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História Concisa

da Filosofia Ocidental

Anthony Kenny

REVISÃO CIENTÍFICA
Desidério Murcho
Sociedade Portuguesa de Filosofia
4 O sistema de Aristóteles....................................................................93

Discípulo de Platão, Mestre de Alexandre............................................93


A Fundação da Lógica......................................................................96
A Teoria da Arte Dramática ............................................................ 100
Filosofia Moral: Virtude e Felicidade................................................ 102
Filosofia Moral: Sabedoria e Entendimento....................................... 107
Política.........................................................................................110
Ciência e Explicação .......................................................................112
Palavras e Coisas............................................................................ 115
Movimento e Mudança.................................................................... 117
Alma, Sentidos e Intelecto .............................................................. 120
Metafísica .................................................................................... 123

5 A filosofia grega depois de Aristóteles ............................................... 129

A Era Helenística .......................................................................... 129


Epicurismo.................................................................................. 130
Estoicismo................................................................................... 133
Cepticismo................................................................................... 136
Roma e o seu Império .................................................................... 138
Jesus de Nazaré............................................................................ 140
Cristianismo e Gn osticismo ............................................................ 143
Neoplatonismo............................................................................. 146

6 A filosofia cristã primitiva................................................................ 151

Arianismo e Ortodoxia.................................................................... 151


A Teologia da Incarnação ................................................................155
A Vida de Agostinho .......................................................................157
A Cidade de Deus e o Mistério da Graça .............................................161
Boécio e Filópono.......................................................................... 165

7 A filosofia medieval primitiva ........................................................... 171

João Escoto Erígena ....................................................................... 171


Alkindi e Avicena .......................................................................... 174
O Sistema Feudal .......................................................................... 176
Santo Anselmo ............................................................................. 178
Abelardo e Heloísa .........................................................................181
A Lógica de Abelardo..................................................................... 183
A Ética de Abelardo....................................................................... 185
Averróis....................................................................................... 187
Maimónides ................................................................................. 189
5
A filosofia grega depois de Aristó-
teles

A ERA HELENÍSTICA

Com a morte de Alexandre Magno na Babilónia, em 323, o seu


vasto império foi dividido entre os seus primeiros oficiais, que fu nda-
ram uma série de reinos independentes. O mais duradouro foi o de
Ptolomeu e sua família, no Egipto e na Líbia, que sobreviveu até à
derrota infligida a Marco António e Cleópatra pelo imperador romano
Augusto, em 31 a. C. Nos séculos que decorreram entre a morte de
Alexandre e a de Cleópatra, os domínios dos outros generais de Ale-
xandre foram subdivididos em reinos mais pequenos, que, um após
outro, caíram sob o poder de Roma, tornando-se províncias do seu
Império. Estes séculos, no decur so dos quais a civilização grega flores-
ceu em toda a região em torno do Mediterrâneo Oriental, são conheci-
dos pelos historiadores como «a era helenística».
Neste período, os colonizadores gregos entraram em contacto com
sistemas de pensamento muito difere ntes dos seus. Na Bactriana, no
extremo oriental do antigo império, a filosofia grega descobre a reli-
gião de Buda, energicamente propagada pelo devoto rei indiano, Aso-
ka; dois diálogos que sobreviveram contam a história da conversão ao
budismo do rei grego Menandro. Na Pérsia, os gregos entram em
contacto com a já antiga religião de Zaratustra (cujo nome heleniza-
ram para Zoroastro), que entendia o mundo como um campo de bata-
lha entre dois princípios divinos, um benévolo e o outro malévolo. Na
Palestina travaram conhecimento com os judeus, os quais, desde o seu
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regresso do exílio na Babilónia, em 538, fo rmavam uma comunidade


estritamente monoteísta centrada no culto do Templo em Jerusalém.
Os livros dos Macabeus, entre os textos apócrifos da Bíblia, falam da
resistência dos judeus à assimilação da cultura grega no reinado de
Antíoco IV da Síria. Os primeiros Ptolomeus no Egipto construíram a
nova cidade de Alexandria, cujos cidadãos provinham de todas as
partes do mundo grego. Fundaram uma biblioteca magnífica e bem
catalogada que se tornaria a inveja do resto do mundo, que só teve
rival, mais tarde, na biblioteca do rei Átalo, em Pérgamo, na Ásia
Menor. Foi em Alexandria que a Bíblia hebraica seria traduzida para
grego; esta versão era conhecida como a «Bíblia dos Setenta», aludin-
do ao número de estudiosos que teriam colaborado na sua tradução.
Em Alexandria, uma série de brilhantes matemáticos e cientistas com-
petiam com os er uditos da Academia e do Liceu que, em Atenas, pros-
seguiam o trabalho dos seus fundadores, Platão e Aristóteles.
Os mais conhecidos filósofos atenienses da geração posterior à
morte de Alexandre não eram membros da Academia nem do Liceu,
mas fundadores de novas instituições rivais: Epicuro, que fundou uma
escola conhecida como «O Jardim», e Zenão , cujos partidários se
chamavam «estóicos» por ensinarem na Stoa ou pórtico pintado. A
multiplicação das escolas em Atenas reflectia um interesse crescente
pela filosofia como parte essencial da formação das classes mais elev a-
das.

EPICURISMO

Epicuro, nascido de uma família de expatriados gregos de Samos,


estabeleceu-se em Atenas por volta de 306 a. C. e aí viveu até à sua
morte, em 271. Os seus discípulos no Jardim, que incluíam mulheres e
escravos, viviam humildemente e mantinham-se afastados da vida
pública. Epicuro escreveu 300 livros, mas tudo se perdeu, à exc epção
de algumas cartas. Alguns fragmentos do seu tratado Da Natureza
foram soterrados em lava vulcânica em Herculano, aquando da erup-
ção do Vesúvio em 79 d. C.; nos tempos modernos foram cuidadosa-
mente desenrolados e decifrados. Até hoje, contudo, o nosso conheci-
mento das doutrinas de Epicuro continua a apoiar -se sobretudo num
longo poema latino escrito no primeiro século da era cristã pelo seu
discípulo Lucrécio, intitulado Da Natureza das Coisas (De Rerum
Natura).
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O objectivo da filosofia de Epicuro é tornar possível a felicidade


pela eliminação do seu grande obstáculo: o medo da morte. É o temor
da morte que leva o homem a procurar riqueza e poder, na esperança
de a adiar, e a lançar-se em frenética actividade para esquecer a sua
inev itabilidade. O medo da morte é instilado em nós pela religião, que
prenuncia uma vida depois da morte cheia de sofrimentos e punições.
Mas tal perspectiva é, para Epicuro, ilusória. Lucrécio clarifica elo-
quentemente este aspecto: não precisamos de temer a morte, a sobr e-
vivência ou a reencarnação.

Que tem este papão, a morte, que tanto assusta os homens,


se tanto as almas como os corpos morrem?
Tal como antes de nascermos não sentíamos dor
quando as armas púnicas infestavam a terra e o mar,
assim também quando se desagregar a nossa mortal ossatura
e o corpo sem vida for separado do espírito,
libertados seremos dos sentidos de dor e sofrimento,
nada sentiremos, porque nada seremos.
Ainda que se percam a terra nos mares e os mares nos céus
não nos mexeremos, seremos simplesmente pelo acaso remexidos.
Não, mesmo supondo que sofrida a consumação do destino
a alma possa sentir no seu estado dividido,
que nos importa isso a nós? Pois nós só somos nós
enquanto as almas e os corpos permanecerem unidos.
Não, ainda que os nossos átomos se revolvam ao acaso
e a matéria regresse à sua antiga dança;
ainda que o tempo pudesse devolver -nos a vida e o movimento
e fazer dos nossos corpos aquilo que outrora foram;
que ganharíamos nós com toda essa azáfama?
O homem novo seria uma coisa nova.

Foi para eliminar o medo da morte e para demonstrar que os terr o-


res da religião não passavam de fantasias que Epicuro concebeu a sua
ideia da natureza e da estrutura do mundo.
Adoptou, com algumas modificações, o atomismo de Demócrito. Os
átomos, unidades indivisíveis e imutáveis, deslocam-se no vazio e no
espaço infinito; inicialmente, todos se deslocam em sentido descen-
dente a uma velocidade constante e igual, mas por vezes mudam de
direcção e colidem uns com os outros. Dessas colisões resulta tudo o
que existe nos céus e na terra. Como todas as outras coisas, também a
alma é constituída por átomos, que diferem dos outros por serem mais
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pequenos e subtis. Com a morte, os átomos da alma dispersam-se e


tornam-se incapazes de sentir, porque já não ocupam o seu lugar
apropriado num corpo. Os próprios deuses são constituído s por áto-
mos, tal como os seres humanos e os animais; mas, visto viverem em
regiões menos turbulentas, encontram-se a salvo dos perigos da disso-
lução. Epicuro não era ateu, mas estava convenc ido que os deuses não
se interessavam pelos assuntos deste mundo, vivendo a sua própria
vida em ininterrupta tranquilidade. Por este motivo, defendia que a
crença na providência divina era uma superstição e que os rituais
religiosos eram, na m elhor das hipóteses, inúteis.
Ao contrário de Demócrito, Epicuro pensava que os sentidos eram
fontes seguras de informação e desenvolveu uma ideia atomista acerca
do seu funcionamento. Todos os corpos expelem finas películas dos
átomos que os constituem, películas essas que retêm a sua forma ori-
ginal, servindo assim como imagens (eidola) dos corpos originais. A
percepção ocorre quando estas imagens entram em contacto com os
átomos da alma. As aparências que atingem a alma nunca são falsas;
correspondem sempre exactamente à sua fonte. Se nos enganamos
quanto à realidade, é porque usamos estas aparências genuínas como
base para falsos juízos. Se as aparências são contraditórias, como
quando um remo parece dobrado dentro da água e recto quando fora
dela, as duas aparências devem ser entendidas como testemunhos
honestos sobre os quais o espírito deve ponderar para chegar a um
juízo. Nos casos em que as aparências são insuficientes para esclarecer
uma disputa entre teorias rivais (sobre a verdadeira dimensão do Sol,
por exemplo), o espírito deverá abster -se de qualquer juízo e demons-
trar igual tolerância para com todas as hipóteses.
A pedra basilar da filosofia moral de Epicuro é a doutrina segundo
a qual o prazer é o princípio e o fim da vida feliz. Contudo, Epicuro
traça uma distinção entre os prazeres que resultam da satisfação dos
desejos e os prazeres que surgem uma vez satisfeitos todos os desejos.
Os prazeres que resultam da satisfação dos nossos desejos ligados à
comida, à bebida e ao sexo são prazeres inferiores, já que estão ligados
à dor: o desejo que satisfazem é em si próprio doloroso, e a sua satisfa-
ção leva à renovação do desejo. Devemos procurar, pois, os prazeres
tranquilos, tais como o da amizade privada.
Embora fosse um atomista, Epicuro não era determinista; pensava
que os seres humanos gozavam de livre -arbítrio e procurou explicá-lo
recorrendo às arbitrárias mudanças de direcção dos átomos. Sendo
livres, somos senhores do nosso próprio destino: os deuses não
impõem necessidade nem interferem nas nossas escolhas. Não pode-
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mos escapar à morte, mas se a olharmos de uma perspectiva verdadei-


ramente filosófica, ela deixa de ser um mal.

ESTOICISMO

O epicurismo sobreviveu 600 anos após a morte de Epicuro; mas,


apesar de encontrar uma expressão admirável no grande poema de
Lucrécio, nunca foi tão popular como o estoicismo, fundado pelo seu
contemporâneo Zenão de Cítio. Zenão era originário de Chipre, onde,
tendo lido um livro acerca de Sócrates, se apaixonou pela filosofia que
o levou a emigrar para Atenas mais ou menos na mesma altura que
Epicuro. Aí viria a estudar sob a orientação de uma série de professo-
res. Inicialmente, tornou-se discípulo do cínico Crates, o qual, segundo
lhe diziam, era o mais próximo equiv alente contemporâneo de Sócra-
tes. O cinismo não era uma escola de filosofia, mas um modo de vida
boémio, baseado no desprezo pela riqueza material e pelas conven-
ções. O seu fundador fora Diógenes de Sinope, que vivia como um cão
(«cínico» significa «semelhante ao cão») dentro de um barril à laia de
casota. Visitado pelo grande Alexandre, que lhe perguntou o que podia
fazer por ele, Diógenes replicou: «Podes desviar -te da minha luz». O
contacto de Zenão com o cinismo ensinou-o a conferir ao ideal da
auto-suficiência um papel de destaque na sua filosofia.
Ao contrário de Diógenes, que adorava arreliar Platão, e de Crates,
que gostava de escrever poesia satírica, Zenão levou muito a sério a
filosofia sistemática. Os seus escritos não sobreviveram; o nosso
conhecimento dos seus ensinamentos apoia-se na obra de escritores
do período romano, como Séneca, filósofo da corte de Nero , e o impe-
rador Marco Aurélio . Sabemos que fundou a tradição estóica da divisão
da filosofia em três disciplinas princ ipais: lógica, ética e física. Os seus
discípulos defendiam ser a lógica o esqueleto, a ética a carne, e a física a
alma da filosofia. Zenão preocupou-se essencialmente com a ética, mas
esteve muito ligado a dois dialécticos originários de Mégara — Diodoro
de Cronos e Fílon — que prosseguiram a tarefa do Liceu de preencher as
lacunas que Aristóteles deixara na sua lógica.
Após a morte de Zenão, a liderança da Stoa passou para Cleantes,
um pugilista convertido que se especializou em física e metafísica.
Homem devoto, Cleantes escreveu um notável hino a Zeus, ao qual se
dirige em termos que um monoteísta judeu ou cristão consideraria
apropriados para e ndereçar ao Nosso Senhor:
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Zeus todo-poderoso
Autor da Natureza, designado por muitos nomes, ave!
A tua lei a todos governa; e a voz do mundo para ti se ergue.
Pois de ti nascemos, e só nós entre as coisas vivas
Que se movem na terra fomos criados à imagem de Deus.

S. Paulo conhecia este hino e citou-o quando pregou em Atenas.


A Cleantes sucedeu Crisipo, que liderou a escola entre 232 e 206.
Fez da ética a sua especialidade, mas também desenvolveu e alargou o
trabalho dos seus predecessores, tendo sido o primeiro a apresentar o
estoicismo como um sistema inteiramente integrado. Uma vez que as
obras destes três pr imeiros estóicos se perderam, é difícil determinar
com precisão o contributo de cada um; as suas doutrinas avaliam-se
melhor em conjunto .
A lógica dos estóicos difere da aristotélica em vários aspectos. Aris-
tóteles utilizou letras como variáveis, ao passo que os estóicos usaram
números; a estrutura típica de uma frase numa inferência aristotélica
era «Todo o A é B»; a frase típica de uma inferência estóica era «Se a
primeira, então a segunda». A diferença entre letras e números é tri-
vial; aquilo que importa realmente é que as variáveis de Aristóteles
representavam termos (sujeitos e predicados), ao passo que as variá-
veis dos estóicos representavam frases inteiras. A silogística aristotéli-
ca formaliza aquilo que hoje em dia poderíamos chamar «lógica de
predicados»; a dos estóicos formaliza aquilo a que chamamos «lógica
proposicional». Vejamos um típica inferência considerada pelos estói-
cos:

Se Platão está vivo, Platão respira.


Platão está vivo.
Logo, Platão respira.

Na lógica estóica, a validade do argumento não depende do conteú-


do das frases individuais — esta é uma das suas mais importantes
características. De acordo com o ponto de vista estóico, o seguinte
argumento não é menos sólido do que o anterior:

Se Platão está morto, Atenas é na Grécia.


Platão está morto.
Logo, Atenas é na Grécia.
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A primeira premissa deste argumento será verdadeira se, tal como


os estóicos, aceitarmos uma definição particular do «se �, então �»
inicialmente sugerida por Fílon. Segundo este filósofo, uma frase com
a forma «Se a primeira, então a segunda» será verdadeira em todos os
casos, excepto quando a primeira for verdadeira e a segunda falsa. No
dia a dia, utilizamos geralmente o «se�, então �» quando existe uma
ligação qualquer entre o conteúdo das frases assim interligadas. Mas
usamos por vezes a definição de Fílon — por ex emplo, quando dizemos
«Se Atenas é na Turquia, eu sou holandês», como forma de negar que
Atenas se situa na Turquia. Acontece que a definição mínima dos
estóicos para o «se» é a mais útil para o desenvolvimento técnico da
lógica proposicional, e é essa que os lógicos utilizam actualmente. A
lógica proposicional dos estóicos é hoje entendida como o elemento
básico da lógica, sobre o qual a lógica de predicados de Aristóteles se
constrói como uma superstrutura.
Sob a designação de «lógica», os estóicos investigaram também a
filosofia da linguagem. Possuíam uma sofisticada teoria dos signos,
que estudava tanto as coisas significantes como as significadas. As
coisas significantes eram classificadas como voz, fala ou discurso. A
voz podia representar o som inarticulado, a fala o som articulado mas
falho de sentido, e o discurso o som articulado e com sentido. As coisas
significadas podiam ser corpos ou afirmações (lekta). Por afirmações
entende-se não a frase, mas aquilo que é dito na frase. Se digo «Díon
caminha», a palavra «Díon» significa o corpo que vejo; mas aquilo que
quero dizer com a frase não é um corpo, mas sim uma afirmação sobre
um corpo.
Neste sentido, há um choque entre a ló gica e a física estóicas: as
afirmações da lógica estóica são entidades não corpóreas, ao passo que
a física estóica apenas reconhece a existência aos corpos. Os estóicos
pensavam que, em tempos, existia apenas o fogo , do qual emergiram
gradualmente os restantes elementos e os acessórios habituais do
universo. No futuro, o mundo regressará ao fogo numa conflagração
universal, e então o ciclo da sua história repetir -se-á uma e outra vez.
Tudo isto ocorre de acordo com um sistema de leis a que po demos
chamar «destino », porque as leis não admitem excepções, ou «prov i-
dência», porque as leis foram estabelecidas por Deus com propósitos
benéficos.
Os estóicos aceitavam a distinção aristotélica entre matéria e fo r-
ma; mas, como materialistas conscienciosos que eram, defendiam que
a forma era também corpórea — um corpo delicado e subtil a que
chamavam «sopro» (pneuma). A alma e a mente humanas eram feitas
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deste pneuma, tal como Deus, que é a alma do cosmos, cosmos este
que, no seu todo, é um animal racional. Se Deus e a alma não fossem
eles próprios corpóreos, argumentavam os estóicos, não poderiam agir
sobre o mundo material.
O sistema divinamente concebido é a chamada Natureza, e o fim da
nossa vida deveria ser viver de acordo com a Natureza. Já que todas as
coisas são determinadas, nada pode escapar às leis da Natureza. Mas
os seres humanos são livres e responsáveis, apesar do determinismo
do destino. A vontade deve ser dirigida no sentido de viver de acordo
com a natureza humana por meio da obediência à razão. É esta aceita-
ção voluntária das leis da Natureza que constitui a virtude; e a virtude
é necessária e suficiente para a felicidade. A miséria, o encarceramento
e o sofrimento, já que não podem roubar a virtude, também não
podem roubar a felicidade; uma pessoa virtuosa não pode sofrer
nenhum verdadeiro mal. Significa isto que devemos ser indiferentes à
infelicidade dos outros? Bom, a saúde e a riqueza merecem na verdade
a nossa indiferença; mas os estóicos, de modo a poderem cooperar
com os não -estóicos, foram forçados a concordar que certos assuntos
mereciam mais indiferença do que outros.
Uma vez que a sociedade é natural aos seres humanos, o estóico, no
seu objectivo de viver em harmonia com a Natureza, deverá tomar o
seu lugar na sociedade e cultivar as virtudes sociais. Embora a escrav a-
tura e a liberdade sejam igualmente indiferentes, é legítimo preferir
uma à outra, ainda que a virtude possa ser praticada em ambas as
situações. E quanto à própria vida? Será objecto de indiferença? O
estóico virtuoso não perderá a sua virtude quer viva, quer morra; mas
é legítimo que tome a opção racional de abandonar a vida sempre que
se encontrar perante aquilo que os não-estóicos consideram males
intoleráveis.

CEPTICISMO

As línguas modernas mantêm vestígios tanto do epicurismo como


do estoicismo, mas com diferentes graus de exactidão. Em inglês,
epicure designa um gastrónomo — mas este encontraria escassa satis-
fação na dieta à base de pão e queijo de Epicuro. Mas uma atitude
estóica perante o sofr imento e a morte já reflecte com justeza um dos
aspectos da filosofia estóica. Contudo, uma terceira escola, contempo-
rânea do epicurismo e do estoicismo, deixou na linguagem uma marca
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que nada tem de ambíguo: o significado básico de «cepticismo» não


se alterou desde os cépticos do século III a. C.
O cepticismo foi fundado por Pirro de Élis, um soldado do exército
de Alexandre, contemporâneo de Epicuro. Pirro sustentava que nada
podia ser conhecido e, em conformidade com esse ponto de vista, não
escreveu qualquer livro; mas as suas doutrinas chegaram a Atenas nos
primeiros anos do século III a. C. pela mão dos seus discípulos Tímon e
Arcesilau. Tímon negou a possibilidade de se descobrir quaisquer
princípios auto -evidentes que servissem como fundamento das ciê n-
cias; na ausência de tais axiomas, todas as linhas de raciocínio teriam
de ser ou circulares ou infinitas. Por volta de 273, Arcesilau tornou-se
líder da Academia platónica, levando os seus discípulos a abandonar
as obras dogmáticas mais tardias de Platão em favor dos seus diálo gos
socráticos, mais antigos. Ele próprio, à semelhança de Sócrates, cos-
tumava demolir as teses avançadas pelos seus alunos; a atitude mais
apropriada para um filósofo era a de suspender o juízo sobre todos os
tópicos importantes. Arcesilau teve um enorme impacto sobre a Ac a-
demia, que se iria manter como o centro do cepticismo ao longo dos
200 anos seguintes.
Os cépticos da Academia tomavam o sistema estóico como o seu
princ ipal alvo de ataque. Os estóicos eram empiristas, ou seja, afirma-
vam que todo o conhecimento derivava da experiência sensorial de
indivíduos co ncretos. A aparência que as coisas apresentam aos nossos
sentidos são o fundamento de toda a ciência; mas as aparências podem
iludir-nos, e precisamos de um teste, ou «critério », para decidir quais
as aparências seguras que devemos aceitar. Os cépticos sustentavam
que as coisas surgiam de modo diferente a diferentes espécies (o
bicho -de-conta é saboroso para os ursos, mas não para os seres huma-
nos), de modo diferente a diferentes indivíduos da mesma espécie (o
mel é doce para alguns homens e amargo para outros) e diferentemen-
te à mesma pessoa em alturas diferentes (o sabor do vinho é amargo
com figos e doce com nozes). Como podem r esolver-se estes confl itos?
Os estóicos afirmam que o conhecimento deve basear-se não sobre
qualquer aparência, mas sobre uma aparência de determinado tipo,
uma «aparência cognitiva» (phantasia kataleptike ) — uma aparência
que provém de um objecto real e nos compele a aceitá-la. Os cépticos
contrapõem perguntando como é possível distinguir as aparências
cognitivas. De pouco serve defini-las como aquelas que compelem à
aceitação, já que as pessoas se sentem frequentemente compelidas a
aceitar aparências que acabam por revelar-se ilusórias. Os estóicos
respondem que um homem verdadeiramente sábio sabe distinguir
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entre as aparências cognitivas e aquelas que o não são. Mas como


sabemos que alguém é verdadeiramente sábio? A procura estóica de
um critério parece destinada ao fracasso: mesmo que o encontrásse-
mos, como saberíamos que o tínhamos encontr ado?
O debate entre cepticismo e estoicismo prosseguiu ao longo de
vários séculos, e grande parte do nosso conhecimento sobre os argu-
mentos de ambos os lados provém das obras de um proeminente cép-
tico do século II d. C., o médico Sexto Empírico. Sexto apresentou o
sistema céptico no seu Hipóteses Pirrónicas e propôs-se refutar as
escolas não -cépticas, ou «dogmáticas», nos onze livros do seu Contra
os Professores.

ROMA E O SEU I MPÉRIO

O período da filosofia helenística coincidiu com o extraordinário


aumento de poder da República Romana. Desde a sua rejeição da
monarquia em 510, a cidade-estado de Roma era governada por ofi-
ciais eleitos anualmente, encabeçados por dois cônsules e aconselha-
dos por um Senado de cerca de 300 aristocratas abastados. Aquando
da morte de Alexandre, a República detinha já controle sobre grande
parte do território continental da Itália; mas não possuía domínios
ultramarinos, nem sequer na Sicília ou na Sardenha. A expansão
começou com duas guerras vitoriosas contra o grande império fenício
de Cartago, que até então dominara o Mediterrâneo Ocidental. Com a
primeira guerra (264-238), Roma tomou a Sardenha e a Córsega; com
a segunda (218-201), conquistou a Sicília e apoderou-se e da costa
oriental de Espanha, a partir da qual estenderia o seu domínio a toda a
Península Ibérica e à região francesa da Provença. No séc ulo II, Roma
entrou em conflito com sucessivos reis macedónios e em 146, após a
derrota do último deles, ocupou toda a Grécia. Ao mesmo tempo, após
uma terceira e breve guerra, destruiu a cidade de Cartago e apoderou-
se do interior do Norte de África. Nos finais do século II, muitas
regiões da Ásia Menor eram também províncias de Roma ou reinos
aliados.
No século I, surgiram novos movimentos expansionistas, acompa-
nhados por uma série de encarniçadas guerras civis. Júlio César (100-
144) expandiu as fronteiras do Império para norte, da Provença para o
Canal da Mancha, matando um milhão de gauleses e escravizando
outros tantos. Ameaçado por uma acção judicial por parte dos seus
inimigos internos, invadiu a Itália em 49 e autoproclamou-se senhor