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Open source, ou “código aberto”, é a denominação dada ao modelo colaborativo de

desenvolvimento de software, e que promove o livre licenciamento, consulta e


modificação do mesmo. Surgiu como alternativa às licenças proprietárias, forma de
distribuição que cobra por licenças de uso e não permite a análise e modificação de
códigos, por constituíres o tesouro que garante os lucros com a comercialização do
produto. Agora que temos uma conceituação simples (simples mesmo, recomendo
fortemente pesquisas posteriores sobre o assunto), podemos começar a discutir algumas
questões práticas sobre o assunto no que se refere à área da Acústica no Brasil.

A Acústica no Brasil

Acústica, a ciência que abrange os fenômenos sonoros (audíveis ou não), é uma área de
estudo que desde o século XVIII atrai interesse de físicos, matemáticos, médicos. É
importante lembrar que as bases da Acústica foram lançadas em um período de
desenvolvimento das ciências em que era comum que um indivíduo transitasse entre
esses e outros campos de estudo.

Essa ciência do som desenvolveu-se em diversas direções de forma simultânea:


houveram os que se dedicaram a estudar os fenômenos puramente físicos, as ondas
mecânicas em propagação no meio, descrever essa propagação, compreender as
propriedades de uma onda sonora e descrevê-la de forma objetiva; e houveram também
os desenvolvimentos na direção do ser humano, de como recebe os sons que sobre ele
incidem, como o corpo humano reage fisiologicamente às ondas mecânicas em
propagação (seja em forma de som, seja em forma de vibração), como uma pessoa
percebe e interpreta os sinais sonoros. Acústica é, portanto, um campo de estudo
complexo, amplo, multidisciplinar e que está há alguns séculos sendo desenvolvido
(sobretudo na Europa e Estados Unidos, e essa informação é importante).

Apesar de uma área de estudo bastante desenvolvida em outros lugares, quando


olhamos para a realidade brasileira percebemos que o interesse na área é recente.
Recente em termos acadêmicos, de desenvolvimento tecnológico e até mesmo no
mercado nacional. Se traçamos uma linha do tempo da Acústica no país, vemos o
surgimento da primeira empresa de consultoria apenas em 1977, período em que o
interesse de construção civil por soluções acústicas era ainda muito escasso. A
SOBRAC, Sociedade Brasileira de Acústica, é fundada em 1984. Em 2009 é criado, na
Universidade Federal de Santa Maria — RS, o primeiro curso de graduação em
Engenharia Acústica, e em 2010 a ProAcústica é fundada à partir da reunião de
profissionais e empresas interessados no desenvolvimento da Acústica no país. Claro
que essa é uma análise bastante simplista, não abarca diversos eventos importantes,
porém exemplifica a defasagem em relação a outros pólos de pesquisa e
desenvolvimento tecnológico.

Voltando nossos olhos ao presente, vemos coexistindo no mercado as grandes empresas


de consultoria em Acústica (que estão há décadas atuando em projetos e, portanto,
tornaram-se referência), pequenas e médias empresas formadas por pessoas experientes
e com grande conhecimento técnico, porém sem o tempo de mercado e volume de
projetos das maiores, e por fim as empresas que oferecem serviços de forma arbitraria,
sem tanto conhecimento técnico e que fazem volume no número de empresas que atuam
na área. Nesse cenário, vemos uma demanda por parte muito específica do mercado, e
uma grande parcela de segmentos que desconhecem a utilidade e aplicação dos
profissionais em Acústica, ao mesmo tempo que a Universidade tem lançado suas
primeiras turmas de formandos para o mercado de trabalho. Esses novos profissionais se
deparam então com um mercado que não está pronto para recebê-los.

E o que tudo isso tem a ver com open source?

Em termos de equipamentos, um par de empresas multinacionais possui a hegemonia


dos equipamentos Classe A utilizados pelos profissionais em suas tarefas cotidianas de
medições, caracterização acústica de fontes sonoras, entre outras aplicações. Da mesma
forma, os software disponíveis são escassos, e tanto eles quanto os hardwares
disponíveis possuem um valor de compra bastante alto, sobretudo para novos
profissionais e novas empresas que decidem se aventurar nas ondas sonoras e suas
diversas aplicações.

Nesse contexto, surgem algumas alternativas que se baseiam em distribuições de código


aberto e de desenvolvimento colaborativo, que apesar de ainda recentes e bastante
limitadas, se colocam como opção viável para o futuro da Acústica, quer no mercado,
quer na Academia.

As alternativas

É impossível listar em apenas um texto todos os projetos sendo desenvolvidos na área


da Acústica, sobretudo nos últimos 15 anos. São diversos módulos e toolboxes, que
cobrem uma gama diversa de aplicações (acústica submarina, processamento de sinais,
elementos finitos, Acústica de salas, auralização, etc.) para as mais variadas linguagens
de programação, uma aposta no “faça você mesmo” para aqueles que se aventuram a
programar. Comentaremos sobre dois projetos apenas: I-Simpa e PyTTA.

O I-Simpa começou a ser desenvolvido por uma equipe de pesquisadores do


Laboratório de Acústica Ambiental (LAE) do Instituto Francês de Ciência e Tecnologia
para o Transporte, Desenvolvimento e Redes (IFSTTAR). Inicialmente distribuído com
uma licença freeware, teve seu status posteriormente alterado para um projeto de código
aberto, e consistia numa ferramenta para pré e pós processamento de dados obtidos por
meio de códigos de cálculo de parâmetros acústicos. Basicamente é uma interface
gráfica desenvolvida para hospedar códigos tridimensionais para cálculos numéricos de
propagação sonora em geometrias complexas. O I-Simpa é instalado com dois códigos
de cálculo padrão, o TCR (Théorie Classique de la Réverbération) que é baseado na
teoria clássica de reverberação e o SPPS (Simulation de la Propagation de Particules
Sonores), um código de traçado de raios, baseado em abordagens geométricas,
energéticas e probabilísticas. Além desses dois, é possível adicionar diversos outros
códigos de cálculo numérico. Consiste hoje numa ferramenta bastante interessante, e o
melhor, livre, e assim se coloca como uma alternativa viável para a democratização da
Acústica como área de estudo e de atuação profissional.
Já o PyTTA é um módulo, criado em linguagem Python. Seu nome é abreviação de
Python in Technical Acoustics, e é um projeto brasileiro, desenvolvido por alunos e
professores da Universidade Federal de Santa Maria. Consiste num compilado de
funções úteis para realização de medições e de caracterização de sistemas/ambientes,
com aplicações semelhantes ao ITA toolbox desenvolvido pela RWTH (Aachen —
 Alemanha) para MATLAB. Segundo os próprios desenvolvedores:

O projeto começou como um esforço para criar um toolbox para aquisição e análise de
dados de áudio, acústica e vibrações, sem custos e com resultados de alta qualidade,
combinando a paixão por programação com a expertise em Acústica e Vibrações.

Percebemos que existe um movimento na Acústica, inclusive nacional, para tornar mais
acessíveis as ferramentas necessárias para a realização de trabalhos com qualidade,
precisão e acurácia. Esse movimento é necessário, viabiliza a inserção de profissionais
habilitados e capazes no mercado, que não conseguiram vagas nas empresas tradicionais
e hegemônicas. Essa inserção aumenta a concorrência e democratiza o acesso aos
serviços de Acústica, possibilitando então que essa ciência seja feita cada vez mais em
prol das pessoas (e não de algumas pessoas). Também colabora para o aumento da
conscientização acerca de ruído e vibrações, e de como isso afeta o cotidiano.