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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PETRÓPOLIS

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS

CURSO DE BACHARELADO EM DIREITO

O Direito à Saúde e o processo judicial como instrumento essencial para garantir a sua

efetivação.

Matheus José de Almeida Teixeira

11310290

Petrópolis, 25 de outubro de 2017.


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PETRÓPOLIS

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS

CURSO DE BACHARELADO EM DIREITO

O Direito à Saúde e o processo judicial como instrumento essencial para garantir a sua

efetivação.

Monografia apresentada à Faculdade de Direito


da Universidade Católica de Petrópolis como
requisito parcial para conclusão do Curso de
Direito.

Matheus José de Almeida Teixeira

Professor Orientador:
Thiago Rodrigues Pereira

Petrópolis
2017
Aluno: Matheus José de Almeida Teixeira Matrícula: 11310290

O Direito à Saúde e o processo judicial como instrumento essencial para garantir a sua

efetivação.

Monografia apresentada ao Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Católica de


Petrópolis como requisito parcial para conclusão do curso de Direito.

AVALIAÇÃO

GRAU FINAL: _____

AVALIADO POR

Prof. Dr. Thiago Rodrigues Pereira ____________________________

Prof. ____________________________

Prof. ____________________________

Petrópolis, ____ de __________ de _____.

Prof. Dr.

Coordenador
DEDICATÓRIA

À Deus, que em todos os momentos e em todas as adversidades encontradas foi o meu grande
refugio e verdadeira fortaleza. Seu fôlego dе vida еm mіm mе fоі sustento е mе dеu coragem
para questionar realidades е propor sempre υm novo mundo dе possibilidades.

Aos meus amados pais Marco Aurélio Teixeira e Ana Paula Freitas que me deram a vida e me
ensinaram a vivê-la com dignidade, muitas vezes renunciando aos seus sonhos para poderem
realizar os meus. Não há no mundo palavras que descrevam com louvor todo o valor que vocês
possuem para mim!

Ao meu querido avô Jose de Almeida, que sempre foi presente em todos os momentos da minha
vida. Sem ele não seria possível realizar esse sonho! Sinto muita gratidão por tudo, e apenas
lamento que não existam palavras ou gestos capazes de a expressarem devidamente.
AGRADECIMENTOS

Á Deus por ter me dado força e saúde para superar as dificuldades.

Aos meus pais Marco Aurélio José Teixeira e Ana Paula Freitas de Almeida por todo o
empenho, por todo o carinho e auxilio nessa longa caminhada! De vocês obtive o incentivo nas
horas difíceis, de desanimo e cansaço. Mãe, sеu cuidado foi o que me deu а esperança pаrа
seguir. Pai, suа presença significou segurança е certeza dе quе não estou sozinho nessa
caminhada. Amo vocês e minha admiração é imensa e eterna!

Ao meu querido avo Jose de Almeida, pessoa fundamental em minha formação, um verdadeiro
exemplo de caráter e honestidade!

Aos meus avos paternos Adão Jose Teixeira e Arlene Guimaraes de Freitas, e minha avo
materna Mary Freitas de Almeida, que hoje aqui não estão mais presentes no entanto se
estivessem com certeza estariam orgulhosos de mais essa conquista. Vocês fazem parte dessa
vitoria!

As minhas queridas tias Maria Augusta Freitas de Almeida Duarte e Marta de Freitas pela
enorme e essencial contribuição que me deram para atingir esse objetivo! Essa vitoria também
é de vocês!

A minha namorada e companheira para todas as horas Lorraine de Freitas, principalmente pelo
combustível que me concede todos os dias de almejar cada vez mais ser uma pessoa melhor. Seu
incentivo foi essencial no final dessa longa caminhada! Obrigado!

A todos os professores da graduação com carinho especial aos mestres Thiago Rodrigues
Pereira, Adriana Henrichs Sheremetieff, Karla Carvalho, Roberto Wagner e Antonio Carlos
Pimentel, pela contribuição na minha vida acadêmica e por tanta influencia positiva na minha
futura vida profissional.

Aos amigos Rafael La Greca, Anna Carolina Bastos, Frederico Vanzan, Lucas Braga e Matheus
Silveira que sempre estiveram ao meu lado e que muitas vezes, mesmo de longe, se fazem
presentes na minha vida. Saber que vocês estão sempre ao meu lado me da forca para continuar
em qualquer situação. Aos meus verdadeiros amigos que conquistei durante o curso, em
especial: Bruno Barreira da Rocha Kurike e Irma Sandilene Maria, e todos os outros que não
mencionei, mas que também deixarão saudades.

Por fim e não menos importante, aquele que muito me ensina e muito me incentiva! Dr. Cleber
Francisco Alves, obrigado de coração por sempre ter acreditado em mim e em meu potencial!
Você cumpre um papel de destaque na minha formação pessoal e principalemente profissional.
TEIXEIRA, Matheus José de Almeida. O Direito à saúde e o processo judicial
como instrumento essencial para garantir sua efetivação. Universidade Católica de Petrópolis,
Centro de Ciências Jurídicas, Faculdade de Direito. Petrópolis, 2017.

RESUMO
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .......................................................................... Error! Bookmark not defined.
2 HISTÓRICO .......................................................................................................................... 03
1.1 ANÁLISE DO CONCEITO TEÓRICO ........................................................................... 06
3 OBRIGAÇÃO DO ESTADO EM PROVER O DIREITO À SAÚDE .............................. 09
3.1 A REALIDADE ATUAL DO CONTEXTO BRASILEIRO NO QUE SE REFERE A SUA
EFICÁCIA PRÁTICA ............................................................................................................ 10
3.2 A NECESSIDADE DA EXISTÊNCIA DE DEMANDAS JUDICIAIS QUE GARANTAM
OU MINIMIZEM OS OBSTÁCULOS PARA A APLICABILIDADE DO DIREITO À
SAÚDE.................................................................................................................................... 11
3.3 ALTERNATIVAS PARA A RESOLUÇÃO DO PROBLEMA E POSSÍVEIS
MANEIRAS DE COERÇÃO AO PODER PÚBLICO QUANDO QUEDA-SE INERTE......12
4 A IMPORTÂNCIA DO PAPEL DAS DEFENSORIAS PÚBLICAS ESTADUAIS E
FEDERAIS PARA A EFETIVAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE ......................................... 22
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 29
BIBLIOGRAFIA....................................................................................................................... 32
Commented [TR1]: A introdução não se numera, portanto,
deve renumerar.
1. Introdução:

Nos últimos anos tem se observado uma crescente transformação no que

toca as reivindicações dos direitos fundamentais e sociais na Justiça. Nesse contexto, as

ações judiciais que cumprem papel de grande destaque são aquelas que versam sobre o tão

falado Direito à Saúde. A maioria dessas ações judiciais visam principalmente a aquisição

de medicamentos, realização de exames médicos, intervenções cirúrgicas e internações em

caráter urgente.

Essa tendência se iniciou nos primeiros anos da década de 1980, depois

que as reformas constitucionais de vários países facilitaram muito o acesso aos tribunais.

Nesse mesmo diapasão, indubitável é que a Constituição Federal da República Federativa

do Brasil também vem conquistando, finalmente, força normativa e efetividade, ou seja, as

normas constitucionais estão deixando de ser percebidas como integrantes de um

documento político e passando a desfrutar de imediata aplicabilidade pelos magistrados.

Considerando isso, apesar do fenômeno da judicialização da saúde num

primeiro plano ser visto como a grande salvação, coloca em cheque também profundas

divergências de opinião a respeito dessa tendência, isto é, existem discussões para concluir

se as demandas exercem papel positivo ou negativo para a promoção do referido direito e

se há a possibilidade de se obter uma saúde “mais justa”. No Brasil, por exemplo, estamos

longe de ter a situação mais dramática mas são cada dia mais pacientes que procuram a

Justiça para solicitar medicamentos e tratamentos que o sistema público não proporciona.

Cada ano, em todo o território nacional (sejam eles municipais, estaduais ou federais), os

departamentos de saúde respondem a centenas de milhões de ações judiciais em que os


indivíduos pleiteiam algum tipo de tratamento de saúde com base nos dispositivos da

Constituição Federal.

A grande parte das demandas judiciais se decide de maneira favorável

para os requerentes/pacientes devido a uma interpretação expansiva do Direito à Saúde que

foi adotada em todos os níveis do sistema judicial brasileiro – desde os tribunais mais

baixos até o Supremo Tribunal Federal. Commented [TR2]: Seria bom colocar o que vc tratará em cada
em cada capítulo.
2. Histórico: Commented [TR3]: Não tem “:”

Desde os tempos mais pretéritos onde passou-se a observar a existência de uma

sociedade, foi necessário que fosse dado início a sua organização. Na época do Antigo

Império, quando ainda vivíamos no chamado Regime de Feudos ou Regime Feudal as

instalações sanitárias de um modo geral assim como as de saúde eram absolutamente

precárias, chegando a ser completamente destruídas pela notória falta de cuidado dos que

comandavam o Império naquela época. A Igreja Católica chegava inclusive a afirmar que

as doenças eram consequência do pecado, ou seja, eram consideradas um verdadeiro

castigo de Deus o que levou inclusive aos procedimentos curativos deixarem de ser

realizados por médicos e passarem a ser realizados por padres ou religiosos de um modo

geral, sendo certo que no lugar das indicações médicas, eram recomendadas rezas,

penitências, unções e outros procedimentos para a purificação da alma. Commented [TR4]: Essas informações históricas vc tirou de
onde?

No decorrer da Idade Média, mais especificamente em sua parte final, é que

passaram a ser editadas normas visando iniciar o saneamento básico para os cidadãos, neste

período portanto passaram a surgir os primeiros Hospitais que eram originariamente da

Igreja Católica destinados a acolher apenas os pobres e doentes. Até o início do século

XVIII, a sociedade considerava que não era o doente que necessitava ser curado, mas sim

o pobre. Diante dessa visão completamente equivocada no ano de 1948 foi criada a
Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas,

esse documento é uma das maiores conquistas contra a discriminação e defende a igualdade

das pessoas.

No Brasil, a supracitada Declaração serviu como grande inspiração para o início

de uma árdua luta para o acesso ao Direito à Saúde. Inicialmente, este era garantido apenas

àqueles que contribuíam para a Previdência Social e somente a partir da participação do

país na 8ª Conferência de Saúde, em 1986 com o tema "A saúde, direito de todos e dever

do Estado", iniciou-se a discussão dos dispositivos que foram promulgados na Magna Carta

de 1988. Tais dispositivos vieram como uma novidade no sistema jurídico, criando também

o importante Sistema Único de Saúde trazendo a população um conceito de que se fosse

unificado, o atendimento poderia ser universal e igualitário.

A partir da Constituição Federal de 1988, a prestação do serviço público de saúde

não mais estaria restrita aos trabalhadores inseridos no mercado e com registro em carteira.

Todos os brasileiros, independentemente de possuir vínculo empregatício, passaram a ser

titulares do direito à saúde. A nossa Magna Carta reconhece hoje a saúde como um direito

fundamental de um modo completo, sendo importante assinalar que existem variáveis

normas e regulamentos de hierarquia inferior em matéria de direito à saúde, que visam

complementar a referida garantia.


Como exemplo de legislação de hierarquia inferior, podemos citar a aprovação da

Lei Orgânica da Saúde que estabelece a estrutura e o modelo operacional do SUS,

propondo a sua forma de funcionamento. O SUS foi concebido como o conjunto de ações

de saúde, prestados por instituições públicas da Administração, só sendo permitido a

iniciativa privada em caráter considerado com complementar.

2.1 Análise do Conceito Teórico: Commented [TR5]: E o item 2? Pq começar a partir do 2.1?
Não tem “:”
Inicialmente, devemos partir da importante consideração de que a saúde é um

direito de todos e um dever do Estado que deve garanti-la mediante políticas sociais e Commented [TR6]: Verifique pois o espaço é 1,5 e não duplo

econômicas, visando o acesso igualitário a todas as ações e serviços para sua promoção,

proteção e recuperação. A positivação do direito à saúde, como direito fundamental, é, para

muitos, fruto de um processo evolutivo da organização social, que destaca seus atributos

essenciais. Desta feita, podemos interligar o conceito do Direito à Saúde à concepção de

direitos humanos, já que ambos derivam da própria existência do ser humano.

É fato notório que o Estado tem, de forma geral, o dever de prestar o direito à

integralidade da assistência à saúde, de forma individual ou coletiva, bem como também

tem o dever de garantir todos os Direitos Fundamentais expressamente contidos na

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. O Direito à Saúde tem sido

considerado como um direito social, integrando portanto a chamada segunda dimensão dos

direitos fundamentais e encontra-se disposto no Art. 6º ("Art. 6. São direitos sociais a

educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a

previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos

desamparados, na forma desta Constituição."). O Artigo 196 da Carta Magna dispõe

também que é dever do Estado, por meio de políticas econômicas e sociais, garantir a

redução do risco de doenças concedendo acesso igualitário a todas as ações e serviços por

ele prestados ("Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante
políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos

e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e

recuperação.").

Posto isso, como já dito acima, devemos observar o Direito à Saúde não só

como um direito mas também como um dever fundamental claramente positivado na Carta

Maior e em inúmeras normas infraconstitucionais, e garantir esse direito ou cumprir esse

dever tem sido uma árdua tarefa para o Estado. Observando os vários dispositivos

infraconstitucionais, como por exemplo a já mencionada Lei Orgânica da Saúde que

estabelece a criação do SUS (Sistema Único de Saúde), é possível afirmar que os princípios

e diretrizes doutrinários norteadores de sua institucionalização revelam-se como uma

potente ferramenta da completa efetivação do Direito à Saúde.

Nesta toada, na medida em que a saúde é um direito de todos, ou seja, de

milhões de brasileiros, cada vez mais surgem desafios e questões sobre como tornar este

direito alcançável e exercido por todos. O Poder Executivo, por mais que até possua verbas

para atendimento, não consegue ou não tem "vontade" de criar políticas públicas eficazes

com vistas a obter essa desejada garantia. O principal questionamento a ser respondido é

como constituir um arranjo de recursos e investimentos que torne as ações em saúde uma

prerrogativa efetiva de todos. Isso se dificulta ainda mais na medida em que, no Brasil, a
efetivação da saúde é de competência solidária, ou seja, se constitui simultaneamente como

um dever para os Municípios, os Estados e a União.

3. Obrigação do Estado em prover o Direito à Saúde;

De fato, como já mencionado, o Estado tem a obrigação de prover o Direito

à Saúde. O Poder Público é responsável pelo cumprimento das normas constitucionais e


ordinárias que regulamentam a saúde pública, e deve prestar um atendimento que satisfaça

as necessidades das pessoas.

Num primeiro momento, deve o Estado preocupar-se em tutelar o direito na

ordem positiva, criando a obrigação para si próprio. Num segundo momento, deve voltar-

se a realização dessa obrigação ora criada, garantindo que seja esta efetivamente cumprida.

Como bem definido pelo conceituado jurista brasileiro Professor Dalmo de

Abreu Dallari, o direito só pode existir quando puder ser utilizado, isto significa que o

Estado deve desempenhar o seu papel inicial tutelando o direito à saúde no ordenamento

jurídico e depois protegê-lo, criando mecanismos para que o mesmo seja utilizado.

Todos os atendimentos prestados através do SUS devem atender

satisfatoriamente as necessidades de cada cidadão, observando-se que o Poder Público tem

a responsabilidade de indenizar todas as pessoas que porventura vierem a sofrer alguma

sequela em razão da falta de atendimento médico ou fornecimento de remédios no tempo

razoável.

A grave crise financeira que estamos ultrapassando nos últimos anos, e a falta

de recursos públicos para atender às necessidades sociais, impõe ao Estado sempre a

tomada de decisões difíceis. Investir recursos em determinado setor sempre implica deixar

de investi-los em outros. Em diversos julgados mais antigos, essa linha de argumentação


predominava. Em 1994, por exemplo, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, ao negar a

concessão de medida cautelar a paciente portador de insuficiência renal, alegou o alto custo

do medicamento, a impossibilidade de privilegiar um doente em detrimento de outros.

3.1 A realidade atual do contexto brasileiro no que se refere a sua eficácia

prática.
3.2 A necessidade da existência de demandas judiciais que garantam ou

minimizem os obstáculos para a aplicabilidade do Direito à Saúde;

A sociedade brasileira, de um modo geral, apesar de ter passado por inúmeras

transformações que culminaram na mudança de alguns hábitos - inclusive ficando mais

"atenta" aos seus direitos - não possui ainda consciência da saúde enquanto direito e um

dever. Em muitos casos, os usuários associam a saúde a um direito baseado no imposto que
pagam e, em outros, chegam ao extremo de considerá-lo condicionado à contribuição

previdenciária. É frequente que muitos cidadão achem, na prática, que a saúde é um favor

prestado pelo Estado.

Por outro lado, a Administração Pública, na maioria das vezes queda-se

inerte às necessidades não conseguindo dar efetividade as garantias, compelindo a

população a buscar o Poder Judiciário para finalmente conseguir os seus direitos e só assim

obter êxito parase submeter a tratamentos médicos, intervenções cirúrgicas, fornecimento

de medicamentos, dentre outros. A omissão, na maioria das vezes injustificada, do Poder

Público vem gerando um enorme aumento no número de demandas judiciais, isto é, cada

vez torna-se mais frequente a interferência do Poder Judiciário na solução da desigualdade

da população desprovida de recursos financeiros e o Poder Executivo. Ao cidadão cabe

recorrer ao Poder Judiciário para que seu direito seja garantido quando o Estado se ausenta.

São MILHARES as ações judiciais movidas em face dos Estados, Municípios e até mesmo

da União, a grande maioria patrocinada pela Defensoria Pública, nelas, os cidadãos, como

já dito, vão buscar no Judiciário o adimplemento de obrigações legais e constitucionais que

deveriam ser cumpridas de ofícios pelos órgãos competentes. Nessas ações busca-se, como

já amplamente explicitado acima, não só o fornecimento de medicamentos e insumos para

preservação da vida e da saúde mas também a realização de cirurgias e exames médicos


diversos, que não são realizados em tempo razoável, sujeitando os pacientes a prejuízos

graves para sua integridade física, com risco até de morte em alguns casos.

Há de ressaltar que tal "interferência" do Poder Judiciário no Poder

Executivo não deve jamais ser entendida como violação ao Princípio da Separação dos

Poderes. O que observamos na verdade é um conflito de interesses, onde, como já dito

anteriormente, na maioria das vezes o Hipossuficiente busca apenas a efetivação de um

direito que lhe é garantido. Os magistrados devem sempre observar a Constituição, que

neste caso é a garantia do Direito à Saúde, e para dar essa garantia são proferidas inúmeras

decisões de caráter compulsório que ainda assim muitas vezes não são cumpridas,

forçando o magistrado a fixar multas (como veremos mais a frente) ou até mesmo

frequentemente utilizar-se de sequestros e arrestos judiciais para pagamento de

instituições privadas com vistas a obter o cumprimento das obrigações, isto é,

infelizmente, em muitos casos, mesmo com o ajuizamento dessas ações, e concessão de

tutela antecipada, às vezes até já havendo decisão definitiva transitada em julgado, não se

alcança a efetividade esperada, visto que sistematicamente o Estado se omite no

cumprimento das determinações judiciais.

Nos dias de hoje, observamos fatalmente que sem as ações judiciais fica

inviável garantir o Direito à Saúde.


3.3 Alternativas para resolução do problema e possíveis maneiras de coerção

ao Poder Público quando queda-se inerte;

De fato o que ocorre na realidade é que ainda que os cidadãos possuam

decisões judiciais favoráveis, em grande parte o Poder Público não as cumpre, ficando a

cargo do Poder Judiciário criar meios capazes de obrigar o Estado a dar efetividade as

suas decisões

Como um dos meios de compelir o Estado, podemos observar abaixo

algumas jurisprudências colhidas do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de

Janeiro, que versam sobre esse assunto e inclusive preveem a fixação de multa na hipótese

de descumprimento:

0050237-87.2012.8.19.0042 - APELACAO / REEXAME

NECESSARIO DES. NANCI MAHFUZ - Julgamento: Commented [TR7]: Citação está muito grande e espaçada...
verifique

30/10/2014 - DECIMA SEGUNDA CAMARA CIVEL Apelação

cível/Reexame necessário. Medicamento gratuito. Sentença de

procedência, Direito à vida e à saúde. É cabível a condenação

do Município de Petrópolis e da Fundação Municipal de Saúde

de Petrópolis-FMS ao fornecimento

dos medicamentos necessários ao tratamento da enfermidade

da qual é portadora a requerente, com a antecedência devida à


continuidade do tratamento. Responsabilidade solidária dos

entes públicos. Súmula 65 deste TJ. Recurso da parte autora

requerendo a fixação da multa diária de R$ 1.000,00 requerida

na inicial, em caso de descumprimento, considerando ter havido

necessidade de busca e apreensão por descumprimento nos

presentes autos. As astreintes são viáveis contra a Fazenda

Pública, não cabendo aos órgãos públicos se valerem de

entraves burocráticos e administrativos para descumprimento

de ordem judicial, pelo que a saúde da autora merece urgência,

sendo legal a imposição de multa. Valor fixado em R$ 300,00,

em conformidade com os parâmetros adotados pela

jurisprudência deste Tribunal. Isenção ao pagamento da taxa

judiciária pela Fundação, que deve ser reconhecida em

reexame necessário, em razão de sua natureza pública e porque

não é o caso de reembolso, porque a parte autora não a

recolheu. Parcial provimento do primeiro apelo, afastado o

pagamento da taxa judiciária pela Fundação, em reexame

necessário.”
Apelação Cível nº 0035103-81.2012.8.19.0054 - APELAÇÃO

CÍVEL. MEDICAMENTOS. AUTORA ACOMETIDA DE MAL

DE ALZHEIMER. ESTADO DO RIO DE JANEIRO E

MUNICÍPIO DE SÃO JO- ÃO DE MERITI. SENTENÇA DE

PROCEDÊNCIA. RECURSOS DOS RÉUS. Direito à saúde.

Garantia constitucional do direito à vida. Inteligência dos

artigos 5º, 6º e 196 da CRFB/88. Responsabilidade solidária

dos entes públicos. Súmula nº 65, TJRJ. Obrigatoriedade dos

réus no fornecimento dos medicamentos pleiteados.

Impossibilidade de limitação dos medicamentos constantes nas

listas oficiais. Devem os réus promoverem ações que viabilizem

o fornecimento dos medicamentos pleiteados, a fim de manter a

saúde e a vida da jurisdicionada. Não podem os réus utilizar-se

dos substitutos terapêuticos padronizados para adimplir a sua

obrigação para com a autora, salvo se houver a concordância

de seu médico. Inexistência de afronta à Lei 8080/90 ou ao

princípio da reserva do possível. Súmula nº 180, TJRJ. Questões

orçamentárias que não podem obstaculizar a implementação do

fornecimento dos medicamentos, vez que as políticas de saúde


pública devem se amoldar às necessidades da popula- ção,

mormente a carente de recursos, e não o contrário. Inexistência

de afronta ao princípio da separação de poderes. Quanto à Lei

nº 8080/90, não se trata de negar-lhe aplicação, ao contrário,

persegue-se exatamente o cumprimento de sua intenção

principal, qual seja, a promoção da saúde como direito

fundamental do ser humano, pois é dever do Estado prover as

condições indispensáveis ao seu pleno exercício (art. 2º da Lei

8080/90). Multa diária arbitrada em R$ 50,00 (cinquenta reais)

que não se revela excessivo, sendo sua fixação necessária na

hipótese de eventual descumprimento da ordem emanada, tendo

em vista a relevância dos bens que se pretende resguardar,

quais sejam, a saúde e a vida da autora. Honorários

advocatícios devidamente fixados em R$ 350,00 (trezentos e

cinquenta reais). Condenação do Município ao recolhimento da

taxa judiciária, conforme previsão das Súmulas nº 161 e 145,

TJRJ. Reforma parcial da sentença. Recursos desprovidos, na

forma do artigo 932, IV, “b”, do CPC.


O pagamento de multa em caso de não entrega dos medicamentos se

mostra legítimo e de suma importância para a efetividade das decisões proferidas pelos

Magistrados, uma vez que verifica-se sistematicamente o descumprimento de ordens em

inúmeros processos da natureza, devendo portanto a fixação buscar garantir a efetividade

do provimento jurisdicional. Em outras palavras, acaba tornando-se necessário tomar tais

medidas de maneira mais incisiva no sentido de responsabilizar os órgão públicos por

suas ações no desempenho da função administrativa.

Fatalmente, os sequestros judiciais, cumprimentos por terceiros

habilitados acabam por se tornar muito mais onerosos para o Estado. Se fosse seguido

corretamente o competente processo licitatório, bem como se o aumento do número de

leitos e contratação de médicos seguisse o aumento populacional, o gasto seria bem

menor e consequentemente a qualidade de vida seria bem maior. Além do mais, esse

volume de trabalho suportado pelos órgãos da Defensoria Pública e do Ministério

Público na judicialização da saúde acaba tendo um CUSTO, que porém não é suportado

pelo Estado, posto que por ser entidade pública, fica isenta de algumas despesas

judiciais. Commented [TR8]: Aonde estão as citações de livros????


4. A importância do papel das Defensorias Públicas Estaduais e Federais para efetivação

do Direito à Saúde;

O notório aumento populacional pode ser uma das grandes causas da

dificuldade enfrentada pelo Estado em manter rede hospitalar com capacidade para

atender a toda a população, porém não pode ser utilizado como justificativa recorrente

do gestor da saúde pública para não cumprir o dever constitucional que lhe recai, e isso

porque as vagas, geralmente, são disponibilizadas após a judicialização. Quando não o

são por muitas vezes é necessário ordenar que uma Instituição particular e autônoma

receba o cidadão para o tratamento médico com posterior apresentação de nota fiscal

nos autos para o competente pagamento que sabe se lá quando irá ocorrer.

Também na esfera do Direito à Saúde, podemos observar mais

especificamente a deficiência do sistema quanto ao fornecimento de medicamentos a

população. Mais uma vez, a questão orçamentária não pode ser capaz de justificar a

inércia do Poder Público tendo em vista a natureza fundamental do direito. Sob essa

ótica, mais uma vez ressalta-se o reincidente comparecimento dos cidadãos aos órgãos

da Defensoria Pública com o intuito de garantir o seu direito de acesso aos

medicamentos que são imprescindíveis a manutenção de sua saúde. Na maior parte dos

casos, mesmo judicializando, as decisões dos magistrados não são cumpridas gerando
com única e última alternativa o sequestro/arresto de numerário das contas públicas para

aquisição dos insumos ou fármacos em estabelecimentos particulares. Importando

destacar também que em TODAS as ações em que há a determinação do sequestro

judicial de verba, a Administração Pública já foi citada e, portanto, já tem ciência de sua

obrigação com o paciente, apresentando total desrespeito com a ausência nos estoques

das Secretarias e atrasos nos processos licitatórios.

Os cidadãos que precisam de assistência médica por parte do SUS são

de fato os mais carentes, que não podem sequer pagar planos de saúde nem comprar os

medicamentos que lhes são prescritos, sendo esse tipicamente o público assistido pelos

órgãos da Defensoria Pública. Nesses casos em que não conseguem receber

regularmente seus medicamentos, normalmente já debilitados pela doença e pela falta

dos remédios de que necessitam, muitas vezes pessoas idosas, acabam sendo compelidos

a retornar à Defensoria Pública para reclamar do descumprimento da ordem judicial. De

acordo com dados obtidos pela Central de Mandados do Fórum Central da Comarca de

Petrópolis, só anualmente são realizados pelo menos 1.000 (mil) diligências de Busca e

Apreensão e Sequestro para aquisição de medicamentos1. Esse constante retorno aos

órgão de assistência judiciária, representa grave prejuízo para a parte que acaba por

1
Conforme dados obtidos junto a Defensoria Pública ema atuação perante a 4ª Vara Cível da Comarca de
Petrópolis/RJ.
gastar dinheiro – que muitas vezes nem tem – pois precisa se deslocar aos órgãos, além

de colocar em descrédito todo o sistema do Poder Judiciário - aí incluída a própria

Defensoria Pública: as pessoas atribuem tais falhas a possível negligência dos

defensores vez que não são capazes de entender toda a tramitação de um pleito na

justiça.

É extremamente necessário reconhecer a importância da Defensoria

Pública como instituição estatal, difusora dos direitos humanos e que tem como função

atuar na efetivação dos direitos que o próprio Estado positivou, mas insiste em sonegar.

No caso da Defensoria Pública do Município de Petrópolis, no ano de

2016 foi iniciado um projeto inovador conhecido como “Legitimação Extraordinária”.

Tal projeto, iniciado pelos Defensores Públicos Dra. Andréa Cariús de Sá, Dra. Marília

Pimenta e Dr. Cleber Alves, já salvou a vida de inúmeros munícipes petropolitanos. Só Commented [TR9]: PQ Dr.? Eles tem doutorado? Tire
adjetivações.

no mês de agosto do corrente ano, foram distribuídas 20 ações dessa natureza 2, o que

ratifica o projeto como um meio rápido e eficaz de garantir o Direito à Saúde de maneira

digna.

2
Conforme dados obtidos junto a Defensoria Pública ema atuação perante a 4ª Vara Cível da Comarca de
Petrópolis/RJ.
De maneira breve, cumpre observar que o programa funciona a partir

de uma senha de acesso – fornecida pela Secretaria Municipal de Saúde de Petrópolis –

pela qual os Defensores conseguem acessar a lista de pacientes que encontram-se

aguardando na fila de espera para internação/cirurgia (como se verifica na imagem

abaixo) e a partir daí, considerando a urgência e o tempo de espera na fila a DP ajuíza

ação judicial sem que o paciente e nem tampouco os familiares destes procurem o órgão,

uma vez que muitas pessoas não possuem conhecimento desse direito e também

movidas pela emoção de estar com um familiar internado não conseguem se deslocar ao

órgão para ajuizar a ação cabível.

Importante considerar que a legitimação extraordinária da Defensoria

Pública nos procedimentos que envolvem o direito à saúde deverá ser SEMPRE

condicionada à emergencialidade que caracteriza as situações de risco de morte.

Portanto, a urgência não é apenas um fundamento, mas sim uma condição sem a qual a
Defensoria Pública não estará legitimada a agir. Possuindo os elementos, bem como as

demais condições da ação, a DP não está apenas legitimada, mas sim obrigada a agir

ativamente.

Nesse sentido, optou o constituinte pela caracterização da Defensoria

Pública como instituição essencial à função jurisdicional, voltada à promoção dos

direitos humanos. Portanto, a Defensoria Pública deve se voltar à difusão e defesa dos

direitos fundamentais, especialmente do direito à vida e à saúde tornando-se assim ainda

mais necessária ao Estado Democrático e imprescindível ao cidadão.


5. Considerações Finais.

O importante no trabalho em questão não foi apenas focar o Direito à

Saúde como norma positivada, mas também a necessidade de encurtamento entre a norma

e sua efetivação, com a redução dos efeitos negativos que advêm da distância entre ambas.

De fato é verdade que há uma crise estrutural do Estado, mas também é verdade que o

direito à vida é intangível e não pode este ser deixado de lado, seja por questões

sociológicas ou filosóficas.

Indubitável é que há uma crise de efetividade dos direitos fundamentais mas nem

por isso devemos entender as Ordens Judiciais como a grande salvação. As decisões

judiciais devem sim ser entendidas como um meio de proporcionar ao cidadão o regular

exercício subjetivo de receber o tratamento que lhe é garantido na carta constitucional.

Devemos ter em mente que em todas as demandas, a dignidade da pessoa humana deve

alcançar a potência máxima, exigindo união dos Poderes para que as suas respectivas

atuações possuam sentimento de humanidade e respeito com aqueles mais necessitados.

É importante termos a convicção de que apenas uma improvável convergência de esforços

– e vontades - dos entes federativos é que se poderá chegar a uma solução satisfatória e

que venha a resgatar a dignidade da pessoa humana a todos os brasileiros, no que diz com

a efetiva possibilidade de usufruir das condições mínimas para uma existência digna. Sem
solidariedade e responsabilidade por parte de todos, poder público e comunidade, a saúde,

cada vez mais, não passará de uma mera promessa no texto da nossa Constituição. Commented [TR10]: Está meio pequena não...
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ATÉ O MOMENTO:

• ÂMBITO JURÍDICO. Da efetivação do direito à saúde no Brasil. Disponível em: <

http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9037

%22&%20HYPERLINK >. Acesso em 17 de outubro de 2017.

• SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais


na Constituição Federal de 1988. 2.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002.

• SARLET, Ingo Wolfgang. Algumas considerações em torno do conteúdo, eficácia


e efetividade do Direito à Saúde na Constituição de 1988. Disponível em: <
http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/rere-11-setembro-2007-
ingo_sarlet_1.pdf > Acesso em 17 de outubro de 2017.

• YAMIN, Alicia Ely. GLOPPEN, Siri. La lucha por los derechos de la salud.
Argentina: Grupo Editorial Siglo Veintiuno, 2013.

• DE MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. 21ª Ed. São Paulo: Editora Atlas,
2007.

• CONJUR. Novo CPC amplia legitimação extraordinária da Defensoria Pública.


Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2015-jun-09/tribuna-defensoria-cpc-amplia-
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• ANADEP. A legitimação extraordinária da Defensoria Pública nas Ações de Saúde.


Disponível em: < https://www.anadep.org.br/wtk/pagina/materia?id=12702> Acesso em 17
de outubro de 2017.

• SCHWARTZ, Germano; GLOECKNER, Ricardo Jacobsen. A tutela antecipada no direito à


saúde. A aplicabilidade da teoria sistêmica. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2003.
• DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Moderna, 1998.

• BARROSO, Luís Roberto. Da falta de efetividade à judicialização excessiva: direito à


saúde, fornecimento gratuito de medicamentos e parâmetros para a atuação judicial. Disponível
em: <http://pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-conteudos-de-apoio/publicacoes/saude/Saude_-
_judicializacao_-_Luis_Roberto_Barroso.pdf > . Acesso em 17 de outubro de 2017. Commented [TR11]: Aonde estão esses livros todos ao longo
do seu texto?