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SÉRIE: 77Z
VOLUME: 148
TÍTULO: LUTA NO ORIENTE
CAPA: BENICIO
AUTOR: MARK A. LUKE
EDITORA: MONTERREY
ANO DA PUBLICAÇÃO: 1983
PREÇO DA PUBLICAÇÃO: CR$ 220,00
PÁGINAS: 128

SCANS E TRATAMENTO: RÔMULO RANGEL


romulorangel@bol.com.br

DISPONIBILIZAÇÃO
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LUTA
NO
ORIENTE
MARK A. LUKE

Capa de BENICIO

PROIBIDA A REPRODUÇÃO NO TODO OU EM PARTE

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EDITORA MONTERREY LTDA.
Rua Visconde de Figueiredo, 81
Caixa Postal 24.119 — ZC-09
20550 TIJUCA – Rio de Janeiro - RJ
Fones: 234-8398 e 248-7067
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© EDITORA MONTERREY LIMITADA


MCMLXXXIII Publicação no Brasil
Composto e Impresso pela
GRÁFICA EDITORA LORD
Distribuído por:
FERNANDO CHINAGLIA
DISTRIBUIDORA S.A.

Todos os personagens desta novela são imaginados pelo autor e não


tem relação com nomes ou personalidades da vida real. Qualquer
semelhança terá sido mera coincidência.

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CAPÍTULO PRIMEIRO

Missão para Denise

— Enquanto os exércitos aliados entravam em Berlim,


na chancelaria em ruínas do Terceiro Reich, espremidos em
abrigos subterrâneos, onde horas mais tarde Adolf Hitler e
Eva Braum iriam se suicidar, muitos generais e altas
patentes do nazismo preparavam-se para cumprir a última
etapa dos planos do Führer: a fuga. Muitos saíram apenas
com a roupa do corpo, mas outros levaram novas
identidades e os números das contas bancárias na Argentina
e na Suíça.
Mister Lattuada falava com calma. O céu estava azul, o
dia claro, e tudo parecia contrastar com o relato do diretor
do Departamento 77 da Central Intelligence Agency.
— Ninguém foi apanhado de surpresa com a derrota.
Evidentemente, houve tempo mais que suficiente para os
próprios oficiais do exército alemão concluírem que o
nazismo tinha seus dias contados. Só que eles jamais
desistiram de implantá-lo. Enquanto os russos invadiam a
chancelaria na esperança de apanhar Hitler, muitos cérebros
do nazismo já estavam em segurança, com disfarces que
lhes serviriam por muitos anos. Na fuga, só não levou muito
dinheiro quem não quis, e até hoje os nazistas que ainda

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estão vivos têm capital sabiamente aplicado em empresas
do mundo inteiro.
Mister Lattuada levantou os olhos para Denise Michele.
Por momentos, a linda jovem sentada à sua frente, as pernas
bonitas cruzadas com elegância, o olhar sereno
acompanhando-o com atenção, confundiram um pouco o
diretor do Departamento 77.
Denise notou.
— O que foi? — perguntou ela.
— Nada... você está muito bonita, hoje, 77A.
Denise sorriu, mostrando os dentes alvos num sorriso
cristalino.
— Obrigada, mister Lattuada. Você é mesmo uma peça.
Mudar assim, da chancelaria do III Reich para Denise
Michele, só mesmo você.
— Como eu ia dizendo é aí que entra a CIA. Estamos
sabendo que eles agora se reorganizaram, semi-
clandestinamente.
— Eles quem?
— Os nazistas. É claro que durante todos esses anos
estiveram presentes no cenário político mundial. De uma
forma ou de outra, influenciaram muitos governos fortes de
hoje e, disfarçadamente, algumas formas de nazismo são
aceitas por aqueles mesmos que o destruíram na Alemanha.
— Seja mais claro, mister Lattuada.
— Você sabe muito bem do que estou falando, minha
cara. O nazismo não desapareceu nunca desde que os
alemães o inventaram. Só que agora estão se organizando
com propósitos mais claros e decididos. Não querem mais
saber de governos que possam influenciar ou que
mantenham sob o seu controle. Não querem mais saber de
uma ou outra ditadurazinha. Agora eles querem é governar.
Ter o poder diretamente na mão.

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— Mas isso não vai funcionar porque os americanos e
os russos não vão deixar — contestou Denise.
Mister Lattuada aprovou com a cabeça.
— Certo. Eles sabem que as grandes potências
mundiais nunca iriam engolir um renascimento nazista, um
governo declaradamente nazista. E é aí que eu me preocupo.
Denise ergueu o corpo, endireitando-se na cadeira.
Mister Lattuada fez uma ligeira pausa e continuou:
— Temos certeza de que essa nova organização deles,
a NAZ, é muito mais audaciosa do que as outras e
incomparavelmente mais poderosa. Há cinco dias atrás,
recebemos um relatório do nosso agente no Oriente Médio
assinalando a presença de conhecidos agentes da NAZ, ex-
criminosos de guerra, em Basrah, no extremo sul da
península arábica.
— Basrah? — perguntou Denise, abrindo um pouco
mais que o normal os olhos de um intenso azul. — Nunca
ouvi falar desse lugar.
— Só há uma razão para justificar a presença deles lá
— disse mister Lattuada. — O país é minúsculo, governado
há trinta anos por um sheik que mantém seu povo numa
quase idade da pedra, enquanto acumula fortunas
incalculáveis provenientes da venda do petróleo. O povo o
odeia, mas ele o mantém dominado.
— Petróleo, hem?
— É isso mesmo. A única coisa que poderia interessar
a NAZ em Basrah só pode ser o petróleo. Não sabemos
muito, mas podemos intuir.
— Por exemplo?
Mister Lattuada levantou-se e caminhou até a
escrivaninha. Abriu uma das gavetas e tirou um maço de
papéis, voltando a sentar-se.

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O petróleo é hoje em dia o assunto mais quente da
política internacional. A falta do produto iá obrigou o
governo americano a estudar um futuro racionamento para
se proteger numa possível crise mundial de energia. Em
todo lugar do mundo incentiva-se a pesquisa de outros tipos
de combustível, substitutos sintéticos do óleo bruto, energia
solar, combustível a partir da água, qualquer coisa que
possa permitir ao progresso sua eterna corrida. Nossa
civilização não pode sobreviver atualmente se não for
alimentada pelo petróleo. Sem ele, é impossível pôr em
marcha uma guerra moderna, é impossível impulsionar os
trens, tratores, caminhões, usinas, máquinas agrícolas,
cargueiros, navios-tanques, aviões. Que se interrompa,
mesmo brevemente, o fornecimento de óleo bruto: as rodas
e motores do mundo pararão e a catástrofe será iminente.
Mister Lattuada respirou fundo e voltou à leitura do
relatório.
— Além desses deveres essenciais, o óleo mineral
fornece numerosos subprodutos que tornaram mais fácil a
nossa vida cotidiana. Existe o óleo combustível e as
numerosas espécies e qualidades de óleos lubrificantes,
bem como numerosos produtos secundários que, dia a dia,
aumentam de importância na vida das massas: detergentes,
inseticidas, gás butano, adubos artificiais. herbicidas, tintas,
vernizes, nylon, matérias plásticas...
— ... batom — contribuiu Denise, com um sorriso o que
lhe valeu um ar de reprovação do chefe.
— Batom, tinta de impressão, borracha sintética, álcool
industrial... — prosseguiu mister Lattuada.
— Chega, mister Lattuada, por favor — implorou
Denise.
O relatório foi posto de lado.

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— Bem, o sheik de Basrah, aliás, Sua Alteza o
Magnífico Al Moffadah, foi muito inteligente, pelo menos
nesse ponto. Para evitar complicações com as potências
mundiais, ele distribui seu petróleo em cotas fixas e muito
respeitadas, tanto para os Estados Unidos como para a
Rússia. A América distribui para o bloco capitalista e a
Rússia aos socialistas.
— Mas, afinal, um país tão pequeno como Basrah
quanto pode produzir em petróleo? — perguntou Denise
Michele.
— Segure-se bem.
Mister Lattuada sorriu, fazendo uma pausa,
antegozando o espanto da agente 77A.
— Quanto? — insistiu Denise.
— Apenas vinte e sete por cento da produção mundial!
Denise abriu a boca. Os dois ficaram em silêncio por
algum tempo, olhando-se atentamente.
Alguns minutos depois, Denise comentou:
— Começo a entender o que a NAZ foi fazer em
Basrah.
Mister Lattuada completou:
— Aí é que está. Nós não sabemos o que estão
planejando, mas é melhor nos prepararmos para tudo. Por
isso, você vai para lá, minha cara.
Denise levantou-se e deu uma volta pela sala. A moça
devia ter por volta de uns vinte e cinco anos de idade, loura,
alta e de uma extrema beleza.
— Muito bem, — disse ela. — Quando?
Mister Lattuada levantou-se também e foi sentar-se na
escrivaninha. Inclinou a cadeira para trás, guardou o
relatório na gaveta novamente e disse em tom de gozação:
— Está com pressa?

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— Não cansa, mister Lattuada. Quando? Daqui a uma
semana?
— Não exatamente, meu bem. Para falar a verdade,
você só tem mais duas horas em Washington. Seu avião sai
exatamente dentro de cento e vinte minutos!

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CAPÍTULO SEGUNDO

Os planos de Herr Müller

Os homens encaravam-se sem pronunciar nenhum som,


compenetrados e rígidos nas poltronas estofadas, em volta
da comprida mesa de ébano. Luzes frias iluminavam a sala,
completamente silenciosa, com grossas cortinas pretas
fechando a janela. Todos os olhares dirigiram-se para o
mesmo ponto, à cabeceira da mesa.
— Herr Müller?
O homem da cabeceira olhou atento.
— Antes de começarmos a reunião, nós do Conselho
Maior queríamos fazer um brinde a esta ocasião, que é de
grande importância para a nossa doutrina e seu vitorioso
futuro. Agora que estamos todos juntos e organizados é
hora das potências mundiais que submeteram e humilharam
nossa pátria-mãe começarem a tremer.
O IV Reich renasce das cinzas e do sacrifício do nosso
Führer. À NAZ e à vitória!
— À NAZ e à vitória! — responderam todos, com vigor
prussiano.
Hans Müller estava tendo seu momento de glória.
Durante anos tinha coordenado a vida dos fugitivos da
Alemanha nazista, na esperança de reuni-los um dia para
buscar uma nova vitória, e agora estava colhendo os frutos

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de sua perseverança. Era o chefe máximo, o novo Führer;
tinha o Conselho Maior nas mãos.
Levantou-se, pedindo silêncio. Todos se calaram e
esperaram, ansiosos.
— Meus caros amigos — começou ele. — Chegou a
hora de passarmos à ofensiva. Durante anos temos estado
escondidos dos americanos, dos russos e dos judeus, mas
agora está cada vez mais próxima a hora de jogarmos no
claro. Por enquanto, temos um objetivo imediato. Nenhuma
potência iria admitir que assumíssemos o controle de uma
nação abertamente, embora muitos governos atuais já
estejam na nossa órbita, portanto, o que temos de fazer é
desgastar o inimigo.
Levantou-se e caminhou até a parede. Apertou um
botão e surgiu um painel eletrônico, um mapa-múndi
colorido, onde várias suásticas marcavam os países que de
uma maneira ou de outra, a organização controlava.
Herr Müller, com uma vara apontadora, tocou a
península arábica e voltou-se.
— Aqui, senhores, fica Basrah, um diminuto emirado
árabe que vai servir aos nossos planos.
Um murmúrio de interesse percorreu a mesa.
— Daqui sai, anualmente, vinte e sete por cento do
petróleo mundial. Quem governa essa mina de ouro é o
Sheik Al Moffadah, velho simpatizante da Grande
Alemanha, e que mantém o povo sob rígido controle. Para
evitar complicações com as potências donas do mundo, ele
divide seu petróleo igualmente entre elas. No momento
atual de grande crise de energia, esse fato tem uma
importância muito grande para os nossos planos.
Fez uma pausa para sondar a receptividade de suas
palavras.

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— Não é de estranhar, portanto, que no momento de
crise, um país manifeste nervosismo por sentir-se ameaçado
da privação do petróleo. E não é de surpreender que os
países que dominam o mercado petrolífero acompanhem
com ansiedade a evolução dos acontecimentos nos países
de onde provém o óleo bruto.
À medida que falava, Herr Müller convencia-se mais da
genialidade do seu plano.
— Vamos direto ao ponto, senhores. O que aconteceria
se vinte e sete por cento do petróleo mundial fosse... hã...
digamos... inutilizado?
Os membros da NAZ começaram a compreender.
— Haverá uma crise sem precedentes na história
universal. Muitas nações irão à bancarrota. As mais pobres,
então, os países do Terceiro Mundo, que não têm reservas
de petróleo, iriam sofrer danos irreparáveis... — respondeu
um dos homens.
— E o que mais poderia acontecer se, por exemplo, os
Estados Unidos fossem responsabilizados por isso? Como
iria agir a Rússia? Ou vice-versa?
Um grande silêncio se apossou da sala.
Muller repetiu:
— Se uma potência fosse a responsável pelo não
fornecimento do petróleo vital à outra, o que iria acontecer
entre elas? Como a Rússia iria reagir caso, em meio a uma
pavorosa crise de combustível que paralisaria boa parte do
país, se convencesse de que os americanos eram os
responsáveis por ela?
Depois de alguns instantes de silêncio, alguém arriscou:
— A guerra.
Herr Muller esperou que a palavra “guerra” penetrasse
no fundo de cada um.

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— Isso, senhores. A guerra. Exatamente isso: a guerra.
Uma guerra terrível, a terceira guerra mundial que, a não
ser quem já estivesse preparado para enfrentá-la, iria
destruir tudo, o mundo inteiro, quase tudo, senhores.
Fora do edifício, a vida corria normalmente e todos
ignoravam que a sorte da raça humana estivesse sendo
decidida por um grupo de homens culpados de crimes
contra a humanidade.
— Nosso plano é bem simples: destruir a produção de
petróleo de Basrah de um só golpe, e de maneira a
comprometer uma das principais potências mundiais,
provocando uma tensão internacional insuportável e... a
guerra. Em meio à crise de petróleo, só a NAZ poderá
manter suas reservas secretas intactas. Da violência do
conflito poderemos aparecer então com várias alternativas:
ou do lado de uma das potências contra a outra. O que mais
tarde implicará numa guerra contra ela, ou mesmo como um
terceiro poder que patrocine a paz. Então, poderemos
novamente ser reconhecidos oficialmente e dominaremos
diretamente os países que já estão sob nossa discreta e sutil
influência.
Fez uma pausa e observou as reações, com um ar
triunfante. Então, completou:
— E isso será apenas o começo, senhores. Apenas a
primeira pedra do magnífico IV Reich. O IV Império
Alemão!
— E como vai realizar a operação? — perguntaram.
Herr Müller virou-se para o homem que tinha feito a
pergunta.
— Nada queima mais fácil do que o petróleo. Numa
hora combinada, nossos comandos vão explodir pequenas
bombas incendiárias em cada um dos sessenta poços de

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Basrah. Elas serão acionadas por controle remoto e teremos
muitos dias para instalá-las.
— E como uma das potências será implicada?
— Poderemos usar bombas de fabricação americana ou
soviética. Nossos agentes podem fazer o papel de agentes
de um desses países e, além disso, poderemos usar o sheik
Al Moffadah e instruí-lo para acusar uma das potências
frontalmente. Basrah inteira será prejudicada com a
destruição do petróleo, mas o sheik realmente não se
importa muito com isso. Podemos oferecer-lhe riquezas
incomensuráveis, e isso lhe basta. E será apenas o começo,
senhores. Apenas o começo!

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CAPÍTULO TERCEIRO

O sheik Al Moffadah

À noite, o céu da península arábica exibia uma


quantidade infinita de estrelas e era por elas que os marujos
do baghala se orientavam. Denise Michele ficara tentando
descobrir qual constelação era a mais importante para a
orientação dos barqueiros e não conseguiu.
O baghala em que viajava não era dos maiores, mas o
que mais encantou Denise, além de estar viajando num dos
descendentes diretos dos antigos barcos piratas que
assolavam os mares do Oceano Índico, na época em que os
portugueses iam buscar especiarias na Índia, era a bem
trabalhada escultura na proa: uma mulher nua, ou melhor,
seu busto, os seios desenhados e o rosto com uma expressão
inquieta, tudo esculpido na madeira rude.
Para chegar até ali, o caminho tinha sido um pouco
complicado. Do avião especial da CIA, que num instante a
tinha levado até o Cairo, pegara um outro de uma linha
comercial da Etiópia que a deixara na cidade de Nafka, no
Mar Vermelho. Lá, pegara o barco. Tudo aquilo para
disfarçar ao máximo, tomando todas as precauções de
segurança, até a sua chegada em Basrah.
Já estava no segundo dia de viagem, acompanhada
apenas de marinheiros de pernas nuas com turbantes e

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longos e amassados caftãs, os olhares penetrantes
acompanhando cada movimento seu, desejando-a
ardentemente, mas sem ousarem dirigir-lhe a palavra.
Denise planejara apanhar um pouco de sol no convés, mas
desistira prudentemente. Aqueles homens quando viam
uma mulher sem véu, apenas com o rosto descoberto, já
ficavam excitadíssimos, imaginem se a vissem num
sumário biquíni.
Na manhã do dia seguinte, sem chamar a atenção de
ninguém no cais, o barco chegou no seu destino.
Denise foi direto para o melhor hotel da cidade. De
início, estranhou os contrastes. Enquanto atravessara as
ruas de Basrah num táxi, observava que todas as pessoas se
arrastavam penosamente nos seus caftãs, quase sem falar,
em meio à eterna poeira do deserto, que chegava até ali
facilmente.
A cidade parecia o lugar mais pobre e mais atrasado que
já tinha visto, mas, de repente, parecendo uma alucinação,
surgiu uma brilhante e moderna Ferrari, buzinando e
levantando poeira por todos os lados, enquanto os velhos
resmungavam e os jumentos e cabras corriam
desesperadamente.
O país era sem dúvida pobre, mas os amigos do sheik e
a nobreza do palácio não gostavam nada da vida que o povo
levava. Todos esbanjavam dinheiro, compravam carros
europeus e todos os confortos do mundo ocidental,
inclusive guarda-costas para protegê-los dos pobres.
Enquanto as reluzentes Maserattis e Fiats espantavam
as cabras e provocavam olhares de ódio dos árabes nos seus
caftãs amassados, o petróleo jorrava de sessenta poços,
fazendo a fortuna de uns e a miséria dos outros.
O hotel não era lá dos melhores, mas, como a maioria
dos seus hóspedes eram estrangeiros, era bem mais

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confortável do que Denise poderia esperar. Longos
ventiladores de pás compridas e dependuradas no teto
ajudavam a diminuir o calor infernal, que as cortinas
brancas tentavam disfarçar. O quarto era limpo e a agente
77A começava a sentir simpatia pelo pequenino país.
A primeira coisa que Denise teria de fazer era entrar em
contato com o sheik Al Moffadah. Já sabia que iria detestar
o velho que mantinha o povo na miséria enquanto nadava
nos dólares americanos e russos. Mas iria procurá-lo o mais
rápido possível.
Tirou a roupa e tomou uma ducha fria. Meia hora mais
tarde, deitou-se.
Estava dormindo, quando bateram à porta. Levantou-se
de um salto, os reflexos despertos, e correu a apanhar a
inseparável Lugger. Encostou-se ao lado da porta e
perguntou, com a voz o mais descontraída possível:
— Quem é?
Uma voz em inglês, com um carregado sotaque árabe,
respondeu:
— Serviço do hotel, senhorita.
A agente vestiu um roupão e abriu uma fresta da porta.
Um jovem árabe de pele morena e sobrancelhas espessas,
saudou-a com um sorriso discreto.
Depositando em cima da mesa do quarto uma bandeja
com café e alguns pães, o empregado do hotel procurou ser
simpático:
— Espero que tenha uma boa estada em Basrah,
senhorita. Qualquer coisa em que puder ser útil, estarei à
sua disposição.
Denise olhou o árabe de alto a baixo e perguntou:
— Como é o seu nome?
— Zephir, senhorita. A senhorita está ligada ao petróleo
como os outros, não?

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Denise achou melhor não provocar suspeitas.
— Sim... de uma certa maneira, sim. Diga-me uma
coisa: é difícil falar com o sheik?
A simples menção do chefe de estado fez a testa do
empregado do hotel crispar-se. Seu sorriso morreu nos
lábios e ele virou-se para ir embora, respondendo
secamente.
— Não sei, senhorita. Nós do povo não sabemos nada a
respeito disso.
Denise Michele sentiu que ele queria dizer alguma
coisa, mas que tinha medo.
— Você não parece ser muito fã do seu sheik, Zephir
— provocou a moça.
Os olhos do rapaz arregalaram-se. Ele fechou a porta
rapidamente às suas costas e advertiu Denise.
— Cuidado, senhorita. Jamais diga isso de novo, pois
pode me comprometer seriamente. Se o sheik ficasse
sabendo disso, eu seria imediatamente decapitado.
Está começando a dar resultado, pensou Denise.
— Eu pessoalmente não tenho nada a ver com isso, mas
se esse sheik é tão ruim assim, por que não o derrubam? —
perguntou ela, ingenuamente tentando se mostrar o menos
suspeita possível.
O empregado do hotel olhou-a fixamente, sondando o
significado de suas palavras. Depois de alguns segundos de
hesitação, decidiu-se:
— Ele não perde por esperar, senhorita. Logo, logo...
Deu meia-volta e fechou a porta atrás de si, sem um
ruído.
Denise Michele, a agente 77A, ficou parada, pensando
nas últimas palavras que ouvira. Zephir tinha dito a última
frase de maneira diferente das anteriores. Tinha sido muito
mais decidido e seguro. Sua timidez no trato com uma

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mulher ocidental tinha desaparecido e falara como uma
pessoa cheia de determinação. O que significaria aquilo?
Estava claro que o sheik deveria ter opositores, mas será
aue haveria alguma resistência séria dentro de Basrah?
Haveria algum plano para derrubá-lo?
Agora, precisava encontrar-se logo com esse sheik tão
falado. Evidentemente, teria que usar algum disfarce. Já
tinha pensado nisso. Mister Lattuada lhe havia dado em
Nova York credenciais de um importante jornal norte-
americano. Entrevistaria o sheik como repórter especial,
encarregada de fazer uma extensa matéria sobre o Oriente
Médio e seus governantes. Desse jeito, inclusive, poderia
conversar sobre petróleo e relações internacionais, que era
o que lhe interessava. sem maiores problemas.
Vestiu-se com elegância, mas discrição. Não estava
disposta a chamar mais atenção do que já estava chamando,
de pele clara e minissaia num país de morenos e mulheres
inteiramente cobertas de túnicas que mais pareciam
cortinas.
Desceu ao saguão do hotel e entregou a chave do quarto
na portaria. Muitos ocidentais estavam por ali, no bar em
frente, lendo jornais nas poltronas do saguão. Denise correu
os olhos por alguns deles e só viu rostos estranhos.
Realmente havia muitos louros, o que a levou a pensar que
poderiam ser alemães. De qualquer maneira, os cabelos não
queriam dizer nada; podiam ser desde americanos a eslavos.
Foi fácil ir até o palácio. O motorista do táxi que a
levou, foi dizendo pelo caminho que o palácio era o mais
bonito do Oriente Médio, que sua arquitetura era anterior à
vinda do profeta Maomé à Terra. O motorista fazia a média
habitual, pensando que ela fosse turista.
A guarda do palácio barrou a entrada de Denise.
— Não pode entrar no palácio — disse um dos guardas.

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Não houve jeito possível de contornar a determinação
dos guardas. Mesmo mostrando suas credenciais, os
guardas mostraram-se irredutíveis. Proibia-se a qualquer
mulher ocidental entrar no palácio do sheik. Era um velho
costume religioso que os guardas se cuidavam por observar.
Quando já estava desistindo, um oficial recém-chegado,
com ares mais liberais, talvez mais em contato com os
ocidentais, concordou em levá-la à presença do grão-vizir,
o conselheiro direto do sheik.
O homem a recebeu com um sorriso gelado. Seu olhar
mostrava logo que seus pensamentos estavam bem longe de
suas palavras. Era um homem de aspecto físico repelente:
um comprido nariz, mais saliente ainda pelo desenho
espesso de suas sobrancelhas, fechando-se na testa, o corpo
semi-corcunda, as mãos esfregando-se uma na outra,
cruzadas na altura do estômago. Parecia um mercador de
escravos.
Seus olhos exploraram Denise com grande interesse.
Suas pernas, na saia um pouco curta, mas ousadíssima em
Basrah, magnetizavam o olhar do grão-vizir. A agente da
CIA tinha de controlar-se e aceitar a situação de falar com
um homem que não parava de olhar suas pernas e subir os
olhos até os seios O vizir já tinha planos para a moça, e seus
olhos brilhantes os denunciavam. O costume religioso que
impedia uma mulher estrangeira no palácio já estava
devidamente superado.
— Em que posso servi-la, senhorita? — perguntou o
vizir.
Denise fez força para dar um sorriso profissional, sem
se importar muito com seus olhares maliciosos.
— Sou do Washington Post e quero fazer uma
reportagem com o sheik Al Moffadah sobre a situação do
petróleo na atual crise mundial e também sobre Basrah. O

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senhor sabe do fascínio dos ocidentais sobre as coisas do
Oriente, não?
O vizir riu e respondeu arrastadamente:
— Aqui é mesmo o lugar para conhecer coisas exóticas,
minha cara. Eu, pessoalmente, posso mostrar-lhe coisas
muito exóticas...
A insinuação era demais evidente para ser ignorada.
— Muito agradecida, excelência, mas primeiro gostaria
de falar com o sheik, se me for permitido...
Denise estava usando a submissão como arma. O vizir
gostou da posição decisiva que a linda repórter lhe conferia.
— Bem, minha cara... tratando-se de uma repórter tão
insistente e de tão representativo jornal e também... pela sua
inigualável beleza... tratarei pessoalmente com Sua
Excelência o Magnífico Al Moffadah para que a receba na
câmara real.
Denise piscou os olhos repetidamente, como se
estivesse impressionadíssima.
— Oh...! Muito obrigada, senhor, excelência... Muito
obrigada. Se há alguma coisa que possa fazer pelo senhor...
por vossa excelência... por favor...
Denise o olhava como se estivesse realmente
impressionada, mas por dentro controlava-se para não lhe
dar uma bofetada ou dizer algo bem desconcertante.
— Minha cara... nós teremos muito tempo para você
demonstrar a sua gratidão — disse ele, com cinismo.
Com um sinal, mostrou-lhe o caminho, através de uma
porta fechada por cortinas. Os olhos do vizir brilhavam,
devorando a agente da CIA.
Atravessaram várias peças do palácio. Denise sentia-se
como se estivesse dentro de uma das aventuras das Mil e
Uma Noites. De todos os lados surgiam guardas vestidos
com calças e sapatos de seda e mulheres esguias com o rosto

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tapado por véus, em pequenos grupos que estranhavam a
presença de Denise.
Enquanto reparava nas odaliscas do sheik, Denise não
conseguia admitir que aquelas mulheres gostassem daquela
vida. Eram propriedades exclusivas de um só homem,
escravas de sua vontade e a quem deviam dar todo o seu
amor sem a menor ambição de receber de volta qualquer
coisa parecida.
Não é nada fácil. Eu até achava que ser concubina de
um sultão bonitão devia ser uma ótima vida, mas agora acho
que não é bem assim..., pensou Denise com seus botões.
Depois de atravessarem longos corredores e um jardim
interior cheio de palmeiras, onde numa pequena piscina
cinco mulheres nuas banhavam-se alegremente, chegaram
à uma enorme porta de madeira e bronze, guarnecida por
dois enormes guardas, empunhando reluzentes
metralhadoras cromadas.
Elegantemente, o vizir curvou-se a avisou:
— Por favor, senhorita, espere um minuto enquanto
aviso ao Magnífico.
Denise respondeu nervosamente, para mostrar que
estava excitadíssima, e esperou onde estava, com um olhar
de espanto nos olhos.
Poucos minutos depois a porta abriu-se, mostrando um
sorridente grão-vizir.
— Pode entrar, senhorita— anunciou ele. — Sua
Excelência o Magnífico está ansioso para conhecê-la.
Denise Michele entrou lentamente na grande sala do
trono. A peça era mesmo enorme. Cortinas transparentes de
seda filtravam um pouco a claridade do sol. A sala
estreitava-se no lado oposto à porta de entrada, e no fim,
quase colado à parede, numa pequena elevação com três
degraus, assentava-se o trono.

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Denise estava curiosíssima para conhecer o famoso
“Magnífico”, e qual não foi a sua surpresa ao vê-lo frente a
frente. O “Magnífico” era quase um anão! Deveria ter
pouco mais de um metro e meio de altura, apesar do plano
mais elevado onde se encontrava.
O Magnífico não passava de um tampinha. Bastou uma
olhada para Denise entender que aquele pequeno homem à
sua frente tinha na sua posição de sheik, e na força de todo
o seu poder, uma compensação bastante razoável pela
frustração de ser tão baixo. Não havia dúvidas de que aquele
trono era muito mais muleta do que um trono; a muleta para
ajudá-lo a enfrentar seus complexos.
Se porventura ficasse sem o trono, o pequeno sheik iria
sofrer muito. Deixaria de ser um rei para ser apenas um
velho e inexpressivo homem pequeno.
O olhar agressivo do sheik confirmou ainda mais os
pensamentos de Denise. Além de agressivo, deveria ser
também enérgico e violento.
Quando chegou diante do sheik, Denise curvou-se
respeitosamente e manteve-se assim, até que ele lhe dirigiu
a palavra:
— Fui informado de que deseja saber das minhas
realizações em Basrah e de toda a riqueza do nosso petróleo.
Terei muito prazer em mostrar-lhe toda minha riqueza e a
extensão e a importância dos meus domínios e de meu país.
Já era tempo da imprensa ocidental descobrir o descendente
direto de Maomé e um dos homens mais ricos do mundo.
Minha fortuna é incalculável, senhorita...
Nunca ninguém tinha dito tantas coisas que irritassem
Denise de uma só vez, como o sheik tinha feito. Denise teve
de controlar-se para não lhe apertar o pescoço. Tudo o que
tinha dito era sobre a sua riqueza, a riqueza de seu petróleo,
a sua fortuna, o seu poder, tudo seu, seu, seu.

— 25 —
O país era ele. Tudo que havia em Basrah era dele. Não
havia mais nada, nem ninguém a não ser ele. O resto não
tinha a mínima importância.
Qualquer chefe de estado que fosse parecido com esse
cara seria deposto pelo povo em menos de uma semana de
governo — pensou Denise. Parece absurdo que em pleno
século XX um homem só possa ser dono do destino e das
vidas de um país inteiro.
A agente da CIA controlou-se e representou seu papel.
Tirou um caderno e uma caneta da bolsa e sentou-se em
frente ao trono, numa cadeira alta que um dos guardas havia
trazido. Ao lado do sheik, foi postar-se o sorridente e cínico
grão-vizir.
— A primeira coisa que gostaria de saber é como é o
seu relacionamento com seu povo, Excelência.
— Ahh... sim, o povo... O povo me adora, senhorita —
disse ele. — Pagam os impostos que eu estabeleço, sem
reclamar, cooperam com todas as minhas ideias com a
maior boa-vontade... — seu olhar encontrou-se com o do
vizir e ambos sorriram, cúmplices.
— Mas parece que a forma de vida de seu povo não tem
mudado muito com o correr dos anos, Excelência, nem
mesmo depois da descoberta das jazidas de petróleo —
argumentou Denise.
A resposta de Al Moffadah a fez emudecer e morder a
língua para se controlar.
— Mudar para quê, senhorita? O povo gosta da vida que
tem.
Esse cara está pensando que eu vou acreditar nessa,
assim, sem mais nem menos? — pensou Denise.
— Seu país é muito rico, excelência, mas essa riqueza
está concentrada em muitas poucas mãos — disse ela.

— 26 —
O sheik olhou-a com estranheza. Ajeitou-se no trono e
respondeu com rispidez:
— A riqueza está concentrada nas mãos em que
deveriam estar, senhorita. Nem todos podem ser ricos. É
necessário que nossa sociedade tenha suas classes bem
definidas. Tem sido assim durante séculos — sentenciou o
Al Moffadah.
— Mas, Excelência, o senhor não acha que toda a
riqueza proveniente dó petróleo também é do povo de
Basrah? — perguntou ela.
O Magnífico não estava acostumado com contestações.
Levantou-se com todo seu tamanho ridículo, o rosto
vermelho, e gritou:
— Quem manda em Basrah sou eu! O povo nada
possui, pois, o dono do povo sou eu! Você passou dos
limites! É uma subversiva!' Está fazendo subversão! Está
fazendo subversão dentro do meu próprio palácio! É o
cúmulo!
Denise não conseguiu mais controlar-se e explodiu, sob
os olhares apavorados do vizir e para espanto do
“Magnífico”:
— Escute aqui, seu verme! Você pensa que estamos na
Idade Média? Acha que pode dispor das pessoas dessa
maneira? Você não passa de um baixinho neurótico que
devia estar engraxando sapatos em qualquer esquina de
Nova York. O povo vai tirá-lo do trono, seu ditadorzinho
barato! Pulha! Anão!
Não pôde continuar. Estava de dedo em riste na cara do
“Magnífico” quando os guardas, a mando do vizir
apavorado, a agarraram pelos braços puxando-a da sala,
enquanto o pequeno sheik gritava, histérico:
— Decapitem-na! Esfolem-na viva! Matem-na! Eu a
quero morta! Morta!

— 27 —
Antes de chegar na porta, Denise Michele ainda gritou
a plenos pulmões:
— Tampinha insignificante! O povo vai acertar as
contas com você, tirano! Ditador!
Do lado de fora, enquanto Denise tentava livrar-se dos
guardas, o vizir comunicou a ela, com o olhar gelado:
— Em circunstâncias normais, senhorita, sua ousadia já
teria sido lavada com seu sangue, mas não podemos nos
arriscar a complicações com a imprensa ocidental. Dessa
maneira, depois do lamentável incidente que a senhorita
provocou com calculada má-fé, tem quarenta e oito horas
para deixar o país. Daqui a dois dias, parte o próximo avião
para o Cairo e a senhorita vai nele ou se arrependerá ainda
mais por suas palavras insolentes.
Denise sentiu medo das últimas palavras do vizir. O
verdadeiro perigo parecia que estava ali na sua frente e não
no pequeno sheik, que estava nervosíssimo àquela altura. O
tom de voz do vizir e a expressão dos seus olhos mostravam
que ele era um homem muito decidido, talvez mais do que
um simples braço direito do sheik.
Denise desvencilhou-se das mãos dos guardas e
afirmou, com petulância:
— Você também está com seus dias contados, sabia?
Uma sonora bofetada provocou um filete de sangue nos
lábios de Denise. O grão*vizir não hesitara e a ameaçou:
— Cale-se, enquanto pode falar, atrevida! Cuidado com
a sua língua, pois pode perdê-la. Guardas, levem-na embora
e vigiem seu quarto no hotel e todos os lugares em que ela
for. Façam com que esteja no avião que parte para o Cairo
depois de amanhã sem falta!
Aos empurrões, Denise foi levada até a porta de saída
do palácio. As portas fecharam-se às suas costas com um
estrondo.

— 28 —
Estou numa fria geladíssima — pensou a agente 77A.
Não podia ter feito isso. Se mister Lattuada visse o que fiz,
me despediria da CIA na mesma hora. Agora, como vou
achar os agitadores da NAZ em quarenta e oito horas? fá
não posso contar com o sheik para nada. Ele agora vai me
evitar, isto se não me mandar matar antes.
Atravessou a rua e foi a pé para o hotel. No caminho,
todas as pessoas a olhavam como se fosse um animal
estranho. Sua cabeça, entretanto, não estava preocupada
com isso. De repente, as coisas se tinham precipitado e tudo
estava mais difícil.

— 29 —
CAPÍTULO QUARTO

A dança do ventre

No quarto do hotel, Denise pensou muito em um jeito


de sair da enrascada em que se metera. Na hora do jantar,
colocou um vestido negro e desceu para o restaurante do
hotel.
Quando chegou ao saguão, todos os olhares convergiam
sobre ela. Independentemente de ser uma das poucas
mulheres desacompanhadas no hotel, era de longe a mais
bonita hóspede. Muitos daqueles homens que a olhavam
com interesse nunca tinham visto uma mulher tão bonita em
sua vida. Os árabes com seus turbantes de gala e os
melhores caftãs, abriam caminho solenemente enquanto ela
entrava no restaurante.
Escolheu a mesa num dos cantos do salão, de frente
para um pequeno palco e algo semelhante a uma pista de
danças. Dali, poderia ver bem tudo o que se passava nas
outras mesas.
Mais da metade dos homens que ali estavam eram
estrangeiros. Muitos eram louros e altos; muito falavam em
alemão, inglês e línguas nórdicas. Um daqueles poderia ser
um agente da NAZ.
Denise repassou os acontecimentos da tarde. Como
tinha sido amadora a sua explosão com o sheik Al

— 30 —
Moffadah. Qualquer agente saberia controlar seus próprios
sentimentos, para não prejudicar a missão. Tinha procedido
com um dos elementos-chave de sua vinda a Basrah, como
se estivesse discutindo com uma pessoa qualquer, de ideias
diferentes das suas. Por mais crápula que o sheik lhe
parecesse, deveria ter-se controlado e obtido alguma pista
para localizar a NAZ, se é que ele poderia fornecê-la.
O maitre interrompeu-a, justamente quando a imagem
do sheik gritando, vermelho de cólera, começava
novamente a formar-se em sua mente.
As primeiras palavras que o elegante maitre lhe dirigiu
foram em árabe e ela não entendeu nada.
— Are you american, madam? — o maitre apelou para
o inglês. A agente virou-se mais para o maitre e sorriu,
respondendo na mesma língua:
— Sim, eu pareço?
O árabe sorriu.
— Perdão, senhorita, mas todos os ocidentais que
aparecem aqui no hotel são americanos. Ou quase todos —
explicou ele.
— Todos, mesmo?
O maitre não entendeu o motivo da pergunta, mas
respondeu com um tom de voz diferente:
— Para falar a verdade, agora, nessa última semana,
chegaram muitos escandinavos e alemães. Geralmente, não
aparecem por aqui. A senhorita sabe, as companhias de
petróleo são controladas por russos ou americanos, sendo
que os primeiros não se hospedam no hotel. Preferem ficar
numa casa alugada pela embaixada, a alguma distância
daqui.
— Ah... interessante — comentou Denise.
— Mas por que será que apareceram alemães e
escandinavos por aqui agora? Serão turistas?

— 31 —
— Não... acho que não — disse o maitre.
— Na realidade, alguns são muito estranhos. Eu não sei
se já estou acostumado com os russos e americanos durante
todos esses anos e essas pessoas não têm nada demais, ou
se de fato elas são estranhas.
Denise estava gostando da conversa. Riu
despreocupadamente e voltou a perguntar com o tom de voz
o mais casual possível.
— Estranhos? Como assim?
— Bem, eles não falam muito, são muito fechados. Não
acredito que estejam fazendo turismo, pois não levam o
menor jeito de turistas. A senhorita sabe, não é? Turista está
sempre de roupa colorida, alegre e despreocupado. Esses
senhores não são assim. Outra coisa, também estranho são
os passaportes.
— Passaportes? — perguntou Denise, arregalando os
olhos, cada vez mais curiosa.
— Sim. Eles falam em alemão e procedem como se
fossem velhos amigos — disse o maitre. — A maioria tem
passaportes europeus, mas outros usam passaportes
bolivianos.
— Bolivianos?
Denise ficou alerta. Um alemão de passaporte boliviano
em Basrah, no momento atual, nunca seria um turista.
— É, bolivianos — repetiu o maitre.
Denise achou melhor parar por aí mesmo, se não o
maitre começaria a desconfiar.
— Mas, afinal, o que vamos comer? — perguntou ela.
De repente, o árabe lembrou-se de suas funções.
Empertigou-se o máximo possível e estendeu a Denise um
luxuoso cardápio.
A agente da CIA recusou-o com um gesto de mãos.

— 32 —
— Olhe, vou confiar no senhor — disse ela ao maitre.
— Gostaria de comer algo bem típico de Basrah. Alguma
coisa que realmente não possa ser encontrada nos
restaurantes ocidentais.
O maitre achou graça.
— Combinado, senhorita. Pode deixar comigo.
Fez um meneio elegante e retirou-se.
Denise Michele ficou olhando para as pessoas no
restaurante. Agora tinha certeza de que um dos homens que
via na sua frente era um agente da NAZ. Talvez ali
estivessem vários agentes. Talvez estivesse sendo vigiada
desde sua chegada ao país e não sabia. Talvez o sheik fosse
aliado da NAZ...
A última hipótese foi a que mais preocupou a agente
77A. Ao mesmo tempo, a não ser que o sheik não soubesse
realmente nada sobre ela, e sua verdadeira missão, não a
deixaria sair viva do palácio. Ou então... iria dar um jeito de
eliminá-la fora de seus domínios.
A chegada do maitre interrompeu as divagações de
Denise Michele. Ele não vinha sozinho. Três garçons,
carregando dois carrinhos com baldes de gelo, travessas e
pratos, seguiam-no respeitosamente. O maitre parou ao seu
lado e, orgulhosamente, destampou uma das travessas
principais, enquanto explicava o que era aquilo:
— Uma refeição digna dos deuses, senhorita. Arroz
cozido no ghee, que é manteiga derretida congelada e
depois conservada em odres de pele. Completando o prato
um punhado de tâmaras secas, diretamente do Oásis
Marrakhen e, por cima de tudo, o leben.
— Leben? — perguntou Denise. — O que é isso?
— Leite coalhado de ovelha e de camela, com uma
xícara de café temperado com cardomomos — explicou o
maitre.

— 33 —
— Cada vez entendo menos — resmungou Denise. —
Resumindo, quer dizer que o que temos realmente é arroz?
O árabe a olhou curiosamente. Parecia estar um pouco
ofendido. O ocidente parecia estar menosprezando suas
especialidades.
— Esse é apenas o prato acompanhante, senhorita —
disse ele.
— Ah... sim... — sussurrou Denise, encabulada com a
sua gafe.
O outro carrinho tomou o lugar do primeiro. Uma
grande travessa de metal foi aberta e um esplêndido assado
surgiu.
— Isso é cordeiro cozinhado na manteiga, enriquecido
de uvas secas, amêndoas e alho, junto a um molho à base
de açafrão — disse o árabe. — A senhorita, como
convidada especial da casa tem direito ao melhor pedaço: o
olho.
Denise engasgou-se.
— O olho? Você diz o olho do carneiro? — perguntou
ela.
O maitre lançou-lhe outro daqueles orares de espanto e
reprovação e indagou, ofendido:
— Sim, por que não?
— Eu é que não como olho algum — replicou Denise.
— Não gosto, o senhor entende? Nos Estados Unidos se
prefere mais as costelas, o lombo, etc.
— Preferem isso a um olho ao molho de açafrão?
— É incrível, não é? — disse Denise, tentando
contornar. — Esses cozinheiros ocidentais não entendem
nada de culinária. Vejam só: desprezar um olho de carneiro!
O comentário de Denise pareceu acalmar o profissional
da cozinha. Com gestos resignados, concordou em cortar

— 34 —
um bom pedaço de costela, mergulhá-la no molho e servi-
la.
De repente, todas as luzes do salão se apagaram e um
foco muito fraco de luz fixou-se no pequeno palco. As
cortinas se abriram e uma pequena orquestra muçulmana
apareceu. Os instrumentos eram muito estranhos. Havia
algo parecido a um alaúde, com cinco cordas, e outro que
parecia uma cítara. Completavam o conjunto uma flauta
primitiva, que não passava de um simples tubo furado sete
vezes sobre um dos lados e, no ritmo, um tambor para ser
tocado sobre os joelhos.
Mal os músicos começaram a tocar seus instrumentos,
uma mulher seminua, apenas com uma pequenina tampa
cheia de véus e os seios pintados com uma tinta prateada
que brilhava na luz do holofote, pulou agilmente do palco
para a pista de dança e iniciou os movimentos rítmicos com
o ventre.
Denise Michele sabia muito bem o que era aquilo: nada
mais nada menos do que a dança do ventre.
Embora essa dança já fosse velha no tempo do Rei
Salomão, o mundo árabe não se cansa dela. Os árabes e
ocidentais presentes acompanhavam os movimentos
circulares do umbigo da dançarina com os olhos fixos e o
queixo caído. Aos poucos, ela ia retirando os véus e
jogando-os a esmo pela plateia, que disputava os pedaços
de pano.
A mesa onde estava Denise ficava um pouco afastada
da pista. Bem que ela gostaria de ganhar um daqueles véus
como lembrança. Iria dá-lo de presente a mister Lattuada,
em Washington.
A dançarina começou a rodopiar em círculos cada vez
maiores e começou a dançar entre as mesas. Denise notou
que a moça se aproximava cada vez mais da sua mesa, até

— 35 —
que os olhos das duas se encontraram. O olhar da moça
deixou a agente imediatamente com os reflexos acesos. No
breve momento em que se encontraram, Denise soube que
a moça tinha algum interesse especial nela. Seus olhos
diziam isso. Sem desviá-los dos da agente, a dançarina
arrancou o último véu e jogou-o a seus pés. Denise agarrou
o véu e a dançarina afastou-se, rodopiando.
Denise Michele não entendeu direito, mas manteve o
véu entre os dedos, esperando o número terminar. A
dançarina não olhou para ela mais nenhuma vez. Seu
número terminou abruptamente. O corpo da jovem estava
molhado de suor, os seios arfavam cansados, e ela retirou-
se sob a barulhada dos árabes e europeus. Todos pediam bis
e estavam dispostos a entregar suas almas ao demônio para
passarem uma noite com a dançarina.
Antes das luzes se acenderem, uma lufada de ar ao seu
lado, a poucos centímetros do seu braço, fez Denise
desviar-se instintivamente. Continuou olhando para a pista,
esperando a volta da dançarina.
Depois de alguns minutos, as palmas e os gritos
serenaram bastante e as luzes novamente se acenderam. Os
homens mais empolgados tomaram a sentar-se e Denise
virou-se para ver o que tinha provocado o deslocamento de
ar que sentira.
Olhou para trás e viu que as cortinas no fundo da parede
estavam rasgadas. Ficou sem entender nada, até que avistou
no chão, encostado à barra da fazenda da cortina um punhal
fino e comprido. Seus olhos fixaram-se na lâmina e sua mão
desceu para apanhá-la. Era um punhal comprido, a lâmina
incrustada, polida e mortífera.
Voltou-se para a pista de dança. Tudo continuava
normal. Ninguém estava olhando para ela, os garçons
continuavam em seu vai e vem entre as mesas, tudo como

— 36 —
se nada tivesse acontecido, como se nenhum assassino
tivesse atentado contra a sua vida.
Denise sentou-se novamente, os olhos acompanhando
os movimentos de toda a sala. Pela posição em que estava
sua mesa, o punhal só poderia ter sido atirado por alguém
que estivesse na sua frente, era óbvio. Do palco não poderia
ter sido, pois os olhos dos presentes estavam voltados
justamente para esse lugar, esperando o retorno da
dançarina.
Denise achou melhor sair dali. Levantou-se
calmamente, com a bolsa e o véu da dançarina nas mãos, e
caminhou até a porta. Ninguém pareceu notar a sua saída.
Chegou ao saguão, pegou sua chave e subiu ao quarto. Teve
o cuidado de parar na porta para ver se captava ruídos
estranhos. Nada de anormal. Abriu-a de um golpe e entrou.
A peça estava deserta e arrumada como ela deixara.
Revistou o banheiro, olhou dentro do guarda-roupa e
debaixo da cama. Só depois é que fechou a porta e sentou-
se na cama.
Foi então que Denise reparou que, na ponta do véu que
a bailarina lhe jogara, havia um pequeno papel colado. Nele
estava escrito: Hassam Harum, 54.
Um endereço.
Denise levantou-se imediatamente. Foi até o armário e
pegou uma bolsa escura de couro. Abriu na cama e despejou
seu conteúdo. Pegou sua Lugger, adaptou o silenciador e
despiu-se. Enfiou uma calça Lee, tirou os sapatos de salto,
substituindo-os por sandálias, e saiu, fechando a porta do
quarto com cuidado.
Não demorou muito para chegar na Rua Hassan Harum.
O táxi levou-a num instante, embora o motorista estivesse
estranhando um pouco. O endereço ficava num bairro
perigoso e ele a preveniu que àquela hora, uma mulher

— 37 —
europeia nas ruas seria um alvo preferencial para os
assaltantes.
O número 54 era um velho armazém. Denise Michele
desembarcou e pediu ao chofer do táxi para partir, embora
ele quisesse ficar com ela e voltasse a avisar que ali, àquela
hora corria sério perigo.
Denise hesitou antes de bater à pesada porta. Olhou em
torno, acostumando os olhos à escuridão da rua deserta,
procurando alguma coisa estranha. Tudo estava silencioso
e deserto. A agente da CIA colocou a mão na bolsa e
encontrou a Lugger. Bateu com mais força na porta. As
pancadas ecoaram longamente. Denise esperou, tensa, por
algum ruído, até começar a ouvir passos aproximando-se da
porta.
O ruído dos ferrolhos sendo retirados deixou-a ainda
mais tensa. Estava pronta para atirar, a mão no gatilho da
Lugger, dentro da bolsa. A porta abriu-se um pouco, as
velhas dobradiças rangeram e um rosto louro surgiu pela
abertura. Os olhos azuis do homem se fixaram no rosto de
Denise e antes que ela pudesse falar qualquer coisa a pessoa
avisou:
— Entre, nós a estávamos esperando.

— 38 —
CAPÍTULO QUINTO

O esconderijo da OLB

A porta abriu-se totalmente e um homem louro, de


olhos azuis e jovem surgiu à frente de Denise. O homem
sorriu-lhe e fez um sinal para que ela entrasse.
— Denise Michele, eu presumo.
— Sim — respondeu a moça.
— Nós a esperávamos com ansiedade.
— Quem é você? — perguntou a agente 77A.
— Calma, que logo você saberá de tudo — disse ele. —
Apenas uma coisa: não se preocupe com nada aqui dentro.
Suas preocupações devem ser para com outras pessoas.
Denise ficou olhando, surpresa. O homem falava com
muita segurança e, evidentemente, sabia muita coisa acerca
dela. O que desejaria dizer, garantindo-lhe que enquanto
estivesse ali não correria perigo? Afinal, quem era ele?
— Olhe, não fique fazendo muitas perguntas a si
mesma: você logo vai saber de tudo — tornou ele, como se
adivinhasse o que Denise pensava. — Mais uma vez, eu lhe
aviso: não precisa temer nada enquanto estiver aqui. É
quase certo que vamos nos entender muito bem. Siga-me
por favor.
Os dois atravessaram o comprido galpão, com o homem
seguindo na frente, até chegar na parede do fundo. Uma

— 39 —
pequena escada levava a uma espécie de porão. Desceram-
na em silêncio, até que Denise começou a ouvir outras
vozes.
No fim da escada, havia uma sala. Entraram, depois que
o rapaz que abrira a porta para ela avisou do lado de fora:
— Aqui está ela.
Denise entrou na sala, em meio ao silêncio e interesse
geral. Várias pessoas estavam sentadas em sofás e cadeiras.
Eram todos árabes, muito jovens, entre eles a dançarina do
hotel.
Todos mantiveram os olhos fixos em Denise Michele,
examinando-a por longo tempo, até que um árabe alto e
magro se levantou e disse:
— Calma, Denise Michele. Tranquilize-se, pois está
entre amigos.
— O meu nome é Horace Young Kirkpatrick — disse
o homem que trouxera Denise até ali.
— Todos aqui são meus amigos. Creio que você já
conheceu Margarida, a melhor dançarina do ventre de
Basrah.
Denise recebeu um sorriso da moça, mas continuou
séria.
— Sabemos muita coisa a seu respeito — prosseguiu
Horace. — Desde a sua chegada, até o seu desentendimento
com o sheik Al Moffadah. Ambos, eu e você, trabalhamos
para a mesma pessoa.
— Para mister Smith? — perguntou Denise.
— Sim. — Foi a resposta de Horace.
Denise esperou um momento e depois perguntou:
— E quem são eles?
Horace apontou uma cadeira para a agente e sentou-se
numa outra. E despreocupadamente, continuou a falar:

— 40 —
— Eles são da OLB — Organização de Libertação de
Basrah. Essa organização existe na clandestinidade há
vários anos, e o objetivo dela é derrubar o governo tirânico
de Al Moffadah, proclamar a república e instaurar um
governo popular, que canalize a riqueza proveniente do
petróleo para ser usado em reformas sociais, como
hospitais, escolas, e não para o bolso de uns poucos
privilegiados, como tem sido até hoje.
Horace estava até empolgado com seu próprio discurso.
Seus companheiros ouviam atentamente.
Denise percebeu que todos ali o consideravam como
um grande aliado para a nobre causa que tencionavam
realizar.
A agente da CIA também ouvia com atenção. Seus
olhos percorreram as feições de todas as pessoas sentadas
na sala. Estava frente a frente com o único grupo de pessoas
que encontrara em Basrah, até agora, que não temiam a mão
pesada e cruel do sheik Al Moffadah.
— O sheik é um paranoico — prosseguiu Horace. —
Todos sabem que esteve internado em sanatórios da Europa
durante muito tempo. Seus distúrbios glandulares o
impediram de crescer e ele nunca conseguiu superar este
complexo. Usa o poder como válvula de escape para suas
frustrações. Acha que é um semideus, o dono total do país
e durante todos esses anos, seu único contato com o povo
tem sido apenas no sentido de aumentar os impostos,
enquanto a miséria e a doença progridem entre a população
de Basrah.
A dançarina Margarida levantou-se e serviu a todos os
presentes uma xícara do forte e amargo café dos árabes.
Denise aproveitou a ligeira pausa para perguntar a Horace:
— E o que me diz do grão-vizir?

— 41 —
— Esse é uma praga muito pior do que o sheik. pois não
tem a desculpa de ser um homem doente — revelou Horace.
— É um canalha, um aproveitador. Rouba o máximo que
pode dos tesouros da nação e estimula o sheik a concentrar
cada vez mais a arrecadação dos lucros do petróleo.
— E a relação do governo com os países compradores,
como é? — tornou a perguntar a agente da CIA.
Horace deu um sorriso e explicou:
— Creio que mister Smith já deve ter-lhe revelado isso,
mas vou-lhe responder essa pergunta mais uma vez. O
governo mantém uma ótima política de cordialidade com os
Estados Unidos e a União Soviética, os maiores
compradores que, por isso mesmo, permitem a manutenção
de Al Moffadah à testa do governo de Basrah. Enquanto o
petróleo continuar a ser fornecido regularmente, tudo irá
bem. Eles podem até não gostar do sheik. mas o que
interessa é o petróleo. Você sabe muito bem como as
grandes potências internacionais cuidam de seus interesses.
Denise Michele confirmou, com um leve aceno de
cabeça, enquanto acendia um cigarro.
Horace sorriu para ela e apontou um dedo na sua
direção.
— Mister Smith falou-me que você viria.
— Você já estava em Basrah?
— Sim. já faz quase um mês que estou aqui.
— E como você se infiltrou na OLB?
— No hotel em que eu estava hospedado encontrei-me
com um ex-agente da CIA, que há um ano se desligou —
respondeu Horace, apontando para um dos homens
presentes na sala. — Ele então perguntou-me o que eu
estava fazendo em Basrah... se era por causa de alguma
missão. E ele me explicou também que fazia agora parte de
um movimento de resistência contra o regime do sheik. Na

— 42 —
semana passada, escrevi a mister Smith informando que as
informações de nosso homem aqui em Basrah tinham
fundamento. A NAZ, uma organização formada de antigos
membros do III Reich, estava começando a agir aqui, para
provocar uma guerra. Pedi a mister Smith para mandar uma
agente, pois uma mulher seria muito mais fácil de conseguir
informações do sheik Al Moffadah, do que um homem.
Mas pelo que vi, você não se saiu muito bem. Um dos
nossos espiões, aliás da OLB, que é um dos guardas
pessoais do sheik nos contou tudo o que você disse ao sheik.
Denise fez um sorriso amarelo.
— Não consegui me conter.
— Foi uma pena.
— Mas vocês estão bem infiltrados mesmo —
comentou ela, com um sorriso mais espontâneo.
Um dos árabes tomou a palavra. Era o mesmo que falara
pouco antes.
— Isso não é quase nada. Nós temos o país
praticamente sob o nosso controle. O povo inteiro nos apoia
e está pronto para a luta, se houver. Até na guarda do
palácio, como você pode ver, e no exército real, temos
grande número de adeptos.
— O que esperam, então? — perguntou Denise.
— O momento propício. Por enquanto, é segredo, mas
está muito próximo. Aí, você e Horace, entram na jogada.
— Nós? — perguntou a agente, surpreendida com a
revelação.
— Sim, vocês — replicou, o árabe. — Por que o
espanto?
— Mas de que maneira? — quis saber Denise,
embaraçada.
— Para começar — disse o árabe. — Não foi a NAZ
que os trouxeram aqui?

— 43 —
— O que vocês sabem sobre a NAZ? — perguntou
Denise.
— Vou ser franco para você. Só falei a respeito da
NAZ, porque sei que era o que lhes interessava. Nossos
agentes descobriram entre os hóspedes do hotel onde você
está, dois agentes daquele bando de nazistas desesperados.
Os dois homens faziam parte da missão alemã na Turquia
em 1943, e nossos homens os conheciam de lá. A existência
da NAZ já era do nosso conhecimento. Sabíamos também
que os dois alemães eram criminosos de guerra, portanto,
foi só ligar uma coisa com a outra.
Denise decidiu abrir o jogo. Todos os presentes
acompanhavam a conversa, inclusive Horace, mudos, os
olhos fixos ora em Denise, ora no agente 77Z da CIA.
— Concretamente, o que sabemos é que a NAZ está
prestes a dar um golpe muito grande — revelou ela. — Um
golpe que vai abalar o equilíbrio político no mundo e que,
eu não duvido, se for realizado com êxito poderá rompê-lo
definitivamente. Sabíamos que eles vinham para Basrah. O
que vieram fazer é o que temos que descobrir e neutralizar.
Horace olhou-a com uma expressão de dúvida no rosto.
— Creio que você já suspeita aonde eles vão atacar,
não? — indagou o homem.
— Sim, pois creio que Basrah só pode interessar a NAZ
num ponto específico: o...
— O petróleo, evidentemente — interrompeu Horace.
— Evidentemente — concordou Denise.
Os membros da OLB começaram a falar todos ao
mesmo tempo, demonstrando apreensão.
— Temos de fazer alguma coisa — sugeriu Margarida.
— Não podemos deixar eles agirem. Temos de descobrir o
que vai acontecer e evitá-lo.
— Isso — concordou Denise.

— 44 —
— Sim, é isso mesmo, mas de que modo? — perguntou
Horace.
Denise apagou seu cigarro e propôs:
— Sugiro que fiquemos de olho nos dois agentes da
NAZ. Devemos segui-los em todos os lugares que forem. É
preciso grudar em cima deles. Descobrir todas as suas
ligações, todas as pessoas com quem falam, as coisas que
fazem, tudo. Acha que pode fazê-lo? — perguntou ela,
dirigindo-se ao líder da OLB.
O homem sorriu.
— Isso será facílimo — disse ele. — Já disse que o povo
está do nosso lado. Temos um exército de mendigos,
pastores, barqueiros, mulheres do povo, que podem segui-
los por todas as partes, sem despertar suspeitas. Eles não
vão conseguir ir a nenhum lugar sem que nós não saibamos.
Denise exultou. Os revolucionários de Basrah eram
bem organizados.
— ótimo. Agora temos um plano — disse ela. —
Estamos fazendo alguma coisa. Detesto ficar sem fazer
nada. O que me agrada mesmo é a ação. Este negócio de
papo, não é comigo.
Todos sorriram. Uma atmosfera de confiança estava
instalando-se entre a OLB e os dois agentes americanos.
— O sheik me deu quarenta e oito horas para deixar
Basrah, por causa das coisas que eu lhe disse — revelou
Denise.
— Isto não é problema — retrucou o líder da OLB. —
Podemos escondê-la, sem nenhuma dificuldade, por tempo
indefinido.
— Isso não me preocupa muito. Estou mais preocupada
é com outra coisa — disse Denise.
— O quê?
A agente77A virou-se para a dançarina e perguntou:

— 45 —
— Você sabia o que ia acontecer comigo, no
restaurante?
— Sabia o quê?
— Alguém atirou um punhal em mim. Passou raspando
e foi rasgar as cortinas atrás da mesa.
Ficaram todos em silêncio.
— Você precisa de proteção — disse Horace.
— Sim — concordou a dançarina. — Vamos tratar
disso. Este atentado só faz sentido para dois lados: ou foi
uma ordem de Al Moffadah ou a NAZ já descobriu quem
você é.
— Por que não ligar as duas coisas? — opinou Denise.
— O sheik e a NAZ?
O silêncio foi total na sala. Os membros da OLB
entreolharam-se. Seria o fim se Al Moffadah estivesse
ligado a NAZ, A coisa então era muito mais grave do que
parecia.
Depois de alguns instantes, o líder da OLB falou:
— É, realmente, nada do que esse ditador faça me
surpreende. Ele pode mesmo estar muito amigo dos
nazistas. Afinal, ambos se merecem, talvez até se
completam.
— O que será que ele está ganhando com isso? —
perguntou Margarida.
— É o que temos de descobrir — disse o líder da OLB.
O homem levantou-se e dirigiu-se a seus companheiros:
— Acho melhor encerrarmos a reunião aqui. Vamos
acionar uma rede de informações que fun-cione com
minúcias, seguindo todos os passos do pessoal da NAZ. À
primeira atitude suspeita, agiremos. Talvez nossa ação
possa ser maior ainda do que se pensa.
Denise despediu-se dos membros da OLB. Em poucos
minutos, estava sozinha com Horace e o jovem árabe que

— 46 —
tinha aberto a porta quando ela chegara ao armazém
abandonado.
— E agora, o que vou fazer? — perguntou a agente
77A.
— Tomarei conta de você — disse Horace. — Vou
levá-la a um local onde nunca poderão encontrá-la.
Saíram num velho jipe inglês, sobra da guerra.
Viajaram por uma estrada costeira, até chegarem a uma
colina cheia de árvores, onde uma construção imponente se
destacava ao luar.
— Isso é uma antiga mesquita — explicou ele. — Os
membros da OLB a usam já faz muito tempo, com a
colaboração dos religiosos. Você ficará aqui em segurança,
até que consigamos descobrir uma boa pista.
— Você vai ficar comigo?
A pergunta fez Horace virar-se e olhá-la nos olhos.
— Sim, você se importa?
— Não. Pensei que você fosse estar ocupado com outra
coisa qualquer da sua missão — replicou ela.
— O que importa é que você fique bem. Denise sorriu
para ele. Horace era um homem bonito, pensou ela. Os dois
poderiam aproveitar bem os momentos em que ficassem
juntos.
— Vou mostrar-lhe seu quarto — disse Horace. —
Aqui, você estará em segurança.

— 47 —
CAPÍTULO SEXTO

Uma noite tranquila e agradável

Horace Young Kirkpatrick — alto, jovem e louro.


Presidente e acionista majoritário da empresa “K.K.K.
Steel, Ltda.”, poderoso conglomerado de aciarias com
matriz em Pittsburgh, Pennsylvania, e com filiais em todo
o ocidente. Simpático, atraente, inteligente, playboy
riquíssimo. Possuidor de dezenas de carros, lanchas, iates,
aviões e mansões nos mais belos recantos do planeta. Além
disso tudo, também agente secreto da Central Intelligente
Agency, a CIA. Trabalhando sob as ordens de mister
Lattuada, chefe do Departamento 77 da central de
espionagem norte-americana.
Em algumas ocasiões, Horace assumindo a identidade
de Máscara Negra, age sob as ordens do DCA, Department
of Couvert Activities, uma seção ultra-secreta da CIA,
especializada em espionagem científica e atentados
políticos altamente sofisticados.
Vícios: além de fumar cigarros turcos Avrupa, pelas
mãos de Horace Young Kirkpatrick já desfilaram algumas
das mulheres mais bonitas do mundo. Utiliza o seu charme
e a capacidade de conquistar mulheres em suas missões
para a CIA.

— 48 —
***

Horace guiou Denise através da mesquita, detendo-se


em frente de uma porta. Em seguida, abriu-a. Era um
quarto. Denise entrou no quarto.
Era um dormitório de dimensões pequenas. Nele
haviam poucos móveis. Na outra extremidade uma porta se
comunicava com um banheiro, também de diminutas
proporções. Próxima da porta do banheiro, havia uma
poltrona e uma pequena cômoda. No centro do aposento
estava uma cama de casal.
— Creio que iremos dormir na mesma cama, não? —
indagou Denise, apontando para a cama.
— Sim, se você não se importar — disse Horace.
Um sorriso malicioso surgiu nos lábios de Denise. Até
que seria bom se ele quisesse fazer amor com ela, pensava
a agente, pois há quase uma semana que não sabia o que era
ter um homem em seus braços.
— Você encontrará roupas na terceira gaveta da
cômoda — continuou Horace. — Agora, tenho que descer
e esconder o jipe. Voltarei logo.
O rapaz se afastou, deixando-a sozinha.
Denise caminhou até a cômoda, abriu a gaveta indicada
por 77Z e começou a procurar uma roupa.
De repente, uma idéia surgiu em seu cérebro, ao ver um
pijama de harém, todo transparente, talvez pertencente à
dançarina Margarida. Sim, era isso o que ela utilizaria para
ir para a cama. Ela queria endoidar Horace.
Denise apanhou o pijama e se dirigiu até o banheiro,
trancando-se lá dentro.
Minutos depois, Horace voltou para o quarto. Denise
ainda estava no banheiro, tomando banho. O rapaz sentou-
se na cadeira e esperou.

— 49 —
***

Denise se enxugou e vestiu o pijama transparente. Por


baixo, ela não colocou nenhuma peça íntima. Ela queria
mesmo endoidar Horace.
O pijama oferecia o espetáculo completo de seu corpo
jovem. Os círculos castanhos dos biquinhos dos seios, a
penugem dourada do seu sexo, as curvas suaves, a maciez
cremosa da pele, tudo.
Saiu do banheiro, sentindo-se uma sacerdotisa da
sedução. Quando Denise se aproximou de Horace, que
continuava sentado, ele... ele imobilizou-se em estado de
transe. O espetáculo o fascinou; nada o impedia de ver
aquele corpo nu sob o pijama de harém, nem mesmo a
penumbra que reinava no quarto.
Denise abaixou-se, rodeando os braços ao redor do
pescoço de Kirkpatrick.
Aproximou os seus lábios dos dele e o beijou.
Ele estremeceu pelo corpo inteiro ao curtir o contato
com os macios lábios sensuais e a língua brincando em sua
boca. Ela esfregou o corpo e buliu com os seios contra o
jovem peito masculino.
Quando se separavam ela disse:
— Isso é a recompensa por ter-me tratado tão bem.
Horace levantou-se. Abraçou-a, apertou seu corpo
contra o dela. Os lábios dos dois se encontraram mais uma
vez. Ela avançou sua língua para dentro dos dentes. Ela
abriu a boca mais. No momento seguinte, suas línguas
brincavam e esgrimiam. Seu beijo prosseguiu durante uma
eternidade. As mãos de Horace se alojaram nos lados do
bolero diáfano que cobria os seios de Denise. Suas mãos
abriram os lados. Então, surgiram os seios nus.

— 50 —
Horace sorriu ao ver os dois seios.
Denise não ligou para aquilo, pois ela sentia orgulho de
seus seios, eram grandes, de forma perfeita, sustentados por
uma curvatura excitante e os biquinhos castanho-escuros
erguidos como um par de soldados em posição de sentido.
Ela provocou um pouco, movendo os ombros e
sacolejando as mamas esplêndidas. Horace observou de
queixo caído a dança erótica dos mamilos e devorou-os com
os olhos. Denise segurou-lhe a mão e puxou-o para perto da
poltrona. Ela sentou e colocou a cabeça de Horace em seu
colo. Nessa posição, o homem admirou os magníficos
redondos umedecendo os lábios com a língua. Denise
curvou as costas e buliu em sua face com um biquinho.
Agora, era com ele. E o que ele fez: abriu os lábios, prendeu
um dos mamilos, e logo começou a sugar como um recém-
nascido faminto.
Pouco depois, Denise desafivelou as calças de Horace e
desceu-as para baixo. Kirkpatrick estava super-excitado.
Os dois se despiram e caminharam para a cama.
Denise se jogou nela. Horace contemplava-a extasiado.
Adorava seus seios sacolejantes e ela gostou de ver seu
olhar fixando-se na dourada abundância de seus pelos
púbicos.
Horace subiu na cama e se aproximou devagar de
Denise. Logo, o rapaz impeliu a sua virilidade para a frente.
Denise guiou-o com a mão direita, para que penetrasse bem
no alvo. Quando atingiram seus objetivos, ambos gritaram
juntos.
O jogo de vai-e-vem prosseguiu durante algum tempo.
Horace agia com impetuosidade e Denise permanecia em
forma, sempre pronta para receber mais e mais. Ela
martelou acompanhando o ritmo dele com perfeição. O

— 51 —
tempo passava, o prazer aumentava, até o momento da
explosão final. Depois, os dois adormeceram exaustos.

***

Denise passou dois dias na mesquita.


Durante todo esse tempo viu Horace apenas mais uma
vez, e brevemente. Ele andava muito ocupado, vigiando os
agentes da NAZ e ela já estava ficando impaciente,
querendo fazer alguma coisa. Durante os dois dias em que
esteve escondida do sheik, a única coisa que pôde fazer foi
aproveitar a excelente localização da mesquita e passar
longas manhãs na praia, nadando nas águas tranquilas do
Mar Vermelho.
Horace, embora tivesse dito que iria ficar com ela,
passava fora a maior parte do tempo. A princípio não
entendera, e tinha ficado um pouco magoada. Não podia
negar que se estava sentindo cada vez mais atraída pelo
agente 77Z.
Horace tinha pedido a ela que ficasse ali na mesquita e
não saísse em hipótese alguma. Logo que tivessem
descoberto algo de concreto, ele a chamaria. Denise
concordara, embora seu temperamento pedisse justamente
o oposto. Queria ação, achar logo os homens da NAZ e dar
um jeito neles.
Estava na prata, acompanhando o desenho de uma
nuvem, quando ouviu a buzina do jipe. Levantou-se na
mesma hora e correu até onde Zephir, o rapaz que a tinha
recebido no armazém, e braço-direito do líder da OLB, a
esperava.
— Vamos embora — disse Zephir. — Horace descobriu
algo interessante.

— 52 —
Denise entrou na mesquita, mudou de roupa num
segundo e partiram, levantando a poeira do deserto.
Rodaram por mais de uma hora, passando por uma
estrada que contornava a cidade, até chegar a um grupo de
construções cercadas de arame farpado.
Uma placa dependurada na estrada dizia: Depósito de
Material de Construção: Exército de Basrah. Horace
esperava por Denise com outros membros da OLP.
Assim que ele a viu, correu em sua direção e, num gesto
impetuoso, pegou uma de suas mãos. Denise surpreendeu-
se e sentiu vontade de beijá-lo ali mesmo, mas conteve-se.
— Você está bem? — perguntou ele.
— Sim, claro. O que houve? — indagou ela.
— Os homens da OLB seguiram os nazistas por toda a
parte e eles não fizeram nada de suspeito. Agiram o tempo
todo como turistas, até que descobrimos um deles, ontem à
noite, saindo do hotel de madrugada, pela janela, e vindo
para cá. O alarme foi dado na mesma hora e muita gente
saiu atrás dele. Acabaram aqui onde estamos. Ele passou
mais de meia hora lá dentro — apontou para o barracão
principal.
— Você já esteve lá? — indagou Denise.
— Não. Estava esperando você — respondeu Horace.
— Então, vamos.
Forçada a porta do barracão, não descobriram nada em
seu interior. Uma porta que dava para um quarto foi aberta,
a luz do sol penetrando pelos pequenos basculantes. Sá
havia um caixote no meio do quarto. Aproximaram-se e
constataram que estava vazio. Não havia mais nada no
local.
Denise aproximou-se do caixote e examinou-o com
maior atenção. Nada escrito, nenhuma pista.

— 53 —
— Por favor, vire o caixote — pediu ela. — Quero ver
seu fundo.
Estavam com sorte. Havia uma pequena faixa de papel
no fundo. Em letras vermelhas, em inglês, o clássico aviso
dos estivadores segure com cuidado e, em baixo, o que
todos esperavam: Porto de Basrah.
Era apenas uma confirmação. Fosse o que fosse que a
NAZ esperava ou planejava, começava pelo porto ou
chegava pelo porto.
— Eles estão descarregando qualquer material — disse
alguém.
— É verdade — confirmou Horace. — Acho que devem
estar agindo clandestinamente, pois do contrário, o caixote
teria uma série de carimbos e marcas do posto aduaneiro de
Basrah.
— Mas eles também poderiam ter dado um jeito de
escaparem da alfândega, se estão mesmo ligados ao sheik
— disse Zephir.
— Certo. De qualquer maneira, o que temos de fazer é
vigiar o porto. Podemos falar com os pescadores e os
estivadores e saber se descarregaram carga de algum navio
suspeito nestes últimos dias.
Denise chamou Horace a um canto, para conversar a
sós.
— Não quero parecer nervosa ou qualquer coisa assim
— principiou ela —, mas acho que realmente temos razão
para nos inquietar. Se não descobrirmos logo o que vão
fazer, depois será muito tarde para impedi-lo.
— Você tem razão — concordou Kirkpatrick. —
Precisamos agir com a máxima urgência. Temos de
descobrir o que estão descarregando no porto, antes de
qualquer coisa.

— 54 —
Deixaram o depósito e rumaram diretamente para o
porto. Horace falou diretamente com um estivador, que
parecia ser o chefe das turmas de trabalho. Denise ficou só
e aproveitou para dar uma olhada no cais. Centenas de
homens trabalhavam com as calças arregaçadas. Havia
muitos tipos de embarcações esperando carregamento de
tâmaras, tecidos e especiarias. Denise só conhecia os tipos
principais: o baghala, com as esculturas na proa e seu
tamanho avantajado, os dhows, menores que os baghalas,
mas ainda grandes, os modelos pequenos destinados a
cabotagem e dezenas de barcos de pescadores de pérolas,
os sombrouks e os shuals.
Horace voltou ao seu encontro com o chefe dos
estivadores.
— Denise, este é Amir, um amigo da OLB —
apresentou ele.
O estivador, inibido diante da formosa mulher,
cumprimentou Denise Michele com um ligeiro aceno de
cabeça.
— Como vai? — disse ela, estendendo-lhe a mão.
— Amir diz que nenhum navio europeu chegou ao
porto, na última semana — revelou Horace. — Os
estivadores têm tido pouco trabalho, e muitas famílias estão
passando necessidade. Nos últimos dez dias só chegaram
um petroleiro japonês, um cargueiro liberiano, e foi só.
— Isto não quer dizer muita coisa — replicou Denise.
— Tanto um, como outro poderiam ter trazido a carga.
Amir levantou a mão para um aparte.
— Senhorita, há uma possibilidade de eles terem
descarregado à noite. Existem dúzias de lugares na costa
onde um barco pequeno pode atracar. Além do mais, todos
sabem que não navegamos durante a noite. Nenhum dono
de barco do porto de Basrah navega de noite, por tradição e

— 55 —
costume. Sabendo disso, eles têm o tempo que quiserem e
toda a tranquilidade, enquanto estão protegidos pela
escuridão.
Denise concordou imediatamente com a observação de
Amir.
— Claro! Para que descarregar no porto, onde sempre
poderia haver complicações? Há muitas praias desertas por
aí.
— Obrigado por tudo, Amir — falou Horace. — Você,
como sempre, nos ajudou muito.
— Espero ajudar mais quando chegar a hora. senhor
Horace — retrucou o estivador.
Denise e Horace saíram do porto, voltando para o jipe.
— Já sabe o que vamos fazer hoje à noite, não, Denise?
— perguntou ele.
— Acho que sim. Vamos passear de barco, não é?
— Usaremos o barco de Zephir — explicou Horace. —
Sairemos com as luzes apagadas e ficaremos ao largo,
esperando. Qualquer um que navega à noite em Basrah, é
um forte suspeito. Só temos de segui-lo com as luzes
apagadas.

— 56 —
CAPÍTULO SÉTIMO

Num barco à noite

Estavam afastados da costa há mais de duas horas. Era


quase meia-noite; o barco tinha toda as luzes apagadas e
vagava ao sabor das correntes suaves daquela parte do
litoral. As luzes de Basrah estavam bem visíveis e no barco
todos se esforçavam para manter os sentidos alertas. A
qualquer momento, esperavam sinal de algum barco
suspeito, embora também houvesse a possibilidade de
ninguém aparecer.
Denise estava na proa, afastada do pessoal do convés,
sentada na amurada ao lado de Horace.
— Há quanto tempo você trabalha para a CIA? —
perguntou a jovem.
—Há vários anos. Por quê? — replicou Horace.
— Você já deve ter participado de muitas missões mais
perigosas do que esta. Já devem ter tentado matá-lo muitas
vezes e você já deve ter matado muitas...
— Sim, muitas.
— Nunca achou que esta vida não é a melhor que
poderia ter?
— Hum... algumas vezes, sim, mas isso acontece com
qualquer outra profissão — respondeu ele, com o olhar
distante.

— 57 —
— E você já esteve apaixonado? — perguntou ela, de
repente.
Horace olhou-a firmemente nos olhos.
— Claro... — respondeu ele, vagamente, desejoso de
saber aonde ela queria chegar com aquelas perguntas.
— E largaria tudo por amor? — continuou Denise.
— Se fosse necessário, sim. Por quê?
— Porque você me desconcerta — explicou ela. —
Sempre imaginei um agente como um homem frio e
calculista, forte, musculoso ou então um deus do sexo quase
frígido, que usasse o corpo maquinalmente, uma víbora;
mas naquela noite em que fizemos amor, constatei que eu
estava completamente enganada.
— Você pensava então que eu era uma víbora? —
perguntou Horace sorrindo.
Denise confirmou com a cabeça. Olhou os olhos de
Kirkpatrick com atenção, esperando que o agente acabasse
por desviá-los. Mas ele manteve o olhar com a mesma
intensidade.
— Você é uma mulher muito sensual, Denise — disse
ele, quebrando o silêncio. — Desde a primeira vez que a vi
lá no armazém, achei isso.
— Você acha que eu me pareço com uma víbora?
Até um homem como Horace ruboriza-se e fica sem
jeito, quando se defronta com uma mulher como Denise.
— Não, nunca pensei isso. Aliás, nunca pensei isso de
nenhuma das agentes femininas que trabalharam comigo
nas missões para a CIA — foi a resposta de Horace.
— Devem ter sido várias, não?
Horace fez que sim com a cabeça.
Denise ficou com os olhos fixos nos de Horace.
Estavam bastante próximos um do outro.

— 58 —
Quando a agente falou, sua voz saiu rouca e quente,
como se estivesse vindo do fundo do seu corpo.
— Vou fazê-lo esquecer por completo de todas as
demais agentes que passaram por suas mãos, Horace.
— Você já conseguiu isso aquele dia na mesquita —
replicou o agente fora de série da CIA.
— Obrigada. Mas não fiquei satisfeita só com aquela
sessão... agora, teremos a continuação dela...
Ainda não tinha completado a frase e sua mão já
deslizava pelo peito de Kirkpatrick. Denise colou seu corpo
no dele, sem deixar de olhá-lo no fundo e esperou que as
temperaturas dos corpos se encontrassem. Sua boca sensual
aproximou-se lentamente dos lábios do rapaz. As mãos dele
desceram pelas suas costas, apertando-a contra si.
A agente 77A gemeu nos braços de Horace. Apertou
ainda mais seus braços em torno dele. A mão de Kirkpatrick
deixou suas costas e Denise pressentiu o que viria. Afastou
um instante o corpo colado ao dele para que a mão do rapaz
subisse pela cintura até seus seios. Denise gemeu alto e
colou sua cintura na cintura do homem, quando uma voz
interrompeu tudo bruscamente:
— Horace, lá está!
Separaram-se, arfantes e frustrados, sem saber que
atitude tomar. Horace olhou para o marinheiro que lhe
falava do convés, e depois encarou Denise Michele, as
mãos ainda nos ombros dela. Retirou-as e procurou a
compreensão da agente.
Denise respirou fundo e estende t a mão afagando seu
rosto vagarosamente.
— Azar. Temos de pegar a NAZ. Depois, nos amamos
— disse ela.
Horace deu um sorriso cúmplice.
— Certo.

— 59 —
Desceram da proa num salto para o convés, onde os
marinheiros apontavam para uma luz que deslizava
lentamente sobre a superfície do oceano.
Observaram em silêncio por alguns segundos e Horace
disse:
— Deve ser esse mesmo. Pela posição das luzes e a
distância entre elas, podemos ter uma idéia aproximada do
tamanho do barco. Ele é bem pequeno, um sombrouk ou um
shual e pescadores de pérolas jamais mergulham à noite.
Não veriam nem o fundo do mar, quanto mais as pérolas.
Um sombrouk só veleja quando o sol está a pino e ilumina
a água. Deve ser este mesmo.
Horace deu ordens para seguirem o barco,
recomendando a todos que, dali em diante, não era
permitido a menor luz, nem cigarros.
Sob o véu de estrelas da noite nevoenta, seguiram o
barco suspeito por mais de uma hora. Ele entrou na Baía de
Basrah, mas passou pelo porto, continuando golfo acima.
Não ia numa velocidade rápida; parecia não estar com
pressa. Denise e Horace não podiam ver o costado do barco,
pois as luzes em terra haviam desaparecido. Estavam em
algum ponto desabitado da costa.
Continuaram mais alguns minutos até que outras luzes
apareceram, à frente do barco suspeito. Estavam chegando
perto da costa, em algum lugar combinado, onde
provavelmente o barco descarregaria a sua carga.
— Vamos um pouco mais para perto dele, só para nos
certificarmos de que ele vai descarregar naquelas luzes
mesmo — sugeriu Denise.
— Certo — concordou Horace, dando uma série de
ordens à tripulação.
Continuaram por mais uma centena de metros até que
um dos marinheiros avisou:

— 60 —
— É melhor irmos embora, antes que amanheça e nos
vejam por aqui.
Denise pensou rápido e chamou Horace.
— Quero que você me deixe em algum ponto da costa
que dê para ir a pé até o ponto onde eles atracaram. É lá que
estão escondidos. Ê uma boa chance para saber tudo o que
está acontecendo e o que planejam.
Horace olhou-a, preocupado.
— Tenho medo por você, Denise — disse ele. — Vou
contar-lhe uma coisa: antes de virmos para cá, nossos
amigos da OLB avisaram que um grande carregamento de
armas que esperavam para derrubar o sheik chegou.
Poderão desfechá-la por esses dias, e eles me querem lá para
poder orientá-los no que me for possível. Poderão inverter
a sorte amarga do povo de Basrah, em poucos dias.
Denise olhou Horace com admiração e disse:
— Espero que dê tudo certo. Não se preocupe por mim.
Eu sei me cuidar. Mas tome cuidado com o sheik. Ele pode
ser mais perigoso do que aparenta, especialmente se estiver
ao lado da NAZ.

***

Em meia hora, mal o dia começava a dar sinais de que


ia clarear, o barco aproximou-se da costa rochosa. Um
pequeno bote levaria Denise até a terra firme.
Horace ajudou-a a descer ao bote e prometeu que
mandaria gente da OLB para o esconderijo da NAZ assim
que chegasse em Basrah.
Em pouco tempo, o bote voltava e Denise caminhava
sozinha, acompanhando a costa, na direção das luzes onde
o barco suspeito atracara.

— 61 —
O dia amanhecera, revelando a vegetação árida e
rasteira do deserto. O vento soprava, levantando a terra
solta, e Denise caminhava atenta a qualquer movimento ou
coisa estranha. Caminhou por mais de meia hora, até chegar
a uma elevação e divisar lá embaixo o navio suspeito,
atracado num pequeno cais perto de três barracões de teto
de zinco. Ela percebeu algumas pessoas, que lhe pareceram
guardas armados, andando entre o navio e os barracões.
Podia ver que, afora alguns árabes, mais da metade deles
vestiam-se à maneira ocidental.
Denise não tinha dúvida de que descobrira o
esconderijo da NAZ. Precisava saber o que faziam ali, sem
deixar que a agarrassem. Se fosse apanhada, eles a
matariam sem dúvida alguma. Viu que poderia avançar por
trás das pedras. Quando já tinha percorrido mais da metade
do caminho a sorte a ajudou.
O barco estava partindo e muitos dos guardas entraram
nele. Denise permaneceu oculta atrás de uma pedra até o
barco levantar as amarras e partir. Contou quatro homens
no cais, acenando para os que partiam, ótimo, agora seria
mais fácil.
Numa corrida só, avançou até ficar a uns cem metros
dos barracões de zinco. Três dos homens haviam entrado, e
um estava no pequeno cais de madeira, mexendo no
encordoamento de um sistema de roldanas que servia para
levantar a carga. O caminho estava livre. Levantou-se e
correu até alcançar o último dos barracões, ocultando-se
atrás das paredes.
Estava suada e pouco cansada, mais pelas corridas do
que pela longa caminhada. O que tinha de fazer agora era
bem claro. Entrar nos barracões e ver o que planejavam. Se
tivesse sorte, poderia descobrir tudo o que precisava e ir
embora sem que ninguém a visse. Encontraria os homens

— 62 —
de Horace no caminho ou poderia ficar esperando numa
praia qualquer.
Achou graça na própria idéia e decidiu agir rápido.
Procurou uma janela no barracão, encontrando-a no lado
oposto ao que estava. Antes de entrar, precisava saber se
havia alguém lá dentro. Certificou de que o homem no cais
continuava entretido com as cordas das roldanas e correu
rápido até a janela, dando a volta na construção. Levantou
a cabeça e olhou para dentro.
Não havia ninguém. O barracão não tinha nenhum
móvel, nem assoalho. Era usado somente para proteger a
carga e armazená-la. Vários caixotes iguais ao que vira no
depósito de material de construção, do exército em Basrah,
estavam lá dentro. Com muita calma, caminhou até a porta
e abriu-a. Entrou e fechou-a de novo.
O primeiro caixote cujas tábuas levantou, continha
vários aparelhos estranhos que ela desconhecia. Pegou um
nas mãos. Era uma máquina estranha, com muitos fios. Aos
poucos, foi se dando conta do que era. Um fio aqui, um
detonador ali, um pequeno circuito e entendeu tudo: uma
bomba incendiária. Uma das metades de sua espessura
estava cheia de um líquido que cheirava a querosene. Claro
que não era querosene: na certa, era algum outro líquido
especial de combustão imediata e que pudesse ficar
queimando por muito tempo. Uma vez detonada, a bomba
funcionaria como uma tocha acesa por várias horas, sem
apagar-se.
Guardou o aparelho no caixote, depois de embrulhá-lo
como estava. Olhou pela janela de novo e saiu do barracão,
fechando a porta atrás de si sem barulho.
Foi para o segundo, procurando logo a janela. Também
não havia ninguém lá dentro. Exultou com a sua sorte.
Entrou no barracão e foi logo abrindo um dos caixotes.

— 63 —
Achou a mesma máquina que no anterior. Abriu um
segundo e achou-as de novo: mais bombas incendiárias.
Decidiu abrir um terceiro para certificar-se, enquanto sua
mente trabalhava procurando a razão da presença de tantas
caixas de bombas incendiárias. Estava de costas para a
porta, desembrulhando um dos aparelhos e não viu os
guardas entrarem.
— Não se mexa ou lhe passo fogo! — disse uma voz.
A voz paralisou-se instantaneamente. Voltou-se.
devagar e viu dois homens louros com armas apontadas.
— Não banque a engraçadinha. Já estávamos
preparados para a possibilidade de você aparecer por aqui.
Desde que sumiu do hotel, achamos que estava planejando
alguma coisa, Fraulein Denise Michele.
Denise reconheceu um dos alemães que estavam no
restaurante, na noite em que tentaram matá-la.
— Como chegou aqui? Onde estão os seus amigos? —
indagou ele.
Denise continuou em silêncio, olhando para as armas e
para os alemães.
— Sabe, senhorita Michele, nós não gostamos de
bisbilhoteiras, especialmente da CIA, mesmo que sejam
bonitas como você. Costumamos acabar com elas sem
muitas cerimônias. Portanto, acho melhor falar logo.
— Vocês estão enrolados. Todos já sabem deste lugar.
Vim de barco e os reforços vêm logo — disse Denise.
— Você pode estar mentindo e pode estar falando a
verdade. De qualquer maneira, está destinada a perder,
minha cara, pois nós já vamos sair daqui. Antes mesmo dos
seus amiguinhos chegarem. Temos algo a fazer neste país
imundo: acabar com ele.
Denise perguntou à queima-roupa:
— O que pretendem incendiar com tantas bombas?

— 64 —
Os homens riram.
— Acho que não faz mal que saiba, uma vez que já viu
as bombas e vai morrer de qualquer jeito. O país inteiro,
minha cara! O país inteiro!
Todos seus poços de petróleo vão arder ao mesmo
tempo! Uma gigantesca fogueira, que vai provocar a maior
crise de energia do Universo e talvez, com um pouco de
sorte, o quase fim do mundo!

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CAPÍTULO OITAVO

Nas garras da NAZ

À primeira vista, parece impossível que possa haver


animais no deserto, mas, mesmo na selvagem desolação
arenosa, existe vida. Serpentes e lagartos escondem-se entre
o saibro e as pequenas pedras, assumindo a mesma cor do
cenário amarelo pardo. As espécies de serpentes são
numerosas, quase todas venenosas, mas nenhuma tão
perigosa e mortífera como a víbora de chifres. Ela esconde
a metade do seu tamanho na areia morna e fica praticamente
invisível, pronta para dar o bote mortal.
É no deserto também que habita uma das mais perigosas
criaturas que o mundo possui: o lobo, que cobra um pesado
imposto sobre os rebanhos dos beduínos, atrás das dunas de
areia e das colinas baixas.
Denise estava esperando-os: a víbora e o lobo.
Completamente amarrada na terra amarela do deserto, com
os braços e as pernas abertos, presos a quatro estacas
cravadas profundamente no solo, com amarras de couro que
dificultavam sua circulação, cujas extremidades já estavam
vermelhas.
Os homens da NAZ a tinham largado ali, para que as
cobras ou os lobos a comessem viva, se o sol do deserto não
acabasse com ela.

— 66 —
Já estava ali há quase uma hora. Pelos seus cálculos,
também deveriam ser nove horas da manhã. Agora
compreendia porque a pele dos árabes era tão escura e
grossa: era a única defesa para suportar a inclemência do
sol abrasador.
Seu rosto estava cheio de poeira, os lábios secos.
Procurava não olhar para o sol, mantendo os olhos
fechados, mas, mesmo assim, a luminosidade já estava
perturbando sua vista. Sentia a cabeça latejar e começava
também a sentir sede.
Não sabia quanto tempo poderia aguentar assim. Não
tinha a metade da resistência de um beduíno e não
conseguia mover um milímetro os pulsos presos às fortes
amarras de couro.
Abriu os olhos para ver o guarda que a olhava, sentado
numa pedra, o turbante branco protegendo-o do sol. A
metralhadora estava -sobre uma pedra e ele não parecia
preocupar-se com ela. Por experiência própria, sabia que a
mulher não ia suportar mais do que duas ou três horas
naquele sol. Começaria a desmaiar assim que a água do seu
corpo estivesse quase seca e a sede fosse insuportável. Sua
pele ia começar a ficar vermelha até explodir em bolhas por
todo o corpo. Uma morte horrível e sofrida para uma mulher
tão bonita.
O guarda levantou-se e caminhou até a agente, que
mantinha os olhos fechados. Olhou o corpo estendido e
sentiu desejo de aproveitar-se da si-tuação.
Denise pensava rápido. Os homens da NAZ haviam
partido para sabotar os poços de petróleo de Basrah. As
bombas seriam colocadas e acionadas por um controle
remoto que estava no hotel, com o chefe da operação da
organização nazista. Apenas um toque no botão e todos os
poços arderiam em chamas em poucos minutos.

— 67 —
Viu-os quando saíram. Estavam confiantes e alegres,
positivamente certos de que a operação ia ser um sucesso.
Antes de embarcarem num veloz iate, que não tinha nada
de árabe, ainda arrumaram tempo para confessar o atentado
à sua vida no restaurante do hotel.
— Você escapou de uma, mas desta vez não tem
chance, boneca — haviam revelado. — Vai arder até a
morte. Ê o que dá meter-se em coisas perigosas como esta.
Denise argumentara com eles:
— Vocês acham mesmo que vão conseguir provocar
uma nova guerra mundial? Não há dúvida que as potências
vão ficar em apuros com a falta de pet óleo, mas daí para
iniciarem uma guerra é um longo caminho. Não são tão
estúpidas assim. Sabem que, se iniciarem um novo conflito
mundial, não vai sobrar ninguém na face do planeta.
— É claro que vão lutar. Nós vamos cuidar bem disso.
Nós e o nosso amigo sheik e o seu fiel vizir — replicaram.
Os homens riram e trocaram olhares cúmplices.
Agora, amarrada às quatro estacas, o sol queimando-lhe
o corpo, Denise não tinha mais dúvidas de que o sheik
estava combinado com a NAZ. Com o sheik denunciando à
opinião pública internacional a participação de uma das
grandes potências no atentado que arruinaria o país, seria
muito difícil para o país acusado provar a sua inocência.
Agora, o mais importante era resistir ao sol inclemente
até a chegada dos homens que Horace prometera mandar.
Mas isso parecia muito difícil.
Com os olhos fechados, Denise pensava em Horace e
no líder da OLB, preparando a revolução, sem saberem que
tudo poderia estar perdido se a NAZ agisse primeiro. Não
haveria mais o que salvar em Basrah. O país, sem as divisas
do petróleo, seria totalmente arruinado e o povo
mergulharia numa pobreza ainda maior.

— 68 —
O guarda que vigiava Denise tinha agora outras
intenções, além de deixá-la morrer. Olhava o corpo
amarrado na areia, os braços e as pernas abertos, e
imaginava coisas.
Denise pressentiu a presença dele a seu lado e abriu os
olhos.
— Acho que antes de morrer você ainda pode ser útil
para alguma coisa — disse o beduíno, com os olhos fixos
no corpo de Denise.
A primeira impressão que Denise teve, quando o viu
sacar o punhal, era de que iria morrer.
O beduíno aproximou-se, fitando os olhos da agente
com um sorriso nos lábios. Ajoelhou-se ao seu lado e rasgou
com a faca a fazenda de sua blusa. Lentamente, foi rasgando
o tecido até livrar-se completamente dele. Enfiou a faca
entre os seios e rasgou-lhe o sutiã. Arrancou a peça e
contemplou os seios redondos e a expressão nervosa da
agente. Sua mão agarrou um deles e o apertou. Denise
gemeu, o corpo inteiro contraído e tenso.
O beduíno levantou-se, nervoso. Olhou Denise de cima
e excitou-se ainda mais. Enfiou a ponta da faca afiadíssima
na cintura da calça da agente 77A e, com um movimento
brusco, rasgou-a.
Denise sabia agora o que estava por acontecer e não
podia fazer absolutamente nada. Fez um esforço
desesperado para livrar-se das amarras de couro, mas só
conseguiu ferir ainda mais os pulsos vermelhos e esfolados.
— Fique quieta e procure cooperar — advertiu o
beduíno. — Não quero machucá-la.
Com o zíper da calça Lee arrancado, ele ajoelhou-se
novamente e puxou o tecido sujo de poeira para os pés da
moça. A visão das pernas morenas, as coxas macias e a
calcinha preta o deixaram inteiramente alucinado.

— 69 —
Por um momento, o homem foi incapaz de fazer
qualquer coisa. Estava ajoelhado ao lado de Denise apenas
de calcinhas, à sua mercê. Podia sentir o cheiro perfumado
da carne da mulher, dos seios e das coxas.
Trêmulo de excitação, deixou sua mão pousar no corpo
suado, acariciando-lhe as pernas. Gotas de suor caíam de
sua testa e ele se sentia excitado e nervoso como nunca tinha
acontecido antes.
Enfiou a mão na calcinha e puxou-a para baixo.
Denise reagia a tudo, crispando o corpo, endurecendo-
se e procurando fechar as pernas o mais possível. As
carícias do beduíno provocavam-lhe ondas de repulsa que
lhe subiam pela garganta.
O homem levantou-se de repente e olhou-a,
transtornado. Suas mãos limparam o suor da testa e seus
olhos fixaram-se no corpo nu.
Uma lufada de vento e um barulho surdo fez com que
ele se virasse, mas não rápido suficientemente para livrar-
se da confusão de asas e apenas que se abateu sobre ele.
Estarrecida, Denise observou o beduíno rolar na areia,
lutando para livrar-se de um falcão furioso que lhe bicava o
rosto.
O árabe levantou-se gritando e dando socos a esmo,
procurando atingir o falcão, mas este continuava em cima
dele, bicando-o furiosamente. Caminhou desequilibrado
por alguns metros, sempre lutando com a ave, até que um
estampido cruzou os ares e derrubou-o na poeira. Um filete
de sangue começou a sair de seu peito, o falcão ainda
bicando seu rosto.
Olhando para o lugar de onde tinha partido o tiro,
Denise reparou no grupo de homens montados em camelos
aproximando-se. Os homens pararam a pouca distância de

— 70 —
onde estava, e dois deles pularam de suas montarias. Denise
reconheceu os dois, eram Horace e Zephir.
Horace aproximou-se do corpo amarrado e jogou uma
manta em cima da nudez da agente.
— Ainda bem que vocês chegaram — disse ela,
bebendo com sofreguidão a água que Zephir lhe dera, num
odre de couro. Horace cortou as amarras que prendiam
Denise com uma faca e perguntou:
— Ele a maltratou?
— Não teve tempo. Mais um minuto e conseguiria —
explicou ela.
Um árabe, que havia desmontado do camelo, correu até
o falcão, ainda sobre o beduíno morto, seu peito coberto de
sangue e já sem alguns pedaços de carne. O sangue quente
excitava mais o falcão e suas asas agitavam-se enquanto ele
beliscava o corpo do beduíno.
Foi seguro pelas asas e imediatamente imobilizou-se. O
homem que o segurava era seu tratador e o pássaro o
obedecia cegamente. Acomodou-se no braço estendido do
árabe e ficou olhando para a frente, com o olhar penetrante
e altivo.
Zephir viu Denise olhando para o pássaro fascinada, e
explicou:
— Nós o usamos nas caçadas no deserto. Eles
descobrem os animais mais escondidos na areia com seus
olhos penetrantes.
Denise Michele perguntou:
— Como está tudo na cidade? E a revolução?
— A revolução está prestes a estourar. Toda a OLB já
está clandestinamente de prontidão, esperando o sinal para
tomar os pontos chaves da cidade, em poucas horas.
Recebemos uma grande quantidade de armas, suficientes
para armar nosso pequeno exército.

— 71 —
A agente replicou rápida e nervosamente:
— Não vai adiantar nada se a NAZ agir primeiro! Eles
vão explodir todos os poços de petróleo com bombas
incendiárias! O próprio sheik vai permitir.
Zephir ficou sem palavras. Seus olhos crivaram-se no
rosto de Denise, com uma expressão de estupor na face.
— Mas como? Vão arruinar o país inteiro? Vão arruinar
um povo para conseguirem seus objetivos criminosos?
Como pode o sheik permitir uma coisa dessas? O que é que
pode ganhar com isso?
— Não sei — disse Denise. — Na certa uma
compensação bem grande.
Denise recobrava aos poucos sua vitalidade. Sem
desvencilhar-se da manta que Horace lhe dera, vestiu sua
calça rapidamente e decidiu:
— Temos que ir embora daqui correndo, e determos a
NAZ. Eles estão no hotel. Tudo funcionará por controle
remoto. Se não os pegarmos antes, vão mandar o país pelos
ares.
— Há quanto tempo saíram daqui?
— Mais ou menos umas três horas. Acha que
conseguiremos chegar a tempo, viajando nos camelos? —
perguntou Denise.
— Ê claro que eles vão chegar antes. Temos de rezar
para que se atrasem com a explosão. Vamos fazer esses
camelos andarem como nunca.
Denise pulou por cima do camelo, ajeitando-se entre as
corcovas. Horace montou o mesmo animal, equilibrando-se
como pôde. Saíram, deixando o corpo do beduíno ao sol,
como presente para os abutres.

***

— 72 —
O líder da OLB estava no quartel-general da
organização, no discreto armazém abandonado, onde
Denise o conhecera. Junto com ele estavam dezenas de
pessoas. Todas pareciam atarefadíssimas, mas os afazeres
eram quase sempre os mesmos: carregar os pentes das
metralhadoras, pistolas, bazucas, metralhadoras pesadas e
distribuir granadas. Todos se preparavam para a luta com
ardor e confiança. O homem tinha todos sob suas ordens,
unidos para derrubar a tirania que oprimia o país.
Um vigia veio correndo avisar que Denise, Horace e
Zephir chegavam. O líder saiu ao encontro deles no velho
jipe. Na entrada da cidade encontraram-se. O homem mal
esperou Denise descer do animal para abraçá-la, mas logo
viu que a agente estava preocupadíssima.
— A NAZ vai explodir todos os poços de petróleo de
Basrah! — exclamou ela. — Todos! Há bombas
incendiárias em cada poço de Basrah. Vão acioná-las a
qualquer momento!
Tomado de surpresa, o líder da OLB ficou imóvel,
tentando aceitar a idéia.
— Mas para quê? — perguntou ele. — O que vão
ganhar com isso? Só vão fazer o país caminhar ainda mais
para a miséria!
— Eles não se importam com o Dais! — respondeu
Horace. — Estão todos combinados com o sheik. Como
chefe da nação, Al Moffadah vai acusar uma das potências
mundiais como responsável pela sabotagem. ' Vai fazer a
coisa como se tudo fosse um ato hostil ao governo de
Basrah mas com o propósito de privar a outra potência do
petróleo. Querem que os mais poderosos se enfrentem.
Estão atrás de uma guerra mundial! Uma guerra atômica.
O líder da OLB estava perplexo e não conseguia admitir
tudo aquilo.

— 73 —
— Mas isso é insano! Não pode ser verdade! Ninguém
iria acreditar numa loucura dessas!
Horace agarrou o homem pelo braço e empurrou-o para
o jipe.
— Agora não é hora de discutirmos isso. Precisamos
evitar que aconteça. Eles estão no hotel. Temos de pegá-los
rapidamente!
— Não entendo AI Moffadah — murmurou o árabe,
perplexo. — O que pode ganhar com a ruína de quem fez a
sua fortuna?
— Não sei. Na certa, vão lhe dar muito dinheiro, outras
fontes de renda, ou então ele realmente não se importa nada
com o povo e enlouqueceu de vez. Mas não é hora para
pensar! Vamos!
Entraram todos no jipe. Zephir, o líder da OLB, Horace
e Denise. A agente ainda avisou a um dos homens que a
tinham acompanhado desde o esconderijo da NAZ:
— Corra ao armazém e peça a todos para item para o
hotel. Conte o que aconteceu.
Amin Said retomou seu lugar de chefe:
— Avise a todos que a revolução já começou. Vamos
cercar o hotel e acabar com esses nazistas fanáticos. Mande
reforços para lá. Depois que os tivermos na mão, dali
mesmo partiremos para o palácio. Chegou a hora do traidor
do povo pagar por seus crimes.

— 74 —
CAPÍTULO NONO

A Revolução

Quando chegaram ao hotel, tiveram uma surpresa


desagradável: o lugar estava cheio de guardas do sheik.
Estavam logo na entrada, controlando o movimento da
portaria.
— Espero que não tenha mais dúvidas sobre a
participação do sheik nos projetos da NAZ, agora, Amin
Said — disse Horace.
— Um linchamento ainda seria pouco para aquele
miserável — foi o comentário de Said.
Pararam o jipe na calçada oposta e ficaram observando
os guardas na porta.
— Quando os nossos chegarem acabaremos com eles.
— Não podemos esperar — replicou Horace.
— Mas também não podemos entrar — disse Zephir.
Denise pensou um pouco e respondeu:
— Não podemos entrar pela porta, mas...
Horace compreendeu na hora.
— Claro! As janelas!
— Certo. Vamos dar uma volta na quadra, sem
despertar suspeitas.
O jipe arrancou e dobrou na esquina, contornando o
prédio do hotel, que ocupava a quadra inteira. Nos fundos

— 75 —
da entrada principal, acharam o que procuravam: as
varandas das suítes de luxo davam para a rua. Eram bastante
altas.
Horace estudou a situação e teve a única idéia possível.
— Paramos o jipe embaixo da suíte e, de cima da
capota, subiremos para a varanda, OK?
— Certo.
Zephir parou o jipe embaixo das sacadas, encostado à
parede do hotel e desligou o motor. Esperaram o
movimento da rua diminuir um pouco e deram início ao
ataque.
Horace foi o primeiro. Com um salto ágil, subiu para a
capota do jipe e, estendendo as mãos, alcançou as saliências
da sacada. Para o seu preparo de agente da CIA foi fácil
erguer-se até galgar o parapeito e pular para a sacada.
Denise o seguiu com o mesmo desembaraço e Zephir e
Amin Said vieram logo atrás. Com cuidado, Horace forçou
a porta da sacada e entrou na suíte. Felizmente não havia
ninguém.
O quarto estava deserto e bem arrumado, esperando os
hóspedes.
— Temos de ter cuidado, agora — alertou o agente fora
de série da CIA.
Horace puxou a sua arma e entregou uma outra pistola
a Denise. Zephir empunhou uma Lugger e conferiu o
número de balas. Encostaram-se à porta, aguardaram em
silêncio e, depois de alguns segundos, abriram-na com
cuidado.
O corredor estava vazio. Agora tinham de descobrir o
quarto onde estavam os homens da NAZ. Não poderiam
simplesmente abrir todas as portas e entrar atirando. Horace
olhou para Denise, buscando ajuda. Os quatro ficaram

— 76 —
parados no corredor, pensando numa solução, quando
ouviram barulho de gente subindo a escada.
— Rápido, vamos entrar de novo na suíte — sugeriu
Horace.
Encostaram-se atrás da porta, dentro do quarto. Quando
o ruído dos passos passou pelo quarto, Horace entreabriu a
porta, o suficiente para ver quem estava do outro lado, e viu
um europeu entrando no último quarto à esquerda, no fim
do corredor.
— Você o viu? — perguntou, ansioso, o líder
revolucionário.
— Vi. O homem entrou no último quarto à esquerda —
revelou Horace.
— Acha que era ele?
— É bem provável. Era alto e louro. Tem todo o tipo de
ser um agente da NAZ.
O agente 77Z fechou a porta e olhou para os seus
companheiros.
— Vamos invadir o quarto? — propôs.
Denise interrogou-o com os olhos.
— E se não forem eles? — perguntou, preocupada.
— Azar. É a nossa única chance. Não podemos ir até a
portaria e perguntar em que quarto eles estão.
A resposta objetiva de Horace não deu margem a
qualquer tipo de contestação. Saíram do quarto novamente
e cruzaram em silêncio o comprido corredor, até a porta da
suíte 28, no fim, à esquerda. Com a arma na mão, Horace
colou o ouvido na porta. O seu rosto iluminou-se.
— É aqui mesmo. Estão falando em alemão —
informou ele.
— Quantos devem ser? — indagou Amin Said.
Horace colocou novamente o ouvido junto à porta e
ficou escutando por alguns segundos.

— 77 —
— Não sei dizer com certeza — disse ele, virando-se
para os outros. — Mas parece que são mais de três.
— Vamos entrar. Prontos? — disse Amin Said e ainda
avisou: — Atenção para a destruição dos controles das
bombas. Ê mais importante que evitemos as detonações do
que lutarmos para salvar nossos próprios pescoços.
Pararam os quatro e entreolharam-se. Estavam prestes
a entrar no quarto. Sabiam bem que não podiam falhar. Nos
olhos de cada um encontraram o apoio de que precisavam.
Horace afastou-se da porta e disse, depois de olhá-la por
alguns segundos:
— Bem, vamos lá!
Levantou o pé e veio de encontro à porta, com todo o
peso de seu corpo no impulso. Um único impacto foi mais
do que suficiente. A porta do hotel escancarou-se como se
fosse de palha, abrindo caminho para os quatro amigos.
Horace caiu de joelhos dentro da peça. Denise, Zephir
e Amin Said jogaram-se pela abertura, caindo deitados no
solo. Três homens estavam na suíte, sentados em volta de
uma mesa, onde algo parecido com um rádio ou um radar
monopolizava-lhes a atenção. Estavam todos concentrados
no aparelho, que Horace e Denise entenderam logo o que
era.
Tomados de surpresa, os homens hesitaram em reagir,
dando tempo aos quatro amigos para vislumbrarem tudo no
quarto. O primeiro a tentar alguma coisa foi o homem que
estava mais próximo da mesa. Sua mão adiantou-se para os
controles, enquanto Horace gritava:
— Não!
O agente da NAZ não teve tempo de fazer o que
tencionava, pois a pistola do agente fora de série da CIA
falou por ele. Atingido em pleno peito, pelo tiro disparado
de baixo para cima, o nazista rodopiou, como se tivesse

— 78 —
levado um empurrão fortíssimo, e foi estatelar-se iunto à
parede oposta, após derrubar duas cadeiras em sua
trajetória.
Amin Said e Zephir também não perderam tempo. Um
dos homens da mesa tentara sacar a pistola, mas os dois
árabes já tinham percebido a sua intenção e abriram fogo.
O fogo cruzado atingiu o alemão de curta distância,
jogando-o para trás com a mesma violência do tiro de
Horace.
O outro homem recuara instintivamente, atrapalhando-
se com a cadeira atrás dele. Tentou reagir, empunhando
uma pistola que trazia enfiada na cintura da calça, mas
Denise não lhe deu tempo. Num salto ágil, jogou-se sobre o
europeu, acertando-lhe a cabeça com a coronha da arma.
Foi quando um quarto personagem entrou em cena, de
arma em punho, na porta que comunicava a pequena sala
com o quarto. Os sentidos despertos pelo barulho, o homem
já surgiu na porta disparando.
O primeiro que viu foi Amin Said, e disparou nele duas
vezes. Um dos tiros cravou-se no chão da peça e o segundo
acertou o líder da OLB no braço direito, obrigando-o a
largar a arma. Mas não teve tempo de atirar de novo. Zephir
e Denise responderam prontamente: apertaram o gatilho
diversas vezes e o corpo do alemão foi crivado, junto com
uma expressão de espanto no seu rosto. Ele desabou de
bruços no solo.
— Amin Said! — gritou Denise para o companheiro
ferido.
Zephir entrou na peça de onde o quarto homem surgira,
mas não encontrou mais ninguém.
— Foi só de raspão — disse Amin Said, tranquilizando
seus companheiros.

— 79 —
— É melhor nos prepararmos para o pior — disse o
agente 77Z. — Os guardas do sheik devem ter ouvido os
tiros. Eles já devem estar vindo para cá.
— As bombas! — lembrou Amin Said, num
sobressalto.
Viraram-se os dois imediatamente. Denise aproximou-
se da mesa onde haviam estado os três alemães. O que
supuseram ser um rádio, era um gigantesco painel de
controle. Por controle remoto, os mecanismos das bombas
incendiárias, distribuídas pelos poços de petróleo do país,
seriam acionados e, em poucos segundos, explodiriam. Ao
alcançar o petróleo das torres, o incêndio seria incontrolável
e devastador.
Denise Michele viu a pequena chave que ligava os
controles. Bastava baixá-la para que as detonações não mais
pudessem ser impedidas.
— O que vamos fazer com isso? — indagou Denise,
indecisa.
Amin Said respondeu, empunhando a pistola:
— Isso...
Apontou a arma para o painel, mas Horace o
interrompeu:
— Guarde as balas para os guardas do sheik e para a sua
revolução. Daqui a pouco os guardas estarão subindo as
escadas ao nosso encontro.
Said baixou a pistola. Horace aproximou-se dos
controles. Apanhou uma pesada cadeira da mobília luxuosa
da suíte, levantou-a à altura da cabeça e desceu-a com toda
a força sobre os controles, amassando o alumínio e
provocando faíscas. Golpeou de novo com toda força e
pequenos rolos de fumaça e mais faíscas começaram a sair
do aparelho.

— 80 —
Denise, Amin Said e Horace contemplaram o feito com
orgulho.
— Pronto. Esse controle não aciona mais nada — disse
Amin.
Zephir entrou na sala com afobação, a arma na mão.
— Estamos perdidos. Estão cercando todo o hotel. São
muitos. Os guardas do sheik não vão sossegar enquanto não
formos apanhados.
— Calma. Deixe que eles venham — disse Amin,
tranquilo.
Horace correu até a porta e ordenou:
— Ajudem a bloquear essa droga com todos os móveis
que encontrarem por aí. Vamos barrar a entrada deles, até
os companheiros de vocês chegarem.
De encontro à porta, foram colocados um sofá, três
poltronas e uma gigantesca penteadeira, que Zephir
empurrara desde o quarto. No exato momento em que
terminavam a barricada, ouviram as primeiras pancadas na
porta.
— Ao solo! — exclamou Horace, pressentindo o
perigo.
Ainda tiveram tempo de evitar a longa rajada que furou
a porta, deitando-se no chão e rastejando logo para os lados
da peça onde não poderiam ser atingidos pelos tiros que se
cravaram no outro extremo da sala.
— Fogo neles! — ordenou Amin Said, furioso.
Fizeram fogo cerrado, com suas pistolas furando a porta
e provocando gritos do outro lado.
Os guardas do sheik precisaram abriga^-se. Dois corpos
já jaziam no chão do corredor.
Zephir deu um grito de alarme:
— Cuidado, eles estão vindo pela janela.

— 81 —
Os quatro arrastaram-se pelo chão até ver alguns
guardas procurando subir na sacada, do mesmo modo como
eles tinham feito. Mal suas cabeças chegaram no lado de
fora, uma fuzilaria os recebeu, partindo dos guardas que
cercavam a quadra. Retiraram-se mais para dentro, até um
ponto onde podiam ver os guardas que subiam pela janela.
Começaram a alvejá-los um por um. Três corpos
despencaram lá de cima. esborrachando-se na calçada. Isto
desanimou outros mais afoitos.
Do meio da rua, os guardas disparavam agora
furiosamente, crivando de balas a fachada do hotel.
Nenhum tiro podia atingir os três sitiados, bem ocultos
dentro da peça, deitados ao rés do chão para escapar aos
balaços que atravessavam a porta.
— Estamos cercados. Não vamos poder resistir muito
tempo nesta posição. Nossa munição já está acabando.
Mal tinham terminado de falar, Denise Michele ouviu o
barulho aumentar e muitos tiros do lado de fora. A rua
estava uma confusão indescritível, pelo ruído que se ouvia.
Explosões começaram a ressoar; Amin Said engatinhou até
a janela e riu com alívio.
— São os nossos. Agora sim. Quero ver o que esses
guardas vão fazer.
Virou-se para os três amigos deitados no chão e disse,
orgulhoso:
— O povo está se libertando da tirania com suas
próprias mãos, a partir desse momento.
Denise sorriu. Amin estava feliz como uma criança,
mesmo com tantas balas assobiando à sua volta. Aliás, por
causa delas.
Esperaram, deitados no chão o fim do tiroteio, olhando
pela janela entreaberta. Os guardas não atiravam mais neles.
Agora tratavam de se defender. O pessoal da OLB os

— 82 —
perseguia pelas ruas com granadas e metralhadoras ligeiras.
Os guardas do sheik não tinham como vencê-los, pois não
tinham determinação de luta, enquanto que o pessoal da
OLB estava forjando uma segunda independência, com
idealismo e patriotismo.
. Esperaram mais algum tempo, até que novas correrias
no corredor nos obrigaram a deitar novamente no solo.
— Said! Said! Onde estás?
— São eles! São os nossos! — exclamou com
satisfação, o líder da OLB.
Amin Said abriu a porta correndo e atirou-se nos braços
dos seus amigos. Todos comemoravam a derrota dos
guardas mercenários do sheik com vivas e abraços.
— Estávamos preocupados com vocês — disse um dos
homens da OLB. — Pensamos que os homens do sheik já
tivessem liquidado vocês.
Amin Said respondeu alegremente:
— Precisariam bem mais do que um exército de
mercenários covardes e um bando de nazistas paranoicos
para acabar com a OLB.
A luta apenas iniciara. Agora é que vinha o pior.
Amin fez um gesto com as mãos, pedindo a todos os
presentes para fazerem silêncio.
— Agora é que teremos o combate duro pela frente —
principiou ele. — A primeira batalha foi vencida em menos
de uma hora, mas a guerra pode ser muito mais longa.
Vamos ao palácio enforcar o louco que ocupa o trono.
Vamos derrubar a tirania e libertar o povo.
Imediatamente o pessoal da OLB começou a descer as
escadas e a organizar-se em brigadas de assalto. Dessa vez
usariam tudo: granadas, metralhadoras pesadas e bazucas.
Seria duro tomar o palácio, pois tinham alimentos e
munições e poderiam resistir por muito tempo.

— 83 —
Amin Said esperou seus comandados descerem para
falar com Denise Michele e Horace Young Kirkpatrick, em
particular.
— A missão de vocês em Basrah já terminou com todo
o sucesso — disse ele. — A NAZ foi destroçada e não vai
haver guerra mundial nenhuma.
O petróleo está seguro e o futuro do país também.
Vocês podem agora voltar para os Estados Unidos. Não há
razão para arriscarem seus pescoços numa guerra que não é
de vocês. Poderemos ser derrotados pelas forças do sheik,
e...
Horace o interrompeu, levantando a mão:
— O que você quer dizer com “essa guerra não é de
vocês”? Eu odeio, e creio que Denise também, esse sheik
de vocês como se fosse uma pessoa daqui. E como você
vem me pedir para parar, agora que estamos juntos nisso até
o pescoço? Eu vou, nem que você não queira.
Denise concordou com a opinião de Horace.
Amin sorriu.
Os três desceram as escadas. Os homens da OLB
esperavam seu líder, impacientes.
Com Amin Said, Zephir, Horace, Denise e os
colaboradores principais do movimento à frente, uma
gigantesca multidão formou-se na rua avançando para o
palácio.
Por todas as ruas que atravessavam, o povo ia saudando
os patriotas. E as fileiras do exército libertador iam
engrossando pelo caminho. A princípio, o próprio Amin
estranhou a determinação da gente do povo. Eles não
demonstravam medo do sheik. Parecia que esperaram
durante anos aquela oportunidade e agora iriam até o fim.
Aos poucos, as ruas foram ficando pequenas para tanta
gente. As armas eram as mais variadas possíveis: foices,

— 84 —
pás, enxadas, picaretas, facas, adagas árabes, pistolas de
todos os tipos, longas carabinas de caça e até mesmo
cajados de tanger o gado. O povo inteiro avançava para
derrubar o tirano. As casas foram se esvaziando e, à medida
que a notícia do levante alcançava outros bairros da cidade,
mais pessoas fechavam suas casas, empunhavam suas
armas e saíam para encontrar a coluna.
Minutos depois, a multidão incalculável aproximava-se
do palácio, até que chegaram às muralhas da gigantesca
construção. Sem a mínima prudência, avançaram todos até
a frente dos portões. O palácio ficava num largo, a maior
praça da cidade e jamais alguém poderia imaginar que um
dia ela ficaria apinhada de gente do povo em armas.
Milhares e milhares de pessoas acotovelam-se em frente às
muralhas.
Amin Said gritava para a multidão abrigar-se, pois
temia que os guardas abrissem fogo com suas
metralhadoras. Mas o povo não conseguia escutá-lo e, como
se tudo estivesse combinado, um grito surdo começou a
espalhar-se entre as pessoas, até que, em poucos minutos, a
multidão organizada gritava:
— Assassino! Assassino! Assassino!
Ninguém aparecia nas muralhas. Os guardas do palácio
compreenderam que não teriam a menor chance de vitória
se lutassem contra a multidão. Poderiam matar milhares,
mas nunca escapariam.
De repente, a multidão, tão inesperadamente como
quando havia começado a gritar, silenciou. As portas do
palácio rangeram e abriram-se vagarosamente.
Amin, Horace, Denise e todos que estavam à frente
empunharam suas armas esperando a luta, mas ela não veio.

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Pela fresta da porta, começaram a surgir armas, jogadas
de dentro do palácio, amontoando-se na poeira. Os guardas
desistiram da luta.
A multidão começou a celebrar e as portas abriram-se
completamente, dando passagem a dezenas de guardas, que
saíam do palácio com as mãos levantadas.
Uma vez no lado de fora, ficaram frente a frente com o
povo, com evidente medo. Não sabiam o que lhes podia
acontecer, mas temiam pelo pior.
Mas a multidão tinha seus objetivos decididos. Novos
gritos começaram a ser ouvidos:
— O sheik!
Amin Said afastou os guardas com as mãos e entrou no
palácio, junto com os que estavam ao seu lado. Subiram
todos pelas escadarias em caracol até a sala do trono. A
porta estava aberta. Lá, encontraram Al Moffadah e seu
grão-vizir.
Amin deteve todos com as mãos e exigiu silêncio. Ficou
onde estava, logo depois da porta, encarando os vultos no
fim do aposento, sentados e imóveis.
O líder da OLB foi caminhando na direção do trono
acompanhado por seus companheiros, até parar a pouca
distância dos dois. Seus olhos se apertaram e sua testa
crispou-se.
Aproximou-se ainda mais dos dois vultos e só então
reparou no olhar dos dois homens. Sua testa crispou-se
ainda mais.
— Estão mortos... — murmurou o chefe revolucionário.
Aproximou-se do sheik e empurrou-o levemente. O
corpo foi colar-se mais na cadeira, como se fosse um
boneco. Empurrou o grão-vizir e deu-se a mesma coisa.
Said virou-se para as pessoas que já lotavam a sala do
trono e disse em voz alta:

— 86 —
— O sheik e o grão-vizir estão mortos! Não há mais
sheik em Basrah. Esta é a república!
— Sim! A república do povo! — gritaram os populares.
Uma gritaria infernal lotou a sala e foi ganhando a
multidão. Ao chegar do lado de fora transformou-se na
alegria de milhares de árabes, oprimidos durante anos.
Dentro da sala do trono, Amin olhou para Denise e
Horace, em meio ao barulho ensurdecedor.
O agente fora de série da CIA mostrou-lhe duas taças
no chão, ao lado das cadeiras onde estavam os mortos.
Amin Said abaixou-se e apanhou uma delas. Seus dedos
tocaram o líquido e foram ao nariz.
— Veneno — disse ao agente, soletrando a palavra.
Com um salto ágil, o líder da revolução de Basrah
desceu do trono, despedindo-se com um olhar dos dois
suicidas. Foram dois covardes, pois preferiram a morte a
enfrentar a ira do povo. Sabiam que não seriam perdoados
por ninguém.
Todos desceram as escadas e saíram do palácio, ao
encontro da multidão na praça de Basrah. O país nunca
tinha tido um dia tão agitado em toda a sua história.
Denise Michele estava sentindo-se emocionada como
nunca. Parecia que era de Basrah, que aquele diminuto
pedaço de deserto no fim da península arábica era o seu
país.
O povo comemorava com grande entusiasmo a morte
do sheik, a derrubada do governo tirânico e a instalação da
república popular.
— Eles estão realmente entusiasmados — comentou
Denise a Horace.
— Exato.
Amin, Zephir e os outros membros da OLB haviam se
misturado à multidão.

— 87 —
— Creio que sei um modo de comemorarmos também
— continuou Horace.
— Qual?
— Venha comigo, que eu lhe mostro.
Os dois se afastaram da multidão, encaminhando-se
para uma zona menos agitada da cidade.

— 88 —
CAPÍTULO DÉCIMO

O repouso do guerreiro

Horace e Denise caminharam por alguns minutos, até


chegar a um local onde o barulho da população vitoriosa era
quase imperceptível. De repente Horace deteve-se diante de
uma casa, abriu o portão e dirigiu-se para a porta de entrada,
atravessando um pequeno jardim. Denise seguia-o
fielmente.
— Essa é a casa que aluguei desde que cheguei aqui em
Basrah — explicou 77Z, abrindo a porta.
Denise e 77Z entraram numa saleta.
— Por fim poderemos descansar um pouco, não? —
disse a agente.
— Hummm... Hummm... — concordou Horace,
fechando a porta.
— Quer tomar um banho? — perguntou o agente fora
de série da CIA, depois de uma pausa.
— Sim.
— O banheiro é ali no corredor — informou 77Z,
indicando o local com a mão. — Há um roupão limpo
dentro do armário, bem como toalha, etc.
A moça se dirigiu até o banheiro, enquanto Horace foi
para a cozinha para ver se restava ainda um pouco do uísque
que trouxera consigo.

— 89 —
Quinze minutos depois a jovem saiu do banheiro
envolta num roupão leve. Horace estava sentado numa
poltrona da saleta bebericando o uísque.
— Esse banho me descansou — disse Denise, enquanto
puxava o cabelo para trás.
— Quer uma dose de uísque? Ainda há um pouco numa
garrafa lá na cozinha — ofertou Horace.
— Não, obrigada — respondeu 77A, sentando-se numa
poltrona em frente à de 77Z. — Não estou a fim de beber,
hoje.
A moça cruzou as pernas. O roupão que usava era curto.
Horace teve uma visão completa de suas pernas e das coxas
sensuais, notando que ela não usava nenhuma outra peça
por baixo do roupão.
— Quando partiremos para Washington? — indagou
Denise.
— O próximo avião para os Estados Unidos só partirá
daqui três dias, e agora com a morte do sheik e a instalação
da república, não sei.
— Quer dizer que teremos no mínimo três dias só para
nós?
— Isso mesmo.
A moça levantara-se e aproximara-se da cadeira de
Horace, sentando-se no seu colo. 77Z sentiu o calor das
coxas dela. Denise começou a afagar os cabelos do homem.
Em seguida, a moça foi abaixando a cabeça, até colar seus
lábios vermelhos e carnudos nos do agente. As duas línguas
se encontraram e começaram a se digladiar.
Alguns segundos depois Denise levantou-se do colo de
Horace. Ficou parada à poucos centímetros dele e desatou
o laço do cinto do roupão, que se abriu, deixando à mostra
uma parte da intimidade da garota. Como Horace notara
anteriormente ela não usava nenhuma peça íntima. Com

— 90 —
charme Denise se livrou do roupão ficando inteiramente
nua em frente de 77Z.
Os seios montanhosos, empinados como balões prontos
para subirem para a estratosfera. Os bicos deles eram
grandes e vermelhos e o contato com o tecido do roupão
excitara-os, pois estavam intumescidos. O ventre de Denise
era liso, sem banha nem dobras, ornado com um umbigo
sexy. Seus quadris eram amplos, mas de curvas suaves e
excitantes. Suas pernas eram longas, bem torneadas. A
jovem era loura natural, constatou Horace, ao ver os
cabelinhos dourados de seu corpo. Os quadris dela, embora
ela estivesse imóvel, pareciam mover-se insidiosamente,
como os meneios de uma serpente.
Em tudo, Denise Michele era um verdadeiro espetáculo.
Seu cabelo dourado solto caindo sobre os ombros era como
uma catarata banhada de sol.
Horace sorriu, feliz.
A jovem jogou a cabeça para trás, melhorando a posição
para que a inspeção de 77Z fosse mais completa. Então
começou a dar um passeio pelo quarto, rebolando de
maneira provocante todo o seu corpo, bamboleando-se,
gingando harmoniosamente, ritmicamente.
O que o movimento proporcionava a seu corpo teria
deixado louco um regimento de fuzileiros navais. A carne
branca ondulada se distendia, os bicos de seus seios
saltitavam.
Horace sorriu, feliz. E rapidamente livrou-se de suas
roupas, ficando também inteiramente nu.
77Z aproximou-se de Denise, colou seu corpo ao dela e
os dois novamente se encontraram.
Segundos depois 77Z desgrudou-se da moça e com um
ligeiro movimento colocou-a nos braços, carregando-a para
o quarto que ficava no final do corredor. Estendeu-a na

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cama e contemplou-a. A respiração de Denise já estava
ofegante e os bicos de seus seios excitados.
— Você se parece com uma deusa — disse Horace. —
Realmente, nunca encontrei uma mulher assim.
— Venha, Horace, querido! Venha! Satisfaça-me —
dizia Denise. — Deixemos a conversa para outro dia.
Horace deitou-se.
Denise se inclinou para a frente, esfregando os bicos
inchados de seus seios nos lábios de Horace.
As pernas de Denise estavam abertas. Então, realmente
começou a diversão. Com Horace dentro dela e os dois
engatados como vagões de carga, não havia outro lugar para
ir.
Que intimidade! Seus recessos internos eram as
entranhas escaldantes de um vulcão. Ela bufava molhada de
suor. Horace controlou suas reações, ritmando seus
movimentos enquanto ela o apertava como se temesse que
ele de súbito mudasse de idéia e resolvesse torturá-la
afastando-se.
Denise gemia, suas coxas convulsionando-se; seu baixo
ventre sugava Horace como uma bomba poderosa. Ambos
permaneceram unidos, até que chegaram ao clímax
esperado. Horace separou-se dela e deitou-se ao seu lado.
— Horace! — chamou Denise, depois de uma pausa.
— Estou aqui.
— Amo-o, adoro-o, estou louca por você...
— Também gosto de você.
Horace se levantou e disse:
— Você quer um pouco de vodca? Há uma garrafa lá
na cozinha. Vou apanhar um pouco para mim.
— Agora eu aceito uma bebida, sim — respondeu 77A.
Horace se dirigiu para a cozinha, voltando logo depois
com uma garrafa de vodca e dois copos.

— 92 —
Enquanto Horace lhe servia uma dose, derramou um
pouco acidentalmente sobre o corpo de Denise. O líquido
escorreu por seu abdômen, fazendo-se cócegas no umbigo,
onde empoçou ligeiramente. Ela gritou de dor.
— Denise... lamento. Foi descuido de minha parte.
— Ohhh... — gorgolejou ela em um gemido. — Como
isto dói. Nunca pude suportar vodca sobre mim. Nunca
soube porque, mas é sempre como brasas.
De repente, Horace teve uma idéia.
— Venha cá, minha querida. Venha. Deixe-me ajudá-
la...
Ela aproximou-se, dando fungadelas como uma
criança. Satisfeito, escondendo um sorriso, Horace
estendeu as mãos para ela como se fosse ajudá-la. Ela
desmanchou-se em seus braços e ele sentiu-se um miserável
em fazer aquilo. Mas fez. Instantaneamente, arrastou-a em
direção à grande cama, e deitou-a sobre o colchão. Ela ficou
aparvalhada sem saber o que pensar, e antes que pudesse
fechar as pernas e sentar-se, Horace estendeu a mão para
trás e trouxe e garrafa de vodca. Escancarou as pernas de
Denise e virou a garrafa de modo a que ela não perdesse um
pingo do que ainda havia de líquido na garrafa.
Como descrever seus bramidos de dor e prazer,
enquanto a aguardente russa inundava os recessos mais
insondáveis de uma celestial feminilidade?
77Z não perdeu um segundo e jogou-se em cima dela e
abaixou a sua cabeça para a sedosa e gotejante porção de
seu corpo que agora cheirava a álcool. Ela tentou levantar-
se, mas ele a tinha bem presa. Lambeu, chupou, estalou a
língua e saboreou a pobre Denise que se retorcia de agonia.
O debate sexual continuou noite a dentro. Ambos só
foram dormir quando os primeiros raios do sol
despontavam no azul do céu de Basrah!

— 93 —
***

Três dias depois...


A revolução em Basrah fora ligeira. A notícia da morte
do sheik Al Moffadah e de seu grão-vizir chegou logo em
todas as cidades do país. Os militares depuseram suas armas
e a república se instalou. Uma junta de governo se formou,
para governar o país até que fossem realizadas as eleições,
tendo Amin Said como líder. Aos poucos, a vida do país
voltava à normalidade.
Mas em meio à tanta agitação, Amin Said não estava
feliz. Os seus dois mais novos amigos, Horace Young
Kirkpatrick e Denise Michele iam voltar para os Estados
Unidos.
Amin, Zephir e Margarida estavam no aeroporto para
se despedirem dos dois agentes da CIA, que haviam
contribuído de forma decisiva para o sucesso da rebelião.
— Mas por que vocês vão embora tão depressa? Por
que não ficam? Por que não ficam e ajudam o país a se
levantar?
— Seria algo maravilhoso de se fazer, Amin — disse
Denise. — Mas já participamos de muitas coisas
importantes aqui.
— E por que não participam de mais?
— Bem que nós gostaríamos — disse Horace.
— Mas você sabe, temos que voltar para Washington...
o Tio Sam deve estar nos esperando com alguma outra
missão. Você deve entender, pois já trabalhou para nós.
— Sim, eu sei — concordou Amim. — Mas por que não
ficam mais alguns dias?
— Prometo voltar aqui em Basrah, assim que vocês
tiverem estabelecido uma vida melhor para o povo daqui.

— 94 —
— Idem, para mim — apoiou Horace.
— Espero que dentro de poucos meses isso aconteça —
informou Amin.
Denise e Horace escutaram a chamada para o embarque
deles.
Os dois se despediram de seus amigos árabes e se
dirigiram para o portão de embarque.
Iam com a cabeça tranquila, pois haviam livrado o
mundo da ameaça da NAZ e também da ameaça de uma
Terceira Guerra Mundial.
Mas haviam livrado mesmo?

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EPÍLOGO

Haviam se passado três dias, desde a morte do sheik e a


revolução em Basrah.
Em algum ponto indefinido do planeta, uma reunião
tinha início.
O local onde ela se realizava era uma sala ampla na qual
só havia uma enorme mesa rodeada de cadeiras. Numa das
cabeceiras sentava-se um homem vestido de camisa e calças
marrons e gravata preta. Usava botas escuras e seu rosto
estava encoberto por um capuz também marrom, onde
havia apenas uns buracos para os olhos, o nariz e a boca. Na
outra extremidade da mesa encontrava-se Hans Muller, o
chefe da NAZ. Em volta da mesa, perfilavam-se diversas
mulheres, todas louras, jovens, saudáveis e trajando
vestidos marrons.
Hans Müller suava copiosamente.
De repente, uma das moças, que devia liderá-las,
exclamou:
— Falem irmãs! As palavras do nosso juramento!
— Salve a HYDRA! HYDRA imortal! Jamais seremos
vencidos! Corte-se um braço e outros dois surgirão em seu
lugar! Servimos apenas ao nosso UDER... e, em breve, o
mundo nos servirá! SALVE A HYDRA! — cantaram elas
em coro.
Por alguns minutos o silêncio reinou na sala.

— 96 —
— Pelo que pude saber você fracassou, Herr Müller —
principiou o homem da extremidade oposta, com voz
cavernosa.
— Fiz tudo o que me foi possível, Mestre — respondeu
Müller, passando o lenço no rosto, enxugando o suor.
— Fez mesmo?
— Sim. Se aqueles dois agentes americanos não
tivessem aparecido a missão seria coroada de êxito.
— Quê agentes?
— Uma tal de Denise Michele e um outro chamado
Horace Young Kirkpatrick.
— Kirkpatrick... Kirkpatrick... já é a segunda vez que
esse sujeito cruza o caminho da HYDRA. (*) Terei que
pensar num meio de livrarmo-nos dele.

(*) Ver A Ameaça do Vírus Sintético

— Ele é muito astucioso.


— E pensa que eu não sei disso?
Novo silêncio.
— E quanto aos outros que estavam com você nessa
missão?
— Todos mortos.
— Imbecis!
— A OLB estava muito bem organizada e Horace e
Denise...
— Chega! Não me fale mais nesses nomes.
Hans Müller enxugou novamente o suor que lhe
escorria pela testa.
— E então? — perguntou o LÍDER.
— E então o quê, Mestre? — indagou, curioso, Herr
Muller.

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— A sua desculpa para o fracasso da missão é essa?
Dois norte-americanos e um bando de rebeldes árabes
contra a NAZ, o sheik Al Moffadah e o Exército de Basrah?
— Sim, senhor...
— Bando de incompetentes! Mas você sabe qual é o
preço do fracasso, não, Herr Müller?
— Sim, senhor, mas...
O homem não teve tempo de completar a frase, pois foi
eletrocutado na hora. Quando os choques elétricos pararam,
Müller tombou para a frente, morto. A cadeira, por sua vez,
desceu por uma abertura que se abrira no assoalho,
despejando o corpo do ex-chefe da NAZ no mar. Logo
depois, a cadeira voltou para o seu antigo lugar.
O LÍDER DA HYDRA levantou-se da cadeira que
havia ocupado até aquele instante.
Mais uma vez o chefe das jovens pertencentes à
HYDRA voltou a falar:
— Falem, irmãs! As palavras do nosso juramento!
— Salve a HYDRA! HYDRA imortal! Jamais seremos
vencidos! Corte-se um braço e outros dois surgirão em seu
lugar! Servimos apenas ao nosso LÍDER... e, em breve, o
mundo nos servirá! SALVE A HYDRA!
O LÍDER DA HYDRA deixou a sala, entrando por uma
passagem secreta na parede no final da sala.
Qual será o próximo passo da HYDRA para tentar
conquistar o mundo?
Ninguém sabe... a não ser o LÍDER.

FIM

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