v i r t u t e , n o n i n d u s t r i a , n o n in n o c e n tia ,
non pudore, non p u d i c i t i a ; a t se rm o n e , a t litte r is a t hum a-
n i t a t e eju s d e l e c t a m i n i . »
a formação do k s t i l o 95-

bunal ? u m la d r ã o ? u m a d ú lte ro ? u m sacrílego? u m assas­


s in o ? N ã o , m e u s s e n h o r e s , m a s u m e x p o l i a d o r d e s e n f r e a d o ,
um m o n stro q u e a ta c a a b e r ta m e n te o p u d o r, um m iserável
que b rin c a com tu d o o q u e h á m ais inviolável e s a g ra d o ,
o carrasco m ais cruel dos seu s p ró p rio s co n cid ad ão s e d o s
aliad o s d o p o v o R o m a n o !

E a s u a c é le b re a p ó s tro fe c o n tr a C a tilin a :

A té q u a n d o a b u s a r á s t u d a n o s s a p a c i ê n c i a , C a t i l i n a >
Q uanto tem po a in d a serem os o jo g u ete d o teu f u r o r ? A té
onde c h e g a r á a t u a a u d á c i a d e s e n f r e a d a ? e tc .
P o is p r o s s e g u e n a t u a r e s o l u ç ã o , C a t i l i n a I s a i e n f i m
de R o m a ! as p o r t a s e s t ã o a b e r t a s , p a r t e ! H á m u i t o q u e o
exército de M â n l i o te e s p e r a p a r a g e n e r a l . C e v a c o n t i g o
todos os c e le ra d o s , q u e se t e a s s e m e l h a m ; l i m p a e s ta c i d a d e
do co n tág io q u e e s p a l h a s , liv r a - a d o s s u s t o s q u e a t u a p r e ­
sença lhe c a u s a , l e v a n t a m - s e m u r a l h a s e n t r e ti e n ó s ! N ã o
podes ficar a q u i p o r m a i s t e m p o : n ã o o s o fr e r e i, n ã o o s u p o r ­
tarei, não o c o n s e n tir e i 1 . . .

Como se v ê , é s e m p r e a d ilu iç ã o h á b i l d a
mesmo p e n sa m e n to .
D iz L a - H a r p e :
— «Cícero a b u s a d a fa c ilid a d e q u e te m e m s e r
fla e n te e a c o n te c e -lh e o t e r d e r e p e t i r . . . T r a s b o r d a ,
p o rq u e e stá m u ito c h e io . E s e m p r e tã o n a t u r a l e
tão e leg an te, q u e se n ã o s a b e o q u e se h á - d e c o r ­
ta r; sen te-se a p e n a s q u e h á a li d e m a is.»
B o n ald , b o m j u i z n e s te s a s s u n to s , te v e a c o r a ­
gem de s e r m ais s e v e ro .
E e sc re v e :
— «Se m e p e r m it ir e m d iz ê -lo , h á v a id a d e n a
96 A FORM AÇÃO DO E S T I L O

e s tilo d e C ícero, n o s se u s p e río d o s, h a rm o n io so s e


so n o ro s, n a s su a s q u e d a s p re c ip ita d a s . E s ta m ajes­
to sa flu ê n c ia 6 r a r a m e n te a e x p re ssã o de u m a
a lm a fo rte , m a is la c ô n ic a e m se u s d isc u rso s e
m en o s p re o c u p a d a d a s p a la v r a s q u e d as idéias.
P o r isso , m esm o n o s e u te m p o , d e se ja r-se -ia na
e lo q ü ê n c ia d e C ícero m a is n e rv o s e v ig o r, e
a lg u n s d e tr a c to re s o c h a m a ra m fr a c tu m et elumbem
o ra forem* (l).
P a r a se p e r m it ir e s ta s u p e r a b u n d â n c ia de p a la ­
v r a s , e sta s re p e tiç õ e s d e id é ia s s im ila re s , que
c o n s titu e m a am p lificação c ic e ró n ic a , é n ecessário
q u e o re lê v o o u o c o lo rid o d a s e x p re ss õ e s re fo r­
c e m o e fe ito g e ra l.
S e os p e n sa m e n to s são d e ig u a l q u a lid a d e , se
n ã o e x is te crescendo d e in te n s id a d e , é p u r o tr a b a ­
lh o de re tó ric a , com o n e s ta p a s s a g e m de M assillon,
q u e , a liá s fo ra d ê ste p ro cesso , c o n té m b e le z a s reais.
S u b lin h a m o s a am p lific a ç ã o o rd in á ria . T ra ta -se
d o c o n q u is ta d o r :

A s u a g l ó r i a fic a rá s e m p r e m a n c h a d a d e s a n g u e ; ta l­
vez q u e q u a l q u e r i n s e n s a t o c a n t e a s s u a s v i t ó r i a s ; m a s as
p r o v í n c i a s , as c i d a d e s , os c a m p o s c h o r a r ã o ; s e r - l h e s - ã o eri­
g i d o s m o n u m e n t o s s o b e r b o s p a r a i m o r t a l i z a r as s u a s con­
q u i s t a s ; m a s a s c in z a s de ta n ta s c id a d e s, o u tr o r a florescentes,
m a s a d eso la çã o d e ta n to s c a m p o s d e s p o ja d o s d a s u a a n tig a
b e le za , m a s as r u in a s d e t a n ta s c a sa s, so b a s q u a is foram
s e p u l t a d o s c i d a d ã o s p ac ífic o s, m a s ta n ta s c a la m id a d e s, que

( 3) B o n a l d , M is c e lâ n e a , t. n .
▲ FORM AÇÃO DO B 3 8 T IL O 97

s u b s i s t i r ã o d e p o i s d êle, s e r ã o m o n u m e n t o s l ú g u b r c s , q u e
im ortalizarão a su a v aid ad e e a su a loucura.

O e x e m p lo de C íc e ro e s tr a g o u m u ito s ta le n to s
o ra tó rio s.
P a ra se q u e r e r i m i t a r tão fá c il p ro c e sso , a fo g a -
m o-nos n a in c o n tin ê n c ia d e p a la v ra s , n a i n s i g n i ­
ficância d os p e n s a m e n to s , n a fa ls a g r a n d e z a do
p a la v ria d o so le n e , n o e le g a n te clichê, q u e to r n a m
ile g ív e is as tr ê s q u a r ta s p a r te s d o s s e rm õ e s e d is ­
cu rso s do nosso te m p o (*).
Os m e lh o re s o ra d o re s a c o s tu m a m -s e a e s te p r o ­
cesso f á c il:

A a m b i ç ã o t o r n a - n o s falsos, c o b a r d e s , t í m i d o s , q u a n d o
é preciso s u s t e n t a r os i n t e r ê s s e s d a v e r d a d e . R e c e i a - s e
sem pre c o n c ilia r tu d o , c o m b i n a r t u d o . N ã o se é c a p a z d e
rectidão, d e c a n d u r a , d e u m a c e r ta n o b r e z a q u e i n s p i r a o
am or d a e q u i d a d e , e q u e é o q u e faz os g r a n d e s h o m e n s ,
os bons s ú b d i t o s , o s m i n i s t r o s fiéis e o s m a g i s t r a d o s i l u s ­
tres. A s s im , n ã o se p o d e r i a c o n t a r c o m u m c o r a ç ã o , e m q u e
a a m b ição d o m i n a ; n ã o t e m n a d a s e g u r o , n a d a f i x o , n a d a
g r a n d e ; se m p r in c íp io s , sem m á x im a s , s e m s e n tim e n to , to m a
todas as f o r m a s , c u r v a -s e c o n tin u a m e n te à m e r c ê d a s p a i x õ e s
alheias, p r o n to p a r a tu d o i g u a l m e n t e , c o n f o r m e o l a d o p a r a
q u e se v o l t a o v e n t o , o u a s u s t e n t a r a e q u i d a d e , o u a d a r a
s u a p ro te c ç ã o à i n j u s t i ç a . E n t e n d e - s e q u e a a m b i ç ã o é a
paixão d a s a l m a s g r a n d e s ; só s o m o s g r a n d e s p e l o a m o r à
v erd ad e, e q u a n d o só q u e r e m o s a g r a d a r p o r e l a ( M a s s i l l o n ) . 1

(1 ) Cf. o b elo l i v r o d o P a d r e A l a u r y , E n s a i o s ô b r e a
E lo q ü ê n c ia do p ú lp ito . V e r t a m b é m o q u e d i z e m L a - B r u y è r e
e B l a i r sô b re os m a u s s e r m õ e s .
7
98 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

E a in d a is to , s o b re o m e sm o a s s u n to :

Não ç a am bição que, seg u n d o as diversas conjuntu­


r a s e s e n t i m e n t o s , q u e a a n i m a m , o r a n o s a to r m e n ta com
a m a r g o s d e s p e ito s . o ra n o s e n v e n e n a c o m a s m a is m o r ta is
in im iz a d e s , o r a n o s in f la m a co m a s m a is v io le n ta s c ó le r a s ;
o r a n o s p r o s tr a n a s m a is p r o fu n d a s t r i s t e z a s ; o r a n o s asso m ­
b r a co m a m a is n e g r a m e l a n c o l i a ; o ra n o s d e v o r a co m o m a is
c r u e l c iú m e e q u e faz s o f r e r a u m a a l m a c o m o u m a esp écie
d e in fe r n o , e q u e a d e s p e d a ç a c o m m i l a z o r r a g u e s i n t e r i o r e s
e do m éstico s? (B o u rdaloue).

Q u a n ta s vezes te m o s o u v id o ti r a d a s d este
g ê n e ro :

T o d o s o s s e u s p a s s o s , d i z o E s p í r i t o - S a n t o , são v a g o s r
in c e r to s , in c o m p r e e n s ív e is . J u l g a - s e q u e d e v e m o s in s i s ti r em
s e g u i- lo s , e s fo r ç a r m o - n o s p a r a os a t i n g i r , e p e r d e m -s e de v is ta
a c a d a i n s t a n t e ; m u d a m de r u m o , to m a m o u tr o s c a m in h o s e
p e r d e m - s e n é le s ; p r o c u r a m o s o s e u r a s to e f o g e m - n o s sem pre,
c a n s a m - s e c o m a s h o m e n a g e n s q u e lh e s r e n d e m ; d e sd e n h a m
a s h o n r a s c o m q u e os s e g u e m e o f e n d e m - s e d a q u e l e s q u e l h a s
r e c u s a m , d o c u l t o q u e l h e s n ã o o f e r e c e m , e tc .

O u e s ta a in d a , m a is s i g n i f i c a t i v a :

O d i a d a t u a j u s t i ç a , ê s s e b e l o d i a d e l u z , q u e ilu m i­
n a r á , a lu m ia r à e o f u s c a r á o m u n d o , e s p e r o - o , S e n h o r , espe­
ro -o , d esejo -o c o m t o d o o a r d o r , c o m t ô d a a f e b r e d a m i n h a
fé i n q u e b r a n t á v e l . M a s , se io , te n h o d is s o a c o n v ic ç ã o , êsse dia
h á -d e s u r p r e e n d e r -n o s , h á - d e a d m ir a r - n o s e v i r á c o n f u n d i r a
l o u c u r a h u m a n a , im e r s a n a s u a i n d i fe r e n ç a , a d o r m e c id a na
s u a v o lú p ia , e n to r p e c id a n o e s q u e c i m e n t o d e D e u s . D e s p e r ­
t a r t e r r í v e l , i n a u d i t o , i m p r e v i s t o . Q u e f a r e m o s ? Q u e d ire -
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 99

m o s ? Q u e r e s p o n d e r e m o s a esse j u s t i c e i r o f u l m i n a n t e , q u e
a p a re c e s ó b r e as n u v e n s c o m a r a p id e z , a p r e s te z a , a v io lê n ­
cia d o r e l â m p a g o ? Q u e p a l a v r a s t e r e m o s e m n o s s o s lá b io s ?
Q u e j u s t if ic a ç ã o s a i r á d a n o ssa bôea ? etc.

P o d e r-s e -ia , r e p e tin d o as m e s m a s id é ia s em


te rm o s d if e re n te s , c o n tin u a r , d u r a n t e p á g in a s este
fra g m e n to d e a m p lificação , q u e e u acab o d e im p r o ­
v isar.
T u d o is to n ã o é e lo q ü ê n c ia , p o r q u e tu d o is to
não é fo rça.
A

E s te m o d o d e a m p lific a ç ã o n ã o fa z se n ã o e n e r-
v a r o p e n s a m e n to e to r n a r o e s tilo in s íp id o .
A v e e m ê n c ia e a co m o ção d e p e n d e m d o la c o -
nism o, d a e n e rg ia in te r io r , do d e s e n v o lv im e n to
sóbrio.
P a sc a l d i s s e :
— « A v e rd a d e ir a e lo q ü ê n c ia z o m b a d a e lo ­
qüência. >
N ão se im ita r á p o r ta n to a a m p lific a ç ã o d e
Cícero sen ão com u m a e x tr e m a re s e r v a . M e s m o
quando n ão h á ta le n to , ó f á c i l ; e, se h á ta le n to , ó
in ú til.
A p ro v a é q u e D e m ó s te n e s s o b r e le v a C íc e ro ,
por processos c o m p le ta m e n te o p o sto s (1).

(!) C h e g a n d o à m a d u r e z a d o s e u t a l e n t o , C í c e r o c e n ­
su ro u -se a si p r ó p r i o p o r t e r a b u s a d o d a a m p l i f i c a ç ã o , n a
sua D e fe sa de R ó s c io . Ê l e a t r i b u i êsse i m p u l s o à m o c i d a d e
sem pre á v i d a d e m o s t r a r e s p í r i t o .
100 A FORM AÇÃO n o H JB T IL iO

N u n c a n e n h u m o r a d o r f o i m e n o s e lo q ü e n te , no
s e n tid o d a a m p lific a ç ã o r e t ó r i c a .
D e m ó s te n e s n ã o se i m p o r t a d e f a l a r ; só se
a p lic a a p r o v a r .
A fo rç a d o la c o n is m o , p a r e c e n ã o t e r e stilo , de
ta l fo rm a se im p õ e a i d é i a só p e l a s u a e n e rg ia .
D ir - s e - ia g e o m e t r i a l i t e r á r i a .
O d e s d é m d o e f e ito o r a t ó r i o t r a i - s e a cada
p a r á g r a f o . N e n h u m l u g a r - c o m u m , n e n h u m a frase
d ile c ta , n e n h u m a a p a r ê n c i a d e a r t if í c io .
N ã o l h e p r o c u r e m a l i o r n a t o s ; só h á razões.
A s d e m o n s tr a ç õ e s e o s a r g u m e n t o s cruzam -se,
a c e le ra m -s e , p r e c i p i t a m - s e , f a z e m c in t il a r belos
r e lâ m p a g o s d e a n t í t e s e s , e e n t ã o é a a r t e , a grande
a r t e , a q u ilo q u e v e m d a e s s ê n c ia d o a s s u n to .
D e m ó s te n e s a f e c t a a r i d e z o n d e o u tr o te ria b ri­
l h a d o ; r e s t r i n g e - s e p o r t o d a a p a r t e em que se
p o d e r i a a l o n g a r e c o n t e n t a - s e e m t e r razão , sem
p a r e c e r q u e f a z v a l e r a s s u a s ra z õ e s .
S e n te - s e q u e q u e r e l i m i t a r - s e ao a rg u m e n to e
q u e d e s p r e z a o s o c o r r o d a f o r m a , q u e é, contudo,
tã o r e q u i n t a d a n ê le .
M a s, lo g o q u e r e s o l v e s e r v i r - s e d e la , u sa-a como
m e s tr e . N ã o p r o c u r a o e f e i to , a t i n g e - o sem que se
p e n s e n is s o . N ã o p r e t e n d e s e d u z i r , q u e r e conven­
c e r ; o s e u e n c a n to s ã o a s s u a s p r o v a s ; n a concisão
r e s i d e o s e u e s p í r i t o . P e r s u a d e , n ã o p e lo estilo mas
p e la c o n v ic ç ã o . N ã o e n c a n t a , a r r a s t a . N ã o deslum­
b r a , é i r r e f u t á v e l . R e n u n c i a a a g r a d a r p a ra se con­
v e n c e r d e q u e p e rs u a d e m e lh o r.
A FORM AÇÃO DO B 8 T IL .O 101

D iz êle, n u m a d as s u a s F ilíp ic a s :

P o r q u e c q u e F i l i p e foi m a i s b e m s u c e d i d o q u e n ó s n a
g u e r r a p r e c e d e n t e ? Q u e r e m q u e l h e s fale c o m f r a n q u e z a ?
E q u e êle, à f r e n t e d a s t r o p a s , c o m a n d a n d o - a s p e s s o a l ­
m e n t e , s u p o r t a t ô d a s as f a d i g a s , a r r a s t a t o d o s os p e r ig o s ,
a f r o n t a a s i n t e m p é r i e s , v a l e - s e d e t ô d a s a s o c a s i õ e s ; e n ó s,
a bem -dizer, d efinham os aq u i n u m a frouxa indolência,
ad ian d o sem p re , fazendo decretos, p r e g u n ta n d o u n s aos
o u t r o s , n a p r a ç a p ú b l i c a , o q u e h á d e n o v o , c o m o se h o u ­
vesse a l g u m a c o is a d e m a i s n o v o q u e u m M a c e d ó n i o , q u e
afronta a re p ú b lic a de A tenas, e q u e nos escreve c a rta s
co m o a q u e l a s q u e se a c a b a m d e ler.

C e rta m e n te , lia v ia a li m a té r ia p a r a a m p lif i­


cação.
D e m ó s te n e s a b s te v e -se disso.
O ú ltim o p e n s a m e n to p r o d u z m a is e fe ito q u e
u m e lo q ü e n te p a la v ria d o .
R e c o rd e m o s com q u e e n é rg ic a s im p lic id a d e
p rin c ip ia o s e u fam o so d is c u rs o so b re a Coroa, e
com o êle d e n u n c ia o s e u in im ig o É s q u in e s .

E s q u i n e s , n e s t e p ro c e s s o , t e m s ô b r e m i m d u a s g r a n d e s
vantagens :
A p r i m e i r a é q u e os n o s s o s p e r i g o s n ã o s ã o i g u a i s :
E u arr-isco m a i s e m p e r d e r a v o s s a b e n e v o l ê n c i a , d o
q u e êle e m n ã o t r i u n f a r n a s u a a c u s a ç ã o . E u a r r i s c o - m e . . .
m as quero ev itar q u a lq u e r p a la v ra sin istra , com eçando a
f a l a r ; êle pelo c o n t r á r i o , n a d a t e m a p e r d e r , se p e r d e r a
s u a causa.
A segunda v an tag e m é q u e está na n a tu re z a do h o m em
e s c u t a r com p r a z e r a a c u s a ç ã o e a i n j ú r i a e s u p o r t a r a
custo a apologia e o encóm io. O q u e é p ró p rio p a ra a g ra -
102 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

d a r e r a p o is o q u i n h ã o d o m e u a d v e r s á r i o ; o m e u é o q u e
d esag rad a quási sem pre.
S e . d e u m la d o , p o r u m s e n t i m e n t o d e r e c e i o , e u n ã o
m e a tre v o a c o n ta r-v o s as m i n h a s acções, p a r e c e r e i n ã o te r
pod id o d e s tr u ir as c e n s u ra s d e E s q u in e s , n e m f i r m a r os
m e u s d ire ito s à re c o m p e n s a q u e êle d e s e ja r ia t i r a r - m e . P o r
o u t r o la d o , se e n t r o e m p o r m e n o r e s d a m i n h a v i d a p ú b l i c a
e p riv ad a, serei o b rig a d o a fa la r m u ita s vezes d e m im .
Fá;-lo-ei, p e lo m e n o s , c o m a m a i o r r e s e r v a ; e a q u i l o q u e a
n a tu re z a d a m in h a ca u sa m e o b rig a r a dizer, s e rá ju sto im ­
p u tá -lo àq u ele q u e to rn o u necessária a m i n h a justificação.

D e m o s a in d a u m e x e m p lo d o g r a n d e e fe ito
q u e D e m ó s te n e s o b ti n h a p e la e n e r g ia b r e v e e p e la
s o b rie d a d e p o d e ro sa .
E o p a ra le lo d a s u a p r ó p r i a v i d a c o m a d e
E s q u in e s :

Ê le era cria d o d e u m a escola; eu e ra e s tu d a n te .


Ele servia n a s in iciaçõ es; eu e r a in iciad o .
Ê le d a n ç a v a nos e s p e c tá c u lo s ; e u p r e s i d i a a êles.
Ê le era escrivão; eu m a g is tra d o .
Êle e ra a c to r de te rc e ira o r d e m ; eu e s p e c ta d o r ; r e p re ­
sentava m al e eu pateava-o.
N o m in istério , t r a b a lh a v a p elo s n o sso s i n i m i g o s e eu
p ela p á t r i a .
E , p a r a c o n c l u s ã o d o p a r a l e l o , h o j e m e s m o , e m q u e se
trata de obter u m a coroa p a r a m im , fazem ju s tiç a à m in h a
i n o c ê n c i a ; êle, p e lo c o n t r á r i o , é r e c o n h e c i d o c o m o c a l u n i a ­
dor, e trata-se de d e c id ir, n e s te j u l g a m e n t o , se l h e im p o rã o
silê n c io p a r a s e m p r e , n ã o se l h e c o n c e d e n d o n u n c a a q u i n t a
p a r t e d o s votos.
C om o vedes, a f o r t u n a b r i l h a n t e , q u e a c o m p a n h o u
constantem ente Ê sq u in es, d á - lh e o d ire ito d e m e n o s p re z a r
a m inha.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 103

A s m a is b e la s a m p lific a ç õ e s de C ícero n ão
te r ia m a n iq u ila d o m a is te r r iv e lm e n te É s q u in e s ,
do q u e e s te p ro c e sso de c o n d e n sa ç ã o p ro p o s ita d a .
N ão sei co m o C ícero te r ia d e s e n v o lv id o e s ta
p a s s a g e m : n ã o te n h o o g ó n io d as p a la v r a s n e m a
in v e n ç ã o d e c a m b ia n te s , q u e fa z ia m o e n c a n to d a
s u a v ir tu o s id a d e ; m a s p a re c e -m e q u e u m d o s se u s
im ita d o re s se e x p r im ir ia , p o u co m a is o u m e n o s,
a s s im :

Ê l e e r a c r i a d o d a escola, l i m p a v a a s a u l a s , a p a n h a v a
o lixo ; e u e r a a l u n o ; a p r e n d i a a c i ê n c ia , c u l t i v a v a as
letras.
E l e s e r v i a n a s in ic ia ç õ e s , p r e p a r a v a a s c a r te ir a s , c o m ­
p u n h a a s lis ta s ; e u e r a i n i c i a d o , m e re c ia d is tin ç õ e s , c o n q u is ­
ta v a títu lo s .
Ê le d a n ç a v a nos espectáculos, e r a tr u ã o , d iv e r tia o
p ú b lic o ; e u p r e s i d i a , d a v a os p r ê m i o s .
E l e e r a e s c r i v ã o , e s p e r a v a o rd en s, tr a n s c r e v ia a u t o s ; e u
e r a m a g i s t r a d o , j u l g a v a a s c a u s a s , r e g u l a v a os d e b a t e s .
Ele e ra ac to r de terceira o rd e m , su b altern o , d e s p re ­
z a d o ; e u e r a e s p e c t a d o r , a p r e c i a v a , d e c i d i a , e tc .

B la ir d is s e :
— « E sto u p e r s u a d id o d e q u e , n u m p e rig o n a c io ­
n a l e u r g e n te , em q u e se fix a sse a a te n ç ã a do p o v o ,
u m d is c u rso , n o g ó n e ro v e e m e n te d e D e m ó s te n e s ,
p r o d u z ir ia m a io r e fe ito q u e o p ro c e ss o d e C íc e ro
e to d a a s u a m a g n ific ê n c ia .
« S e h o je se p ro n u n c ia s s e m as F ilíp ic a s d e
D e m ó ste n e s, p e r a n te u m a a s s e m b lé ia d e in g le s e s ,
104 A FORM AÇÃO DO B JS T IL O

©m c ir c u n s tâ n c ia s s e m e lh a n te s à q u e la s em q u e a
G ré c ia se e n c o n tr a v a e n tã o , p r o d u z ir ia m a in d a
! to d o o s e u e fe ito .
« A ra p id e z d o e s tilo , a fo rç a d o s a rg u m e n to s ,
a v e e m ê n c ia d a p r o n ú n c ia , a o u sa d ia , a lib e r­
d a d e , e tc ., to r n a r ia m o ê x ito in f a lív e l em q u a lq u e r
a s s e m b lé ia m o d e r n a e n ã o c re io q u e su c e d e sse o
m e s m o c o m u m d is c u r s o d e C ícero .
« A s u a e lo q ü ê n c ia , p o s to q u e c h e ia d e belezas
e p e r f e ita m e n te a d a p ta d a ao g o s to ro m a n o , p e n d e
m u i ta s v e z e s p a r a a d e c la m a ç ã o e a fa sta -se m u ito
d a m a n e ir a q u e se u s a , o r d in à r ia m e n te , e n tr e nós,
p a r a t r a t a r d o s a s s u n to s o u p le ite a r as cau sas
im p o r ta n te s . >
O s M a n u a is e n sin a m -n o s , c o n fo rm e Q n in tilia n o ,
q u e se a m p lifiq u e , p a r a a u m e n ta r o u p a r a d im i­
n u i r ; q u e se a m p lif iq u e m : l .° as d e fin iç õ e s; 2.° as
c ir c u n s tâ n c ia s ; 3.° a e n u m e ra ç ã o d a s p a r te s ; 4.° a
c a u s a e os e f e ito s ; 5.° os a n te c e d e n te s e os co n se­
q ü e n te s ; 6.° os e x e m p lo s e as c o m p a ra ç õ e s ; 7.° as
o b je c ç õ e s; 8.° a g ra d u a ç ã o .
D e ix e m o s e s ta s s u b tile z a s .
À fo rç a d e se q u e r e r d e c o m p o r as p a r te s , a c a ­
b a -se p o r se n ã o v e r o to d o .
V ê-se a d ife re n ç a e v ê-se d e q u e la d o se e n c o n ­
t r a a v e rd a d e ir a e lo q ü ê n c ia .
A im ita ç ã o d e D e m ó s te n e s o ferece c o n tu d o
in c o n v e n ie n te s .
C om C ícero, c o rre -s e o ris c o d e c a ir n a v e rb o -
sid a d e .
A FORM AÇÃO DO H 8 T IL .O 105

O m e lh o r m eio é in s p ira rm o -n o s e m am b o s e
c o r r ig ir m o s u m p e lo o u tro .
C re io q u e é is to o q u e h á d e m a is p rá tic o so b re
a a m p lific a ç ã o o ra tó ria .
D e s d e L o n g in o a tó M a rm o n te l, os M a n u a is de
L ite r a tu r a , o u ficam in d e c iso s a ta l re s p e ito , o u
só a p r e s e n ta m c la ssificaçõ es e s té re is , c o p ia d a s d e
Q u in tilia n o .
V o lta ir e n ã o g o s ta v a d a am p lificação .
D iz ia ê l e :
— « J u lg a -s e q u e ó u m a b e la f ig u r a de r e tó ­
r i c a ; ta lv e z tiv e sse m ra z ã o , se lh e c h a m a s se m u m
d e fe ito .
« Q u a n d o se d iz tu d o o q u e se d e v e d iz e r, n ã o
se a m p lif ic a ; e q u a n d o se te m d ito , d iz -se d e m a is
se se a m p lific a .
« A p r e s e n ta r aos ju iz e s u m a b o a o u m á acção ,
sob to d a s as faces, n ã o ó a m p lific a r, ó a c re s c e n ta r ,
ó e x a g e r a r e e n fa d a r.
« V i o u tr o r a n o s co lég io s d a re m -s e p rê m io s d e
a m p lif ic a ç ã o ; e ra e n s in a r, re a lm e n te , a a r t e d e
s e r p ro lix o . M a is v a le ria q u e d essem p rê m io s
à q u e le q u e se tiv e s s e r e s tr in g id o à s su a s id é ia s e
q u e , p o r isso , a p r e n d e r ia a f a la r com m a is fo rç a
e e n e rg ia .
«M as, e v ita n d o a a m p lific a ç ã o , d e v e te m e r-s e
a a rid e z .»
E s ta s lin h a s r e s u m e m o n o sso c a p ítu lo .
C o n tu d o , n ão é m e n o s v e rd a d e q u e a a m p li­
ficação é u m e x c e le n te p ro c e ss o e q u e a a r t e
106 A FORM AÇAO DO H S T IL O

d o d e s e n v o lv e r u m a s s u n to é u m a a r te que
e x is te (J).
O s r e tr a to s d e O u a to n (o E g o ís ta ), d e Cliion
(o C o m ilão ), d e T elefo, d o N o v e lis ta , p o d e ria m ser
o o n s id e rà v e lm e n te d e s e n v o lv id o s .
D iz E m ílio F a g u e t :
— « D e s to u c h e s ti n h a u m m é to d o , q u e nós já
in d ic á m o s ao t r a t a r d e L a - B r u y è r e . T o m a v a um
c a r á c te r o u r e t r a t o d e L a - B r u y è r e , d a v a -lh e um
n o m e , u m e s ta d o c iv il e u m e sta d o so cial, fazia-o
c o n v e r s a r co m u m c e rto n ú m e r o d e pessoas e
e s ta v a c o n v e n c id o d e q u e fiz e ra u m a co m éd ia de
c a r á c te r . T a lv e z lh e fa lta s s e a lg u m a c o is a : F oi
a s s im q u e ele c o n s t r u iu O In g r a to , O Irresoluto,
O M a l-d iz e n te , O A m b icio so , O In d isc re to , O Glo­
rio so .»
H á em L a - B r u y è r e m á x im a s e reflex õ es, que
u m a u t o r d r a m á tic o p o d e ria tr a n s f o r m a r em per­
s o n a g e n s d e ro m a n c e o u d e c o m é d ia .
P o r e x e m p lo , e s ta p a s s a g e m :

V ê e m - s e p e s s o a s b r u s c a s , i n q u i e t a s , p r e s u m i d a s , que,
p ô s t o q u e o c i o s a s , e s e m o fício a l g u m , q u e as c h a m e a 1

( 1 ) O r e t r a t o d e M e n a l c a s (o D is tr a íd o ), t ã o lo n g o em
L a - B r u y è r e , é a m p l i f i c a ç ã o . C o n t u d o n ã o e n f a d a . T eria
c a b i d o n u m a p á g i n a e foi v o l u n t à r i a m e n t e q u e L a - B r u y è r e o
d e s e n v o l v e u , a j u l g a r m o s p o r e s t a s u a n o t a : « I s t o é menos
u m c a r á c t e r q u e u m a c o m p i l a ç ã o d e f a c t o s e d e d istracç õ es;
s e s ã o a g r a d á v e i s , n u n c a s e r ã o d e m a i s ; c o m o os g o s to s são
diferentes, h á po r o n d e e sc o lh e r» .
A F O R M A Ç Ã O D O E J S T IL O 107

a l g u r e s , sc d e s e m b a r a ç a m d e vós, p o r a s s im d iz e r , em p o u ­
ca s p a l a v r a s e só n isso p e n s a m ; fa la -se-lh es a i n d a , já d e p o is
d e p a r t i r e m e d e s a p a r e c e r e m ; n ão são m e n o s i m p e r t i n e n t e s
q u e a q u ê l e s q u e v o s d e t ê m , p a r a vos e n f a d a r ; são t a l v e z
m enos incôm odas.

E is a q u i os tra ç o s com q u e se p o d e r e c o n s titu ir


u m a p e rs o n a g e m , a ssim com o a o b se rv a ç ã o d a p e r ­
s o n a g e m fo rn e c e u a q u ê le s tra ç o s a L a - B r u y è r e .
O u a in d a e ste e x e m p lo :

A lg u n s jovens não conhecem a in d a bem as v a n ta g e n s


d e u m a feliz n a t u r e z a e q u a n t o lh e s s e r i a ú t i l a b a n d o n a ­
r e m - s e a e l a ; e n f r a q u e c e m êsses d o n s d o c é u , t ã o r a r o s e
t ã o f r á g e i s , c o m m o d o s a f e c ta d o s e c o m u m a f a l s a i m i t a ­
ç ã o . O s o m d a s u a v o z c o seu a n d a r s ã o c o p i a d o s ; c o m ­
p õ e m - s e , r e q u i n t a m - s e , v ê e m n u m e s p e lh o se se a f a s t a m
m u i t o d o s e u n a t u r a l . N ã o é s e m p e s a r q u e êles a g r a d a m
menosJ

V ê -se o p a r t id o q u e se ti r a r i a d ê ste s p o r m e ­
n o re s e o lin d o tip o d e m u lh e r q u e u m a u to r
p o d e r ia c r ia r , tr a n s fo rm a n d o e m acção as in d ic a ­
ções d e L a - B r u y è r e .
E tã o n a t u r a l o p e n d o r, d a m á x im a ao r e t r a to
e d o r e t r a to à acção, q u e L a - B r u y è r e c e d e a c a d a
i n s t a n t e a êsse p e n d o r (l).
O u tr a m a n e ira m u ito a p r o v e itá v e l de a m p lifi-

(!) V e j a m - s e , entre outras, a sua linda novela de


Z e n ó b ia .
108 A FORM AÇÃO DO B 8 T IL .O

c a r , c o n s is te em c o m p a ra r o q n e se e s c re v e u p o r
m o to p r ó p r io com o q u e b o n s a u to r e s e sc re v e ra m
s o b re o m e sm o a ss u n to .
W m

K e x c e le n te e x e rc íc io .
P r im e ir o , d e s a n im a ; d e p o is, e x c ita a s idéias,
m o s tra n d o o q u e se p o d e r ia t e r d e sc o b e rto com
m a is a te n ç ã o .
S e n tim o - n o s o rg u lh o s o s co m o d e sc o b rim e n to .
A s n o ss a s fo rç a s a u m e n ta m c o m a q u e la e m u ­
la ç ã o .
È e s c re v e n d o , p r a tic a n d o o e s tilo , q u e se
d e s c o b rirã o os n u m e r o s o s re c u rs o s , q u e a a m p li­
fic ação m i n is tr a .
C A P ÍT U L O V

A ssim ilação do estilo descritivo

O estilo descritivo e o estilo abstracto. —Princípio fun­


damental da descrição. — Processos descritivos de
Homero. — O realismo de Homero. — As traduções
de Homero. — M.me Dacier. — Opinião de Taine. —
A tradução de Leconte de Lisle.

E s tu d a m o s a le itu r a , a im ita ç ã o , a a m p lific a ­


ção, e tc ., co m o m é to d o s d e tr a b a lh o e p ro c e s s o s
g e r a is p a r a se f o r m a r o e stilo .
O c u p e m o -n o s a g o r a d a p r ó p r ia m a té r ia q u e
c o n s t i t u i o e s tilo .
N a n o ss a A r te de E screver, e n s in a d a em v in te
lições, d iv id im o s o e s tilo segu n d o a s su a s q u a li­
dades.
P o d e c la s sific a r-s e ta m b é m , segu n d o a s u a n a tu ­
reza , e m d u a s d iv is õ e s , q u e c o n tê m , p o u c o m a is
o u m e n o s , to d o s o s g ê n e r o s :
1. a — E s tilo d e s c r itiv o o u e s tilo c o lo rid o .
2 . a — E s tilo a b s tr a c to o u e s tilo d e id é ia s .
O e s tilo d e s c r itiv o s u p õ e a c o r, o re le v o , a im a ­
g in a ç ã o , a im a g e m , a m a g ia p lá s tic a d a s p a la v r a s ,
110 ▲ FORM AÇÃO DO BST1LO

a v id a r e p r e s e n ta tiv a e fís ic a : d e sc riç ã o , q u a d ro ,


o b se rv a ç õ e s, g e sto s, r e tr a to s , p o rm e n o re s .
O e s tilo a b s tr a c to v iv e p r in c ip a lm e n te d e id é ia s,
d e in te le c tu a lid a d e , d e c o m p re e n sã o , d e ro d e io s , de
re la çõ es, d e c a m b ia n te s : h is tó r ia , filosofia, m o ra l,
m e ta fís ic a , m á x im a s , c rític a , p sic o lo g ia .
J o r g e R e n a rd e s c r e v e u :
— « B a lz a c d is tin g u ia d u a s c la sse s d e e s c rito ­
r e s : os e s c rito re s de id éia s, a q u e le s q u e se d ir ig e m
p r in c ip a lm e n te à in te lig ê n c ia , q u e p r o c u r a m o
ra c io c ín io s in té tic o , a lin g u a g e m v iv a , seca e abs-
tr a c ta , e q u e d o m in a ra m e n tr e n ó s n o s sé c u lo s x v i i
e x v i i i ; os e s c rito r e s de im a g en s, a q u e le s q u e só
q u e re m fa la r aos s e n tid o s e q u e os q u e re m im p re s- A

s io n a r p e la ev o cação d ir e c ta d e coisas v is ív e is . E ste3


ú ltim o s a b u n d a r a m n o sé c u lo x v i ; tiv e r a m u m b r i­
lh o e fê m e ro em p r in c íp io s d o sé c u lo x i v ; e, depois,
re a p a re c e ra m com o R o m a n tis m o , e m a is a in d a
co m as esco las q u e o s e g u ir a m » (x).
/A

E s te s d o is e s tilo s n a d a tê m d e in c o m p a tív e l
e n tr e si.
P o d e h a v e r d e s c riç ã o e c o lo rid o e m h is tó ria ,
a ss im co m o se p o d e e m p r e g a r a p s ic o lo g ia ab s-
tr a c ta n u m ro m a n c e d e s c ritiv o .
S ão d o is m o d o s d is tin to s d e e s c re v e r, m a s q u e
se c o n fu n d e m .

(!) G . R e n a r d , O M é to d o C ie n tífic o d a H i s t ó r i a L i te ­
r á r ia , p . 385.
▲ FORM AÇÃO D O K S T IL O 111

P a u lo e V ir g ín ia é e s tilo d e s c ritiv o .
G ra n d eza e D eca d ên cia dos P o m a n o s é e s tilo d e
idéias.
S te n d h a l t i n h a e s tilo a b s tr a c to .
C h a te a u b r ia n d te v e p o r e x c e lê n c ia o e s tilo d e
co lo rid o s e d e im a g e n s .
A d e s c riç ã o f o r m a o p r ó p r io f u n d o d o e s tilo
d e sc ritiv o .
J á tr a ta m o s d a d e s c riç ã o n a n o ss a o b ra p re c e ­
d en te.
N ão r e p e tir e m o s o q u e d isse m o s já .
C o n s id e ra re m o s a q u i a d e sc riç ã o , n ã o co m o u m a
p a rte lim ita d a d e u m g ê n e ro lite r á r io , m a s c o m o
u m a f a c u ld a d e g e r a l, co m o a r t e d e d e s c re v e r.
E x a m in a r e m o s s u m à r ia m e n te e m q u e c o n s is te
essa a r te d e d e s c re v e r, em q u e a u to r e s e la se
d e v e rá a p r e n d e r e q u a is são a q u e le s q u e se n ã o
dev em im ita r .
D a re m o s e m a b o n o do n o sso e n s in o e x e m p lo s
rig o ro so s, im p e r a tiv o s , em q u e o m i s t e r d o e s tilo
será p o rm e n o riz a d o o m a is p o s s ív e l.
J á d e fin im o s a d e s c r iç ã o : U m q u a d ro q u e to r n a
visíveis as coisas m a te r ia is .
N o u tro s te rm o s , a d e s c riç ã o é a p i n t u r a a n i­
m a d a dos o b je c to s.
D em os c o n se lh o s p a r a e n s i n a r a v e r as c o is a s ;
ex p lic a m o s a m a le a b ilid a d e d e e s p ír ito , q u e ó p r e ­
ciso te r, p a ra s e n t i r e t o r n a r p a lp á v e l a q u ilo q u e
se q u e re d e sc re v e r.
R e sta -n o s m o s tr a r o p r o v e ito d e a s s im ila ç ã o ,
112 A FORM AÇÃO D O JC 8T IL .O

q u e 8© pod© a u fe rir, p e la im ita ç ã o , dg, a r t e d e s c ri­


tiv a , o b se rv a d a nos a u to r e s a n tig o s © m o d e rn o s.
D© tu d o q u a n to d isse m o s d e r iv a ©st© g ra n d e
p rin c íp io , qu© s© d e v e r ia in s c r e v e r e m g ra n d e s
le tr a s n o s M a n u a is de L i t e r a t u r a :
A descrição, para ser v iv a , deve se r m a te ria l.
D iz M a rm o n te l:
— « E m p o e sia © ©m e lo q ü ê n c ia , a descrição não
s e lim ita a c a r a c te r iz a r o s e u o b je c to : a p re s e n ta -o
n o s se u s m a is in te re s s a n te s p o rm e n o re s , co m as
c o re s m a is v iv a s .
« S e a descrição n ã o coloca o s e u o b je c to so b os
o lh o s, n ão é o ra tó ria n e m p o é tic a .
«Os p ró p rio s h is to ria d o re s , b o n s co m o T ito L ív io
e T á c ito , fiz e ra m com e la q u a d r o s p a lp ita n te s .
«E , q u e r se fa le do c o m b a te d o s H o rá c io s,
q u e r d a tr o p a c o m b o ia d a d e G rerm ânico, d ir-se -á
q u e se p in ta , com o se d ir á q u e se d e s c re v e . >
E p o is n e c e ssá rio q u e to d o s os p o r m e n o r e s sejam
re p re s e n ta d o s , d e s e n h a d o s , d e c o n to r n o n ítid o . P a ra
isso, n ão re c e e is e v id e n c iá -lo s e a v o lu m á -lo s .
P r e g u n t a i a v ó s p r ó p r io s o q u e s e r ia esse q u a ­
d ro , se fosse p in ta d o a óleo, e t r a t a i d e o d e s c re ­
v e r tã o c ru a m e n te , co m o se o e s c re v ê s s e is após
essa re p re s e n ta ç ã o , co m o se tr a tá s s e is d e u m a
cena a n im a d a o u d a n a tu r e z a , c o n s e r v a n d o sem ­
p re , j á se sabe, a s g r a d a ç õ e s d e p la n o e a im p o r ­
tâ n c ia d as p e rs p e c tiv a s , c o m o e m u m a te la .
B la ir d iz no s e u b e lo C u rso de R e tó r ic a :
— « A d e sc riç ã o ó a g r a n d e p r o v a d a im a g in a ç ã o
A FORM AÇÃO DO H 8 T IL O 113

de u m poefca; é e la q u e d is tin g u e u m g ê n io
o rig in a l d e u m e s p ír ito d e s e g u n d a o rd e m .
« Q u a n d o u m e s c rito r , d e m é r ito m e d ío c re , te n ta
d escrev er a n a tu r e z a , e n c o n tra -a e s g o ta d a p o r a q u e ­
les q u e o p re c e d e ra m n a m e s m a c a r r e ir a . N ad a
acha de n ovo e d e o r ig in a l n o o b je c to q u e q u e re
d e sc re v e r; as s u a s id é ia s são v a g a s e in d e c is a s e,
p o r c o n s e g u in te , a s u a d icção f ra c a e s e m co lo rid o .
É m ais p ró d ig o em p a la v r a s q u e em p e n sa m e n to s.
E v e rd a d e q u e re c o n h e c e m o s a li a li n g u a g e m d a
descrição poética, m a s n ão c o n c e b e m o s c la r a m e n te
o q u e ela d e s c re v e : no lu g a r em q u e u m v e r d a ­
deiro p o e ta n o s faz c r e r q u e n ó s te m o s o objecto
sob os nossos olhos, e le tir a - lh e os tra ç o s c a r a c te r ís ­
ticos ; d á -lh e as co res d a v id a e d a r e a l i d a d e ;
coloca-o no s e u v e rd a d e iro p la n o , de fo r m a q u e
um p in to r o poderá copiar dêle. E s te fe liz ta le n to é
devido p rin c ip a lm e n te a u m a p o d e ro s a im a g in a ç ã o ,
que receb e p r im e ir a m e n te v iv a im p r e s s ã o d o
o b jecto ; d ep o is, e m p re g a n d o u m a selecção c o n v e ­
n ie n te de c ir c u n s tâ n c ia s , p a r a o d e s c re v e r, t r a n s ­
m ite e sta im p re s s ã o , em to d a a s u a fo rç a , à
im ag in ação dos o u tro s . »
O m e s tre im o r ta l d a d e s c riç ã o m a t e r ia l é
H om ero.
E nas o b ra s d êle, q u e é n e c e s s á rio a s s im ila r a
a rte de d e s c re v e r v ig o r o s a m e n te .
E em H o m e ro q u e se e n c o n tr a o g e r m e d e
todos os p ro cesso s d e ev o c a ç ã o e m re le v o , d e
sensações físicas, d e v is ã o im e d ia ta , e m p r e g a d o s
8
114 A FORM AÇÃO i> 0 U HT1LO

d e p o is d e le e e x p lo ra d o s p e lo s g r a n d e s p o e ta s,
oom o V e rg ílio , e m ais ta r d e p o r B e r n a r d im de
S a in t - P i e r r e e p o r C h a te a u b r ia n d .
A I lia d a e a O disséia d e v e m p o r ta n to s e r os
liv r o s f a v o r ito s d e to d o s a q u e le s q u e q u erem
f o r m a r e s tilo d e s c ritiv o .
O c u n h o d a d e s c riç ã o h o m é ric a ó a so b ried ad e
n o s p o rm e n o re s e o tr a ç o m a t e r ia l desenhado,
firm e , s e m p r e re a lis ta .
H o m e ro n ão é u m r e a lis ta in te n c io n a l.
E r e a lis ta , p o rq u e ó o b s e r v a d o r escru p u lo so ,
p o r q u e v ê p e la m a te r ia lid a d e os h o m e n s e as coisas.
O a sp e c to físic o p re o c u p a -o c o n sta n te m e n te .
E o s e u g ê n io .
A llía d a ê u m a s é rie d e c a rn ific in a s .
H o m e ro n ã o r e c u a p e r a n t e p o rm e n o r algum .
F c r i u - o p o r b a i x o d a s o b r a n c e l h a , n o f u n d o d o ôlho,
d o n d e s a l t o u a p u p i l a . E a l a n ç a , a tr a v e s s a n d o o ô lh o , pas­
s o u p a r a d e tr á s d a c a b e ç a , e I l i o n e u , d e m ã o s esten d id as,
c a i u . D e p o i s P e n e l é u , t i r a n d o d a b a i n h a a s u a espada
a g u d a , c o r t o u a c a b e ç a , q u e r o l o u p e l o c h ã o c o m o elmo,
e n te r r a d a a in d a n o ô lh o a f o r t e l a n ç a (J).

A.8 m e n o r e s f e r id a s sao d e s c r ita s c o m precisão.


E n o u tra p assag em :

E H a r p a n ã o , e v i t a n d o a m o r t e , r e f u g i o u - s e e n t r e os
s e u s c o m p a n h e i r o s , o lh a n d o p a r a to d o s o s la d o s p a r a não

(!) S i r v o - m e , p a r a e s ta s * c i t a ç õ e s , d a tradução de
L ec o n te d e L isle, a m ais v iv a q u e conheço.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 115

se r J e r id o f e i o a ço . E , q u a n d o f u g i a , M e r i o n é s a t i r o u - l h e
u m a f r e c h a d e a ç o e f e r i u - o n a coxa d i r e i t a , e a f r e c h a p e n e ­
t r o u , p o r b a i x o d o osso, a té à b e x ig a . E êle ca iu e n t r e os
b r a ç o s d o s s e u s c o m p a n h e i r o s , e x p i r a n d o . J a z ia com o u m
v e rm e s ô b r e a te r r a , e o s e u s a n g u e n e g r o c o r r i a , b a n h a n d o
o solo.

H o m e ro c o m p ra z ia -se em p i n t a r ao v iv o os
g e s to s h u m a n o s .

Q u a n d o Á d a m a s J u g i a à m o rte p a r a a s f i l a s d o s s e u s
c o m p a n h e ir o s , M e r i o n é s , p e r s e g u i n d o - o , t r e s p a s s o u - o e n tr e
o b a ix o - v e n tr e e o u m b ig o , o n d e u m a f e r i d a é m o r t a l p a r a
os h o m e n s desditosos.
F o i a l i q u e ê le e n t e r r o u a s u a l a n ç a e Á d a m a s c a i u
p a l p i ta n t e so b o g o lp e , c o m o u m t o u r o d o m a d o p e l a f ô r ç a
d o s laço s, q u e f o r a m l e v a d o s p o r b o ie iro s p a r a a s m o n t a ­
n h a s . A s s i m Á d a m a s fe rid o a r q u e j o u , m a s p o u c o te m p o ,
pois q u e o h e r ó i M e r i o n é s a r r a n c o u a l a n ç a d a fe r i d a , e a s
t r e v a s se e s t e n d e r a m s ó b r e o s o l h o s d o t r o i a n o .

P o r v e z e s o q u a d ro é p u ro b a ix o -re lê v o , em
q u e tu d o so b re ssa i.
N o ta -s e o m e n o r g e s to do m e c a n ism o h u m a n o ,
p e r m ita m - m e a e x p r e s s ã o :

E fe riu p r i m e i r o P r o n o o s , c o m a s u a l a n ç a b r i l h a n t e ,
n o peito q u e o escudo descobrira. E a s forças do tro ia n o
e s g op t a r a m - s e e êle a r q u e jo u , c a in d o . E a t a c o u T e s t o r , filho
___

d e E n o p e . E T e s t o r e s t a v a p r o s tr a d o só b re o b a n c o d o c a r r o ,
c o m o e s p í r i t o p e r t u r b a d o ; a s r é d e a s h a v ia m - lh e ca id o d a s
m ã o s . P á t r o c l o fe riu -o c o m a s u a l a n ç a n a face d i r e i t a , e o
aço p a s s o u a tr a v é s d o s d e n te s, e, a r r a s t a n d o - o , tir o u o h o m e m
do c a r r o . A s s i m c o m o u m h o m e m , s e n t a d o n o c u m e d e u m
116 ▲ f o r m a ç Ao do b jst il o

a lto rochedo, a va n ça , com o au x ílio d e u m a c a n a brilhante


e d a l i n h a , c p u x a u m g r a n d e p e i x e p a r a f o r a do m ar,
a s s i m P á t r o c l o t i r o u d o c a r r o , c o m o a u x í l i o d a s u a lança
b r i l h a n t e , T e s t o r , d e b ô e a a b e r ta ; e ê s t e , c a i n d o , m orreu.
D e p o i s , b a t e u c o m u m a p e d r a n a c a b e ç a d e E r í a l o , q u e se
p r e c i p i t a v a , e c u j a c a b e ç a se a b r iu e m d u a s , s o b o sólido
capacete, e q u e c a iu e m o rre u , a b ra ç a d o p ela m orte.

H o m e ro fa la a lg u r e s d e u m h o m e m q u e recebe
p o r d e tr á s u m g o lp e m o r ta l e q u e « c a i sob re os
jo e lh o s , b e r r a n d o co m o u m to u r o ».
O u tro , co m o v e n t r e a b e rto , cai, « a g a rra n d o os
in te s tin o s c o m a s m ã o s c h e ia s >.
H e o u tr o , d i z :

B a t e u c o m o c h i c o t e b r i l h a n t e n o s c a v a l o s d e lindas
c r in a s ; e êstes, sob o ch ico te, a r r a s t a r a m rà p id a m e n te o
c a r r o p o r e n t r e o s T r o i a n o s e o s A c a i o s , e s m a g a n d o os cadá­
v e r e s e a s a r m a s . E a s c a m b a s e o s c u b o s d a s r o d a s estavam
a s p e r g id o s do s a n g u e q u e s a lta v a , s o b a s p a t a s d o s cavalos.

E s te r e a lis m o , q u e F é n e lo n n ã o s o u b e im ita r,
m a s C h a te a u b r i a n d h e r d o u e m p a r t e e q u e F la u ­
b e r t e x a g e r o u n a S alam bó, ê s te re a lis m o , q u e não
é m a is q u e o d o m d e v e r e d e d e s c re v e r, não o
d e ix ra n u n c a H o m e ro .
E s e m p re fie l a esse p ro c e s s o m a te r ia l nas
d e sc riç õ e s e n a s c o m p a ra ç õ e s .
O s e n tim e n to , q u e H o m e r o p o s s u ía d a n a tu re z a
e d a v id a fís ic a , a ti n g e a d m ir á v e is proporções
p ic tu ra is : \
A FORM AÇÃO DO B S T I L .O 117

O m a r i n u n d a v a a p r a i a a t é à s t e n d a s e os d o is p o v o s
chocavam -se com g ra n d e c la m o r ; m as, n em a á g u a do
m a r , q u e r o l a s ô b r e a p r a i a , i m p e l i d a p elo s ô p r o f u r i o s o d o
B ó re a s , n e m o c r e p i t a r d e u m v a s t o i n c ê n d i o , q u e q u e i m a
u m a flo re s ta , n a s g a r g a n t a s d a m o n t a n h a , n e m o v e n t o
que r u g e n o s g r a n d e s ca rv a lh o s, são tão terrív e is como era
o im enso c la m o r dos A caios e dos T ro ian o s, in v estin d o u n s
co n tra os outros.

H o m e ro n ão ó so m e n te n a r r a d o r d e p o rm e n o ­
re s r e a lis ta s n o s a s s u n to s de c a rn ific in a (2).
T e m os m e sm o s p ro cesso s d e s c ritiv o s n o s
a s s u n to s id e a lis ta s , com o nos a d e u se s d e H e i to r e
de A n d ró m a c a , o n d e o g e s to do p e q u e n o A s tía n a x
é tã o g r a c io s a m e n te tir a d o do n a tu r a l.
D o a lto d a s m u r a lh a s , A n d ró m a c a v ê o c a d á ­
v e r d e s e u m a rid o H e ito r a r r a s ta d o p e lo s c a v a lo s
de A q u i l e s :

E n tã o , u m a n o ite n e g r a lhe c o b riu os olhos e ela caiu


p a r a t r á s , d e s m a i a d a . E to d o s os ric o s e n f e i t e s se s o l t a ­
ra m d a s u a c a b e ç a , a fita, o laço , a r ê d e e o v é u d e o u r o ,
que lhe d e ra A frodita, no dia em q u e H e ito r, de c a p acete
m óvel, a l e v a r a d e c a s a d e E e t i ã o , d e p o i s d e l h e t e r d a d o
um g ra n d e dote. E as irm ã s e as c u n h a d a s de H e ito r ro d e a -
v a m -n a e a m p a r a v a m - n a nos braços, e n q u a n to ela re s p i­
rava apenas.

T o d o o p o e m a d a O disséia e s tá e s c rito co m os
m esm o s processos, p o s to q u e os q u a d r o s d o m é s-

(!) V e j a - s e n a O d is s é ia ó e p i s ó d i o d e P o l i f e m o e o d e
C a ríb d is e S ila.
118 A FORM AÇÃO DO H 8 T IL .O

tic o s, c a m b ia n te s e s e re n o s , d o m i n e m a n a r r a ­
tiv a . !
A d e sc riç ã o d e H o m e r o n ã o é s o m e n t e v i v a e
m a te r ia l; ó ta m b é m , p r i n c i p a l m e n t e , c ir c u n s ta n ­
ciada, p a r tic u la r iz a d a , e s p e c ia liz a d a .
Os p o rm e n o re s só se r e l a c i o n a m c o m o q u e ele
d e s c re v e u ; c o n c o r r e m p a r a u m f i m ; a liá s não
e x is tir ia m .
U lis s e s lu t a c o n tr a a t e m p e s t a d e .
A d e sc riç ã o q u e d e la fa z H o m e r o ó d e s tin a d a
s o m e n te a m o s tr a r os e s fo rç o s e o p e r i g o d e U lis s e s .
N a d a d e d e m a s ia s , n a d a d e d i g r e s s ã o ; n a d a de
d e sc riç ã o g e r a l, n a d a d e l u g a r e s c o m u n s , com
a c u m u la ç õ e s e a m p lific a ç õ e s , d e q u e fa la re m o s
b re v e m e n te .
D iz o c r ític o B l a i r :
— « E n a e s c o lh a d a s c i r c u n s t â n c i a s q u e c o n ­
s is te a g r a n d e a r t e d a s d e s c r iç õ e s p i n t u r e s c a s .
« P r im e ir a m e n te , é p r e c is o q u e a s c i r c u n s t â n ­
cias n ã o s e ja m tã o c o m u n s e v u l g a r e s , q u e não
m e re ç a m s e r n o ta d a s ; d e v e m s e r , t a n t o q u a n to
p o ssív e l, n o va s e o r ig in a is , c a p a z e s d e p r e n d e r o
e s p írito e d e e x c i t a r a a te n ç ã o . !
« E m te r c e ir o l u g a r , t o d a s a s c i r c u n s tâ n c i a s
e m p re g a d a s d e v e m e s t a r e m h a r m o n i a ; q u e ro
d iz e r, q u a n d o d e s c r e v e m o s u m o b j e c t o im p o r t a n t e ,
to d a s as c ir c u n s tâ n c ia s q u e a p r e s e n t a m o s ao s es­
p e c ta d o re s d e v e m c o n t r i b u i r p a r a o e n g r a n d e c e r .
« F in a lm e n te , as c i r c u n s t â n c i a s d e u m a d e s c r i­
ção d e v e m s e r e x p r e s s a s , c o n c is a s e s i m p l e s , p o is,
A FORM AÇÃO D O E S T IL O 119

quando elas são m u ito ex ag erad as, o u m u ito


d esen v o lvidas e m u ito e x te n sa s, não d e ix a m n u n c a
de e n fra q u e c e r a im p re ssã o q u e d e v e ria m p ro ­
d u z ir.
«A b re v id a d e c o n trib u i q u á si se m p re p a ra a
v iv acid ad e.
« E stas re g ra s g e ra is serão m ais b em escla­
recid as com p ro v a s tira d a s de ex em p lo s p a r ti­
culares.»
P a rtic u la r iz a r a descrição p ela esco lh a de
c irc u n stâ n c ias é c ria r a p ró p ria in d iv id u a lid a d e
d esta descrição, e B la ir te m razão em acrescen ­
ta r q u e esta d em o n stração só se p o d e fa z e r com
exem plos.
E is a q u i os p o rm en o res, com q u e H o m ero d es­
crev eu o assassínio do p rim e iro p re te n d e n te , s e n ­
tado à m esa com o utros.
U lisses, do lim ia r da p o rta, fita nele os olhos.

D i r i g i u a fre ch a cru e l c o n t r a A n t í n o o , e êste ia e r g u e r


com as d u a s m ã o s u m a bela t a ç a de o u ro , d e d u a s a sa s, a
fim de b e b e r v i n h o ; a m o rte e s t a v a m u i t o d i s t a n t e d o s e u
e s p írito . E , n a v e r d a d e , q u e m p o d e r ia p e n s a r q u e u m h o m e m
só, n o m eio d e t a n t o s co n v id ad o s, se a t r e v e r i a , fôsse q u a l
fôsse a s u a fôrça, a e n v i a r - l h e a m o r t e ? M a s U lisses fe riu -o
n a g a r g a n t a com a fre c h a e a -ponta tre sp a sso u o pescoço
d elica d o . E l e ca iu p a r a t r á s , a ta ç a e s c a p o u -se -lh e da m ão
in e r te e u m jacto de s a n g u e s a iu d a s n a r in a s , e e m p u r r o u a
m esa com os p é s ; as i g u a r i a s c a ír a m , e s p a l h a n d o - s e pelo
c h ã o e o p ão e a c a r n e a s s a d a fica ram e n x o v a lh a d o s . O s p r e ­
t e n d e n t e s e s t r e m e c e r a m n a ca s a , q u a n d o v i r a m o h o m e m
c a i r ; e, e r g u en d o -s e, em t u m u l t o , d a s s u a s c a d e i r a s , o lh a -
120 ▲ FORM AÇÀO DO B 8T IL O

vam p a r a to d o s os la d o s , p r o c u r a n d o a g a r r a r e sc u d o s e
la n ç a s (*).

T o d o s os p o r m e n o r e s im p r e s s io n a m , n ã o só
p o rq u e são m a te ria is , m a s ta m b é m p o r q u e se id e n ­
tific a m com o a s s u n to , p o r q u e só c o n v é m à q u e le
a s s u n to e só co m ele f a z e m c o rp o .
O p r e te n d e n te v a i b e b e r e n ã o p e n s a n a m o r t e ;
n in g u é m p o d ia p e n s a r n e la , v is to q u e U lis s e s não
foi re c o n h e c id o e p a s s a c o m o u m m e n d ig o . O p r e ­
te n d e n te c a i p a r a tr á s c o m a v io lê n c ia d o g o lp e e
p e la s u a p o siç ã o d e u m h o m e m q u e v a i b e b e r,
s e g u ra n d o u m a ta ç a c o m a m b a s a s m ã o s .
H o m e ro n ã o n o s d iz q u e e le c a iu banhado no
seu sa n g u e, co m o t e r i a m d i t o v a g a m e n t e E é n e lo n ,
F lo r ia n , R a y n a l o u S a i n t - L a m b e r t . -
E le d iz -n o s : «wm ja cto de s a n g u e s a iu das n a r i­
n a s », o q u e é b e m c ir c u n s ta n c ia d o . «E m p u r r o u a
m esa com os pés*, i g u a l p ro c e s s o .
<A g ita n d o -s e n a s co n vu lsõ es* , s e r i a a d escrição
g e r a l e n ã o a c ir c u n s ta n c ia d a .
E fe c tiv a m e n te , h á m u i t a s m a n e i r a s d e t e r «con­
v u ls õ e s ^ co m o h á m u i t a s m a n e ir a s d e s e r « b a n h a d o
n o p ró p rio s a n g u e » .
S e ria n e c e s s á rio a c e n t u a r p o r m e n o r e s .

(*) M e r i m é e t r a n s p o r t o u e s t a i d é i a p a r a u m a d a s s u as
d e s c r iç õ e s : « R h e i n c y e v i t o u o g o l p e e, d e r r u b a n d o a sua
c a d e i r a com a p r e c i p i t a ç ã o , c o r r e u à p a r e d e p a r a t i r a r de
l á a s u a e s p a d a q u e a li p e n d u r a r a » . ( C r ô n i c a d e C a r lo s IX ,
p. 49). E i s u m a b o a i m i t a ç ã o .
A FORM AÇÃO DO B S T IL O 121

H o m e ro não se esq u ece d isso :


« E m p u r r o u a m esa com os pés. *
«O s p r e te n d e n te s e stre m e c e m , e rg u e m -s e em
tu m u lto das su a s cadeiras e o lh a m , p r o c u ra n d o
a g a r r a r e sc u d o s e la n ç a s .»
E s te ú ltim o tr a ç o d iz t u d o ; é o m o v im e n to
v e rd a d e ir o , o p rim e iro m o v im e n to ; p e n d u r a m as
su a s a r m a s , a n te s d e se s e n ta r à m e s a ; só tê m u m
p e n s a m e n to : re a v ê -la s.
S o m e n te as c ir c u n s tâ n c ia s d ão fo rç a à d e s c r i­
ção. B a s ta m a lg u n s tra ç o s b e m c ir c u n s ta n c ia d o s
p a r a d a r in te n s id a d e e v id a .
E is a q u i, a ta l re s p e ito , u m a d as m a is b e la s
d esc riç õ e s d e H o m e ro .
U lisse s e N e s to r d e s p e rta m , d u r a n te a n o ite , os
oficiais e os so ld ad o s g re g o s, p a ra ir e m v ig ia r o
cam p o i n i m i g o :

« E f o r a m t e r com D i ó m e d e s e v i r a m - n o f o r a d a s u a
te n d a c o m as s u a s a r m a s . E os s e u s c o m p a n h e i r o s d o r m i a m
em v o lta , com o esc u d o p o r b a ix o d a c a b e ç a . A s s u a s l a n ç a s
e s t a v a m p o s ta s a p r u m o e o aço b r ilh a v a c o m o o r e l â m p a g o .
E o h e r ó i d o r m i a t a m b é m , d e i t a d o s ô b r e a p e le d e u m b o i
s e l v a g e m , u m belo t a p ê t e , d e b a ix o d a c a b e ç a . . .
« O s c h e fes n ã o d o r m i a m e v e l a v a m , a r m a d o s ; e o
c a l m o so n o n ã o c e r r a v a as s u a s p á l p e b r a s d u r a n t e a q u e l a
triste noite; m as e stav a m voltados p a ra o lado d a p lanície,
e s c u t a n d o se os T r o i a n o s a v a n ç a v a m . »

M as, do seu la d o , os T ro ia n o s e n v ia v a m u m
dos seu s, D olão, p a ra q u e v ig ia s s e ta m b é m o ca m p o
dos G reg o s.
122 ▲ FORM AÇÃO DO H 8 T IL .O

E D olão lançou sô b rc os o m b r o s u m a rc o c u r v o , c o b riu -se


c o m a p e le d e u m lô b o e t o m o u d u m a l a n ç a .

M as fo i a v is ta d o p o r U lis s e s e s e u c o m p a n h e ir o ,
q u e o s e g u ir a m .

D olão o u v iu -o s e d eteve-se, in q u ie to . P e n s a v a n o seu


esp írito q u e os seu s c o m p a n h e iro s a c o r r e r ia m p a r a o c h a ­
m a r , p o r o r d e m d e H e i t o r ; m a s , a o a l c a n c e d e u m a fre-
ch ad a, reconheceu g u e rre iro s in im ig o s e fu g iu , m ovendo
rà p id a m e n te as p e r n a s ; e os dois a c o s sa v a m -n o co m ta n ta
pressa. . .
E o r o b u s t o D i ó m e d e s , a g i t a n d o a s u a l a n ç a , fa lo u
a s s i m : — d e t é m - t e , o u f iro - te c o m a m i n h a l a n ç a , e n ão
creio q u e evites p o r m u ito te m p o o re c e b e r a d u r a m orte
p o r m in h a m ão.
F a la n d o assim , e s te n d e u a la n ç a , q u e n ã o feriu o
t r o i a n o ; a p o n t a d a a r m a a p e n a s l h e r o ç o u p e l o o m b r o d ir e ito
e e n te r r o u - s e n o c h ã o . E D o l ã o p a r o u c h e i o d e s u s t o , a t e r ­
rado, tre m u lo , p á lid o , e b a te n d o os s e u s d e n te s u n s c o n tra
os outros.

C o n c e d e r a m - lh e a v id a .
■A.

E le in f o r m a o s tr o ia n o s .
D e p o is r e c o n s id e r a m .
— « S e t e p e r d o a m o s , — l h e d is s e D ió m e d e s —
v o lta rá s a e s p i a r - n o s ; se m o r r e s , j á n o s n ã o p o d e s
p r e ju d ic a r . *

E l e f a l o u a s s i m : e, c o m o D o l ã o s e m o s t r a v a s u p l i c a n t e ,
to c a n d o - lh e n o q u e ix o c o m a m ã o , ê l e f e r i u - o b r u s c a m e n t e
c o m a e s p a d a , n o m e io d a g a r g a n t a e c o r t o u - l h e a s c a r ó tid a s .
E o T r o ia n o f a l a v a a i n d a , q u a n d o a c a b e ç a r o l o u p o r te r r a .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 123

E is a q u i u m a das m elh o res p a ssag e n s d e s c riti­


vas de H o m ero , d as q u e m o stra m m ais ir re fu tà -
v e lmt e n te o c a rá c te r h o m érico .
E tr i s t e q u e a c rític a e r u d ita p ro clam e q u e não
é de H o m ero .
A s razõ es q u e a p re se n ta são co n testáv eis.
O q u e h á de curioso ó q u e o tra ç o fin al se
e n c o n tra n a Odisséia, no fim do assassínio dos p re ­
te n d e n te s :
— « F a la n d o assim , e r g u e u do chão, com a su a
m ão v ig o ro sa , a esp ad a q u e A g e la u m o rto d e i­
x a ra c air, e fe riu L aio d es, no m eio do pescoço; e,
q u a n d o êste fa la v a a in d a , a sua cabeça rolou por
terra. »
L a -B ru y è re tin h a , pois, razão em a firm a r q u e
«Moisés, H om ero, P la tã o , V erg ílio e H o rácio não
estão acim a dos o u tro s esc rito res, senão pelas su as
e x p re ssõ es e p elas suas im ag en s.
«É preciso e x p rim ir a v erd ad e p a ra e sc re v e r
n a tu ra l, fo rte e d e lic a d a m e n te ... Só se p o d erão
ex ced er os A n tig o s p ela su a im itação.»
N ão tem o s a p re te n sã o de d e sc o b rir e re v e la r
o gónio de H o m ero .
H á séculos q u e se diz se r êle exacto, an im ad o ,
p in to r a d m irá v e l, g ra n d e o b serv ad o r, etc.
M as, se o tê m d ito , não o têm p ro v ad o .
A in te n sid a d e m aterial da descrição h o m é ric a
não a p arece em to d a s as trad u çõ es.
Só se e n c o n tra n a de L eco n te de L isle.
O g o sto clássico fez q u a n to p ô d e p a ra afo g ar
124 ▲ FORMAÇÃO L>0 BSTII^O

a q u e la e n e rg ia no b o m fra n c ê s in c o lo r , d e q u e se
se rv ia m e n tã o os tr a d u to r e s .
O m e lh o r dos a n tig o s t r a d u t o r e s d e H o m e ro ,
M .mo D acier, e ra u m a m u l h e r d e g r a n d e e ru d iç ã o ,
q u e c o m p re e n d ia m e lh o r q u e n i n g u é m o g r e g o ;
m as a s u a con cep ção d o e s tilo e le g a n t e c o n d e n a ­
v a -a a e x p r im ir a p e n a s o s e n tid o d e H o m e r o e a
e n fra q u e c e r a sua fô rç a d e sc ritiv a , re a l e cru a .
A s u a tr a d u ç ã o e s tá e s c r i ta e m e s tilo in o r g â ­
nico, sem re le v o , se m im a g e n s , s e m c o r.
É o Telémaco d a a r t e d e t r a d u z i r .
C om o a d iv in h a r a v id a d e H o m e r o p o r d e tr á s
d a q u e la in s ip id e z ?
O helenisfca E m ílio E g g e r j u l g o u e s s a tr a d u ç ã o
em p o u c a s l i n h a s :
— « F e ita s to d a s as re fle x õ e s , e is a q u i a id é ia
q u e essa d a m a n o s d á d o s e u t r a b a l h o ; p e n s a q u e
o s e u tr a b a lh o r e c o r d a r á o o r i g i n a l g r e g o , p o u c o
m ais o u m e n o s co m o o c o rp o d e H e le n a , e m b a lsa -
m ad o e c o n s e rv a d o à m a n e ir a d o s E g íp c io s , re c o r­
d a ria as d iv in a s b e le z a s d a q u e la p r in c e s a . C e rta ­
m en te, n ão se p o d e r ia s e r m a is m o d e s to . E s ta
com paração d e s c re v e f ie lm e n te M .me D a c ie r , com
a h o n e stid a d e d o s e u c a r á c t e r e a in s u f ic iê n c ia do
se u e sp írito . M .me D a c ie r s a b ia m u i t o b e m o g re g o ,
m as tin h a p o u co g o sto .»
E m ílio E g g e r c ita p a s s a g e n s d e s t a tr a d u ç ã o ,
q u e re c o rd a m o B r u to A d a m a d o d e B o i l e a u e q u e
m o stra m q u e M .me D a c ie r n u n c a t e v e o s e n tim e n to
da a n tig u id a d e g re g a .
A FORMAÇÃO DO K S T IL O 125

E la e s c re v ia tr a n q u ila m e n te :
— « T a n ta s e tão ra ra s q u a lid a d es tin h a m fe ito
q u e e la fo sse p r e te n d id a pelo p r ín c ip e m a is b ra v o
e m a is bem p ô slo q u e h o u v e em T ró ia .*
D iz E g g e r :
— « N ão p a re c e le r-s e u m a p á g in a d e C ló lia ?
N a d a ó m e n o s é p ico , n e m m enos a n tig o , q u e e ssa
p o m p a d e l i n g u a g e m . . . E s p a lh a sô b re as p e rs o ­
n a g e n s h o m é r ic a s n ão sei q u e c o lo rid o d e in s u ls a
e le g â n c ia , q u e re c o rd a os ro m a n c e s d e C a lp re n è d e
e d e M .ell° S c u d ó r y . . .
«O d e fe ito c a p ita l d a q u e la tr a d u ç ã o é u m a
esp écie d e v u lg a rid a d e b urguesa, q u e n ã o se a ss e ­
m e lh a m a is à in g e n u id a d e d e H o m e ro q u e às
flores do e s tilo ro m an esco * (1).
— «A B íb lia d e R o y a u m o n t, o Telém aco, R o llin ,
o H o m e ro d e M .me D a c ie r p a re c e -m e q u e e stã o
a p a r q u a n to ao c o lo r id o » — d iz S a in t- B e u v e , q u e
lo u v a a liá s c o m in d u lg ê n c ia a t r a d u t o r a do
sécu lo x v i i (*2).
V o lta ire d iz (3):
— « Q uem n ã o le u M .me D a c ie r n ão Teu H o ­
m ero . *
E , d e p o is d e t e r c r itic a d o as s u a s in fid e lid a d e s
e as su a s d e sfig u ra ç õ e s, a c r e s c e n ta :

C1) E m í l i o E g g e r , M e m ó r ia s de L i t e r a t u r a A n t i g a e
M o d e rn a , R e v i s t a d a s t r a d u ç õ e s d e H o m e r o .
(2) S a i n t - B e u v e , C a u s e r ie s , t . ix, p. 4 9 1 . *
( 3) V o l t a i r e , E n s a io sô b re a P o e s ia E p i c a .
126 A FORMAÇAO DO R S T I L .O

— « C o rto u o a u m e n to u p o r t ô J a a p a r te , e n ã o
m e c o m p e te a m im d e c id ir se fez b e m o u m al» (1).
N u m liv ro , c u jo p re fá c io , c o n té m u m a e x c e ­
le n te a p re c ia ç ã o dos e s tilo s , V íto r H u g o r e s u m e
n e ste s te rm o s o q u e é p re c iso p e n s a r d o s a n tig o s
tr a d u to r e s d e H o m e ro :
— «M .me D a c ie r c o n v e r te u a s im p lic id a d e d e
H o m e ro em in s ip id e z ; L a m o tte - H o u d a r d e m e s te ­
r ilid a d e , e B ita u b é em in é p c ia » (**).
E n ão p o d ia d e ix a r d e s e r a ss im c o m o s p r i n ­
c íp io s d e tr a d u ç ã o , a d o p ta d o s n a q u e la ép o ca.
P a r a A n d r é D a c ie r, a tr a d u ç ã o d e v e s e r u m a
« im itação » v a s ta , e m q u e se p o s s a m p e r m i t i r
« ex p ressõ es e im a g e n s m u i to d iv e r s a s d o te x to » ,
p o sto q u e s e m e lh a n te s (3).
Q u a n to a M .me D a c ie r, o s e u fim e r a d a r ao
s e u s é c u lo u m a tr a d u ç ã o d e H o m e r o « q u e , c o n s e r­
v a n d o as p r i n c ip a is b e le z a s d a q u e le g r a n d e p o e ta ,
p u d e s s e f a z e r q u e a s o c ie d a d e d o s e u te m p o d e i­
x a s s e os s e u s p re c o n c e ito s » (4).

(*) V o l t a i r e , D i c io n á r io F t l o s ô fi c o , a r t . S c o l i a s t a .
(*) V í t o r H u g o , L ite r a tu r a , e F i l o s o fi a , T r a d u t o r e s d e
H om ero. P h ila r e te C h a s le s t i n h a ra zão e m d iz e r : « E n t r e
t ô d a s e s t a s t r a d u ç õ e s h a v e r á a l g u m a q u e r e p r e s e n t e fiel­
m ente o o rig in a l? N ão o c reio : e n t r e o t r a d u t o r e o seu
m o d é lo e le v a -s e u m v é u e n o r m e , u m a n u v e m d e v i n t e - e -
-sete séculos». (E s tu d o s sô b re a A n tig ü id a d e , p. 6 5 : O s t r a ­
d u to re s d e H om ero).
(3 ) A . D a c i e r . T r a d u ç ã o d e H o r á c i o .
(*) M . “ e D a c i e r . T r a d u ç ã o d e H o m e r o . P r e f á c i o .
A FORMAÇÃO DO H 8 T IL .O 127

C om o a d m ir a r - n o s d e q u e , co m ta is id é ia s
te n h a m ta r d a d o ta n to e m n o s d a r u m a v e r d a d e ir a
tra d u ç ã o d e H o m e r o ?
D iz P a l i s s o t :
— « D a c ie r tr a d u z ia H o m e ro la b o rio s a e co n s-
c ie n c io sa m e n te , co m o tr a d u z ir i a os a fo ris m o s de
H ip o c ra tes» (*).
E S a in t-B e u v e d e c la ra :
— <0 e r r o e s tá em c r e r q u e u m p o e ta , c u ja
expressão é u m q u a d r o e u m a p i n t u r a c o n tin u a ,
fosse fie lm e n te r e p r o d u z id o p o r u m a tr a d u ç ã o ,
d e stin a d a a s e r su fic ie n te , d e lic a d a e e le g a n te * (2).
B o ile a u s e n tia -o b e m , q u a n d o d iz ia , a p e s a r d o s
seus elo g ios oficiais, c o n c e d id o s a M .me D a c ie r :
— «Se H o m e ro fo sse b e m tr a d u z id o , c a u s a r ia
o efeito q u e s e m p re cau so u .»
A m a io r p a r te d o s h e le n is ta s p ro fis s io n a is
deram -nos tra d u ç õ e s e x a c ta s, m a s se m e s tilo .
T ain e te v e a c o ra g e m d e e x p lic a r p o r q u e e ra
que a nossa l i t e r a t u r a c lá ssic a se a c h a v a im p o ­
tente p a ra t r a d u z i r b e m os A n tig o s . O q u e êle
disse v em a p o ia r as n o ssa s te o r ia s p r e c e d e n te s
sobre a e v o lu ção d o e s tilo e d a lin g u a g e m .
T aine d iz :
— «E ste e s tilo clássico é in c a p a z d e p i n t a r ou
registar c o m p le ta m e n te os p o r m e n o r e s in f in ito s e

P) P a lis s o t, M e m ó r ia s p a r a s e r v i r à H i s t ó r i a d a n o s s a
Literatura, i, p. 8.
(2) S a i n t - B e u v e , C a its e r ie s , t. x i n .
128 A FORM A ÇÃ O DO E S T IL O

a c id e n ta d o s d a e x p e r iê n c ia . R e c u s a - s e a ex p rim ir
o e x te rio r fis ic o d a s coisas, a s e n s a ç ã o d ire c ta do
e s p e c ta d o r, as e x tr e m id a d e s a l t a s e b a ix a s d a paixão,
a fis io n o m ia p r o d i g io s a m e n te c o m p o s ta e absolu-
t& m en te p e ss o a l d o i n d i v íd u o v iv o , e sse conjunto
ú n ic o d e tr a ç o s i n u m e r á v e i s , a fin a d o s e móveis,
q u e c o m p õ e m , n ã o o c a r á c t e r h u m a n o em geral,
m a s o c a r á c te r h u m a n o q u e u m S a in t-S im o n , um
B a lz a c , u m S h a k e s p e a r e , n ã o p o d e r ia m rep ro d u zir,
se a l i n g u a g e m c o p io s a q u e m a n e ja m , e q u e as suas
te m e r id a d e s m a is e n r iq u e c e m , n ã o m in is tra s s e os
s e u s c a m b ia n te s a o s p o r m e n o r e s m ú l ti p lo s da sua
o b s e r v a ç ã o ; c o m e s te e s t il o (c lá ssic o ) n ã o se pode
t r a d u z i r a B íb lia , n e m H o m e r o , n e m D a n te , nem
S h a k e s p e a r e . L e ia m o m o n ó lo g o d e H a m let em
V o lta ir e , e v e ja m o q u e fica d e le : u m a declam ação
a b s t r a c t s , p o u c o m a is o u m e n o s o q u e re s ta de
O telo e m O ro s m a n e .
<V e ja m e m H o m e r o , d e p o is e m Fónelon,
a il h a d e C a lip s o : a i l h a r o c h o s a , s e lv a g e m , onde
se a n i n h a m «as g a i v o t a s e o u t r a s a v e s aquáti­
c a s, d e c o m p r id a s a s a s » , t o r n a - s e n a b e la prosa
fra n c e s a u m p a r q u e d is p o s to « p a r a j a g ra d a r à
v is ta » .
« N ão h á l u g a r n e s t a l í n g u a s e n ã o p a ra uma
p o rç ã o d a v e r d a d e , p o r ç ã o e x í g u a e q u e a selec-
ç ã o c r e s c e n te t o r n a to d o s o s d i a s m a is exígua
a in d a .
« C o n s id e ra n d o e m s i p r ó p r i o , o e s tilo clássico
c o r r e s e m p r e o ris c o d e t o m a r , p a r a s e u m aterial
A FORMAÇÃO DO H 8T IL O 129

lu g a re s-c o m u n s d e p e q u e n a m o n ta e s e m s u b s ­
tância» (*).
A c e n s u ra p a re c e s e v e ra , m a s é j u s t a , p o s to
que n a d a t i r e ao v a lo r d a s n o s s a s o b r a s - p r im a s
clássicas.
E p re c iso le r , n a s n o ta s d e V o lta i r e s o b re C o r­
neille, a e s tr e ite z a d e e s tilo , q u e e le im p õ e ao s
escritores f r a n c e s e s :
C om pletam ente, so n h a r, m e d ita r , baicca e sfe ra ,
até am anhã, o e x te r io r , o in te r io r , d iv e r tir , a lm a
fogosa, te n ta tiv a s, o b ra s-p rim a s, ter v a n ta g e m , bom
homem, vós o u tro s, pois, h a b itu a l, m iste r, a n tig a ­
mente, de tôda a p a r te , d e ix a r o cam po, c o n fu n d ir as
imagens, fr a u d e , h u m o r , pessoas, bôlsa, lín g u a , e tc .,
tantas e x p re ssõ e s q u e e le p r o íb e q u e s e e m p r e ­
guem no e s tilo n o b r e (2).
A firm a n d o -se q u e se n ã o p o d e c o m t a l e s tilo
trad u zir a B íb lia , n e m H o m e r o , n e m D a n te , n e m
S hakespeare, T a in e a c r e s c e n ta e m n o t a :
— « C o m p a re m a s tr a d u ç õ e s d a B íb lia p o r S a c y e
por L u te ro , as d e H o m e r o p o r D a c ie r , B ita u b ó , e tc .,
e por L e c o n te d e L i s l e . »
No se u C u rs o d a E s c o la d a s B e la s - A r te s , T a in e
recom endava a b e r t a m e n t e a t r a d u ç ã o d e L e c o n te
de L isle com o a m e lh o r .
E fe c tiv a m e n te , a t é e n tã o H o m e r o n ã o f o r a t r a -

(*) Taine, A n t i g o R e g im e , p . 251.


(2) V e ja -s e A . V a c q u e r i e , P r o f i t s e t G r im a c e s , p . 13.
9
130 A FORM AÇAO DO K 8T IL O

d u z id o senfto p o r sábios, p o r e s ta d is ta s ; com


L e c o n te d e L isle , H o m e ro é e n fim tr a d u z id o p o r
u m a rtis ta .
F o i L e c o n te d e L is le q u e to r n o u H o m e ro le g í­
v el e o fez s a ir d a le n d a d e e n fa d o n h o em q u e ele
ja z ia .
C e n s u ra -s e a L e c o n te de L is le o e m p re g o q u e
fa z d e te r m o s a rcaico s, o s e u m e n o s p re z o d e nom es
p ró p rio s , a s u a d u re z a , os se u s c o n tra se n so s 0 .
A c u s a m -n o d e t e r m u d a d o em ru d e z a a in e x ­
p r im ív e l d o ç u ra d o e stilo h o m é ric o .
T u d o is to ó v e rd a d e .
M as M .me D a c ie r e os o u tro s n ão d eram
a v id a in te n s a n e m a m a te ria lid a d e d a descrição
h o m é ric a .
O ra , esse m é rito , p e lo m enos, e n c o n tra -se bem
e m L e c o n te d e L is le , q u e re p ro d u z o próprio fu n d o
d e H o m e ro , o s e u c a rá c te r, o s e u g ên io .
Q u a n to à s u a lín g u a , n in g u é m d e sg ra ç a d a -
m e n te e x p r im ir á ja m a is su a s in c o m p a rá v e is q u a ­
lid a d e s . I
E m to d o caso, a in s ip id e z de M .me D a c ie r desfi­
g u r a v a m a is H o m e ro q u e a b r u ta lid a d e de L e c o n te
d e L is l e ; p o rq u e , se h á em H o m e ro a n o b re z a , a
d e lic a d e z a , a g ra n d e z a , a p r o fu n d id a d e dos c a ra c te -

(*) A c e n s u r a n ã o é n o v a . M o n t a i g n e e n s i n a - n o s q u e
c ritic a ra m acrem ente a trad u ção de A m y o t q u e vulgarizou
P l u t a r c o . ( S a i n t - B e u v e , P o e s ia F r a n c e s a no S é c u lo XVI,
P- 3 9 9 )*
A FORM AÇAO DO E S T IL O 131

res, n a rra tiv a , alm a, id e a l, h á aí ta m b é m u m re a ­


lism o, u m a c ru e z a , u m a v io lê n c ia d e p in tu r a , q u e
im p re ssio n a ra m todos os c rític o s, e sp e c ia lm e n te o
p re c u rso r Y ico, q u e in s is te la rg a m e n te sobre a
feição bárbara, brutal e selvagem de H o m e ro .
D iz e le :
— « . . . estilo tã o a ltiv o e d e efeito tão te rrív e l,
com q u e H o m e ro d escrev e em toda a variedade dos
seus acidentes os m ais sangreyitos com bates, e com
que d iv ersifica de cem m a n e ira s e x tr a v a g a n te s os
q u ad ro s de assassín io , q u e fazem a s u b lim id a d e da
llíada> (x).
D iz B o n a ld : I
— «A p a r com a elevação e a d ig n id a d e , e n c o n ­
tra-se fre q ü e n te m e n te em H o m ero a in g e n u id a d e
da in fâ n c ia e a fa m ilia rid a d e g ro s se ira dos p r im i­
tivos co stu m es» (2).
N ão só H o m e ro é u m a d m irá v e l re a lista , senão
que ta m b é m d esap arece da su a o b ra, não in te rv é m
nela, to rn a -s e im p a ssív e l.
E ra esta, com o se sabe, a te o ria f a v o r ita de
F la u b e rt.
F é n e lo n d i z :
— « H o m e ro põe to d a a s u a g ló ria em n ão se
m o stra r, p a ra v o s o c u p a rd e s das coisas q u e ele
p in ta, com o u m p in to r p e n sa em p ô r-v o s d ia n te

(!) V ic o , F ilo so fia d a H is tó r ia , i. iii, c. i.


(2) B o n a l d , M isc e lâ n e a , p. 1 9 1.
132 A rO *M A Ç ÍO DO M T IL n

d o e o lh o s a? f lo r e s ta s , a s m o n t a n h a s , o s r io s , o s
h o r iz o n te s , a s c o n s tr u ç õ e s , o s h o m e n s , a s s u n s
a v e n tu r a s , a s s u a s a c ç õ e s , a s s u a s p a ix õ e s d ife ­
r e n te s , se m q u e p o s s a is n o t a r a s p i n c e l a d a s . . .
« P la tã o a f ir m a q u e o e s c r i t o r d e v e s e m p r e ocul~
Utr-se, f a z e r - s e e s q u e c e r e n ã o p r o d u z i r s e n ã o as
c o is a s e a s p e r s o n a g e n s , d e s t i n a d a s a o s o lh o s d o
le ito r » (l ).

(1) F én elo n , D iá lo g o s sôbre a E loqüência, u.


C A P ÍT U L O V I

A im itação d escritiva a través dos au tores

Chateaubriand e Homero. —Flaubert e Homero. — Como


imitar Homero. —A filiação descritiva. — Processos
descritivos de Chateaubriand. — Chauteaubriand e
Bemardim de Saint-Pierre. —Chateaubriand e Buffon.
—Chateaubriand e Flaubert. —O colorido descritivo.
—Assimilação do colorido descritivo. —A má imitação
de Chateaubriand: Marchangy e d’Arlincourt. —Júlio
Vallés.

O q u e é p re c is o im ita r , p o r ta n to , em H o m e ro
ó a re a lid a d e , o v e rd a d e ir o p o rm e n o r, o tr a ç o c ir ­
c u n s ta n c ia d o , o m o v im e n to p a lp á v e l, o g e sto , a
a titu d e n a t u r a l , a m a te r ia lid a d e d a s cen as e d a s
coisas.
D e p o is, b a s t a r á a p lic a r e s te g ê n e ro de p in t u r a
em re le v o às co isas m o d e rn a s , a u m a b a ta lh a do
sécu lo x ix , co m o a u m q u a d r o c o p ia d o d a n a tu re z a .
A s s e n te m o s co m o p r in c íp io e ste fa c to : q u e h á
só u m a e sp é c ie d e d e sc riç ã o , q u e é a descrição
h o m é ric a .
134 A FORM AÇAO l> 0 HU3TIL.O

— « Im ita rá s os e fe ito s d a n a tu r e z a e m to d a s
as descrições, s e g u n d o H o m e r o * (*).
Todas as v ezes q u e u m e s c r i to r fa z u m a b o a
descrição, p o d e d iz e r-so q u e re a liz a H o m e ro , n ão
e x a c ta m e n te o v e rd a d e ir o H o m e ro (o filã o ó
p u ro d e m a is p a ra s e r tr a n s p o r ta d o ) , m a s o p r o ­
cesso h o m ó ric o re c o n h e c id o , q u a n to ao m o d o de
d iz e r (*).
T o d as as b o as d e sc riç õ e s d e b o n s e s c rito r e s
re c o rd a m a d e sc riç ã o h o m ó ric a , q u a n d o e sse s e s c ri­
to re s se c h a m a m H e s ío d o , T e ó c rito , V e r g ílio , B e r-
n a rd im de S a in t- P ie r r e , C h a te a u b r ia n d , E r c k m a n n -
-C h a tria n , T o u rg u e n e fF , F l a u b e r t , Z o la , D a u d e t,
P a u lo e V íto r M a r g u e r itte , M a u p a s s a n t, P a u lo
A d a m , J ú l i o V alló s, e tc .
T o d o s e ste s e s c rito r e s se re fle c te m u n s n o s
o u tro s .
D e m o n s tra r-s e -ia is to a té à e v id ê n c ia , fa z e n d o a
h is tó r ia do p ro c e sso m a te r ia l n a d e s c riç ã o .
R e c o rd a i os e p is ó d io s d e b a ta lh a , a t r á s r e f e r i­
dos, e v e d e se e s ta s lin h a s n ã o b r o t a m d ir e c ta -
m e n te d e l e s :

(!) R o n s a r d , P r e f á c i o d a F r a n c ia d a .
(*) M a s , d i r ã o , p a r a q u e r e m o n t a r a t é H o m e r o ? N ã o
b a s t a a s s i m i l a r os s e u s i m i t a d o r e s , a q u ê l e s q u e e x p l o r a r a m
a s u a d e s c riç ã o ? N ã o , p o r q u e o s s e u s i m i t a d o r e s c a í r a m n a
in te m p e ra n ç a e no ab u so . S ó H o m e r o te m a s o b r ie d a d e e a
s ín te s e , e s o u b e c o n s e r v a r - s e i d e a l i s t a n o s e u p r ó p r i o r e a ­
lism o.
A FORM AÇÃO DO E B T IL O 135

A lcroveu a t i r a p o r s u a v e z a s u a l a n ç a , q u e , p o r c a u s a
dos d o is fe rro s c u r v o s , se e n t e r r a n o e s c u d o d o g á l i o .
No m e s m o i n s t a n t e , o f i l h o d e C l o d i ã o s a l t a c o m o u m l e o ­
p ard o , põe o p é s ô b r e a l a n ç a , c a l c a o p r o j é c t i l c o m t o d o o
seu pêso, fá -lo d e s c e r p a r a o s o lo e c o m êle d e i t a ao c h ã o o
escu d o d o s e u i n i m i g o . F o r ç a d o a d e s c o b r i r - s e a s s i m , o
infeliz g á l i o m o s t r a a c a b e ç a . A a c h a d e A l e r o v e u p a r t e ,
sibila, v o a e e n t e r r a - s e n a f r o n t e d o g á l i o , c o m o a m a c h a d a
na e x t r e m i d a d e d e u m p i n h e i r o . A c a b e ç a d o g u e r r e i r o
p a r te -s e ao m e i o , o s m i o l o s e s p a l h a m - s e p a r a os d o i s l a d o s ,
os o lhos r o l a m p e lo c h ã o . O c o r p o fica a i n d a u m m o m e n t o
de pé, e s t e n d e n d o m ã o s c o n v u l s a s , o b j e c t o d e t e r r o r e d e
com paixão.
( C h a t e a u b r i a n d , O s M á r tir e s , c. iv ).

E isto a in d a :
V i a m - s e o s s i n a i s d o p o r t a - b a n d e i r a , q u e c o l o c a v a os
postes d a s l i n h a s , a c o r r i d a f o g o s a d o c a v a l e i r o , as o n d u ­
lações d o s s o l d a d o s , q u e se a l i n h a v a m s o b a v a r a d o c e n -
tu riã o . O u v i a m - s e d e t o d o s o s l a d o s o s a g u d o s r e l i n c h o s
dos corcéis, o r a n g e r d a s c a d e i a s , o r o d a r s u r d o d a s b a l i s -
tas e c a t a p u l t a s , a m a r c h a r e g u l a r d a i n f a n t a r i a , a s v o z e s
dos c o m a n d a n t e s , q u e r e p e t i a m a s o r d e n s , o r u í d o d a s l a n ç a s
que se e r g u i a m o u se a b a i x a v a m , s e g u n d o o c o m a n d o d o s
trib u n o s . O s R o m a n o s f o r m a v a m - s e e m b a t a l h a , a o s s o n s
da t r o m b e t a , d o c l a r i m e d o l í t u o . . .

A g o r a le a m o s F l a u b e r t :
P o r c i m a d a v o z d o s c a p i t ã e s e d o r e s s o a r d o s c la r in s ^
as b a l a s d e c h u m b o e o s p r o j é c t e i s d e a r g i l a , p a s s a n d o n o s
ares, s i b i l a v a m , f a z i a m s a l t a r a s l a n ç a s d a s m ã o s e o s
miolos d o s c r â n i o s . O s f e r i d o s a b r i g a v a m - s e s o b os s e u s
escudos, c o m u m b r a ç o e s t e n d i a m a s e s p a d a s , e n c o s t a n d o
os copos c o n t r a o s o lo e o u t r o s , e m c h a r c o s d e s a n g u e , v o l -
136 ▲ rO R M A Ç Á O DO B 8T IL O

t a v a m - » e p a r a m o r d e r o pó. A m u l t i d ã o e r a t ã o c o m p a c t a ,
a p o e i r a tã o e s p è s s a , o t u m u l t o t ã o f o r t e , q u e e r a i m p o s ­
sível d i s t i n g u i r - s e a l g u m a c o i s a ; n e m s e q u e r s e o u v i a m os
c o b a r d e s q u e se p r e s t a v a m a r e n d e r - s e . Q u a n d o a s m ã o s
ficav am v a z ia s , l u t a v a m c o r p o a c o r p o ; o s p e i t o s e s t a l a v a m
c o n t r a a s c o u r a ç a s e o s c a d á v e r e s c a í a m p a r a t r á s , c o m as
cabeças p en d en tes, e n tre dois braços crisp a d o s.

£ a in d a is to :

O s B á rb a ro s in v e stira m em o n d a c o m p a c ta ; os elefan­
t e s p r e c i p i t a r a m - s e p a r a o c e n t r o , i m p e t u o s a m e n t e , o seu
peito a n g u l a r , com o p ro a d e navio, r o m p ia as coortes, que
r e f l u í a m e m g r a n d e t u m u l t o . C o m a s s u a s t r o m b a s , s u fo ­
c a v a m o s h o m e n s o u , a r r a n c a n d o - o s d o so lo , p o r c i m a d a s
su as cabeças, os e n tre g a v a m aos soldados, q u e estavam
n a s tô r r e s ; com as s u a s defesas, e s trip a v a m - n o s , lan ça v am -
-n o s ao a r e, c o m p r i d o s i n t e s t i n o s p e n d i a m n o s s e u s a r p é u s
de m arfim , com o rolos d e c o rd a m e em m a s tro s . O s B á rb a ro s
tra ta v a m de lhes f u r a r os olhos, d e lh e s c o r ta r os jar­
re te s; o u tro s, d e sliz a n d o p o r baix o dos v e n t r e s d o s elefantes,
e n te rra v a m -lh e u m a e s p a d a a té aos copos e p e re c ia m esm a­
gados . . .
( F l a u b e r t , S a la m b ó ).

N ão é C h a te a u b r ia n d e H o m e r o ao m esm o
te m p o ?
A p lic a i a g o r a e s te p ro c e s s o d e p o r m e n o r m a te ­
r ia l a a s s u n to s m o d e r n o s e t e r e i s tr a n s p la n t a d o
H o m e ro :

E n tram o s n aq u e la casa, c u ja g r a n d e q u a d r a térrea,


m u ito escura, p o r q u e t i n h a m b l i n d a d o a s j a n e l a s co m sacos
d e t e r r a , e s t a v a já c h e i a d e s o l d a d o s . A o f u n d o , a v i s t a v a - s e
u m a escada de m ad eira, m u ito ín g re m e , p o r o n d e o san g u e
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 137

c o r ria ; d o c i m o p a r t i a m t i r o s d e e s p i n g a r d a . E o s s e u s
clarões m o s t r a r a m , d e s e g u n d o e m s e g u n d o , c i n c o o u s e i s
dos nossos, c a í d o s c o n t r a o c o r r i m ã o , c o m o s b r a ç o s p e n ­
dentes, e os o u t r o s q u e l h e s p a s s a v a m p o r c i m a d o s c o r p o s ,
de b a io n e ta c a l a d a , p a r a f o r ç a r a e n t r a d a d o s ó t ã o . E r a h o r ­
rível v e r a q u e l e s h o m e n s — c o m o s s e u s b i g o d e s e o s r o s t o s
negros, c o m o f u r o r d e s e n h a d o n a s c o n t r a c ç õ e s d o r o s t o —
quererem s u b i r à f ô r ç a . A o v ê - l o s , n ã o s e i q u e c ó l e r a s e
apossou d e m i m , q u e m e p u s a g r i t a r :
« A v a n te ! . . . n a d a d e q u a r t e l !. . .»

( E r c k m a n n - C h a t r i a n , W a t e r l o o , p . 2 5 0 ).

E a lg u r e s , t a m b é m :
Quando cheguei atrá s de Zebedeu, estav a tu d o a t u ­
lhado de m o r t o s e f e r i d o s ; a s j a n e l a s d a f r e n t e t i n h a m s a l ­
tado, o s a n g u e s a l p i c a v a a s p a r e d e s , já n ã o h a v i a d e p é u m
só p ru ssian o , e c i n c o o u s e i s d o s n o s s o s e s t a v a m e n c o s t a d o s
aos móveis, s o r r i n d o e o l h a n d o c o m a r f e r o z ; q u á s i t o d o s
tinham b a l a s n o c o r p o o u g o l p e s d e b a i o n e t a , m a s o p r a z e r
da v i n g a n ç a e r a m a i s f o r t e q u e o m a l . Q u a n d o p e n s o n i s t o ,
põem-se-me e m p é o s c a b e l o s .
Já n a d a m a i s o u v i a , p o r a s s i m d i z e r . O b a r u l h o d e v e r i a
ser espantoso, p o r q u e a f u z i l a r i a d e b a i x o e a d a s j a n e l a s
iluminavam t ô d a a r u a , c o m o u m a l a b a r e d a , q u e se e s p a l h a .
Tínhamos d e r r u b a d o a e s c a d a e é r a m o s a i n d a s e i s : d o i s à
frente, d i s p a r a n d o , q u a t r o a t r á s , q u e c a r r e g a v a m a s e s p i n ­
gardas e l h a s p a s s a v a m .

( E r c k m a n n - C h a t r i a n , W ^ a te r lo o , p . 151, 152,
2 6 0 , 2 6 4 ).

E n c h e r-se -ia m v o lu m e s c o m c ita ç õ e s d e s te


gónero, tira d a s d e T o ls to i ( A G u e r r a e a P a z e
p rin cip alm en te O Cêrco de S eb a sto p o l), d e E m í l i o
13$ A FORM A ÇAO DO R S T IL O

Z o la (A Destruição), d e P a u lo o V í t o r M a rg u e ritt©
(O Desastre), d© P a u lo A d a m (A Fôrça), do
L e m o n n ie r (O s Carneiros ) t e tc ., ©tc.
È s te m é to d o d© n o ta ç ã o m a t e r ia l , t i r o u - o a
n o ssa l i t e r a t u r a c o n te m p o r â n e a , q u e r d ire c ta m e n t©
d© H o m e ro , q u e r , e m s e g u n d a m ã o , d e C h a te a u ­
b ria n d , q u e fo i o s e u v u l g a r i z a d o r g e n ia l, em
m e ta d e d a s u a o b ra .
C h a te a u b r ia n d f o r m o u - s e n o e s tu d o d e B e r n a r -
d im d© S a in t - P i e r r e . L e u -o to d a a s u a v id a e não
fa z ia d is s o m is té rio .
A d e s c riç ã o v iv a e re a l, a p lic a d a à p a is a g e m ,
e s tá j á ©m B e r n a r d im d e S a i n t - P i e r r e (P a u lo e Vir­
g in ia e a Viagem à Ilh a de F rança).
E n c o n tr a - s e em S a in t - P i e r r e , a q u e m J . J .
R o u s s e a u t r a n s m i t i r a e s s e s e n t im e n to j á c o lo rid o
d a n a tu r e z a , o p ro c e s s o d e s c r i t i v o d e C h a te a u ­
b r ia n d e o s e u v o c a b u lá r io d e c o m p le to e s c rito r .
N ão s u p o r e is l e r u m a p á g in a d e C h a te a u b r ia n d ,
a o le r d e s e s ta s l i n h a s d e P a u lo e V irg ín ia ?:

Um d êsses estio s q u e d esolam , d e tem p os a tem pos,


as terras situ a d a s en tre os tróp icos, v eio esten d er aqui os
seu s estra g o s. E ra p elo s fins d e D ezem b ro, q u an d o o sol,
no C apricórnio, aquece d u ran te três sem a n a s a Ilha de
França com o seu calor v e r tic a l. O v e n to d o S u l, que
dom ina ali q u ási todo o a n o , não sop rava já. L o n g o s turbi­
lh ões de pó se conservavam su sp e n so s n o ar. A terra fen­
d ia -se por todos os la d o s; a v e g e ta ç ã o e sta v a q u eim ad a;
saíam evaporações q u en tes d a v e r te n te d a s m o n ta n h a s, e
a m aior parte dos rios esta v a m sêco s. N e n h u m a n u v em do
lado do m ar; som en te, d u r a n te o d ia , se ele v a v a m por cim a
A FORM AÇÃO DO B JS T IL O 139

das p l a n í c i e s v a p o r e s p a r d a c e n t o s e p a r e c i a m , a o p ô r d o
sol, co m o c h a m a s d e u m i n c ê n d i o . N e m m e s m o a n o i t e
trazia a l g u m f r e s c o r à a t m o s f e r a a b r a s a d a . A ó r b i t a d a l u a ,
tôda v e r m e l h a , e r g u i a - s e n u m h o r i z o n t e b r u m o s o , d e d e s ­
m ed id a g r a n d e z a . O s r e b a n h o s , e n t o r p e c i d o s n a s v e r t e n t e s
das c o l i n a s , c o m o p e s c o ç o e s t e n d i d o p a r a o c é u e a s p i ­
ra n d o o a r , f a z i a m e c o a r n o s v a l e s o s s e u s t r i s t e s g e m i d o s .
Até o c a f r e q u e os c o n d u z i a se d e i t a v a n a t e r r a , p a r a
e n c o n t r a r n e l a f r e s q u i d ã o . M a s p o r t ô d a a p a r t e o s o lo
estava a r d e n t e e n o a r a b a f a d i ç o r e s s o a v a o z u m b i d o d o s
insectos, q u e p r o c u r a v a m s a c i a r a s ê d e n o s a n g u e d o s
h o m en s e d o s a n i m a i s .

A p a is a g e m , e m C h a te a u b r ia n d , co m o e m S a in t-
-P ie rre , é a n a t u r e z a r e p r o d u z id a p e la fo to g ra fia
hom órica (J).
S o m e n te o a u t o r d a s M e m ó ria s de A lé m - T ú m u lo
tra d u z iu e s ta f o to g r a f ia c o m m a g n ific ê n c ia in c o m ­
parável.
E p o r isso q u e C h a te a u b r ia n d é o r e i d a d e s ­
crição, e, d e p o is d e H o m e ro , o a u t o r q u e se d e v e
e s tu d a r m a is, a q u e le , c u ja a s s im ila ç ã o s e r á o m a is
a p ro v e itá v e l.
T em v id a e g r a n d e z a . j .
L e ia m e s te p ô r d a lu a no m a r :
T ornada p o r D e u s s e n h o r a d o s a b is m o s , a l u a t e m as
suas n u v e n s , os se u s v a p o res, os seus raio s, as s u a s so m ­
bras, c o m o o s o l ; m a s , c o m o êle, n ã o se r e t i r a s o l i t á r i a :
acom panha-a u m cortejo d e estréias.

(!) D i s p e n s e m - m e u m a v e z p o r t ô d a s a j u n ç ã o d e s t a s
duas palavras, q u e e x p rim e m bem o m e u p en sam en to .
140 A FORM AÇÃO D O R 8TIL .O

À m edida q u e, sô b re as m in h a s p r a ia s n a ta is , desce ao
c a b o d o céu , a u m e n t a o s e u s i l ê n c i o , q u e e l a c o m u n i c a ao
m a r ; e m b re v e c a i n o h o r i z o n t e , i n t e r s e c c i o n a - o , n ã o m o s ­
t r a m a i s q u e m e t a d e d o s e u r o s t o , q u e s e s u b m e r g e , se
inclina e d e s a p a re c e n a m o l e e n t u m e s c é n c i a d a s v a g a s .
Os astros v izinhos d a s u a r a in h a , e m vez d e m e r g u l h a r em
seu s e g u im e n to , parecem deter-se, su sp en so s n o c u m e das
o n d a s. M al te m d e s a p a r e c id o a l u a , u m s ô p r o , v in d o do
largo, q u e b r a a im a g e m d a s co nstelações, c o m o se a p a g a m
candelabros, após u m a solenidade.

I s t o é o C h a te a u b r i a n d id e a lis ta .
E is a q u i o s e u r e a lis m o , u m a d e s c r iç ã o d o C lu b e
d o s F r a n e is c a n o s , n o te m p o d a R e v o l u ç ã o :

O s q u a d r o s , a s i m a g e n s e s c u l p i d a s o u p i n t a d a s , os
v é u s , os c o r t i n a d o s d o c o n v e n t o , t i n h a m s i d o a r r a n c a d o s ;
a b a s í l i c a , d e v a s t a d a , s o m e n t e a p r e s e n t a d a a g o r a a o s o lh o s
as s u a s o s s a d a s e a s s u a s a r e s t a s . N o a l t a r - m o r d a ig r e j a ,
o n d e o v e n t o e a c h u v a e n t r a v a m p e l a s r o s á c e a s sem
v i t r a i s , b a n c o s d e c a r p i n t e i r o S e r v i a m d e s e c r e t á r i a ao
p resid en te, q u a n d o a sessão se r e a liz a v a n a i g r e j a . . .
As m etáforas dos d isc u rso s e r a m t i r a d a s d o a s s u n to das
c a r n i f i c i n a s , c o p i a d a s d o s o b j e c t o s m a i s i m u n d o s d e todos
os g ê n e r o s d e e s t r u m e i r a s , o u t i r a d a s d o s l u g a r e s , e m q u e
se p r o s t i t u í a m h o m e n s e m u l h e r e s . O s g e s t o s t o r n a v a m as
i m a g e n s s e n s í v e i s ; t u d o e r a c h a m a d o p e l o s e u n o m e , com
o cinism o dos cães, n u m a p o m p a o b s c e n a e í m p i a de ju ras
e pragas.
D e s t r u i r e p r o d u z i r , m o r t e e g e r a ç ã o , e r a o q u e se
a p u r a r a d a q u e la g í r i a s e l v a g e m , q u e e n s u r d e c i a os ouvidos.
O s discursadores, de m o d o s secos o u tr o v e ja n te s , tin h am
outros in te rru p to re s além d o s s e u s a d v e r s á r io s ; as pequenas
corujas n egras do c l a u s t r o s e m m o n g e s e d o c a m p a ­
n á r i o s e m s i n o s e s p r e i t a v a m n a s j a n e l a s p a r t i d a s , com
A FORM AÇÃO DO E S T IL O HI

e s p e r a n ç a d o d e s p o j o ; i n t e r r o m p i a m os d i s c u r s o s . P r i m e i r o ,
c h a m a v a m -n a s à ord em com o a g ita r d a im potente cam ­
p a in h a ; m a s, n ã o ce ssa n d o o seu cro cita r, d is p a ra v a m -lh e
tiro s , p a r a a s f a z e r c a l a r ; e l a s c a í a m p a l p i t a n t e s , fe rid a s
e f a t í d i c a s , n o m e i o d o P a n d e m ô n i o . A l a d e i r a s ca íd a s,
bancos p a r tid o s , p o ltro n a s d esp e d açad a s, fra g m e n to s de
santos, c a íd o s e a tir a d o s c o n tr a as p ared es, se rv ia m de
a s s e n t o s a o s e s p e c t a d o r e s e n l a m e a d o s , c o b e r t o s d e pó, sujos,
s u a d o s , d e c a m i s o l a s e s b u r a c a d a s , a l a n ç a s ô b r e o o m b r o ou
c r u z a d o s os b r a ç o s n u s .

O e s tu d o d e C h a te a u b r ia n d p o d e s u b s t i t u i r o
de to d o s os e s c rito r e s d o n o sso te m p o , p o rq u e os
a b ra n g e a to d o s.
J á se n ã o e n c o n tr a n a s s u a s M em ó ria s de A lé m -
•T ú m u lo o c la ro -e s c u ro do e s tilo d e F é n e lo n , q u e
to rn a os N a tc h e z tã o e n fa d o n h o s e fa z d o s M á r tir e s
um p o e m a d e s ig u a l e frio .
A s M e m ó ria s d ão a sen sação d a re a lid a d e t r a n s ­
fig u ra d a p o r u m a im a g in a ç ã o s u b lim e .
E s te liv r o e n g e n d r o u to d a a n o ssa l i t e r a t u r a
d e sc ritiv a .
F l a u b e r t d e c la r a v a q u e esse tr a b a lh o u ltr a p a s ­
sa v a a s u a re p u ta ç ã o .
A fo n so D a u d e t fa la v a d e le co m u m a com oção
e s tu p e fa c ta .
Os ir m ã o s G o n c o u r t ti n h a m fe ito d e le o se u
liv ro fa v o rito .
E m C h a te a u b r ia n d n ã o h á s o m e n te a l i t e r a t u r a
de F la u b e r t, d o n d e s a ír a m os n o sso s r o m a n c is ta s c o n ­
te m p o râ n e o s. H á ta m b é m o e s tilo d e T eó filo G a u tie r ,
de P a u lo d e S a in t- V ic to r , d e B a r b e y d ’A u r e v il ly .
142 A FORM AÇAO DO K S T IL .O

C h a te a u b r ia n d v a i tão lo n g e em n o v id a d e , em
p in tu re s c o , em n e o lo g istn o e em e s c rita a r tís tic a ,
com o os G o n c o u rt e L o ti.
C o n h e c e m a lg u m a co isa m a is c o n te m p o râ n e a ,
de m a is n o v a esco la, q u e e sta d e sc riç ã o do en ta r­
decer n a s florestas da A m értca ?:
O sol c a i u p o r d e t r á s d a c o r t i n a d a s á r v o r e s ; u m raio
d c l u z , p a s s a n d o a t r a v é s d a c ú p u l a d e u m a flo re sta , cinti-
lava c o m o u m c a r b ú n c u l o e m o ld u ra d o n a f o l h a g e m s o m b r i a ;
a l u z , d i v e r g i n d o e n t r e o s t r o n c o s e os r a m o s , p ro je c ta v a
s ô b r e a r e l v a c o l u n a s c r e s c e n t e s e a r a b e s c o s m óveis. E m baixo,
e r a m lilá s, a z á le a s , cipós, c o n v e r t i d o s e m p a v e i a s g i g a n ­
t e s c a s ; lá e m c i m a , n u v e n s , u m a s fixas, p r o m o n t ó r i o s ou
v e l h a s t ô r r e s ; o u t r a s f l u t u a n t e s fu m a r a d a s de ro sa ou car-
d a d a s d e séd a .
V i a - s e n a q u e l a s n u v e n s e n t r e a b r i r e m - s e g o e la s de
fo rn o , a m o n t o a r e m - s e b r a s a s , c o r r e r e m r io s d e l a v à ; tu d o
e s t a v a b r i l h a n t e , r a d i a n t e , d o u r a d o , o p u l e n t o , s a t u r a d o de
lu z. A o o r i e n t e , a lu z d e s c a n s a v a s ô b r e c o l i n a s l o n g í n q u a s ;
ao o c i d e n t e , a a b ó b a d a d o céu e s t a v a f u n d i d a n u m m a r de
d i a m a n t e s e d e s a fir a s , n o q u a l o sol, m e i o e n t e r r a d o , p a r e c ia
d is s o lv e r-s e .
A t e r r a , em a d o r a ç ã o , p a r e c i a i n c e n s a r o céu , e o
â m b a r , e x a la d o d o s e u seio, re c a ía s ô b re e la , e m o r v a lh o ,
c o m o a o r a ç ã o re c a i s ô b r e a q u ê l e q u e r e z a . . . E u r e p o u ­
sava à beira de u m m aciço d e á rv o re s ; a su a obscuridade,
c o r t a d a d e lu z , f o r m a v a a p e n u m b r a , o n d e m e a c h a v a
sentado.
P a s s a v a m m o s c a s b r i l h a n t e s p o r e n t r e os a r b u s t o s
á s p e r o s e c c lip s a v a m - s e , q u a n d o p a s s a v a m p a r a as i r r a ­
d ia ç õ e s d a lu a .
O u v i a - s e o r u í d o d o flu x o e d o re flu x o d o la g o , os saltos
d o s p eix es d o u r a d o s , o g r i t o e s p a ç a d o d a p a t a m e r g u -
lhadora.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 143

Ê aos m ilh a re s q u e se p o d e ria m c i t a r e x e m ­


plos de relev o p lástico , tão in te n s o com o as des­
crições de F la u b e r t e q u e n u n c a fo ra m ex c e d id o s
pelos esforços de to d a a escola re a lis ta c o n te m ­
po rân ea.
S e p re te n d e p in ta r a a u ro ra , C h a te a u b ria n d
d irá com o F la u b e r t o u Z o la :
— « U m a fa ix a de o u ro se fo rm o u n o o rie n te .»
C o m p a ra rá o p ô r do sol « despojado dos seu s
raios, a u m a m ó de fe rro v e rm e lh a » , o u d irá s im ­
p le s m e n te : «o se u disco d ila ta d o m e r g u lh a v a n a s
ondas».
A

E le v iu « a lu z d o u ra d a d as e s tre la s tr e m e r n o
m ar», «as n u v e n s v o arem no céu, sôbre a fa ce da
lua, q u e p a re c ia c o rre r ra p id a m e n te » .
E m d u a s p a la v ra s m o stra-v o s a te m p e s ta d e :
— «Os re lâ m p a g o s en ro scam -se nos rochedos.»
N o ta, a n te s do ro m p e r da lu a, «a su a a u ro ra ,
que se d e rra m a g ra d u a lm e n te d ia n te dela».
D escrev e-n o s no fim do d ia as « clarid ad es fo rte s
do sol sô b re os lag o s» , as « so m b ras dos p in h e iro s» ,
«as m o n ta n h a s a cin zen tad as d e azu l» .
D is tin g u e , de n o ite , o « firm am en to esp e lh a d o
nas v a g a s, p a re c e n d o descansar no fu n d o do m a r,
e, p o r in te rv a lo s , b risa s p a ssag e ira s, q u e p e r t u r ­
bam n a s á g u a s a im a g e m do cóu».
Se v o am g ra lh a s , o q u e o im p re ssio n a são «as
suas asas n e g ra s e b rilh a n te s , rosadas p elo s p ri­
m eiro s reflexos do dia».
M en ciona n a s M em órias de A lé m -T ú m u lo «os
144 A FORM AÇÃO DO K 8T IC O

so n s aveludados d a tro m b e ta , os so n s líquidos da


h a rm ô n ic a , a voz fa n h o s a d a g a ita de foles».
F a z -nos v e r «o h o riz o n te do m a r in te r seccio-
n a n d o a lu a , q u e se in c lin a e d e sa p a re c e n a mole
en tu m escên cia das vagas*.
O b s e rv a o ra o m a r «todo b ra n c o d e lu z » , ora
«as lâ m in a s fin as, com o g a z a , q u e se d esen ro lam
s o b re a a re ia , sem r u íd o e sem e sp u m a » .
E m v ia g e m , n ão esq u ece o creditar da chuva
sõhre a capota da carruagem .
N o ta «a s o m b ra m ó b il de u m ja c to de ág u a, à
c la rid a d e d a lu a , as m o n ta n h a s lo n g ín q u a s , banha­
das de a zu l, a s a n d o rin h a s que se m etem , gritando,
n os buracos das paredes*.
E v o c a n d o a tr a n q ü ilid a d e d a n o ite , à b e ira de
u m la g o , d iz :
— «O a z u l d o la g o velava p o r d e trá s d as fo lh a­
g e n s . U m a b ris a , p a ss a n d o e re tira n d o -s e , a tra v é s
d o s s a lg u e iro s , a fin a v a com o v a iv é m d a vaga.»
P a s s e a n d o em R o m a , « e sc u ta o silên cio e vê
p a s s a r a s u a s o m b ra , de p ó rtic o em p ó rtic o , ao
lo n g o d o s a q u e d u to s , ilu m in a d o s p e la lu a » .
A v is t a o C a rm e lo com o « u m a m a n c h a red o n d a
p o r b a ix o d o s ra io s d e sol».
C h a te a u b ria n d fo rm o u -se com a a ssim ilaç ã o de
S a in t-P ie rre , e s te n d e n d o , re d u z in d o , am pliando a
d e sc riç ã o de P a u lo e V irg ín ia , d a s H a rm o n ia s, dos
E stu d o s e das Viagens.
A s u a filiação é re c o n h e c id a p o r to d o s os c rí­
tic o s.
A FORM AÇÃO I> 0 JB 8T IL O 145

P a re c e le r-so C h a te a u b r ia n d , q u a n d o se a b re
e sta p á g in a d e S a i n t - P i e r r e :

O lu g a r d a cena era, de costum e, n a e n c ru z ilh a d a de


u m a flo re s ta , c u j a s a b e r t u r a s f o r m a v a m e m v o l t a d e n ó s
m u i t a s a r c a r i a s d e f o l h a g e m . E s t á v a m o s ali a b r i g a d o s d o
c a l o r , d u r a n t e t o d o o d i a ; m a s , q u a n d o o sol d e s c i a n o
h o r i z o n t e , o s s e u s r a i o s i n t e r s e c c i o n a d o s p elo s t r o n c o s d a s
á r v o r e s , d i v e r g i a m n a s s o m b r a s d a f l o r e s ta e m l o n g o s feix es
l u m i n o s o s , q u e p r o d u z i a m u m efeito m a j e s t o s o . A l g u m a s
vezes, t o d o o s e u d is c o a p a r e c i a n a e x t r e m i d a d e d e u m a
c l a r e i r a , e t o r n a v a - a t ô d a b r i l h a n t e d e lu z . A f o l h a g e m
d a s á r v o r e s , i l u m i n a d a p o r c i m a c o m os s e u s r a i o s c ô r
d e açafrão, d e sp e d ia c h a m a s d e topázio e de e sm e ra ld a .
O s tro n co s m u sg o so s e escuros p areciam tran sfo rm ad o s em
c o l u n a s d e b r o n z e a n t i g o ; e as a v e s , já r e t i r a d a s e s i l e n ­
c io s a s s o b a f o l h a g e m s o m b r i a , p a r a a l i p a s s a r e m a n o i t e ,
s u rp re e n d id a s de ver u m a s e g u n d a au ro ra, sa ü d a v a m tô d as
a u m te m p o o a stro do dia, com m ilh a re s de canções.
O s m a c a c o s , h a b i t a n t e s d o m i c i l i a d o s d a q u e l a s f l o r e s ta s ,
b r i n c a m n o s s e u s r a m o s s o m b r i o s , d e q u e se d i s t i n g u e m
p e la s u a c ô r c i n z e n t a e e s v e r d e a d a e a s fa ces n e g r a s ;
a lg u n s s u s p e n d e m -se pela c a u d a e b alouçam -se no a r ; o u tro s
s a l t a m d e r a m o e m r a m o , c o m os fi l h i to s n o s b r a ç o s . N u n c a
a e s p i n g a r d a m o r t í f e r a a s s u s t o u a q u ê l e s p ac ífic o s filh o s d a
natureza.
S ó se o u v e m g r i t o s d e a l e g r i a , c h i l r e a d a s e g o rje io s
desconhecidos d e a lg u m a s aves a u stra is, q u e são repetidos
ao l o n g e p e l o s e c o s d e s t a s f l o r e s ta s . j
O rio, q u e c o r re e m c a c h ã o sô b re u m leito d e pedras,
a tra v é s d a s árv o res, reflecte a q u i e além , n a s s u a s á g u a s
lím pidas, o c o n ju n to veneráv el d a v e r d u r a e d a som bra,
a s s i m c o m o o s f o l g u e d o s d o s s e u s felizes h a b i t a n t e s ; a m i l
passos d a li, p re c ip ita -se de d iferen tes a n d a r e s de rochedos,
c form a, n a s u a q u e d a , u m a to a lh a de á g u a , u n id a com o
10
146 A FORMAÇAo DO KBTIL.O

c r i s t a l , q u e se q u e b r a , c a i n d o , e m flocos d e e s p u m a » M il
r u í d o s confusos s a e m d a q u e l a s á g u a s t u m u l t u o s a s ; e, d i s ­
persos pelos v e n to s , n a flo re s ta , o r a f o g e m a o l o n g e , o r a se
a p r o x i m a m to d o s ao m e s m o t e m p o e e n s u r d e c e m , c o m o os
s o n s d os sin o s d e u m a c a t e d r a l .
O ar, c o n tin u a m e n te re n o v ad o pelo m o v im e n to das
águas, conserva, sòbre as m a r g e n s d a q u e le rio , a p e s a r dos
a r d o r e s e s tiv a is , u m a v e r d u r a e u m a f r e s c u r a q u e é r a r o
encontrarem -se nesta ilha, a in d a n o cim o d a s m o n ta n h a s .

E is a q u i com o C h a te a u b r ia n d d e s c r e v e o rio
M e sch a c e b ê :

Ê s t e ú l t i m o rio , n u m p e r c u r s o d e m a i s d e m i l l é g u a s ,
b a n h a u m a d e lic io s a r e g i ã o , q u e os h a b i t a n t e s d o s E s t a d o s -
-U nidos ch a m a m o N o vo É d e n e à q u a l os F r a n c e s e s deram
o doce n o m e d e L u i s i a n a . M i l o u t r o s r i o s , t r i b u t á r i o s do
M esch aceb c, o M i s s o u r i , o I l l i n o i s , o A r k a n z a , o O h i o , o
W a b a c h e , a a d u b a m c o m o s e u lô d o e a f e r t i l i z a m c o m as
suas águas.
Q u a n d o t o d o s ê s t e s r i o s se e n c h e m c o m o s d i l ú v io s
in v e rn a is . q u a n d o as t e m p e s t a d e s a b a t e m b a i x a s i n t e i r a s
d e florestas, a s á r v o r e s d e s a r r e i g a d a s a c u m u l a m - s e n a s
n a s c en tes. E m b r e v e o lô d o a s c i m e n t a , o s c i p ó s p r e n d e m -
- n a s e as p l a n t a s , e n r a i z a n d o - s e p o r t ô d a a p a r t e , a c a b a m
por consolidar aq u ê le s destroços. A r r a s t a d a s p e la s v ag as
esp u m o sas, d e s c e m ao M e s c h a c e b ê ; o r i o a p o d e r a - s e delas,
p u x a -a s p a r a o gôlfo m e x i c a n o , e n c a l h a - a s s ô b r e b a n c o s de
areia e a u m e n t a a s s i m o n ú m e r o d a s s u a s e m b o c a d u r a s .
A espaços, eleva a s u a v o z , q u e p a s s a s ô b r e o s m o n t e s , e
es p a lh a as s u a s á g u a s t r a s b o r d a n t e s e m v o l t a d a s co lu ­
n a t a s d a s florestas e d a s p i r â m i d e s d o s t ú m u l o s i n d i a n o s ;
é o N ilo dos d e s e rto s . M a s a g r a ç a a n d a s e m p r e u n i d a à
m a g n ificên c ia n a s c e n a s d a n a t u r e z a ; e n q u a n t o a c o r r e n t e
do meio a r r a s t a p a r a o m a r o s c a d á v e r e s d o s p i n h e i r o s e
dos c a rv a lh o s , v êem -se, s ô b r e a s d u a s c o r r e n t e s l a t e r a i s ,
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 147

subir, ao lo n g o d a s m a rg e n s , ilh a s flu tu a n te s d e p istia s e


de n e n ú f a r e s , c u j a s flo re s a m a r e l a s se e l e v a m c o m o p e q u e n o s
pavilhões.
S e rp e n te s verd es, g a rç a s azuis, fla m a n te s rosados,
p eq u e n o s crocodilos, e m b a r c a m , com o p a s s a g e iro s, sôbre
a q u ê le s b a r c o s flo r i d o s , e a q u e l a c o l ô n i a , a b r i n d o a o v e n t o
as s u a s v e l a s d o u r a d a s , v a i a b o r d a r , a d o r m e c i d a , e m q u a l ­
q u e r c a lh e ta a f a s ta d a do rio.
As d u a s m arg en s do M eschacebê ap resen tam u m q u a ­
dro ex tra o rd in ário .
N a m a rg e m o cidental, desenrolam -se sav a n as a p e rd e r
de v ista; as su a s o n d a s de v e rd u ra , afastando-se, parecem
su b ir ao cé u , o n d e d e sa p arec em . V êe m -se , n a q u e le s p ra d o s
sem -fim , v a g u e a r ao a c a s o , b a n d o s d e t r ê s o u q u a t r o b ú f a l o s
selvagens.
A s vezes, u m bisão velho, r o m p e n d o a s o n d a s a n a d o ,
vai d e i t a r - s e e n t r e o s a l t o s a r b u s t o s , n u m a i l h o t a d a Ales-
c h a c e b ê ; t e m a f r o n t e o r n a d a c o m d o i s c r e s c e n t e s e, c o m
a su a b a r b a c re sc id a e lodosa, p o d e ria to m a r-s e pelo d e u s
flu v ial, q u e l a n ç a u m o l h a r s a t i s f e i t o s ô b r e a g r a n d e z a d a s
ondas e a selvática a b u n d â n c ia d as su as m arg e n s.

E n c o n tr a m - s e em B n ffo n as f o n te s d e s ta i n s ­
p ira ç ão :

R ios de g r a n d e l a r g u r a , com o o A m a z o n a s , o P r a t a e o
O renoque, ro lan d o as suas on d as esp u m a n te s e trasb o rd an d o
liv rem en te, p a r e c e m a m e a ç a r a te r r a com u m a in v a sã o e
esforçar-se p o r a d o m i n a r c o m p le ta m e n te .
Á g u a s e s t a n q u e s , e d i f u n d i d a s p e r t o e l o n g e d o seu
curso, cobrem o lô d o lim oso q u e d e p o s ita ra m , c aquêles
v a s to s p â n t a n o s , e x a l a n d o o s s e u s v a p o r e s e m n e v o e i r o s
fétidos, c o m u n i c a r i a m a o a r a in fe c ç ã o d a t e r r a , se n ã o
c a ís s e m lo g o e m c h u v a s , p r e c i p i t a d a s , p e l a s t e m p e s t a d e s
ou d i s p e r s a s p e l o s v e n t o s .
IAS A FORMAÇÃO DO R S T I I.O

E aquelas p la z a s, a lte r n a tiv a m e n te sêcas e ú m id a s ,


onde a terra c a ág u a parecem d i s p u t a r possessão ilim ita d a ;
e a q u e la s b r e n h a s d c m a n g u e s , e s t e n d i d a s a t é co n fin s
in c e rto s d a q u e l e s d o i s e l e m e n t o s , s ã o p o v o a d a s a p e n a s de
a n i m a i s i m u n d o s , q u e p u l u l a m n a q u e l a s c a v e r n a s , clo ac as
d a n a t u r e z a , o n d e t u d o r e t r a t a a i m a g e m d o s d ejecto s
m onstruosos d o lim o p rim itiv o . E n o r m e s s e r p e n te s tra ç a m
l a r g o s s u l c o s s ô b r e a q u e l a t e r r a l a m a c e n t a ; o s c r o c o d ilo s ,
os s a p o s , l a g a r t o s e m i l o u t r o s r é p t e i s , d e l a r g a s p a t a s , so li­
d ific a m o l ò d o ; m i l h õ e s d e in s e c to s , e n t u m e c i d o s p e lo c a lo r
le n to , s o e r g u e m a v a z a ; a t ô d a a q u e l a c h u s m a i m p u r a , r a s t e ­
j a n d o s ô b re o lódo o u z u m b i n d o n o a r , q u e m a i s esc u re c e ,
tôda aquela b icharia q u e m in a a te rr a , a tr a i n u m ero sa s
c o o rte s d e a v e s de r a p i n a , c u jo s g r i t o s c o n f u s o s , m ú l t i p l o s
e a s s o c ia d o s ao c o a x a r d o s r é p t e i s , p e r t u r b a m o s ilên cio
d a q u e l e s m e d o n h o s d e s e r t o s , e p a r e c e m r e ü n i r o re c e io ao
h o rro r, p ara a fa sta r déles o h o m e m e v e d a r a e n tra d a
às c r i a t u r a s s e n s í v e i s ; t e r r a s a l i á s i n t r a n s i t á v e i s , a i n d a
i n f o r m e s e q u e só s e r v i r i a m p a r a r e c o r d a r o s t e m p o s v izi­
n h o s d o p r i m e i r o cao s, e m q u e o s e l e m e n t o s n ã o e s t a v a m
separados, em q u e a t e r r a e a á g u a f o r m a v a m u m a massa
c o m u m , e em q u e as e s p é c ie s v i v a s n ã o t i n h a m e n c o n t r a d o
a in d a o seu l u g a r n a s diversas reg iõ es d a n a tu r e z a .

(B u f f o n , D e s c r iç ã o do K a m i c h i ) .

É , p o is e n t r e os M o d e rn o s , e m C h a te a u b r ia n d
e p r in c ip a lm e n te n a s s u a s M e m ó ria s de A lém -
- T ú m u lo , q u e è p re c is o e s tu d a r - s e a d e s c riç ã o v iv a.
A p ó s C h a te a u b r ia n d , te m o s lo g o G -ustavo
F la u b e r t.
O p ró p rio F l a u b e r t f o r m o u - s e c o m a a ss im ila ­
ção d e C h a te a u b ria n d .
O a u to r d a Salam bó d e c la r a v a , p a r a o fim da
a f o r m a ç Ao d o e s t il o 149

s u a v id a, q u e d a ria to d o s os se u s tra b a lh o s p o r
d u a s lin h a s de C h a te a u b ria n d .
A p re o c u p a ç ã o de d e sc re v e r rea listam ente, p o sto
q u e p o è tic a m e n te , to rn a v is ív e l a n a tu r e z a em
A ta la , n o Itin e rá r io , e p rin c ip a lm e n te n as M em órias
de A lé m ^ T ú m u lo . M as C h a te a u b ria n d não é co n ­
tín u a e e x c lu s iv a m e n te re a lista .
F la u b e r t, q u e - o le ra b em , e que, à fo rça de
a d m ira ç ã o , se in c a r n a r a nele, c o m p re e n d e u logo o
p a rtid o q u e se p o d ia t i r a r d a q u e la a r te de escrev er.
C o n sc ie n te m e n te ou não, a d iv in h o u q u e p o d ia
s a ir d ela u m a lite r a tu r a nova, com o se p re ss e n te a
escola re a lis ta c o n te m p o râ n e a , q u a n d o se lê pela
p rimr e ira v ez M adam e B ovary.
E c o m p a ra n d o Salambó e Os M á rtires q u e se
pode a p re c ia r o n o v o m éto d o de a rte , in a u g u r a d o
por F la u b e r t.
T o m em o s u m ex em p lo ao acaso.
N a b a ta lh a dos F ra n c o s e dos R o n ian o s,
C h a te a u b ria n d d is s e :
— «A a c h a de M ero v eu e n te rra -s e n a fro n te do
g á lio ; a cab eça p a rte -s e ao m e io ; os m io lo s e sp a ­
lh a m -se dos d o is l a d o s ; o corpo fica a in d a u m
m o m en to de pé, e ste n d e n d o as m ão s conv u lsas.»
T ais frases são F la u b e r t p u ro .
O a u to r d a Salam bó, a d o p tá -la s -á ; h a v e is de
e n c o n trá-la s ta is q u a is, o se u re a lism o , não irá
m ais lo n g e . S o m e n te , o re le v o e o a cab am en to , os
a p lic a rá, do p rin c íp io ao fim d a su a o b ra ; re je ita rá
a a n tig a co m p aração clássica, a p e rífra s e d ú b ia , q u e
ISO A. P0R M A C 40 1)0 K 8 T IL .O

n a d a raoetra, ©, ©m voz d© r e c a ir n a b a n a lid a d e


v a g a © a c re sc e n ta r com C h a t e a u b r i a n d : «O s c o rn o s
dos to u ro s le v a ra m fa rra p o s h o r r ív e is » ; e s c r e v e r á ,
fiel ao se u processo r e a lis ta , f a la n d o d o s e le f a n t e s :
«C om pridos in te s tin o s p e n d ia m n o s s e u s a r p ó u s
d© m arfim , com o rolos d e c o r d a m e e m m a s tr o s » .
N o u tro s t e r m o s : F l a u b e r t e x p lo r o u o la d o
v ita l d© C h a te a u b ria n d , m o s tr a n d o - s e s e m p r e e
em tu d o re a lista .
Ê o se u m é rito e o s e u d e fe ito .
Tev© as q u a lid a d e s e a p r e o c u p a ç ã o d a q u e le
sistem a.
D izen d o d e C h a te a u b r i a n d : « Q u e h o m e m ele
não te ria sido, sem a im ita ç ã o d e F é n e lo n ! » F l a u ­
b e rt, e x c e p to a g r a n d e z a d o e s tilo , p r o c u r o u s e r o
q u e C h a te a u b r ia n d n ã o fo ra .
Q u a n d o c o m p a ra m o s m i n u c i o s a m e n t e F l a u b e r t
com o se u ilu s tr e m o d e lo , fic a m o s c o n f u s o s d e v e r
s u r g ir, p o r a ssim d iz e r , e m c a d a p á g i n a e fo r­
m ar-se, o p e n s a m e n to e o e s tilo d e F l a u b e r t .
E s ta im ita ç ã o d e C h a t e a u b r i a n d p o r F l a u b e r t
é u m dos m e lh o re s e x e m p lo s d a c r ia ç ã o d e u m
ta le n to p e la v ia d a a s s im ila ç ã o .
F o i a ssim q u e F l a u b e r t se t o r n o u u m o r i g i n a l
e ju s tific o u a s u a f r a s e f a v o r i t a :
— « 0 ta le n to tr a n s f o r m a - s e p o r in f u s ã o .»
E ssa o rig in a lid a d e fo i tã o f e c u n d a , q u e e le p o d e
s e r c o n sid e ra d o co m o o p a i d e m e t a d e d a n o s s a
li te r a t u r a c o n te m p o râ n e a .
F o i d e C h a te a u b r ia n d p r i m e i r o , m a s m a i s d ir e c -
A FO RM A ÇÃ O DO H 8 T IL O 151

ta m e n te d e F l a u b e r t , q u e s a íra m , e f e c tiv a m e n te ,
q u a n to a p ro c e ss o s d e s c r itiv o s , A . D a u d e t, o s G o n -
c o u rt, M a u p a s s a n t, Z o la , L o ti e m e s m o F e r n a n d o
F a b re , T h e u r i e t e a esco la r e a lis ta a te n u a d a .
D isso se d a ró fé, e s tu d a n d o Salam bó, T r ê s C on­
tos, a T en ta çã o de S a n to A n tô n io e a q u e la o b ra -
-p rim a , q u e se c h a m a : P e lo s C am pos e pelas P r a ia s .
E is a q u i, p a r a a c a b a r, u m e x e m p lo típ ic o d a
a rte , co m o q u a l F l a u b e r t s a b ia a l a r g a r u m p r o ­
cesso e e x c e d e r o s e u m o d e lo , im ita n d o -o .
E a d e s c riç ã o d a E x tr e m a - U n ç ã o n u m ro m a n c e
de S a in t-B e u v e .
O p a d r e u n g e o c o rp o d o m o r ib u n d o :

A ê s te s o l h o s , c o m o ao m a i s n o b r e e - a o m a i s v i v o d o s
sentidos; a êstes o lh o s, p o r a q u ilo q u e v i r a m e o l h a r a m
de m a i s t e r n o , d e m a i s p é r f i d o e d e m a i s m o r t a l n o u t r o s
o lh o s ; p o r a q u i l o q u e l e r a m e r e l e r a m , d e a t r a e n t e e m u i t o
querido; p e la s l á g r i m a s in ú te is q u e d e r r a m a r a m sô b re a
frágil v e n t u r a e s ô b r e a s c r i a t u r a s i n f i é i s ; p e lo s o n o , q u e
tantas vezes p e r d e r a m , de noite, p e n s a n d o nisso!
A o o u v i d o t a m b é m , p elo q u e o u v i u e d e i x o u d i z e r d e
m u i to d o ce , d e m u i t o l i s o n j e i r o e i n e b r i a n t e ; p o r a q u e l a
essência q u e o o u v i d o c o l h e l e n t a m e n t e e m p a l a v r a s e n g a ­
n a d o r a s ; p e l o q u e ê le b e b e u n e l a s d e m e l o c u l t o !
D e p o i s ao o l f a c t o , p e lo s s u b t i l í s s i m o s e i n e b r i a n t e s p e r ­
fumes d a s n o i t e s d e p r i m a v e r a , n o f u n d o d o s b o s q u e s ;
pelas flores r e c e b i d a s d e m a n h ã e a s p i r a d a s t o d o s o s d i a s
com t a n t a c o m p l a c ê n c i a !
A o s l á b io s , p e lo q u e p r o n u n c i a r a m d e m u i t o c o n f u so
e de m u i t o f r a n c o ; p o r a q u i l o q u e ê l e s n ã o r e s p o n d e r a m
em c e rto s m o m e n t o s o u p o r a q u i l o q u e n ã o r e v e l a r a m a
c e rtas p e s s o a s ; p o r a q u i l o q u e c a n t a r a m n a s u a s o lid ã o ,
152 A FORM AÇÃO DO B A T ID O

m u i t o m elodioso ou cheio de l á g r i m a s ; pelo seu m u r m ú r i o


i n a r t i c u l a d o . pelo seu silên cio I
A o p es c o ç o . a c i m a d o p e i t o , p e l o a r d o r d o d e s e jo ,
s e g u n d o a e x p r e s s ã o c o n s a g r a d a ; s i m , p e l a d o r d o s afe c to s ,
d a s riv a lid a d e s : pelas a n g ú s tia s d a s t e r n u r a s h u m a n a s ;
p e l a s l á g r i m a s , q u e s u f o c a m u m a g a r g a n t a s e m voz, p o r
t u d o a q u i l o q u e faz p u l s a r u m c o r a ç ã o o u p o r t u d o a q u i l o
q u e o corrói 1
A s m fio s t a m b é m , p o r t e r e m a p e r t a d o u m a m ã o q u e
n à o estav a lig a d a s a n ta m e n te ; por terem recebido lá g rim a s
a r d e n tís s im a s ; p o r terem co m eçado a escrever, sem a con­
c lu ir. a lg u m a resposta não p e rm itid a !
A o s p^s* p o r n ã o t e r e m f u g i d o , p o r t e r e m p r o p o r c i o ­
n a d o l o n g o s p a s s e i o s s o l i t á r i o s , p o r se n ã o t e r e m f a t i g a d o
d e p r e s s a n o m e i o d a s d i v e r s õ e s , q u e r e c o m e ç a v a m sem
cessar.
( S a i n t - B e u v e , V o lu p tu o s id a d e ) .

E s t a d e sc riç ã o é a p e n a s r e tó r ic a e a m p lific a ç ã o
flo rid a :
« A q u ilo q u e os o lh o s le ra m d e m a is terno, de
a tr a e n te e de m u ito q u erid o . L á g r im a s in ú te is , cria ­
tu r a s in f i é i s . . . M u ito doce, . m u ito liso n je iro e tn e -
b r ia n te . . m el o culto, p a la v r a s e n g a n a d o r a s . . . I n e -
b ria n tes p e r fu m e s ; m elodiosos, cheios de lágrim as,
m u r m ú r io in a r tic u la d o , te r n u r a s , lá g rim a s a rd en tes,
longos p a sseio s>, e tc . E o e s tilo e m p r e g a d o p o r
tô d a a p a r te , o s in ô n im o fá c il, o re c h e io e le g a n te
e b a n a l.
“E ia a q u i com o F l a u b e r t c o n d e n s a esse te m a .
A q u i , tu d o e s tá e m re le v o , tu d o ó c ria ç ã o : p e n ­
s a m e n to , p a la v r a e im a g e m . E o v e r d a d e ir o e s tilo :
A FO RM A ÇÃ O DO E J 8 T IL .O 153

O p a d r e r e c i t o u o M is e r e a tu r e a l n d u l g e n t i a m , m o l h o u
o polegar d ire ito n o a z e ite e com eçou as u n ç õ e s ; p r i m e i r o
sôbre os o l h o s , q u e t a n t o h a v i a m c o b i ç a d o t ô d a s as s u m -
ptuosidades te r r e s t r e s ; d e p o is sô b re as n a r in a s , g u lo s a s d e
brisa t é p i d a e d e p e r f u m e s a m o r o s o s ; d e p o i s s ô b r e a b ô c a ,
que se a b r i r a p a r a a m e n t i r a , q u e e s t r e m e c e r a d e o r g u l h o
e g r i t a r a n a l u x ú r i a ; d e p o i s s ô b r e a s m ã o s , q u e se d e l e i t a ­
vam c o m os c o n t a c t o s s u a v e s , e f i n a l m e n t e s ô b r e a p l a n t a
dos pés, o u t r o r a t ã o r a p i d a s , q u a n d o c o r r i a m e m s e g u i ­
m ento d o s d e s e jo s e q u e já n ã o a n d a v a m a g o r a .

O q u e fa z a m a g ia d a T en ta çã o de S a n to A n t ô ­
nio, o s in te tis m o d e se n sa ç ã o q u e d á u m a e s p é c ie
de b e le z a o r ie n ta l a tu d o q u e é c o lo rid o e p a ix ã o
em F la u b e r t, à s p a la v r a s d e M a th ô , à s d e c la r a ç õ e s
da r a in h a d e S a b á , a o s e n c a n to s m e la n c ó lic o s d o s
te rra ç o s c a r ta g in e s e s , t u d o is to é a u tê n t ic o C h a ­
te a u b ria n d .
São os m e s m o s m o ld e s, q u á s i as m e s m a s fra s e s .
D iz o A b e n c e rr a g e m :
— «Só o r o ç a r d o t e u v e s tid o s ô b re e s te s m á r ­
m ores m e fa z e s t r e m e c e r ! O a r e s tá p e r f u m a d o
pelo c o n ta c to d o s te u s c a b e lo s ! A s t u a s p a la ­
v ras e m b a ls a m a m e s te r e t i r o , co m o as ro s a s d o
Y em en.»
E V e lle d a :
— « O u v is te o g e m id o d e u m a fo n te e o q u e i-
x u m e d e u m a b r is a , n o s a r b u s to s q u e c re s c e m so b
a tu a ja n e l a ? D e s liz a r e i p a r a t u a c a sa s ô b re os
raios d a lu a . V o a r e i p o r c im a d a t o r r e q u e h a b i­
ta s. . . Os c is n e s n ã o sã o tã o b r a n c o s co m o as filh a s
de G-ália! O s n o ss o s o lh o s tê m a c o r e o b r i lh o
154 A KORMAÇAO DO JD 8T U L O

d o c é u ! Os nossos c a b e lo s são tã o fo rm o s o s , q u e
as ro m an as n o -lo s p e d e m , p a r a c o b r i r a s su a s
cabeças.»
N ão ó o liris m o d e F l a u b e r t , q u a n d o ele
e s c re v e :
— «Os m e u s b e ijo s tê m o g o s to d e u m f r u t o
q u e se d esfizesse n o te u c o ra ç ã o . D o r m ir ía m o s
so b re p e n u g e n s , m a is m a c ia s q u e a s n u v e n s , b e b e -
ría m o s p e la s cascas dos f r u to s e c o n te m p la r ía m o s
o c éu a tr a v é s d e e s m e r a ld a s ! A f o g a a m i n h a a lm a
no te u h á b ito ! E s m a g u e m -s e os m e u s lá b io s , ao
b e ija r-te as m ãos !»
A e n u m e ra ç ã o m e lo d io s a e s im b ó lic a , a p o e sia
tra n s p o rta d a p a ra a e ru d iç ã o d e s c r itiv a , q u e fa z e m
u m c â n tic o c o n tín u o d a T en ta çã o de S a n to A n tô n io ,
tu d o isto se e n c o n tr a , a in d a a n te s d e F l a u b e r t , nos
N atchez, em A ta la e nos M á r tir e s .
F o i C h a te a u b ria n d o p r im e ir o a f a z e r p a ss a r
p a ra p ro s a o e n c a n to e x ó tic o e m u s ic a l d e fra se s,
com o e s t a s :
— «A b ris a e n la n g u e s c id a d a S í r i a tr a z ia -n o s
in d o le n te m e n te o p e rfu m e d o s tu b é r c u lo s s e lv a ­
g e n s . . . V i as r u ín a s d a G rrécia b a n h a d a s n u m
o rv alh o de lu z , d if u n d id a , co m o u m p e rfu m e ,
pelas b risa s de S a la m in a e d e D e lo s . . . V o a i, av e s
d a L íb ia, v o a i ao c u m e d o I t o m e e d iz e i q u e a
filha de H o m ero v a i to r n a r a v e r os lo u r ç i r a i s de
M essénia.»
F la u b e r t le v o u m u ito lo n g e e s te c o lo rid o n a
Salambó.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 155

.Leiam o r e t r a t o d o s u m o p o n tíf ic e :

E m C a r t a g o n i n g u é m e r a t ã o s á b i o c o m o êle. N a s u a
m o cid ad e, e s t u d a r a n o c o l é g i o d o s M a g b e d s e m B o r s i p a ,
pró x im o d e B a b i l ô n i a ; d e p o i s , v i s i t a r a S a m o t r á c i a , P e s -
s i n u n t e , E fe so , a T e s s á l i a , a J u d e i a , o s t e m p l o s d o s N a b a -
teanos, q u e se p e r d e r a m n o s a r e a i s ; e d e s d e a s c a t a r a t a s
até o m a r p e r c o r r e u a p é a s m a r g e n s d o N i l o . C o m o r o s t o
coberto d e u m v é u e a g i t a n d o a r c h o t e s , d e i t a r a u m g a lo
prêto s ô b r e u m a f o g u e i r a d e s a n d a r a c a s , d i a n t e d o p e i t o d a
Esfinge, m ã e d o T e r r o r . D e s c e u à s c a v e r n a s d e P r o s e r p i n a ;
viu g i r a r a s q u i n h e n t a s c o l u n a s d o l a b i r i n t o d e L e m n o s e
resplandecer o c a n d e la b r o d e T a r e n t o , q u e s u s t i n h a n a s u a
haste t a n t a s l â m p a d a s q u a n t o s d i a s t e m o a n o .
A s vez es, à n o i t e , r e c e b i a G r e g o s , p a r a o s i n t e r r o g a r .
Inquietava-o m e n o s a c o n s titu iç ã o d o M u n d o q u e a n a t u ­
reza d os d e u s e s ; c o m a s a r m i l a s c o l o c a d a s n o p ó r t i c o d e
A le x a n d ria , o b s e r v a r a o s e q u i n ó c i o s e a c o m p a n h a r a a t é
C irene o s b e m a t i s t a s d e E v e r g e t e s , q u e m e d e m o c é u , c a l ­
c u lan d o o n ú m e r o d o s p r ó p r i o s p a s s o s ; d e m a n e i r a q u e , n o
seu p e n s a m e n t o c r e s c i a a g o r a u m a r e l i g i ã o e s p e c i a l s e m
fórm u la d i s t i n t a e p o r is s o m e s m o t ô d a c h e i a d e v e r t i g e n s
e de a r d o r e s . J á n ã o s u p u n h a a t e r r a d o fe it i o d e u m a
p in h a, m a s s i m r e d o n d a e r o l a n d o e t e r n a m e n t e n a i m e n s i ­
dade, tão v e l o z m e n t e q u e se n ã o d a v a p e l a s u a q u e d a .
( S a la m b ó J .

M a in d ro n a d a p to u m u ito o r i g in a l m e n te e ste
p ro c esso :
F ic a n d o livre m u i t o cedo, p e la m o r t e d e s e u s pais,
lançou-se e m a v e n t u r a s , p e r c o r r e u a s í n d i a s , o n d e o s b r â -
manes a d o r a m d e u s a s , c u j o s o l h o s d e p e d r a r i a s b r i l h a m
no fu n d o d o s s a n t u á r i o s ; p e n e t r o u c o m o s P o r t u g u e s e s n o
país d a s e s s ê n c i a s p r e c i o s a s , d o n á c a r e d a s e s p e c i a r i a s .
156 A rO R M A Ç Ã O DO R 8 T 1 L .O

N as M olucas, c o n v iv e u c o m os m e r c a d o r e s d e n o z m o s c a d a ,
b atalh o u c o n tra os M a la io s . c o n q u i s t o u a s b o a s g r a ç a s d o
sultáo de T c r n a tc , v iu as d u z e n t a s m u l h e r e s d ê le , v e s ti­
das de sêda b r a n c a , d a n ç o u c a n á r i a s p r e c e s s i o n a i s c o m as
putrias c as b u q u ia s co ro a d a s d e flores d a f r a n g ip a n e ir a ,
c u jo p e r f u m e e x c i t a o a m o r . T i n h a c h e g a d o a T i d o r , c u j a
alta m o n ta n h a é re m a ta d a p o r u m p e n a c h o d e c h a m a s ,
H alm aheiro, o n d e S a a v e d ra c o n s t r u í r a u m fo rte .
E r a difícil ir m a is lo n g e , p o r q u e n a o p i n i ã o d o s p ilo ­
to s . a i n d a se e n c o n t r a v a m , p a r a o s u l , a l g u m a s i l h o t a s
p erig o sa s; depois n ão h a v ia se n ã o o m a r in f in ito . A s u a
caravela tin h a , c o n tu d o , a n c o ra d o n a s p e q u e n a s e n se a d a s
das g ra n d e s ilhas do L e s te , o n d e v iv e o m a n u c ó d i o : é u m a
ave ra r a , q u e p arece feita de v id r o fiado, d e c ô r e s c a rla te ,
e na c a u d a tem d u a s m ã o s , com q u e se a g a r r a à s árv o res.
A s u a s è d e d e n o v i d a d e e r a t ã o g r a n d e , q u e t i v e r a de
ir a L uçon, a M an ila e a té à ilh a d e B a n c a , o n d e os M alaios
exploram m in a s d e e s ta n h o .
E depois c o n t i n u a r a a v ia ja r, p a r a a p r e n d e r .
N o s h i p o g e u s d o E g i t o , p r o c u r a r a s u r p r e e n d e r os
s e g r e d o s d o s m o r t o s ; e v e l h o s , p e r s e g u i d o s p e l a g e n t e de
M ahom , revelaram -lhe o m isté rio do e sc o rp ião . R ecor­
dava-se da su a voz t r ê m u l a e c a n t a n t e , q u a n d o êles lhe
diziam , os arcan o s, q u e os s e u s a n t e p a s s a d o s c o n s e rv a v a m ,
d o s ú l t i m o s s a c e r d o t e s : a m o r t e d e O s í r i s , o R i t u a l d os
J u iz e s , o L i v r o d a s A l m a s , a d o r d e I s i s , a d e d i c a ç ã o do
fiel A n ú b i s , os c i n o c é f a l o s , g u a r d a s d o s t ú m u l o s .
E partiu de novo. p a r a ir o u v ir a p a l a v r a d o s Parses
e d o s G u e b r o s , a d o r a d o r e s d o fo g o , q u e f a z e m q u e a s aves
do céu c o m a m os s e u s m o r t o s .
E n ã o se e s c a n d a l i z o u c o m e s t a s c o i s a s , n e m c o m os
feiticeiros dos N e g r o s . E s t e s , c o n t u d o , n ã o e r a m b o a g e n t e ,
pois p r e g a v a m a s c a b e ç a s d o s v i a j a n t e s e m t r o n c o s de
árvores e im ag in av am q u e as h a r p a s , s u s p e n s a s n o s ram os
d o s sicó m o ro s, e r a m t o c a d a s d e n o i t e p e l o s E s p í r i t o s ; o q u e
o levou a p e n s a r n o s d a r o e s e s , q u e g i r a v a m a t é m o r r e r .
A FORM AÇÃO L>0 H J S T I L O 157

com v e s t i m e n t a s e m f o r m a d e s i n o s ; o u t r o s , r e t a l h a v a m
o rosto com l â m i n a s a f i a d a s e p a r e c i a m c h o r a r s a n g u e ;
outros a i n d a e x i b i a m , a o s o m d a s f r a u t a s , s e r p e n t e s e n r o ­
ladas em c e s to s e d e p o i s f a z i a m - n a s d a n ç a r .
( M a i n d r o n , O T o r n e io d e V a u p L a s s a n s ) .

O n tro a u to r e s c re v e , n e s te g ê n e ro , e s ta p a r á ­
frase p o é tic a s o b re as í n d i a s :

Encostada ao m eu b ra ço , d e s c r e v ia - m e a s u a v id a d e
daquela v i a g e m , e n u m e r a v a - m e a s m a r a v i l h a s m a i s d i g n a s
de se v e r e m : os p a l á c i o s d o s r a j á s , d e z i m b ó r i o s b r a n c o s ,
ao l u a r ; o s t e m p l o s e x t r a o r d i n á r i o s , c o m o s s e u s c o l o s s o s
de olhos d e v i d r o , r e d o n d o s , q u e d o r m e m m u d o s e t e r r í ­
veis ao f u n d o d a s s a l a s e t e r n a m e n t e t e n e b r o s a s ; a s n e c r ó -
poles d e s m e d i d a s , o s m o n u m e n t o s , o n d e se a c u m u l a m m a i s
pedras q u e as d e u m a c i d a d e , o s t e r r a ç o s q u e n t e s , o n d e se
vê, ao som d o s t a m b o r e s , o v o l t e a r d a s b a i l a d e i r a s l a s c i v a s ,
que re fresc am c o m o a g i t a r d a s s u a s d a n ç a s o s f u m a d o r e s ,
de c o m p rid o s c a c h i m b o s , s e n t a d o s e m v o l t a , d e p e r n a s
cruzadas.
T ran sp o ríam o s os e n o r m e s p o rtõ es d a s c id a d e la s ; os
nossos pés r e f l e c t i r - s e - i a m n o e s p e l h a m e n t o d o s m o s a i c o s ,
que lajeiam a s m e s q u i t a s . I r í a m o s a c a s a d o s G u n d e s .
Ouviríam os os c h a c a i s l a d r a r e m . V e r í a m o s os f a q u i r e s
abrirem as p á l p e b r a s a o sol e o s s a l t i m b a n c o s e n c a n t a r e m
os répteis, t o c a n d o f r a u t a .
C om eríam os m el n a s c a b a n a s dos V ed a s.
E m balados em p a l a n q u i n s , c o n d u z id o s no d o rso dos
elefantes, a t r a v e s s a r í a m o s f l o r e s t a s d e c o q u e i r o s , c h e i a s
de pavões e c o l i b r i s .
V isitaríam os os c o n v e n to s b u d is ta s , as h a b ita ç õ e s dos
padixás, e v o g a r í a m o s e m c a i q u e s , n o G a n g e s , e n t r e o p e r ­
fume d a s l a r a n j e i r a s e d o s j a s m i n s , a o f u n d o d a s m o n t a n h a s ,
onde se e n c o n t r a o ó n i x e o l a p i s - l a z ú l i .
1ss A FO R M AÇA O D O B S T IIiO

Se F la u b e r t é u m s u g e s tiv o e x e m p lo d a boa
assim ilação d e C h a te a u b ria n d , M a r c h a n g y e o
V isco n d e d e A r li n c o u r t fic a ra m c é le b re s p e la m á
im ita ç ã o , q u e fiz e ra m , do m e sm o e s c r ito r .
A o fa z e re m o c o n tr á r io d o q u e F l a u b e r t tin h a
feito , isto é, ao e x tr a ír e m s o m e n te d e C h a te a u ­
b r ia n d o q u e n e le h a v ia d e a n tig o , m e r g u lh a r a m - s e
s o le n e m e n te n u m m e re c id o e s q u e c im e n to .
L e d e e s ta s lin h a s :

E n q u a n t o o i n d o m á v e l c a v a l e i r o se e n t r e g a v a assim
a o a r d o r d a s u a r u d e i m a g i n a ç ã o , o s c l a r õ e s d a l a r e i r a p ro ­
l o n g a v a m , a té o f u n d o d o a p o s e n t o , a s o m b r a i n c o m e n s u -
rá v e l d a s u a n o b r e e s t a t u r a , q u e se e l e v a v a a t é à s a b ó b a d a s
b r a s o n a d a s . D i r - s e - i a o g ê n i o d o s t e m p o s b á r b a r o s (**),
r e p e t i n d o as s u a s i n v a s õ e s ; o u , a n t e s , a q u ê l e so b erb o
a t l e t a d o r e g i m e f e u d a l p a r e c i a o a r r a n j o d a s t r e v a s (*),
colocado j u n t o à s p o r t a s d a l u z , p a r a a i m p e d i r d e p e n e t r a r
n u m m u n d o feliz d a s u a i g n o r â n c i a , d a s s u a s p u d i c a s ilusões,
da s u a c r e d u l i d a d e e d o s s e u s m i s t é r i o s .
( M a r c h a n g y , T r is tã o o V i a j a n t e , c. i).

E isto a in d a :

S e p o r a c a s o o c a ç a d o r p e n e t r a n a d e n s i d a d e d o s bos­
q u es, q u e f e c h a m a e n t r a d a d a r e s i d ê n c i a i g n o r a d a , se
m a r c h a a t r a v é s d o s e s p i n h e i r o s , q u e c r e s c e r a m e n t r e as

í 1) « O g ê n io d a s o l i d ã o , o g ê n i o d o s a r e s » , e x p r e s s ã o
de q u e C h a t e a u b r i a n d t a n t o a b u s o u .
(*) « O anjo d a s t r e v a s , o a n j o d o s s a n t o s a m o r e s . . . »
O s M á r tir e s estão c h e io s d e s t a s e s p é c i e s d e a n j o s .
A FORM AÇÃO DO JB1STIDO 159

p e d ra s d o l i m i a r i n f r e q ü e n t a d o (1), a d m i r a - s e a o v e r a q u e l a
m u l h e r e n c a n t a d o r a , p e r a n t e a q u a l se d e tiv e r a m os s é c u lo s . . .
A em b riag u e z é p a r a os B retões o q u e o sono é p a r a
os q u e s o f r e m , o q u e o d e lic io s o ó p io d e s t i l a d o p e l a d o r m i-
deira n e g r a d a T e b a i d a é p a r a o a m o r o s o A b e n c e r r a g e m , q u e
devan eia ao m u r m ú r io d a s f o n t e s d a A l h a m b r a .

E e x a c ta m e n te o e s tilo d e C h a te a u b r ia n d , em
re m in isc ê n c ia e e m in s ip id e z .
E is a q u i, p a r a c o n c lu ir, u m a p a s s a g e m d e
A rlin c o u rt, e m q u e a im ita ç ã o d a m á d e sc riç ã o
de C h a te a u b r ia n d p r o d u z h o je o e fe ito d e u m a
fa e é c ia :

O s in o s a n to a c a b a v a d e c h a m a r p a r a a o ra ç ã o d a n o ite
os devotos do v a le . J á a c a p e l a d o p r i o r a d o , ú n i c a i g r e j a d o
lu garejo, r e ü n i a o s a ld e õ e s, q u e tin h a m r e g r e s s a d o d o s s e u s
tr a b a lh o s ; E l o d i a e s t á so b a a b ó b a d a s a g r a d a ; e a s s u a s
a rd e n te s s ú p l i c a s p e d e m a o E n t e S u p r e m o a v i d a d o seu
pai a d o p t i v o . A s s o m b r a s d a n o ite c o b r e m o m o s t e i r o .
O c a n t o d o p a d r e , o s c â n tic o s d o s m o n ta n h e s e s e a s d o ces
vozes d a in fâ n c ia , e l e v a n d o - s e , e m c ô ro , à s c ú p u l a s e te r n a s ,
h av iam m e r g u l h a d o a a l m a d e E l o d i a n u m a p i e d o s a e
s a n ta t r i s t e z a . . .
d f r o i x a c la r id a d e , q u e a tr a v e s s a v a os v e lh o s v i t r a i s d a
capela l a t e r a l, v i u u m d e s c o n h e c i d o . . . C o n c l u í r a m - s e os
ofícios d a n o i t e : u m p r o f u n d o s i l ê n c i o s u c e d e a o s h i n o s
sa g ra d o s . A m u l t i d ã o p a s s a l e n t a m e n t e s o b o p ó r t i c o e o
anjo d a o ra çã o r e to m o u o s e u vô o p a r a o tr o n o i m o r t a l , , .(*)

(*) « O s b o s q u e s i n f r c q ü e n t a d o s », C h a t e a u b r i a n d , M e ­
m ória s.
160 A rO R M A Ç A O DO 88T IL O

T am b ém se re c o n h e c e a q u i o v o c a b u l á r i o de
C h a te a u b ria n d .
N em s e q u e r foi e s q u e c id o «o a n jo d a o ra ç ã o * .
S e g u n d o os g r a n d e s m e s tr e s , h á u m a o b r a , q u e
é p reciso le r, p a ra se f o r m a r o e s tilo d e s c r itiv o .
É a C riança de J ú l i o V a llé s .
J ú lio V allés, r e v o lu c io n á rio d e m a g o g o , p a s s o u
a su a v id a a e sc a rn e c e r d e H o m e r o e d o s clás­
sicos, e n in g u é m se a s s e m e lh a m a is q u e ele a
H o m ero .
N ão conheço le itu r a m a is i n t e r e s s a n t e q u e a d a
C ria n ça , liv ro de c a p ítu lo s b r u s c o s , q u e p a re c e m
te r sido escrito s a lá p is , n a s f o lh a s d e u m a c a r­
te ira .
O seu processo d e s c r itiv o v a i ao f u n d o das
coisas.
F a la n d o d e u m g a ro to im p ie d o s o , d i z :
— «U m a vez, c o rto u a c a u d a d e u m g a t o com
u m a n a v a lh a d e b a rb a , e a c a u d a p i n g a v a com o
u m a v ela d e c e ra , q u e se d e r r e t e à a c ç ã o d a luz.»
A p ó s o d e sb a ra to d a C o m u n a , e s c r e v e :
— «O lho p a ra o c é u , d o la d o o n d e s i n t o P a ris .
M ostra o a z u l c ru , com n u v e n s v e r m e l h a s ; d ir-s e -ia
g ran d e b lu sa m a n c h a d a d e s a n g u e .»
L eia-se este r e t r a t o :
— «Cabeça m o v e d iç a , s e m b la n t e p a r d a c e n to ,
grande n a rtz em bico, ra ch a d o e s t u p i d a m e n t e ao
meio, boca n u a , onde se m ove, p o r e n tr e a s g en g i­
vas, um a ponta de lín g u a , ro sa d a e b u liç o sa , com o
a de u m a c ria n ç a ; te z v io lá c e a . P o r c im a d e tu d o
A FORM AÇÃO DO H S T IL O 161

isto , u m a la r g a f r o n te e p u p ila s , q u e b rilh a m como


fa ísca s de h u lh a . E B la n q u i.*
V alló s e ra u m s im p le s e u m i n s ti n ti v o . C o m ­
p re e n d e u a n a tu r e z a p e la fo rm a a n tig a .
S e p a ra d o is o u tr ê s p o rm e n o re s a tr a e n t e s e
d e sp re z a o c o n ju n to .
E is u m p u n h a d o d e id é ia s e s c o lh id a s :

O c e m i t é r i o fica p e r t o d a ig r e j a , e n ã o t e n h o c r i a n ç a s
com q u e m b r i n q u e .
S o p r a u m v e n t o á s p e r o q u e v a r r e a te r r a c o m c ó l e r a ,
p o rq u e n ã o c o n s e g u e a c o i t a r - s e n a f o l h a g e m d a s g r a n d e s
á rv o res.
V e jo s o m e n t e p i n h e i r o s m a g r o s , c o m p r id o s c o m o m a s ­
tros, e a m o n t a n h a a p a r e c e lá ao f u n d o , n u a e p e l a d a c o m o
o dorso d e s c a r n a d o d e u m e l e f a n t e . . .
T u d o v a z io , v a z i o a p e n a s c o m o s b o i s d e i t a d o s o u c a v a ­
los, p o sto s d e p é , n o s c a m p o s .
H á cam in h o s de p ed ras cin zentas, com o co n c h a s de
rom eiros, e r i o s q u e t ê m a s m a r g e n s a v e r m e l h a d a s , c o m o
tin g id a s d e s a n g u e ; a r e l v a e s t á e s c u r a . . .
M as, p o u c o a pouco, o a r r u d e d a s m o n t a n h a s v e r g a s ­
ta -m e o s a n g u e e f a z - m e a r r e p i a r a p e l e . . .
E s c a n c a r o a b ô c a p a r a o b e* b e r , a f a s t o a c a m i s a
p ara q u e êle m e to q u e n o p e ito . E e s q u i s i t o ! D e p o i s d e
êle m e b a n h a r , s e n t i o o l h a r t ã o p u r o , a s i d é i a s t ã o
claras! .. .
S e s o b e a l g u m f u m o , é u m a a l e g r i a no e s p a ç o ; sobe,
como i n c e n s o , d o l u m e d e l e n h a s ê c a , a c e s o a l é m p o r u m
p asto r, o u l u m e d e s a r m e n t o fre s c o , s ô b r e o q u a l u m p e q u e n o
va q u eiro a s s o p r a , n a q u e la c a b a n a , p o r b a i x o d a q u e l a m a t a
de p in h e ir o s .. .
Há o aquário, p a ra o n d e tô d a a á g u a d a m o n tan h a
corre e s p u m a n d o , e tã o f r i a q u e q u e im a os d e d o s ; a l g u n s
11
162 A FORM AÇÃO DO E S T I L O

p eix es b rin c a m n e la . F êz-se u m p e q u e n o g r a d e a m e n to p a r a


im p e d ir q u e éles p a s s e m .
E g a sto q u a r to s d e h o ra a v e r f e r v i l h a r a q u e la á g u a ,
a o u vi-la c h e g a r , a v é -la ir - s e e m b o r a , a f a s ta n d o -s e como
u m a sa ia b ra n c a sô b re a s p e d r a s . . . O r io e s tá c h e io de
t r u t a s ; e n tre i u m a vez n ê le a té à s c o x a s, p a r e c e u - m e que
tin h a a s p e r n a s c o rta d a s com u m a s e r r a d e g é l o . E u m a
a le g ria s e n tir e s ta p r im e ir a im p re s s ã o ! d e p o is , m e to a s m ão s
n a s to c a s e a p a lp o -a s ; a s t r u t a s e s c o r r e g a m - m e p o r e n t r e os
d e d o s ; m a s o tio R é g io e s tá a li e sa b e a g a r r á - l a s e d e itá -la s
p a r a a re lv a , onde p a re c e m lâ m in a s de p r a t a , c o m p in ta s
d o u ra d a s e m a n c h a z in h a s de s a n g u e .

I s to p arece a m a d escrição d e T e ó c rito .


N ão posso a b s te r-m e de c ita r e s ta se n s a ç ã o do
cam po:

C o n d u z e m -m e ao m e u q u a r to , q u e fica ju n to d o c e le iro ,
— o n d e, n o in v e rn o p a s s a d o , h a v ia m p e n d u r a d o c a c h o s de
u v as e e m p ilh a d o m a ç ã s em c a m a s d e f u n c h o e d e a lfa ­
zem a. F ic o u n êle u m p e rfu m e , e d e ix o a p o r t a a b e r ta p a r a
q u e êle e n tre n o m e u q u a r t o . . . P o n h o -m e à ja n e la e vejo
ao lo n g e , a p a g a r e m -s e a s c a b a n a s . U m r o u x in o l ro ç a p o r
u m m o n te d e le n h a e p õ e -s e a c a n ta r . H á ta m b é m o cu co ,
q u e f a z h u - h u n a s á r v o r e s d o g r a n d e b o s q u e e a s rã s
c o a x a m ... E s c u to , e a c a b o p o r n ã o o u v i r c o is a n e n h u m a . . .
O sol d e s p e rta -m e em s o b re s s a lto ; e u t i n h a a d o r m e c id o com
a cabeça n a s m ão s, e d is p o -m e , tr e m e n d o , p a r a d o r m i r , de
u m sono sem s o n h a r, a to r d o a d o d e p e r f u m e , a n i q u i l a d o de
f e li c i d a d e ... D ois d ia s c o m o ê s te , — j u n t o d o s b o s q u e s ,
e n tre flores, o v ib r a r do m a n g u a l n a s e ir a s , o c a n to s u a v e
das rib eira s, o p e r fu m e do s a b u g u e ir o . . .

H o m ero d e sc re v ia a s s im p o r ju s ta p o s iç ã o , p o r
p in celad as d is tin ta s .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 163

Se V alló s faz u m r e t r a to , é s e m p re o p ro c e s s o
da c u rv a d a b o ssa , o re le v o , o tr a ç o in s u la d o ,
n ítid o , d a q u ilo q u e o ro d e ia .
E is o r e t r a t o d a s u a jo v e m t i a :

U m a m o re n a a l t a , co m o lh o s e n o r m e s , o lh o s n e g r o s ,
m u ito n e g ro s e q u e q u e im a m ; e la r e v ir a - o s , c o m o e u r e v ir o
um e sp e lh o p a r tid o , p a r a la n ç a r f a í s c a s ; r e v ir a m - s e n o s
cantos, sobem a o c é u e le v a m - n o s co m ê le s .

O m esm o p ro c e ss o , q u a n d o d e s c re v e o a n d a r
de u m a m u l a :

A b ê sta v a i a p a s s o , t á , t á , t á , t á , tá , t á ! m u i to r a s ­
t e i r a ; p a re c e q u e o s e u p e sc o ç o s e v a i p a r t i r , e a s u a c r i n a ,
côr de m u s g o , c a i- lh e s ô b r e os s e u s g r a n d e s o lh o s , q u e se
assem elh am a c o ra ç õ e s d e c a r n e ir o .

A g o ra , fa la d e p a s s a g e iro s , q u e e s tã o c o m e le
no n a v io :

Ê le s são m a is b u liç o s o s q u e e u e n ã o se d e tê m a m e io
da p o n te, co m os lá b io s e n t r e a b e r t o s e a s n a r i n a s t r e m u l a s ,
p ara r e s p ir a r e b e b e r o v e n tin h o q u e p a s s a : b r i s a d a m a n h ã ,
que a g ita a s fô lh a s n o c im o d a s á r v o r e s e a s r e n d a s n o p e s ­
coço das p a s s a g e ir a s . O c é u é c la r o , a s c a s a s s ã o b r a n c a s , o
rio é a z u l; n a m a r g e m h á j a r d i n s c h e io s d e r o s a s e a v is to
o ex trem o d a c id a d e , q u e se m o v im e n ta a l e g r e !

T em a lg u m a s fra s e s , q u e são p u r o H o m e r o :

T ô d a a g e n te se a g i t a v a , c o r r ia e f u g i a , c o m o in s e c to s ,
q u an d o eu a t i r a v a u m a p e d r a , à b e i r a d o c a m p o .
164 A rORM AÇAO DO HJ8TILO

U m e s tá b u lo a ld e ã o :

Ao entrar-sc naquela cavalariça, sente-se o cheiro


quente de estrum e e de b ê s ta s s u a d a s , que a v a n ç a , como
um b a fo .

A m u ltid ã o e m t u m u l t o :

U m a o n d a d e povo e n c o b re -m e e a r r a s t a - m e . . . N ão
se d i s t in g u e q u á s i n a d a n o flu x o e re flu x o ; o im p u ls o da
c o n te n d a q u e b r a e c o n f u n d e a s f ile ir a s h u m a n a s , como
a m a ré f a z r o la r e c o n fu n d ir a s p e d r in h a s , sõ b re a areia
das p r a ia s .

E is to :

E m 9 3 , a s b a io n e ta s s a í r a m d a t e r r a c o m u m a id é ia na
e x tre m id a d e , à s e m e lh a n ç a d e u m g r a n d e p ã o .

E ó s e m p re a s s i m : m a te r ia lid a d e v is ív e l, a
p in c e la d a d e g r a n d e e s c r ito r , q u e s a b e q u e se
m o s tra m m e lh o r as co isas c o m d o is o u tr ê s p o rm e ­
n o re s s a lie n te s , d o q u e c o m u m a d e s c riç ã o g eral.
E fe c tiv a m e n te , q u e r e r d iz e r t u d o é d em ais.
T ra ta -s e d e e s c o lh e r, e d e p ô r e m re le v o aq u ilo
q u e se esco lh eu .
E nisso q u e e s tá a a r t e , e ó n is s o q u e V allé s é
g ra n d e a rtis ta .
C A P ÍT U L O V I I

0 fa ls o e s tilo d e sc ritiv o

A má descrição : Telémaco. — Telémaco, falsa imitação de


Homero. — Homero e Mistral. — A descrição incolor
de Telémaco. — Opiniões sôbre Telémaco.

A c a b a m o s d e v e r q u e os a u to r e s , q u e se d e v e m
im ita r, são a q u e le s q u e fiz e ra m a d e s c riç ã o v iv a ,
p a lp á v e l e p o r m e n o r iz a d a .
É e s s e n c ia l a s s in a la r - s e a g o r a a f a ls a d e s c riç ã o ,
aquela q u e se j u l g a q u e d e s c re v e e q u e n a d a m o s ­
tra, p o rq u e é f e ita d e im a g in a ç ã o e q u e r e d is p e n s a r
a re a lid a d e .
E s ta d e s c riç ã o a r tif ic ia l e s tá a in d a e m v i g o r ,
n a lg u n s C u rso s de L ite r a tu r a .
O p re c o n c e ito é tã o te n a z , q u e p r e c is a m o s f a l a r
n itid a m e n te , p a r a p r e c a v e r os ta le n to s i n e x p e ­
rien tes.
O Telém aco ó o l i v r o q u e i n c a r n a a d e s c riç ã o
artificial.
D ig a m o -lo b e m a l t o : n u n c a se c o n s e g u ir á c r i a r
estilo d e s c r itiv o , to m a n d o T elém a co p o r m o d e lo ,
apesar de F é n e lo n s e r e x c e le n te e s c r ito r .
166 ▲ FORM AÇÃO DO B S T 1 L .O

D e ix a i fa la r os a m a d o r e s d a r o t i n a l i t e r á r i a e
p ro c u ra i c o n s e g u ir q u e e le s c o r r i j a m u m a c ó p ia de
e s tu d a n te .
O u n ão te r ã o n o ç ã o a lg u m a d o e s tilo , o u serão
o b rig a d o s a c e n s u r a r n o a lu n o as t r i v i a l i d a d e s q u e
a p ro v a m em Telém aco.
T a l im ita ç ã o ó a p r ó p r ia e s te r ilid a d e d a a r t e de
e sc re v e r.
O b ra d e e s tilo frio , Telém aco fe z m u i to m a l à
n o ss a lite r a tu r a .
S e m Telém aco, C h a te a u b r ia n d n ã o te r i a e sc rito
o s e u p o e m a em p ro s a N a tc h e z e o d o s M á r tir e s,
in e x p re s s iv o e in c o lo r e m g r a n d e p a r te , pelo
m e n o s; e tê -lo -ia e s c rito n a l í n g u a d e A ta la o u das
M em órias de A lé m -T ú m u lo .
S e m Telém aco, n ã o te r ía m o s tid o a lo n g a escola
de d e sc riç ã o e n fa d o n h a , q u e t e r m i n a e m F lo ria n ,
R a y n a l, M a rm o n te l, B a r th ó le m y , B a lla n c h e , etc.
Q u an d o se c o m p a ra T elém aco c o m n a r r a tiv a s
d e H o m e ro , c a u sa e s p a n to v e r u m h o m e m , que
s e n tiu tã o p r o f u n d a m e n te a A n tig u i d a d e , a fo g a r
o se u ta le n to n u m a r e tó r ic a tã o g la c ia l.
C o n te n te m o -n o s , p o r a g o ra , c o m d e n u n c ia r
Telémaco, com o o esc o lh o d a a r t e d e s c r itiv a , o
rev erso de to d a a d e sc riç ã o a n im a d a .
O ensino p ro fe s s o ra l p r o p u n h a - o p a r a m odelo.
D ev e ser p ro s c rito .
E is a q u i com o F ó n e lo n d e s c re v e u m a c o rrid a
de carro s.
A F O R M A Ç Ã O D O B J8T IL O 167

P a r tim o s : u m a n u v e m d e p o e ira voa e co b re o céu. Ao


p rin c íp io , d e ix a v a p a s s a r os o u tro s a d ia n te de m im . U m
jovem laced em ó n io , c h a m a d o C r a n to r , d eix av a logo todos
os o u tro s a tr á s d e si. U m c re te n se , ch a m a d o P o licleto
seg u iu -o d e p e rto . H ip ó m aco , p a i de Idom eneia, q u e a sp i­
rava a s u c e d e r-lh e , la rg a n d o as ré d e a s aos seu s cavalos,
fum eg an tes d e s u o r, in c lin a v a -s e todo sô b re a s c rin a s flu ­
tu a n te s: e o m o v im e n to d a s ro d a s do seu c a rro e ra tão
rápido, q u e p a re c ia m im ó v eis, com o as a^&s de u m a á g u ia ,
que ra sg a os a re s.
O s m eu s c a v a lo s a n im a ra m -s e e p u se ra m -se , d e n tro em
pouco, a re s fo le g a r; e u d e ix a v a , m u ito a trá s de m im , q u á si
todos aq u e le s q u e tin h a m p a r tid o com ta n to a rd o r.
Q u a n d o H ip ó m a c o , p a i d e Id o m en eia, ex c itav a cada
vez m ais os se u s c a v a lo s, o m a is v ig o ro so c a iu e, com a
sua q u ed a , tir o u a seu d o n o a e sp e ra n ç a de re in a r. P o li­
cleto, in c lin a n d o -s e m u ito sô b re os seu s cavalos, n ão se
pôde c o n se rv a r firm e , p o r o casião de u m sa lto ; caiu , as
rédeas e sc a p a ra m -s e -lh e , e m u ito feliz se ju lg o u em po d er
evitar a m o rte.
C ra n to r, v e n d o , com o lh o s ch eio s de in d ig n a ç ã o , q u e
eu estava p e rto d ê le , re d o b ro u o seu a r d o r: o ra invocava
os deuses e lh e s p ro m e tia ric a s o fe rta s, o ra falav a aos c a v a ­
los, p a ra os e x c ita r ; re c e a v a q u e eu p assasse e n tre êle e
a m eta; m a s os m e u s ca v alo s, m a is bem d irig id o s q u e os
dêle, estav am em c irc u n s tâ n c ia de lh e to m a r a d i a n t e i r a :
não lhe re sta v a o u tr o re c u rs o , se n ã o v e d a r-m e a p assag e m .
P ara o c o n s e g u ir, a rris c o u -s e a d e sp e d a ç a r-se c o n tra a
m eta; efectiv am en te, p a r tiu a li a s u a ro d a , etc.
(T e lé m a c o , 1. v).

Salvo o tra ç o : «os cavalos fu m e g a n te s de suor»


e a com paração d as ro d as q u e p arecem «im óveis
como as asas da á g u ia » , o re sto , in e x p re ssiv a m e n te
copiado de a lg u m a coisa de H o m ero e de V e rg ílio ,
168 A . FORM AÇÃO DO B 8 T I L .O

é u m a d e sc riç ã o in o r g â n ic a , m e r a m e n te in d ic a tiv a ,
u m bom fra n c ê s d e r e tó r ic a .
E is a g o ra a q u i a e n é r g i c a d e s c r iç ã o d e H om ero ,
q u e a c e n tu a os p o r m e n o r e s , s e m o s m u ltip lic a r , e
q u e d á a v isã o m a t e r i a l d a c o r r i d a :

E to d o s j u n t o s , e r g u e n d o o c h i c o t e e e x c ita n d o com cie


e com a v o z o s U v a l o s , se p r e c i p i t a r a m n a p la n íc ie , longe
d a s n a u s . E a p o e ir a s u b i a e m v o l t a d o s s e u s p e ito s, com o
U m a n u v e m , o u co m o u m a t e m p e s t a d e ; a s c r i n a s flu tu a v a m
ao v e n to ; e o s c a r r o s , o r a p a r e c ia m e n te r r a r - s e , o ra sa lta ­
v a m p o r c im a d a te r r a . M a s o s c o n d u t o r e s c o n s e rv a v a m -s e
firm e s n o s s e u s l u g a r e s .
Q u a n d o o s c a v a lo s , r á p id o s , d e p o is d e a t i n g i r a m eta,
v o lta r a m p a r a a b a n d a d o m a r , o a r d o r d o s c o m b a te n te s
e a v e lo c id a d e d a c o r r i d a t o r n a r a m - s e v is ív e is . P rim e iro ,
a p a re c e ra m a s m u la s d e F e r e t í a d e s ; e m s e g u i d a os cavalos
tr o ia n o s d e D io m e d e s ia m tã o p e r t o , q u e p a r e c ia m querer
s a lta r p a r a o c a r r o . E a s c o s ta s e o s l a r g o s o m b ro s de
E u m e lo e s ta v a m q u e n te s do s e u b a fo , p o is a s c a b e ç a s p o u sa ­
v a m sô b re ê le . E c e r t a m e n t e D io m e d e s v e n c e r ia o u to r n a r ia
a l u t a i g u a l , se F e b o A p o io , i r r i t a d o c o n t r a o filh o de
T id e u , lh e n ã o fize sse c a i r d a s m ã o s o e s p lê n d id o ch ico te.
B r o ta r a m d o s s e u s o lh o s l á g r i m a s d e c ó le r a , q u a n d o viu
as m u la s d e E u m e lo p r e c i p i t a r e m - s e m a is r á p i d a s e o s se u s
p ró p rio s c a v a lo s a f r o u x a r e m , p o r n ã o s e r e m j á e s tim u la d o s .
M a s o filh o d e T i d e u c h e g o u , m o v e n d o se m d e sc an so
o c h ic o te s ô b re o s s e u s c a v a lo s , q u e , c o r r e n d o , le v a n ta v a m
u m a a lta p o e ir a q u e e n v o lv ia o s e u c o n d u to r . E o ca rro ,
o rn a d o d e o u ro e e s ta n h o , e r a le v a d o p e lo s c a v a lo s rá p id o s ;
e a ó r b ita d a s r o d a s d e i x a v a a p e n a s u m tr a ç o n a p o eira ,
tã o v e lo z m e n te c o r r ia m os c a v a lo s . O c a r r o p a r o u ao meio
d o e s tá d io e c o rria m o n d a s d e s u o r d a c a b e ç a e do p e ito dos
c a v a lo s. E D io m e d e s s a l t o u d o s e u c a r r o b r i l h a n t e e encos­
to u o c h ic o te ao ju g o .
A FORM AÇÃO DO B JST IL O 169

E n t ã o , s e m d e m o r a , o b ra v o E s té n e lo s e g u r o u o p r ê ­
m io . E n t r e g o u a m u l h e r e a t r ip e ç a d e d u a s a s a s a o s s e u »
m a g n â n im o s c o m p a n h e ir o s e ê le p r ó p r io d e s a tr e lo u o s
c a v a lo s .

A a p r o x im a ç ã o d e s te s d o is tr e c h o s ó m a is e lo ­
q ü e n te q u e to d o s os c o m e n tá rio s .
N ão a b a n d o n e m o s p o r e n q u a n to e s te a s s u n to .
F ó n e lo n d e s c re v e a l u t a ( p u g ila to ) e n tr e H íp ia s
e T e lé m a c o :

H íp ia s , q u e q u e r i a v a le r - s e d a v a n ta g e m d a s u a fô rç a ,
p r e c ip ito u - s e p a r a o a r r e b a t a r d a s m ã o s d o filh o d e U lis ­
ses. A e s p a d a p a r te - s e n a s s u a s m ã o s ; êJes a g a r r a m - s e e
c o m p r im e m -s c . E i- lo s c o m o d o is a n im a is c r u é is , q u e p r o ­
c u ra m d e s p e d a ç a r - s e ; o f o g o b r ilh a n o s s e u s o lh o s : e n c o -
Ihem -se, e s te n d e m -s e , le v a n ta m - s e , to r n a m a e r g u e r - s e , p r e ­
c ip ita m -s e , e s tã o m a n c h a d o s de s a n g u e . E i- lo s a g a r r a d o s ,
pé c o n tra p é , m ã o c o n t r a m ã o ; a q u ê le s d o is c o rp o s e n la ç a d o s
p arecem fa z e r u m só . M a s H íp ia s , d e m a is i d a d e , p a r e c ia
dever a n i q u i l a r T e lé m a c o , c u ja t e n r a m o c id a d e e r a m e n o s
n erv o sa. J á T e lé m a c o , s e m r e s p ir a ç ã o s e n tia os j o e l h o s v e r -
g a r e m - s e -lh e ; e H íp ia s , v e n d o -o e s m o re c e r, r e d o b r a v a o s s e u s
e sfo rço s. O filh o d e U lis s e s ia s e r v e n c id o ; i r i a s o f r e r o
c a stig o d a s u a te m e r id a d e e do s e u a r r e b a ta m e n to se M in e r v a ,
que d e lo n g e v e la v a p o r ê le , e q u e o d e ix a r a c h e g a r à q u e la
e x tre m id a d e d o p e r ig o , s o m e n te p a r a o i n s t r u i r , n ã o h o u ­
vesse d e te r m in a d o a v i t ó r i a a f a v o r d ê le i f ) . (*)

(*) N o u tr o s p o n to s , em id ê n tic a p a s s a g e m , F é n e lo n
ac rescen ta o u tr o s tr a ç o s , q u e n ã o a u m e n t a m m u ito a e n e r ­
g ia d e s c r itiv a : « A g a r r a m o - n o s a p e r ta m o - n o s a p o n to d e
não p o d e rm o s r e s p i r a r ; e s tá v a m o s o m b ro c o n t r a o m b ro ,
pé c o n tra p é , to d o s o s n e r v o s d is t e n d i d o s , e t c . » . N o c o m -
170 A FORM AÇÃO DO H S T IL O

T u d o is to ó a p e n a s u m a d e s c r iç ã o s e m re le v o ;
u m a lu t a a tlé tic a , c o m o u m p r e l a d o e x e m p la r a
p o d e im a g in a r n o re c e s s o d o s e u g a b in e t e .
C o n té m s ò m e n te t r a ç o s g e r a i s , a fis io n o m ia con­
v e n c io n a l d a q u e la c o n te n d a , q u e se c h a m a u m
c o m b a te a m u r r o .
N a d a é c ir c u n s ta n c i a d o , n a d a é m a t e r ia l .
A s p a s s a g e n s d e H o m e r o , q u e c ita m o s , podem
fa z e r a d i v i n h a r c o m o é q u e o g r a n d e p o e ta d e sc re ­
v e r ia a c e n a . T e r ía m o s s e n s a ç õ e s im p re s s io n a n te s ,
d e f a z e r b a t e r os d e n t e s ; v e r - s e - ia c o r r e r o su o r;
m o s tr a r - n o s - ia o v e n c id o , v o m i t a n d o s a n g u e .
E é b e m a s s im q u e H o m e r o n o s d e s c r e v e a lu ta
e n tr e E p e u e E u r í a l o , n o ú l t i m o c a n to d a llía d a :

O s d o is c o m b a t e n t e s a v a n ç a r a m p a r a o m e io d a aren a.
E a m b o s , e r g u e n d o a o m e s m o te m p o a s s u a s m ã o s v ig o ro sa s,
a o m e s m o te m p o s e b a t e r a m , c o n f u n d i n d o o s s e u s p u n h o s
P e sa d o s. E o u v ia - s e o r u íd o d o s q u e i x o s c o n tu n d id o s , e o suor
b r o ta v a q u e n te d e to d o s o s s e u s m e m b r o s . M a s <o divino
E p e u , p r e c i p i t a n d o - s e p a r a a f r e n t e , b a t e u p o r to d o s os
la d o s a fa c e d e E u r í a l o , q u e n ã o p ô d e r e s i s t i r p o r m a is tem po
e c u jo s « m e m b ro s f r a q u e j a v a m . A s s im c o m o o p e ix e , q u e é
la n ç a d o p e lo s ô p r o f u r i o s o d e B ó r e a s n a s a l g a s d a m argem
e q u e a á g u a n e g r a r e c u p e r a , a s s i m E u r í a l o . fe rid o , sa lto u .
M a s o m a g n â n im o E p e u e r g u e u - o , ê l e p r ó p r i o , e os seus

b a te d o C é s ta ( liv r o v ) , r e c o r d a - s e u m p o u c o m a is de
H o m e ro e faz « v o m i t a r o s a n g u e » e « d e r r a m a r u m a nuvem
s ô b re o s o lh o s » . A s u a n a t u r a l i d a d e n ã o v a i m a is lo n g e;
te m m ê d o d o r e a lis m o . C o n t e n t a - s e c o m r e p e t i r a u to m a tic a ­
m e n te a s id é ia s d o s e u ip o d ê lo .
A FORM AÇÃO DO B J8T IL O 171

q u e r id o s c o m p a n h e ir o s , ro d e a n d o -o , le v a r a m -n o a tr a v é s d a
a s s e m b lé ia , c o m o s p é s d e r a s to s , v o m ita n d o s a n g u e e sp ê sso
e a c a b e ç a p e n d id a . C o n d u z ir a m - n o a s s im , a m p a r a n d o -o ,}
e le v a r a m ta m b é m a t a ç a r e d o n d a .

V ê -se a d if e r e n ç a : u m b a ix o -re lê v o ao la d o d e
u m fr e sc o .
M as d ir ã o q u e F ó n e lo n n ã o ó H o m e ro .
C e r ta m e n te .
M as q u is im itá - lo , e ra o s e u fim . O ra a s u a im i­
tação ó in c o lo r e n ó s te m o s o d ir e ito d e d iz e r q u e
e p re c iso q u e o n ã o to m e m co m o e x e m p lo .
E , se n o s o b s e rv a s s e m q u e e le t i n h a im ita d o
H o m e ro , à m a n e ir a do s e u te m p o , r e s p o n d e r ía m o s :
É p o ss ív e l, m a s ó u m a m a n e ira d e te s tá v e l, eis
tu d o . P a r a q u e lh e s e r v ia e n tã o o c o n h e c im e n to d o
g reg o , a v id a d o te x to , o re c u rs o d a lite r a lid a d e ,
que B o s s u e t ta n t o p r o c u r a v a ?
A v e r d a d e é q u e F ó n e lo n n ã o ti n h a ta le n to d e s ­
c ritiv o : c o m p re e n d ia b a s ta n te H o m e ro p a r a o a d m i­
rar, m as n ã o o s e n tia s u f ic ie n te m e n te p a r a o i m i t a r .
M is tra l n ã o te v e p re c is ã o d e s a b e r o g r e g o , p a r a
e x p lo ra r m a g i s t r a lm e n te o p ro c e sso h o m ó ric o .
E is a q u i a m e s m a c e n a , e x tr a íd a d e M i r e i l l e :

E n la ç a m -s e , e n d i r e it a m - s e , e n c o lh e m -s e e e s te n d e m - s e ,
om bro c o n tr a o m b ro , p é s c o n t r a p é s. O s b r a ç o s c o n t o r ­
cem -se; ro ç a m -s e , c o m o s e r p e n te s , q u e se e n r o s c a m . S o b a
pele, ferv em a s v e ia s . O s e sfo rç o s fa z e m s a l i e n t a r o s m ú s c u ­
los. R e te sa m -se , im ó v e is p o r m u i to t e m p o ; a s s u a s i l h a r g a s
p alp itam com o a a s a d e u m a a b e t a r d a p e s a d a . I n a b a lá v e is ,
calados, e n c o s ta n d o -s e u m ao o u t r o c o m to d o o s e u im p u ls o ,
172 A PORM AÇAO DO B 8 T IL .O

c o m o o s g r a n d e s p i l a r e s d a p o n te p r o d i g i o s a , q u e a t r a ­
v e ssa o G a r d o n . E , d e r e p e n t e , s e p a r a m - s e e d e novo os
p u n h o s se f e c h a m ; d e n o v o o p il ã o p i s a o a lm o f a r iz . N o
f u r o r q u e o s d o m in a , s e r v e m - s e d a s u n h a s e d o s d e n te s.
Ó D eu s! q u e p a n c a d a s V ic e n te lh e d á ! O D e u s ! q u e g ra n ­
d e s b o fe ta d a s lh e d á o b o i e i r o ! E r a m d e d e i t a r a b a ix o , os
m u r r o s q u e ê s te d e s c a r r e g a v a , c o m a s d u a s m ã o s . M as
V ic e n te , b a te n d o c o m a r a p i d e z d o g r a n i z o q u e e s t a l a , sa lta
e t o r n a a s a l t a r e m v o l t a d é le , c o m o u m a f u n d a e m rod o p io .
N o m o m e n to , p o r é m , e m q u e s e i n c l i n a p a r a t r á s , p a r a a ta ­
c a r m e lh o r o s e u a g r e s s o r , o v i g o r o s o b o i e i r o a g a r r a - o pelas
i l h a r g a s , à m a n e i r a p r o v e n ç a l , d e i t a - o p a r a t r á s d o o m b ro ,
co m o s e f ô s s e u m m o lh o d e t r i g o , e V i c e n t e v a i f e r ir as
c o s te la s , n o m e io d a p l a n í c i e .
( M i s t r a l , M i r e i l l e , c a n to v ).

I s to é d© u m a r t i s t a q u e s a b e v e r e m o s tr a r as
co isas.
F ó n e lo n é u m s u a v e l e t r a d o .
M is tr a l é u m g r a n d e p o e ta , q u e n ã o m e n tia ,
q u a n d o d iz ia m o d e s t a m e n t e :
« S o u u m h u m i l d e d i s c í p u l o d o g r a n d e H o­
m ero » {1).
O s n o sso s le i to r e s p o d e r ã o c o m p l e t a r ê s te gênero

(!) H o m e ro d iz n a O d i s s é i a :
— « A m b o s m u n id o s d e c i n t o s , d e s c e r a m à a r e n a e a g a r­
r a ra m -s e com m ã o s v i g o r o s a s , c o m o d o i s b a r r o t e s q u e um
h á b il c a r p i n te ir o h o u v e s s e u n i d o n o c u m e d e u m prédio,
p a r a r e s i s t i r à v i o l ê n c i a d o v e n t o . A s s i m , o s s e u s q u ad ris
e s ta la r a m v i o l e n t a m e n t e s o b a s s u a s m ã o s v ig o r o s a s , e o
s u o r c o r r e u - lh e s a b u n d a n t e m e n t e , e g r a n d e s e n tu m e sc ê n c ia s,
tin ta s de s a n g u e , a p a r e c e r a m n o s o m b r o s e i l h a r g a s .»
A FORM AÇÃO DO K S T IL O 173

de d e m o n s tra ç ã o , c o m p a r a n d o as b a ta lh a s d e F ó n e -
lon (liv ro s x i i i e x v ) c o m as d e H o m e ro .
F á n e lo n d is s i m u la e m b o m fra n c ê s, a te r r ív e l
re a lid a d e q u e H o m e r o d á à s s u a s c e n a s de c a rn i­
ficina.
Telém aco v iv e d e fra s e s f e i t a s :

O p r ó p r io A d r a s t o , d e e s p a d a e m p u n h o , c a m in h a n d o
n a v a n g u a r d a d e u m p e lo tã o , fo rm a d o d o s m a is in tré p id o s
D á u n io s , p e r s e g u e , à c l a r i d a d e d o in c ê n d io , a s tr o p a s q u e
fogem . C e i f a c o m a a r m a , d e s p e d a ç a n d o tu d o q u a n to e sc a ­
pou ao fo g o ; n a d a n o s a n g u e e n ã o se p o d e s a c ia r d e c a r n i ­
fic in a ; o s le õ e s e o s t i g r e s n ã o i g u a l a m a s u a f ú r i a , q u a n d o
m a ta m os p a s to r e s e o s s e u s r e b a n h o s . A s tr o p a s d e F a la n to
s u c u m b e m e a c o r a g e m a b a n d o n a -a s .

A im ita ç ã o d e p ro c e sso tã o fro u x o s e ria fa ta l


aos p r i n c ip i a n t e s , s e m p r e com te n d ê n c ia p a r a a
p e rífra se , p a r a o e s tilo r e tó r ic o , e c o n v e n c io n a l.
P r o s c r e v a m o s , p o is , Telém aco.
F é n e lo n p o d e t e r escrito b e m , m a s c e rta m e n te
descreveu m a l.
0 q u e f a z q u e m u i t o s a u to r e s c a ia m n a in s ip i­
dez, no in e x p r e s s iv o , é im a g in a r e m q u e fazem a
v e rd a d e ira d e s c riç ã o , q u a n d o fa z e m a a rtific ia l.
P o r e x e m p lo , t i n h a m d e d e s c r e v e r u m a f lo r e s ta ;
n a tu r a lm e n te , f a la v a m d e á r v o r e s , velhas como o
m undo. N ã o f a l t a r i a m o s p r a d o s e s e m p re , n a q u e le s
prados, boas p a sta g e n s , cordeiros q u e balam , cabritos
que saltam . O s reg a to s sã o d a p r a x e , o clim a se m p re
doce. N ão se e s q u e c e r ia m a s flores n e m os fr u to s .
174 A FORM AÇAO OO H IS T IL O

S e h o u v e s s e m o n ta n h a s , ch eg a ria m ao céu, e c o b rir-


-s e -ia a s u a f r o n t e de gêlos e te rn o s. R e p e tir-s e -ia m
to d o s os tr a ç o s p r e v is to s e s a b id o s , q u e c o n s titu ía m
o l u g a r - c o m u m ; e isso s e r ia o r n a d o c o m e x p re ssõ e s
e s te r io tip a d a s , c o m e p íte to s v u l g a r e s : g ra n d e s pas­
tagens, v a sta floresta, ra m a g e m espêssa , m eigos reba­
n h o s, e rv a fr e s c a , a p r im a v e r a q u e r e in a , as côres
v iv a s, e tc .
E c o m is to se j u l g a r i a t e r d e s c r ito u m q u a d ro .
E f e c tiv a m e n te , é b e m a s s im q u e F ó n e lo n des­
c r e v e o s ítio , o n d e se a c h a a c id a d e d e T i r o :

E s t a p o v o a ç ã o fic a a o p é d o L í b a n o , c u jo c u m e ra s g a
a s n u v e n s e v a i to c a r n o s a s t r o s ; u m g ê l o e te r n o lh e co b re a
f r o n t e ; r io s , c h e io s d e g e lo , c a e m , e m t o r r e n t e s , d o s p o n ta is
d o s r o c h e d o s , q u e l h e r o d e ia m a c a b e ç a . A b a ix o , v ê -se u m a
v a s ta flo r e s ta d e c e d r o s a n t i g o s , q u e p a r e c e m tã o v e lh o s com o
a te r r a o n d e c r e s c e m , e q u e e le v a m o s s e u s r a m o s esp esso s
a té à s n u v e n s . E s t a f lo r e s ta t e m a s e u s p é s g r a n d e s p a s ta ­
g e n s n o d e c liv e d a m o n t a n h a . E p o r a l i q u e s e v ê e m a n d a r
os b o is q u e m u g e m , a s o v e lh a s q u e b a l a m , c o m o s s e u s tenros
f i lh i n h o s , q u e s a l t a m p o r s ô b r e a r e l v a f r e s c a . A li co rrem
m i l r e g a to s d e á g u a s c l a r a s , q u e s e d i s t r i b u e m p a r a todos
o s la d o s . F i n a l m e n t e , v ê - s e m a i s a b a ix o d e s s a s p a s t a g e n s o
so p é d a m o n t a n h a , q u e é c o m o u m j a r d i m ; o o u to n o e a
p r im a v e r a r e in a m a l i j u n t a m e n t e , p a r a r e u n i r e m a s flo r e s
e os f r u t o s .
N u n c a a a r a g e m q u e n t e d o s u l , q u e s e c a e q u e i m a tu d o ,
n e m o rig o ro s o a q u i l ã o s e a t r e v e r a m a a p a g a r a s v iv a s
côres, q u e a d o r n a m a q u ê le j a r d i m .

V o lta ire s e n t i u m u i t o b e m a t r i v i a l i d a d e das


d escriçõ es d e Telém aco.
a fo r m a ç Ao d o e s t il o 175

C ita u m a d e sc riç ã o d a q u e le liv ro , s u b lin h a n d o


o que te m d e in c o lo r, a c ó p ia de e x p re ssõ e s, os
rodeios m o n ó to n o s, o m a u e s tilo : «da q u a l se
descia. . . p elo q u a l . . . d a q u a l os m o r ta is se n ã o
atrev iam a a p r o x i m a r - s e . . . em to d a a v o l t a . . .
as a m a r g a s .. . a e rv a a m a r g a . . . i m o l a r . . . fu n e s to
c o n tá g io .. .
E V o lta ire c o n c lu i:
— «N ada h á d e m a is m e s q u in h o q u e p ô r, à
entrada do in fe rn o , cach o s de u v a s , q u e se secam .
Toda esta d escrição ó de u m g ê n e ro b a s ta n te m e d ío ­
cre e h á n e la g ra n d e a b u n d â n c ia d e m iu d e z a s,
como n a m a io r p a r te dos lugares co m u n s, de que
Telémaco está cheio > (1).
T am b ém S a in t-B e u v e , a p e sa r d a s su a s tr a d i­
cionais d e fe rê n c ias, ó o b rig a d o a re c o n h e c e r «que
há no Telémaco de F é n e lo n c e rto d e sa c o rd o f u n d a ­
m ental com a a b u n d â n c ia im p e tu o sa e a to r r e n te
de H om ero* (2).
E is com o E m ílio E g g e r, q u e co n h ecia a fu n d o
a lín g u a de H o m e ro , a p re c ia o estilo de Telémaco,
que V o lta ire (e d ep o is dele D u s s a u lt), to m a v a
pelo e stilo o rd in á rio e co n v e n c io n a l d as tr a d u ­
ções (3).

(*) V o lta ire , M is c e lâ n e a L ite r á r ia . C o n h e c im e n to das


belezas e dos d e fe ito s d a p o esia , a r t. D e sc riç ã o do In fe r n o e
tam bém A m o r e C o m p a ra ç ã o .
(2) S a in t-B e u v e , C a u se rie s, iii, p . 490.
(8) V o lta ire , E n s a io so b re a P o e sia É p ic a . C o n clu sõ es.
176 A FORM AÇÃO DO H J8 T IL O

E ggor d iz :
— « A b r o ao a c a so o Telém aco, e, a p e sa r do
e n c a n to n a t u r a l q u e c a r a c te r i z a a ín d o le d e Fónelon,
n o to g r a v e d if e r e n ç a e n t r e e s te e s tilo a b stra c to e
m e ta fís ic o d e u m p o v o e n v e lh e c id o e a p in tu re sc a
in g e n u i d a d e d a l i n g u a g e m a n t i g a » (*).
P a r a m o s t r a r e m q u e e s tilo e s tá e s c rito Telémaco,
E g g e r c ita o s e g u in te e x e m p lo :
— « M e n to r, q u e se c o m p r a z ia em v e r a am izade
c o m q u e N e s to r a c a b a v a d e r e c e b e r T elém aco , apro­
v e ito u a q u e la boa d is p o siç ã o . . . com o compromisso,
q u e p ro veio de êle p ró p rio se o fe re c e r. . . — Todas
e s ta s d iv e r s a s n a ç õ e s e s tr e m e c ia m d e f u r o r e ju l­
g a v a m p e r d id o todo o tem po em que se retardava o
c o m b a te . . . — N a ç ã o in s e n s a ta , q u e n o s obrigou a
to m a r u m a resolução de d esesp êro . . . (1. ix ). — F u i
e u q u e p u s o a rchote f a t a l n o seio do casto Telémaco!
Q ue in o c ê n c ia ! Q ue v i r t u d e ! Q ue horror pelo vício!
Q u e coragem c o n tr a os vergonhosos p r a z e r es ! (1. vn).»
V o l t a i r e a s s im ila , co m o e x e m p lo , d a s descrições
t r i v i a i s d o T elém a co , a d e s c riç ã o do A m o r (1. iv) e
a d e U m E x é r c ito (1. x ).
D iz ê le :
— «N o T elém aco só se v ê e m p r ín c ip e s com para­
d o s a p a s to r e s , a to u r o s , a le õ e s, a lobos, ávidos de
c a r n if ic in a . N u m a p a la v r a , são t r i v i a i s as suas com-1

( 1 ) E m ílio E g g e r . M e m ó r ia s d e L i te r a tu r a A n tig a e
M o d e r n a , p . 2 1 1.
A FORM AÇÃO DO H S T I I iO 177

p a ra ç õ e s, e, c o m o n ã o p o s s u e m o a d o rn o d o e n c a n to
d a p o e sia , d e g e n e r a m e m in s ip i d e z . . .
« T ê m -m e p r e g u n t a d o m u i ta s v e z e s se h a v e r ia
a lg u m b o m l i v r o , e m fra n c ê s , e s c r ito n a p ro sa poé­
tic a d o T elém aco. N ã o c o n h e ç o n e n h u m e n ã o creio
m e sm o q u e ê s s e e s tilo p o s s a s e r b e m re c e b id o
segunda vez.
« O T elém a co e s tá e s c r ito n o g o s to d e u m a t r a ­
d u ç ã o e m p r o s a , d e H o m e ro , e co m m a is g ra ç a q u e
a p ro s a d e M .mo D a c ie r ; m a s s e m p r e é p ro s a * (*).
R e m y d e G -o u rm o n t c r ê q u e o Telém aco ó m a u
e q u e se t o r n o u n u m a cópia, p e lo m u i to q u e im ito u .
E d iz :
— « T elém aco, a o b r a m a is im ita d a , fra s e a frase,
d e to d a s a s l i t e r a t u r a s , é p o r isso m e s m o p o s itiv a ­
m e n te ile g ív e l.
« E p e n a , ta lv e z , e é in j u s t o ; m a s , co m o se
p o d erão a in d a a p r e c ia r «as re lv a s f l o r id a s » — êsses
belos lu g a r e s , q u e e la r e g a v a c o m a s s u a s lá g r im a s
— u m m o d e s to s ilê n c io — u m a s im p lic id a d e r ú s ­
tic a — os z é firo s s u a v e s — u m a d e lic io s a fr e s c u r a
— o d o ce m u r m ú r i o d a s f o n te s ?
« A q u i a f o r m o s a g r u t a , a ta p e ta d a d e v in h a ,
dessa v in h a , t o r n a d a v ir g e m , n o d e c o r r e r d o s a n o s ;
além , a s m il flo re s n a s c e n te s , q u e e s m a lta m se m ­
pre os v e r d e s p r a d o s ; d ê s te la d o , o d o ce n é c ta r , a

(l ) V o l t a i r e , M is c e lâ n e a . C o n h e c im e n to s d a s b e le za s e
dos d e fe ito s d a p o e s ia . A r t . A m o r .
12
178 ▲ FO RM AÇÃ O DO B S T ID O

v id a c o b a rd e e e fe m in a d a , a j u v e n t u d e p re s u n ç o s a ;
e d e o u tr o la d o « a s e r p e n t e s o b a s f l o r e s >. S im
latet a n g u is in herba: t u d o is to , e m s u m a , é tr a ­
d u ção do la tim ; sem d ú v id a , m a s T elém a co tev e
c o n tu d o u m a g r a ç a q u e h a v e r i a c o n s e r v a d o , se os
im ita d o re s tiv e s s e m s id o m e n o s a p r e s s a d o s e m d is­
s im u la r, so b as s u a s g r o s s e ir a s c a r íc ia s , o a v e lu ­
d ad o do f r u to * (*).
O G o u r m o n t é m u ito in d u l g e n te .
O e s tilo d e Telém aco era j á por s i u m a im ita çã o
e u m a cópia.
E n c o n tr a - s e e le n a C lélia, e m C y r u s e p r in c i­
p a lm e n te e m A s tr e ia .
A p e n a s n o T elém aco esse e s tilo f o i d is p o s to p o r
u m h o m e m , q u e s a b ia e s c re v e r, c o m o b a s ta r ia p ara
o p r o v a r a s u a C a rta à A c a d e m ia .

( !) R e m y d e G o u r m o n t , E s t é t i c a d a L i n g u a F ra n c e sa ,
p . 298. A im ita ç ã o d e T e lé m a c o fo i f a ta l à n o s s a lite r a tu r a .
E a ê sse g ê n e r o d e d e s c r iç ã o q u e d e v e m o s B e lis á r io e os
In e a s d e M a r m o n te l, G o n ç a lv e s d e C ó r d o v a e N u m a P o m -
p ilio d e F l o r i a n , o s N a t c h e z , t ô d a a p a r t e o b s o le ta dos
M á r tir e s , A n t i g o n a d e B a l l a n c h e , a s o b r a s d e M a rc h a n g y
e d e A r lin c o u r t, e a s V t a g e n s d e C ir o d e R a m s a y ( 2 vols.),
q u e n ã o sã o m a is q u e u m a r e p r o d u ç ã o d e T e lé m a c o . (V eja-se
a te n ta m e n te , p a r a q u e se t e n h a u m a id é ia d o g ên e ro , o
t . j , p . 1 2 2 ) . R e m y t i n h a t a m b é m p u b l i c a d o u m D iscu rso
s o b re a P o e s ia É p ic a .
C A P ÍT U L O V I I I

A descrição geral

A descrição geral: Mignet.—Florian. —Fléchier. —Lamar­


tine. — Exemplos e perigos das descrições gerais. —
Uma descrição de Plinio. —Uma página de Beraar-
dim de Saint-Pierre.

A q u ilo qu© d is s e m o s d a d e sc riç ã o s u p e rfic ia l e


v u lg a r le v a - n o s a r e s o lv e r u m p ro b le m a .
E x is t e o u n ã o e x i s t e d e s c riç ã o g e r a l? S e d esejo
d e s c re v e r u m c o n ju n t o , u m q u a d r o g e ra l, n ã o te r e i
eu a lib e r d a d e d e s a l i e n t a r a p e n a s o la d o g e r a l ?
U m p a ís , u m a re g iã o , n ã o se p o d e m d e s c re v e r
p o r m e n o r iz a d a m e n te .
N ão t e r e i e u o d ir e ito d e e x p o r e m a b s tr a c to
o q u a d ro d o q u e p o d e s e r u m a te m p e s ta d e , u m a
b a ta lh a , u m a in u n d a ç ã o ?
H á c o n fu s ã o d e p a la v r a s .
C h a m a -s e i m p r o p r i a m e n t e g era l a d e s c riç ã o de
u m c o n ju n to o u d e u m p a ís .
A v e rd a d e ira d escriçã o g e ra l ó a q u e la q u e é fe ita
com g e n e r a lid a d e s .
D e s c re v e r u m p a ís n ã o é f a z e r d e sc riç ã o g e ra l.
0 a s s u n to é m a is v a s to , m a s é u m a s s u n to .
180 A FORM AÇÃO DO B JS T ID O

C om o p ro v a , te m o s a b e la d e s c riç ã o d a F r a n ç a
p o r M ic h e le t.
N e la se e m p r e g a s o m e n te o q u e se r e f e r e à
F r a n ç a e n ã o a o u tr o p a ís .
D e s c re v e n d o as s a v a n a s d a A m é r ic a , C h a te a u ­
b r ia n d e n c a n to u - n o s c o m im a g e n s , q u e a in d a se
n ã o ti n h a m v is to .
E ig u a lm e n te B e r n a r d im d e S a i n t - P i e r r e no
P a u lo e V ir g ín ia .
Q u a n d o C h a te a u b r ia n d ( I t i n e r á r i o ) , d e s c re v e a
P a l e s t i n a : « A o p r im e ir o a s p e c to d e s s a r e g iã o d eso ­
la d a , e tc . a m a io r p a r te d o q u e e le v a i d iz e r só
se p o d e a p lic a r a e s te a s s u n to ( t e r r a c o n h e c id a
p elo s m ila g re s ), e tc .
S e os p o rm e n o re s c o n v ie s s e m a q u a l q u e r o u tr a
re g iã o , e le te r ia fe ito p r e c is a m e n te a d e s c riç ã o g e ra l.
D e c e rto q u e h á co isas c o m u n s a to d o s os
a s s u n to s ; m a s n ã o d e v e m c o n s t i t u i r o p ró p rio
fu n d o d e u m a d e sc riç ã o .
T u d o is to ó, e v id e n te r n e n te , q u e s tã o d e tato.
A r e g r a é q u e se d e v e m o s t r a r a m a io r o rig i­
n a lid a d e possível, p a ra e sp e c ia liza r e in d iv id u a liz a r
a descrição.
P o d e m -se d e s c r e v e r a s s u n to s g e r a is , m a s n u n c a
com g e n e ra lid a d e s , b o rd õ e s , lu g a r e s c o m u n s .
O p io r ó d e s c re v e r a r t if i c ia lm e n te e, c o m g e n e ­
ra lid a d e s, a s s u n to s q u e n ã o e x is te m .
A tem pestade, o *ufão, o n a sc e r do sol, a noite,
a a u ro ra > n ão te m r e a lid a d e e m si.
E x is te m s o m e n te tem p esta d es, tu fõ e s , n o ites,
A FO RM A ÇÃ O I> 0 BJ8TU L.O 181

a u ro ra s d e t e r m i n a d a s e p a r tic u la r e s , q u e se d ev em
a p r e s e n t a r c o m o ta is .
S e u m e s c r i to r , q u e te n h a d e d e s c re v e r u m a
m u lh e r , se c o n t e n t a r e m d iz e r q u e ela te m lindos
olhos, te z m im o sa , cabelos negros, e sta tu ra esbelta,
q u e e la é e n c a n ta d o r a , q u e u m a in e x p r im ív e l sedu­
ção e m a n a d a s u a pessoa, e tc ., n a d a te r á m o s tra d o
e a s u a d e s c r iç ã o n ã o s e r á boa, p o rq u e se p o d e rá
a p lic a r a m i l h a r e s d e o u tr a s m u lh e re s , n ão defi­
n id a s, e p o r o a u t o r n ã o t e r tid o d ia n te dos olhos
u m a m u l h e r , m a s o tip o g e r a l fe m in in o , q u e n a d a
te m d e c o m u m c o m u m r e t r a t o in d iv id u a l.
E is a q u i u m r e t r a t o d e L u t e r o p o r M ig n e t:

L u t e r o t i n h a t r i n t a - e - q u a t r o a n o s . E r a d e m e d ia n a e s ta ­
tu r a , p e ito l a r g o , f r o n t e e s p a ç o s a , o lh o s c h e io s d e fo g o , d e
e n e rg ia e d e a l t i v e z . S o b a q u e la v ig o ro s a a p a r ê n c ia , h a v ia
u m a i n t e l i g ê n c i a p o d e r o s a , u m c o ra ç ã o in d o m á v e l, u m a
alm a a r d e n t e e p r o f u n d a . L u t e r o a lia v a a s q u a lid a d e s m a is
o p o sta s. E r a v i o l e n t o e b o m , a u s te r o e jo v ia l, c o n v ic to e
a s tu to , p e r s u a s i v o e im p e r io s o , e tc .
*
A
E s te r e t r a t o ó b e m o d e L u te r o , m a s p o d e ria
ig u a lm e n te a p lic a r - s e a o u tr o .
M ira b e a u ta m b é m t i n h a « a f r o n te esp aço sa, o
peito la rg o , o s o lh o s c h e io s d e fo g o , v ig o ro s a a
ap arên cia, a in t e l i g ê n c i a p o d e ro s a , u m c o ra ç ã o in d o ­
m ável, u m a a lm a a r d e n t e , e tc . > (*).1

( 1) V e ja -s e o q u e d iz e m o s m a is a d i a n t e , n o c a p ítu lo
da a n títe s e , n o a s s u n t o d o R e t r a t o .
182 A FORM AÇÃO DO B JS T IL O

M as d irã o , se e a q u e ro ju s t a m e n t e d e s c re v e r a
m u lh e r , co m o tip o o p o sto ao h o m e m , £ n ã o fa re i eu,
sem q u e r e r , u m a d e sc riç ã o g e r a l? N ão, se os p o r­
m e n o re s n o vosso q u a d r o , m o r a l o u físic o , se re la ­
c io n a m e x c lu s iv a m e n te c o m o tip o - m u lh e r . A vossa
d e sc riç ã o s e rá g e ra l, is to ó, m á , se o s v o sso s traços
são g e ra is , is to é, se se re la c io n a m c o m o u tro s
tip o s , em v e z d o tip o - m u lh e r .
P o r e x e m p lo , d iz e is q u e a m u l h e r te m os olhos
b r ilh a n te s .
I s t o n a d a s ig n ific a p o r q u e a s c ria n ç a s , os ado­
le s c e n te s e m u ito s h o m e n s tê m ta m b é m os olhos
b r ilh a n te s .
V a m o s m o s t r a r u m a to u r a d a , d e s c r i t a p o r F lo-
r ia n . P a r a o g o lp e , s e r ia p r e c is o r e l e r H o m e ro .
A in te n s id a d e d o q u a d r o e s ta v a , n ã o n o n ú m ero ,
m as n a p a rtic u la rid a d e d os p o rm e n o re s.
F lo r ia n , p e lo c o n tr á r io , n ã o v i u s e n ã o u m a to u ­
r a d a e m g e r a l.
A p r e s e n ta - n o s o c a r á c t e r to ta l, d e s c re v e o que
se p a s s a n e le h a b i t u a i m e n t e , f a z d e le u m modelo
d e fá c il n a r r a ç ã o .
B a r u lh o , g r i t o s : o t o u r o f u r io s o , o lh a , hesita,
p re c ip ita - s e .
O c a v a le iro p õ e -s e e m g u a r d a , a ta c a , e v ita os
c o rn o s, e s te n d e a c a p a e fe re .
O a n im a l s a l ta , m u g e , p e r c o r r e a a re n a e
e x p ir a .
S o b re e s te te m a , F l o r i a n b o r d a u m p o u co de
l i t e r a t u r a , d e r e tó r ic a , d e a m p lif ic a ç ã o e n a d a mais.
A FORM AÇÃO DO B S T ID O 183

O ra v e j a m :

D á -s e o s i n a l , a t r i n c h e i r a a b r e -s e e o to u r o p re c ip ita - s e
p a r a o m e io d o c i r c o ; m a s , a o r u í d o d e m il in s tr u m e n to s ,
aos g r i t o s , à v i s t a d o s e s p e c ta d o r e s , p á r a , in q u ie to e p e r­
t u r b a d o ; f u m e g a m - lh e a s v e n t a s , os s e u s o lh o s a r d e n te s
p e r c o rre m o a n f i t e a t r o ; p a r e c e e s t a r tã o s u r p r e e n d id o com o
fu rio s o . D e s ú b ito , p r e c i p it a - s e p a r a u m c a v a le iro , q u e o
fere e q u e fo g e r a p i d a m e n t e p a r a o u t r o la d o . O to u r o i r r i ­
ta -se , p e r s e g u e - o d e p e r t o , e s c a r v a in c e s s a n te m e n te o solo
e a r r e m e te p a r a u m a c a p a b r i l h a n t e , q u e u m to u r e ir o lh e
a p r e s e n t a ; lo g o o d e s t r o e s p a n h o l e v ita o c h o q u e ; s u s ­
p e n d e -lh e n o s c o r n o s a c a p a , fe re -o co m a s u a e s p a d a a g u d a ,
q u e d e n o v o fa z c o r r e r o s a n g u e a o a n im a l.
O t o u r o , f e r id o c o m a s f a r p a s p e n e tr a n t e s , c u ja e x tre ­
m id a d e r e c u r v a fic a n o f e r im e n to , s a l t a n a a r e n a , s ô lta
h o rrív e is g e m id o s , a g i t a - s e , p e r c o r r e n d o o c irc o , s a c o d e a s
n u m e ro s a s f a r p a s , e n t e r r a d a s n o s e u la r g o p esco ço , faz c a ir
ju n ta m e n te o s f r a g m e n t o s p a r t i d o s , os f a r r a p o s v e rm e lh o s
e e n s a n g ü e n t a d o s , e c a i, p o r fim , e s g o ta d o d e e sfo rç o s, d e
có lera e d e d o r .
( F l o r i a n , G o n ç a lv e s de C ó rd o v a , v ).

D e c e rto q u e n ã o c e n s u ra m o s a cen a, a in te n ­
ção, o d r a m a .
F lo r ia n t i n h a o d ir e it o d e e sc o lh e r a m a n e ira
com o se p a s s a r a m a s c o isa s.
N ão la m e n ta m o s q u e tu d o isso n ã o se ja n e m
real n e m v is to e q u e n e n h u m p o r m e n o r v iv o ro m p a
essa f e i t u r a c o n v e n c io n a l.
T r a to u - s e a í d e u m fa c to q u a lq u e r nos seus
caracteres p r e v is to s .
H o m e ro n u n c a d e s c r e v e u a s s im .
184 A FORMAÇAO I>0 BSTILO

T a is d e fe ito s sã o m a is s e n s ív e is a in d a n a des­
c riç ã o o r a tó r ia .
C o m o a e lo q ü ê n c ia v iv e d a a m p lific a ç ã o , con-
o eb e-se q u a n t o ó fá c il c a ir n o lu g a r - c o m u m , com o
a u x ílio d e lin d a s fra s e s , q u e n ã o são descrições.
F l ó c h i e r p r o c u r a d e s c r e v e r a d e so lação , q u e a
m o r te d e T u r e n n e e s p a lh o u p o r to d a a p a rte .
E le p o u c o s a b e a t a l r e s p e i to ; n a d a conhece
s e n ã o o q u e se d iz .
P o r t a n t o , n ã o c ita fa c to s .
F a z u m tr e c h o d e r e t ó r i c a e d e s c re v e essa
d e s o la ç ã o , c o m o o p o d e r ia f a z e r u m a lu n o liceal:
A q u i, c h o r a - s e a s u a m o r t e ; a ló m , abençoa-se a
s u a m e m ó r ia ; u m v i u a s s u a s c o lh e ita s salvas
p o r e l e ; o u t r o c o n s e g u i u m a n t e r a h e ra n ç a de
s e u s p a is , e tc .
E is a q u i a p a s s a g e m :

E n t ã o , q u a n t o s s u s p i r o s , q u a n t o s la m e n to s , q u a n to s
e lo g io s e c o a m n a s c i d a d e s e n o c a m p o ! U m , v e n d o cres­
c e r a s s u a s s e a r a s , a b e n ç o a a m e m ó r ia d a q u e l e a q u e m deve
a e s p e r a n ç a d a c o l h e i t a ; o u t r o , q u e d e s f r u t a tr a n q ü ila m e n te
a h e r a n ç a d e s e u s p a i s , d e s e ja u m a p a z e t e r n a à q u ê le que
o s a lv o u d a s d e s o r d e n s e d a c r u e l d a d e d a g u e r r a ; aq u i,
c e le b r a - s e - lh e o s a c r i f í c i o a d o r á v e l d e J e s u s C r is to , por
a lm a d a q u e le q u e s a c r i f i c o u a s u a v i d a e o s e u s a n g u e pelo
b e m p ú b lic o ; a lé m , d e d i c a m - s e p o m p a s f ú n e b r e s o u espe­
r a m e r ig i r - lh e u m m o n u m e n t o . C a d a q u a l s e r e ie r e a o ponto
q u e lh e p a r e c e m a is b r i l h a n t e , n u m a t ã o b e la e x is tê n c ia ;
to d o s lh e q u e r e m f a z e r o e lo g io ; e c a d a u m . in te rro m p e n d o - s e
co m l á g r i m a s e s u s p i r o s , a d m i r a o p a s s a d o , la s tim a o
p r e s e n te c tr e m e p e lo f u t u r o . A s s i m , t o d o o r e in o c h o ra a
A FO RM AÇÃ O DO H J8T IL .O 185

m o rte d o s e u d e f e n s o r ; e a p e r d a d e u m s ó h o m e m é u m a
c a la m id a d e p ú b lic a .
(F lé c h ie r, O ra çõ es fú n e b r e s ) .

T o d o s e s te s p o r m e n o r e s , b e m a p r e s e n t a d o s e
e le g a n te m e n te e x p r e s s o s , p o d e r ia m a p lic a r - s e à
m o rte d e o u t r o q u a l q u e r b e n f e i t o r d a h u m a n i ­
dade o u d e q u a l q u e r h o m e m im p o r t a n t e .
E o d e s e n v o lv im e n to r e t ó r ic o e o r a t ó r io d e s t e
te m a :
« P r a tic o u o b e m e é c h o r a d o . >
A s s u n to d e d is c u r s o s f r a n c e s e s , d e s e n v o lv id o
por u m b o m e s t u d a n t e .
D e s g r a ç a d a m e n te , e s ta s e s p é c ie s d e d e s c r iç õ e s
abundam n a n o ssa lite r a tu ra .
A in d a u m a v e z , n ã o ó o a s s u n t o , é o p r o c e s s o
da e x e c u ç ã o o q u e a s t o r n a v u lg a r e s .
P o d e r-s e -ia m c it a r , n e s te g ê n e r o , m u i t o s f r a g ­
m entos d e S a i n t - L a m b e r t , F é n e lo n , T h o m s o n ,
R a y n a l, M a r m o n te l.
N u m a p o e s ia d a s s u a s N o v a s M ed ita çõ es, L a m a r ­
tin e d e u -n o s a lg u m a s d e s c riç õ e s g e r a i s , e m q u e
em p reg o u b a s t a n t e ta le n to .
Q u e re m o s f a la r d a s u a f o r m o s a B a ta lh a .
A

E ste q u a d r o c o n té m s e n s a ç ã o e i m a g e n s a d m i­
ráveis, q u e n ã o sã o b e la s s e n ã o p o r q u e , n a q u e le
m om ento, e la s s e p a r t i c u l a r i z a v a m e p o d ia m in s u -
lar-se, tr a n s m u d a r - s e .
O q u e é c e n s u r á v e l é f a z e r c o m is s o u m c o n ­
ju n to a n ô n im o , u m e x e r c íc io d e r e t ó r ic a .
186 A FO RM AÇÃO DO B JS T IL O

É fa lso t a l g ê n e r o .
D e s c re v e m -n o s u m f ilh o q u e m o r r e , p e n sa n d o
e m s u a m ã e , u m n o iv o q u e n ã o t o r n a r á a v e r a
s u a n o iv a ; d iz e m - n o s q u e o c a n h ã o rib o m b a ;
r e p r e s e n ta m - n o s o c o n f lito h u m a n o , os hom ens
p ro s tra d o s , e tc .
C o m o t u d o is t o s e p o d e d i z e r d e q u a lq u e r
b a ta lh a , o t a l e n t o e a v i d a q u e s e m a n ife s ta re m
só p r o v a r ã o u m a c o is a ; o e s f o r ç o q u e s e te r á feito
p a r a c ir c u n s ta n c i a r , p a r a p a r t i c u l a r i z a r a descrição,
p a r a a t i r a r p r e c i o s a m e n t e d e s s a a b s tr a c ç ã o , desse
a n o n im a to , q u e a c o n d e n a .
— « N e n h u m a d e s c r i ç ã o c o m p r e e n d i d a em gene­
r a lid a d e s p o d e s e r b o a , — d iz o c r í t i c o B la ir ; por­
q u e n ó s n ã o c o n c e b e m o s c l a r a m e n t e n en h u m a
a b s tr a c ç ã o : to d a s a s n o s s a s id é i a s d is tin ta s se
fo rm a m s o b r e o b je c to s i n d i v i d u a i s .»
U m e m p o l g a n t e e x e m p lo n o s f a r á reconhecer
e s ta v e r d a d e .
S e ja u m a d e s c r iç ã o d e M a r m o n t e l :
E ru p ç ã o de u m v u lc ã o com te m p e sta d e .

U m a n o i t e e s p ê s s a e n v o l v e o c é u e o c o n f u n d e com a
t e r r a ; o r a io , r a s g a n d o ê s s e v é u t e n e b r o s o , m a is aum enta
a e s c u r id ã o ; c e m t r o v õ e s q u e r e b o a m e p a r e c e m c a ir sóbrc
u m a c a d e ia d e m o n t a n h a s ; s u c e d e n d o - s e u n s ao s outros,
fo rm a m u m só r u g i d o , q u e s e a b a i x a e s e e r g u e , como o
das v agas.
A t e r r a t r e m e , o c é u r u g e , n e g r o s v a p o r e s o envolvem ;
o te m p lo e o s p a l á c i o s o s c i l a m , a m e a ç a n d o d e s a b a r ; a mon­
t a n h a a b a la - s e e o c u m e , e n t r e a b e r t o , v o m i t a , com os ventos
e n c e r r a d o s n o s e u s e io , o n d a s d e b e t u m e líq u id o e turbi-
A FO RM AÇÃO DO H 8 T IL O 187

Ihões d e f u m o ; q u e s e a v e r m e lh a m , in fla m a m -s e c la n ç a m
n o s a r e s e s t i l h a ç o s d e g r a n i t o , a r d e n te s , q u e se d e s p re n ­
d e ra m d o a b is m o .
S o b e r b o e t e r r í v e l e s p e c tá c u lo v e r rio s d e fogo c o r­
r e r em t u r b i l h õ e s b r i l h a n t e s , a tr a v é s d e m o n tõ e s d e n eve,
c a v a n d o n e la u m le ito v a s to e p ro fu n d o !

(M a r m o n te l, O s I n c a s ) .

E s ta s l i n h a s p a re c e m e n é rg ic a s e são in s ig n i­
fic a n te s.
L a c é p è d e s e g u e o m e sm o p ro cesso :

U m a m o n t a n h a p r ó x im a , e n tr e a b r in d o - s e com esfôrço,
la n ç a p a r a a s a l t u r a s u m a c o lu n a a r d e n te , q u e e s p a lh a no
m eio d a e s c u r id ã o u m a lu z v e r m e lh a e lú g u b r e . E n o rm e s
p e d ra s s a l t a m d e to d o s o s la d o s ; o ra io e x p lu d e e c a i ; u m
m a r d e fo g o , a v a n ç a n d o c o m ra p id e z , in u n d a o s c a m p o s ;
à s u a a p r o x im a ç ã o , a s flo re s ta s a b ra s a m -s e , a t e r r a oferece
a im a g e m d e u m v a s to in c ê n d io , a lim e n ta d o p o r m o n tõ e s
e n o rm e s d e m a t é r i a s i n f l a m a d a s . . . P a r a o n d e fu g is , 6
p o b re s m o r t a i s . . .
(L a c é p è d e , P o é tic a d a M ú s ic a ) .

O u tr o e s c r ito r c o n tin u a , d e s c re v e n d o a te m p e s­
ta d e :

R e lâ m p a g o s h o r r í v e is b r i l h a m com u m a c la r id a d e m edo­
n h a n a p r o f u n d i d a d e d o s c é u s ; o tro v ã o rib o m b a d e todos
os la d o s, t o r n a d o m a is t e r r ív e l p e lo s eco s d a re g iã o .
O la g o , a g i t a d o v io le n ta m e n te , le v a n ta , ru g in d o , as
su a s v a g a s e s p u m o s a s . O v e n to s o p ra com fu ro r .
O p in h e ir o a l t i v o , o c a r v a lh o o r g u lh o s o , o sc ila m com
188 A FORM AÇÃO DO IBS T I IA )

s c u s tr o o c o s r o b u s t o s ; o h u m i l d e a r b u s t o to r tu r a - s e sôbre
a s u a h a s te f le x ív e l; n o s a r e s , a s n u v e n s e m b a te m - s e ...
( B e r g a s s e , F r a g m e n t o s s ô b r e a m a n eira
c o m o d i s t i n g u i m o s o bem e o m a l).

R a y n a l e x a g e r a a in d a :
D e s ú b ito , a o d i a v iv o e b r i l h a n t e d a z o n a tórrida
s u c e d e u m a n o i t e u n i v e r s a l e p r o f u n d a ; à b elez a de uma
p r i m a v e r a e t e r n a , a n u d e z d o s m a is t r i s t e s in v e rn o s . Á rvo­
r e s , tã o v e lh a s c o m o o m u n d o , s ã o d e s a r r e i g a d a s e desapa­
re c e m .
O s m a is s ó lid o s e d if íc io s c o n v e r te m - s e , n u m m om ento,
e m r u í n a s . O n d e a v i s t a se c o m p r a z ia e m c o n te m p la r coli­
n a s r i c a s e v e r d e j a n t e s , só se v ê e m p la n ta ç õ e s devastadas
e h o rrív e is c a v e rn a s .
M u ito s d e s g r a ç a d o s , d e s p o ja d o s d e t u d o , c h o ra m sôbre
c a d á v e r e s o u p r o c u r a m o s s e u s p a is , s o b a s r u í n a s .
(R a y n a l, A s D u a s ín d ia s , 1. x, 5).

N ã o e s q u e ç a m o s a te m p e s ta d e d o p a d re Bar-
th é le m y :
V im o s d e n t r o e m p o u c o o r a io r a s g a r , com g o lp e s repe­
tid o s , a q u e l a b a r r e i r a d e t r e v a s e d e fogo, s u s p e n s a sôbre
a s n o s s a s c a b e ç a s ; n u v e n s e s p e s s a s r o l a r a m e m m assa pelos
a r e s e d e s f a z e r e m - s e c m t o r r e n t e s s ô b r e a t e r r a ; os ventos,
d e s e n c a d e a d o s , c o n v e r g i r e m p a r a o m a r e a g ita re m - n o nos
s e u s a b is m o s .
T u d o r u g i a : o t r o v ã o , o v e n t o , a s o n d a s ; e, de todos
é s te s r u í d o s j u n t o s f o r m a v a - s e u m e s t r e n d o h o rrív e l, que
p a r e c i a a n u n c i a r a d i s s o l u ç ã o d o U n iv e r s o .

P o d e r ía m o s c o n t i n u a r a c i t a r tr e c h o s sem elhan­
te s d e D u p a t y , S a i n t - L a m b e r t , D e lille , etc.
A FO RM A ÇÃ O DO B S S T IL O 189

É o t r i u n f o d a d e s c r iç ã o g e ra l.
E s te s e s c r i t o r e s j u l g a v a m q u e d e s c re v ia m com
v ig o r .
A s s u a s d e s c r iç õ e s n ã o te m e lo q ü ê n c ia , p o rq u e
n a d a fo i v i s t o e p a r t i c u l a r i z a d o .
A q u e l a a b u n d â n c i a t o n i t r o a n t e e s f r ia a com o­
ção, p o r q u e r e r e x a g e r á - la .
E is a q u i a g o r a , c o m o c o n tr a s te , u m a v e rd a d e ira
e ru p ç ã o v u l c â n i c a .
F o i a p r i m e i r a e r u p ç ã o d o V e s ú v io , n o a n o iv .
E d e s c r i t a p o r u m a te s t e m u n h a o c u la r, P lín io ,
o M oço, q u e f a z a s e g u i n t e n a r r a t i v a ao s e u a m ig o
T á c ito :

M e u t i o e s t a v a e m M is e n o e e r a ê le p r ó p r io q u e c o m a n ­
dava a fro ta .
A o n o n o d i a , ^ n t e s d a s c a le n d a s d e S e te m b r o , p o r
v o lta d a s s e te h o r a s , m i n h a m ã e a v is o u -o d e q u e a p a re c ia
u m a n u v e m d e u m a g r a n d e z a e d e u m a f o r m a e x tr a o r d i­
n á ria .
M e u t i o p e d e a s s u a s s a n d á l i a s e so b e ao l u g a r , d o n d e
era m a is v is ív e l t a l p r o d í g i o .
O lh a n d o d e l o n g e , e r a d if íc il d i s t i n g u i r d e q u e m o n ta ­
nha v in h a a n u v e m .
S o u b e m o s d e p o i s q u e e r a d o V e s ú v io .
O pinhei»*o é d e t ô d a s a s á r v o r e s a q u e m e lh o r re p re ­
se n ta a s e m e l h a n ç a e a f o r m a d a n u v e m .
E r a c o m o u m t r o n c o , m u i t o e s g u io , e le v a n d o -s e m u ito
a lto e d i v i d in d o - s e n u m c e r t o n ú m e r o d e r a m o s .
S u p o n h o q u e e r a , a o p r i n c í p i o , im p e lid a p o r u m sô p ro
im p e tu o s o ; e q u e d e p o i s , a b a n d o n a d a p o r a q u ê le « ô p r o q u e
d im in u ía o u e n f r a q u e c i a p e lo s e u p r ó p r io p e so , se a te n u a v a ,
d is te n d e n d o -s e .
190 ▲ FO RM A ÇÃ O DO H S T IL O

U m as vezes e ra b ra n c a , o u tr a s p a r d a e m anchada,
s e g u n d o a c ô r d a t e r r a o u d a c i n z a q u e tra n s p o rta v a
c o n s ig o .
U m s á b io , c o m o e r a m e u t i o , a c h o u a q u ê le fenôm eno
e x t r a o r d i n á r i o e d i g n o d e s e r e s t u d a d o d e m a is p e r t o ...
J á a c in z a c a í a s ô b r e a s e m b a r c a ç õ e s , e , q u a n t o mais
n o s a p r o x im á v a m o s d e l a , m a i s q u e n t e e e s p e s s a se to rn a v a ;
d e p o is , e r a m p e d r a s - p o m e s , s e ix o s n e g r o s , c a lc in a d o s , p ar­
ti d o s p e lo f o g o . A s á g u a s d o m a r h a v i a m c r e s c id o sübita-
m e n t e e a m o n t a n h a , d e s m o r o n a n d o - s e , t o r n a v a a praia
in a b o rd á v e l. . .
E n t r e t a n t o , v i a m - s e b r i l h a r , e m v á r i o s s ítio s d o Vesú-
v io , c h a m a s l a r g a s e j a c t o s d e f o g o , q u e s e e le v a v a m m uito
a l t o e c u ja c l a r i d a d e b r i l h a n t e e r a a v i v a d a p e la s tre v a s da
n o ite .
P a r a a c a l m a r o s u s t o d o s s e u s h ó s p e d e s , m e u tio con­
t a v a - l h e s q u e u n s c a m p o n e s e s , n a s u a f u g a p recip itad a,
t i n h a m d e i t a d o f o g o à s s u a s c a s a s e q u e e r a m a s casas a
a rd e r n a q u e la s o l i d ã o ...
M e u t i o fo i d e i t a r - s e e a d o r m e c e u p r o f u n d a m e n te .

M a s a c h u v a d e c in z a s ó d e t a l fo rm a , que o
d e s p e r ta m , c o m r e c e io d e q u e e le n ã o pudesse
d e p o is s a i r d o q u a r t o .
C o n v e r s a - s e , p a r a s e s a b e r s e s e r á m ais pru­
d e n te ir m o s p a r a o c a m p o .
P lín io c o n tin u a .

A s e m b a r c a ç õ e s o s c i l a v a m . A g i t a d a s p o r v io le n to s aba­
lo s e c o m o a r r a n c a d a s d o s s e u s a l i c e r c e s , p a re c ia m ir de
u m la d o a o o u t r o e d e p o i s v o l t a r a o s e u l u g a r .
P o r o u t r o l a d o , a o a r l i v r e , h a v i a a r e c e a r a queda das
pedras-pomes.
A c o m p a r a ç ã o fê z e s c o l h e r ê s t e ú l t i m o p e r ig o .
▲ FO RM AÇÃO DO B 8 T IL O 191

A ta r a m a lm o fa d a s à c a b e ç a ; e r a co m o q u e u m b a l u a r te
c o n tra o q u e c a ía .
A lé m , e r a d ia j á ; a q u i, e ra a n o ite , a m a is n e g r a , a
m a is e s p e s s a d e tô d a s a s n o ite s .
D e c id iu - s e c h e g a r à p r a ia , p a r a v e r se o m a r p e r m itia
o e m b a rc a r-se . . .

F o i n e s te tr a je c to q u e m o r r e u P lín io , o A n tig o ,
su fo ca d o p e la s b a fo ra d a s d e c in z a e o c h e iro do
e n x o fre , e n q u a n to P lín io , o M oço, se fic a v a em
M isen o .
A

E s te c o n tin u a a s u a n a r r a tiv a , n u m a s e g u n d a
c a rta a T á c ito . w

E r a já a h o r a d e p r im a e o d ia e s ta v a a in d a d ú b io e
fro u x o .
T o d o s o s e d ifíc io s o s c ila v a m ; e, p ô sto q u e o l u g a r , o n d e
n o s e n c o n tr á v a m o s , e stiv e s s e d e sc o b e rto , e r a tã o e s tr e ito ,
q u e re c e á v a m o s , o u tín h a m o s q u á s i a c e rte z a , d e q u e ficá­
v am o s s e p u lta d o s so b os d e stro ç o s.
S ó e n tã o n o s d e c id im o s a d e ix a r a c id a d e .
A m u ltid ã o s e g u e -n o s a te r r a d a .
P o r e fe ito d o m êd o , q u e se a s s e m e lh a à re fle x ã o , p r e ­
fere a id é ia d e o u tr o à s u a , e u m a lo n g a fila d e f u g itiv o s
c o rre s ô b re o s n o sso s p a sso s, i m p e l i n d o - n o s ...
U m a v ez fo ra d a c id a d e , p a r a m o s .. .
A li, m il fa c to s e s tu p e n d o s se o ferecem à n o ssa v is ta .
S o fre m o s m il te r r o r e s !
O s c a rro s , q u e tín h a m o s fe ito a v a n ç a r , e r a m , p ô sto q u e
o te rr e n o fô sse p la n o , im p e lid o s em d ife r e n te s d irecçõ es,
e a té , s e g u r a n d o - o s com p e d r e g u lh o s , n ã o se p o d iam co n ­
s e rv a r firm e s.
A lém d is s o o m a r p a r e c ia a b s o rv e r-s e em si p ró p rio e
re c u a v a ; p elo m e n o s, a p r a ia tin h a - s e a la r g a d o e r e tin h a
192 A FORM AÇAo I> 0 B 8 T I£ iO

s ô b r e a a r e ia g r a n d e p o rç ã o d c a n i m a i s m a r in h o s . D o o u tro
la d o , a p a r e c ia u n i a n u v e m n e g r a e a t e r r a d o r a ; r a s g a d a por
u m a fa ix a d e fo g o , q u e a s u lc a v a d e la m p e jo s to rtu o s o s e
r á p id o s , a p r e s e n ta v a , e n t r e a b r i n d o - s e , u m r a s to lo n g o de
la b a r e d a s , s e m e lh a n te s a g r a n d e s r e lâ m p a g o s . . . Pouco
te m p o d e p o is , a n u v e m a b a ix a v a - s e p a r a a t e r r a e cobria
o m a r.
E n v o lv ia a ilh a d e C a p r e ia , o c u lta n d o - s e ao s nossos
o lh o s .. .
O p r o m o n tó r io d e M is e n o d e s a p a r e c e r a .
O b r ig o m i n h a m ã e a c a m i n h a r m a is d e p r e s s a . . . Ela
o b e d e c e -m e a c u s to e c e n s u r a - s e d e m e a t r a s a r .
A c in z a c o m e ç a v a a c a ir , m a s e r a a i n d a m u ito rala.
V o lto - m e : e s p ê s s a s tr e v a s a v a n ç a v a m s ô b re nós, e,
e s p a lh a n d o - s e s ô b re a t e r r a co m o u m ^ t o r r e n te , se g u ia m -
- n o s d e p e rto .
E n tã o e u d is s e a m in h a m ã e :
— « S a ia m o s d a q u i , d ê s te c a m in h o , e n q u a n to vim os
a i n d a ; d e c o n tr á r io , p o d e re m o s s e r d e r r u b a d o s e pisados
p e la m u ltid ã o , n a s t r e v a s . »
M a l n o s d e tiv e m o s , e s c u re c e u lo g o ; m a s n ã o e ra a
n o ite q u e r e in a , q u a n d o o c é u e s t á se m l u a e enevoado;
e r a a e s c u r id ã o d e u m l u g a r fe c h a d o , o n d e h o u v e sse m ap a­
g a d o a s lu z e s.
O u v ia m -s e o s la m e n to s d a s m u lh e r e s , o c h ô ro das
c r ia n ç a s , o s g r i t o s d o s h o m e n s .
U n s c h a m a v a m e m v o z a l t a o s p a is , o u tr o s os filhos,
p r o c u r a n d o re c o n h e c ê -lo s p e lo s s o n s d a v o z .
U n s la m e n ta v a m a s u a s o r te , o u t r o s a s o rte de suas
fa m ília s . A lg u n s co m re c e io d a m o r t e , in v o c a v a m a m orte.
M u ito s e r g u ia m a s m ã o s p a r a o s d e u s e s , e o m aior
n ú m e ro d e c la r a v a q u e já n ã o h a v i a d e u s e s e q u e aquela
e r a a ú ltim a n o ite d o m u n d o , a n o i t e e t e r n a . . .
A p a re c e u u m a f r a c a c l a r i d a d e , q u e n o s p a r e c ia a n u n ­
c i a r , n ã o o d ia , m a s a a p r o x im a ç ã o d o fo g o .
E r a o fogo, m a s d e te v e -s e lo n g e d e n ó s.
A FO RM AÇÃO DO E S T IL O 193

V o lta r a m a s t r e v a s ; d e p o is , a c in z a co m eço u a c a ir,


e sp e ssa e p e s a d a . . .

( P lín io o M oço, C a r ta s , 1. iv , c a r t a x v i e xx).

E is a q u i a v e rd a d e ir a d escrição .
N a d a d e r e tó ric a , d e am p lificação , n e m de
o ste n ta ç ã o .
I n v e s tig a d o r d e e stilo e a m a d o r d e a n títe s e s ,
P lín io p o d e ria e n c o n tr a r d e se n v o lv im e n to s, q u e
fà c ilm e n te se lh e p e rd o a ria m . A b s te v e -s e disso, e
a s u a e lo q ü ê n c ia p ro v é m p re c is a m e n te d a so b rie ­
d a d e , d a q u a lid a d e d o s p o rm e n o re s, q u e só a li
p o d em fig u ra r.
N ão p ro c u ra c a u s a r a d m ira ç ã o n e m te r r o r .
D iz o q u e v iu .
O q u e tiv e s s e e s c rito a m a is, n a d a a u m e n ta r ia
à su a d escrição .
O su p é rflu o , em g e ra l, to rn a -s e v u lg a r .
M a rm o n te l e o u tr o s e x p lo ra m os m o ld e s de u m
a ss u n to .
P lín io a p re s e n ta o q u e é v iv o .
E is co m o se d e v e d e s c re v e r.
M as, d irã o , n ã o se a ss iste to d o s os d ia s à e r u p ­
ção d e u m v u lc ã o .
G om o p ro c e d e re i e u , se q u is e r t r a t a r desse
fe n ô m e n o ?
E p re c is o e s tu d a r as d esc riç õ e s, q u e fo ra m
fe ita s s o b re a n a tu r e z a e a p lic a r d e p o is ao nosso
a s s u n to a rtific ia l os p ro cesso s d e fa c tu ra v e rd a ­
d e ira .
13
194 A PO RM A ÇÂ O d o b s t il o

É o ú n ic o m e io d e d a r a p a r ê n c ia de vid a ao
q u e se im a g in o u .
A c a r t a d© P l í n i o e r a c o n h e c id a .
S© o s e s c r ito r e s , d e q u e f a la m o s , a tiv e sse m lido,
te r ia m c o ra d o d a s u a re tó ric a .
P a r a a t i n g i r i n t e n s i d a d e , e s fo rc e m o -n o s por n&o
d i z e r o q u e o s o u t r o s d i s s e r a m , o u e n tã o digam o-lo
d e o u t r a m a n e i r a (*).
O b s e r v e m o s e d e s c r e v a m o s a re a lid a d e .
P r o c u r e m o s t r a ç o s s i m i l a r e s à q u e le s q u e admi­
ra m o s.
S e u m a u t o r t i r a r u m efejyto de qualquer
p o r m e n o r , t i r e m o s n ó s t a m b é m e fe ito sem elhante
d e q u a l q u e r o u t r o p o r m e n o r , e tc .
S i g a m o s f i n a l m e n t e o e x c e le n te conselho de
V o lta ire .
D iz e le :
— « Q u a n t o à s d e s c r iç õ e s , o s e u e fe ito depende
d a g r a n d e z a , d o b r i l h o , d a m a n e ir a n o va de ver um

(!) Em C h a te a u b r ia n d e o seu g ru po l i t e r á r i o (t. 11,


p. 67), Saint-Beuve cita êstes versos de Fontanes:

A le v a n ta -s e , c h e io de c o ra g e m
e , te n d o e m s u a s m ã o s a lira e a esp ad a,
a r r o s ta o s f e r o s g o lp e s d o d e s tin o .

E S a in t-B e u v e a c r e s c e n ta :
« A f r o n t a r o s g o l p e s d o d e s t i n o . . . , e x p r e s s ã o comum,
v u l g a r . . . E i s n o q u e o a n t i g o e s t i l o p o é t i c o precisava dc
s e r r e n o v a d o . »>
A FO RM AÇÃO DO K 8T1LO 195

óbjecto © d© f a z e r n o t a r n e le o q u e o o lh o d e s a te n to
n ã o v iu .»
E s ta s q u a l i d a d e s h ã o - d e im p r e s s io n a r - v o s n e s ta
d e s c riç ã o d e n a u f r á g i o , e x t r a í d a d e B e r n a r d im d e
S a i n t - P i e r r e , d i g n a d o n a u f r á g i o d e P a u lo e V ir ­
g ín ia .

C o m o o b a la n ç o do n a v io m e im p ed ia de do rm ir, dei­
tei-m e e m c i m a d a c a m a , v e s tid o ; o m e u cão p a re c ia m u ito
a s s u s t a d o ; e, e n q u a n t o m e e n t r e t i n h a e m a c a l m á - l o , vi u m
re lâ m p a g o p e la l u c a r n a d o m e u b eliche e ouvi o estam pido
do tro v ã o .
S e ria m trê s h o ra s e m eia d a m a d ru g a d a .
M o m e n to s d ep o is, ex plodiu seg u n d o trovão e o m eu
cão p ô s - s e a t r e m e r e a u i v a r . F i n a l m e n t e , u m t e r c e i r o
relâm p ag o , s e g u id o d e u m terceiro trovão, sucedeu quási
logo e o u v i g r i t a r , n o c a s t e l o , q u e u m a e m b a r c a ç ã o se
achava em perig o .
E f e c t i v a m e n t e , a q u e l e r u í d o foi s e m e l h a n t e a u m t i r o
de p e ç a , d i s p a r a d o p r ó x i m o d e n ó s ; n ã o r e b o o u .
C o m o e u s e n t i a u m a c tiv o c h e iro a enxofre, su b i à
p o n t e , o n d e s e n t i l o g o u m f r i o i n t e n s o ; r e i n a v a a li g r a n d e
s ilê n c io e a n o i t e e s t a v a t ã o e s c u r a , q u e e u n a d a p o d i a d i s ­
tin g u ir.
C o n tu d o , n o t a n d o a lg u é m p erto de m im , p re g u n te i o
que h a v ia d e novo.
— « A c a b a m d e l e v a r o oficial d e q u a r t o , d e sm a ia d o ,
para o se u b e lic h e , a s s im c o m o o p rim e iro p ilô to ; caiu u m a
faísca n o n a v i o e p a r t i u o m a s t r o g r a n d e . »>
D i s t i n g u i a c o m efeito a v ê r g a do g r a n d e m a s tro da
gávea, c a íd a s ô b r e a s b a r r a s d a g á v e a g ra n d e .
N ão a p a r e c ia , p o r baix o , n e m m a s tr o n e m enxárcia.
T ô d a a e q u i p a g e m se r e t i r a r a p a r a a c â m a r a d o co n r
selho.
Ao r o m p e r d o d ia , voltei à ponte.
196 A FO RM AÇÃO DO E J 8 T IL O

N o ecu viam -se a lg u m a s n u v en s, u m a s b ra n c a s, o u tra s


acobreadas.
O v e n t o s o p r a v a d e o e s te , o n d e o h o r i z o n t e se a v e r ­
m e l h a v a , c o m o se o sol se q u i s e s s e e r g u e r d a q u e l e l a d o ;
d e leste, e s t a v a t u d o n e g r o .
O m a r form ava lâ m in a s m onstruosas, sem elh an tes a
m o n t a n h a s p o n t i a g u d a s , f o r m a d a s d e v á r i o s a n d a r e s de
colinas.
Do seu c u m e elevavam -se g ra n d e s jactos de esp u m a,
q u e se c o l o r i a m c o m o o a r c o - í r i s ; e r a m t ã o e le v a d o s ,
q u e , d o c a s t e l o d a p ô p a , n o s p a r e c i a m m a i s a l t o s q u e as
gáveas.
O v e n t o fa zia t a n t o r u í d o n o c o r d a m e , q u e e r a i m p o s ­
sív el o u v i r m o - n o s .
F u g im o s p ara trá s d a mesena.
U m trôço do m a stro d a g áv e a p e n d ia n a ex trem id ad e
d o m a s t r o g r a n d e q u e s e p a r t i r a e m o i t o p o n t o s , a t é o nível
d o c a s t e l o ; c i n c o d o s c í r c u l o s d e f e rro , c o m q u e e s t a v a
l i g a d o , t i n h a m - s e f u n d i d o . O s b a i l é u s e s t a v a m c h e io s dos
destroços dos m a s tr o s d e g á v e a e d e joanete.
Ao n a s c e r d o sol, o v e n t o r e d o b r a d e f u r o r .
O n o s s o n a v i o , n ã o p o d e n d o já o b e d e c e r a o g o v ê r n o ,
p ô s -s e d e t r a v é s .
E n t ã o , t e n d o t r a p e a d o a m e s e n a , p a r t i u - s e a s u a escota.
E r a m tão v io len to s os seu s abalos, q u e p arecia que
d eitav am o m a s tro abaixo.
N u m m o m e n t o , o c a s t e l o d e p r o a se a c h o u c o m o e n t a ­
l a d o ; a s v a g a s q u e b r a v a m - s e n a s e r v i o l a d e b o m b o r d o , de
f o r m a q u e já se n ã o v i a o g u r u p é s .
N u v en s de e s p u m a in u n d a v a m - n o s a té o tom badilho.
O n a v i o já n ã o g o v e r n a v a ; e, a c h a n d o - s e c o m p l e t a ­
m e n t e a t r a v é s d o l e m e , a c a d a b a l a n ç o t o m a v a á g u a sob a
v e n t a n i a a t é o pé d o m a s t r o g r a n d 3 e s o e r g u i a - s e com
g ra n d e dificuldade.
N a q u e l e m o m e n t o d e p e r i g o , o c a p i t ã o g r i t o u ao t i m o ­
neiro q u e arrib asse.
A FO RM AÇÃO DO E S T IL O 197

M a s o n a v i o , s e m m o v i m e n t o , já n ã o o b e d e c i a à c a n a
do lem e.
E n t ã o o c o m a n d a n t e o r d e n o u aos m a rin h e iro s q u e c a r­
reg assem a m e s e n a , q u e o v e n to levava aos bocados; e aq u ê-
les d e s g r a ç a d o s , a s s u s t a d o s , r e f u g i a r a m - s e s o b o c a s t e l o d a
p ô p a . V i c h o r a r u m , e o u t r o s c a i a m d e jo e lh o s , r e z a n d o
a Deus.
A v an cei s ô b re o b a ilé u de bom bordo, ag a rran d o -m e às
en x á rc ia s; u m ja c o b in o , e sm o le r do navio, seguiu-m e, e
após ê le o p a s s a g e i r o S i r A n d r é .
A lg u m a s p esso as d a e q u ip a g e m im itaram -n o s, e con­
s e g u i m o s f e r r a r a q u e l a v e l a , d e q u e só h a v i a m e t a d e .
T e n t o u - s e r o d e a r o c u t e l o , p a r a a r r i b a r , m a s foi r a s ­
g ad o , c o m o u m a f ô l h a d e p a p e l .
F ic a m o s, pois, s e m o a u x ílio do vento, v o g a n d o de u m a
fo rm a h o r r í v e l .
U m a vez, t e n d o l a r g a d o as e n x á rc ia s, a q u e m e seg u ­
rava, d e s l i z e i a t é o p é d o m a s t r o g r a n d e , o n d e a á g u a m e
chegava aos jo e lh o s.
F i n a l m e n t e , d e p o i s d e D e u s , a n o s s a s a l v a ç ã o veio d a
solidez d o n a v i o e d e ê l e s e a c h a r c o m t r ê s p o n t o s ; d o c o n ­
t rá r io f i c a r i a e n r a s c a d o .
A no ssa s i t u a ç ã o d u r o u a té à n oite. E n tã o , acalm ou-se
a t e m p e s t a d e . A m a i o r p a r t e d o s n o s s o s m ó v e i s foi d e r r u ­
bada e p a r t i d a .
M a i s d e u m a v e z , f i q u e i c o m os p é s p e r p e n d i c u l a r e s à
porta d o m e u c a m a r o t e .

( B e r n a r d i m d e S a i n t - P i e r r e , V ia g e m
à Ilh a de F ra n ça ).

0 e s c o lh o d a a r t e d e s c r i t i v a r e s id e n a su a p ró ­
p ria n a tu r e z a .
A d e s c r iç ã o m u i t o lo n g a to r n a - s e m o n ó to n a e
en fad o n h a.
198 A FORM AÇÃO DO H S T IIiO

D e lille , S a in t- L a m b e r t, T h o m p s o n , B o u c h e u r,
e tc ., a p e s a r d a s s a a s q u a lid a d e s d e im a g in a ç ã o , só
c o n s e g u ir a m f a t i g a r os s e u s le ito re s .
O s e u e r r o e s ta v a e m f a z e r a p e n a s a descrição
g e r a l, a d e sc riç ã o v u lg a r .
T o d o s eles e m p re g a ra os m e sm o s m e io s, a m ésm a
f e itu r a .
É r e t ó r ic a p u r a .
S a in t- D a m b e r t n ã o e sc a p o u a esse esc o lh o , posto
q u e o h o u v e s s e a s s in a la d o n a P o é tic a , q u e precede
a s E sta çõ es.
O s n o ss o s p ro s a d o re s ro m â n tic o s c a íra m no
m e sm o d e fe ito .
R e n o v a r a m a m a té r ia , d e s c re v e ra m m ais realis-
ta m e n te .
H a v ia a li c o lo rid o e v id a , m a s a u n ifo rm id a d e
c a n s o u o p ú b lic o e ju s tif ic o u o d ito d e S a in t-B e u v e :
— c R e a liz a m u m D e lille r u tila n te .»
P o n h a m o s d e p a r t e e s te s a u to r e s .
N a d a te m o s a g a n h a r co m ê le s.
C A P ÍT U L O I X

E x e r c íc io s d e d e sc r iç ã o

Uma teoria de Júlio Lemaitre. —Esbôço de descrições.—


Processos. — Desenvolvimentos. —Exemplos de sen*
sações descritivas.

D e t u d o q u e fic a d it o r e s u l t a q u e a d e sc riç ã o ,
p a ra s e r b o a , d e v e s e r f e i t a c o m p o r m e n o r e s , s e n ­
sações e p e rc e p ç õ e s , o b s e r v a d a s e m a n a t u r e z a o u
e v o c a d a s d e la .
J ú l i o L e m a i t r e e x p ô s m u i to b e m e s ta te o ria .
D iz e l e :
— « P a s s a m o s a o p é d e u m a á r v o r e , o n d e c a n ta
u m a a v e . A m a i o r p a r t e d o s n o sso s clássicos, e
q u á si t o d a s a s m u l h e r e s , e s c r e v e r ã o : « A a v e faz
o u v ir n a f o l h a g e m o s e u c a n t o jo v ia l» . E s t a fra se
não é p i n t u r e s c a ; e p o r q u ê ? E q u e se e x p rim e
p o r e la , n ã o o p r i m e i r o m o m e n to d a p e rc e p ç ã o ,
m as o ú l t i m o . P r i m e i r o , d e c o m p õ e -s e a p e rc e p ç ã o ;
se p a ra -se , d i s t i n g u e - s e a d a v i s t a e a d o o u v id o ;
de u m la d o , p õ e - s e a f o lh a g e m , d o o u tr o o c a n to
da a v e , p o s t o q u e , n a r e a lid a d e , se h o u v e ss e
n o ta d o a o m e s m o t e m p o a f o lh a g e m e a canção.
« M as n ã o fic a p o r a q u i .
200 A FO RM A ÇÃ O DO B J S T IL O

« D e p o is d e se t e r a n a lis a d o a percepção
p e s s o a l, p r o c u r a - s e e x p r i m i r p rin c ip a lm e n te o
s e n t im e n to d e p r a z e r q u e e la p r o d u z e escrev e-se:
« c a n to j o v i a l », E eis a q u i p o r q u e a fra s e não é
v i v a ; e la n ã o é u m a d e s c riç ã o , m a s u m a análise, e
n ã o t r a d u z d i r e c ta m e n t e os o b je c to s , m as o b
s e n t im e n to s q u e e le s d e s p e r ta m e m n ó s.
« A s m u l h e r e s e s c r e v e r a m o u t r o r a e escrevem
a i n d a a s s im , o u a n te s n e s s e g o s t o (pois m e não
a p o io c o m p le ta m e n te n o m e u e x e m p lo ; ap resen to -o
p a r a c o m o d id a d e ).
«S e e la s e s c re v e m a s s im , é p o r q u e sen tem
r à p i d a m e n te , v is to q u e , p a r a e la s, u m a percep ção
(o u u m g r u p o d e p e rc e p ç õ e s ), tr a n s f o r m a - s e logo
e m s e n tim e n to , e o s e n t i m e n t o é o q u e m a is as
in te r e s s a , p o is só v iv e m p a r a ele.
« O ra, o e s tilo p in t u r e s c o (n o s e u m a is a lto g ra u
e n a m a io r p a r t e d o s caso s), p a r e c e - m e c o n sistir
e s s e n c ia lm e n te e m a p a n h a r e f i x a r a p e rc e p ç ã o , no
m o m e n to e m q u e e la s u r g e , a n te s q u e se decom ­
p o n h a e se c o n v e r t a e m s e n t im e n to .
« T r a ta - s e d e e n c o n t r a r c o m b in a ç õ e s d e p a la v ras
q u e e v o q u e m n o l e i t o r o o b je c to , t a l q u a l o a rtis ta
o d e s v e n d o u c o m to d o s os s e u s s e n tid o s , co m o seu
te m p e r a m e n to p a r t i c u l a r .
« É p re c is o r e m o n t a r a t é o p o n to d e p a r tid a da
s u a im p re s s ã o , e ó o ú n ic o m e io d e a c o m u n ic a r
e x a c ta m e n te ao s o u tr o s .
«M as a s m u l h e r e s s ã o in c a p a z e s d e s s e tra b a lh o ,
p e la ra z ã o q u e j á a p r e s e n t e i .
A FORM AÇÃO D O E JS T IL O 201

« C o n tu d o , M .1110 d e S é v ig n é c o n se g u iu -o u m a
vez p o r g r a ç a e s p e c ia l, p o r f a v o r m ira c u lo s o . S o u b e
fix a r o s e u p r i m e i r o m o m e n to d a p e rc e p ç ã o , a q u e le
em q u e se n o ta ao m e s m o te m p o a fo lh a g e m e o
can to .
« D iz e l a : « É lin d o ! u m a fo lh a q u e c a n ta !»
«M as a in d a a li se t r a i a m u lh e r , n o c o n to rn o
da f r a s e . . . D ir - s e - ia q u e e la se s e n tia s a tis fe ita de
te r e n c o n tr a d o a q u e la f o r m a ; p a re c e q u e p e n s o u :
« T a m b é m é li n d a a m i n h a lig a ç ã o de p a la v ra s ;
não a c h a m ?»
« T o d o s os h o m e n s , q u e p r o c u r a m a e x p re s s ã o
p in tu re s c a , d e s d e L a - F o n ta in e a E d m u n d o d e Gron-
c o u rt, e s c re v e rã o s im p le s m e n te :
« A fo lh a c a n ta .»
T u d o is to ó d e g r a n d e e x a c tid ã o e p ro v a q u e
os v e r d a d e ir o s e s c r ito r e s n ã o o b se rv a m o u tro s p r in ­
cípios, se n ã o os q u e e s ta m o s in s in u a n d o .
A g o ra , q u e j á d e c o m p u s e m o s os p ro cesso s d es­
c ritiv o s d e H o m e r o e q u e v im o s d e q u e m a n e ira
os m e lh o re s a u to r e s os e x p lo r a r a m , p ro c u re m o s nós
tam b ém , s e g u n d o e ss e s p rin c íp io s , d e s e n v o lv e r u m
esboço d e s c r itiv o .
P r im e ir o , e x p o r e m o s a m a té r ia ; d ep o is, tr a t a ­
rem os d e a e x p lo r a r .
202 A FO RM AÇÃO DO H S T ID O

1 .0 EXEM PLO

0 necrotério do monte $. Bernardo

S u p o n h a m o s q u e te m o s d e d e s c r e v e r o n e c ro ­
té rio d o h o sp íc io d o m o n t e S . B e r n a r d o .
E x p õ e m -s e a li os c a d á v e r e s , q u e s e e n c o n tr a r a m
e n te rra d o s n a n e v e .
C om o h á a li m u i to f r io , o s c a d á v e r e s c o n se r­
v a m -se in d e f in id a m e n te .
O a s s u n to é lú g u b r e , m a s o p r o c e s s o s e r á e m p o l­
g a n te .
Q ue f a r ia H o m e r o p e r a n t e t a l a s s u n t o ?
D e s c re v e ria a s v ít im a s , u m a a u m a , c o m o a u x í­
lio de a lg u n s t r a ç o s ; m o s t r a r i a c a d a a t i t u d e , cada
fisio n o m ia, c a d a p e s s o a .
I m a g in a i, p o r t a n t o , o r e t r a t o f ís ic o d e cada
co rp o , co m o se e s t i v e s s e m e m p o se, u m d e pó,
o u tr o in c lin a d o , e s te m u i t o a lt o , d e b ô c a -a b e rta ,
a q u e le d e p e rfil e o lh o s f e c h a d o s . . .
E n e o n tr a r e is d o is o u t r ê s p o r m e n o r e s para
c a ra c te riz a r c a d a u m d e le s , e x p r e s s õ e s d e ro sto s
d ife re n te s, t r a j o s d iv e r s o s , e tc .
T e n te m o s , n ã o e s q u e c e n d o i n s u l a r c a d a traço,
to rn á -lo v is ív e l e c u r t o :

A queles m o rto s, a l i n h a d o s n u m a p o s e v iv a , causavam


h o r r o r ! A s s e m e l h a v a m - s e a é b r i o s , q u e s e e n c o s ta s s e m ,
p a r a n ã o c a i r , o u a m a n e q u i n s d e t a m a n h o n a t u r a l , que
houvessem colocado j u n t o d e u m a d e c o r a ç ã o te a tra l.
A FO RM A ÇÃ O DO H 8 T IL O 203

U m b u f a r in h e ir o , d e saco à s co stas, vestido de lã azul


e s c u ra , t i n h a a c a b e ç a d e i t a d a p a r a t r á s . O v e n t r e d i l a -
ta v a - s e - l h e p a r a a f r e n t e , e n t r e o s b r a ç o s , q u e p e n d i a m .
T i n h a o s o l h o s f i x o s n o c h ã o . O s p ê l o s a r r u i v a d o s d o b ig o d e
e r r i ç a v a m - s e s o b a s n a r i n a s . A b ô c a f i c a r a a b e r t a e, a o f u n d o
dela, v i a - s e - l h e a l í n g u a .
Ao l a d o d ê l e , u m v e l h o d e p o l a i n a s d e c o u r o , e s t a v a
tão c u r v a d o , q u e a c a b e ç a q u á s i l h e t o c a v a n o s joelhos.
As m ã o s t a m b é m l h e p e n d i a m , c o m a s p a l m a s v o l t a d a s
p a r a f o r a e o s d e d o s a b e r t o s . A s u a c a l v a b r i l h a v a com o
m a r f im , e, e m c a d a u m a d a s s u a s f o n t e s , h a v i a u m tufo
de c a b e l o s g r i s a l h o s .
M a i s l o n g e , u m m o r e n o , a l t o , t o s t a d o , e l e v a - s e a c im a
de t o d o s o s o u t r o s . E s t a v a t ã o d i r e i t o , q u e p a r e c i a p r e g a d o
na p a r e d e ! C o m u m a b ó i n a n a c a b e ç a , o l h a v a - n o s com
um h o rrív e l ris o , q u e lh e a b r ia a bôca a té às orelhas.
Ê sse a t r a í a - n o s . . . e r a p a r a q u e m s e m p r e o l h á v a m o s sem
querer. j
H a v ia a i n d a o u t r o , v e s tid o d e g a b ã o azul, cuja cabeça
to c a v a n o c h ã o . C o m o v e r g a r d o c o r p o , o g a b ã o p r e n d e r a - s e
n u m p r e g o , c o l o c a d o a t r á s d ê l e , e p a r e c i a e s t a r e n f o rc a d o
na p a r e d e p o r u m a p o n t a d o s e u g a b ã o .
O u t r o , d e c h a p é u - d e - f ê l t r o , co m u m c a c h e n é n o pes­
coço, e s t a v a e n c o s t a d o , d e l a d o , c o m o r o s t o c o l a d o à p a r e d e ,
onde o perfil se r e c o r t a v a m a i s n itid a m e n te , q u e u m a m ás­
cara d e ce ra, e t c . . . .
*

I s t o n ã o ó m a is q u e u m s im p le s e n sa io .
M as, t r a b a l h a n d o n e s te r a s c u n h o , p ro c u ra n d o
d a r r e le v o e p o r m e n o r e s c ir c u n s ta n c ia d o s , à m a ­
n e ira d e H o m e r o , p o d e r e is ta lv e z f a z e r u m a d e s c ri­
ção, q u e n ã o s e r i a t r i v i a l e q u e d a r ia a im p re ss ã o
do que se v iu .
204 A FO RM A ÇÃ O DO J ff lS T I L O

2 .° E X E M P L O

Napolefio em Waterloo

T o m e m o s o a t r o e x e m p lo d e u m a u t o r c o n h e ­
cido.
Q n e re is q u e u m s o ld a d o v o s c o n t e a p a s s a g e m ,
a c a v a lo , d e N a p o le ã o I , e n t r e v i s t o a o lo n g e , no
f o r m ig a r d e u m e x é r c ito , e m W a t e r l o o .
S e fic a rd e s fiel ao p r o c e s s o h o m é r ic o , c o n te n ta r -
'-v o s -e is com d o is o u t r ê s p o r m e n o r e s m a te r ia is ,
m a s b e m c a r a c te r ís tic o s , q u e d a r ã o a v is ã o do
Im p e ra d o r.
N a p o le ã o e s ta v a d e c a p o te c i n z e n t o , e, n a q u e la
época, u m p o u c o g o r d o , u m p o u c o c u r v a d o .
E is a q u i os d o is tr a ç o s q u e s e d evem f a z e r ver,
n a ra p id e z d e u m a d i s t a n t e r e v i s t a a c a v a lo , e n tr e
a a c la m a çã o d o s s o ld a d o s .
R a p id e z , a c la m a ç ã o , a s p e c to f ís ic o d o I m p e r a ­
d o r, tu d o a li e s tá e b a s t a r ã o a l g u m a s li n h a s .
P r o c u r a i d e s c r e v e r a c e n a , e, lo g o q u e ela
e s tiv e r fe ita , c o m p a r a i o q u a d r o , q u e v e m o s em
E r c k m a n n - C h a tr ia n :

R c c o rd o -m e d e q u e s e o u v i u d e r e p e n t e e l e v a r e m - s e , à
e s q u e rd a , com o u m a t e m p e s t a d e , o s g r i t o s d e : V i v a o Im p e ­
r a d o r ! e q u e êsse s g r i t o s s e a p r o x i m a v a m , a u m e n ta n d o
se m p re , e q u e n o s p ú n h a m o s n a s p o n t a s d o s p é s , e s te n ­
d e n d o o p e s c o ç o ... O s p r ó p r i o s c a v a l o s r e l i n c h a v a m , com o
se q u ise sse m g r i t a r .
A FO RM A ÇÃ O DO B 8 T IL O 205

N a q u e l e m o m e n to , u m t u r b i l h ã o d e o f ic ia is - g e n e r a is
passou d i a n t e d a n o s s a f ile ir a . N a p o le ã o a c h a v a - s e e n t r e
êles. P a r e c e - m e tê -lo v is to , m a s n ã o te n h o a c e r te z a d is s o ;
êle ia tã o d e p r e s s a , e t a n t o s h o m e n s le v a v a m a s s u a s b a r -
re tin a s n a p o n ta d a s b a io n e ta s , q u e m a l h a v ia te m p o p a r a
se re c o n h e c e r a s s u a s c o s ta s a b a ü la d a s e o se u c a p o te c i n ­
zento, n o m e io d o s u n i f o r m e s a g a l o a d o s . . .

Q u a n d o d iz e m o s q u e a d e s c riç ã o d e v e s e r
m aterial, is to q u e r e d iz e r q u e é p re c is o , a to d o o
custo, fa z e r ver, descrever, m o stra r.
P a ra isso é p re c is o v e r m o s n ó s p r ó p r i o s ; d a q u i
a n ec e ssid ad e d e d e s c r e v e r , s e g u n d o a re a lid a d e .
S em d ú v id a é d if íc il v e r, ao n a t u r a l , c e n a s
im a g in a d a s, b a ta lh a s , c o n te n d a s . . . n u m a p a la v r a ,
tudo o q u e c o m p õ e a in f in ita v a r ie d a d e d a s co isas
descritas n u m liv r o .
J á d is se m o s c o m o is s o se p o d e s u p r i r .
P a ra os q u a d r o s d a n a tu r e z a , ó c o n v e n ie n te
tirá-los do n a t u r a l e j á m o s tra m o s q u e ó isso
p recisam en te o q u e c o n s t i t u i o m é r ito d a s d e s­
crições.
Os e x e m p lo s m a is v a lio s o s d e s te g ê n e r o p o d e ­
riam s e r n u m e r o s o s .
C item o s a l g u n s .
S u p o n h a m o s q u e e s tá v e is e m v o ssa c a s a e q u e
tom aríeis as n o ta s s e g u in te s , r e l a t i v a s a u m a
época, em q u e h a b i t á v e i s u m a a ld e ia , n u m d ia d e
neve:
206 ▲ FO RM AÇÀO DO H 8 T JL O

3 .° E X E M P L O

Nevada

N o t a s . S a c o d e m -s e o s p é s, a o e n t r a r m o s e m c a sa . L á
fo ra s o p r a u m a a r a g e m fin a . A n e v e c a i, o r a e m fro co s que
p a s s a m r á p id o s , o r a e m p lu m a s q u e e s v o a ç a m . R u íd o de
p á s c o n t r a a s p o r ta s , p a r a t i r a r e m d e la s a n e v e . O uve-se
f a la r , m a s n ã o s e o u v e m p a s s o s . N e v e s ô b re o s caix ilh o s
d a s ja n e la s , n ã o d e ix a D d o a b r i r a s v i d r a ç a s . O m a is pequeno
r u íd o e c o a n o g r a n d e s ilê n c io . U m b a n d o d e a v e s d irig e -se
p a r a o s c a m p o s p ró x im o s . A n e v e p o l v i lh a t u d o , co m o fa ri­
n h a . P ó m i s tu r a d o c o m g r a n d e s fro c o s. N a s c a sa s, luz
b r a n c a e im ó v e l. L á fo ra , é e s c u s a d o e s c u ta r , n a d a se
o u v e . . . s e n ã o o s i b i l a r c o n tín u o d e a r a g e m fin a . A neve
c a in d o s e m p re .

O om e s ta s l i n h a s p o d ia fa z e r-s e u m a descrição.
B a s ta r ia p o re m -s e e s ta s n o ta s e m b o a o rto g ra ­
fia, c o m o m e n o s p o s s ív e l d e l i t e r a t u r a e d e frases.
T e n te m o s :

A b ri a m in h a ja n e la ; n e v a v a .
A lg u n s t r a n s e u n t e s , q u e s e n ã o o u v ia m c a m in h a r , a tra ­
v essav am as r u a s , a p re s s a d a m e n te .
O s v iz in h o s e n t r a v a m p a r a a s s u a s c a s a s , sa c u d in d o
o s p é s.
U m a a r a g e m a g r e s t e n ã o c e s s a v a d e s i b i l a r , le v a n d o a
n e v e , d e s fa z e n d o -s e e m p ó fin o .
O r a g r a n d e s fro c o s , o r a p l u m a s le v e s , q u e n ã o ch e g a­
v a m a c a i r ; d e p o is , u m a e s p é c ie d e p o e ir a v o la n te .
O g r a n d e s ilê n c io d a r u a e r a a p e n a s p e r tu r b a d o pelo
A FORM AÇÃO DO JB 3 8 T IL O 207

ruído d a s p á s , c o m q u e u m a s d u a s o u t r ê s m u l h e r e s d e s ­
viavam a n e v e d a s s u a s p o r t a s .
A c a m a d a b r a n c a e r a t ã o e s p ê s s a s ô b r e o s c a ix i l h o s d a
m in h a ja n e la , q u e a c u s to c o n s e g u i a b r i r a s p e r s i a n a s .
C o n te m p le i u m m o m e n to a q u e la p o e ir a fin a , q u e p o l -
v ilh a v a tu d o , o s t e l h a d o s , o so lo , a s f a c h a d a s e q u e t r a n s ­
m itia ao m e u q u a r t o u m r e v é r b e r o im ó v e l.
S e n ã o fô sse o f r io , q u e se a p o s s a v a d e m im , p a s s a r i a
h o ra s a o u v i r a q u e la n e v e a c a i r , a q u e le r u í d o s u r d o , i m ­
p e rc e p tív e l, n o c o n t í n u o s i b i l a r d a a r a g e m f r i a , q u e p o u c o
in c o m o d a v a . . .

A ssim , p o d e m e s c o lh e r-s e os a s s u n to s e, c o m
H o m ero so b o s o lh o s , p r o c u r a - s e d e s e n v o lv ê -lo s ,
seg u n d o o p ro c e s s o d e v e r d a d e ir a s s e n s a ç õ e s e d e
cópia re a l.
M ais u m e x e m p lo , p a r a a c a b a r :

4 .° E X E M P L O

Q u e re is d e s c r e v e r o c r e p ú s c u lo d e u m b e lo d ia ,
em p le n o d e s e rto , n u m l u g a r d o E g ito .
E u s u p o n h o q u e fa z e is a d e s c riç ã o n o p r ó p r io
local.
M u ito s p o r m e n o r e s v o s im p r e s s io n a r ã o ; p o d e -
reis tr a ç a r p á g i n a s s ô b r e p á g i n a s :

N o ta s . A d i r e i t a e à e s q u e r d a r o c h e d o s ; a o f u n d o , o
deserto i m e n s o , a a r e i a , a s u a c ô r , a s s u a s v a g a s , oe s e u s
aspectos.
M a is l o n g e , a s m o n t a n h a s d e L í b i a , o s s e u s t o n s , o s
seus v a p o r e s , o s s e u s c o n t o r n o s , g r a d a ç õ e s , e t c .
^208 A FO RM A ÇÃ O DO K B T L L .O

A o n o rte , n u v e n s e s c a lo n a d a s : m u i t a s i m a g e n s se a p r e ­
s e n ta r ã o .
F in a lm e n te o a s p e c to t o t a l d a t e r r a , f é r t i l e m evoca­
çõ es d e s c r itiv a s , c o m a p o e ir a d a lu z e s p a r s a p o r tô d a a
p a r te .

P o d e is , c o m e s ta s n o ta s , f a z e r u m a d e sc riç ã o
in te r m in á v e l, c a m b i a n te e f e c u n d a , n o g ó n e ro de
T e ó filo G a u tie r .
M as u m a o u d u a s f o r te s s e n s a ç õ e s s o b re cada
o b je c to , a a re ia , a m o n t a n h a , a s n u v e n s e a lu z
f u l g u r a n t e b a s ta r ã o , so b a p e n a d e u m m e stre ,
p a r a d a r a in t e n s a e c o n c is a d e s c r iç ã o , q u e ides
v e r:

A v i s t a é l i m i t a d a , à d i r e i t a e à e s q u e r d a , p e l o círcu lo
d o s rochedos.
M a s , d o l a d o d o d e s e r t o , c o m o p l a g a s , q u e se s u c e d e s ­
sem , im en sas o n d u laçõ e s p a ra le la s , d e u m lo u ro carregado,
-estiram -se u m a s p o r d e t r á s d a s o u t r a s , s u b i n d o se m p re .
D e p o i s , p a r a a l é m d o s a r e a i s , m u i t o a o l o n g e , a c o rd i­
lh e ir a líbica fo rm a u m a m u r a l h a c ô r d e g r e d a , esfum ada
levem ente p o r v a p o re s violáceos.
E m f r e n t e , o sol d e c l i n a . . .
O céu, ao n o r te , te m u m a c ô r a c i z e n t a d a , e n q u a n to
-ao z é n i t e n u v e n s d e p ú r p u r a , d i s p o s t a s c o m o f r o c o s d e u m a
crina g ig a n te ia , se e s te n d e m so b a a b ó b a d a a z u l.
Ê s s e s r a i o s i n f l a m a d o s e s c u r e c e m , o s p o n t o s a z u la d o s
form am u m a palidez n a c a r a d a .
A s sarças, as p e d r a s , a t e r r a , t u d o p a r e c e a g o r a duro,
c o m o o b ro n z e .
E n o e s p a ç o , f l u t u a u m p ó d e o u r o , t ã o f i n o , q u e se con­
fu n d e com a v ib raç ão d a lu z.
(G . F l a u b e r t , A T e n ta ç ã o d e S a n to A n tô n io ).
A FORM AÇÃO DO B 8 T IL O 209

E is ta m b é m a q u i a g r a n d e im p re s s ã o d e s o li­
dão, q u e n o s d á F l a u b e r t , d e p o is d e t e r d e s c rito
as r u í n a s d e u m v e lh o c a s te lo fe u d a l.
O c é u e s t a v a c la ro , d e s a n u v e a d o , m a s sem sol.
O c a m p o , s o l it á r io .
B a s ta m a p e n a s a l g u n s tr a ç o s ao e s c r ito r :

N ã o s e o u v i a r u í d o a l g u m ; a s a v e s n ã o c a n ta v a m ,
o e m n o h o r i z o n t e h a v i a m u r m ú r i o a l g u m ; e os su lc o s,
v a z io s , d o a r a d o j á n ã o n o s e n v ia v a m o s g u in c h o s d a s g r a ­
lh a s n e m o r u id o s u a v e d o f e r r o d a s c h a r r u a s .
D e s c e m o s , a t r a v é s d a s s ilv a s e d a s s a r ç a s , a u m fôsso
p ro fu n d o e s o m b r io , o c u l t o j u n t o d e u m a g r a n d e tô r r e , q u e
s e b a n h a v a n a á g u a e n o s c a n iç o s .
A p e n a s u m a j a n e l a se a b r e n u m d o s la d o s, u m q u a ­
d ra d o e s c u r o , c o r t a d o p e lo tr a ç o c in z e n to d o se u p in á z io d e
p e d ra .
U m tu f o a l e g r e d e m a d r e s s ilv a s ilv e s tr e p e n d u r a - s e no
re b ô rd o , e p a s s a p a r a fo ra a s u a e x a la ç ã o p e r fu m a d a .
A s g r a n d e s b a l h e s t e i r a s , q u a n d o se le v a n ta a cab eça,
d e ix a m v e r d e d e b a ix o , p e la s s u a s a b e r t u r a s e n c a n c a ra d a s ,
a p e n a s o c é u o u a l g u m a f lo r z in h a d e s c o n h e c id a , q u e se
a n in h o u a l i , t r a z i d a p e lo v e n to , n u m d ia d e te m p e s ta d e e
o n d e a s e m e n te g e r m i n o u , a b r i g a d a n a fe n d a d a s p e d ra s.
D e r e p e n t e , v e io u m s ô p r o d o c e e lo n g o , com o u m su s-
f i r o q u e se e x a l a . . .
E a s á r v o r e s n o s fo s s o s , a s e r v a s s ô b re a s p e d ra s , os
ju n co s n a á g u a , a s p l a n t a s d a s r u í n a s e a s g ig a n te ia s tre ­
p a d e ira s q u e , d a b a s e a o c u m e , r e v e s tia m a t ô r r e , so b a s u a
c a m a d a u n i f o r m e d e v e r d u r a l u z i d i a , e s tr e m e c e r a m todos e
a g tta r a m a s u a f o l h a g e m .
O s t r i g a i s , n o s c a m p o s , a g i t a r a m a s s u a s o n d a s lo u ra s ,
■que se e s t e n d i a m l o n g a m e n t e s o b a s c a b e ç a s m o v e d iç a s d a s
■espigas.
14
BIO A FORMAÇÃO DO H S T IL .O

O c h a rc o d c é g u a e n c re sp o u -se c im p e liu u m a onda


p u r a j u n t o d a tô rre .
A s fô lh a s d e h e r a e s tr e m e c e r a m j u n t a m e n t e e u m a
m a c ie ira em flo r d e i x o u c a i r os s e u s b o tõ e s c ô r - d e - r o s a .

( F l a u b e r t , P e lo s C a m p o s e p e la s P r a t a s ) .

N a d e sc riç ã o d o s jo g o s , q u e t e r m i n a m a Hlada>
e is a q u i com o, c o m s im p le s m a s e m p o lg a n te s se n ­
sa ç õ es, H o m e r o n o s d e s c r e v e o s c o r r e d o r e s :

C o lo c a r a m - s e d e fre n te -, A q u ile u m o s t r a - l h e s o a lv o e
ê le s p r e c ip ita m - s e .
E lía d e ia a d i a n t e d e t o d o s ; e m s e g u i d a , ia o d iv in o
O d is s e u .
A s s im c o m o a l a n ç a d e i r a , q u e u m a b e la m u l h e r m a n e ja
h a b ilm e n te , se a p r o x im a d o s e u s e io , q u a n d o p u x a o fio
p a r a s i, a s s im O d is s e u se a p r o x im a v a d e A ia s , a s s e n ta n d o
o s p é s s o b r e o s p a s s o s d a q u e le , a n te s q u e a p o e ir a se
le v a n ta s s e . . .
A s s im , o d iv in o O d is s e u a q u e c i a c o m o s e u h á lito a
ca b e ça d e A i a s .

C o m o j á d is s e m o s , é e s te o p r o c e s s o q u e se
e n c o n tr a s e m p r e e m F l a u b e r t , c o m o n e s t a p assa­
g e m (os m o n g e s d a n d o c a ç a a o s A r ia n o s ) :

A t u r b a d e té m - s e e o l h a p a r a o l a d o d o O c id e n te ,
d o n d e a v a n ç a m g r a n d e s t u r b i l h õ e s d e p o e ir a .
S ã o o s m o n g e s d e T e b a i d a , v e s t i d o s d e p e le s d e c a b ra ,
a r m a d o s d e b a s tõ e s e e n t o a n d o u m c â n t i c o g u e r r e i r o e re li­
g io s o c o m ê s te m o t e :
« O n d e e s tã o ê le s ? o n d e e s t ã o ê le s ? »
A n tô n io c o m p r e e n d e q u e ê le s v ê m p a r a m a t a r os
A r ia n o s .
A FO RM AÇÃO I> 0 K S T I L .O 211

D e s ú b i t o , e s v a z i a m - s e a s r u a s e n ã o se v é e m se n ã o p é s
e r g u id o s .
O s S o l i t á r i o s e s t ã o a g o r a n a c id a d e .
O s s e u s f o r m i d á v e i s b a s tõ e s , g u a r n e c id o s de p r e g o s ,
v o lte ia m c o m o s ó i s d e a ç o . O u v e - s e o r u íd o d e c o is a s p a r ­
tid a s , n a s h a b i t a ç õ e s .
H á m o m e n to s d e s ilê n c io . . .
D e p o is , l e v a n t a m - s e g r a n d e s g r i t o s .
D e u m l a d o a o o u t r o d a s r u a s , é u m re b o liç o c o n tín u o
de p o v o a s s u s t a d o .
A lg u n s s e g u r a m la n ç a s .
A s v e z e s , e n c o n t r a m - s e d o i s g r u p o s , q u e d e p o is fazem
só um .
E a q u e l a m a s s a d e s l i z a s ô b r e a s p e d r a s , a p a r ta - s e ,
p ro s tr a - s e .
M a s a p a r e c e m o s h o m e n s d e l o n g o s c a b e lo s .

(F la u b e rt, A T e n t a ç ã o d e S a n t o A n tô n io ) .
C A P ÍT U L O X

D e sc r iç ã o a c u m u la tiv a e d e s c r iç ã o
por a m p lific a ç ã o

Descrição acumulativa : E. Z o Ja. — A amplificação descri­


tiva. — Processos artificiais. — A amplificação des­
critiva de Lamartine.

O q u e to r n a a d e s c r iç ã o i n s u p o r t á v e l é o i n t e r ­
m inável p ro c e ss o d e a c u m u la ç ã o e d e a m p lifica çã o .
1. ° — D e s c riç ã o a c u m u l a t i v a ;
2. ° — D e s c riç ã o p o r a m p lif ic a ç ã o .
E is a q u i os d o is f la g e lo s d a a r t e d e s c r i t i v a .
Cai-se n e sse s e x c e s s o s , q u a n d o n o s e n tr e g a m o s
a tuna im a g in a ç ã o m u i t o f é r t i l , q u a n d o se t o m a a
in tem p eran ça c o m o q u a li d a d e , q u a n d o n o s n ã o
lim itam os a o l h a r s o m b r i a m e n t e e a d e s c r e v e r ao
natural.
E a fo rç a e n ã o a e x te n s ã o q u e f a z a i n t e n s i ­
dade d e s c ritiv a .

Descrição acumulativa

A d e s c riç ã o a c u m u l a t i v a c o n s i s t e e m a m o n t o a r
inutilm ente os p o r m e n o r e s .
21 4 A KORM AÇÃO DO R 8 T IL O

P ro c u ra -s e o e f e i t o ; só se a t i n g e o e n fa d o .
É m a is d if íc il e m p r e g a r b e m o ta l e n to , d o q u e
te r ta le n to .
S e m c it a r as in t e r m i n á v e i s o b r a s - p r im a s , c r i t i ­
c ad as p o r B o ile a u e n t r e o s a u t o r e s d o s e u te m p o ,
os n o sso s p o e ta s e p r o s a d o r e s c o n te m p o r â n e o s
a b u n d a m em e x e m p lo s d e a c u m u l a ç ã o d e s c r i­
tiv a .
E m ílio Z o la e o t i p o d e s ta m a n e i r a d e d e s c re ­
v e r, q u e e s tr a g a a l i t e r a t u r a .
O s se u s liv r o s n ã o sã o m a is q u e u m a m o n to a -
m e n to d e p o rm e n o re s .
T ir o u d is s o o s e u p a r t i d o ; é o s e u p ro c e sso .
A d e s c riç ã o d e P a r i s fa z to d a s a s d e s p e s a s de
U m a P á g in a de A m o r .
D e s c re v e P a r i s , v i s t a d a s a l t u r a s d e P a s s y ;
P a r is , v is ta d e n o ite , a i l u m i n a ç ã o d e c a d a b a irro ,
de cada r u a ; P a ris , v is ta so b a c h u v a , a c h u v a à
d ir e ita , à e s q u e r d a , ao f u n d o , a o lo n g e , m o n u m e n to
p o r m o n u m e n to ; P a r i s a o so l, s o b a s n u v e n s .
D ep o is, a tr a v e s s a o S e n a , h á o s I n v á l i d o s , os
C a m p o s E lis e u s , o P a lá c i o M u n i c i p a l ; d e p o is , os
b ico s d e g á s, as e s tr e la s , e tc ., e tc . C h e g a a n o ite ,
os b ic o s d e g á s a c e n d e m . . .
D ed e i s t o :

P a r i s i n t e i r a e s t á a c e s a . A s c h a m a z i n h a s v a c ila n te s
tin h a m c r iv a d o o m a r d e t r e v a s , d e u m p o n t o a o o u tr o do
h o riz o n te , e a g o r a o s s e u s m i l h a r e s d e e s t r é i a s a r d ia m ,
com u m b r ilh o fixo, n u m a s e r e n i d a d e d e n o i t e d e v e rã o .
N em u m s ô p r o d e v e n t o , n e m o m a i s p e q u e n o e stre -
A FO RM A ÇÃ O DO B S S T IL O 215

m e c im e n to a s s a l t a v a a s l u z e s , q u e p a r e c ia m co m o s u s p e n ­
sas n o e s p a ç o .
P a r i s , q u e s e n ã o v i a , r e c u a r a p a r a o fu n d o d o in fin ito ,
tã o v a s to c o m o u m f i r m a m e n t o .
C o n t u d o , a o f u n d o d o s d e c liv e s d o T r o c a d e r o , u m c la ­
rão r á p id o , t a l v e z a s l a n t e r n a s d e u m a c a r r u a g e m ou de
u m ó m n i b u s , c o r t a v a a s o m b r a , c o m o fio c o n tín u o d e u m a
e s tré ia c a d e n t e ; e , a l i , a o b r i l h o d o s b ic o s d e g á s , q u e d e s­
p e d ia m c o m o q u e u m v a p o r a m a r e l o , d is tin g u ia m - s e v a g a ­
m e n te f a c h a d a s c o n f u s a s , r e c a n t o s a r b o r iz a d o s , d e u m v e rd e
c ru d e d e c o r a ç ã o .
S ô b r e a p o n t e d o s I n v á l i d o s , a s e s t r é i a s c ru z a v a m -s e
sem d e s c a n s o , e m q u a n t o e m b a ix o , n u m a fa ix a d e tre v a s
m ais e s p e s s a s , a v o l u m a v a u m p r o d í g i o , u m b a n d o d e com e­
tas, c u ja s c a u d a s d o u r a d a s s e p r o l o n g a v a m n u m a c h u v a de
faíscas : e r a m o s r e f le x o s d a s l a n t e r n a s d a p o n te , n a s á g u a s
n e g ra s d o S e n a .
M a s, p a r a a l é m , c o m e ç a v a o d e s c o n h e c id o .
A l o n g a c u r v a d o r i o e r a i n d i c a d a p o r u m d u p lo c o r­
dão d e g á s , a q u e s e l i g a v a m o u t r o s c o rd õ e s , d e p ra ç a
em p r a ç a ; d i r - s e - i a u m a e s c a d a d e lu z , la n ç a d a a tr a v é s de
P a ris, c o m a s e x t r e m i d a d e s n a b o r d a d o c é u , n a s e s tré ia s .

f i is to d u r a n t e p á g i n a s , c o m u m a v e rd a d e ira
p re o c u p a ç ã o d e m o n o t o n i a .
V ê -se o p e r i g o q u e h a v e r i a , p a r a e s c rito re s v u l­
gares, e m i m i t a r u m p r o c e s s o in a d m is s ív e l, m esm o
entre os e s c r i t o r e s a b a li s a d o s .

A descrição por amplificaçSo

A a m p lif ic a ç ã o d e s c r i t i v a é ig u a l m e n t e u m p ro ­
cesso d e a c u m u l a ç ã o , m a s m a is fic tíc io , com m enos
base re a l.
216 A FORM AÇÃO DO 1 D 8 T IL O

A a c u m u la ç ã o c o n s is te n a a b u n d â n c ia dos p o r­
m e n o r e s ju s ta p o s to s .
D iz e m -s e m u i ta s c o isas.
A a m p lfic a ç ã o e x p lo r a a r e tó r ic a e sc rita , m u l­
tip lic a as c o m p a ra ç õ e s , d e s d o b ra as m e tá fo ra s , v a ria
a s im a g e n s , e s g o ta os e p íte to s .
N a a cu m u la çã o , p e r m ita m m e o te rm o , p rep a­
r a - s e o p r a o c o m u m a g r a n d e q u a n tid a d e de
p e q u e n in a s c o isa s.
N a a m p L fira çã o , é o m ôlho q u e se esp alh a .
Z o la é a in d a o r e i d e s te g ê n e ro .
N o C rim e do P a d r e M o w et, d e s c re v e u m p a r­
q u e . D ir - s e - ia u m a cla ssific a ç ã o .
A o c h e g a r à s ro sa s, tô d a s a s e sp é c ies d e rosag
vêm à b a lh a :

• E m t ô r n o d ê le s , flo re sc e m a s r o s e ir a s . E r a u m a flores­
c ê n c ia lo u c a , a m o r o s a , c h e ia d e r is o s v e r m e lh o s , d e risos
c ô r-d e -ro s a * d e r is o s b r a n c o s . . .
H a v ia a li r o s a s a m a r e l a s , d e s fo lh a n d o c ú tis do u rad as
d e r a p a r i g a s b á r b a r a s , r o s a s - c r e m e s , r o s a s c ô r d e limào,
c ô r d o s o l, d e to d o s o s t o n s d o s r o s to s a m b a r a d o s pelos
céu s a rd e n te s .
D e p o is , a s c a r n e s e n te r n e c ia m - s e , a s ro s a s tom avam
to d o ráv el e n t i d a d e . . . d e u m a f i n u r a d e s ê d a , a z u la d a leve­
m e n te p e la r ê d e z in h a d a s v e i a s . . .
A v id a r iç o n h a d a c ô r - d e - r o s a d i s te n d ia - s e em se g u id a :
o b r a n c o - r o s a , a p e n a s c o lo r id o c o m u m a p o n ta d e la c a , neve
d e u m p é d e v i r g e m , q u e t a t e i a a á g u a d e u m r e g a t o ...
flo re s e m b o tã o , flo re s m e io a b e r t a s , c o m o lá b io s q u e expe­
le m o p e r f u m e d e u m h á l i t o té p id o .
E a s r o s e ir a s t r e p a d e i r a s , a s g r a n d e s r o s e ir a s d e chuva
de flo re s b r a n c a s , v e s tia m t ô d a s e s s a s r o s a s , tô d a s e$sas
A FO RM AÇÃ O DO K 8 T ID O 217

carnes, c o m a r e n d a d o s s e u s c a c h o s , c o m a inocência da
çua m u s s e l i n a l e v e . . .
E n q u a n t o a q u i e a l i , r o s a s fe z e s d e v i n h o . . .
H a v i a a l g u m a s , p e q u e n a s , v i v a s , a l e g r e s , etc.

E s te d e s p e r d í c i o d e im a g in a ç ã o c o n tin u a , sem
d escanso, s e m v a r i e d a d e , p a r a n a d a , só p elo p ra z e r
de a li n h a r f r a s e s . . .
D e p o is , v e m u m a d e s c r iç ã o d e to d a s as espécies
de p la n ta s , d e n o m e s e s q u i s i t o s , tir a d o s dos M a n u a is
Roret.
E is so r e c o m e ç a , e is s o d u r a d u r a n t e p á g in a s ,
sem p ie d a d e p a r a c o m o l e i t o r :

C ortejo d e d o r m i d e i r a s d e s fila v a m , u m a s após o u tra s,


ch e ira n d o a m o r t o s , a b r i n d o a s s u a s p e s a d a s flo r e s . .
A n é m o n a s t r á g i c a s f a z i a m g r u p o s d e s o l a d o s , d e côr
pisada, b a ç a d e a l g u m b a f o e p i d ê m i c o .
D a t u r a s g ô r d a s a l a r g a v a m a s s u a s t r o m p a s v io lá c e a s ,
onde os i n s e c t o s , c a n s a d o s d e v i v e r , i a m b e b e r o v e n e n o
do s u i c í d i o . m
M a l m e q u e r e s o c u l t a v a m a s s u a s flo re s s o b a fo lh a g e m
farta, c o r p o s d e e s t r é i a s a g o n i z a n t e s , e x a l a n d o já a p e s te
da s u a d e c o m p o s i ç ã o .
E h avia a in d a o u t r a s t r i s t e z a s : os ran ú n cu lo s carnu­
dos . . .

A m e s m a s i n f o n i a r e c o m e ç a q n a n to à h o r ta :
descrição r o m â n t i c a d a s a m e ix o e ir a s , p e sse g u e iro s,
cert je ir a s , m a c i e i r a s , m e lo a is , lim o e iro s , m o ra n g u e i-
ros, etc.
D ep o is, v ê m ao e r v a s , o s a n f e n o , a l u z e r n a . . .
D ep o is, o b o s q u e , a s g r a n d e s á rv o re s , q u e
218 A PO RM AÇAO DO B J8T IC O

to m a m a s p e c to s v o lu n ta rio s o s , lin g u a g e m , postu­


ra s e s p e c ia is ; o lm e iro s, p lá ta n o s , c a rv a lh o s, tudo
isto d e s c rito p e lo m e sm o p ro c e sso d a s rosas.
Z o la n ã o se e s q u e c e u s e q u e r d a s p la n ta s gordas,
tã o m in u c io s a m e n te d e s c r ita s n o u tr o liv ro seu,
L a C urêe.
A in d a q u a n d o ta l m a n ia se e x e rc e so b re flores
e p la n ta s !
M as im a g in a i q u e E m ílio Z o la a p lic o u o mesmo
m é to d o n o s e u V e n tre de P a r is a to d a s as espécies
d e q u e ijo , a o s le g u m e s , e a to d o s os g ê n e ro s ali­
m e n tíc io s !
C o m o se v ê , n ã o h á s o m e n te a q u i acum ulações
d e p o rm e n o re s e d e se n sa ç õ e s; é a e x p lo ra ç ã o pura
e s im p le s d e u m a v e ia d e e s c rito r , u m a v irtu o si­
d a d e d e im a g e n s , u m a v iv a c id a d e d e p a la v ra s , tudo
q u e se q u is e r, m e n o s u m a v e rd a d e ir a descrição.
A f o r a e s te s d o is ex cesso s, a c u m u la tiv o e am pli­
fica t i vo, h á o u tr o s a b u s o s d e s c ritiv o s , q u e se não
p o d e m c o n d e n a r rig o r o s a m e n te , m a s c u jo emprego
e x ije u m a e x tr e m a re s e r v a .
D e s d e F l a u b e r t , a c h a -s e c ô m o d o t r a t a r a des­
c riç ã o em p a r á g r a f o s . F a z - s e in te r r u p ç ã o , escre­
v e -s e u m a li n h a e c o n tin u a - s e a d e s c re v e r.
C o m o o f r a g m e n t o fo i s e r v id o à p a r te , o leitor
s u p r im e - o e p r o s s e g u e n a le itu r a .
P e lo c o n tr á r io , é p re c is o c o n fu n d ire m -s e as
d e sc riç õ e s co m a n a r r a t i v a .
E la s d e v e m a c o m p a n h á - la , c o m p e n e trá -la , sus-
tê - la , de fo rm a q u e se n ã o p o s s a o m i ti r u m a linha.
A PORMAÇAO DO H S T I I jO 21 »

N a d a d e f ic tíc io !
N a d a d e fr a g m e n t o s !
T u d o d e v e c o n s t i t u i r u m co rp o .
A l e i t u r a d o E v a n g e lis ta e d o Im o rta l, de A fo n so
D a u d e t, s e r á s o b ê s te p o n to d e v is ta , m u ito ú ti l.
H á p o u c o s l i v r o s e m q u e o e le m e n to d e s c ritiv o
seja tã o e s t r e i t a m e n t e a s s im ila d o à tr a m a d a n a r ­
r a tiv a .
O u tr o d e f e ito c o n s is te e m p ô r os p o rm e n o re s
a p a r.

O s o l n a s c i a . U m g a l o c a n t a v a . A c a r r u a g e m p ôs-se a
c a m i n h o . O a r r e f r e s c a v a . O v e n t o fa z ia b a l o u ç a r as á r v o ­
res. E l e a d o r m e c e u .

Ou e n tã o :

E ra m e io -d ia ; as casas conservavam -se fe c h a d a s., i


S o p rav a u m v e n to forte. E m a se n tia-se fraca, c a m in h a n d o ;
as p e d r a s d o p a s s e i o m a g o a v a m - n a . . .
(F laubert).

E s te p ro c e s s o p e c a p o r a rtific ia l.
M a is v a li a f a z e r b o a s fra s e s.
M as a l i t e r a t u r a c o n te m p o r â n e a d e s p re z a a
a r q u i te c tu r a d o e s tilo ,
E s ta f o r m a d e e s c r e v e r , p u x a d a a c o rd e l, ó ev i­
d e n te m e n te u m a f ó r m u la .
M as ta m b é m é u m a f ó r m u la e n c h e r frases,
m e te n d o n e la s o q u e se p o d e r ia s e p a ra r.
E s te a m o n t o a m e n t o d e p a r tic íp io s , d e in e id e n -
220 A FORM AÇÃO D O B íS T ÍL O

te s, d© e p íte to s , se m g r a d a ç õ e s n e m p e rs p e c tiv a ,
acaba p o r e n to n t e c e r e f a t i g a r .
S u b e-se a q u e p o n to o s G ro n c o u rt a b u s a ra m
d e ste p ro c e sso .
A v e r d a d e ó q u e n ã o e x i s t e l i t e r a t u r a sem fór­
m u la e q u e to d a s são b o a s , c o n ta n t o q u e e x p ri-
m a m co isas e x c e le n te s .
A e s s ê a c ia ó q u e t r a n s f i g u r a a fo rm a .
O q u e p o d e i ía m o s a c r e s c e n t a r s o b r e a m á d e s­
c riç ã o , o le ito r o e n c o n t r a i á n u m c a p í t u l o d a nossa
o b ra p re c e d e n te .
E p re c iso e v i t a r ta m b é m o e m p r e g o c o n tín u o
d a d e sc riç ã o d e f a n ta s ia , tã o v i z i n h a d a d escrição
b u rle s c a , e m q u e D ic k e n s c a i t a n t a s v e z e s .
O s « d e fe ito s d e s c ritiv o s » f o r m a r i a m o a ssu n to
d e u m v o lu m e .
A te n d a m o s a o s g r a n d e s p r i n c í p i o s q u e assen­
ta m o s .
E is a q u i u m a d e s c riç ã o , d e L a m a r t i n e , e m que
h á b e le z a s r e a is , e q u e a c a b a n o d e fe ito q u e no ta­
m os :

A proxim ais-vos d o s A lpes.


A s n e v e s v i o l á c e a s d o s s e u s c u m e s d e n t e a d o s , recor­
tam -se à noite, sô b re o firm a m e n to , p r o fu n d o com o o m ar;
a e s t r é i a d e i x a - s e e n t r e v e r a l i , a o c r e p ú s c u l o , c o m o um á
v e la , e m e r g i n d o s ô b r e o O c e a n o , d o e s p a ç o i n f i n i t o .
A s s o m b r a s d e s l i z a m d e c o l i n a e m c o l i n a s ô b re as
e n c o s t a s d o s r o c h e d o s , e n e g r e c id o s f i d o s f i i n h e i r a i s ; chou-
p a n a s i s o l a d a s e s u s p e n s a s e m p r o m o n tó r io s , co m o . n in h o s
d e á g u i a s , f u m a m do lu m e d a n o i t e e o s e u f u m o azulado
d i f u n d e - s e e m e s p i r a i s le v e s n o é t e r .
A FORM AÇÃO DO H S T IL .O 221

O lago l í m p i d o a q u e a so m b ra e sc u re c e j á m etade,
reflecte na o u t r a m e t a d e a s n e v e s re v o lv id a s e o sol q u e se
deita no seu esp e lh o .
' A lg u m as c a n o a s d e s l i z a m à su p e rfíc ie , c a r r e g a d a s d e
ramos de c a s t a n h e i r o s , c u j a s f ô l h a s to c a m n a ái-ua.
Só se o u v em a s r e m a d a s c a d e n c i a d a s , q u e a p r o x i m a m
o barqueiro d o p e q u e n o c a b o , o n d e s u a m u l h e r e s e u s filhos
o esperam, n o l i m i a r d a c a s a . A s s u a s r ê d e s e s t ã o a s e c a r
sôbre a p raia.
O som d e u m a f r a u t a e u m m u g i d o d e b e z e r r a n os
prados i n t e r r o m p e m p o r m o m e n t o s o s ilê n c io d o v ale
O c r e p ú s c u lo d e s a p a r e c e , a c a n o a to ca n a p r a i a , as
chaminés f u m a m a q u i e a li, v ê e m - s e a s c h a m a s a t r a v é s
das vidraças.
Só se o u v e a g o r a o m a r u l h a r a l t e r n a d o d a s o n d a s a d o r ­
mecidas do la g o , e, d e t e m p o s a t e m p o s , o r u í d o s u r d o d e
uma alude, cu jo f u m o b r a n c o r e s s a lta p o r c im a d o s p in h e ir o s .
M ilhares d e e s t r é i a s , v i s í v e i s a g o r a , f l u tu a m cu m o flo r e s
aquáticas de n e n ú fa r e s a z u is sô b re lâ m in a s .
O firm am en to p a r e c e a b r ir to d o s os o lh o s p a r a a d m i r a r
êste canto d a t e r r a ; a a l m a d-, ixa-o, s e n t e - s e n a a l t u r a e
na proporção d e se a p r o x i m a r d o s e u c r i a d o r , q u a s i v isí­
vel naquela t r a n s p a i ê n c i a d e f i r m a m e n t o n o c t u r n o ; p e n s a
naqueles q u e c o n h e c e u e a m o u , q u e p e r d e u n o m u n d o e
que espera, com a c e r t e z a d o a m o r , « t o r n a r a v e r e m b r e v e
«no vale e t e r n o ; c o m o v e - s e , e n t r i s t e c e - s e , c o n s o la - s e , c r ô
«porque vè, re za, a d o r a , d e s f a z - s e c o m o o f u m o a z u l d a s
«lareiras, com o a p o e i r a d a c a s c a t a , c o m o o r u í d o d a a r e i a
«sob as on d as, c o m o a c l a r i d a d e d a q u e l a s e s t r é i a s n o é t e r ,
«com a d i v i n d a d e d o e s p e c t á c u l o » .

(L am artine, C urso F a m ilia r


de L itera tu ra , c l x v ii).

Esta d e sc riç ã o é b e la , v iv a , v ib r a n te d e p o esia


elevada.
222 A FORM AÇÃO D O M S T IL O

D e s g r a ç a d a m e n te, as ú ltim a s lin h a s são um


e x e m p lo d e m á a m p lific a ç ã o d e re tó ric a .
N ão h á ra z ã o p a r a c o n tin u a r a paráfrase final
(co m o is to , co m o a q u ilo , etc.).
E v ite m o s e s ta s fa c ilid a d e s im a g in a tiv a s, com
q u e L a m a r t in e p r e ju d ic o u m u ita s vezes belos
q u a d ro s . .
C A P ÍT U L O X I

A ssim ilação do e stilo abstracto


pela an títese

Decomposição da antítese. —Valor da antítese. —O meca­


nismo da antítese.—A frase-antátese. —A antítese enu-
merativa. —A antítese simétrica. —A antítese-retrato.
—O retrato «geral» e «trivial». —O retrato «trivial»:
Massillon. —O verdadeiro retrato: Bossnet. —O para­
lelo.—O espirito de antítese. —Más antíteses.—Defei­
tos da antítese: Vítor Hugo. — Antíteses fáceis. —
A antítese verdadeira. — Exemplos. — Opinião de
Taine. —A antítese entre os Gregos.

E s tu d a m o s nos c a p ítu lo s p re c e d e n te s os p ro c e s­
sos de im ita ç ã o , pelos q u a is se p o d e o b te r o e s tilo
d e sc ritiv o , a cor, o re le v o , a im a g e m .
M as h á a u to r e s q u e n ão p ro c u ra m a p r e s e n ta r
cenas, n e m p i n t a r q u a d ro s.
São os e s c rito re s de e stilo a b s tr a c to o u e stilo d e
idéias.
V o lta ire , M o n te sq u ie u , S a in t-E v re m o n d , Gruós
de B alzae, M o n ta ig n e , R o u s s e a u (n a m a io r p a rte
das su a s o b ra s), p o d e m s e r c o n sid e ra d o s com o escri­
tores d e id é ia s.
J á e n sin a m o s a i m i t i r d e s c ritiv a m e n te .
224 A FORM A ÇÃ O L »0 B S T I L O

F a l t a - n o s e n s i n a r a m a n e i r a a b s tr a c ta de
e sc re v e r.
N o u tr o s te r m o s : v a m o s p r o c u r a r q u a l é o pro-
c e s s o - tip o p a r a o b t e r o e s tilo a b s t r a c t o , n o q u e ele
te m d e o r i g in a l e d e s a lie n te .
Q u a n d o se lê a t e n t a m e n t e M o n ta ig n e , q u an d o
n o s e s fo rç a m o s p o r d e c o m p o r o m e c a n is m o da sua
fra s e , q u a n d o fa z e m o s o m e s m o t r a b a lh o em Guós
d e B a lz a c , e m S a i n t - E v r e m o n d , s ô b re a p a rte
a b s t r a c t a d e B o s s u e t, R o u s s e a u , F l é c h i e r , M assil­
lo n , M o n te s q u ie u , L a - R o c h e f o u c a u ld , L a * B ru y è re ,
D u e lo s , n u m a p a la v r a s o b re o s b o n s escrito res,
q u a l q u e r q u e s e ja o s e u g ê n e r o e os s e u s gostos,
c h e g a m o s à c o n c lu s ã o d e q u e o p ro c e sso in tiín se c o
d o s e u e s tilo , o q u e c o n s t i t u i a v a r ie d a d e d a s suas
fra s e s , a r a z ã o d a s u a f o r ç a e d o s e u b rilh o , ó a
a n títe s e .
O s C u rso s d e l i t e r a t u r a c o n te n ta m - s e em ap re­
s e n t a r a a n t í t e s e co m o u m a f i j u r a de pensam ento
q u e se o p õ e à s fig u r a s de p a la v r a s .
N ã o s e lh e d á m a is v a l o r q u e ao p a ra le lo , à
a lu s ã o , à p e ií f r a s e o u à h ip é ib o le .
E p re c is o a c a b a r c o m t a l p r a g m á tic a .
A a n tí te s e n ã o d e v e s e r c o n s id e r a d a co m o um
s im p le s e o c a s io n a l a r t if í c io d e p e n s a m e n to . É um
p ro c e sso d e e s c r e v e r , u m m o d o d e c r i a r , d e sd o b ra r
e e x p lo r a r as n o s s a s id é ia s , p r o c e s s o q u e se aplica
a to d o o e s tilo a b s t r a c to , e c o m o q u a l se p o d e tra ­
t a r d e q u a l q u e r a s s u n to o u p ô r - s e e m re le v o q u a l­
q u e r s e q ü ê n c ia d e f r a s e s .
A FORMAÇÃO DO B S T IL O 225

A a n títe s e ó a c h a v e , a ex p licação , a razão


geratriz de m e ta d e d a li te r a t u r a fra n c e sa ou, se
quiserdes, d o e s tilo fra n c ê s, u sad o pelos nossos
m elhores a u to r e s , d e s d e M o n ta ig n e a Y íto r H u g o .
L a -B ru y è re d e fin iu a s s im a a n títe s e :
— « U m a o p o sição d e d u a s v e rd a d e s, q u e dão
vida u m a à o u tra .»
E in s u fic ie n te . D a r v id a a d u a s v erd ad es, u m a
pela o u tra , n ão é p re c is a m e n te fa z e r u m a a n títe se .
B o n h o u rs c o m p a ra -a à m escla dos claro s e dos
escuros n a p in tu r a .
T am b ém é in e x a c to .
Como n o ta M a rm o n te l (*), h á no e stilo oposições
de cores, de lu z e d e so m b ra s, e d iv e rs id a d e s de
tons, sem a n títe s e a lg u m a .
M u itas v ezes, a té h á a n títe s e , sem essa m escla.
E d ifíc il d e fin ir-s e b e m a a n títe s e , p o rq u e
reveste m il fo rm a s.
M arm o n tel c h a m a -lh e « u m a relação de oposição,
entre o b jecto s d if e re n te s o u , n u m m esm o objecto,
entre as su a s q u a lid a d e s o u os se u s m odos de ope­
rar»; o q u e q u e r e d iz e r q u e e la c o n siste em opor
os p en sam en to s u n s a o s o u tro s , p a ra lh e s d a r
relevo.
De u m m o d o g e r a l, é isso a a n títe s e ; m as, é
preciso d e m o n s tra r, se q u e re m o s c o m p re e n d e r ta l
maneira de e s c re v e r, q u e n ão é u m m eio a rtificial

(l ) M a r m o n t e l , E le m e n to s de L ite r a tu r a , t. i, p. 162.
15
226 A FORM AÇÃO DO B J 8 T IL O

d o e stilo , m as, d e a lg u m a m a n e ir a , u m a c u ltu ra e


u m h á b ito d e e s p ír ito .
V e ja m o s e s ta a n títe s e d e M o n ta ig n e :

O s p r ín c ip e s d ã o -m e m u ito , se n a d a m e tira re m , e
fa r-m e -ã o m u ito b e m , q u a n d o m e n ã o fiz e re m m al.

H á a q u i d o is p e n s a m e n to s q u e se opõ em u m ao
o u tr o e q u e se ilu m in a m r e c ip r o c a m e n te ; m as a
a n títe s e é m a is d o q u e isto .
E u m m é to d o d e c ria ç ã o d e id é ia s p o r m eio das
c o n trá ria s .
N o u tro s te rm o s , a a n títe s e ê a a rte de tira r de
u m p en sa m en to o co n trá rio dêsse p en sa m en to e de
e n g e n d r a r a s s im u m a s é r ie d e c o n tr a s te s e de opo-
sições.
S. P a u lo d is s e :

A m a ld iç o a m -n o s e n ó s a b e n ç o a m o s . P e rs e g u e m -n o s e
n ó s so fre m o s. D iz e m -n o s i n j ú r i a s e n ó s re s p o n d e m o s com
o ra ç õ e s .
( C o r ín tio s , i, iv).

P o d e n o ta r-s e a q u i a c ria ç ã o d o s e g u n d o pen­


s a m e n to p e lo p r im e ir o . C a d a s e g u n d o pensam ento
e s ta v a c o n tid o n o p r im e ir o .
D id e r o t e s c re v e a R o u s s e a u q u e ju l g a dever
d a r-lh e u m b o m c o n se lh o , e m b o r a p e n s e q u e ele o
não s e g u irá .
U m p o u co d e re fle x ã o fa z -lh e e n c o n tr a r a ju n ­
ção d as oposições d a s u a id é ia e e sc re v e is to :
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 227

P a r e c e u - m e d e v e r d a r - l h e u m c o n se lh o , e p re fe ri a r r is ­
c a r-m e a d a r - l h e u m q u e n ã o s e g u is s e , a d e ix a r de lh e d a r
um q u e d e v e s s e s e g u i r .

( D id e r o t, C a r ta a J . J . R o u s s e a u ).

C o m o se v ê , t r a t a - s e d e a la r g a r u m p en sam en to ,
p a ra e x t r a i r d e le o s e u c o n tr á r io o u a lg u m a opo­
sição p a r a le la .
N a id é ia d e q u e h á h is to r ia d o r e s d e gênio, isto
é, de in s p ira ç ã o , e o u tr o s q u e só tê m eru d ição , o
e sp írito e n c o n tr a u m a re la ç ã o d as oposições, de que
M o n te s q u ie u fa z e s ta fra s e :

E n t r e o s a u t o r e s q u e e s c re v e r a m s ô b re a h is tó r ia de
F ra n ç a , u n s t i n h a m ta lv e z e r u d iç ã o d e m a is p a r a q u e tiv e s­
sem g ê n io , e o u t r o s m u i to g ê n io , p a r a q u e tiv e sse m e ru ­
dição.
( M o n te s q u ie u , P e n s a m e n to s D iv e rso s).

T o m e m o s o u t r o p e n s a m e n to .
H á p e ss o a s q u e g o s ta m do la c o n ism o n a s o b ras.
E q u e a s a c r e s c e n ta m p o r s u a c o n ta , m a s os
au to res p e r d e m c o m isso .
P lu ta r c o m e n o s p r e z a v a a e ru d iç ã o , m as q u e ria
fo rm a r ju íz o .
D e s ta id é ia p o d e e x tr a ir - s e is to :
«O la c o n is m o é u m m eio de se d e ix a r desejar
em vez de sa c ia r.
* É u m d efeito f a l a r m u ito , a in d a , n a s coisas
excelentes.
« Q u a n do se tem o corpo esguio, a vo lu m a -se; e
228 A FORM AÇÃO DO BSTULO

a ssim , q u a n d o h á p o u co q u e d iz e r , m u ltiplica m -se


as p a la v ra s.»
A ta l re s p e ito , te m o s u m a s é r ie d e id é ia s, o b ti­
d as p o r c o n tr a s te .
A c h a v a m -s e n a p r i m e i r a f o r m a , e fizem o-las
s a ir d e la , p o r u m e s fo rç o e m c o n tr á r io .
E is co m o M o n ta ig n e a p r e s e n t a o c a s o :

É p e n a q u e a s p e s s o a s d e ju íz o g o s t e m t a n t o d o laco-
n is m o ; s e m d ú v i d a a s u a r e p u t a ç ã o v a l e m a is , m a s nós
te m o -la e m m e n o r c o n t a .
P l u t a r c o g o s ta m a is q u e n ó s o g a b e m o s p e lo s e u juízo
q u e p e lo s e u s a b e r ; g o s t a m a i s d e se t o r n a r d e se ja d o , do
q u e d e s a c i a r ; s a b ia q u e n a s b o a s c o is a s se p o d e dizer
m u ito .
A q u ê le s q u e te m c o r p o m a g r o , e n c h u m a ç a m - n o ; aquê-
le s q u e te m a s s u n t o f r o u x o , e n c h e m - n o d e p a l a v r a s .
( M o n t a i g n e , E n s a i o s , i , 25).

A a r t e d a a n t í t e s e c o n s is te p o r t a n t o e m p a rtir
u m a p e d r a e m d u a s , só d e u m a p a n c a d a , e depois
c a d a u m a d e la s e m d u a s e a s s im p o r d ia n te .
P o r e x e m p lo , os n é s c io s , t e n d o n o ta d o que
a s in g u la r id a d e (o u o r i g in a l id a d e ) é a g ra d á v e l,
q u a n d o n ã o é q u e r i d a , e s f o r ç a m - s e p o r s u a v ez em
se r o r i g in a i ^ m a s f a z e m - n o p r o p o s ita d a m e n te .
Q u e re m a g r a d a r e d e s a g r a d a m .
N ão se r e s ig n a m a p a s s a r d e s p e r c e b id o s e pre­
fe re m n ão s e r s in c e ro s a n ã o s e r e m n o ta d o s .
P õ e m o s e u a m o r - p r ó p r i o à p r o v a d e rid ícu lo
e as pessoas d e e s p í r it o j u l g a r - s e - i a m d esg raçad as
com o q u e c o n s titu i a s a tis f a ç ã o d e le s .
A FO RM A ÇÃ O DO B S T ID O 229

E s ta s a n t í t e s e s a p a r e c e m p o r si.
E u m p r o c e s s o s im p le s .
P o r isso , n ã o a d m i r a q u e D u e lo s te n h a e sc rito
estas b e la s f r a s e s a t a l r e s p e i to :

O s n é s c io s , q u e c o n h e c e m m u i t a s v ezes o q u e n ã o tê m
e q u e s u p õ e m q u e é u m ê r r o i g n o r á - lo , v e n d o o tr iu n f o d a
o r ig in a lid a d e , t o r n a m - s e o r i g i n a i s , e d e v e c a lc u la r - s e o q u e
poderá p r o d u z i r ê s s e e x c ê n t r i c o i n t u i t o .
E m v e z d e s e l i m i t a r e m a n ã o s e r n a d a , o q u e tâ o bem
lhes c o n v in h a , q u e r e m à v i v a fô rç a s e r a l g u m a c o isa e são
in s u p o rtá v e is .
T e n d o n o t a d o , o u a n t e s , t e n d o o u v id o d i z e r q u e h á
gênios r e c o n h e c i d o s q u e n e m s e m p r e sã o is e n to s d e u m
grão d e l o u c u r a , t r a t a m d e i m a g i n a r lo u c u r a s e só fazem
tolices.
N ão p o d e n d o s e r i l u s t r e s , t r a t a m p e lo m e n o s d e s e r
fam osos; q u e r e m q u e s e f a le d e le s , q u e se o c u p e m d ê le s.
Q u erem a n te s s e r d e s g ra ç a d o s , do q u e ser desconhe­
cidos.
A q u ê le q u e p r e n d e a a t e n ç ã o p e la s s u a s d e s d ita s tem
nisso m e ia c o n s o la ç ã o .

( D u e lo s , C o n s id e r a ç õ e s so b re os C os­
tu m e s , p . 199 e 107).

A a n t í t e s e é a f ô r ç a d o e s tilo a b s tílic to .
P o d e s e r e m p r e g a d a j u n t a m e n t e com a des­
crição.
Mas, f o r a d o e s t i l o d e s c r i ti v o , ó o g r a n d e re c u rso
da a rte d e e s c r e v e r .
0 d o m d a a n t í t e s e é p o r c o n s e q ü ê n c ia a p r i­
m eira d a s a s s im i la ç õ e s q u e d e v e a d q u ir ir aq u êle
que q u e re f o r m a r o s e u 'e s tilo , v a lo r iz a r o seu
230 A FORM AÇÃO DO E J S T IC O

ta le n to e m u l t i p l i c a r o s s e u s m e io s de inspi­
ra ç ã o .
D iz M a r m o n te l r
— «O s g r a n d e s p e n s a m e n to s to m a m h a b itu a l­
m e n te a f o r m a d a a n títe s e .»
A h i s t ó r i a d a a n t í t e s e s e r i a a p r ó p r ia história
d a l i t e r a t u r a ; ó o r i o d o n d e m a n o u a p ro d u ção de
to d o s os g r a n d e s p r o s a d o r e s .
R e i n a s o b e r a n a m e n t e e m T á c ito .
E a e s s ê n c ia d e M o n t a ig n e ; G-uós de Balzac,
S a i n t - E v r e m o n d , P a s c a l, B o s s u e t, M ontesquieu,
R o u s s e a u , d e v e m - lh e a s t r ê s q u a r t a s p a rte s do seu
ta l e n to .
E m b r e v e d ir e m o s c o m o e la se d e v e estudar
n ê le s .
T r a te m o s p r i m e i r o d e a s s i m i l a r e s te processo,
p o n d o d e la d o o s s e u s in c o n v e n i e n te s , q u e depois
e x a m in a r e m o s .
O s e u e m p r ê g o ó tã o i m p o r t a n t e n a a rte de
e s c r e v e r , q u e o s G -reg o s d i v i d i a m a h is tó r ia da sua
r e t ó r i c a e m t r ê s é p o c a s : a p r i m e i r a , a da ju sta ­
p o s iç ã o d a s i d é i a s ; a s e g u n d a , a d a a n títe s e ; a ter­
c e ir a , a d o p e r í o d o (J).
O q u e t o r n a a a n t í t e s e s u s p e i t a a m u ito s auto­
r e s ó q u e g e r a l m e n t e ó f á c il.

(!) C o n s u l t e - s e o p r e f á c i o d a e d iç ã o g r e g a de Tuci-
d id e s , p o r A . C r o i s e t . V e r - s e - á c o m o s e fo rm o u o estilo de
T u c í d i d e s , q u e e x p l o r o u a a n t í t e s e e q u e , a t é n a imitação,
soube s e r o r ig in a l.
A FO RM A ÇÃ O DO B J8 T ID O 231

V ejam os, p o r e x e m p lo , e s ta b r ilh a n te p á g in a de


C h ateau b rian d so b re as P ir â m id e s :

A filosofia p o d e g e m e r o u s o r r i r , p e n s a n d o q u e o m a io r
m onum ento, s a íd o d a s m ã o s d o s h o m e n s, é u m tú m u lo .
Mas, p o r q u e se n ã o h á - d e v e r n a p ir â m id e d e Q u e o p s se n ã o
um m o n te d e p e d r a e u m e s q u e le to ?
N ão foi p elo s e n tim e n to do s e u nctda q u e o h o m e m c o n s ­
tru iu ta l s e p u lc r o ; foi p e lo in s tin to d a s u a im o r ta lid a d e .
È ste s e p u lc ro n ã o é a b a liz a q u e a n u n c ia o fim de u m a
carreira de u m d ia ; é a b a liz a q u e m a rc a a e n tr a d a d e u m a
vida se m -fim ; é u m a e sp é c ie d e p o r ta e te rn a , c o n s tr u íd a n o s
confins d a e te r n id a d e . . .
A v is ta d e u m tú m u lo n ã o e n s in a , e n tã o , n a d a ? S e
ensina a lg u m a c o isa , p o r q u e l a s tim a r q u e u m re i q u is e s s e
to rn a r p e rp é tu a a liç ã o ?
T udo é tú m u lo n u m p o v o q u e já n ã o e x iste .
L ogo q u e o h o m em m o rre , os m o n u m e n to s d a s u a v i d a
são a in d a m a is v ã o s q u e os d a s u a m o rte . O s e u m a u s o lé u é
pelo menos ú t i l à s s u a s c in z a s ; m a s os s e u s p a lá c io s c o n se r­
vam acaso a lg u m a c o isa d o s s e u s p ra z e re s ?
( C h a te a u b r ia n d , I tin e r á r io , v i p a r te ) .
A
E ste soberbo fr a g m e n to t i r a p rin c ip a lm e n te d a
sobriedadB o s e u e fe ito .
C h a te a u b ria n d t i n h a m u ito g o s to , p a r a q u e
abusasse das a n títe s e s e m a s s u n to tã o fe c u n d o .
M as v ê -se q u a n to é f á c il o d e s e n v o lv im e n t o e
quantas frase9 se p o d e r ia m a c r e sc e n ta r .
E x p e rim e n te m o s c o n tin u a r p o r n o ss a c o n ta :
E p ela a firm a ç ã o d o s e u n a d a q u e esses r e is p e r p e tu a ­
ram a su a d u r a ç ã o . F o i a im a g e m d a m o rte q u e d e u g ló r ia
à su a v id a. L e r a b r a m o - n o s d e le s p elo q u e é tr a n s itó r io , e o
232 A FO RM A ÇÃ O DO H S T II L O

la d o p e re c ív e l d o se u d e s tin o é q u e lh e s s a lv o u a m em óri».
A s u a re c o rd a ç ã o p e r s is tiu a p e n a s p e la g lo rific a ç ã o do seu
e s q u e c im e n to .
P r e p a r a r a m a im o r ta lid a d e , e x a g e ra n d o o s in a l d a sua
m o rte .
Ê s te a c to d e o r g u lh o n ã o e r a n a e s s ê n c ia sen ão um
a c to d e fé.
Q u is e r a m d o m in a r a m o rte , s o fre n d o -a .
A n e c e s s id a d e d e a c a b a r d e u - lh e s o p e n s a m e n to de
s o b re v iv e r, e foi a p r ó p r ia in s p ir a ç ã o d a s u a a lm a q u e re a ­
liz o u e s ta g lo rific a ç ã o d o s s e u s c o rp o s, e tc .

E is a q u i o q u e p o d e in s p ir a r o uso d a antítese.
N ão h á sen ão e sc o lh e r, re fo rç a r, d esen v o lv er;
p o r q u e tu d o isto , e v id e n te m e n te , n ã o é ig u a lm e n te
b o m , n e m b o m ao m e sm o te m p o , m as te m m u ito
d isso .
V o ln e y fa lo u ta m b é m d as P irâ m id e s .
C o m p a ra i a s u a fria re tó ric a com o fra g m e n to
d e C h a te a u b r ia n d :
• i t .
V

P a re c e m a f a s ta r - s e , à p ro p o rç ã o q u e d e la s nas ap ro x i­
m am o s.
E s ta m o s a in d a a u m a lé g u a e já d o m in a m dc ta l form a
s ô b re a n o s s a c a b e ç a , q u e p a re c e e s ta r m o s ju n to c e la s.
F in a lm e n te , a tin g im o - la s e n a d a h á q u e possa e x p rim ir
a v a rie d a d e d a s s e n s a ç õ e s q u e a li se e x p e rim e n ta ra .
A a l t u r a d o s s e u s c u m e s , o ín g re m e d a s su a s d escid as,
a a m p lid ã o d a s u a s u p e rf íc ie , o p êso d a s u a base, a m em ó­
r ia d o s. te m p o s, q u e e la s re c o r d a m , o c á lc u lo de tra b a lh o
q u e c u s ta r a m , a id é ia d e q u e a q u e le s e n o rm e s rochedos são
o b ra d o h o m e m , tã o p e q u e n o e tã o fra c o , q u e ra ste ja a seus
pés, tu d o isto a r r e b a t a a o m e sm o te m p o o c o ra ç ã o e o espi­
r ito d e a d m ira ç ã o , d e . t e r r o r , d e h u m ilh a ç ã o e de respeito.
A FO RM A ÇÃ O DO H J8 T IL O 23»

M a s, d e v e c o n fe s s a r-s e , o u tr o s e n tim e n to s u c e d e a esse


p rim e iro t r a n s p o r t e .
D e p o is d e te r m o s fo rm a d o tâ o a l t a o p in iã o do p o d e r d o
h o m e m , q u a n d o se p e n s a n o o b je c to d o se u e m p rè g o , la n ­
ça m o s o lh o s d e p e s a r p a r a a s u a o b r a ; la m e n ta m o s q u e ,
p a r a se c o n s t r u i r u m tú m u lo v ã o , se t o r t u r a s s e u m a n a ç ã o
in te ir a d u r a n t e v i n t e a n o s ! c o n tr is ta - n o s o a c e rv o de in ju s ­
tiç a s e v e x a m e s q u e d e v e r ia m t e r c u s ta d o os t r i b u t o s o n e ­
ro so s e o t r a n s p o r t e , o a p a r e lh a m e n to e c o lo c a ç ã o d e t a n t o s
m a te ria is .
(V o ln e y , V i a g e m n a S í r i a ) .

T o m e m o s a in d a e s ta s lin h a s co m o e x e m p lo :
«A m o c id a d e é tã o b ela, q u e , se p u d é s s e m o s
re s s u s c ita r, q u e re ría m o s v o lt a r à m o c id a d e .
«A m o c id a d e p a s s a -s e e m d esejo s e a v e lh ic e
em sa ü d a d e s.
«A s e x p e riê n c ia s d a v id a tê m q u á s i ta n t o
e n c a n to co m o as p ro m e s s a s q u e so n h a m o s.
« A s s a ü d a d e s tê m a d o ç u r a do d e se jo e d a
p ró p ria fe lic id a d e .
«E p re c is o c o n s o la rm o -n o s d e t e r p e rd id o a
m o c id a d e e t r a t a r d e q u e os o u tr o s n ã o d ê e m m u ito
p o r isso.*
T r a n s f o r m e m o s e s ta s lin h a s em a n títe s e s :

A m o c id a d e é a m a is b e la c o is a q u e e x is te .
S e p u d é s s e m o s r e s s u s c it a r , n ã o p e d ir ía m o s o u r o n e m
luxo , só p e d ir ía m o s a m o c id a d e .
M o ço , s e n te m - s e d e s e jo s ; v e lh o , s e n te m -s e s a ü d a d e s .
E o m esm o e n c a n to .
O u t r o r a a v i d a e r a b e la p e lo q u e p r o m e tia ; a g o ra
p arece b e la p e lo q u e n o s d e ix a .
234 A FO RM AÇÃO DO B JS T ID O

N a d a é m a is e n e b r ia n te q u e a ilu s ã o do d ese jo ; n a d a é
m a is d o ce q u e a tr is te z a d a s a ü d a d e .
A re c o rd a ç ã o d a s n o ssa s d ec ep çõ es to m a hoje a m esm a
m a g ia q u e o u tr o r a a e s p e ra d a fe lic id a d e .
É p re c is o t e r n a in te lig ê n c ia b a s ta n te s re c u rso s p a ra
n o s c o n s o la rm o s com a p e r d a d a n o s s a m o c id a d e , e no co ra­
ç ã o b a s ta n te s q u a lid a d e s p a r a fa z e rm o s e s q u e c e r ao s o u tro s
q u e a p e rd e m o s .

A s s im d isp o sto , te m o rig in a lid a d e o fra g m e n to .


T iv e m o s d e i n t r o d u z i r p a la v ra s p a ra im p ressio ­
n a r : a ilu s ã o d o d esejo , a tr is te z a d a s a ü d a d e ...
(p a ra fa z e r re sp o n d ê n c ia ), reco rd açõ es d as decep­
ções, e s p e ra d a f e l i c i d a d e . . . , n a in te lig ê n c ia no
co ração , etc.
M ais lo n g e n o s o c u p a re m o s d a q u e s tã o do pre-
c io sism o e do fictício , q u e são o escolho deste
m é to d o e o d e fe ito d a s lin h a s ac im a exaradas.
P o r a g o ra o n o sso fim é d e c o m p o r o processo.
E preciso p rim e iro que tudo, saber tir a r partido
de u m a id é ia e n o ta r os contras que ela comporta.
E s tu d e m o s u m ú ltim o e x e m p lo :
U m p o v o in te ir o s u b m e te -s e à tira n ia .
Q u e re is c e n s u r a r a b a ix e z a a esses m ilh a re s de
c id ad ão s.
T o d o s os d e s e n v o lv im e n to s d e p e n d e rã o da
m a n e ira , com q u e e x p lo ra rd e s essa id é ia :
«Sois m ilh a re s c o n tr a u m . A v o ssa fra q u e z a ó
a fo rç a dele. O p rim e -v o s, p o rq u e vos su b m e te is.
N ão sab eis r e s is tir a a lg u é m , q u e n e m s e q u e r sabe
o q u e é c o m b a te r! S e te n d e s as m ão s lig ad as, é
A FORM A ÇÃ O D O K 8 T IL .O 235

p o rq u e as e s te n d e is . . . C u ltiv a is a te r ra , p a ra êle
v o -la tira r.»
A d o p ta i e s te ro d e io , q u e co n siste em d is p o r o
c o n trá rio d a s coisas, e as id éias c h e g a rã o , d esd o -
b ra r-se -ã o , e n g e n d ra r-s e -a o .
H a v e is d e a d m ira r-v o s d a v o ssa v iv a c id a d e .
E , co m o h á b ito e tr a b a lh o , e sc re v e re is ta lv e z
so b re a q u e le a s s u n to u m b elo tre c h o , com o o q u e
se v a i le r, d e L a -B o é tie :

Q u e v íc io , o u a n te s q u e d e s g ra ç a d o v íc io , v e r u m
n ú m e ro in f in ito n ã o o b e d e c e r, m a s s e r v ir , n ã o s e r g o v e r­
n a d o , m a s t i r a n i z a d o , n ã o te n d o b e n s, n e m p a is , n e m filh o s,
nem m e sm o a v id a q u e d e le s s e ja ?
S o fre r a s c r u e ld a d e s , n ã o d e u m e x é rc ito , n e m d e u m a
le g iã o b á r b a r a , c o n t r a q u e m s e r ia n e c e s s á rio g a s t a r o s a n ­
g u e e a v id a , m a s d e u m só h o m e m ; n ã o d e u m H é rc u le s
n e m d e u m S a n s ã o , m a s d e u m só h o m e m , e, m u ita s vezes,
o m a is fra c o e e fe m in a d o d a n a ç ã o , n ã o a c o s tu m a d o à p ó l­
v o ra d a s b a t a l h a s , m a s só, e com c u s to , à a r e n a d o s to rn e io s .
C o m o p o d e ê le t e r t a n t a s m ão s p a r a v o s fe rir, se é d e
vós q u e a s to m a ?
O s p é s, c o m q u e è le e s m a g a a s v o s s a s c id a d e s ,, d o n d e
o s te v e ê le , se n ã o sã o os v o sso s?
C o m o é q u e ê le te m q u a l q u e r p o d e r s ò b re v ó s, se n ã o
p o r m e io d e v ó s m e s m o s ?
C o m o se a t r e v e r i a ê le a p a s s a r s ô b re v ó s, se n ã o e s ti­
v esse e n te n d id o c o n v o sc o ?
Q u e p o d e r ia ê le fa z e r, se v ó s n ã o fó sse is re c e p ta d o re s
d o la d r ã o q u e vos r o u b a , c ú m p lic e s d o a s s a s s in o q u e v o s
m a ta , e t r a i d o r e s - d e v ó s m e s m o s ?
S e m e a is o s v o s s o s f r u t o s , a fim d e q u e ê le o s c o n s u m a .
M o b ila is e e n c h e is a s v o s s a s c a s a s , p a r a d a r m a té r ia
a o s s e u s ro u b o s .
236 A PORM AÇÂO DO B JS T IL O

C r ia is os v o sso s filh o s, p a r a q u e ê le os leve ao m a ta ­


d o u ro . . .
( L a B o é tie , S e r v id ã o V o lu n tá r ia ) .

E is a q u i excelen tes c o n se lh o s, q u e R o n d e le t nos


dá, s o b r e o m e c a n is m o d a a n títe s e :
— «A q u a lq u e r g ê n e ro q u e p e r te n ç a u m a com­
p o siç ã o , q u e r e la s a ia d o f a m ilia r , q u e r do sublim e,
n e m p o r isso é m e n o s c e r to q u e n in g u é m , n a ver­
d a d e ir a c o n v e rsa ç ã o , ja m a is se e x p r im iu assim , e
p r o c u r o u o u c o n s e g u iu a t i n g i r o g r a u ex acto de
p r e c is ã o o u s o b rie d a d e .
<Não se escreve como se f a l a , a ss im com o se não
d e v e f a la r co m o se e s c re v e .
« H á m é r ito s q u e se e x c lu e m , e é à ignorância,
d e s ta le i e le m e n ta r q u e se d e v e a t r i b u i r a insufi­
c iê n c ia dos e s c r ito r e s , c o m o a f r a q u e z a dos oradores.
« S e ja o q u e fô r, e p a r a n o s lim ita r m o s ao nosso
a c tu a l a s s u n to , n ã o h á d ú v i d a q u e o le ito r se
p r e n d e , a in d a q u e n ã o s e ja s e n ã o p o r d eferên cia à
s u a d ig n id a d e , a u m certo c u id a d o e a certas aten­
ções d a p a r te do escrito r.
«Se ê le n ã o e x ig e q u e lh e p o n h a m so b re a mesa
a b a ix e la d e p r a t a e o s e r v iç o d o J a p ã o , p e lo menos
e s p e ra e n c o n tr a r a to a lh a la v a d a e as crianças
a sse a d a s.
«O e s tilo e s c rito , p o r m a is f a m i l i a r q u e o acei­
te m , e p o r m a is b a ix o q u e o im a g in e m , n ão deixa
d e s e r u m a e x p re s s ã o e n c o n t r a d a c o m a pena na
mão, d e q u e se re c e b e a c o m u n ic a ç ã o p o r in term é-
A F O R M A Ç Ã O D O B J8 T IL O 237

dio de u m liv ro e não p ela im pressão, fu g a z de


um a conversação.
« R e su lta d e sta s o b serv açõ es, q u e não so frem
a b so lu ta m e n te excepção, q u e a com posição e s c rita
com porta u m a certa densidade de pensam entos, u m a
sobriedade nervosa de expressões, u m a m a n e ira de
ju lg a r e re p ro d u z ir, q u e excede em valor o tecido
ordinário e u m pouco fra co da vida.
«D em os u m o u dois ex em p lo s d este g ê n e ro de
m e lh o ra m en to s.
«É q u e re a lm e n te h á u m a copiosa fo n te de
belezas, de q u e os e s c rito re s novos não tira rã o
poucas v a n ta g e n s .
«D esejem os e x p r im ir este p e n sa m e n to :
«O h o m e m p o d e se m p re t i r a r c e rto p ro v e ito
«das e x p e riê n c ia s, a q u e se s u b m e te u . Os o b stá-
«culos, q u e se n o s opõem , fo rtific a m a nossa v o n -
«tade, e, n e s ta lu ta , q u e s u s te n ta m o s c o n tra a
« adversidade, p o d e m o s to rn a r-n o s , p o r n ó s p ró -
«prios, u m e x e m p lo e com o u m en sin o s a lu ta r, de
«form a q u e tire m o s d a í id é ia s m a is ju s ta s so b re o
«dever.»
«Na v e rd a d e , tu d o is to é sen sato e n a d a ó m ais
digno de s e r p ra tic a d o .
«Mas, p r e g u n to a m im p ró p rio se v a le rá a p en a
ser re p e tid o is to , sob esta fo r m a fr o u x a , que m al
toca no e sp írito .
<E ta lv e z a m o r a l d e M r. d e L a -P a lis s e o u dos
q u a rte to s de P ib r a c .
«Mas n ã o h á a í esse trabalho de concentração
238 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

q u e tr a n s f o r m a o p e r f u m e de u m a flo r n u m a
e s s ê n c ia . i
« E n tr e v ê - s e a li u m a id é ia p r in c ip a l, a acção
s a lu ta r da desgraça, e d o is efeito s, q u e se produzem,
u m sôbre o e sp irito , o u tro sôbre a vontade. P ro c u ra i
e x tr a ir d ê s te p e n s a m e n to , u m p o u c o com plex o e
u m p o u c o e m p o la d o , a e s s ê n c ia q u e o re su m e , de
f o r m a q u e c a d a p a l a v r a p o ssa d e s e m p e n h a r só por
s i o p a p e l d e u m a s ín te s e , e o b te r e is êsse efeito
p a r t i c u l a r d o e s tilo , q u e se c h a m a a p ro fu n d eza e
o b rilh o , f o r m u la n d o a m á x im a s e g u i n te :
« A d e s g r a ç a n ã o e n g r a n d e c e s o m e n te o carác-
« te r, q u e l h e r e s is te p e la l u t a , m a s a inteligên cia,
« q u e c o m e la l u c r a , p e la c o n te m p la ç ã o .»
« T e m o s u m s e g u n d o e x e m p lo :
« T e n te m o s e x p r i m i r e s te p e n s a m e n to , u m pouco
« v u lg a r , d e q u e o s h o m e n s d e ix a m tu d o p ara o
« d ia s e g u i n te . E c e r ta m e n te , d a s u a p a rte , um
« g r a n d e ê r r o . S e se e n c o n tr a m n u m a situação
« feliz, d e v e m - n a a p r o v e i t a r l o g o ; p o is ó p ru d e n te
« n ão c o n t a r c o m u m a p r o s p e r id a d e d e tão longa
« d u ra ç ã o . S e , p e lo c o n t r á r i o , a s u a situ a ç ã o é
« p re c á ria e o s e u f u t u r o in c e r to , a m a is vul-
« g a r p r u d ê n c i a s e r á p ô r - s e im e d ia t a m e n te a cami-
« n h o p a r a a m e l h o r a r , s e m e s p e r a r p o r nen h u n s
« acasos f a v o r á v e is , q u e t a l v e z n u n c a se apre-
« se n te m .»
« E is a q u i, p o d e d iz e r - s e , id é ia s ra z o á v e is , posto
q u e tr iv i a is .
« S o b e s ta f o r m a , n a d a t ê m d e c a tiv a n te s, e
▲ FO RM A ÇÃ O DO E 3 8 T IL O 239

não p a ss a m d e s im p le s o p in iõ es, com o se o u v e m


todos os d ia s n a c o n v e rsa ç ã o .
« C e rta m e n te q u e p a s s a m e são m e sm o re c e b i­
das, s e g u n d o a fe lic id a d e d a s p a la v ra s , m a s n ã o se
deveria tra n sp o r p a ra o p a p e l em fo r m a d ilu íd a e
apática.
« S eria n e c e ssá rio c o m p r im ir-s e o p e n s a m e n to ,
p ô r e m p r e s e n ç a as d u a s a lte r n a tiv a s q u e ele
in c lu i, s u b o r d in a n d o - a s ao c o n se lh o q u e c o n tê m ;
p ro c u ra r d u a s o u tr ê s e x p re ssõ e s c o m p le x a s e
c a ra c te rís tic a s , q u e e n c e rra m , so b u m a fo rm a c o n ­
cisa e to c a n te , ta n t o o u m a is q u e a p a rá fra s e p r e ­
cedente.
« C h e g a r-se -á e n tã o a a lg u m a co isa a n á lo g a a
esta m á x i m a :
«A v e r d a d e ir a d e s g ra ç a d a m a io r p a r te d o s
«hom ens e s tá e m êles a d ia re m s e m p re p a r a o
«outro d ia o g o z o d e v iv e r o u a p o s s ib ilid a d e d e
« trab alh ar.»
«Não f a lta r á q u e m d ig a q u e , co m ta is c u id a d o s ,
o estilo n ã o é n a tu r a l; q u e c o n té m u m r e q u in te
d ific ilm e n te s u p o r tá v e l e que as expressões tão
fortem ente co n cen tra d a s e tão sàbiam ente e q u ilib r a ­
das não p o d ia m chegar por s i à p e n a ; q u e h á
por c o n s e g u in te u m esfo rço v is ív e l, e p o r ta n to
penoso, p a r a o e s c r ito r e p a ra o le ito r , ao m esm o
tem po.
«Se a in d o lê n c ia n ã o d e sse s m ã o a ta is ra c io ­
cínios, n ã o p a r e c e r ia m su ste n tá v e is por u m só
momento.
240 A FO RM Á ÇA O DO B S T ID 0

«A m e d io c rid a d e , q u e é a in c o n te s tá v e l p a r ti­
lh a d a m é d ia d o s h o m e n s , n ã o ó rig o ro sa m e n te
e x ig id a , q u a n d o se t r a t a d e e s c re v e r.
«E , se n ã o te m o s d a n o ssa p a r t e a lg u m a fa c u l­
d a d e ou a lg u m trabalho a m a is, ó e sc u sa d o d a r à
e s ta m p a e x a c ta m e n te o q u e c a d a u m pode te r dito,
n o s m e sm o s te rm o s , d e m a n h ã o u n a v ésp era .
«E s ta s fó r m u la s , q u e a c h a r e is m u ito rebuscadas
p a ra serem n a tu r a is , a presentam -se por s i própnas
a o s esp írito s su p e rio re s.
A

« E sses tê m a f a c u ld a d e e m in e n te d e concen­
t r a r as s u a s re fle x õ e s e d e as t r a d u z i r em qualq u er
f ó r m u la v iv a e b r e v e .
«N ão é p re c is o m e sm o p e r te n c e r a essa fam ília
d e e s p írito s e x tr a o r d in á r io s , p a r a e n c o n tr a r por si
só, n a o casião , essas p e q u e n in a s satisfaçõ es de
e s tilo ; v ê m -n o s , às v ezes, a té n o d iálo g o mais
s im p le s , e, com m a is ra z ã o , q u a n d o , com a pena
n a m ão, te m o s u sa d o v ig o r o s a m e n te de todos os
re c u rs o s do nosso e s p ír ito .
*A a rte de escrever consiste precisam ente em
in tr o d u z ir n a s composições u m a espécie de continua
sa tisfação.
« H á d ia s em q u e n o s a c h a m o s m a is bem dis­
p o s to s ; e n tã o , tr a b a lh a - s e c o m m a is a r d o r e há
m a is p ro b a b ilid a d e s d e b o m ê x ito .
«São ê ste s m o m e n to s q u e os a u to r e s fan tasistas
se a p re s s a m a c o lh e r e a a p r o v e ita r , p a ra encher
o se u p ap el. I
« E fe c tiv a m e n te , tê m à s v e z e s, n a q u e la s horas
▲ FORM AÇÃO D O H SSTIIiO 241

a fo rtu n a d a s , u m a e n e rg ia , u m b rilh o e u m v ig o r,
que, em q u a lq u e r o u tr a ocasião, se lh e s não po d e­
ria e x ig ir» (*).
A. a n títe s e é p o rta n to o m a io r e o p rin c ip a l
recu rso d a s u g e s tã o d e idéias.
S e a in s p ira ç ã o ta rd a , se o p e n sa m e n to re siste ,
p ro c u ra i v e n c e r p o r esse m eio.
P e n s a n d o n o m o ld e, cria-se o a rte fa c to .
O d o m d e e s c re v e r d e p e n d e , m a is do q u e se
supõe, d a v o n ta d e e d o tra b a lh o .
V êem -se os b elo s e fe ito s d e e stilo , q u e a a n tí­
te se p o d e p r o d u z ir .
P o d e s e r c u r ta , u m sim p le s e m b a te d e p a la v r a s :

O filho d e D e u s fêz-se h o m e m , a fim d e n o s t o r n a r


filhos d e D e u s . F o i f e rid o p a r a c u r a r a s n o s s a s c h a g a s . T o r ­
n o u -se e s c r a v o , p a r a n o s t o r n a r liv re s .
F i n a l m e n t e , m o r r e u , p a r a q u e n ó s v iv ê s s e m o s .
( S . C ip r ia n o , S e r m ã o s o b r e a E s m o la ).

E is a q u i s ín te s e s d e a n títe s e s , p ro d u z id a s p elo
inverso b ru s c o d a id é ia .
À s v e z e s, b a s ta u m q u a lif ic a tiv o - c o n tr a s te p a r a
tra ç a r u m a a n tí te s e :

E l a t e m i d é i a s fe lize s , t ã o a f a s t a d a s d a a f e c t a ç ã o , q u e
n os d e s a g r a d a , c o m o d o n a t u r a l e x a g e r a d o , q u e n o s in c o m o d a .

( S a in t- É v r e m o n d , M a d a m e d e M a z a r in ).

(*) A . R o n d e le t, A A r t e d e E s c r e v e r , p. 413.
16
242 A FORMAÇAo DO B38TILO

U m a v e z q u e se s a ib a t i r a r e s ta s e sp é c ie s de
e fe ito s d e u m p e n s a m e n to , b a s t a r á r e p e t i r o p ro ­
cesso, d iv id i- lo e m s é r ie s , e o b te r-s e -S o d ife re n te s
g ê n e ro s d e a n t í t e s e s :
1. ° — A a n títe s e p o r fra se s i n t e i r a s ;
2 . ° — A a n títe s e e n u m e r a t i v a ;
3 . ° — A a n tí te s e s i m é t r ic a ;
4 . ° — A a n tí te s e - r e tr a t o o u o R e t r a t o ;
5 . ° — A a n títe s e - p a r a le lo o u o P a r a le lo .

l.° —A antítese por frases

É o d e se n v o lvim e n to c o n tí n u o d a a n títe s e por


e m b a te s d e p a l a v r a s :

C o m o n ã o h á p o v o q u e n ã o t e n h a d e se p r e c a v e r con­
t r a a s v i o l ê n c i a s e s t r a n g e i r a s , q u a n d o se s e n t e fraco, ou
d e t o r n a r a s u a c o n d i ç ã o g l o r i o s a , p e l a s s u a s c o n q u is ta s ,
q u a n d o é p o d e r o s o ; c o m o n ã o h á t a m b é m q u e m possa
a s s e g u r a r o s e u s o s s ê g o , p e l a c o n s t i t u i ç ã o d e u m bom
G o v e r n o , e a t r a n q ü i l i d a d e d a s u a c o n s c i ê n c i a p elo s sen­
tim en to s d a r e l i g i ã o . . .
>_
( S a i n t - E v r e m o n d , O s H is to r ia d o r e s ) .

F lé c h ie r e x p lo r o u m u i t a s v e z e s e s te jo g o de
id é ia s, com o n e s ta p a s s a g e m :

A d o p t a v a p r o v i d ê n c i a s q u á s i i n f a l í v e i s ; e , d e s c o b rin d o
n ã o só o q u e os i n i m i g o s t i n h a m f e i t o , m a s t a m b é m o que
êles p l a n c a v a m , p o d e r i a s e r i n f e liz , m a s n u n c a s u r p r e e n ­
d id o . D i s t i n g u i a o t e m p o d e a t a c a r e o d e d e f e n d e r . A n a d a
se a v e n t u r a v a , s e n ã o q u a n d o t i n h a m u i t o a g a n h a r e quási
A FORM AÇÃO DO H 8 T IL O 243

nada a p erd er. A i n d a q u a n d o p a re c ia ced er, n ã o d e ix a v a de


se fazer tem er.
Tal era, enfim , a s u a h a b i l i d a d e , q u e , q u a n d o v e n c ia ,
só podiam a t r i b u i r t a l h o n ra à sua prudência.
E, q u a n d o e r a v e n c id o , i m p u t a v a m as c u l p a s ao
destino.
( F l é c h i e r , O r a ç ã o F ú n e b r e d e T u r e n n e ).

2 .° — A antítese enumerativa

P ode co m p reen d er-se, sob o n o m e de a n títe s e


en u m erativ a, a q u e c o n siste em a p r e s e n ta r dois
pensam entos opostos a d e se n v o lv im e n to s p a ra lelo s
indefinidos.

D u a s idéias t i n h a m e r g u i d o a I d a d e - M é d i a d a i n f o r m e
barbaria ; u m a , re lig io s a , q u e e r g u e r a g i g a n t e i a s c a t e d r a i s
e a r r a n c a d o solo as p o p u laçõ e s , p a r a as l e v a r à T e r r a
S a n t a ; a o u t r a , s e c u l a r , q u e ed ific a ra as fo r t a le z a s fe u d a is
e p u sera de pé o h o m e m de s e n t i m e n t o s , a r m a d o n o s s eu s
domínios ; u m a , q u e p r o d u z i r a o h e ró i a v e n t u r o s o ; a o u t r a ,
que p r o d u z i r a o m o n g e m í s t i c o ; u m a , q u e é a c r e n ç a em
Deus; a o u t r a , q u e é a c r e n ç a e m si.
A m b a s , e x c essiv as, h a v i a m d e g e n e r a d o pelo i m p u l s o
da s u a p r ó p r i a fô rç a ; u m a e x a l t a r a a i n d e p e n d ê n c i a a t é à
revolta ; a o u t r a d e s v a i r a r a a p i e d a d e a t é ao e n t u s i a s m o ;
a p rim e ira t o r n a v a o h o m e m i m p r ó p r i o p a r a a v i d a c i v i l ;
a segunda in fu n d ia no hom em a vida n a t u r a l ; u m a , insti­
tuindo a d e s o r d e m , d is s o l v ia a s o c i e d a d e ; a o u t r a , e n t r o -
nizando a d e s p r o p ó s i t o , p e r v e r t i a a i n t e l i g ê n c i a . F ô r a p r e ­
ciso r e p r i m i r a c a v a l a r i a , q u e t i n h a p o r a lv o a p i l h a g e m , e
refrear a d e v o ç ã o q u e i m p o r t a v a o s e r v i l i s m o .
O f e u d a l i s m o t u r b u l e n t o e n e r v a r a - s e c o m o a te o c r a c ia
opressiva.
244 A FORM AÇÃO DO B 8 T IL O

E as duas grandes p a i x õ e s d o m i n a n t e s , p r i v a d a s da
s u a s e iv a e separadas da s u a h a s t e , e l a n g u e s c i a m a té dei­
xar que a m o n o to n ia do h á b i t o e o g ô s t o d a s o c ie d a d e ger­
m inassem no seu lu g a r e f l o r e s c e s s e m s o b o s e u n o m e.

( T a in e , L i t e r a t u r a I n g l e s a , i, p. 168).

A a n títe s e j á n ã o c o n s is te a q a i n o em bate
rá p id o d a s p a la v r a s , m a s n a lo n g a oposição das
faces re c íp ro c a s d e d u a s id é ia s .

3 .° — Antítese simétrica

E m v e £ d e s e r p u r a m e n t e e n u m e r a tiv a , a antí­
te s e p o d e f r a c c io n a r-s e , e s p a c e ja r -s e e tornar-se
s im é tr ic a p o r m e io d e p e q u e n a s o p o siçõ es, como
n e s t a b e la d e s c riç ã o d e u m e x é r c ito :

É u m c o r p o , a n i m a d o p o r u m a i n f i n i d a d e d e paixões
d i v e r s a s , q u e u m h o m e m h á b i l fa z m o v e r , e m defesa da
P átria.
É u m b a n d o d e h o m e n s a r m a d o s , q u e c u m p r e m cega­
m e n t e a s o r d e n s d e u m c h e fe , c u j a s i n t e n ç õ e s desconhecem .
É u m a m u l t i d ã o d c a l m a s , n a m a i o r p a r t e v i s e mer­
c e n á r i a s , q u e , s e m p e n s a r n a s u a p r ó p r i a r e p u t a ç ã o , tra­
b a lh a m p a ra a dos reis e dos c o n q u ista d o re s.
É u m a r e ü n i ã o c o n f u s a d e l i b e r t i n o s , q u e é preciso
s u j e i t a r à o b e d i ê n c i a , c o b a r d e s , q u e é p r e c i s o l e v a r ao com­
b ate, te m e rá rio s q u e é p re c iso c o n te r , im p a c ie n te s que é
preciso m o d e ra r.

( F l é c h i e r , E l o g i o d e T u r e n n e ).
A PORM A ÇÂ O DO flS T IL O 245

4.0 — Antítese-retrato

O r e t r a t o é b e m c o n h e c id o , co m o g ê n e ro l i t e ­
rá rio .
E n c o n tr a - s e n o s o ra d o re s , n o s h is to ria d o re s , n o s
ro m a n c is ta s .
E a d e s c riç ã o d e u m a p e sso a o u de u m a n im a l.
L a - B r u y è r e te m r e t r a to s e x c e le n te s .
S a in t- S im o n p i n t o u r e t r a to s c o m p le to s ; físic o ,
m o ral e c a r á c te r .
B u ffo n te m r e t r a t o s n o tá v e is d e a n im a is .
E o r d in a r ia m e n te a a n títe s e o q u e c o n s titu i o
v a lo r e o re le v o d e u m r e t r a to . S e ja ele q u a l fô r,
pode e n t r a r n e le a a n títe s e .
Os r e t r a t o s d e T á c ito são c é le b r e s : o d e P o r -
sénio, d e S a lú s tio -C ris p o , S e ja n o , T ib é rio , P o p e ia ,
A g ríc o la . N e le s d o m in a a a n títe s e .
E is a q u i co m o se r e s u m e o d e G ralb a:
— «M ais a f o r tu n a d o s ú b d ito q u e d ito s o p r ín ­
cipe ; m a is s e m v íc io s q u e v i r t u o s o ; s u p e r io r à
condição p r i v a d a e n q u a n to n e la e s te v e ; e, n a o p i­
nião de to d a a g e n te , c a p a z d e s e r im p e ra d o r, se o
não tiv e s s e sid o .»
C ita -se ta m b é m o r e t r a t o d e C a tilin a , u n ic a ­
m ente c o m p o s to d e a n títe s e s , n o d is c u rs o d e C ícero
Pro Caebo.
Os p o r m e n o r e s , q u e c o m p õ e m u m r e t r a to , n ã o
se d e v e m a p lic a r e x c lu s iv a m e n te se n ã o ao m o d ê lo ,
que se q u e r e p i n t a r .
246 A FO RM AÇÃO DO E J S T IIiO

S e a q u il o q u e s e d iz se p o d e r e f e r i r a o u tro , o
r e t r a t o n 5 o ó v i v o ; ó u m e s t e r e ó ti p o .
M u ito s a u t o r e s j u l g a m m o s tr a r - n o s a ssim al­
g u é m , q u a n d o a f in a l s e n ã o v ê n i n g u é m .

A i a r i a S t u a r t e s t a v a m u i t o a d i a n t a d a , p a r a a s u a idade.
E r a a lta e form osa.
O s s e u s o l h o s r e s p i r a v a m e s p í r i t o e r e s p l a n d e c i a m de
brilho.
T i n h a as m ão s m a is bem feitas do m u n d o .
A s u a v o z e r a d o c e , o s e u a s p e c t o n o b r e e gracioso, a
s u a l i n g u a g e m e r a a n i m a d a e i n s p i r a v a j á p r o f u n d a sim­
p atia.
(M ignet).

E s t a s l i n h a s n ã o só se p o d e m a p lic a r a Maria
S t u a r t , c o m o a q u a l q u e r o u t r a m u l h e r , in te lig e n te
e b e la .
T a l r e t r a t o n ã o é m a is q u e u m lu g a r-c o m u m .
D a u n o u e s c r e v e u s o b r e t a l a s s u n to in te re ssa n ­
te s re fle x õ e s .
D iz e l e :
— «S e o r e t r a t o n ã o é m a is q u e u m a contra-
p r o v a , m a is o u m e n o s e n f r a q u e c i d a , d e u m a figura
q u e j á c o n h e c e m o s , m a is v a l e r i a avisarem -n o s
d is s o e m d u a s p a l a v r a s d o q u e r e p r o d u z ir , tão
d if íc il e c o n f u s a m e n t e , t r a ç o s q u e se n o s apresen­
t a r a m a l g u r e s , c o m m u i t a m a is p r e c is ã o e verdade.
« O q u e se a ss e m e lh a a m u i t a g e n te não pode
s e r v ir p a r a c a r a c te r iz a r n i n g u é m .
« O s e x e m p lo s d e s te s r e t r a t o s v a g o s são ex tre­
m a m e n te v u l g a r e s .
▲ FORM A ÇÃ O DO B S T IL O 247

« V o u c it a r u m , q u e p o d e rá s u b s t i t u i r to d o s os
o u tro s; e n c o n tr a r e is r e ü n id a s n e le q u á s i to d a s as
idéias q u e é c o s tu m e c o p ia r d o s a n tig o s e s c rito r e s ,
para c o m p o r a s s im essas e sp é c ies d e im a g e n s a r t i ­
ficiais, s e m a s p i r a r a s e m e lh a n ç a a lg u m a .
« Q u ero f a l a r d o r e t r a t o , q u e S a r r a s in co lo co u
ao p r in c íp io d e u m a o b ra h is tó r ic a , q u e n ão co n ­
c lu iu e q u e te m p o r t í t u l o : A conjuração de
V alstein.
«E sse f r a g m e n t o te v e c e le b rid a d e n o s m e a d o s
do sé c u lo x v i i i ; é u m d o s m a is n o tá v e is m o n u ­
m en to s d o e s ta d o d a n o ssa lí n g u a e m 1 6 5 0 e dos
p ro g re sso s q u e a a r t e d e e s c re v e r e m p ro s a co m e­
çava a f a z e r e n t r e n ó s.
«M as p o d e i- lo e n c a r a r p a r tic u la r m e n te , com o
um tip o g e r a l d e s s a s c o m p o siç õ e s e s tu d a d a s , com o
a m ais c o m p le ta c o m p ila ç ã o d e ssa s id é ia s a n tig a s ,
que, à fo r ç a de serem re p ro d u zid a s p e lo s m o d e rn o s,
se to r n a r a m lu g a r e s -c o m u n s .
« A lb e rto V a ls te in t i n h a e s p ír ito g r a n d e e a u d a z ,
«m as i n q u i e t o e in im ig o d o re p o u so .
« E ra a lto e e n c o r p a d o ; o r o s to m a is m a je sto so
«que a g r a d á v e l.
« E ra s ó b r io d e n a tu r e z a , d o rm in d o m u ito
«pouco, tr a b a l h a n d o c o n tin u a m e n te , s u p o r ta n d o
«bem o f r io e a fo m e , e v ita n d o os p ra z e re s e p re -
« se ry a n d o -se d o s in c ô m o d o s d a g o ta e d a id a d e
«pela te m p e r a n ç a e p e lo e x e rc íc io .
« F a la v a p o u c o , p e n s a v a m u ito .
« E s c r itu r a v a e le p r ó p r io to d o s os s e u s n e g ó c io s.
248 A FORM AÇÃ O DO E S T IL O

«Na g u e rra , v a le n te e s e n s a to ; a d m irá v e l em


« le v a n ta r e m a n te r e x é r c ito s ; se v e ro n a p u n ição
«dos s o ld a d o s; p ró d ig o em re c o m p en sá -lo s, m as
«com selecção e tin o .
« S em p re firm e c o n tr a a d e sg ra ç a .
«L hano, q u a n d o e ra p re c is o ; no m ais, orgu-
«lhoso e a ltiv o .
« E x tre m a m e n te am b icio so .
« In v ejo so d a s g ló ria s de o u tre m , cioso das suas.
« Im p la c á v e l no ó d io ; c ru e l n a v in g a n ç a ; fàcil-
«m e n te ir r itá v e l.
« A m ig o d a m a g n ificê n c ia , do lu x o , da novi-
«dade.
«Na a p a rê n c ia , e x tra v a g a n te , m as não fazendo
« n ad a sem c á lc u lo e a d u z in d o se m p re o pretexto
«do bem p ú b lic o , p o sto q u e su b o rd in a ss e tu d o ao
«acréscim o d a su a fo rtu n a .
« D esp rezav a a re lig iã o , q u e êle su b o rd in a v a à
« p o lítica.
« A rtificio so ao ú ltim o g r a u e p rin cip alm e n te
«em p a re c e r d e sin te re s sa d o .
«A o m e sm o tem p o , m u ito c u rio so e perspicaz,
« q u a n to aos p la n o s dos o u tr o s ; m u ito p ru d en te
«em d ir ig ir os se u s e, s o b re tu d o , m u ito esperto em
«os o c u lta r, e ta n to m a is im p e n e trá v e l, q u an to êle
« afectav a em p ú b lic o c a n d u r a e lib e rd a d e , eensu-
« rando no p ró x im o a d is sim u la ç ã o , de q u e se ser-
«via em to d a s a s coisas.
As

« E ste h o rn eiu , te n d o e s tu d a d o a te n ta m e n te as
« m áx im as e o p ro c e d im e n to d a q u e le s que, de uma
A FORM AÇAO DO H 8 T I L .O 24&

«condição b a ix a , h a v ia m ch e g a d o à so b e ra n ia , n ã o
« tev e n u n c a senão p e n sa m e n to s d e g ra n d e z a e
« esp eran ças m u ito elev ad as, d e sp re z a n d o os q u e s e
« c o n te n ta v a m com a m e d io crid ad e.
«FÔ3se q u a l fosse o estad o em q u e a f o r t u n a
«o p u sesse, p e n s o u se m p re em e le v a r-s e m a is ;
«e, afin al, te n d o c h e g a d o a ta l p o n to de g ra n d e z a ,
«que n ã o t i n h a sen ão as co ro as a c im a dele, te v e a
« co rag em d e p e n s a r em u s u r p a r a d a B o ê m ia ao
« Im p e ra d o r. E , p o sto q u e so u b esse q u e ta l d e s íg n io
«era c h e io d e p e rig o s e p e rfíd ia , d e s p re z o u o p e rig o
«que v e n c e ra s e m p re e ju l g o u d ig n a s to d a s as
«acções, q u a n d o , além do c u id a d o d a c o n se rv a ç ã o ,
«as p r a tic a v a p a ra re in a r.*
D a u n o u d iz :
— «Ia j u r a r q u e , d e to d a s e s ta s id é ia s, q u á si
não h á u m a que seja de S a r r a s in , n e m que convenha
a V a lstein , m a is que a q u a lq u er outro ambicioso.
« P elo c o n tr á rio , p o d e ría m o s d iz e r q u e e la s estão
m u ito m a l a p lic a d a s a q u i, p o is p a re c e q u e V a ls te in
não c o n c e b e u p ro je c to s d e u s u r p a ç ã o o u d e re v o lta ,
sen ão q u a n d o re c o n h e c e u q u e o I m p e r a d o r F e r ­
n a n d o I I , c u jo s e x é rc ito s c o m a n d a v a , d e sc o n fia v a
d ele e lh e to m a r a ódio.»
D e p o is d e t e r m o s tra d o a fa lsid a d e h is tó ric a
dos tr a ç o s q u e c o m p õ e m e s s a f ig u r a , D a u n o u con­
c lu i, d iz e n d o :
— « S e ria s u p é r f lu o e n t r a r em m a is e x te n so s
p o r m e n o r e s ; q u is a p e n a s m o s tr a r q u e o r e tr a to ,
tr a ç a d o p o r S a r r a s in , é d e p u r a fa n ta s ia ; m as, p a r a
250 A FO RM A ÇÃ O DO B S T IL O

d i z e r a v e rd a d e , n e m s e q u e r ó u m jô g o d e im a g i­
n a ç ã o , é u m te c id o d e ra p s ó d ia s .
« T a is q u a lid a d es são a tr ib u íd a s a V alstein por­
q u e h a v ia m p e rte n c id o o u iro ra a C a tilin a e a outros.
« F o i d e S a lú s tio , m a is q u e d o te s te m u n h o dos
A le m ã e s d o s é c u lo x v i i , q u e e le t i r o u os coloridos
e o s c a m b ia n te s d o r e t r a t o d e V a ls te in » (*■).
E s t a p á g in a d e D a u n o u r e s u m e os n o sso s con­
s e lh o s .
T a is o b s e rv a ç õ e s te m u m a im p o r tâ n c ia capital,
p o r q u e , q u e r se e s c r e v a h is tó r ia , q u e r se escre­
v a m ro m a n c e s e c o n to s , a s r e g r a s sã o se m p re as
m esm as.
S e o s tr a ç o s d e u m a p e rs o n a g e m d e rom ance
s e p o d e m a p li c a r a to d a a e sp é c ie d e pessoas, a
p e r s o n a g e m é fa ls a .
E n e c e s s á rio q u e as p e r s o n a g e n s s e ja m gerais,
m a s c o m p a r t ic u la r id a d e s .
P o d e e x i s t i r f u la n o e m m ilh a r e s d e ex em p la re s,
m a s é p re c is o q u e se re c o n h e ç a q u e é fu la n o e não
o u t r o q u a lq u e r .
O s r o m a n c is ta s m e d ío c r e s fa z e m r e tr a to s de
d o n z e la s ; m a s sã o r a r o s os q u e fa z e m o r e tr a to de
u m a d o n z e la .
D iz o p a d r e M a u r y :
— « Q u a n d o M a s s ilo n p r è g o u o s e u serm ão
s o b r e a A s s u n ç ã o d e S a n t a V ir g e m , à s relig io sas

(!) D a u n o u , C u r s o s d e E s t u d o s H i s t ó r i c o s , t. v ii, p. 407.


A FORM AÇÃ O DO B 8 T IIiO 251

de C h a illo t, n a p re se n ç a d a ra in h a de I n g la te r r a ,
ju lg o u d e v e r co lo car, p o r c o rtesia, n esse d isc u rso ,
o r e tr a to do p r ín c ip e de O ran g e, com o u m m eio
sag az e c o n v e n ie n te de a g ra d a r à esposa do re i
d e stro n a d o p o r ele, J a c q u e s I I , em p re se n ç a d a
q u a l fa la v a .
«Mas o s e u ta le n to s e rv iu -o m u ito m a l n a q u e la
ocasião.
« P a re c e u e sq u e c e r-s e , ao a ju n ta r às p re te riç õ e s
d a m ais in j u s t a p a rc ia lid a d e os p leo n asm o s de u m a
elocução d e c la m a tó ria , e p rin c ip a l m e n te ao d isfar­
ç a r m a l a lis o n ja sob o v é u d a d e tra cç ã o , de q u e
ele p ró p rio s e ria ju lg a d o u m d ia p o r essa m esm a
d ia trib e , com q u e re b a ix a v a o s e u m in is té rio .
« M assillo n a p re s e n ta -n o s u m só p e n sa m e n to
p a ra d e s c re v e r G ru ilh erm e I I I , d ep o is de o te r
e x p rim id o , d e sd e a s u a p r im e ir a fra se , se m a p ro ­
fu n d a r o c a r á c te r d o a lm ir a n te h o la n d ê s , sem
a g r u p a r e a té se m a p r o v e ita r os m ais m e m o rá v e is
re s u lta d o s d a s u a h is tó r ia .
« E is a q u i p o iè e s te r e tr a to , tã o d ifu so e tão
p ou co e x p r e s s iv o :
« P a ra o u s u r p a d o r , q u e se tin h a e lev ad o pelo
<c a m in h o d a in ju s tiç a , q u e d e s p o jo u o in o c e n te e
« e x p u ls o u o h e r d e ir o le g ítim o , p a ra se p ô r no seu
«lu g a r e re v e stir-se com os seus despojos, a h ! a su a
« g ló ria fic a rá s e p u lta d a co m êle n o tú m u lo e a su a
« m o rte d e s e n v o lv e r á a vergonha da su a v id a .
« E n tã o , se n d o tira d o o d ig u e que o p u n h a m , aos
« d is c u rs o s p ú b lic o s , os s e u s tr iu n f o s e o s e u p o d er,
252 A FORM AÇÃ O DO B JS T 1 L .O

« tir a r - s e - á v in g a n ç a , so b re a s u a m em ó ria, dos


«falsos lo u v o re s , q u e fo r ç a d a m e n te tin h a m aten-
« d ido à s u a p e sso a.
« E n tã o , não e x is tin d o já to d o s os gran d es
« m o tiv o s d e re c e io e d e e s p e ra n ç a , cairá o véu,
«que cobria a s c ir c u n s tâ n c ia s m a is vergonhosas da
«su a v id a . D e s c o b r ir - s e - á o m o tiv o s e c re to das suas
«gloriosas e m p rê sa s, q u e a a d u la ç ã o h a v ia exaltado,
«e e x p o r-s e -á a s u a in d ig n id a d e e b a ix e z a . Yer-
«-se-ão d e p e r to essas v i r t u d e s h e ró ic a s , q u e só se
« c o n h e c ia m p e lo s e lo g io s p ú b lic o s , de b o a fé, e
«não se e n c o n tr a r ã o se n ã o os d ire ito s m a is sagra-
«dos da n a tu r e z a e da sociedade ca lca d o s a o s pés.
«E n tã o d e s p o já -lo -ã o dessa g ló ria bárbara e
«in ju s ta , de q u e g o za r a ; re s titu ir -lh e -ã o a in fâ n cia
<e a m á f é dos se u s a te n ta d o s, q u e ta n to h av iam
« o c u lta d o .
« E m v e z d e o ig u a la r e m aos h e ró is, ch am ar-
« -lh e -ã o filho d e sn a tu ra d o , u m dê ses hom ens, de
*que fa la S . P a u lo , sem cu lto , sem afectos, s e m p r in -
« cíp io s.
«A s u a fa lsa g ló ria a p e n a s d u r a r á u m m o m en to
«e o s e u o p ró b rio só f in d a r á c o m os sécu lo s.
« A ú l t i m a p o s te r id a d e só o c o n h e c e rá p elo s seus
« c rim e s, p e la p ie d a d e filia l calcada aos pês, à face
«dos r e is e d a s n a ç õ e s, q u e ti v e r a m a c o b a rd ia de
« a p la u d ir a s u a u s u r p a ç ã o ; f in a lm e n te , p e lo aten-
« ta d o , c o m q u e d e s tr o n o u u m p a i e u m r e i ju s to ,
« p a ra se c o lo c a r e m s e u l u g a r .
«Os h is to r ia d o r e s , fié is d e p o s itá r io s d a v erd ad e,
A FORM AÇÃO DO EJSTIL.O 253

« c o n s e rv a rã o a té o fim o s e u n o m e c o m a s u a v e r-
« g o n h a ; e a c la s s e a q u e fo i e le v a d o , à cu sta das
d e is d a h o n r a e d a p ro b id a d e , fa z e n d o -o e n t r a r n a
« cen a d o u n i v e r s o , só s e r v i r á p a r a im o r ta liz a r a
« su a a m b iç ã o e a s u a ig n o m ín ia s o b r e a te r ra .»
« E s ta a m p lif ic a ç ã o o u , a n te s , e s ta d ifa m a ç ã o
im p e r d o á v e l n a b o c a d e u m o r a d o r c ris tã o , q u e
não d e v e o f e n d e r n i n g u é m , e r a m a is p r ó p r i a p a r a
c o n s o la r a r a i n h a d e I n g l a t e r r a , q u e p a r a d a r a
c o n h e c e r o p r í n c i p e d e O ra n g e , e p o d e s e r v i r de
e x e m p lo p a r a p r o v a r q u e M a s s illo n se a lo n g a v a
m u ito s o b r e a m e s m a id é ia e a b u s a v a e s tr a n h a ­
m e n te d a s u a f lu ê n c ia , e n tr e g a n d o - s e a lg u m a s
v e z e s a r e p e tiç õ e s f a s tid io s a s .
«M as, a f a s te m o s p o r a g o r a e s ta d is c u s s ã o c r í­
tic a , à q u a l só v o lta r e m o s m u ito fo rç a d a m e n te .
«<í Q u e r e is v e r a g o r a co m o B o s s u e t d e s c r e v e u o
p r o te c to r C ro m w e ll, q u á s i tã o o d io so , c o m o o p r í n ­
c ip e d e O r a n g e ?
« C o m p a ra i a e s ta e s t é r i l a b u n d â n c ia d o B is p o
d e C le r m o n t a e n é r g ic a im p e tu o s id a d e d o B is p o
d e M e a u x ; n a d a a s s in a la m e lh o r a d if e r e n ç a do
se u g ê n io .
« E n c o n tr o u - s e u m h o m e m c o m u m a e x tr a o r -
« d in á ria p r o f u n d e z a d e e s p ír ito , tã o r e q u i n ta d o
« h ip ó c rita c o m o h á b il p o lític o , c a p a z d e e m p r e e n -
«der t u d o e d e t u d o o c u lt a r , i g u a l m e n t e a c tiv o e
«in f a tig á v e l n a p a z e n a g u e r r a ; q u e n a d a d e ix a v a
«à f o r t u n a d o q u e lh e p o d ia t i r a r , p o r d is c riç ã o
«ou p r e v i d ê n c i a ; m a s , e m to d o o caso, tã o v i g i -
254 A FORM A ÇÃ O DO H 8 T IL O

«la n t e e tã o p r o n to p a r a tu d o , q u e n u n c a d e ix o u
« e sc a p a r as o c a siõ e s q u e e la l h e a p r e s e n t a v a ; final-
«m e n te , u m d e s s e s e s p í r it o s t u r b u l e n t o s e an d a-
«ciosos, q u e p a r e c e m t e r n a s c id o p a r a m u d a r o
« m u n d o .»
« M a ssillo n a flo ra a s c o is a s e e s g o ta a s p a la v ra s .
« B o ssu e t, c o m o se a c a b a d e v e r , fa z p re c isa ­
m e n te o c o n tr á r io , e n ã o é p o s s ív e l p r o n u n c i a r um
ju í z o m a is d ig n o d e f i x a r a o p in iã o d a p o s te rid a d e .
«Só ela, e n ã o a s c o r te s d e F r a n ç a o u d e In g la ­
te r r a , e ra o q u e e s te g r a n d e h o m e m re p re s e n ta v a ,
p e r a n te a j u s t i ç a d o s s e u s p e n s a m e n to s , quando
s o u b e a n te c i p a r a s s im o j u l g a m e n t o d a m esm a
p o s te rid a d e » (1).

5.° — 0 paralelo

Q u a n d o se c o m p a r a m e n t r e s i d o is a ssu n to s
(c a ra c te re s o u r e t r a t o s , e tc .) o t r e c h o c h a m a -se :
P a rarlelo .
E u m g ê n e r o f á c il, d e s e g u r o e fe ito .
C o n h e c e m o s o e x c e le n te p a r a le lo d e C o n d é e
d e T u r e n n e , p o r B o s s u e t (2); o d e C o rn e ille e
R a c in e p o r L a - B r u y è r e (3); o d e R o m a e d e C ar-
ta g o p o r M o n te s q u ie u (4) ; o r e t r a t o d o ric o e do

C1) M a u r y , E n s a i o s o b r e a E l o q ü ê n c i a , p . 148.
(2) O r a ç ã o F ú n e b r e d o p r í n c i p e d e C o n d é , c . a p a rte .
(3) O b r a s d e E s p í r i t o , c . 1.
(4) G r a n d e z a e D e c a d ê n c i a d o s R o m a n o s , c. ív.
A FORM AÇÃO DO H JS T IIA ) 255

pobre p o r L a - B r u y è r e ; D e m ó ste n e s e C ícero p o r


F ón elon (J); C a tã o e C é s a r p o r S a lú s tio ; P e d ro o
G rande e C a rlo s X I I p o r V o lta ir e ; os de P . R a -
pin (* 2), os d e F o n te n e lle , e tc .
Os P a ra le lo s d e P l u t a r c o tiv e r a m g r a n d e r e p u ­
tação c lá ssic a .
P lu ta r c o c o m p a r o u v in te - e - q u a tr o h o m e n s ilu s ­
tre s d a G-récia c o m i g u a l n ú m e r o d e R o m a n o s
célebres, d e sd e T e s e u e R ó m u lo a té D e m é trio e
M arco A n tô n io .
S en d o a c o m p a ra ç ã o e m s i p r ó p r ia u m a fo n te
de o p in iõ es, o p a r a le lo ó, p e la s u a n a tu r e z a , o
triu n fo d a a n títe s e .
A d if e re n ç a d o s a s s u n to s fa z b r o t a r n a t u r a l ­
m e n te os c o n tr a s te s .
L e d e e s ta s lin h a s s o b re S ó c ra te s e C a tã o . V ê -se
aq u i a a n títe s e n o s e u e s ta d o n a t u r a l :
A v i r t u d e d e S ó c r a te s é a d o m a is p r u d e n t e d o s h o m e n s ;
m as e n t r e C é s a r e P o m p e u , C a tã o p a r e c e u m d e u s e n t r e o s
m o rta is .
U m i n s t r u i a l g u n s in d iv íd u o s , c o m b a te os s o fis ta s e
m o rre p e la v e r d a d e ; o o u tr o d e fe n d e o E s ta d o , a lib e r d a d e ,
as le is, c o n t r a o s c o n q u is ta d o r e s d o m u n d o , e d e ix a fin a l­
m e n te a t e r r a , q u a n d o já n ã o t i n h a p á t r i a p a r a s e r v ir .
U m d ig n o d is c íp u lo d e S ó c r a te s s e r ia o m a is v ir tu o s o
dos s e u s c o n t e m p o r â n e o s ; u m d ig n o é m u lo d e C a tã o s e r ia
o m a io r.

(*) C a r t a à A c a d e m ia , c. v i.
(2) C o m p a r a ç ã o d o s h o m e n s i l u s t r e s d a a n t i g u i d a d e .
2 .0 v o lu m e .
•256 A FOK M A ÇA O DO B JS T IL .O

A v i r t u d e d o p r im e ir o t o r n á - lo - ia f e li z ; o s e g u n d o pro­
c u r a r i a a s u a fe lic id a d e n a d e to d o s .
S e r ia m o s i n s t r u í d o s p o r u m e c o n d u z id o s p elo o u tro ,
e só isso d e c id i r i a a p r e f e r ê n c ia : p o is n u n c a se fèz u m povo
d e s á b io s , m a s n ã o é im p o s s ív e l t o r n a r d ito s o u m povo.
( J . J . R o u s s e a u , D is c u r s o s sobre
E c o n o m ia P o lític a ) .

A p r ó p r ia f a c ilid a d e d o p a r a le lo p re ju d ic a des-
g r a ç a d a m e n t e a s u a b o a q u a lid a d e .
E s p é c ie d e à p r io r i l i t e r á r i o , te n d e a s u p rim ir
a s s e m e lh a n ç a s , a e x a g e r a r a s o p o siçõ es, a s u b s ti­
t u i r , p e la p re o c u p a ç ã o d o s c o n tr a s te s , b n a tu r a l e
o s c a m b ia n te s .
É p re c is o s a b e r c o m b a te r e s s a te n ta ç ã o e não
a v e n t u r a r p a r a le lo s a p r o p ó s ito d e tu d o .
D e s c o n fie m o s p r i n c ip a lm e n te d o p a ra le lo res­
t r i t i v o , m u i to lim ita d o , m u i t o f r is a n te .
J á se fe z o u t r o r a p a r a le lo a to d o o tra n s e .
É c ô m o d o , p r e c is a m e n te p o r q u e a a n títe s e é f á c il.
P a r a m u i t a g e n te , é u m o fíc io , u m sim ples
t r u q u e . E is a q u i o e s c o lh o ; e n tã o a a n títe s e tor-
n a -s e d e te s tá v e l.
M u ito s e s c r ito r e s se s e r v i r a m d e la , ta is co m o :
S é n e c a , P l í n i o o M o ço , S a lv ia n o , L u c a n o , S anto
A g o s ti n h o , e n t r e o s A n t i g o s .
E Gí-uós d e B a lz a c , V o i t u r e , S a in t-E v re m o n d ,
F ló c h ie r , D u e lo s , V í t o r H u g o e V a c q u e rie , en tre
o s M o d e rn o s .
F o rç a n d o -s e a a n t í t e s e , c a i-s e n o e s tilo precioso,
n o g o n g o ris m o , n a a fe c ta ç ã o , n o jo g o d e palav ras.
A FORM A ÇÃ O D O B S T ID O 257

A lte ra m -s e v e rd a d e ir o s p e n sa m e n to s, fazem -se


p assar p e n s a m e n to s falsos.
T u d o o q u e se e sc re v e é a rtific ia l o u p u e ril.
E is a q u i a lg u m a s a n títe s e s , q u e n ão são acei­
tá v e is, se n ã o q u a n d o se n ão a b u sa delas.

A b o rre c e m o -n o s q u á s i s e m p re com a q u e le s q u e en fa­


d am o s.
G o s ta m o s m a is d e v e r a q u e le s a q u e m fa zem o s b em , d o
q u e a q u e le s q u e n o -lo fazem (*).

D iz u m p e n s a d o r, q u e fez so b re o e stilo u m a
o b ra de c o n sid e ra ç õ e s g e r a i s :
— «N ão é p re c iso fa z e r c o n tr a s ta r as p a la v ra s
e n tre si, n e m as p a la v ra s com as co isas; ó neces­
sá rio q u e os c o n tra s te s e s te ja m e n tr e as id éias* (2).

(!) E s te a x io m a é o p r ó p r io a s s u n to d e u m a p eça de
L a b ic b e ; A V i a g e m de M r . P e r r ic h o n .
U m h o m e m , a q u e m n in g u é m a g r a d a , é m u ito m a is
d e s g ç a ç a d o q u e a q u ê le q u e n ã o a g r a d a a n in g u é m . ( S a in t-
-R e a l).
N o p o d e r d e A u g u s to , a lib e r d a d e só p e rd e u os m ales
q u e e la p o d e c a u s a r , e n a d a d a fe lic id a d e q u e e la p o d e p ro ­
d u z ir . ( S a i n t - E v r e m o n d , O s R o m a n o s ).
D iz ia e u à s e n h o r a C h â t e l e t : D e ix a is d e d o r m ir p a r a
a p r e n d e r filo s o fia ; c o n v ir ia , p e lo c o n tr á r io , e s t u d a r filoso­
fia p a r a a p r e n d e r a d o r m ir . (M o n te s q u ie u , P e n s a m e n to s
D iv e r s o s ) .
E p r e c is o r i r m o - n o s , a n te s d e s e rm o s felizes, com receio
d e m o r r e r m o s , s e m n u n c a tê r m o s r id o . ( L a - B r u y è r e ) .
(2) B e c c a r ia , R e c h e r c h e s , c . iv.
17
258 A FORM A ÇÃ O DO E J S T IL .O

É p o r se te r e m e s q u e c id o d e s t e p r e c e ito , quo
ta n to s a u to r e s sã o i n s u p o r t á v e i s .
N o s é c u lo x v n , q u á s i to d a a l i t e r a t u r a h a v ia
a d o p ta d o esse m a u g o s to .
P o r is s o o p ú b lic o te v e d if ic u l d a d e e m a c h a r
d e te s tá v e l o s o n e to d e O r o n te , n o M is a n tr o p o :

B ela F ílis, a g e n te d e se sp e ra
sem pre q u e esp era. . .

E s c r ito r e s , c o m o F l é c h i e r , o u s a v a m e s c r e v e r a
s é rio :

E s t e s s u s p i r o s c o n t a g i o s o s q u e s a e m d o s e i o d e ura
m o rib u n d o p a r a fazer m o rre r a q u ê le s q u e v i v e m . . .

E s ta m a n ia é a in d a m a is r i d í c u l a e m v e rs o :

E m p r o c u r a r - m e levei l a r g o s d i a s ;
e, a o p e r d e r - m e , a c h e i só a g o n i a s .
(B ertan t).

A a fe c ta ç ã o i n s p i r o u a l g u m a s v e z e s a R a c in e
v e rs o s co m o e s te s , q u e a p r e s e n t a m P i r r o com o
g r a n d e in c e n d i á r io d e n a v io s :

A b r a s a d o d e fogo m a i s i n t e n s o
do q u e o fogo q u e eu p r ó p r io a te e i. . .

É , pouco m a is ou m enos, o que e s c re v ia


L em oyne:

Im paciente, L u í s s a lta d o seu n av io ,


e o coração a rd e n te o leva a d e s p re z a r
os v a g a lh õ e s d o m a r .
A FO RM A ÇÃ O DO E S T IL O 259

M o liè re t i n h a ra z a o e m d i z e r :

S ã o t r o c a d i l h o s v ã o s , a f e c t a ç ã o e n f im ,
e a N a t u r e z a m ã e n u n c a falou assim .

E s ta s e s p é c ie s d e d ito s só são a d m is s ív e is ,
q u a n d o se t i r a d e le s u m e fe ito c ô m ico , co m o
n e s te s v e r s o s :
M o n s ie u r , i c i p r e s e n t,
M ’a d ’u n f o r t g r a n d s o u f f le t f a i t u n p e t i t p r e s e n t .

(R acine, L e s P la id e u r s ).

C h e g a -ae ao jo g o d e p a la v r a s e ao c a le m b u r ,
com o n e s t a f r a s e d e J . J . R o u s s e a u :

O re p a sto seria o r e p o u s o ; o m e u cozinheiro n ão m e


se rv iria v e n e n o p o r peixe (p o is o n p o u r d u p o is s o n ).

E is a q u i a o b r a - p r im a d o g ó n e ro :

F a ta lis ta n a s u a H is tó ria , f a t a l n o s se u s conselhos, f á iu o


n a s s u a s r e s i s t ê n c i a s , r e t i n i n d o e m si t u d o o q u e i n s p i r a ,
c o n tr a a P r o v id ê n c ia o c u lto d o acaso, c o n tr a o p o d er do
g ê n i o d o a n i q u i l a m e n t o e c o n t r a si p r ó p r i o o e x c e s s o d a
v a i d a d e ; re c re a n d o -s e (s 'a m u s a n t), com o seu e sp írito , i l u ­
d i n d o - s e ( s ’a b u s a n t ) , c o m a s u a a m b i ç ã o , g o z a n d o ( s ’u s a n t ) ,
com a s u a v o lu b ilid a d e .

(M o c q u a rt, R e tra to de T h i e r s ; citado por


G ra n ie r de C assagnac, nas suas R ecor­
d a ç õ e s d o S e g u n d o I m p é r i o , p . 139).

E o i êst© a b u s o q u e d e s a c r e d ito u a a n títe s e .


260 A FORM AÇÃO DO E JS T IL .O

C o n fu n d ira m no co m a fa ls a a g u d e z a e ó p o r
isso q u e ta n to s e s c rito r e s a n ã o a c o n se lh a m , em
v ez d e re c o n h e c e re m q u e e la ó, a p e s a r d o s seus
a b u so s, u m p ro cesso f u n d a m e n ta l d e e stilo , a p ró ­
p r ia a r te d e f e c u n d a r o p e n s a m e n to .
B ossuet d is s e :
— « L a m e n to co n v o sco os p r è g a d o r e s q u e esp a­
lh a m a n títe s e s ; n ão ó p o r a í q u e e n t r a o e sp írito
d e D eu s.»
— «A g e n te m oça d e ix a -s e d e s lu m b r a r pelo
b r ilh o d a a n títe s e e s e rv e -s e d e la » , — d isse La-
-B ru y è re , q u e se s e r v iu d e a n títe s e s m a is que
n in g u é m . •
R o llin d i s s e :
— «C om o elas só c o n s is te m n u n s c e rto s rodeios
e n u m a c e r ta d isp o siç ã o de p a la v r a s , e com o as
p a la v ra s n ã o d e v e m s e r v i r sen ão p a r a e x p r im ir os
p e n s a m e n to s , se n te -se b e m q u e s e r ia a b s u rd o p ren -
d e rm o -n o s co m esses ro d e io s e essa d isp o siç ã o , des­
p re z a n d o a p r ó p r ia e s s ê n c ia d o s p e n s a m e n to s e das
coisas. M as, p o r m a is s ó lid a s q u e se su p o n h a m ,
essas f ig u r a s d e v e m s e r e m p r e g a d a s ra ra m e n te ,
p o rq u e , q u a n to m a is a r t e e e s tu d o se a p re se n te m
n e las, m a is a a fe c ta ç ã o se fa z s e n t i r e se to rn a
v ic io s a .»
P a s c a l a c re s c e n ta , c o m r a z ã o :
— « A q u e le s q u e fa z e m a n títe s e s , fo rç a n d o as
p a la v ra s , são co m o a q u e le s q u e fa z e m ja n e la s fal­
sas, só p a r a s im e tr ia . A s u a r e g r a n ã o e s tá em fa la r
com ju s te z a , m a s e m f a z e r f ig u r a s ju s ta s .»
A FO RM A ÇÃ O D O B H T IL .O 261

B la ir é d a m e sm a o p in iã o :
— « A s a n títe s e s fre q ü e n te s , p a rtic n la rm e n te ,
q u a n d o a o p o sição d a s p a la v ra s ó fixa e re b u sc a d a ,
to r n a m o e s tilo d e sa g ra d á v e l.»
C a rlo s N o d ie r ó m ais se v e ro a in d a, a ta l re s­
p e ito í1).
A r n a u ld a c u sa a a n títe s e de fa lse a r a v e r ­
d a d e (12).
A s b o a s a n títe s e s não d e ix a m d e s e r o c u n h o
dos g r a n d e s e s c rito re s .
M a rm o n te l d is s e :
— «Os g r a n d e s p e n s a m e n to s to m a m h a b itu a l­
m e n te a fo rm a d e a n títe se .»
E B r u n e tiè r e a c r e s c e n ta :
— «Os m o ra lis ta s n ão p o d e ria m p a s s a r sem a
a n títe s e , a ssim com o os g e ó m e tra s sem o silo g ism o
e os p o e ta s sem a m e tá fo ra » (3).

Os defeitos da antítese

A s a n títe s e s são m ás, q u a n d o são re b u s c a d a s e


não n a t u r a i s ; q u a n d o n ã o fa z e m corpo com a id é ia ,
e q u a n d o , em v e z d e la s, se p o d e m e n c o n tr a r ta m ­
b ém , a n títe s e s v e r o s ím e is ; q u a n d o o s e u d e se n v o l-

( 1) C a r l o s N o d i e r , Q u e s tõ e s de L i te r a tu r a L e g a l , p. 66.
(2) A r n a u l d , L ó g i c a , m .
(3 ) G r a n d e E n c ic lo p é d ia , a r t . A n títe s e . E s t e a r t i g o é
c u rto ; m a s B r u n e tiè r e sen tiu bem a im p o rtâ n c ia dêsse p ro ­
ce s so d e e s c r e v e r .
262 A FO RM A ÇA O DO H S T IL O

v im e n to é p r e v is to e f á c il; q u a n d o se b a s e ia m em
a rtifíc io s d e r e t ó r i c a ; q u a n d o c o r r e s p o n d e m a s im e ­
tr ia s in s ig n if ic a n te s ; q u a n d o fic a m v a g a s , d u v id o ­
sas, s e m c o n s is tê n c ia .

O N a p o lita n o tem lib e rd a d e m a te r ia l. O A lem ão a


lib erd ad e m oral. A lib e rd a d e do la z a r o n i p ro d u z iu R ossini;
a lib e rd a d e d o a le m ã o p ro d u z iu H o ffm a m . O s A lem ães
t ê m a l i b e r d a d e d o d e v a n e i o ; n ó s t e m o s a l i b e r d a d e do
pensam ento.
( V . H u g o , O R h e tio . C o n c l u s ã o ) .

E is a q u i a n tí te s e s s u s p e ita s , p o r q u e sâo falsas


d a e ssê n c ia .
N a v e r d a d e , os a le m ã e s tê m t i d o a lib e rd a d e
d e p e n s a r , co m o n ó s.
K a n t , F i c h t , H e g e l e S t r a u s s n ã o se c o n te n ta ­
v a m a p e n a s c o m a lib e r d a d e d e d e v a n e a r .
Q u a n to a H o s s in i, n ã o e r a d e N á p o le s , te r r a
d o s la z a r o n i; n a s c e u e m P ó s a r o (M a rc a s).
A b ra m o s d e nov o V íto r H u g o :

M i r a b e a u e r a p a p a , n o s e n t i d o d e q u e g o v e r n a v a os
espíritos, e e ra D e u s no s e n tid o d e q u e g o v e r n a v a os acon­
tecim entos.
( V . H u g o , F i l o s o fi a ) .

E ta lv e z v e r d a d e ; m a s o p e n s a m e n to p o d e ria
a p lic a r - s e a m u i to s o u t r o s t r i b u n o s :

G ra c o r e ü n i a ao a m o r d o b e m u m ó d io do m a l. ainda
m a is fo rte . T i n h a c o m p a i x ã o p e lo s o p r i m i d o s e m u i t a ani-
A F O R M A Ç Ã O D O B JS T IL O 26S

m o s i d a d e c o n t r a os o p resso res. D e fo rm a q u e , p re v alecen d o


a p a i x ã o s ô b r e a v i r t u d e , o d ia v a in s e n s iv e lm e n te m a i s as
p e s s o a s q u e os c r i m e s . P r o s s e g u i a , p o r esp írito d e facção,
o q u e t in h a com eçado por u m sentim ento de virtude.
( S a i n t - E v r e m o n d , O s R o m a n o s).

S ã o a n títe s e s d u v id o s a s.
O a u to r a lo n g o u o tra ç o , ta lv e z em d e trim e n to
d a v e rd a d e .
N a d a se v ê de ir r e f u tá v e l n a q u e la conclusão do
c a rá c te r d e G-raco.
S e ria ele a s s im ? e sê -lo -ia p e la s razõ es q u e nos
a p re s e n ta m ?
H á a n títe s e s e n u m e r a tiv a s tã o v a g a s , tã o in c o n ­
s is te n te s , q u e se p o d e m m u ltip lic a r in d e fin id a ­
m e n te :
O C a t o l i c i s m o e s t a v a e s t a b e l e c i d o . . . u m só p e n s a ­
m e n t o , s o b u m a só a u t o r i d a d e , a s u b m i s s ã o d o e s p í r i t o à
lei, d o p o d e r p o l í t i c o ao p o d e r r e lig io s o , p a r a r e p e lir ta n ta s
in v a s õ e s , tr a n s f o r m a r ta n to s p o vo s, d o m a r ta n ta g r o s s a r ia ,
d o m in a r ta n ta s p a ix õ e s , v e n c e r t a n ta s d e s o r d e n s ...

( M i g n e t , L u te r o ) .

N ã o h á ra z ã o p a r a se n ã o c o n tin u a r e m ta is e n u ­
m e ra ç õ e s e d i z e r : resolver ta n to s perigos, c o n cilia r
ta n to s in t e r êsses, a fr o n ta r ta n ta s revoltas, e tc .

T h ie r s n ã o é o m ais elo q ü e n te dos nossos o r a d o r e s :


não tem a a m p litu d e d e G u iz o t; não tem o esp len d o r de
L a m a r t i n e ; n ão tem a d ialéctica ap aixonada de B e r r y e r ;
não tem a g ra ç a pérfida e cáu stica de M o n ta le m b e rt; não
tem o a r d o r g r a n d io s o d e L e d r u - R o l l i n ; m as tem a nitidez,
264 A FO RM A ÇÃ O DO E J 8 T IL .O

a l i m p i d e z , o m é t o d o , a ló g ic a , o i m p r e v i s t o , a a u d á c i a , o
v i g o r , t u d o q u e c a t i v a , t u d o q u e s e d u z , t u d o q u e fascina.
( L a G u é r o n n i è r e , R e t r a t o s P o litic o s ) .

I s to ta m b é m ó d e fe itu o s o .
S e q u is é sse m o s e n u m e r a r tu d o q u e fa lta na
e lo q ü ê n c ia d e T h ie r s , e n c h e ría m o s p á g in a s de a n tí­
te se s ; e, p o r o p o sição , d e v e r ía m o s c ita r ta m b é m as
q u a lid a d e s q u e e le p o s s u ía , e m p r e g a n d o expressões
v u lg a r e s : a u d á c ia , vigor, a q u ilo q u e ca tiva , seduz,
f a s c i n a . . . ( p a la v r a s s in ô n im a s ).
M e d ío c re d is c íp u lo d o L a m a r t i n e d o s G irondi-
nos, L a - G u é r o n n iè r e d e m a s io u -s e n a a n títe s e fácil,
d e fe ito e m q u e M ig n e t c a iu ta m b é m ta n t a s vezes.
O a b u s o é e s c o rre g a d io .
A c u m u la m - s e os c o n tr a s te s d a m e s m a n a tu ­
r e z a ; n ã o se lh e s v ê a v u lg a r id a d e , e disco rre-se
ao acaso .
A l t i v o , s e m o r g u l h o ; c o n f i a d o , s e m p r e s u n ç ã o ; a m b i­
cioso, s e m e g o í s m o ; fino, s e m m a l í c i a ; a m á v e l , sem volu­
b i l i d a d e ; i n s t r u í d o , s e m p r e t e n s ã o ; f i r m e , s e m r u d e z a , etc.

( L a G u é r o n n iè r e , R e tr a to s P o lític o s ).

P o r q u e p a r a r ? P o d e r - s e - ia c o n t i n u a r : espiri­
tuoso, sem in s o lê n c ia ; ir ô n ic o , sem m a ld a d e ; cépticoj
sem zo m b a ria ; c a lc u la d o r, se m a v a r e z a ; delicado,
sem in s ip id e z ; im p e r tin e n te , se m g ro ssa ria , etc.
T a is sã o os v íc io s , o s a b u s o s , o s in c o n v e n ie n ­
te s , os m ú l ti p lo s e s c o lh o s , q u e se d e v e m e v ita r a
to d o o c u s to n o e m p r ê g o d a a n títe s e .
A F O R M A Ç Ã O D O H B T IL O 265

L iv r a n d o -n o s d e le s, v e r -se -á q u e a a n títe s e ó
um d os m e io s m a is p o d ero so s d e ren o v a r o e s tilo ,
de fe c u n d a r a in sp ir a ç ã o .
C om o c o lo rid o e a im a g e m , c o m p reen d e p o u co
m ais o u m en o s to d a a a r te de escrev er.
P o r m eio d ele p o d e tra ta r-s e de tu d o .
P o d e re m o s e x p lo rá -la , m a s a te n u a n d o -a , e v i­
ta n d o a s oposições a rtific ia is , dosan d o os em b ates,
v arian d o -o s, d e sfig u ra n d o -s e a té c e rto p o n to .
O c a m p o d a a n títe s e ó v a s to com o o p ró p rio
estilo .
C o m p re e n d e a a rg ú c ia , a a lia n ç a de p a la v ra s,
a a lite ra ç ã o , o p a ra lelism o , a se q ü ê n c ia de p e n sa ­
m e n to s, a s im e tr ia de frases, o p e río d o , o n ú m e ro ,
a a n tin o m ia dos factos.
P o d e b r i lh a r n u m a lin h a , r e s u m ir u m p a rá ­
g rafo, fa z e r-se e s p e ra r o u d e ix a r-s e a d iv in h a r,
s u s p e n d e r os se u s g o lp e s , p a ra f e r ir com m ais
certeza.
M as, re p e tim o -lo , e se ja is to u m p rin c íp io q u e
todos o u ç a m : u m e s tilo , c o m p o sto u n ic a m e n te d e
a n títe s e s , s e ria u m e s tilo a b s u rd o .
r
E n e c e s s á rio q u e e la s se in te rro m p a m , q u e se
re to m e a s im p lic id a d e , q u e se d e ix e d e sc a n sa r o
le ito r, d is te n d e r os s e u s m ú s c u lo s , a b a n d o n a r o
esforço.
E u m a n ecessid a d e a b so lu ta .
A c o n tin u id a d e d e u m p ro c e sso , se ja ele q u a l
fôr, in d is p õ e .
U m p r o s a d o r a b s tr a c to n ã o é, em to d o caso,
266 A FO RM AÇÃO DO E J8 T IL O

n e c e s s à r ia m e n te i n i m i g o d a d e s c r i ç ã o o n d a im a-
gem .
D e v e r á d e s c a n s a r , r e t o m a r f ô le g o e m e s c la r os
to n s .
A a c u m u la ç ã o o b s t i n a d a d a a n t í t e s e é o p io r
d o s d e f e ito s .
C o n h e c i e s c r i t o r e s n o v o s , c u j o e s t i l o n ã o p a s­
s a v a d e u m o rg a n is m o m o rto , d e u m a e s tru tu ra
c o m p lic a d a e i n e r t e . S u p u n h a m d i z e r q u a lq u e r
c o is a e só e x p r i m i a m f ó r m u l a s .
D e v e c u l t i v a r - s e a a n t í t e s e , e s q u e c e n d o - n o s de
to d a a p r e o c u p a ç ã o .
P a r a isso , é p r e c is o a s s im ilá - la c o m o m a lea b ili­
d a d e d e e s p ír ito .
Q u a n d o e la fiz e r p a r t e i n t e g r a n t e do vosso p e n ­
s a m e n to , d o s á - la - e is , m e s m o c o n t r a a v o s s a v o n ­
t a d e ; a p r e s e n tá - la - e is c o m t a t o ; e v itá - la - e is , se
e la f a t i g a r ; e x p lo r á - la - e is , se e la im p r e s s io n a .
E l a d e v e m o ld a r o vo sso m o d o d e p e n s a r , p o rq u e
o s e u u s o e m l i t e r a t u r a n ã o ê a c i d e n t a l , m a s g e ra l,
c o m o v a i p r o v á - lo o e x e m p l o d e to d o s o s nossos
g ra n d e s p ro sad o re s.
O p r i n c íp i o q u e s e d e v e f i x a r p a r a a t i n g i r tal
e d u c a ç ã o é e s t e : c u r t a o u l o n g a , c o n d e n s a d a ou
a m p lif ic a d a , f r a s e s o u p a l a v r a s , a a n t í t e s e , p a r a ser
b o a , d e v e s a i r d o a s s u n t o lo g ic a m e n te , n a tu r a lm e n te ,
im p er rio sa m e n te.
E n e c e s s á r io q u e e la p a r e ç a n ã o t e r s id o n em
reb u sca d a , n e m a r q u ite c ta d a , n e m c o m b in a d a , m as
i n v o l u n t a r i a m e n t e d e m o n s tr a d a .
A FORM Aç A o D O H B T IE íO 267

S ò m e n te os fa c to s a d e v e m fa zer b r ilh a r , c o m o
a s e iv a fa z a b rir o g o m o .
D iz C o n d illa c q u e e sta s espécies de a n títe s e s
são s e m p re b o as.
N a s u a d efesa d e M ilão, C ícero p ro v a , com
facto s, q u e é in v e ro s ím il q u e o se u clien te, te n d o
p o d id o d e se m b a ra ç a r-se de C lódio, fá c il m e n te e
co m s e g u ra n ç a , p ro c u ra sse m a tá -lo n a s c ir c u n s ta n ­
cias m a is d e s fa v o rá v e is e c o rre n d o o risc o d e se r
c a stig a d o .
E n u n c ia r e ste s fa c to s ó f o r m u la r a n títe s e s .
C ícero n ão e ra m e s tre q u e as n ão ap re se n ta sse .
D iz e l e :

i E r a l á p o s s ív e l q u e , d e p o is d e t e r d e s p r e z a d o o c a ­
siões, p a r a t i r a r a v i d a a C ló d io , c o m a a p r o v a ç ã o g e r a l ,
tiv e s s e t o m a d o e s s a r e s o l u ç ã o n u m a c i r c u n s t â n c i a , e m q u e
t a l ac ção l h e d e v i a c r i a r t a n t o s i n i m i g o s ?
£ P o d e i s s u p o r q u e , d e p o i s d e t e r r e s p e i t a d o a s u a v id a ,
q u a n d o lh a p o d eria a r r a n c a r com justiça, n u m lu g a r , n u m
m o m en to favorável, com a certeza d a im p u n id a d e , pudesse
ten tá-lo , c o n t r a tô d a a ju stiç a, n u m l u g a r suspeito, n u m a
c i r c u n s t â n c i a d e s f a v o r á v e l , c o m o ris c o d e s e r p u n i d o sev e­
ram ente ?

C íc e ro n ã o c r io u e s ta s a n títe s e s .
S ão os fa c to s q u e fa la m .
P lu ta rc o d i z :

T e m i s t o c l e s foi b a n i d o , d e p o i s d e t e r s a l v a d o a s u a
p á t r i a ; C a m i l o s a l v o u a s u a p á t r i a , d e p o i s d e t e r s id o
banido. C a m ilo é o m a io r dos R o m a n o s a n te s de seu exílio;
d e p o is d e s e u e x í l i o , é s u p e r i o r a si p r ó p r i o .
268 A FO R M A Ç A O DO H S T IL .O

Q ue h a v e rá m en o s re b u sc a d o e m ais n a tu ra l
q u e e sta o p o siç ã o ?
C ita m o s j á d e fe itu o s a s a n títe s e s de M ignet.
E is a q u i u m a , e x c e le n te , e x tr a íd a do assunto,
sem a r tif íc io n e m e s fo r ç o :

S é y i é s fui o a m i g o o u o m e s t r e d o s h o m e n s m a is notá­
veis d o n o s s o t e m p o .
A l g u m a s i d é i a s s u a s c o n v e r t e r a m - s e em instituições.
V i u , c o m u m f i r m e l a n c e d e o l h o s , a p r o x i m a r - s e u m a revo­
l u ç ã o , q u e se d e v e r i a f a z e r p ela p a l a v r a e t e r m i n a r i a pela
espada.
E e m 1789 d e u a m ã o a M i r a b e a u p a r a a c o m e ç a r ; no
18 B r u m á r i o d e u a m ã o a N a p o l e ã o p a r a a c a b a r com ela,
a s s o c i a n d o a s s i m o m a i o r p e n s a d o r d a q u e l a re v o lu ç ã o ao seu
m a i s b r i l h a n t e o r a d o r e ao s e u m a i s p o d e r o s o c a p itã o .
( M i g n e t , P á g i n a s E s c o lh id a s , p. 261).

C a d a a n títe s e c o rre s p o n d e a q u i a u m facto h is­


tó ric o .
O a u t o r d e sa p a re c e e d iría m o s q u e não teve
n e c e s s id a d e d e a r tif íc io s p a r a r e i in i r id é ia s opostas.
G u é s d e B a lz a c , g r a n d e a m a d o r d e an títeses
a fe c ta d a s , te v e a lg u m a s e s p o n tâ n e a s , com o estas
lin h a s à c ê rc a d e M o n t a i g n e :

M o n t a i g n e s a b e b e m o q u e d i z , m a s n e m s e m p r e sabe
o q u e vai dizer.
S e p e n s a e m i r a u m l u g a r q u a l q u e r , o m e n o r objecto
q u e l h e p a s s a d i a n t e d o s o l h o s f á - l o s a i r d o s e u c a m in h o ,
p a r a c o r r e r a t r á s dêsse s e g u n d o objecto.
M a s o i m p o r t a n t e é q u e ê le se d i s t r a i c o m melhor
r e s u l t a d o , q u e se fôsse p o r c a m i n h o d i r e i t o .
A FORM AÇÃO D O R S T IL .O 269

A s s u a s d ig r e s s õ e s são m u ito agra d á v eis e instrutivas.


D e o r d in á r io , q u a n d o deixa o b o m . en con tra o m elhor,
e é c e r t o q u e n u n c a m u d a de m a téria , sem q u e o leitor
lucre com essa m u d a n ça . .

I s to é a in d a a n títe s e -tip o , sem p a la v ras do


a u to r .
T u d o é v e rd a d e .
E M o n ta ig n e , o se u processo, a su a m an eira
d e d iz e r.
G-ués d e B a lz a c d esap arece.
O m e sm o G-ués d e B alzac escrev e, falan d o da
E n c a rn a ç ão de C ris to :

S e n o s t r a n s v i a m o s , m e u D e u s , foi p o r vos tèrm o s


seguido
S e n ã o e s c u t a m o s a n o s s a ra z ã o , são c a u s a disso os
vossos m ila g re s .
S e a d o r a m o s u m h o m e m , v ó s c o m b i n a s t e s - v o s com êsse
h o m e m , p a r a n o s fa z e r c r e r q u e êle e r a D e u s .
C e d e s t e s - l h e o vosso p o d e r , p a r a n o s o b r i g a r a pres­
ta r - lh e o nosso culto.
D e v e m o s s e r d e s c u l p a d o s , m e u D e u s , p o r t ê r m o s reco­
n h e c i d o a q u e l e , q u e só p o d e r i a s e r vós, se vós p r ó p r i o n ão
n o s v i é s s e i s d e c l a r a r q u e êle e r a o u t r o e n ã o vós.

E s ta s a d m ir á v e is a n títe s e s são d ig n a s d e P ascal.


F ix e m o s e s ta v e r d a d e f u n d a m e n t a l :
U m a a n títe s e só é boa pela verd a d e absoluta das
co isa s q u e e x p r im e .
E i s a q u i u m ú l t i m o e x e m p lo d e s te g ê n e ro s u p e ­
r i o r d e a n t í t e s e , a p lic a d o a u m a a b s tra c ç ã o .
270 A FORMAÇÃO DO B18TIDO

T r a ta - s e d e d e f in ir o q u e d e v e s e r a v e rd a d e ira
c o n v e rsa ç ã o .

O t o m d a b o a c o n v e r s a ç ã o é c o r r e n t i o e n a t u r a l ; nào
é p e s a d o n e m f r í v o l o ; é d i s c r e t o s e m p e d a n t i s m o , alegre
s e m r u í d o , c o r t ê s s e m a f e c t a ç ã o , g a l a n t e s e m i n s i p i d e z , fol­
gazão sem equívocos. N ã o são d is s e rta ç õ e s n e m ep ig ra m a s;
r a c i o c i n a - s e s e m a r g u m e n t a r , g r a c e j a - s e s e m t r o c a d il h o s ,
a s s o c ia -s e c o m a r t e o e s p í r i t o e a r a z ã o , a s m á x i m a s e os
r e le v o s , o e n g e n h o s o m o t e j o e a m o r a l a u s t e r a .
F a l a - s e d e t u d o , p a r a q u e t o d o s t e n h a m a l g u m a coisa
q u e d i z e r ; n ã o se a p r o f u n d a m o s a s s u n t o s , c o m receio de
e n f a d o ; p r o p õ e m - s e c o m o d e p a s s a g e m , t r a t a m - s e c o m rapi­
d ez, p r e c i s ã o e e l e g â n c i a .
C a d a u m d i z a s u a o p i n i ã o , j u s t i f i c a - a e m p o u c a s pala­
v r a s ; n i n g u é m a ta c a co m a r d o r o c o n c e ito d e o u t r e m ; nin­
guém defende teim o sam en te o seu.
D iscu te-se p a r a e s c la re c im e n to , p á ra -s e n a disputa,
d iv ertem -se todos e to d o s v ão satisfeitos.
E o p r ó p r io sá b io p o d e r á t r a z e r d e s s a s in s tru ç õ e s assun­
tos d ig n o s d e s e re m m e d ita d o s e m silêncio.

(R o u s s e a u , N o v a H e lo ís a , n p a r te , c a r ta x ii).

E s ta s o p in iõ e s sã o e x c e le n te s , p o r q u e re p re s e n ­
ta m e x a c ta m e n te a s id é ia s , a s p o s s ib ilid a d e s , o
id e a l q u e c a d a u m f o r m a d e u m a b o a conversação*
Y ê-se q u e e la d e v e s e r a s s im .
O s p o n to s d e v i s t a s u r g e m d e u m a s s u n to , q u e
to d a a g e n te c o m p r e e n d e d e i g u a l f o r m a .
S ão fa c to s, v e r d a d e s r e c o n h e c id a s .
N ã o se p e n s a e m R o u s s e a u , m a s n a s c o n fo rm !-
d a d e s d o q u e e le d iz c o m o q u e n ó s s e n tim o s .
A FO RM AÇÃO DO E 3 8 T IL O 271

H a b itu e m o -n o s , p o rta n to , a d esco b rir a a n t í t e s e


v e r d a d e i r a q u e s e p od e e x tr a ir d e u m p en sa ­
m en to .
É essa m a le a b ilid a d e de e sp ír ito q u e ó p reciso
a d q u ir ir c o m o h á b ito .
A s s im , a c o s tu m a r -v o s -e is a encarar as coisas
sob o s e u la d o m a is fé r til, se n d o o s c o n tr a ste s
recu rso m a is fe c u n d o q u e as a n a lo g ia s e as a p ro ­
x im a ç õ e s.
H á -d e h a v e r h e sita ç ã o em se fa z e re m m ás a n tí­
teses, n o d ia e m q u e se s o u b e r com o se fazem as
boas.
E is a q u i com o T a in e , q u e te m b elo s ex em p lo s
do e s tilo e m a n títe s e s , lo u v a o e stilo a n titó tic a
de G o rn e lis d e W i t t , a u to r de u m a o b ra so b re
W a s h in g to n :
— « A s s im e tr ia s do p e n s a m e n to são o p o stas,
m e m b ro a m e m b ro , p a r a q u e a s im e tr ia dos
ro d eio s to r n e e v id e n te a s im e tr ia d e id éias. E a
frase, c o n s tr u íd a com a fo rç a d e u m sistem a,
d e se n ro la -se c o m a n o b re z a d e u m p e río d o . E is
a q u i u m e x e m p lo :
«D e to d a s as fu n ç õ e s d o p o d e r, a q u e la p a r a q u e
«os p a r tid o s r e v o lu c io n á r io s te m m e n o s in te lig ê n -
«cia é a d o s n e g ó c io s e s tr a n g e ir o s .
« H a b itu a d o s a só to m a r e m s e n tid o n a s f a n ta -
«sias q u im ó r ic a s d o s e u e s p ír ito o u n o s im p u ls o s
« d e s re g ra d o s d o s s e u s d e se jo s, d e s c o n h e c e m o
« D ire ito d a s G e n t e s , o s fa c to s g e o g rá fic o s , a &
« o b rig a ç õ e s m o r a is e o s o b s tá c u lo s m a te r ia is .
272 A FORM AÇÃO DO H S T IL .O

« Ê le s m e s m o s , s e m m e d id a n o s s e u s s e n tim e n ­
t o s , s e m e s c r ú p u lo s n o s s e u s a c to s , n ão podem
« c o m p r e e n d e r a s s im p a tia s n a c io n a is , q u an d o
« n ão v ã o a té ao e s q u e c im e n to d o s interesses
« n a c io n a is, n e m a h a b il id a d e d ip lo m á tic a , qu an d o
«ela n ã o to m a o a s p e c to d a p e r f íd ia , n e m a d ig n i-
« d ad e, q u a n d o n ã o r e v e s te as a p a r ê n c ia s d a vio-
« lên cia.»
E T a in e c o n c l u i :
— «N ão se t r a t a d o e s tilo fa c e ta d o . T o d o s estes
m a tiz e s e a n títe s e s d e p a la v r a s são a n títe s e s de
p e n s a m e n to » (1).
N a a n títe s e se e n c a r n o u a g r a n d e a r t e de escre­
v e r , n ã o só e n t r e n ó s, m a s e n t r e os Grregos.
N u m a p á g in a , q u e ó v e r d a d e ir a liç ã o de estilo
p r á tic o , M r. C r o is e t m o s tr o u - n o s d e q u e modo
a l g u n s e s c r ito r e s g r e g o s e x p lo i’a r a m v o lu n ta ria ­
m e n te a a n títe s e .
D iz e l e :
— «G rórgias tr a n s f o r m o u p r i n c ip a lm e n te a frase;
t o r n o u - a a n t i t ó t i c a e v ib r a n t e .
« A p o ia n d o - s e n a a p tid ã o d o g ó n io g re g o , para
o p o r as id é ia s , d u a s a d u a s , fe z d e s te processo , até
a li i n s t i n t i v o , u m m éto d o : a s id é ia s n ã o m ais se
lh e a p r e s e n t a r a m s e n ã o a o s p a r e s , u m a ilu m in a n d o
a o u t r a p e lo c o n tr a s te . (*)

(*) T a i n e . A r t i g o s ô b r e C o r n e l i s d e W i t t , n a R ev ista
d a I n s tr u ç ã o P ú b lic a , M a i o d e 185$.
A FORMAÇÃO DD EJ8TILO 273

«O s p a r e s , fo rm a d o s assim , q u á s i s e m p re b r e ­
v e s, d e s e m b a ra ç a d o s d e to d o o p a ra s ito , c la ro s e
e m p o lg a n te s , ju n ta r a m - s e u n s aos o u tro s , q u á s i
s e m lig a ç ã o , em fra s e s m u ita s v ezes lo n g a s, d e
fo rm a q u e p ro d u z is s e m so b re o e s p írito , p elo ro d e io
in c e s s a n te d e ss e s e m b a te s re p e tid o s , u m a im p re s ­
são f o r te .
« T u d o e s ta v a , a liá s, c a lc u la d o , p a ra q u e a a n t í ­
te s e so b re s sa ís se .
«N ão só as p a la v ra s , m a s a té os m e m b ro s d as
fra se s, a s s im o p o s to s , tin h a m , ta n t o q u a n to p o ssí­
v e l, o m e sm o n ú m e r o d e s íla b a s e a p re s e n ta v a m
ao o u v id o e sp é c ie s de r im a s o u a s s o n â n c ia s , q u e
to r n a v a m s e n s ív e l a re la ç ã o d a s id é ia s.
« H a v ia c e r ta m e n te n e s ta a r t e g ra ves d efeito s:
p r im e ir o , e r a d e u m a m o n o to n ia f a t ig a n te e, q u a n d o
a m p lia d a , in s u p o r tá v e l; o p e río d o d e Is o c ra te s , se m
f a la r d o d e D e m ó s te n e s , é m u ito m a is v a ria d o n o s
se u s e fe ito s e m u ito m a is r i c o ; é ta m b é m m u ito
m a is p o d e ro s o , m a is c a p a z d e a r r a s ta r . D e m a is , em
to d a e s ta s i m e t r i a d o e s tilo d e G ó rg ia s , o a rtifíc io
é b a s t a n t e v i s í v e l ; v a i s e m p re a té à p u e r ilid a d e ;
as « ja n e la s fa lsa s» a b u n d a m a li.
« E m u i :as v e z e s a a n títe s e o q u e d ir i g e o e s c ri­
to r , c o m o e n t r e n ó s a r i m a é o q u e d ir i g e u m m a u
p o e ta .
a _ m
« E s te s d e f e ito s sã o e v id e n te s .
« A g l ó r ia d e G ó r g ia s fo i ced o c o n te s ta d a , e,
c o n tu d o , e r a l e g í t i m a e m g r a n d e p a r te .
«O q u e e le t i n h a in a u g u r a d o e r a u m jo g o d e
18
274 A FORMAÇÃO DO BSTIL.O

f r a s e , d e u m r i t m o j á o r a t ó r i o e, a lé m d isso , m ara­
v ilh o s a m e n te c o n c e b id o , p a r a e s t i m u l a r a finura
d a in t e li g ê n c ia .
«O m o ld e e r a b o m ; tr a ta v a se so m en te de não
a b u s a r dêle e d e p o is e n c h ê - lo b e m .
«M as, j á e r a m u i t o o h a v e r e n c o n tr a d o esse
m o ld e : q u a n d o a f o r m a é n í t i d a , « in s e n siv e lm e n te
n e la p e n e t r a o e s p ír ito » d is s e L a - B r u y è r e » (*).

(J) A. C roiset, ed. g r e g a d e T u c íd id e s .


O A P Í T U I .O X I I

A a n títe s e , p r o c e sso geral


d o s gra n d es e sc r ito r e s

A antítese em Tácito. —A antítese em Montaigne. —As


antíteses de Pascal. — O estilo de Bossnet. Processos
de Bossnet. —A antítese em Rousseau. —O estilo de
Rotasseau. —A assimilação de Rousseau : Lameunais,
Robespierre. —A antítese em Montesquieu. —Perigos
da antítese : Fléchier. —A antítese : Saint-Évremond e
Balzac.—Os processos de Vítor Hugo. —O estilo de
Luís Blanc. —A antítese em Lamartine. —Taine e a
antítese.

S e r i a e x c e s s iv o a c o n s e lh a r ao c o m u m dos
le ito r e s o e s t u d o d o s a u to r e s g re g o s , p a r a a p r e n d e r
o s p ro c e s s o s d a a n títe s e .
O c u p a r - n o s - e m o s d e e s c r ito r e s fra n c e se s , q u e ,
p e la m a i o r p a r t e , f o r m a r a m o s e u e s tilo s o b re os
m o d e lo s g r e g o s e la t in o s .
R e c o m e n d a r e m o s , s e m r e s e r v a , M o n ta ig n e , P a s ­
c a l, B o s s n e t , M o n te s q u ie u , J . J . R o u s s e a u ; d e p o is,
c o m g r a n d e s r e s e r v a s , Q -ués d e B a lz a c , S a in t - É v r e ­
m o n d , F l é c h i e r , D u e lo s .
D ir e m o s , f i n a lm e n t e , co m o p o d e s e r v a n ta jo s a
276 A FORMAÇÃO I>0 RSTIL.O

a l e i t u r a d e a l g u n s a u t o r e s c o n te m p o r â n e o s , c o m o
V í t o r H u g o , L a m a r t i n e e L u í s B la n c .
P o d e r e i s o b s e r v a r - m e p o r q u e ó q u e v a m o s tã o
lo n g e e n o s n ão c o n te n ta m o s c o m os p ro s a d o re s do
n o sso t e m p o . . .
N in g u é m , c o m o V í t o r H u g o , e m p r e g o u m a is
m a g is tra lm e n te a a n títe s e .
M ig n e t p ra tic o u -a e x c e le n te m e n te .
T a i n e ó e x e m p l a r a e s s e r e s p e ito .
P a r a q u e h a v e m o s d e le r os a u to re s a n tig o s ?
R e s p o n d e re m o s : p o rq u e os e s c rito re s m o d e rn o s
sã o e x e m p lo s e m q u a r t a m ã o , e m q u a n t o a
a n t í t e s e d o s c lá s s ic o s c o n s e r v a o s e u s a b o r l a t i n o ;
p o r q u e o e s tilo d o s c lá s s ic o s e s t á p u r o , e m e s ta d o
d e b a rra n ão a m o e d a d a o u d e m o ed a n ão d e p re ­
c ia d a ; p o r q u e h á a p e n a s u m m e io d e r e n o v a r os
p ro c e s s o s d e e s c r e v e r , é i r b u s c á - lo s à s u a f o n t e ;
p o r q u e o t a l e n t o d o s m o d e r n o s n ã o ó m a is q u e
u m re fle x o d o g ó n io c lá s s ic o e t o d a a a s s im ila ç ã o
d e v e se r d ire c ta p a ra s e r a p ro v e itá v e l.
A m a i o r p a r t e d o s l e i t o r e s , d e p o is d e te r e m
e x p e r i m e n ta d o a s t r a d u ç õ e s , l i m i t a r - s e - á a o s c lá s ­
s ic o s fra n c e s e s . |
Q u a n to a o s q u e s a b e m l a t i m e g r e g o , a n d a r ã o
b e m a v is a d o s e m e s t u d a r o t e x t o d e T á c ito , d e
D e m ó s te n e s , d e C íc e r o e p r i n c i p a l m e n t e d e S é n e c a .
T á c ito ó o e x e m p l o i m o r t a l d a c o n d e n s a ç ã o e
d a a n títe s e , q u e d e r i v a d o s f a c to s .
D iz e le , p r e f a c i o n a n d o a s u a H i s t ó r i a :
A FORMAÇÃO DO HJ8TIL.O 277

E x i s t e m d o i s g r a n d e s d e fe ito s , q u e o fe n d e m a v e r d a d e :
o f u r o r d e lo u v a r os poderosos, p a r a lhes a g r a d a r ; o prazer
secreto d e d iz e r m a l dêles, p o r v in g a n ç a .
N ã o s e d e v e e s p e r a r q u e t a i s h i s t o r i a d o r e s , q u e são
b a ju la d o re s ou in im ig o s declarad o s, a tra ia m m u ito a estim a
da posteridade.
I m p r e s s i o n a - n o s a b a i x a l i s o n j a , p o r q u e t r e s a n d a a s e r­
v ilis m o ; m a s o u v e - s e a te n t a m e n t e a m aledicência, qu e tom a
o aspecto d e lib erd ad e .
A

E s te s c o n tr a s te s d e id é ia s re s u m e m e c a ra c te ­
r iz a m u m a é p o c a .
D iz e le a in d a :
O ú l t im o sé c u lo v iu o q u e h a v ia de e x a g erad o n a liber­
d a d e ; o nosso v iu o q u e h a v ia d e e x a g erad o n a escravidão.
As p esq u isas dos d elato res tira ra m -n o s até a liberdade de
falar e d e o u v ir, e te ría m o s p e rd id o a té a p ró p ria m em ó ria
c o m a v o z , se a o h o m e m fô sse t ã o fá c i l e s q u e c e r - s e co m o
calar-se.
E n t r e t a n t o , c o n s a g ro êste livro à m e m ó ria de A grícola,
m e u s o g r o ; e, c o m ò ê s t e p l a n o , a e s t i m a q u e l h e c o n s a g r o
se rv ir-m e -á d e d e s c u lp a o u d e elogio.

A s p r ó p r i a s d e s c riç õ e s d e T á c ito tê m e s ta q u a ­
lid a d e d e r e le v o n o s c o n tr a s te s , co m o n a p a s s a g e m
s e g u i n te , q u e p r o c u r e i t r a d u z i r q u á s i l i t e r a l m e n t e :

G a i b a e r a i m p e l i d o p a r a a q u é m e p a r a a l é m p e lo m o v i ­
m e n to e p e la s o n d a s d o povo, d e asp ecto sin istro , q u e e n c h ia
os t e m p l o s e o s e d i f í c i o s .
N e n h u m c la m o r dos cidadãos e d o p o p u la c h o ; m as
rostos c o n s te r n a d o s e a a te n ç ã o v o lta d a p a r a tôda a p a rte .
N ão e ra o tu m u lto , n ão e ra o sossègo, m as o silêncio
do g r a n d e t e r r o r e d a g r a n d e cólera.
278 A FORMAÇÃO DO BSTIDO

T á c ito foi a in s p ira ç ã o e o liv r o fa v o rito de


to d o s os e s c r ito r e s d e a n títe s e s , d e sd e M o n ta ig n e
a té R o u s s e a u .
D iz ia S é g u r , e m 1815, a n te s d e e m p re e n d e r a
s u a h is tó r ia :
— « E u e s t u d a v a os n o sso s liv r o s d e h is tó ria
m o d e r n a : fo sse q u a l fo sse o s e u m é r ito , pouco
a p r o v e ite i c o m esse e s tu d o .
« Q u a n to a o s clássico s, ta is co m o S a lú s tio , T ito -
-L ív io , B o s s u e t, M o n te s q u ie u , e n tu s ia s m a v a -m e
co m o g ê n io d e s s e s g r a n d e s h o m e n s , sem , co n tu d o ,
m e a tr e v e r a c o m e ç a r o m e u tr a b a lh o .
«N ão m e s e n tia m u i to s a tis f e ito ; p ro c u ra v a
s e m p re , e s p e ra n d o e n c o n tr a r u m g u i a m a is em
re la ç ã o co m o m e u s e n tim e n to in te r io r , q u an d o
m e v e io à m e m ó r ia T á c ito , d e q u e m e u m e esq u e­
cera.
« N a q u e la le i tu r a , e n c a n ta d o , c h e io d e e n tu ­
sia sm o , c o n h e c i o tip o d e p e rfe iç ã o , q u e e u tin h a
so n h a d o . i i
«E g r i t e i co m a r r e b a ta m e n to í E is a q u i a m i­
n h a o b ra !
« E ra o r d i n à r ia m e n te p o r v o lta d a s q u a tr o h o ra s
d a m a d r u g a d a , e q u a n d o a in d a e s ta v a n a cam a,
q u e e u r e to m a v a o m e u tr a b a lh o .
« E n tã o se a f a d ig a d a v é s p e ra o u q u a lq u e r
s o frim e n to m e a b a tia , a b r i a ao a c a so o m e u T á c ito .
E n u n c a a c a b a v a a s e g u n d a p á g in a , se m q u e as
p in c e la d a s, tã o p r o f u n d a m e n te r e v e la d o r a s do co ra­
ção do h o m e m e m ac ç ã o , d o s s e u s m o v im e n to s
A FORMAÇÃO DO B8TIL.O 279

in teriores e e x t e r io r e s , d o s f a c to s e d o s e u m ó b il,
causando-m e u m a a d m ir a ç ã o g e r a tr iz , m e n ã o fiz e s ­
sem p e g ir v i v a m e n t e n a p en a » (A).

MONTAIGNE

E n t/e o s e s c r it o r e s c lá s s ic o s fr a n c e s e s , M o n ta i­
g n e é a q u e le , c u j a le it u r a t e m m a is u t ilid a d e e
m a is in p o r t â n c ia , p a r a o fim q u e t e m o s e m v is t a .
Os s e u s e n s a io s n e m s e m p r e a g r a d a m , aos
v in t e n o s .
E íe c e s s á r ia a e x p e r iê n c ia , p a ra o s sa b o rea r.
N » t e m o s u m b o m e s c r ito r c lá s s ic o , q u e n ão
h a ja s id o d e M o n t a ig n e .
M c ita ig n e ó o p a i d a p r o s a fr a n c e s a e d o e s t ilo
d e idéas.
Evfcem os o e n f a d a r -n o s c o m o s e u a n t ig o fr a n ­
c ê s , e t q u e p a lp it a u m e s p ír it o tã o v i v o , c o m o se
d a ta ss d e o n t e m .
B ab aria u m v o lu m e d e E x tr a c to s , m a s é s e m ­
p re p if e r ív e l c o n h e c e r - lh e as o b ra s to d a s .
C o g titu i u m a f o r ç a o t e r lid o b e m M o n ta ig n e .
A n t í t e s e ó o p ro c e s s o h a b i t u a l do s e u e s tilo .
E n > re g a-se s e m p r e , m a s se m o s te n ta ç ã o ; n ã o
p r o c u í p a r a e la o b r i l h o ; n ã o fa z d e la u m m e io
a r t i f i c j ; n ã o t i r a d e la e fe ito s , s e n ã o q u a n d o a
id é ia asso s e p r e s t a e o d o m in a .

(l ) Donde de S ég u r, M e m ó r ia s , t. v ii, p . 260 .


280 ▲ FO RM AÇÃ O DO B S T IL O

N in g u é m p o s s u iu , c o m o e le , a a r t e d e fa z e r
c o n tr a s ta r p e n s a m e n to s .
É n e le p r i n c ip a lm e n te q i y se v ê e m os re c u rs o s
q u e p o d e d a r a q u e la m a le a b ilid a d e d e e s p írito .
A ju n ta i- lh e s a v a r ie d a d e d a s f o r m a s , a s u a in g e ­
n u id a d e , a s u a a u d á c ia , as s u a s c r ia ç õ e s de e stilo ,
a s u a p in t u r e s c a f a m ilia r id a d e , a s u a o r ig in a l p r o ­
fu n d e z a , e c o m p r e e n d e r e is o e n c a n to d e t a l le itu r a .
S ão s e m p r e p á g in a s p e r f e ita s , q u e , c o m o u tr a
o rto g ra fia , te r ia m o e s tilo f r a n c ê s d e h o je , com o
e s ta p a s s a g e m , p u r a m e n t e a n t i t é t i c a , s o b r e o d e s­
p re z o d a m o rte , p a s s a g e m q u e c o n té m a s q u a lid a ­
d e s e os h á b ito s d o s e u m o d o d e d i z e r :

A nossa re lig iã o n ã o te v e n u n c a m a is sólido funda­


m en to h u m a n o , q u e o d e s p re z o p e la v id a . N ã o só o discorrer
d a r a z ã o n o s l e v a a ê s s e d e s p r ê z o , — p o i s p o r q u e r e c e a r ía ­
m os p e r d e r u m a coisa, q u e p e r d i d a , n ã o p o d e s e r la s tim a d a ?
M a s , t a m b é m , v i s t o q u e s o m o s a m e a ç a d o s p o r t a n t a s fo rm a s
d e m o r t e , ç n ã o s e r á p i o r t e m ê - l a s t ô d a s , q u e a f ro n ta r
u m a só?
*

A q u êle q u e dizia a S ó c r a te s :
— « O s trin ta tira n o s c o n d e n a ra m -te à m o rte.»
S ócrates re sp o n d e u : 1
— «E les e a n a tu re z a .»
Q u e lo u c u ra la m e n ta r m o - n o s , n o m o m e n to d a passagem
à isenção d e tô d a a p e n a !
A ssim com o o n o sso n a s c i m e n t o n o s t r a z o nascim ento
d e t ô d a s a s c o i s a s , a s s i m a n o s s a m o r t e n o s t r a r á ta m b é m
a m orte de tu d o .
P a r a q u e s e r v e a l o u c u r a d e c h o r a r p o r n ã o v iv e rm o s
d a q u i a c e m a n o s , s e n ã o c h o r a m o s p o r n ã o t ê r m o s vivido
há cem .. . ?
A FORM AÇÃO DO R 8 T IL .O 281

A m o r te é a o r ig e m d e o u tr a vida.
A s s i m , c h o r a m o s ao e n t r a r n e s t a v i d a ; a s s i m n o s d e s ­
pojam os d o n o sso a n t i g o in v ó lu c ro , e n tr a n d o nela.
N a d a p o d e s e r a t r o z s e n ã o u m a v ez.
S e r á ra z ã o isto p a r a recear d u r a n te ta n to tem po u m a
c o is a t ã o b r e v e ?
O m u i t o e o p o u c o v i v e r t o r n a - s e só u m p e l a m o r t e ;
p o r q u e o l o n g o e o c u r t o n ã o p e r t e n c e m à s c o is a s q u e n ã o
existem .
A ristó teles d isse q u e há, n a m a rg e m de H ipane, u n s
a n i m a i z i n h o s q u e só v i v e m u m d i a ; o q u e m o r r e às o i t o
horas d a m a n h ã , m o rre na m ocidade ; o q u e m orre à tarde,
m orre velho.
Q u a l de nós não z o m b a rá de v er considerar v e n tu ra
ou d e s v e n tu r a aq u ê le m o m e n to d e existên cia ?
O m a i s e o m e n o s d a n o s s a v i d a , se a c o m p a r a r m o s
à e t e r n i d a d e , o u a i n d a à d u r a ç ã o d a s m o n t a n h a s , d o s rio s,
das estréias, d a s árvores, e m esm o de a lg u n s anim ais, não
é m enos ridículo.
O p rim e iro d ia do nosso n a s c im e n to e n c a m in h a -n o s a
m o rre r co m o a viver.
T u d o o q u e v iv eis, o r o u b a is à v id a ; é à c u s t a dela.
O c o n tín u o tr a b a lh o d a no ssa v id a é edificar a m orte.
E s ta is n a m o rte e n q u a n to estais n a v id a , p o rq u e estais
p e r t o d a m o r t e , q u a n d o j á n ã o e s t a i s n a v i d a ; o u , se a s s i m
o q u ereis, e sta is m o rto , depois d a vida, m as, d u ra n te a
vida, e s ta is m o r ib u n d o . E a m o r te fere m ais ru d e m e n te o
m o rib u n d o q u e o m o rto , e m a is v iv a e essen cialm en te.
S e a p r o v e i ta s te s b e m a v id a , e s ta is re p le to d e la : podeis
p a r t i r s a t i s f e i t o s . S e v o s n ã o s o u b e s t e s s e r v i r d e l a , se e la
v o s foi i n ú t i l , q u e v o s c u s t a t ê - l a p e r d i d o ? p a r a q u e a
quereis a in d a ?

N e s ta a d m i r á v e l p á g i n a , c a d a p e n s a m e n to se
d e s d o b r a p e lo s e u c o n t r a s t e .
"282 A FORM AÇÃO DO B S T ID O

A a n títe s e b r ilh a a c a d a p a sso , s a i m e s m o d a


idéia, nasce com ela, é d e la in s e p a r á v e l.
N ad a de a rtifíc io n e m d e p re c o n c e ito .
M o n taig n e, ao e n c o n tr a r a id é ia , e n c o n tr a a
a n títe s e .
É a v e rd a d e ira , a ú n ic a , a in i m i tá v e l , a a n t í ­
tese q u e se c o n fu n d e co m a p r ó p r i a id é ia .

PASCAL

D isp e n s a r-n o s-e is d e i n s i s t i r s o b r e o e s tu d o


d e P a sc a l.
E u m dos m a io re s e s c rito re s d a lí n g u a fra n c e s a .
E s c re v e u se m l i t e r a t u r a , co m id é ia s n ítid a s ,
sin té tic a s, m a le á v e is, v ig o ro s a s .
S aíd o de M o n ta ig n e 0 , m a s co m u m a e lo q ü ê n ­
c ia d esco n h ecid a d e M o n ta ig n e , te m a lé m d isso a
fo rç a e os n e rv o s d o e stilo .
A a n títe s e c o n s titu i o v i g o r d o s s e u s P e n s a ­
m entos; e s tá s e m p re n e le s e m e s ta d o l a t e n t e ;
m u ita s v e z e s n o e s ta d o b r u to , g e r a lm e n te e m
id é ia s p a ra le la s.
O e m b a te re sso a e d e sp e d a ç a t u d o n a s u a
p assag em .
Com o a essên cia dos P e n sa m e n to s \è u m c o n ­
tra s te p e rp é tu o , não é de a d m i r a r q u e a a n títe s e
a li dom ine.

(l) V e ja m - s e , n e s t e s e n t i d o , o s m a g n í f i c o s r e t r a t o s de
Pascal e de M o n ta ig n e em P o r t-R o y a l, d e S a in t- B e u v e .
A FO RM A ÇÃ O DO B J S T IL O 283

Q u a n d o ©la se n ã o to r n a s a lie n te , e s tá s e m p re
m is tu r a d a n o s a n g u e e n a c a rn e d e sse e stilo .
E is a q u i a lg u m a s lin h a s (M isé ria e G r a n d e z a
d o H o m e m ), q u e m o s tr a m o p ro c e sso g e ra l e o tom
o r d in á r io d o s P e n s a m e n to s :
Com o a m iséria resu lta da grandeza, e a grandeza da
m iséria, u n s d e d u z ir a m a m iséria, ta n to m ais q u e to m a ra m
por p ro v a disso a g r a n d e z a ; e o u tro s d e d u z ira m a g ra n ­
deza, com t a n ta m ais fôrça, q u a n to a d e d u z ira m d a p ró p ria
m iséria.
T u d o aq u ilo q u e u n s nos p u d e ra m dizer, p a ra m o stra r
a g r a n d e z a , só s e r v i u d e a r g u m e n t o a o s o u t r o s p a r a d e d u ­
z ir a m iséria, visto q u e é m ais m iserável o q u e d e m ais
a lto c a i ; e o s o u t r o s , p e lo c o n t r á r i o .
Im p e lira m -se u n s c o n tra os o u tro s n u m círc u lo sem -
-fim , co n v e n cid o s de q u e , à m e d id a q u e os h o m e n s tê m luz,
e n c o n tra m g ra n d e z a e m iséria no h o m em .
N u m a p a la v ra , o h o m e m conhece q u e é m iseráv el, visto
q u e o é; m as é g ra n d e , visto q u e o conhece.

E n o u t r o p o n to :
S e não houvesse n u n c a obscuridade, o hom em não sen­
tir ia a s u a c o r r u p ç ã o ; se n ã o h o u v e sse n u n c a lu z, o hom em
n u n c a e s p e r a r ia rem éd io s.
A s s im , n ã o é s o m e n te jü s to , m a s ú t i l p a r a nós, q u e
D e u s e steja o c u lto e m p a r te e d esco b erto em p a rte , visto
q u e é i g u a l m e n t e p e r i g o s o ao h o m e m c o n h e c e r a D e u s s e m
c o n h e c e r a s u a m i s é r i a , c c o n h e c e r a s u a m i s é r i a sein
conhecer a D eus.

T o d a a o b r a d o s P e n s a m e n to s e s tá e s c r i ta n e s te
to m d e a n títe s e , m u ita s v e z e s v o lu n tá ria e b r i­
l h a n t e e, a s m a is d a s v e z e s, l a t e n t e e s u r d a .
284 A FORM AÇÃO DO B 8 T IL .O

Vê*se o p ro v e ito q u e se p o d e t i r a r d este m a g n í­


fico e stilo .

BOSSUET

Q u a n to a B o ssu e t, os e x e m p lo s são q u á si in ú te is .
E e s c rito r co m p le to .
N ão e x is te m b ele z a s lite r á r ia s , q u e se n ão encon­
tr e m n ele, em e sta d o s u b lim e ; im a g e n s d e gênio,
c riação d e p a la v ra s , e x p re ssõ e s im p re v is ta s , relevo,
c o lo rid o , a u d á c ia , to d a s as g ra n d e z a s , to d a s as s u r­
p re sa s do estilo .
A s su a s a n títe s e s ro la m com o d ia m a n te s a tra ­
v és d as o n d as, s e m p re tr a n s b o r d a n te s , da sua
m a je sto sa e lo q ü ê n c ia ; v ê m d e lo n g e , desenro­
la m -se , b a lo u ç a m -s e e o n d u la m com a ro u p a g e m
d o s se u s p e río d o s ; sa e m d o b r ilh o d a s p alav ras^
fa z e m o s c ila r os p ó lo s d a s s u a s fra s e s e c o n tra s ta r
os v e rb o s e os e p íte to s .
T u d o é im p re v is to , tu d o ó n o v o , tu d o ó vivo.
E o m a io r dos n o sso s p ro s a d o re s .
C ite m o s, ao acaso :

P a r a o n d e c o r r e i s , m o r t a i s i l u d i d o s , e p o r q u e ides
e r r a n t e s , d e v a i d a d e s e m v a i d a d e s ; s e m p r e a t r a í d o s e sem ­
pre enganados por esp eran ças novas ?
S e p r o c u r a i s b e n s e f e c tiv o s , p a r a q u e p r o c u r a i s os do
m u n d o , q u e p assam ligeiros, com o |u m s o n h o ?
E , se v o s a l i m e n t a i s d e e s p e r a n ç a s , p o r q u e n ã o esco-
lh eis a s q u e são g a r a n t i d a s ?
D eus prom ete-vos; p o r q u e d u v id a is ?
A FORM AÇAO D O B 8 T IE .O 285

D eus fala-vos; por q u e o não ouvis?


M a i s v a l e e s p e r a r d éle, d o q u e r e c e b e r fa v o res d os
o u t r o s ; e os b e n s q u e êle p r o m e t e são m a is c e rto s , q u e
to d o s a q u e l e s q u e o m u n d o d á . ( P a n e g ír ic o de S a n ta
T e r e s a ).
M u i t o s t ê m u m a d o r , q u e o s n ão in c o m o d a , m a s q u e os
engana.
M u i t o s t ê m u m a v e r g o n h a , q u e .quere q u e a lis o n je ie m
o não que a h u m ilh em .
M u ito s p ro c u ra m n a penitência o descargo do passado,
e não fôrça p a r a o futuro.
S ã o ê s t e s os t r ê s c a r a c t e r e s de f a ls a s c o n v e rs õ e s . ( S e r ­
m ã o sô b re a I n te g r id a d e d a P e n itê n c ia ) .
Q u e m é que não sabe que o F ilh o de D eus, en q u a n to
p r è g o u n a t e r r a , tev e p o u c o s e s p e c t a d o r e s , e q u e , só d e p o is
d a s u a m o r t e , é q u e os p o v o s c o r r e r a m p a r a êsse d i v i n o
M estre ?
Q u e n o v o m i l a g r e foi ê s s e ?
D e s p r e z a d o e a b a n d o n a d o , d u r a n t e to d o o p e r í o d o d a
su a v id a, com eça a r e in a r depois d e m o rre r.
A s s u a s p a l a v r a s d i v i n a s , q u e d e v i a m a t r a i r - l h e os
respeitos dos h o m en s, fizeram -no p r e n d e r a u m m adeiro
i n f a m e ; e a i g n o m í n i a d è s s e m a d e i r o , q u e d e v i a c o b r i r os
s eu s d i s c í p u l o s d e u m a c o n f u s ã o e t e r n a , faz a d o r a r p o r to d o
o U n i v e r s o as v e r d a d e s d o s e u E v a n g e l h o . ( P a n e g ír ic o de
S . P a u lo ) .
r

O m o r t e ! n ó s t e d a m o s g r a ç a s p e l a lu z q u e d e r r a m a s
sô b re a n o s s a i g n o r â n c i a !
S ó t u n o s c o n v e n c e s d a n o s s a b a i x e z a , só t u n o s fazes
conhecer a no ssa d ig n id a d e !
S e o h o m e m se e s t i m a m u i t o , t u s a b e s a b a t e r - l h e o
o r g u l h o ; se o h o m e m se r e b a i x a m u i t o , s a b e s i n c u t i r - l h e
c o r a g e m . . . e e n s i n a - l h e s e s t a s d u a s v e r d a d e s . . . q u e êle
é i n f i n i t a m e n t e d e s p r e z í v e l e n q u a n t o é l i m i t a d o p e lo t e m p o ,
e in finitam ente estim ável desde q u e passa à eternidade.
( S e r m ã o sô b re a M o r te ) .
286 A FORM A ÇÃ O DO H JS T IL .O

À s v ezes, o g r a n d e o ra d o r p r e c ip ita o s c o n tra s ­


te s co m u m r e l e v o d e p a l a v r a s e u m a n o b r e z a
in c o m p a r á v e i s :

U m a c r ia n ç a , d e i t a d a n o p r e s é p i o . . . C o r r e i a essa
crian ça re cém -n asc id a , e q u e e n c o n tr a r e is ? U m a n a tu re z a
se m e lh a n te à vossa, e n f e r m id a d e s ta is q u a is as vossas,
m isérias in ferio res às vossas. « E t hoc vo b is s ig n u m » .
R eco n h ecei p o r êstes belos in d íc io s q u e êle é o S a lv a d o r,
q u e v o s foi p r o m e t i d o .
Q u e novo prodígio é êste?
Q u e s e r á d a n o s s a f r a q u e z a , s e o n o s s o m é d i c o ad o e c e
e se o n o s s o l i b e r t a d o r s e d e s p o j a d o s e u p o d e r ?
S e rá , p o r v e n tu r a , u m re c u rs o [para os desgraçados,
q u e u m D e u s v e n h a a u m e n t a r - l h e o n ú m e r o ? P e lo contrá­
rio, n ã o p a r e c e q u e o ju g o , q u e s u je ita os filhos de Adão,
é t a n t o m a is d u r o e in e v itá v e l, q u a n t o se s u je ita a su p o r­
tá-lo o p ró p rio D e u s ?
Isto s e ria v e rd a d e , m e u s irm ã o s , se êste e sta d o de h u m i­
l h a ç ã o f ô s s e f o r ç a d o , s e fô s s e i m p o s t o p o r n e c e s s i d a d e e
não por m isericórdia.
M as, co m o a s u a h u m ilh a ç ã o n ã o é u m a q u e d a , mas
u m a c o n d e s c e n d ê n c i a : « D e s c e n d i t u t l e v a r e t , n o n c e c i d it
u t j a c e r e t » ; e c o m o ê le d e s c e u a n ó s s ò m e n t e p a r a nos
d e s i g n a r o s d e g r a u s p o r o n d e p o d e r e m o s s u b i r a t é êle, t ô d a
a o rd e m d a s u a d e s c id a p r o d u z a n o s s a g lo rio s a elevação;
e p o d e r e m o s a p o i a r a n o s s a e s p e r a n ç a a b a t i d a s ô b r e essas
três form as, com q u e o D e u s - h o m e m se h u m i lh o u .
S e r á v e rd a d e ? p o d e r e m o s crê-lo ? pois q u e ! as h u m i­
l h a ç õ e s d e D e u s i n c a r n a d o s e r ã o s i n a i s c e r t o s d e q u e êle é
o m eu S alvador?
S i m , fiéis, n ã o d u v i d e i s ; e a q u i t e n d e s d i s s o a s razões
sólidas, q u e fa rã o o a s s u n t o d e s t a p r á ti c a .
A v o s s a n a t u r e z a d e s p e n h a r a - s e n o c r i m e ; D e u s re v e s ­
tiu -se d e la p a r a a l e v a n t a r : s o fríe is n o m e io d a s enferm i-
▲ FORM AÇÃO D O B lS T IIiO 287

d a d e s ; êle s u j e i t o u - s e a e la s p a r a as c u r a r . A s m i s é r i a s d o
m u n d o a s s u s t a m - n o s e êle s u b m e t e u - s e a e la s p a r a as d o m i ­
n a r e t o r n a r i n ú t e i s t o d o s os vossos t e r r o r e s .
D i v i n o s s i n a i s , s a g r a d o s c a r a c t e r e s , pelos q u a i s conheço-
o m e u S a l v a d o r , e q u e eu n ã o posso e x p lic a r -v o s n e s t a
h o ra, c o m os s e n t i m e n t o s q u e m ere ceis!
E s f o r c e m o - n o s , ao m e n o s , p o r fazê-lo, e co m ecem o s a
m o s t r a r n e s t e p r i m e i r o p o n t o q u e D e u s re v es te a n o s s a
natureza, p a r a a lev an tar.

Is to r e p r e s e n ta o g r a n d e p ro cesso d e B o s s u e t ^
m as, q u a n d o o se u p e n s a m e n to se co m p rim e, p re c i­
p ita as a n títe s e s , a c u m u la -a s , to rn a -a s v io le n ta s :
A p e s a r d o m a u ê x ito d a s s u a s a r m a s ( C a r l o s I) se o
p u d e r a m v e n c e r , n ã o o f o r ç a r a m ; e, co m o êle n u n c a re c u s o u
o q u e e r a r a z o á v e l , s e n d o v e n c e d o r, re je ito u s e m p r e o q u e
era i n j u s t o , e s t a n d o c a tiv o .

E n o u tr a p a ss a g e m :
S e n h o r ! C o m p e t e aos s ú b d i t o s e s p e r a r e aos r e is p r o ­
ceder. O s r e i s n ã o fa z e m t u d o q u e q u e r e m , m a s d e v e m
considerar q u e terão d e d a r contas a D eus do q u e podem.

E s ta s a n títe s e s só b ria s, m a s s e m p re p o d e ro sa s,
a b u n d a m e m B o ssu e t.
B a s ta a b r ir , ao acaso , os se u s Serm ões.
M a ssillo n te m à s v e z e s ra p to s , q u e le m b ra m as
a n títe s e s d e B o ssu e t.
D iz M a s s illo n :
Ó h o m e n s ! n ã o c o n h e c e i s os o b je c to s q u e t e n d e s s o b
os o lh o s e q u e r e i s v e r c l a r a m e n t e n a s e t e r n a s p r o f u n d e z a s
d a fé!
288 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

A n a tu re z a é p ara vós u m m istério e quereríeis um a


religião q u e o não tivesse!
I g n o r a i s o s s e g r e d o s d o s h o m e n s e q u e r e r í e i s c o n h e cer
o s s e g r e d o s d e D e u s ! N ã o v os c o n h e c e i s a v ós p r ó p r i o s e
q u e r e r í e i s a p r o f u n d a r o q u e é m u i t o m a i s fo rte d o q u e vós!
O u n i v e r s o , q u e D e u s c o n f io u à v o s s a c u r i o s i d a d e e às
vossas d isp u ta s, é u m abism o, onde vos p e r d e i s .. .
E q u e r e i s q u e o s m i s t é r i o s d a fé, q u e êle e x p ô s apenas
à v o s s a d o c i l i d a d e e r e s p e i t o , n a d a t e n h a m q u e esc ap e às
v o s s a s lu zes.
O desvairam ento !

J. J. ROUSSEAU

R o u s s e a u , q u e p ro c e d e u in te ir a m e n te de Mon­
ta ig n e , é d e to d o s ós n o sso s e s c rito re s aq u ele, cujos
p ro cesso s são o m a is d ir e c ta m e n te a ssim ilá v e is e
c u jo e s tu d o o ferece, p o r c o n se q ü ê n c ia , o m aior
p ro v e ito .
A s u a e lo q ü ê n c ia b a se ia -se n a a n títe s e .
T r a ta - a n u m e s tilo so b e rb o , n o b re , a rq u ite c tu -
ra l, h a rm o n io s o , d e u m a sa b o ro sa n itid e z .
A im a g in a ç ã o e o s e n tim e n to a b ra n d a m a rig i­
d e z d o s se u s p ro c e sso s.
É o p e n s a m e n to m o rd a z e a o p o sição d a s frases
q u e fazem a q u a lid a d e d ê s te e stilo .
R o u s s e a u ó o p a i d a l i t e r a t u r a ro m â n tic a .
P o d e m o s v e r em V ille m a in a lo n g a d escen d ên ­
c ia dêsse b elo ta le n to , d e sd e B e r n a r d im de S ain t-
- P ie r r e a té G-eorge S a n d .
É u m b o m c a p ítu lo d e l i t e r a t u r a s in té tic a .
N u m liv r o c o n s a g ra d o à a r t e d e e sc re v e r, abs-
A FOKM AÇAO DO E 1 8 T IL O 289

te r-n o s-e m o s d e a p re c ia r as id é ia s de R o u sse a u ,


p ara sò f a la r do se u e s tilo ; ora, esse e stilo ó e m i­
n e n te m e n te a s s im ilá v e l; ó u m dos a lim e n to s lite ­
rário s q u e m e lh o r p assam p a ra o n osso sa n g u e .
Os c rític o s n o ta ra m -n o , e co n h ecem o s p ro fe sso ­
res q u e re c o m e n d a m e x p re ssa m e n te a le itu r a d e
R o u sse a u , p o s to q u e ele seja m ais e n g e n h o so q u e
p ro fu n d o , e se s in ta se m p re a re tó ric a a tr a v é s d a
su a e lo q ü ê n c ia ; é seco, é p ro lix o , o v e rn iz esta la .
M as, p o n d o d e p a r te a essên cia, o e stilo do
E m ílio e d a s Confissões é de p rim e ira o rd e m .
D iz o co n d e d e S é g u r :
— « H á d u a s esp écies de a d m ira ç ã o : u m a e sté ­
ril e o u tr a f é r til. P o r e x e m p lo : p o r q u e s e rá q u e
V o lta ire , a rre b a ta n d o -m e o e s p írito , m e d e ix a
im p r o d u tiv o ? O u, p elo m enos, p o r q u e n ão faz de
m im , com o ta n to s o u tro s, u m im ita d o r frio e
se c u n d á rio , e n q u a n to R o u sse a u , C o rn e ille , B o ssu e t
e T á c ito , p r in c ip a lm e n te , me fe c u n d a m a alm a e,
d e ix a n d o -lh e a s u a p e rso n a lid a d e , a s u a o rig in a li­
dade, m e to r n a m com o êles, c ria d o r, s e g u n d o o
alcance do se u m é rito ? » (x)
O q u e h á de m a is n o tá v e l em R o u sse a u são as
d ig re ssõ e s e os acessórios.
A »N o va H eloísa e s tá c h e ia d êles (2).
C om o v a lo riz a ç ã o d a a n títe s e , d e v e ler-se p rin - i

i 1) S é g u r , M e m ó r ia s , t. v i i , p. 260.
(a) E n t r e o u t r o s , s ô b re a n o b r e z a ( i - m ) , s ô b re o s u ic í
dio (iií-x n ), s ô b r e o a d u l t é r i o ( i n - x v n i ) , e t c . , etc.
19
290 A FORM AÇÃO DO B 8T IL O

c ip a lm e n te o Em ilio , as p rim e ira s! Cartas da


Montanha (q u e V ille m a in re c o m e n d a a todo s os
jo rn a lis ta s ), as Cartas a M r. de Malesherbes e os
Devaneios de um Solitário.
R o u sse a u é m u ito d e s d e n h a d o ; os se u s p ara­
doxos a f u g e n ta m os le ito re s .
C o n tu d o , a q u e le s q u e a m a m a fo rm a im pecáv el
tê m tu d o a g a n h a r n e ssa le itu r a . P a r a o ju lg a re m
e n fa d o n h o é p re c iso n ã o o t e r lid o n u n c a .
A s u a a n títe s e b r i lh a ató n o s a s s u n to s fam i­
lia re s.
E is o q u e e sc re v e J u l i a , ao s e r in fo rm a d a do
c a s a rm e n to d a s u a a m ig a C la ra .
E o to m g e ra l d a H e lo ís a :
A g o ra te rá de d a r c o n ta do seu procedim ento a outro;
n ã o só o b r i g o u a s u a f i d e l i d a d e , s e n ã o q u e t a m b é m alienou
a s u a l i b e r d a d e . D e p o s i t á r i a , ao m e s m o t e m p o , d a h o n ra
d e d u a s pessoas, não lh e b a s ta se r h o n e sta , deve ser tam ­
b é m r e s p e i t a d a ; n ã o l h e b a s t a d e i x a r d e f a z e r o bem, é
p re c is o q u e e l a n ã o fa ç a n a d a q u e n ã o seja a p r o v a d o .
U m a m u l h e r v i r t u o s a n ã o d e v e s o m e n t e m e re c e r a
e s t i m a d e s e u m a r i d o , m a s o b t ê - l a ; se êle a c e n s u r a , é cen­
s u r á v e l ; e, se e l a e s t i v e r i n o c e n t e , d e i x a d e t e r r a z ã o logo
q u e d esp e rta s u sp e ita , p o rq u e as p ró p ria s a p a rên cias entram
no n ú m e ro dos seus deveres.
( N o v a H e lo ís a , n p a r t e , c a r t a xvfti).

E a g o ra is to , s o b re o d u e l o :

Q u a n d o s e ja v e r d a d e q u e se a t r a i o d e s p r è z o , r e c u s a n d o
b a t e r - s e , q u e d e s p r è z o se d e v e r á r e c e a r m a i s : o dos outros,
p ro c e d e n d o b em , o u o se u , p r o c e d e n d o m a l ?
A FORM A ÇÃ O DO E S T IL O 291

C re ia m -m e , aquele que se e s tim a d e v e ra s a s i p r ó p r io


é p o u c o s e n s í v e l ao i n j u s t o d e s p r ê z o d e o u t r e m , e n ã o r e c e ia
senão ser d ig n o dêsse d e s p r ê z o ...
O h o m e m recto, c u ja vid a não tem m a n c h a , e q u e
n u n c a deu p ro v a s de cobardia, re c u sa rá m a n c h a r a sua mão
com u m h o m i c í d i o e n ã o d e i x a r á , p o r isso, de c o n t i n u a r a
ser h o n ra d o .
F a c i l m e n t e se c o n c l u i q u e êle r e c e i a m e n o s m o r r e r q u e
f a z e r m a l e q u e receia o crim e e não o p e rig o .
S e o s p r e c o n c e i t o s v i s se e le v a m p o r u m i n s t a n t e c o n ­
t r a êle, t o d o s o s d i a s d a s u a h o n r a d a v i d a s e rã o o u t r a s
t a n t a s t e s t e m u n h a s q u e r e p e l e m êsses p r e c o n c e i t o s ; e, em
p r o c e d i m e n t o t ã o h a r m ô n i c o , p o r u m a ac ção se j u l g a m
t ô d a s as o u t r a s .
O s h o m e n s m a l - h u m o r a d o s , e p r o n t o s a p r o v o c a r os
o u t r o s , s ã o n a m a i o r p a r t e r u i n s p e s s o a s , q u e , c o m receio
d e q u e se a t r e v a m a m o s t r a r - l h e s a b e r t a m e n t e o d e s p r ê z o ,
q u e se t e m p o r êles, se e s fo r ç a m p o r c o b r i r com a l g u n s
p o n t o s d e h o n r a a i n f â m i a d e t ô d a a s u a - v id a .
F u la n o f é z u m esforço e a p re sen ta -se u m a vez, p a r a ter
o d ir e ito de se o c u lta r o resto d a s u a v id a .
A v erd ad eira coragem tem m ais c o n stân c ia e menos
solicitude.
A fô r ç a d a a l m a q u e a i n s p i r a u s o u - s e e m to d o s os
te m p o s : põe se m p re a v ir tu d e p o r cim a dos acontecim entos,
e n ão c o n s is te em bater-se, m a s em n a d a tem er.
( N o v a H eloísa, i p a r t e , c a r t a v i i ).

C ite m o s a in d a e sta s lin h a s , p a ra m o s tr a r b e m


o to m d e s te p ro c e s s o :

P ois que ? terei de ab d icar a m in h a au to rid a d e , q u a n d o


m a i s n e c e s s i to d e l a ? S e r á m i s t e r a b a n d o n a r o a d u l t o a si
p r ó p r i o , q u a n d o êle m e n o s s a b e c o m p o r t a r - s e e q u a n d o
p r a t i c a os m a i o r e s d e s r e g r a m e n t o s ? T e r e i d e r e n u n c i a r a o s
292 A FORM AÇÃO DO B S T IL O

m e u s d i r e i t o s , q u a n d o !he c o n v é m q u e e u m e s i r v a dêles,
m ais q u e n u n ca ? j
O s a r g u m e n t o s frios p o d e m d e t e r m i n a r as n o ssas opi­
n iões, m a s n ã o a s n o s s a s a c ç õ e s ; fa z e m -n o s c rc r, m as não
p r o c e d e r ; d e m o n s t r a - s e o q u e se d e v e p e n s a r e n ã o o q u e
é p r e c i s o fazer.
(E m ilio , 1. iv).

É o e s tilo o r d in á rio de R o u s s e a u :

N o s p a ís e s o n d e se e n f a i x a m a s c r i a n ç a s , é q u e a b u n ­
d a m c o r c u n d a s , coxos, r a q u í t i c o s , g e n t e d e f e i tu o s a de tôda
a e s p é c ie .
C o m re c e io d e q u e o c o r p o se l h e s d e f o r m e com os
m o v i m e n t o s l i v r e s , t r a t a m d e as d e f o r m a r , c o m p r im in d o - a s ;
t o r n á - l a s - i a m d e b o a v o n t a d e e s t r o p i a d a s , p a r a as impedir
d e se m o v e r e m .
D i z e is v ó s q u e a s s u a s p r i m e i r a s vozes são g em idos?
A s s i m o c re io .
L o g o d e n a s c e n ç a s ã o c o n t r a r i a d a s ; os p r i m e i r o s dons
q u e r e c e b e m s ã o c a d e i a s ; os p r i m e i r o s t r a t o s , são tor­
m entos.
T e n d o a p e n a s l i v r e a voz, n ã o se h a v i a m d e servir
d e l a , p a r a se q u e i x a r ?
G r i t a m c o m o m a l q u e l h e s fa z e m ; se es tiv é s s e is assim
a m a r r a d o s , g r i t a r í e i s m a i s q u e e la s .
( E m ílio , i).

E a in d a is to :

T i r a i aos n o s s o s s á b i o s o p r a z e r d e se d e i x a r e m escu­
t a r , e o s a b e r n a d a v a l e r á p a r a êles. O q u e a m o n t o a m nos
s eu s g a b i n e t e s é p a r a e s p a l h a r n o p ú b l i c o ; só q u e r e m ser
sábios aos o l h o s d e o u t r e m ; e, se n ã o t i v e s s e m a d m ira d o re s ,
n ã o se i m p o r t a r i a m c o m o e s t u d o .
P a r a nós, q u e n o s q u e r e m o s v a l e r d o s n o sso s conheci-
A FORM A ÇÃ O D O B S T IL .O 293

m e n t o s , n ã o os a m o n t o a m o s p a r a os r e v e n d e r , m a s p a r a os
c o n v e r t e r e m n o s s o u so , n e m p a r a no$ s o b r e c a r r e g a r e m ,
m as dèles nos a lim e n ta rm o s . !
L e r p o u c o e p e n s a r m u i t o n a s n o ssas l e i t u r a s , o u , o
q u e é a m e s m a c o is a , c o n v e r s a r m u i t o a r e s p e i to d e la s ,
e n t r e n ó s , é o m e io d e as d i g e r i r b e m .
(Emilio, \i).

O u tr o tr e c h o ao acaso, n o E m ílio :

N a s instituições h u m a n a s tu d o é lo u c u ra e contradição.
A p r o p o r ç ã o q u e a n o s s a v i d a p e r d e o s e u v a l o r , já n o s n ã o
in q u ie ta m o s com ela.
O s v e l h o s l a s t i m a m - n a m a i s q u e os n o v o s ; n ã o q u e r e m
p e r d e r o s p r e p a r a t i v o s q u e fiz e ra m p a r a a g o z a r ; é c ru e l
m o r r e r a o s s e s s e n t a a n o s , a n t e s d e t e r c o m e ç a d o a v iv e r.
C r ê - s e q u e u m h o m e m t e m u m v ivo a m o r à s u a c o n ­
s e r v a ç ã o , e é v e r d a d e ; m a s n ã o se vê q u e ê s te a m o r , tal
q u a l o s e n t i m o s , é, n a m a i o r p a r t e , o b r a d o s homfens.

M a is u m a p a s s a g e m , q u e p a re c e d e M o n ta ig n e :
A a r t e d e i n t e r r o g a r n ã o é t ã o fácil co m o se p e n s a ;
é m a is a a r te dos m estre s q u e dos discípulos.
E p r e c i s o t e r - s e já a p r e n d i d o m u i t a s co isas p a r a se
s a b e r p r e g u n t a r o q u e se n ã o s a b e .
O s á b i o s a b e e p r e g u n t a , d iz u m p r o v é r b i o i n d i a n o ;
m a s o ig n o r a n te n em seq u e r sabe p re g u n ta r.
P o r f a l t a d e s t a c i ê n c i a p r e l i m i n a r , as c r i a n ç a s fazem
q u á s i s e m p re p r e g u n t a s in ep tas, q u e p a ra n a d a servem , ou
p r o f u n d a s e e s c a b r o s a s , c u j a r e s o l u ç ã o n ã o e s t á ao seu
alcance.
E , v isto q u e n ã o é hecessário que saibam tudo, im p o rta
q u e n ão te n h a m o d ireito de p re g u n ta r tudo.

( N o v a H e lo ís a , v , m ) .
294 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

D is s e ra m d e R o u s s e a u q u e ele c o rro m p e ra o
e s tilo fra n c ê s e q u e q u e b r a r a a tra d iç ã o clássica,
fe ita d e s im p lic id a d e e de n a tu r a lid a d e .
M u ito s a u to r e s a c o n s e lh a m q u e o não im item o s.
G -odefroy a firm a g r a v e m e n te :

— «Q uem q u is e r fo r m a r o g o s to , d e v e descon­
fia r d e J o ã o J a c q u e s .»
D e ix e m o s fa la r.
R o u s s e a u p o d e s e r u m so fista, m a s é u m escri­
t o r d e ra ç a .
V íto r C o u sin r e s u m iu a ssim a o p in iã o , q u e se
deve fo rm a r de R o u sseau :
— « R o u sse a u n ã o d e ix a d e se r, com o Tácito,
u m g r a n d e e s c rito r. N e n h u m e sc rito r, excepto
P a s c a l, d e ix o u n a lí n g u a v e s tíg io s ig u ais.»
R o u s s e a u e n c a rn a a co n d en sação n erv o sa, a
fo rm a o p u le n ta e in fle x ív e l, a in s p ira ç ã o elevada
e firm e, a a r te de d e s d o b ra r os p e n sa m e n to s, de
fa z e r s o b re s s a ir os c o n tra s te s , d e e s g o ta r u m a
id é ia, de a f a c e ta r d e to d o s os lad o s.
A s u a a n títe s e p a re c e n a s c id a s e m p re do a ssu n to .
H á d o is e x e m p lo s, q u e m o s tra m o p ro v e ito que
a p re se n ta o e s tu d o d e R o u s s e a u .
Q u ero f a la r d e S ó n a n c o u r e d e L a m e n n a is .
S é n a n c o u r, n o O b erm a n n , é R o u sse a u frio,
e n d u re c id o e ríg id o , m a s p o s s u i b e m o se u p ro ­
cesso re b u sc a d o e so len e.
E s ta im ita ç ã o é tã o e v id e n te , q u e n ão in s is ti­
rem o s. B a s ta r á le r q u a lq u e r p á g in a d e O berm ann,
A FORM AÇÃO DO B S T 1 L .O 295

em qu© h á , c o n tu d o , b e la s d escriçõ es (as p a is a g e n s


e as g e le ira s ).
E o m e s m o q u a n to a L a m e n n a is .
R o u s s e a u fo i a s u a le i tu r a fa v o rita .
A im ita ç ã o d e R o u s s e a u ó s ig n ific a tiv a no
E n s a io sôbre a In d ife r e n ç a , o b ra d e d isc u ssã o r e l i­
g io s a e filosófica.
Q u a n d o se c o m p a r a o E m ílio ao c é le b re tr a b a ­
lh o d e L a m e n n a is , n o ta - s e lo g o a s e m e lh a n ç a dos
p ro c e sso s, a id e n tid a d e d as e x p re ssõ e s, a im ita ç ã o
n ã o d is s im u la d a d o s ro d e io s d e fra s e s e d a s a n tí­
te se s.
A q u e le s q u e só tê m d e R o u s s e a u u m v a g o
c o n h e c im e n to , o u q u e le r a m s u p e rf ic ia lm e n te
L a m e n n a is , ó q u e c o n te s ta rã o ta l s e m e lh a n ç a .
O s e x e m p lo s s e r ia m c u rio s o s , m a s d u p lic a r ia m
as p ro p o rç õ e s d e s te v o lu m e (*■).
L e d e b e m e s te s d o is a u to r e s e v e r e is q u e o
m é r ito li te r á r io d o E n s a io sôbre a In d ife r e n ç a e stá
e m s e r u m re fle x o d e R o u s s e a u . 1

( 1) L a m e n n a i s , q u e p a s s a r a a s u a m o c i d a d e a l e r
R o u s s e a u , e s t á l i t e r a l m e n t e i m p r e g n a d o d a s im p ressõ es do
p a r a d o x a l e s c r i t o r ( v e j a - s e o c a p . iv). Q u a n t o a o s p ro c e s s o s
d e i m i t a ç ã o d o E n s a io , p o d e m p r o c u r a r - s e , c o m o i n d i c a ­
ç õ e s s u m á r i a s , a s p á g i n a s s e g u i n t e s d o i . ° v o l u m e , p . 121 :
« Q u e é a r e l i g i ã o n a t u r a l ? . . . ; p . 133: « R o u s s e a u , p ô s to
q u e g r a n d e p r è g a d o r de v i r t u d e . . . » a té ao fim : « B aix o os
o l h o s e c o r a r i a d e s e r h o m e m , se m e n ã o r e c o r d a s s e d e q u e
sou c r i s t ã o . . . » ; p. 2 2 6 : « Q u e o b s c u rid a d e , q u e incertezas,
q u e m a r i m e n s o ! » e o q u e s e s e g u e , q u a n d o ê le m i s t u r a a s
296 A FO RM A ÇÃ O DO B J 9 T IL .O

N a é p o c a e m q u e a p a r e c e u o E n s a io , R o u s s e a u
e r a d e s d e n h a d o e n ã o n o ta r a m e ssa tra n s p o s iç ã o ,
q u e n ã o im p e d e , a liá s, q u e a o b ra d e L a m e n n a is
s e ja u m b o m li v r o .
Is s o p r o v a , e m to d o o c a so , q u e se p o d e a d q u i­
r i r u m b o m n o m e e m l i t e r a t u r a , p e lo c a m in h o d a
im ita ç ã o .
A lf r e d o d e M u s s e t, n a s u a M isc e lâ n e a (*) n o ta,
g r a c e ja n d o , e s e m a z e d u m e , v is to q u e q u a lq u e r se
p a r e c e s e m p r e c o m o u tr e m , a s e m e lh a n ç a d o E n sa io
d e L a m e n n a is c o m u m l i v r o d o c é le b re H u e t , bispo
A v r a n c h e s (2).
P e r c o r r e n d o e s t a o b ra , M u s s e t a f ir m a t e r en co n ­
tr a d o n e la , n ã o só p e n s a m e n to s , m a s p á g in a s in te i­
ra s d o l i v r o d a I n d ife r e n ç a .
O t a l e n to d e L a m e n n a is f o i, e m to d o o caso,
e s s e n c ia lm e n te a s s im ila d o r .
D e p o is d o E n s a io , im i t o u o e s tilo a p o c a líp tic o
d a B íb lia , n a s P a la v r a s de u m G r ente, e s c r ita s em
p ro s a p o é tic a , o b r a d e d e m o c ra c ia m ís tic a , q u e te v e
t a n t a v o g a , c o m o o s G ir o n d in o s d e L a m a r t in e .

c i t a ç õ e s d e R o u s s e a u , p . 2 3 1 ; o p a r á g r a f o : « O s filósofos
m a te rialistas q u e n ã o v êe m n o h o m e m . . . » e os p arág rafo s
s e g u i n t e s s ã o d e R o u s s e a u , m o r a l i s t a : « O h o m e m , q u e falas
c o m t a n t o o r g u l h o . . . » ; p . 3 4 2 : « A s l e i s p a g ã s . . . » ; p. 343:
« U m d o s c a r a c t e r e s d a v e r d a d e i r a r e l i g i ã o . . . » , e t c . , etc.
P a r a se p o d e r j u l g a r b e m e s t a c o n t í n u a s e m e l h a n ç a , é
p r e c i s o t e r feito r e c e n t e m e n t e a l e i t u r a d o E m í l i o .
(*) M u s s e t , M i s c e l â n e a ( R e v i s t a F a n t á s t i c a , x i i ) .
(2) T r a t a d o d a F r a q u e z a d o E n t e n d i m e n t o H u m a n o .
A FORM A ÇÃ O D O K S T IL .O 297

L a -B ro is e d iz n o s e u b e lo liv r o d e c r ític a s o b re
B o s s u e t (r) :
— « L a m e n n a is fo i d o m in a d o p o r u m a in s p i r a ­
ção f ic tíc ia ; c o m p ô s , à fô rç a d e im a g in a ç ã o ; e s c re ­
v eu , p o r m e io d e e m p r é s tim o s e d e re m in is c ê n -
c ia s ; f a lta a n a tu r a lid a d e n e sse estilo .»
D iz W e y (2) :
— « A s P a la v r a s de u m C ren te, p a r ó d ia d o s
s a n to s E v a n g e lh o s , c o n s titu e m u m tr a b a lh o in d ig n o
do ta l e n to d o s e u a u t o r ; e sse e s tilo ó tã o v ão co m o
a m b icio so .»
S é n a n c o u r e L a m e n n a is são d o is e x e m p lo s de
a s s im ila ç ã o , q u e m e re c e m s e r e s tu d a d o s .
N ão c o n h e ç o o u tr o s m a is e m p o lg a n te s , s a lv o
ta lv e z V a c q u e rie , im ita d o r n a to d e V íto r H u g o .
A im ita ç ã o d e R o u s s e a u in s p ir o u p o u c o m a is
o u m e n o s to d a a l i t e r a t u r a r e v o lu c io n á r ia d e sd e o
co m eço d a L e g is la tiv a a té o fim d a C o n v e n ç ã o .
G riro n d in o s e te r r o r i s ta s e s ta v a m c o m p e n e tr a ­
dos d o s e u e s tilo .
E s ta a d a p ta ç ã o to r n a - s e d e te s tá v e l em c e rto s
o ra d o re s.
R o b e s p ie r r e , p o r e x e m p lo , o m a is p e d a n te im i­
ta d o r d e R o u s s e a u , o b ti n h a t r i u n f o s n a C o n v e n ­
ção, e x p o n d o a p io r d a s r e tó r ic a s . 1

(1 ) B o s s u e t e a B i b l ia , p. 73.
(2) F r a n c i s c o W e y , O b s e r v a ç ã o s o b r e a L i n g u a e o
E s t i l o , p . 553.
1298 A FO RM A ÇAO DO B S T IL O

P a s s a v a h o r a s a l i m a r a s s u a s fra s e s , c o m u m
liv ro d e R o u s s e a u a b e r t o s o b r e a m e s a .
V e d e co m q u e s e r ie d a d e e le e s g o ta a a n títe s e
rid íc u la :

Povo desgraçado, servem -se d a s tu a s v irtu d es, p a r a te


ilu d ir !
Povo virtu o so , servem -se d a s tu a s desgraças, p a r a te
o p rim ir !
P ovo v irtu o so e d esgraçado, esquece-te da tu a genero­
s id a d e n a t u r a l e se rv e -te d a fôrça, p a r a p r o t e g e r a tu a vir­
tu d e e salvar-te da desgraça.

E a in d a i s t o :

Q u e r e m o s s u b s t i t u i r n o n o s s o p a í s p e l a m o r a l o e g o ís m o ,
p e l a p r o b i d a d e a f a m a , p e l o s p r i n c í p i o s o s c o s t u m e s , pelos
d e v e re s as c o m o d id a d e s , pelo im p é r io d a ra z ã o a tir a n i a da
m o d a , p e l o d e s p r ê z o d o v í c i o o d e s p r e z o d a d e s g r a ç a , p ela
altivez a in so lên cia, p e la g r a n d e z a d e a lm a a vaidade,
pelo a m o r d a g l ó r i a o a m o r do d i n h e ir o , p e la s boas pes­
soas a boa c o m p a n h ia , pelo m é r ito a i n tr ig a , pelo gênio ò
e sp írito claro, p e la v e r d a d e O d e s lu m b r a m e n to , pelo encan to
d a fe lic id a d e os e n f a d o s d a v o lú p ia , p e la g r a n d e z a do
hom em a p equenez dos g ra n d e s, por u m povo m agnânim o,
p o d e r o s o e f e li z u m p o v o a m á v e l , e m i s e r á v e l , i s t o é, p o r
t ô d a s a s v i r t u d e s e t o d o s o s m i l a g r e s d a R e p ú b l i c a to d o s
o s vícios e to d o s os r i d í c u l o s d a M o n a r q u i a .

(R obespierre, R e l a t ó r i o so b re os P r in ­
c í p io s d o G o v é r n o , etc.).

E is a q u i c o m o o s m a u s i m i t a d o r e s d e s n a tu r a m
o s e u m o d e lo .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 299

A d o p ta m a fo rm a , m as não tê m a lm a p a ra a
v iv ific a r.
R o b e s p ie r r e , o ra d o r, é a c a ric a tu ra de R o u s ­
se a u , e s c r ito r .

MONTESQUIEU

M o n te s q u ie u é u m dos m a is sólidos p ro sad o re s


d o sé c u lo x v ii i.
C o n v é m le r b e m as s u a s C onsiderações sôbre as
C ausas d a O ra n d eza e da D ecadência dos R om anos.
N e rv o so , co n ciso a té à s e q u id a o , M o n te sq u ie u
p a re c e s e m p re v e rd a d e iro , m esm o q u a n d o c o n ­
j e c t u r a , p o r q u e o s e u p e n s a m e n to é s e m p re e m p o l­
g a n te .
A q u a lid a d e d a s su a s id é ia s fa z -n o s e sq u e c e r
q u e e le te m g r a n d e e n g e n h o .
A s s u a s C onsiderações são e s c rita s em p e q u e n o s
p a rá g ra fo s , e os se u s p a rá g ra fo s em fra se s c u r ta s ,
q u e se e m b a te m e q u e c in tila m .
E is a q u i d o is e x e m p lo s d a s u a m a n e ira de
d iz e r, c o lh id o s ao a c a s o :

E m R o m a , g o v e r n a d a p e l a s leis, o p o v o s o f r i a q u e o
S e n a d o t i v e s s e a d i r e c ç ã o d o s n e g ó c io s . E m C a r t a g o , g o v e r ­
n a d a p o r a b u s o s , o p o v o q u e r i a fa z e r t u d o só p o r si.
O s R o m a n o s e r a m a m b i c i o s o s p o r o r g u l h o e os C a r ­
t a g i n e s e s p o r a v a r e z a ; u n s q u e r i a m m a n d a r e os o u t r o s
a d q u ir ir ; e êstes ú ltim o s, ca lc u la n d o c o n tin u a m e n te a receita
-e a d e s p e s a , f i z e r a m s e m p r e g u e r r a , s e m a a m a r .

( G r a n d e z a e d e c a d ê n c i a , c. iv).
300 ▲ FORM AÇÃO D O B B T IL .O

E is to :

A q u ê l e s , q u e a o p r i n c í p i o fo ra m c o r r o m p i d o s p e l a s suas-
r i q u e z a s , f o r a m - n o d e p o i s p e la s u a p o b re z a .
C o m o b e n s s u p e r i o r e s a u m a c o n d i ç ã o p r i v a d a , foi
difícil s e r b o m c i d a d ã o ; c o m os d ese jo s e a s s a ü d a d e s de
u m a g r a n d e f o r t u n a a r r u i n a d a , e s t a v a - s e d is p o s to p ara
to d o s os a t e n t a d o s ; e, c o m o d iz S a l ú s t i o , h o u v e u m a g e r a ­
ção, q u e n ã o p o d i a t e r p a t r i m ô n i o , n e m s o fre r q u e o u t r o s o
tivessem .
( Ib id ., c . x ) .
f

E p o u c o m a is o u m e n o s n e s te to m q u e são
e s c rita s as p a s s a g e n s s a lie n te s d a s Considerações
sôbre os R o m a n o s.
O E s p ír ito das L e is é m a is f r is a n te a in d a. V ol­
ta ir e c h a m o u - lh e u m a « co m p ilação de relev o s e
e p ig ra m a s » .
O p ro c e sso d e s te e stilo p o d e re s u m ir-s e em
p o u c a s p a la v r a s : b a la n ç o s im é tric o d e pequenas
a n títe s e s , co m o n e s ta s lin h a s , c o lh id a s ao acaso::
N a s m o n a r q u i a s e x t r e m a m e n t e a b s o l u t a s , os h i s t o r i a ­
d o r e s a t r a i ç o a m a v e r d a d e , p o r q u e n ã o t ê m a l i b e r d a d e de
a d iz e r . N o s E s t a d o s e x t r e m a m e n t e l i v r e s , a t r a i ç o a m a v er­
d a d e , p o r c a u s a d a s u a p r ó p r i a l i b e r d a d e ; c a d a u m to rn a-se
t ã o e s c ra v o d o s p r e c o n c e i t o s d a s u a facção, c o m o o seria
de u m déspota.
( E s p í r i t o d a s L e is , 1 . x i x , c. x x v i i ) .

E a in d a e s ta p a s s a g e m :
H á crim inosos q u e o m a g is tr a d o p u n e e h á o utros que
c o r r i g e : os p r i m e i r o s s ã o s u b m e t i d o s ao p o d e r d a lei, os
outí%s à s u a a u t o r i d a d e ; a q u ê l e s s ã o e x p u l s o s d a socie-
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 301

d a d e , e s t e s s ã o o b r i g a d o s a v i v e r , s e g u n d o as r e g r a s d a
sociedade.
N o e x e r c í c i o d a p o líc ia , q u e m p u n e é m a i s o m a g i s ­
t r a d o q u e a lei : n o s j u l g a m e n t o s d o s c r i m e s , q u e m p u n e é
a n t e s a lei d o q u e o m a g i s t r a d o . O s a s s u n t o s d a p o l í c i a s ã o
c o i s a s d e c a d a m o m e n t o e n ê le s se t r a t a . o r d i n a r i a m e n t e d e
c o is a s d e p o u c a m o n t a : s ã o d i s p e n s a d a s p o r t a n t o a s f o r m a ­
l i d a d e s . O s p r o c e s s o s d a p o l í c i a s ã o r á p i d o s , e e l a e x e rce-se
s ô b r e c o i s a s , q u e s u c e d e m t o d o s os d i a s : o s g r a n d e s c a s ti g o s
n ão lh e são p ró p rio s . A polícia o cupa-se c o n tin u a m e n te de
p o r m e n o r e s : o s g r a n d e s e x e m p l o s n ã o f o r a m fe ito s p a r a ela.
A p o l í c i a t e m a n t e s r e g u l a m e n t o s q u e leis.
A s pessoas, q u e d ep e n d e m dela, estão c o n tin u a m e n te
so b os o lh o s do m a g is tr a d o ; p o rta n to a c u lp a é do m a g is­
t r a d o . se c a e m e m a b u s o s .
P o r isso se n ã o d e v e m c o n f u n d i r a s g r a n d e s v i o l a ç õ e s
d a s leis com a v io lação d a s im p le s p o lícia : são coisas de
o rd e m diversa.
R e su lta d a q u i q u e n u n c a nos conform am os com a n a tu ­
re z a d a s coisas, n e s ta r e p ú b lic a d e Itá lia , o n d e o p o r te de
a r m a s d e fo g o é p u n i d o c o m o u m c r i m e c a p i t a l e o n d e n ã o
é m a is fatal fazer d elas m a u u s o do q u e tra z ê -la s.
S e g u e -se , a in d a , q u e a acção tão lo u v a d a d a q u e le im p e­
r a d o r , q u e fêz e m p a l a r u m p a d e i r o q u e s u r p r e e n d e r a e m
f r a u d e , é u m a c t o d e s u l t ã o , q u e só s a b e s e r j u s t o , u l t r a ­
ja n d o a p r ó p r ia ju stiça.
( O E s p í r i t o d a s L e i s , 1. x x v i , c. x x iv ).

T a is sã o o s a u to r e s 0 , e m q u e se p o d e rã o e s tu -

(l ) T o d o s ê s t e s e s c r i t o r e s n ã o e m p r e g a r a m ú n i c a e
e x c lu s iv a m e n te a an títe se . U m ta l ab u so to rn á-lo s-ia in s u ­
p o rtáv eis. T e m a c a d a m o m e n to p á g in a s lím p id a s e n a tu ­
r a i s ; m a s s e n te - s e q u e a a n títe s e c o n s titu i a essência d a s u a
n a tu re z a e do seu talen to .
302 A FORM A ÇÃ O DO H S T IL O

d a r , s e m r e s e r v a , o s r e c u r s o s q u e a a n títe s e p o d e
o fe re c e r, n o s e n tid o e m q u e a c o m p r e e n d ia m Isó -
c ra te s , G ró rg ias e a e sc o la g r e g a .
E m b o r a e x c e s s iv o s o u a fe c ta d o s , co m o R o u s ­
s e a u e M o n te s q u ie u , e s te s a u t o r e s c o n tê m b a s ta n te s
q u a lid a d e s , q u e f a z e m e s q u e c e r o s s e u s d e fe ito s.
F a lta - n o s i n d i c a r os e s c r ito r e s , e m q u e o e stu d o
d e s te p ro c e s s o n a o p o d e s e r f e ito s e n ã o c o m e x tr e m a
re se rv a .

FLÉCHIER j

F l é c h i e r é o r e i d a a n t í t e s e , n o e s ta d o a g u d o .
O s te n ta - a , e s g o ta -a , r e q u i n ta - a .
A s u a e lo q ü ê n c ia ó to d a u m a a n títe s e .
T a in e d iz :
— « F l é c h i e r u s a e a b u s a d a s i m e t r i a d a a n tí-
s \ j

te s e . E s te s c o n tr a s te s p r o lo n g a d o s a g ra d a v a m
n o s é c u lo x v ii , c o m o u m a p a l a v r a p ic a n te no
s é c u lo x v i i i , o u h o je e m d ia u m a im a g e m im p re ­
v is ta » (*).
J á c ita m o s F l é c h i e r ; n ã o a b u s a r e m o s ag o ra.
N a s u a O ração F ú n e b r e d a D u q u e s a de A ig u il-
lon, t i r a b e lo p a r t i d o d a r e s i g n a ç ã o , q u e a sen h o ra
A ig u illo n m o s tr o u n o m o m e n to d e m o r r e r .
A s a n títe s e s s a e m f à c i l m e n t e d o a s s u n to e não
se p o d e m c r i ti c a r .

(!) T a in e , E n s a io s de C r ític a , p . 20.


A FORM AÇÃO DO B S T IL .O 303

C o n te n t e m o -n o s em n o ta r o c u id ad o , com q u e
êJe as a p r e s e n ta e as s e p a ra :

V i a m - n a s o f r e r , m a s n ã o a o u v i a m q u e i x a r - s e : féz
v o to s p e l a s u a s a l v a ç ã o e n ã o p e l a s u a s a ú d e ; d i s p o s t a a
viver p a ra c o n c lu ir a penitência, disposta a m orrer para
c o n s u m a r o s e u s a c r i f í c i o ; s u s p i r a n d o d e p o i s do de&camso
d a P á t r i a , s u p o r t a n d o p a c i e n t e m e n t e as p e n a s d o s e u ex ílio ;
e n t r e a d o r e a a l e g r i a , e n t r e a p o sse e a e s p e r a n ç a , r e s e r -
v a n d o - s e t ô d a p a r a o s e u C r i a d o r , e s p e r o u t u d o q u e p o d e r ia
s u c e d e r , e só d e s e jo u o q u e D e u s q u i s e s s e fa z e r d e l a .

I s t o p o d e lo u v a r - s e ; m a s é r a r o q u e F lé c h ie r
n ã o c a ia e m s u b tile z a s .
A p recio sid a d e p r e ju d ic a to d a s as s u a s o b ras.
E is c o m o ele se r e f e r e ao d is c u rs o , p ro n u n c ia d o
d ia n t e d o s m a g is tr a d o s p elo s P a d r e s d o O r a tó r io :

E r a preciso falar d ia n te do p rim eiro o ra d o r do P a r la ­


m e n t o e p r e g a r j u s t i ç a à q u ê l e s q u e a a p l i c a m ; e r a p re c is o
dizer-lhes as m áx im as do E v an g e lh o com ta n ta gravidade
c o m o ê le s p r o n u n c i a m a s s u a s s e n t e n ç a s ; t o r n a r - s e ju iz
dos p ró p rio s juizes e fa la r-lh e s do p ú lp ito com t a n t a a u to ­
r i d a d e , c o m o ê le s f a l a m n o s e u t r i b u n a l .

C ite m o s ta m b é m o r e t r a t o d e F l é c h i e r , tra ç a d o
p o r si p ró p rio :

F a la p o u c o , m a s c o n h e c e - s e q u e p e n s a .
C e r t o s m o d o s fin o s e e s p i r i t u o s o s i n d i c a m d o s e u s e m ­
b la n te a q u ilo q u e a p ro v a ou a q u ilo q u e co n d en a, e até o
seu silêncio é in te lig ív e l.
Q u a n d o f a l a , v ê -s e b em q u e s a b e r ia c a l a r - s e ; e q u a n d o
ê le se c a l a , v ê - s e b e m q u e é le s a b e r ia .
-304 A FORMAÇÃO DO H 8TID O

O u v e os o u t r o s s e r e n a m e n t e e p a g a - l h e s m u i t a s vezes
c o m a p a c iê n c ia o u a ate n ç ã o , com q u e p a r e c e escu tá-lo s.
P e r d o a - l h e s de boa m e n t e o t e r e m p o u c o e s p i r i t o . c o n ­
t a n t o q u e êles o n ã o q u e i r a m c o n v e n c e r d e q u e té m m u i t o .
O q u e faz q u e êle seja bem re ceb id o n a sociedade, é êle
c o m p a t i b i l i z a r - s e c o m todos e n ã o 'se p r e f e r i r a n i n g u é m .
N ã o se e m p e n h a em fazer v a l e r o q u e s a b e ; a n t e s q u ero
d a r a o s o u t r o s o p r a z e r de d i z e r e m êles p r ó p r i o s o que
sabem . . .

T em o s a q u i p r in c ip a lm e n te o d ito a g u d o .
F ló c h ie r to r n a -s e e s p iritu o s o p a ra se liso n je a r;
p o r d e tr á s d a p re o c u p a ç ã o , se n te -se o a rtifíc io .

SAINT-ÉVREMOND

S a i n t - É v r e m o n d é m u ita s v e z e s ta m b é m um
b o m m o d elo d e a n títe s e s .
E s c r e v e u m u ito , e S a in t-B e u v e faz dêle alto
c o n c e ito .
B a s ta r - n o s - á a c o m p ila ç ã o d o s e x tra c to s de
S a in t- E v r e m o n d , p u b lic a d a p o r M r. Gridel.
O d e fe ito d e S a in t- E v r e m o n d ó te r ab u sad o de
s u b tile z a s .
E f a t ig a n t e m e n t e e n g e n h o s o , m a s é b rilh a n te
o s e u e stilo .
O s e u r e tr a to , fe ito p o r ê le p ró p rio , m ostra
b em o s e u p ro cesso e s t i l í s t i c o :

É u m filósofo t ã o a f a s t a d o d o s u p e r s t i c i o s o como do
í m p i o ; u m v o l u p t u o s o , q u e n ã o t e m m e n o s a v e rs ã o pela
l i b e r t i n a g e m d o q u e i n c l i n a ç ã o p a r a o s p r a z e r e s ; um
A FORM A ÇÃ O D O H S T IL O 305

h o m e m , q u e n u n c a s e n t i u a n ecessid ad e, q u e n u n c a co n h e -
-ceu a a b u n d â n c i a .
V i v e n u m a c o n d i ç ã o m e n o s p r e z a d a p a r a aq u êles q u e
t ê m t i d o , i n v e j a d a p o r a q u ê le s q u e n a d a tê m , ap reciad o
p o r a q u ê l e s q u e f a z e m c o n s i s t i r a s u a felicidade n a s u a
razão.
E m m o ç o , o d i o u a d i s s i p a ç ã o , convencido de q u e m u ito
e r a p r e c i s o p a r a a s c o m o d i d a d e s d e u m a lo n g a vida-, velho,
c u s t a - l h e s o f r e r a e c o n o m i a , j u l g a n d o q u e a necessidade é
p o u c o p a r a r e c e a r , q u a n d o r e s t a p o u co te m p o p a r a se ser
m iserável.
M o s t r a - s e s a t i s f e i t o c o m a n a t u r e z a : n ã o se q u eix a d a
f o r t u n a . A b o r r e c e o c r i m e , t o l e r a as faltas, l a s t i m a a des­
graça.
N ã o p r o c u r a n u n c a n o s h o m e n s o q u e êles tê m de
m a u , p a r a o s d i f a m a r ; p r o c u r a o q u e êles t ê m d e rid ícu lo
p a r a se d i s t r a i r ; t e m u m p r a z e r secreto em o conhecer, e
t e r i a m a i o r p r a z e r a i n d a e m o d e s c o b r i r aos o u tr o s , se a
d i s c r i ç ã o o n ã o i m p e d i s s e d isso .
N ã o s e i n t e r e s s a p e l o s e s c r i t o s m a i s su b s ta n c io s o s , p a r a
a d q u i r i r a c i ê n c i a , m a s p e lo s m a i s s e n s a to s , p a r a fortificar
a razão.
O r a p r o c u r a o s m a i s d e l i c a d o s , p a r a d a r delicadeza ao
s e u g ô s t o , o r a o s m a i s a g r a d á v e i s p a r a d a r ag rad o ao seu
gênio.
( E l o g i o s e R e tr a to s , p. 133 e 134).

E s t e r e t r a t o fa z le m b r a r o de F lé c h ie r, m as ó
m e n o s p r e t e n s i o s o e d e u m g ê n e ro m a is g ra v e ­
m e n te p in tu re s c o .
C o lo c a r e m o s S a in t- É v r e m o n d n a m esm a p la n a
q u e G rués d e B a lz a c , e, a p ó s ele, V o itu r e .
O S ó c r a te s C ris tã o d e B a lz a c é a d m irá v e l de
c o n d e n s a ç ã o e d e b e la s a n títe s e s .
20
306 A FORM AÇÃO DO B B T ID O

É u m a o b ra p a ra se re le r, p o sto q u e o estilo
seja e n v e rn iz a d o , d o u ra d o , com u m a g a la n ta ria que
fa tig a .
Q u a n to a V o itu re , as su a s c a rta s seduzem , m as
são d e se sp e rad o ra s d e esforço, de en fad o e de sub­
tileza.
N o sécu lo x v iii, fa lta -n o s a ss in a la r, p a ra exem­
plos d e a n títe s e s , os E logios de E o n te n e lle ; Ensaio
sôbre os E logios d e T o m á s e, p a rtic u la rm e n te , as
C onsiderações sôbre os C ostum es, de D u elo s, traba­
lh o á rid o , m a s q u e se n ã o esquece.

VÍTOR HUGO

E n t r e os nossos a u to re s co n tem p o rân eo s, há


u m q u e e n c a rn a a a n títe s e : é Y íto r H u g o .
O se u ta le n to é u m a p e r p é tu a criação de antí­
teses.
A s s u n to s , c a ra c te re s, d ra m a s, ro m an ces, estilo,
tu d o é a n títe s e .
E x p lo ra -a p e la im a g e m ; in s is te n e la com afec-.
ta ç ã o ; e n c ru s ta -a em d ia m a n te .
S e ria p u e r il in s is tir . B a s ta r á a b r ir as suas
poesias (1).

(!) P o d e r ã o c i t a r - s e , c o m o e x e m p l o s típ ic o s , as estro­


fes à D u q u e s a d e A b r a n t e s , o s q u a t r o v e r s o s sôbre o per­
d ã o d e B l a n q u i , a f a m o s a e s t r o f e d o c r u c i f i x o : «V ó s, que
c h o r a is , v i n d e a ê s t e D e u s . . . » e ê s te s v e r s o s sôbre o casa­
m e n t o de s u a filh a :
A FO RM A ÇÃ O DO H S T IL O 307

A s u a p ro s a ó m a is s ig n ific a tiv a a in d a , p o rq u e
a c o n tin u id a d e do p ro cesso é m ais v is ív e l.
E s ta d e ia a a n títe s e em fra s e s a p o c a líp tic a s .
P e g a r em d u a s p e d ra s , p a r ti- la s d e m il m a n e i­
ra s, p a r a d e s lu m b r a r a v is ta e t i r a r d e la s re lâ m ­
p a g o s : e is o s e u m é to d o .
O v e n to d a s u a im a g in a ç ã o v a r r e tu d o .
E ta n t o o s e u e s tro , p o s s u i u m ta l jo r r o d e
p a la v r a s e d e im a g e n s , q u e q u á s i n o s e sq u ecem o s
d e ssa e x p lo ra ç ã o a rtific ia l.
N o te m o s , n o s s e u s M iserá veis (*), q u a tr o p á g i­
n a s d e a n títe s e s a to rd o a d o ra s , c u ja s im e tr ia a r t i ­
fic ia l P h i l a r ê t e C h a s le s c r itic a v a co m ra z ã o .
L e r - s e - á ig u a lm e n te n o s M ise rá v e is o c é le b re
r e t r a t o d e L u í s F ilip e , u m v e r d a d e ir o fo g o d e a r t i ­
fíc io d e a n títe s e s (*).

« A m a a q u ê l e q u e t e a m a e n ê l e sê d i t o s a .
A d e u s ! S ê d ê l e só a r i q u e z a p r e c i o s a ,
c o m o já fo s te a n o s s a .
V a i, m i n h a filha, sai,
D e ix a a t u a fa m ília e fo rm a r o u tr a vai.
L e v a a t u a a le g ria , o júbilo, a v e n tu r a ,
e deixa-nos a nós ap en as a a m a rg u ra .
N ó s re te m o s-te a q u i, e d ese ja m -te além .
F ilh a , espôsa, crian ça, h á o dever a c u m p rir.
D e ix a -n o s a s a ü d a d e e leva-lhe a esp e ra n ç a ;
sai e m b o ra ch o ran d o , e e n tra além a s o r r i r .»

(1) O s M is e r á v e is , 1. i, c. m .
(*) O s M is e r á v e is , 1 . iv , c. m .
308 A FORM AÇAO DO B JS T IL .O

N os se u s D isc u rso s, e s s e m é to d o to r n a -s e a
p ró p ria s u b s tâ n c ia d o s e u ta le n to , co m o n e sta s
lin h a s so b re os « se n h o re s* d e P o r t - R o y a l :
A p e r t a r o l a ç o d a I g r e j a , p o r d e n t r o e p o r fo ra, com
m a is d i s c i p l i n a n o p a d r e e m a i s c r e n ç a n o f i e l ; r e f o r m a r
R o m a , o b e d e c e n d o - l h e ; f a z e r n o i n t e r i o r , e c o m am o r, o
q u e L u te ro p r o c u r a fazer e x te r io r m e n te e com c ó le ra ;
c r ia r em F r a n ç a , e n tr e o povo i g n o r a n t e e sofredor e a
nobreza v o lu p tu o sa e c o rro m p id a , u m a classe interm ediá­
r i a , s ã, e s t ó i c a e f o r t e , u m a a l t a b u r g u e s i a , i n t e l i g e n t e e
c r i s t ã ; f u n d a r u m a I g r e j a m o d ê l o n a I g r e j a , u m a nação
m o d ê l o n u m a n a ç ã o , t a l e r a a s e c r e t a a m b i ç ã o , t a l era a
a s p i r a ç ã o p r o f u n d a d ê s s e s h o m e n s , q u e e r a m e n t ã o ilustres
p e l a t e n t a t i v a r e l i g i o s a e q u e s ã o h o j e i l u s t r e s p e lo resul­
tado literário.
E n q u a n t o n o s é c u lo r e b o a v a m a s f e s t a s e as v itó ria s ;
e n q u a n t o t o d o s o s o l h o s a d m i r a v a m o g r a n d e rei e todos
os e s p í r i t o s o g r a n d e r e i n o , é le s , ê s s e s s o n h a d o r e s , êsses
s o l i t á r i o s , c o n d e n a d o s ao e x ílio , a o c a t i v e i r o , à m o r t e obs­
c u ra e lo n g ín q u a , encerrados n u m c la u stro condenado à
r u í n a , e d e q u e a c h a r r u a a p a g a r i a os ú l t i m o s v e s tíg io s ;
p e r d i d o s n u m d e s e r t o , a a l g u n s p a s s o s d e s s a V e rs a lh e s ,
d e s s a P a r i s , d ê s s e g r a n d e r e i n o , d ê s s e g r a n d e re i, lav ra d o ­
r e s e p e n s a d o r e s , c u l t i v a n d o a t e r r a , e s t u d a n d o os textos,
i g n o r a n d o o q u e f a r i a a E u r o p a e a F r a n ç a , p r o c u r a n d o na
E s c r i t u r a s a n t a p r o v a s d a d i v i n d a d e d e J e s u s , p ro c u ra n d o
n a c r i a ç ã o a g l o r i f i c a ç ã o d o C r i a d o r , c o m o o l h a r fixo üni-
c a m e n te em D eu s, m e d ita v a m os livros sa g ra d o s e a natu­
r e z a e t e r n a , a B í b l i a a b e r t a n a I g r e j a e o sol q u e re sp la n ­
decia nos c é u s !
( A n t e s do E x í l i o , p , 8 6 : R e s p o s t a a S a i n t - B e u v e ) .

E s ta p a s s a g e m ó d e H u g o .
A p re o c u p a ç ã o te m a li ju s te z a e faz-se supor-
A FORM AÇÃO DO E S ST IL O 309

ta r . Sabe-s© a q u e e x c e sso s o g r a n d e p o e ta le v o u
d e p o is a a n títe s e .
O s e u W illia m S h a ke sp ea re (u m g r a n d e v o lu m e ),
p a re c e u m a c a r i c a t u r a g r a c io s a d a q u e le p ro cesso
n o d o m ín io d a p r o s a , c o m o as C anções das R u a s e
dos B o sq u e s r e s u m e m o a b u s o d a s u a a n títe s e e m
v p rso .

LUÍS BLANC

E n c o n tr a r - s e - ã o a n títe s e s d ig n a s d e s e re m e s tu ­
d a d a s e m d o is o u tr o s e s c r ito r e s m o d e r n o s : L u í s
B la n c e L a m a r t in e .
P o n h a m o s d e p a r t e a q u a lid a d e d o u t r i n a i d a
H is tó r ia d a R e v o lu ç ã o e d a H is tó r ia dos D e z A n o s ,
d e L u í s B la n c .
S o m e n te a f o r m a n o s d e v e p r e o c u p a r .
L u í s B la n c é u m v ig o r o s o p ro s a d o r .
T e m o c u n h o d a a n t í t e s e v ig o r o s a e o s e u
e s tilo p r o c e d e d ir e c ta m e n t e d e R o u s s e a u , m a s ó
m a is seco , c o n c iso , p o r a s s im d iz e r c o n tr a íd o , p r o ­
c u r a n d o o e f e ito , o b r i l h o e a p r o f u n d e z a .
O s r e t r a t o s d a s u a R e v o lu ç ã o , os d e M a r a t,
R o b e s p ie r r e , B a il ly , L a - F a y e t t e , fa lso s o u v e r d a ­
d e iro s , s ã o s u r p r e e n d e n t e s .
A c a d a i n s t a n t e , te m p a la v r a s , q u e fa z e m le m ­
b r a r T á c ito .
F o i L u í s B la n c q u e m d is s e :
— « A n te s d e 8 9 , t í n h a m o s o p ã o s e m a l i b e r ­
d a d e ; h o je te m o s a l i b e r d a d e s e m o p ão .»
310 A FORM AÇÃO DO H S T IL .O

À c ê rc a do C a rd e a l D u b o is, no s e u le ito de
m o r te :
— «R odeado p o r a lg u n s am ig o s, pois q u e ele
te v e am ig o s.»
F a la n d o d a s u s p e ita d e in c e sto , q u e p eso u sobre
a m e m ó ria do D u q u e d e O rle ã e s:
— «A acu sação n ão e s tá p ro v a d a ; m as ó a sen­
te n ç a o q u e se re c e ia » , e tc ., etc.
E is a q u i o r e tr a to d e L a - F a y e tte , q u e resu m e
o p ro cesso d e L u ís B la n c :

C o m o p ô d e êle a g r a d a r à b u r g u e s i a , s e m d e i x a r de ser
f id a lg o ?
P r o v é m isso d a a r t e q u e êle t i n h a de fazer q u e lhe
p e r d o a s s e m a s e x c e lê n c ia s d o s e u a lto n a s c i m e n t o , não
t e n d o n i n g u é m , c o m o êle, le v a d o m a i s l o n g e as seduções
d a d ig n id a d e sem so b ran ç aria e d a h ábil fam iliaridade.
T i n h a , a l é m d is s o , aos o lh o s d a q u e l a cla s s e m é d ia , que
d e t e s t a v a o p a s s a d o e q u e se i n q u i e t a v a c o m o f u t u r o , o
m e r e c i m e n t o i n a p r e c i á v e l d e n a d a q u e r e r d e decisivo.
O poder atraía-o e assustava-o altern ativ am en te.
A terrav a-o e encantava-o.
D o p o v o q u e r i a , n ã o a s u a d o m i n a ç ã o , m a s os ap la u s o s .
D e f o r m a q u e , s e m p r e i m p e l i d o p a r a a f r e n t e , pelo
g ô s t o d a p o p u l a r i d a d e , r e c u a v a s e m p r e pelo s ec reto t e rr o r
q u e lhe in sp irav a a dem ocracia.
R e p u b l i c a n o d e s e n t i m e n t o , r e a l i s t a d e o casião , defen­
s o r i n f a t i g á v e l , p elo s s e u s actos, d e u m t r o n o , q u e èle não
d e i x a v a d e m i n a r c o m s e u s d i s c u r s o s ; e n é r g i c o n a re s is tê n ­
c ia , n ã o n o a t a q u e , e t o t a l m e n t e d e s p r o v i d o de au d á cia,
p ô s to q u e c o rajo so , a t é as s u a s c o n t r a d i ç õ e s e as s u a s per­
p é t u a s in d e c is õ e s o t o r n a v a m p r ó p r i o p a r a m a n t e r u m a
situação interm ediária.
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 311

LAMARTINE

H á n o s G ir o n d in o s u m L a m a r tin e p ro sa d o r,
q u e n ã o e n c o n tr a m o s e m n e n h u m a o u tr a o b ra su a .
O e s tilo d o s d o is p r im e ir o s v o lu m e s ó o de u m
g ra n d e p ro s a d o r .
L a m a r t in e e s c re v e u a li, u n ic a m e n te p o r a n tí­
tese, u m a o b ra d e e x tr a o r d in á r i a elev ação .
O s se u s r e t r a to s são m o d e lo s d e li te r a t u r a .
E n c o n tr a m - s e a li, e m c a d a p á g in a , tre c h o s de
p r im e ir a o rd e m , e n tr e o s q u a is s e ria d ifíc il a
esco lh a.
P o u c o s e s c r ito r e s p r o d ig a liz a r a m tã o firm e elo­
q ü ê n c ia , t a n t a s a p ro x im a ç õ e s e m p o lg a n te s , u m a
t a l e le v a ç ã o d e a p re c ia ç õ e s , u m a a lia n ç a tã o c o m ­
p le ta e n t r e os p e n s a m e n to s e os fa c to s.
É o t r i u n f o d a a n títe s e ir r e p r e e n s ív e l.
L e v e m le r -s e c o n tin u a m e n te os d o is p rim e iro s
v o lu rta e s d o s G iro n d in o s.
E m a is q u e p ro c e sso , e é m a is q u e ta le n to .
B a s ta r á a b r ir m o s , ao acaso, p á g in a s d e s ta s :

M ir a b e a u e le v a -s e e n t r e to d o s os p a r t i d o s e a c im a
d ê le s .
T o d o s o d e t e s t a m , p o r q u e os d o m i n a ; e t o d o s o c o b i ­
ç a m , p o r q u e ê l e p o d e p e r d ê - l o s o u s e r v i - lo s .
N ã o se e n tr e g a a n in g u é m , n eg o cia com to d o s ; lança,
im p assív el, sôbre o elem ento tu m u ltu o so d a q u e la A ssem ­
b lé ia , as basts d a C o n stitu ição re fo rm a d a . . .
O c a rá c ts r do seu gên io , tão definido e tã o d e s c o n h e ­
c id o , é a in d a n e n o s a a u d á c ia q u e a justeza.
312 A FORM A ÇÃ O D O B JS T IL O

T e m , s o b a m a je s tífd e d a e x p r e s s ã o , a i n f a l i b i li d a d e i o
b o m sen so .
O s p r ó p r i o s v í c i o s n ã o p o d e m p r e v a l e c e r s ô b re a niti­
dez e a sin cerid a d e d a s u a in teligência.
A o p é d a t r i b u n a , é u m h o m e m s e m p u d o r e sem vir­
t u d e ; n a trib u n a , é u m hom em digno.
E n t r e g u e a o s s e u s d e s r e g r a m e n t o s p a r t i c u l a r e s , subor­
d i n a d o p e l a s p o t ê n c i a s e s t r a n g e i r a s , v e n d i d o à c ô r te para
s a t i s f a z e r o s s e u s g o s t o s d i s p e n d i o s o s , g u a r d a , n e s t e tráfico
v e rg o n h o so do seu c a rá c te r, a in c o r r u p tib ilid a d e do s u
gênio.
D e t ô d a s a s f o r ç a s d e u m g r a n d e h o m e m s ô b re o s í u
s é c u lo , só l h e f a l t a a h o n e s t i d a d e . . .
A c ô r t e ficou v i n g a d a , p e l a s u a m o r t e , d a s afrontas
q u e ê le l h e fiz e ra s u p o r t a r .
A a r i s t o c r a c i a , i r r i t a d a , p r e f e r i a a s u a q u e d a aos seus
s e r v i ç o s . Ê l e e r a a p e n a s p a r a a n o b r e z a u m a p ó s t a t a da
s u a c l a s s e . A ú l t i m a v e r g o n h a p a r a e l a foi s e r le v an tad a
u m d ia por aquêle q u e a tin h a hu m ilh ad o .
M enos q u e M ira b e a u , L a - F a y e t te p arecia m aior.
O m e s m o s u c e d i a c o m t o d o s os o r a d o r e s d a Assembléia^
N ã o t i n h a r i v a i s , m a s t i n h a in v e jo s o s .
A s u a e l o q ü ê n c i a p o r m u i t o p o p u l a r q u e fôsse, ers a d e
u m nobre.
( G i r o n d i n o s , 1. i , c . i t ) .

V o lta n d o a f a la r d e M ira b e a u , a in sp ira ç ã o


a n tité tic a d e L a m a r t i n e n ã o f r a q u e ja :
A s p ró p ria s d e s o rd e n s d a s u a v id a, as im ora/idades da
s u a m o c i d a d e , a f a m a r u i d o s a , m a s d ú b i a , d o fieu n o m e,
f a z i a m - s e c o m p r e e n d e r , c o m s e v e r a s a g a c i d a d e d e ju lg a ­
m e n t o d e si p r ó p r i o , q u e se p o s s u í a b a s t a n t e e l o q ü ê n c ia
p a r a u m faccioso, n ã o t i n h a b a s t a n t e v i r t u d e p a r a u m
republicano.
S a b ia q u e o povo, a in d a n a s s u a s populjíridades revo-
A F O R M A Ç Ã O D O JS8 T I L O 313-

l u c i o n á r i a s , só se p r e n d e a n o m ^ q u e l i s o n j e i a m a s u a
h o n estid ad e in s tin tiv a , pela re p u ta ç ã o de p ro b id a d e , d e
desinterêsse, e a té d e a u sterid a d e, q u e h o n ra m a s u a s im ­
p a tia pelos s e u s g r a n d e s trib u n o s .
M irab e au n ão tin h a n e n h u m a dessas v irtu d e s q u e r i­
das d a m u ltid ã o ; n em seq u e r lhe era p erm itid o te r h ip o ­
crisia.
O v í c i o p e r d o á v e l e p o p u l a r , m a s , e n f im , o v íc io ,
re s p ir a v a n o seu n o m e , nos seu s actos, n a s u a v id a
inteira.
P o d e ria ser u m ú til d em ag o g o , m a s não poderia ser
um C a tilin a nem u m G raco.
R obespierre e P étion, sentados n a som bra, por detrás
dèle, t i n h a m a c i m a d ê l e a v a n t a g e m d e s i t u a ç ã o , q u e M i r a —
beau lhes n ã o s u p u n h a ainda.
M as já co m p re en d ia p erfeitam en te q u e N eck er, B ailly
e L a - F a y e t t e t e r i a m a êsse r e s p e i t o v a n t a g e m s ô b r e êle,
n u m a r e p ú b l i c a , e q u e êle n ã o s e r i a n e l a , a p e s a r d a s u a
incom ensurável superioridade n a tu ra l, senão o seg u n d o
d aquelas m ediocridades populares.
A m b icio so pelas su a s n e c essid ad es p a rtic u la re s , q u e lhe
faziam d e s e ja r a fo r tu n a , a r e p ú b lic a q u e viv e do d esin te ­
rê ss e , n ã o o e n r i q u e c e r i a .
A m b ic io so pelo s e n tim e n to d a s u a s u p e rio rid a d e , q u e
l h e a p o n t a v a o u t r o l u g a r , q u e n ã o fôsse o p r i m e i r o c o m o
s u b a l t e r n o , a r e p ú b l i c a , q u e o n ã o e s t i m a r i a , só l h e o f e r e c ia
funções s e c u n d á ria s .
S o m e n te u m a c ô rte , e u m a côrte em ap ertos, p o deria
r e c o r r e r a ê le c o m o à s u a s u p r e m a s a l v a ç ã o , d e i t a r o v é u
de in d u lg ê n c ia n e c e ssá ria nos corações co rro m p id o s àcêrca
d a s u a p r ó p r i a c o r r u p ç ã o , p e d i r - l h e l u z e s e m v ez d e p r i n ­
c íp io s , p o l í t i c a e m v e z d e d e s i n t e r ê s s e , s e r v i ç o s e m v ez d e
v ir tu d e s ; colocá-lo, como u m R ich elieu ou u m M azarino,
e n tre o povo e ela, elevá-lo, e n c h ê -lo d e d ig n id a d e s e d e
r i q u e z a e p r o p o r c i o n a r - l h e , e m c i r c u n s t â n c i a s d ifíc e is , u m a .
ex istê n c ia tã o g r a n d e com o o seu gênio.
314 A FORM AÇÃO DO H S T IL .O

T rib u n o de u m povo v encedor, ou su s te n tá c u lo de um


re i vencido, e r a m os d o is s o n h o s d e M ir a b e a u .

( H is tó r ia d a s C o n s titu in te s , t. i r , 1. v i l , § 49).

E m a is e s ta s l i n h a s :
O govêrno q u e im p u n h a m a L u ís X V I parecia-lhe um a
e x p e r i ê n c i a , p o r a s s i m d i z e r , f ilo s ó f ic a , q u e a n a ç ã o q u e r i a
fa zer co m o se u rei.
A p e n a s se e s q u e c ia d e u m a coisa : é q u e a s experiên­
c ia s dos povos são catástrofes.
U m r e i , q u e a c e i t a c o n d i ç õ e s d e g o v e r n o i m p o s s ív e is ,
aceita a n te c ip a d a m e n te o seu a n iq u ila m e n to .
A a b d i c a ç ã o v o l u n t á r i a e p e n s a d a é m a i s r e a l q u e essa
a b d i c a ç ã o d i á r i a , q u e s e s u p o r t a c o m a d e g r a d a ç ã o do
poder.
U m rei s a lv a n e la , se n ã o a v id a , p e lo m e n o s a digni­
dade. í
É m a i s p r ó p r i o d a m a j e s t a d e r e a l o d e s c e r , q u e ser
p recip itad o .
D esde o m o m e n to em q u e n ã o h á rei, o tro n o é o
ú ltim o lu g a r do reino.
( G i r o n d i n o s , 1 . v i , c. xi).

C o n tin u e m o s :

E m c a s o d e b o m ê x i t o , L u í s X V I s ó e n c o n t r a v a fôrças
e s t r a n g e i r a s ; e m c a s o d e p r.is ã o , e n c o n t r a r i a u m c á r c e r e no
s e u palácio. i
D e q u a l q u e r lado a f u g a e r a f u n e s t a .
H á a p e n a s u m s ó c a m i n h o p a r a f u g i r d e u m trono,
■quando se n ã o q u e r e m o r r e r n ê l e : é a b d i c a r .
O rei n ã o a b d ic o u .
C o n s e n t i u e m a c e i t a r o p e r d ã o d o s e u p o v o , j u r o u exe­
c u t a r u m a C o n stitu ição de q u e h a v ia fu g id o .
Foi u m rei a m n istia d o .
A FORM AÇÃO DO R 8 T IL .O 315

A E u r o p a só v i u n ê l e u m f u g i t i v o d o t r o n o , c o n d u z i d o
a o s e u s u p l í c i o , o p o v o v ia u m t r a i d o r e a R e v o l u ç ã o u m
jo g u e te .
(G ir o n d in o s , 1. u , c. xxx).

O s d o is o u tr ê s p rim e iro s v o lu m e s dos G iro n ­


d in o s e stã o ch eio s d e e x e m p lo s d estes.
L a m a r t in e e m p re g a às v ezes a condensação
■ antitética d e S a in t- E v r e m o n d o u de B alzac, com o
n e s te r e t r a t o d e F o u c h ó :

A c t o r c o n s u m a d o , s o b os d o is a s p e c t o s d o h o m e m de
a s t ú c i a e d o h o m e m d e a u d á c i a , n ã o l h e f a l t o u n a d a em
h a b i l i d a d e , f a l t o u - l h e p o u c o e m b o m sen so , t u d o e m v i r ­
tu d e. *
E s t a p a l a v r a o d efin e , m a s e s t a p a l a v r a o j u l g a .
O l h á - l o - ã o e t e r n a m e n t e , a d m i r á - l o - ã o a l g u m a s vezes,
n u n c a o estim arão.
( H i s t ó r i a d a R e s ta u r a ç ã o ) .

H.TA1NE

N u m d o s s e u s m e lh o re s liv ro s , c h eio s d e e n c a n to ,
-de b o n o m ia e p e n e tr a ç ã o , a s u a H is tó r ia de L ite r a ­
tu r a F ra n c e sa , E m ílio F a g u e t e sc re v e e s ta s lin h a s :
— «O e s tilo d e T a in e ó u m m ila g r e d e v o n ta d e .
E to d o a r tif ic ia l.
« S e n te - s e q u e n ã o só n ã o h á a li o h o m e m , m a s
o c o n tr á r io d o h o m e m .
A #

« E s te ló g ic o , q u e v i v e u n a a b stra c ç ã o , q u is
e r i a r u m e s tilo p lá s tic o , c o lo rid o , e s c u ltu r a l, to d o
e m re le v o , to d o e m im a g e m , e c o n s e g u iu -o .
« E é p o r is to q u e T a in e ó u m m o d e lo ; p o is,
316 A FORMAÇÃO DO EJ8TILO

v is to q u e o e s tilo n a t u r a l se n ã o a p r e n d e , d e d u z - s e
q u e é e m T a in e e n o s e s c r ito r e s q u e se lh e asse­
m e lh a m , q u e se a p r e n d e r á o e s tilo , q u e se p o d e
a p re n d e r. *
S a r c e y , n a s s u a s R eco rd a çõ es, t i n h a - n o s d ito já
q u e T a in e , ao p r i n c íp i o e s c r i t o r a b s t r a e to , c o lo rira
m a is ta r d e o s e u e s tilo a r t if i c ia lm e n te .
O d o u t o r B r i s s a u d , u m m e s t r e d a c iê n c ia
m é d ic a f r a n c e s a , u m g r a n d e a p a ix o n a d o p e la
l i t e r a t u r a e q u e m u i t o c o n h e c e u T a in e , c o n fir­
m o u - n o s p e s s o a lm e n te e s te s p o r m e n o r e s .
S a b e -s e q u e T a in e l e v o u a a r t e d a a s s im ila ç ã o
a té i m i t a r a d m i r à v e l m e n t e a m a n e i r a p o é tic a d e
H e r é d ia , e m c a r to z e s o n e to s , s o b r e o s g ato s,
p u b lic a d o s n o F ig a r o d e 11 d e M a rç o d e 1 8 9 3 (x).
A i m p o r t â n c i a d a a n t í t e s e n ã o p o d ia e s c a p a r a
e s p ír ito tã o l i t e r á r i o .
T a in e e s c r e v e u p o r s u a v e z b e la s p á g in a s , en>
e s tilo d e a n títe s e .
E is a q u i u m a , a p r o p ó s ito d e T r o p lo n g e d e
M o n ta le m b e rt:

A d o u trin a do direito d iv in o pereceu.


G overnantes e govern ad o s, ca d a u m r e c o n h e c e hoje

(!) Q u a n t o à f o r m a ç ã o l i t e r á r i a d e T a i n e , c o m p a ­
r e m - s e o s s e u s F i l ó s o f o s F r a n c e s e s , n o s é c u l o x ix , ao seu
T ito L í v i o e a o s e u L a - F o n t a i n e ; v e j a - s e , q u a n t o a colo rid o ,
a s u a V ia g e m n a I tá lia ; c o n s u lte -s e t a m b é m a im p o rtan te
o b r a d e B a r z e l o t t i , a F i l o s o fi a d e T a i n e , e o e x c e l e n t e liv ro
d e V íto r G ir a u d , E n s a io sô b re T a in e .
A. F O R M A Ç Ã O DO E S T IL O 317

q u e o ú n ic o p r o p r ie tá r io de u m povo é êle p ró p rio ; q u e a


n a ç ã o n ã o foi f e i t a p a r a o g o v ê r n o , m a s o g o v e r n o p a r a a
n a ç ã o ; q u e n e n h u m a a u t o r i d a d e é l e g í t i m a s e n ã o p e lo c o n ­
s e n tim e n to do p ú b lic o ; q u e n e n h u m a a u to rid a d e é estável
s e n ã o p e l o a p o i o d a o p i n i ã o ; q u e , se o p o v o p a g a i m p o s t o s
e f o r n e c e s o l d a d o s , é p a r a q u e os s e u s i n t e r ê s s e s s e j a m
< ie fe n d id o s , p a r a q u e o s e u b e m - e s t a r s e j a a u m e n t a d o , p a r a
q u e a s u a v o n t a d e seja e x e c u ta d a .
A te o r ia , d e sc e n d o d a p r á ti c a , e s tá p r o v a d a pelos aco n ­
te c im e n to s e h á sessen ta an o s q u e c o n stitu i história.
A c im a d e todos os g o v e rn o s, a tra v é s d e todos os g o v er­
n o s , r e i n o u u m só r e i : a o p i n i ã o p ú b l i c a .
E le s fo ra m os i n s t r u m e n t o s , e la a s e n h o r a ; êles pro ce-
■deram, ela q u i s .
P o r m a i o r q u e fô sse, o s e u p o d e r d e s v a n e c e u - s e e o seu
m e c a n i s m o d e s c o n c e r t o u - s e , l o g o q u e e l a se a f a s t o u d ê l e s .
E l a e m p r e g o u - o s t o d o s e n ã o se l i g o u a n e n h u m .
E l a aceita -o s, com o êles v ê m , ta is co m o os acasos, a
r e v o l t a , a i n t r i g a , a lei, a i l e g a l i d a d e o s a p r e s e n t a m ; m a s
e l a só o s c o n s e r v a q u a n d o s e g u e m o s e u c a m i n h o .
S e ja m êles q u a i s fo rem , e la s u p o r ta - o s , sem escolher
m u i to ; sejam q u a is forem , ela d esm an c h a-o s, sem g ra n d e
dificuldade.
E n c o n t r a - o s c o m o c a r r o s n u m a e s t r a d a ; e so b e p a r a
-êles, p r o n t a a d e i x á - l o s ; e d e i x a - o s , se o s n ã o r e t o m a ,
d ep o is de os deixar.

( E n s a i o s d e C r í ti c a e de H i s t ó r i a , p . 297).

N e s te m e s m o a r t ig o , o s s e u s p ro c e ss o s d e a n t í ­
te s e s to m a m a s p e c to , u m p o u c o se n te n c io so , d e
u m a p á g i n a d e M o n te s q u ie u .
C o m p a r a T r o p lo n g e M o n ta le m b e r t :
A m b o s êles e n c a r a m a h is tó ria d e u m povo e stra n h o ,
p a r a s a b e r q u a l é o govêrno q u e é bom e d u ráv el em F ra n ç a .
318 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

M as u m , observando R o m a, a c h a q u e tal govêrno é a


m o n arq u ia a b so lu ta ; o outro, observando a In g la te rra , acha
q u e êste g o v êrn o é a a r is to c r a c ia lib e ra l.
A v e r d a d e é q u e êles n ã o p r o c u r a r a m n a h is tó ria
senão a r g u m e n to s p a r a a s u a d o u tr in a e a r m a s p a r a sua
causa.
L á p o rq u e o g ovêrno absoluto e ra necessário e durável
a R o m a n ã o se s e g u e q u e seja n e c e s s á rio e d u r á v e l em
tóda a p a rte .
L á p o rq u e a aristo cracia lib eral é ú til e d u rá v e l na
In g la te rra , n ã o se se g u e q u e seja ú t i l e d u r á v e l n o u tr a
p arte.
C a d a p o v o t e m o s e u g ê n i o d i s t i n t o : é p o r isso q u e
cad a povo tem a su a h is tó ria d is tin ta .
A F ra n ç a não é R om a e a In g la te rra não é a F rança.
N in g u é m e n c o n tr a r á e n t r e n ós a s c a u s a s q u e estabele­
ce ram em R o m a a m o n a r q u i a a b s o l u t a ; n i n g u é m desco­
b rirá e n tre nós as forças q u e m a n té m n a I n g la te r r a a aris­
to cra cia liberal.
( E n s a i o s d e C r í t i c a e d e H i s t ó r i a , p . 2 7 8 ).

E m a is a d i a n t e , a p r o p ó s ito d a E r a n ç a :

D e s c o b r i r e i s ali-, e m t ô d a s a s i d a d e s , o d o m d e s e r c l a r o
e de ser a g ra d á v e l. E s t a friv o lid a d e im p e d e o q u e r e r forte­
m e n t e ; e s t a s o c i a b i l i d a d e i m p e d e o q u e r e r p o r si p r ó p r i o .
U m a e n fraq u ec e a e n e r g ia d a s v o n ta d e s , a o u t r a tir a às
vontades a in iciativ a.
O hom em , assim d o ta d o , n ã o sab e i n a u g u r a r a resistên­
c ia , n e m p e r s e v e r a r n e l a .
M u d a facilm en te d e co n v icção e re ceb e fà c ilm e n te dos
o u tro s a convicção.
E s tá d isp o sto , se n ã o a s e rv ir , p elo m e n o s a obedecer.
A ceita d e v o n ta d e , se n ã o a t i r a n i a , p e lo m e n o s a d is­
ciplina.
P ôsto q u e a m e a iro n ia , m a n t é m - s e ca tó lico .
A FORM AÇÃO D O E28T I L O 319
\
P ô s to q u e te n h a h o rro r à m onotonia, venera a re g u la ­
ridade literária.
U m povo a ssim com posto assem elha-se a u m b a n d o d e
c a v a l o s b u l i ç o s o s , m a s dó ceis.
S ó a n d a m j u n t o s e n a s p e ü g a d a s d e u m chefe.

( E n s a io s de C r ític a e de H is tó r ia , p . 317).

T a is são os e s c rito re s , clássico s o u m o d e rn o s,


q u e ó n e c e s s á rio e s tu d a r , p a r a f e c u n d a r o e stilo
p e la a s s im ila ç ã o d a a n títe s e , c o n s id e ra d a com o p ro ­
cesso g e r a l d e e s c r e v e r e com o m a le a b ilid a d e d e
e s p ír ito a a d q u ir ir .
N ã o h á n e c e ssid a d e , b e m e n te n d id o , d e e s tu d a r
m in u c io s a m e n te to d o s e s te s a u to re s .
B a s ta r á e s c o lh e r d o is o u tr ê s d e le s, q u e c o rre s ­
p o n d a m ao v o sso g o s to .
A

E s te s e x e m p lo s d e b o m e s tilo , g ra n d io s o s p r i n ­
c ip a lm e n te e m B o s s u e t, e q u e se e n c o n tr a m e m
to d o s os b o n s e s c rito re s , p r o v a m q u a n to C a rlo s
N o d ie r fe z m a l e m c h a m a r à a n títe s e « u m a f ig u r a
s im é tr ic a e a fe c ta d a , q u e só se m o s tra a b u n d a n ­
te m e n te n a s l i t e r a t u r a s d e g e n e r a d a s ; f ig u r a tã o
in c o m p a tív e l c o m a b o a c o n s tr u ç ã o p o é tic a , co m o
c o m a v e r d a d e e a r a z ã o ; q u e p a r te , q u e m u t il a ,
q u e d e s n a t u r a o p e n s a m e n to ; q u e d á ao p e río d o
u m to m seco , m o n ó to n o , e q u e o b r i g a o e s p ír ito a
o c u p a r - s e c o n t i n u a m e n t e d e c o m p a ra ç ã o e d e c o n ­
t r a s t e s * (x).

C1) Q u e s tõ e s d e L i t e r a t u r a L e g a l , p . 66.
^20 A FORM A ÇA O D O E S T IL O

E m re s u m o , d e tu d o q u e acab am o s de d izer
n e ste s d o is filtim o s c a p ítu lo s , r e s u l ta q u e a a n tí­
te s e ó, p e lo c o n tr á rio , u m dos m eio s m a is seg u ro s
d e in s p ira ç ã o li te r á r ia , e o fio c o n d u to r, q u e une
o s g r a n d e s e s c rito r e s d e e s tilo a b s tra c to .
Os p a r tid á r io s d o f a la r p o r fra se s, de fo rm a
in c o lo r e d e e x p re s s ã o v u lg a r , re p u d ia rã o estes
c o n se lh o s.
A s s u a s o b je c ç o e s, c o n h e c e m o -la s n ó s ; os esco­
lh o s d a a n títe s e , j á o s a p o n ta m o s . D e v e m ev itar-se
a to d o o c u s to , n ã o jo g a r c o m as p a la v ra s , e v ita r
a a n tí te s e fic tíc ia e r e je itá - la , s e m p re q u e ela não
s a ia d o a s s u n to .
M a s, f e i t a e s ta r e s e r v a , o b s e rv a d a ta l p ru d ê n ­
c ia , d e s p r e z a i as re c r im in a ç õ e s , e c a m in h a i ousada-
m e n te n e s t e c a m in h o : a e x p e r iê n c ia v o s en sin a rá
•que e le ó b o m .
C A P ÍT U L O X III

x
Alguns p r o c e s s o s a s s im ilá v e is

E s t i l o a m p l o e e s t i l o c o n c is o . — O s e p i t e t o s . — O em prêg<
d o s e p ite to s . — A e s c o lh a d o s e p ite to s . — O s e p íte to
v a g o s . — O s e p ite to s d e B o s s u e t.— O s s u b s ta n tiv o s d_
B o s s u e t.

S o b o p o n to d e v i s t a d a e s t r u t u r a e d a a r q u i-
t e c t u r a d a s f r a s e s , a lg u n s a u to r e s d iv id ir a m o
e s tilo e m e s tilo a m p lo e e s tilo conciso.
A d if u s ã o ó o d e f e ito d a a m p lific a ç ã o .
A s e c u r a é o d e f e ito d a c o n c isã o .
O e s c r i t o r p o d e s e r b o m , e m p r e g a n d o a fra s e
c u r t a o u a f r a s e lo n g a .
T á c ito , M o n t e s q u i e u n a G ra n d e za e D eca d ên cia
dos R o m a n o s e n o s e u E s p ír ito d a s L e i s , são e x e m ­
p lo s d e c o n c is ã o .
C íc e r o , p e lo c o n t r á r i o , co m o j á v im o s , ó o tip o
d a a b u n d â n c ia e d a p o m p a.
E n tr e n ó s, B o s s u e t é q u e m re p re s e n ta o g ra n d e
e s tilo .
O s p r o c e s s o s d e c o n c is ã o n e m s e m p r e i s e n t a m
d a p ro lix id a d e .
21
322 A FORM AÇÃO DO B J 8 T IL O

M ic h e le t, q u e e sc re v ia aos bo cad in h o s, tem


m u ita s v ezes lo n g u id õ e s.
S én eca e ra fre q ü e n te m e n te m o n ó to n o .
BufFon t i r o u belos e fe ito s d a fo rm a e n ro u p a d a
e m a je sto sa .
E is a q u i u m fr a g m e n to se u , e s c rito em estilo
b a s ta n te a m p lo , e q u e c o n tu d o n ão carece de v id a :

N a d a ig u a l a a v iv a c id a d e d e s ta s a v e z in h a s , a n ão se r
a s u a c o r a g e m e a s u a a u d á c ia .
V e m o - la s p e r s e g u i r co m f ú r ia a v e s, v in te v ezes m aiores
q u e e la s , p r e g a m - s e - lh e ao c o rp o , e, d e ix a n d o -s e a r r a s ta r
p e lo se u v ô o , p ic a m - n a s r e p e tid a s v ez es, a té s a c ia r a su a
c ò le r a z in h a .
A lg u m a s v e z e s t r a v a m a té , e n tr e si, r e n h id o s co m b ates:
a im p a c iê n c ia p a r e c e s e r a s u a a l m a ; a p ro x im a m -s e d e u m a
flo r e, se a e n c o n tr a m m u r c h a , a r r a n c a m - lh e a s p é ta la s com
u m a p r e c ip ita ç ã o q u e p ro v a o s e u d e s p e ito .
N ã o te m o u t r a v o z se n ã o ê ste g r i t i n h o : s c r e p ! s c r e p !
f r e q ü e n te e r e p e t i d o ; fa z e m -n o e c o a r n o s b o sq u e s, desde a
a u r o r a , a t é q u e a o s p r im e ir o s r a io s d o so l to d o s le v a n ta m
v ô o e se d is p e r s a m p e lo s c a m p o s.

(B u ffo n , H i s t . N a t ., A ves).

E is a g o r a a m e s m a d e sc riç ã o , ti r a d a d e M ich elet.


O s e u e s tilo é e m tu d o d if e r e n te :
i

A v id a , n a q u e la s c h a m a s a la d a s , o c o lib r i, o p ássaro -
-m ô s c a , é tã o a r d e n te , tã o i n t e n s a , q u e a r r o s t a to d o s os
venenos.
O s e u b a te r d e a s a s é tã o v iv o , q u e a v i s t a o n ão
a lc a n ç a .
O p á s s a ro -m ô s c a p a r e c e im ó v e l, se m a c ç ã o .
A F O R M A ÇAO D O E S T I L O 323

U m h u r l h u r l c o n tín u o s a i d èle, a té q u e , d e cab eça


baixa, e n te r r a o p u n h a l d o seu bico no seio d e u m a flor,
depois no d e o u t r a , tir a n d o d é le os su lc o s e, à m is tu r a ,
pequenos in s e c to s : tu d o isto n u m m o v im e n to tã o r á p id o
que a n a d a se p o d e a s s e m e lh a r ; m o v im e n to ru d e , c o lé ric o ,
de um a im p r u d ê n c ia e x tre m a , m u ita s vezes ch eio de fú ria ,
contra q u e m ? c o n tr a u m a g r a n d e ave, q u e êle p e rse g u e d e
m o rte; c o n tra u m a flo r já m ir r a d a , à q u a l n ã o p e rd o a o
Dão o te r e s p e ra d o .
E e n c a rn iç a -s e n e la , a n iq u ila - a , fa z -lh e v o a r a s p é ta la s .

(M ic h e le t, A A v e ) .

N ão h á ra z õ e s p a ra a c o n s e lh a r o e m p re g o do
estilo de lo n g a s fra se s, de p re fe rê n c ia ao e stilo de
frases c u rta s .
A n a tu re z a do a s s u n to é o g u ia do g o sto .
0 m e lh o r se rá m is tu r a r os d o is g ên ero s.
D iz u m c rític o :
— «A li t e r a t u r a é u m dos ram o s d a a rte , q u e se
não podem a p r e n d e r a p e n a s p o r esp ecu lação e q u e
exigem, p a ra a classificação n a s escolas e p a r a a in t e ­
ligência dos estilo s, u m a p r á tic a lo n g a e re fle c tid a .
« In d e p e n d e n te m e n te de tu d o q u e se a d q u ir e
com o estu d o d as te o ria s e a m e d ita ç ã o a te n ta dos
modelos, ó p re c iso a in d a s u je ita rm o -n o s , e s u je i-
tarmo-nos p o r m u ito te m p o , ao q u e se p o d e ria
chamar o tec lad o do e s tilo , is to é, ao e x a m e c ir ­
cunstanciado e m in u c io so d a e s t r u t u r a d as fra se s,
das suas ligações, d a s u a so b rep o sição , n o e d ifíc io
geral do d iscu rso .
«F àcilm ente se c o n h e c e m os e s c rito re s , q u e n ã o
324 A FORM AÇÃO DO B S T IL O

e s t u d a r a m a f u n d o o s p r o c e s s o s e le m e n ta r e s d o
e s tilo , p e la s f r a s e s c o x a s , b r a n d a s , p a r t i d a s , se m
p ro p o rç ã o n a e s tr u tu r a e se m a c o rd o n a h a rm o ­
n ia » (*).
J á f a la m o s d e m o r a d a m e n te d o e s t i l o a b s t r a c to
e d o e s tilo d e s c r i t i v o o u c o lo r id o .
O id e a l s e r i a e m p r e g a r a l t e r n a d a m e r i t e o e s tilo
c o p io so e o e s tilo c o n c is o ; m a s h á p o u c o s e s c r i­
to r e s q u e t e n h a m to d o s os d o n s .
S e o s li m i t e s d e s t a o b r a f o s s e m m a is e x te n s o s ,
p o d e r ía m o s t r a t a r d e p o n to s i n t e r e s s a n t e s d a c o m ­
p o s iç ã o l i t e r á r i a .
U m d o s m a is i m p o r t a n t e s é a q u a li d a d e dos
e p ít e to s e d a s im a g e n s , q u e t i r a m to d o o se u
m é r it o d a s u a n o v id a d e e d a s u a v e r d a d e .
J . d e M a i s t r e d is s e c o m j u s t e z a : j
— «O s e p í t e t o s s i g n i f i c a t i v o s sã o o t a l e n t o q u e
d is tin g u e o g ra n d e e s c rito r e p rin c ip a lm e n te o
g r a n d e p o e ta . A f e liz a p a r iç ã o d e u m e p í t e t o ilu s ­
t r a u m s u b s t a n t i v o , q u e s e t o r n a c é le b r e so b esse
v o c á b u lo . O s e x e m p lo s e n c o n t r a m - s e e m to d a s as
l í n g u a s . . . (jQ u a l é o h o m e m l e t r a d o q u e não
c o n h e c e o a v a r e n t o A q u e r o n t e , o s c o r c é is a te n to s ,
o le ito u l t r a j a d o , a s t í m i d a s s ú p lic a s , o f r ê m ito
a r g e n t in o , o d e s t r u i d o r r á p id o , os p á lid o s a d u la ­
d o re s , e tc .? »
S ay o n s d is s e :

(!) G r a n i e r d e C a s s a g -n a c , R e t r a t o s L i t e r á r i o s , p . 230 .
A FORM AÇÃO DO B S T IL O 325

— « F a z e i g u e r r a , n ão ao s e p íte to s , m a s ao
excesso, ao h á b ito ro tin e iro dos e p íte to s , e n ão vos
d eix eis s u r p r e e n d e r a v ó s m esm os p e la espécie de
en can to p o é tic o e m u s ic a l, q u e eles dão à frase,
en can to fa la z , e n c a n to do p rim e iro m o m en to , q u e,
p ro lo n g an d o -se, p ro p o rc io n o u a m ais d e u m o ra d o r
o silê n c io e a frie z a , n a q u ilo em q u e e sp e ra v a
ap lau so s.
« A p ro p ó s ito do e m p re g o dos e p íte to s, to m o a
p eito re c o m e n d a r-v o s a s e g u in te d istin ç ã o , ao
m esm o te m p o te ó ric a e p rá tic a .
«S e n d o p ró p rio do e p íte to , a té certo p o n to ,
esp ecificar u m p o u co o su b s ta n tiv o , p ela c ô r o u
pelo o rn a to q u e ele lh e adiciona, é n a tu r a l q u e o
p reced a. A o p a sso q u e o ad je c tiv o , cu jo se n tid o é
de n e c e ssid ad e, v em n a tu ra lm e n te após, com o após
u m v e rb o s u b e n te n d id o , q u e a firm a ria a s u a
c o n v e n iê n c ia.
«R ig o ro s a m e n te , u m espêsso n e v o eiro é u m a
espécie d e n e v o e ir o ; u m n e v o eiro espêsso ê u m
n ev o eiro q u e se q u a lifica e x p re s s a m e n te de espêsso,
p o rq u e e s ta c irc u n s tâ n c ia ó essen cial ao s e n tid o da
frase.
« S o b re ê s te p rin c íp io , d ir e i:
« U m esp êsso n e v o e iro c o b ria o cam po e u m
n evo eiro espêsso (su b e n te n d id o que era), im p ed ia-
-nos de v e r a d o is passos de d istâ n c ia .
«R e s u lta r ia d e sta te o ria q u e não é in d ife re n te
colocar os a d je c tiv o s a n te s o u d epois do s e u su b s­
ta n tiv o e q u e a d elicad eza d a ex p ressão , com o a
826 A FORM AÇÃO D O H S T I L .O

p recisão do se n tid o , g a n h a r ia m u ito se essa d is tin ­


ção fosse o b s e rv a d a a p ro p ó s ito .
«D igo a p ro p ó s ito , p o rq u e , em m u ito s casos,
eia nSo te m im p o rtâ n c ia , e n o u tro s casos, n u m e­
rosos ta m b é m , o o u v id o , a ssim com o a im aginação,
d e sig n a ao a d je c tiv o o l u g a r q u e m e lh o r lhe
co n v ém .
« P o r e x e m p lo , confesso q u e , n a s sobred itas
frases, se ria in d if e r e n te q u e espêsso e stiv e sse antes
o u d e p o is d e n e v o e iro .
............................................... P a s c a l S a p a tã o
O u S a p a tã o P a s c a l, p o is n ã o é im p o r ta n te
Q u e P a s c a l fiq u e a t r á s , o u P a s c a l v á a d ia n te .

« S u ced e q u e o p r in c íp io é s e m p re bom em si
e m in is tr a ao e s c r ito r u m m e io re a l e precioso de
v a rie d a d e .
« L im ita r -m e-ei a q u i a a lg u n s e x e m p lo s, menos
p a ra e sta b e le c e r a m in h a m o d e s ta te o ria , q u e para
a e x p lic a r e in d ic a r - v o s o s e u u so .
«U m p ro s a d o r e s c r e v e u :
— «O p o d e r h u m a n o p ro c e d e p o r m eio s, o poder
d iv in o p ro c e d e « p o r s i só » .
«E não o h u m a n o p o d e r, n e m o d iv in o poder.
«O m e sm o d is s e m a is a d ia n t e :
— « M e d ita n d o s o b re a n a tu r e z a do hom em ,
« ju lg u e i d e s c o b rir d o is p r in c íp io s d is tin to s, um
«dos q u a is n o s e le v a ao e s tu d o d a s v e rd a d e s eter-
«nas (e não d a s e te r n a s v e r d a d e s ) , ao a m o r d a ju s -
«tiça, e t c . . . . »
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 327

« R o u sseau , p o is é a ele q u e m e refiro, tr a ç a n d o


o q u a d ro p o ético , q u e d e v e s e r v ir de m o ld u ra à
p rá tic a so len e, d o n d e são tir a d a s e sta s fra se s, c o n ­
v e rte p elo c o n tr á rio em e p íte to s, e coloca com o
s u b s ta n tiv o to d o s os a d je c tiv o s q u e e m p re g a :
— «O b o m p a d re a c o m p a n h o u -m e a té fo ra d a
«povoação, a u m a a lta co lin a, ao fu n d o d a q u a l
«passava o P ó , c u ja c o rre n te se a v is ta v a a tra v é s
«das fé rte is m a rg e n s q u e ele b a n h a ; ao lo n g e, a
« g ra n d e c o rd ilh e ir a dos A lp e s co ro av a a p a isa -
«gem , etc.»
€F é rte is m a rg en s é m ais poético q u e m argens
fé rte is.
«C olocado assim , o a d je c tiv o te m não sei q u e
g raça h a rm o n io s a , q u e le v o u u m delicioso p ro sa ­
d o r d a s m in h a s relaçõ es a colocar h a b itu a lm e n te
os se u s a d je c tiv o s a n te s dos s u b s ta n tiv o s, d o n d e
re s u lto u u m c e rto a rtifíc io .
i «E, n ã o o b sta n te , h á esc rito res q u e se não
podem a c u s a r de fa lta de im a g in a ç ã o e de g ra n ­
deza, e q u e fazem , m u ito b e m e p o r h á b ito , a
d istin ç ã o q u e j á vos d e sig n e i.
« P a ra a p r o v e ita r os p rim e iro s exem plos q u e
m e o c o rre m , d ire i q u e B o ssu e t e sc re v e u :
A

— « E ste im p é rio fo rm id á v e l (e não este fo rm i-


«dável im p é rio ), q u e A le x a n d re c o n q u isto u , não
« d u ro u m u ito m a is tem po q u e a s u a v id a , q u e foi
« cu rta.»
«E o a u to r dos M á rtire s:
— « R ó gulo, co n d u z id o a C a rta g o , so fre u os tr a -
328 A FO RM A ÇA O DO E J 8 T IL .O

« to s m a is d e s u m a n o s (e n ã o o s m a is d e s u m a n o s
« tr a to s ) ; fiz e ra m -lh e e x p ia r os d u r o s tr iu n f o s d a
« su a p á t r i a . »
D e to d a s a s q u a lid a d e s q u e p o d e o fe re c e r o
b o m e s tilo , a s im p lic id a d e ó h o je a m a is r a r a r
c o m o é a m e n o s e s tim a d a .
« A p ro s a p o é tic a e o r a tó r ia , e x tr a íd a p o r C h a ­
te a u b r ia n d d a p r ó p r ia e ssên c ia d o s n o sso s m a is
e lo q ü e n te s e s c rito re s , e a in d a dos m a is p ito re s c o s ,
in v a d i u a p o u c o e p o u c o , h á c in q ü e n ta an o s, to d o s
os g ê n e ro s d e c o m p o siç ã o e p a r tic u la r m e n te a l i n ­
g u a g e m d o s jo r n a is . D e ta l m a n e ira , q u e o gosto-
do p ú b lic o , a c o s tu m a d o à q u e la lin g u a g e m s o n o ra
e c o lo rid a , a c h a frio o q u e ó sim p le s, e a p r ó p r ia
c r ític a n ã o te m d ú v id a e m c la ssific a r d e e s tilo se m
b r ilh o u m e s tilo q u e n ã o ó r e tu m b a n te .
« F e liz m e n te os m e s tr e s n ã o se d e ix a m l e v a r
p o r esse im p u ls o d o g o s to g e r a l ; e a b e la l i n g u a ­
g e m o rn a d a , m a s p ro p o rc io n a d a , d o sé c u lo x v i i ,
q u e s e r v iu a ta n t a s o b ra s e x c e le n te s , é a in d a p a r a
eles o m o d e lo , q u e c o n te m p la m , p a r a d a r à c la r a
ex p re ssão d o s e u p e n s a m e n to so lid e z , le v e z a , u m a
e le g â n cia g r a v e o u f a m ilia r , c o n fo rm e o s a s s u n to s ,
fin a lm en te u m a d e lic a d a s im p lic id a d e í1).
B la ir é a in d a m a is c a te g ó r i c o :
— «A b e le z a d a s d e sc riç õ e s p o é tic a s , d e p e n d e ,
em g ra n d e p a r te , d a e s c o lh a d o s e p íte to s . E m g e r a l .

(*) S a y o n s , C o n s e l h o s a u m a M ã e , p . 150.
A FORM AÇÃO DO B S T IL O 329

os p o etas n ã o a te n d e m m u ito a isso ; se rv e m -se dos


ep íteto s p a r a c o m p le ta r o v erso o u p a ra o fa z e r
rim a r co m o p r e c e d e n te ; e d a í re s u lta u m a m o n -
to a m e n to d e p a la v r a s in ú te is , q u e, lo n g e de e n r i­
quecer o s e n tid o , te n d e m a e n e rv á -lo .
«Som os o b rig a d o s a c o n c o rd a r em q u e os
t l i q u i d i j o n t e s * d e V e rg ílio , e os <p r a t a c a n i s
a l b i c a n t p r u i n i s » d e H o rá c io , são d essa esp é c ie;
pois n a d a se a ss e m e lh a m ais à ta u to lo g ia , do q u e
dizer q u e a á g u a é líq u id a e q u e a n e v e é
b ran ca.
«O e p íte to d e v e a d ic io n a r u m a id é ia à p a la v ra
que q u a lific a , o u pelo m enos a u m e n ta r a e n e rg ia
da su a sig n ificação co m u m .
« E n tre os e p íte to s gerais, h á a lg u n s q u e p a re ­
cem te r e s ta ú ltim a p ro p rie d a d e , m as, à fo rça de
serem re p e tid o s , to rn a ra m -s e in s íp id o s ; ta is são a
d i s c ó r d i a f u n e s t a , a o d io s a i n v e j a , as g u e r r a s s a n ­
g r e n t a s , as c e n a s h o r r í v e i s e ta n to s o u tro s de ig u a l
jaez.
« E n c o n tra m -se n o s m e lh o re s poetas, m a s os
g ên io s m e d ío c re s a c u m u la m -n o s p ro fu s a m e n te e
'p a re c e m c o n s id e r á -lo s com o a p r in c ip a l base do
s u b li m e .
«Dão u m a espécie de e m p o la m e n to ao d isc u rso
e e le v a m -n o u m p o u co acim a d a p ro sa o rd in á ria ,
m as não a c r e s c e n t a m n a d a à d e s c r iç ã o d o o b je c to d e
q u e s e t r a t a e c a rre g a m o e stilo de u m a verbosi-
d a d e i n ú t i l e in s íp id a .
«U m e p íte to b em escolhido fo rm a às vezes
330 ▲ FORM AÇÃO DO H 8 T IL O

u m a im a g e m to c a n te ; u m a p a la v r a só a p re s e n ta
u m a c e n a i n t e i r a à im a g in a ç ã o .
« T a l é o e p íte to q u e H o rá c io d á n a p a ssa g e m
s e g u in te , ao rio H id a s p e s .
« D iz ele q u e o h o m e m d e b e m n ã o p re c isa de
a rm a s.

S iv e p e r s y r t e s i t e r a e s tu o s a s ,
S iv e f a c tu r u s p e r in h o s p ita le m
C a u c a s u m ; v e l q u a e lo c a f a b u l o s u s
L a m b it H y d asp e s.

« U m dos c o m e n ta d o re s d e H o rá c io m u d o u o
e p í t e t o d e fa b u lo su s p o r sa b u lo su s o u a r e n o s o : esta
tr o c a d e s a s tra d a m o s tr a g r a n d e f a lta d e g o sto .
«O e p íte to sabulosus o u a re n o so é in s ig n ifi­
c a n te e tr iv ia l, e n q u a n to fa b u lo su s a p re s e n ta u m a
s o b e r b a im a g e m , ao n o m e a r o H id a s p e s , is to ó, a
c e n a r o m â n tic a d a s a v e n tu r a s fa b u lo s a s .
« E x p lic a n d o o m o tiv o p o r q u e D é d a lo n ão edi-
fic a ra u m m o n u m e n to à m e m ó r ia d e s e u filho
íc a r o , V e r g ílio se rv e -se d e u m e p íte to fe lic íssim o :

B is c o n a tu s e r a t c a s u s a f fin g e re i n a u r o
B is p a tr ia e c e c id e re m a n u s .

« E stes e x e m p lo s e e s ta s o b s e rv a ç õ e s p o d e m dar
u m a id é ia d as v e r d a d e ir a s d e s c riç õ e s p o é tic a s.
« E stam o s s e m p re d is p o s to s a d u v i d a r do gosto
■e d o ta le n to de u m a u t o r d e d e sc riç õ e s, q u an d o
A FORM AÇÃO DO H S T IL O 331

o vem os a m o n to a r lu g a re s-c o m u n s e epítetos ge­


rais > (*).
«O p a d re M a u r y d e u so b re este a s s u n to ex ce­
le n te s c o n s e lh o s :
— «Todo o e p íte to q u e não é necessário p a ra a
e n e rg ia, cla rez a , co r e h a rm o n ia e q u e não f ig u r a
s e n s iv e lm e n te n u m perío d o , não d ev e n u n c a t e r a li
lu g a r. P ro sc re v e i-o com o u m pleonasm o, q u an d o
não é o rd e n a d o p o r aq u elas d iv e rsa s necessidades.
A r e g r a é fácil e s e g u r a ; e só ela ó q u e o vosso
g o sto d e v e c o n s u lta r, q u a n d o re le rd e s, de p en a n a
m ão, c a d a p á g in a d a vossa com posição, p a ra a
m o n d a r, com o de o u tro s ta n to s re b e n to s s u p é r­
fluos, de to d o s os e p í t e t o s i n ú t e i s , q u e e n f r a q u e c e m
s e m p r e a i d é i a , q u a n d o n ã o c o n tr ib u e m p a r a a f o r ­
tific a r .
«Os e p íte to s sem fu n ção to rn a m a elocução
fro u x a e a rra s ta d a .
« H o rácio, tã o b rilh a n te na escolha e g ra ç a dos
ep íteto s, p ro n u n c io u o maÍ3 irre v o g á v e l a n á te m a
c o n tra to d a a espécie de su p e rflu id a d e no estilo .
«H á d isc u rso s b rilh a n te s , de tra ç o s e n g e n h o ­
sos, e q u e p a re c e m , co n tu d o , vazios o u p o b re s de
id éias, co m o j á o cen su ra m o s no p a d re N e u v ille ,
u n ic a m e n te p o r q u e se lh e p o d iam c o rta r lin h a s
in te ira s , se m n a d a c o rta r no v iv o e sem d e ix a r ali
a m e n o r o b sc u rid a d e .

(!) B la ir , C u r s o de R e tó r ic a , lição 33 .a.


332 A FORM A ÇÃ O DO E S T IL O

«M as, se o s e p íte to s v a g o s d ã o ao e s tilo d if u ­


sã o e f r o u x id ã o , o s e p íte to s p r e te n s io s o s p o d e m
to r n á - lo e x c ê n tr ic o e b u r le s c o , p e lo r i d í c u l o d e
u m a fa ls a e n e r g ia .
« B o s s u e t é o r i g i n a l e a d m i r á v e l n a e s c o lh a do&
s e u s e p íte to s , c u jo e m p r e g o ó q u á s i s e m p r e u m a
in v e n ç ã o d o s e u g ê n io .
« F o r n e c e m - lh e re la ç õ e s n o v a s e s u b l im e s , c o m o ,
p o r e x e m p lo , e s te a d m i r á v e l c o n t r a s t e , q u e a s u a
im a g in a ç ã o d e s c o b re e n t r e o n a d a e a m a g n if ic ê n ­
c ia d a s d e c o ra ç õ e s f ú n e b r e s , n a r e p r e s e n ta ç ã o d o
m a u s o lé u d o g r a n d e C o n d é , q u a n d o d iz n a s u a
p e ro ra ç ã o :
— « L a n ç a i os o lh o s p a r a to d o s o s l a d o s : e is
« tu d o q u a n to p ô d e f a z e r a p ie d a d e p a r a h o n r a r
« u m h e r ó i ; t í t u l o s , in s c r iç õ e s , v ã o s v e s t íg i o s d o
«que já não e x is te ; fig u ra s q u e p a re c e m c h o ra r
«em v o lta d e u m t ú m u l o , e t r a n s i t ó r i a s im a g e n s
«de u m a d o r q u e o te m p o l e v a c o m t u d o o m a i s ;
« co lu n as, q u e p a r e c e m q u e r e r l e v a n t a r a té o c é u
«o m agnífico t e s t e m u n h o d o n o s s o n a d a > (x).
E m r e s u m o , n ã o d e v e m o s a b u s a r d o s e p ít e to s ;
e, q u a n d o se e m p r e g a m , d e v e m s e r n o vo s, c a r a c te ­
rístic o s, em p o lg a n tes, i m p r e v i s t o s .
Os m e lh o re s sã o a q u e le s q u e sã o im a g e n s , co m o
n e sta s d u a s f r a s e s d e C h a t e a u b r i a n d :

0) M a u ry , E n s a io sô b re a E lo q ü ê n c ia , p . 177 .
A FORM AÇÃO DO B S T I L iO 333

O g ê n io d a n o ite a g ita v a n o s a re s a s u a c a b e le ira


a z u l. . .
O c la rã o a c in z e n ta d o d a lu a d e s c ia sô b re o c u m e in fi­
n ito d a s f l o r e s t a s .. .

E e sta s de B o s s u e t :

A v o ssa v o n ta d e m u d á v e l e p r e c i p i t a d a ...
O seu e s ta d o e ra u m a d o r m o rta l, p en o sa e c ru c ifi-
c a n t e .. .
A v o ssa u n id a d e , a v o ssa sim p lic id a d e m a is so b e ra n a
e m ais d e s tr u id o r a q u e to d o s os ra io s e tô d a s as to rm e n ­
tas . . .

B o n ald d i s s e :
— «O h o m e m n ão é so m en te in te lig ê n c ia e
im aginação, ta m b é m te m a facu ld ad e de te r s e n ti­
m entos.
«O e stilo , p a r a s e r a ex p ressão do hom em , p a ra
ser o p ró p rio h o m e m , se g u n d o a fra se de B u ffo n ,
será ta m b é m s e n tim e n to , com o é id éias e im a g e n s.
<0 e stilo será, p o is, id éias ou p en sam en to s,
sen tim en to s, im a g e n s , e eis todo o estilo .
«Mas, re p ito , só a n a tu re z a conhece o seg red o
desta co m p o sição , e as lições sôbre e ste a ssu n to
não podem s e r se n ã o exem p lo s.
«Se B o s s u e t se c o n te n ta s s e em d iz e r: « 0 hom em
«conserva a té à m o r te esp eran ças q u e n u n c a se
« re a liz a m », te r ia e n u n c ia d o , sem im agens, sem
sen tim en to , u m a id é ia v e rd a d e ira e m oral, q u e sé
apresenta a to d o s os e sp írito s e q u e o m ais m o-
334 A FORM AÇÃO DO H H T IL .O

d e s to e s c r ito r n ã o p o d e r ia a p r e s e n t a r c o m m a is
s im p lic id a d e o u a n te s s e c u r a .
«M as a d m ir a i co m o a q u e le b e lo g ê n io r e v e s te
esse p e n s a m e n to c o m u m a im a g e m s u b lim e e f u n d e
u m e o u tr a , p e r m i t i q u e o d ig a , n u m s e n tim e n to
p r o fu n d o e d o lo ro so .
« D iz e le : «O h o m e m c a m i n h a p a r a o tú m u lo ,
« a r r a s ta n d o c o n s ig o a c o m p r id a c a d e ia d a s s u a s
« e s p e ra n ç a s d e s f e i t a s .»
« J á n ã o é, c o m o n a f r a s e q u e c ita m o s h á p o u c o ,
u m f r io m o r a lis ta , q u e d is s e r t a .
« A q u i B o s s u e t é o r a d o r p e lo p e n s a m e n to , p o e ta
p e lo s e n tim e n to , p i n t o r p e la im a g e m .
« E p e n s a -s e , s e n te -s e , v ê -s e esse d e s g ra ç a d o
e sc ra v o , p re s o a e s s a c o m p r id a c a d e ia , c u ja e x tr e ­
m id a d e n ã o p o d e a t i n g i r , a r r a s t á - l a a c u s to a té o
m o m e n to e m q u e o t ú m u lo , a b r in d o - s e so b os se u s
p és, o d e v o ra , a e le e ao p e so im p o r t u n o , d e q u e
se s o b r e c a r r e g a r a n o p e q u e n o t r a j e c t o d a v id a .
« A im a g e m e s tá n e s s a l o n g a c a d e ia , q u e o
h o m e m a r r a s t a , e n e s s e t ú m u l o , q u e e le e n c o n tr a ,
com o u m a c ila d a .
« O s e n tim e n to e s tá n e s s e d o lo ro s o e s fo rç o , s e m ­
p r e v ão , s e m p r e b a ld a d o , a t é o m o m e n to f a ta l em
q u e se d e s v a n e c e m to d a s a s e s p e r a n ç a s o u , a n te s ,
tô d a s as ilu s õ e s .
< 0 p e n s a m e n to e s tá e m to d a a p a r t e , e esse
to d o fo rm a u m q u a d r o c o m p le to , u m q u a d r o re a l,
q u e u m p i n t o r p o d e r ia t r a n s p o r t a r p a r a a te la .
« E n o ta i, p o r h o n r a d a n o s s a l í n g u a , co m o as
A FORM AÇÃO DO R 8 T IL O 335

p ró p ria s p a la v ra s , não re tin id a s à fo rç a de a r te e


às v ezes co m esfô rço e re b u sc a , com o n a o n o m a­
to p é ia dos Grregos e L a tin o s, m as m ais n a tu r a is e
m esm o as ú n ic a s d e q u e B o ssu e t se p ô d e s e rv ir,
tê m a q u i to d a a h a rm o n ia n ecessária à ex p ressão
de u m tr a b a lh o p en o so e de u m s e n tim e n to
doloroso.
« T o d a s e s ta s p a la v ra s são to d a s g ra v e s, le n ta s
e p o n d e ro sa s, — cadeia, tú m u lo , longa cadeia de
esperanças d esfeita s.
« E s te m esm o g ó n io d a lín g u a , fiel à n a tu re z a
das coisas, la n ç a im p e rio sa m e n te p a ra o fim da
fra se a p a la v r a desfeitas, p o rq u e o p en sam en to q u e
ela e x p rim e ó o ú ltim o d a v id a.
« U m h is to ria d o r, q u e quisesse c o n ta r a m o rte
d a D u q u e s a d e O rleães, d ir ia sim p le sm e n te : «Foi
« u m a n o ite h o r r ív e l a q u e la em q u e se soube de
« sú b ito q u e m adam e m o rria , q u e m adam e estav a
m o rta » . E ta lv e z u m p a n e g iris ta v u lg a r não tiv esse
e n c o n tra d o m ais n ad a.
«M as, q u e im p ressão te r r ív e l e p ro fu n d a não
d e v ia t e r c a u sa d o B o ssu e t, q u an d o , tra d u z in d o
êste p e n s a m e n to n a lín g u a do seu gónio, ex clam o u
do a lto do p ú l p i t o : « O n o ite desastrosa, ó n o ite
« te rrív e l, em q u e ecoou, de sú b ito , com o u m tro -
«vão, e sta s u rp re e n d e n te n o tíc ia : M adam e m o rre !
«M adam e e stá m o rta !»
« E c e rta m e n te ele re fo rç a v a a su a voz, p a ra
im ita r u m p o u co os g r ito s de d o r e de espanto,
q u e fo ra m o u v id o s n as ru a s de V ersalhes.
-336 A FORM AÇÃO DO E H T IL O

« T u d o ó im a g e m n a e x p re s s ã o , t u d o ó s e n t i ­
m e n to n a e x c la m a ç ã o .
« E a q u e la n o ite h o r r ív e l, a q u e le s g r i t o s l ú g u -
b re s , e a c o n s te rn a ç ã o q u e e s p a lh a m , re c o m e ç a ­
r a m p a r a o s o u v in te s , c o m a v o z d a q u e le o ra d o r
s u b lim e * (*).
T a lv e z n ã o s e ja i n ú t i l , ao te r m i n a r , d iz e r m o s
u m a p a la v r a s o b r e a c o n s tr u ç ã o e s o b re o q u e
n o s s o s p a is c h a m a v a m o to rn e a r das fr a s e s , q u e
c o n s is te n a v a r ie d a d e q u e d e v e h a v e r n a e s t r u t u r a
m a t e r ia l d a s fra s e s , n a m a n e ir a d e as a p r e s e n ta r ,
d e a s d is p o r , d e a s d i v i d i r , d e a s g r a d u a r , d e as
m a n te r n o se u lu g a r.
A l e i t u r a e o e s tu d o d o s a u to r e s n o s e n s in a r ã o
e s s a g r a n d e a r t e , p o r m e io d e c o n s ta n te o b s e rv a ­
ç ão d e e s p í r i t o , r e s u l t a d o d o g o s to p e sso al.
E n t r e os v á r io s m o d o s d e t o r n e a r as fra s e s , e m
q u e a b u n d a a a r t e d e e s c re v e r, h á u m q u e ó p e c u ­
l i a r a B o s s u e t, q u e p r o d u z g r a n d e e fe ito e q u e
n e n h u m M a n u a l m e n c io n o u a in d a .
Q u e r o f a l a r n a f r a s e su b s ta n tiv a .
O s u b s t a n t i v o r e i n a c o m o s e n h o r n o e s tilo d e
B o s s u e t.
A c u m u la - o , p a te n te ia - o , r e f o r ç a c o m e le a s s u a s
fra se s.
M a s a in d a , e x t r a i o s u b s t a n t i v o d e o u tr o s u b s ­
t a n t i v o e m p o lg a n te , e e s ta u n iã o i m p r e v i s t a é u m a

(!) B o n a ld , M i s c e lâ n e a d e E s t i l o e L i t e r a t u r a .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 337

<las b e la s s u rp re s a s do seu m odo de esc re v e r, p r in ­


c ip a lm e n te q u a n d o e m p re g a o p lu ra l.
B a s ta rá a b rirm o s ao acaso os se u s Serm ões, p a ra
a c h a r e x e m p lo s :

E s ta lei d o a m o r aos in im ig o s , e sta se v e rid a d e d a p e n i­


t ê n c ia e d a m o rtific a ç ã o c r is tã , êste p re c e ito te r r ív e l do d e sa -
p êg o d a so c ie d a d e , d a s s u a s v a id a d e s e d a s s u a s p o m p a s . . .
E s to u q u á s i s e m p re em d eso rd e m p e la v e e m ê n c ia d a s
m in h a s p a ix õ e s e p e la v io le n ta p re c ip ita ç ã o d o s m e u s
m o v im e n to s .
E s t a p õ e -se d e to d o s os lad o s sob o j ô g o ; re co rd a-se
d o s t r is te s zelo s d a so cied ad e, a b a n d o n a -se sem re se rv a s
■aos d o ces zelo s d e u m D e u s benfazejo, q u e só q u e re os
c o ra ç õ e s p a r a os e n c h e r d e d o ç u ra s c e le s te s .. .
D a í n a s c e m v ício s d esc o n h ecid o s, m o n s tru o s id a d e s de
a v a re z a , r e q u in te s d e v o lú p ia , d e lic a d e z a s d e o rg u lh o , q u e
n ã o tê m n o m e ; e tu d o isto se s u s te n ta à face d o g ê n e ro
hum ano. . .
S e e la so u b e a r r a n j a r u m s a n tu á r io e te rn o e in c o rr u p ­
tív e l n o c o ra ç ã o d o b om M ig u e l L e T e llie r, é q u e , lib e rto
•dos e s tím u lo s d a a m b iç ã o , se vê e le v a r. . .
P e n s o em fa z e r-v o s o u v ir as d o ç u ra s do se u a m o r
a t r a e n t e e a s a m e a ç a s d o seu c o ra ç ã o d e s p r e z a d o .. .
O a m o r im p u ro te m a s s u a s a g ita ç õ e s v io le n ta s , as
s u a s re so lu ç õ e s ir r e s o lu ta s e o in fe rn o d o s se u s c i ú m e s .. .
A a m b iç ã o te m a s s u a s c a d e ia s, os se u s t e m o r e s ...
E la n g u e s c e m o s n o a m o r d a s co isas m o rta is.

F a r-s e -ia u m ca tá lo g o com os e m p a relh a m e n -


to s de s u b s ta n tiv o s , co lh id o s em B o ssu e t:
Os d e lírio s d a s n o ssas cobiças.
O a n iq u ila m e n to d as n o ssas g ran d ezas.
A s g lo rio sa s h u m ilh a ç õ e s do C ristian ism o .
22
338 A FORM AÇÃO DO B8T1LO

A a b u n d â n c ia d e coração.
A c o m p la c ê n c ia do p e n sa m e n to .
A s in fid e lid a d e s d a v id a .
O s g r i to s d a p ax ão .
O s g e m id o s d a s u a a lm a .
A s tr e v a s d a ra z ã o .
A s d e d ic a ç õ e s p e re c ív e is.
A s sa tisfa ç õ e s do o rg u lh o .
O d e f in h a r d o coração.
A s n o ssas c o m p la c ê n c ia s p a ra com as c r ia tu r a s .
O s e s tím u lo s in fin ito s d a s u a c a rid a d e .
A s vossas a le g ria s p e rn ic io sa s .
A s o n d a s d a d o r.
A s v e e m ê n c ia s d a fé.
E sse s d e s v á rio s a g ra d á v e is .
A s n o s s a s in g r a tid õ e s .
A s n o ssas co b iças in d o m á v e is .
A s p ro fu s õ e s d e a m o r.
A e te r n a c o n s is tê n c ia d a v e rd a d e .
A s n o ssa s b a ju la ç õ e s.
A s n o ssas d esafeiçõ es. *
A s n o ssas p o b re z a s , e tc .
São ê ste s os s e u s s u b s ta n tiv o s em e sta d o in s u la d o .
P ro d u z e m u m e fe ito s u r p r e e n d e n te , com o se
acaba de v e r, q u a n d o e m p a re lh a d o s , o u a n te s ,
q u a n d o saem u m d o o u tr o , co m o n o p rim e iro
e x e m p lo :

A s d o ç u ra s d o s e u a m o r a t r a e n t e e a s a m e a ç a s do seu
a m o r d e sp re z a d o .
A FORM AÇÃO DO E S T IL O 339

É u m p ro cesso a d m irá v e l, m a s com a condição


de o p rim e iro s u b s ta n tiv o s e r de q u a lid a d e o r ig i­
n a l e q u e, p o r oposição, p ro d u z a a s u rp re s a d e
u m a c ria çã o (1).
M ig n e t ti n h a lid o m u ito a B o ssu e t, e p o r seu
tu r n o , u so u m u ita s vezes desse processo.
C om a d ife re n ç a de q u e a q u a lid a d e dos su b s­
ta n tiv o s , e m p re g a d o s p o r M ig n e t, é a de u m e sc ri­
to r de te r c e ir a o rd em , e o efeito é m u ito m enos
e m p o lg a n te , com o n e sta s p a ssag e n s:

E s ta s e sc o la s ta m b é m estão s u je ita s aos p e rig o so s


d efeito s, p ro d u z id o s p e la s p re c ip ita ç õ e s d a te o ria ou p ela
tim id e z d a p r á tic a . (N o vo s E lo g io s H is tó r ic o s , S a v ig n y ).
N a p o le ã c f r a n q u e a r a à F r a n ç a a s p e rsp e c tiv a s d e s lu m ­
b ra n te s d a g ló ria , p a r a a d e sv ia r d a la b o rio sa p ro c u ra da
l i b e r d a d e . . . F ê z s u p o r ta r aos povos as h u m ilh a ç õ e s d a
d e r r o ta e a s d u re z a s d a in v a sã o . (N o v o s E lo g io s , p . 2 5 ) .

E n o u tr o p o n to :

P a u lo IV p a s s a v a d a s s e v e rid a d e s d a v id a do c la u stro
à s p o m p a s e à s d e lic a d e z a s d a v id a so b e ra n a .

N e sta s fra se s, o q u e o m ais c a tiv a s ã o : tim idez,


hum ilhações, d u reza s, severidades, q u e são tira d a s
do v o c a b u lá rio de B o ssu et.
Os o u tro s s u b s ta n tiv o s fazem p a rte do estilo
v u lg a r.

(!) V e ja m -se , em p a r tic u la r , os serm ões de B o ssu et


sô b re a M o rte, sô b re a P e n itê n c ia , e os seu s P a n e g ír ic o s .
340 A T O R M A Ç A o D O R S T IL O

Como se vê, são processos, fa c ilm e n te assim i­


láveis, com o a u x ílio dos q u a is se p o d e em belezar
e v a ria r o estilo, q u e r seja a b stra c to , q u e r seja
colorido.
íteco rd em o s, além disso, q u e a g ra n d e a rte está
em m is tu r a r to d o s os g ê n e ro s de estilo , e q u e as
im ag en s dão u m a fo rça s in g u la r às idéias, quand o
se pode u n ir o co lo rid o do p e n sa m e n to .
C A P ÍT U L O X I V

0 estilo sem retórica

O estilo sem retórica. —Voltaire. —O estilo e os seus


processos. —As fórmulas do estilo

J á e x p u se m o s q u a is são os m étodos g erais, com


c u jo a u x ílio se p o d e fo rm a r o e stilo : le itu ra , im i­
ta ç ã o , p a stic h o , descrição, am plificação e a n títe se .
A in d a tem o s m ais a lg u m a coisa a o b serv ar.
H á u m a g ra n d e q u a lid a d e de estilo q u e n ão
re p e le a a n títe s e , m as que, ta m b ém , a não p ro c u ra ;
q u e a te n d e m ais à clareza q u e à p ro fu n d e z a , e que,
p e lo n a tu r a l e p e la sim p licid ad e, dá a sensação do
e s tilo fra n c ê s, e m in e n te m e n te esp o n tân eo e clássico.
C h a m a re m o s aticism o a essa q u alid ad e.
É V o lta ire q u e re su m e esse g ên ero de estilo,
sem re tó ric a .
H a v e is d e vos a d m ira r de q u e tiv éssem o s citado
r a r a m e n te V o lta ire .
A p r ó p r ia n a tu r e z a do seu estilo ex p lica a nossa
d isc riç ão .
P a r a a assim ilação dos processos de escrev er, o
e s ta d o d e V o lta ire não te m p ro v e ito im ed iato .
342 A FORM AÇÃO DO E S T IL O

P o d e dizer-s© m e s m o q u e e le n ã o te m p ro cesso s.
A p e n a s se a p u r a d e le o to m g e r a l.
E é esse to m q u e e u c h a m o a tic is m o , n a fa lta
d e u m a p a la v r a m a is e x a c ta .
E n te n d o p o r a tic is m o u m c e r to m o d o , a j u s t e z a
do c o n ju n to , e ss e a r d e f a c ilid a d e s e m e sfo rç o , q u e
d ã o a c la re z a , a e le g â n c ia , o e s p ír ito , o n a t u r a l , a
v a rie d a d e e a c o rre c ç ã o .
N o u tr o s te rm o s , tr a ta - s e a q u i d o e s tilo se m
r e tó r ic a ( c o n s e r v a n d o à p a la v r a « re tó ric a » o s e u
s e n tid o d e d e m o n s tr a ç ã o p r á tic a ) .
V o lta ir e ó o m e s tr e d e sse e s tilo .
S o u b e d e fin ir- s e b e m , q u a n d o d is s e :
— « S o u co m o os r e g a t o s : c la r o e tr a n s p a r e n t e ,
p o r q u e s o u p o u c o p r o f u n d o .»
C e r ta m e n te V o lta ir e c u l t i v o u a a n títe s e .
A b u s a d e la n a s u a c o r r e s p o n d ê n c i a ; m a s n ã o
e ra o s e u m o d o d e p e n s a r , n e m o h á b i t o d a s u a
fra se .
T e m in s p ir a ç ã o c o r r e n te .
A s u a p r o s a é r e c t a , le v e , f lu e n te .
A a g u d e z a e a f a c ilid a d e sã o a a lm a d o s e u e s tilo .
O ta to , o g o s to , a b o a d is p o s iç ã o , e is os se u s
c a ra c te re s .
E x p ô s o s e u id e a l n u m a c a r t a d e c o n s e lh o s a
um a jo v e m :

O s b o n s a u t o r e s só tê m a v iv e z a d o e s p í r i t o d e q u e
n e c e s s ita m ; n u n c a a p r o c u r a m , p e n s a m c o m s e n s a t e z e
e x p rim e m -s e c o m c la r e z a .
P a re c e q u e já se n ã o e s c r e v e s e n ã o p o r e n i g m a s .
A FORM AÇÃO DO K S T IL O 343

N a d a é s im p le s , tu d o é a fe c ta d o , h á o a f a s ta m e n to
to ta l d a n a tu r e z a e a d e s g ra ç a d e q u e r e r fa z e r m a is q u e os
nossos m e s tre s .
A c a u te la i-v o s , m e n in a : em tu d o o q u e n ê le s v o s a g r a ­
d a r a m a is p e q u e n a a fe c ta ç ã o é u m y í c í o .
O s Ita lia n o s n ã o d e g e n e r a r a m , d e p o is d o T a s s o e d o
A rio sto , se n ã o p o rq u e q u is e ra m te r m u ito e s p ír ito ; e os
F ra n c e s e s e s tã o n o n o sso caso.
V ê d e co m q u e n a tu r a lid a d e M a d a m e S e v ig n é e o u tr a s
d a m a s esc rev em ; c o m p a ra i ê ste e s tilo com as fra se s e n ta n -
g u id a s d o s n o sso s ro m a n c in h o s .
C ito -v o s as h e ro ín a s d o vosso sexo, p o rq u e vos a c h o
a p ta p a r a a s s e m e lh a r .
M a d a m e D e s h o u liè re s te m o b ra s, q u e n e n h u m a u to r
dos n o sso s d ia s p o d e ria ig u a la r .
S e q u e r e is q u e v o s c ite h o m en s, v êd e com q u e s im p li­
c id a d e o n o sso R a c in e se e x p rim e se m p re . T o d o s os q u e o
lêem ju lg a m q u e d iria m em p ro sa o q u e R a c in e d isse em
v erso . P o d e is c r e r q u e tu d o o q u e n ã o fô r c la ro , sim p le s e
•elegante, n a d a v a le rá .
A s v o ssa s reflexões, m e n in a , v o s e n s in a rã o cem vezes
m a is q u e o q u e e u p o d e ria d izer-v o s.
V e re is q u e os n o ssos b o n s e sc rito re s, F é n e lo n , B os-
s u e t, R a c in e , D e s p re a u x , e m p re g a m s e m p re a p a la v r a
p ró p ria .
A c o s tu m a m o -n o s a fa la r bem , le n d o m u ita s vezes
a q u ê le s q u e e s c re v e ra m b em .
A d q u ire -s e o h á b ito d e e x p r im ir com sim p lic id a d e e
n o b re z a o p e n s a m e n to .
Isto n ã o é u m e s tu d o ; n a d a c u s ta le r o q u e é bom , e
n ã o le r m a is n a d a .
O a g r a d o e o g ô sto são o m e lh o r m e stre .
P e rd o a i-m e , m in h a m e n in a , e s ta s reflexões.
N ão a s a tr i b u a i s sen ão à m in h a o b ed iên c ia às vo ssas
o rd e n s .
2 0 d e J u n h o de
344 A FORM AÇÃO DO B S T 1L.O

F ó n e lo n (C a r ta à A c a d e m ia ), G e o r g e S a n d r
E d m u n d A b o u t, R e n a n , A n a t ó l i o F r a n c e , F e u ille t,,
S a n d e a u , d ã o -n o s i g u a l m e n t e a s e n s a ç ã o d e ste
e s tilo , p o s to q u e R e n a n s e ja m u i t a s v e z e s p lá s tic o
e m u i to c o lo rid o .
N ã o se e n c o n tr a r á n e ss e s e s c r ito r e s n e m e s fo rç o
d e e s c re v e r, n e m a n t í t e s e e r u d i t a , n e m s u b l im i­
d a d e d e m e tá f o r a s , n e m c r ia ç ã o d e p a la v r a s , n e m
e m b a te p in tu r e s c o , n e m s u r p r e s a s , n e m e s s a p r o ­
f u n d e z a d e c iê n c ia , d e e fe ito s , d e v o n ta d e , q u e
n o ta m o s e n t r e o s e s c r ito r e s a n t i t é t i c o s .
M a s v e r-s e -á n e le s t u d o q u e se t r a n s m i t e p o r
in s ti n to , t u d o q u e é m i n i s t r a d o p e la in s p ir a ç ã o
t r a n q ü i l a , o c o n ju n t o d a s q u a lid a d e s d e b o m s e n s o ,
d e c la re z a , d e f i n u r a e d e e q u ilíb r io , q u e f a z e m
u m to m g e r a l.
A _
___
___
___
___
_

E s s e to m ó p r e c is o a d q u ir i- lo e m V o lta ir e ,
j Q u a n to m a is o le r d e s , m a is s e n t ir e i s as v o ssa »
f a c u ld a d e s d e e s c r e v e r ilu m in a r e m - s e , v iv ific a -
re m -s e à v o n ta d e .
A o b je c ç ã o q u e f a r e is , d e p o is d e l e r ê s te m e u
liv r o , é e s t a :
— «O v e r d a d e ir o e s tilo n ã o é o q u e se a d q u ir e
p elo t r a b a l h o : é u m d o m d e f a c ilid a d e .
«O v e r d a d e ir o e s tilo n ã o t e m p ro c e s s o s n e m
r e tó r ic a ; ó a e x p r e s s ã o d o p e n s a m e n to n o e s ta d o
e s p o n tâ n e o e in c o n s c ie n te . R e t ó r i c a , m e c a n is m o ,
r e g r a s , tr a b a lh o , p r e o c u p a ç ã o , n ã o s e r v e m se n ã o
p a r a f a z e r e s tilo fa ls o , e s tilo a r tif ic ia l.*
E is a o b je c ç ã o .
A FORMAÇÃO DO KSTILO 345-

B ons e s c rito re s a co n firm a m .


L em os j á a d eclaração de V o lta ire .
E is a q u i a de R e n a n :
— «A o b ra c o m p le ta é a q u e la em q u e n ã o h á
n e n h u m a p re o c u p a ç ã o lite r á r ia , em q u e se n ã o
pode s u s p e ita r p o r u m ' m o m e n to q u e o a u to r
escreve p o r e s c re v e r; n o u tro s te rm o s, em q u e n ão
há u m só tra ç o d e re tó ric a . P o rt-R o y a l é o ú n ic o
re d u to do sécu lo x v i i , o n d e a re tó ric a n ão e n ­
trou» (*).
T ain e e x p rim e p o u co m ais o u m enos o m e sm o
p en sa m e n to :
— «Nos nossos colégios, os bons estu d an tes-
im ita m m ais a s im e tria de C lau d in o , q u e a lib e r­
dade e a fa c ilid a d e de V ergílio» (2).
N e sta objecção, a p a rte v e rd a d e ira não d e stró i
a le g itim id a d e de u m en sin o d e m o n s tra tiv o do
estilo.
S em d ú v id a é d ifíc il im ita r V e r g ílio ; m as V e r­
gílio n ão d e ix o u de im ita r T e ó c rito e H om ero..
P o d e a p re n d e r-s e m u ito p ela im itação , e q u em
diz im ita ç ã o d iz d e m o n stra ç ã o , re la tiv a à essência
e à fo rm a.
T a m b é m n ão é e x a c to q u e a o b ra co m p leta seja
aq u ela em q u e , com o d iz R e n a n , não h á v estíg io s
de re tó ric a .

(1) R e n a n , N o v o s E stu d o s de H is tó r ia R e lig io s a : P o r t-


-R o y al. i
(2) T a in e , H is tó r ia d a L ite r a tu r a I n g le s a , t . i, p. 66~
346 ▲ FORMAÇÃO DO KSTIL.O

J á p ro v a m o s, com e x e m p lo s , n u m e r o s o s e fá c e is
d e m u ltip lic a r, q u e se e n c o n tr a m n ã o só v e s tíg io s
d e re tó ric a n o s e s c rito r e s m a is p e r f e ito s , m a s q u e
e sta re tó ric a é o p r ó p r io f u n d a m e n to d o s e u ta le n to .
Os processos d e r e t ó r i c a d e C íc e ro , os d e
M o n ta ig n e , B o s s u e t, M o n te s q u ie u e R o u s s e a u ,
to d o s esses m o d o s d e e s c r e v e r , v is ív e is e a n a lis á -
v eis, não im p e d e m q u e esses a u t o r e s s e ja m g r a n d e s
e sc rito re s .
E p o rq u ê ?
P o r q u e o e m p re g o d e sse s p ro c e s s o s n ã o é s u s ­
p e ito e d is s im u la -s e so b a f o r ç a d o p e n s a m e n to .
Q-luck e s tá c h e io d e f ó r m u la s d a é p o c a . E q u e
im p o rta isso , se a s u a e x p r e s s ã o m u s ic a l v e m do
fu n d o d a a lm a ?
C e rta m e n te o a b u s o d a im ita ç ã o d á c e r t a a p a ­
rê n c ia g r o s s e ir a ao e n s in o d a s f ó r m u la s , e os m a u s
a rtífic e s só v ê e m d e la o la d o e x t e r i o r .
M as, v is to q u e r e c o n h e c e m o s s e r a q u a lid a d e
d a p a s ta o q u e fa z v a l e r o m o ld e , a o b je c ç ã o cai.
D a n o u d is se n o s e u b e lo t r a b a l h o C u rso s de
E studos H istó ric o s:
— « E u se i q u e se c e n s u r a m a l g u n s e s c r ito r e s
p o r a b u s a re m d a s f o r m a s , q u e e x p r i m e m a s a p r o ­
xim ações o u os c o n tr a s te s , e c o n fe s s o q u e , q u a n to
m ais n o v as são as id é ia s , m e n o s a m b ic io s a d e v e
se r a lin g u a g e m ; m a s a b s t e n h a m o - n o s ta m b é m de
d e sc u lp a r o u d e p r e c o n i z a r a i n s i g n i f ic â n c i a , c h a -
m an d o -lhe s im p lic id a d e , e d e r e p r o v a r , com o
reb u scad o , tu d o q u e n ã o é v u l g a r ; u m a d e s g r a ç a
A FO RM AÇÃ O DO E S T IL O 347

m a is t r i s t e e m a is c o m u m q u e a p ro fu s ã o das
a n títe s e s é r e p e t i r , n u m to m fa m ilia r, coisas
tr iv ia is , o u e n tã o d is s i m u la r id é ia s v u lg a re s , sob
fo rm a s i n u s i t a d a s ; t r a b a lh o in g r a to , q u e p ro d u z a
s e c u r a o u a a fe c ta ç ã o e q u e n ã o d e ix a n e n h u m a
e n e r g ia a o d is c u r s o .»
O s d is c íp u lo s d e V o lta ir e p o s s u e m u m a p a rte
d o id e a l d o e s tilo .
O s e s c r ito r e s c o m p le to s te m -n o to d o in te iro .
E o q u e f a z ia d iz e r a lg u é m , a p ro p ó sito de
V o lta ire :
— « E s tá m u i to b e m , m a s n ã o é a ssim q u e se
d e v e e s c re v e r.»
D e m a is , h á r e tó r ic a e a n títe s e s em V o lta ire ,
e B o s s u e t te m , co m o ele, a a m p lid ã o n a tu r a l e a
f a c ilid a d e e s p o n tâ n e a .
E m i n h a p r o f u n d a c o n v icção q u e m esm o esse
e s tilo é a s s im ilá v e l p e lo tr a b a lh o , e, p o r ex em p lo ,
q u e u m e s p í r it o lite r á r io n ão p o d e s a ir de u m a
d e m o r a d a l e i t u r a d e V o lta ire , sem q u e d e la lh e
fiq u e o t o m ; s e n t ir á n a s c e r em si u m a n o v a
fa c ilid a d e , o d o m d e e s c re v e r à v o n ta d e e lim -
p id a m e n te .
F o i a s s im q u e E d m u n d o A b o u t p ô d e m e re c e r
p o r v e z e s o t í t u l o d e « n e to de V o lta ir e » ; q u e
A n a tó lio F r a n c e te m m u ita s p á g in a s , q u e são
R e n a n p u r o : q u e B a r r é s c o n s e rv o u essa tra d iç ã o
c lá s sic a e q u e m u ito s o u tr o s e sc rito re s a ss im ila ra m
ta m b é m , m a r a v ilh o s a m e n te , o to m de A n a tó lio
F ra n c e .
348 A FORMAÇÃO DO B18TILO

F a g u e t d isse :
— «O e s tilo n a tu r a l n ão se a p re n d e , q u e ro
erê-lo, m a s o q u e é c e rto é q u e o e s c r ito r m a is
n a tu r a l, L a -F o n ta in e , fo i o q u e m a is t r a b a l h o u ;
re fa z ia a té doze v ezes a m e sm a fá b u la . Os seu s
m a n u s c rito s e stã o n e g ro s d e r a s u r a s ; a q u e le é
q u e d e c e rto a p r e n d e u o e s tilo n a tu r a l, pelo t r a ­
b alh o .
. « C o n d ilac d is se com ra z ã o q u e o n a tu r a l era a
arte convertida em hábito. U m a d a n ç a rin a c h e g a a
d a n ç a r n a tu r a lm e n te , à fo rç a de te r tra b a lh o .
E p o r u m esfo rço c o n s ta n te q u e se faz d e sa p a re c e r
a a p a rê n c ia de to d o o esfo rço . D isse B o ile a u q u o
a s o b ra s m a is n a tu r a is são a q u e la s q u e fo ra m re a ­
liz a d a s com m a is cu id ad o .»
Os e s c rito re s sem r e tó r ic a c e n s u ra m a p re o c u ­
pação dos p ro c e s s o s ; só a d m ite m a s u a p ró p ria
m a n e ira d e e s c r e v e r : e, com o a c h a m n a tu r a lm e n te
o n a tu r a l, n e g a m qu© êle se p o ssa a ti n g ir p e lo
tr a b a lh o .
N ão tê m ra z ã o .
A s su a s q u a lid a d e s são u m a p a r te do e s tilo ;;
h á m u ita s m ais.
D e m o n s tra -s e q u e êsse e stilo se m re tó ric a , essas
fra se s e re c ta s, q u e se n ã o m e x e m , êsse a n d a m e n to
flu id o e c o n tín u o , essa e s p o n ta n e id a d e co rren te^
essa lig e ira a p a rê n c ia de in s p ira ç ã o , s e m p re ig u a l
e d is c re ta , o b té m -se ta m b é m , m a n e ja n d o o estilo*
e lim in a n d o d êle os e p íte to s , a c e n tu a n d o a so b rie ­
dade, e q u ilib ra n d o a e s t r u t u r a d a s fra se s, e v ita n d o
A FO R M A Ç Ã O D O E S T IL O 349

a a c u m u la ç ã o , s u p r im in d o as v eg etaçõ es p a ra s itá ­
ria s, q u e e n c h e m e m a n c h a m as frases.
E m re su m o , n a tu r a lid a d e e re tó ric a d e v e m fo r­
m a r u m a só e m e s m a coisa.
S e a m u d a n ç a de u m a p a la v ra c a u sa u m cam -
h i a n t e ; se h á oposições q u e d u p lic a m os e f e ito s ;
se h á u m a a r te d e a p r e s e n ta r o p e n sa m e n to , se h á
c o m b in a çõ es in fin ita s n a m a n e ira de a p re s e n ta r
u m a i d é i a ; se h á c o n stru ç õ e s o u in v ersõ es, q u e
tê m m a is fo rç a q u e o u tra s , ó p o rq u e e x is te m p ro ­
cessos e u m a re tó ric a do estilo.
D iz u m c r í t i c o :
— «O e stilo ó a a rte d as fó rm u la s . . . A s leis
d o e stilo são p ro cesso s, com cu jo a u x ílio se conse­
g u e e n c o n tr a r essas fó rm u la s, criá-las, m odificá-las,
ju lg á - la s . . . S e lerm o s a u m e sc rito r, q u e saib a a
s u a lín g u a , u m a frase, em q u e a p a la v ra «cujo*
se ja co lo cada com o n e s ta : « P rin c ip a lm e n te , te n d o
m o rrid o m in h a m ãe, cu jo b em m e não po d em
tir a r » , ele d ir á sem h e s ita r q u e p e rte n c e à p r i­
m e ira m e ta d e do re in a d o de L u ís X I Y » (x).
E é ex acto .
T u d o te m o s e u v a lo r, tu d o te m o se u c u n h o
n o e stilo .
A e ssên cia das coisas te m m u ito m enos im p o r­
tâ n c ia q u e a fo rm a.

(!) G a r n ie r d e C a s s a g n a c , R e tr a to s L ite r á r io s , N a t u ­
r e z a e L e is do E s tilo .
350 A FORMAÇÃO DO EJSTILO

A m a n e ir a , p o r q u e se d iz e m , ó q u e a s t o r n a
e m p o l g a n te s e a s t o r n a o r i g i n a i s .
C in c o p i n t o r e s d e t a l e n t o p i n t a r ã o d i v e r s a m e n t e
a m e s m a p a is a g e m .
A m a té ria n ão te r á m u d a d o . A e x e c u ç ã o ó q u e
a t o rr n a r á o u tr a .
E p r e c is o , p o is , c r i a r o e s tilo p e lo e s t u d o d a
f o r m a , t a l q u a l é e x p lo r a d a p e lo s b o n s a u t o r e s .
P a r a is s o , h á a p e n a s u m m e i o : v o l t a r a o s
c lá s s ic o s .
A g e n t e m o ç a n ã o g o s t a m u i t o d o s c lá s sic o s *
P r e f e r e m m o ld a r a s u a p e r s o n a l i d a d e p e la a s s i­
m ila ç ã o d o s a u to r e s c o n te m p o r â n e o s o u d o s a u t o ­
r e s e x ó tic o s .
N u n c a a a r t e d e e s c r e v e r fo i tã o f á c il p a r a a
m e d i o c r id a d e ; n u n c a o v e r d a d e ir o t a l e n t o f o i m a is
ra ro .
A s n o s s a s f o r m a s d e e s tilo e s tã o t ã o g a s ta s ,
q u e a in s p ir a ç ã o j á n ã o te m c o r a g e m p a r a a s
a d a p ta r .
íte b u s c a m - s e a s f o r m a s , p a r a p r o d u z i r c o is a s
n o v a s ; e f a z e m - s e c o is a s e s t r a n h a s , c o m r e c e io d a
v u lg a r id a d e .
A lí n g u a , o g o s to , a n a t u r a l i d a d e d e s a p a r e c e m
n e ssa p r e o c u p a ç ã o d e p r o d u ç ã o r e q u e n t a d a .
C o m o j á se d is s e , e c o m r a z ã o , e s ta m o s j u s t a ­
m e n te em p r e s e n ç a d e u m c a lã o , « e m q u e os
h o m e n s s u p e r io r e s i m p r i m e m o c u n h o d o s e u
ta le n to , e d e q u e os a u t o r e s m e d ío c r e s se a p o d e ­
r a m e se s e r v e m , p o n d o n e le o s i n e t e d a s u a f r a -
A FORMAÇÃO DO ESTILO 351

q u e z a a m b ic io s a , q u e o p ú b lic o a d m ir a in c o n s id e -
r a d a m e n te , s e d u z id o p o r u n s , o u c e n s u r a te m e r a -
r ia m e n te , d e s g o s ta d o p o r o u tro s , e n q u a n to a p e n a s
a lg u n s j u i z e s s a b e m d is c r im in a r os p r in c íp io s d o
b e m e d o m a l n a q u e la m e s c la v ic io sa » .
O e s tu d o d o s n o sso s g r a n d e s e s c rito r e s c lá ssic o s
ê o ú n ic o m e io d e r e a g i r c o n tr a esse m a l, e d e
f o r m a r m o s o n o sso e stilo .
S e é v e r d a d e q u e «o o b je c to d e e s tilo é o b te r a
m a io r q u a n tid a d e p o ss ív e l d e sen saçõ es ao m e sm o
te m p o » , n ã o n o s e sq u e ç a m o s d e q u e s o m e n te a
a r t e d e e s c r e v e r as d e s p e rta rá , p e la p r ó p r ia c iê n ­
c ia d a e x p re ss ã o , e q u e e s ta a r te de e s c re v e r é u m
d o m , q u e se p o ssu i p o r n a tu r e z a , m a s q u e se
d e s e n v o lv e d e p o is p e lo e s tu d o d a q u e le s q u e fo ra m
e se rã o s e m p re os m e s tre s d a lite r a tu r a .

F IM
ÍNDICE

Pá£.

. -C a p ít u l o i A l e i t u r a , co m o p ro c e s s o g e r a l d e
a s s im ila ç ã o ............................................ 11
C a p ít u l o ii ■ A ssim ilação p o r i m ita ç ã o . 43
C a p ít u l o in O P a s tic h o 75
C apit ^ jlo IV D a a m p l i f i c a ç ã o ..................................... 87
C a p ít u l o V A s s im ih iç ã ^ f l ^ e s t i j o d e s c r itiv o . 109
C a p ít u l o VI A im ita ç ã o d e s c ritiv a ' a t r a v é s d o s
a u to r e s . . . . . . . . 133
C a pít u lo VII O fa lso e s tilo d e s c r itiv o . . . . 165
C a pít u lo VIII A d e s c riç ã o g e r a l ..................................... 179
C a p ít u l o IX E x e rc íc io s d e d e s c riç ã o . . . . 199
C a pít u l o X D e s c riç ã o a c u m u la tiv a e d e s c r iç ã o
p o r a m p l i f i c a ç ã o .............................. 213
C a p ít u l o XI A s s im ila ç ã o d o e s tilo a b s t r a c t o p e la
a n títe s e ........................................ * . 223
C a p ít u l o x ii A a n títe s e , p ro c e sso g e r a l d o s g r a n ­
d e s e s c r i t o r e s ..................................... 275
C a pít u l o xiii ■A lg u n s p ro c e sso s a s s im ilá v e is 321
C a pít u lo xiv • O e s tilo sem r e tó r ic a . . . . . 341