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SÉRIE: 77Z
VOLUME: 146
TÍTULO: MISSÃO: RIO DE JANEIRO
CAPA: BENICIO
AUTOR: MIKE STNFIELD
EDITORA: MONTERREY
ANO DA PUBLICAÇÃO: 1983
PREÇO DA PUBLICAÇÃO: CR$ 220,00
PÁGINAS: 128

SCANS E TRATAMENTO: RÔMULO RANGEL


romulorangel@bol.com.br

DISPONIBILIZAÇÃO
BOLSILIVRO-CLUB.BLOGSPOT.COM.BR
Bolsilivro-club@bol.com.br

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MISSÃO:
RIO DE JANEIRO
MIKE STANFIELD

Capa de BENICIO

PROIBIDA A REPRODUÇÃO NO TODO OU EM PARTE

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EDITORA MONTERREY LTDA.
Rua Visconde de Figueiredo, 81
Caixa Postal 24.119 — ZC-09
20550 TIJUCA – Rio de Janeiro - RJ
Fones: 234-8398 e 248-7067
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© EDITORA MONTERREY LIMITADA


MCMLXXXIII Publicação no Brasil
Composto e Impresso pela
GRÁFICA EDITORA LORD
Distribuído por:
FERNANDO CHINAGLIA DISTRIBUIDORA S.A.

Todos os personagens desta novela são imaginados pelo autor e não


tem relação com nomes ou personalidades da vida real. Qualquer
semelhança terá sido mera coincidência.

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PRÓLOGO

Era novembro, e a neve caía em abundância sobre


Moscou, a velha capital da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas. Rodion Yermolaievitch Tainistskiy,
vestindo um pesado capote de pele de rena cuja aba cobria-
lhe quase que inteiramente o rosto, despediu-se de sua
esposa com um beijo apressado e embarcou em seu
automóvel Volga, ligando a ignição. Apesar de utilizar
anticongelantes para o sistema de arrefecimento do motor,
teve uma certa dificuldade para pô-lo em marcha, a quinze
graus abaixo de zero. Após quatro ou cinco minutos,
Tainistskiy logrou dar a partida em seu carro e afastou-se
pela Sokolniki Pereulok, acenando a mão direita em
despedida.
Tainistskiy dobrou logo à esquerda em
Sheremetyevskaya Bolshoiésko, rumando para o centro de
Moscou, em direção ao seu escritório de trabalho
quotidiano. A temperatura mostrava-se muito baixa e, entre
o subúrbio de Balashikha, a leste de Moscou, e o centro da
cidade, encontrou razoáveis acúmulos de neve no percurso,
sendo forçado a imprimir ao seu Volga uma velocidade
mais baixa do que o normal.
Penetrou em Sodovoye Cirklomésto, dobrando a
esquina do Leningradskaya Hotel, e dirigiu-se diretamente
para o Kremlin.

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O Kremlin, como todos os russos o sabem, apresenta
uma forma aproximadamente quadrangular, mostrando a
maior face para Manezh Pereulok, num lado para Kremlin
Peroulok, sobre o rio Moscou, um terceiro para a Krasnava
Ová, a famosa Praça Vermelha, e a menor dimensão para
Manezh Rybinsk, o Museu Histórico e a Catedral de São
Basílio, nas proximidades do magazine GUM
(Gosudarstvennyy Universalnvy Magazin), aonde se pode
encontrar desde um alfinete até um helicóptero, possuindo-
se o necessário capital em rublos.
Para Rodion Yermolaievitch Tainistskiy, um
funcionário público de quase sessenta anos de idade, casado
e com um filho, tratava-se de um dia de inverno
absolutamente comum. Ao volante de seu Volga de modelo
antigo, percorreu Sodovoye Circklomésto sem pressa por
cerca de uma milha, dobrando depois à direita para alcançar
Nikitskye Grádo. Passou pela Embaixada dos Estados
Unidos da América, pelo Museu Pushkine e pela Biblioteca
Lenin, chegando ao cruzamento de Kalinin Pereulok com
Manezh. Aguardou pacientemente que o sinal de tráfego se
abrisse para a sua direção. Então, penetrou nos portões do
Kremlin pela porta de Kutafya, valendo-se de seus passes
especiais, e cruzou a ponte de Troitskaya, estacionando o
veículo nas proximidades da torre de Oruzheynaya, onde
funcionam alguns escritórios de alto nível do MVD, o
Ministério das Relações Exteriores, do KGB, a polícia
política, e do NKVD, o organismo de contra-espionagem
soviético.
Transportando a sua discreta maleta de couro,
Tainistskiy não precisou identificar-se nos três postos de
controle antes de atingir o quinto andar: já era sobejamente
conhecido por todos os guardas de segurança. Trocando
cumprimentos e comentários sobre o mau tempo, logrou

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chegar à sua sala, onde fez uma observação galante quanto
ao novo vestido de sua secretária, a bela ucraniana Olga
Kamenevna, e instalou-se à sua escrivaninha de aço pintada
de cinzento, iniciando as tarefas rotineiras do dia.
Tainistskiy acendeu um cigarro e começou a folhear a
papelada que deveria despachar naquele dia. Não conteve
um bocejo. Todas operações rotineiras e burocráticas
normalmente executadas pelo MVD: pagamento de agentes
secretos em contas numeradas, aluguel de residências para
o funcionamento de células de espionagem em países
estrangeiros, verbas especiais para informantes,
decodificações de mensagens enviadas por contatos em
embaixadas do exterior...
Mecânicamente, Tainistskiy tomou a sua caneta e
começou a assinar os documentos, após rápidas e breves
leituras. Convocou seu auxiliar, o ruivo e sardento bielo-
russo Anatoly Korsakov, e solicitou microfilmagem dos
papéis e remoção dos originais para o arquivo morto do
MDV.
Korsakov retirou-se sobraçando quase quatro quilos de
papel. Tainistskiy acendeu mais um cigarro, cruzou as mãos
atrás da nuca e espreguiçou-se confortavelmente. Com um
suspiro, voltou ao seu trabalho rotineiro, lembrando-se com
saudades dos tempos em que era um agente de ação.
Naquela época sim, a vida era realmente vivida. A União
Soviética tinha como primeiro ministro o inesquecível
Nikita Khruschev, Kennedy era o presidente dos Estados
Unidos da América, e a guerra fria e a crise dos mísseis em
Cuba abalavam o mundo, tornando o Ocidente num terreno
fértil onde pululavam intrigas, chantagens, espionagem e
verdadeiros agentes secretos.
Lentamente, Tainistskiy largou a caneta, e seus olhos
fixaram o vazio, pensamentos muito distantes do local em

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que se encontrava. O cigarro, esquecido no cinzeiro,
consumia-se inofensivo. O velho espião recordava as
memoráveis façanhas executadas e os grandes perigos que
havia corrido. Transportou-se ao passado. Viu-se em
Washington em 1960, procurando introduzir-se na
Secretaria de Estado norte-americana, após a vitória de
John Fitzgerald Kennedy nas eleições. Recordou o grande
golpe que dera na CIA, a Central Intelligence Agency, no
caso da invasão frustrada da Baía dos Porcos, em Cuba.
Realmente, conseguira obter informações importantíssimas
em Langley e em Nova Iorque, junto a políticos influentes,
que lhe forneceram todas as coordenadas quanto ao plano
de invasão de Cuba traçada pela CIA. Mais que depressa,
avisara Fidel Castro a respeito, e o ataque à Baía dos Porcos
ficou na História como um dos mais retumbantes fracassos
militares, diplomáticos e políticos dos Estados Unidos da
América.
Rodion Yermolaievitch Tainistskiy sorriu e passou a
mão pela testa ampla, deixada a descoberto pelos ralos
cabelos louros. Sim. Tinham sido bons dias aqueles. O
triunfo o deixara em posição privilegiada dentro do MVD,
e ele fora então encarregado de dar andamento ao Projeto
Soyuz, uma missão dificílima cuja finalidade era forçar
politicamente a China de Mao-Tsé-Tung a retomar o
alinhamento soviético, abandonado anos antes na época da
Revolução Cultural. Tainistskiy, com astúcia, habilidade,
arrojo e coragem, conseguira obter frutos compensadores
na missão, quando, por um golpe de azar do destino, Lin
Piao, o secretário geral do Partido Comunista Chinês na
época, morreu em circunstâncias extremamente misteriosas
num acidente aéreo sobre os céus da Mongólia. A esposa de
Mao-Tsé-Tung e a nova geração de líderes chineses se
encarregaram, então, de destruir paulatinamente o que o

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Projeto Soyuz havia realizado em longos anos de árduos
esforços.
Em virtude destes fatos, Tainistskiy caíra então em
desgraça junto ao Politburo. Considerado incapaz devido a
uma única, sè bem que devastadora, derrota em sua carreira,
fora removido do serviço de ação do MVD e encostado
numa função puramente burocrática, tendo como única
obrigação assinar montanhas de papel marcados com o
timbre do Ministério das Relações Exteriores.
Tainistskiy ressentia-se com isso. Os quinze anos em
sua nova função apenas serviram-lhe para reforçar todo o
seu desgosto, mágoa e rancor para com o sistema que o
desprezara. Agora, tudo o que lhe restava na vida era uma
esposa envelhecida e obesa, nascida na região do Tártaro-
Bashkir, um filho que se engajara no Exército Vermelho e
que há quatro não o via, servindo na guarnição militar de
Anadyr, na Sibéria, não se dignando sequer a escrever-lhe
uma carta em todo esse período, e uma minúscula casa no
subúrbio de Verkhino, com um jardim de quatro por três
metros à frente, gelada no inverno e abrasadora no verão.
Tudo isso, claro, além de uma pensão ridícula paga
mensalmente pelo MVD e o ódio, profundo e imenso, que
nutria pelos burocratas do Ministério e do Politburo.
Tainistskiy passou as mãos pelo rosto, como se assim
pudesse afugentar os fantasmas do passado e do presente.
Foi ao banheiro, tornou a lavar o rosto com a água gelada e,
sentando-se empertigado à mesa com um profundo suspiro,
retomou as suas tarefas habituais.
Havia um quarto de hora que folheava documentos
quando de súbito deparou-se com uma posta negra,
trazendo como título: “Rumos Estratégicos da Interexport
— Altamente Confidencial”.

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Tainistskiy sorriu. Tudo aquilo era altamente
confidencial, até mesmo um relatório informando quantas
mulheres um determinado agente comunista levava para a
cama por semana. Com ar de desprezo, abriu a pasta e
dedicou-se a uma rápida leitura.
Seus olhos, aos poucos, estreitaram-se. Reação típica de
um experimentado espião diante de algo do seu interesse.
Gradativamente, foi inteirando-se do teor do documento.
Ao final da análise, tinha os olhos arregalados de espanto e
um suor frio escorria-lhe da testa ampla. Era obrigado a
reconhecer que nunca, em sua vida, vira algo tão fantástico
e, não obstante, perfeitamente plausível. Os “Rumos
Estratégicos da Interexport” apresentavam um projeto
maquiavélico e diabólico, elaborado pelo MVD, capaz de
imprimir um novo rumo aos destinos da Humanidade. E, na
opinião de Tainistskiy, rumos horríveis e aterradores.
Não. Não era possível. O documento era importante
demais para ter de encontro às suas mãos. Algum engano
deveria ter ocorrido. Ou talvez sua lealdade ao Partido
estivesse sendo posta à prova por algum tacanho novo-
burocrata, recém-saído da Faculdade de Administração de
Ostankhino, ansioso por dar-lhe um golpe mortal.
Tainistskiy acendeu outro cigarro e contemplou as
volutas de fumaça elevarem-se enquanto raciocinava. Iria
chegar à verdade no fundo de todo aquele mirabolante
plano. Pressionou a tecla do intercomunicador:
— Camarada Kamenevna?
— Pronto!
— Venha à minha sala, por favor.
Olga Kamenevna, uma loura de alta estatura e cheia de
corpo, penetrou com um sorriso profissional no escritório
de seu chefe.

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— Pois não, camarada Tainistskiy. Em que posso servi-
lo?
O velho espião não perdeu seu precioso tempo.
— Um relatório chamado “Rumos Estratégicos da
Interexport”. Quem o entregou e quando isso ocorreu?
A jovem, concentrando-se, forçou pela memória:
— Refere-se a uma pasta preta com dizeres em cor
laranja, segundo o código da NKVD, não é mesmo,
camarada?
— Exato.
— Chegou hoje de manhã pelo malote do escritório de
Minsk. É só o que posso dizer-lhe a respeito.
— Minsk? Então... trata-se do Serviço 27!
— É o que posso supor, camarada. Alguma
comunicação do Serviço 27, concernente a assuntos
comuns ao MVD, ao Politburo, à NKVD e ao Soviet
Supremo. Fui-lhe útil a respeito?
Tainistskiy encarou-a com seus grandes olhos azuis.
— Sim, sem dúvida, camarada Kamenevna. Forneceu-
me todas as informações que eu pretendia obter.
Durante todo o restante da manhã, o velho espião
procurou concatenar as ideias. Agora não havia mais
dúvidas; o destino o pusera de posse de um importantíssimo
segredo, tão inimaginável que poderia revolucionar todo o
mundo. E, quiçá, também a sua própria vida.
Às duas da tarde, Rodiom Yermolaievitch Tainistskiy
deixou a repartição, afirmando que iria almoçar naquele dia
no Restaurante 41, em Sibirskoye Pereulok, três quadras
distante da Praça Vermelha.
A neve parara de cair. Envergando o seu pesado capote,
o funcionário do MVD passou pela ponte de Troitskaya e
pela porta de Kutafya, do Kremlin, ganhando em passos

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rápidos o Manezh Grádo na direção de Bybirskoye
Pereulok.
Afastara-se cerca de meia milha dos muros cinzentos do
Kremlin quando subitamente mudou de rumo. Descendo
rápido as escadas em Sibirskoye Pereulok na esquina com
Komsomolskaya Mésto, penetrou na estação do metrô de
Uzhgord. Adquiriu um bilhete para a estação de Vorkyuta,
e, vinte minutos depois, lá se encontrava.
Tainistskíy caminhou durante alguns minutos e então
parou diante de um prédio cinzento, em Vilno Vinograd.
Acendeu mais um cigarro e, no decorrer de algum tempo,
pensou insistentemente na possibilidade de desistir.
Tratava-se de algo muito perigoso. Sua vida poderia não
valer sequer um copeque se se intrometesse no assunto. No
entanto... o que valia a vida para ele? A recordação de
grandes glórias passadas. E, talvez, a possibilidade de uma
incomensurável vitória futura. Por que não tentar?
Tainistskiy penetrou no prédio sem elevador e dirigiu-
se até o quarto andar, batendo discretamente na porta do
apartamento 4-E. Era tudo ou nada.
Uma voz entre cavernosa e profunda respondeu às
batidas do interior do apartamento, em russo com sotaque
americano indisfarçável:
— Entre! A porta está aberta!
O velho agente secreto penetrou no aposente. Uma sala
mobiliada com relativo bom gosto, que ele já conhecia de
longa data. Como de hábito, o americano encontrava-se
protegido no vão da porta da cozinha, com uma enorme
automática Sterling calibre 45, doze balas no pente e mais
uma na agulha, apontando diretamente para a entrada.
Tainistskiy fez um gesto cansado e encarou sorridente o
ocidental.
— Tudo certo, Leroy. Apenas eu, desta vez.

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O americano sorriu em resposta e apontou o sofá, onde
o soviético recostou-se. Trancou a porta por dentro e,
somente então, cumprimentou o funcionário do MVD:
— OK, Rodion. Da próxima vez, tome mais cuidado.
Você poderia tranquilamente ter abotoado o paletó de
madeira.
O agente soviético não entendeu a gíria americana
literalmente traduzida para o idioma russo. Leroy percebeu
e deu de ombros.
— Poderia ter morrido, Rodion. Seja mais cauteloso no
futuro.
— Em contrapartida, procure ser mais cortês com os
visitantes. Não é polido fuzilar um amigo à. porta de
entrada.
O americano devolveu a pistola de grosso calibre ao
coldre subaxilar e acercou-se do pequeno móvel bar,
encontrando uma garrafa de vodca Wyborowa. Serviu-se de
uma dose generosa e, com uma expressão interrogativa,
mostrou a garrafa ao soviético. Tainistskiy meneou
negativamente a cabeça.
— Obrigado. Não bebo a esta hora.
Leroy sorveu um largo trago da bebida.
— Muito bem, Rodion. Vamos então diretamente ao
que interessa. O que tem desta vez que possa interessar à
CIA? Se for algo relativo aos rumos estratégicos da
Interexport, perde o seu tempo, meu amigo. Já estou ao par.
O ex-espião soviético não pôde evitar um sobressalto.
-— O que sabe sobre a Interexport?
Leroy riu-se.
— Tudo, camarada. Absolutamente tudo. Fui
informado a respeito por Stalin. Caso você não saiba, Stalin
é o nome em código de um dos meus contatos secretos na
sede do MVD.

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Rodion foi incapaz de ocultar seu profundo espanto e
decepção. Leroy sacou do bolso do sobretudo um
minúsculo cilindro metálico, mostrando-o ao soviético.
— Vê, meu amigo? Aqui estão os microfilmes dos
planos arquitetados por vocês, através da Seção 27. Não
pode negar que Stalin foi muito mais rápido e eficiente que
você.
Abatido, desorientado, Rodion acercou-se do bar e
serviu-se de uma dose de vodca. Não sabia mais o que fazer.
— Veio informar-me precisamente sobre a Interexport,
Rodion?
— Sim... sim.
— Então, estamos conversados, meu chapa. Fim de
papo. Volte rápido para o Kremlin antes que sua ausência
dê na vista.
O russo sorveu lentamente um trago de bebida
cristalina. Murmurou:
— Não vai me adiantar algum dinheiro pelo trabalho
que tive, Leroy?
— Que trabalho, velho? Todo o seu esforço, se é que o
teve, foi de todo inútil para mim. E, por falar nisso, Rodion,
resolvi dispensar os seus serviços. A qualidade do material
que você vem fornecendo à CIA por meu intermédio está
decaindo continuamente. Portanto, não posso mais investir
num informante fraco como você. Prefiro aplicar minha
verba em Stalin, que ao menos me oferece resultados muito
mais positivos. Considere-se despedido, Rodion. Não volte
mais aqui.
Os grandes olhos azuis do funcionário do MVD
brilharam de surpresa e fúria.
— Que absurdo é esse, Leroy? Como pode prescindir
de minhas informações, após todos estes anos?

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— Simples, velho. Você está obsoleto. Vamos dar lugar
a gente jovem. E agora, o que pretende fazer? Denunciar-
me ao MVD como espião da CIA?
O americano emitiu uma gargalhada insultuosa.
— Bem sabe que não pode fazer isso, Rodion. Seria
fuzilado incontinenti devido às suas ligações comigo. Siga
o meu conselho, velho: volte para as suas papeladas e
carimbos e esqueça que eu existo. OK?
— Canalha sujo!...
— Não seja infantil, Rodion. O que pensa que é a
espionagem? Um inocente jogo de bridge entre amigos?
A fúria, a raiva, o desespero e a revolta espocaram
simultaneamente no cérebro do velho espião soviético. Por
instinto, lançou o copo de vodca ao rosto de Leroy, que,
embora não conseguisse evitar ser atingido, reagiu
velozmente, a mão direita descendo como um raio em busca
da Sterling no coldre subaxilar. Rodion, com uma agilidade
espantosa, saltou sobre o americano, derrubando-o com
estrondo sobre o piso de madeira, enquanto
simultaneamente procurava afastar o cano da automática já
apontada para sua testa. Agarrou com força inaudita a mão
de Leroy e procurou febrilmente tomar-lhe a arma, não
obstante o indicador do americano estivesse já a premir o
gatilho.
A luta no solo foi muito breve.
Plop. Plop. Plop. Plop...
As treze balas foram cuspidas da arma em sucessão
contínua. Leroy, cujo pulso fora dobrado pela força incrível
de Rodion, recebeu os treze tiros à queima roupa em pleno
peito, tendo o tronco praticamente desfeito pelos balaços.
Aturdido, estonteado, o ex-espião soviético levantou-se
cambaleando e segurou a cabeça com ambas as mãos.
Contemplou por instantes o cadáver destroçado de Leroy e

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cerrou os olhos. Não conseguia ainda compreender o que
ocorrera em tão curto espaço de tempo.
Aos poucos, recobrou o sangue-frio. Bem, embora tudo
não passasse de um acidente, de uma infeliz fatalidade, o
crime estava cometido. O agente americano Leroy jazia
morto a seus pés num lago de sangue. A seu lado, o
diminuto cilindro metálico contendo os microfilmes. O que
fazer?
Com o rosto entre as mãos, Tainistskyi desabou sobre o
sofá e permaneceu por largo tempo inteiramente fora da
realidade. Milhares de ideias cruzavam sua mente como
numa tempestade cerebral. Em alguns segundos, toda a sua
vida sofrera brutais modificações.
De súbito, o soviético pareceu tomar uma decisão
drástica. Movendo-se com eficiência quase automática,
recolheu os microfilmes, trocou suas roupas
ensanguentadas por algumas que subtraiu do armário do
americano, limpou cuidadosamente as impressões digitais
deixadas em copos, nos móveis e na maçaneta da porta e,
aparentando absoluta tranquilidade, abandonou o
apartamento 4-E, misturando-se à multidão em Vilno
Vinograd.
Dirigiu-se diretamente para sua casa, suspirando
aliviado ao perceber que sua esposa se encontrava ausente.
Retirou do arquivo secreto um velho passaporte que o
identificava, sob outro nome, como funcionário da
Intourist, a agência oficial de turismo soviético, e, apenas
carregando uma pequena maleta, rumou para o aeroporto de
Domodedovo.
Às dez horas da noite, Tainistskiy embarcava no voo
1014 da Aeroflot para Paris.
Quando o aparelho alçou vôo por sobre o Rio Moscou,
Tainistskiy observou as luzes do Estádio Lênin e

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convenceu-se de que via Moscou pela última vez em sua
vida.

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CAPÍTULO PRIMEIRO

Rumos Estratégicos da Interexport

No último andar do imponente arranha-céu Franklin


Building, em Nova Iorque, uma importante reunião de
negócios transcorria na tarde de 13 de novembro.
O presidente do consórcio de aciarias K. K. K. Steel,
Ltda., o poderoso Horace Young Kirkpatrik, de pé à
cabeceira da descomunal mesa de cerejeira laqueada e
cercado por vinte e seis diretores de seu imenso império
econômico, apresentava à atenta assembleia seu parecer
sobre estratégias empresariais e cobrava resultados
financeiros para o fechamento do exercício fiscal de 1980.
À primeira vista, dir-se-ia que Horace Young
Kirkpatrik, proprietário e presidente da K. K. K Steel e de
mais umas três dezenas de empresas pertencentes ao seu
conglomerado industrial, era um homem absurdamente
jovem para ocupar o posto. No entanto, uma análise acurada
desautorizaria este ponto de vista.
Trinta e seis anos, mais de um metro e noventa de
altura, físico atlético, Kirkpatrik impunha-se no ambiente
não apenas por sua elevada estatura, mas principalmente
devido à sua personalidade forte, magnética e envolvente.
Os longos cabelos louros, penteados com descuidada
informalidade, davam-lhe a aparência de um leão tranquilo,
reforçada pelos olhos expressivos, cinzentos como o aço, e

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pelo rosto simpático e jovial, de traços másculos, regulares
e corretos.
Os que o conheciam o admiravam por considerá-lo o
exemplo vivo do american way of life. Apesar de
riquíssimo, não se deixara jamais escravizar pelo dinheiro
ou pelos negócios. Muito pelo contrário; raramente
intervinha diretamente na condução de seus assuntos
empresariais, e preferia ocupar a maior parte de seu tempo
circulando pelas altas rodas sociais do jet-set internacional,
sendo mundialmente conhecido como um playboy liberal
que preferia dilapidar a sua imensa fortuna em diversões do
que amealhar dinheiro.
Todas as portas da alta sociedade encontravam-se
permanentemente abertas para Kirkpatrik, o refinado
playboy, que como bon-vivant mestre nas artes de savoir-
faire, tanto podia ser encontrado mantendo um caso com
alguma princesa europeia na Suíça ou com uma atriz de
cinema em Hollywood, como esquiando em Gstaad,
correndo em Indianápolis ou participando de uma recepção
prive em Acapulco.
Naquele instante, contrariando seus hábitos, Kirkpatrik
dirigia-se ao conselho diretor que formara para gerir suas
empresas, ultimando instruções, enquanto seu pensamento
encontrava-se muito longe, em Paris, onde pretendia voar
naquela noite para encontrar-se com a artista plástica
Paloma Picasso, com quem jantaria no Maxim’s.
— ...bem, senhores, como eu dizia, este é
provavelmente o último encontro que teremos até o final do
ano, e gostaria de expor as diretrizes que considero básicas,
em termos de planejamento, para os investimentos que
devemos executar. Em função da análise que desenvolvi
das tendências de mercado, quero que sejam dadas
prioridades às nossas empresas na área da informática.

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Portanto, a Columbus, de computadores pessoais, e a
DeQuincy Technology, que trabalha com sistemas
direcionais para satélites da NASA, devem receber um total
de 37% dos nossos recursos orçamentários no exercício.
Por outro lado...
A luz verde acendeu-se subitamente sobre a porta de
pau-marfim trabalhado da ampla sala de reuniões.
Kirkpatrik interrompeu a sua exposição,
franziu a testa e, sem sair do lugar, pressionou uma tecla
embutida na própria mesa. A porta abriu-se e por ela
penetrou uma velhota de ar carrancudo, vestido no rigor da
moda de 1920. Era a secretária particular executiva de Mr.
Kirkpatrik.
— Mr. Kirkpatrik...
O presidente da K.K.K Steel emitiu um longo suspiro.
— Por favor, Miss Marble... não vê que estamos em
reunião?
— Sinto muito, Mr. Kirkpatrik. Lamento
profundamente, acredite-me. Foi exatamente o que eu disse
a esse horrível Mr. Smith, mas o indivíduo praticamente
forçou-me a vir incomodá-lo. Diz que precisa vê-lo agora,
e eu...
— Está bem. Basta — com um gesto de mão, o playboy
cortou as explicações da secretária. — Diga a Mr. Smith
que vou encontrá-lo em seguida.
Consultou seu relógio, um Universal Genève de
construção especial, e dirigiu-se aos diretores:
— Senhores, de fato eu me havia esquecido de um
importantíssimo compromisso a esta hora. Deverei
ausentar-me, mas isto não constitui um problema. Leiam o
relatório que mandei preparar por analistas financeiros de
Wall Street e depois deem-me uma resposta através de

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minha secretária executiva, Miss Ventura Marble, que
gentilmente recordou-me acerca do compromisso.
O milionário Horace Young Kirkpatrik despediu-se do
conselho de diretores e deixou a sala de reuniões. Miss
Marble, inquieta e nervosa, veio ao seu encontro.
— Eu não queria fazer isso, Mr. Kirkpatrik, mas fui
forçada a...
— Tudo bem, Miss Marble. Não se preocupe.
Mr. Smith, o pivô do contratempo, ergueu-se da
confortável poltrona de couro e avançou para Kirkpatrik
com a mão estendida. Tratava-se de um homem alto, magro
e espigado, aparentando cerca de cinquenta anos, com o
rosto severo e ossudo vincado por profundas rugas. Parecia
inteiramente incapaz de sorrir. E o pesado sobretudo
cinzento que vestia, defendendo-se dos rigores do outono
nova-iorquino, emprestava-lhe, na opinião de Miss Ventura
Marble, a aparência de um abutre solitário do Deserto Gila
espreitando a presa.
— Olá, Horace. Lamento interrompê-lo, mas presumo
que olvidou nosso compromisso.
— Com efeito. Podemos ir?
— Quando quiser.
Miss Marble, horrorizada e de olhos arregalados, viu o
multimilionário Kirkpatrik tomar o elevador privativo em
companhia do estranho Mr. Smith. Não conseguia
compreender como seu patrão abandonava uma
importantíssima reunião de negócios ao ser convocado pelo
misterioso personagem, que ela já tivera o desprazer de
encontrar em outras ocasiões. Miss Marble acreditava
piamente que Smith não passava de um reles agenciador de
mulheres, um caflen da pior espécie, que agora surgira para
convidar Mr. Kirkpatrik para horripilantes orgias sexuais
em algum local da Terra.

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Já no elevador, Kirkpatrik murmurou:
— Arriscou-se muito vindo ao escritório durante a
reunião, Mr. Lattuada.
— Eu sei, Horace. Mas temos em mãos um assunto
gravíssimo, e é imperioso que seja resolvido no menor lapso
de tempo possível. O único homem que poderá fazê-lo é
você, como 77Z.
— Sinto-me lisonjeado. Como sempre, a CIA resolve
recorrer a mim nos momentos mais inoportunos. Vamos ao
ponto de reunião secreto, o restaurante chinês?
— Desta vez, não. Iremos à sede do Departamento 77,
no Central Park.
Mesmo as pessoa mais íntimas nas relações de Horace
Young Kirkpatrik não poderiam jamais imaginar que, além
de constituir-se num bem-sucedido capitão de indústrias,
empresário fabulosamente rico, requintado playboy
internacional e desportista famoso, ele pudesse ainda
ocultar uma outra misteriosa faceta da sua personalidade.
Além de tudo isto, sob a denominação em código de 77Z,
Kirkpatrik atuava também como um ultra-secreto espião a
serviço da CIA, a Central Intelligence Agency, o organismo
de espionagem e contra-espionagem dos Estados Unidos da
América.
Além de Mr. Lattuada, um dos diretores gerais da CIA,
chefe do Departamento 77 e sob cuja orientação 77Z agia
(e que, nos contatos em público com Kirkpatrik, adotava o
nome em código de Mr. Smith), não mais do que dez
pessoas em todo o mundo conheciam o fato de que Horace
Young Kirkpatrik, o sofisticado bon-vivant, e o temido e
mortífero agente 77Z constituíam, na realidade, uma só
pessoa.
77Z, o espião de aço, tão frio e implacável que recebera
os cognomes de Robô e Andróide, era uma referência cuja

— 23 —
simples menção produzia o pânico entre os agentes secretos
inimigos. Com um longo currículo de operações bem-
sucedidas ao redor do globo, constituía-se numa lenda viva,
um herói para seus colegas da CIA e um permanente
tormento para os antagonistas da América, sendo conhecido
por toda a espionagem mundial, embora pouquíssimos
tivessem ciência de sua verdadeira identidade.
Kirkpatrik e Mr. Lattuada subiram ao décimo quinto
andar do prédio do Departamento 77, na Quinta Avenida,
nas proximidades do Central Park, e instalaram-se no
escritório particular do chefe. O louro espião assaltou
imediatamente a estante de bebidas, preparando para si um
bourbon com gelo e servindo um scotch a Mr. Lattuada.
Refestelou-se numa poltrona e acendeu um cigarro Avrupa,
aromático, fornecido sob encomenda. Após emitir uma
baforada para o teto, dispôs-se a ouvir.
— Muito bem, chefe. Vamos ao assunto. Diga-me o que
está tirando o sono da CIA desta vez.
Mr. Lattuada cruzou os dedos sob o queixo e, por trás
da escrivaninha, fitou fixamente o seu melhor agente
secreto.
— Um homem fugiu da União Soviética. De Moscou,
mais precisamente.
O playboy milionário permitiu-se rir.
— Ora, chefe! Isso ocorre todos os dias! Quem foi o
artista, desta vez? Um escritor dissidente, um bailarino...?
— Rodion Yermolaievitch Tainistskiy. Ex-espião da
KGB e do MVD. Até ontem, assessor para assuntos latino-
americanos do Ministério das Relações Exteriores da União
Soviética.
— Menos mal. E em que Tainistskiy pode ser útil para
a CIA?

— 24 —
— Vou resumir o que ocorreu. Hoje, ao meio-dia,
recebemos um informe em código do nosso escritório no
Rio de Janeiro, no Brasil. Mr. Cameron, o chefe da agência
local da CIA, avisou-nos que fora contatado por um homem
chamado Tainistskiy, ex-funcionário soviético, que fugira
de Moscou para o Rio de Janeiro via Paris e mostrava-se
disposto a vender-nos segredos de espionagem de valor
incalculável.
— Um método clássico.
— Sim. Tainistskiy afirmou dispor de microfilmes a
respeito de um plano conhecido como Rumos Estratégicos
da Interexport, que, segundo ele, vem a ser uma operação
em larga escala montada pela União Soviética e cuja
deflagração poderá modificar radicalmente todo o
panorama político mundial. Ao tomar conhecimento dos
projetos e de suas terríveis implicações, o funcionário do
MVD resolveu escapar para o Rio de Janeiro, cidade onde
possui amigos dos velhos tempos de espionagem, e vender-
nos os planos. De acordo com Tainistskiy, ele não está
preocupado com dinheiro, e sim com a possibilidade de
abortar a operação, que, em sua opinião, revelar-se-ia um
verdadeiro desastre para a humanidade.
— Quanto pede Tainistskiy pelas informações?
— Cinco milhões de dólares.
— Muito razoável. Bem, Air. Lattuada, a meu ver
estamos diante de um mero e simples caso de compra e
venda de segredos, o que é extremamente comum em
espionagem. A CIA já checou as referências do soviético?
— Sim. Nossa célula em Moscou afirma que de fato um
funcionário do MVD fugiu para o Ocidente. E, no mesmo
dia, um dos nossos agentes na capital russa, Adam Leroy,
foi assassinado.
Kirkpatrik manteve-se pensativo por alguns instantes.

— 25 —
— Acredita em coincidência?
— Não. Em espionagem não existem coincidências.
— Não obstante, todo o caso parece-me extremamente
simples. Basta instruir Mr. Cameron para fechar negócio
com o soviético. Ao mesmo tempo, enviamos um dos
nossos agentes para extrair de Tainistskiy a verdade sobre a
morte de nosso colega Leroy. Se os documentos forem de
fato importantes e o funcionário inocente, pagamos os cinco
milhões e assunto encerrado. Se Tainistskiy for o assassino
de Leroy, liquidamo-lo simplesmente e ficamos com o
segredo sem desembolsar um cent. Não vejo a razão de 77Z
ser acionado nessa operação. Qualquer outro agente poderá
desincumbir-se da missão a contento.
— Não é tão fácil assim.
— Prossiga. Sou todos ouvidos.
— Tainistskiy exige que o próprio 77Z negocie com ele.
O louro milionário exibiu um largo sorriso.
— Bem, agora o assunto começa a cheirar mal. Não é
necessário ser um crânio para suspeitar de que alguma
armadilha, alguma cilada está sendo arquitetada contra
mim.
— Sem dúvida.
— Neste caso, posso também supor que as informações
reunidas por Tainistskiy são falsas, apenas um pretexto para
atrair-me ao Rio de Janeiro.
— Não. A Central da CIA, em Langley, após analisar
todos os informes chegados do Brasil, concluiu que
Tainistskiy deve ter em mãos segredos importantíssimos e
vitais para nós. Ele forneceu uma palavra em código em
seus contatos: Shoybora.
— Shoybora: sinônimo de führer, duce... condutor.
— Exato.
— E o que significa isso, ao certo?

— 26 —
— Desde a época de Stalin, no pós-guerra, a CIA sabe
que os soviéticos, ao longo de muitos anos, vêm
implementando um conjunto de operações em todos os
países do Ocidente, designadas pelo nome genérico de
Shoybora. Com o passar do tempo nosso desespero cresce,
pois Shoybora, seja o que for, é uma ameaça, um perigo
latente no seio do mundo livre, e pode inclusive já estar em
ação sem que sequer desconfiemos disso. Por outro lado, é
absolutamente certa a ignorância dos soviéticos quanto ao
fato de conhecermos o nome-código destas operações.
Langley presume, portanto, que a circunstância de
Tainistskiy citar Shoybora faz pressupor a posse de
segredos vitais e sua disposição em fornecê-los a nós.
Kirkpatrik esmagou o cigarro no cinzeiro e coçou o
queixo.
— Ê verdade. Considerando-se estes dados adicionais,
vemos que a situação se complica violentamente. Em
última análise, Tainistskiy, suspeito do assassínio de um de
nossos agentes em Moscou, foge para o Ocidente e mostra-
se disposto a vender-nos documentos que sabemos com
certeza serem de extrema importância. Estabelece-se no Rio
de Janeiro por ter antigas amizades nessa cidade. No
entanto, deve ser encontrado com a máxima urgência, pois
certamente o MVD está à sua procura para liquidá-lo pela
traição e impedi-lo de entrar em contato conosco. Mas
Tainistskiy guarda um ás na manga: quer avistar-se apenas
com 77Z, a quem certamente conhece de nome, para
entabular as negociações.
— Essa é a essência do problema, Horace.
— Muito nebuloso. Temos várias alternativas para
enfrentar a questão.

— 27 —
— De fato. Estávamos pensando em enviar um outro
agente qualquer, que se apresentaria como 77Z a
Tainistskiy. O que acha da idéia?
— Não gostei. Pressinto que há algo de muito
importante em jogo em todo este caso. Isto representa um
desafio para mim.
— Você e suas manias, Horace! Viver perigosamente,
vencer desafios, empreender aventuras! Temos que pensar
numa saída que não o envolva pessoalmente.
— Negativo. Partirei para o Brasil. Se Tainistskiy quer
77Z, terá 77Z até pedir arrego!
— Espere, homem! Não pode fazer isso!
O doublé de milionário e espião prosseguiu, sem fazer
caso do comentário:
— Logicamente, não poderei apresentar-me ao
soviético de cara limpa. Portanto, Mr. Lattuada, seria
conveniente marcar uma sessão de maquiagem com o
especialista do Departamento 77. E, claro, marcar
imediatamente a passagem para o Rio de Janeiro. Passarei
antes por minha casa de Long Island, e, enquanto o diabo
esfrega o olho, satisfarei a vontade de Tainistskiy!
Mr. Lattuada ergueu-se da cadeira c ergueu as mãos.
— Ouça, Horace, falemos a sério agora. Você não pode
tomar uma decisão como essa. Trata-se de um assunto
extremamente grave.
— Está decidido, Mr. Lattuada. Irei.
O chefe do Departamento 77 mobilizou todos os seus
argumentos sem conseguir convencer Kirkpatrik. Assim era
77Z. Fanático por ação, aventura e emoção, audaz e
impetuoso ao mergulhar numa operação da espionagem
internacional. Impassível e frio como o gelo ao enfrentar
perigos terríveis e encarar a morte de frente. Um homem
excepcional.

— 28 —
Poucas horas foram suficiente para que o mais temido
agente do Departamento 77 traçasse seus planos de ação e
manipulasse os meios necessários à consecução dos seus
objetivos.
Após passar por notável mudança física nas mãos do
maquilador, visando preservar sua identidade secreta, o
doublé de milionário e espião muniu-se dos artefatos e
recursos que sempre utilizava quando em missão e dirigiu-
se ao Aeroporto John Fitzgerald Kennedy, já tendo em
mãos as passagens para o voo 806 da Pan American.
Ao meio-dia de 14 de novembro, 77Z desembarcava no
Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro

— 29 —
CAPÍTULO SEGUNDO

Contato

O acanhado apartamento encontrava-se imerso em


penumbra. Na diminuta sala de estar conjugada com o
quarto, um homem, deitado num maltratado divã, procurava
conciliar o sono, lutando por livrar-se das incômodas molas
de aço que pareciam querer perfurar o forro do móvel
ordinário.
Sua aparência combinava com o ar depressivo do
aposento. Barba de vários dias por fazer, o corpo exsudando
abundantemente em função do calor abrasador dos trópicos
no mês de novembro, o indivíduo assemelhava-se mais a
um farrapo humano, apenas os olhos azuis cintilavam na
escuridão como uma centelha de esperança.
Desistiu de dormir e permaneceu a fitar o teto. De
súbito, sua atenção foi despertada por estalos oriundos da
escada de madeira que conduzia àquele andar do prédio.
Num movimento inesperado, sua mão desapareceu sob o
travesseiro e ressurgiu armada com uma automática
soviética P-33 Tokarev equipada com silenciador.
Manteve-se atento por vários minutos, girando o cano
da pistola em todas as direções e pondo todos os sentidos
em estado de alerta. Por fim, sorriu. Alarma falso.
Certamente algum rato percorrendo os meandros
tenebrosos daquele local infecto.

— 30 —
Tomando a guardar a arma, o farrapo humano
concentrou-se novamente em seus sombrios pensamentos.
E, numa fração de segundo, antes que seus reflexos
instintivos pudessem intervir a seu favor, a porta de madeira
barata do apartamento foi fragorosamente derrubada e um
vulto, certamente surgido das profundezas do inferno,
postou-se no centro do aposento.
Não se podia distinguir o rosto do invasor, inteiramente
oculto pelas sombras. Via-se apenas o formidável cano de
uma automática militar Markarov calibre 45.
— Fim da linha, Tainistskiy. O jogo acabou — sibilou
o intruso.
O homem no divã susteve em meio ao gesto de agarrar
a sua Tokarev.
— Não faça um movimento sequer, Tainistskiy. Nem
mesmo respire.
O velho espião do MVD concordou com um
movimento cansado de cabeça. Sabia reconhecer a derrota.
A pergunta ociosa surgiu involuntária de seus lábios:
— OK. Quem é você?
O homem que empunhava com ambas as mãos a
imponente Markarov, apontando-a diretamente para o peito
de Tainistskiy, emitiu um riso curto e sinistro.
— Eu sou o anjo vingador, Tainistskiy.
A voz gutural e profunda fez gelar nas veias o sangue
do ex-funcionário do MVD.

***

O escritório da Central Intelligence Agency no Rio de


Janeiro situa-se num edifício da Avenida Rio Branco, no
centro da antiga capital do Brasil. Kirkpatrik para lá se
dirigiu, e, após trocar as senhas-código com Mr. Cameron,

— 31 —
que o aguardava ansiosamente, foi introduzido na ampla e
luxuosa sala particular do chefe da agência local, com vista
deslumbrante para a internacionalmente famosa Baía da
Guanabara.
Mr. Cameron, um homem alto e forte, de rosto
vermelho e traços típicos de um próspero fazendeiro do
Meio-Oeste americano, observou demoradamente o seu
visitante, após oferecer-lhe um Benson & Hedges e
generosa dose de scotch.
Tinha diante de si um homem de cerca de cinquenta
anos, de longos cabelos escuros, barba bem aparada e olhos
castanhos. Dir-se-ia um professor universitário, um
psiquiatra ou outro profissional liberal. O chefe local da
CIA observou que ele usava luvas e procurava jamais
mostrar o rosto de perfil.
— Eu o aguardava com grande ansiedade, Contato para
a Missão Rio de Janeiro. Como sabe, esta operação deverá
ser conduzida e concluída em regime de urgência. Que
identidade está utilizando aqui no Brasil?
— Sou Harold Y. Koch, turista de Nova Iorque.
— Muito bem, Koch. Você é o agente 77Z?
O espião sorriu com benevolência ante a inesperada
pergunta.
— É evidente que não, Cameron! Langley não iria
arriscar o agente 77Z numa missão como esta, que
apresenta todas as características de uma armadilha
preparada para um dos melhores espiões da CIA. Pelo que
eu sei, 77Z foi informado a respeito da Missão Rio de
Janeiro, e concordou com a idéia de se enviar um outro
agente, no caso eu, para contatar Tainistskiy.
Cameron alçou as sobrancelhas.
— Mas o soviético exigiu negociar com 77Z em pessoa!

— 32 —
— Ora, Cameron, e como Tainistskiy saberá que não
sou 77Z? Ninguém sabe quem é esse agente. Sua identidade
verdadeira é um completo mistério.
— Entendo. Com efeito, a CIA agiu com perspicácia
neste caso.
— Concordo. Por que arriscar?
Cameron retirou um maço de papéis de uma gaveta da
escrivaninha.
— Bem, Koch, vou fornecer-lhe todas as coordenadas
a respeito da Missão Rio de Janeiro. Após os contratos entre
nós e a Central, ficou estabelecido o seguinte: você deverá,
agindo como se fosse 77Z, estabelecer negociações com
Tainistskiy e obter os microfilmes dos Rumos Estratégicos
da Interexport. Será uma iniciativa solitária. A agência local
deverá intervir na operação somente se convocada por você.
Por outro lado, estaremos continuamente ao seu dispor,
caso surja alguma emergência, através de nosso número de
telefone que não consta do catálogo.
— Perfeito.
— Tainistskiy entrou em contato conosco por telefone
e carta, em várias ocasiões, ditando as normas de
negociação. Para garantir sua segurança, ele muda
diariamente de residência, e a única forma que temos de
chegar até ele é um número telefônico, também alterado a
cada dia.
— Vê-se que Tainistskiy não é novato em espionagem.
— Tem razão. Isso explica também o fato de ele ter
preferido refugiar-se no Rio de Janeiro. Certamente dispõe
de amigos e antigos companheiros nesta cidade.
Cameron estendeu uma folha manuscrita a Kirkpatrik.
— Tainistskiy pode ser encontrado hoje neste número
telefônico. Daqui em diante, salvo qualquer irregularidade,
as negociações deverão transcorrer apenas entre vocês dois.

— 33 —
— E quanto às facilidades operacionais?
— Terá total cobertura. Eis as chaves do carro à sua
disposição. Trata-se de um Ford branco, licença RS-5239
do Rio de Janeiro, que se encontra na ala sul do
estacionamento do edifício. Reservaremos agora mesmo
uma suíte em seu nome no Hotel Nacional.
— Não é necessário. Já tenho aposento reservados em
outro hotel, por iniciativa da Central.
— Ótimo. Se necessitar entrar em contato conosco pelo
rádio, a onda é BRC-86.
— Anotado.
— Agora, Kock, seria conveniente discutirmos alguns
pormenores da Missão Rio de Janeiro.
— Estou ao seu dispor.
Cerca de uma hora depois, conduzindo o automóvel
colocado à sua disposição pela agência local, o agente 77Z
deslocava-se pela Avenida Rio Branco no rumo sul, em
direção à Praia do Flamengo.
Entre as quinze residências de propriedades do
milionário Horace Young Kirkpatrik espalhadas pelo
globo, contava-se uma mansão no Rio de Janeiro, no bairro
conhecido como Joá. No entanto, em virtude de ser
necessário um contato com a agência regional da CIA na
cidade, 77Z preferira não recorrer à sua casa. De um modo
geral, pretendia não insinuar pista alguma que pudesse
vinculá-lo de alguma forma ao presidente da K. K. K. Steel.
Kirkpatrik tomou o Aterro do Flamengo e, após passar
por Botafogo, atingiu a Praia de Copacabana, dobrando à
direita na Avenida Atlântica. Dirigindo devagar, observou
com um sorriso de satisfação uma das praias mais
conhecidas do. mundo. Seria muito mais conveniente estar
no Rio de Janeiro em férias, gozando das delicias do mar e
do sol tropicais, mas... noblesse oblige. De qualquer modo,

— 34 —
se tudo terminasse bem, poderia ainda aproveitar alguns
dias da primavera carioca.
Algumas quadras adiante, Kirkpatrik parou diante do
Hotel Capacabana Palace, onde Langley lhe reservara uma
suíte. Após as formalidades, instalou-se em seus aposentos,
desfazendo-se com um suspiro de alívio, das roupas
pesadas que vestira em Nova Iorque.
Enquanto observava, através dos amplos janelões, as
ondas majestosas do Oceano Atlântico desfazerem-se em
espuma contra as areias da Praia de Copacabana,
Kirkpatrik, trajando apenas cuecas, saboreava um bourbon
com gelo, seu drinque predileto, e meditava sobre as
estranhas implicações da misteriosa Missão Rio de Janeiro.
Sem dúvida alguma, havia importantíssimas
informações em jogo em suas negociações com Tainistskiy.
A simples menção a shoybora já era uma indicação positiva
a este respeito. Por outro lado, haveria que pesar-se a
curiosa exigência do soviético: aceitava avistar-se única e
exclusivamente com o agente 77Z. Por que isso? Por que
razão o funcionário do MVD haveria de convocar um
espião que, embora muito conhecido pelo código na
comunidade internacional dos agentes secretos, era-lhe
pessoalmente desconhecido?
De mais a mais, havia ainda a questão de Adam Leroy.
Kirkpatrik dispunha de meios para saber diretamente de
Tainistskiy se ele fora o culpado pela morte do americano
em Moscou. Em caso positivo, o castigo do ex-espião do
MVD não poderia ser outro senão a execução sumária.
Bem, de qualquer modo, Kirkpatrik daria início à
operação dentro de poucos minutos, e o tempo encarregar-
se-ia de dirimir suas dúvidas.
Desfazendo a única mala que trouxera, o agente fora de
série da CIA depositou sobre a mesa de centro, na sala da

— 35 —
suíte, três objetos diferentes: uma calculadora eletrônica
Texas Instruments, um barbeador elétrico e uma câmera
fotográfica Canon.
Pressionando uma tecla oculta na minicalculadora, o
display pivotou sobre si mesmo, desaparecendo o visor em
cristal líquido e surgindo em substituição a superfície de um
minúsculo alto-falante. Destarte, a máquina de calcular
transformou-se num diminuto aparelho transmissor-
receptor de rádio em ondas médias com alcance num raio
de cinquenta milhas. Ajustando as placas moduladoras em
circuito impresso, o agente 77Z regulou o dispositivo para
a frequência de onda BRC-86.
Desmontando o barbeador e a máquina fotográfica, o
espião fora de série descartou alguns componentes e
rearranjou outros, fazendo surgir, em menos de dois
minutos, dois outros artefatos inteiramente diferentes dos
originais: duas pistolas automáticas, uma Semmerling LM-
4 calibre 45 ACP, conhecida como o canhão de bolso, e uma
Walther P-38, calibre 9 milímetros, de cano longo e
equipada com silenciador.
Calma e metodicamente, como se executasse uma
operação já longamente ensaiada, o presidente da K.K.K.
Steel retirou de fundos falsos da mala quatro magazines:
dois de oito projéteis 9 milímetros Luger e dois de sete balas
45 Rimfire.
Clac. Clac.
Encaixou os pentes com estalidos secos nas duas armas
automáticas e guardou os sobressalentes nos bolsos internos
do seu paletó.
Consultou então o seu Universal Genève: três horas e
um quarto da tarde. Conveniente para o contato. Tomou o
telefone e premiu as teclas, formando o número secreto de
Tainistskiy para aquele dia.

— 36 —
Não obteve resposta. Repetiu o procedimento e, após
alguns segundos uma voz grave e profunda atendeu,
falando em inglês com levíssimo sotaque eslavo:
— Pronto.
— Sou o contato para a Missão Rio de Janeiro. Nas
águas geladas do Volga, em novembro, após as corredeiras
de Volsk...
— Seguem os cardumes de esturjões para o delta de
Astrakhan, no Mar Cáspio.
— Perfeito. Seu código é um tanto ou quanto criativo.
— Obrigado. Como devo chamá-lo?
— Koch. Harold Koch.
— Você é 77Z?
— Evidente.
— Como posso ter certeza disso?
— E quanto a mim? Como saberei que você não é
Leonid Brejnev ou Deng Xao-ping disfarçado?
Breve silêncio.
— Ouça, Koch, estamos ao telefone e devemos ser
breves. Mas digo-lhe que só negociarei com 77Z em pessoa.
Não existe outra alternativa.
— Por outro lado, quem é você?
— Ora! Rodion Yermolaievitch Tanistskiy, é claro!
— Tainistskiy, tenho pressa em concluir esta missão.
Portanto, estabeleça já as suas condições. Afirmo-lhe, sou
77Z. Se não chegarmos a um acordo, pode voltar ao seu
país. São estas as minhas condições.
Ouviu-se um breve suspiro, e o interlocutor recomeçou
a falar em idioma russo:
— Está bem. Vamos marcar um encontro, então.
— Quando e onde?
— Boite Samba. Às dez da noite. Conhece o local?
— Não, mas não será difícil encontrar.

— 37 —
— Ê uma casa de shows na Avenida Atlântica, no final
da Praia de Copacabana. Estarei com um exemplar do
Brazil Herald sobre a mesa e usarei um cravo na lapela.
Utilizaremos o código 2 para comunicação. Certo?
— OK.
— Trouxe o dinheiro?
— Sim. Mas definiremos depois o processo de entrega.
— Está bem, Koch.' Vejo-o depois.
Kirkpatrik pousou o fone no gancho e sorriu.
Sim, talvez a operação fosse mais fácil do que pensava.
Sem pressa, colocou três ampolas de pentotal sódio
num dos bolsos do paletó, deixando o tempo correr. E, às
oito da noite, desceu à Avenida Atlântica, inspirando o ar
fresco carregado de maresia.

— 38 —
CAPÍTULO TERCEIRO

A Boite Samba

A casa de espetáculos encontrava-se quase que


totalmente lotada. Na penumbra ambiente, rasgada em
alguns locais por fachos de luz negra, mesclava-se um
alegre vozerio em quase todos os idiomas do Ocidente,
enquanto garçonetes em trajes ousados circulavam e, num
palco elevado cerca de metro e meio em relação ao nível
das mesas, seis belíssimas mulatas exiguamente vestidas
promoviam um excitante show erótico ao som de um
arranjo da música New York tocado pela pequena
orquestra.
Kirkpatrik, desempenhando a contento o seu papel de
Harold Koch, turista americano, não teve dificuldades para
encontrar o homem cujos sinais correspondiam aos que
Tainistskiy lhe fornecera por telefone.
Tratava-se de um indivíduo de estatura média, sólido e
atarracado, de ombros extremamente largos e um crânio
redondo totalmente desprovido de cabelos. Os olhos frios e
calculistas e as manoplas gigantescas completavam a figura
impressionante.
O soviético assemelhava-se a um armário encimado por
uma bola de cristal. E, a julgar-se pela aparência, deveria
possuir a força de dois touros.

— 39 —
O agente 77Z aproximou-se dele e, lançando um olhar
casual ao exemplar do Brazil Herald estendido sobre a
mesa, murmurou:
— Esse jornal apresenta as últimas notícias sobre as
prévias eleitorais americanas, amigo Rodion?
— Sem dúvida, Harold. Sente-se. Gostaria de conversar
com você a respeito da reeleição do senador Ted Kennedy.
Acedendo ao convite, Kirkpatrik sentou-se à mesa, em
frente ao soviético. Uma garçonete morena de corpo
espetacular e sorriso insinuante aproximou-se rapidamente,
e, ao abaixar-se para anotar o eventual pedido, praticamente
fez desaparecer o rosto de Kirkpatrik entre seus seios
generosos e empinados.
— Em que posso servi-lo, bonitão?
— Em muitas coisas. Por enquanto, apenas um bourbon
com gelo. Depois... quem sabe?
Enquanto a moça providenciava o drinque, 77Z
acendeu um Benson & Hedges, oferecendo outro ao
funcionário do MVD. Evidentemente, estando em contato
com Tainistskiy, não iria fumar seus cigarros preferidos, os
Avrupa, pois, por serem exclusivos, constituir-se-iam num
indício que poderia levar à sua identificação.
Inalou profundamente a fumaça e encarou Tainistskiy
com um sorriso.
— Devo congratular-me com você pela estupenda idéia
de refugiar-se no Brasil, Rodion.
O outro pareceu surpreso.
— Por que diz isso?
— Criou uma excelente oportunidade para que eu
pudesse rever este país indescritível e maravilhoso. Neste
instante, em Moscou, já estaríamos soterrados sob
toneladas de neve.
O funcionário soviético grunhiu algo ininteligível.

— 40 —
— Vamos ao assunto, Harold. Você é 77Z?
— Creio que está sendo insistente demais, meu amigo.
Afianço-lhe que sou 77Z. Dou-lhe minha palavra.
— Não poderia ser mais explícito e objetivo?
— Confesso não perceber aonde pretende chegar,
Rodion.
— Bem... o MVD suspeita que 77Z esteve envolvido
em algumas operações de grande envergadura internacional
nos últimos meses...
— Por exemplo?
— Vejamos... o rapto do professor Wieniawski e os
roubo dos planos da Arma L em Varsóvia (*), a
neutralização do Projeto Q em Londres...(**) E, mais
recentemente, o caso da Operação Shalom, em que 77Z,
servindo à CIA, trabalhou também a favor dos nossos
interesses comuns, dos Estados Unidos e da União Sovética
(***). Isto para citar apenas algumas operações.

(*) Ver CONEXÃO VARSÓVIA, Vol. 134 desta coleção.


(**) Ver ALARMA EM LONDRES, Vol. 138 desta coleção.
(***) Ver OPERAÇÃO SHALOM!, Vol. 140 desta coleção.

Kirkpatrik alçou as sobrancelhas.


— Bem, Rodion, sua curiosidade acabou excitando
também a minha. Seria lícito saber-se por que exigiu
encontrar-se única e exclusivamente comigo, ou seja, com
77Z? A meu ver, trata-se de uma simples compra de
informações. Por que eu fui o escolhido?
O soviético manteve-se em silêncio enquanto a
garçonete servia o bourbon on-the-rocks e aguardou que
ela, após lançar um olhar promissor ao turista Harold Koch,
se afastasse novamente.
— Ê fácil explicar, Harold. Eu sou um traidor; roubei
documentos secretos ao MVD e refugiei-me aqui,

— 41 —
praticamente sem cobertura alguma, disposto a negociá-los
com a CIA. Outro agente americano qualquer poderia
simplesmente matar-me e regressar com os informes dos
Rumos Estratégicos da Interexport. No entanto, o agente
77Z, embora sua identidade seja desconhecida, dispõe de
reputação no mundo da espionagem. Sabe-se que é um
adversário corajoso, honesto e leal, pelo menos tão honesto
e leal quanto possível no mundo sórdido da espionagem.
77Z jogaria limpo comigo. Portanto, em defesa de minha
própria vida, exigi negociar apenas com 77Z.
Kirkpatrik esmagou o cigarro no cinzeiro.
— Muito prudente de sua parte, Rodion. No entanto,
terá que confiar em mim. Caso contrário, voltarei para a
América e o deixarei nas mãos dos istrebitel da Smersh.
Afinal, é a sua vida que está em jogo, e não a minha.
O funcionário suspirou e sorveu mais um gole do seu
hi-fi.
— Infelizmente, é a verdade.
— Muito bem. Então, sejamos práticos.
O agente fora de série da CIA estendeu ao soviético um
pequeno cartão.
— Eis o endereço de uma casa na Barra da Tijuca.
Esteja lá amanhã às dez horas em ponto, levando os
microfilmes dos Rumos Estratégicos da Interexport. Aviso-
o de que vou analisá-los. Se ficar satisfeito, pagarei os seus
cinco milhões em cheque contra o Mannekenbank, de
Bruxelas, Bélgica. Fim de tudo. Concorda?
— Mas... e quanto às minhas garantias?
— Não se preocupe. Se o seu jogo for limpo, nada tem
a temer. Lembre-se de que está negociando com 77Z.
O soviético passou um lenço pela ampla calva, onde
rebrilhavam gotículas de suor.
— Tenho alternativa, Harold?

— 42 —
— Sim. Desistir da operação.
Nesse momento soaram os últimos acordes de New
York, e as seis belíssimas mulatas, simultaneamente e com
muita graça, retiraram a última peça de roupa que lhes
restava, minúsculas calcinhas de cetim vermelho, lançando-
as em direção dos frequentadores da Boite Samba, que
interromperam em estrondosos aplausos, maravilhados
com a excepcional beleza e charme das jovens morenas.
Enquanto as cortinas desciam, ocultando as magníficas
moças, um artista adentrava o palco:
— Atenção, senhoras e senhores! Não se esqueçam de
que às onze horas, dando continuidade aos nossos
espetáculos, teremos cr sensacional show As Gladiadoras
Eróticas, com Rose Martins e Lia Oliveira! Bom
divertimento, amigos!
O funcionário do MVD terminou o seu hi-fi e ergueu-
se da mesa.
— Concordo, Harold. Não tenho escolha.
— Certo. Às dez, com os microfilmes. Ê ocioso dizê-
lo, mas venha só. Caso contrário, poderei interpretar mal a
sua atitude.
— Claro. Não vem?
— Não. Pretendo assistir ao show das Gladiadoras
Eróticas.
— OK. Até breve.
Kirkpatrik permaneceu calmo e tranquilo enquanto
Rodion Yermolaievitch Tainistskiy desaparecia entre os
frequentadores da Boite Samba. Enquanto sorvia em
pequenos tragos o seu bourbon com gelo e tragava
pensativamente o seu Benson & Hedges, as engrenagens
cerebrais trabalhavam a todo vapor.
Iniciou-se o espetáculo das Gladiadoras Eróticas, com
duas lindíssimas jovens de seios nus e calcinhas

— 43 —
substituídas por simples cintos cravejados de pedras
semipreciosas figurando uma luta no Coliseu ao tempo do
Império Romano.
O agente 77Z, porém, fitava um ponto indefinido no
espaço, e, não obstante a tremenda algazarra produzida por
fregueses entusiásticos à sua volta, permanecia
inteiramente alheio aos acontecimentos no interior da casa
de espetáculos.
Bem. O soviético Tainistskiy apresentara uma razão
válida para exigir a sua presença nas negociações. Seria
razoável supor que ele poderia estar enunciando a verdade.
No entanto, Kirkpatrik» devido ao sexto sentido
desenvolvido pelo espião experiente, farejava algo de mais
misterioso e inconfessável nas atividades de Tainistskiy.
Em todo o caso, tinha meios de desvendar o mistério no dia
seguinte. Atrairia o soviético a uma das residências da CIA
no Rio de Janeiro, cujo endereço lhe fora facilitado por Mr.
Cameron, e então, utilizando uma leitora de microfilmes,
poderia firmar posição quanto à validade dos documentos
apresentados por Tainistskiy. Enquanto isso, poderia injetar
o evadido de Moscou com pentotal sódio e extrair dele as
verdadeiras razões de sua vinda ao Brasil. Em suma, o caso
não se constituía numa dificuldade para 77Z. Ele já
enfrentara situações muito piores.
Terminara o show. Vários frequentadores da Boite
Samba já se retiravam e Kirkpatrik decidiu ir-se embora,
dormir o seu primeiro sono desde Nova Iorque. Notou então
a aproximação de uma garota morena e alta, muito bem-
feita de corpo, que se inclinou ligeiramente em sua direção.
Para completo espanto de 77Z, a jovem dirigiu-se a ele em
perfeito russo, falando em voz muito baixa:
— Cavalheiro, pode me ceder um dos seus cigarros?

— 44 —
O milionário assim o fez, e a moça, dirigindo-lhe um
sorriso luminoso, acendeu o cigarro e deixou a caixa de
fósforos sobre a mesa.
— Spaciba, tovarich (*).

(*) Obrigada, Camarada – Em Idioma Russo.

A garota sumiu-se rapidamente na multidão que


deixava a Boite Samba, confundindo-se com os demais
frequentadores. O agente 77Z, habituado a tais situações,
lançou discretamente a caixa de fósforos em meio às
páginas do Brazil Heralcl e, enquanto fingia ler o jornal,
abriu cuidadosamente a peça.
Havia apenas uma curta mensagem redigida às pressas
em russo:
Informações vitais sobre R. Y. Tainistskiy. Sua vida
está ameaçada. Olga, na praia em frente, em dez minutos.
Kirkpatrik franziu o cenho. Bem, em espionagem,
nenhum indício deve ser desprezado. Qualquer informação
pode ser de capital importância.
O Andróide, com seu computador mental operando
todos os quilowatts de que dispunha, pagou a conta e saiu
da Boite Samba, cruzando a Avenida Atlântica. Observou a
extensão infinda de areia e o mar que morria brandamente.
A lua cheia, enorme, como sói ocorrer nos trópicos,
banhava a tudo com uma suave luminescência dourada, que
refulgia nas alvas cristas das brandas ondas e nas fachadas
em vidros fumée dos altos edifícios.
Uma atmosfera idílica. Contra o disco amarelado da
lua, recortava-se uma figura alta e esguia que, imóvel em
frente à calçada fronteira ao mar, tinha os longos cabelos
esvoaçantes devido à mansa brisa que soprava do Oceano
Atlântico.

— 45 —
Kirkpatrik aproximou-se, tendo antes o cuidado de
acender um cigarro ao atingir o lado da praia, para que a
moça pudesse ver-lhe o rosto à luz da chama. Postou-se ao
lado dela.
— Olga?
— Sim. E fez muito bem em atender ao meu convite,
americano. Ê urgente que eu lhe alerte dos perigos que está
correndo.
Prosseguiram caminhando ao longo da praia em direção
a um bairro chamado Posto Seis, enquanto e inefável brisa,
que trazia consigo um indefinível bem-estar e uma sensação
de liberdade, contribuía para tornar as duas pessoas,
inteiramente desconhecidas uma da outra, cada vez mais
próximas e mais íntimas entre si.
— Muito bem. Em seu bilhete, você falou em...
— Tainistskiy. Não é ele. Provavelmente, você é um
agente da CIA, e está sendo miseravelmente enganado por
Iosif Alexeiev, que se está fazendo passar pelo pobre
Rodion. Estou certa?
— Bem... precisamos trocar ideias num ambiente mais
calmo. Vejo que muitas coisas inesperadas estão
acontecendo simultaneamente. Encontrei-me com
Tainistskiy...
— Que na verdade não é Rodion Yermolaievitch
Tainistskiy, como você pensa, e sim Iosif Alexeiev, chefe
do escritório do MVD no Rio de Janeiro, conforme eu já lhe
disse. Americano, você está sendo atraído a uma armadilha
mortal, tenho certeza. E eu estou tentando protegê-lo.
— Por quê? E quem é você, na verdade?
— Apenas Olga. Quanto à primeira pergunta, respondê-
la-ei no momento adequado. Assusta-lhe a idéia de passear
de automóvel comigo?
— Em absoluto.

— 46 —
— Perfeito. Então, eu o convido a vir à minha casa.
Caminharam mais uma centena de metros em frente à
praia. Então, Olga abriu a porta de um Mercedes Benz SLC-
350 conversível estacionado na calçada fronteira ao mar e
convidou o superespião da CIA a acompanhá-la. Kirkpatrik
estava seguro de si. Tinha a Walther P-38 no coldre
subaxilar, a Semmerling LM-4 fixada ao tornozelo por uma
tira de borracha e mais um tremendo arsenal de truques
oculto em seu paletó. Seria muito difícil surpreendê-lo. E
ele se decidiu a seguir a linha que o destino preestabelecia.
Olga, ao volante do automóvel esportivo, sorriu
enquanto seus longos cabelos negros ondeavam ao vento.
— Sinto-me inspirada hoje, americano. Minha intuição
me segreda que algo de bom há de me acontecer. E nem ao
menos sei o seu nome.
— Harold Koch. De Nova Iorque.
— Muito bem, Harold. Prepare-se!
Saindo para a Avenida Atlântica, Olga pisou fundo no
acelerador, levando o motor a seis mil giros. O Mercedes
arrancou rangendo pneus, dobrando logo adiante num
retorno e enveredando logo a seguir numa transversal,
cruzando a Avenida Nossa Senhora de Copacabana e saindo
na Avenida Vieira Souto, já no bairro de Ipanema, onde a
garota imprimiu a máxima velocidade à máquina.
Enquanto ela e Kirkpatrik saíam da Avenida Atlântica,
um Porsche 911, que estivera estacionado em frente à Boite
Samba, punha-se imediatamente em perseguição ao
Mercedes, conduzido por uma garota loura. Seu
acompanhante, que praticamente desaparecia no assento
dianteiro direito do automóvel, comandava:
— Siga-os, Tatiana! Esse tal de Harold Koch não pode
desaparecer de nossas vistas!

— 47 —
A Avenida Vieira Souto, estendendo-se entre o bairro
de Ipanema e o Oceano Atlântico, prossegue por vários
quilômetros, em frente ao Leblon, já com o nome de
Avenida Delfim Moreira e, no final, transforma-se numa
simples estrada de montanha, circundando o mar em
demanda da Avenida Niemeyer e dos bairros externos do
Rio de Janeiro, como Barra da Tijuca e São Conrado.
Olga, ao penetrar na Avenida Vieira Souto, tinha à sua
frente um boulevard de pelo menos sete quilômetros,
paralelo ao mar e interrompido a cada cem jardas por sinais
de trânsito devidos às transversais. Com acentuado temor,
Kirkpatrik viu a garota pressionar até o final o acelerador
da máquina e ganhar a velocidade máxima de duzentos e
vinte quilômetros por hora, transpassando como um
relâmpago todos os sinais de tráfego e todas as transversais
à sua frente. Recordou-se de sua pilota de Fórmula Um na
Scuderie Grizzly, Savina Blixen. Em termos de técnica de
pilotagem, confiava muito mais em sua pilota número um
(*).

(*) Ver ESPIONAGEM EM ALTA ROTAÇÃO, Vol. 135 desta


coleção.

Ao final da Avenida Delfim Moreira, a duzentos e vinte


quilômetros por hora, simplesmente voando sobre o asfalto,
Olga executou um punta-tacco, e murmurou:
— Segure-se mais do que nunca, Koch. Vamos entrar
na Avenida Niemeyer.
No cruzamento de Delfim Moreira com Almirante
Guilherme, a sombra bradava desesperada: — Acelere
mais, Tatiana! Eles estão escapando!
A resposta da loura foi pisar até o limite do acelerador
do Porsche, o que promoveu uma violenta descarga de
torque nas rodas motrizes. Com o esportivo alemão
— 48 —
seguindo a quase trezentos quilômetros por hora no pique
de aceleração, sentindo a Pedra dos Dois Irmãos voando
velozmente rumo a si, Tatiana explodiu:
— Ora, vá ao inferno! Estou fazendo o máximo que
posso!
Olga tomou as curvas da Avenida Niemeyer como se
estivesse perseguida pelo diabo em pessoa. Entre o paredão
rochoso e o mar, cinquenta metros abaixo, conduzia o
conversível Mercedes nos limites de execução de cada
curva. Kirkpatrik, apesar de experimentado espião,
começou a suar frio.
Com total domínio da máquina, a garota entrou à direita
na Estrada das Furnas, e, após dezenas de curvas insensatas
que fizeram o agente 77Z sentir o sangue gelar nas veias,
tomou novamente o caminho à direita, pela Estrada da Vista
Chinesa. Penetrou então na garagem de uma mansão,
próxima à Mesa do Imperador. Fez o Mercedes deslizar no
solo enquanto freava, e dirigiu-se a Kirkpatrik com um
sorriso franco e ingênuo:
— Estamos em casa, americano.
Quinhentos metros antes, Tatiana, com um brusco
ranger de freios, alertava o seu companheiro:
— Temos Harold Koch em nossas mãos. E também essa
intrometida.
O outro concordou com um aceno de cabeça.
— Certo, Tatiana. Eles estão acabados. E, com eles, a
Missão Rio de Janeiro.

— 49 —
CAPÍTULO QUARTO

A mulher toca a música...

Olga apontou para a estante-bar:


— Sirva-se de um drinque e fique à vontade, Harold.
Volto em um minuto.
O agente fora de série da CIA, com a sua habitual
capacidade de observação, analisou num relance o amplo
salão principal da casa e balançou a cabeça
aprovativamente. De fato. O ambiente era mobiliado com
luxo, requinte e extremo bom gosto. Os móveis de estilo
combinavam harmoniosamente com a decoração, os
quadros de renomados pintores brasileiros e o piano de
cauda Essenfelder, próximo aos janelões através dos quais
se descortinavam um panorama privilegiado da Lagoa
Rodrigo de Freitas e do Oceano Atlântico.
Olga retomou em seguida e dedicou-se a preparar um
old fashion. Kirkpatrik pôde então observá-la mais
detidamente.
A moça poderia realmente ser considerada uma obra
prima da natureza. Alta e esguia, a peie bronzeada pelo sol
dos trópicos, tinha os longos cabelos negros reunidos à nuca
por um laço e descaindo pelas costas quase até à cintura.
Seu rosto era delicado, meigo e suave, de grandes e
ingênuos olhos negros, nariz ligeiramente arrebitado e
boquinha rósea e sensual.

— 50 —
Prosseguindo o exame com olho clinico, o presidente
da K.K.K Steel, catedrático em belas mulheres, notou o
pescoço longo e gracioso e desceu aas seios exuberantes,
moldados pela camisa informalmente entreaberta e com as
pontas amarradas à altura da cintura, extremamente fina. O
minúsculo short deixava à mostra as pernas longas e de
proporções perfeitas.
Olga apercebeu-se da análise e voltou-se com um
sorriso:
— Gostou?
O playboy milionário acenou afirmativamente.
— Na minha opinião, a mulher nota dez seria você e
não Bo Derek.
Lisonjeada com o galanteio, a garota sentou-se ao lado
de Kirkpatrik no sofá forrado de veludo e sorveu um
pequeno trago do seu drinque.
— Também o acho simpático, Harold. Muito simpático.
— Obrigado. Louvo o seu bom gosto. Mas isso não irá
escusá-la de apresentar explicações para as loucuras que
praticou ainda há pouco ao volante. Escapamos por pouco
de nos transformarmos em estatística.
A moça tornou-se subitamente séria.
— Bem, eu temia que Iosif estivesse nos seguindo.
Observei um automóvel atrás de nós, desenvolvendo
também grande velocidade, desde a Avenida Atlântica até
o final da Delfim Moreira. Mas creio que consegui despistá-
lo. Isto não é uma brincadeira, Harold; estamos lidando com
um perigo real e espantoso.
— Não duvido. Entretanto, a sua intervenção
intempestiva complicou tremendamente um caso que se me
afigurava extremamente simples. Não mais que de repente,
Tainistskiy passa a não ser mais Tainistskiy e sim Iosif
Alexeiev, chefe do MVD no Rio de Janeiro, segundo você.

— 51 —
Então, o que ocorreu com o Tainistskiy verdadeiro? E como
pôde você identificar-me? Qual o seu motivo para avisar-
me do fato? Em suma, onde você se encaixa em toda esta
confusão?
A bela morena suspirou profundamente.
— Vou explicar-lhe tudo, Harold. Começarei pelo
princípio.
— Ótimo. O que acha de me dizer o seu nome?
— Olga Nikolaievna Basov.
— Russa, evidentemente.
— Não. Sou brasileira; nasci no Rio de Janeiro e sempre
vivi nesta cidade. Meus pais, porém, eram ambos russos.
— Compreendo. Prossiga.
— Meu pai era muito amigo de Tainistskiy. Eles se
conheceram há muitos anos, na União Soviética, durante a
Segunda Guerra Mundial. Em 1960, devido a problemas
políticos, meu pai decidiu deixar o país, fixando-se aqui no
Brasil. No entanto, apesar da distância, eles continuaram
mantendo as relações de amizade e, a essa época, Rodion já
trabalhava no MVD.
O agente fora de série acendeu um Benson e ofereceu
outro à moça, prontamente aceito. Olga Basov tragou
profundamente o cigarro e prosseguiu:
— Há quatro dias, recebi um telefonema de Rodion. Ele
se encontrava aqui no Rio e, segundo explicou, encontrava-
se numa situação difícil e necessitava de nossa ajuda.
Porém, meu pai faleceu há mais de um ano, e minha mãe,
Vanya Nikolaievna, há cerca de cinco anos.
— Você não tem irmãos?
— Nem parentes. Tudo o que me restou foi esta casa,
depois que os meus faleceram. No entanto, enquanto meu
pai era vivo, Rodion nos visitou algumas vezes, enquanto
em missões do Ministério das Relações Exteriores. E, ao

— 52 —
ver-se em dificuldades, Rodion escapou da União Soviética
e apelou a mim, como filha do coronel Yuri Basov, seu
velho amigo.
— Normal.
— Exato. Na segunda feira, após telefonar-me, Rodion
esteve aqui em casa. Explicou-me que fugira da União
Soviética por ter descoberto um plano secreto, os Rumos
Estratégicos da Interexport, que, se implementado, poderia
destruir por completo a humanidade tal como a conhecemos
hoje.
— E entrou em detalhes quanto a esse projeto?
— Não. Disse-me apenas que pretendia entrar em
contato com a CIA, a fim de fornecer os microfilmes desse
projeto, pois, segundo ele, a Central Intelligence Agency
seria a única organização no mundo capaz de abortar o
monstruoso plano preparado pelo MVD. E, embora eu
insistisse, preferiu não se ocultar em minha casa, para não
me envolver na operação e não colocar em risco a minha
integridade física. Preferiu esconder-se, enquanto durasse
as negociações com a CIA, num apartamento no Flamengo
que eu consegui em contato com outras pessoas.
— Bem. Entendo. Tainistskiy, sendo amigo de sua
família, escapou da Rússia com documentos secretos e
decidiu recorrer ao seu auxílio, no Rio de Janeiro, a fim de
instalar-se convenientemente enquanto entabulava
negociações com a CIA.
— É isso mesmo. Entretanto, Rodion garantiu-me que
fazia isso em benefício único e exclusivo da humanidade, e
não por quaisquer motivos egoísticos. E ele, como
funcionário do MVD, entregou-me a foto de uma pessoa e
seu nome, afirmando-me que se algo de mau, alguma
desgraça lhe ocorresse, o culpado só poderia ser aquele
homem.

— 53 —
— Iosif Alexeiev, chefe do escritório do MVD no Rio
de Janeiro.
— Correto. Como é lógico, o MVD andava à sua
procura, a fim de impedir que o teor dos documentos
secretos que ele pretendia negociar caíssem em mãos
estranhas. E eu visitava Rodion todos os dias, a fim de lhe
prestar auxílio, pois ele se recusava até mesmo a descer à
rua, preocupado com a possibilidade de ser interceptado
pelos istrebitel a soldo de Iosif. Hoje à tarde, porém, algo
de muito estranho ocorreu.
— Um... rapto?
— Exatamente. No dia anterior, Rodion mostrava-se
animado. Entrara em contato com o escritório da CIA no
Rio e disseram-lhe que um agente, vindo diretamente de
Langley, estava a caminho para ultimar as negociações.
Hoje à tarde, porém, ao chegar ao edifício onde Rodion
estava morando, vi Iosif sair. Logicamente, fui assaltada
pela suspeita de que algo horrível ocorria. Subi rapidamente
ao apartamento ocupado por Rodion e encontrei-o vazio.
Havia, no entanto, manchas de sangue no assoalho. Mais do
que depressa, desci novamente e fui auxiliada pela sorte,
pois um engarrafamento reteve Iosif na Rua Paissandu.
Pude então segui-lo com meu carro, o que foi fácil, pois o
russo dirigiu-se à Boite Samba.
— A que horas Iosif deixou o prédio?
— Bem... deixe-me ver... seriam três e meia, quatro
menos um quarto. Algo assim.
Kirkpatrik lembrou-se de que telefonara para o número
secreto de Tainistskiy às três e quinze. Portanto, segundo
Olga, falara com Iosif e não com Rodion.
— Na Boite Samba, observei que Iosif se encontrava
com você. Somando dois mais dois, deduzi que o chefe
regional do MVD assumira o papel de Rodion e que você

— 54 —
não poderia ser outro senão o enviado da CIA. E suas
palavras confirmaram a minha teoria.
— De fato.
— Recorri a você, Harold, porque é o único que pode
auxiliar-me a encontrar Rodion, se é que ele ainda está vivo
após ter sido abordado por Iosif. E, por outro lado, prestei-
lhe grande ajuda informando-o de toda a trama. Poderemos,
portanto, conjugar esforços. Na verdade, Harold, tenho que
fazer algo. Rodion é como um parente, um tio, para mim,
uma pessoa a quem considero muito. E não posso lutar
sozinha contra Iosif e os outros agentes do MVD. Por outro
lado, é do seu extremo interesse descobrir o que foi feito de
Rodion, pois evidentemente você não pode esperar nada de
bom da parte de losif.
— Isso é um fato. Mas por que razão losif, após
neutralizar Rodion, se dispôs a manter um encontro
comigo?
— Ignoro, Harold. Mas digo-lhe que, se deseja
encontrar os Rumos Estratégicos da Interexport, que deve
ser algo extremamente importante, precisa antes localizar
Rodion. E, para isso, devemos nos aliar.
— Não concordo, Olga. Você é jovem demais para
envolver-se em assuntos de espionagem.
— Como, jovem demais? Já completei dezenove anos!
O agente fora de série sorriu e acariciou ternamente os
longos cabelos de Olga Basov.
— Uma criança, Olga. Apenas uma criança. Não tema;
entretanto, você forneceu-me informações de valor
inestimável. E sempre há um meio de encontrarmos
Rodion: amanhã às dez horas deverei avistar-me com losif,
pretensamente para concluirmos a compra dos documentos.
Será fácil apertar as cravelhas do russo e obter o paradeiro
de Tainistskiy, se é que ele ainda está vivo.

— 55 —
Kirkpatrik começava a formar um quadro mental da
situação, unindo as peças do quebra-cabeças. losif
neutralizara Rodion e se apresentara como este último,
insistindo no fato de que ele, enviado da CIA, fosse 77, a
fim de entabular negociações. E concordara com um
encontro na Barra da Tijuca. Tudo começava a formar
sentido. Tratava-se de uma armadilha para 77Z, sem dúvida
alguma.
Olga ergueu-se do sofá para servir-se de mais um
drinque. O agente fora de série impediu-a com. um gesto:
— Não faça isso, Olga. Convém repousar. Rodion
estava muito certo ao não querer ficar homiziado em sua
casa; é imoral envolver-se alguém tão jovem quanto você
em assuntos de espionagem. Partirei também. Dar-lhe-ei
notícias tão logo tenha encontrado losif e extraído dele toda
a verdade sobre o assunto.
A belíssima brasileira voltou-se com um gesto brusco.
— Não, Harold! Não me deixe esta noite!
— Ora! E por que não?
A jovem fitou o agente fora de série no fundo dos olhos:
— Harold... eu estou preocupada, nervosa, insegura,
desesperada. Estou só... inteiramente só no mundo.
Primeiro, meus pais. Depois, Rodion... Até Rodion eles
conseguiram tirar-me.
— Você o ama?
— Sim. Profundamente. Como uma filha ama a seu pai.
E toda esta situação, esta violência, deixou-me
desorientada.
Toda a autoconfiança que Olga demonstrara
conduzindo o seu Mercedes desaparecera subitamente.
— Não consigo exprimir o que sinto em palavras,
Harold. Desde o primeiro momento em que o vi, na mesa
da boite em companhia de Iosif, senti que podia confiar em

— 56 —
você. Cegamente. Só, eu me sinto desprotegida e
desamparada. Em sua presença, a sensação de segurança me
domina. Sei que pode e vai ajudar-me a recuperar Rodion.
— Mas Olga...
— Ademais, se você está prestes a resolver o problema
que Iosif representa, por que não ficar esta noite aqui em
casa? Eu me sentiria muito mais segura.
77Z calculou velozmente todas as possibilidades. Nos
belos e grandes olhos negros da brasileira, podia ver o medo
estampado. De fato, a garota fora envolvida por Tainistskiy
e pelo destino numa encrenca de bom calibre.
— Certo, Olga. Mas você deve ir dormir
imediatamente. Papai do céu não gosta de meninas que
dormem depois da meia-noite.
— Ora, seu tolo! Não percebe que sou mulher há muito
tempo?
— Sim. Exatamente por isso, quero livrar-me das
tentações.
— Pois não vai conseguir.
Assim dizendo, Olga, repentinamente, tomou a cabeça
do espião entre suas mãozinhas delicadas e uniu seus lábios
ao dele, num cinematográfico beijo de tirar o fôlego.
O playboy milionário percebeu de imediato a situação.
De fato, Olga enfrentava sérios conflitos e encontrava-se
ameaçada por grandes perigos após envolver-se com
espionagem graças a Tainistsky. Era natural que estivesse
tensa e nervosa com os últimos sucessos. Por que não
praticar uma boa ação e acalmá-la da melhor forma
possível?
Ademais, 77Z mantinha-se fiel à regra de ouro que
aprendera em sua longa experiência como agente secreto:
refutar a iniciativa partida de uma mulher, infalivelmente
traduz-se sempre em sérios desgostos e violentos

— 57 —
dissabores. Jamais recusar. A mulher toca a música e 77Z
responde conforme o tom.
A brasileira espetacular afastou por instantes os lábios
dos do espião fora de série e encarou-o com os olhos
brilhantes:
— Esta noite eu sou inteiramente sua, Harold. Faça-me
feliz. Por favor.
Olga desabotoou a camisa de Kirkpatrik, sem
incomodar-se com a formidável Walter P-38 no coldre
subaxilar, e acariciou o largo peito do espião, enquanto
continuava a beijá-lo com ardor. O playboy, por seu turno,
retirou a camisa da brasileira, cujos seios opulentos e
generosos praticamente saltaram em seu rosto. O corpo de
Olga era realmente algo exuberante.
As mãozinhas suaves de Olga desceram a uma
determinada parte da anatomia de Kirkpatrik, enquanto ele
retirava o minúsculo short da garota, que se sentou sobre as
pernas do agente. Afastando o soutien de renda, o playboy
vislumbrou os seios fartos, jovens e empinados de Olga, e,
com uma sucessão de beijos e toques enlouquecedores
naquela pele suave e macia, fez a garota gemer
profundamente de puro prazer.
Com sapiência, o espião acariciou as coxas -grossas,
fortes e bronzeadas da garota, enquanto sua mão direita
encontrava-se ocupada com os gloriosos seios, fazendo-a
delirar de prazer. Olga suspirava, antevendo o momento de
sua máxima realização como fêmea.
Excitada ao máximo nível pelas mãos experientes de
Kirkpatrik, que percorriam todo o seu corpo delicioso, a
moça encostou o rosto ao peito do milionário e pôs-se a
mordiscá-lo, enquanto gemia e murmurava palavras
desconexas.

— 58 —
77Z sentia o corpo da garota vibrar e estremecer. Os
seios fartos saltavam, encostados ao seu ventre, enquanto
Olga movimentava-se lascivamente, agarrando o pescoço
do milionário. De súbito, ela, com toda a agilidade dos seus
dezenove anos, ergueu as pernas e lançou os pequenos e
graciosos pés por sobre o espaldar do sofá, sentando-se nas
coxas do agente 77Z.
— Harold! Você me enlouquece. Faça-me a sua
mulher!
As coxas morenas e apetitosas de Olga dançavam sobre
a virilidade de Kirkpatrik, e a moça esmagava os seios
contra o rosto do espião, abraçando-lhe fortemente o
pescoço. Sem retirar a calcinha de Olga, 77Z forneceu, num
impulso, todo o amor que a moça ansiosamente desejava.
Ela gritou, quase histérica, soluçando e gemendo, e puxou
contra si o rosto do agente, enquanto sentia que sua
realização feminina se aproximava, o que ocorreu com uma
intensidade avassaladora. Agarrando o corpo do parceiro
com seus braços transformados em tenazes de aço, Olga
emitiu uma sucessão de gemidos curtos, culminando com
um grito entrecortado e profundo, e sentiu-se
simultaneamente inundada pelo amor de 77Z.
Arfando, banhada em suor, a brasileira dirigiu um
sorriso luminoso ao espião fora de série da CIA.
— Perdoe-me se quase o estrangulei, Harold.
— Não há problemas. Preocupar-me-ia se você fosse
uma agente inimiga.
Cerrando os olhos, a moça lançou a cabeça para trás,
fazendo os longos cabelos negros espalharem-se pelas suas
costas. Sentiu as mãos de Kirkpatrik acariciando-lhe as
coxas roliças e os quadris bem feitos. O agente cobria de
beijos os seios e o ventre, sugando os grandes mamilos
empinados. Ela, sentindo o desejo crescer como um vulcão

— 59 —
em chamas dentro do seu corpo, passou a morder o pescoço
e os ombros largos do amante, anunciando:
— Não sou vampira, meu amor.
Tirou os pés de sobre o espaldar e abriu as longas pernas
em toda a extensão do sofá, soluçando ao sentir seu amante
mais próximo de si. E, enquanto beijava sofregamente e em
desespero ao agente da CIA, apertava-o contra o seu corpo,
fazendo os vastos seios comprimirem-se contra o rosto do
espião. Enlouquecida de desejo, envolveu o corpo do
playboy com o seu próprio corpo, e, não mais resistindo,
gritou freneticamente, sentindo uma paz infinita invadi-la
gradativamente.
Exausta, deixou a cabeça descansar sobre os largos
ombros de Kirkpatrik. Sorriu, acariciando delicadamente as
costas do amante.
— Eu sabia que minha intuição era correta, Harold.
Você é um homem fora de série.
— Não tanto, Olga. Não querendo rasgar seda, você é
que é espetacular.
Não sem um certo esforço, Olga saiu de sobre o corpo
de Kirkpatrik, acendendo um cigarro e oferecendo outro a
seu parceiro.
— Não me deixe, Harold — murmurou em voz sumida.
Em seguida, inteiramente nua, sentou-se no divã ao
lado do agente fora de série, enlaçando-o carinhosamente.
— Vamos para o quarto, amor? — murmurou. — Você
me deixou com o fogo da paixão ardendo em minhas
entranhas.
Ergueram-se ambos, caminhando através do salão rumo
ao corredor conducente à ala dos quartos. Estacaram de
súbito ao ver, diante da porta, a figura de uma mulher loura
e alta, que segurava com ambas as mãos uma enorme
automática Markarov 9 milímetros militar diretamente

— 60 —
apontada para eles. A loura sorriu sinistramente, com o
dedo no gatilho:
— Muito bem, pombinhos. Gostei do espetáculo e sinto
ter que interrompê-los rudemente, mas este é o fim.
O agente fora de série da CIA, utilizando toda a sua
rapidez de raciocínio longamente desenvolvida em muitos
anos de espionagem, pensou depressa. E já se preparava
para a veloz reação, que consistia em lançar Olga ao solo e
mergulhar por trás de uma poltrona com a Walther
empunhada, revertendo aquele panorama, quando ouviu a
voz forte e grave atrás de si:
— Se eu fosse você não tentaria isso, Koch.
Próximos à porta principal de entrada, alinhava-se
quatro homens, três deles armados com metralhadoras leves
Sig 545. Iosif Alexeiev, empunhando firmemente a
Markarov .380, abriu um amplo sorriso:
— Como já dizia Verdi, amigo Koch: la comedia é
finita!

— 61 —
CAPÍTULO QUINTO

A morte espera em Moscou

Olga Basov emitiu um grito agudo e procurou cobrir os


seios e as partes pudendas com as mãos.
— Por Deus, o que é isto!
— Isto, como Iosif explicou, é o fim da comédia, meu
bem — a loura, autora da resposta, avançou dois passos e
enfiou o cano da Markarov entre os peitos de Olga. —
Agora, recuem! Os dois no sofá, já!
Iosif fez um gesto e dois dos homens armados com
metralhadoras aproximaram-se por trás de Kirkpatrik e da
bela brasileira, fechando algemas em torno dos pulsos dos
dois, e lançando-os em seguida sentados no sofá. O chefe
do MVD no Rio de Janeiro acercou-se e, com dois dedos,
extraiu a Walther P-38 do coldre subaxilar de Kirkpatrik.
Numa rápida, porém minuciosa revista, apoderou-se
também da Semmerling LM-4 fixada pouco acima do
tornozelo. Sentou-se em seguida numa das poltronas
forradas de veludo e guardou sua própria arma, sorrindo
com desprezo para os dois manietados:
— Reconheço que você é um sujeito prevenido e cheio
de truques, Koch. Mas tudo isso é inútil quando se lida com
Iosif Alexeiev.
O agente fora de série ergueu os olhos para o teto, com
ar de enfado, enquanto Olga, a seu lado, tremia de pavor,

— 62 —
agora sem mais conseguir ocultar seus opulentos seios e
seus pelos pubianos.
— OK, Alexeiev. Você agora dá as cartas. Quer me
explicar então qual é o seu maldito jogo?
O soviético tamborilou com os dedos sobre o tampo de
mármore de uma mesinha de canto, sempre sorrindo de
modo cruel.
— Pois, não, Koch, ou lá qual seja o seu verdadeiro
nome. Na verdade, é tudo muito simples. Permita-me,
porém, antes de iniciarmos nossa agradável palestra,
apresentar meus colaboradores: Tatiana Faddeiev...
A loura alta não despregava por um só instante os olhos
das formas harmoniosas e do corpo escultural da brasileira
morena, cujos grandes seios arfavam ao ritmo da respiração
descompassada.
— ... o nosso colega oficial da Polícia Política, a KGB,
o major Yevgeni Mikhailovitch Kropotkine...
ü agente da KGB, um louro alto e de físico atlético, com
os cabelos cortados à escovinha, rosto magro e anguloso e
olhos cinzentos frios como dois diamantes, mantinha
firmemente o cano da Sig 545 apontado para os
prisioneiros, cobrindo-os completamente.
— ... e, last but not least, nossos valiosos colaboradores
locais, os especialistas João Sousa e José Andrade.
Estes dois últimos eram negros gigantescos que
mantinham as metralhadoras pendentes à bandoleira, em
permanente ameaça ao casal indefeso. José Andrade, o mais
jovem, tinha rosto e olhar inteligentes, enquanto João
Souza, beirando os quarenta anos, totalmente calvo como
Alexeiev, ultrapassava os dois metros de altura, parecendo
um monstro de músculos e força.
O agente 77Z alçou uma das sobrancelhas.

— 63 —
— Muita gentileza sua apresentando-nos os nossos
convidados, Alexeiev. Em minha ignorância, pergunto-me
o porquê de tanta formalidade.
— Apenas para que perceba, Koch, que você e sua
amiguinha estão acabados. Definitivamente liquidados. O
seu cirquinho pegou fogo.
— Muito criativo e original. Podemos saber, agora, a
razão de toda esta palhaçada?
— Ora, Koch! Sua mente brilhante não extraiu
conclusões razoáveis quanto aos motivos de nossa presença
aqui?
— Confesso-lhe que não.
— Muito bem; neste caso, serei explícito e direto. Não
sou tão tolo quanto possa pensar. Na verdade, em nosso
encontro na Boite Samba, procurei realmente transmitir-lhe
a impressão de ser um indivíduo assustado, acuado. É claro.
Isso fazia parte do meu papel; eu deveria apresentar uma
impressão verossímil de Rodion Yermolaievitch
Tainistskiy.
— Por falar nisso, o que fez com ele?
— Eu o capturei hoje pela manhã. Nós, do MVD e da
KGB, somos extremamente eficientes. Localizamos o
traidor e o neutralizamos antes que pudesse passar a vocês,
da CIA, os importantes microfilmes dos Rumos
Estratégicos da Interexport. Então, submeti Rodion a um
adequado tratamento com pentotal sódio e extraí dele todos
os dados interessantes, o que me permitiu fazer-me passar
por ele sem maiores problemas, conhecendo inclusive todos
os códigos preparados para o encontro com você.
— Mas o que foi feito com Rodion? Você o matou?
Ignorando por completo a pergunta de Olga, formulada
em voz aguda e chorosa, Alexeiev prosseguiu
imperturbável:

— 64 —
— Quando nos encontramos na casa de espetáculos,
Tatiana trabalhava como agente de cobertura para as
minhas atividades. E não foi difícil, para ela, notar o contato
estabelecido entre você e essa garotinha, que agora sei
chamar-se Olga Nikolaievna Basov. Curiosos e intrigados
passamos a persegui-los. Tatiana penetrou facilmente nesta
mansão enorme e ouviu toda a conversa entre vocês,
assistindo também, de camarote, ao vosso... digamos, show
erótico privado, enquanto eu convocava os demais pelo
rádio. E eis-nos todos aqui. Satisfeito, Mr. Koch?
— Em termos. Na verdade, estou decepcionado com
você, Alexeiev. Demonstrou utilizar métodos de
espionagem fracos e claudicantes.
Os olhos frios do soviético estreitaram-se enquanto
encarava malignamente o espião fora de série da CIA.
— Explique-se, Koch.
— Trivial. Quando Tainistskiy fugiu de Moscou com
os segredos, o alarma deve ter sido dado quase em seguida.
Não subestimo o MVD.
— E nem subestime a KGB, Koch — rosnou
Kropotkine.
— Certo. Não os subestimo. Agindo com eficiência,
vocês farejaram Rodion e o capturaram antes que eu
pudesse contatá-lo. Perfeito. Neste caso, a missão estaria
encerrada. Por que armar um tremendo esquema para
agarrar a mim, um simples e corriqueiro agente da CIA, se
vocês já haviam neutralizado o funcionário fujão e
recuperado, presumivelmente, os Rumos Estratégicos? Não
compreendo isso.
Alexeiev riu-se com superioridade.
— Pois esta é a chave do problema, Koch. É certo que
pegamos Rodion e recuperamos os microfilmes. Trata-se de
uma vitória. No entanto, soubemos que o traidor havia

— 65 —
convocado nada mais, nada menos que o famoso agente
77Z da CIA para negociar. Não acha que a captura de 77Z
em pessoa configura uma vitória ainda maior para o MVD?
Imagine o que nossos especialistas em Moscou não poderão
extrair desse indivíduo, aplicando-lhe um tratamento
adequado.
Kirkpatrik não pôde conter um estremecimento
involuntário.
— Sem contar que retiraremos de circulação um dos
nossos mais ferrenhos e eficazes inimigos. De fato; meu
plano consiste em enviar Rodion e 77Z para Moscou, para
a sede do MVD. Uma vitória espetacular! Um golpe de
mestre na espionagem mundial! Praticamente, o fim da
CIA!
— Então, Rodion está vivo! Vivo! — quase gritou Olga
Basov.
— Com efeito. Por enquanto — concordou Alexeiev.
— Por outro lado, passado o efeito do pentotal sódio,
Rodion implorou-me para que eu o matasse. Claro. É mil
vezes preferível a morte rápida e indolor a um prolongado
e torturante tratamento na prisão política de Nishne
Kolymsk. E este é o futuro que o espera, amigo Koch.
— Espere, Alexeiev. Como pode saber que sou, na
verdade, 77Z?
— Sua dúvida não procede. Utilizarei os métodos
comuns de persuasão.
— Vai torturar-me?
— Serei sincero, Koch. Pessoalmente, eu prefiro os
métodos violentos. No entanto, o serviço pede eficiência.
Primeiro os negócios e depois o prazer. Portanto, vou
persuadi-lo por processos químicos. Infelizmente, gastamos
todo o nosso estoque de pentotal em Rodion. Mas isso não
é um problema; tenho certeza que, sendo um rapaz esperto

— 66 —
e prevenido, você traz consigo algumas ampolas do soro da
verdade. Senão, vejamos...
De fato, Kirkpatrik possuía três ampolas de pentotal
num bolso interno do paletó. Não poderia, porém, em
hipótese alguma, permitir que Alexeiev fizesse uso delas,
pois, nesse caso, o soviético descobriria sua identidade e
seu destino estaria selado. Sofreria morte horrível nos
cárceres do MVD, sendo ainda forçado a revelar
importantíssimos segredos da Agência, que ficaria em
flagrante desvantagem, no campo da espionagem mundial,
face à União Soviética.
O agente fora de série agiu rápido. Alexeiev
encaminhava-se para revistá-lo, e fatalmente encontraria as
ampolas do soro da verdade. Contraindo fortemente os
músculos, o playboy milionário inclinou subitamente o
tronco para a frente, enquanto simultaneamente aplicava
violenta joelhada em seu próprio peito. A manobra surtiu
efeito. As ampolas quebraram-se em seu paletó, e as
finíssimas partículas de vidro cravaram-se em seu peito
através da camisa, fazendo o sangue brotar.
O espião do MVD percebeu de imediato a extensão do
lance e seu rosto transformou-se de súbito numa máscara de
ódio e frustração. Uma veia azulada que lhe cruzava a fronte
dilatou-se e começou a pulsar sensivelmente, prenunciando
uma tempestade de fúria selvagem.
— Maldito Koch! — rugiu ameaçadoramente. — Pensa
que, inutilizando o pentotal sódio em seu poder, pode
escapar tão facilmente ao seu destino? Você não conhece
Iosif Alexeiev!
O primeiro murro, brutal e sanguinário, atingiu o
queixo de Kirkpatrik como se fosse a biela de uma
locomotiva a duzentos quilômetros por hora. O agente fora
de série da CIA, com a cabeça entortada e um rictus de dor

— 67 —
insuportável no rosto, saltou cerca de dez centímetros sobre
o sofá, desabando fragorosamente sobre Olga Basov, que
encolheu-se bradando de navor. O punho de ferro de
Alexeiev agarrou o playboy pelo colarinho e o elevou no ar,
colocando-o de pé e cambaleante em frente ao soviético,
77Z recebeu uma potentíssima joelhada no baixo ventre, e,
curvando-se para a frente, foi contemplado com outro soco
avassalador no rosto, tombando de costas, definitivamente
vencido.
— Covarde! Covarde! — gritava Olga Basov, quase
histérica. — Vai matar a socos um homem algemado!
Alexeiev, pernas abertas, plantou-se em frente ao
maltratado Kirkpatrik, apontando-lhe ao rosto o dedo em
riste:
— Você está perdido, Koch. Você podia ser e podia não
ser 77Z; se não fosse, receberia apenas um tiro no cérebro
e partiria para a Grande Central de Espionagem do Céu
quase sem sentir. No entanto, eu sou também excelente
psicólogo, e esta sua atitude imbecil, vetando-me o uso do
pentotal, leva-me a crer que você é na realidade 77Z, ou não
teria tanto empenho em ocultar sua identidade. Tanto pior
para você, Koch. Sofrerá de modo indescritível antes de
morrer miseravelmente e de forma inglória, meu amigo. A
morte está à sua espera em Moscou.
O agente do MVD voltou-se para Olga Basov, que
encolhera os joelhos buscando instintivamente ocultar suas
partes íntimas, deitada sobre o sofá.
— E quanto a você, Olga Basov, não representou nada
neste jogo de xadrez da espionagem. Absolutamente nada.
Apenas uma mísera garotinha abelhuda cuja amizade pelo
traidor Rodion Yermolaievitch Tainistskiy conduziu à
morte. Sendo totalmente inútil para nós, deve desaparecer
de cena...

— 68 —
Tatiana Faddeiev manifestou-se, com voz firme e
segura:
— Não, Iosif. Ela é minha. Deixe-me torturá-la. Só
temos a ganhar com isso.
O agente do MVD trocou um rápido olhar com sua
companheira e tornou a guardar a Markarov, 380 provida
de silenciador.
— Certo. Você agradou a Tatiana, mocinha, e só por
isso sobreviverá algumas horas.
A um sinal de comando de Alexeiev, João Souza e José
Andrade, os dois brasileiros a serviço do MVD, ergueram
Kirkpatrik do solo como se fosse uma pluma e o lançaram
com violência sobre o sofá. Tatiana, com um brilho
estranho no olhar, contemplou sorrindo o corpo perfeito e
escultural de Olga Basov.
— Isso mesmo, Iosif! Deixemos que 77Z contemple a
cena; será muito mais excitante!
A loura alta e forte movimentou-se em direção à
belíssima brasileira morena e nua. O agente fora de série,
ainda estonteado com os violentíssimos golpes encaixados
pelo brutal Alexeiev, não conseguira entrar em sintonia
com a realidade. O espião do MVD, os olhos frios brilhando
de lúbrico e sádico prazer, dirigiu-se aos companheiros:
— Bem, rapazes, é melhor que se espalhem pela casa.
Esta mansão é muito vasta, e altos gritos poderão ser
emitidos neste salão. Seria tolice sermos surpreendidos
agora por interferências espúrias, quando estamos tão
próximos à vitória. Portanto, distribuam-se
estrategicamente pelos aposentos da mansão e mantenham
forte vigilância. Quero ser avisado de qualquer eventual
aproximação de estranhos.
Não sem grande relutância, João, José e Yevgeni
abandonaram o salão buscando posicionamentos

— 69 —
convenientes através da casa. Sabiam perfeitamente que
Alexeiev tomava aquela atitude como forma de ocultar-lhes
as horríveis cenas de perversão sexual que fatalmente
ocorreriam no local, maquinados pela mente mórbida e
doentia de Tatiana Faddeiev.
A soviética acercou-se de Olga com um sorriso
maquiavélico nos lábios e a Markarov 9 milímetros militar
na mão direita como forma de defesa. Sem se incomodar
com os gritos de horror da brasileira, agarrou um dos seus
belíssimos e opulentos seios, esmagando-o entre os dedos
poderosos, enquanto pespegava nos lábios de Olga Basov
um beijo furioso e frenético. A morena, em desespero,
movimentou-se descontroladamente, e isso pareceu excitar
ainda mais os obcenos desejos da invertida sexual, que,
segurando a sua vítima pelos peitos, puxou-a para o
assoalho em tábuas corridas de ipê do salão. Alexeiev a tudo
assistia com um olhar insano e desnaturai.
Todo o belo corpo tremendo de medo, vergonha e asco,
Olga observou de olhos arregalados Tatiana Faddeiev
afastar as alças de seu próprio vestido negro, fazendo-o
deslizar ao longo de seu corpo até o solo e revelando as
formas belas e sólidas da soviética, cujos seios volumosos,
mal contidos pelo soutien, fremiam ante a expectativa de
.concretizar um ato de amor sádico.
Mantendo a bela brasileira subjugada por um dos seios,
Tatiana deitou-se sobre ela, esmagando contra o assoalho o
corpo de Olga com o seu, e começou a acariciar de forma
lasciva cada centímetro quadrado de pele da jovem morena.
— Calma, meu bem. Tenha calma. Graças a mim você
terá uma experiência inesquecível.
Olga contraiu-se de horror e asco:
— Não! Não! Deixe-me, lésbica nojenta!

— 70 —
A bofetada estalou no rosto da brasileira, fazendo sua
cabeça oscilar. Tatiana fitou-a com um sorriso cruel e
insano:
— Nada tema, gatinha. Não lhe farei mal algum; muito
ao contrário.
Kirkpatrik, já parcialmente refeito dos rudes golpes
encaixados pelo brutal Alexeiev, simplesmente recusava-se
a acreditar na fantástica cena que contemplava. A dar-se
crédito à realidade, Alexeiev e Tatiana, além de agentes do
MVD, eram também dois maníacos sexuais da pior espécie.
As carícias conduzidas pela sáfica soviética, cujo
evidente prazer aumentava visivelmente a cada segundo,
seguiam num crescente vertiginoso. Inteiramente fora de si,
Tatiana praticamente arrancou fora suas próprias calcinhas,
rasgando-as, e encostou suas partes íntimas às coxas
grossas e quentes da bela brasileira. Num rasgo de desvario,
tentou então, no auge de sua excitação proibida e
desnaturai, introduzir o cano da Markarov 9 milímetros
entre as pernas de Olga Basov.
Foi demais. Um grito horrível brotou das entranhas da
brasileira morena. Iosif Alexeiev, alarmado, fez a sua
automática surgir em sua mão como num passe de mágica.
No brilho de seu olhar estava estampado a ameaça da morte.

— 71 —
CAPÍTULO SEXTO

Sangue sob as estrelas

Tudo ocorreu muito rapidamente. Traumatizada,


enlouquecida de pavor com as incríveis e indecentes
atitudes da lésbica russa, a jovem morena brasileira, mesmo
algemada com as mãos às costas, movimentou-se
freneticamente, e acertou brutal joelhada no braço de
Tatiana, que contraiu o rosto de dor e soltou a automática,
deixando-a cair ao solo, próxima ao sofá, com um estalido
seco contra as tábuas de ipê.
Alexeiev, quase fora de si em função das monstruosas
taras sexuais que presenciava, teve, no entanto, os seus
reflexos rápidos de espião bem treinado mobilizado pelo
perigo de Tatiana haver perdido a sua arma. E, surpreso pela
reação, sacou a Markarov, 380, disposto a fuzilar sem mais
delongas Olga Basov e conjurar a ameaça.
Mil ideias diferentes cruzaram a mente de Kirkpatrik
naquele instante. Estava condenado a algo muito pior do
que a morte. O computador mental do Andróide calculou
que, de qualquer modo, permanecendo nas mãos de
Alexeiev, morreria ao fim de algumas semanas nos cárceres
de Nishne Kolymsk, sendo ainda forçado, o que era pior, a
revelar segredos vitais da CIA sob o efeito do pentotal
sódio. Decidiu, portanto, aproveitar as circunstâncias
inesperadas para empreender uma reação. Provavelmente

— 72 —
lucraria um tiro e seria morto, mas, ao menos, a CIA estaria
salva.
Reunindo todas as suas forças e convocando todos os
seus músculos e nervos, o agente 77Z, num salto perfeito,
voou de sobre o sofá em direção a Alexeiev, acercando-se
do soviético quando ele já apontava a automática para Olga
Basov, prestes a pressionar o gatilho. Sem outra opção, o
playboy milionário, equilibrando-se precariamente,
desferiu um formidável chute contra a mão armada de Iosif,
praticamente desarticulando-lhe o pulso e fazendo a pistola,
animada de velocidade espantosa, voar para a outra
extremidade do salão. Sem dar tempo ao espião do MVD
de esboçar reação, aplicou um violento chute no rosto de
Tatiana, que já se preparava para recuperar a sua Markarov,
e deixou-se cair de costas sobre a automática, agarrando-a
com a mão direita algemada.
Iosif percebeu a extensão do imenso perigo que corria.
Sem poder fazer pontaria, obviamente, Kirkpatrik disparou
contra o soviético, que sentiu as balas zunirem diante de seu
rosto. Não dispunha de opções. Encontrava-se desarmado e
não teria tempo de recuperar sua pistola. Lutando para
salvar a própria vida, lançou-se em desabalada carreira
contra os janelões do salão, única via possível de fuga,
enquanto projéteis de 9 milímetros o perseguiam, e,
partindo os vidros, lançou-se para o deck da piscina da
mansão, três metros abaixo do nível da sala, conseguindo
escapar à linha de tiro de Kirkpatrik. Imediatamente, foi
dado o alarme.
Tatiana, embora desorientada pelo chute, tentou
recompor-se e atacar Kirkpatrik, visando recuperar sua
arma. Outra formidável patada no queixo pô-la fora de
combate, desacordada e provavelmente com o maxilar
fraturado.

— 73 —
Atônita, desarvorada, Olga Basov não conseguia
sintonizar mentalmente o que ocorrera em tão curto espaço
de tempo, não mais que quatro segundos. O agente fora de
série tinha plena consciência de que não havia tempo a
perder. Tatiana e Alexeiev encontravam-se
temporariamente neutralizados, mas o chefe do MVD no
Rio de Janeiro poderia retornar do deck da piscina e
penetrar no salão, já novamente armado, em cerca de
quarenta segundos. E os outros três agentes a serviço de
Alexeiev provavelmente estariam ali em questão de
instantes. 77Z deveria vender caro a sua pele.
A bela brasileira fitava-o com os grandes olhos negros
muito abertos, sem nada compreender, perdida como cego
em tiroteio. Num átimo, Kirkpatrik virou-a de bruços,
utilizando os pés, e, segurando precariamente com dois
dedos as algemas que a manietavam, disparou dois tiros
contra a união do instrumento, destruindo-o. Olga tinha
agora as mãos livres, embora as correntes continuassem a
pender-lhe dos pulsos e uma balas lhe tivesse roçado as
nádegas nuas, produzindo um ardor intenso.
O agente fora de série encaixou a Markarov na mão
direita de Olga:
— Rápido! Faça o mesmo, garota! Atire nas minhas
algemas! E cuidado para não me fuzilar!
Com grande alarido, os outros agentes inimigos
acercavam-se. Kirkpatrik ouvia seus passos apressados nas
escadarias e no jardim, enquanto a cabeça de Alexeiev
assomava aos janelões partidos, calculando as
possibilidades de apoderar-se das duas armas extraídas a
Kirkpatrik e pousadas sobre a mesinha de canto com tampo
de mármore antes que Olga Basov tivesse possibilidade de
atingi-lo.
— Vamos com isso! — a voz de 77Z saiu angustiada.

— 74 —
Foram apenas alguns décimos de segundo, mas
certamente os mais longos da História. Ainda sob os efeitos
da tentativa de estupro levada a cabo, ironicamente, por
Tatiana Faddeiev, psicologicamente abalada e mentalmente
incapaz de reagir aos sucessos ocorridos em tão curto lapso
de tempo, a jovem brasileira, desorientada, não conseguiu
entender o que se passava e o que lhe pedia Kirkpatrik.
Alexeiev, animado, voou para o canto do salão,
emitindo um grito de triunfo ao recuperar a Walther e a
Semmerling subtraída a Harold Koch. Yevgeni, vindo pelas
escadas, estava prestes a adentrar o salão, enquanto João de
Sousa se aproximava pelo lado oposto e José Andrade pelo
jardim. O espião de aço cerrou os olhos e apertou os lábios.
Seriam crivados de balaços em instantes. Confiara demais
em Olga Basov, e estava provado o seu erro, já que ela não
era uma agente secreta de raciocínio instantâneo e ações
imediatas.
Ouviu então os dois tiros e percebeu as mãos livres. A
jovem brasileira, desperta pela dor do balaço de raspão no
traseiro, conseguira reagir a tempo!
Sem perder um segundo, o agente fora de série da CIA
tomou a Markarov das mãos de Olga e disparou contra
Alexeiev, que já empunhava a Walther. Atingido no ombro,
o soviético girou sobre si mesmo, ao tempo em que,
puxando a brasileira por um braço, Kirkpatrik se dirigia
como um raio para a porta do salão conducente ao jardim,
rumo à garagem. O americano percebeu que Alexeiev fora
apenas levemente ferido quando o chefe do MVD gritou,
disparando ao mesmo tempo a arma:
— Rápido, homens! Eles estão indo para o jardim!
Peguem-nos!
A bala cravou-se acima da bandeira da porta e o agente
77Z, como um furacão humano, surgiu no jardim. À sua

— 75 —
frente, José Andrade empunhava a Sig 545 e preparava-se
para costurá-los com os trinta balaços do pente da
submetralhadora.
Como um autômato, Kirkpatrik deu ao gatilho.
Atingida pela bala de 9 milímetros que penetrou pela testa,
a cabeça do negro explodiu, enquanto seus dedos
pressionavam freneticamente o gatilho da Sig 545,
picotando o solo e fazendo voar torrões de terra e grama.
Empurrando Olga Basov para o banco traseiro como se
se tratasse de um saco de algodão, o playboy milionário
girou a chave deixada na ignição do Mercedes SLC 350 da
brasileira morena e arrancou brutalmente com o automóvel,
fazendo voar pelos ares sebes e arbustos. João Sousa surgiu
por trás, e o espião da CIA apontou a sua Markarov para o
brasileiro. O gatilho percutiu em seco. Todo o pente da
arma já havia sido gasto.
Rosnando uma imprecação, Kirkpatrik estendeu-se
horizontalmente sobre os dois assentos dianteiros do
automóvel e pressionou o acelerador até o final do curso. O
carro saltou para a frente como um foguete, enquanto uma
chuva de balas o atingia, estilhaçando o para-brisa,
perfurando a lataria e estourando os dois pneus traseiros.
Mal conseguindo enxergar à frente, o agente fora de
série conduziu o veículo girando e saltando sobre o asfalto
da Estrada da Vista Chinesa, notando que, atrás de si,
continuavam a soar os disparos e Yevgeni e João Souza
tomavam um dos dois carros dos soviéticos, passando a
persegui-los. Certamente Alexeiev e Tatiana viriam em
outro, se estivessem em condições, e a coisa começava a se
complicar.
Com o Mercedes reduzido a um ferro-velho perfurado
de balas, Kirkpatrik pilotou como um louco, consciente de
que não poderia ir muito longe com aquela sucata. Logo

— 76 —
atrás de si, Yevgeni e o brasileiro, no Chevrolet pertencente
ao MVD no Rio de Janeiro, mantinham-se em seu encalço,
disparando dezenas de tiros, o que, àquela hora da
madrugada não se tornava insensato, em virtude da
inexistência de tráfego.
Tentando despistar os agentes soviéticos, o agente fora
.de série tomou a Estrada das Furnas, quase não
conseguindo completar as curvas devido ao estado do
veículo, e, sentindo que seria alcançado rapidamente,
penetrou à esquerda na Estrada do Joá. A esta altura, Olga
Basov já se refizera dos choques sofridos e entrara em
sintonia mental com a realidade:
— Não vai dar certo, Harold! Seremos apanhados!
— Calma, menina. Não se desespere.
Numa última tentativa de fugir à caçada implacável que
lhe era movida, Kirkpatrik dobrou subitamente à direita na
estrada conducente à Pedra Bonita, com os pneus furados
rangendo ensurdecedoramente sobre a pista e a lataria
destruída resfolegando, gemendo e dançando como um
potro xucro.
— Está louco, Harold! Não há outra saída! Esta estrada
nos leva diretamente à Pedra Bonita, e não há outro meio
de fuga!
— Espero tê-los despistado — e, após ver as luzes do
Chevrolet dos soviéticos novamente atrás de si, o agente
77Z encolheu os ombros.
— Bem, joguei e perdi. Este é o final.
De fato. A uma velocidade absurda e insensata,
lograram atingir o platô da Pedra Bonita, de onde não havia
retorno possível. Altos paredões rochosos estendiam-se
quase a pique até o nível do mar, transformando o local num
planalto silencioso, do qual não se via senão céu e mar. Era

— 77 —
uma verdadeira ilha rochosa, situada quase mil metros de
altura, não tendo nada além da escuridão ao seu redor.
À espalhafatosa chegada do Mercedes arruinado,
secundada logo a seguir pela ruidosa aparição do veículo
dos soviéticos, do qual partia um dilúvio de balas, alguns
desportistas que se encontravam no local fugiram em
debandada, em meio a gritos agudos, lançando-se ao chão e
procurando a proteção de alguns arbustos para escapar ao
tiroteio.
Kirkpatrik executou um cavalo-de-pau e deteve a
marcha do Mercedes para não desabar dos alcantilados.
Empurrou rudemente Olga Basov para fora do automóvel e
ergueu-se no assento, as mãos erguidas à altura dos ombros.
João Souza, que conduzia o Chevrolet, freou
bruscamente. Ele e Yevgeni saltaram do automóvel,
metralhadoras empunhadas e apontadas. O major da KGB
sorriu e contemplou o seu prisioneiro à luz da lua.
— Dê-se por feliz por o preferirmos vivo, Harold Koch
— sibilou. — Caso contrário, eu teria imenso prazer em
enviá-lo aos infernos, aqui e agora, transformado em uma
massa uniforme de carne e sangue por nossas
metralhadoras. Infelizmente, você é mais valioso para nós
vivo do que morto. Tudo acabou, Koch.
— Eu sei.
Yevgeni e João acercaram-se. O agente 77Z decidiu
jogar a última cartada. Algo realmente suicida, um risco
calculado elevadíssimo. Mas a própria sobrevivência da
CIA achava-se em jogo.
Kirkpatrik aguardou que seus captores se
aproximassem mais. Então, de súbito, lançou-se deitado
sobre os assentos dianteiros do automóvel, pressionando
com as mãos o acelerador até o final do curso.

— 78 —
A máquina, mantida no regime mínimo de rotações,
ronronava suavemente. Emitiu então um poderoso rugido,
enquanto o automóvel saltava como uma bala de canhão.
Simultaneamente, as metralhadoras estrugiram, crivando de
balas a frente do Mercedes, perfurando o radiador e
destruindo o motor, já atingido parcialmente. Mas, animada
pelo impulso da aceleração, a máquina lançou-se como unia
locomotiva contra os dois agentes do MVD. Yevgeni
Kropotkine, atingido em cheio pelo capô do automóvel,
lançou um curto grito e foi arrastado pelo carro, que,
vencida pequena distância, atingiu as bordas do abismo,
precipitando-se de mil metros de altura e transformando-se
numa bola de fogo em sucessivos choques contra o paredão
rochoso. Um segundo antes da queda, Kirkpatrik lançou-se
fora do automóvel, rolando sobre a vegetação para
amortecer o choque. Agarrou-se à escarpa, e, com um
vigoroso impulso, evitando olhar para a imensa extensão
por baixo de si, logrou colocar-se de pé, algo estonteado.
O major da KGB fora enviado ao fundo do abismo. No
entanto, João Souza conseguira escapar à investida do
automóvel insanamente lançado pelo melhor espião do
Departamento 77, rolando com grande agilidade pelo solo.
A SIG 545 escapara de suas mãos e agora, ao recuperar-se,
viu à sua frente Kirkpatrik. Não teria tempo de apanhar a
arma.
Os olhos faiscando de ódio, o gigantesco negro, braços
enormes abertos como um urso em posição de ataque,
rosnou em claudicante inglês:
— Maldito gringo safado! Conseguiu, com truques,
eliminar o camarada Kropotkine, mas eu o matarei com
minhas mãos! E pés!
Alguns segundos depois, o agente 77Z veio a saber, do
pior modo possível, que o fortíssimo brasileiro era um

— 79 —
exímio lutador de capoeira, um tipo singular e muito
eficiente de luta desenvolvida no Brasil pelos descendentes
dos escravos trazidos da África. Recebeu um espantoso
golpe com a planta do pé em pleno peito, e, totalmente
desprovido de ar nos pulmões, recuou tropeçando e em
precário equilíbrio, sendo a seguir derrubado
fragorosamente ao solo por uma rasteira. O gigante
aproximou-se e assestou demolidor pontapé nas costeias ao
agente üa CIA, que, quase sem sentidos devido à dor
lancinante, girou descontrolado no chão e escapou
miraculosamente de outro chute ao rosto que, se o acertasse,
fatalmente arrancaria sua cabeça de sobre os ombros.
Com a visão enevoada pela dor, o sangue escorrendo
abundantemente das comissuras labiais, o espião de aço
tentou defender-se na medida do possível. João Souza
aproximou-se e, firmando as mãos no solo, lançou a perna
direita ao ar em grande velocidade, como uma arma
mortífera e irresistível. Instintivamente, Kirkpatrik agarrou
em pleno movimento o monstruoso pé do brasileiro, e,
apelando para toda a sua reserva de forças, torceu-o com
violência. Os ligamentos do joelho de Sousa estalaram com
um “crac” audível e o brasileiro, levado pelo impulso, voou
longe e sobre a borda do abismo, despencando de grande
altura sobre as matas da Tijuca, mil metros abaixo.
Arfando, no limite de suas forças, o agente da CIA
ouviu o grito de alerta de Olga Basov:
— Harold! Aí vem Alexeiev! Estamos perdidos!
O carro de Alexeiev e Tatiana acabara de brecar, e
ambos, armas em punho, aproximaram-se, decididos a
liquidar o assunto de uma vez por todas.

— 80 —
CAPÍTULO SÉTIMO

Voo suicida

A situação era irremediável. Não mais havia como


escapar. Em desespero, Kirkpatrik dardejou o olhar pelas
proximidades, em busca de algum improvável e remoto
meio de fuga. Seu olhar recaiu sobre as asas delta que os
desportistas haviam abandonado, fugindo espavoridos no
momento da refrega. Seria possível?
Auxiliado pela densa escuridão que se abateu sobre o
local quando algumas nuvens encobriram a lua cheia, o
agente 77Z alcançou Olga Basov em alguns saltos e
arrastou-a para a beira do abismo, indicando-lhe as asas
delta:
— Sabe pilotar essa geringonça?
— Vou tentar. Qualquer coisa é melhor do que cair
novamente nas garras de Tatiana.
Mais atrás, Alexeiev pôs-se a correr, enquanto
disparava a Walther que pertencera a Kirkpatrik:
— Pare, Koch, ou eu o matarei! Apesar de querê-lo
vivo, é melhor liquidá-lo do que deixá-lo escapar!
Kirkpatrik introduziu-se na engenhoca voadora.
Prosseguia em seu plano suicida. Cair vivo nas mãos de
Alexeiev seria a pior desgraça possível.
— Pode desistir se quiser, Olga. Se não sabe manejar a
asa delta vai voar direto para a morte.

— 81 —
— E, se ficar, serei morta por Iosif Alexeiev. Tenho
escolha?
Correram com a máxima velocidade que suas pernas
lhes permitiam a distância necessária para tomar o impulso
de voo. O chefe do MVD e Tatiana, logo atrás, faziam fogo
bem nutrido sobre eles.
— Pois bem! Escolheram a morte! Pois terão a morte!
A beirada do penhasco aproximava-se numa rapidez
alucinante. O solo já lhes fugia aos pés. Abaixo, mil metros
de escuridão.
— Lá vamos nós, Olga! E que Deus se apiede de nossas
almas!
— Assim seja!
Com um baque sensível, tombaram no etéreo, as trevas
engolindo seus corpos e as asas delta. Alexeiev e Tatiana
chegaram logo em seguida às bordas do abismo,
distribuindo tiros no céu e mirando na direção tomada pelos
dois audazes fugitivos.
Olga Basov, logo após saltar, flanou por alguns
segundos no espaço sempre perdendo altitude em ritmo
crescente, e então executou um súbito e desenfreado
mergulho rumo à Floresta da Tijuca.
Kirkpatrik tentava ganhar distância da Pedra Bonita,
voando desesperadamente em direção ao mar, quando
sentiu uma dor aguda e incontrolável no flanco direito.
Contraindo o rosto, sorriu com tristeza. De fato, tratava-se
de um suicídio. Fora atingido pelas balas dos soviéticos.
E nem mais as trevas da noite de lua encoberta percebeu
ao seu redor.

***

— 82 —
Iosif Alexeiev, chefe da célula do MVD no Rio de
Janeiro, acionou a tecla do seu avançado aparelho
radiotransmissor produzido nos laboratórios de Minsk, a
última palavra da eletrônica soviética. Emitiu o sinal de
chamada em código e aguardou alguns instantes.
Respondeu-lhe uma voz abafada e quase ininteligível:
— Onda MIL222. Identifique-se.
— Brasil Sete. Referência Cassiopéia. Quem é você?
— Rio Um.
— Perfeito, Rio Um. Código interpretado e aceito.
Notifico problemas sérios na missão.
— Prossiga.
— Harold Koch, o pretenso 77Z, escapou-nos após
liquidar Yevgeni, João e José. Ou seja, nossa célula local
ficou reduzida a mim e Tatiana, além de você, é claro.
Presumimos que ele está morto, mas não podemos ter
certeza do fato.
Silêncio. Depois:
— Recuso-me a acreditar no que ouço, Brasil Sete. É
humanamente impossível. Ou vocês traíram a minha
confiança em sua capacidade, ou então 77Z é muito mais
perigoso do que supúnhamos.
Em breves palavras, Alexeiev, ou Brasil Sete, relatou
os singulares acontecimentos da Pedra Bonita, terminando
por contar que nutria plena certeza de ter baleado Harold
Koch em pleno voo. Concluiu:
— Não obstante, estava inteiramente fora de cogitação
procurar os corpos dele e da brasileira intrometida em meio
à Floresta da Tijuca ou ao mar. Tarefa impossível. Por outro
lado, temos um trunfo em mãos, qual seja Tainistskiy e
consequentemente os microfilmes e, ainda por extensão, a
certeza de que os Rumos Estratégicos da Interexport não

— 83 —
cairão jamais em mãos da CIA. No fundo, perdemos apenas
um indivíduo suspeito de ser 77Z.
— Não me decepcione mais ainda, Brasil Sete. Você é
um agente de escol. Tem ainda dúvidas de que um sujeito
capaz de preparar tantas falsetas ao seu grupo não seja 77Z
em pessoa?
— Bem...
A transmissão silenciou durante alguns segundos, sinal
de que Rio Um meditava profundamente. Depois:
— Não se preocupe, Brasil Sete. Você terá uma chance
excepcional de reabilitar-se perante o meu conceito.
— Como?
— Asseguro-lhe que, se por alguma jogada do destino
Harold Koch, ou 77Z, encontrar-se ainda vivo, vai cair em
suas mãos como um patinho.
— O que lhe dá essa certeza?
— Sou espião há muito mais tempo do que você, Brasil
Sete. Deixe tudo comigo. Vou articular os meus recursos, e
garanto que lhe entregarei 77Z embrulhado para presente.
Muito breve, e se ele estiver vivo, é claro. Entrarei em
contato pela onda MIL222 para avisá-lo de o local onde
agarrar 77Z. Aguarde novas instruções.
— Certo.
— E lembre-se: se ele sobreviveu ao episódio da Pedra
Bonita, será muito melhor, pois teremos 77Z preso e em
condições de contar-nos todas as historinhas que desejamos
ouvir.
— Oxalá, você esteja com a razão, Rio Um.
— Estou, assegure-se disso. Será tudo muito simples e
fácil. Agora, desautorizo outras transmissões. Espere o meu
chamado. Desligo.
Alexeiev desativou o transmissor de rádio e voltou-se
para Tatiana Faddeiev, que, sorvendo largos tragos de

— 84 —
vodca, procurava amenizar as dores terríveis que sentia no
queixo.
— Confio em Rio Um, Tatska. Ele está absolutamente
seguro do que diz.
— Tanto melhor. Espero realmente que Koch não tenha
morrido ao saltar da Pedra Bonita. Se sobreviveu, não há
cérebro humano que imagine as torturas e tormentos a que
será submetido.

***

O agente 77Z agarrou com os dedos crispados o lado


direito do abdome, onde sentira ter sido atingido pelo
disparo efetuado por Alexeiev. A dor lancinante, ao mesmo
tempo em que lhe embotava o raciocínio, dava-lhe a certeza
de que o ferimento não era mortal. Se o fosse, ele não
sentiria absolutamente dor alguma.
Na verdade, um bom naco de carne fora-lhe arrancado
pelo projétil 9 milímetros Luger. A hemorragia era
relativamente abundante e já alquebrado por todas as
agruras daquela madrugada fatídica, Kirkpatrik sentiu-se
desfalecer. Percebeu que voava em direção ao oceano, e
procurou desesperadamente, reunindo todas as suas
energias, tomar uma trajetória que o levasse a cair na
superfície do mar. O esforço, porém, foi demasiado, e o
espião fora de série perdeu os sentidos em pleno voo.
Olga Basov, atingida que fora por uma corrente de ar
descendente que a levou quase ao cimo das árvores da
Floresta da Tijuca, conseguiu reequilibrar-se e,
esquadrinhando febrilmente os céus, observou a silhueta do
americano e sua asa delta contra o disco amarelo da lua,
despencando velozmente em direção ao mar.

— 85 —
A bela brasileira notou sem dificuldade que Harold
Koch defrontava-se com algum sério problema. Tentou
aproximar-se dele em sua corrida para o oceano, buscando
socorrê-lo.
Prosseguindo em seu descenso vertiginoso, o agente da
CIA chocou-se num baque violento contra a superfície do
mar, quase um quilômetro ao largo da Ponte do Marisco, na
Praia da Gávea. Comandando a sua engenhoca voadora, a
morena, aproveitando as correntes aéreas, voou para o
mesmo local, mergulhando com a asa delta a cerca de cem
metros de onde Koch caíra. Rezava para que o espião da
CIA já não estivesse morto.
Em súbito contato com a água Kirkpatrik recobrou a
consciência, escapando de afogar-se. Desfez-se do que
restava da asa delta e, ainda enfraquecido, procurou
orientar-se mentalmente pelas luzes da Barra da Tijuca.
Sentiu o mar escachoar em torno de si, e, sobre a crista das
ondas, surgiu o rosto de Olga Basov.
— Você está bem, Harold? Posso ajudá-lo?
— Sem dúvida! E muito!
A bela brasileira prestou auxílio valiosíssimo a
Kirkpatrik, permitindo-lhe vencer a nado a distância que os
separava da Ponte do Marisco. O agente fora de série da
CIA percebia as forças abandonarem-no, e somente através
de luta hercúlea, ditada pelo instinto de sobrevivência, e
amparado pela jovem morena, também exímia nadadora,
conseguiu atingir, meia hora depois, as areias da Praia da
Gávea, onde, extenuado, mais morto que vivo, tombou de
borco. Olga Basov notou então a extensão do ferimento do
americano. Murmurou:
— Não se preocupe, Harold. Conheço algumas pessoas
discretas que podem nos auxiliar nesta situação difícil sem
fazer muitas perguntas. Cuidaremos desse seu ferimento.

— 86 —
***

Ao meio-dia de 15 de novembro, exatamente vinte e


quatro horas depois de desembarcar no Aeroporto
Internacional do Galeão, o agente 77Z retornou ao Hotel
Copacabana Palace, após ter o ferimento tratado na medida
do possível, ou seja, precariamente, e haver repousado
algumas horas graças ao auxílio prestado por amigos de
Olga Basov.
A Missão Rio de Janeiro fracassara por completo. Não
havia mais meios de se localizar Iosif Alexeiev e sua
assistente pervertida e, por conseguinte encontravam-se
irremediavelmente perdidos. Em sua luta contra o astuto
chefe do MVD no Rio de Janeiro, 77Z fora derrotado em
toda a linha, conseguindo apenas, e miraculosamente,
salvar a sua própria vida e a da bela brasileira morena. Isto,
no entanto, não reduzia a extensão do fiasco.
Humilhado e ofendido, sentindo na carne a dor e a
revolta de seu primeiro fracasso em uma longa e bem-
sucedida carreira na espionagem mundial, Kirkpatrik
decidiu tirar um ás da manga na última cartada, embora, no
íntimo, duvidasse profundamente da eficiência desse jogo.
Utilizando o seu aparelho radiotransmissor disfarçado
em calculadora eletrônica, o agente fora de série entrou em
contato, pela onda BRC-86, com sua conexão no escritório
da CIA, identificando-se por código como o Contato para a
Missão Rio de Janeiro. Solicitou a entrega de uma série de
materiais e, após cerca de cinco minutos, interrompeu a'
transmissão. Encerrou a conta no hotel e, levando sua
bagagem, constituída por uma única mala, tomou o Ford
branco e parou na esquina da Avenida Atlântica com a rua

— 87 —
Figueiredo Magalhães. Olga Basov penetrou rapidamente
no automóvel com um sorriso.
— Tudo bem, Harold?
— Sim. Mas insisto num ponto, Olga: você não deve
me acompanhar. Os leigos não devem jamais envolver-se
com espionagem. Oculte-se num lugar seguro e aguarde o
desenrolar dos acontecimentos.
— De modo algum. Quero ajudá-lo a encontrar Rodion,
mesmo que isso me custe a vida. Já discutimos sobre isso e
minha posição é irredutível.
Kirkpatrik seguiu pela Avenida Delfim Moreira e pela
Avenida Niemeyer. Olga Basov pousou a mão esquerda no
joelho do espião:
— Quais são os seus planos, querido?
— Em primeiro lugar, receber uma encomenda. Depois,
seguir diretamente para a sua casa.
A jovem arregalou os grandes olhos negros.
— Minha casa? Mas... é suicídio, Harold! Já está
queimada pelo MVD!
— Tanto melhor. Planejo suicidar-me. Você tem tempo
para desistir.
— Não! Irei até o fim!
— Seja feita a sua vontade. Eu a avisei.
Meia hora depois, chegaram a um local da Baixada de
Jacarepaguá, às margens da Lagoa de Marapendi. O
playboy milionário consultou seu relógio e, em seguida, um
rumor característico anunciou a chegada de um helicóptero,
que logo se tomou visível a leste.
O aparelho pousou e, antes que as hélices parassem de
girar, saltou do seu interior um indivíduo alto e louro, de
compleição atlética. Kirkpatrik e o piloto trocaram
identificações em código.

— 88 —
— Não foi fácil, Contato, mas consegui reunir a tempo
todo o material que você pediu. Armas, munições, mini-
granadas de bolso, pentotal sódio, etc. Reuni tudo nesta
caixa de polietileno.
— Perfeito. Algum contratempo?
— Não. Por outro lado, Langley enviou uma mensagem
diretamente para você. Ei-Ia.
O agente 77Z tomou o papel. Tratava-se de uma
mensagem cifrada por Mr. Lattuada segundo um código
cuja chave somente ele, 77Z, possuía. Kirkpatrik, em
instantes, inteirou-se do teor do documento.
— Algo mais, Contato?
— Não, BZ-18. Tudo OK. Grato por sua colaboração.
O piloto retornou ao helicóptero e este alçou voo
rapidamente rumo norte, em direção a Realengo. O agente
fora de série transportou a caixa até o automóvel e fitou
sorridente Olga Basov.
— Agora, querida, entraremos em ação! Está pronta?
— Sim! Vamos!
Mas não conseguiram. Enquanto o helicóptero
desaparecia na distância e Kirkpatrik girava a chave do Ford
na ignição, quatro bombas de fosgênio explodiam ao lado
do automóvel. Iosif Alexeiev e Tatiana Faddeiev, utilizando
máscaras antigas, surgiram subitamente do interior de um
pequeno bosque, empunhando metralhadoras Sig 545.

— 89 —
CAPÍTULO OITAVO

A última viagem

Iosif Alexeiev, bandagem sobre o ombro direito e um


copo de vodca nas mãos, sorriu amplamente e -voltou-se
para sua colaboradora pervertida, que mantinha displicente
o cigarro entre os dedos longos.
— Observe, Tatska. Harold Koch, o nosso 77Z, acaba
de recobrar os sentidos.
Kirkpatrik, com a visão ainda enevoada, procurou
orientar-se. Encontrava-se num amplo salão discretamente
mobiliado, sentado numa poltrona e tendo as mãos
algemadas às costas e os pés unidos por fortes cordas de
nylon. Do outro lado do ambiente, Olga Basov, manietada
do mesmo modo, ainda não se recuperara. Iosif e Tatiana
encaravam-no com olhares perquiridores, mal ocultando a
extrema satisfação que sentiam. O agente fora de série
emitiu um profundo suspiro.
— Percebo. Está tudo acabado.
— Exato, amigo 77Z. Você jogou e perdeu. São coisas
que acontecem no mundo da espionagem.
Alexeiev girou a caixa de polietileno, esparramando
sobre uma mesa todo o seu conteúdo de recursos especiais.
— Veja, Tatska, o que o nosso amigo pretendia
empregar contra nós, um verdadeiro arsenal dos mais
incríveis recursos utilizados por espiões. Felizmente nós

— 90 —
conseguimos capturá-lo antes que ele pudesse empregar
essas engenhocas contra nós — e, voltando-se para o agente
secreto aprisionado.
— Quer que eu lhe conte qual era o seu plano, 77Z?
O playboy milionário encolheu os ombros.
— Se quiser...
— Apenas para que perceba o quanto sou astuto e
inteligente, meu amigo. Você, tendo sido derrotado em suas
pretensões de localizar Rodion Tainistskiy e os microfilmes
secretos, e não tendo pistas para nos encontrar, decidiu
armar-se com essa parafernália e apresentar-se como isca.
Pretendia ser capturado por nós para então recuperar o fio
da meada e tentar alguma ação espetacular. Na verdade,
creio mesmo que você tencionava seguir para a casa de
Olga Basov, o único elo de contato entre nós, deixar-se
aprisionar por mim e Tatiana e então fazer uso destas
misérias que encomendou à agência local da CIA. Estou
certo?
O soviético sorriu e sorveu mais um gole de vodca.
— Não deve se abater por isso, 77Z. Você lutou contra
Iosif Alexeiev, e Iosif Alexeiev jamais foi vencido na área
da espionagem. Mesmo os bons agentes acabam
encontrando o seu fim.
— Aproveitando a sua disposição loquaz, Alexeiev,
gostaria que me dirimisse algumas dúvidas.
— Estou à sua disposição, meu amigo.
— Onde nos encontramos agora, precisamente?
— Ora, na sede secreta da célula do MVD no Rio de
Janeiro, é claro. Uma residência na Ilha do Governador.
— Como conseguiu encontrar-me? E por que empregou
gás contra nós?
— Bem, a forma como eu o localizei não será revelada.
Trata-se de segredo profissional, digamos assim. E quanto

— 91 —
ao uso do gás, eu o empreguei como uma forma adicional
de segurança. Deduzi, pelos modus operandi das suas fugas,
que você preferiria morrer a cair vivo em mãos do MVD. E
como eu o necessitava vivo, decidi lançar mão do fosgênio
por ser a forma mais segura de reduzi-lo à impotência,
evitando o risco de um tiroteio entre nós no qual você
poderia ser morto. Os mortos não falam. É uma antiga e
grande verdade. Satisfeito, 77Z?
— Plenamente.
— Agora, um futuro não muito brilhante o aguarda,
meu amigo. Segundo os planos originais, você será enviado
para a União Soviética, e cantará até perder a voz na prisão
de Nishue Kolymsk.
— Como pretende executar o transporte, Alexeiev?
O soviético deu de ombros.
— Isso é o mais fácil de tudo. Você sabe como o
Obersturmbannführer Adolf Eichmann, o criminoso de
guerra nazista, foi raptado da Argentina em 1960 pelos
agentes de Yakov, do Shin-Beth israelita?
Kirkpatrik estremeceu visivelmente. Alexeiev riu.
— Ê claro que sabe, amigo 77Z. Pelo método mais
simples, antigo e eficiente do mundo: a mala. Dentro de
uma mala, o criminoso nazista foi levado por via aérea de
Buenos Aires a Porto Alegre, daí ao Recife, e, num avião
da El Al, até Israel, com escala em Fiumicino, em Roma. E
eu não deixo de ser um grande admirador dos processos
secretos do Shin-Beth, o braço de ação do Mossad. É
exatamente assim que você vai dormir no Rio de Janeiro e
acordar em Moscou, meu amigo.
Kirkpatrik cerrou os dentes e fechou os olhos. Não era
possível, tratava-se de um pesadelo. Aquilo era terrível
demais para ser verdade.
— Observe aquilo, amigo 77Z.

— 92 —
Cansado, desarvorado, o agente fora de série olhou na
direção indicada. Uma mala de couro de proporções
descomunais encontrava-se a um canto da sala.
— Ali está Rodion Yermolaievitskiy. Será recambiado
juntamente com você para pagar pelos gravíssimos crimes
que cometeu contra o povo soviético. Nossos rapazes em
Moscou vão submetê-lo a um severo tratamento e, após
extrair do cérebro dele tudo o que possa ser de nosso
interesse, vão fazê-lo sofrer uma morte horrorosa. Este é
também o destino que o aguarda, 77Z.
O playboy milionário suspirou fundo.
— Está bem. Sei reconhecer quando estou derrotado. E
quanto a Olga Basov? O que pretendem fazer com ela?
— Vamos simplesmente matá-la. Ela não passa de uma
pedrinha incômoda no sapato.
Alexeiev voltou-se para sua auxiliar sáfica:
— Bem, Tatska, ao trabalho. Creio que já é tempo de
iniciarmos os preparativos para o transporte.
— Perfeito, Iosif.
A loura alta aproximou-se de Kirkpatrik com uma
enorme seringa entre os dedos e um vasto sorriso de cruel
satisfação desenhado nos lábios róseos e desejáveis.
— Não tema, 77Z. Esta injeção de clorpromazina não
vai doer nada!
Após cometer a infame piada, a soviética lésbica
enterrou a agulha no bíceps do espião fora de série e
pressionou o êmbolo até o final. Alguns segundos depois,
cerrando os olhos, Kirkpatrik, músculos inteiramente
relaxados, tombou inerte sobre o braço da poltrona.
O agente da CIA, com as pernas dobradas contra o
peito, foi encerrado numa mala idêntica àquela que
continha Tainistskiv. ArnBas as malas foram transportadas

— 93 —
para um utilitário Volkswagen, que partiu, conduzido por
Tatiana Faddeiev. rumo ao Aeroporto Santos Dumont.
A soviética providenciou o embarque da carga humana
num avião Bandeirantes pertencente à empresa de
exportação de cereais Arai, que funcionava como fachada
para as atividades do MVD no Rio de Janeiro e, assumindo
os controles, tendo já os planos de voo aprovados, decolou
em direção a Salvador, sua próxima escala em território
brasileiro.
Segundo os planos, 77Z e Tainistskiy, seriam levados,
através de várias etapas. até Havana, em Cuba, de onde um
aparelho da Aeroflot os transportaria a Moscou, encerrando
brilhantemente a missão levada a cabo pelo experiente e
astuto Iosif Alexeiev, chefe do MVD no Rio de Janeiro, de
modo magistral e com pleno êxito.
Já em voo, Tatiana comunicou-se pelo rádio, mediante
uma onda especial, com o seu chefe:
— Tudo certo, Iosif. Amanhã já poderemos tomar
vodca com 77Z e Tainistskiy na sede do MVD em
Moscou...
— Perfeito, Tatska. Siga todos os planos conforme o
programado.
Orgulhoso com seu excepcional triunfo, Alexeiev
regulou o aparelho de rádio na onda M1L222.
— Rio Um na escuta.
— Missão cumprida, Rio Um. Operação perfeita. 77Z,
Rodion e os planos dos Rumos Estratégicos da Interexport
estão seguindo com Tatiana para Moscou.
— Congratulações, Brasil Sete. Você acaba de
recuperar a minha confiança. Irei encontra-lo em breve para
acertarmos todos os detalhes.
— Ótimo.

— 94 —
Alexeiev passou ambas as mãos pela ampla calva e
fitou com um sorriso as águas tranquilas da Baía da
Guanabara.

— 95 —
EPÍLOGO

Já era noite. Atendendo ao toque da campainha, Iosif


Alexeiev abriu a porta.
— Entre, Rio Um.
O homem alto e forte, de cabelos castanhos, penetrou
na célula secreta do MVD no Rio de Janeiro e estreitou a
mão do soviético.
— Excelente trabalho, Brasil Sete. Meus
cumprimentos.
— Obrigado. Passemos agora ao salão, onde poderemos
dar os retoques finais à nossa missão.
Os dois encaminharam-se ao aposento, onde Alexeiev
entregou ao seu visitante uma maleta tipo 007.
— Aqui está o seu pagamento, Rio Um. Dez milhões de
dólares em notas de mil. Graças à sua orientação tudo
correu muito bem, e o MVD jamais esquece os amigos.
Rio Um tomou a maleta sem abri-la e fitou
demoradamente Olga Basov, que, amarrada a uma poltrona,
com as mãos algemadas, encarava a todos de olhos muito
abertos, sem conseguir pronunciar palavra.
— Convém matar a menina, Brasil Sete. Ela viu o meu
rosto.
— OK. De qualquer modo, ela já estava mesmo
condenada.
A brasileira, olhos muito arregalados, continuava
observando um ponto atrás de ambos. O soviético,

— 96 —
considerando aquilo um tanto estranho, voltou-se
rapidamente. E sua boca abriu-se desmesuradamente de
espanto.
O cano ameaçador da Markarov empunhada por Harold
Koch apontava diretamente para ele. O estranho sorriso e o
olhar gélido de 77Z era uma terrível ameaça, agravada
ainda mais por sua voz, cortante como um punhal:
— Boa-noite, Alexeiev. Boa-noite, Air.. Cameron.
— Não! É impossível! Você...
O pavor dos dois homens não conhecia limites. Ao lado
de Kirkpatrik, Rodion Yermolaievitch fitava com profundo
ódio os chefes do MVD e da CIA no Rio de Janeiro.
— Sentem-se os dois naquele sofá. Com muito cuidado,
pois, furioso como estou com vocês, não hesitarei em atirar
para matar. Rodion, liberte Olga Basov e depois amarre
esses dois patifes.
Profundamente surpresa com o inesperado desfecho, a
jovem brasileira não conseguiu reprimir as lágrimas de
emoção e alegria. Ao ser liberta, saltou ao pescoço de
Tainistskiy, abraçando-o e soluçando.
— Oh, Rodion, Rodion... Finalmente!
O agente 77Z conteve as demonstrações de afeto:
— Calma. Há tempo para isso depois. Antes, temos um
pequeno problema a resolver com estes distintos
cavalheiros.
Gotíçulas de suor brilhavam na ampla calva de
Alexeiev enquanto era manietado por Rodion. Mr.
Cameron sofreu o mesmo tratamento, mas seu desespero
era enorme:
— Inferno, 77Z! Você só pode ser o diabo em pessoa!
Como conseguiu escapar? Como? Como? Tudo corria bem,
você estava a caminho da União Soviética, e então...

— 97 —
— Em primeiro lugar, mui honorável chefe do
escritório da Central Inlelligence Agency no Rio de Janeiro,
eu não sou 77Z. Esse cidadão, pelo que sei, encontra-se
atualmente em Nova Iorque. E, ademais, não foi difícil
abortar o plano de vocês. Quando fui injetado com
clorpromazina, eu trazia entre os dentes uma cápsula de um
produto especial desenvolvido pela CIA, o Agente Marrom,
um derivado da norepinefrina, cujo efeito é justamente
neutralizar a ação narcótica dos soporíferos mais
comumente empregados. Bastou, portanto, ingerir o
produto e fingir que fora atingido pelos efeitos do narcótico
ministrado por vocês.
— Maldito! O que fez com Tatiana Faddeiev?
O que Kirkpatrik não poderia dizer era que, ao sair de
Nova Iorque para implementar a Missão Rio de Janeiro, que
se revestia de todas as características de uma armadilha
contra 77Z, tivera o cuidado de munir-se de uma cápsula do
Agente Marrom, como proteção adicional contra qualquer
tentativa de dopá-lo. Não pudera utilizar o produto por
ocasião do ataque com gases tóxicos de Alexeiev e Tatiana,
e viera a empregá-lo mais tarde, quando estava sendo
embarcado como mercadoria para Moscou.
O agente 77Z deu de ombros, sorrindo friamente.
— Bem, Alexeiev, creio que sua poderosa mente
sintética pode imaginar tudo o que ocorreu. Driblando
totalmente os efeitos do narcótico empregado por vocês
graças ao Agente Marrom, mantive-me lúcido e aguardei
até sentir que estávamos no interior de um avião. Valendo-
me do estilete que mantenho sempre oculto no salto do
sapato, foi muito fácil cortar as cordas de nylon que me
prendiam e fugir do interior da mala. Aprendi esse processo
com agentes do MVD. Então, ataquei Tatiana enquanto
pilotava o Bandeirantes e, pegando-a de surpresa, consegui

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subjugá-la, encontrando as chaves e libertando-me também
das algemas. Depois, pilotei o aeroplano de volta ao
Aeroporto Santos Dumont e aterrissei alegando uma pane
nos motores.
— Mas, e Tatiana! Você a matou?
— Não. No presente momento, ela encontra-se
devidamente embalada na mala em que viajava Tainistskiy.
E, segundo meus planos, fará uma longa viagem muito
breve.
Mr. Cameron não conseguiu conter-se.
— Mas, com todos os diabos, Koch, como conseguiu
encontrar-nos?
— Não foi complicado. Quando Alexeiev e sua
colaboradora nos interceptaram na Baixada de Jacarepaguá,
percebi imediatamente que deveria haver alguma traição
envolvida. Não havia outra explicação. Ninguém mais
poderia saber quando e onde nos encontraríamos para
receber a encomenda., a menos que tivesse sido informado
diretamente por alguém ligado à CIA, e alguém de alto
escalão. Portanto, minhas suspeitas se concentraram em
você, Mr. Cameron. Nem mesmo a interceptação da
mensagem por rádio poderia levar a um bom resultado, uma
vez que fora feita em código. Logo, somando dois mais
dois, percebi que alguém da CIA havia avisado a Alexeiev
do encontro com o piloto do helicóptero. E esse alguém, em
minha opinião, não poderia ser outro senão o chefe da CIA
no Rio de Janeiro. Como vê, Mr. Cameron, minhas
suspeitas eram fundamentadas. Segui-o ao deixar o prédio
da Avenida Rio Branco e aqui estamos todos.
Olga Basov, abraçando Kirkpatrik, indagou:
— Muito bem, querido. Mas, no fundo, em que
consistem os Rumos Estratégicos da Interexport, que tantos
problemas nos causaram?

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Tainistskiy tomou a palavra:
— Tratava-se de um projeto sinistro cuja implantação
remonta aos tempos de Stalin. No final da guerra, milhares
de crianças soviéticas foram implantadas, digamos assim,
em quase todos os países do Ocidente. Cresceram e viveram
nesses países, tomando-se cidadãos nacionais e adquirindo
qualificações, como médicos, engenheiros, políticos e
cientistas. Penetraram em todos os setores das nações e
eram conhecidos pelo nome em código de shoybora, ou
seja, condutores, chefes. Os Rumos Estratégicos continham
instruções para que todos esses shoybora entrassem em
ação no prazo de algumas semanas, uma vez que o MVD, a
KGB e a Seção 27 do NKVD, em conjunto, decidiram que
o momento era propício. Eles, então, tomariam o poder
através de seus meios em todos os países do Ocidente,
provocando conflitos gravíssimos que culminariam, através
da confusão reinante, com a supremacia da União Soviética
sobre praticamente todo o Globo. Os Rumos Estratégicos
citam os nomes dos quase seis mil shoybora, seus países de
atuação, qualificações, e o modo pelo qual poderiam
subverter a sociedade ocidental. Um plano em larga escala
cuja consequência poderia ser o final dos tempos, em vez
da supremacia soviética.
— Então... seria a subversão total do mundo ocidental!
— Com efeito. E eu calculei que esse plano
maquiavélico poderia levar à destruição do mundo, ao invés
de servir à causa socialista. Decidi denunciá-lo, portanto, à
CIA. E, ao chegar ao Rio e contatar o chefe da CIA, este,
conforme Harold me informou mais tarde, houve por bem
matar dois coelhos de uma só cajadada, e resolveu exigir,
em meu nome, a presença de 77Z para as negociações dos
planos. Cameron achou que assim, ao invés de
simplesmente eliminar-me e recuperar os planos dos

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Rumos Estratégicos, poderia ainda, como brinde, capturar
77Z e enviá-lo à União Soviética.
Alexeiev mexeu-se inquieto no sofá. Transpirava
abundantemente.
— Bem, este é o final, Koch. O que pretende fazer?
Matar-nos?
— Claro que não! Creio que você se lembra do eficiente
meio de transporte da mala. Você e Cameron, juntamente
com Tatiana, serão levados por mala especial para Langley,
em Washington. Creio que terão coisas interessantes a
dizer. Irei espera-los para tomarmos um uísque nas prisões
da CIA em Lake Tahoe, se isso os agrada.
— Mas você se esquece de algo, Koch! — bradou
Cameron em tom de triunfo. — Sabemos que Tainistskiy,
ao fugir de Moscou, matou um agente da CIA! Portanto,
você tem também a obrigação de o eliminar!
Kirkpatrik meneou negativamente a cabeça.
— Não. Recebi um informe secreto, que me foi
entregue pelo piloto do helicóptero, vindo, diretamente de
Langley, informando que, segundo as últimas descobertas,
Adam Leroy era um agente duplo. Passava importantes
informações à União Soviética e nos entregava apenas
documentos de menor valor, apenas como fachada para
suas atividades. Portanto, provavelmente não iria informar
a CIA quanto aos Rumos Estratégicos. Assim, Tainistskiy,
liquidando um agente duplo, e ainda por acidente, não se
torna um criminoso. Pode, inclusive, vir para a América, se
o desejar.
Rodion sorriu.
— Não, Harold. Obrigado. Prefiro permanecer no
Brasil e cuidar de Olga, que tão cedo perdeu seus pais.

***

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Na Praia de Copacabana, em companhia de Kirkpatrik,
Olga Basov, vestindo um minúsculo biquíni que mal lhe
ocultava as formas espetaculares, gozava tranquilamente,
deitada sobre a areia, dos cálidos raios do sol tropical.
Inclinou-se levemente sobre o espião fora de série,
beijando-lhe suavemente o rosto.
— Harold...
— Sim?
— Temos que ir. Hoje almoçaremos em companhia de
Rodion.
— Certo. De qualquer modo, temos ainda quatro dias
para permanecer juntos.
A moça inclinou a cabeça e seu olhar tomou-se
subitamente triste.
— Harold... prometa que não me esquecerá jamais.
O playboy milionário colou seus lábios à boquinha
rósea e sensual da bela morena.
— Nunca a esquecerei, Olga. Você sempre será a minha
mais grata recordação do Brasil.

FIM

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