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SÉRIE: 77Z
VOLUME: 86
TÍTULO: TRANSA DE MULHERES
AUTOR: TONY MANHATTAN
ILUSTRAÇÃO DA CAPA: BENÍCIO
EDITORA: MONTERREY
ANO DA PUBLICAÇÃO: 1977
PREÇO DA PUBLICAÇÃO: CR$ 8,00
PÁGINAS: 128

SCANS E TRATAMENTO: RÔMULO RANGEL


romulorangel@bol.com.br

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apresenta

Todos os personagens desta novela são imaginados


pelo autor e não tem qualquer relação com nomes ou
personalidades da vida real: Qualquer semelhança terá
sido mera coincidência.

Publicação no Brasil: 1977

Copyright © Editora Monterrey Ltda.

Proibida a reprodução no todo ou em parte

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TRANSAS
DE
MULHERES
TONY MANHATTAN

Capa de BENICIO

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PRÓLOGO

Não era difícil concluir que Herman Schulsz gostava de


pescar.
El^ estava sentado numa pedra, na beira de um riacho,
a três milhas de Bluftein, a pouca distância do Reno. Tinha
nas mãos uma vara cuja linha mergulhava nas águas
tranquilas daquele afluente do Reno.
Os olhos fixavam a superfície brilhante do riacho, com
uma expressão de paz, de calma, dificilmente perceptível
em suas pupilas castanhas quando se encontrava em Bonn.
Os lábios finos entreabriam-se com suavidade, num
meio sorriso beatífico, quase infantil. Tinha os longos
cabelos brancos em desalinho, tombados sobre a testa alta.
Usava um capote de plástico cinza, com grandes bolsos, que
o protegia da umidade penetrante que reinava no local.
Herman Schulsz enterrou a vara .na terra macia da
margem do riacho e meteu a mão no bolso do capote,
retirando de lá um pesado cachimbo curvo, preto,
habilmente trabalhado. Do outro bolso, extraiu uma bolsa
de fumo e começou, pacientemente, a operação de encher o
cachimbo.
Metia o fumo com cuidados extremos, calcando-o com
uma pequena pá de prata. Depois, meteu o cachimbo na
boca, pegou uma enorme caixa de fósforos e riscou um
palito, chegando a chama ao fumo, sob a proteção das mãos,
colocadas em concha.

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Aspirou a fumaça com força, repetidas vezes, e apagou
o fósforo, guardando a caixa.
Com um sorriso de satisfação, Schulsz voltou a pegar a
vara, cantarolando baixinho uma ária de Verdi.
Eram seus dois vícios mais notórios, além do fumo, a
pesca e a música de Verdi. Seria capaz de entoar, inteirinha,
a Aída. Assim como poderia passar uma semana pescando.
Com quarenta e sete anos, não tinha outras
extravagâncias.
Súbito, uma dor aguda, como uma picada de inseto, fê-
lo encolher-se e levar a mão ao pescoço avermelhado.
Soltou a vara e o braço pendeu, flácido, enquanto seu
corpo caía para um lado, resvalando até ficar apoiado contra
a pedra. Quem o visse, diria que estava adormecido. Com a
dor, apertara fortemente os dentes, mordendo o cachimbo.
Não o largou, ao cair.
Trinta segundos depois, dois vultos, cobertos por
impermeáveis escuros aproximaram-se sem ruído e um
deles entreabriu uma das pálpebras de Herman Schulsz. Fez
um sinal de assentimento para o companheiro e logo
pegaram o corpo inerte do alemão, arrastando-o pelo
bosque de pinheiros, em direção a um carro estacionado a
menos de duzentos metros. A mala do carro estava aberta e
lá foi depositado Herman Schulsz. As duas figuras
silenciosas entraram no carro e o veículo em breve
arrancava, sem grande ruído, alcançando pouco depois a
estrada, rumando a velocidade moderada na direção de
Bonn.
No entanto, não chegou à capital alemã.
Deteve-se num descampado, depois de abandonar a
estrada principal e meter-se por uma secundária. O vulto
que dirigia o carro fez sinais luminosos com os faróis e, da
noite que caíra havia pouco, responderam da mesma forma.

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Uma vez mais o veículo se pôs em movimento,
acercando-se do local de onde viera a resposta aos sinais
luminosos.
A sombra de um pequeno jato era agora visível, a uma
centena de metros. O carro chegou até perto dele e dois
outros vultos se aproximaram.
Sem uma palavra, as quatro figuras moveram-se para a
mala do automóvel e, sem esforço, carregaram o corpo
inanimado de Herman Schulsz para o avião.
Com uma rapidez impressionante, os vultos
desapareceram no interior do aparelho, à exceção de um,
que se afastou no carro.
Cinco minutos mais tarde, o avião era apenas um ponto
no espaço, rumando para o desconhecido.

***

A garota deveria ter cerca de trinta anos, loura, bem-


feita, com as curvas nos lugares onde se esperaria que
estivessem. Possuía um corpo que se adivinhava ágil,
elástico, flexível como uma cana de bambu. Era de uma cor
achocolatada, lisa e levemente brilhante. Os olhos, de um
azul intenso, pareciam despedir faíscas de sensualidade.
Estava sentada diante dos comandos do avião que
transportava um passageiro involuntário: Herman Schulsz.
A loura pegou o fone do rádio e, enquanto uma outra
garota regulava a frequência, foi falando:
— Alô, Casa Grande? Aqui Delta Três falando. Alô
Casa Grande, responda.
Um leve zumbido e uma voz de mulher chegou até o
avião:
— Alô, Delta Três, aqui Casa Grande. Escuto.

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— Delta Três para Casa Grande. Missão cumprida.
Voamos para Casa levando na bagagem o cientista nuclear.
Está adormecido e assim ficará por mais doze horas. Tempo
necessário para chegarmos em Casa. Escuto.
— Parabéns, Delta Três. Grande Conselho vai ficar
satisfeito. Esperamos vocês. Desligo.
A loura voltou-se para a companheira, na cabina de
comando do avião, e suspirou:
— Felizmente tudo foi rápido. Não estou ainda muito
acostumada com este tipo de trabalho. Como se sente você,
Magda?
— Tudo bem, Daisy. Apenas ansiosa para chegar em
casa e poder tomar um banho.
— Eu também. Estaremos lá dentro de onze horas e
meia, se não houver problemas.
— Que problemas poderiam aparecer?
— Não sei. Alguém captar nossa mensagem, interceptar
o avião, sei lá...
— Mas isso é impossível, Daisy. Nossos rádios estão
preparados para trabalhar nesta frequência especial, que
apenas por mero acaso pode ser captada por algum
radioamador. Quem poderia interceptar o avião não usa
frequências de radioamador.
— Tem razão, querida. Creio que a operação me deixou
um pouco nervosa.
— Também acho, Daisy. Temos onze horas pela frente.
Seria bom ligar o piloto automático e ir descansar um pouco
lá dentro, junto com Carlota e Berenice. Eu cuidarei disto
por aqui. Você deve estar muito cansada.
Daisy assentiu com um movimento de cabeça e, depois
de fixar o piloto automático do aparelho, levantou-se,
espreguiçando. Seu corpo ficou então exposto em toda sua
pujança. Os seios firmes projetaram-se com arrogância,

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como aríetes disposto a golpear um observador
desprevenido. Tinha os pés ligeiramente afastados e o short
que usava descobria umas pernas de pele acetinada, suave,
que apetecia acariciar. Passou a mão direita pelo estômago
plano e pelo ventre achatado, com lentidão, e sussurrou:
— Dava uma fortuna para estar agora com Bob. Sinto
um calor terrível dentro de mim. Precisava de alguém que
o apagasse.
Magda soltou uma risada nervosa e piscou um olho para
a companheira.
— Terá que esperar mais algumas horas, querida.
— É... Será que esse cientista vai acordar logo? Ou o
efeito do narcótico que aplicamos no dardo só o deixará
despertar dentro de onze horas? Até que ele não é nada de
se jogar fora...
Magda soltou outra risada e respondeu.
— Você é demais, Daisy. Pare de cobiçar tudo quanto
é homem. Me deixa nervosa. Vá dormir e procure não
pensar muito em objetos cilíndricos e lábios quentes de
desejo.
— Você não sabe o que é bom. Não suspeita sequer o
que uns lábios bem treinados podem fazer num corpo de
mulher. Um dia talvez você descubra...
Acariciou o rosto juvenil de Magda e saiu da cabina.
A garota balançou a cabeça e dedicou sua atenção aos
aparelhos de bordo, verificando a rota que levaria o jato a
uma pequena ilha situada em pleno Pacífico, a cerca de
oitocentas milhas da costa do Chile, na América do Sul.
Carlota e Berenice estavam sentadas em cadeiras de
lona, no corpo do avião, junto do assento onde repousava
Herman Schulsz, desacordado.
Daisy aproximou-se do cientista e entreabriu uma dc
suas pálpebras.

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— Não deu sinais de querer acordar?
— Nada. Dorme como um anjinho — disse Berenice.
— Que pena! — exclamou Daisy. — Gostaria de bater
um papo com ele, antes de chegarmos em casa.
— Pare de se comportar como uma serpente voraz,
Daisy — censurou Carlota.
— Por quê? Vocês não gostam? Não tenho culpa de
gostar tanto de homem. Ou é crime?
— Vá dormir um pouco, minha filha — aconselhou
Berenice. — Você deve estar cansada e algumas horas de
sono só lhe farão bem.
— Droga!
A bela loura de olhos azuis intensos sentou-se em outra
cadeira de lona. Ficou ali durante alguns instantes, mas logo
se levantou, acabando por estender uma manta no chão,
deitando-se. Seu corpo ondulava suavemente, em requebros
de sensualidade, enquanto seus lábios entreabertos se
umedeciam. Tinha os olhos fechados e a mão direita
repousava entre as pernas, acariciando levemente as partes
mais ardentes de seu corpo de fêmea sedenta de amor.
Pouco depois, Berenice, uma morena espetacular de
cerca de quarenta anos, excelentemente cuidados e de
aspecto vigoroso, foi estender-se na manta, ao lado de
Daisy, afastada uns cinco metros de Carlota e do
adormecido cientista.
— Durma, meu bem — sussurrou Berenice, chegando-
se para junto da ardente companheira e passando a mão,
com suavidade, por seus cabelos, seu pescoço, seu busto
arfante.
— Fique comigo, Bere — quase gemeu Daisy. — Me
acarinhe para eu descansar.
— Está bem, amor. Eu ficarei aqui, juntinha de você.
Está bem?

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— Está, Bere. Só que sinto muito calor. Não poderia
tirar alguma roupa?
— Claro, meu bem. Eu ajudo você...
As vozes das duas garotas não eram mais do que um
murmúrio, mal chegando até onde estava Carlota, uma
garota apagada, de óculos de aros de metal, cabelo castanho
amarrado no alto da cabeça e um jaleco grosseiro e escuro
que lhe ocultava qualquer forma do corpo.

***

Eram sete horas e trinta e dois minutos, na manhã


seguinte, quando Daisy comunicou com a torre da ilha.
— Alô, Casa Grande. Aqui Delta Três, pedindo
permissão para descer. Escuto.
— Alô, Delta Três. Aqui, Casa Grande, pista um livre.
Pode descer. Estamos esperando você. Desligo.
Cinco minutos pais tarde, o pequeno jato, reabastecido
numa base clandestina durante a noite, começou a baixar
sobre a ilha de Nkyrvos, a sul do Havaí, quinhentas milhas
ao largo da costa sul-americana.
Nkyrvos era uma ilha de razoáveis dimensões, coberta
de uma vegetação luxuriante. Por um daqueles acasos que
acontecem uma vez em cada século, a ilha não fora
reclamada por país nenhum desde a Segunda Guerra
Mundial. Era, pois, terra de ninguém, até que um grupo de
mulheres começou a povoá-la, dois anos antes. Aí ficava a
Casa Grande a que Daisy se referia em suas mensagens pelo
rádio.
Uma pista de concreto, com dois quilômetros de
extensão, apareceu entre as palmeiras que bordejavam a
praia. Daisy manobrou o jato para lá, com a perícia de um
piloto experimentado e, minutos depois, o trem de

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aterrissagem tocava o concreto, com um gemer angustiado
de pneus.
Eram sete e cinquenta, quando a porta do avião foi
aberta e Carlota apareceu, respirando profundamente o ar
fresco da ilha.
Havia um comitê de recepção, aguardando o avião.
Cinco mulheres, três jovens e duas menos jovens, estavam
na placa de desembarque, esperando. Duas delas avançaram
para o aparelho, empurrando uma escada que se ajustou na
porta. Pouco depois, Carlota e Berenice arrastavam o corpo
de Herman Schulsz.
A brisa suave que varria a pista de aterrissagem bateu
em cheio no rosto do alemão, que abriu os olhos e sacudiu
a cabeça.
Tentou erguer-se, no que foi auxiliado pelas duas
garotas.
— Que... que significa isto? — balbuciou.
— Calma, professor. Está tudo bem. O senhor veio
apenas dar um passeio e conversar com ama velha amiga.
Pode descer sozinho? — a voz de Carlota era suave,
contrastando com seu aspecto um tanto grotesco.
Schulsz olhou para ela, sem responder. Depois passeou
o olhar à sua volta, pela vegetação intensa da ilha, pela pista
de concreto que se estendia na sua frente, pousando-o, por
fim, no grupo de cinco mulheres que aguardavam no solo.
Duas delas estavam armadas de submetralhadoras, que
chegavam a parecer brinquedos inofensivos em suas mãos
delicadas.
— Devo estar sonhando — murmurou ele. — Vou
acordar, com certeza, porque isto não pode ser verdade.
— Não está sonhando, professor — a voz era de alguém
que vinha do interior do avião, aproximando-se da porta.

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Schulsz voltou a cabeça e fitou os olhos azuis e os
cabelos louros da garota que falara.
— Meu nome é Daisy e eu o transportei da Alemanha
até aqui.
— Hum... Muito interessante. E o que é isto aqui?
— Nkyrvos, o último reduto do paraíso terrestre, a
esperança da humanidade, a sede da Casa Grande.
— Mas que rosário de bobagens você está dizendo,
garota. Vamos, acabem logo com todo este absurdo e me
digam o que aconteceu.
— Não são bobagens, professor. Em termos diretos, o
senhor foi sequestrado e trazido para uma ilha desabitada,
perdida no meio do Pacífico. Acontece que esta ilha deixou
de ser deserta desde há dois anos porque nós, as obreiras da
Casa Grande, estamos aqui. Para nossa missão poder ser
cumprida, precisamos de alguém como o senhor. Um expert
em energia nuclear. Por isso o trouxemos desse jeito.
Sabíamos que não viria de livre e espontânea vontade.
— Isto é ridículo! Exijo que me levem de volta ao local
de onde me trouxeram.
— Calma, professor. As coisas não são mais feitas do
modo que o senhor quer. Agora, o cientista Herman
Schulsz, prêmio Nobel da Física, a maior autoridade
mundial em energia nuclear, dançará de acordo com música
da Casa Grande. Entendeu? Posso acrescentar que temos
processos infalíveis para o fazer cooperar. Sua filha, por
exemplo, poderá ser de grande utilidade para nós, nesse
aspecto.
Herman Schulsz baixou o rosto.
— Entendo. O velho sistema de chantagem sobre a filha
do famoso cientista. Já vi isso muitas vezes em filmes, mas
nunca pensei que pudesse acontecer na realidade.

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— Como vê, aconteceu. E esperamos que o senhor
colabore conosco. Creia que não gostaríamos de fazer mal
a Michelle Herman.
— Não toquem em minha filha! Ela vale mais do que
todas vocês juntas — berrou o alemão.
— Claro, professor. Claro. Agora vamos descendo, que
o Grande Conselho está esperando por nós.
Schulsz sacudiu a cabeça. Tudo lhe parecia irreal.
Acabou encolhendo os ombros e adiantando-se, em direção
ao grupo de cinco mulheres que o esperavam na pista. Elas
abriram caminho, deixando uma passagem entre si, por
onde o cientista avançou. O grupo voltou a fechar-se em
volta dele e, todos juntos, encaminharam-se para um ônibus
estacionado a cerca de cinquenta metros do avião.

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CAPÍTULO PRIMEIRO

Na pista da energia solar

— Não, meu caro. Não sabemos mais nada. Apenas


isso. O professor Herman Schulsz, prêmio Nobel da Física,
autoridade reconhecida mundialmente em energia nuclear,
mais especificamente, armamento nuclear, sumiu.
Desapareceu misteriosamente quando pescava nas margens
de um riacho perto de Bluftein, a curta distância do Reno.
A vara de pesca foi encontrada presa entre uns arbustos,
ainda com uma truta se debatendo na ponta da linha. Os
demais apetrechos, dentro de uma bolsa, incluindo uma
caixa de anzóis, linha, iscas e outras coisinhas de pescador
de fim de semana, foram encontrados junto de uma pedra,
ao lado de uma maleta de isopor, onde Schulsz esperava
certamente guardar o peixe que apanhasse.
— É muito pouco, na verdade.
Os dois homens estavam sentados frente a frente, num
pequeno restaurante chinês, em Nova Iorque. Um era
jovem, de físico atlético, alto, com cerca de um metro e
noventa, cabelos louros levemente frisados na nuca. Tinha
olhos cinzentos, frios, e lábios finos e sensuais. O queixo
era projetado para diante, indicando uma força de caráter e
voluntariedade notáveis. Tinha mãos grandes e fortes.
Aliás, todo seu corpo, apesar de esbelto, revelava-se
musculoso, flexível, treinado para a ação.

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Chamava-se Horace Young Kirkpatrik e era
oficialmente o presidente da K.K.K. Steel Ltda., um dos
mais poderosos consórcios de aço v do mundo, com sede
em Pittsburgh.
O homem sentado na frente dele era bem mais velho,
menos atlético e de cabelos esbranquiçados. Tinha um rosto
inteligente e seus gestos possuíam a delicadeza de um
gentleman. Era Mr. Lattuada, chefe do Departamento 77, da
CIA, ramo da agência dedicado a sabotagem e espionagem
internacionais. Casos fora de série, como era, também, o
agente 77Z, Horace Kirkpatrik.
Na realidade, Kirkpatrik era o famoso agente 77Z, fora
de série, um daqueles homens que não se fabricam para um
lugar especial dos serviços secretos. Eles nascem feitos,
apetrechados de qualidades ímpares de inteligência,
discernimento, capacidade para a ação, decisões e reflexos
ultrarrápidos e certeiros. Um homem desses aparece uma
vez, em um milhão de seres humanos. O que vem depois, o
treinamento, as lutas marciais praticadas com a máxima
perfeição e todos os conhecimentos possíveis, a destreza no
manejo de qualquer arma, o profundo conhecimento dos
detalhes da espionagem, na natureza humana, da psicologia,
etc., são complementos que uma organização poderosa,
como a CIA, agrega ao elemento excepcional que assimila.
Esse era o caso do agente 77Z, o mais temido dos espiões,
o mais secreto dos agentes, Máscara Negra, Andróide,
Robô, quando funcionava a coberto do DCA (Department
of Couvert Activities), da CIA. Seus atributos e qualidades
naturais, somados ao aperfeiçoamento que a CIA lhe
imprimia desde o primeiro instante e ao dinheiro que o
tornava um dos milionários mais tranquilos do mundo,
faziam de Kirkpatrik, do irresistível playboy do jet set
internacional, pouco menos que um mago.

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Era esse playboy, atraente sem ser ostensivo, irresistível
para as mulheres, que agora se encontrava diante de seu
chefe, Mr. Lattuada, com uma expressão pouco satisfeita no
rosto simpático.
— Muito pouco, efetivamente. Como alguém pode
desaparecer assim, sem deixar rastro? E por quê?
— Bom, Horace, como alguém pode desaparecer assim,
ainda não sabemos e esperamos que você possa contribuir
para que fiquemos sabendo. Para isso, o Departamento o
convocou.
— Muito lisonjeiro, da parte de vocês — atalhou ele,
com um sorriso irónico.
Mr. Lattuada não prestou atenção para o comentário e
prosseguiu:
— Quanto ao porquê desse desaparecimento, a resposta
já é outra. Herman Schulsz era uma das maiores autoridades
mundiais em armamento nuclear. Cientista laureado com o
prêmio Nobel da Física, era uma presa cobiçada por
qualquer país que desejasse desenvolver seus sistemas
armamentistas nucleares, apesar dos acordos e convênios de
limitação de armas.
— Está pensando em algum país em especial? —
perguntou Kirkpatrik.
— Não, Horace. Não estou pensando em nenhum.
Poderia pensar em muitos, mas não quero arriscar um
palpite que pode estar errado. Pode ser qualquer um e pode
não ser nenhum deles. Entende?
— Acho que sim.
— Muito bem. A verdade é que Schulsz não foi o
primeiro a desaparecer misteriosamente nos últimos
tempos. Antes dele, tinha sumido a doutora Helen Remick.
— A cientista especializada em energia solar?

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— Ela mesma. A doutora Remick notabilizou-se pelos
seus estudos e descobertas, sobre a utilização da energia
solar para quase todas as utilidades que hoje são
desempenhadas pelos combustíveis convencionais.
Segundo o processo dessa cientista, a energia solar poderia
substituir, de imediato, a eletricidade, a gasolina, as
hidroelétricas, até a energia nuclear, em certos aspectos.
— E tudo isso era real, ou não passava de teoria
demagógica, como tantas outras que cada dia aparecem
pelo mundo?
— Infelizmente, era real. Basta dizer que ela possui
uma fazenda no Texas, a cento e vinte quilômetros de
Dallas, onde instalou toda uma complexa aparelhagem, por
ela mesma inventada e com a qual faz funcionar desde os
aparelhos eletrodomésticos de sua casa até uma usina de
tratamento de alimentos macrobióticos. Possui ainda um
automóvel que não sai da fazenda e que funciona apenas
com energia solar, armazenada em acumuladores criados
por ela. Atinge uma velocidade máxima de 120 quilômetros
horários e os acumuladores precisam ser recarregados
apenas uma vez em cada cinco anos.
— Mas isso é uma revolução no inundo atual. Os
árabes...
— Isso mesmo. Os árabes fizeram uma pressão tão
grande, que tudo aquilo está suspenso, aguardando melhor
oportunidade para vir à luz do dia. A política é uma coisa
com muita força, meu caro.
— Sei disso. Mas o que aconteceu com a doutora?
— Um dia saiu de sua fazenda, a caminho de Dallas,
onde esperava pegar o avião para Nova Iorque, e não
apareceu mais. Não chegou a entrar no avião. Simplesmente
desapareceu, sem deixar rastro. Mais ou menos como
aconteceu com o cientista alemão.

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— Esse foi apanhado quando pescava. Sem rastro,
também, não é mesmo?
— Exato. A cerca de duzentos metros do local onde ele
se encontrava, descobriram marcas de pneus de automóvel,
que se dirigiam para Bonn. No entanto, no asfalto
perderam-se as marcas. Estão tentando identificar o carro
pelas marcas dos pneus, mas não acredito que isso leve a
lugar algum. Certamente, trata-se de um carro roubado. No
entanto, no caso de Herman Schulsz, há um detalhe curioso.
Foram descobertas marcas de pés de duas pessoas, além das
do professor, na terra macia da margem do rio. E ambas as
pegadas pertencem a mulheres, jovens e de corpo bem
feito...
— Ei, espere aí. Que tenham descoberto que eram
mulheres e jovens, entendo. Mas garantir que eram de corpo
bem feito, não será ir um pouco longe demais?
— Não. Pela profundidade das marcas, a inclinação e
outras coisas mais, os peritos podem concluir que se trata
de mulheres com cerca de cinquenta e cinco quilos, sem
defeitos físicos externos. Claro que não garantem que sejam
belas, se é isso que o preocupa, meu amigo. Mas que são
perfeitas de corpo, isso eles afirmam.
— Muito bem. Espero que a beleza geral corresponda à
perfeição do corpo...
— Também espero, porque estamos pensando que elas
sequestraram o alemão.
— Sorte dele, se assim for.
— E sua, Horace.
— Minha? Como assim?
— Porque nós vamos fazer o impossível para você ser
sequestrado por elas também.
— Estou entendendo. Não consigo ver como...

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— Muito simples. A doutora Remick estava ainda
lutando com um grave problema em suas descobertas. O
controle da energia solar para substituição da energia
nuclear em instrumentos de alta precisão. Armas de longo
alcance, por exemplo. Os instrumentos cirúrgicos...
— Entendo. Uso pacífico, com a alternativa da
violência, como sempre acontece.
— Exato. Ora, você, cientista obscuro, pouco amigo de
publicidade e reconhecimento público, seguiu o trabalho
dela com devoção e conseguiu aperfeiçoar um método de
controle dessa energia, solucionando definitivamente o
problema da doutora Remick.
— E que método é esse?
— Como eu vou saber? Não sou cientista. Isso é
problema seu. Invente qualquer coisa, pois amanhã você
será entrevistado por Borman Gentle.
— Borman Gentle? O produtor do programa de
televisão mais assistido no país?
— Ele mesmo. Por processos que não interessam agora,
conseguimos fazer com que ele leve ao ar, amanhã, ao vivo,
um programa em que o cientista desconhecido, Horace
Kepplleton, é a estrela. Acontece que Horace Kepplleton,
físico nuclear e verdadeiro apaixonado pela investigação
solar, é você. Tudo está preparado, sua documentação e
bagagem pronta.
— Horace Kepplleton? Muito interessante...
— Kepplleton mantém um laboratório de investigação
e estudo no Alasca, numa região de pesquisa financiada
pelo governo dos Estados Unidos. Na realidade, essa região
de pesquisas existe, só Kepplleton é falso. Ou, melhor, era
falso até ontem. Ontem você nasceu para o mundo. Não sei
se reparou, mas o noticiário nacional da televisão, de ontem
à noite, inseriu já uma foto sua, bem como um ligeiro

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resumo de sua biografia e atividade científica, além da
notícia de que amanhã você estará diante das câmeras de
televisão, sendo entrevistado por Borman Gentle. Espero
que as garotas que levaram Schulsz sejam as mesmas que
raptaram a doutora Remick e que elas gostem de televisão...
— Também espero. Aliás, depois das garantias que seus
rapazes apresentaram, confesso que estou ansioso para ser
sequestrado. Tomara que não mandem marmanjos, desta
vez...
Mr. Lattuada soltou uma gargalhada curta e disse:
— Claro que não vão mandar. Quando o negócio é
mulher, você bate todos os recordes de sorte.
— Eu não diria que seja sorte, apenas. Acontece que eu
tenho o que elas querem. E ofereço de boa vontade...
— Modesto, você. É uma das qualidades que mais
aprecio. Mas vamos ao que interessa. Seu nome consta da
lista de passageiros do voo TWA 375, de amanhã, às nove,
do Alasca para Nova Iorque. Daremos um jeito de você
estar na sala de desembarque, como se na verdade tivesse
chegado nesse aparelho.
— E que faço depois?
— Antes, quer você dizer. Antes de chegar, você
procura disfarçar um pouco sua vitalidade, sua
irresistibilidade, se entende o que quero dizer. Você tem
que parecer um cientista, meio encurvado, precisando usar
óculos para ler, um pouco distraído, os cabelos não muito
bem penteados e as roupas de modelo bem antigo.
Entendeu?
— Acho que sim. Você sabe que farei qualquer
sacrifício pelo meu país...
— Sei disso — acrescentou Mr. Lattuada, com
expressão irônica. — Você está registrado no Palace Hilton,
sob o nome Horace Kepplleton, e tem uma entrevista, ao

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vivo, no estúdio da NYTC, às dez e trinta da noite. Às oito,
alguém irá apanhá-lo no hotel. O resto é com você.
Kirkpatrik olhou a pasta que o chefe lhe estendia.
— Muito interessante. Vou passar esta noite pasta.
— Alguns aspectos da vida de Horace Kepplleton e
notas importantes sobre as pesquisas da doutora Remick.
Dicas para você poder bolar uma teoria sobre o controle da
energia solar em utilização em instrumentos de precisão.
— Muito interessante. Vou passar esta noite lendo esta
droga toda. Talvez eu invente mesmo esse sistema de
controle.
Air. Lattuada riu e fez sinal ao empregado, que se
aproximou, solícito.
— Pois não?
— Traga a conta, por favor.
Cinco minutos mais tarde, os dois agentes da CIA
abandonavam o restaurante chinês, seguindo cada um o seu
caminho.

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CAPÍTULO SEGUNDO

Um caso de escarlatina

A entrevista, ao vivo, do professor Kepplleton, pela


NYTC, rede de televisão de Nova Iorque, foi um sucesso
total. O cientista, um homem ainda jovem, de óculos de aros
pretos e lentes relativamente grossas, estava usando um
temo marrom escuro, de corte antiquado, gola estreita e
calça apertada. Levava um lenço espalhafatoso, azul e
vermelho, no bolsinho superior do paletó, e uma gravata^
amarela. A camisa branca não fora bem passada e algumas
rugas eram visíveis junto do colarinho. Andava levemente
encurvado e tinha a testa ampla com rugas de expressão,
provocadas, sem dúvida, pela deficiência de visão.
No conjunto, Kepplleton não impressionava. Era um
tipo apagado que passaria despercebido no meio de uma
multidão. Em resumo, uma figura diametralmente oposta à
do atraente e irresistível playboy a que a sociedade mundial
estava habituada.
Observando com um pouco de atenção, poderia dizer-
se que ele tinha algo do famoso agente da CIA. Talvez o
brilho metálico do olhar, o cabelo louro, penteado com uma
risca no meio, perfeitamente reta, colado no couro cabeludo
à força de fixador. Tirando isso, ninguém relacionaria o
desconhecido cientista com o galante Kirkpatrik.

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Talvez houvesse um outro detalhe. Sim, aquela forma
gulosa e atrevida de olhar a bela secretária de Borman
Gentle era muito característico no famoso playboy. Mas a
voz, apagada e monocórdica, não condizia com o olhar de
apreciador da beleza feminina que suas pupilas pareciam
indicar. Quem sabe, talvez ele estivesse analisando a
apetitosa morena em termos de relatividade, força
gravitacional, teorias de quantus e coisas assim... Talvez.
A verdade é que a entrevista foi um êxito, pese embora
o fato de alguns círculos científicos se mostrarem bastante
céticos quanto à viabilidade das teorias explanadas pelo
físico americano. Aquele negócio de controlar a energia
solar pelo sistema medamítrico de River Sade, acoplado
com a espastovitose fluido-quântica, não parecia muito
convincente. Na realidade, aqueles termos pareciam até um
tanto suspeitos.
Borman Gentle bem insistira com Kepplleton para que
ele explicasse o que aquilo significava, mas o cientista, com
um sorriso tímido, disse que era o trabalho de longos anos
de estudo e não poderia revelar todos seus trunfos assim,
publicamente. A argumentação lógica do desconhecido
cientista foi aceita sem protestos e, meia hora depois da
entrevista, os telefonemas começaram a chegar ao hotel de
Kepplleton, convidando-o para palestras e recepções,
meetings científicos e industriais.
Cinquenta minutos mais tarde, a Polícia nova-iorquina
tinha estabelecido um cordão de segurança em torno do
hotel e o FBI mandara alguns agentes, disfarçados de
garçons e outros empregados do hotel, para proteger o
cientista que ousara fazer declarações tão arrojadas diante
das câmeras.
Tudo estava correndo maravilhosamente bem para os
planos de Kirkpatrik. Se as garotas que sequestraram os

— 26 —
dois cientistas anteriores pertencessem realmente a mesma
organização bem estruturada, não recuariam diante de
qualquer sistema de proteção, por mais engenhoso que
parecesse. E, afinal, os agentes que pareciam cuidar de
Kepplleton não eram dos melhores, pois já haviam
cometido dois ou três erros que poderiam ter sido fatais...
Sem dúvida, Air. Lattuada havia preparado muito bem
as coisas.

***

Eram sete e trinta da manhã seguinte, quando uma


ambulância foi chamada pelo gerente do hotel, parando sem
barulho nos fundos do edifício. Uma senhora, instalada no
segundo piso, quarto 209, começara a sentir-se mal
subitamente e o médico, chamado para a atender, ordenara
sua remoção imediata para o hospital.
Três enfermeiras e um auxiliar subiram até o quarto
209, onde a Dra. Perkins, que atendera a doente, estava
esperando.
Curiosamente, a presença das enfermeiras com a maca
da ambulância, pareceu ter um efeito curativo sobre a
doente, que logo se levantou da cama e envergou uma bata
branca, igual à que as enfermeiras estavam usando.
Juntamente com elas e a médica, a ex-doente abriu a
porta do quarto e observou os dois homens que se haviam
sentado na saleta daquele andar, lendo o jornal. A médica
fez um sinal com a cabeça e uma das enfermeiras
aproximou-se dos homens.
— Será que poderiam nos ajudar? A doente está
resistindo ao transporte para o hospital, mas a doutora acha
que ela corre sério perigo de vida, se não for operada
imediatamente. Talvez possam nos ajudar...

— 27 —
Os dois homens trocaram um olhar de entendimento e
levantaram-se.
— Muito bem, moça — disse o mais velho. — Veremos
se a gente pode ajudar. Vamos.
Os dois agentes do FBI seguiram a enfermeira e
entraram no quarto 209. Tiveram uma desagradável
surpresa. Quatro mulheres pularam sobre eles,
nocauteando-os em menos de dez segundos. Dois minutos
mais tarde, dormiam profundamente no banheiro do quarto,
sob o efeito de um forte sedativo injetado em suas veias pela
Dra. Perkins.
As quatro mulheres, então, levando a maca da
ambulância, dirigiram-se para a porta em frente, a do quarto
208, precisamente onde estava instala«) o professor
Kepplleton.
A médica abriu a porta e entrou, sem bater, seguida das
enfermeiras e da falsa doente.
— Eu não estou doente, doutora — protestou o
cientista, quando a médica, com o estetoscópio pendurado
ao pescoço, aproximou-se da cama onde ele lia uns
apontamentos.
— Sabemos disso, professor Kepplleton — respondeu
a Dra. Perkins. — Mas um exame geral nunca fez mal a
ninguém. Acontece que viemos trazer um doente que vai
ficar aqui se recuperando de uma operação e aproveitamos
para fazer um check-up no senhor.
— Mas eu não preciso!
Kirkpatrik tentou sentar-se na cama e sua mão pareceu
voar para o botão de chamada, ao lado da cama. No entanto,
por ironia do destino, o botão que apertou foi o do abajur de
mesa de cabeceira... Um engano lamentável.
Quando o cientista se apercebeu disso, as quatro
mulheres tinham caído sobre ele, imobilizando-o, enquanto

— 28 —
a médica, com a maior calma possível, enterrava a agulha
de uma seringa em seu braço esquerdo.
O professor Kepplleton esboçou uma débil resistência e
acabou ficando quieto. A droga estava já fazendo efeito.
— Pronto, companheiras. Ele é todo de vocês.
Coloquem-no na maca e levem-no. Sabem o que devem
fazer, não?
A voz da Dra. Perkins perdera o tom persuasivo que
adotara momentos antes. Parecia mais, agora, um general
comandando seus subordinados, numa operação arriscada,
atrás das linhas do inimigo.
As enfermeiras assentiram com a cabeça e, pouco
depois, o cientista estava deitado na maca, totalmente
coberto por um lençol branco.
Saíram do quarto e fecharam a porta com toda a calma,
empurrando a maca até o elevador.
Quando atravessavam o átrio do hotel, o gerente correu
pra elas.
— Morreu? — perguntou, aflito.
— Não, senhor. Pode ficar tranquilo.
— Então por que leva o rosto coberto?
— Não convém que as pessoas vejam o rosto da
paciente. Não é agradável. E acho bom o senhor não se
evidenciar muito, se quer salvar o hotel. A doente estava
fortemente atacada de escarlatina. Felizmente cheguei a
tempo de evitar que a moléstia se propagasse. Segundo me
disseram, ela deu entrada hoje, no hotel, não?
O gerente estava assustado. Apavorado, mesmo.
Escarlatina em seu hotel! Era o suficiente para encerrar o
estabelecimento durante dois ou três meses. E todos os
hóspedes sumiriam.
— Claro, claro. Ela tinha chegado hoje, de madrugada.
Parecia estar passando bem, quando entrou...

— 29 —
— É sempre assim. As pessoas escondem o mal-estar,
com medo de não serem admitidas no hotel. Não sabem o
que têm. Pensam ser uma indisposição passageira.
— Mas a doutora tem certeza que se trata de...
— Absoluta, meu caro. E não vejo vantagem em você
começar a anunciar isso em altos berros .
— Claro, doutora. Claro. Muito obrigado por sua
colaboração. E, uma vez que garante que a moléstia não
teve tempo de se propagar...
— Não teve, não. Felizmente. Mas acho bom o senhor
trancar o quarto, sem entrar lá dentro, e o manter assim
durante uns quarenta dias. Nunca se sabe até que ponto a
moléstia pode estar contaminando o quarto...
— Acha mesmo? Um quarto fechado quarenta dias...
— Você é que sabe. Se quer arriscar-se a uma epidemia
em todo o hotel, o problema é seu.
— Não, não. De jeito nenhum, doutora. Muito
obrigado.
— Bom, se me permite, a ambulância está pronta para
partir...
— Claro, claro. Desculpe e, mais uma vez, muito
obrigado, doutora.
As enfermeiras tinham já levado a maca com o falso
doente para a ambulância, saindo pelos fundos do hotel,
sem serem incomodadas por ninguém. A Dra. Perkins saiu
pela frente, uma vez que dispunha de seu próprio carro.
Pouco depois, a sirena da ambulância fez-se ouvir e o
veículo contornou o edifício, passando diante da porta do
hotel, já em grande velocidade.

***

O gerente do hotel chamou um empregado e ordenou:

— 30 —
— Feche o 209 sem mexer em nada e traga as chaves
para baixo.
— Não retiro a bagagem?
— Não. Aliás, ela não tinha muita bagagem. Apenas
uma maleta pequena. Tomara que não lhe faça falta.
O empregado subiu até o segundo piso, abriu a porta e
ficou olhando para o interior do quarto 209. Não custava
nada dar uma espiada. Especialmente no banheiro, onde a
doente talvez tivesse deixado perfumes, ou coisas assim.
Não devia ter tido tempo de os pegar...
Com um sorriso satisfeito nos lábios, o rapaz empurrou
a porta do banheiro e estacou.
Olhou para os corpos dos dois homens, com os olhos
muito abertos, voltou as costas e correu escadas abaixo.
Três minutos depois, o gerente do hotel e dois policiais
estavam diante dos corpos dos dois agentes do FBI,
tentando reanimá-los.
Quando o conseguiram, já três outros agentes tinham
chegado. Vieram os colegas, acordando, e, depois de
trocarem um olhar, precipitaram-se para fora do quarto 209,
entrando, numa carreira desabalada, no 208.
Como temiam, o quarto estava vazio. Do professor
Kepplleton, não havia nem rastro.
Mais tarde, o gerente do hotel explicava, pela vigésima
vez:
— Já lhes disse, senhores, como as coisas aconteceram.
A senhora do 209 entrou no hotel eram seis horas da manhã.
Parecia bem. Às sete e trinta, mandou chamar uma médica,
uma tal Dra. Perkins, conhecida dela, dizendo que estava
com muita febre e passando mal. Ofereci os serviços do
médico do hotel, mas ela recusou, dizendo que apenas
aceitaria a Dra. Perkins. Deu-me o número do telefone e eu
chamei-a. Chegou dez minutos depois. Meteu-se no quarto

— 31 —
da doente e, logo em seguida, deu-me um outro número de
telefone, da sua clínica, para eu chamar a ambulância.
Chegou o carro, com três ou quatro enfermeiras, e, uns dez
minutos mais tarde, desceram com a doente na maca.
Estranhei ela vir tapada com um lençol e a médica me disse
que tinha verificado um caso de escarlatina e que tinha
podido chegar a tempo de evitar que a doença se
propagasse. Não havia perigo para o resto do hotel, mas não
valia a pena alarmar os outros hóspedes. Saiu e eu mandei
fechar o quarto, como ela sugeriu. O empregado entrou
aqui, contra minhas ordens, e descobriu os dois corpos no
banheiro...
— Escarlatina, hem? — fez o inspetor Ronaldson, do
FBI. — Escarlatina...
— Foi isso que ela disse. E eu não sou médico. Não
entendo dessas coisas...
— E vocês? — o inspetor voltou-se para os dois agentes
que haviam sidos encontrados no banheiro. — Como foram
parar dentro daquele banheiro?
— Uma enfermeira nos pediu para ajudarmos a
convencer a doente a deixar internar-se. Parece que ela
estava resistindo e o caso era grave. Nós fomos e elas
saltaram sobre nós...
— Elas?
— Sim. As enfermeiras, a doente, a médica, o diabo!
— Hum... Estou entendendo. Depois conversamos, na
Delegacia. Podem ir.
A Polícia e o FBI, apesar dos esforços, não conseguiram
localizar a ambulância, a Dra. Perkins, nem a clínica para
onde teriam se dirigido depois de saírem do hospital.

— 32 —
CAPÍTULO TERCEIRO

Um projeto fantástico

O avião voava a baixa altitude, quase tocando a


superfície do mar. Kirkpatrik acordou, abriu os olhos e
passeou-os em volta. Estava sozinho no avião, segundo
parecia. Pelo menos naquela parte do avião. Ao fundo,
havia uma porta que deveria levar até a cabina de comando
do aparelho. Endireitou-se um pouco e observou melhor o
que o cercava.
Estava sentado num sofá vermelho, de braços. Havia
mais dois sofás iguais e algumas cadeiras de lona,
espalhadas pelo salão. Era um aparelho do tipo executivo.
Um jato de pequenas dimensões, mas muita comodidade.
Pela vigia, avistou o mar. Voavam baixo, certamente para
evitar os m radares de costa. O chão era atapetado, em
amarelo torrado, e um bar, num canto, encostado na
fuselagem, parecia bem fornecido. Havia uma mesa
pequena e baixa no centro do salão, a pouca distância dos
sofás.
Apalpou-se. Não estava ferido. Injetaram-lhe uma
droga entorpecente e o haviam transportado até o avião,
sem ser incomodado. Processo engenhoso e perfeitamente
executado. Tinha que reconhecer que estava lidando com
gente de alto gabarito. E as garotas não eram nada más...

— 33 —
Nesse momento, a porta do fundo abriu-se e uma
mulher de cerca de trinta anos, cabelo cor de cobre e olhos
verdes aproximou-se dele.
— Seja bem-vindo a bordo, professor Kepplleton.
— Onde estou? Que palhaçada é esta?
O cientista parecia realmente indignado.
— Calma, professor. Não se trata de nenhuma
palhaçada. E ninguém vai fazer mal para o senhor. Estamos
sobrevoando o Pacífico, a caminho da Casa Grande, onde
chegaremos dentro de uma hora e meia. Até lá, será bom o
senhor se recuperar. No bar temos todas as bebidas que
possa desejar, desde que não peça um suco de baleia do
Alasca...
— Engraçadinha! Quer fazer o favor de mandar esta
geringonça voltar para trás e me depositar em Nova Iorque?
Estou farto de brincadeiras. Que pretendem, afinal?
— Quando o professor Kepplleton resolver conversar
com sensatez e deixar de insultar o jato de nossa presidente,
talvez possamos chegar a conclusões interessantes.
Kirkpatrik levantou-se e, por um momento, teve
vontade de esmagar o sorriso cínico que a garota tinha nos
lábios. Mas uma atitude dessas não estaria muito de acordo
com o temperamento tímido do cientista que estava
encarnando...
Por isso, avançou até o bar e serviu-se de uma dose de
Bourbon com gelo. Bebeu alguns goles e voltou para o sofá.
A garota tinha-se sentado e olhava para ele com
curiosidade.
— Está se sentindo melhor, professor?
— Um pouco... Como é seu nome?
— Sarah.
— Muito bem, Sarah. Que negócio é esse de Casa
Grande e o que vocês querem de mim?

— 34 —
— Bom, Casa Grande é o nome que damos ao palácio
governamental de Nkyrvos.
— Nkyrvos? Palácio governamental? O que é isso, meu
Deus?
— Como quer a explicação? Da forma como
aprendemos no curso de atualização patriótica, ou como nós
sentimos Nkyrvos?
— Se possível, das duas formas.
— Pois não. Nkyrvos é a nossa pátria. Adotiva, ou por
ação, se preferir. Eu sou israelense. Tenho companheiras
japonesas, americanas, francesas, inglesas, italianas, até
russas. Praticamente de todos os países. Naturalizamo-nos
nkyrvienses. Nkyrvos é uma ilha de cerca de noventa mil
metros quadrados, localizada em pleno Oceano Pacífico, a
oitocentas milhas da costa do Chile. Sua capital e única
cidade, se você conseguir entender o que entendemos nós
por cidade, é Bruntil e tem dez mil habitantes, entre nativos,
dois terços da população, e nós, as naturalizadas e donas da
ilha.
— Muito interessante, essa forma de neocolonialismo.
— Chame-lhe como quiser, professor. Acontece que
Nkyrvos é extremamente rica em ouro. Por uma razão que
não nos foi explicada, quase um quinto da ilha é formado
por areias auríferas. Assim, dispomos de um poderio
financeiro que nos permite concretizar nosso plano. Além
disso, meu país cultiva praticamente tudo o que
necessitamos para nossa alimentação, em que não entra a
carne. Apenas o peixe, ovos e legumes e frutas. Uma
espécie de vegetarianos. Dispomos de quatro aviões, dois
navios de pequeno calado, que abrigamos no único porto da
ilha, devidamente camuflado. Por enquanto, ninguém, no
mundo exterior, conhece nossa terra. Isto é, ninguém aqui
veio e partiu para falar. Entende?

— 35 —
— Receio que sim. E o que pretendem?
— A harmonia do mundo, do universo. Nem que para
isso seja preciso destruir uma boa parte do mundo.
— Interessante. E como vocês sentem essa terra?
— Como o paraíso reencontrado, professor. Dali nós
partiremos para a conquista do mundo. Transformaremos
os homens, criaremos uma nova sociedade, acabaremos
com a guerra, a maldade, a injustiça, as desigualdades
sociais, as classes, as diferenças de raça, todas essas coisas
que aviltam a humanidade. Em Nkyrvos temos liberdade
total, paz, harmonia, respiramos ar puro e nos amamos uns
aos outros. As únicas usinas de que dispomos são as
nucleares e as de energia solar, onde o senhor vai colaborar.
— E quem lhe disse que vou fazer isso, mocinha?
— Fará, professor. Nós temos meios para o obrigarmos
a colaborar. Depois o transformaremos num homem
diferente, num ser superior, capaz de viver a vida que todos
podemos viver. Verá que acabará amando esta terra, ainda
que, no início, seja forçado a trabalhar por ela.
— Você está louca. Diga-me, vocês têm alguma coisa a
ver com o desaparecimento da doutora Remick e, mais
recentemente, do professor Schulsz? Li nos jornais que eles
desapareceram misteriosamente e estou tentando ligar uma
coisa com outra...
— Claro que temos, professor. O senhor é muito
inteligente. Claro que não foi o nosso grupo quem os trouxe
para cá. Raramente o mesmo grupo executa duas ações no
exterior, consecutivamente. Mas esses dois seus colegas
estão em Nkyrvos. E bem, posso garantir. A doutora
Remick, aliás, já aderiu totalmente a nossa causa. O
professor Schulsz também o fará em breve, bem como o
senhor, professor Kepplleton.

— 36 —
— Vocês estão loucos. E o chefe dessa loucura, quem
é?
— Não temos um chefe, professor. Apenas uma
presidente, que dirige o Grande Conselho. Esse Grande
Conselho é nosso órgão deliberativo e judiciário.
— Uma presidente? Essa é nova...
— Por quê? Não acredita na inteligência da mulher?
— Não é bem isso. Simplesmente, prefiro ver uma
garota, se for como você, deitada numa cama, ao meu lado,
nua e bela, em vez de saber que o destino de um país, ainda
que seja de brincadeira, como é o caso de vocês, está nas
mãos dela...
— Está enganado, professor — a garota tinha-se
ruborizado. — A mulher serve para algo mais do que isso.
E a prova é que em Nkyrvos todos os lugares importantes,
à exceção dos técnicos, alguns apenas, são ocupados por
mulheres. Todo o Grande Conselho é composto por
mulheres. A chefia dos serviços de segurança, quase
desnecessários, pertence a mulheres. Nosso exército, pronto
para qualquer intervenção, inclusive em caso de agressão
exterior, é composto, em setenta e cinco por cento dos
casos, por mulheres. Os homens trabalham nas secretarias
militares. Aliás, quase toda a população feminina de
Nkyrvos pertence ao exército, em mobilização permanente.
Só não usamos uniformes convencionais. Treinamos e
combatemos com roupas leves e informais.
— Espere aí. Combatem?
— Exato. Como julga que dominamos os nativos? E
como pensa que trazemos para aqui as pessoas de que
precisamos? Temos que lutar nas cidades do mundo
exterior, como aconteceu agora, para trazermos você,
professor. Simplesmente, fomos treinadas para lutar, tão

— 37 —
bem como qualquer homem, mas sem matar. Só acabamos
com uma vida em último caso.
— Isso já é um consolo para mim — sorriu Kepplleton.
— Posso me recusar a trabalhar, sem correr riscos.
— Há punições bem mais terríveis do que a morte,
professor...
— Entendo. Mas outra coisa. Você falou em usinas
nucleares. Para quê, numa terra do tamanho de Nkyrvos?
— Também lhe disse que tencionamos conquistar o
mundo, professor. E, infelizmente, só podemos fazer isso
pela força, pela violência. Vamos ser obrigadas a lançar
uma bomba de potência controlada em algumas regiões,
para fazermos vocês entenderem que a força e o poder estão
do nosso lado.
Kirkpatrik estava assombrado. Em pleno século XX,
com nações albergando bilhões de pessoas, aparece um
grupo de loucas, um simples milhar, ou talvez nem isso,
tentando conquistar o mundo, querendo endireitar o que não
tem conserto. E essa loucura, sustentada por uma ironia do
destino, que deixou, entre as raríssimas ilhas desertas, uma
extraordinariamente rica em ouro. Logo a que foi ocupada
por esse punhado de mulheres fanáticas e loucas. Com suas
ideias dementes, essas mulheres poderiam provocar
tragédias incalculáveis. Alguém teria que as deter. E esse
alguém, no momento, só poderia ser o agente 77Z.
— Estou abismado, Sarah. A idéia de vocês só pode
levar a uma tragédia de grandes proporções. Vocês
acabarão sendo todas destruídas e, dessa forma, os sonhos
de perfeição e regeneração do mundo que acalentam.
— Está enganado, mais uma vez, professor. Nós
acabaremos dispondo de todo o poderio existente sobre a
terra. Teremos conosco as maiores inteligências do mundo,
voluntária ou involuntariamente. As grandes riquezas

— 38 —
estarão sob nosso controle e dominaremos o mundo.
Faremos um mundo melhor e os que sobreviverem nos
agradecerão.
Nesse momento, a porta voltou a abrir-se e uma outra
garota, a doente do hotel, apareceu. Teria uns vinte e cinco
anos, era loura e possuía um corpo tipo mignon, bem feito.
Com um sorriso nos lábios carnudos, aproximou-se de
Kirkpatrik:
— Está gostando de nossa hospitalidade, professor?
— Digamos que estou ainda muito surpreendido para
poder dizer se gosto disso que vocês chamam de
hospitalidade.
— Vai gostar, sim. Nós nos encarregaremos de fazer
com que goste.
A firmeza, a confiança que aquelas mulheres
demonstravam em suas ideias era simplesmente
impressionante. Kirkpatrik sorriu e disse:
— O tempo dirá, beleza. Como é seu nome?
— Ingrid. Sou dinamarquesa. Ou era, se preferir.
— Entendo, Ingrid. Você é muito bonita.
— Obrigada. O senhor até que é gentil, para um
cientista meio quadradão, professor... Bem, vinha apenas
informa-lo que vamos baixar em Nkyrvos dentro de dez
minutos. Agradeço que aperte o cinto de segurança.

— 39 —
CAPÍTULO QUARTO

A pantera de punhos de renda

Realmente, dez minutos depois, o pequeno jato tocava


o chão de Nkyrvos. Enquanto sobrevoavam a ilha,
Kirkpatrik pôde observar que grande parte dela era coberta
por densa vegetação, de um verde luxuriante, salpicado aqui
e ali por clareiras de terra amarelada. A parte sudeste da ilha
quase não tinha vegetação. Era uma região arenosa,
certamente onde se encontravam as minas de ouro.
Bruntil, a capital de Nkyrvos, vista do ar, era algo
impressionante. Impressionante apenas pelo tipo de
construções que ali abundavam. Eram de colmo, as casas,
mas construídas de forma que transformavam uma vasta
área num autêntico jardim de colossais proporções. Notava-
se claramente a mão da mulher em tudo aquilo. Kirkpatrik
sorriu da ingenuidade perigosa das nkyrvicnses.
No meio da capital, uma cidade pequena, um edifício
maior, também de colmo, redondo, tinha no mastro uma
bandeira hasteada. Sem dúvida, a bandeira do país. Era toda
branca, com uma risca azul cortando um dos cantos.
O avião imobilizou-se, finalmente, na pista, e o
professor Kepplleton foi escoltado até a porta, por Ingrid e
Sarah. Uma escada tinha sido encostada ao aparelho e o
agente 77Z começou a descer.

— 40 —
Na placa de desembarque, um grupo de cinco mulheres,
duas delas armadas de metralhadora, estavam aguardando a
chegada do visitante.
Kirkpatrik compôs a expressão indignada que seria
peculiar a um cientista numa situação daquelas e avançou
para o grupo.
Uma das mulheres, com cerca de cinquenta anos,
cabelos levemente esbranquiçados e um brilho intenso nos
olhos negros, veio ao encontro dele.
— Seja bem-vindo a Nkyrvos, professor Kepplleton.
Meu nome é Renée e estou encarregada de preparar
instalações condignas para o senhor.
— Continuo achando tudo isto uma palhaçada
completa, minha senhora. Será que neste... país, como
vocês dizem, existe uma autoridade?
— Claro que existe autoridade, professor. Pode ficar
tranquilo a respeito disso.
— Então quero ver essa autoridade imediatamente. O
que vocês estão fazendo é uma prepotência inadmissível,
infringindo todas as leis internacionais.
— Tenha calma, professor Kepplleton — aconselhou
Renée, segurando o cientista por um braço. — Quero que
conheça uma pessoa. Ou melhor, que reveja uma colega
sua.
Avançaram até o grupo, que havia ficado a poucos
metros, e Renée estendeu a mão para uma mulher jovem
ainda, uns trinta anos, no máximo, ruiva, levemente
sardenta, de olhos verdes. Vestia apenas um short e uma
mini-blusa, que deixavam adivinhar um corpo forte e
perfeito, flexível, suave.
— A doutora Remick. O professor Kepplleton.
Kirkpatrik estendeu a mão e estreitou os dedos finos e
cuidados da cientista.

— 41 —
— É um prazer encontrá-la, doutora. Conheço
profundamente seu trabalho, mas não tinha a honra de a
conhecer pessoalmente. Sabe, minha quase reclusão no
Alasca deixa-me um tanto afastado das pessoas. No entanto,
isso não me impede de a admirar pelo seu trabalho
espetacular. E, agora, pela sua beleza, também.
— Como cientista, o senhor é muito gentil e galante,
professor.
Hellen Remick tinha uma voz profunda, quente e
musical. Seus lábios cheios moviam-se pouco, mas as
palavras saíam com clareza.
— Sua beleza é, realmente, inspiradora, doutora
Remick.
— Ora, professor. Uma vez que somos colegas e vamos
trabalhar juntos, será bom acabarmos com as cerimônias
desnecessárias. Pode me tratar por Hellen e eu o chamarei
de Horace. De acordo?
— Muito bem. Para mim, é um prazer.
— Vejo que vocês dois vão entender-se às mil
maravilhas, meus queridos — interrompeu Renée. —
Desculpem-me, mas precisamos ir. Nossa presidente está
ansiosa para conhecer o ilustre visitante.
Com uma suave pressão no braço, Renée encaminhou o
professor Kepplleton na direção de um pequeno ônibus,
estacionado a uns cinquenta metros. Entraram e Hellen
sentou-se ao lado de Kirkpatrik. O contato da pele de sua
perna era quente e agradável.
— Já reparou bem neste ônibus, Horace? — perguntou
ela, inclinando-se mais sobre Kirkpatrik.
— Estou reparando — disse ele, simulando observar o
veículo com atenção. — Movido a energia solar...
— Exatamente, Horace.

— 42 —
— É uma das mais notáveis descobertas da doutora
Remick — interveio Renée. — Mas que falta de educação
a minha, querido professor. Não lhe apresentei Bruni, a
secretária da doutora Remick.
Renée tinha alongado o braço direito e passara-o sobre
os ombros de uma garota de óculos de grossos aros de
tartaruga, narizinho arrebitado e olhos negros, profundos.
Tinha os lábios finos e o corpo devia ser o de uma boneca,
a avaliar pelo que a bata branca deixava ver.
— Muito prazer, professor Kepplleton — disse a
garota, com um sorriso tímido, estendendo a mão.
Kirkpatrik apertou os dedos da garota, fazendo uma
pressão intencional, ao mesmo tempo que seus olhos
mergulhavam nos da garota. Bruni ruborizou-se e
Kirkpatrik disse:
— Se todos os habitantes desta ilha forem belos como
você, acho que vou gostar disto...
O rubor aumentou, no rosto de Bruni, e Kirkpatrik
soltou-lhe a mão.
— Bruni é uma menina muito inteligente — atalhou
Rachel. — Tem sido de muita utilidade para mim. Espero
que possa servir-lhe também, Horace.
— Tenho certeza que vou usá-la bastante — concordou
ele, com um novo olhar, carregado de segundas intenções.
— Apesar de não estar muito certo de vir a trabalhar aqui.
— O que é isso, professor Kepplleton? O senhor é nosso
convidado, mas sua estada em Nkyrvos tem um objetivo.
Precisamos de seus conhecimentos científicos. Certamente
não vai deixar de nos ajudar, não é?
— Não gostei muito do modo como fui convidado,
minha senhora.

— 43 —
— Que, minha senhora, professor. Para o senhor, serei
simplesmente Renée. Espero que me dê a honra desse
tratamento, professor.
— Não era sobre isso que eu estava falando, Renée. Eu
dizia que não estou disposto a trabalhar num plano louco,
com o qual não concordo e em» que não acredito. Além
disso, não fui previamente consultado, como seria da mais
elementar ética profissional.
— Quanta ingenuidade vocês possuem, os cientistas...
Claro que o senhor vai colaborar conosco, professor.
Afinal, nossos objetivos são meritórios. Não está
trabalhando para uma causa aviltante, mas sim para uma
luta nobre e humanitária. A doutora Remick poderá lhe
explicar melhor essas coisas, falando sua própria
linguagem. Ela aderiu por completo a nossa obra. E não está
arrependida. Ou está, doutora?
Na pergunta final de Renée notava-se uma leve ameaça,
que não passou despercebida a Kirkpatrik.
— Claro que não, Renée. Mas acho que seria bom você
deixar o professor Kepplleton adaptar-se à nova realidade,
antes de entrar em questões mais profundas.
— Creio que tem razão, doutora — assentiu Renée. —
Perdoe-me a rudeza, professor. Ah, chegamos.
O ônibus detivera-se diante do edifício grande que
Kirkpatrik avistara do ar. Era a sede do governo, pelo que
entendera.
— Por aqui, professor — disse Renée, saindo e
mostrando o caminho.
Era uma construção de colmo, com o formato de um
hexágono. Tinha portas em todas as faces. Portas que eram
enormes aberturas através das quais se divisava o interior,
escuro e fresco.

— 44 —
Entraram por uma delas, sempre acompanhados pelas
duas garotas da segurança, com as metralhadoras
firmemente empunhadas.
O interior da Casa Grande era na verdade um ambiente
fresco, em comparação com o exterior.
Uma cortina de bambu separava a galeria de entrada das
dependências interiores.
Renée afastou a cortina e convidou Kirkpatrik a entrar.
— Passe, por favor. Madeleine estava esperando o
senhor.
— Madeleine?
— Exato, professor. Madeleine é nossa atual
presidente. Digamos que ela exerce as funções de um
primeiro-ministro nas sociedades do exterior. Um
mandatário das decisões do Grande Conselho.
— Acho que entendi — assentiu o falso cientista,
avançando pela abertura tapada com a cortina de bambu.
Kirkpatrik achou-se numa sala ampla e iluminada por
chapas de uma fibra plástica azulada, que cobriam extensas
aberturas no teto. Uma mesa grande, em semicírculo, estava
colocada em frente da porta. Uma mulher sentava-se atrás
dessa mesa imponente. Havia cadeiras de colmo e pequenas
mesas espalhadas pela sala, bem como diversas estantes
repletas de livros.
Sobre a mesa grande, Kirkpatrik notou três telefones e
um pequeno aparelho de televisão. Um quadro com vários
botões ocupava um dos cantos da mesa.
A mulher levantou-se e estendeu a mão direita na
direção do cientista.
— Meu caro professor Kepplleton! Não imagina o
prazer que tenho em conhecer o senhor — disse ela, com
uma voz cálida.

— 45 —
Kirkpatrik deu mais dois passos e estreitou a mão
delicada que tinha na sua frente. Seus olhos percorreram
rapidamente a figura impressionante que o contemplava
com um olhar luminoso nas pupilas muito azuis, quase
brancas. Os cabelos, cor de trigo, pendiam até quase a
cintura, passando sobre os seios eretos e firmes. O
estômago achatado ligava-se harmoniosamente com os
quadris e coxas arredondadas, prolongando-se por duas
pernas magnificamente torneadas, até onde o famoso
playboy podia avistar. Madeleine era, sem dúvida, um dos
mais espetaculares espécimes de fêmea que Kirkpatrik já
encontrara. Tudo nela respirava sensualidade, doçura,
desejo reprimido violentamente.
— Perdeu a fala, professor? — era a voz de Renée que
o despertava com ironia.
— Estou tentando entender — murmurou o professor
Kepplleton.
— Entender? — fez Madeleine.
— Sim, entender como uma mulher como você, o sonho
de qualquer macho, se encontra aqui, sentada atrás de uma
mesa dessas, vivendo como um vulgar títere de aldeia. E
devo confessar que não consigo compreender.
— A primeira parte de sua observação é muito
importante, professor. Mas considero a segunda de uma
grosseria surpreendente. Serei tudo o que o senhor quiser,
menos títere de aldeia. Nem sou ditadora, nem estamos
vivendo numa aldeia. Eu pouco mando, na verdade. Todas
as nossas decisões são tomadas em conjunto por um Grande
Conselho, reunindo perto de trinta pessoas. E nenhuma
medida é adotada, se não for aprovada por uma maioria de
dois terços de votos do Conselho. Acha isso um sistema
ditatorial? Um sistema deliberativo em que as decisões são
tomadas por cerca de três por cento da população?

— 46 —
— Lógica feminina, isso? — sorriu ele.
— Pura verdade, professor. Veja o seu país, por
exemplo. Qual a percentagem de pessoas que tomam
decisões sobre a comunidade? Um por cento? Talvez nem
tanto...
— Bom, não vamos entrar em discussões demagógicas,
garota.
— Tenho que lhe pedir que meça suas palavras,
professor. O senhor não está em um bar do Alasca, ou do
bairro negro de Nova Iorque — interveio Renée. — O
senhor encontra-se diante da presidente do Conselho de
uma nação evoluída. Não se confunda com o fato de sermos
mulheres, professor Kepplleton. Quando é preciso,
sabemos ter a dureza e firmeza de atitudes de um verdadeiro
déspota.
— Vocês estão todas loucas — quase berrou Kirkpatrik.
— Parem com esta palhaçada enquanto é tempo. Voltem
para seus lugares naturais, na cama, nas capas de revistas,
no cinema ou apenas como donas de casa. Por que bancar
as duronas, quando (temerão e fugirão ao primeiro sinal de
perigo?
Se Kirkpatrik esperava fazer as mulheres perderem a
calma, enganou-se. O sorriso complacente de Madeleine
era uma prova disso. Limitou-se a abrir os braços numa
atitude de impotência, mantendo um sorriso de
superioridade:
— Meu caro professor, lamento muito que sua
mentalidade continue tão atávica como a de seus
companheiros masculinos em qualquer parte do mundo.
Tinha esperanças de que o senhor, como eminente cientista,
possuísse uma inteligência mais evoluída, menos...
quadrada. Mas estou vendo que me enganei. Guardas!

— 47 —
A última palavra da presidente de Nkyrvos foi
pronunciada com firmeza, em tom ligeiramente alto.
As duas garotas que haviam escoltado Kirkpatrik desde
o avião pousaram as metralhadoras sobre uma mesa e
avançaram para Kirkpatrik, de mãos nuas.
A menos de cinco metros do agente 77Z, uma delas,
morena clara, iniciou uma curta corrida, elevando-se nos
ares com a graciosidade de uma pantera, num salto
prodigioso. Suas pernas bem-feitas fecharam-se em torno
do pescoço do surpreendido agente fora de série da CIA.
Antes que o corpo da garota começasse a descer, em direção
ao solo, uma torção violenta de quadris puxou o atônito
playboy para a esquerda, fazendo-o voar como uma pena.
O gancho de pernas fora perfeito e Kirkpatrik caiu
espalhafatosamente a três metros do local onde se
encontrava.
Aturdido, começou a levantar-se. Ainda não estava
totalmente erguido, quando um autêntico vendaval de
carnes femininas caiu sobre ele, puxando-o para cima.
Kirkpatrik sentiu-se rodopiar sobre a segunda gata da
metralhadora, indo cair perto do lugar de onde saíra
momentos antes, exatamente com a cabeça debaixo do pé
da primeira guarda.
Sentindo-se dolorido e meio ridículo, o agente fora de
série da CIA deixou-se ficar imóvel, voltando os olhos para
Madeleine, que saíra de detrás da mesa e o contemplava
com sarcasmo.
— Quer que as pobrezinhas e medrosas garotas
continuem, professor? Ou prefere abandonar essa ridícula
atitude jacobinista e sentar-se diante de nós, para
discutirmos, de igual para igual, seu futuro nesta ilha?
Kirkpatrik respirou fundo e fechou os olhos.

— 48 —
A situação era delicada. E comprometedora. Que diriam
muitas garotas que ele conhecera, se o vissem naquele
estado? E Mr. Lattuada? Nem um momento passou-lhe pela
cabeça reagir. Não estava preparado para aceitar a idéia de
bater em garotas como aquelas. Mas tinha que se convencer
do contrário, pois a verdade é que elas eram um perigo para
a humanidade.
— Muito bem. Vocês ganharam, por agora. Vamos
conversar — disse.
— Vejo que sua inteligência não se perdeu por
completo, professor. Podem soltá-lo — concluiu
Madeleine.
A garota retirou o pé de cima do ouvido de Kirkpatrik
e ele levantou-se lentamente, apanhando os óculos que
haviam voado junto com ele. Colocou a armação de vidros
não graduados no rosto, alisou um pouco as roupas e
encarou a presidente da ilha.
— Muito bem, senhora presidente. Estou à sua
disposição.
— Obrigado, professor. Creia que me repugna ter que
usar processos violentos para convencer as pessoas. E nós
podemos ser muito desagradáveis. Nunca confie demais na
aparência delicada e feminina de minhas garotas. Elas são
autênticas feras, quando é preciso. Foram treinadas por
grupos especialistas de comandos americanos. E o senhor
sabe como esses homens são terríveis em luta. Pois posso
garantir que minhas garotas foram preparadas para vencer
qualquer um de seus instrutores.
— Acredito, senhora presidente. A demonstração foi
concludente.
— Pode me tratar de excelência. Por enquanto. Quando
virmos que está disposto a colaborar em nossa obra, serei
apenas Madeleine.

— 49 —
— Muito bem... excelência. E agora?
— Agora, professor, o« senhor vai descansar. Renée lhe
mostrará seus aposentos. Mais tarde, conversaremos. Ficará
instalado no pavilhão dos cientistas, juntamente com o
professor Herman Schulsz e dois outros físicos. Depois o
mandarei chamar.
Renée adiantou-se e segurou Kirkpatrik por um braço.
— Vamos, professor?
— Tenho escolha? — perguntou ele, com um sorriso
irônico.
— Na realidade, não — respondeu Madeleine. — Logo
mais, a doutora Remick certamente deverá querer falar com
o senhor, professor. Não é verdade, doutora?
— Claro, Madeleine. Claro. Logo mais.
— Muito bem, Renée. Mande entregar roupas para o
professor Kepplleton. Veja o número dele e arranjem
roupas um pouco menos tristes e apagadas. Mas não o
transformem num fantoche. Quero que ele se apresente
aqui, quando o chamar, como um homem bem vestido. Até
que sua figura deve ser elegante, não concorda?
Renée olhou para o cientista com expressão avaliadora
e concordou:
— Acho que tem razão. Podemos torná-lo> bem mais
apresentável.
— Ótimo. Podem levá-lo. Ele voltará aqui para a
reunião das seis horas da tarde.
— Muito bem, Madeleine. Vamos, professor.
Uma leve pressão no braço indicou a Kirkpatrik que
deveria seguir a garota de metralhadora que se tinha
colocado na frente.
A segunda guarda fechava o incrível cortejo.

— 50 —
CAPÍTULO QUINTO

A primeira suspeita

O pavilhão dos cientistas era uma conscrição retangular


de um só andar, como todas as da ilha, aliás, localizada a
cerca de mil metros da Casa Grande. Uma paliçada de
troncos, perfeitamente aparelhados, cercava toda a casa.
Parecia um forte do velho oeste americano.
O portão largo era guardado por dois homens armados
de metralhadora. Foi uma surpresa para Kirkpatrik,
encontrar aqueles dois exemplares do sexo forte ali, em
atitude militar, no meio das mulheres...
— São os animais de estimação de vocês? — perguntou
o agente 77Z, apontando para os dois guardas.
— Muito espirituoso, professor. No entanto, não sei se
já lhe disseram que não há apenas mulheres nesta ilha. É
lógico que não podemos viver sem os homens. Afinal, são
necessários como instrumentos de reprodução. Além disso,
pela sua constituição física bem forte, em alguns casos,
podem ser muito úteis em certos trabalhos mais pesados.
Vai encontrar muitos, professor. E não estão descontentes,
se isso o anima.
— Entendo...
Quando passaram pelo portão, os dois guardas
perfilaram-se com aprumo, ao estilo mais perfeito de

— 51 —
qualquer exército. Renée fez um gesto com a mão e eles
ficaram à vontade.
— Interessante — comentou Kirkpatrik. — Você toca
algum apito especial?
— Sou oficial de segurança, professor. Desculpe não
lhe ter dito antes. Na verdade, sou a responsável pela
segurança do país. Digamos, em termos de mundo exterior,
que sou o ministro da Defesa, interna e externa. Deu para
entender?
— Perfeitamente, general.
— Brigadeiro, professor.
Kirkpatrik não pôde evitar um sorriso zombeteiro. No
entanto, a situação preocupava-o bastante.
— Força Aérea?
— Pertenci à Força Aérea de meu país de origem,
professor. Era capitão aviador de Israel, no tempo de Golda
Meir. Quando ela foi afastada, ingressei nas fileiras de
Nkyrvos. Naturalizei-me e esta é minha pátria,
naturalmente.
— Vocês são uma surpresa total para mim, brigadeira.
— Ainda terá muitas surpresas, professor. Aqui
estamos.
Tinham chegado ao pavilhão e Renée empurrou uma
porta de madeira. Encontraram-se numa ampla sala de onde
partiam três corredores.
— Os quartos ficam neste corredor — disse Renée,
apontando o da esquerda. — Neste, à direita, ficam a sala
de refeições, a sala de lazer e uma dependência de cultura
física. Ali poderá praticar seus exercícios de ginástica, se
tem esse hábito. No último corredor, possuímos um
laboratório de física e química apetrechado com tudo o que
possa precisar, uma biblioteca^ científica com todas as

— 52 —
obras que necessite e uma pequena sala de meditação e
retiro.
— Impressionante!
— É, na verdade, impressionante. O senhor encontrará
aqui todas as condições de trabalho que podem tornar sua
vida um autêntico paraíso. Espero que acabe gostando. Seu
quarto é o primeiro do corredor.
Detiveram-se diante da porta do quarto, onde uma placa
havia sido já afixada:

PROFESSOR KEPPLLETON — Física

— Vejo que estavam me esperando — sorriu o cientista.


— É verdade, professor. Nós somos um povo
organizado.
—Estou vendo.
Entraram no quarto, composto por duas peças amplas e
um banheiro. Todo o mobiliário era de um gosto simples,
confeccionado à base de bambu e madeira. Não se via uma
peça de ferro. O dormitório possuía uma ampla janela,
tapada apenas por uma diáfana cortina.
— Não trancam os convidados de vocês? Não receiam
que eles fujam? — perguntou, apontando para a janela.
— Ora, professor. Sejamos realistas. Para onde
fugiriam? E como? A nado? Não se esqueça de que está
numa ilha. Além disso, para evitar aborrecimentos desse
tipo, toda a cerca é vigiada, permanentemente, por um
circuito de televisão interna que está sob observação no
comando de segurança vinte e quatro horas por dia. Em
todos os segundos, professor.
— Muito engenhoso, realmente. Bem, e que devo fazer
agora? ...

— 53 —
— No momento, sugiro que tome um banho e repouse
um pouco. Logo conhecerá seus colegas cientistas. Eles
estarão aqui às cinco horas. São, neste momento, duas e
quinze. Às cinco, mandarei chamar o senhor, professor.
Deseja comer alguma coisa?
— Não. Muito obrigado, brigadeira.
— Tem um bar, aqui na sala, com diversos tipos de
bebida. Esteja à vontade.
— Até logo. Ah, quando mandar me acordar, veja se
mandam uma soldada bem simpática. Não gostaria de ser
despertado por um sargento, mesmo feminino, de bigode e
voz de trovão...
— Pode deixar, professor. É um desejo que poderei
satisfazer para o senhor.
— Muito gentil...
Renée voltou-se e saiu da suíte.
Kirkpatrik sentou-se no sofá da sala de entrada, sem se
incomodar em fechar a porta. Um sorriso amargo apareceu
em seus lábios.
Era inacreditável o que estava acontecendo. Uma ilha
quase completamente povoada por mulheres, fanáticas,
dispostas a endireitar o mundo. E, o que era mais grave,
com poder e recursos que lhes permitiam provocar tragédias
de proporções incalculáveis. Claro que não poderiam
concretizar seu plano louco, mas abalariam o mundo, se
lançassem uma só das bombas de que dispunham, ou
podiam fabricar. Era preciso fazer alguma coisa,
urgentemente. Aquela loucura tinha que ser detida de
imediato. Milhões de pessoas estavam em perigo, em vários
pontos do globo.
No entanto, não podia precipitar-se. As coisas tinham
que ser feitas com inteligência e firmeza.

— 54 —
Por isso, resolveu seguir o conselho de Renée. Entrou
no banheiro e trancou a porta. Retirou o temo desalinhado
que estava usando e a camisa de corte antiquado. Por
debaixo dessas peças apareceu uma malha negra, colada em
seu corpo atlético.
Sabendo que poderia ser sequestrado de um momento
para o outro, tivera o cuidado de andar sempre com a malha
negra, vestida por debaixo do temo. Num bolso do paletó,
repousava a meia máscara de cetim preto. Em qualquer
momento, o perigoso Máscara Negra estaria pronto para
atuar.
Tomou um banho frio, pois a temperatura subira
bastante em Nkyrvos. Perguntou a si mesmo se o sistema
de aquecimento da água seria ativado pela energia solar e
acabou concluindo que sim. Era impressionante o que
aquelas mulheres estavam fazendo na ilha deserta até pouco
tempo atrás! E o mundo mantinha-se alheio à ameaça...
Depois de se enxugar, enrolou a toalha na cintura e
dobrou cuidadosamente a malha negra, escondendo-a atrás
de um armário do banheiro, junto com a meia mancara.
Pegou suas roupas antiquadas e abriu a porta.
Uma surpresa o esperava no quarto.
Sarah estava sentada na cama, com um copo de
Bourbon na mão esguia. O cabelo cor de cobre estava solto,
tombando-lhe sobre os ombros, e as pupilas verdes tinham
um brilho estranho.
— Trouxe suas novas roupas, professor — disse ela,
apontando para uma calça azul claro e um safari de cor
creme, que repousavam nas costas de uma cadeira.
— Muita gentileza, Sarah — sorriu ele.
— Nessa caixa tem roupa íntima. Espero que goste. Fui
eu que escolhi no armazém.
— Então tenho certeza que gostarei. Você é amor.

— 55 —
Sarah estendeu-lhe o copo de Bourbon com gelo,
mantendo os olhos verdes presos em seus músculos
poderosos e seu tórax moreno. Passou a língua pelos lábios
vermelhos e sorriu:
— Está gostando mais de nós, professor?
— De você eu sempre gostei. Não me agradou foi o
modo como me... convidaram.
— Entendo. Mas verá que ainda vai adorar isto.
Sarah fez um gesto amplo com o braço direito, enquanto
Kirkpatrik se sentava ao lado dela, na cama, sorvendo
pequenos goles de Bourbon. Olhava para ela fixamente.
— Você tem algum cargo especial, aqui em Nkyrvos?
— Não, professor. Digamos que sou uma obreira da
grande colmeia. Acredito em nosso ideal e faço o que me
mandam. Tento executar minha tarefa da melhor forma
possível.
— O que você fazia em Israel?
— Era enfermeira do exército. Conheci lá Renée e ela
me convidou para vir trabalhar em Nkyrvos. Não me
arrependo de ter aceitado.
— Você sabe que é uma garota espetacular? Qualquer
homem se sente tentado aos maiores pecados diante de
você.
A voz do falso cientista era quente e insinuante. Sarah
começou a sentir uma estranha onda de calor subindo-lhe
pela espinha, quase lhe queimando o rosto. Umas picadas
atingiram-lhe a ponta dos seios e ela remexeu-se. inquieta.
Kirkpatrik avançou o rosto na direção dela e seus lábios
pousaram sobre a boca da bela israelense. Ela tentou
afastar-se, mas essa atitude durou apenas um segundo.
Logo, com um suspiro de sofreguidão, passou os braços
pelo pescoço do louro cientista e apertou seu corpo contra
o dele.

— 56 —
A porta fora fechada e os dois estavam totalmente sós.
O irresistível playboy exerceu uma leve pressão nos
ombros de Sarah e ela deixou-se tombar sobre a cama. Com
a rapidez e habilidade de um perito, Kirkpatrik despojou-a
do short minúsculo que estava usando e da blusa que mal
lhe cobria o tronco. A própria Sarah se encarregou de fazer
descer as calcinhas pelas pernas. Os lábios do expert fora
de série traçaram uma linha sensual na pele da garota,
começando nos lábios e terminando na caverna do prazer
da bela garota. Como dois montes de sacrifícios à deusa do
amor, os seios de Sarah erguiam-se ao encontro da boca
conhecedora do tímido cientista. As mãos de Sarah
trabalhavam febrilmente, procurando o instrumento da
masculinidade do atlético americano. Encontrá-lo e senti-lo
na palma de sua mão foi a sensação mais gratificante que a
jovem israelense experimentara nos últimos meses.
Sarah estava realmente necessitando de um homem. E,
se aparentemente o professor Kepplleton não era o mais
indicado, a verdade é que em breve a garota se convenceu
de que estava enganada. Kepplleton era espetacular.
Profundo conhecedor dos segredos da excitação, arrancava
de seus lábios gemidos de prazer, até a conclusão total
daquela sublime sinfonia.
Sarah deixou-se cair para um lado, fechando os olhos e
respirando, apressada. Sentia-se exausta, como se tivesse
sido esvaziada de todo o peso e ardência que sentia no
corpo. Estava saciada, pelo momento.
— Você também é uma surpresa, professor —
murmurou, passando uma perna sobre o corpo musculoso
de Kirkpatrik.
— Mérito seu, querida. Qualquer músico é um virtuoso
com um bom instrumento...

— 57 —
— Digamos que eu acredito. Posso fazer uma pergunta,
que me vem atormentando desde que conversamos no
avião?
— Claro, boneca. Pergunte.
— Você é mesmo cientista?
Kirkpatrik sentiu uma onda de calor subir-lhe ao rosto.
Ficou tenso por um segundo, mas logo relaxou.
— Que é que você acha.
— Não sei. Quero acreditar que sim. Mas o seu tipo
físico não está de acordo com a idéia que fazemos de um
cientista. Você é um atleta.
Atraente, apesar de tentar esconder isso debaixo dessas
roupas ridículas. Vive um pouco encurvado, mas quase
apostava que não é natural. Eu diria que você não evitou
aqueles golpes das guardas na sala de Madeleine porque
não quis. Estou enganada?
— E se estivesse?
— Isso seria bom para você. Porque, se Madeleine
descobre que você não é cientista, sua pele não valerá um
centavo. Ou Renée, que é bem mais cruel do que Madeleine.
Tenha cuidado com ela.
— Não se preocupe, meu bem. Sou cientista. Chamo-
me Horace Kepplleton e tenho vivido no Alasca, num
campo He pesquisas científicas mantido secreto pelo
governo dos Estados Unidos. Conheço profundamente o
trabalho da doutora Remick e aperfeiçoei suas teorias,
chegando a resultados que ela ainda não tinha podido
alcançar. Está mais tranquila?
— Não, professor. Você não me parece estar contando
a história direitinho...
— Por quê? Porque tenho um corpo atlético? Sabe que
a vida no Alasca não é propriamente sedentária? Fazemos

— 58 —
exercícios físicos todos os dias, incluindo caminhadas de
quilômetros pelo gelo. Isso tonifica e desenvolve o físico.
— Bem sei, mas...
— Não pense mais bobagens, Sarah querida. Venha
para perto de mim...
— Agora não, professor. Gostaria muito, mas preciso
ir. Tenho trabalho para fazer e, dentro de algum tempo,
virão chamá-lo para a reunião de apresentação ao Grande
Conselho. Por favor, tenha cuidado com Renée e
Madeleine.
— Pode deixar, meu bem. Serei um menino bem-
comportado. E tentarei parecer mais cientista e menos
homem...
— É bom mesmo, querido.
Sarah pulou da cama e vestiu-se rapidamente. Pouco
depois, saía da suíte, deixando Kirkpatrik com uma
sensação de perigo em cada célula de seu corpo. O disfarce
não parecia estar funcionando tão bem como ele desejaria.
Ou, então, essa garota era demasiada esperta.
Tomou um novo banho e vestiu a roupa que Sarah lhe
trouxera. Realmente, sentia-se melhor assim. O termo
antiquado não lhe agradava nem um pouco. Encurvou o
tronco e deixou cair os ombros. Colocou os óculos e
compôs uma expressão apática. Precisava enganar aquele
Conselho.
Duas batidas na porta sobressaltaram-no.
— Entre — gritou.
A porta abriu-se e dois guardas armados, com um
sorriso cínico nos lábios, entraram nos aposentos.
— A brigadeira Renée mandou buscar o professor para
a reunião do Conselho. Mandou pedir desculpa, mas nós
éramos os soldados mais simpáticos de que dispunha neste
momento.

— 59 —
O segundo guarda não aguentou a situação e soltou uma
sonora gargalhada.
Sarah tinha razão. Renée era cruel...
— Muito bem, companheiros. Vamos lá...
Saiu do pavilhão, escoltado pelos guardas, e avançou
para o edifício da Casa Grande.
O Grande Conselho estava reunido. Trinta mulheres,
entre vinte e cinco e setenta anos. Belas, feias, esbeltas,
grotescas, louras, ruivas e morenas, brancas, pretas e
amarelas. Uma mistura apavorante, tendo em vista o plano
louco que se propunham realizar.
No meio da mesa erguia-se um símbolo nacional,
segundo depreendeu Kirkpatrik. Era uma coluna de
madeira/sobre a qual uma mulher sustentava, sobre os
braços abertos, uma esfera armilar.
— Professor Kepplleton, apresento-lhe o Grande
Conselho de Nkyrvos — Madeleine erguera-se e indicara
as trinta mulheres, com um gesto circundante do braço
direito. — Aqui será decidido o futuro do mundo, professor.
E não pense que somos loucas ou fanáticas. Estamos
perfeitamente conscientes de nosso poder e daquilo que
estamos fazendo. Quis o destino que nos instalássemos
nesta ilha, extremamente rica em ouro, o vil metal capaz de
corromper as mentalidade e caráteres mais íntegros. Com
ele, temos conseguido tudo. Dispomos hoje, dois anos
depois de termos nos instalado, de um sistema ofensivo
capaz de amedrontar qualquer nação dita civilizada.
Fez uma pausa, passeando os olhos azuis pela sala.
— Para que nosso plano possa ser totalmente
concretizado, falta-nos apenas preparar, ou melhor,
concluir a montagem, das usinas nucleares. Para isso temos
conosco o professor Herman Schulsz.

— 60 —
Madeleine apontou para um canto da sala onde um
homem estava sentado, atrás de uma mesa pequena.
Kirkpatrik olhou atentamente para o professor Schulsz. Os
cantos dos lábios finos estavam caídos, em atitude de
desânimo. Os cabelos brancos e longos mantinham-se em
desalinho e o cachimbo apagado na boca completava o
quadro de desolação total que o cientista representava.
— O projeto nuclear está sendo atrasado mais do que
desejaríamos, pois foi difícil convencer o professor Schulsz
da importância de sua colaboração. Mas já superamos esse
obstáculo e ele já está preparando o pessoal que fará
funcionar as usinas que em breve construiremos. Não é
verdade, professor Schulsz?
O físico alemão baixou a cabeça, vencido.
— Para um melhor aproveitamento de nossos recursos
e, inclusive, para um aceleramento de nosso projeto
nuclear, convidamos a doutora Hellen Remick, que o
senhor bem conhece, pelo menos de nome. Infelizmente e
apesar de ela ter aderido incondicionalmente a nossos
ideais, seu trabalho estava incompleto quando ela veio para
aqui. Quando começávamos a nos desesperar, uma vez mais
a Providência veio em nosso auxílio. O mundo tomou
conhecimento de sua existência, professor Kepplleton!
A presidente do Grande Conselho sorriu para
Kirkpatrik, balançando a cabeça.
— Devo confessar que o admiro, pela sua abnegação.
Todos esses anos trabalhando num anonimato quase total.
Apenas quando a solução de grande parte dos problemas da
humanidade estava em suas mãos, o senhor apareceu, como
um Messias disposto a salvar os homens, a troco de nada.
No entanto, tenho outra confissão a fazer. O senhor foi uma
autêntica surpresa para mim. Esperava encontrar uma
pessoa do tipo de professor Schulsz e, em vez disso, aparece

— 61 —
um homem atraente, embora apagado, tímido, mas de
aspecto vigoroso. Vestido com mais elegância, como agora,
e com um pouco de esforço de sua parte, o senhor poderia
ser um perigo para a castidade de qualquer mulher. Perdoe
falar desse jeito, mas costumo ser muito franca. E o senhor
me impressionou, professor.
— Posso falar, excelência — disse, pela primeira vez,
Kirkpatrik.
— Um momento, professor. Deixe-me terminar — a
voz de Madeleine assumira uma frieza que preocupou o
agente 77Z. — Resumindo, nós trouxemos o senhor até
aqui para que desenvolva para nós o sistema de controle da
energia solar, em utilização de alta precisão. Posso
acrescentar que tencionamos usar sua ciência na medicina,
na ótica e, por ser infelizmente necessário, na confecção de
um determinado tipo de arma desenvolvida por nossos
técnicos armamentistas.
Madeleine apontou para outra parte da sala onde, a uma
mesa retangular, sentavam-se cinco homens, de rosto
circunspecto, olhar frio e expressão alucinada.
— Nosso departamento armamentista é dos mais
evoluídos que poderia encontrar em qualquer lugar do
mundo, professor. No entanto, só utilizaremos seus
conhecimentos, se o mundo não quiser nos escutar. Para
estarmos devidamente preparadas, precisamos de sua
colaboração. Podemos contar com ela?
— É claro que não, excelência! — respondeu
Kirkpatrik, em tom firme.
Um murmúrio de assombro percorreu o Grande
Conselho. Um simples homem, um verme, ousava opor-se
à vontade das senhoras do mundo!
— Essa atitude não levará a nada de bom, professor —
disse Madeleine, em tom suave. — Pode acreditar que

— 62 —
dispomos de meios, nem todos agradáveis, para
convencermos as pessoas. Não gostaríamos de ter que os
utilizar, como fizemos com o professor Schulsz. Por isso,
acho melhor o senhor conversar com ele esta noite e
tentarem chegar a uma conclusão. Amanhã às sete horas nos
reuniremos de novo. £ tudo. Pode voltar para seus
aposentos.
— Não posso falar, agora? — inquiriu Kirkpatrik.
— Não, professor. Enquanto não chegarmos a um
acordo, o senhor não poderá falar. Tente compreender que
o poder somos nós. Tudo será mais simples. Boa-noite.

— 63 —
CAPÍTULO SEXTO

Uma estranha passividade

Eram sete horas, quando bateram na porta do quarto de


Kirkpatrik.
— Entre!
Uma garota apareceu diante do agente 77Z. Uma
mulata explosiva, usando o que parecia ser a indumentária
oficial de Nkyrvos. Um short branco e uma blusa azul
celeste, de um ombro só. As pernas cor de chocolate da
morena estavam brilhantes e convidativas. O professor
Kepplleton baixou um pouco os óculos e analisou a garota
por cima da armação, com olhar de apreciador.
— Boa-noite, professor. Sou Kátia. Estou encarregada
de manter o senhor e seu apartamento em perfeitas
condições. Por isso, se precisar de alguma coisa, basta
apertar o botão verde que está sobre a sua cama. Seja o que
for...
O sorriso de Kátia era bem elucidativo, o que não
desagradou a Kirkpatrik. Trabalhava muito melhor com
alguma distração.
— Ótimo, Kátia. Apresente meus agradecimentos a
Renée e diga-lhe que lhe mando um beijão.
— Direi, professor. Precisa de alguma coisa agora?
Antes de dormir o senhor deve ir jantar na sala de refeições.

— 64 —
O jantar é servido às oito horas. Cerca das onze, virei ver se
precisa de algo para a noite.
— Excelente, boneca. Sabe que começo a simpatizar
com este lugar?
— Ficamos muito satisfeitas com isso, professor.
— Acredito, meu bem. Você de onde é?
— Quer dizer onde eu nasci?
— É. É isso que eu quero dizer...
— Nasci em Windhoek, na Namíbia, África Austral. De
lá fui para os Estados Unidos e, aí, fui contratada para vir
para Nkyrvos.
— Então você é uma beleza genuinamente africana, não
é isso?
— Exatamente, professor. Precisa de alguma coisa,
agora?
— Sim, preciso. Queria falar com o professor Schulsz.
Posso?
— Claro. Vou ver se ele está. Não sei se já voltou.
— Eu espero, então. Se o encontrar, diga-lhe para vir
aqui, por favor.
— Ele virá, professor. Só isso?
— No momento, é só. Não se esqueça de vir às onze.
Talvez eu a convença a me contar uma história de ninar...
— Adoro contar histórias de ninar, professor. Até logo.
Antes que Kirkpatrik pudesse responder, a bela mulata
virou-se e saiu do apartamento.
Dez minutos mais tarde, Kirkpatrik estava sentado num
sofá, tomando um Bourbon gelado, quando bateram na
porta. Não precisou falar. A folha de madeira foi empurrada
e o professor Schulsz entrou, curvado e de expressão
sombria.
Kirkpatrik levantou-se e foi ao seu encontro,
estendendo-lhe a mão, que o outro apertou.

— 65 —
— Tenho prazer, sinceramente, em conhecê-lo,
professor Kepplleton. É agradável ouvir alguém falar duro
com essas harpias.
— Cuidado, professor Schulsz. Aposto que há
microfones escondidos por aqui...
— Não há, não. Tive o cuidado de revistar muito bem
meu apartamento, durante as longas noites de insônia que
tenho passado. Essas loucas estão me deixando maluco.
Não sei se poderei resistir por muito tempo.
— Por que cedeu?
— Elas têm minha filha, em Bonn. Recebi uma
mensagem dela, uma carta, entende, onde me explicava
tudo. Se eu não ceder, será trazida para aqui e entregue aos
nativos. Não aos mais civilizados, infelizmente. Será
entregue aos nativos prisioneiros.
— Há prisioneiros, aqui?
— Claro. Pertenciam a um movimento de libertação
local. O MLN, Movimento de Libertação de Nkyrvos.
Coitados... Lutavam com armas primitivas e não estavam
habituados a combater contra mulheres. Ficaram meio sem
jeito, quando elas apareceram de metralhadora em punho...
— Entendo. E que mais lhe fizeram, professor?
— Refere-se às torturas físicas? Algumas das piores
que Hitler utilizou nos campos de concentração de judeus.
Essa mulher, chefe dos serviços de segurança, a brigadeira
Renée, é uma autêntica víbora. Tenha cuidado com ela. É
capaz de lhe arrancar os olhos, se não simpatizar com você.
Conseguiu instalar um verdadeiro clima de pavor entre os
nativos livres da ilha. E entre muitas das garotas que aqui
vivem, trazidas por elas, enganadas. Não as deixam partir e
são punidas frequentemente.
— O quadro não é muito encorajador...
— Não, realmente, professor Kepplleton.

— 66 —
— Por favor, professor, deixemos os tratamentos
cerimoniosos. Pode chamar-me simplesmente de Horace.
— Muito bem, Horace. Eu sou Herman, para os amigos.
— Como o pegaram, Herman?
— De surpresa. Estava pescando, num riacho...
— Isso cu sei.
— Também é a única coisa que sei, Horace. Quando
acordei, estava aqui. Forçaram-me, usando minha filha, a
preparar equipes técnicas para operarem a usina nuclear.
— Mas essa usina já funciona? Já existe?
— Ainda não. Para minha tristeza, elas vão me obrigar
a construí-la. E cu nada posso fazer em contrário... Será que
o mundo não vai fazer nada?
— Vai fazer, professor. Tenha calma e finja que vai
cedendo aos poucos. Não desespere. Nunca ouviu falar de
resistência passiva?
— Já. Sabotar o trabalho sem que elas se apercebam
disso no momento.
— Exato. É isso que tenciono fazer.
— É uma boa idéia. Mas me diga uma coisa. Como eu
nunca ouvi falar de você?
— Não sou vaidoso, Herman. Sempre vivi afastado da
publicidade. Há alguns anos que não saía do Alasca.
— Entendo. E de onde partiu para chegar às teorias que
desenvolveu? Quero dizer, de que ponto do trabalho de
Hellen Remick?
— Não estou com disposição para falar disso, agora,
professor.
— Professor? Que aconteceu?
— Desculpe-me, Herman. Mas as paredes podem ter
ouvidos, entende? Mais tarde falaremos sobre isso. Agora
está na hora do jantar. Eu o convido, Herman.

— 67 —
O sorriso de Kirkpatrik contagiou Herman Schulsz.
Pela primeira vez, desde há muito tempo, os cantos de seus
lábios subiram e alargaram-se num sorriso.
— Gosto de você, jovem. Parece-me honesto e
cofisciente. Vamos.
Os dois saíram do apartamento e caminharam até a sala
de refeições.
Aí, outros dois cientistas foram apresentados a
Kirkpatrik. Um era inglês, Patrick Dogherty, especializado
em eletrônica. O outro era alemão, Franz Berenstein, perito
em balística. Ambos estavam resistindo quanto podiam.
Porém, pelas suas expressões, Kirkpatrik adivinhou que
essa resistência não duraria muito tempo mais.
O jantar foi frugal, à base de frutas e legumes exóticos,
mas saborosos. Foi servido um excelente vinho de mesa,
produção da ilha, segundo Herman informou. Depois do
café, os quatro cientistas dirigiram-se para a sala de lazer.
Era um recinto amplo, dispondo de um complicado
sistema de televisão que retransmitia os principais
programas de vários países do mundo. Uma excelente
aparelhagem sonora, complementada por um ótimo estoque
de discos de boa música, mesas de jogos de salão, bilhar,
xadrez e diversas poltronas completavam o mobiliário da
sala.
Sentaram-se e o professor Schulsz colocou um disco de
Brahms na vitrola. Ficaram algum tempo em silêncio, até
que Kirkpatrik perguntou:
— Temos hora obrigatória de recolher?
— Não. Desde que não saiamos do forte... — respondeu
Franz.
— Não tem mais cientistas, por aqui?
— Tem, Horace. Mais alguns e numerosos técnicos.
Mas são homens e mulheres que se venderam facilmente.

— 68 —
Não estão mais neste pavilhão. Têm sua casa, como a
doutora Remick.
— Interessante. E onde fica a casa da doutora Remick?
— É a terceira, daqui para lá — indicou Patrick
Dogherty.
— Entendo. E vocês, por que não cederam ainda?
— Ceder como? Essas mulheres são loucas. Vão
destruir o mundo, se conseguirem concretizar seus planos.
E comigo elas não farão isso. Podem me matar, mas não
conseguirão que eu colabore.
— E você, Franz?
— Penso da mesma forma, Horace. Não temos família
sobre quem elas possam exercer chantagem, entende?
Admiro o professor Herman Schulsz por isso. Mesmo com
a filha em poder deles, tem conseguido enganá-las, não
cedendo totalmente.
— É. Acho que tem razão. Bem, acho que vou dormir.
São quase onze horas e estou cansado.
Kirkpatrik levantou-se e os outros o imitaram.
— Amanhã conversaremos mais, amigos. Temos que
dar um jeito de resolver esta situação. Concordo com vocês
no fato destas mulheres serem loucas ou visionárias.
— Boa-noite, Horace — disse Herman, estendendo-lhe
a mão. — Amanhã nos veremos, às sete, na reunião dessa
palhaçada a que elas chamam de Grande Conselho.
— Até lá, então, amigos.

***

Eram onze e quinze, quando a porta se abriu e a


espetacular Kátia entrou na suíte de Kirkpatrik. O
irresistível playboy tinha tirado a camisa e seu tronco forte
e bronzeado brilhava sob a luz fraca que brotava do teto.

— 69 —
— Estava receando que você não viesse, boneca.
— Eu disse que vinha, professor.
— Enquanto estiver aqui dentro, pode me chamar
apenas de Horace. Lá fora serei professor Kepplleton, mas,
aqui, apenas Horace. De acordo?
Kirkpatrik tinha-se levantado e avançava para a mulata
esfuziante. Colocou as mãos em seus ombros e meteu os
dedos entre o tecido fino da blusa e a pele morena. Kátia
não se moveu. Com um violento puxão, Kirkpatrik rasgou
a blusa, deixando a descoberto um seio de chocolate
perfeito. Ela pestanejou, mas ficou no mesmo lugar.
Apenas seus olhos tinham adquirido um brilho mais
intenso.
O atraente e falso cientista chegou-se mais para ela e
correu o zíper do short, puxando ú reduzida peça para baixo.
Kátia não estava usando nada sob ele.
Em poucos segundos, a bela mulata ficou despida,
diante de Kirkpatrik, que colou os lábios em seu pescoço.
Nesse momento, uma corrente elétrica passou pelo
corpo da garota, fazendo-a estremecer. Arqueou o corpo e
segurou os cabelos louros do atlético americano. A boca de
Kirkpatrik continuou percorrendo o corpo escultural de
Kátia, descendo pela corola dos seios, acariciando o ventre
liso e plano, aventurando-se pela selva perfumada do reduto
mais íntimo da sul-africana. Tombaram os dois sobre o chão
de tábuas e Kátia desenvolveu uma atividade febril,
arrancando as calças de Kirkpatrik, enquanto sua língua
tentalizava cada milímetro da pele do louro presidente da
K.K.K Steel. O instrumento orgulhoso que tanto prazer
proporcionara já a dezenas de mulheres ajustava-se
perfeitamente nos dedos de Kátia e em outras partes cálidas
de sua anatomia perfeita.

— 70 —
Passava da meia-noite, quando Kátia saiu da suíte do
professor Kepplleton, tentando segurar os dois pedaços da
blusa sobre o busto arrogante.

***

Ainda não era uma hora quando a sombra escura fechou


a porta do apartamento do professor Kepplleton e avançou,
colada na parede, em direção à sala de entrada. Era uma
figura atlética, alta, que se movia com a agilidade de um
felino. Tinha o corpo coberto por uma malha escura e o
rosto oculto por uma meia máscara de cetim preto.
Deslocando-se com o silêncio de um puma, o Máscara
Negra entrou no salão às escuras, logo se encaminhando
para o corredor onde ficava o laboratório.
Era realmente um laboratório montado com tudo o que
um verdadeiro cientista poderia desejar. O mascarado
percorreu rapidamente o enorme salão, mexendo-se entre a
complexa aparelhagem, cortando fios aqui, soltando outros
ali. Em menos de quinze minutos, tinha realizado um
trabalho de sabotagem que atrasaria qualquer utilização do
laboratório em, pelo menos, uma semana.
Com um sorriso satisfeito, o mascarado deixou o
laboratório, saindo por uma janela. Encaminhou-se
diretamente para o portão da cerca de madeira. A cerca de
dez metros, jogou-se ao solo e continuou avançando, de
rastros. Era difícil ser captado por qualquer sistema de
televisão, rastejando e confundindo-se com a escuridão que
envolvia o forte.
O portão estava entreaberto. A confiança dos guardas
era ilimitada. Vigiar cientistas distraídos era moleza...

— 71 —
Já do lado de fora, o Máscara Negra levantou-se, colado
à cerca de madeira. Afastou-se, sempre grudado na cerca,
sem que os guardas se apercebessem.
Contornou todo o forte e encaminhou-se para a terceira
casa da direita, e da doutora Remick.
Uma rápida observação permitiu-lhe descobrir uma
janela, fechada apenas por uma cortina de rede. Em poucos
segundos, tinha aberto um buraco na rede, suficiente para
passar o corpo, o que fez sem ruído.
Encontrou-se numa sala semelhante à de sua suíte,
apenas maior. O mobiliário era do mesmo tipo do seu,
simples, mas de bom gosto. Uma porta aberta conduzia a
um quarto.
Em silêncio, o Máscara Negra ultrapassou a porta.
Hellen Remick dormia profundamente. O intruso adiantou-
se e, a cerca de meio metro dela, parou, contemplando-a.
Hellen Remick era uma mulher bonita e apetecível. Pena
que ele tivesse que silenciá-la. Não podia arriscar-se a ser
interrogado pela cientista diante do Conselho.
Sua farsa seria imediatamente descoberta e, como
dissera Sarah, sua vida passaria a valer menos do que um
centavo nas mãos de Renée.
Colocou a mão sobre os lábios da bela americana e fez
pressão.
Hellen acordou e forcejou, tentando libertar-se do que
lhe tapava a boca. Fitou o mascarado e abriu muito os olhos.
O agente fora de série da CIA levou um dedo aos lábios,
antes de dizer:
— Nem uma palavra, doutora. Se abrir a boca, não verá
o sol nascer amanhã...
Ela fez um movimento de concordância com a cabeça e
o Máscara Negra retirou a mão de sua boca.

— 72 —
— Você... quem é você? — perguntou ela, em voz
baixa.
— Alguém que não concorda com a loucura que você e
suas amigas pretendem cometer e está disposto a evitá-lo,
antes que seja tarde demais.
— O louco é você, se pensa que pode vencer essas
fanáticas.
— Como é, doutora, isso são modos de falar de suas
amigas e governantes? — ironizou o mascarado.
— Que amigas? Você já deu uma espiada no quarto ao
lado?
O agente fora de série fez um gesto negativo com a
cabeça.
— Então vá até lá e verá uma criança de seis anos
dormindo. É meu filho e a garantia de que colaborarei com
Madeleine e sua turma de visionárias assassinas. Só
lamento que esse professor Kepplleton não seja do tipo de
resistir. Ele virá destruir a resistência que tenho tentado
manter...
— Não acha que está falando demais perante alguém
que você não sabe se é amigo oh inimigo?
— Se pertencesse a essa corja de loucas, não entraria
desse jeito em meu quarto. Além disso, estou chegando ao
limite de minhas forças. Preciso desabafar com alguém. E
você é tão bom como qualquer outro, para isso. Se você está
disposto a lutar contra essas víboras, seja quem for, pode
contar com meu silêncio e ajuda.
— Admiro sua coragem, doutora. E gostaria de
acreditar em você. Pode crer que me pouparia muito
trabalho.
— Acredite, se quiser. De qualquer forma, vou fazer
qualquer coisa, ainda que isso signifique a morte para mim.
Alguém tomará conta de Richard, meu filho.

— 73 —
— Digamos, então, que eu acredito. Que poderia você
fazer para me ajudar?
— Qualquer coisa. Matar esse intrometido cientista que
acabou de chegar, antes que ele possa fazer o que eu tenho
evitado.
Kirkpatrik sorriu e ergueu a mão direita.
— Não, doutora. Nada disso. Kepplleton não vai ceder.
Ele veio para aqui, porque quis.
— Quer dizer que ele se deixou raptar propositalmente?
— Mais ou menos isso. E eu ajudei. Inclusive, viajei
com ele, sem que as suas captoras notassem.
Nesse momento, escutaram pisadas fortes na calçada de
tábuas diante da casa e Hellen Remick disse:
— Depressa! É uma patrulha. Passam aqui duas ou três
vezes, todas as noites. Acho que querem ter certeza de que
continuo submissa. Normalmente não entram. Limitam-se
a perguntar se está tudo bem até eu acordar.
Contra o que era habitual, a porta da casa da cientista
foi aberta de repente e duas mulheres e um homem, todos
armados de metralhadora, entraram, com as armas
aperradas.

— 74 —
CAPÍTULO SÉTIMO

Um parceiro pouco ortodoxo

— Fique aqui! Se for necessário, escanda-se em


qualquer lugar. Mas não apareça, pelo amor de Deus —
murmurou Hellen Remick.
O Máscara Negra colou-se na parede, músculos tensos,
prontos para qualquer eventualidade. A cientista vestiu um
roupão sobre a fina camisola de dormir e dirigiu-se para a
sala de entrada.
Pouco depois, ouviram-se vozes:
— Desculpe ter entrado assim, doutora, mas
acreditamos que alguma coisa aconteceu aqui — dizia a
guarda.
— E por que alguma coisa ia acontecer aqui? —
inquiriu Hellen.
— A rede da janela da sala foi rebentada e há pegadas
no chão, junto da casa.
Hellen Remick soltou uma gargalhada.
— E é por isso que estão tão preocupados?
— Claro. Não lhe parece suficiente? Tivemos notícias
de que um novo grupo de rebeldes se está organizando na
ilha. Todo cuidado é pouco.
— Entendo. Mas, no caso presente, não precisam se
preocupar. Acontece que eu já suspeitava da existência de
um novo grupo rebelde. Por isso, e como tendo documentos

— 75 —
científicos importantes em casa, resolvi trancar a porta
quando saí. Porém, talvez por falta de hábito, perdi minha
chave. Ontem de noite, quando voltei, não consegui abrir a
porta. Tive que arrombar a rede da janela e pular por aí,
pegar a outra chave dentro da casa e abrir a porta ao meu
filho. Só isso.
— Só isso?
— É verdade, agente. Apenas um esquecimento comum
da chave de casa. Felizmente as janelas são de rede.
— Hum... Felizmente. De qualquer forma, não custa
nada a gente dar uma olhada pela casa. Sabe, algum rebelde
pode ter visto a rede arrombada e decidiu entrar e estar
escondido.
— Se isso acontecesse, eu saberia, agente. Nenhum
rebelde entraria aqui apenas para se abrigar do calor...
— Sei disso. Mas é nossa obrigação velar por sua
segurança. Por isso, insisto nessa espiada rápida.
Antes que a cientista pudesse impedi-lo, os dois homens
e a garota avançaram pela sala, dirigindo-se para o quarto
de Richard, o filho da cientista.
O Máscara Negra pensou rapidamente. Se tentasse sair,
teria que atravessar a sala e seria descoberto. Se
arrebentasse a rede do quarto de Helen e escapasse por aí, a
fuga seria descoberta e a cientista ficaria em má situação. O
único jeito era enfrentar os guardas e silenciá-los.
Colocou-se bem atrás da porta do quarto e esperou.
Cinco minutos mais tarde, completada a revista nas
outras dependências da casa, a porta do quarto abriu-se e a
garota apareceu no limiar, apontando a metralhadora para o
interior. Avançou cautelosamente, seguida de perto pelos
dois guardas.
O mascarado esperou que os três estivessem dentro do
dormitório, antes de agir. Quando o fez, foi com a agilidade

— 76 —
de um felino e a força demolidora de um martelo de
demolição.
O cutelo de sua mão direita voou para a base da nuca
do guarda que se encontrava mais próximo, acertando-o
com violência. O homem abateu-se sem um gemido, com o
pescoço quebrado.
Ainda não tinha acabado de cair, quando a ponta do pé
esquerdo do mascarado se levantou do chão e subiu, com a
velocidade de um raio, em direção aos rins do segundo
guarda. O golpe foi perfeito, atingindo o homem num ponto
vital. Ele soltou a metralhadora e abriu a boca para gritar.
Porém o ar recusou-se a sair de seus pulmões e ele acabou
tombando para a frente, como um saco vazio.
A garota voltou-se rapidamente, no momento em que
um pontapé certeiro lhe fazia voar a arma para longe.
Longe de se intimidar, ela colocou-se em posição de
ataque, enfrentando o mascarado.
— Belezinha, será melhor você ficar sossegada, para eu
não a machucar — sussurrou o Máscara Negra.
— Porco chauvinista! Que está pensando? Que o
homem é superior? — havia ódio e fanatismo na voz da
garota.
Seu corpo leve e esguio ergueu-se nos ares e voou para
o agente fora de série da CIA. Seus pés, juntos, avançavam
perigosamente de encontro ao peito do mascarado. No
último instante, ele ergueu as mãos em forma de concha,
bem a tempo de aparar o golpe, segurando os pés da guarda
com firmeza, ao mesmo tempo que efetuava uma torção
violenta para a esquerda. A garota emitiu um grito abafado
e estatelou-se em cima da cama.
O Máscara Negra caiu sobre ela, uma fração de segundo
depois.

— 77 —
1 Seu corpo bem treinado e musculoso aprisionou a
jovem guarda como um tenaz, enquanto sua mão direita se
cerrava sobre a boca apetitosa da bonita agente. Ela
debateu-se, em vão. Pouco a pouco, sua resistência foi
diminuindo, até que se imobilizou por completo.
O mascarado, então, retirou a mão de sobre a boca dela
e sussurrou:
— Como é? O homem é superior, ou não?
Como resposta, a garota efetuou um rapidíssimo
movimento de quadris. Apanhado de surpresa, pois pensava
que ela se rendera, o agente fora de série foi projetado para
fora da cama. A garota não esperou que ele se
recompusesse.
Pulou para o lado oposto e caiu sobre a metralhadora.
Dando uma cambalhota sobre a arma, como o faria qualquer
comando bem treinado, ela começou a erguer-se, já com a
metralhadora empunhada. O mascarado suspirou. Confiara
uma vez mais na debilidade das mulheres e fora traído. Sua
hora estava chegando, por excesso de confiança. Também,
que diabo, quem iria dizer que um corpinho gostoso como
aquele, continha tanta dinamite?
Nesse momento, um “plop” abafado soou no interior do
quarto. A garota foi empurrada para a frente, abriu muito os
braços e soltou a metralhadora. Começou a voltar-se, com
uma expressão de surpresa nos olhos escuros. Não
completou a volta e não chegou a ver a doutora Remick,
tremendo visivelmente, ainda com uma pequena automática
provida de silenciador, fumegando na mão.
Caiu com um baque surdo, junto dos corpos dos dois
companheiros de guarda.
— Acho que lhe devo minha vida, doutora. Muito
obrigado. Excedi-me em minha confiança. Afinal ela era
apenas uma mulher...

— 78 —
— Não, senhor mascarado. Ela não era apenas uma
mulher. Ela era um demônio, uma víbora com a forma de
gente. Essas garotas são treinadas por especialistas, para
matar sem a menor piedade e usando as técnicas mais
perfeitas e certeiras. Se eu não tivesse aparecido, pode
acreditar que você seria um homem morto.
A voz de Hellen tremia, ao compasso de sua mão, que
continuava empunhando a automática.
O Máscara Negra aproximou-se dela e, com suavidade,
retirou-lhe a arma dos dedos.
Toda a aparente resistência de Hellen se quebrou então,
como se o contato da arma fosse a única coisa a mantê-la
atuante. Deixou-se cair contra o peito do vigoroso
desconhecido e os soluços rompeu a barreira do silêncio,
sacudindo seu corpo bem feito e jovem.
O Máscara Negra passou um braço pelos ombros dela e
sussurrou:
— Tenha calma. Tudo acabou bem. Venha deitar-se um
pouco.
Empurrou-a com gentileza para a cama e deitou-a.
— Temos que pensar numa forma de dar sumiço a estes
corpos, doutora. Não podem ser encontrados aqui.
Hellen tinha-se acalmado um pouco e assentiu com a
cabeça.
— De qualquer forma, eles vão descobrir a falta deles,
pela manhã.
— Claro. Mas não saberão que foi aqui que sumiram.
Como vamos fazê-los desaparecer?
— Nos fundos da casa, há um velho poço. Podemos
jogá-lo ali, até encontrarmos um local melhor. Estão
mortos?
— Todos os três, doutora. Eu tencionava poupar a
garota, mantendo-a prisioneira em algum lugar até

— 79 —
resolvermos a situação, mas as circunstâncias não
permitiram...
— Era ela, ou você — protestou Hellen. — E entre os
dois não havia escolha.
— Claro, doutora. Eu sei e já lhe disse que fico
agradecido. Afinal salvou minha vida, não é?
Enquanto falava, o mascarado foi aproximando o rosto
coberto pelo cetim negro, acabando por colar seus lábios
nos da bela cientista.
Hellen ficou impassiva nos primeiros segundos. Logo,
porém, passou os braços pelo pescoço do desconhecido e
sua língua devassou, desesperadamente, a boca do atlético
mascarado.
— Espere uma nova oportunidade, doutora — disse ele,
afastando-se com firmeza. — Neste momento temos coisas
mais importantes para fazer.
— Haverá uma nova oportunidade? Quem é você?
— Alguém que a doutora conhece e que está disposto a
arriscar sua pele para acabar com a loucura de um punhado
de fanáticas visionárias.
— Para mim, é muito pouco. Queria saber quem é o
homem que se oculta atrás dessa máscara. Se bem que eu
tenha já uma forte suspeita.
— Então fique com sua suspeita e trate de vestir alguma
coisa, para me ajudar a carregar os corpos para o poço.

***

Meia hora depois, os corpos estavam trancados dentro


do poço. Fora preciso retirar a tampa de laje e recolocá-la
no lugar, depois de os corpos estarem dentro do poço.
Transpirando, os dois coveiros improvisados voltaram
a entrar em casa.

— 80 —
— Posso saber o que pensa fazer, senhor mascarado?
— Bom, espero que você possa me orientar sobre a
melhor forma de agir. Creio que precisamos preparar
alguma coisa como um golpe de Estado, não?
— Segundo a guarda tinha me dito momentos antes da
luta, um novo grupo de rebeldes estava-se formando em
Nkyrvos. Conheço um nativo que pode nos ajudar a
contatar com eles.
— Ótimo. De quantos homens vocês acham que esse
grupo rebelde dispõe?
— Não faço a menor ideia.
— Será que serão capazes de disparar contra mulheres?
Hellen Remick abriu os lábios num sorriso amargo.
— Se você visse o que essas víboras têm feito com os
nativos desta ilha, sem dúvida pensaria de outra forma. Elas
escolhem os mais vigorosos e simpáticos, servem-se deles
para o sexo e depois mandam-nos para as minas de ouro,
trabalhando de sol a sol, sem pagamento. MuKos
desaparecem sem deixar rastro.
— Muito bem. Tente localizar esse seu amigo e saiba
quantos rebeldes estarão em condições de lutar, amanhã de
noite. Não podemos arriscar-nos mais. Quantos estão
presos?
— Muito poucos. Uma dúzia, no máximo. Os líderes e
muitos dos mais aguerridos foram mortos na prisão e seus
corpos cremados.
— Processo engenhoso. Outra coisa. Não aperte muito
o professor Kepplleton, amanhã, na reunião. Acredite em
mim. Ele está do nosso lado.
— Farei o possível. Se bem que eu não simpatizei muito
com ele desde o começo...
— Faça um esforço. Ele é indispensável para o nosso
plano.

— 81 —
— Está bem. Tentarei não o enterrar definitivamente.
O Máscara Negra sorriu e passou a mão pelos cabelos
da bela americana.
— Você é uma garota sensacional. Também não
corresponde à idéia que eu fazia de uma cientista.
— Se me vir de óculos, bata branca e sem jeito, cabelo
amarrado no alto da cabeça e expressão profissional, talvez
não pense mais desse jeito.
— Não acredito. Seu corpo de mulher jovem estará
sempre gritando que é uma garota capaz de satisfazer o
macho mais exigente.
Hellen perturbou-se e o sangue subiu-lhe ao rosto.
O Máscara Negra inclinou-se mais uma vez e seus
lábios pousaram sobre os dela. Dessa vez não houve nem
um segundo de impassividade. Hellen apertou o corpo
contra o dele e suas mãos baixaram, velozes, para a sede da
masculinidade indesmentível do maseterado.
Até o Máscara Negra tem suas fraquezas. Afinal, ele é
humano...
Por isso, segundos depois, a camisola de dormir jazia
no chão da sala, aos pés da bela cientista. O agente fora de
série da CIA prendeu as mãos de Hellen atrás das costas
quando ela tentou arrancar-lhe a máscara.
— Sem essa, doutora. Ficarei aqui mais uns minutos, se
prometer portar-se com juízo. Ainda é cedo para saber
quem sou.
Como resposta, ela pulou para o colo dele, abrindo as
pernas, uma para cada lado de sua cintura, e fechando-se
nas costas dele, como um tenaz. Foi fácil para o mascarado
encontrar o caminho do reduto mais secreto da anatomia de
Hellen Remick. E uma nova sinfonia de gemidos e suspiros
encheu a sala, subindo por vezes até um crescendo que
ameaçava acordar Richard, que dormia no quarto. O

— 82 —
mascarado havia sentado a bela cientista sobre a mesa e,
incrível como pareça, os dois corpos ajustavam-se
perfeitamente naquela posição pouco ortodoxa.
Meia hora mais tarde, Hellen repousava em sua cama,
satisfeito o desejo que abrasara suas entranhas durante tanto
tempo. Sorriu, lembrando-se que nem sequer sabia quem
era o seu maravilhoso parceiro dessa noite. Ou saberia?
Preferiu não arriscar e esperar o desenrolar dos
acontecimentos.

— 83 —
CAPÍTULO OITAVO

Mobilização geral

O Máscara Negra moveu-se com rapidez e silêncio, em


direção ao pavilhão pintado de azul claro, quase ao extremo
da pequena cidade. A casa de Renée, a responsável pela
segurança interna e externa da ilha, era uma das maiores de
Nkyrvos. Tinha um amplo jardim na frente, tratado com
esmero e, ao contrário da maioria das casas da ilha,
dispunha de grossas grades de ferro trabalhado nas janelas
e a porta era de madeira grossa. Certamente dispunha de
sistemas de alarma, detecção contra intrusos e coisas assim.
Precisava arranjar uma forma de entrar sem alarma.
Rodeou a casa, até encontrar o que procurava. Uma
árvore grande, nos fundos, e com resistências para aguentar
um bom peso.
Pouco depois, o Máscara Negra tinha achado um rolo
de corda numa casa em construção, a menos de duzentos
metros dali. Voltou com ela e, fazendo um laço, ao estilo
dos vaqueiros, jogou-o na direção da chaminé da casa de
Renée. A terceira tentativa, conseguiu prender o laço, sem
ter despertado o alarma. Amarrou a outra ponta num forte
galho superior da árvore e começou a deslizar pela corda,
em direção à casa de colmo.
Pouco depois, pisava o telhado, de chapas de fibra
plástica através das quais o sol se filtrava durante o dia.

— 84 —
Avançou com cuidado, apoiando os pés nas vigas da
estrutura de suporte das chapas, olhando o interior cia casa,
tentando localizar a brigadeira.
Encontrou-a no terceiro quarto e o que viu foi uma
surpresa.
Renée estava dormindo, totalmente nua, sobre a cama.
Ao seu lado, igualmente nua, dormia uma garota loura, de
longos cabelos e corpo espetacular. Devia ter uns vinte anos
e tinha uma perna sobre as de Renée.
O mascarado não pôde evitar um sorriso sarcástico,
enquanto um assovio de admiração saía de seus lábios.
— A víbora encontrou seu passarinho... — murmurou
para si mesmo.
Com algum esforço, conseguiu desprender a chapa de
fibra plástica de uma dependência ao lado do quarto de
Renée. Era um banheiro espaçoso. Levantou a chapa e
desceu o corpo, silenciosamente, pela abertura, até seus pés
pousarem sobre uma penteadeira de pedra polida.
Em breve estava no solo, avançando com lentidão para
o quarto da brigadeira. Sem o menor ruído, passou uma
busca rápida em toda a casa.
Não havia mais ninguém. Apenas as duas mulheres,
dormindo na cama larga.
O mascarado procurou dentro de um armário e
encontrou o que queria. Alguns lençóis azuis, que abriu e
enrolou, formando cordas. Com o máximo cuidado,
aproximou-se da cama e, prendendo a respiração, passou as
cordas improvisadas por debaixo das pernas delas. Tinha
esperanças de que elas não acordassem.
Na verdade, Renée e sua parceira tinham o sono bem
pesado. Em poucos minutos, estavam fortemente amarradas
uma na outra, num abraço involuntário. Talvez elas
tivessem pensado que estavam sonhando que se amavam...

— 85 —
A verdade é que o mascarado acabou de dar o último nó e
elas continuavam dormindo.
Sentou-se na beira da cama e bateu as palmas.
Renée abriu os olhos de repente e franziu a testa. Tentou
erguer-se e não conseguiu. Olhou para sua parceira e forçou
as mãos, para a empurrar para longe. Foi aí que entendeu
que estava amarrada.
O Máscara Negra apertou um botão, ao lado da cama, e
uma luz velada acendeu-se numa lâmpada sobre a mesa de
cabeceira.
— Um belo espetáculo, brigadeira...
— Você... Me solte imediatamente, idiota, ou chamarei
os guardas. Você se arrependerá disto! — Renée parecia
cuspir veneno, tentando escapar de qualquer forma.
— Duvido que chame os guardas, minha querida
brigadeira. Não seria bom para sua imagem, se este
espetáculo maravilhoso fosse presenciado por muita gente
e tornado público... A firme e dura brigadeira Renée,
desencaminhando jovens de vinte anos para o lesbianismo...
— Cretino! Canalha! Quem é você?
— Estou cansado de repetir a mesma coisa. Sou alguém
disposto a impedir que um bando de loucas criminosas
concretize um plano assassino e absurdo. Serve como
explicação?
— Você se arrependerá, idiota! Me solte!
— Ainda não, brigadeira. Primeiro vamos ter uma
conversinha.
A garota acordada também e estava de olhos
arregalados, com o sangue quase todo no rosto. Sentia
vergonha.
— Que quer você? Dinheiro? Tem ouro no cofre. Pegue
nele e suma daqui — berrou de novo Renée.

— 86 —
— Calma, minha querida. Não vim para pegar seu ouro.
Guarde-o para suas amigas. Elas precisam mais do que eu.
Pode ser que lhe seja útil na prisão.
— O louco é você — riu ela. — Como pensa me levar
para uma prisão, idiota? Disfarçada de camundongo?
— Quem sabe? Talvez com uma boa surra você não
fique muito diferente de uma ratazana...
— Você não se atreverá, cretino.
O mascarado levantou-se e, com a maior calma do
mundo, aproximou-se da cama, pelo lado oposto ao da luz.
Sua mão direita descreveu um arco no ar e estalou, com
violência, no rosto de Renée, que soltou um gritinho
abafado.
— Calma, brigadeira. Não faça barulho. Poderia
aparecer alguém e isso não seria lisonjeiro para você...
— Canalha! Verme imundo!
A mão baixou, uma vez mais, sobre os lábios de Renée,
fazendo <p sangue brotar, salpicando a cama.
— De cada vez que abrir a boca sem minha ordem, é
isso que vai lhe acontecer, víbora — grunhiu o mascarado,
de mau humor.
— Que vai fazer com a gente? — perguntou
timidamente a garota loura.
— Vou exibi-las em praça pública, gatinha. Para que
todo o mundo saiba do que acontece dentro desta casa.
Agrada-lhe a idéia, brigadeira?
— Não pode fazer isso! — gemeu a loura. — Seríamos
mortas. O Grande Conselho passou uma lei que proíbe o
relacionamento sexual entre mulheres. Dizem que não
querem o aviltamento dos instintos naturais. Mandam-nos
escolher homens, entre os nativos ou entre os técnicos...

— 87 —
— Uma decisão acertada desse Conselho. Mais um
motivo para eu expor vocês em praça pública. Assim o
mundo ficará livre de duas depravadas.
— Não! — gritou Renée. — Diga o que quer. Eu farei.
Mas não torne esta... fraqueza pública, seja você quem for...
— Muito comovente, brigadeira. Mas as coisas não são
tão simples assim. Como você se comunica com suas
guarnições?
— Vou lá pessoalmente, ou uso o rádio.
— Ótimo. Vamos usar esse rádio.
— Que vai fazer? Está louco?
O Máscara Negra não respondeu. Segurando um
pedaço de lençol usado para amarrar as duas mulheres,
puxou-o com força, obrigando-as a ficarem sentadas.
— Agora levantem-se e, com muito cuidado, vamos até
esse rádio.
Os olhos de Renée despediam faíscas de ódio e raiva
impotente. A lourinha estava pálida, apavorada.
Pouco depois, estavam numa pequena sala, diante de
um potente transmissor.
— Muito bem, brigadeira. Agora preste atenção. Você
vai ordenar a suas garotas e homens uma mobilização geral.
Onde fica o aquartelamento deles?
— No extremo sul da cidade.
— Muito bem. Então chame o oficial às ordens e mande
todo o exército concentrar-se dentro do quartel amanhã, às
oito horas. Que permaneçam ali, até nova ordem. Diga que
vão precisar executar uma operação de extrema importância
para a segurança nacional, durante o dia, a qualquer
momento. Que fiquem de prontidão total, até você dar
ordens em contrário. Mobilize todos os efetivos, de dentro
e de fora do quartel.

— 88 —
— Mas isso é uma loucura. Todo mundo vai estranhar
isso. Como vou explicar?
— O problema é seu, minha querida. Tem cinco
minutos para fazer o que eu mandei.
Renée berrou unia imprecação e estendeu as mãos, até
onde o lençol lhe permitia, apertando alguns botões. A
lourinha gemeu, pois, os movimentos da brigadeira
provocavam dores em seu corpo.
— Cale-se, imbecil! — berrou ela.
Pouco depois, uma voz apareceu no rádio.
— QG atendendo. Pronto, brigadeira.
— Coronel, esta é uma ordem de prioridade absoluta —
a voz de Renée tremia levemente. — Ordene uma
mobilização geral para as oito horas da manhã. Mande
informar a Casa Grande para ninguém sair à rua, pois eu
ordenei um alerta geral. Os rebeldes concentraram-se e
planejam avançar sobre a cidade a qualquer momento.
Temos que cair sobre eles de surpresa.
Para isso necessito de todos os efetivos mobilizados.
Incluindo unidades de reserva. Despache imediatamente
mensageiros. Às oito horas, quero todo o mundo aí. Será
punido com a morte, como desertor, quem desobedecer a
minhas ordens.
A voz feminina do outro lado do rádio tremeu:
— Sim, brigadeira. Mas... que digo se o Conselho
quiser explicações?
— Diga que estou em missão ultra-secreta e que
contatarei com eles logo que possível. Que não saiam da
Casa Grande.
— Muito bem, senhora. Mais alguma coisa?
— Claro. Avise-me aqui, quando a mobilização for
completada.
— Entendido, brigadeira. Desligo.

— 89 —
O rádio emudeceu e Renée voltou-se para o mascarado.
— Está satisfeito? Que pretende fazer agora?
— Ficar aqui, com vocês, até saber que a mobilização
foi completada.
— Você está louco. E acho que já vi seus olhos antes.
Eu me lembrarei de onde os conheço.
— Quer levar mais bofetadas, brigadeira? Já lhe pedi
para não ameaçar. Vamos voltar para a cama.
— Eu não acho que vão a lugar algum...
A voz surgira atrás do Máscara Negra, com uma
entonação irônica. Ele voltou-se e deparou com uns olhos
azuis, muito claros, emoldurados por um longo cabelo
louro. O rosto pertencia a um corpo escultural, metido numa
blusa transparente e numas calças brancas justas, que
salientavam as formas opulentas de Madeleine.
Ao lado da presidente de Nkyrvos, quatro soldados, de
metralhadora empunhada firmemente, tinham nos olhos
uma expressão decidida, assassina.

— 90 —
CAPÍTULO NONO

A loucura final

Madeleine sorria, com cinismo, olhando para o quadro


grotesco que as duas mulheres apresentavam, amarradas e
apavoradas.
— Minha querida Renée. Se eu não suspeitasse de sua
ambição, nunca saberia o que estava acontecendo agora.
Por isso, você deu azar.
— Muito oportuna, excelência — comentou o
mascarado.
— Acha mesmo, professor Kepplleton?
— O quê? Professor Kepplleton?
O assombro de Renée era genuíno.
— Exatamente, imbecil. Desde que comecei a suspeitar
de você, brigadeira, mandei instalar um sistema de
vigilância televisionada em sua casa, querida. Quando este
palhaço mascarado aqui entrou e acendeu a luz da mesa de
cabeceira, acionou o dispositivo de alarma e as imagens do
que acontecia aqui começaram a chegar a meu quarto. Não
foi difícil entender o que estava acontecendo. Reuni minha
guarda pessoal e vim assistir. Há muito que eu sei de seus
vícios depravados, Renée. Esperava apenas uma
oportunidade para acabar com eles...
— Você... — Renée bufava de cólera.

— 91 —
— Exato, minha querida. Não há nada que mais me
repugne do que alguém contrariar as determinações da
Natureza. E o que você vem fazendo com essa pobre garota
e com outras, é repulsivo. Ainda se elas fizessem isso de
livre vontade..., mas não. Você as obrigava, servindo-se de
sua força, de seu poder. Era uma prepotência que eu não
permitiria que continuasse por muito tempo. Esse palhaço
mascarado apenas apressou o que já estava decidido.
— Você é uma harpia, Madeleine. Pensa que não sei
que usa os guardas para se satisfazer? Homens nojentos,
boçais, selvagens mesmo, com quem você pratica bacanais
e orgias por detrás das portas fechadas de sua casa.
— Está bem informada, querida. Sei que não gosta
disso, porque homens não são o seu prato favorito.
Repugnam-lhe até. Mas está errada, meu bem. Não há coisa
melhor do que sentir dentro de nós o instrumento de prazer
sublime que qualquer homem possui. Já pensou que a
natureza nos fez de forma a que em nós se encaixasse
perfeitamente uma parte do sexo oposto? Por que
contrariar? E se pudermos tirar o máximo prazer disso,
tanto melhor.
— Você acha que o Grande Conselho gostará, quando
eu contar o que sei? — inquiriu Renée, com um sorriso
venenoso.
— Você não terá oportunidade de contar nada, minha
querida. Vai morrer aqui, agora mesmo, às mãos de um
mascarado misterioso. Meus guardas acorreram e abateram
esse guarda, afinal o professor Kepplleton. Como vê, nada
mais fácil.
— Não poderá fazer isso, Madeleine. Acabarão
descobrindo e você estará perdida.
O Máscara Negra seguia a conversa entre as duas
mulheres com um sorriso zombeteiro. No entanto, esperava

— 92 —
apenas uma oportunidade para agir. Não iria deixar-se
abater assim, sem mais nem menos.
— Bem, você logo verá se farei ou não. Agora vamos
arrancar essa máscara do nosso querido cientista, para nos
certificarmos de que é realmente ele.
Madeleine tirou uma pequena arma do coldre que
levava na cintura estreita e avançou para o Máscara Negra.
Parou a meio metro dele e levantou a mão esquerda,
com os dedos estendidos na direção do rosto mascarado.
O dia tinha nascido já. Deveriam ser cerca de cinco
horas.
Tudo aconteceu com uma rapidez imprevisível.
A mão direita do agente fora de série da CIA fechou-se
sobre o pulso de Madeleine, puxando-a violentamente. A
presidente de Nkyrvos foi obrigada a rodar e suas costas
chocaram contra o corpo atlético do mascarado. Quando os
guardas se aperceberam do que estava acontecendo, era
tarde demais. Madeleine apertou o gatilho e a bala partiu,
fatal, na direção de Renée, que seguia, atônita, o desenrolar
da cena.
Foi colhida em pleno peito, por baixo do seio esquerdo.
Não emitiu um som. Caiu lentamente, vencendo a
resistência da apavorada loura, que abrirá a boca para gritar.
Mas não saiu qualquer som.
O segundo tiro disparado por Madeleine estilhaçou uma
chapa de fibra plástica do teto.
— Matem-no! — gritou ela, forcejando para se libertar.
No momento em que o mascarado conseguira
aprisionar a mão que empunhava a arma, soou a primeira
rajada. O agente fora de série da CIA sentiu o corpo de
Madeleine estremecer, sob o impacto das balas. Um dos
guardas reagira como autômato à voz da presidente,
apertando o gatilho. Nem por um instante passou por sua ^

— 93 —
cabeça que o corpo dela estava diante do mascarado.
Quando os dedos de Madeleine se abriram, soltando a arma,
o Máscara Negra segurou-a, mantendo o corpo da bela
mulher como escudo.
Antes que os guardas pudessem evitar, três balas
partiram, com a pontaria de um expert. Três feios buracos
escuros, logo manchados de vermelho, apareceram nos
corpos dos homens, ainda abobalhados pela ação
inesperada do desconhecido.
O primeiro soltou a metralhadora e caiu, com uma bala
na testa. O segundo recebeu a carga de chumbo no pescoço
e o terceiro foi atingido no rosto.
O quarto homem tentou dar meia volta e fugir, mas uma
última bala alcançou-o antes que chegasse na porta.
Estremeceu violentamente e bateu contra a parede,
resvalando devagar até o chão.
O Máscara Negra soltou então o corpo de Madeleine e
correu para a lourinha que tentava libertar-se de Renée.
— Boneca, você escapou Sesta. Vou soltá-la e você
some daqui. Não abra a boca sobre o que aconteceu porque
isso seria a sua morte. Entendeu bem?
A garota assentiu com repetidos movimentos de cabeça
e o agente especial começou a separá-la do cadáver da
brigadeira de segurança de Nkyrvos.
Quando terminou, a garota pegou um lençol,
embrulhou-se nele e correu porta afora.
O Máscara Negra não esperou. Alcançou a porta em
duas passadas e perdeu-se na escuridão, abandonando parte
das cautelas que tivera ao entrar. Não tardaria a chegar uma
multidão, atraída pelo som dos tiros, e ele esperava estar
bem longe nesse momento.
Correu, meio abaixado, em direção a casa de Hellen
Remick.

— 94 —
Nesse momento, algo impressionante começou a
acontecer em Nkyrvos.
O chão pareceu tremer, rugindo como fera
enlouquecida.
O Máscara Negra foi jogado ao solo. Levantou-se de
um salto e recomeçou a correr.
Entrou como um furacão na casa de Hellen, no
momento em que o rugido que vinha das entranhas da terra
parecia querer estilhaçar tudo na ilha.
Hellen estava de pé, com uma expressão apavorada nos
olhos.
— Depressa, doutora — gritou ele. — Deve ser um
terremoto, ou maremoto. Vista-se e corra para o pavilhão
dos cientistas. Vou tentar conseguir um avião. Rápido.
Temos que abandonar a Ilha, antes que seja tarde demais.
— Nkyrvos é uma ilha vulcânica. Eu sabia que
vivíamos sobre a cratera de um vulcão submerso que
poderia entrar em erupção a qualquer momento.
— Não adiantam as explicações, agora, doutora. Faça o
que eu lhe disse.
Sem esperar resposta, o Máscara Negra correu na
direção do forte onde viviam os cientistas.
— Pare!
A voz era de um dos guardas do portão do forte. O outro
fugira.
— Não seja idiota, amigo. Vá procurar um barco, ou
coisa parecida, e suma o quanto antes — gritou o
mascarado.
Chegara junto do guarda. Este, sem entender bem o que
estava acontecendo, levantou a metralhadora na direção
dele.
Nunca soube o que o tinha atingido, com tamanha
violência, na base do queixo. Começou a ver milhões de

— 95 —
estrelas, sua vista nublou-se e soltou a arma. Quando
chegou ao solo, o mascarado corria para dentro do forte,
fazendo acionar o sistema de alarma. Uma sirena começou
a tocar estridentemente.
O mascarado não se deteve.
Correu para o quarto do «professor Kepplleton e fechou
a porta, ofegante.
Em poucos segundos tinha despido a malha negra e
envergado a roupa esporte que Sarah lhe levara.
Dobrou cuidadosamente a malha, formando um rolo de
reduzidas dimensões, e colocou-a entre as calças e a cintura.
Logo correu para fora do quarto.
O chão continuava tremendo e rugindo.
Na rua, os gritos de pavor sobrepunham-se ao ruído do
tremor.
As portas dos quartos ocupados pelos três cientistas
tinham-se aberto e os homens assustados olharam para ele.
— Rápido, professor Schulsz. A ilha é uni vulcão que
entrou agora em atividade. Corra para fora.
Estavam ultrapassando o portão da saída, quando
esbarraram com a doutora Remick, correndo como louca,
arrastando o filho pela mão.
— Não há tempo para mais nada, Hellen — gritou
Kepplleton. — A fera está acordando. Sabe onde ficam os
hangares?
Ela fez que sim, com a cabeça, e começou a correr para
lá.
Kirkpatrik deitou um último olhar para o forte. O
guarda que ele nocauteara momentos antes não estava mais
ali. Tinha acordado e fugido.
Correram como loucos durante quase quinze minutos.
Por fim, a cientista americana indicou uma construção
baixa e alongada.

— 96 —
— É aqui.
— Ótimo. Vamos ver se conseguimos um avião
emprestado de sua excelência.
Empurrou os portões do gigantesco pavilhão „ e entrou,
seguido dos outros.
— Parem onde estão! Ninguém vai fugir daqui!
Diante deles estavam cinco mulheres, lideradas por
uma matrona de cerca de cinquenta anos.
— Nadja Burkoff! — exclamou Hellen Remick. —
Você não é mais a chefe das guardas. A ilha está-se
desmoronando! O vulcão vai entrar em atividade a qualquer
momento e todos morreremos. Peguem um avião e tentem
fugir daqui, enquanto é tempo!
— Parem, eu disse! Não é a primeira vez que o vulcão
ruge e não entra em erupção. Ninguém vai embora. Nosso
plano apenas começou a realizar-se.
—Não seja louca! — gritou o professor Kepplleton. —
Desta vez, isto vai tudo para o fundo, Nadja. Não se
sacrifique, junto com esse bando de idiotas.
— Voltem a abrir a boca e lhes meto uma rajada na
barriga!
A pesada mulher levantou ostensivamente a
metralhadora, na direção do grupo de cientistas
desesperados...

— 97 —
EPÍLOGO

Nesse momento, o chão pareceu tremer com mais


intensidade e um rugido ensurdecedor varreu a ilha.
— Cuidado!
O grito de Kirkpatrik não chegou o tempo.
Uma seção da parede do lado esquerdo do hangar
abateu-se com estrépito. As quatro mulheres guardas,
apavoradas, viram a pesada formação de madeira avançar
para cima delas e largaram as metralhadoras, correndo na
direção da porta.
— Parem, idiotas!
Nadja acompanhou o berro com uma rajada. A última
das quatro garotas pareceu tropeçar em uma barreira
invisível e abriu os braços, descrevendo uma grotesca
pirueta antes de tombar, morta.
Kirkpatrik moveu-se com a velocidade de um raio. A
ponta de seu sapato esquerdo atingiu o cano da
metralhadora de Nadja, fazendo a arma voar
aparatosamente. Logo um potente direto do punho esquerdo
se abateu sobre o rosto feio da russa.
— Desculpe-me, por ser mulher, apesar de tudo —
murmurou ele, enquanto a pesada chefe das guardas caía
para trás.
Helen soltou um grito abafado e apertou-se contra
Kirkpatrik.
— A parede, Horace!

— 98 —
Na verdade, o que restava da parede vinha caindo sobre
o corpo de Nadja. Seria inútil qualquer tentativa para salvar
a soviética.
Seu corpo desapareceu sob o monte de pesados troncos
e uma nuvem de poeira.
— Vamos — gritou o tímido professor Kepplleton.
Correram para o aparelho de Madeleine, parado a uns
vinte metros dos portões abertos. Por sorte, a parede que
abatera fora a do lado oposto.

***

Sobrevoando a ilha, os cientistas abriram os olhos de


espanto.
No mar, já a quase uma milha de Nkyrvos, umas cem
embarcações compridas moviam-se velozmente, afastando-
se do inferno em que a ilha se transformara.
— Os nativos estão fugindo — disse Schulsz. — Pelo
menos, salvaram-se do braseiro.
— É — fez Kirkpatrik, aos comandos do avião. — E
que braseiro, Herman!
O vulcão entrara finalmente em atividade, espalhando
lava e fogo por todos os lados. Não havia mais qualquer
movimento em Nkyrvos. Os nativos tinham conseguido
fugir nos barcos compridos. Seriam umas sete mil pessoas,
no mar, em busca de novas paragens para uma nova vida,
longe do terror das loucas. Certamente, levaram algumas
mulheres com eles. Mas na condição de simples mulheres.
Não mais de soldados prepotentes, visionárias e loucas.
Passariam um mau bocado, nas mãos dos nativos furiosos.
Mas, no fundo, até talvez aprendessem a gostar de ser
simplesmente mulheres...

— 99 —
***

Sem maiores problemas, o avião aterrissou no Havaí.


Foi longa e complicada a explicação para as autoridades.
Finalmente, os quatro cientistas, o garoto de Helen e
Kirkpatrik foram liberados temporariamente e conduzidos
a Nova Iorque, num jato da USAF.
Três dias depois, refeitos de tudo o que haviam passado,
Schulsz e Kirkpatrik estavam sentados no salão da suíte de
Kirkpatrik, diante de dois copos de Bourbon com gelo.
— Meu caro Horace, há uma coisa que eu gostaria de
aclarar: o que sabe você sobre a teoria de Hellen Remick e
a energia solar?
— Para falar verdade, meu caro Herman, nada! E não
volte a me chamar de colega ou professor Kepplleton. Meu
nome é Horace Young Kirkpatrik e sou presidente de um
consórcio de aço. Montamos esta jogada, um amigo meu e
eu, numa tentativa desesperada de descobrirmos para onde
você e Hellen Remick haviam sido levados. Só que nenhum
dos dois fazia a menor idéia de que as coisas se iriam
desenrolar dessa forma. Nem de que havia mulheres tão
lindas e tão loucas neste mundo.
— Eu sabia! — exclamou o cientista alemão. — Desde
o começo que eu suspeitava que você não era cientista coisa
nenhuma. A entrevista que deu para a televisão e que vimos,
em gravação de vídeo-tape, em Nkyrvos, era o mais
completo amontoado de absurdos científicos. Sistema
medamítrico de River Sade, acoplado com a espastovitose
fluido-quântica. O que vem a ser isso, afinal? Você usou
esses termos em sua entrevista.
— Quer saber um segredo, Herman? Li esses termos
num velho alfarrábio e não faço a menor idéia do que
significam...

— 100 —
Os dois homens ainda estavam rindo a gargalhadas,
quando a porta se abriu e duas pessoas entraram.
— Posso tomar parte da risada? — perguntou Mr.
Lattuada, sentando-se numa poltrona.
Com dificuldade, os dois conseguiram controlar o riso.
— Bom, talvez agora eu possa falar — tornou Mr.
Lattuada. — Sua filha foi resgatada e encontra-se no hotel,
esperando pelo senhor, professor Schulsz. Sabíamos onde
ela estava, pois desde que o senhor sumiu a mantínhamos
vigiada.
Suponho que as autoridades alemãs também. Ela foi
libertada e chegou esta manhã a Nova lorque. Está no hotel,
esperando por seu pai.
Schulsz levantou-se, emocionado, e apertou a mão do
chefe do Departamento 77, da CIA.
— Obrigado — disse simplesmente, com a voz
embargada.
— Tudo bem, professor Horace — Mr. Latuada voltara-
se para o presidente da K.K.K Steel. — A doutora Remick
insistiu em vir comigo. Disse que precisava falar em
particular com você sobre aquela sua teoria do controle da
energia solar e...
Kirkpatrik abriu muito os olhos e moveu os lábios para
falar.
— Bem, tenho que ir. Quer uma carona até o hotel,
professor Schulsz? — interrompeu Mr. Lattuada.
Pouco depois, Kirkpatrik estava diante de Hellen
Remick.
— Vou ficar alguns dias em Nova Iorque, antes de
regressar para o Texas, onde tenciono continuar meus
estudos, professor Kepplleton. Como acabamos não tendo
oportunidade para falar sobre suas teorias em Nkyrvos,
gostaria de bater um papo com o senhor agora...

— 101 —
Kirkpatrik avançou para a jovem cientista e colocou
suas mãos nos ombros dele.
As duas bocas uniram-se num longo beijo e Hellen
apertou o corpo contra o do irresistível playboy.
— Quanto a energia, minha querida, posso lhe dar umas
lições. Mas não de energia solar. O professor Kepplleton,
coitado, morreu em Nkyrvos. Gostaria de testar sua
resistência, doutora. Que acha?
As mãos do atraente louro percorriam ousadamente o
corpo apetitoso de Hellen Remick, como se testassem, na
verdade, a energia que se escondia sob aquelas formas
opulentas.
— Horace — murmurou ela. — Gostava mais de você
com a máscara...
Kirkpatrik estremeceu e fechou os olhos, enquanto os
lábios de Hellen se fechavam sobre os seus e sua língua
iniciava uma frenética dança sensual...

FIM

A seguir: A BONECA EXPLOSIVA,


aventura em que o agente 77Z se vê
envolvido numa complexa rede de
espionagem, onde as bonecas são realmente
explosivas. Não perca!

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