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SÉRIE: 77Z
VOLUME: 122
TÍTULO: SORTILÉGIO FATAL
CAPA: BENICIO
AUTOR: COMBY KING
EDITORA: MONTERREY
ANO DA PUBLICAÇÃO: 1980
PREÇO DA PUBLICAÇÃO: CR$ 30,00
PÁGINAS: 128

SCANS E TRATAMENTO: RÔMULO RANGEL


romulorangel@bol.com.br

DISPONIBILIZAÇÃO
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SORTILÉGIO
FATAL
COMBY KING

Capa de BENICIO

PROIBIDA A REPRODUÇÃO NO TODO OU EM PARTE

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EDITORA MONTERREY LTDA.
Rua Visconde de Figueiredo, 81
Caixa Postal 24.119 — ZC-09
20550 TIJUCA – Rio de Janeiro - RJ
Fones: 248-7067
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© EDITORA MONTERREY LIMITADA


MCMLXXX Publicação no Brasil
Composto e Impresso pela
GRÁFICA LUX LTDA.
Distribuído por:
FERNANDO CHINAGLIA DISTRIBUIDORA S.A.

Todos os personagens desta novela são imaginados pelo autor e não


tem relação com nomes ou personalidades da vida real. Qualquer
semelhança terá sido mera coincidência.

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PRÓLOGO

Perante o olhar curioso, embora pouco convencido, de


dois dos homens que se encontravam na sala, o anfitrião
entrou, sorridente, embora com um certo ar de gravidade no
rosto. Devia ter uns quarenta anos, usava calça e guarda-pó
brancos e sapatos da mesma cor. O cabelo curto,
irrepreensivelmente penteado, era dividido por uma risca do
lado esquerdo, o que lhe dava uma aparência mais idosa.
— Meus amigos — disse, dirigindo-se aos dois homens
mais céticos. — Agradeço sua presença nesta casa e acho
que devo esclarecer alguns detalhes importantes antes de
darmos início ao nosso trabalho desta noite.
Fez uma pausa e indicou as cadeiras que se
encontravam encostadas na parede da sala. Os dois homens
sentaram-se bem assim como uma mulher ainda jovem,
com pouco menos de trinta, anos, cabelos negros compridos
e olhos pretos e brilhantes, de longas pestanas. As faces
eram rosadas, embora ossudas, e o queixo afilado,
agressivo. Usava igualmente roupas brancas, uma saia que
lhe chegava até os pés, sapato branco e uma espécie de
touca da mesma cor, segurando os cabelos. Apenas a blusa,
de mangas amplas, contrastava com o resto da
indumentária. Era azul, de cetim, brilhante. No pescoço
usava diversos colares de miçangas coloridas e alguns
amuletos metálicos e outros de osso. Nos pulsos tinha várias
pulseiras metálicas, que agitava constantemente.

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— Bom, o que vão assistir em seguida não é,
propriamente, uma sessão espírita genuína, ou melhor
dizendo, kardecista, pois não segue exatamente os moldes
da doutrina codificada por Alan Kardec. O que vão ver,
meus amigos, é um trabalho de espiritismo popular,
umbanda, trazido por nossa irmã Maria, do interior do
Brasil, o grandioso país místico, a verdadeira capital da Fé
de nossos dias e a Terra Prometida do futuro.
Calou-se mais uma vez, respirou profundamente, antes
de continuar, com exagerada solenidade:
— Trabalhos deste tipo não são vulgares entre nós,
embora constituam uma atividade quase diária no grande
país sul-americano a que me referi. Por isso são tão pouco
divulgados no mundo e, quando o são, é de forma errônea,
levando as pessoas a supor rituais e cerimônias complicadas
e pagãs, que em absoluto correspondem à realidade. O que
vão presenciar reveste-se da maior seriedade, mas também
da mais completa simplicidade.
Nova pausa teatral, durante a qual observou os rostos
atentos dos dois visitantes.
— Na verdade — prosseguiu —o que vai acontecer é a
descida de uma entidade espiritual, ou mais, no corpo da
nossa irmã Maria, médium das melhores preparadas dentro
deste ramo do espiritismo.
Um dos homens visitantes tossiu discretamente, o que
denotava com clareza que se encontrava pouco à vontade,
em especial porque não estava disposto a acreditar nessa
crença popular tão difundida na América do Sul e na África.
— Dentro em breve a impressão duvidosa que
apresentam será dissipada diante da simples e maravilhosa
realidade que é o contato entre os nossos dois mundos; o
visível, isto é, o material, e o invisível, ou seja, o mundo
espiritual. Ainda que não acreditem nisso, peço-lhes que

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mantenham um silêncio respeitoso e que só se dirijam à
médium quando a entidade já tiver baixado.
Os homens assentiram levemente com as cabeças e ele
prosseguiu:
— Tenho certeza de poder contar com a colaboração de
vocês, pois do contrário não teria aceitado participar desta
sessão.
Levantou-se finalmente e fez um gesto afirmativo na
direção da mulher, que se ergueu devagar e, de expressão
impenetrável, caminhou até uma mesa comprida, sobre a
qual se viam duas velas acesas, dois defumadores
queimando, diversas garrafas contendo as mais variadas
bebidas, desde o champanha à aguardente, cigarros,
charutos, um cachimbo, fósforos e algumas outras velas,
essas ainda apagadas.
— Fiquem de pé, por favor — pediu o anfitrião.
— Precisamos fazer alguma coisa mais, em especial,
Robin? — perguntou um deles.
— Nada, Mr. Stuedform. Basta que você e Mr.
Lungstrump se comportem com naturalidade, como se
estivessem assistindo a uma conversa informal, em nossa
dimensão comum.
Stephen Stuedform e Wilhelm Lungstrump assentiram
com as cabeças e observaram a mulher.
Depois do que pareceu uma oração pronunciada diante
da mesa, ela juntou as mãos e, pouco depois de alguns
momentos de concentração, começou a balançar o corpo
ritmadamente.
Súbito seu corpo foi sacudido por uma espécie de
espasmo, logo seguido por um tremor convulsivo, durante
o qual sacudia energicamente a parte superior do corpo e os
braços.

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Esse tremor intenso durou apenas alguns segundos.
Logo se deteve, balançou o corpo e, de novo, estremeceu
espasmodicamente. Repetiram-se os tremores convulsivos
por mais alguns segundos e, de repente, toda a sua
fisionomia se alterou.
Uma nova expressão iluminou seu rosto, até então
impenetrável, o corpo amoleceu e adotou uma nova postura.
Era como se uma outra personalidade se tivesse apoderado
dela.
Passeou vagarosamente o olhar embaçado pelos
presentes e murmurou, com voz grossa, empastada:
— Boa-noite.
Parecia arrastar as palavras, como se as mordesse antes
de soltá-las.
— Boa-noite — responderam os três homens.
— Não tem nada para mim? — perguntou.
— Claro — disse Robin prontamente.
Dirigiu-se para a mesa, encheu um copo de aguardente
e trouxe-o para a médium, juntamente com um charuto.
Era um espetáculo invulgar, ver uma mulher com um
charuto entre os dentes, bebendo aguardente como se fosse
um refresco.
— Senhor Exu Talma, esses dois senhores não
acreditam no que estão vendo. O motivo da presença deles
aqui é justamente esse. Como eu preciso da orientação de
Exu Talma para determinado assunto, eu...
A médium voltou-se para os dois visitantes e ficou
observando-os atentamente.
— Não gosto que me chamem para satisfazer a
curiosidade de idiotas — disse secamente.
Stephen Stuedform deu um passo à frente e achou que
devia esclarecer um equívoco.
— Senhorita Maria, nós não...

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A médium olhou ferozmente por alguns segundos,
obrigando-o a calar-se.
— Senhorita é a sua avó. Eu sou macho, Exu Talma,
não escutou?
— Bom, mas... — articulou Stuedform, pouco à
vontade.
— Bom, nada! — atalhou a entidade manifestada,
rispidamente. — Você é ignorante e alguém devia ter-lhe
explicado certas coisas.
Robin adiantou-se, com um sorriso apaziguador.
— Desculpe-o, senhor Exu Talma. Ele é um cientista
famoso, técnico em aeronáutica espacial e...
Exu Talma voltou-se abruptamente para Robin e
bradou:
— Quem sou eu, Robin?
O visado fez um gesto vago com os ombros e
murmurou:
— Exu Talma, não é?
— Se eu sou Exu Talma, você acha que não vou saber
quem são esses ignorantes? Vou lhe dizer uma coisa, Robin.
Se ele trabalhar tão bem nos planos desse novo propulsor
como trabalha com a língua e o espírito, o novo aparelho
jamais estará pronto.
Stuedform empalideceu. O projeto em que estava
trabalhando, um novo sistema de gás propulsor para
aeronaves de combate, era completamente secreto. Nem
Wilhelm Lungstrump, seu colega de ciência, estava ao
corrente dele. Como é que aquela mulher se referira, tão
prontamente, sem qualquer hesitação, a esse detalhe de seu
trabalho, considerado top-secret?
— Quem lhe falou em propulsor, em meu trabalho, Exu
Talma?

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— Me dê outro fumega e mais marafo. Estou com muita
sede — disse a entidade manifestada.
Robin assentiu com a cabeça e entregou um cigarro e
encheu de novo o copo com aguardente.
— Não vai respondera Mr. Stuedform?
— Não. Ele é cientista, que descubra —respondeu
secamente o Exu.
De testa franzida, Lungstrump aproximou-se do colega
e perguntou a meia voz:
— É verdade, o que ele falou, Stephen?
Stuedform assentiu gravemente com a cabeça.
— Como é que ela...ou ele soube?
— Não sei. Mas isso é muito pouco para me convencer.
Exu Talma olhou os dois cientistas de soslaio e disse:
— Não estou querendo convencê-lo. E não adianta ficar
cochichando, porque escuto muito bem.
Lungstrump franziu mais ainda a testa. Era improvável
que a médium tivesse escutado com clareza o que tinham
dito. No entanto, suas palavras davam a entender que havia
captado perfeitamente o sentido da troca de palavras entre
os dois colegas.
— Exu Talma — murmurou Robin. — O senhor não
deve tratar Air. Stuedform e Air. Lungstrump com muita
dureza. Afinal, eles não conhecem nem entendem a
verdade.
— Isso não me interessa, Robin. O que é que você quer
de mim?
— Bom, eu não tenho andado muito bem, ultimamente.
Não é problema de saúde, não. Alguma coisa me incomoda,
mas não sei exatamente o que é. Preciso assinar um contrato
de venda de uma importante mercadoria para Israel, mas
estou com medo.

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— Medo de quê? A caneta não morde, Robin — cortou
a entidade manifestada, com irreverência.
Robin esboçou um sorriso condescendente.
— Eu sei. O problema não é esse. Acontece que não
estou muito seguro de estar fazendo um bom negócio.
— Por quê? Não entende de seus negócios? Eu é que
não entendo.
— Eu sei, Exu Talma. Mas preciso de seu conselho.
Devo ou não assinar o contrato?
— Você não estudou o contrato, antes?
— Estudei, claro. É um excelente negócio, mas...
— Mc dê mais um fumega...
Robin entregou-lhe outro charuto, perante o espanto
dos dois cientistas.
— O que é que eu devo fazer?
Exu Talma ficou silencioso por longo tempo.
— Esse negócio pode dar zebra, Robin — disse,
finalmente.
— É mesmo?
— É. Pode haver fogo, sangue, morte. E seu negócio
vai por água abaixo.
Robin estremeceu, com uma expressão de ansiedade e
angústia no rosto.
— Não devo assinar, então?
— Eu acho que não. Mas você é que tem que se virar,
Robin. Dou meu conselho, apenas. Mas esse negócio vai
dar em tragédia.
— Não pode fazer nada para evitar isso, Exu Talma?
— Posso. Mas não vou fazer.
— Por quê?
— Seus sócios são falsos. Eles não^ acreditam em
espírito e vivem debochando. Eu já disse que ainda vou lhes
dar um tombo.

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— Mas se não foi evitado o desastre, eu vou ser
prejudicado.
— Problema seu, Robin. Você é que tem de convencê-
los a não fazerem esse negócio, que é ruim.
— E se eu não conseguir? Eles são dois e a opinião
deles, nesse caso, fica em maioria.
— Problema seu. Eu avisei. E agora me dê mais um
pouco de marafo, porque já vou embora.
Robin voltou-se para os dois cientistas e encolheu os
ombros.
— E não vai fazer nada por eles?
— Não tenho nada para fazer. Eles são ignorantes
mesmo e precisam aprender primeiro.
— Acha que eles devem aprender, voltar mais vezes?
— Eles é que sabem. Mas cuidado com esse negócio do
propulsor, Stuedform. Isso pode dar muito desastre antes de
ser aprovado.
O cientista franziu a testa e perguntou:
— O que quer dizer com isso?
—-Não sou cientista. Você, que é, vire-se.
A irreverência da entidade manifestada exasperava
Stephen Stuedform. Tinha que fazer um esforço tremendo
para se manter calmo e não responder desabridamente às
insinuações de Exu Talma.
— Eu sei quem é o cientista. Mas já que você fez uma
observação, gostaria que entrasse em detalhes.
Exu Talma olhou-o longamente, antes de sorrir.
— Quem é você para me dar ordens? Eu não sou o meu
burro, este corpo em que desci. Eu sou um Exu doutrinado,
que não recebe ordens de ninguém como você.
— Não estou dando ordem — disse Stuedform, com
firmeza. — Apenas pedindo que entre em detalhes.

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— Já vou embora. Escute o que eu disse, se quiser. Mas
se acontecer alguma coisa, eu o espero aqui, para vermos
quem é mais forte.
Antes que o cientista pudesse dizer mais alguma coisa,
voltou-se para Robin.
— Que a proteção dos orixás reine nesta casa e que,
com Exu Talma, saia toda a demanda, todo o mal, toda a
inveja!
Estremeceu violentamente, ficou se sacudindo por
alguns segundos e, com um espasmo final, deu alguns
passos cambaleantes. Robin aproximou-se ^a médium e
murmurou:
— Maria...
— Estou bem, Robin. Estou bem. Me veja um copo de
água, por favor...
A voz, a expressão fisionômica, tudo, era
completamente diferente. Voltava a ser a brasileira Maria
Sidneya Santos, mãe-de-santo, burro de Exu Talma e outras
entidades.
Inquietos, nervosos, os dois cientistas mexeram-se,
mudando o peso do corpo de um pé para o outro.
Robin tinha-se afastado para pegar a água que Maria
pedira, quando a médium começou a estremecer mais uma
vez, sacudida por espasmos violentos, agitando
freneticamente a parte superior do corpo, os braços e mãos
e a cabeça. Robin murmurou, a meia-voz:
— Não dá mais tempo de beber água...
Novamente a personalidade de Maria Sidneya se
modificou radicalmente. Os olhos adquiriram um brilho
quase selvagem, malicioso, o braço esquerdo desceu
vagarosamente e, logo, num movimento brusco, agarrou a
ponta da saia, prendendo-a entre o braço e o corpo. Soltou
uma curiosa risada e olhou em volta.

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— Iah... ha... ah... Boa-noite.
Robin sorriu suavemente e os dois cientistas
entreolharam-se, perplexos. A voz que agora escutavam
nada tinha a ver com a da médium ou do Exu Talma. Agora
era uma voz cristalina, com leve sotaque apenas,
tipicamente feminina.
— Boa-noite, Pomba Gira Valiah.
Os dois cientistas moveram a cabeça afirmativamente e
murmuraram, pouco à vontade:
— Boa-noite...
— Essa é a Pomba Gira Valiah, meus amigos —
explicou Robin. — Desceu quando Exu Talma subiu.
Stuedform franziu a testa.
— E o que é que ela veio fazer? — perguntou,
debilmente.
— Não sei, Stuedform. Vamos esperar que ela nos diga.
A Pomba Gira fixou atentamente os dois cientistas, por
longo tempo, como se os analisasse, ou tentasse ler seus
pensamentos. Esse exame ostensivo começou rapidamente
a incomodar Stuedform, o mais visado.
— O idiota está meio sem jeito, Robin... Pode ficar
tranquilo. Você não é macho para mim... Iah... ah... ah...
— Não deve tratá-los assim, Pomba Gira. Eles não
conhecem a umbanda, mas querem conhecer.
— Não tem nada para mim, Robin?
— Claro, claro...
O anfitrião encaminhou-se para a mesa e abriu uma
garrafa de champanha, pegando também um maço de
cigarros.
Serviu à Pomba Gira, que bebeu generosamente e
acendeu um cigarro, de filtro branco.
— Só vim aqui embaixo porque estava do lado quando
Exu Talma falou — disse, por fim.

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— Entendo. E daí?
— Daí que você deve prestar atenção ao que ele disse.
Vai haver morte, fogo e sangue, nesse seu negócio com...
como é que se diz essa terra?
— Israel.
— Isso. Israel. É bom convencer os ignorantes dos seus
sócios a não fazerem o negócio.
— Se eu puder, eu faço eles mudarem de idéia. Mas
você podia me ajudar a convencê-los, Pomba Gira Valiah.
— Não vou ajudar nada. Exu Talma não quis ajudar, eu
não ajudo também. Só vim avisai', reforçar o que ele disse.
— Está bem. Obrigado.
— Mais champanha. E outro cigarro.
Foi prontamente servida, bebendo com prazer.
Stuedform e Lungstrump esperavam que Maria Sidneya
caísse embriagada a qualquer momento. Enquanto
incorporara Exu Talma, tinha ingerido quase uma garrafa
de aguardente. Agora estava esvaziando a de champanha...
— Quer falar mais alguma coisa, Pomba Gira?
— Não. Poderia dizer, como Exu Talma, que o
propulsor do baixinho aí — apontou displicentemente para
Stuedform — vai dar zebra também, mas ele não iria
acreditar. Problema dele! Que se dane!
— O que quer dizer com isso? Ainda há pouco você
mencionou o mesmo assunto e... — interveio Stuedform.
— Você é estúpido mesmo, hem, Stuedform! Quem
falou há pouco foi Exu Talma. Eu sou a Pomba Gira Valiah
da Mata. O que vocês estão vendo é apenas o corpo de meu
burro. Eu não sou assim. Sou muito melhor do que ela e não
tem macho que me satisfaça. Iah... ah... ah...
Stuedform não pôde deixar de sorrir. A gargalhada
curiosa da Pomba Gira era contagiante. E sua maneira de se
expressar bastante pitoresca.

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— Está bem. Desculpe. Não quis ofender...
— Não me ofendo com o que machos ignorantes dizem.
Mas acho que você também devia escutar o que Exu Talma
falou sobre esse tal de propulsor. Vai dar muito desastre
antes de ficar pronto. E Magda não vai sair feliz disso...
Iah... ah... ah...
A referência direta à mulher de Stephen Stuedform,
Magda, deixou os dois cientistas assombrados.
— O que é que Magda tem a ver com isso? —
perguntou rispidamente.
— Nenhuma mulher fica feliz quando enviúva. Só se
estiver querendo outro macho. lah... ah... ah...
Empalidecendo intensamente, o cientista deu um passo
adiante.
— Viúva... — balbuciou.
A Pomba Gira simulou nem ter escutado. Entregou o
copo para Robin e disse:
— Já vou embora. Boa-noite.
Antes que os presentes pudessem dizer mais alguma
coisa, o corpo de Maria Sidneya foi mais uma vez sacudido
por tremores convulsivos, o tronco, a cabeça e os braços
agitaram-se freneticamente e, pouco depois, cambaleava,
sendo prontamente amparado por Robin.
— Maria...
— Está tudo bem, Robin. A água?
Bebeu ansiosamente a água fresca e dirigiu-se para a
mesa. Concentrou-se numa oração breve, bateu com os
dedos na mesa e começou a tirar as guias do pescoço, os
colares de miçangas e amuletos.
Stuedform aproximou-se de Robin, que se mantinha
sorridente, e perguntou:
— Terminou, Robin?
— Terminou, sim.

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— O que é que você vai fazer?
— Tentarei convencer meus sócios do perigo do
negócio. Mas não tenho muita esperança de conseguir... E
isso me deixa preocupado.
Os dois cientistas entreolharam-se. Não estavam muito
convencidos do que tinham visto e ouvido, mas a sessão os
deixara, no mínimo, perturbados.
Pouco depois deixavam a casa de Jack Robin, confusos,
como se tivessem abandonado um mundo mágico, irreal,
onde tudo se deformava a partir da própria realidade
cotidiana.

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CAPÍTULO PRIMEIRO

Um caso de consciência

Stephen Stuedform depositou o jornal sobre a mesa de


trabalho e fitou Wilhelm Lungstrump.
— Inacreditável, Wilhelm!
— Eu sei, Stephen. Pensei o mesmo que você. E
confesso que estou preocupado.
Stuedform voltou a pegar no jornal e leu mais uma vez:
— Parece mentira... Um grupo de guerrilheiros atacou
os caminhões de uma transportadora israelense, a poucas
milhas de Telavive, destruindo totalmente um
carregamento de implementos agrícolas, importados dos
Estados Unidos. Sete dos acompanhantes da caravana
morreram durante o ataque, enquanto três outros ficaram
feridos. Não houve baixas entre os guerrilheiros. Os
implementos haviam sido adquiridos de uma exportadora
de Nova York e, paradoxalmente, o diretor dessa empresa,
ao ser interrogado sobre o ataque, declarou que era um risco
que já sabia que iria correr. Toda a mercadoria estava
segurada, de forma que o prejuízo da exportadora foi
mínimo, havendo a lamentar, no entanto, os sete mortos e
três feridos., Jack Robin, o exportador americano, informou
que sua companhia vai entrar em contato imediato com as
autoridades israelenses, pedindo medidas enérgicas contra
os guerrilheiros.

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— É difícil de acreditar, mas aquela brasileira estava
certa, Stephen. Tudo aconteceu como ela tinha previsto.
Pelo que se pode ler nessa notícia, os guerrilheiros pegaram
fogo nos caminhões, destruindo completamente toda a
mercadoria.
— O Exu Talma afirmou que haveria fogo, morte e
sangue...
— É verdade... O que é que você pensa disso?
— Para lhe falar com sinceridade, não tenho uma
opinião formada. Ou melhor, tenho de admitir a opinião que
se forma em minha mente. É absurdo e...
Stuedform deixou cair o jornal e balançou a cabeça.
— Eu posso entendê-lo, Wilhelm. E isso me deixa mais
preocupado ainda.
Levantou-se e deu alguns passos pela sala. Havia ali
diversos quadros com inscrições, pranchetas, aparelhos de
cálculo e medida.
— O que é que vai fazer, Stephen?
— O que quer dizer com isso?
— Aquela mulher falou sobre seu projeto, o propulsor.
— Não esqueça, Wilhelm, que tudo pode não passar de
mera e fantástica coincidência. Você e eu somos cientistas,
não demagogos.
Lungstrump levantou-se também e acendeu um cigarro.
— Não é isso que você está pensando, Stephen... E
talvez fosse mais sensato encarar a realidade, enfrentar o
problema, do que fugir dele.
Stuedform parou e olhou frontalmente para o colega.
— Onde é que está querendo chegar, Wilhelm? Está
pretendendo que eu vá me aconselhar com essa mulher e
escute o que ela diz? Ora, por favor! Trata-se de uma pessoa
semi-analfabeta. O que é que ela pode saber?

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— Já ouviu falar sobre percepção extra-sensorial, tenho
certeza.
— Nada disso é provado cientificamente.
— Claro que é e você sabe, Stephen. O professor J. B.
Rhine, da Universidade de Duke, tem feito demonstrações
comprovadas cientificamente que não nos permitem mais
continuar de olhos fechados. Precisamos abrir os olhos e a
mente para a realidade das coisas. O mundo psíquico está
aí, existe e não podemos ignorá-lo.
Stuedform, nervoso, acendeu um cigarro.
— E daí?
Franzindo a testa, perplexo, Lungstrump murmurou:
— Daí que temos de enfrentar a realidade. Esconder a
cabeça, como o avestruz, não vai resolver o problema.
— Eu sei. Mas me repugna a idéia de me entregar nas
mãos desse tipo de gente.
— Gente que fez uma previsão improbabilíssima e
acertou em cem por cento. Jamais esquecerei a forma como
essa mulher se referiu ao ataque, fogo, sangue e morte no
caso desse negócio de Jack Robin.
— Tudo isso me impressionou bastante, também,
Wilhelm. O que acha que devíamos fazer?
— Não sei, Stephen. Sinceramente, pela primeira vez
em minha vida, estou diante de uma situação que não
permite enxergar com frieza uma solução.
— Essa mulher pode ter captado, do inconsciente
coletivo, uma premonição sobre o que ia acontecer...
— O que ela captou ou como captou não interessa,
Stephen. O que importa é que ela tem, de alguma forma, a
capacidade de prever o futuro e parece disposta a advertir
sobre os perigos. No mínimo, devíamos estudar o caso e
levar em consideração o que ela diz...

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— Um caso apenas é pouco para formarmos uma idéia
concreta. Como eu disse, pode tudo não passar de uma
fantástica coincidência.
— Então procuremos a confirmação. Vamos visitar
Robin. Quem sabe conseguiremos alguma coisa...
Stephen Stuedform sorriu, satisfeito. No fundo, era isso
que ele desejava. Porém, seu orgulho, sua mentalidade
friamente científica o impedia de dar o primeiro passo.
— Vou telefonar para Robin. Pode ser, até que
estejamos diante de um apaixonante caso científico.
Pegou no telefone e discou o número de Jack Robin,
sentindo uma espécie de alívio.

***

O Exu Talma bebeu um longo trago de aguardente' e


olhou em volta. Jack Robin estava bastante abatido, com
evidentes sinais de preocupação no rosto.
— Stephen Stuedform e Wilhelm Lungstrump desejam
falar com você, Exu Talma.
A entidade manifestada sorriu cinicamente.
— Não tenho nada para falar com eles, Robin.
Especialmente com pessoas perdidas.
Os dois cientistas franziram a testa e Stuedform
perguntou:
— O que quer dizer com isso?
— Esse seu amigo está bastante ruim e não quer
admitir. Ou não sabe...
Lungstrump empalideceu.
— Está se referindo a mim?
— A mim é que não é! — cortou o Exu, secamente.
— E por que é que eu estou muito ruim?

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O Exu olhou-o fixamente e, depois de uma longa pausa,
disse:
— Você quer saber mesmo?
Lungstrump assentiu vigorosamente com a cabeça.
— Está bem. Sente-se aqui.
Indicou uma cadeira, que o cientista ocupou sem
hesitar. O Exu começou a andar energicamente diante dele,
em silêncio. Por fim deteve-se e olhou-o nas pupilas
escuras.
— Por que é que você se recusa a fazer esse exame,
Lungstrump?
O cientista estremeceu e o lábio inferior tremeu
convulsivamente.
— Exame?
— Sabe ao que estou me referindo, Lungstrump. Você
tem quarenta anos, não é?
O outro assentiu com a cabeça.
— Muito bem — prosseguiu a entidade. — Com
quarenta anos, ainda pode ser pai. Muitas vezes! Sua
mulher está esperando um filho, não está?
Lívido, suando copiosamente, o cientista murmurou:
— Está, sim...
— Pois é... Acontece que você, desde há dez anos, é um
homem estéril. Agora, com a gravidez de sua mulher, era
imperioso fazer um exame. Você sente que continua estéril
e o fato de estar esperando um filho só pode significar que
sua mulher o trai. Para não descobrir a verdade, prefere
esconder-se, evitar esse exame. Por quê?
Atormentado, o cientista levantou-se.
— Isso são assuntos particulares, que não interessam a
ninguém, a não ser eu e minha mulher...
— Claro! Você tem medo de constatar, pelo exame, que
continua um homem estéril e que, portanto, não pode ser o

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pai desse filho. Agora eu vou lhe dar um conselho, faça esse
exame! Posso lhe dizer, até o resultado que vai dar.
Com uma expressão de angústia, Lungstrump olhou
para ele.
— Negativo, Lungstrump. Você está tão estéril como
há dez anos.
— Não... Não é possível! Sue não faria uma coisa
dessas e...
— Você vai chegar em casa e encontrará sua mulher
com a pai desse filho. E ela vai lhe contar tudo. E aí você
perderá a cabeça. Por isso eu avisei que está muito mal. Mas
vou ajudá-lo.
O cientista, completamente atordoado, olhou
esperançosamente para o rosto da médium brasileira.
— Ajudar...
— Isso mesmo. Você quer que eu o ajude?
Por longo tempo Lungstrump ficou silencioso.
Percorreu com os olhos os outros dois homens, como se
pedisse uma orientação, uma expressão de apoio. Jack
Robin sorria fracamente. Stuedform estava perplexo.
— Quero... — murmurou por fim.
— Está bem. Só existe uma forma de ajudá-lo,
Lungstrump. Se for verdade o que eu acabei de lhe dizer,
telefone para Robin. Ele me dirá e eu tomarei providências.
— Que... que providências?
— Você não quer um filho, tanto quanto sua mulher?
— Quero. Mas se essa criança...
— Ninguém saberá que essa criança não é seu filho. A
menos que você fale.
— Não... não..., mas o que vai fazer?
— Não lhe interessa, Lungstrump. Apesar de você ser
estúpido e ignorante das coisas do espírito, eu vou ajudá-lo.
Porque Robin é seu amigo. Eu gosto muito de Robin, que

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trata muito bem o meu burro. É pena que ele seja idiota
também.
Jack Robin interveio, espantado.
— Eu, idiota? Por quê?
— Eu o avisei sobre o que ia ocorrer. Você não fez
nada. E o que aconteceu?
Jack Robin inclinou a cabeça para o peito.
— Não pude convencer meus sócios. Eles acharam que
era um bom negócio e...
— Foi um bom negócio?
— Não. Morreu gente e a mercadoria foi perdida. Claro
que estava no seguro, mas...
— Você foi avisado, Robin. Se seus sócios são
estúpidos e ignorantes, eu não tenho nada com isso. Segure
o copo, que eu já vou embora.
Um silêncio pesado, tenso, caiu sobre a sala.

***

Aturdido, Wilhelm Lungstrump entrou em casa.


Morava num apartamento mobiliado com gosto. Sue
Lungstrump, com trinta e dois anos, era uma mulher bela,
de corpo atraente, sorriso cativante e olhos verdes, grandes,
de longas pestanas.
O cientista deixou-se cair numa poltrona e observou a
mulher, cujo ventre denotava gravidez, que, embora
incipiente, já se revelava.
— Está cansado, querido? — perguntou ela.
— Um pouco. Como você passou o dia?
— Bem. Preciso falar com você sobre certos assuntos
e...
— O que é?
— Já fez o seu exame?

— 25 —
— Não. Também preciso lhe fazer uma pergunta muito
séria e quero que me responda com a verdade.
A mulher empalideceu e sentou-se numa poltrona.
— Que pergunta?
— Quem é o pai dessa criança?
Sue estremeceu com violência e, nervosa, acendeu um
cigarro.
—Não estou entendendo...
O cientista levantou-se e serviu-se de uma bebida, num
bar no canto da sala.
— Ora, Sue! Sabe muito bem ao que estou me
referindo. Eu sou um homem estéril e, apesar de ainda não
ter feito o meu exame, continuo estéril e sempre
continuarei. Apenas um milagre poderia me curar e, pela
minha própria natureza, eu não acredito em milagres. Quem
é o pai dessa criança?
— Mas Wilhelm... Você nem fez seu exame, como
pode saber se está curado ou não?
Nervoso, o cientista ergueu a voz:
— Sue! Vamos deixar a farsa de lado. Eu sei que não
estou curado e posso até compreender por que você fez isso.
Esse filho é muito importante para você. A culpa, o errado,
sou eu, que não lhe pude dar uma criança. Estou apenas
querendo saber quem é o pai...
A mulher encolheu-se na poltrona, esmagou o cigarro
nervosamente no cinzeiro e murmurou:
— Palmer...
— Meu assistente — ecoou o cientista, sentindo que a
energia se esvaía de seu corpo, como se fosse drenada por
uma força invisível. — Desde quando?
— Só agora. Ele insistiu e eu estava muito sozinha.
Você e seus projetos no laboratório...

— 26 —
Nesse instante a campainha da porta tocou e,
maquinalmente, Lungstrump foi abrir. Diante dele estava
um homem bem mais jovem do que ele, de cabelos louros
e olhos azuis. Era uma excelente figura de homem, atraente,
com um fino bigode que lhe dava um ar mais sedutor ainda.
— Professor Lungstrump... — murmurou, parecendo
suspeito.
O cientista olhou-o demoradamente, sentindo as pernas
bambas e um vazio tremendo no estômago. De repente era
como se nada tivesse importância para ele, como se o
mundo houvesse desabado, deixando-o imerso em
escombros e desolação. Sentia apenas vontade de fugir, de
se esconder em algum lugar bem escuro, longe de tudo.
— Professor — insistiu o recém-chegado. — Está
passando bem? O que aconteceu?
Pálida, Sue Lungstrump aproximou-se e tentou falar.
Porém um nó se formou em sua garganta, quando deparou
com os olhos acusadores do marido pousados nela.
Também inquieto o visitante murmurou:
— Me disseram que o senhor mandou me chamar,
professor...
Lungstrump não escutou o que ele disse. Fitava com
insistência a mulher, que acabou dando meia-volta e
desapareceu no interior da casa, chorando.
O cientista voltou-se finalmente para o homem que
esperava na porta e disse:
— Não preciso de nada, Palmer. Pode voltar para o
laboratório.

— 27 —
CAPÍTULO SEGUNDO

Previsão acertada

— Não é possível, Wilhelm! — bradou Stephen


Stuedform. — Deve haver alguma confusão e...
Trêmulo, agitado, Lungstrump espetou o dedo sobre a
notícia do jornal.
— Eu já estive no necrotério, Stephen... E tudo o que o
jornal diz é verdade. Richard Palmer saiu de minha casa
ontem à noite e, ao atravessar uma rua, a poucos quarteirões
dali, foi atropelado por um caminhão de mudanças. O
motorista entrou em pânico e fugiu. Mais tarde, a Polícia
começou a persegui-lo, após tê-lo localizado na Rodovia
72. Havia dois homens no caminhão, ao que parece. No
entanto, depois da Polícia ter perdido mais uma vez a pista,
acabou encontrando o caminhão, voltado e incendiado, com
um corpo já parcialmente carbonizado segurando
freneticamente o volante. A Polícia tem certeza de que era
o mesmo que dirigia o veículo na hora do atropelamento.
Ficou provado que o caminhão perdeu a direção e
despencou por um barranco, capotando e incendiando-se. O
segundo ocupante do veículo deve ter sido projetado para
longe, pouco ferido, e escapou.
— E Palmer?
O cientista engoliu em seco, deu algumas tragadas no
cigarro e respondeu roucamente:

— 28 —
— Morreu a caminho do hospital.
— Um fim trágico e...
— A gravidade do caso não está só aí, Stephen! —
quase gritou Lungstrump. — Palmer era o pai do filho que
minha mulher vai dar à luz! Você entende agora?
— Céus! Então aquela mulher, a brasileira sensitiva,
ela...
— As providências que o Exu disse que tomaria foram
drásticas, Stephen. O pior é que o motorista do caminhão
não teve culpa do acidente. Há testemunhas que afirmam
que Palmer atravessou a rua sem qualquer precaução, no
momento em que o caminhão se aproximava.
— Inacreditável! Você acredita que...?
— O que é que eu posso pensar, Stephen? Estou
angustiado, desesperado, porque, de repente, me sinto
culpado por essas duas mortes. Palmer e o motorista
morreram. E, o que é mais grave, dessa forma ninguém
jamais saberá que aquele filho não é meu... A menos que eu
fale, entende? Justamente o que Exu Talma disse. Ele
provocou a morte de Palmer e, por consequência
imprevisível, a do motorista do caminhão! E eu me sinto
culpado...
— Ora, Wilhelm! Não diga bobagens! É apenas uma
coincidência.
— Coincidência? Há milhões de pessoas nesta cidade e
uma mulher afirma que vai retirar Palmer do meu caminho
e isso acontece poucas horas depois e você chama isso de
coincidência? E o ataque ao carregamento de Jack Robin
em Israel? Foi também coincidência?
— Pode ter sido mais que coincidência, Wilhelm. Pode
ter sido crime.
— Mas crime como? Por quê? Ninguém sabia... nem eu
mesmo, que Palmer era o pai daquela criança. Para haver

— 29 —
um crime premeditado é preciso haver um suspeito claro. O
que não existia no caso.
— Você está muito perturbado e...
— Estou apavorado, isso sim. Aturdido, também.
— O que vai fazer?
Lungstrump encolheu os ombros.
— Nada. O que é que eu posso fazer? Talvez falar com
Robin sobre o que aconteceu.
— Quer dizer que você acredita que, de alguma forma,
esse Exu Talma teve influência nos acontecimentos. É isso?
— Tenho que pensar dessa forma, Stephen. Embora não
me atreva a reconhecer o fenômeno cientificamente, a
verdade é que ele existe. Duas previsões, ou o que quiser
lhe chamar, se mostram acertadas em poucos dias.
Acontecimentos de que nós tivemos conhecimento, antes de
ocorrerem. E de que conhecíamos os detalhes. O que quer
que eu pense?
Depois de uma longa pausa, Stuedform perguntou:
— O que vai fazer em relação a Sue?
— Pode parecer covardia, aproveitamento da situação,
mas a verdade é que não vou fazer nada. Falarei com ela
para ignorar o que aconteceu e tentarei me acostumar com
a idéia de que aquela criança é realmente minha filha.
Talvez, eu consiga, agora que Palmer está morto.
— Tenciona visitar de novo essa brasileira?
— Preciso fazer isso, Stephen. Tenho que ter certeza,
falar com esse Exu Talma. Estive lendo alguma coisa sobre
os cultos afro-brasileiros e o que aconteceu se encaixa
perfeitamente no leque de ocorrências psíquicas que se
registram diariamente no Brasil. Alguma verdade deve
existir. Estou disposto a estudá-la, especialmente agora, que
disponho de dois exemplos concretos e que me atingiram
diretamente, pelo menos um deles.

— 30 —
— Pode ser arriscado, mergulhar nesse assunto sem
uma base científica, sem princípios definidos.
— Estudarei, farei perguntas, conversarei com essa
entidade. Alguma luz terei de encontrar, no meio de tudo
isso. Porque Palmer morreu. Minha mulher me traía, os
caminhões de Robin foram saqueados e incendiados. Não
podemos ignorar tudo isso.
— Sua mulher sabe disso?
— Do quê?
— Das visitas que você fez a esse centro espírita?
— Sabe. Eu conversei com ela hoje de manhã, quando
li nos jornais a notícia da morte de Palmer.
— E qual foi a reação dela?
— Ficou apavorada, embora eu não creia que tenha
acreditado completamente em tudo.
— Ela vai acompanhá-lo em futuras visitas?
— Não. Ela sente medo só de ouvir falar ero
macumba...
— Ouvir falar em quê?
O cientista sorriu amargamente.
— Macumba. É o termo genérico popular para esse tipo
de acontecimentos com intervenção das forças do Além.
— Termo brasileiro?
— Justamente. Assim como umbanda, Exu, Pomba
Gira e outros milhares mais.
— Pelo que você leu, o que é isso, afinal?
— É a prova da comunicação de nosso mundo físico
com um mundo imaterial, mais sutil, onde viverão as
entidades, os espíritos, depois que desencarnam, morrem e
antes de voltar...
— Você está indo longe demais, Wilhelm. Tenha
cuidado!

— 31 —
— Não se preocupe. Tudo isso você encontra em
qualquer livro de Umbandismo. Existem alguns, traduzidos
de autores brasileiros. Cerca de noventa por cento da
população do Brasil pratica essa espécie de doutrina
religiosa, tendo conseguido, desde os tempos da
escravatura, um sincretismo religioso fantástico. Assim, por
exemplo, Ogum é São Jorge. Isto é, Ogum, pela doutrina
umbandista, equivale a São Jorge, da Igreja Católica. Existe
ainda Iemanjá, deusa do mar, que sincreticamente
corresponderá à Virgem Maria, Senhora Aparecida,
segundo a versão brasileira, etc.
— Não me parece muito científico, Wilhelm —
murmurou Stuedform, com reserva.
— São apenas nomes populares, adotados pelo
misticismo, numa extensa corte de anjos, demônios, santos,
orixás e outras nomenclaturas, dadas a fenômenos que
merecem estudo e ponderação.
— Quer dizer que você está disposto a mergulhar nesse
estudo?
— Estou. De alguma forma terei de chegar a uma
explicação para o que aconteceu com Palmer. E com Jack
Robin também.
— Cuidado, meu amigo.
— Você não quer me acompanhar nesse estudo,
Stephen?
— Ainda não. Creio que preciso de um pouco mais de
coragem.
— Seria bom que você pudesse me acompanhar. Duas
cabeças têm possibilidades de raciocinar mais friamente do
que uma.
Stephen Stuedform sorriu compreensivamente.
— Eu sei, Wilhelm. Inclusive, acredito que você
também está com um pouco de medo, não?

— 32 —
Lungstrump inclinou a cabeça e encolheu os ombros.
— Sabe, Stephen. Quando cheguei em casa ontem e
interroguei francamente minha mulher sobre a gravidez e,
minutos depois, Palmer aparecia, pretextando que eu o
mandara chamar, quando ele devia saber que não era hora
de eu estar em casa, senti que meu mundo desabava. As
previsões do Exu cumpriam-se com um rigor absoluto.
— Você não admite mesmo a probabilidade da
coincidência, pois não, Wilhelm?
— Não. Primeiro foi o caso de Robin, que podemos
considerar exato nos mínimos detalhes. Depois o meu, ou o
de Palmer. Não é possível, em sã consciência, acreditar em
acaso, em coincidência.
— Cuidado para não se deixar obcecar pela idéia,
Wilhelm — advertiu o colega e amigo.
— Estou perfeitamente lúcido, Stephen. Alguma coisa
existe por trás de tudo isso e estou disposto a descobrir o
que é.
— Mesmo que isso custe sua carreira? — perguntou
suavemente Stuedform.
O outro olhou-o com a testa franzida.
— O que quer dizer com essa observação?
— Se a comunidade científica ficar sabendo que você
frequenta esse tipo de sessões, que está se envolvendo com
um psiquismo de expressão duvidosa, não vai gostar. E
você pode começar a encontrar dificuldades.
— Estou trabalhando em prol da verdade, Stephen. Meu
único interesse é descobrir o que existe de real e o que é
fantasia ou mistificação, por trás da umbanda praticada pela
médium de Jack Robin.
— De qualquer forma, meu amigo, vá com cuidado. E
sempre me procure, para discutirmos o que for descobrindo
ou constatando.

— 33 —
— Perfeito, Stephen. Quanto a minha carreira, não se
preocupe. Ela não tinha mais sentido, ultimamente.

— 34 —
CAPÍTULO TERCEIRO

Bela, rica... e burra

O louro e atraente playboy recostou-se na


espreguiçadeira e sorriu para a loura que se debruçava sobre
ele.
— Você está fascinante, Pri — murmurou.
A mulher deixou-se cair no colo dele e suas formas
aderiram ao corpo musculoso.
Ela devia ter uns trinta anos, no máximo. O corpo
bronzeado era de linhas perfeitas, seios redondos e firmes,
que o boustier do biquíni dificilmente continha. As pernas
longas, de pele sedosa, brilhante, eram encimadas por um
minúsculo triângulo branco que escondia os encantos mais,
secretos de Priscila Venton.
Horace Young Kirkpatrik, industrial milionário de
trinta e poucos anos, atlético, presidente da K. K. K. Steel,
Ltda., um dos mais poderosos consórcios de aço do mundo,
passou o braço pela cintura estreita e desceu a mão
ousadamente pelas nádegas firmes da mulher, apertando-a
mais contra si.
— Você me deixa louca, Horace! — ronronou Priscilla
Venton, mordendo-lhe o lóbulo da orelha.
As duas bocas juntaram-se finalmente num beijo
ardente, fervoroso, durante o qual as mãos ávidas dos dois

— 35 —
jovens amantes se desfizeram mutuamente das
reduzidíssimas roupas de banho.
Com verdadeira loucura, os dois corpos fundiram-se
num só, rolando na grama que circundava a piscina da bela
e rica mulher.
Priscilla Venton, viúva e herdeira de um milionário
americano, vivia habitualmente na Europa, passando nove
meses de cada ano entre a costa mediterrânea e Paris, Roma,
Londres e Lisboa. Os três meses restantes eram gastos em
Miami, numa magnífica residência hollywoodiana.
Era aí que se encontrava há três dias, desfrutando o
tempo espetacular na companhia do atraente e igualmente
milionário Horace Young Kirkpatrik.
Enquanto os dois amantes se entregavam de corpo e
alma a um avassalador combate amoroso, a porta
envidraçada da varanda abriu-se e uma empregada
uniformizada apareceu.
Olhou o quadro perturbador e sua primeira reação foi
de espanto. Porém, logo se recompôs. Trabalhava para
Priscilla Venton há quase dois anos, acompanhando-a em
todas as suas viagens, e isso a tinha acostumado com as
mais diversas extravagâncias da milionária.
Recuou silenciosamente e, trinta minutos mais tarde,
com as faces afogueadas pela excitação, abriu de novo a
porta, dessa vez com barulho suficiente para ser escutada
pela patroa e seu atraente hóspede.
Com uma naturalidade que teria chocado muita gente,
os dois jovens olharam para ela e, sem qualquer pergunta,
mergulharam nas águas límpidas e esverdeadas da piscina.
Só então, depois de algumas braçadas, Priscilla perguntou:
— O que é que você quer, Daisy?
— Tem um senhor na sala, querendo falar com Mr.
Kirkpatrik, de qualquer jeito.

— 36 —
O atraente playboy franziu a testa e protestou:
— Eu não estou disposto a falar com ninguém, minha
filha. Diga a esse senhor que meus assuntos são todos
tratados em Nova York, a partir da próxima semana, e isso
apenas no caso de se tratar de algum problema que meus
diretores ou assessores não possam resolver.
— Eu já falei isso para Mr. Smith, mas ele...
Kirkpatrik expulsou o ar dos pulmões e alguma água
que tinha entrado em sua boca.
— Você disse Mr. Smith?
— Pelo menos foi esse o nome que ele deu...
— Bom, nesse caso, creio que não adianta eu me furtar
a essa entrevista.
Priscilla nadou vigorosamente até ele e empoleirou-se
em suas costas.
— Eu não vou permitir que um Smith qualquer venha
roubar você de mim, nos próximos quatro dias, meu amor.
Daisy vai livrar-se dele, nem que para isso seja preciso dizer
a esse intruso que você morreu afogado.
Rindo, divertida, empurrou a cabeça do louro
milionário para o fundo. Kirkpatrik esquivou-se e nadou
sob a água até a beira da piscina.
— Diga a Mr. Smith que me espere no escritório da
senhora Venton. Estarei lá em alguns minutos.
Daisy assentiu com a cabeça, ao mesmo tempo que
arqueava as sobrancelhas. Sabia suficientemente bem que
não era muito prudente contrariar a bela patroa. No entanto,
o louro convidado parecia ter um poder todo especial sobre
ela. Além do mais, a empregada considerava que nada tinha
a ver com as decisões da patroa ou de seus hóspedes.
— Perfeitamente, Mr. Kirkpatrik — murmurou.

— 37 —
— Perfeitamente uma ova, Daisy! — bradou Priscilla.
—Eu disse que Mr. Kirkpatrik não vai atender ninguém
agora!
Com resignação, a empregada olhou para o louro
milionário, esperando a confirmação da ordem da patroa.
— Faça o que eu disse, Daisy — sorriu Kirkpatrik. —
Deixe que eu me entendo com sua braba patroa.
Antes que a bela mulher pudesse reagir, o atlético
americano mergulhou de novo e puxou-a pelas pernas.
Priscilla foi levada bruscamente para baixo, unindo-se
ao sedutor parceiro num abraço frenético, num beijo longo
e asfixiante. Vieram à superfície estreitamente enlaçados,
as pernas juntas numa entrega total e, quando a bela mulher
conseguiu respirar, gemeu:
— Por favor, amor... Não se vá agora...
— Preciso atender Mr. Smith. Trata-se de uma pessoa
especial, num assunto de vital importância. Ele viajou de
Nova York para se encontrar comigo. Na verdade, era a
única pessoa no mundo que sabia onde eu me encontrava.
E se dei o endereço para ele é porque, em caso de precisar
me localizar, isso só poderia significar um assunto de
extrema importância. Entende, boneca?
Beijou-a no seio túrgido que se elevava acima da água
e ela voltou a gemer:
— Mas precisava ser logo agora, Horace? Você me
incendeia e depois sai do fogo?
O louro milionário apertou-a mais contra si, beijou-a no
pescoço e sussurrou:
— Eu não disse que precisava ser agora, amor.
— Mas você mandou Daisy informar que falaria com
ele em alguns minutos.

— 38 —
— Que podem ser cinquenta e nove. Muitos minutos,
sem chegar a ser uma hora. Entretanto, tenho esperanças de
conseguir apagar o fogo que abrasa seu corpo divinal, Pri.
Com arrebatamento, a bela mulher beijou-o, mordendo-
o de leve e arrastando-o para a beira da piscina. Um canto
de piscina pode servir para muitos fins, além de limitar com
ângulos precisos, frios e geométricos, uma porção de água
refrescante e cristalina.
Os cinquenta e nove minutos a que o louro playboy
tinha aludido não foram inteiramente consumidos. Trinta e
seis apenas foram necessários para que Kirkpatrik pulasse
sobre a grama, disposto a tomar uma ducha fria e, depois
disso, finalmente atender o sem dúvida impaciente Mr.
Smith.

***

— Como vai, Horace? — cumprimentou o homem de


meia-idade, aspecto grave e comedido.
— Maravilhosamente bem, Mr. Lattuada. Ou devo
chamá-lo de Mr. Smith? — soltou uma risada e serviu-se de
um bourbon com gelo, oferecendo para o amigo.
— Não, obrigado, Horace. Estou servido. — A
simpática empregada de Priscilla Venton fez questão de me
servir um bourbon, com certos requintes de amabilidade
que me deixaram um pouco aturdido.
— Não vai me dizer que ela tentou seduzi-lo, pois não,
chefe?
Mr. Lattuada sorriu abertamente e sentou-se numa das
confortáveis poltronas do escritório luxuoso e
perfeitamente inútil de Priscilla Venton.
— Para lhe falar com sinceridade, tenho a impressão de
que foi isso, exatamente, que ela tentou fazer, Horace.

— 39 —
—? Espero que você, como bom porco chauvinista, não
se tenha deixado enredar na teia sedutora da bela Daisy.
— Não, Horace. Pode tranquilizar sua consciência.
Jamais serei o amor secreto da empregada de uma de suas
apaixonadas.
Kirkpatrik riu com gosto e acendeu um aromático
cigarro.
— Bom, vamos ao que importa, Mr. Lattuada. Não
voou de Nova York até Miami para tranquilizar minha
consciência, tenho certeza.
O rosto de Mr. Lattuada, chefe do Departamento 77, da
CIA, assumiu um ar de compenetrada gravidade, antes de
responder:
— Não, Horace. Na verdade, não estou aqui para
tranquilizar sua consciência ou para recriminar suas
aventuras. O que aqui me trouxe é um assunto muito grave.
— Já imaginava.
— Você já ouviu falar do Instituto de Pesquisa
Standard?
— Claro. É um instituto de pesquisa tecnológica,
sediado em Nova York, não é?
— Exatamente. O Instituto Standard, o IPS, como é
conhecido, teve à sua frente, nos últimos cinco anos, um
cientista de capacidade reconhecida, o professor Stephen
Stuedform.
— Conheço de nome.
— Stuedform vinha trabalhando, nos últimos anos, num
propulsor revolucionário para naves retratáveis. Qualquer
coisa como uma aeronave que pode ser lançada no espaço
e reutilizável um número limitado de vezes. Um dos
segredos dessas naves, de grande utilidade, em especial na
exploração lunar e de planetas mais próximos, reside

— 40 —
principalmente no combustível e sistema propulsor
utilizado.
— Até aí, qualquer pessoa sabe, chefe. Os jornais e
revistas falam constante e detalhadamente sobre o assunto
— cortou Kirkpatrik.
O chefe do Departamento 77 da CIA, Mr. Lattuada,
encarou o louro e atlético playboy. Além de milionário e
industrial, atividades que o jet-set internacional conhecia
perfeitamente, Kirkpatrik tinha um segundo tipo de vida,
esse desconhecido por todos. Ele era o temível agente 77Z,
agente fora-de-série da CIA, bem como o perigosíssimo
Máscara Negra, disfarce que utilizava amiúde, como
homem especial do DCA (Department of Couvert
Activities), ramo supersecreto da CIA. Essa atividade de
Kirkpatrik era conhecida por um número reduzidíssimo de
pessoas em todo o mundo e esse era um dos segredos de seu
sucesso como espião fora de série.
— Eu sei que não lhe contei novidade alguma, Horace
— murmurou finalmente o chefe do Departamento. — Quis
apenas localizar o problema.
— Entendo. Desculpe a observação. Não pretendi ser
grosseiro. Quer dizer, então, que o caso se prende com
algum sistema propulsor de aeronaves espaciais, que está
sendo desenvolvido pelo professor Stephen Stuedform,
chefe?
Mr. Lattuada sorriu brevemente.
— Estava sendo desenvolvido pelo professor
Stuedform, Horace — enfatizou. — Agora não está mais.
— E por quê?
— Porque o professor Stuedform foi assassinado e
partes importantes do projeto sumiram.
— Como assim?

— 41 —
— Assim, simplesmente. Nós conseguimos controlar
noventa por cento dos agentes estrangeiros em nosso país,
Horace. Todos foram chocados imediatamente após a morte
brutal e misteriosa de Stuedform. Nenhum deles se
aproximou do cientista. Obtivemos, além disso, a garantia
de que esses planos não se encontram ainda nas mãos de
russos, chineses, alemães orientais ou de qualquer outra
potência que os pudesse utilizar. Isso nos dá uma garantia
de uns setenta e cinco por cento de que os planos ainda estão
nos Estados Unidos.
— Existe alguma idéia do lugar onde possam estar?
— Nenhuma, Horace. Todos os recursos foram
checados. A segurança não foi iludida. Os planos foram
simplesmente retirados do Laboratório pelo próprio
Stuedform e por ele entregues dos assassinos. É a única
explicação.
— Traição de Stuedform? — murmurou o agente
especial.
— Muito improvável.
— Conte-me tudo detalhadamente, chefe, pelo que
entendi, esse é mais um abacaxi para tu tentar descascar...
O chefe do Departamento 77 sorriu e comentou:
— Sua maneira de se expressar me parece muito
peculiar, Horace.
— Não ligue, chefe. É consequência de Priscilla
Venton. Ela se exprime de uma maneira encantadoramente
popular e a gente acaba pegando...
— Compreendo. Você acha que é seguro conversarmos
aqui?
— Seguro? Ora, chefe... Pare de imaginar Ratergate por
toda a parte. A última coisa em pie Priscilla pensaria seriam
microfones embuti-los. Ela é uma mulher

— 42 —
extraordinariamente bela, fabulosamente rica, mas
tremendamente burra.
— Você tem as suas conquistas em muito bom conceito,
Horace — murmurou o chefe do Departamento 77 da CIA.
— Não são todas, Mr. Lattuada. Priscilla é um dos casos
apenas. Uma conversa agradável, uma presença
perturbadora, mas também uma cabeça completamente
vazia para o que não sejam as futilidades de viúva rica,
descompromissada e pouco inteligente.
— Está bem. Não vim aqui para discutir os méritos de
seus romances, Horace. Vamos ao que importa. Tudo o que
vou lhe dizer foi exaustivamente mastigado pelos
computadores e encontra-se digerido em algumas folhas de
papel datilografado que lhe serão entregues em Nova York.
De qualquer forma, você pode ter alguma pergunta
pertinente e...
O agente da CIA sorveu um pouco de bourbon e
esperou as explicações do chefe e amigo, M. Lattuada.

— 43 —
CAPÍTULO QUARTO

Uma frágil viúva

O jovem e elegante louro observou com atenção as


pessoas que se encontravam presentes na capela onde o
corpo de Stephen Stuedform acabava de ser velado.
Grande parte da comunidade científica nova-iorquina e
até de outros centros de ciência do país estava ali presente,
ou representada.
Stuedform praticamente não tinha família. Apenas uma
irmã, bem mais jovem do que ele, representava os parentes
do morto.
Nesse memento, Giselle Stuedform estava sendo
consolada por uma mulher de cerca de trinta anos, cabelos
louros recatadamente penteados, usando um vestido,
amplo, com o qual pretendia fazer realçar uma gravidez
ainda incipiente. Ao lado dela, um homem de perto de
quarenta anos parecia bastante incomodado e nervoso.
Kirkpatrik aproximou-se deles e, com ar compungido,
murmurou:
— Uma perda trágica para a ciência, não?
A mulher olhou-o em silêncio por alguns segundos e
acabou voltando o rosto para o lado, limpando uma lágrima
rebelde.
O homem observou Kirkpatrik e perguntou:
— Você era amigo de Stephen?

— 44 —
— Fui muito amigo dele. Estudamos na mesma
faculdade, na Geórgia.
— Como é seu nome?
— Horace Kirkpatrik. Sou industrial em Pittisburg,
Nova York.
— Eu sou Wilhelm Lungstrump. Stephen nunca me
falou de você.
— É natural. Nós raramente nos víamos. Sabe, mundos
diferentes, interesses diferentes. Depois que terminamos a
faculdade, cada um seguiu sua área específica de vida.
— Compreendo... E agora soube da morte dele.
— É... Li a terrível notícia no jornal e custei a acreditar.
— Infelizmente é verdade. Alguém matou um cérebro
brilhante.
— Por que terá sido, Lungstrump?
— É difícil saber, Kirkpatrik. A Polícia está
investigando, mas parece que acabarão concluindo que foi
assalto mesmo. O assassino tentava roubar alguma coisa.
— E terá conseguido?
— Não sei. Stephen nunca andava com muito dinheiro
e a única coisa de valor que possuía era um relógio e um
cordão de ouro.
— Um cordão? Ele era religioso, agora?
O cientista olhou para o industrial com perplexidade e
uma ponta de inquietação.
— Religioso? O que tem a ver o cordão com a
religiosidade de Stephen?
— Bom, um cordão, normalmente, pressupõe uma
medalha, um crucifixo...
Visivelmente aliviado, Wilhelm Lungstrump conseguiu
um pálido sorriso.

— 45 —
— Entendo, entendo. Desculpe se fui brusco, mas estou
muito nervoso e chocado com tudo o que aconteceu com
Stephen.
— Vocês eram muito amigos?
— Bastante. Ultimamente tínhamos nos ligado muito.
— Assuntos profissionais? Você é cientista também, eu
acho...
— Sou, sim. Biólogo. Trabalho para o mesmo instituto
onde trabalhava Stephen, embora em áreas totalmente
distintas.
— O IPS?
— Exatamente.
— Eu sabia que Stephen trabalhava nesse instituto, em
algo relacionado com um novo tipo de propulsor.
Lungstrump empalideceu subitamente, causando
espanto em Kirkpatrik, que percebeu a alteração.
— O que aconteceu, Lungstrump?
— Nada, nada. Um ligeiro mal-estar. Creio que é do
ambiente. Está muito abafado, aqui dentro...
Realmente, o cientista suava copiosamente e parecia
bastante angustiado.
— Não prefere sair um pouco, respirar o ar livre, lá fora,
por alguns minutos? Assim poderemos conversar um pouco
mais sobre Stephen.
— Talvez seja uma boa idéia, Kirkpatrik.
Os dois homens afastaram-se. Kirkpatrik observou que
a mulher de Lungstrump os seguia atentamente com os
olhos, uma ruga de preocupação na testa, mas não fez
qualquer comentário.
Fora da capela o ar estava realmente mais respirável.
Até Kirkpatrik sentiu-se mais aliviado.
— Aqui está bem melhor — comentou o agente da CIA.

— 46 —
— Eu não suporto ambientes fechados por muito
tempo, sabe? Fico com uma espécie de angústia asfixiante.
— Compreendo. Eu também não gosto de ambientes
abafados, como é forçosamente uma capela mortuária. E
creio que o pobre Stephen também não gostava.
— E... Tem razão. Ele não gostava.
— Lembro-me que ele detestava ter que entrar numa
igreja — murmurou o agente da CIA.
— Stephen sempre foi um frio racionalista, descrente
de tudo o que qualquer religião pudesse ter para lhe dizer.
— Era um cientista, afinal...
— Nem todos os cientistas são ateus.
— Você não é, Lungstrump?
— Não. Também não posso dizer que seja um crente
convicto, um cristão praticante. No entanto, a alma humana
dispõe de segredos que o homem só pode investigar quando
se entrega a uma crença com boa vontade.
— E você se entrega a alguma crença religiosa?
Mais uma vez o cientista estremeceu violentamente.
— Não é propriamente uma entrega, Kirkpatrik. É mais
um estudo.
Interessado, o agente 77Z perguntou:
— Um estudo? Sobre o quê?
— Umbandismo. Já ouviu falar?
Kirkpatrik compôs uma expressão de perplexidade.
— Umbandismo? Tive oportunidade de assistir a
algumas sessões ou trabalhos de umbanda quando estive no
Brasil.
Uma luz de grande entusiasmo apareceu no rosto de
Wilhelm Lungstrump, que exclamou:
— Você assistiu a trabalhos de umbanda, no Brasil?
— Diversas vezes. É um assunto apaixonante.
— Você acha mesmo, Kirkpatrik?

— 47 —
— Acho, sim. Creio que a frieza, a mentalidade
atrofiada do americano em geral não lhe permite entender o
simbolismo, o significado rico e oculto dos rituais
umbandistas.
— Você acredita, então, que existe um fundo de
verdade em toda a problemática umbandista?
— Acredito, sim. Não um fundo de verdade, mas uma
imensa verdade, apresentada de forma colorida, quase pagã,
que nós não entendemos.
— É isso exatamente o que eu penso, Kirkpatrik.
Gostaria de conversar mais demoradamente com você sobre
o assunto. Mas num outro lugar. Em minha casa, talvez.
— Por mim, será um prazer. Talvez possamos até ficar
bons amigos. Afinal, temos algo muito importante que nos
une.
— Temos...?
— O nosso comum e grande amigo Stephen.
O cientista sorriu mais à vontade e murmurou:
— Tem razão. Mas é melhor voltarmos para dentro,
antes que nossa ausência seja notada e comentada.

***

Kirkpatrik levava uma ruga de preocupação na testa,


quando voltou à capela. Alguma coisa lhe dizia que
Wilhelm Lungstrump sabia muito mais sobre a morte de
Stephen Stuedform do que aparentava. E parecia muito
nervoso também.
Observou-o quando se reuniu com a mulher. Esta lhe
dirigiu algumas perguntas e Lungstrump respondeu com
curtas frases, olhando de soslaio para Kirkpatrik.
O agente 77Z voltou sua atenção para Giselle
Stuedform, a jovem e atraente irmã do falecido.

— 48 —
Giselle devia ter uns vinte e seis ou vinte e sete anos,
cabelos castanhos, curtos, rosto oval e perfeito, de nariz
pequeno e lábios cheios, carnudos. O corpo, metido num
vestido discreto e escuro, adivinhava-se de formas
arredondadas, atraentes. Tinha os olhos inchados de chorar
e segurava um pequeno lenço na mão esquerda, que
utilizava de vez em quando para limpar o nariz.
Kirkpatrik aproximou-se dela e, procurando um sorriso
cativante, murmurou:
— Acredite que sinto muito, senhorita Stuedform. Seu
irmão era um homem brilhante e a ciência perde um valioso
colaborador.
— Stephen não podia ter morrido... — gemeu a garota.
Kirkpatrik sentiu que ela estava sofrendo muito.
— Você gostava muito de seu irmão, não é?
— Stephen era um ótimo homem. Jamais fizera mal a
quem quer que fosse. Era um homem dedicado inteiramente
a seu trabalho, a sua carreira, que constituía sua principal
razão de vida. Por que tinham que matar um homem desses?
— Realmente foi uma monstruosidade, senhorita
Stuedform. Stephen e eu fomos amigos na faculdade, na
Geórgia. Estávamos afastados há alguns anos, não
mantínhamos praticamente nenhum tipo de
relacionamento, mas eu sempre o admirei. Ele era um
homem frio, calmo, racional, que pesava cuidadosamente
até cada palavra que dizia.
Giselle Stuedform olhou para ele com curiosidade.
— Como é mesmo o seu nome?
— Horace. Horace Kirkpatrik.
Ela fez um esforço de memória, acabando por sacudir a
cabeça levemente.
— Não me lembro de Stephen ter falado em você.

— 49 —
— Na verdade, estamos empatados. Porque ele também
nunca me disse que tinha uma irmã, especialmente jovem e
bonita.
Giselle procurou sorrir, conseguindo uma débil careta.
— Eu fui criada com uma tia, aliás, tia-avó, no norte.
Via Stephen apenas uma ou duas vezes por ano.
— Estou estranhando não ver Magda, a esposa de
Stephen. O que aconteceu?
— O choque causado pela notícia da morte do marido
foi brutal demais para ela. Teve uma crise de nervos e está
numa clínica de repouso, fazendo sonoterapia. Os médicos
não acharam aconselhável que ela presenciasse os funerais.
— Estranho, a viúva não acompanhar o marido até sua
última morada...
— Magda sempre foi uma mulher extremamente frágil.
Seu sistema nervoso desequilibra-se com qualquer
contrariedade mais grave. Você pode imaginar como ela se
sentiu com a morte de Stephen...
— Sim, creio que sim. Deve ter sido muito duro para
ela.
— Foi muito duro, realmente.
Nesse instante, um homem de aspecto grave, sem
dúvida um agente funerário, aproximou-se e murmurou
junto de Giselle:
— Telefone, senhorita Stuedform.
A garota desculpou-se com um movimento de cabeça e
encaminhou-se para uma salinha reservada, onde atendeu o
telefone por alguns instantes. Parecia muito mais agitada
quando saiu de lá, com uma expressão de angústia mais
acentuada no rosto bonito.
— O que foi, senhorita? Aconteceu alguma coisa? —
perguntou Kirkpatrik.
— Minha cunhada, Magda.

— 50 —
— O que houve com ela?
— Sumiu da clínica onde se encontrava. Os médicos e
demais pessoal não conseguiram localizá-la, nem na clínica
nem em casa. Telefonaram-me para saber se devem avisar
a Polícia ou não.
— Como assim? Uma pessoa não some desse jeito...
— Infelizmente, Magda desapareceu. Deus sabe o que
pode acontecer, no estado em que ela se encontra.
Perplexo, Kirkpatrik perguntou:
— O que é que vai fazer? Já avisaram a Polícia?
— Eu pedi para o diretor da clínica comunicar o
desaparecimento às autoridades. Mas precisamos fazer
alguma coisa mais... desculpe, eu preciso fazer alguma
coisa. Sem querer estava envolvendo você em nossos
problemas.
— Giselle, Stephen foi meu amigo. Sinto a sua morte
quase tanto como você. Estou ao seu inteiro dispor, para
ajudá-la no que for preciso. Aliás, faço questão de ficar do
seu lado, neste difícil transe. É uma forma de prestar algum
serviço à memória de Stephen.
Giselle Stuedform olhou para o atraente milionário com
um sorriso de agradecimento.
— Obrigada, Horace. Seria estupidez de minha parte
não aceitar. Admito que me sinto meio perdida em toda esta
terrível situação e preciso de ajuda, de apoio.
— Pode contar comigo, Giselle.
— Obrigada. Stephen lhe agradecerá também, esteja
onde estiver.
— Vamos tentar localizar sua cunhada.
— Espere. Alguém precisa ficar representando os
familiares de meu irmão...
— Wilhelm Lungstrump era um grande amigo de
Stephen.; Ele e a esposa podem ficar no seu lugar.

— 51 —
— Ê uma boa idéia. Vamos conversar com eles.
Pouco depois, deixando Lungstrump encarregado de
atender as pessoas que vinham apresentar seus pêsames e
de esclarecê-las sobre a ausência de Giselle Stuedform, a
garota e o agente 77Z deixaram a capela mortuária.

— 52 —
CAPÍTULO QUINTO

Um perito culto

O doutor Joseph Galley, diretor da Clínica Osborne,


abriu os braços num gesto de impotência e disse:
— Sinto muito, senhorita Stuedform. Sua cunhada
estava em seu quarto esta noite, aparentemente sob o efeito
dos sedativos. De manhã, quando a enfermeira entrou lá, o
quarto estava vazio. As roupas continuavam no armário, o
que demonstra que não levou nada, além de um casaco que
está faltando.
— Avisaram a Polícia?
— Ainda não. Bem sei que a senhorita Stuedform nos
disse que poderíamos fazê-lo. Mas como também
acrescentou que viria imediatamente para cá, achamos mais
prudente esperar para conversarmos mais calmamente. Por
outro lado, a Polícia pode apenas causar um escândalo
tremendo, que afetaria, bastante, nossa clínica. Não sei se
entendem minha posição.
Kirkpatrik sorriu com desprezo.
— Claro que entendemos. Você está mais preocupado
com seus lucros, decorrentes do bom nome de sua clínica,
do que com a segurança de Magda Stuedform.
— Não é bem isso. Acontece que a senhora Stuedform
não era uma paciente que inspirasse cuidados extremos. Ela
não apresentava sintomas de mal agudo, que exigisse uma

— 53 —
vigilância especial. A senhora Stuedform parecia apenas
extremamente abalada com a morte do marido. É um caso
clínico perfeitamente definido e razoavelmente corriqueiro.
Nunca poderíamos supor que ela abandonasse nossa casa
desta forma.
— Está bem. Pode deixar tudo por nossa conta, doutor.
Se pudermos, evitaremos meter a Polícia no assunto.
— Eu lhe agradeço bastante, mister Kirkpatrik. É claro
que podem contar com minha ajuda em tudo o que estiver
ao meu alcance.
— Magda Stuedform revelou alguma ansiedade
especial? Mencionou algum detalhe que pudesse nos dar
uma pista?
O médico ficou pensativo por alguns instantes e acabou
movendo duvidosamente a cabeça.
— Sinceramente, não me lembro. Ela se referiu diversas
vezes a uma coisa que me deixou bastante intrigado,
embora eu não consiga localizá-la perfeitamente no seu
quadro patológico.
— Que referência era essa?
— Ela garantia que sabia que o marido acabaria tendo
problemas. Dizia que tinha avisado o professor de que não
podia dar certo, que era uma loucura enveredar pelos
caminhos do espiritismo em busca de soluções que o frio
raciocínio não conseguia encontrar. Tentei fazer com que
me explicasse mais pormenorizadamente isso, mas não
consegui. Tudo o que ela dizia era que não podia dar certo,
que se tratava de uma insensatez e que tinha advertido o
marido diversas vezes. Isso faz algum sentido para vocês?
Giselle balançou negativamente a cabeça, perplexa.
Kirkpatrik, de testa franzida, parecia ter alguma idéia mais
concreta a respeito.
— Só isso?

— 54 —
— Relevante, creio que sim. O resto eram lamentações
e quadros característicos do trauma que sofreu com a morte
do marido. Nada que a psiquiatria não enquadre
perfeitamente. Apenas esse aspecto do espiritismo, uma
espécie de complexo de culpa por impotência, me pareceu
interessante e mais profundo. Inclusive, tencionava
conversar com ela mais longamente, assim que saísse do
que me parecia um estado de intensa prostração. De repente,
tudo mudou...
— Compreendo. Ela saiu subitamente da prostração e
abandonou a clínica, sem dar qualquer satisfação —
murmurou o agente 77Z.
— Ela fugiu, mister Kirkpatrik! — ressaltou o médico.
— A prova disso é que não levou suas roupas, além de um
casaco que colocou sobre a camisola.
— Tem razão. Tentaram localizá-la em casa?
— Tentamos. Por telefone, é claro. Mas ninguém
atendeu.
— Mc parece lógico que, se ela estivesse lá, não
atenderia, nas presentes circunstâncias... — murmurou o
agente fora de série da CIA.
— Era o que eu podia fazer, sem alertar a Polícia.
— Claro... Sem alertar a Polícia. Tem idéia para onde
uma pessoa nas condições dela possa ter ido?
— É difícil dizer. Porque, inclusive, é muito arriscado
adiantar um diagnóstico sobre a evolução de sua situação
clínica, dentro do quadro patológico e...
— Por favor, doutor... — cortou o agente da CIA. —
Poupe-nos dos chavões médicos que eu dificilmente
poderei situar. Não faz idéia de onde ele esteja e isso basta.
De qualquer forma, agradeço sua colaboração.
— Se eu puder ajudar em mais alguma coisa...

— 55 —
— Baterei na sua porta, doutor. Agora não podemos
perder mais tempo.
Levantou-se, imitado por Giselle Stuedform, que
instintivamente deixava a situação em suas mãos.
— O que vamos fazer, Horace? — perguntou.
— O passo mais lógico creio que é ir até a casa de sua
cunhada. Pode ser que ela esteja lá.
Despediram-se do diretor da Clínica Osborne e, pouco
depois, voltavam a entrar no conversível de Kirkpatrik,
rumando para a parte residencial da cidade, onde se situava
a vivenda em que morara Stephen Stuedform.

***

Kirkpatrik não teve grandes dificuldades para abrir uma


janela da casa de Stuedform e penetrar nela, sem ser visto.
Trêmula, Giselle acompanhava os movimentos do agente
fora de série da CIA. Por mais de quinze minutos haviam
tentado o telefone, a campainha da porta, tudo em vão. A
viúva do cientista, se estivesse ali dentro, recusava-se a
atender os chamados.
Silenciosamente, Kirkpatrik abriu a porta da rua,
trancada por dentro, e franqueou a passagem para Giselle.
— Creio que estamos com sorte, Giselle. Sua cunhada
está nesta casa.
— Como sabe?
— Uma porta só é trancada pelo lado de dentro quando
tem alguém em casa. E como seu irmão, infelizmente, não
está mais aqui e os empregados foram dispensados...
Com admiração, Giselle Stuedform assentiu
vagarosamente com a cabeça.
— Deve estar em seu quarto, então.

— 56 —
Rapidamente subiram as escadas que levavam ao andar
superior da vivenda de dois andares, com Giselle
decididamente na vanguarda. A garota parou diante de uma
porta fechada e rodou a maçaneta. Não cedeu.
— Também está trancada por dentro, Horace.
— Teremos que tentar abrir. Me arrume uma faca de
bico.
A garota desceu as escadas e foi até a copa, de onde
voltaria mais tarde com um fino estilete.
Entretanto, Kirkpatrik, usando uma chave-mestra, tinha
deixado a porta a ponto de ser aberta. Porém, se Giselle
descobrisse isso, seria obrigado a dar explicações delicadas.
Por isso tinha pedido a faca, que na verdade era dispensável.
Giselle já tinha dito que, quando vinha a Nova York,
sempre se hospedava na casa do irmão. O agente da CIA
deduziu, portanto, que ela conhecia bem a casa e poderia
conseguir uma faca, com o que ficaria afastada o tempo
suficiente para ele poder usar a chave-mestra.
— Serve isto? — perguntou ela, voltando com o
estilete.
— Está ótimo.
Introduziu a ponta do estilete na fechadura de sistema
bem elementar e a porta cedeu com facilidade.
— Você conseguiu, Horace!
— Essas fechaduras não oferecem segurança alguma.
O agente da CIA girou o interruptor e a luz inundou o
quarto.
Era uma dependência bastante confortável, mobiliada
com muito gosto. Bem em frente da porta, estava a cama,
enorme, e sobre ela um corpo de mulher, aparentando uns
trinta e poucos anos, cabelos soltos sobre o travesseiro, um
ar de falsa serenidade no rosto bonito. A camisola de
dormir, certamente a mesma que usava na clínica, estava

— 57 —
perfeitamente passada. Tudo deixava transparecer uma total
arrumação.
O que imediatamente chamou a atenção do agente da
CIA foi um pequeno vidro de remédios, fechado, sobre a
mesa de cabeceira. Ao lado havia um copo virado, que tinha
entornado a água sobre o tapete felpudo.
Kirkpatrik aproximou-se da cama e tomou o pulso da
atraente mulher. Não conseguiu sentir a pulsação e
encostou o ouvido no peito dela. De dentro do peito, que
certamente já tinha enchido de glória noites de amor, não
saía agora o mais leve rumor. O coração havia parado
definitivamente.
— Está morta, Giselle — murmurou ele, em voz baixa.
— Meu Deus! É horrível! Primeiro, Stephen, c, agora,
Magda...
— Aparentemente, o choque foi violento demais para
ela e cometeu suicídio da maneira mais feminina e
elementar. Ingerindo uma dose excessiva de barbitúricos.
Infelizmente não chegamos a tempo. Nada mais podemos
fazer por ela. Se eu não estiver muito enganado, ela morreu
há aproximadamente uma hora.
— Por quê, meu Deus! Por que tudo isso está
acontecendo?
— Forças muito poderosas devem estar agindo por trás
destas mortes, Giselle. Avise a Polícia de que sua cunhada
fugiu da clínica e que você está diante de sua casa, onde
talvez ela se encontre, mas que' se recusa a abrir. Você
receia que alguma coisa tenha acontecido, porque Magda se
encontrava num estado nervoso que inspirava cuidados.
— Mas isso é mentira. Nós não estamos fora da casa e...
— Faça como eu disse, Giselle. Isso lhe evitará muitos
aborrecimentos e, assim, poderemos continuar investigando
a morte de seu irmão e de sua cunhada.

— 58 —
— Mas a Polícia vai saber que a porta foi aberta, que
nós estivemos aqui e tudo o mais.
— Nós nos encarregaremos de apagar impressões
digitais e fazer com que pareça que nunca estivemos aqui
dentro, nesta hora.
— Mas como vamos sair e fechar a porta por dentro?
Você mesmo disse que...
— Sairemos por uma janela dos fundos.
Aturdida, a garota ficou indecisa por alguns momentos.
— Não entendo o porquê de tudo isso, Horace.
— Você confia em mim?
— Confio, mas...
— Eu sou industrial e milionário. Um dos meus
passatempos favoritos são as charadas, os enigmas. Até
hoje não houve nenhum que eu não conseguisse desvendar.
Faça o que eu disse.
Depois de alguma vacilação, ela aquiesceu.
— Está bem. Telefono daqui mesmo?
— Não. É melhor telefonar do posto telefônico mais
próximo, na rua. Assim tudo fica mais real.
— Mas nós vamos sair por uma janela... Não considera
isso arriscado demais, Horace? Se a Polícia descobrir...
— Ninguém nos verá. Toda a casa é cercada por um
muro suficientemente alto para ocultar as janelas dos
olhares indiscretos do exterior.
— Mesmo assim, tenho medo. Acho muito arriscado.
— Também foi arriscado para o assassino e ele o fez —
disse secamente Kirkpatrik.
— Assassino? — estremeceu a garota.
— Exato, minha amiga. Seu irmão foi assassinado e sua
cunhada pereceu igualmente às mãos de um canalha.

— 59 —
CAPÍTULO SEXTO

Perguntas incomodativas

Sentada no carro de Kirkpatrik, esperando a Polícia,


Giselle Stuedform estava ainda aturdida.
— Mas você disse que minha cunhada se tinha
suicidado, Horace...
— Eu disse. E oficialmente é isso que a Polícia vai
concluir, eu acho. Mas a verdade é que ela foi assassinada
de forma perfeita. Ou melhor, quase perfeita. O assassino
lembrou-se até de deixar a porta trancada por dentro,
usando o mesmo processo que nós.
— Como pode ter tanta certeza, Horace?
— Por um pequeno detalhe. O que é que choca, no
quarto onde está o corpo de Magda?
— Não sei... Talvez o sangue-frio dela... em caso de
suicídio.
— Exatamente. Ela teria chegado ao extremo de se
arrumar muito bem, endireitando perfeitamente a camisola,
como se quisesse dar a entender que sé havia deitado para
esperar a morte. Certo?
— Realmente, é essa a sensação que dá. Ela decidiu
suicidar-se, tomou os comprimidos e deitou-se muito
corretamente na cama, esperando' a hora... Meu Deus, é
horrível!

— 60 —
— Tem razão, Giselle. Especialmente porque ela não se
suicidou. Alguém a fez ingerir os barbitúricos, esperou que
morresse e, depois, deitou-a na cama, muito bem arrumada,
aparentando um suicídio deliberado e frio. Um assassinato
brilhante. O suicídio era uma hipótese perfeitamente
cabível, dado o estado de angústia e desespero em que ela
se encontrava.
— E não foi isso que aconteceu, Horace?
— Não. Ela foi assassinada, tenho certeza.
— Por quê?
— Dois ou três pequenos detalhes, em toda a
encenação, escaparam à arguta atenção do criminoso.
— Que detalhes?
— Deixe isso em suspenso. Tente analisar o quadro,
com as dicas que já lhe dei, e procure descobrir onde o
assassino errou. Se não conseguir, mais tarde eu lhe
revelarei o que é. Mas por enquanto isso talvez a ajude a
manter a mente ocupada.
— Por que o suspense, Horace? Você parece levar tudo
isto muito esportivamente.
— É pura análise dedutiva e lógica, Giselle. Um
trabalho intelectual que me agrada muito. Porém, não
esqueça de duas coisas.
— Quais são?
— Em primeiro lugar, sua cunhada foi assassinada,
provavelmente pelos mesmos que mataram seu irmão.
Porém, para a Polícia, você não sabe de nada e apenas tem
um palpite de que Magda está em casa, depois de haver
fugido da clínica. Mencione que estivemos com o doutor
Joseph Galley e ele está tão aturdido como você com o
desaparecimento da viúva de seu irmão. Eu reforçarei suas
palavras, porque participei de todas as conversas.

— 61 —
— Não seria melhor dizer logo à Polícia que você acha
que Magda foi assassinada?
— Não. Isso traria toda a corporação policiai para cima
do caso e espantaria os assassinos. E eu quero pegá-los.
— Porquê?
— Porque eles são gente ruim, que assassinou Stephen
Stuedform. Além disso, eu soube que o móbil do
assassinato de seu irmão foi o projeto do propulsor em que
ele estava trabalhando. Isso torna o crime mais abjeto ainda.
— Meu Deus! Com que tipo de gente vamos nos
envolver?
— Com gente da pior espécie, capaz de tudo, Giselle.
Por isso, eu entenderei, se você quiser ficar afastada.
A garota respondeu com prontidão.
— De jeito nenhum, Horace! Você está se envolvendo
num assunto que não lhe diz respeito, enquanto que eu
tenho a morte de meu irmão e a de minha cunhada para
vingar. Não dormiria tranquila, se me afastasse do seu lado
agora...
— Muito bem, Giselle. Então faça as coisas como eu
disser e confie em mim.
— De acordo, Horace. Eu confio em você, apesar de
mal o conhecer.
O louro agente da CIA passou o braço pelos ombros da
garota e atraiu-a para si. Colou seus lábios aos dela, num
beijo suave, terno, a que ela correspondeu inteiramente.
Ruborizada, acabou afastando-se, enquanto ele
murmurava:
— Você é uma garota muito doce, muito bonita,
Giselle. Seu irmão ficará feliz, onde estiver.
Nesse momento, chegava a Polícia e os dois jovens
saíram do carro, para receber os homens da lei.

— 62 —
***

Como o agente 77Z tinha previsto, a Polícia estabeleceu


prontamente as causas da morte de Magda Stuedform, sem
se aprofundar muito em detalhes. Tudo parecia evidente
demais. O vidro de barbitúricos sobre a mesa, a
tranquilidade fatalista do ambiente em que o corpo havia
sido encontrado, o trauma justificativo da viúva.
Mais tarde, o resultado da autópsia confirmaria as
suposições dos agentes da lei. Magda Stuedform morrera
em consequência da ingestão excessiva de barbitúricos.
Giselle Stuedform foi prontamente liberada e
encontrou-se com Kirkpatrik, com quem desabafou:
— É inacreditável, tudo isto, Horace. Você garante que,
por alguns detalhes, pode afirmar que minha cunhada não
se suicidou, mas sim que foi assassinada. No entanto, a
Polícia garante que ela ingeriu barbitúricos em quantidade
excessiva e, por esse motivo, morreu.
— A Polícia só está errada num pequeno detalhe,
Giselle. Magda não tomou voluntariamente esses
barbitúricos. Ela foi forçada a isso. Portanto, os autores de
sua morte são os canalhas que colocaram essas drogas nas
mãos ou na boca dela.
— Por que tem tanta certeza assim, Horace?
— Se eu estiver certo, depois lhe explicarei. Me diga
uma coisa: o que é que você pensa do espiritismo?
Giselle franziu a testa, perplexa diante do inusitado da
pergunta do louro milionário.
— Espiritismo?
— Isso mesmo. Não estou me referindo ao espiritismo
kardeciano, ao puramente científico, mas sim ao espiritismo
de raízes populares, mais conhecido por misticismo afro-
brasileiro.

— 63 —
— Bom, não sei... Nunca me aprofundei muito nisso.
Na verdade, é um assunto pelo qual sempre passei do lado,
se é que entende o que eu quero dizer.
— Claro que entendo, Giselle. Pois esta noite você vai
ter oportunidade de assistir a uma sessão de Umbandismo,
ou seja, de culto afro-brasileiro.
Giselle estremeceu involuntariamente.
— Espiritismo... Não sei se vou conseguir, Horace.
Essas coisas me provocam arrepios...
— É tudo muito natural. Há muito que estudar nesse
campo. Noventa por cento dos brasileiros praticam esse tipo
de religião de uma forma convincente e sincera.
Conseguem verdadeiros fenômenos, liberam forças
desconhecidas ou olimpicamente ignoradas pela ciência
convencional. No entanto, existe muito charlatanismo
também, em tudo isso.
Giselle Stuedform olhou-o com espanto.
— Você acredita que isso tem alguma coisa a ver com
a morte de Stephen?
— É o que vamos averiguar, Giselle. Sua cunhada se
referia insistentemente a isso, antes de morrer.
— Como é que você sabe?
— O doutor Galley, da Clínica Osborne, nos contou.
Não se lembra?
— Ele se referiu a espiritismo, sim, mas não a cultos
afro-brasileiros.
— Mas um grande amigo de seu irmão, o professor
Wilhelm Lungstrump, foi mais claro. E nos convidou para
assistirmos um trabalho, em casa de um amigo.
— Ele convidou...?
— Bom, na realidade eu já tinha trocado algumas
palavras com ele sobre o assunto. E, hoje, enquanto você
estava ocupada com as formalidades do enterro de sua

— 64 —
cunhada, estive com ele e acertamos um encontro na casa
de Jack Robin, um homem que cultiva com fervor os ritos
afro-brasileiros. E, o que é mais interessante, parece que seu
irmão esteve lá algumas vezes, antes de ser assassinado.
— Compreendo agora. Você acha que é seguro, irmos
lá?
— Estarei preparado, Giselle. Não fique preocupada.
Pouco depois rumavam para casa de Jack Robin, no
outro extremo da cidade. Giselle Stuedform estava inquieta,
nervosa. Kirkpatrik levava a testa franzida.
Jack Robin recebeu-os na porta com manifestações de
entusiasmo, acompanhado por Wilhelm Lungstrump.
— É uma grande alegria conhecê-los e recebê-los em
minha casa, meus amigos — declarou o anfitrião,
escoltando-os até o salão, onde, momentos depois, se
realizaria mais um trabalho de umbanda.
— Eu sou um verdadeiro apaixonado pelo
Umbandismo, Robin — disse o agente 77Z. — Na verdade,
estive algumas vezes no Brasil e fui levado a diversos
terreiros, onde presenciei fenômenos inacreditáveis.
Acredito que nosso comum amigo, o professor
Lungstrump, merece os maiores elogios por se dedicar com
entusiasmo a esta manifestação paranormal, apesar das
críticas da ciência.
— Sou da mesma opinião, Kirkpatrik. Aqui nós
tentamos fazer um trabalho de esclarecimento e
demonstração. Infelizmente, o americano é, de um modo
geral, bastante cético.
— Meus parabéns. Comigo eu trouxe uma das pessoas
mais céticas deste país — sorriu para Giselle e prosseguiu:
— Giselle é ateia por convicção. Creio que deveria ter sido
cientista. Dessa forma estaria livre de preocupações desse
tipo.

— 65 —
O dono da casa sorriu também.
— Nesse caso, peço-lhe que observe atentamente o
trabalho de nossa médium, Maria Sidneya dos Santos. Ela
é natural do interior do Brasil, mais precisamente do interior
do Estado da Bahia, onde o espiritismo fixou suas raízes
mais puras, menos demagógicas.
— Pode contar com minha total atenção e senso crítico,
Robin — murmurou Giselle, pouco à vontade. — Como
Horace disse, eu não creio muito na existência da alma, e
menos ainda na comunicação com os espíritos.
— Quem sabe você muda de ideias hoje, senhorita...
— É... Quem sabe?
Entraram na sala e Kirkpatrik observou atentamente a
mulher que se encontrava diante da mesa comprida, sobre a
qual se viam diversas garrafas, copos, charutos, cigarros e
outros utensílios necessários a uma sessão de umbanda.
Alguns defumadores queimavam nos cantos da sala e
diversas velas tinham sido acesas.
— Essa é Maria Sidneya, nossa médium — apresentou
Robin.
Kirkpatrik e Giselle cumprimentaram com uma leve
inclinação de cabeça e um sorriso e a médium murmurou:
— É um prazer recebê-los aqui.
— Bom, creio que não precisamos esperar mais. Maria,
quando quiser pode dar início aos trabalhos.
Depois das preces e invocações silenciosas a que
Kirkpatrik já havia assistido em centros brasileiros, a
médium estremeceu, sacudiu o corpo e caiu de joelhos,
numa posição inverossímil. Assim ficou, balançando
suavemente o corpo, percorrendo os assistentes com um
olhar frio e sereno.
— Boa-noite — disse com voz rouca.
— Boa-noite, Exu Talma.

— 66 —
A voz de Lungstrump parecia incerta, receosa.
— Não tem nada para mim? — perguntou a entidade
manifestada.
— Claro, Exu Talma — murmurou Robin, entregando-
lhe um charuto e um copo com aguardente.
— Você está muito triste, filha — disse, voltando-se
para Giselle.
A garota estremeceu e franziu a testa.
— Creio que todo o mundo sabe disso — respondeu
com pouca segurança. — Acabei de perder meu irmão e
minha cunhada em circunstâncias trágicas.
— Eu sei. Mas não é só por causa disso que você está
triste, filha.
— Não? E por que é mais?
— Você precisa voltar para sua terra. E não quer...
Giselle estremeceu mais uma vez e empalideceu
levemente.
— Quem... quem lhe falou isso?
— Alguém precisa me falar? Eu sou um Exu e sei das
coisas.
— Bom, você vai me desculpar, mas eu não acredito
muito nisso e...
Exu Talma voltou-se para Jack Robin.
— Por que é que você traz estes ignorantes até aqui?
Isso não me agrada.
Jack Robin fez um gesto vago e respondeu:
— Eles precisam aprender, Exu Talma. Por isso é que
estão aqui. Querem conhecer a verdade do mundo dos
espíritos.
— O outro que você trouxe antes se deu mal.
— É... Foi lamentável...
Kirkpatrik deu um passo em frente e perguntou:
— Posso fazer uma consulta, Exu Talma?

— 67 —
Giselle franziu a testa. Não podia imaginar o atraente
milionário acreditando em sessões de umbanda.
O Exu olhou fixamente para Kirkpatrik e perguntou:
— Quem é você?
— Meu nome é Horace. Sou amigo do professor
Lungstrump. Posso fazer uma consulta?
— O que é que você quer saber, filho?
— Algumas coisas. O senhor é um Exu esclarecido,
doutrinado, pelo que me contaram, não é?
— Sou.
— O senhor não precisa que lhe digam as coisas. O
senhor sabe. Certo?
A entidade sorriu orgulhosamente.
— Alguma vez me enganei, Robin?
— Não, Exu Talma. O senhor nunca se engana.
Kirkpatrik chegou mais perto da médium e sentou-se no
chão.
— Você escutou, Horace? — perguntou o Exu,
triunfalmente.
— Claro. Eu sei que um Exu doutrinado, esclarecido,
sabe das coisas e nunca se engana. É por isso que gostaria
de consultá-lo.
— O que é que você quer?
Kirkpatrik olhou em volta, passeando as pupilas
cinzentas pelos presentes. Jack Robin mantinha uma
expressão intrigada, enquanto Wilhelm Lungstrump
parecia inquieto. Giselle mantinha-se na expectativa.
— Bom, considerando que você sabe de tudo, Exu
Talma, gostaria que me desse duas respostas.
— Droga! Você parece mais enrolado que cabelo de
mulata! Fale de uma vez!
— Muito bem. Quem matou Stephen Stuedform e roubou
os planos do propulsor?

— 68 —
CAPÍTULO SÉTIMO

Charada de assassino

Exu Talma levantou-se bruscamente. A médium


brasileira sacudiu a cabeça e Jack Robin adiantou-se.
— Você foi longe demais em suas perguntas, Kirkpatrik
— disse secamente Jack Robin.
O agente fora de série da CLA voltou-se lentamente
para o dono da casa e sorriu.
— Sua farsa é que foi longe demais, Robin. Tudo muito
bem montado, tudo perfeito. Apenas um detalhe não
corresponde à verdadeira prática da umbanda.
— Você... você está louco, Kirkpatrik — interveio,
assustado, Wilhelm Lungstrump.
— Não, professor Lungstrump. Eu não estou louco,
assim como Stephen também não estava. Você é que perdeu
a razão, por acreditar cegamente no que estes embusteiros
prepararam.
— O que é que está dizendo, Horace? — cortou Giselle,
assustada.
— Eles são os responsáveis pela morte de Stephen e de
Magda, Giselle. Aliás, só podem ser eles, depois de tudo o
que assistimos e do que aconteceu antes.
Subitamente, Jack Robin meteu a mão no bolso e sacou
uma automática, que apontou à cabeça de Kirkpatrik.

— 69 —
— Você foi muito espertinho, Kirkpatrik. Mas isso não
vai adiantar nada.
— Robin! — exclamou Wilhelm Lungstrump. — O que
está acontecendo? Você também enlouqueceu?
— Cale a boca, cretino! Você não entendeu nada, desde
o começo. Mas isso agora também não importa, porque não
vou mesmo precisar mais de você. Passem para aquele
canto, os três.
Apontou para Kirkpatrik, Giselle e o cientista.
— Mas o que significa isto, Robin? — perguntou
Lungstrump.
— Significa que você cometeu um erro tremendo,
trazendo esse seu amigo até aqui.
— Mas eu avisei-o de que ele viria aqui, com Giselle
— balbuciou o cientista.
— Avisou, sim. Mas não avisou que ele seria um agente
secreto.
Giselle abriu muito os olhos, espantada, enquanto
Lungstrump escancarava a boca, de assombro.
— Agente secreto?
— Isso mesmo, estúpido.
A médium brasileira tinha-se afastado para um canto da
sala e tirava maquinalmente os cordões que tinha no
pescoço. Parecia alheia ao que estava acontecendo.
— Como é que você sabe que ele é um agente secreto?
— Só um agente secreto saberia que os planos do
propulsor tinham sido roubados. Nenhum jornal comentou
esse fato, porque as autoridades preferiram mantê-lo em
segredo. Porém, Kirkpatrik não teve qualquer hesitação,
quando perguntou quem tinha roubado os planos.
O agente da CIA conservava um sorriso trocista nos
lábios finos.
— Você se julga muito inteligente, não, Robin?

— 70 —
— O bastante para não ser apanhado por um idiota
como você.
— Acontece que errou, Robin. Eu não sou agente
secreto. Simplesmente tenho amigos junto das autoridades,
Stephen era meu ex-companheiro de faculdade e sua morte
me revoltou. Conversei com algumas pessoas ligadas à lei
e não foi difícil descobrir o móbil do assassinato.
Especialmente porque o criminoso não roubou tudo o que o
cientista possuía de valor. Por exemplo, apropriou-se do
relógio, para fazer crer que se tratava de um simples assalto,
e esqueceu o cordão de ouro, que valia mais do que o
relógio. Não acha incongruente?
Robin sorriu.
— Talvez... foi um erro, reconheço.
Wilhelm Lungstrump quase pulou.
— Robin, quer dizer que foi você quem matou Stephen
Stuedform?
— Não, idiota! Tenho gente que faz isso com limpeza.
Só que, pelo visto, cometeram um erro infantil. Mas nada
disso tem muita importância, afinal, pois a Polícia logo
descobriu que os planos tinham sido subtraídos.
— Por que você fez isso, Robin? — insurgiu-se o
cientista.
— Dinheiro, poder, vida boa, idiota! Você não sabe o
que é isso e sujeita-se até a viver com uma mulher que está
esperando um filho de seu próprio assistente.
Lívido, Lungstrump teria se lançado sobre o canalha, se
Kirkpatrik não tivesse impedido, segurando-o fortemente
pelo braço.
— Fique calmo, Lungstrump. Não dê a esse miserável
um pretexto para apertar aquele gatilho. Se é que precisa de
algum pretexto para isso...

— 71 —
— Mas Palmer sofreu um acidente e eu não posso
abandonar Sue e a criança...
— Claro, Wilhelm — riu Robin. — O motorista do
caminhão que atropelou seu assistente foi pago por mim.
Um de meus homens o acompanhava e encarregou-se de
silenciá-lo para sempre e jogar o caminhão por um
barranco.
— Quer dizer... quer dizer que foi você, também...? —
gemeu o cientista, deixando-se cair numa cadeira.
— Fui, sim, imbecil. Ou pensou que tivesse sido o Exu
Talma? Vocês, homens de ciência, julgam-se tão seguros,
tão frios e racionais... — sorriu com desprezo. — No
entanto, basta um truque bem-feito que os atinja de perto
para que todas as suas convicções filosóficas e religiosas
caiam por terra.
— Mas vocês... Como sabiam de tudo o que eu
ignorava?
— Simples paciência e investigação. Quando você saía
para o laboratório, por exemplo, sua mulher se entregava
aos carinhos de Palmer. Provavelmente ela não o amava.
Desejava apenas um filho que o marido não podia lhe dar.
O resto, foi tudo uma questão de preparação.
— Mas por que tudo isso?
— Porque eu queria os planos do propulsor. Uns amigos
orientais... russos, para ser mais exato, estão dispostos a
pagar uma verdadeira fortuna. Você era o caminho mais
fácil para chegar a Stephen Stuedform.
— Você... você preparou tudo, desde o começo?
Obrigou-me a atrair Stephen a uma emboscada...
Miserável!
Sem poder controlar-se, Wilhelm levantou-se e, apesar
dos esforços de Kirkpatrik, atirou-se impulsivamente na

— 72 —
direção de Robin. O canalha não hesitou. Apertou o gatilho
e uma bala partiu, mortífera, rumo à cabeça de Lungstrump.
Kirkpatrik percebeu, uma fração de segundo antes, que
a tragédia ia desenrolar-se e saltou para diante, chocando
com o corpo do cientista, no intuito de jogá-lo ao chão e,
assim, evitar que a bala assassina o atingisse. Porém, não
foi a tempo. Quando o corpo de Lungstrump rolou pelo
chão, um fio vermelho já descia de sua têmpora direita, por
onde tinha penetrado a bala.
Giselle soltou um grito agudo e Jack Robin recuou mais
alguns passos.
— Foi muito bonito, esse seu gesto, Kirkpatrik, ao
tentar salvar Lungstrump. Mas completamente inútil. Ele é
idiota demais para continuar vivendo. Realmente ele foi
induzido por Exu Talma — sorriu cinicamente — a trazer o
amigo aqui, com os planos do propulsor. Claro que Stephen
Stuedform não era bobo e não viria de qualquer forma. Por
isso, meus amigos russos, que têm uma idéia muito vaga do
que seja esse propulsor, me deram algumas dicas técnicas
que Wilhelm dificilmente conheceria.
— Estou imaginando o resto, canalha — murmurou
Kirkpatrik. — Maria encenou a comédia, baixou o santo
nela e Exu Talma, conhecedor de todas as coisas, forneceu
detalhes importantes a Lungstrump, para que ele pudesse
convencer Stephen a trazer os planos até aqui.
— Mais ou menos isso. Bastou que Exu Talma
mencionasse erros gravíssimos em determinadas partes do
projeto, detalhes que os cientistas russos supõem, embora
sem ter a certeza. Wilhelm jamais poderia ter conhecimento
desses detalhes. Portanto, o fato de Exu Talma os ter
revelado só podia ser interpretado como clarividência da
médium. Esta foi a conclusão que preparamos e onde
chegou o frio e racionalista Stephen Stuedform. O resto foi

— 73 —
simples. Uma emboscada quando ele se dirigia para cá,
trazendo os planos. Seria arriscado demais matá-lo aqui
mesmo. Por isso ele foi supostamente assaltado.
— Tudo muito claro, agora. Só é tristemente lamentável
que vocês utilizem para esse fim um culto, uma tradição que
os afro-brasileiros conservam na sua máxima pureza.
— Tudo isso é besteira. Não me surpreende que você
tenha descoberto a mistificação.
— Nem tudo é mistificação, Robin. Claro que existem
muitos charlatães, mas há uma verdade profunda, que
merece respeito, nos cultos afro-brasileiros.
— Então como é que você descobriu que Maria estava
fingindo?
— Por dois detalhes. Ela deve ser brasileira mesmo,
pelos seus traços...
— Maria é brasileira realmente, embora resida nos
Estados Unidos há mais de dez anos.
— Ela deve até conhecer os rituais umbandistas. Por
isso ela amarrou as guias, isto é, os cordões que traz no
pescoço. Isso porque ela teme que alguma entidade se
manifeste de verdade e a faça passar um mau bocado. Maria
sabe que com essas coisas não se deve brincar...
A médium brasileira fuzilou o louro agente da CIA com
um olhar homicida e Robin murmurou:
— Você é muito observador...
— Qualquer pessoa que já tivesse se interessado por
estes assuntos descobriria a manobra. Bem sei que são
reduzidíssimas as pessoas que, nos Estados Unidos,
poderiam perceber, porque a umbanda não goza de
popularidade. De qualquer forma, você deu azar, pois eu
conheço o assunto, que estudei em detalhe nas diversas
vezes em que estive no Brasil. Por outro lado, essa
aguardente que ela está tomando, e que no Brasil se chama

— 74 —
cachaça, é tão falsa como você, meu amigo. Aguardente
cheira de verdade. E o que ela está bebendo não deve passar
de água. Assim ela poderia beber uma ou duas garrafas sem
apresentar sinais de embriaguez.
— Muito observador... Lungstrump nunca percebeu
esse detalhe. Especialmente porque ele fez questão de
provar a bebida, numa das vezes em que aqui esteve.
— Claro que você lhe deu para provar aguardente
verdadeira e não daquela que o falso Exu ingere...
— Exatamente.
Kirkpatrik sorriu cinicamente.
— Nem seu Exu Talma vai conseguir que você escape,
Robin. Em poucos dias, além do roubo de importantes
documentos científicos, você foi responsável pela morte de
quatro pessoas.
A câmara de gás não será castigo suficientemente
duro...
— Não será você quem poderá impedir, Kirkpatrik.
— Pelo menos tentarei. Mas se não conseguir, pode ter
certeza de que a Polícia o fará. Eles já estão na pista do
assassino de Magda Stuedform.
Robin soltou uma gargalhada.
— Nada de blefe, meu amigo... Para eles, Magda
suicidou-se.
— Essa é a versão que os jornais contam. No entanto,
você cometeu dois erros tremendos.
— Como assim?
— Em primeiro lugar, você deixou tudo muito
arrumado, certo? Ou não foi você quem fez aquele serviço?
— Não fui cu. Mas estive presente, orientando...
O bandido parecia orgulhar-se de seus crimes.
— Uma orientação bastante deficiente. Você deixou
tudo perfeitamente arrumado para que a Polícia pensasse

— 75 —
que Magda tomou os comprimidos de livre vontade, deixou
o quarto na mais perfeita ordem e se deitou, chegando ao
extremo de endireitar as roupas e pentear os cabelos, depois
de deitada.
— Exatamente. Magda estava traumatizada com a
morte do marido e, depois de ter passado dois dias na
clínica, acabou decidindo que nada mais lhe restava a não
ser o suicídio. Como mulher inteligente e decidida que era,
preparou o cenário da melhor forma.
— Foi o que eu pensei. Nenhum sinal de violência,
apenas uma resignação e um sangue-frio surpreendentes.
Menos por dois detalhes completamente estúpidos da sua
parte, Robin.
— Isso é uma charada, Kirkpatrik?
— Pode ser. Eu adoro charadas.
— Muito bem. Onde é que eu falhei no caso de Magda
Stuedform?
— Pense, Robin. Não lhe darei esse prazer tão
facilmente.
— Você está sendo idiota, Kirkpatrik. Posso muito bem
prescindir dessas informações e mandá-lo para o outro
mundo, sem viagem de regresso.
— E ficará sem saber onde errou...
Kirkpatrik esperava que o miserável se sentisse curioso
o bastante para adiar sua execução, que parecia iminente.
— Você acha isso importante?
— Talvez. Assim, da próxima vez não cometerá os
mesmos erros...
Era um jogo quase infantil, mas que parecia estar
agradando o assassino.
— Temos tempo, Kirkpatrik. Na verdade, só amanhã
receberei a visita dos compradores dos planos do propulsor
e, até lá, não tenciono entrar em nenhuma outra atividade.

— 76 —
Você ficará preso aqui, até lá. Giselle Stuedform também,
é claro. Mas como sou um homem generoso vou deixá-los
no mesmo quarto.
Soltou uma gargalhada brutal e disse, em voz bastante
alta:
— Pode entrar, Chips.
A porta do salão abriu-se e três homens entraram. Um
deles, o que devia ser Chips, trazia uma automática já
empunhada. Os outros dois tinham armas nos cintos.
— Levem nossos dois convidados para o quarto interior
dos fundos. Um de vocês que fique de guarda, na porta,
apesar de a trancarem com cuidado. Os outros dois irão
jogar o corpo de Lungstrump bem longe daqui.

— 77 —
CAPÍTULO OITAVO

Santo traiçoeiro

— Estou com medo, Horace — gemeu a garota,


apertando-se contra o agente 77Z.
— Fique tranquila. Conseguimos espicaçar a
curiosidade de Robin e vai querer descobrir, primeiro, os
erros que cometeu no quarto de Magda. Não nos matará
antes disso.
Giselle estremeceu violentamente.
— E... e depois?
— Até lá teremos tempo. E isso é o que importa. Tempo
para armar um plano que nos permita sair daqui com vida.
— E você acha que conseguiremos?
— Temos que conseguir, Giselle. A verdade é que eu
sou muito jovem ainda para morrer às mãos de um canalha
como Robin.
As palavras firmes, confiantes, de Kirkpatrik,
conseguiram tranquilizar um pouco a bela garota. Ergueu o
rosto para ele e Kirkpatrik beijou ternamente seus lábios.
Giselle apertou-se mais contra o corpo atlético do louro
milionário, que repetiu o beijo, agora com mais ardor e
carícias mais ousadas. Suas mãos percorreram o corpo bem-
feito, tentador, de Giselle Stuedform, avançando por
lugares íntimos, arrancando gemidos de prazer e fazendo
subir um rubor de excitação até o belo rosto feminino.

— 78 —
Duas horas mais tarde, os três homens que haviam
conduzido os prisioneiros até ali voltaram a surgir.
— Vamos, amigo. Robin está esperando por você.
Falou não sei o que de uma charada e que você o esclareça.
— Muito bem. Parece que nosso amigo Robin não
conseguiu resolver o caso sozinho. Vamos, Giselle.
Chips adiantou-se e balançou a automática
significativamente.
— Nada disso, Kirkpatrik. A boneca fica aqui. Robin
quer falar com você apenas.
Giselle empalideceu.
— Não... Não me deixe sozinha, Horace... Por favor!
Kirkpatrik voltou-se para ela, com um sorriso nos
lábios.
— Não se preocupe, querida. Eu voltarei daqui a pouco,
depois que tiver mostrado ao imbecil chamado Jack Robin
que ele não passa de um criminoso amador, rodeado por
idiotas mais amadores ainda.
A indireta atingiu perfeitamente o alvo. Chips
endireitou-se e uma expressão de ódio apareceu em seu
rosto.
— Você vai engolir essas palavras agora mesmo,
cretino.
Avançou ameaçadoramente para o agente fora de série,
disposto a massacrá-lo a golpes.
Os outros dois riram, divertidos.
Chips devia ter uns trinta e cinco anos, cabelos cortados
muito curtos, rosto de boxeador e sobrancelhas hirsutas,
lembrando um chimpanzé. O corpo pesado, musculoso,
adivinhava-se forte, hercúleo. Seus braços, mais
apropriados para um estivador do que para um gangster,
movimentaram-se como alavancas poderosas, procurando o
corpo do adversário.

— 79 —
Kirkpatrik sabia que não seria fácil neutralizar a ameaça
que Chips, furioso, constituía. No entanto, aquela talvez
fosse a última chance que teria de se livrar deles e poder
arquitetar um plano para sair daquele covil de assassinos.

***

Jack Robin acariciou as formas sensuais da exótica


brasileira e depositou um beijo em seu pescoço.
— Ficou aborrecida por Kirkpatrik ter descoberto sua
encenação, Maria?
A brasileira endireitou-se, esticou o busto agressivo e
murmurou, com raiva:
— Esse palhaço me paga! De certa forma, foi bom.
Assim ficamos sabendo, para o futuro, que nossa encenação
não era tão perfeita como pensávamos.
— Tem razão. Eu aliás, desconhecia esse detalhe de
amarrar as guias. Foi um erro seu, minha querida.
— Um erro necessário. Eu não farei isso sem tomar as
devidas precauções.
— Você acha mesmo necessário, Maria?
— Claro que acho. Eu sei o que é macumba, o que são
essas coisas. Você brinca e ignora o poder que esses ritos
possuem. Kirkpatrik estava certo nisso. Há muita verdade
na umbanda, apesar das mistificações. E não devemos
abusar das farsas.
— Está bem, querida. E quanto à aguardente? Será que
você pode beber isso?
— Se estivesse realmente recebendo, poderia, sim.
Qualquer médium bebe uma, duas, três ou mais garrafas de
aguardente, vinho, champanha, além de fumar, sem sentir
qualquer efeito. Mas isso é quando se trabalha de verdade e
não com mistificação.

— 80 —
— E o que fazemos então?
— No futuro, não poderemos permitir que ninguém se
aproxime muito de mim. Assim ficará sabendo que se trata
apenas de água.
— De acordo, querida. Quanto às guias, aos colares,
não há nada a fazer, pois não?
— Não. A menos que eu use outro tipo de colares. Mas
aí correremos o risco de alguém descobrir que não são guias
de santo.
O assassino encolheu os ombros e acariciou mais uma
vez a bela mulher.
— Na devida altura estudaremos isso, Maria. Por
enquanto também não vamos precisar recorrer a seus
trabalhos. O dinheiro que os russos vão me entregar em
troca dos planos do propulsor é o bastante para vivermos
desafogadamente. Até quem sabe, talvez fosse uma boa
idéia fazermos uma viagem até o Brasil. O que é que você
acha?
Maria Sidneya endireitou-se, subitamente
entusiasmada.
— Seria o melhor presente que você poderia me dar,
Jack. Rever a Bahia, o Rio de Janeiro, minha cidadezinha
do interior...
— Faremos essa viagem muito brevemente, Maria.
Prometo!
— Você tem certeza de que os russos vão mesmo
pagar?
— Claro que vão, Maria. Eles estão interessadíssimos
nesses planos. A prova disso é a confiança que depositaram
em nós, fornecendo-nos detalhes importantes sobre o
propulsor.
— Mas se eles conhecem tudo isso sobre o propulsor,
por que querem os planos?

— 81 —
Jack Robin aproximou-se da mesa onde se encontravam
os artigos utilizados nos falsos rituais, escolheu um charuto
de excelente qualidade e acendeu-o, enquanto se servia de
uma generosa dose de uísque.
— O propulsor, como todas as descobertas científicas,
não é um mistério total. No entanto, existe sempre um
detalhe, um pormenor que constitui o êxito do projeto e que
representa o grande triunfo de quem o descobre. É esse
detalhe que Stephen Stuedform passou para o papel e que
os russos ignoram.
— E que detalhe é esse?
— Não sei. Não entendo nada de fórmulas e esquemas,
minha querida. Mas os russos entenderão.
— Os planos estão com você?
— Estão, claro. Bem guardados no cofre.
— Sabe que eu nunca vi planos de nenhuma descoberta
científica? Essas coisas que interessam aos espiões...
— Não tem nada de especial.
— Me mostre, querido.
— Por que esse interesse?
— Curiosidade de mulher. Nunca vi e gostaria de ver.
O bandido encolheu displicentemente os ombros e
encaminhou-se para um cofre embutido na parede e
camuflado com uma gravura que representava Iemanjá, a
rainha do mar.
Com movimentos precisos, abriu o cofre e retirou de lá
um pesado envelope.
Maria Sidneya tinha-se aproximado silenciosamente da
mesa e, erguendo a ponta da toalha, abriu uma gaveta, onde
introduziu a mão.
Quando o bandido se voltou, deparou com ela
apontando firmemente uma arma para seu corpo.

— 82 —
— Ei... O que significa isto, Maria? — perguntou,
perplexo.
— Significa que você vai parar aqui suas besteiras,
idiota! Me entregue esse envelope.
Pálido, Robin articulou, com dificuldade:
— Você... você perdeu o juízo?
— Não, amor. Você cometeu muitos erros. E está
disposto a cometer mais um, para satisfazer sua vaidade.
Por que não acabou de uma vez com Kirkpatrik? Por que
está lhe dando tempo para tentar uma fuga?
— Ora, ele nunca conseguiria. Chips e os outros...
— Você precisa saber que erros cometeu no quarto de
Magda Stuedform. Seu ego foi ferido e você não descansará
enquanto Kirkpatrik não falar. Isso pode destruir todo o
nosso plano. E eu não estou disposta a isso. Ficarei com os
planos e esperarei os russos aqui. Farei o negócio e
realizarei meu grande sonho... Voltar ao Brasil, com muito
dinheiro.
Jack Robin aproveitou uma momentânea distração da
falsa médium para tentar inverter a situação. Atirou-se para
diante, com uma exclamação de ódio.
Friamente, Maria Sidneya apertou o gatilho duas vezes.
O silenciador da arma abafou o barulho, permitindo apenas
dois surdos “plops”...

— 83 —
CAPÍTULO NONO

Planos e sonhos

Kirkpatrik moveu o corpo agilmente para a esquerda,


esquivando-se assim das garras poderosas de Chips. O
gangster não gostou da manobra. Soltou uma imprecação e
virou-se, rápido, disparando o punho direito.
O agente fora de série da CIA esperava uma reação
desse tipo. Por isso não teve dificuldades em se abaixar e
evitar o segundo ataque de Chips.
Ao mesmo tempo, adiantou a mão esquerda,
rigidamente, tocando com dureza o fígado do inimigo.
Chips dobrou-se para diante angustiado, soltando todo o ar
que tinha nos pulmões.
Kirkpatrik aproveitou a oportunidade para subir o
joelho direito com violência, atingindo o rosto de Chips. O
sangue espirrou em todas as direções, saltando do nariz e
dos lábios do gangster.
O sorriso havia desaparecido dos lábios dos dois
companheiros de Chips, que começavam a entender que o
milionário não era tão fácil de derrubar como haviam
suposto.
Com decisão, avançaram para ele, os olhos brilhando
de crueldade, as mãos abrindo e fechando como garras.
Kirkpatrik endireitou-se. A luta estava agora muito
mais desigual, pois a qualquer momento os adversários

— 84 —
poderiam resolver utilizar as armas de fogo e, com isso, a
vida do agente da CIA não valeria mais um centavo.
Giselle Stuedform, encolhida num canto da pequena
dependência, seguia a cena com o horror estampado no
rosto.
Viu como os dois bandidos aproximavam-se de
Kirkpatrik e como Chips começava a endireitar-se,
rosnando palavrões.
Uma força nova, desconhecida, foi se apoderando dela
lenta, mas inexoravelmente. Por fim, com um grito agudo
de desespero, ela atirou-se para a frente, resoluta. Seu corpo
frágil chocou com o de Chips, que, ainda mal refeito do
duro golpe sofrido, perdeu o equilíbrio e tombou de costas,
aparatosamente.
Os dois outros olharam instintivamente para o
companheiro derrubado e esse momento foi aproveitado
por Kirkpatrik com a máxima oportunidade.
O agente fora de série da CIA equilibrou o corpo na
ponta do pé esquerdo, levantou a perna direita e traçou com
ela um amplo círculo no ar. O pé direito colidiu brutalmente
com a garganta do primeiro adversário, antes que ele
pudesse fazer alguma coisa para evitar isso. Foi um golpe
duro, seco, que fez balançar grotescamente a cabeça do
gangster. O bandido levou angustiosamente as mãos à
garganta, abriu a boca em desespero, revirou os olhos e caiu
como um saco vazio, com o pescoço quebrado.
O segundo meliante franziu a testa e optou por solução
mais drástica. Desceu a mão para o cinto, procurando a
automática.
Kirkpatrik não lhe deu tempo para empunhar a arma.
Avançou as duas mãos com decisão e, com um golpe seco,
atingiu a orelha esquerda do bandido. O homem soltou um
grito de dor, cobriu a orelha com a mão esquerda e, com

— 85 —
isso, abriu totalmente a guarda. O agente 77Z não perdeu a
oportunidade. Era sua vida e a de Giselle que estavam em
jogo. Um pontapé certeiro entre as pernas do gangster fez
com que ele urrasse de angústia e se dobrasse para diante,
totalmente descontrolado. Kirkpatrik ergueu mais uma vez
o joelho e, com a raiva que o desespero da situação punha
em seus movimentos, acertou o rosto bestial, esmagando-
lhe o nariz, arrebentando-lhe os lábios, fazendo jorrar o
sangue até pelos olhos.
O bandido foi atirado para trás, como um boneco
descomandado, tropeçou na única cadeira do quarto-cela,
perdeu o equilíbrio e deslizou para o chão de tacos, onde
ficou imóvel, desacordado.
Restava Chips, que lutava contra uma Giselle
Stuedform enfurecida, presa de uma espécie de ataque de
histeria. Suas unhas funcionavam como garras afiadas,
enterrando-se na carne do bandido, que ululava de dor,
tentando acertar a garota com as mãos poderosas.
Finalmente conseguiu e uma bofetada estalou no rosto de
Giselle, atirando-a para trás.
Kirkpatrik tinha acabado de livrar-se do segundo
adversário e lançou-se contra Chips. O gangster estava
ainda no chão, mas o agente fora de série da CIA nem se
importou com isso.
Seu pé direito adiantou-se, fulminante, chocando com
raiva contra os rins de Chips.
O grito do bandido foi dilacerante, agudo. Segundos
depois, recebia um segundo golpe, dessa vez em pleno
rosto, arrebentando-lhe o que ainda restava intacto.
Como se fosse movido por uma fúria incontrolável, o
agente 77Z segurou Chips pelo paletó, obrigando-o a
erguer-se. E quando o teve na posição desejada, recuou o

— 86 —
braço direito. Seu punho, duro como o aço das usinas que
possuía, chocou com violência com a garganta de Chips.
O gangster recuou, descontrolado, gemendo e
sangrando. Porém, era um verdadeiro animal, uma fera
resistente e furiosa. Suas costas chocaram contra a parede.
Por alguns segundos permaneceu imóvel, respirando com
dificuldade.
De repente, desceu a mão para a automática que
continuava mantendo entalada no cinto.
Kirkpatrik reagiu prontamente. Saltou para diante e
estendeu os braços. Sua mão direita, rígida como ferro,
acertou uma pancada, de cutelo, em plena testa, ao mesmo
tempo que a esquerda deslizava com firmeza e acertava um
golpe surdo, definitivo, na base da garganta.
Asfixiado, o gangster levou as mãos ao pescoço,
balançou grotescamente nas pernas enormes, cambaleou e
acabou tombando como um saco vazio.
Kirkpatrik endireitou-se finalmente e respirou fundo.
Tinha conseguido livrar-se dos três perigosos inimigos e
restava apenas acertar contas com o chefe dos canalhas, o
assassino Jack Robin.
Ajudou a garota a levantar-se e caminharam para a
porta, no momento em que soava um tiro, proveniente do
salão onde se realizavam os falsos trabalhos de umbanda.
— Meu Deus! — gemeu a garota. — O que terá
acontecido?
Kirkpatrik tinha parado também, sem saber o que
significava aquele tiro.
— Corra, Giselle. Alguma coisa veio complicar os
planos de Jack Robin e isso pode complicar os nossos
também.
A porta da sala dos trabalhos estava apenas encostada e
Kirkpatrik deteve-se subitamente.

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Com cuidado, empurrou a porta e olhou para dentro.
Ali estava, no chão, esvaindo-se em sangue, Jack
Robin, enquanto Maria Sidneya depositava sobre a mesa a
arma que acabara de utilizar.
Jack Robin rastejava angustiosamente, as forças já o
abandonando, procurando chegar a um envelope que se
encontrava no chão, a cerca de um metro dele.
Maria Sidneya soltou uma gargalhada bestial e correu
para o envelope, pegando-o e pisando cruelmente a mão do
homem.
— Morra, desgraçado... — disse, entre risos. — Estes
planos são meus. Eu os venderei para os russos e, com o
dinheiro, realizarei o sonho destes últimos anos. Voltarei ao
Brasil, com dinheiro bastante para viver no Rio, como
sempre desejei. Você não é mais necessário.
Jack Robin tentou ainda endireitar-se, gemendo,
procurando sem conseguir balbuciar algumas palavras
ininteligíveis. Por fim, como se os últimos restos de forças
o abandonassem, desabou definitivamente, sangrando pelo
nariz e pela boca. Rolou para a esquerda e ficou de rosto
para o teto, com uma feia mancha vermelha tingindo-lhe a
camisa.
Maria Sidneya começou a abrir freneticamente o
envelope, quando Kirkpatrik entrou na sala.
— Chega, Maria! Sua vida de embustes e de crime está
no fim. Você foi longe demais, com esse assassinato. Vai
voltar para sua terra, sim, mas não como esperava. Sua
deportação será rápida. No Brasil será julgada por seus
crimes e condenada severamente.
Maria Sidneya voltou-se, como uma fera atingida.
Seus olhos brilhavam de loucura. Sua boca estava
repuxada num esgar de ódio.

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— Você nunca fará isso, cretino! Eu sabia que Robin
estava cometendo um erro, ao protelar sua morte. Mas eu
corrigirei esse erro agora mesmo.
Voltou-se, disposta a correr para a automática e fuzilar
o intruso.

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EPÍLOGO

Kirkpatrik não hesitou. Correu na direção da bela


brasileira e, num salto em prancha, aferrou-se a suas pernas,
obrigando-a a perder o equilíbrio e a cair, largando o
envelope. Maria Sidneya tinha os cordões-guias no pescoço
e revolveu-se, embaraçando-se com eles. Os cordões
estavam amarrados juntos, com um nó que abrangia todos
eles.
Com a agitação, o nó soltou-se e as guias ficaram livres,
pendendo do pescoço da brasileira. Kirkpatrik levantou-se
de um salto e chegou primeiro à automática, que empunhou
com firmeza.
— Fique quieta, Maria. Você está perdida. Se me forçar
a isso, serei obrigado a atirar em suas pernas, inutilizando-
a. Ou matando-a.
Havia firmeza e decisão nas palavras do agente 77Z.
Maria Sidneya deteve-se bruscamente e, olhando para
baixo, viu as guias soltas, balançando suavemente.
— Agora suas guias de santo estão livres, Maria. Seus
orixás poderão descer — murmurou o louro agente.
Uma lividez intensa começou a tomar conta da
brasileira. Tentou livrar-se dos colares, mas sua perturbação
era demasiada e apenas conseguiu embaraçá-los.
Um terror súbito apossou-se de seu corpo, de sua mente,
fazendo-a agitar descontroladamente os braços e a cabeça.
— Não... não... eu não quero... eu...

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Seu corpo foi tomado por súbitos tremores convulsivos,
esticou-se rigidamente e, perante o assombro de Giselle
Stuedform e de Kirkpatrik, caiu para trás. Seu corpo agitou-
se mais uma vez, num derradeiro estertor e, subitamente,
ficou imóvel.
Kirkpatrik aproximou-se cautelosamente dela e
segurou-lhe o pulso.
— Está morta — murmurou.
— Morta? Como? Por quê? — gemeu Giselle
Stuedform.
Gravemente, Kirkpatrik fez um gesto vago «om os
braços.
— Quem pode saber? Um colapso, provocado pelo
terror, pela autossugestão... Ou algo mais complexo, que
estamos ainda longe de poder explicar e entender.
— O que quer dizer com isso, Horace?
— Nada especial, Giselle. Maria Sidneya sempre
trabalhava com as guias amarradas. De repente, as guias
ficaram em seu pescoço, soltas. Isso influiu fortemente em
seu psiquismo, o terror apoderou-se dela e... o resto você
viu.
Perplexa, Giselle murmurou:
— Você acredita que tenham sido espíritos... os
causadores de sua morte?
Kirkpatrik encolheu os ombros.
— Eu não quero dizer nada, Giselle. Não estabeleço
teorias nem procuro explicações para coisas que mal
conheço. O ser humano é um abismo de mistérios que
estamos muito longe ainda de desvendar.
— É... É absurdo...
— Será? Bom, agora não importa, pelo menos para
nossa missão. Recuperamos os planos do propulsor que era
o objetivo da vida de Stephen e acabamos com gente

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perigosa. Vamos embora daqui. Depois avisarei as
autoridades, quando devolver este envelope.
— Céus... Tanta gente já morreu, por causa disso, que...
— Sei o que está pensando, Giselle. Era preferível, até
destruir estes planos, não é?
Giselle assentiu lentamente com a cabeça.
— Não. Nosso dever é entregá-los às autoridades. E é
isso que faremos. Depois tomaremos um banho
reconfortante e iremos jantar e dançar em algum lugar onde
possamos esquecer toda a tragédia que atravessamos.
Segurou a garota pelos ombros e deixaram a casa.

FIM

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