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SÉRIE: 77Z
VOLUME: 41
TÍTULO: OS QUATRO CHEFÕES
CAPA: BENICIO
AUTOR: TONY MANHATTAN
EDITORA: MONTERREY
ANO DA PUBLICAÇÃO:
PREÇO DA PUBLICAÇÃO:
PÁGINAS: 128

SCANS E TRATAMENTO: RÔMULO RANGEL


romulorangel@bol.com.br

DISPONIBILIZAÇÃO
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Apresenta

Copyright © Editora Monterrey Ltda.

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OS
QUATRO
CHEFÕES

TONY MAHATTAN

Capa de BENICIO

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EDITORA MONTERREY LTDA.
Av. Calógeras, 15 – Gr. 1.204
Caixa Postal n° 2.136 — ZC-06
Rio de Janeiro, GB – Fone: 224-3759
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Este livro foi aprovado pelo SCDP


sob O n° 145, de acordo com a
portaria n° 219/DG do
Departamento de Polícia Federal.

Composto e Impresso nas oficinas da:


CIA. GRÁFICA LUX
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Distribuído por:
FERNANDO CHINAGLIA DISTRIBUIDORA S.A.

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CAPÍTULO PRIMEIRO

Onde o mistério faz o cotidiano...

Fazia muito que o luxuoso iate deixara o Porto de


Macau e, da fervilhante cidade sino-portuguesa com centro
numa colina e limites espalhados pelas ilhotas de Taipa e
Coloane, via-se apenas o “Central Hotel”, prédio mais alto
da pequena colônia.
Também haviam ficado para trás milhares de juncos e
sampanas, com suas pequenas luzes vermelhas de posição.
Havia apenas dois tripulantes no iate, ambos
refestelados em confortáveis espreguiçadeiras de convés,
porque o piloto automático estava funcionando.
No salão da cabina, um hi-fi de fabricação japonesa
derramava música lenta, romântica, enquanto quatro
mulheres jovens, hetairas de luxo, saboreavam legítimo
champanha francês, languidamente reclinadas em fofas
poltronas, à espera de que os quatro homens se dignassem
a servir-se delas.
Eles eram sujeitos extremamente sóbrios. A começar
pelo elegante doutor Veloso, mestiço de português com
chinesa, e terminando pela bola de sebo que se chamava
Kan Se-Wen e dirigia olhares lúbricos dos olhinhos
porcinos a uma das garotas.

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Os outros dois eram Li Si-Ping e Hsuan-Nsu. À exceção
do adiposo Se-Wen, todos vestiam impecável smoking
branco. Se-Wen era intransigente no tocante ao
tradicionalismo de sua raça: envergava impressionante
jaqueta de cetim preto com gola e cavas douradas sobre uma
camisa de mangas curtas em linho vermelho, calças
folgadas de linho creme sem braguilha, atada na cintura
como as dos pijamas, e chulipas douradas de bico fino.
Cabelos lisos colados à cabeça e bigodinho & terminando
em fiapos pendentes. Cem por cento chinês.
— Agora, boneca, vá para o camarote e ponha-se ... à
vontade para me esperar... — ordenou Se-Wen a uma das
garotas, que se apressou a obedecer.
— Podemos levar champanha? — indagou a coisinha
chinesa.
— À vontade.
Li Si-Ping, Hsuan-Nsu e o dr. Veloso deram ordens
semelhantes às suas presas amorosas e as quatro
chinesinhas saíram do salão como marionetes, nas pontas
dos pés, cada qual com uma taça e uma garrafa de Moet-
Chandon bem gelada.
Veloso se levantou e certificou-se de que a porta estava
bem fechada, desligou o hi-fi e acendeu um charuto,
aproveitando a primeira baforada para soprar a brasa. Falou
com ar altamente sofisticado, como é normal entre os
portugueses de fina educação:
— Suponho que não haverá, entre nós, reservas
desnecessárias. Cada qual sabe a que se arriscará, se aqui,
agora, chegarmos a um acordo.
Não obstante, julgo conveniente apreciarmos nossas
verdadeiras possibilidades de êxito.

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Consultou os demais com o olhar e Se-Wen, ajeitando
o corpanzil na poltrona, murmurou em português, idioma
oficial da colônia:
— Por que não continua falando, dr. Veloso?
— Seja. Alguém terá de fazê-lo... — sorriu Veloso com
malícia. — Comecemos por focalizar a nossa incomparável
Macau e nós mesmos. Falarei pouco de mim, porque todos
me conhecem bastante. Sou o dono do fogo em Macau, ou
seja, de uma das quatro principais atividades que
emprestam vida útil a este aglomerado luso-chinês.
Aparentemente, todo o dinheiro de Macau circula, quando,
na realidade, boa parte dele flui quase ininterruptamente
para os meus cofres.
Os outros três concordaram com um movimento de
cabeça.
— Agora, falemos de você, Si-Ping — dirigiu-se ao
diminuto chinês que, de smoking branco, mais parecia um
boneco de cera. — Você comanda a seu bel-prazer as
finanças e os investimentos em Macau. Os resultados aí
estão. Explora, com ótimos resultados, a segunda atividade
mais importante desta cidade. Como eu, é arquimilionário
e mergulha as mãos, diariamente, num rio de dinheiro.
— Nem tanto... — murmurou a pequena figura, com um
sorriso super amarelo.
— Bem, já enumerei duas das quatro atividades mais
importantes: jogo e finanças. As outras duas são o ouro e o
comércio. Falaremos agora do ouro. De acordo, Se-Wen?
A bola de sebo sorriu amplamente, horizontalizando os
fiapos do bigode.
— Desnecessário — opinou. — Sabe tanto de mim
quanto eu próprio e os demais presentes. Todo ouro que
chega a Macau se encaminha inapelavelmente para as
minhas mãos... excetuando-se migalhas que me convém

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soltar de vez em quando... Satisfeitos com essa descrição,
ou preferem que eu discorra sobre os métodos, modos e
meios?
— Absolutamente! — discordou Veloso. — Isso são
coisas pessoais. Resta apenas a última grande atividade,
muito complexa: comércio. Hsuan-Nsu é o senhor, o
expoente nesse ramo. Claro que não desperdiçaremos nosso
precioso tempo falando de comércio legal, coisa corriqueira
em qualquer parte do mundo. Eu prefiro chamá-lo comércio
rotineiro, tedioso... sei lá! O fato é que Hsuan-Nsu
representa o aspecto mais significativo desta reunião, visto
serem excelentes suas rotas comerciais clandestinas. Ópio,
armas, medicamentos roubados etc. Ele é, de nós quatro, o
que mais próximo está da China de Mao e o dirigente chinês
é seu melhor cliente. Dito isso, entremos no assunto. Mao é
o melhor freguês de todos nós por uma razão muito simples:
graças a nós quatro obtém fundos, divisas, investimentos,
mercadorias e muitos outros benefícios que, sem os Quatro
Grandes de Macau, jamais chegariam às suas mãos. Por isso
ele nos tolera, quase nos protege.
— Porém as coisas podem mudar de um momento para
outro — opinou Hsuan-Nsu. — A situação pode sofrer uma
reviravolta e os maiores atingidos seremos nós. E o pior é
que poderá ocorrer nas próximas vinte e quatro horas...
Houve um silêncio aprovador. Veloso soprou de novo
a brasa do charuto para considerar:
— Tem razão. Mao e nós mantemos um pacto tácito e
o mundo inteiro sabe que, não fôssemos nós, ele já teria
ocupado Macau. Ele está interessado em que esta colônia
continue sendo o disfarçado porto livre de seu império
vermelho. Algo parecido ocorre com Hong-Kong, porém só
nos interessa a configuração de Macau.

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— Sei que tem uma revelação importante a fazer, dr.
Veloso — interveio Si-Ping, um chinês pequeno em tudo:
na estatura, na corpulência, na entonação e na altura da voz,
na coragem e no entusiasmo.
Si-Ping só não era pequeno na ambição, que o levara a
controlar as finanças de Macau. Prosseguiu:
— Nós quatro nos fizemos às custas da inimizade entre
a China de Mao e os Estados Unidos e...
— Exato — cortou Veloso. — Essa inimizade impedia
Mao de obter suprimentos por meios legais. Porém agora
esses dois países estão ampliando suas relações — sorriu —
e, digamos, entram numa fase de amizade. Dentro em breve
surgirão amplos acordos comerciais e Mao não deverá
suprir-se de ouro e divisas por meios clandestinos. A
realidade é dura, meus amigos. Nossa situação privilegiada
e a importância que temos para Mao Tse-tung se reduzirão
a zero. E se ele decidir apoderar-se desta colônia sem ferir
a ordem mundial poderá ocupá-la sub-repticiamente,
substituindo-nos por seus “guardas vermelhos” especiais.
Percebem o perigo que corremos?
— Um perigo iminente! — concordou Se-Wen. — Até
mesmo nossas cabeças estarão em jogo...
Houve silêncio até que Hsuan-Nsu, fatalista, declarou:
— Teria de ocorrer mais cedo ou mais tarde. As grandes
potências não podem ignorar-se mutuamente. Mas o
aspecto político não nos interessa. Estamos aqui para
discutir nossa posição, zelando por nossos interesses.
Proponho que cada qual apresente sugestões sobre os meios
de enfrentarmos a luta que se avizinha.
Hsuan-Nsu era um chinês de olhar frio, cortante, que
jamais sorria no bom estilo dos seus concidadãos. Suas
opiniões, raramente declaradas, contavam de antemão com
o apoio de todos, dada a justeza de seus argumentos.

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— Muito bem, Hsuan-Nsu! — exclamou o sino-
português Veloso. — Foi justamente para fazer tal sugestão
que convoquei esta reunião em meu iate. Mao terá
facilidade em derrubar quatro homens agindo isoladamente
e...
— O melhor seria elegermos um líder para encabeçar
nosso grupo... — intrometeu-se o gordo Se-Wen, com
malícia.
O dr. Adalberto Yang Veloso sorriu.
— Errado, amigo Se-Wen. Um homem, um líder,
sozinho, também é fácil alvo para um dirigente fenomenal
como Mao Tse-tung. Minha proposta é a de que passemos
a agir na mais perfeita harmonia, segundo um plano versátil
coletivamente elaborado, de modo a que, se um de nós for
derrubado, os outros três possam continuar ativos,
mantendo o companheiro na qualidade de eminência perda.
Isto é, aquele de nós que for vencido por Mao só o será
ostensivamente, porque, graças aos outros três, continuará
operando lucrativamente na sombra.
— Bem pensado! — admitiu Se-Wen. — Lembro, no
entanto, que não poderemos continuar trabalhando nos
moldes atuais. Formaremos uma espécie de quarteto
secreto. Isso criará para nós uma situação politicamente
indefinida que nos permitirá, a qualquer momento e
segundo as circunstâncias, bandear-nos para qualquer das
duas potências...
— Aprovado — declarou Hsuan-Nsu. — Dentro desse
princípio, talvez fosse oportuno passarmos
imediatamente... digamos, ao mundo subterrâneo. Não seria
difícil...
— O amigo Hsuan-Nsu esquece que nosso repentino
desaparecimento do cenário provocaria suspeitas em Mao,
homem doentiamente desconfiado — cortou Veloso, com

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um sorriso. — Devemos ser prudentes. Cada um de nós que
for... rifado por Mao, caso não seja eliminado por seus
“guardas vermelhos”, passará à sombra, colaborando
secretamente com os que puderem continuar agindo
abertamente. Quando todos estivermos rifados, se tal
acontecer, então, amigo Hsuan-Nsu, nos tornaremos os
quatro cavalheiros do submundo macauense. Dispostos a
tudo, é claro...
— Seria lamentável! — murmurou o gordo Se-Wen,
sacudindo os fiapos do bigode. — É tão bom agir às claras...
— Amigo Se-Wen! — exclamou o sino-português, com
cara marota. — Qual de nós, em algum dia de sua vida, agiu
às claras, onde fosse?!
Os quatro grandes riram e Veloso, erguendo a mão
direita espalmada, pedindo silêncio, propôs:
— Uma vez que chegamos rapidamente a um acordo,
proponho nova reunião para depois de amanhã, a estas
horas, a fim de que submetamos suas ideias, visando a
promover nossa vitória na guerra secreta com o ditador
vermelho. Não obstante, tomo a liberdade de sugerir, agora,
que nomeemos um representante capaz para acompanhar de
perto os altos e baixos da política americana, informando-
nos de Washington que rumo seguem os entendimentos
secretos para a aproximação entre Estados Unidos e China
Vermelha. Não nos será difícil selecionar tal agente
secreto... a peso de ouro. Quanto ao mais, será melhor
instruirmos devidamente as nossas garotas, pois os
“guardas vermelhos” de Mao talvez hajam detectado esta
reunião e pretendam interrogá-las. Para todos os efeitos,
estávamos discutindo os meios de melhor servir o nosso
incomparável amigo Mao e... naturalmente, deliciando-nos
com os carinhos de algumas chinesinhas assanhadas ...
Novas risadas.

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— Meu iate estará no mesmo lugar, à espera de meus
companheiros de luta, para a reunião de depois de amanhã
— prosseguiu Veloso, ainda rindo. — Agora, senhores, só
nos resta entregar-nos ao amor...
Um dos tripulantes surgiu no corredor e meneou a
cabeça para Adalberto Yang Veloso, que, voltando a falar
aos outros três grandes da patifaria vitoriosa, sugeriu:
— Não percam mais tempo, amigos. Meu piloto
informa que cada garota já está no camarote de cada garoto.
Força! — concluiu, com exclamação muito lusitana.
Hsuan-Nsu, Li-Ping e Se-Wen mostraram-se
espantosamente empolgados com a perspectiva de uma
noite inteira nos braços de uma chinesinha disposta a tudo.
O mais surpreendente foi a demonstração de agilidade do
gordo Se-Wen, que, rindo como criança que ganha
brinquedo bonito, saltou da poltrona e se antecipou aos
companheiros de farra, produzindo um ruído fofo ao
chocarem-se suas gorduras com as aduelas da porta.
Assim que os três chineses saíram, o piloto inclinou-se
e declarou, em atitude submissa:
— Quando queira, senhor.
Adalberto Yang Veloso alisou os cabelos com a mão
esquerda, enquanto, com a direita, apagava o charuto no
cinzeiro, antes de responder, no mais correto cantonês:
— Bom trabalho, Sing-Fu. Vamos.
Subiram ao convés e, imediatamente, Veloso desceu
por uma escadinha de corda para bordo de um bote, no qual
já o esperava seu mestre, com um marujo. O piloto desceu
atrás dele e empunhou os remos.
— Quanto tempo, Sun Yin? — indagou Veloso, de seu
mestre.
— Quinze minutos, senhor. Remaremos até uma
distância prudente e, depois, ligaremos o motor de popa.

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— Bem pensado, Sun Yin, muito bem pensado —
aprovou Adalberto Yang Veloso, entregando ao seu mestre
um legítimo Havana importado da América.
Sun Yin aceitou o charuto e Sing-Fu, ajudado pelo
marujo chinês Lo-Sang, que trouxera o bote a motor da ilha
mais próxima, incumbiram-se de remar com maestria.
Os minutos transcorreram quase silenciosamente,
ouvindo-se apenas as batidas ritmadas dos remos na água.
De repente, Veloso ergueu o braço direito, consultou seu
belo relógio suíço e ordenou, tenso:
— Agora, Sun Yin!
O mestre fez um sinal para o piloto e o marujo, os quais,
demonstrando grande prática de marinha, instalaram o
motor no espelho de popa, dando a partida.
Adalberto Yang Veloso contemplou a silhueta do iate a
distância e contou, pausadamente, enquanto o bote se
deslocava a grande velocidade, afastando-se do que estava
para acontecer:
— ...cinco, quatro, três, dois, um, ZERO!
O céu tingiu-se de vermelho. Indizível detonação quase
estourou os tímpanos dos quatro navegantes solitários do
bote motorizado e o deslocamento de ar chegou às árvores
da ilha próxima, agitando-as furiosamente.
Milhares de peixes morreram e algumas aves marinhas,
noturnas, despencaram fulminadas.
Centenas de escombros de vários tamanhos voaram
pelos ares e as partes mais sólidas do iate afundaram ligeiro,
com assustadores recuos.
— Quantas cargas de TNT você instalou em meu barco,
Sun-Yin? — indagou Veloso, refeito do espanto, encarando
o mestre.
— Vinte, senhor.

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— Cinco teriam sido suficientes, Sun-Yin. Você
sempre foi um pouco exagerado.
— Desculpe, senhor. Hsuan-Nsu, Si-Ping e Se-Wen são
gente dura de morrer...
— Está bem, Sun-Yin — sorriu Veloso. — Afinal,
“quod abundai non noscit”.
— Que disse, senhor?!
— Nada, Sun-Yin. Apenas uma bobagem que aprendi
em Coimbra, Portugal.
— Hummm... — fez Sun-Yin, ficando na mesma.

***

Era um sujeito alto, esquálido, com turbante de cor ocre


e apenas uma espécie de toalha da mesma cor enrolada nos
quadris, ocultando-lhe as vergonhas. Sandálias de couro,
indianas.
Possivelmente hindu, estava na clássica atitude de
meditação dos iogues, em uma saleta imunda, sem móvel
de espécie alguma e uma vela de sebo empestando o
ambiente com sua luz incerta e seu odor nauseante.
Única dependência de um barraco idêntico aos demais
daquele bairro de promiscuidade e sujeira, de miséria
oriental, a pior miséria do mundo.
Diante dele apenas um bastão rústico e uma tigela de
água.
Quando ouviu os passos, aquele espectro trigueiro
apenas moveu os lábios muito finos, arroxeados, para
autorizar com uma voz que parecia vir das paragens
abstratas a que fora levado por sua meditação:
— Entre.
A porta se abriu, surgindo um chinês pequeno, de
chapéu cônico, calças largas e túnica em mísero estado.

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Caminhando como se não tocasse o chão com os pés, o
homenzinho se aproximou, sentando-se no piso de terra,
diante do pensador.
— Fale, Yee — autorizou o iogue.
— Muitas coisas ocorreram, Dolonnor — falou o
chinesinho. — O iate do dr. Veloso fez-se ao mar com os
veneráveis Se-Wen, Si-Ping e Hsuna-Nsu. Tenho notícias
de que a embarcação estourou nas proximidades das ilhas.
Vi as chamas. Impressionante, Dolonnor! Pode ter sido
acidente ou obra dos “guardas vermelhos”. Creio que
alguém encontrou o meio mais seguro de livrar-se dos
quatro veneráveis senhores.
Dolonnor pareceu receber com absoluta indiferença
aquela notícia que significava grandes alterações na vida
clandestina de Macau. Não obstante, ligeira contração de
suas costelas, à flor da pele, delatou sua inquietação.
— Buscam possíveis sobreviventes? — indagou
mansamente.
— Polícia portuguesa...
— Notícias?
— Nada. Poucos escolhos do iate. Creio que logo
abandonarão a busca.
— Compreendo. A Polícia da colônia não se interessará
por encontrar esses quatro homens... Além disso, temem os
“guardas vermelhos”, e com razão. Não obstante, nós, Yee,
devemos interessar-nos pelo assunto, investigando ao
máximo. É imprescindível sabermos o que houve e se há
sobreviventes. Talvez algum tripulante, alguma das
mulheres levadas para bordo pelo dr. Veloso.
— A explosão foi violentíssima, Dolonnor — informou
Yee, manifestando implicitamente suas dúvidas sobre a
possibilidade de haver sobreviventes.

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Dolonnor abandonou sua posição iogue, destacando-se
ainda mais sua impressionante magreza. Devia ter quase
dois metros e pouco mais de quarenta quilos. Cabeça
raspada.
— Insisto, Yee — declarou. — É preciso averiguar, por
quaisquer meios. Essa explosão nos prejudica muito mais
do que você pode imaginar.
Fez uma ligeira pausa, dirigindo ao chinesinho um olhar
embaçado, que mais parecia um fluido denso emanado de
seus olhos opacos, afundados nas órbitas escuras.
Murmurou, incisivo:
— Um grande, incalculável prejuízo!
Yee não entendeu, mas acreditou. Jamais ousara
duvidar de uma só palavra daquele iniciado que tinha
poderes especias para se comunicar mentalmente com o
Grande Todo...

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CAPÍTULO SEGUNDO

O homem só tinha tamanho e...

Aquele hydrofoil, último daquela noite na travessia


entre Hong-Kong e Macau, levava poucos passageiros, em
sua maioria farristas.
Destacava-se, por sua elegância, o grupinho de homens
que conversavam animadamente. Sentado a uma pequena
distância desse grupinho, estava um chinês absolutamente
calmo, aparentando uma apatia quase mórbida e, alguns
assentos mais adiante, uma senhora de classe,
possivelmente uma senhora inglesa viciada em jogo que
decidira tentar a sorte no “Grande Hotel” de Macau.
Havia apenas mais um passageiro, além do grupinho,
do chinês abstrato e da senhora inglesa. Taciturno, beirando
os quarenta anos, aparentemente um homem duro e forte,
talvez um dos muitos aventureiros que escolhem aquelas
paragens orientais para dar seus golpes ou amargar seu
fracasso. Estava acotovelado na amurada, fumando,
indiferente às luzes de Hong-Kong, que haviam ficado para
trás.
Naquele memento, o grupinho dava toda a sua atenção
a um de seus membros, um gigante louro de olhos cinza-
aço, vestindo um impecável smoking branco. Era Horace
Young Kirkpatrik, o playboy mais famoso do mundo. Em

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sua viagem ocasional a Hong-Kong, reunira aquele
punhado de farristas dispostos a desfrutar de uma noitada
em Macau. Comerciantes ricos, capitães das finanças de
Hong-Kong, políticos. Gente importante.
Kirkpatrik estava dizendo:
— ...e, quando elas derem pela coisa, já estaremos fora
de seu alcance! Alguém, aqui, suporta lady McPherson?!
— Não! — gritaram todos, quase em uníssono.
— Alguém é contra passarmos a noite no “Central
Hotel”?
— Não!
— Ótimo. Porque, se alguém tivesse protestado, eu
buscaria a colaboração necessária para jogar esse alguém
pela borda...
Risadas, como se aqueles homens não passassem de
crianças em férias.
— Kirkpatrik, não adianta você arranjar desculpas —
falou um deles. — Sua idéia de irmos a Macau prende-se à
idéia de recuperar os cento e cinquenta mil dólares que você
deixou na mesa de fan-tan no ano passado. Confesse.
Kirkpatrik arqueou uma sobrancelha.
— Confesso — murmurou, com ares de derrotado. —
Não ligo para dinheiro, porém me irrita que me façam de
tolo. Aquela croupier da mesa de fan-tan me roubou
descaradamente. Só não criei um caso porque ela é linda. É
bem verdade que essa maravilha, chamada Jasmin, me
propôs um desagravo: quatro noites comigo, em Macau.
Claro que aceitei... Porém espero recuperar o meu dinheiro
e, se Jasmin ainda estiver no “Central Hotel”, devolver-lhe
sua amabilidade ...
Novas risadas.
— Aposto cem mil como tornarão a depená-lo — gritou
um deles.

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— Aceito! — rosnou o playboy. — Já aprendi o jogo e
tenho em mente uma combinação que não pode falhar.
Além disso, tive uma revelação em sonho...
— Deve ter sido um pesadelo, Horace — sorriu outro
do grupo, um inglês ruivo, de meia idade. — Essas
croupiers, com seus sorrisos orientais e suas mãos
delicadas, esvaziam os bolsos de qualquer um, sem que a
vítima perceba. A casa ganha sempre.
— Veremos! — tomou a rosnar Kirkpatrik, como
garoto amuado. — A aposta está de pé. O gerente do
“Central” é meu amigo e, num instante, nos arranjará suítes
do nono andar. Mas antes arrasarei uma das mesas de jan-
tan...
— E que nossas mulheres apodreçam em Hong-Kong!
— exclamou o mais jovem do grupo, um milionário francês
que excursionava pelo Oriente com a esposa.
— Bravos! — aprovou o ruivo. — Horace, você devia
passear sua figura com mais frequência por Hong-Kong.
Necessitamos de sua ajuda para livrar-nos de nossas
encantadoras megeras.
Que diabo! Não fazemos outra coisa senão ganhar
dinheiro e dizer, subservientes: “Sim, querida... Sim,
querida... Você tem razão, querida...”!
— Abaixo todas as esposas deste mundo e do outro! —
gritou o jovem francês, escandalizando a lady britânica, que
arqueou as sobrancelhas com visível repugnância.
Estavam a meio caminho da curta travessia, cruzando
vez por outra com enormes juncos, elegantíssimos com suas
velas redondas semelhantes a barbatanas de peixe.
O único que captara o ruído vindo de muito alto, por
cima do hydrojoil, e confundindo-se com o de seu motor,
foi Kirkpatrik. Ele sabia que um helicóptero sobrevoava o
aerobarco durante os últimos trinta segundos. Seu rosto não

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expressava a menor preocupação, embora ele levasse em
conta a grande quantidade de piratas modernos que
empregam métodos avançados para dominar embarcações.
Concluiu que aquela noite chegariam a Macau com os
bolsos vazios, vendo-se forçados a tomar dinheiro
emprestado do gerente do “Central Hotel” para a viagem de
volta a Hong-Kong. Sem jogatina, sem lindas croupiers,
sem nada!
Por fim, o inglês ruivo apontou para o céu e gritou,
entusiasmado:
— Vejam que gracinha! Parece um inseto maluco! ...
— Esses chegarão antes de nós ao reduto das
croupiers... — comentou o jovem francês, chateado.
Kirkpatrik não estava tão otimista. Despediu-se
mentalmente de sua polpuda carteira, atulhada de dólares e
libras. Se aquele “inseto maluco” estivesse realmente a
caminho de Macau, não teria começado a descer.
De repente, um megafone berrou:
— Parem o aerobarco! Desliguem o motor! Podemos
despedaçá-los em segundos! Parem!
Imediatamente o mestre do hydrojoil reduziu a
velocidade e a elegante embarcação passou a singrar com o
casco e não com as aletas e, ao mesmo tempo, duas lanchas
velocíssimas se aproximaram, uma de cada bordo, surgidas
sabe Deus de onde. O mestre devia estar bem informado
sobre acontecimentos do gênero, porque, sem perder a
calma, inverteu a marcha do aerobarco, fazendo-o parar.
Com um suspiro, Kirkpatrik disse aos seus amigos de
farra:
— Não tentem resistir. Despeçam-se de suas carteiras
e... adeus noitada em Macau... Farei o que eles quiserem!
Creio que só não desmaio por causa dessa brisa fresca!...

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O helicóptero pairou no ar e dele pendeu uma escada de
corda. Dois homens desceram ao convés do hydrofoil.
Outros dois permaneceram a bordo do helicóptero e as
lanchas abordaram o aerobarco, parando seus motores.
Cada um dos que haviam descido pela escada de corda
portava uma metralhadora ligeira, apontando-a para os
passageiros.
— Juntem-se todos! — ordenou um deles, homem
elegante de feições ocidentais com olhos orientais. — A
senhora também — dirigiu-se à lady inglesa viciada em
jogo. Vamos, obedeçam!
O chinês apático, o sujeito taciturno que fumava
ininterruptamente debruçado na amurada e a senhora
inglesa obedeceram, juntando-se ao grupo que
acompanhava o famoso playboy.
Um dos que haviam chegado de lancha postou-se ao
lado do mestre para evitar que ele pusesse em prática
alguma idéia maluca e seus companheiros de abordagem
dominaram por completo o aerobarco. Os hydrofoils
ingleses que fazem o serviço de transporte entre Hong-
Kong e Macau são bem maiores do que os aerobarcos
comuns e dispõem de amplo convés do qual os passageiros
podem deliciar-se com a vista marítima.
Foi precisamente Kirkpatrik quem rompeu o silêncio
entre os passageiros. Estendeu a mão direita, muito trêmula,
oferecendo a sua carteira cheia de notas.
— Fiquei apenas com uma fotografia que...!
— Cale-se! — rosnou o elegante cavalheiro ocidental
com olhos orientais.
Dois assaltantes empurraram violentamente o playboy,
que, sem oferecer a menor resistência, chocou-se de costas
com a amurada e permaneceu imóvel, de lábios trêmulos,
visivelmente acovardado.

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— Examinemos essa velhota — disse um dos
indivíduos, indicando a senhora inglesa. — Alguém, aqui,
não é o que pretende fazer crer...
A senhora foi submetida à mais vexatória revista, com
toques até mesmo em suas partes mais íntimas. Enrubesceu
e chorou baixinho, cobrindo o rosto com as mãos, de
vergonha.
Nenhum dos passageiros ousou protestar contra o
desrespeito.
— Não é a velhota! — declarou o mesmo indivíduo,
voltando-se para o elegante que comandava o assalto.
— Está bem, Sun-Yin — disse este, virando-se para os
passageiros. — Sabemos que entre vocês há um agente da
CIA americana. Um espião. Deverá apresentar-se a fim de
não sacrificar os demais...
Silêncio.
Todos se entreolharam e Kirkpatrik, embora
esforçando-se para dissimular seu terror, tremia dos pés à
cabeça. Enquanto fingia estar aterrorizado, pensava
intensamente. Estariam buscando “77Z”? Como era
possível?! Bem... o jeito era enfrentar com o máximo
cinismo aquela situação inesperada.
De repente, um de seus companheiros de farra apontou
para ele e gritou, como se tivesse feito a maior descoberta
deste mundo:
— Horace, você é o único americano do grupo!
Era o jovem francês.
Kirkpatrik deixou escapar um gemido:
—Ai! Eu não...!
— Conhecemos mister Kirkpatrik — declarou o
cavalheiro elegante dos olhos orientais e feições ocidentais,
passando a mão pelos cabelos castanhos claros, muito lisos.
— Não quero saber de estórias cretinas! — falava ao jovem

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francês. — Eliminado mister Kirkpatrik, resta alguém que,
embora não sendo americano, pode ser agente da CIA. Que
dê um passo à frente, se não deseja testemunhar uma
chacina!
Ninguém se mexeu.
O chefe dos piratas modernos sorriu misteriosamente,
dizendo:
— Vejamos esse chinês...
Seus comandados aproximaram-se do chinês que se
mantivera apático, hermético, durante toda a viagem.
Depois de lhe tirarem o chapéu de palha, cônico, com um
sopapo, puxaram-lhe violentamente o rabicho, os fiapos de
bigode e a barbicha, sem dúvida imaginando que usasse
algum disfarce. Tudo inútil, porque o homem era realmente
chinês. E daqueles indiferentes a tudo, até mesmo às dores
físicas e aos dissabores.
— Também não é ele... — murmurou o chefe dos
assaltantes. — Continuemos por eliminação. Se no final
nenhum detalhe delatar o espião, ninguém ficará para
contar a história...
Um dos milionários, muito trêmulo, implorou:
— Horace, eles o conhecem. Diga quem somos e que
pretendíamos em Macau! Estamos inocentes!
— Cale-se! — rugiu o cavalheiro mestiço. — Mister
Kirkpatrik, a velha e esse chinês afastem-se para lá —
indicou um ponto do convés, junto da amurada. — Que
nenhum tente um truque porque lhe seria fatal.
Foi quando o homem taciturno que estivera fumando
ininterruptamente, debruçado na amurada, pretendeu
aproveitar a suposta distração do cavalheiro mestiço. Se
tivesse sorte, sua automática acabaria com os piratas. Ou,
talvez baleando o chefe dos assaltantes e alguns de seus
comandados, pudesse aproveitar a confusão para lançar-se

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ao mar numa tentativa desesperada de fuga. Moveu a direita
ligeiro, introduzindo-a pela gola do paletó a fim de alcançar
o coldre axilar.
— Atenção, Krupnik! — gritou Sun-Yin.
O tão buscado agente da CIA, vendo-se apanhado,
tentou saltar da posição em que se encontrava, de costas
para a amurada. Era homem de extraordinária elasticidade,
mas assim que encolheu as pernas a fim de saltar tornou-se
o alvo dos disparos de várias metralhadoras ligeiras.
Estremeceu violentamente, agitando os braços, rodopiou,
chocou-se com a amurada e caiu, encolhido, com o rosto
desfigurado pelas balas e o peito cheio de fure» dos quais o
sangue jorrava.
— Bem, já não resta dúvidas sobre quem era... — disse
o tal Krupnik, ainda com a metralha fumegante. — Sun-
Yin, dispa esse cadáver para ver se leva algo de interesse
para nós. Depois, ao mar, lastreado, é claro... Os demais que
não se mexam. Rápido, Sun-Yin! Podem ter ouvido os
disparos e a Polícia Marítima portuguesa não brinca em
serviço.
Enquanto despiam o cadáver, o cavalheiro ocidental
com olhos orientais sorria, parecendo analisar, com o olhar,
os demais passageiros. Cedera o comando da violência ao
seu lugar-tenente Krupnik, procedendo como mero
espectador.
Horace Young Kirkpatrik, o temível “77Z”, estava
lívido. Sua palidez era alarmante. Gotas de suor porejavam
de sua testa e lhe escorriam pelo rosto, obrigando-o a
pestanejar. Naquele momento, “77Z” estava fazendo o
maior sacrifício de sua vida: manter-se imóvel enquanto
varejavam o cadáver de um companheiro da CIA. Mas era
inevitável. Ele devia manter seu anonimato, a bem da

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liberdade no mundo, em defesa dos interesses da CIA dos
Estados Unidos, do estilo de vida americano.
Sentiu as pernas bambas. E desta vez não estava
fingindo para bancar o covarde playboy incapaz de
enfrentar o mais hipotético perigo.
O hercúleo, o fenomenal, o imbatível “77Z” apoiou-se
na amurada como qualquer donzela prestes a ter um
desmaio. Respirou fundo, conseguindo apenas ouvir as
últimas palavras dos piratas modernos da espionagem
internacional, os quais, depois de lançar ao mar o cadáver
do homem da CIA, embarcaram em suas lanchas e no
helicóptero. Dizia um deles, sem dúvida o cavalheiro
mestiço:
— ...divirtam-se, amigos. Esqueçam isso. Será melhor
para todos. Continuem imóveis durante alguns minutos, até
nos perderem de vista. Sem imprudências não haverá outras
mortes... Vamos!
O cavalheiro elegante e o tal Krupnik instalaram-se no
helicóptero, enquanto o chamado Sun-Yin e outro chinês,
de nome Sing-Fu, comandavam o embarque nas lanchas.
Estas se afastaram velozes e o helicóptero se alçou no ar
vertiginosamente, não tardando que os três veículos
desaparecessem de vista.
— Horace! — exclamou o inglês ruivo, com voz tensa.
— Você está muito pálido! Suando muito! Vai... vai cair!
Ajudem!!!
Mais dois do grupo ajudaram-no a sustentar a figura
colossal do playboy.
— Eu tenho... tenho sais... — murmurou a senhora
inglesa, penalizada de ver tanta covardia em um homem tão
grande.
Acontece que a essa altura “77Z” já estava novamente
fingindo. Em parte, é claro. Verdadeiramente emocionado

— 26 —
com o brutal assassinato de seu colega da CIA, aproveitou
o ensejo para exagerar, demonstrando a fraqueza moral
típica do playboy Kirkpatrik.
Aplicaram-lhe os sais da inglesa e ele, de lábios
trêmulos, murmurou:
— Estou... estou melhor, amigos...! Que susto! Preciso
respirar...!
Ajudaram-no a virar-se para que recebesse no rosto a
fresca brisa da noite. Enquanto ele respirava fundo, seus
companheiros de uma farra que perdera toda motivação
trocavam olhares significativos e sorrisos maliciosos.
Um gigante banana...

— 27 —
CAPÍTULO TERCEIRO

Inegável: o melhor arremate...

Da janela de sua luxuosa suíte do nono andar do


“Central Hotel”, Kirkpatrik contemplava um panorama
cheio de contrastes, embora sem prestar atenção ao
movimento intenso daquela hora.
Na verdade, o “Central” não é propriamente um hotel.
Cada um dos seis primeiros andares contém um cassino
com sala de estar, uma espécie de lanchonete e um bar. O
ambiente melhora com a altura do andar, desde o primeiro,
onde a música é de toca-discos, as girls são simplesmente
aceitáveis e a bebida do tipo que se pode encontrar em
qualquer botequim. Há toda espécie de jogo, até mesmo a
sueca e a bisca de sete cartas.
No segundo andar tudo é um pouco melhor e assim por
diante, até o sexto, onde há roleta e bacarat, pôquer e fan-
tan. Música tranquilizante em hi-fi estereofônico, ambiente
perfumado e toilettes do mais alto luxo. Quando chega um
cliente, uma recepcionista sensacional, de mini-cheong sam
lhe dirige o mais prometedor dos sorrisos, encaminhando-o
ao bar para beber champanha francês ou uísque escocês, ou,
então, a uma das mesas de jogo nas quais maravilhosas
croupiers de feições orientais e mãos delicadas se
incumbem de depená-lo com tal perícia e aparente

— 28 —
honestidade que ele acaba por sentir-se agradecido a ela,
maldizendo a sorte por seu fracasso.
Os três últimos andares são reservados a suítes para os
clientes que, bafejados pela sorte nas mesas de jogo,
pretendam festejar seu êxito com alguma das taxi-girls de
serviço, companheira amável, carinhosa, refinada no amor,
muito compreensiva no tocante a possíveis excentricidades
amorosas do cavalheiro.
De sua janela Kirkpatrik podia ver a Rua da Felicidade,
a mais exótica e mundialmente conhecida artéria de Macau.
Essa rua é, em conjunto, um autêntico bazar. Em suas lojas
podem ser encontradas as mais diversas mercadorias, desde
peles de serpentes até ouro em pó, incluindo raras plantas
medicinais e afrodisíacas, ópio e brilhantes. Os japoneses
derramaram em tais lojas os mais encantadores produtos de
sua eletrônica ultraminiaturizada, bem como seus relógios
de pulso que ameaçam deixar a indústria relojoeira suíça
com as calças nas mãos. Possibilitam a aquisição de suas
excelentes máquinas fotográficas, ali, a preço de banana. E
come-se pichón, a especialidade gastronômica de Macau.
Claro que também se pode comer, na Rua da Felicidade,
suculento caldo verde, bacalhau a Gomes de Sá e tripas à
moda do Porto. Ah, pois, pois! Digam o que disserem,
aquilo ainda é uma culónia di Purtugali!...
Dizendo-se enfermo, Kirkpatrik havia preferido fechar-
se em sua suíte para refletir, enquanto seus companheiros
de ferra se arruinavam na jogatina. Deixando montes de
dinheiro nas mesas de jan-tan e hi-lo, flertavam direto com
as croupiers e selecionavam, com olhadelas de peritos, as
taxi-girls para o resto da noite.
Simplesmente não conseguia reprimir o amargor que o
devorava por haver testemunhado, forçadamente

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impassível, o brutal assassinato de seu companheiro da
CIA.
Estava nu da cintura para cima, com as calças do
smoking e descalço, quando se levantou da poltrona para
abrir a porta. A garota se esgueirou para dentro da suíte e
ele fechou a porta.
— “A metamorfose do lótus” — disse ela, com um
sorriso pra lá de oriental.
— Desnecessário dar a senha, Jasmin. Sente-se.
— Horace, seus amigos contaram...
— Sim — cortou “77Z”. — Sei que andam fantasiando
a coisa, porém, em linhas gerais, é verdade. Diante dos
olhos de “77Z”, assassinaram um companheiro! Jasmin,
isso é algo que não consigo engolir!
— Que mais podia fazer, Horace? Deixar-se matar
estupidamente?
— Talvez... Quer beber?
— Cuidarei disso, Horace — murmurou a coisinha
chinesa, dirigindo-se ao pequeno bar da suíte. — Você está
muito abatido, mas, para ser sincera, alegra-me constatar
que você afinal de contas é humano e capaz de sofrer por
alguém... Enfim, espero que “77Z” reaja prontamente, uma
vez que necessitamos urgentemente de seus... fantásticos
serviços.
Kirkpatrik sentou-se em gracioso sofá de dois assentos
e Jasmin sentou-se ao seu lado, entregando-lhe o copo de
bebida.
— Embora represente uma perda, a morte desse colega
não é o pior, Horace — disse ela, tomando um golinho de
uísque.
— Sei... Por isso estou aqui. Encontrava-me em Hong-
Kong quando recebi a ordem de vir a Macau, com a

— 30 —
informação de que você seria o meu contato. Ignoro os
pormenores do assunto.
Jasmin tomou outro golinho e olhou de frente para o
espião milionário.
— Você conhecia os “quatro grandes” de Macau, não é
verdade, Horace?
— Sim. Doutor Adalberto Yang Veloso, Li Si-Ping,
Kan Se-Wen e Hsuan-Nsu.
— Exato. Há poucas noites aconteceu no iate de Veloso
uma reunião privada, clandestina, aparentemente com o
exclusivo propósito de alegrar os momentos dos quatro
grandes, pois levaram para bordo quatro mulheres lindas,
peritas no amor. Não sei de que se falou a bordo, mas...
conheço antecedentes. O importante dessa reunião é que o
iate “Santa Maria” voou pelos ares.
— Atentado? Ação dos “guardas vermelhos” de Mao?
— indagou Kirkpatrik, bebericando uísque.
— Não. Oficialmente, acredita-se que os “quatro
grandes” de Macau morreram em lamentável acidente
marítimo, mas não é verdade. Lembra-se de Dolonnor?
“77Z” sorriu, revendo mentalmente a figura esquálida
do ioguista indiano.
— Claro que me lembro dele...
— Dolonnor entrou em ação e descobriu algo
substancial. Por exemplo, constatou que houve um
sobrevivente, Veloso, que se mantém oculto e semeou
alguns títeres que atuam sob sua orientação direta. O fato
de Veloso continuar vivo e comandar títeres dos mais
importantes negócios de Macau só pode ter um significado:
esse sino-português foi o autor da explosão que acabou com
Si-Ping, Se-Wen, Hsuan-Nsu e quatro lindas chinesinhas
complacentes da “equipe feminina” do “Central Hotel”. Na
minha opinião, Veloso compreendeu que a progressiva

— 31 —
aproximação entre a China Vermelha e os Estados Unidos
só poderia redundar no aniquilamento de todos os negócios
clandestinos com Mao Tse-tung e decidiu eliminar os
outros três grandes para, dado por morto, agir na sombra,
continuando a negociar com Mao sem comprometer a nova
“amizade” sino-americana. Um golpe de mestre,
convenhamos ...
— De fato — admitiu Kirkpatrik. — Esse português
deve ter miolos dourados...
— Não se torne seu admirador, porque sua missão
consiste precisamente em eliminá-lo o quanto antes,
Horace.
— Eu imaginava...
— E tem mais, Horace — continuou Jasmin, muito
séria. — Começarei por dizer que a morte de Hsuan-Nsu, o
magnata do comércio clandestino em Macau, representou
grande abalo para a CIA, com possíveis consequências
desastrosas.
Kirkpatrik afastou o copo dos lábios e arqueou a
sobrancelha esquerda.
— Devo entender que Hsuan-Nsu prestou-se a
colaborar conosco?!
— Exato. Uma razão especialíssima levou Washington
a escolher esse patife: seus conhecimentos sobre rotas
intrincadas, magníficas, passaram a constituir uma
verdadeira obsessão para nosso chefe Lattuada, uma vez
que facilitariam nossa penetração na China. Nosso Estado-
Maior em Langley estudou o assunto e promoveu um
entendimento com Hsuan-Nsu para fazê-lo compreender
que seus negócios iriam à falência por que Mao obteria por
meios legais tudo que desejasse assim que firmados os
acordos comerciais com os Estados Unidos.
— Ele aceitou...

— 32 —
— Sim, mas com certas garantias que não vêm ao caso.
Compreendeu prontamente que seu filão de ouro se
esgotava e se apressou a tornar-se um protegido da CIA.
— No mais absoluto segredo...
— Sim, ou pelo menos é o que se supõe.
— E se o serviço secreto de Mao conseguiu descobrir?
— Não, Horace, os nossos colegas espias chineses estão
inocentes desse pecado. Foi coisa de Veloso. Ambição
pessoal. E tem mais: ao cometer o atentado, Veloso
possivelmente ignorava a aproximação entre Hsuan-Nsu e
a CIA.
Kirkpatrik refletiu durante alguns segundos para dizer:
— Fale das possíveis consequências desastrosas
motivadas pela morte de Hsuan-Nsu.
Jasmin deixou o copo na mesa e entrelaçou os dedinhos
como se fosse rezar. Era, na verdade, uma boneca de
porcelana amarela, de aparência frágil, belíssima. Cabelos
negros com penteado de pajem, nariz afilado muito reto,
grandes olhos rasgados, oblíquos, lábios finos, rosados,
convidativos. Corpo esguio, sensacional. Sua voz morna,
sedosa, continuou:
— Hsuan-Nsu começara a trabalhar e...
— Em que sentido? — interrompeu-a Kirkpatrik.
— Infiltração de agentes americanos na China de Mao.
— Com que, então, já dispomos de agentes por trás da
cortina de bambu...
— Cinco agentes. Cinco americanos que, neste
momento, estão ocultos, sem proteção, sem meios para se
locomover, sem armas adequadas, sem contatos... enfim,
correndo sério perigo. E não me refiro apenas à morte,
Horace. Esses cinco homens abandonados em território
chinês podem ser capturados e interrogados. Sabe que os
homens de Mao, embora eficientes no emprego da

— 33 —
escopolamina, adoram usar os métodos de seus ancestrais?
— sorriu com amargor. — Varetas de bambu nas unhas,
bota malaia, tenazes nos órgãos sexuais, estiletes nas
articulações... Intróito dantesco ao uso do “soro da
verdade”!
“77Z” apertou os lábios, compreendendo a que
poderiam estar expostos seus cinco colegas da CIA. Jasmin
prosseguiu:
— Se eles forem capturados, não só perderemos cinco
excelentes companheiros, elementos de primeira linha,
como também veremos fracassar nossa aproximação com a
China de Mao.
— Como poderíamos resgatar esses companheiros? —
indagou “77Z”, seriamente preocupado.
— Não se trata de resgatá-los, mas de mantê-los em
seus postos com o apoio de um homem forte. Assim que
Hsuan-Nsu morreu, a CIA preparou outro, que está disposto
a atuar... assim que desapareça o risco representado pelo dr.
Veloso. Nosso novo homem forte chama-se Kue Chao-
Tung e não sairá das sombras enquanto Veloso estiver
respirando... Chao-Tung dará toda a assistência necessária
aos cinco agentes infiltrados.
— Compreendo — murmurou Kirkpatrik, pensativo.
— Esses cinco homens serão apenas os primeiros, caso
firmem suas posições com a ajuda de Chao-Tung. A CIA
pretende criar no próprio território chinês um centro
supersecreto de subversão e espionagem, uma escola de
espionagem, por assim dizer. Um núcleo do qual será
possível criar ramificações em todo o sol© chinês, com
elementos fiéis, bem adestrados, para qualquer
emergência...
— Uma operação de grande alcance... — murmurou
Kirkpatrik.

— 34 —
— Sem dúvida. Porém Veloso, que tudo ignora,
intervém por ambição pessoal, destrói nosso primeiro
elemento e ameaça estragar tudo. Adalberto Yang Veloso
deve ser prontamente eliminado, a fim de que Kue Chao-
Tung vá em auxílio de nossos companheiros, pondo em
andamento nossa operação... ambiciosa.
— Urgente! — admitiu “77Z”. — Devemos supor que
Veloso tenha desconfiado de algo com relação à CIA...
— Naturalmente, Horace. Como homem de grande
penetração no submundo da clandestinidade, por certo já se
inteirou de que houve movimentação entre os espiões e
deve estar agindo em consonância com essa agitação.
— Espero que não tenha descoberto Dolonnor!
— Oh, não, Horace! Dolonnor parece não fazer parte
do mundo dos vivos. Seus intermediários são verdadeiros
autômatos a serviço de sua mente prodigiosa que os dirige
pela força do pensamento, não lhes possibilitando a menor
falha.
“77Z” moveu a cabeça afirmativamente, ponderando:
— Não obstante, o fato do nosso colega ter sido
descoberto e morto por esse sino-português indica que ele
está bem ciente da intervenção da CIA.
— De fato, Horace, porém ele ignora os verdadeiros
motivos e não parece interessado em conhecê-los, visto não
ter interrogado o nosso colega, a bordo do aerobarco, antes
de eliminá-lo.
— É... O fato de um dos seus homens examinar as
roupas de nosso colega pode ser mera atitude rotineira. A
não ser que pretendesse apenas eliminá-lo por já estar ciente
de tudo. Hsuan-Nsu...
— Hsuan-Nsu demonstrou ser inteligentíssimo e não
cremos que tenha falado. Mas, como tudo neste mundo é

— 35 —
possível, não devemos esquecer essa possibilidade. Se ele
falou, a morte de Veloso se toma ainda mais urgente!
— Exato. Como se chamava o homem da CIA? Qual
sua missão específica?
— Ignoro seu nome, Horace. Sua missão era servir de
contato com Kue Chao-Tung.
— Ah... Diga, Jasmin: você está autorizada ou
capacitada para entrar em contato com esse Chao-Tung?
— Capacitada e autorizada, porém ele só entrará em
ação quando Veloso morrer.
— Nunca me senti tão carrasco... — sorriu “77Z”. —
Que mais, Jasmin?
— Para você, chega. Assim que Veloso morrer, a
organização ficará a cargo de Chao-Tung, com a minha
colaboração e a de Dolonnor.
Jasmin estendeu o braço para acariciar o rosto do
espião, recomendando:
— Um detalhe, Horace. Os homens de Veloso são
espiões habilíssimos que desconfiam até da própria sombra.
Tenha cuidado...
— São eles que devem ter cuidado, Jasmin — sorriu
“77Z”. — Muito cuidado. Felizmente não lidaremos com
os espiões de Mao. Isso apressará os resultados.
— Sim, é verdade, porém o dr. Veloso já está de
sobreaviso e, profundo conhecedor da espionagem, pode
tornar-se perigosíssimo...
— Levarei isso em conta — tornou a sorrir Kirkpatrik,
alisando os cabelos de Jasmin. — Dolonnor já descobriu o
esconderijo de Veloso?
— Esse sino-português é um homem de extraordinários
recursos, Horace. Mais uma prova disso está no fato dele se
encontrar aqui mesmo em Macau, um lugar difícil para a
gente se ocultar...

— 36 —
— Onde?
— Dependências secretas de uma fábrica de fogos de
artifício. A fábrica fica ao sul da cidade, junto à Praia
Grande. Acredita-se na CIA que somente “77Z” é capaz de
entrar nessa fábrica, localizar Adalberto Yang Veloso e
liquidá-lo.
— Muito obrigado...
Jasmin sorriu, comentando:
— Sabe? Chego a achar que sempre exigem demais de
você, Horace.
Kirkpatrik encolheu os ombros enormes, incrivelmente
musculosos, queimados de sol.
— Talvez... — sorriu com amargor. — Mas acontece
que desta vez a missão terá cunho pessoal. Os homens de
Veloso mataram um colega nosso, diante de meus olhos,
sem que eu pudesse evitar.
Levantou-se, tenso, repetindo:
— Sem que eu pudesse evitar!
— Horace... — murmurou Jasmin, levantando-se para
encostar a cabecinha cheirosa ao seu peito enorme. —
Talvez um pouco de amor...
— Não, Jasmin, você não merece ser amada por um
homem com tanto ódio no coração. Seria desperdiçar seus
encantos...
Ela se afastou, dócil.
— Está bem, Horace. Eu achei que talvez fosse
refrigério...
— Não, Jasmin, esta noite, não. Devo trabalhar.
— Esta noite?!
— Sim. Necessito pensar. Talvez seja a fase mais
importante de minha jogada contra Veloso. Se eu precisar
de ajuda, entrarei em contato com você e, caso termine

— 37 —
ligeiro a missão, darei notícias. Os refrigérios caem bem
como arremate de missões arriscadas...
— Eu lhe darei muitos refrigérios... Adeus.

— 38 —
CAPÍTULO QUARTO

Era o primeiro truque chinês...

O playboy Kirkpatrik e seus amigos divertiram-se


bastante naquele dia, especialmente porque o irresponsável
milionário americano inventara um meio de voltarem
escandalosamente para Hong-Kong.
Não pretendo expor a riscos um dos velocíssimos
hydrojoils para a realização de sua idéia pirotécnica,
Kirkpatrik incumbira seu secretário Eddy, chamado por
telefone, de arranjar uma embarcação bem velha, mas ainda
capaz de navegar em segurança, para transformá-la em base
de lançamento de foguetes. Claro que seriam foguetes de
artifício, acompanhados de busca-pés, traques de bomba,
rodinhas, fósforos coloridos, estrelinhas, chuveiros de
prata, bengalas de estrelas cadentes e tudo o mais que os
chineses gostam de queimar em seus dias de festa. A
embarcação, velho junco sem velas e provido de motor
auxiliar, seria também adornada com lanternas de papel e
serpentinas, bandeirolas e demais adornos festivos
orientais.
Indiscutível: Horace Young Kirkpatrik sabia organizar
festas e surpresas. E todos estavam entusiasmadíssimos.
Porém não tencionavam abandonar imediatamente os

— 39 —
prazeres que encontravam no “Central Hotel”. A viagem
pirotécnica aconteceria no devido momento.
Kirkpatrik aproveitara também o tempo para dar alguns
telefonemas imprescindíveis como encaminhamento da
missão que recebera da CIA.
Eram nove da noite quando, saindo elegantemente
vestido da suíte, foi surpreendido por um dos milionários,
que se equilibrava milagrosamente aos solavancos de
muitos copos de uísque:
— Ei, Horace... hip!... Está fugindo? Hip!...
— Psss! Silêncio, Lawrence! Nem uma palavra sobre
esta fugida... Trata-se de um encontro secreto, entende?
Uma dama que não pode ser comprometida.
— Você é um... hip!... pirata! Quem é?
— Compreenda, Lawrence, que devo guardar segredo,
mas, como você é o meu melhor amigo... Trata-se da esposa
de... Oh, não, Lawrence, não me force a ser indiscreto!
— Prometo... hip!... não contar a ninguém... hip!
O playboy encheu-se de paciência.
— Escute, Lawrence, a coisa é tão difícil que, se eu
perder mais um minuto conversando, a dama desistirá do
encontro. Não me faça perder essa aventura!
— Está bem, Horace... hip!... Você me contará tudo...
hip!... depois...
Kirkpatrik desceu de elevador e, pouco depois,
travessando discretamente o hall, saía à Rua da felicidade,
metendo-se na primeira ruela ascendente das muitas que
enfeiam Macau. Foi ter a um bairro miserável, movendo-se
com a máxima atenção para não ser o alvo de algum punhal
malaio.
Foi assim que chegou a uma choça às nove e vinte da
noite. Empurrou a porta feita com tábuas de caixote e não
se preocupou com o fato de se encontrar às escuras.

— 40 —
Conhecia aquele ambiente. Atravessou a pequena
dependência e afastou uma cortina, abaixando-se para não
bater com a cabeça no alto da porta. Em outra dependência
ainda menor, iluminada por uma lamparina de azeite,
encontrava-se tudo que ele solicitara: material para uma
perfeita caracterização.
Despiu o smoking branco, dobrou-o e meteu-o numa
bolsa de lona da qual havia retirado o material de que
necessitava para a ação daquela noite: traje chinês escuro,
peruca calva com rabicho, barba postiça rala, bigodes
compridos, óculos de aros de tartaruga e toda sorte de
plásticos para apliques, bem como lentes de contato
escuras.
Empregou bastante tempo na caracterização e, ao
terminar, era outro homem inteiramente distinto do
irresponsável playboy Kirkpatrik. Um chinês adiposo de
sorriso iniludivelmente oriental.
Arremate: sua Luger de nove milímetros, provida de
silenciador, enfiada na manga da túnica chinesa.
Pouco depois, tornava a sair da choça e, na primeira
esquina, deparava com o Vauxhall preto de luzes apagadas
e sem ocupante. Chaves no painel... Seu amigo Dolonnor
não cometia o menor erro!
Sentou-se ao volante e deu partida ao motor.

***

Dolonnor levantou-se, sendo imitado pelos dois


chineses que estavam com ele. O carro preto acabara de
chegar. Suas luzes foram apagadas, desembarcando um
chinês adiposo, de movimentos preguiçosos.
— Tudo ao seu agrado, venerável? — indagou
Dolonnor.

— 41 —
— Tudo satisfatório — respondeu “77Z”, no mais puro
chinês. — Agora, Dolonnor, você deverá voltar e preparar
o resto. Dentro de... uma hora, talvez hora e meia, estaremos
de regresso. Não se deixe ver.
— De acordo, venerável. Estes são Yee e Pei, homens
de absoluta confiança.
— Obrigado, Dolonnor.
Isso de confiança absoluta era para agradar os dois
chineses telecomandados pela mente prodigiosa do ioguista
indiano, a fim de colocá-los incondicionalmente sob as
ordens de “77Z”. Na verdade, Dolonnor sabia estar diante
do famoso espião internacional da CIA, porém ignorava sua
verdadeira identidade, como medida de segurança. Agia
sob instruções da chinesinha Jasmin e era o quanto bastava.
Desapareceu como por encanto e os chineses Yee e Pei
continuaram imóveis, à espera de ordens do adiposo
concidadão, que lhes falou em cantonês:
— Atentos à fábrica. Não tardará muito a que alguém
saia de lá. Seja quem for, será o nosso homem. Darei novas
instruções no momento oportuno. Tomem suas posições,
atentos ao sinal que Dolonnor lhes ensinou para quando
aparecer alguém.
— Sim, venerável — responderam, quase em uníssono,
Yee e Pei.
Os dois se dispersaram e o chinês gordo ocultou-se
numa esquina de parede.

***

O sinal convencionado: rapidíssimo lampejo de


lanterninha de pilhas. “77Z” respondeu de igual modo,
indicando que se tratava do homem buscado.

— 42 —
Yee e Pei moveram-se como se flutuassem
aproximando-se velozmente do desconhecido, um chinês
vestido à europeia. Assustando-se, o chinês tentou sacar
uma arma do coldre axilar, porém foi imediatamente
manietado por Yee e Pei, sendo arrastado até à presença de
“77Z”, que, com movimentos imprevisíveis para um tipo
tão gordo, aplicou indefensável cutilada no plexo solar do
prisioneiro, fazendo-o dobrar-se para a frente, com um
gemido.
O chinês vestido à europeia foi colocado no sento
traseiro do Vauxhall, entre Yee e “77Z”, com Pei ao
volante.
— Quem... quem são vocês?! — gemeu o chinês
capturado. — Que desejam?
— Saberá no devido tempo — respondeu “77Z", em
chinês citadino. — Sei que você é San-Yin, mestre do
“Santa Maria...” Temos bom serviço secreto em Hong-
Kong e Macau, San-Yin.
— Eu... eu não fiz nada! Não sou quem á dizendo! Meu
nome é...!
— Cale-se! Terá de colaborar. Buscamos o Dr. Veloso
e você nos conduzirá à sua presença ou nos dirá exatamente
onde podemos encontrá-lo.
— Não conheço nenhum dr. Veloso e...!
— Cuidado, Sun-Yin. Parece não entender que nosso
comportamento amistoso pode transformar-se em coisa
muito desagradável. Para não perdermos tempo, diremos
que sou o coronel Ming-Kie, chefe do Serviço Secreto
chinês para a Zona Sudoeste. Estes são nossos
colaboradores.
— Escute, coronel, eu sou apenas um empregado da
fábrica que...

— 43 —
— Sun-Yin, mestre do iate “Santa Maria”, de
propriedade do dr. Adalberto Yang Veloso — cortou o falso
coronel Ming-Kie. — Não prossiga negando, ou nos
veremos obrigados a empregar métodos convincentes.
— Está bem... — murmurou Sun-Yin, baixando a
cabeça. — Sou Sun-Yin, mestre do “Santa Maria”, mas não
sei onde se encontra proprietário do iate que explodiu. Eu
não estava bordo e... Ai!
Gritou, arregalando os olhos rasgados, ao ter o músculo
trapézio comprimido entre os dedos indicador e polegar do
adiposo coronel Ming-Kie que sorriu de modo diabólico,
advertindo:
— Aprendemos muitos truques no Serviço Secreto
chinês, Sun-Yin. Este foi apenas um deles, talvez o mais
suave de todos. Vai colaborar?
Sun-Yin manteve-se calado e “77Z” afirmou olhando-
o fixamente:
— Não tardará a abrir tanto a boca que não mais poderá
fechá-lo de novo...

— 44 —
CAPÍTULO QUINTO

Bem dentro da boca do lobo

Sun-Yin entendeu perfeitamente o sentido daquelas


palavras. Aquilo de abrir tanto a boca só podia significar
que ele, submetido a torturas, gritaria até morrer de dor,
ou... revelar o que exigia aquele amaldiçoado coronel de
Mao.
Conhecia, através de relatos espantosos, a que
monstruosidade recorria o Serviço Secreto chinês para
obter confissões. Sentiu frio na boca do estômago só de
pensar no que o aguardava e ponderou intensamente sobre
suas possibilidades. Se falasse, seria prontamente liquidado
por Veloso caso silenciasse, sofreria as piores torturas que
cérebros anormais podem idealizar e acabaria sendo
eliminado. Nas mãos do coronel Ming-Kie sua triste sorte
já estava inabalavelmente traçada, mas, se falasse, restaria
a longínqua esperança de ser ajudado pelo Serviço Secreto
chinês, escapando à sanha vingativa de Adalberto Yang
Veloso.
— Está bem... — murmurou, com voz trêmula.
— Vejo que honra a fama de inteligência de nossa raça
— sorriu Ming-Kie.

— 45 —
— Não posso levá-lo até onde ele se encontra — disse
Sun-Yin. — Seria morto. Mas., sei... conheço o número de
seu telefone particular no subterrâneo da fábrica.
— Ótimo. Vamos, Pei.
O Vauxhall partiu e rodou durante uns cinco minutos,
detendo-se numa ruela escura, diante d uma casa velha com
espessa porta de madeira maciça. Imediatamente Yee
agarrou Sun-Yin pela gola da túnica chinesa, arrastando-o
sem contemplações para fora do carro, enquanto Pei corria
para abrir a porta.
“77Z”, magistral em sua caracterização como coronel
Ming-Kie, foi o último a entrar, fechando a porta com
ferrolho. Havia ali apenas uma mesa de centro com algumas
cadeiras, uma espécie de buffet em ruínas e um tamborete
sobre o qual se encontrava um telefone.
— Vamos, Sun-Yin, disque para o seu patrão —
ordenou o coronel.
— Ele não atenderá pessoalmente... — argumentou
Sun-Yin. — Não costuma atender.
— Seria estúpido acreditar que ele se mantenha
completamente isolado do mundo exterior — disse Ming-
Kie, dando um empurrão em Sun-Yin. — Disque, fale com
o intermediário utilizado por Veloso em seus telefonemas e
diga que o Serviço Secreto chinês necessita da colaboração
de seu patrão. Estamos interessadíssimos em poder contar
com a inteligência do dr. Veloso e dos meios de que ele
dispõe para certas transações com o Ocidente.
— Ele não me perdoará...!
— Nem eu, se não fizer o que estou ordenando...
Sun-Yin discou com mão trêmula. O diálogo foi
expressivo:
— Alô! Belinda? Sou eu, Sun-Yin.,.
— Sim?

— 46 —
— Serei breve. Estou em mãos do Serviço Secreto
chinês. Fui capturado ao sair da fábrica há quase uma hora.
Belinda, o coronel Ming-Kie deseja entrar num acordo com
o dr. Veloso.
— Você revelou que ele está vivo?! — indagou a tal
Belinda, com voz tensa.
— Eles já sabiam.
— Que mais... confessou?
— Nada... Estou sendo torturado... — mentiu Sun-Yin.
— E será inútil eu me sacrificar, silenciando, porque eles já
sabem de tudo, inclusive que entrando na fábrica irão até
ele. Belinda, seja compreensiva, seja humana pelo menos
uma vez na vida! Não devo... não posso morrer à toa!
— Que espécie de acordo pretende o Serviço Secreto
chinês com o dr. Veloso?
— Não sei... — murmurou Sun-Yin, olhando para
“77Z”.
O falso coronel Ming-Kie arrebatou-lhe o fone da mão.
— Aqui fala o coronel Ming-Kie, Belinda — declarou,
em português. — É evidente que...
— Pode falar em seu idioma, coronel — cortou a
portuguesa, com rispidez.
— Magnífico! Expressando-me em minha língua
poderei, espero, ser mais claro e persuasivo. Não obstante,
devo fazer duas advertências. Primeira: não gosto de
intermediários; segunda: o assunto é por demais importante
para ser tratado por telefone. Depreende-se facilmente daí,
primeiro, que desejo entender-me diretamente com o dr.
Veloso e segundo fazê-lo pessoalmente.
— Há um crivo pelo qual deverá passar, coronel —
disse a portuguesa, em tom irônico.
— E... esse crivo é você, querida? — retribuiu o
coronel, mais irônico do que ela.

— 47 —
— Talvez...
— Então saiba que seria uma honra conhecê-la.
— Mais devagar, coronel. Meu...
— Quero que saiba de uma coisa, Belinda — cortou
secamente o falso coronel: — Veloso estará conosco ou
contra nós. Minha agradável interlocutora não deve ignorar
que disponho dos meios para reduzir a sua fábrica de fogos
de artifício a um montão de escombros... com vocês dentro.
Mas... não me agrada fazer ameaças nem empregar palavras
duras, especialmente quando falo a possíveis aliados...
— Que espécie de aliança?
— Detesto as repetições, Belinda! — exclamou Ming-
Kie, com enfado. — Falarei disso com Veloso.
— E se eu não concordar? — sondou a portuguesa.
— Eu consideraria tal atitude como uma declaração
implícita de que abandonaria imediatamente a fábrica,
buscando outro esconderijo. Mas... creia, Belinda, não lhes
daríamos tempo. Toda a “guarda vermelha” disponível em
Macau seria lançada contra vocês, coadjuvada por meus
verdugos pessoais, homens que adoram tirar vidas. O
assunto deve ser tratado com o cérebro e não
impulsivamente nem sob os efeitos do medo ou da
desconfiança.
Belinda silenciou, porém Kirkpatrik não se
impacientou, esperando que ela voltasse a falar. Sun-Yin
estava sucumbido, de cabeça baixa, vigiado pelos infalíveis
Yee e Pei.
Por fim, chegou a voz da portuguesa:
— Falarei com o senhor, coronel.
— Por que não o próprio dr. Veloso?
— Simples cautela.
— Ah... Uma questão de princípios... — zombou o
coronel. — Uma boa razão, Belinda. Que tal amanhã?

— 48 —
— Bem...
— À noite. O acordo é urgente, porém estamos cientes
de que a CIA também se interessa por Veloso e decidimos
encontrar fórmulas discretas. Poderá ser às dez da noite,
onde você determinar, Belinda. Por favor, poupe-me o
trabalho de insistir em que espero jogo limpo...
— Dadas as circunstâncias, será conveniente —
admitiu a portuguesa.
— Alegra-me que compreenda.
— Onde posso localizá-lo, coronel?
— Em lugar nenhum. O encontro deverá ser marcado
neste instante, para um lugar concreto.
— Bem...
— Na fábrica?
“77Z” ouviu a risadinha da portuguesa.
— Poderá ser a boca do lobo para vossa excelência...
— Creio que sempre me movimentei exatamente na
boca do lobo — disse ele, com malícia. — Não obstante,
aceitarei outro lugar de sua preferência.
— Está bem, coronel: venha à fábrica. Entre por onde
saiu esta noite Sun-Yin e eu o estarei esperando.
— De acordo.
— Que vai fazer com Sun-Yin, coronel?
— Por enquanto, conservá-lo como refém. Sua
qualidade de ex-mestre do “Santa Maria” e atual homem de
confiança do dr. Veloso lhe confere uma importância
considerável para o Serviço Secreto que tenho a satisfação
e a honra de dirigir.
— Compreendo... Até amanhã?
— Será motivo de orgulho conhecê-la, Belinda —
respondeu “77Z”, cortando a ligação.
Encarou Sun-Yin e o chinês captou algo muito estranho
em seus olhos rasgados, em seu sorriso maquiavélico. Além

— 49 —
disso, o falso coronel havia introduzido a mão direita na
manga da túnica negra para sacar assustadora Luger provida
de silenciador.
— Você foi um dos que dispararam mais furiosamente
contra o meu colega da CIA a bordo daquele aerobarco,
Sun-Yin.
Os olhos rasgados do chinês se arredondaram
espantosamente e seus lábios se moveram para dizer algo
que não chegou a ser pronunciado.
— Jamais deixei de vingar um companheiro —
prosseguiu “77Z”, com voz gélida. — Lamento não poder
gastar tempo com você, pois gostaria de tornar a sua morte
extremamente dolorosa. Adeus.
Ouviram-se três chiados que saíram do silenciador da
Luger e a cara de Sun-Yin foi despedaçada, transformando-
se em postas de carne com fragmentos de ossos, lançando
salpicos de sangue com pedaços de miolos.
— Por favor — falou “77Z”, dirigindo-se a Yee e Pei,
que se mantiveram impassíveis. — Lastreiem o corpo e
lancem-no ao mar. Obrigado pela ajuda, da qual continuo
necessitando. Transmitam meus sinceros agradecimentos a
Dolonnor.
Deu meia volta e saiu, metendo-se no Vauxhall preto.
Devia livrar-se do disfarce para dar uma chegada ao
“Central Hotel”, onde seus amigos de farra por certo
estariam intrigados com o seu desaparecimento. Claro que
ele inventara a estória de um encontro secreto com uma
dama discreta, mas não podia estar absolutamente certo de
que seu companheiro bêbedo daria com a língua nos dentes.

***

— 50 —
O fato é que ao chegar, livre do disfarce, seus colegas
de farra não lhe deram muita atenção.
Somente o tal Lawrence, que, ainda alcoolizado, bufava
quando a croupier movia o pequeno rodo arrastando seu
dinheiro de um dos quadros do fan-tan, mostrou-se
verdadeiramente interessado pelo famoso playboy.
— Você não é bom amigo, Horace — declarou, com
língua pastosa. — Por que não me levou com você? Teria
evitado isto... Vinte mil dólares!
— Escute, Lawrence, amigo: você guardou segredo?
O inglês hesitou um pouco, mas conseguiu erguer a
cabeça e, com falsa convicção, afirmou:
— Claro!
Era evidente que o truque de Kirkpatrik dera certo.
Provavelmente ele ainda nem havia saído à rua, quando
Lawrence começou a espalhar que o playboy conseguira
uma aventura amorosa com uma mulher comprometida.
Isso justificava a demorada ausência de Horace Young
Kirkpatrik.
— Que tal um champanha, Lawrence?
— Ah?... Oh, não, obrigado. Vou dormir.
Era evidente que Lawrence não aguentaria o menor
gole, fosse do que fosse, sem despencar ali mesmo, vencido
pelo álcool.
— Está bem, Lawrence, vamos subir. Eu também estou
exausto.
Deixaram o sexto andar com seu ruído de fichas, seu hi-
fi e suas croupiers sensacionais, subindo ao nono andar.
Assim que Lawrence entrou por uma porta, Kirkpatrik foi à
sua suíte e, com estonteante operosidade, abriu a maleta,
removeu o fundo falso e montou um transceptor
miniaturizado de circuito integral, fazendo a chamada.

— 51 —
— Sim, Horace — chegou-lhe ao ouvido, pelo mini-
fone auricular, a voz do infalível Eddy.
— Como vão as coisas?
— O barco já está preparado. Quando pretende voltar
para Hong-Kong, Horace?
— Era justamente disso que lhe queria falar. Além dos
fogos e decorações chineses, o barco deverá levar também
mulheres bonitas, de túnica chinesa em cima da pele, com
fecho-éclair eficiente. Com isso quero dizer fácil de operar,
sem o menor perigo de enguiço, Eddy.
— Compreendo... — afirmou Eddy, com uma risadinha
maliciosa.
— A coisa deverá ser feita no bom estilo do famoso
playboy Kirkpatrik. Bebida, Eddy; muita bebida. Ainda não
posso fixar a hora da partida, mas não creio que será
amanhã. Fique atento a um sinal meu, indicativo de que
tudo está terminado e devemos zarpar. Insisto no detalhe do
fecho-éclair eficiente...
— Quanto a isso, esteja sossegado, Horace. Estarei
alerta ao seu sinal. Uma coisa, Horace: desde que cheguei
só nos comunicamos pelo rádio e não pudemos falar do
assalto ao hydrofoil. O piloto desse aerobarco estava hoje
no hotel em que me instalei, falando a uma roda de curiosos.
Afirmava que seu barco foi assaltado por piratas aéreos e
que, entre os passageiros, encontrava-se o playboy
americano Kirkpatrik. Confesso que me assustei.
Kirkpatrik deu uma risadinha.
— Obrigado, amigo Eddy. Isso foi antes de nos
falarmos por telefone, quando o chamei de Hong-Kong. De
fato, eu me encontrava a bordo e um colega nosso da CIA
foi metralhado. Vingarei sua morte. Aliás, a vingança já
começou...

— 52 —
— Ah... Isso me deixa mais tranquilo, pois imaginei que
você estivesse sendo caçado.
— Não estou.
— Ainda bem... Algo mais, Horace?
— Por hoje, é só.
Cortou a comunicação, desmontou o mini-transceptor,
ocultou-o no fundo falso da maleta e acendeu um cigarro,
sentando-se junto à janela.
Lembrou-se de Jasmin e sorriu. Nada mal desincumbir-
se daquela missão arriscada, contando com deliciosa
recompensa: os refrigérios de Jasmin.
Pensou intensamente em seu próximo encontro com a
portuguesa Belinda. Deveria agir com cautela porque a
própria intermediária do dr. Veloso lhe advertira de que ele
poderia estar metendo-se na boca do lobo ao entrar na
fábrica de fogos de artifício.
Sorriu. Afinal, o coronel Ming-Kie não respondera a
Belinda que costumava mover-se na boca do lobo?...

— 53 —
CAPÍTULO SEXTO

Luz vermelha número três...

O dr. Adalberto Yang Veloso estava sentado à sua


escrivaninha. Magnífica, aerodinâmica, no fundo de um
amplo salão decorado com maravilhas da arte chinesa.
Diante dele, Krupnik e Belinda.
— Seria muito desagradável ter de abandonar tudo isto
— disse Veloso, passeando o olhar pelo luxuoso ambiente.
— Estava convencido de que a jogada do iate daria certo,
mas não só fomos descobertos pela CIA como também
atraímos o Serviço Secreto chinês... desse coronel Ming-
Kie! Durante toda a noite e o dia de hoje estive dando tratos
à bola para ver se atinava com o que esse homem pode ter
em mente. Que espécie de acordo? Sem falsa modéstia,
devemos admitir que o doutor Veloso e sua organização
podem ser úteis a qualquer um. Mas, em se tratando dos
chineses de Mao, não sei o que pensar.
Belinda consultou seu reloginho de pulso.
— Em breve saberemos — disse. — O coronel já deve
estar chegando.
— Há boa vigilância, Belinda?
— Sim, mas sua ordem de...
— Não intervenção — concluiu Veloso. — Já sei. Não
obstante, convém mantermos certo controle sobre Ming-

— 54 —
Kie. Talvez devêssemos recebê-lo na “sala eletrônica”
para...
— Sinto discordar — interrompeu-o a portuguesa. —
Trata-se de um profissional experimentado, sagaz,
desconfiadíssimo, que logo descobri
ria estar sendo observado. Embora habilmente
engastadas nos quadros das paredes, nossas lentes “zoom”
não lhe passariam despercebidas, porque o seu Serviço
Secreto está cansado de usá-las... Prefiro avistar-me com
ele na sala um, com toda calma. Depois, caso ele nos dê
certa margem para decidir, como espero, estudaremos
detidamente sua proposta. Compreenda que se ele não
desferiu um ataque direto é porque você de fato lhe
interessa, doutor. Em todo caso, podemos fingir-nos seus
amigos, temporariamente, como um meio de contenção
contra a CIA.
— Sim, tem razão Belinda, porém temo as exigências
do coronel.
— Podemos estudá-las...
— Sim, claro. Então a coisa se dará na sala um. E sem
vigilância eletrônica.
— Exato, doutor.
— De acordo. Faça o sinal combinado, caso julgue que
devo avistar-me pessoalmente com ele.
Belinda estendeu o braço para recolher um cigarro de
cima da escrivaninha e, como estava sentada no braço de
uma poltrona, desequilibrou-se, descruzando as pernas sem
o devido cuidado. Adalberto Yang Veloso devorou-lhe as
coxas com olhar cobiçoso e, a despeito de muito vivido,
enrubesceu ao sentir os olhos da patrícia fixos nele. Havia
muito que a portuguesa o secretariava fielmente em suas
transações clandestinas e até o secundava em certos crimes
pouco mais graves, porém resistia com espantosa eficácia

— 55 —
às suas investidas de hábil conquistador. Isto muito
contribuía para aguçar os instintos de Veloso.
Um dos homens do sino-português entrou no gabinete,
pondo fim àquela situação embaraçosa:
— Já chegou, Belinda.
— Obrigada, Lo-Sang. Sozinho, ou...?
— Em um Vauxhall. O carro está um pouco afastado e
ele se aproximou sozinho.
— Vou recebê-lo. Será na sala um.
Belinda saiu ao corredor pisando firme, com muita
graça, seguida de perto pelo chinês Lo-Sang, ex-marujo do
iate “Santa Maria” dinamitado por ordem de Veloso.
— Sozinha?... — indagou Lo-Sang, temendo pela
segurança da portuguesa.
— Sem dúvida. Não quero ninguém tão perto que
chegue a provocar suspeitas no coronel ou fazê-lo sentir-se
contrafeito.
Lo-Sang inclinou-se em bom estilo chinês e
simplesmente desapareceu assim que Belinda entrou na sala
um. Ela não acendeu as luzes da fábrica ao atravessá-la para
ir à porta e observar o coronel através do “olho mágico”.
Abriu a porta e convidou:
— Entre, coronel. Sou Belinda...
Antes de entrar, “77Z” fez um sinal bastante ostensivo
e as luzes de um carro se acenderam, iluminando
intensamente aquela entrada. Depois, o carro manobrou e
partiu. O falso coronel Ming-Kie entrou e, assim que
Belinda fechou a porta, inclinou-se, beijando a mão que ela
lhe estendera.
— Muito amável, coronel — sorriu a portuguesa,
aparentemente encantada. — Venha. Conversaremos.
— Lamento ter sido um pouco... rude ontem.
— Não se preocupe, coronel. Por favor, entre.

— 56 —
Atravessaram a fábrica às escuras até um corredor, onde
as coisas mudaram de figura. Mármore por todos os lados e
muita luz. A certa altura Belinda estacou e, apoiando-se na
parede num gesto feminino, indagou:
— Surpreso com a mudança?...
Ming-Kie ia responder, porém uma área considerável
do painel de mármore do corredor se deslocou
silenciosamente, deixando à vista uma entrada.
— De fato... — limitou-se a responder Ming-Kie, com
um sorriso misterioso, fingindo não ver como Belinda
fechava o painel depois de transporem a entrada.
Encontravam-se em ampla sala ricamente mobiliada em
estilo colonial português.
— Agrada-lhe o cenário para nossa entrevista, coronel?
— Sinceramente, sinto-me transportado para um dos
incomparáveis ambientes senhoriais portugueses. Muito
acolhedor.
“Um palaciano” pensou Belinda, com um sorriso
enigmático. “Homem difícil de se dobrar!”
— Percebe-se, cm cada detalhe, um maravilhoso toque
feminino genuinamente lusitano — prosseguiu o coronel,
movendo a cabeça para admirar o que dizia ver. — Meu
humilde cérebro ousa suspeitar que a encantadora anfitriã
goza de apreciável autonomia para decidir sobre
determinados assuntos...
— Depende do quanto o coronel consiga impressionar-
me — rebateu Belinda. — Esteja à vontade. Deseja beber
algo?
— Sou lamentavelmente prosaico: conhaque francês.
— Ao menos nisso coincidimos...
Belinda foi ao bar disfarçado em estante de livros e
Kirkpatrik, longe de admirar-se com o variado sortimento
de bebidas finas, deliciou-se contemplando as formas da

— 57 —
portuguesa. Talvez um pouco rechonchuda, como a maioria
das lusitanas, porém de formas harmoniosas e
proporcionais à sua estatura, muito alta para a média das
portuguesas. E o pior era que vestia uma túnica creme
chinesa, transparente, aberta de um lado, tendo por baixo
apenas um biquíni minúsculo, preto. A luz do bar
transformava Belinda em convidativa silhueta de seios
empinados, agressivos.
Virando-se de repente, Belinda surpreendeu os olhares
do coronel e sorriu, envaidecida. Aproximou-se para lhe
entregar um copinho de conhaque.
— Por sua saúde, por sua beleza e por nosso acordo...
— disse Ming-Kie, erguendo o copo.
— Seriam necessários três conhaques, coronel ...
— Oh, não, não! Três doses, em sua companhia,
acabariam com um espião que até agora se julgou eficaz —
sorriu o coronel, inclinando a cabeça.
“77Z” havia prescindido do rabicho chinês para essa
entrevista, apresentando-se de cabeça raspada, como é de
praxe entre os oficiais de alta patente chineses.
— O senhor me surpreende, coronel. Ontem não me
pareceu tão galante.
— Mil desculpas! — quase gemeu o falso Ming-Kie. —
Creio estar justificado por não a conhecer pessoalmente...
Beberam em silêncio, olhando-se nos olhos. Belinda
esforçava-se por criar olhares ingênuos e Kirkpatrik
conseguiu deixar transparecer que, apesar de tudo, receava
algo. Era seu papel: mostrar-se cauteloso e desconfiado,
embora rendido ante os encantos femininos da portuguesa.
— Embora os dentes maravilhosos sejam típicos de sua
raça, os seus excedem tudo que já vi — soltou o coronel, de
repente, quase desconcertando Belinda. — Não deve
poupar sorrisos...

— 58 —
Belinda engoliu em seco e soube controlar-se,
desconversando com uma habilidade que espantou
Kirkpatrik:
— Talvez possamos, todos, esbanjar sorrisos, caso haja
um entendimento entre nós. O senhor me falou de um
possível acordo com o dr. Veloso...
Ming-Kie olhou-a demoradamente, antes de responder:
— Uma vez que o dr. Veloso confia na tão atraente
intermediária, irei direto ao assunto. Mas, antes, diga-me:
ele se oculta aqui?
— Desculpe, coronel, porém não responderei... por
enquanto.
— Oh, queira perdoar! É espantoso como a beleza
descontrola a mente até mesmo dos homens mais
equilibrados!... Creio tê-la advertido de que exijo jogo
limpo. Sabe? Estive pensando e julgo ter atinado com a
razão para o dr. Veloso livrar-se de Se-Wen, Hsuan-Nsu e
Si-Ping: a amizade entre Estados Unidos e China lhe
pareceu um risco demasiado grande para os negócios ...
digamos, extralegais, e ele não confiou na habilidade dos
outros três grandes de Macau, preferindo controlar sozinho
a... extra-legalidade. Estaria livre para fazer a aceitar
propostas interessantes. Bem pensado; muito bem pensado.
Foi compreendendo esse lance magistral que decidi entrar
em contato com ele para lhe revelar que nosso presidente
pretende conservar o mesmo status em Macau, porque,
entre outras coisas, teme que essa amizade não seja tão
profunda quanto ambas as partes desejam aparentar...
Belinda cruzou as pernas e o coronel arriscou um olhar
ultra-concupiscente, logo desviado pela voz da portuguesa:
— Prossiga, coronel.
— Alguém trapaceará. Eles, ou nós. Estou sendo claro?
— Bastante...

— 59 —
O falso coronel sorriu, arriscando mais um olhar para as
coxas muito brancas de Belinda.
— Bem... Chegada a fase das trapaças, cada jogador se
esforçará para armar as melhores cartadas e, para nós, a
melhor de todas é o dr. Veloso.
— Entendo. Que lhe propõem?
— A CIA buscará um homem forte cm Macau, não
concorda?
— É possível.
— Nós também. Nosso homem forte é Adalberto Yang
Veloso.
— Acontece que ele prefere continuar na situação atual:
anônimo e com a sua própria organização.
O coronel Ming-Kie ajeitou-se na cadeira.
— Nós lhe fecharemos as fronteiras e tudo
desmoronará. Se pensar bem, entenderá que os melhores
amigos de Veloso, aqui em Macau, somos nós, os espias
chineses. Ele sempre teria amigos em Pequim e gozaria de
privilégios especiais, além de ficar sob nossa proteção
direta. Compreenda: se fecharmos a entrada de Macau,
abrindo portos legais, esta colônia sucumbirá sem que
Pequim adote medidas drásticas contra ela. E se Macau
sucumbir, Veloso perderá tudo.
Belinda tinha a testa franzida, pensando intensamente.
Kirkpatrik namorava suas coxas alvas.
— Já nos disse ontem, coronel — murmurou a
portuguesa: — será com vocês ou contra vocês... Caso o
doutor não aceite o trato, Macau será uma cidade morta,
ocupada pela “guarda vermelha”, sem a menor
perspectiva... comercial.
— Vejo que, além dos encantos ostensivos, tem um
cérebro especial... — sorriu Ming-Kie. — Se Veloso aliar-
se a nós, Macau conservará seu status.

— 60 —
— Há inconvenientes a serem levados em conta,
coronel. Um deles será o súbito reaparecimento do doutor
na vida pública macauense.
— Bastará um pouco de imaginação. Por exemplo,
Veloso se teria salvo por acaso, passara algum tempo em
estado grave e apenas se recorda de ter ouvido uma
explosão. Recolhido, sem sentidos, por um pescador chinês,
homem humilde e discreto cuja pobre família cuidara com
desvelo do náufrago. Um de nossos agentes seria tal
pescador...
— Perfeito — admitiu Belinda. — Não obstante, se ele
aparecer em público, estará dando à CIA todas as
facilidades para atacá-lo.
— Ar entramos nós. Nossa proteção, entende? Na
verdade, Veloso seria excelente isca para levantarmos e
arrasarmos toda a rede da CIA em Macau.
— Um momento, coronel! — exclamou Belinda,
descruzando as pernas, com grande desgosto para “77Z”,
que as namorava o tempo todo. — Creio compreender a sua
jogada! Pretende usar o doutor como isca para destruir a
espionagem americana em Macau e lavrar um tento a seu
favor aos olhos de Mao Tse-tung. Claro que, antes da
chacina de americanos, a isca seria por eles devorada. Como
se diz em minha terra, o senhor mataria duas lebres com
uma só cajadada! Não, coronel, muito obrigada...
— Não está sendo uma menina ajuizada — declarou
Ming-Kie, com uma risadinha indefinível. — Nosso intuito
não é eliminar Veloso, mas extinguir a espionagem
americana em Macau. Ele seria apenas a isca, porém
cercada de toda proteção imaginável, tendo como
recompensa a total exclusividade dos negócios clandestinos
com a China — foi mais explícito na adjetivação.
Belinda pestanejou.

— 61 —
— Será difícil convencer-nos de tão belos propósitos —
zombou.
“77Z” sorriu. Na verdade, estava surpreso com a
capacidade da sedutora portuguesa para o duelo de palavras
em tomo de assunto da mais alta importância.
— Entenda, Belinda, que Veloso terá grande
dificuldade para sair daqui. Encontra-se na situação de uma
ratazana apetitosa entre dois gatos famintos: a CIA e o
Serviço Secreto chinês. O mais inteligente e seguro, para
ele, será livrar-se imediatamente de um desses inimigos: a
CIA.
Belinda contemplou as mãos gordas do espião chinês,
que indagou, com suavidade:
— Duvida?
— Eu, pessoalmente, sim. Não obstante, estou
impossibilitada de dar a última palavra. Devo consultar o
doutor sobre esta entrevista e amanhã...
— Esta noite — cortou Ming-Kie, incisivo, fingindo,
com entonação malévola, atenuar a rispidez: — Por favor,
Belinda...
Ela se levantou, seriamente preocupada. Aquele espião
chinês mostrava-se insolente, seguro de si. Devia contar
com alguma cilada para demonstrar tamanha firmeza.
— Pode esperar aqui, coronel?
— Com muito gosto.
— Poderá... servir-se de mais conhaque...
— Oh, não, obrigado! Sei dominar meus apetites ...
Belinda umedeceu os lábios, considerando absurdo
sentir-se tão inquieta. Era natural sentir-se assustada, mas
não havia por que tanto medo. Talvez fosse imperioso matar
o coronel, garantindo a fuga imediata de Macau. Fosse
como fosse, a colônia se tornara proibitiva para Veloso í sua
gente.

— 62 —
Saiu sem nada dizer e Kirkpatrik continuou sentado,
aparentemente tranquilo, à espera do regresso da
portuguesa. Contemplou a curiosa decoração colonial,
levando em conta que possivelmente haveria ali,
habilmente disfarçados, microfones indiscretos, objetivas
de câmeras de televisão de circuito fechado e muitos outros
dispositivos eletrônicos de uso corrente entre os espiões.
Talvez estivesse sendo observado desde que chegara.
Levantou-se e levou suas falsas banhas até a porta,
abrindo-a de um puxão.
Deparou com o sorriso amarelo de Lo-Sang, que tinha
uma metralhadora ligeira embaixo do braço e recomendou
delicadamente:
— Será melhor continuar aí dentro, coronel... Não lhe
agrada o ambiente português?
— Sou grande admirador das coisas lusitanas, amigo,
mas detesto a solidão — sorriu Ming-Kie.
Lo-Sang tornou-se sério e quase ríspido:
— Entre. Belinda não irá demorar.
“77Z” pareceu hesitar. Lo-Sang era um dos que tinham
abordado o aerobarco e disparado contra o agente da CIA,
tornando-se, automaticamente, um condenado à morte.
Iniciou o movimento de virar-se para atender à
recomendação do chinês, que sorriu. Foi seu último sorriso.
Quando Lo-Sang deu pela coisa, havia perdido a
metralhadora e uns tenazes lhe apertavam brutalmente a
garganta. Abriu a boca em vão esforço para respirar,
arregalou os olhos oblíquos, esperneou desesperadamente e
se imobilizou.
— Mais um, meu pobre companheiro — murmurou
Kirkpatrik, pensando no colega metralhado a bordo do
hydrofoil.

— 63 —
Arrastou o cadáver para o interior da sala onde estivera
conversando com Belinda, ocultou-o atrás do sofá de pés
torneados, com forração de couro pirogravado e botões
dourados, e tornou a sair, apoderando-se da metralhadora.
— Olá, patrícia... — saudou d, arma, uma M-4 de
fabricação americana.
Aquela noite pertenceria a “77Z”, que não tencionava
deixar ninguém respirando ao sair daquele esconderijo. Até
o momento, Veloso já perdera dois de seus homens mais
chegados: Sun-Yin e Lo-Sang.
Passou a outra dependência, que lhe pareceu vazia. Era
um lugar tão bom quanto qualquer outro para aguardar as
suas vítimas.
Num instante acostumou os olhos àquele novo
ambiente, vendo confirmar-se sua suspeita inicial: sem
móveis e com apenas alguns quadros chineses aas paredes.
Relativamente amplo.

***

Adalberto Yang Veloso, após ouvir o relato de Belinda,


empalideceu.
— Inacreditável! — exclamou. — Como pode um
homem inteligente apresentar-se aqui com tão descabida
proposta?! É óbvio que não pretendo servir de isca. Não
obstante, eu me pergunto que pode ocultar essa insolência,
para não dizer estupidez. Não, eu não creio que o coronel
seja um cretino. Devemos averiguar a que ele realmente se
propõe.
Krupnik, seu lugar-tenente, homem forte, duro, de
cabelos castanhos cor de palha e olhos claros, transparentes,
permanecera em silêncio.
— Que acha de tudo isso, Krupnik? — indagou Veloso.

— 64 —
— Não me agrada, doutor.
— Você é genial... — ironizou Veloso. — Que mais?
— Se esse homem parece tão seguro, deve estribar-se
em algo. A fábrica pode estar cercada por “guardas
vermelhos” e outros membros do Serviço Secreto chinês.
Só me ocorre isso, doutor Veloso.
— Sim, cabe essa possibilidade — admitiu o sino-
português. — Vamos tirar isso a limpo — pegou o fone
interno. — Atenção, Sing-Fu! Reviste os arredores da
fábrica. Vá desarmado, com absoluta naturalidade, como se
estivesse dando uma voltinha rotineira, mas de olhos bem
abertos. Cabe a possibilidade de estarmos cercados pela
“guarda vermelha” e por membros do Serviço Secreto
chinês. Quero uma resposta dentro de quinze minutos.
— Sim, doutor.
— Se for interceptado, não ofereça resistência; caso
seja interrogado, diga saber apenas que o coronel Ming-Kie
está parlamentado comigo. Um cigarro lhe fará parecer
natural... Entendido?
— Sim, doutor.
— Quinze minutos — repetiu Veloso, desligando.
Estava preocupado. Acendeu um de seus Havana
importados e nesse momento Belinda exclamou:
— Ele está na sala três, doutor!
De fato, em um painel habilmente camuflado acendera-
se uma luz vermelha com o número três. Veloso, com a
fisionomia contraída, apertou o botão correspondente
àquela luz e falou:
— Não devia ter saído de onde estava, coronel. Sua
saída da sala um indica que está espionando. Temo pela
segurança de Lo-Sang...
Soltou o botão e falou precipitadamente, dando ordens
expressas a Krupnik e Belinda.

— 65 —
CAPÍTULO SÉTIMO

Boa cera com defunto ruim...

Colado à porta daquela dependência, Kirkpatrik


continuava sem ouvir nada e começava a considerar a
conveniência de sair dali para varejar aquele luxuoso
palácio subterrâneo.
Moveu-se um pouco e foi quando ocorreu aquilo. Algo
estranho, incompreensível. “77Z” passou a girar
vertiginosamente. Rolou pelo chão giratório, agarrado à
metralhadora, gastando vários segundos para descobrir que
era o piso que girava e compreender que devia haver muitos
truques naquele esconderijo do sino-português Adalberto
Yang Veloso.
Por fim, a velocidade da plataforma giratória foi
diminuindo até se anular e “77Z”, continuando deitado no
chão, olhou ao redor. Seus olhos estavam perfeitamente
acostumados à escuridão e distinguiram uma porta. Ele se
levantou e correu para ela, um pouco mareado por causa da
alta rotação, mas, ao segurar o trinco, recebeu forte
descarga elétrica que o deixou momentaneamente atônito.
Retirou a mão, ligeiro, lembrando-se de usar como isolante
o material plástico que lhe servia de recheio, dando-lhe o
aspecto de homem adiposo.

— 66 —
Retirou parte desse material que lhe emprestava
respeitável barriga e, conservando-o na palma da mão
direita, esforçou-se inutilmente para girar o trinco.
Entendeu que estava preso mediante algum dispositivo
eletrônico. Sorriu. Bem, que tentassem dominá-lo...
Repôs o enchimento no devido lugar e, nesse instante,
ouviu um ruído às suas costas, pretendendo virar-se.
— Não se mexa, coronel — advertiu uma vos: firme. —
E largue essa metralhadora.
O jeito era obedecer, pois devia estar coberto por
alguma arma automática. Largou a metralhadora e virou-se
lentamente, sem que protestassem, compreendendo que
fora vergonhosamente enganado.
Depois de ter rodopiado vertiginosamente naquele piso,
perdera a orientação e se dirigira a uma porta falsa, aplicada
à parede, com alisares e tudo. Ali estavam Belinda e um
homem moreno de cabelos negros, alto, musculoso, que
tinham entrado pela verdadeira porta.
— Vejo que compreende, coronel — sorriu Belinda.
— Muito engenhoso... Vou adaptá-lo às minhas
necessidades...
— Por que saiu daquela sala? Onde está Lo-Sang?
A expressão do falso Ming-Kie era hermética, da mais
supina ignorância.
— Lo-Sang?! — repetiu, como se não entendesse.
Belinda franziu a testa e dirigiu-se ao seu
acompanhante:
— Recolha a metralhadora e reviste o coronel, João.
O moreno português se aproximou cautelosamente,
recolhendo a M-4 do chão. Depois, estudou bem o adiposo
chinês e decidiu aproximar-se dele por trás. Caminhou em
semicírculo e andou para Ming-Kie.

— 67 —
Foi quando Belinda testemunhou o espetáculo mais
estremecedor de sua vida. Com movimentos imprevisíveis
em um homem adiposo, “77Z” girou nos calcanhares,
desviou a M-4 que João empunhava, aplicou-lhe uma
cutilada de karatê na garganta e, antes que ele tombasse,
ergueu-o do chão, pelas costas. Imediatamente, trouxe o
português de volta para baixo, tendo o cuidado de colocar o
joelho esquerdo no caminho de seu corpo.
A espinha dorsal do português partiu-se com um
estalido tétrico que fez Belinda soltar um grito de horror.
João Canoa fora um dos homens que haviam
metralhado o agente da CIA, diante dos olhos de Kirkpatrik,
a bordo do aerobarco.
Belinda levou as mãos à boca e, vendo João dobrado ao
meio, para trás, com a espinha quebrada, pretendeu sacar
uma Bereta de entre os seios e, ao mesmo tempo, ganhar o
portal. Não poderia imaginar que aquele chinês gordo fosse
dotado de tanta agilidade. Sofreu um tranco que a levou a
chocar-se com a aquela da porta, desequilibrando-se.
Não chegou a cair porque “77Z” agarrou-a pelos
cabelos negros com a mão esquerda e com a direita
arrebatou-lhe a pequena automática.
Viu-se retirada daquela dependência aos solavancos,
incapaz sequer de gritar, tal o seu pavor.
— Onde estarei mais seguro? — indagou “77Z”,
sacudindo-a brutalmente pelos cabelos negros.
Ela conseguiu mover o indicador direito, trêmulo,
apontando para um trecho de parede. Kirkpatrik empurrou-
a para lá.
— Abra!
Belinda obedeceu, tocando com os dedos um ângulo de
um dos painéis de mármore, que girou silenciosamente,
deixando aberta uma passagem. Foi empurrada para o

— 68 —
interior daquela dependência, tão vazia quanto a outra que
haviam deixado.
“77Z” soltou seus cabelos, dizendo:
— Lamento que tenham escolhido a guerra. Não é essa
a resposta de Veloso?
Ela estava ofegante, sem fala.
— Responda!
— Ele... n... não pode... aceitar...
— E, por isso, você e aquele estúpido pretenderam
liquidar-me, heim? Como é pobre de inteligência, Belinda!
Sinceramente, Veloso me decepcionou, porquanto você não
ousaria agir desse modo sem o seu consentimento ou... sua
determinação. Claro que minha gente rodeia a fábrica e
tenho um tempo limitado para sair — mentiu.
Belinda engoliu em seco, mordendo o lábio inferior.
— Coronel... eu tenho de obedecer... Pessoalmente,
teria preferido o acordo...
— Com que, então, quer passar-se para o meu lado...
— Sim — disse ela, refazendo-se depressa. — Sou uma
mulher prática. Estou sempre do lado do mais forte...
— Vejo que se despe ligeiro... moralmente, é claro —
respondeu o falso Ming-Kie.
— E fisicamente também... — disse ela, tentando sorrir.
— Nosso acordo poderia tornar-se definitivo. Vamos sair
imediatamente. Há armadilhas por toda parte. Estou
disposta a lhe fornecer todos os dados sobre o
funcionamento dos dispositivos eletrônicos deste
esconderijo.
Enquanto falava, Belinda respirava agitadamente e seus
seios, agressivos, moviam-se provocadoramente. “77Z”
fingiu-se hipnotizado por eles, murmurando, com voz
tensa:

— 69 —
— De acordo, Belinda! Quem pode resistir?... Porém...
quero saber agora como funciona este esconderijo.
— De nada adiantaria, porque seus homens estão lá
fora, não podendo ajudá-lo. Vamos sair...
Enquanto falava, Belinda recuava quase
imperceptivelmente. Qualquer outro não teria notado,
porém “77Z”, dotado de faculdades excepcionais, captou as
segundas intenções da portuguesa. Se ela recuava, era
porque algo realmente perigoso devia encontrar-se
diretamente acima deles naquele momento. Captou também
um ruído muito estranho, como se alguém arrastasse fios de
arame. E aquele ruído vinha do alto!
Saltou para a direita, colando-se de costas à parede, no
justo momento em que se abria um alçapão no teto, e, antes
que Belinda pudesse reagir, empurrou-a para baixo do
alçapão.
Uma rede de arame semelhante a enorme puçá
despencou do teto, envolveu a portuguesa e ficou
pendurada, mantendo-a a um metro do chão.
Imediatamente um retângulo de parede se abriu e um
tubo começou a sair, enquanto a portuguesa gritava
desesperadamente, debatendo-se nas malhas da rede de
arame.
“77Z” compreendeu que aquele tubo seria para matar
de alguma forma e colocou-se ao seu lado, uma distância
prudente, arregalando os olhos quando aquela estranha
arma entrou em ação lançando um jato contínuo de cera
candente.
Belinda durou poucos segundos, derretendo-se e se
diluindo na cera, que gotejava formando uma pasta no chão.
Kirkpatrik livrou-se rapidamente da caracterização,
lançando-a diante do jato de cera candente. O disfarce

— 70 —
chocou-se com a rede de arame e desapareceu na massa
pastosa.
Instantes depois a cera parava de jorrar, o tubo recuava
para o interior da parede e a rede subia, desaparecendo no
teto. Naquela dependência macabra restavam apenas um
monte de cera fumegante, com Belinda nela diluída, e um
gigante louro, todo de preto, empunhando uma metralha M-
4.
“77Z” decidiu que, antes de mais nada, era preciso sair
daquele lugar em que a cera usada para blindar fogos de
artifício era empregada para derreter gente...

***

— O dispositivo funcionou — disse Veloso, falando ao


seu lugar-tenente Krupnik. — Porém o fato de termos
eliminado o coronel não significa que tenhamos afastado o
perigo. É necessário...
Interrompeu-se ao ouvir baterem na porta. Mandou que
entrassem.
Esperava ver Belinda, porém deparou com Sing-Fu, o
ex-piloto do iate “Santa Maria”, acompanhado de Morgan,
outro eurasiático, mestiço de inglês e japonês. Estranha
figura de cabelos negros, lisos, cortados à escovinha,
feições finas e olhos rasgados, calças e mocassins brancos,
camisa preta desabotoada, punhal na cinta e respeitável
automática japonesa num coldre axilar sob a camisa.
— Sinto muito, doutor, mas não consegui descobrir a
vigilância dos vermelhos — declarou Sing-Fu. — Eu e
Morgan podemos sair juntos como se fôssemos embora e
observar de mais longe, ter visão mais ampla...
Veloso pensou detidamente antes de concordar:
— Está bem. É evidente que não se deixarão ver ao sair.

— 71 —
— Devemos atacá-los se os descobrirmos?
Adalberto Yang Veloso alisou os cabelos com a mão
esquerda, enquanto, com a direita, acendia outro Havana.
Encontrava-se em má situação. Como dissera Ming-Kie,
entre dois gatos famintos: a CIA e o Serviço Secreto chinês.
Eliminado o coronel, os chineses tornaram-se os mais
perigosos inimigos. O jeito era...
— Atacamos, doutor? — insistiu Sing-Fu.
— Sim, será melhor. Devemos abrir caminho. Quando
estivermos livres dos que vigiam a fábrica, decidiremos o
que fazer primeiro.
— Vamos, Morgan — chamou Sing-Fu, saindo do
luxuoso gabinete.
O sino-português estava começando a ficar nervoso.
Belinda devia voltar e incumbir-se de certos detalhes para a
fuga de Macau.
Por que não voltava?! Que diabo estaria fazendo a
estúpida?!...

— 72 —
CAPÍTULO OITAVO

Comandante supremo da sujeira mundial...

Os dois homens caminhavam para o corredor, quando


Sing-Fu ponderou:
— Será melhor não sairmos juntos. Saindo separados,
se um de nós for apanhado pelos vermelhos, o outro ainda
terá alguma possibilidade de escapar.
— Difícil escapar... — murmurou o anglo-nipônico. —
Você bem sabe que os chineses gostam de agir em massa,
empregando muitos homens nas mais simples operações.
— É verdade...
Os dois se separaram ali mesmo. Um deles sairia pelos
fundos e o outro pela frente da fábrica.
Morgan caminhou confiante, ouvindo os passos de
Sing-Fu se afastando.
Que diabo! Por que Sing-Fu voltava?! Teria
desconfiado de algo?
Pretendeu virar-se, mas recebeu uma terrível cutilada
de caratê no trapézio, ficando com os braços paralisados. O
grito de dor lhe morreu na garganta, esmagado por outra
cutilada, desta vez na glote. Ainda conseguiu ver o gigante
louro, todo de preto, erguendo a mão direita para o terceiro
golpe. Foi tudo que viu antes de morrer sufocado.

— 73 —
— Ninguém pode matar impunemente um homem da
CIA diante dos olhos de “77Z” — declarou Kirkpatrik,
contemplando o cadáver aos seus pés. — Você é o quarto a
morrer...
Olhou ao redor. Era preciso ocultar aquele corpo. Viu a
porta da sala em que estivera conversando com Belinda.
Bom lugar... Arrastou Morgan, escondendo-o junto com o
cadáver de Lo-Sang.
Transpirando por causa do calor intenso, saiu da sala
um ao corredor. Dispunha de sua Luger provida de
silenciador e isso era o bastante.

***

O dr. Veloso se levantou, ordenando:


— Vá buscá-la, Krupnik!
— Sim, doutor.
Krupnik saiu imediatamente, disposto a visitar a sala do
jato de cera candente. Talvez Belinda, a despeito de ser uma
mulher extremamente fria, não tivesse resistido ao terrível
espetáculo e desmaiado.
Percorreu o longo corredor, despreocupado, deixando
para trás uma sombra. Um gigante louro que se deslocou
silenciosamente em direção oposta; para o gabinete de
Adalberto Yang Veloso.
Kirkpatrik mais parecia, naquele momento, um robô
com cérebro eletrônico especificamente programado para
matar. Agindo quase maquinalmente, abriu a porta, entrou
e, para grande espanto de Veloso, trancou-a por dentro.
— Mister Kirkpatrik! — exclamou o sino-português,
perplexo.
— Olá, doutor. Vejo que não me esqueceu.

— 74 —
— Oh, isso é impossível... O senhor é demasiado
famoso no mundo inteiro e... Que faz aqui?!
— Sente-se, doutor. Mas não aí. Prefiro vê-lo sentado
nesta cadeira, diante de mim. Vamos bater um papo muito
interessante.
Veloso obedeceu automaticamente, olhando para
Kirkpatrik com incredulidade.
— Compreenda o meu espanto... Eu...
— Não será sua única surpresa — cortou Kirkpatrik.
— Bem... Tive o prazer de conhecê-lo no ano passado,
no “Central Hotel”, quando... Enfim, em outras
circunstâncias...
— Lembro-me de tudo isso, Adalberto. Posso chamá-lo
assim? Sei que seu título é fictício, não?
— De fato — admitiu Veloso.
— Você, Adalberto, no ano passado, foi visto por mim
no “Central Hotel” quando... fiscalizava o jogo. Ou seja,
vigiando o dinheiro que devia ir para o seu cofre. Deixei
cento e cinquenta mil dólares nas mesas de fan-tan, porém
a estória de que voltei para tentar reaver esse dinheiro é tão
fictícia quanto o seu título de doutor.
Veloso começou a se refazer do espanto:
— Diga-me, mister Kirkpatrik: por que está aqui e
como conseguiu entrar?
— Falaremos de tudo isso, mas por partes. Sem dúvida
você me imagina um playboy inútil que vive gastando um
dinheiro para cuja obtenção jamais contribuiu.
— De fato. O mundo inteiro sabe disso.
— Pois o mundo inteiro está redondamente enganado.
Saiba que faço questão de manter essa falsa aparência para
encobrir minhas verdadeiras atividades, dentre as quais está
o domínio do comércio clandestino mundial, incluindo o de
Macau. Hsuan-Nsu, embora se fizesse passar por um dos

— 75 —
quatro grandes desta colônia, não era mais que um de meus
títeres.
— Mas...!
— Deixe-me falar, Adalberto. Você é o assassino de um
dos meus mais produtivos títeres. Não me importa a sorte
de Se-Wen e Si-Ping, já que seus negócios não me estavam
afetos. Porém eu gostava muito de Hsuan-Nsu e você o
matou no “Santa Maria”, com aquela explosão.
Veloso começou a levantar-se, extremamente pálido,
mas Kirkpatrik ordenou, com suavidade:
— Sente-se, Adalberto, porque ainda não terminei.
Lamentei a perda de Hsuan-Nsu, porém não caí em prantos.
Você deve saber como são as coisas neste mundo cão: rei
morto, rei posto. Na verdade, meus próprios verdugos
eliminaram, por ordem minha, homens que me haviam
servido em outras ocasiões. Acontece que agora desejo
colocar outro homem no lugar de Hsuan-Nsu como meu
títere em Macau.
O poder convincente de Kirkpatrik, sua maneira
incisiva, sucinta, de expor os fatos, convenceram Veloso.
— Mister Kirkpatrik, só não entendo suas farras, suas
orgias com mulheres, suas bebedeiras...!
— Um artifício eficaz que idealizei para ser tomado por
imbecil e continuar explorando a humanidade. Saiba que
tenho, graças a isso, poderes para destronar reis, provocar
guerras e promover acordos internacionais, tudo visando
exclusivamente a meus próprios interesses. Sou o número
um do mundo em matéria de sujeira.
— É... é inacreditável! — balbuciou Veloso.
— Mas verídico.
— Diga, mister Kirkpatrik: a que se propõe...?
— Você me interessa — cortou Kirkpatrik.
— Sim, mas...

— 76 —
— Já sei, Adalberto: você queria ser o único grande em
Macau, mas isso é impossível, porque o número um sou eu.
— É que, além disso...
— Sei o que vai dizer. Que a CIA e o Serviço Secreto
chinês estão no seu encalço e, por isso, você representa um
risco. Tolice! A mim não afetam esses bonecos americanos
e chineses.
— Dispõe de tanto... poder?!
— Mais do que você poderá imaginar. Saiba que farei
de você o meu braço direito em Macau, sem que ninguém,
nem mesmo Mao Tse-tung ou Nixon se atreva a meter-se
com esta colônia, certos de que, se o fizerem, serei capaz de
acender o estopim de nova guerra mundial.
— Inac...! Inac...! Inac...!
Não saiu. A exclamação ficou por três vezes
atravessada na garganta de Veloso e Kirkpatrik concluiu-a
para ele:
— Inacreditável. Mas chega de espanto. Você não é
capaz de reagir?!
— Sim, sim...
— Então, falemos de...
Bateram na porta e Kirkpatrik dirigiu um olhar frio,
interrogativo a Veloso, que murmurou:
— Deve ser Krupnik, com notícias de Belinda.
— Despeça-o. Esta conferência é privada, Adalberto.
Quando me dirijo a um de meus títeres, exijo sigilo total.
— Compreendo...
— Despeça-o. Que continue procurando.
Veloso pigarreou antes de indagar:
— Que houve, Krupnik?
— Não vi Belinda em parte alguma, doutor — gritou o
outro, de fora.

— 77 —
— Pois continue procurando. Talvez ela tenha sofrido
forte abalo ao testemunhar o que aconteceu ao chinês,
resolvendo deitar-se para se refazer. Vá ao seu quarto.
— Sim, senhor.
Ouviram-se passos se afastando e Kirkpatrik deu uma
risadinha, dizendo:
— Lamento ter de comunicar que Belinda morreu com
o chinês, derretida naquela cera...
— Mas...!
— Esse chinês era um bom lutador, a despeito de seu
aspecto repugnante. Lamento a sua morte, absolutamente
necessária. Também lamento a morte de Belinda,
inegavelmente uma delícia de mulher. Mas foi necessário...
— Sabe que Ming-Kie distribuiu seus homens ao redor
desta fábrica?
— Claro que sei, Adalberto. Mas acontece que todos os
caminhos estão sempre abertos para mim. Gente de Mao me
obedece, gente da CIA me obedece... Gente do mundo
inteiro me obedece, Adalberto. E sabe por quê? Dinheiro
sujo, Adalberto. Todo mundo está ávido de dinheiro fácil e
eu, como o mais sujo dos mortais, lhes possibilito esse tipo
de dinheiro. É por isso que lhe digo: sairemos daqui com
absoluta tranquilidade, quando eu decidir. Eu pago, mas
exijo.
Veloso, mais que sentar-se, deixou-se cair de volta na
cadeira, boquiaberto. Era difícil, quase impossível associar
aquele homem totalmente senhor de si, ultracínico, frio,
insensível ao perigo, com o desmiolado e covarde playboy
que choramingava ao perder migalhas na mesa de jan-tan e
quase desmaiava diante de um assalto, como sucedera a
bordo do hydrofoil.
— Continuamos falando, Adalberto?

— 78 —
— Ah?! Oh, sim, sim...! — gemeu Veloso, tirando do
bolso um lenço de cambraia cheirando a sândalo para
enxugar a testa molhada de suor frio.
Kirkpatrik pareceu lembrar-se de algo e franziu a testa.
— Antes que me esqueça: você não se perguntou como
a CIA e o Serviço Secreto chinês tomaram conhecimento
de sua jogada e souberam que você vive escondido aqui?
— Que quer dizer com isso?!
— Nunca pensou numa traição, Adalberto?! —
exclamou Kirkpatrik, com cara de espanto.
— Não é possível... — gemeu Veloso, com voz
abafada.
Kirkpatrik baixou os olhos para murmurar:
— Começo a crer que me enganei a seu respeito.
— Você não pode acusar...!
— Sei quem são os traidores — cortou Kirkpatrik,
cruzando as pernas. Não percamos mais tempo, Adalberto:
Krupnik e Sing-Fu são os traidores. Eu já lhe disse que tanto
a CIA como o Serviço Secreto chinês e muitos outros me
obedecem. Todos se apressam a me agradar quando lhes
peço informações. Krupnik e Sing-Fu tornaram-se aliados
com o propósito de vendê-lo por bom dinheiro e
conseguiram negociar simultaneamente com chineses e
americanos. Você seria fuzilado e eles, tendo agradado a
gregos e troianos, se instalariam em Paris, gozando o
dinheiro da traição. Mas tratemos de coisas mais
importantes, porque já sei o que faremos com esses dois
patifes.
— Estou atento. Que faremos com esses amaldiçoados
traidores?
— Você os matará diante de meus olhos. Será uma
prova de sangue-frio e fidelidade que exijo como única
condição para fazer de você o segundo homem mais

— 79 —
poderoso de Macau e... talvez, do Oriente. Comandaremos,
juntos, toda a sujeira dos negócios nesta parte do globo.
Adalberto Yang Veloso mostrou-se ao mesmo tempo
assustado com a idéia de matar com suas próprias mãos seus
ex-servidores e entusiasmado com as perspectivas acenadas
por Kirkpatrik. Ponderou:
— Bem... Tenho uma grande fortuna que poderíamos...
— Guarde suas migalhas para seus gastos pessoais —
cortou Kirkpatrik, com desdém. — Dinheiro miúdo não
enriquece nem empobrece ninguém. Em pouco tempo
embolsará somas fabulosas, Adalberto.
Os olhos do sino-português cintilavam de cobiça e sua
alegria só não era total porque ele se encontrava ante a
alternativa de matar Krupnik e Sing-Fu, seu lugar-tenente e
seu matador de mais alta confiança até aquele momento.
Estremeceu quando bateram na porta, levantando-se aos
poucos.
Kirkpatrik lhe dirigiu um olhar gélido, murmurando:
— Lembre-se do que lhe disse sobre esses traidores.
— Sim... — quase gemeu Veloso.
— Abra para que entrem.
Veloso caminhou devagar em direção à porta e “77Z”
carregou a Luger, por via das dúvidas...

— 80 —
CAPÍTULO NONO

Algumas doses encorajadoras...

Veloso abriu a porta e, com aparente tranquilidade,


voltou as costas aos dois homens que ali se encontravam.
Os dois, indecisos, olharam alternadamente para ele, que
voltava à sua escrivaninha, e para as pernas de Kirkpatrik,
que apareciam estendidas como se brotassem da poltrona.
— Entrem de uma vez! — ordenou Veloso.
Krupnik e Sing-Fu entraram em silêncio e olharam para
Kirkpatrik, que mais parecia uma estátua, dada a
inexpressividade de sua fisionomia.
— Já conhecem mister Kirkpatrik, não é verdade?
— Sim, doutor, mas não entendo — falou Krupnik, por
ambos.
— Entenderá bem depressa... Informe!
— Não vi Belinda em lugar algum, mas descobri os
corpos de Lo-Sang e Morgan atrás do sofá da sala um.
Veloso começou a admitir que Kirkpatrik estava certo:
Krupnik era um traidor. Bem podia ter assassinado Morgan
e Lo-Sang, colhendo-os de surpresa por não desconfiarem
dele. Indagou de Sing-Fu:
— Quantos vermelhos viu lá fora?
— Nenhum, doutor — respondeu o chinês com
expressão de impotência. — Não entendo como é possível!

— 81 —
— Há vários homens cercando a fábrica — declarou
Veloso, em tom cortante. — Ficou cego?
— Doutor...!
— Ou será que não está interessado em ver?
— Sing-Fu empalideceu.
— Que quer dizer com isso, doutor? Dei uma busca que
considero...
— Mentira!
Sing-Fu calou-se, perplexo, e Veloso dirigiu-se a
Krupnik:
— E você? Quanto cobrou para me delatar ao coronel e
à CIA?! Você e Sing-Fu! Mister Kirkpatrik tem razão!
Traidores!
Veloso apertou um botão do painel de sua mesa e desta
brotou uma saraivada de balas que quase cortou Krupnik e
Sing-Fu ao meio, matando-os sem um ai!
— Chega! — ordenou Kirkpatrik. — Não aprecio os
que se deixam cegar pela ira. Esses dois já pagaram por sua
traição.
Veloso estava ofegante. Respirou fundo e olhou para
Kirkpatrik, admitindo:
— Sim, fiquei cego de ódio...
— Esqueçamos isso. Uma pergunta, Adalberto: o
pessoal que trabalha na fábrica durante o dia está ciente do
que se passa aqui embaixo?
— Absolutamente! Os cinquenta operários
especializados são homens comuns que ignoram por
completo até mesmo a existência deste subterrâneo.
— Ótimo.
— Agora, Kirkpatrik, podemos sair, aproveitando essa
brecha que você diz ter nas fileiras do coronel e da CIA —
propôs Veloso, entusiasmado com a idéia.

— 82 —
— Bem... Na verdade, Adalberto, nem tudo que eu lhe
disse é verdade. Apenas cinquenta por cento... O resto é
pura fantasia que o impressionou muito.
— Não entendo!
A voz do sino-português tornara-se trêmula e seus olhos
não se desviavam da Luger provida de silenciador, que lhe
parecia ter brotado miraculosamente da mão de Kirkpatrik.
Sua palidez era espantosa.
— Explicarei em algumas palavras, Adalberto Yang
Veloso. Eu sou o coronel chinês Ming-Kie. Fui eu quem
matou Sun-Yin, Morgan e Lo-Sang, bem como seu meio-
patrício João, que acompanhou a graciosa Belinda à sala da
cera candente. E contribuí diretamente para a morte da
portuguesa naquela rede de arame. — Sorriu ante a
perplexidade de Veloso. — Não há nada de estranho cm
tudo isso. Em determinadas circunstâncias, “77Z”, o espião
da CIA, atua sozinho como irresistível máquina de matar. E
“77Z” ou Kirkpatrik, como prefira, está aqui para eliminá-
lo, Adalberto Yang Veloso.
Surpreendia bastante o fato de Veloso não cair, dada a
sua palidez.
— Men... mentira! Agora está... mentindo...!
— Menti antes, mas não agora.
Veloso umedeceu os lábios cadavéricos, murmurando:
— Impossível! É impossível!
— Você ainda ignora os danos que nos poderia ter
causado — prosseguiu “77Z”, sem pressa. — Eliminou um
de nossos colaboradores naquela explosão de seu iate
“Santa Maria”. Refiro-me a Hsuan-Nsu.
A boca de Veloso se abriu como se o seu queixo fosse
desprender-se das articulações e cair ao chão. Ele conseguiu
movê-lo para gaguejar:
— Men... mentira...!

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— Verdade. Hsuan-Nsu, como você, compreendeu
perfeitamente que a atual aproximação entre Estados
Unidos e China significaria a falência de seus negócios
clandestinos e, abordado, pela CIA, resolveu colocar à
nossa disposição seus conhecimentos sobre as rotas secretas
de penetração na terra de Mao, em troca de nossa proteção
e de continuar negociando livremente.
— Traidor! — gemeu Veloso.
— Inteligente... — corrigiu Kirkpatrik. — Sabe? Temos
cinco homens infiltrados na China comunista com a missão
específica de criar um centro secreto para adestramento de
colaboradores e sabotagem, a ser aproveitado, caso Mao
não corresponda à honestidade com que nós, os americanos,
estamos estruturando a nova amizade entre as duas grandes
potências. Hsuan-Nsu era o nosso homem forte para o
contato permanente entre a CIA e aqueles cinco abnegados
colegas que, a esta altura dos acontecimentos, encontram-
se praticamente abandonados em solo chinês. Por culpa sua,
Adalberto Yang Veloso.
— Eu não sabia!
— É possível. Consideramos isso de menor
importância. Interessa-nos, isto sim, o fato de você ter
eliminado nosso homem forte em Macau, cortando os
nossos planos, a fim de se instalar clandestinamente como
único grande desta colônia, impossibilitando a utilização,
por nós, de outro homem forte para satisfazer aos nossos
objetivos políticos.
— Posso ajudá-los! — aventurou o sino-português. —
Estou disposto...!
— Você não entende nada de rotas clandestinas! —
cortou “77Z”. — E não é digno da nossa confiança. Além
disso, ainda que a CIA se propusesse a valer-se de você com
tal propósito, eu me oporia frontalmente. Seria a única

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forma de eu me afastar definitivamente da CIA. E sabe por
quê, Adalberto Yang Veloso? Não adivinha? Porque você
matou um colega meu, diante de meus olhos, a bordo
daquele aerobarco a caminho desta cidade. Eu, “77Z” ou
Kirkpatrik, como queira, decretei a sua morte e você já é,
para todos os efeitos, um homem morto.
— NÃO!!! — urrou Veloso, com voz estranhamente
gutural.
— Saiba fingir que é homem — disse “77Z”, com
expressão glacial. — Não morrerá tão fácil e simplesmente.
Merece coisa pior.
Foi até a porta e, fazendo um sinal com a Luger,
ordenou:
— Venha. Já deve ter percebido que estamos sozinhos
nesta fábrica, incluindo suas dependências externas, e que,
portanto, ninguém nos importunará. Faremos uma visita
bem interessante à secção de embalagens...

***

A primeira coisa que Kirkpatrik fez ao entrar de novo


na suíte, via porta de serviço, foi meter-se no banheiro, com
sua maleta, para servir-se do transceptor de circuito
integrado. Fez a chamada.
— Horace! — exclamou Eddy, com voz metálica, pelo
mini-fone auricular. — Estou mergulhado num inferno,
neste barco! Mulheres, confete, serpentinas, línguas-de-
sogra estridentes, traques-de-bomba...! Admita que
algumas de suas piadas são realmente pesadas!
Kirkpatrik deu una risadinha.
Vejo que tem tudo preparado. Recebeu as caixas com
os fogos de artifício... As quatro maiores, com etiquetas
indicando conterem foguetões, devem ser discretamente

— 85 —
levadas para o interior da cabina, sendo que uma, a mais
pesa da, com furos, merece cuidados especiais.
— Providenciarei isso imediatamente, se as mulheres
me deixarem em paz!
— Sujeito de sorte!
— Não zombe, Horace! São inteiramente loucas!
Algumas se despiram, escandalizando os estivadores! Se
não vier imediatamente, com os seus amigos, perderá seu
secretário! Eu me jogo ao mar, Horace!
— Transfira as caixas para a cabina e atire-se nos braços
de uma dessas cálidas Frinéias — zombou Kirkpatrik. — O
mar deve estar frio, a estas horas...
— Que idéia repugnante! SOCORRO!!!
Cortou a ligação e Kirkpatrik deu uma risada,
comentando, satisfeito:
— Coitado de Eddy. Está sendo violentado...
Deu vários telefonemas internos para mobilizar seus
companheiros de farra, pegou a maleta com mini-
transceptor e, pouco depois, saldada a conta astronômica do
“Central Hotel”, o ruidoso grupo rumava para o cais, a pé,
escandalizando a Rua da Felicidade.

***

Eddy não tinha exagerado. Era realmente um [inferno.


Especialmente agora, em alto mar, com todo foguetório
sendo disparado, Evas complacentes e Adões empolgados.
Eddy, barbaramente despido e abusado, acabara
descobrindo que a coisa não era tão ruim quanto imaginara
durante uma vida inteira. Estava irreconhecível, de sunga,
falando com espantoso desembaraço:
— Aqui está a mais pesada, amigo Horace. As garotas
me ajudaram a carregar...

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Com que, então, agora comandava mulheres!
Kirkpatrik sorriu, satisfeito. O casto celibato era a única
coisa que sempre o incomodara em seu infalível secretário
particular.
— Obrigado, Eddy. Assim que tiver uma oportunidade,
transmita meus agradecimentos... às garotas. Um momento!
— quase gritou, detendo Eddy, que fizera menção de sair
para transmitir o recado. — Não vá com tanta sede ao pote,
homem! Primeiro temos de concluir nossa missão. Ajude-
me a abrir essa caixa.
Valendo-se de facas, removeram a larga e resistente fita
adesiva que envolvia a caixa de papelão corrugado,
levantando a tampa.
Eddy recuou um passo, atônito.
— Abra minha maleta — ordenou Kirkpatrik. —
Encontrará uma Thompson M-4. Traga-a rápido.
Eddy obedeceu maquinalmente, compreendendo o que
estava para acontecer, enquanto Kirkpatrik removia da
caixa, bem amarrado, o sino-português Adalberto Yang
Veloso, mantendo-o de pé, encostado a uma das cavernas
abrigadas do velho junco.
Com uma frieza estremecedora, “77Z” empunhou a M-
4, contemplou detidamente os olhos arregalados do dr.
Veloso e, de repente, apertou o gatilho.
Foi uma rajada concentrada, de muito perto, que
percorreu o corpo do sino-português, da púbis ao rosto,
quase separando-o em duas metades.
\ntes que Veloso despencasse, Kirkpatrik abriu uma
portinhola falsa atrás de si, explicando para Eddy:
— Recurso inteligente de que se valem os piratas
chineses para se livrarem de roubos e contrabandos, quando
abordados pelas autoridades navais...
Lançou o corpo de Veloso ao mar, declarando:

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— Aí vai o último, meu pobre colega. Está vingado!
Ouviu uma espécie de gemido e virou-se ligeiro,
deparando com Eddy sentado nos degraus da escadinha da
cabina, pálido como um defunto. Sorriu, opinando:
— Com mais algumas doses de mulher você resistirá a
essas bobagens, amigo Eddy. Vamos aproveitar...
Ergueu Eddy pelos ombros, levou-o ao convés e
empurrou-o para os braços de uma europeia ruiva que
executava, aos gritos, sozinha, espetacular dança do ventre,
numa fantástica explosão de narcisismo.
Livrando-se de Eddy, Horace Young Kirkpatrik voltou
à cabina do junco e redigiu um telegrama para Macau, a ser
passado de Hong kong:
Querida Jasmin, lamentável imprevisto obrigou-me a
partir sem nos vermos. Chato viajar sozinho num hydrofoil.
Horace.
Escrevia com a direita e, com a esquerda, acariciava os
quadris da morena que tinha ao colo...

FIM

A seguir: CONTRA-INVENÇÃO, onde o


agente 77Z enfrenta uma rede de
espionagem industrial interessada em
destruir os planos de um motor a ar
comprimido revolucionário, destinado a
tornar obsoletos todos os motores a gasolina.
Não deixem de ler!

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