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FOURIER.

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

Gaucel e de seu ex-patrão (em Lyon) Bousquet. Em 1826 assumiu um posto na firma norte-americana Curtis &c Lamb, incumbindo-se da cor

respondência da filialparisiense,que porém foi fechada um ano e pouco

depois pela empresa. Aproveitava a execução da tarefa da redação de cartas comerciais

para escrever também cartas pessoais. Escreveu a numerosas personali dades, solicitando-lhes apoio financeiro para a experiência do falansté- rio. Encaminhou apelos, por exemplo, ao duque de Devonshire, inglês,

ao milionário norte-americando Rufus King, ao presidente de Santo Do

mingo, Boyer,à viúvade lorde Byron, a príncipesrussos,a GeorgeSand, Chateaubriand e Simón Bolívar. Não obteve nenhuma resposta.

Levava uma vida frugal. Comia em restaurantes baratos e bebia vi

nho ordinário (sempre resmungando que estava sendo envenenado).

Tomava uma xícara de café depois do jantar e gostava de jogar bilhar.

Permaneceu solteirão. Protegia cuidadosamente sua vida particular, sua

intimidade; contudo, há razões para crer que teve algumas ligaçõesamo rosas. Emile Lehouck chega a indicar o nome de uma de suas prováveis

namoradas, Louise Lacombe (Lehouck, 1978, p. 215).

Teve diversos endereços residenciais em Paris, todos próximo ao Palais-Royal, que o deslumbrou desde a primeira vez em que esteve na cidade, aos vinte anos de idade. Todas as suas habitações eram modestas. No último apartamento onde morou (e onde morreu) vivia cercado de

plantas e gatos. Os vizinhos e a porteira do prédio simpatizavam com ele, porém todos o achavam bizarro. O insuspeito Pellarin, que lhe de

dicava uma admiração imensa, informa que Fourier andava pela rua ^

falando sozinho (Pellarin, 1843, p. 177).

Escrevia muito, todos os dias. Atendendo a insistentes pedidos de

seus amigos, dedicou-sea preparar um resumo (abrégé) de sua doutrina.

O resumo se transformou no livro O novo mundo industrial, que saiu

em 1829. Na realidade, não era um mero resumo, porque trazia uma

importante inovação no seu pensamento: preocupado com a definição

de um caminho prático para a transição à nova sociedade, Fourier in

veste suas energias intelectuais no planejamento de um "falanstério" (palavra composta de "falange" e "monastério"), onde se realizaria a

12

VIDA

experiência da organização de um núcleo antecipador das novas condi

ções de vida. Essa experiência demonstraria aos contemporâneos as van-

tagens do novo modelo e, ao se multiplicar, promoveria a verdadeira

transformação da sociedade.

)

Em 1830, para divulgar o novo livro, Fourier lançou um folheto

intitulado"Anúnciodo novo mundo industrial". Mais uma vezse de

frontou com uma reação desfavorável. A revista católica Universel o

estigmatizou como "materialista" e "bufão". EnaReme Française uma

resenha não assinada equiparou-o a Saint-Simon e a Robert Owen, in

sinuando quea única coisa que o distinguia dos outros dois erao "estilo

grotesco" em que escrevia.

A resenha anônima da Revue Française foi a que mais aborreceu o

escritor, que detestou serposto nomesmo saco que OweneSaint-Simon.

Fourier atribuiu a perfídia a François Guizot, influente historiador e

político, que era colaborador regular da publicação. Sua raiva foi tão grande que ele nem chegou a se alegrar muito com o primeiro comen

tário favorável e bem fundamentado sobre o seu trabalho, que saiu no Mercam de France au XDíème Siècle, assinado por um novo discípulo:

Victor Considérant.

A concorrência das "seitas" de Saint-Simon e Owen o preocupava

cada vez mais. Num primeiro momento tinha ficado bem impressionado

com asiniciativas práticas de Owen na Inglaterra e chegou a seoferecer para assessorá-lo (o oferecimento foi delicadamente recusado). Depois de algumas conversas com saint-simonianos (Saint-Simon ti

nha morrido em 1825), leu uns poucos textos publicados por eles, com

pareceu a uma assembléia da "seita" e escreveu o panfleto Armadilhas e

charlatanismo das seitas de Saint-Simon e Owen, publicado em 1831.

Alguns entre os saint-simonianos estavam organizados de forma

coesa e centralizada, como uma "igreja", em torno da liderança de Pros- per Enfantin; outros, porém, preservavam sua autonomia, sua reflexão crítica. E dois intelectuais saint-simonianos independentes publicaram artigos nos quais divulgavam com simpatia as idéias de Fourier: Jules

Lechevalier e Abel Transon. O mestre nãoseentusiasmou, mas os discí

pulosficaram gratospelaajuda.

13

r-

'A Harmonia não homogeneizará, não pasteurizará os

prazeres, mas também não exacerbará artificialmente seus aspectos mais contraditórios, e com isso criará uma

situação muito diferente daquela que existe na civilização.

O tempo do prazer se modificará, adequando-se a novas

potencialidades humanas. As formas do prazer se

diversificarão, se multiplicarão, através de uma expansão

das expressões mais sutis do desejo, que atualmente

são cerceadas pela pressão do produtivismo,

pela perseguição obsessiva da 'rentabilidade' e pelas

contingências civilizadas."

Este talvez seja um dos raros casos de

um livro que engrandecesua orelha!

Foi com esse sentimento que recebi o gentil convite para escrevê-la, e é com

essacerteza que me dirijo ao leitor, na

condição de aprendiz que fala do livro

de seu mestre e amigo. Sim, porque

Leandro Konder não precisa de

apresentações. Filósofo tão conhecido

entre nós, pensador sem preconceitos,

sempre fiel a leituras não dogmáticas de

autores importantes, aberto a buscar o novo que ficara escondido em outras

épocas e sempre disposto a conhecer

idéias de autores pouco valorizados.

Leandro rejuvenesce as idéias, ensina que o novo se alimenta do velho e que

presente e futuro não prescindem de uma visão crítica do passado. E este

traço o leitor irá encontrar fortemente também neste livro sobre Fourier.

Leandro, filósofo, escritor e ensaísta, não abre mão da sua tarefa de professor

que faz mapas para nos aventurarmos

pela obra, freqüentá-la, descobrir

atalhos. Com este livro sobre Fourier,

o leitor pode conhecer a vida,

o pensamento e o legado desse bizarro

pensador francês que tem muito a dizer

sobre os anseios, desejos, temores,

crenças e utopias do mundo

contemporâneo, esse "socialista utópico"

em quem socialismo e utopia eram tão

específicos, mas que foi pioneiro em

vários aspectos do marxismo. Embora

não fosse revolucionário do ponto de

vista político, Fourier propunha

rupturas de costumes, preconceitos e

valores do seu tempo. Como situá-lo,

pergunta Leandro, no quadro das

posições de esquerda de que dispomos

hoje? Serão as atuais categorias

satisfatórias para dele formular um

juízo? Provavelmente não. Entretanto,

esse excêntrico filósofo que é Fourier,

com posições questionáveis e uma

teoria discutível, considerado louco por

alguns, pode — comsua vitalidade —

suscitar modos mais criativos e

bem-humorados de pensar a realidade

atual na sua ambigüidade e incoerência.

Todos aqueles que se atreveram um dia

—e ainda se atrevem —a sonhar com

uma sociedade mais generosa e

solidária, onde justiça social e fim de

qualquer tipo de opressão possam

conviver com desejo, paixão e harmonia;

todos os quese inquietam e teimam

em questionar o mundo e em buscar

alternativas devida mais humanas,

certamente encontrarão em Fourier, o

socialismo do prazer material para uma

profunda e instigante reflexão.

copo EvtlynGiumocli

•Imerocâo

Nillon Kanulho

Sônia Kramer

o do prazer

Fourier,

Leandro Kondi er

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Rio deJaneiro

1998

Brasil, Rio de Janeiro Graal ' 198n

1981 São Paulo, Brasiliense,

196S

1966 1967 1977 Brasileira Brasileira 19fi*

O*$£«, na batalha das idéias, Rio de Janeiro, Nova Fronteira,

1989

de Uvros,

Zahar, 1996 1996

de Janeiro '

Campus,

1994 ' ' 1992

EditoraMode™-

Oficina

Campus, Rio 1987.

SãoPaulo, PazeTerra,

Paz e Civilização Civilização Graal, Terra,

1995

São de Paulo, Jandrp,

Relume-Dumará,

Rio de Janeiro,

da democracia,

Janeiro, Relume-Dumará,

da melancolia,

eTerra

SãoPaulo, Brasiliense,

Janeiro,

Janeiro,

ApoexadeBrechteaHistória, Sã°PauJ°'

Janeiro,

marxismo, m°

Rio de Janeiro,

1980.

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Janeiro,

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Rio de de Janeiro,

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Rio

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da dialética,

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Rio

marxistas

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Campus,

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Iristan,

Introdução

Marx,v,da

DO AUTOR

Bartolomeu,

Marxismo

Intelectuais

Aderrota

hukács,

Kafka,

Barão

Flora

Os

>

I

I

COPYRIGHT OLeandro Konder, 1998.

CAPA

Evelyn Grumach

PROJETO GRÁFICO

EvelynGrumach

JoãodeSouza Leite

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS

Luiz Cavalcanti de Menezes Guerra

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Imagem Virtual

SS£2t CATAL0GACÃ0.NA-F0NTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. RJ.

KK.Íf

Kcimler. Leandro, I93fi-

FüurkT„socinlislm,lIopr.1Zer/LcaIldtoKonllcr-Ri„

tfcJaneiro: ClWItaçío Brasileira. 1998.

98-074!»

Inclui bibliografia

ISBN: K5-2(l()-()46fi^)

1 lü?* CI,,lr,,CS- ,772~m7- 2. Socialismo.

* t-ilosolia francesa.

I.Título.

CDD —194

CDU-1(44)

mK,o Branco 99 /20o andar, 20040-004, Rio de Janeiro RI Brasil

Telefone (021) 263-2082, Fax/ Vendas(021)263-4606

PEDIDOSPELOREEMBOLSOPOSTAL

Caixa Postal

23.052, RJ0 de Janeiro, RJ, 20922-970

Impressono Brasil

1998

dedicootrabalhoameufílho cSo

'

"*'"^ "•** E

"Oser humano razoável se adapta ao mundo

GEORGEBERNARDSHAW

do ser

^"oser

razoável." então, depende

não progresso,

a ele. Todo

humano

I

«

Sumário

INTRODUÇÃO

Vida

1- FONTES

1

3

xi

2. INFÂNCIA EJUVENTUDE

4

3. GÊNESE DA TEORIA

6

4- O PRIMEIRO LIVRO

7

5.

DA PROVÍNCIA A PARIS

9

6. AFALANGE EXPERIMENTAL

7. OS ÚLTIMOS ANOS

Pensamento

17

14

1•PENSAMENTOELINGUAGEM

2.AATRAÇÃOPASSIONAL

21

3. ACIVILIZAÇÃO EAS MULHERES

11

19

23

4. PERIODIZAÇÃO DO MOVIMENTO SOQAL 27

5. ASPAIXÕES

6. O AMOR

31

29

7. EROTISMO EGASTROSOFIA

8. AS "SÉRIES"

35

9.0FALANSTÉRIO

10.AEDUCAÇÃO

11.AHARMONIA

12.APERSPECTIVA

36

38

41

44

33

O legado

49

1.

2.

3.

NOSÉCULO XIX

NO SÉCULO XX

NOSÉCULO XXI?

FOURIER,

SI

56

59

Vitalidade

1. ARGUMENTOS

63

65

2.

O DESEJO

70

BIBLIOGRAFIA

75

O

SOCIALISMO

DO

PRAZEi

introdução

Onome de Charles Fourier está associado aduas palavras "explosivas"-

utópÍ oT 6****• EIe ' VÍSt° C°m° Um d°S CampeÕCS d° "S0dalism°

Opróprio Fourier, contudo, não se reconheceria nessa designação:

ele nao se apresentava como socialista efazia restrições àutopia

Onome "socialista" passou a ser usado nos anos trinta do século

XIX, quandoFourierestavavelho,eeraadotado, predominantemente,

pelos saint-simonianos, que ele considerava mistificadores.

Fourier se via como ura "descobridor'^como um «inventor", Para

ele os inventores não precisavam dispor de conhecimentos eruditos ou

de formação acadêmica. Afirmava: «Quanto mais um inventor for ile-

trado, incapaz de desenvolver de maneira adequada suas invenções, tan

to mais ««importante que ocorpo social lhe asseguremeios para pôS

a prova (OC X, p. 25). Estava convencido de que muitas vezes as

invenções ou descobertas se devem apessoas simples, como ele, que se

orgulhava de ser autodidata, um mero "caixeiro". Eadvertia- se as in

venções não forem aproveitadas, se as descobertas forem desmoralizadas

pela ironia dos eruditos, quemsairá perdendo será asociedade

passional

Agrande descoberta de Fourier, segundo ele, foi ada «lei da atração

Esua maior invenção foi a do caminho a ser seguido para

que, combase nessa lei, ahumanidade venha asuperar a«civilização"

e seja capaz de criara "Harmonia".

Como a referida invenção se inseriu no movimento histórico das

ide.associahstas,Fourieracabousendoinevitavelmenteconsideradopor

todo mundo um teórico socialista.

xi

>

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

A descoberta da "lei da atração passional", entretanto, lhe confere

características extremamente originais. Fourier demonstra uma notável

confiançanas paixões humanas, quer que opoder delas seja plenamente

liberado e rejeita qualquer repressão sobre seu desencadeamento. Não

admite que sofram pressões externas moderadoras. Diz: "Não é com

moderação que são feitas grandes coisas" (OC, I, p. 186).

Aenfática valorização das paixões manifesta, com certeza, a dimen

são romântica da perspectiva do filósofo "caixeiro". Dentro do movi

mento gerai do romantismo, contudo, sua posição é original. Michael

Lõwy e Robert Sayre o incluem no "socialismo utópico-humanista", ao

lado de Cabet, Pierre Leroux, Enfantin, George Sand e outros (Lõwy &

Sayre, 1993, p. 32). Mas sua inclusão nessa categoria genérica corre o risco de sacrificar elementos altamente peculiares do que ele criou de

mais especificamente significativo.

Temos boas razões para classificar Fourier como "humanista", po

rém devemos imediatamente lembrar que sua radical valorização da cria

tividade humana está ligada à vinculação do ser humano aos desígnios

de Deus eà Providência Divina. Eessa vinculação faz dele um humanista

bastante especial.

Temos também razões convincentes para classificá-lo como "utópi co". No entanto, não podemos deixar de registrar o fato de que ele

definia a utopia como "o sonho do bem sem meio de execução, sem método eficaz" (OC, XI, p. 356). Como estava absolutamente seguro

de ter um método eficaz e dispor do meio adequado, nada mais natural

que não se considerasse utópico.

A utopia, afinal, nasceu sob o signo da ambigüidade Na própria

origem da palavra se encontra um livro que expressa ao mesmo tempo

inconformismo e impotência: áUtopia, de Thomas Morus, denunciava

em 1516 a ociosidade parasitária da aristocracia e o culto burguês do dinheiro, combatia ao mesmo tempo o feudalismo ea lógica embrionária

do que viria a ser o capitalismo, porém não conseguia deixar de repro

duzir, no interior mesmo do protesto, algumas das características mais

repressivas do quadro institucional vigente (como, por exemplo, a acei

tação da escravidão).

INTRODUÇÃO

Na esteira do livro de Thomas Morus foram escritas Acidade do sol,

de Tommaso Campaneíla, eAnovaAtlântida, de Francis Bacon, nas quais

se manifesta a mesma ambigüidade: por um lado, aprofunda insatisfação "l

com a situação existente, com a organização da sociedade, com algumas

das características da ideologia dominante; por outro, a reprodução de

critérioscomprometidoscomaideologiacontestadaecomaestreitezados

horizontes da sociedade que estava sendo contestada.

No período que se segue à Revolução Francesa eno qual se realizam

importantes avanços na revolução industrial, a utopia começa a se re

vestir com as cores do socialismo moderno, sem perc^rluTcõnffadito-

riedade intrínseca. Esse movimento é perceptível na "Conjuração dos

Iguais", de Gracchus Babeuf, com sua proposta de uma "última revolu-

Ção"_capaz de impor a igualdade política e sócio-econÔmícITèTper-

ceptível também na trajetória de Henri de

Saint-Simon, que é levado a

conclamar os cidadãos a uma reorganização econômica da sociedade

através de reformas adequadas a promover o progresso.

Em Babeuf, a generosidade do programa igualitário tinha como con

trapartida um programa ditatorial de confiscos e violência repressiva,

que deveria ser posto em prática inexoravelmente por uma liderança5

revolucionáriaascética, abnegada,comcaracterísticasquepoderiamres

valar para o fanatismo.

Em Saint-Simon, o esforço no sentido de isolar os parasitas da Corte

a cúpula da hierarquia eclesiástica e os grandes

proprietários de terras, leva oreformador a misturar numa mobilização

e da alta Magistratura,

conjunta os trabalhadores e os empresários, as mulheres e os grandes

comerciantes, os lojistas e os

banqueiros.

Fourier divergia radicalmente tanto da proposta de revolução política

de Babeuf como do programa reformista de Saint-Simon. Contudo, por

mais enfático que tenha sido na expressão de suas divergências, o nosso

caixeiro-filósofo acabou sendo posto ao lado daqueles que criticava com

aspereza: aos olhos da imensa maioria dos seus contemporâneos e, mais ainda, aos olhosdasgeraçõessubseqüentes, elefoi visto comoelaborador

de uma utopia. Foi incluído entre os "socialistas utópicos".

xiii

è

-.

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

Quando nosdefrontamos hoje com essa designação, somos levados

a associá-la a algumas das nossasapreensões mais vivas.

O conceito de "socialismo" está sendo rediscutido à luzda extinção

da experiência soviética, do colapso do "marxismo-leninismo", da crise dasexperiências empreendidas pelossocialistas aolongodo século XX. O conceito de"utopia"também estásendoreavaliado soba pressão

dos que temem as conseqüências das tentativas de realização dos sonhos

e a violência daqueles que se dispõem a acarretar grandes sacrifícios em

nome daconcretização de ideais sublimes. Alguns críticos sustentam que

na utopia se manifesta, mais do que uma impossibilidade prática, uma

impossibilidade conceituai (Berlim, 1991). Muitas pessoas se perguntam: os utopistas não tendem a se tornar

intolerantes e autoritários em face daqueles que não os acompanham

nas tentativas de efetivarem suas quimeras? Os socialistas não acabam

sobrepondo seu compromisso com a "sociedade nova" ao respeito aos

princípios democráticos na sociedade atualimperfeita?

As condições em que os socialistas atuam hoje são extremamente

delicadas. Para ter eficácia, um projeto transformador comprometido

com a superação dasinjustiças precisa levar emcontamúltiplas objeções,

numerosas dúvidas.

Nessas condições, somos levados a indagar: o que teria a teoria de Fourier a nos oferecer, nasbatalhas que estamos travando, emcircunstân

ciasmuito distintas daquelasem que ele se encontrava há dois séculos?

A resposta a essa pergunta não é nada fácil. Uma leitura honesta dos

textos de Fourierapresenta para nós enormesdificuldades. Àsvezes ele

parece, decididamente, incompreensível. Eemalgumas ocasiões o leitor contemporâneo pode passar por um trechopitoresco e ser levado a ter

a impressão equivocada de que o entendeu, sem contudo tê-lo efetiva

mente digerido, pondo-o em conexão com outras passagens capazes de

esclarecê-lo.

O filósofo húngaro Georg Lukács, em seu último livro, Aontologia

o fato de que

do ser social, no volume dedicado a Hegel, advertia para

uma boa leitura do pensador francês precisaria averiguar o que está no

fundo dassuas "generalizações insólitas". Esugeria: "Uma análise crítica

X i V

INTRODUÇÃO

filosófica das categorias presentes na concepção econômico-social que

Fourier tinha do presente seria uma das tarefas mais importantes e mais atuais da história da filosofia do século XIX" (Lukács, 1971).

Talvez o desafio ainda seja mais sério do que Lukács reconheceu: é

possível que, para chegarmos a compreender o nosso autor em profun

didade, sejamos obrigados a decifrar não só as categorias econômico-so-

ciais que ele utilizou, mas também o que está por trás de suas fantasiosas

categorias cosmológicas.

Fourier émuito desconcertante. Sua obra tem comportado leituras

diversas, contraditórias. Muitos críticos recuaramdiante dela, descarta ram-na, preferiram não comentá-la. Há casos em que aqueles que en

travam em contato com as idéias de Fourier se limitaram a rir delas.

Existem cronistas que extraíram das insólitas concepções matéria para

crônicas bem-humoradas. Opoeta brasileiro Olavo Bilac, numa crônica

de 1907, falou de uma rua tranqüila do Rio de Janeiro que era lugar de reunião de cachorros felizes, de todos os tipos, e acrescentou: "Aquela rua era o falanstério dos cachorros. Fourier, se a visse, teria a satisfação

de ver, realizada por cachorros, a bela idéia que não viu realizada por

homens. Ali, de fato, de acordo com a doutrina fourierista, capital, tra

balho e talento eram comuns" (Bilac, 1996, p. 765). Alguns escritores (como Flaubert eRalph Waldo Emerson) abomi

naram a doutrina. Outros —poucos! —entusiasmaram-se com ela. Da

niel Guérin chegou a sustentar que as bases da revolução sexual lançada

por Fourier são tão audaciosas que, comparados com ele, Freud e Wi-

Iliclm Reich quase parecem tímidos (Guérin, 1975, p. 13). Ainda que Daniel Guérin possa ter exagerado, sua avaliação dá con

ta da radicalidade do ímpeto inovador de Fourier. Eé curioso que um pensador que recusava firmemente qualquer idéia de revolução política

(como está claro na crítica feita a Babeuf) chegue a ser

encarado na nossa

('•poça comoumadrástica expressão de revolucionarismo.

Como poderíamos situar Fourier nos quadros conceituais elaborados

para o mapeamento das posições teóricas

da esquerda na situação atual?

"~\

Podemos, de algum modo, considerar satisfatórias as categorias de

XV

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

que dispomos para formular um juízo global sobre a filosofia desse pen

sador?

O crítico português Ernesto Sampaio, no prefácio que escreveu para uma antologia, afirmou: "Fourier é insuscetível de reabilitação porque está fora de todos os discursos dominantes do nosso tempo" (Sampaio,

1996, p.9). Aafirmação deixa prudentemente aberta a possibilidade de um resgate feito a partir de um "discurso" radical de oposição não ab

sorvido pelos critérios dominantes. No entanto, não podemos deixar de

formular para nós mesmos uma questão que vai além daquela que foi

abordada pelo crítico português: em que consistiria o "discurso" con- testador capaz de resgatar Fourier hoje? Decididamente, Fourier nos escapa. Somos obrigados a reconhecer

que não podemos confiar inteiramente no mapa que utilizamos para

atravessar o território do seu pensamento.

Vida

O presente livro tenta proporcionar aos leitores alguns elementos

para um maior contato com o "enigma Fourier", sem alimentar a pre

tensão de "decifrá-lo".

A primeira parte está dedicada a relembrar algumas experiências vi

vidas que marcam a trajetória do filósofo. Na segunda parte é abordado

o movimento do seu pensamento. Aterceira ea quarta partetentam refletir

sobre oseu legado esobre avitalidade que podevir ater asuacontribuição

para os debates filosóficos dos socialistas contemporâneos.

De maneira geral, acabei aceitando a caracterização do pensador como um "socialista utópico", mas procurei mostrar em que consiste a especificidade da "utopia" em Fourier e me empenhei em reconstituir a

originalidade da sua fundamentação teórica de um socialismo do prazer.

xvi

I. FONTES

Informações sobre a vida de François Marie Charles Fourier podem ser

obtidas principalmente através da leitura de três livros.

0 primeiro se intitula Charles Fourier, sa vie et ses théories. Seu

amor, Charles Pellarin, era discípulo de Fourier e lançou a obra em 1838

pia Ltbrairie de 1'école sociétaire. Cinco anos depois (em 1843) saiu

mn.i segunda edição revista

e ampliada. Éum trabalho prejudicado por

. «ria ingenuidade, presente na preocupação de sublinhar as qualidades

«lu mestre, omitindo esuprimindo fatos ecircunstâncias que pudessem

parecer um tanto excessivamente perturbadores aos olhos de um amplo

publico leitor. Apesar disso, é um texto pioneiro e uma preciosa fonte

•Ir informações. Asegunda edição, em especial, utiliza dados extraídos

íkfl cartas trocadas entre Fourier eseu mais antigo discípulo, Just Mui-

»on, uma correspondência que depois se perdeu e não pode mais ser

<iinsultada.

0

segundo é Vie de Charles Fourier, tem como subtítulo Uhomme

éms sa vérité, é de autoria de Émile Lehouck e foi editado por De-

nnrl/Gonthier em 1978. Beneficia-se de um maior distanciamento em

COkçao ao biografado e aproveita a nova perspectiva histórica criada a l mi i ir dos anos sessenta. Sem idealizar Fourier, Lehouck se debruça sobre

iwpcetos do personagem que Pellarin resistia a enxergar,

positivamente as "excentricidades" e a "desmesura".

valorizando-lhe

Eo terceiro, Charles Fourier, the Visionaryandhis World, resultou

(lê urna pesquisa realizada ao longo de mais de vinte anos pelo professor

Dl I] «--americano Jonathan Beecher: foi lançado em 1986 pela University

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

of Califórnia Presse é a mais completa biografia disponível do escritor francês. Beecherassumesuaadmiração por Fourier,maspropõe, a partir do exame da trajetória do seu biografado, algumas questões que vão além daquelas com que Lehouck já se havia defrontado. Nas páginas que se seguem utilizamos dados colhidos nesses três

livros.

2. INFÂNCIA E JUVENTUDE

François Marie Charles Fourier nasceu no dia 7 de abril de 1772, em

Besançon, uma cidade atrasada, que tinha na época cerca de 35 mil

habitantes. Na região, a maior proprietária de terras era a IgrejaCató

lica.Aolongo do séculoXVIIIBesançonse mantevefechada à influência do iluminismo e repeliu as inquietações e inovações teóricas trazidas pelas "Luzesda Razão". Balzac, em seu romanceAlbert Savarus, diz que

"nenhuma cidade ofereceu uma resistência mais surda e mais muda ao

progresso".

Os pais de Charles Fourier (essefoi, afinal, o nome com que passou

a ser chamado) eram abastados. O pai, de quem herdou o nome, cha

mava-se Charles Fourrier (com dois "erres"; só mais tarde é que o filho

suprimiria um "erre" do sobrenome): era um comerciante próspero, morava num casarão de três andares na principal rua da cidade. Morreu

em 1781, aos 49 anos de idade. O filho,então, ficouórfão de pai antes

de completar dez anos. A mãe, Marie Muguet, vinha de uma família de comerciantes ricos e era umasenhora muito católica,muito conservadora.Alémde Charles,

transformado no único varão da casa, a viúva tinha quatro filhas, as

irmãs do futuro escritor, que se chamavamMariette, Antoinette, Lubine

e Sophie.

Sabe-se pouquíssimo da infância de Charles. Pellarin relata alguns

episódios edificantessobreatitudescorajosas tomadaspelo garoto fran zino emluta contra meninosmaiores, valentões, sempre defendendoos

VIDA

mais fracos. Mais confiáveis parecem ser as informações proporcionadas

pelo próprio Fourier, anos mais tarde, quando recorda momentos da sua

revolta infantil contra aqueles que oobrigavamacomer coisas que ele

abominava, como nabo e alho-poró.

Desde cedo Charles manifestou sua repulsa ao comércio, que era a

profissão de seu pai eà qual ele estava destinado segundo o testamento

paterno. Desde cedo também ele deixou transparecer sua desconfiança

em relação à estreiteza do catolicismo adotado por sua mãe (comaqual,

entretanto, evitava polemizar).

Para escapar ao comércio, pretendeu estudar engenharia na Escola

Militar de Mézières, mas o ingresso não lhe foi autorizado porque se

tratava de uma instituição destinada exclusivamente aos descendentes

de nobres. Pensou também em estudar direito na Universidade de Be sançon, mas logo se convenceu de que as disciplinas jurídicas não lhe

despertavam nenhum interesse.

Acabou portanto empurrado para as atividades comerciais, que não lhe agradavam. Com o dinheiro que recebeu da herança do pai, tratou

de fazer negócios, comprando mercadorias para revendê-las.

Suas operações mercantis coincidiram, contudo, com os anos agita

dos da Revolução Francesa. Há indícios de que Charles acompanhou

inicialmente comsimpatiaainsurreição popular eomovimentoque pôs

fim à monarquia. Logo, porém, os conflitos se generalizaram, a guerra

civil se espalhou por todo o território francês eo jovem comerciante se

viu envolvido nas ações militares.

Em 1793, aos 21 anos de idade, estava em Lyon para receber um

carregamento de açúcar, café, arroz e algodão, que vinha de Marseille,

quando se desencadeou na cidade uma rebelião contra ogoverno repu

blicano de Paris, sob a liderança do general monarquista Précy. Para sua

maisvivairritação, Charlesfoi compulsoriamenterecrutadopelastropas

rebeladas esuas mercadorias foram confiscadas eusadas nos hospitais.

Poucos meses depois os sublevados foram derrotados ese renderam,

de modo que Charles passou a ser prisioneiro das forças republicanas

vitoriosas. Conseguiu convencer seus captores de que era inocente, havia

sido mobilizado contra asua vontade, porém continuou a ser conside-

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posto sob vigilância, sujeito a perquisições

Acabou sendo recrutado novamente e mandado para participar da

campanha militar do exército republicano na Alemanha, na região do

rado suspeito de traição e foi

policiais.

Reno, onde permaneceu algum tempo, em 1794-1795, até dar baixa por

deficiências de saúde.

3. GÊNESE DA TEORIA

Aquela altura dos acontecimentos não podia retomar os negócios que

empreendia por conta própria, porque estava sem capital: além da perda

das mercadorias confiscadas em Lyon, tinha perdido outra parte da sua

herança em mercadorias importadas que estavam a bordo de um navio

que naufragou perto do porto de Livorno, na Itália.

Decidiu então trabalhar para um comerciante, Bousquet, em con

dições que lhe permitiriam, como uma espécie de caixeiro-viajante, fazer

algo de que gostava: viajar.

Estava convencido de que a Revolução Francesa tinha sido um equí

voco. Partindo da percepção lúcida e aguda de que era preciso transfor

mar a sociedade, porque os seres humanos estavam submetidos à pressão

de instituições injustificáveis, os revolucionários haviam metido os pés

pelas mãos e tinham acabado por não mudar coisa alguma. Analisando as relações do escritor com a Revolução Francesa, Émile

Lehouck, no clima de entusiasmo "esquerdista" de alguns ativistas po

líticos dos anos sessenta esetenta, chegou asustentar que "Fourier sim plesmente ultrapassou a Revolução pela esquerda", porque "descobriu

que o reformismo não levava a nada" (Lehouck, 1978, pp. 62 e 79). Na

realidade, as coisas nãose passaram exatamente como Lehouck as ca

racterizou. Se, por um lado, Fourier, no plano ideal, tinha exigências

mais radicais do que aquelas que predominaram na condução do pro

cesso revolucionário, não devemos ignorar que, por outro lado, no pla no estritamente político, ele não tinha nenhum programa definido que

VI DA

o pusesse à esquerda dos jacobinos ou da "Conjuração dos Iguais" lide

rada por Gracchus Babeuf.

Fourier se torna descrente em relação à luta política, em geral, tal

como era praticada; e se dispõe a buscar ocaminho pelo qual a impres

cindível transformação da sociedade poderia se viabilizar. No final do

século XVIII, ele, de fato, estava empenhado em avaliar as causas da situação em que se encontrava a humanidade, uma situação que lhe

parecia profundamente deplorável.

Em 1799, na época em que Hegel está formulando em Frankfurt a

idéia básica da sua dialética (a busca de uma razão que fosse "a união da

união e da desunião"),

Fourier, sem conhecimento algum do que o seu

contemporâneo estava fazendo, faz a descoberta do princípio daquilo

que ele desenvolveria em seguida como a sua crítica à "civilização".

Opróprio Fourier narra de maneira pitoresca o incidente em que

ele fez a sua descoberta: num restaurante, ao pagar uma conta, ele des

cobriu que a maçã que havia sido comida por seu amigo e eventual

companheiro de mesa vinha de Besançon; e que em Paris ela custava

mais de cem vezes o que valia na sua terra de origem. "Tal como para

Newton, uma maçã se tornou para mim uma bússola capaz de orientar

meus cálculos" (OC, X, p. 17). Essa maçã é considerada "digna de se

tornar famosa". Éincluída entre as "quatro maçãs célebres, duas pelos desastres que causaram, ade Adão eade Paris, eduas pelos serviços que

prestaram à ciência, a de Newton ea minha" (OC, X, p. 17). Fourier

afirma que foi a partir da "sua" maçã que se deu conta da "desordem

fundamental do mecanismo industrial" e começou a desenvolver sua denúncia sistemática dos males inerentes à"civilização".

4. 0 PRIMEIRO LIVRO

Como não tinha condiçõespara comerciar por conta própria, passou a

trabalhar para FrançoisAntoine Bousquet. Como "commis voyageuf,

viajava muito e tinha a satisfação de conversar com "gente comum",'

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FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

pessoas que conhecia por acaso nas diligências e nos refeitórios onde

comia. Maistarde escreveria: "Setive êxito no estudo da atração, devo isso em parte ao cuidado com que observei as pessoas comuns, ao fato

de ter me colocado em lugares de onde podia ouvir as conversasdelas"

(OC, VIII, p. 189).

Quando não estava viajando,comparecia pontualmente ao escritó rio do seu patrão, ajudava-o na contabilidade. E cultivava em Lyon um círculo de amigos com os quais se divertia e aos quais expunha suas idéias. Os companheiros — entre os quais estavam Henri Brun,J. B.

Dumas, J. B. Gaucel, Louis Desarbres e Aimé Martin— ficavam impres

sionados com as teorias que lhes eram expostas, mas não chegavam a

aderir a elas.

Em 1803 Fourier começou a publicar alguns artigos no jornal Bul-

letin deLyon. Pela primeira vezpassou a exporpor escrito algumas das

suas idéias. Afiançava que a "civilização" não era o destino da humani dade e simuma forma particular de organização da vida em sociedade,

uma forma que estava impedindo os seres humanos de se relacionarem

de modo harmônico uns com os outros e todos com a natureza. Insistiu

na tese de que Deus regia o mundo não pela coerção e sim pela "lei da

atração universal". Assim como no cosmo os astros se mantinham em

equilíbrio porqueeram atraídos unspelosoutros,a sociedade precisava

alcançar seu equilíbrio através de um sistema — a "Harmonia" — no

qualosindivíduos pudessem liberartodasas suas paixões, que"natural

mente" se equilibrariam umas às outras.

As teorias provocaram algumasreaçõesirritadas. Leitores do jornal

fizeram pelaprimeira veza Fourier umaacusação que eleviriaa enfren

tar muitas vezes: a de que era louco. O escritor respondeu lembrando

orgulhosamente que Colombo e Galileu também haviam sido conside

rados malucos.

Fourierse gabava deconhecerbema geografia da Europa, que havia

estudado na escola, mas também ao longo de suas múltiplas viagens. Apoiado emseus conhecimentos geográficos, também se animava a opi

nar sobrequestõesestratégicas (afinal, conhecia o exército por dentro).

E, ao dar seus palpites, suscitava desconfiança nasautoridades, quesus

VIDA

peitavam (sem razão) que eleestivesse fazendo críticas veladas aos diri

gentes das campanhasnapoleônicas.

Ao que tudo indica Fourier não era adepto da política de Napoleão,

porém não se pode dizer que fosse hostil a ele. Em alguns momentos

dava a impressão de que o autoritarismo bonapartista poderia encami

nhar transformações sociais importantes, que talvez ajudassemaprepa

rar o terreno para a criação da "Harmonia".

Quando Napoleão foi derrotado, em 1814, Fourier fez uma tenta

tiva de entrar em contato com ele, através de uma carta que foi inter

ceptada. O conde Beugnot, ministro da Polícia, mandou seus agentes prenderem e interrogarem o escritor; depois de receber o relatório, po

rém, comunicou ao rei Luís XVIII que mandara soltar o elemento, por

quesetratavade "um visionário, um maluco inofensivo".

Fourier teve problemas tanto com a polícia do imperador (na era

napoleônica) quanto com a polícia do rei (na época da restauração mo

nárquica).

Em 1807 terminou de escrever e em seguida publicou seu primeiro

livro, intitulado Ateoria dos quatro movimentos. Apesar dos esforços

do autor e de seus amigos, vendeu pouquíssimo. Um livreiro observou

que o título não ajudava, dava a impressão de que era um livro de ma

temática. Beecher diz que é"o mais obscuro e enigmático dos trabalhos

deFourier" (Beecher, 1986, p. 116). Acrítica foi devastadora: umrese-

nhador escreveu que se tratava com certeza de um texto redigido no

hospícioeoutro pediu uma imediata intervenção doMinistério daSaúde

Pública para internar o doente.

5. DA PROVÍNCIA A PARIS

Fourier, desgostoso, passou vários anos sempublicarcoisa alguma. Com

a morte de sua mãe, em 1812, herdou algum dinheiro e deixou seu

trabalho na firma de Bousquet. Mudou-se para a região onde viviam

duas das suas irmãs, procurando se reaproximar delas e de suas sobri-

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FOURIER,

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SOCIALISMO

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nhas. De 1816a 1820 viveu em casa delas. Foium período de intensos

estudos. Escreveu todo um livro sobre as atrações amorosas e sexuais

entre as pessoas na "Harmonia", procurando determinar em que con

dições seria possível assegurar um patamarrazoável de satisfação eróti

ca, no futuro, para todos os indivíduos, homens e mulheres, jovens e

velhos. Esse texto — O novo mundo amoroso — permaneceu inédito

até 1967,quando foi finalmente publicado por Simone Debout.

Além disso empenhou-se na preparação de umnovo livro, queviria a sairem 1822,como títulodeTratado daassociação doméstica-agrícola

(e que mais tarde viria a ser reeditado com o título de Teoria da unidade

universal). Mas também foi um período de conflitoscom sua sobrinha

Hortense, filha da irmã Mariette: embora defendesse o amor livre e o

direito das mulheres ao prazer, Fourier ficou chocado com o fato de que

a solteiraHortense, na ausência da mãe, passasse as noitesfora de casa.

Segundo informação de Pellarin, em 1816 o escritor tinha umplano de trabalho que o deveria levar a escrever nove volumes, que teriam,

respectivamente, os seguintes temas: 1)a doutrinaabstratada atraçãoe das paixões; 2) a síntese da atração e dos equilíbrios; 3) a análise das

doze paixões fundamentais dos seres humanos e dos 810 caráteres que

eles podem ter; 4) a síntese do método e a teoria da transcendência; 5)

a análise crítica docomércio mentiroso edaconcorrência complicadora;

6) o exame da contramarcha das paixões; 7) a teoria da analogia uni versal e da cosmogonia aplicada; 8) a teoriaintegral da imortalidade da

alma; e 9) um repertório e dicionário.

Nosanos queseseguiram à elaboração desse plano Fourier foi pro

curado por um funcionário público que havia lido sua Teoria dos quatro

movimentos e ficara fascinado: Just Muiron, quesetornouseuprimeiro

discípulo. Como Muiron era completamente surdo e não conseguia fa

zer leitura labial ou falar

com clareza, o mestre e o discípulo se comu

nicavam por escrito, através decartase bilhetes, mesmo quandoestavam

frente a frente.

O ambiente político na França estava muito tenso. A monarquia

restaurada se sentia ameaçada. O assassinato do duque de Berry,

tante figura na sucessão dinástica, foi seguido por uma ondade repres-

impor

10

VIDA

são. O poeta Béranger foi processado. Henri de Saint-Simon, que logo

se tornaria uma celebridade e viria a ser considerado um dos expoentes

do "socialismo utópico", foi acusado como "inspirador" do crime. A Fourier teve medo de que o seu Tratado da associação doméstica-

censura se tornou mais severa.

agrícola fosse proibido. Just Muiron levou os originais para serem sub

metidos a uma censura prévia e o censor opinou: "A leitura de tão es

tranhos paradoxos apresenta tantas dificuldades que olivro não pode

ser considerado perigoso."

OTratado, então, foi publicado. Apublicação, entretanto, não foi

um sucesso. Quatro resenhas saíram na imprensa. Os resenhadores não

foram tão hostis como os que haviam comentado o livro publicado an

teriormente, mas assumiram um tom condescendente, irônico, e inter pretaram a obra como uma espécie de sátira. Essa interpretação não

agradou nem um pouco ao autor.

Fourier decidiu se instalar em Paris a partir de 1823 para cuidar pessoalmente da divulgação de suas idéias e de seus escritos, em contato

direto com os livreiros e algumas personalidades da capital. Redigiu um folheto intitulado "Sumários eanúncio do Tratado da associação domés

tica-agrícola", insistindo na seriedade de seus propósitos e reclamando

da falta de seriedade dos jornalistas: distribuiu-o a inúmeras pessoas, encaminhando-o através de cartas personalizadas. Oesforço foi inútil; aesmagadora maioria dos destinatários não respondeu às cartas eos que

responderam não manifestaram em geral interesse pela obra. O autor

comunicou melancolicamente ao amigo Muiron que a ofensiva propa-

gandística resultará na venda de três exemplares do Tratado.

6. A FALANGE EXPERIMENTAL

Como seu patrimônio tinha ficado reduzido, retomou as atividades co merciais, que abominava, mas podiam assegurar sua subsistência. Para

sobreviver em Paris contou inicialmente com a ajuda de Muiron, de

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Gaucel e de seu ex-patrão (em Lyon) Bousquet. Em 1826 assumiu um posto na firma norte-americana Curtis 8c Lamb, incumbindo-se da cor

respondência da filialparisiense,que porém foi fechada um ano e pouco depois pela empresa. Aproveitava a execução da tarefa da redação de cartas comerciais

para escrever também cartas pessoais. Escreveu a numerosas personali

dades, solicitando-lhesapoio financeiro para a experiência do falansté-

rio. Encaminhou apelos, por exemplo, ao duquede Devonshire, inglês,

ao milionário norte-americando Rufus King,ao presidente de Santo Do

mingo, Boyer,à viúvade lorde Byron, a príncipesrussos,a George Sand, Chateaubriand e Simón Bolívar. Não obteve nenhuma resposta. Levava uma vida frugal. Comia em restaurantes baratos e bebia vi nho ordinário (sempre resmungando que estava sendo envenenado). Tomava uma xícara de café depois do jantar e gostava de jogar bilhar.

Permaneceu solteirão. Protegia cuidadosamente sua vida particular, sua

intimidade; contudo, há razõespara crer que tevealgumasligaçõesamo

rosas. Emile Lehouck chega a indicar o nome de uma de suas prováveis namoradas, Louise Lacombe (Lehouck, 1978, p. 215). Teve diversos endereços residenciais em Paris, todos próximo ao

Palais-Royal, que o deslumbrou desde a primeira vez em que esteve na

cidade, aos vinte anos de idade. Todas as suashabitações eram modestas. No último apartamento onde morou (e onde morreu) vivia cercado de plantas e gatos. Os vizinhos e a porteira do prédio simpatizavam com ele, porém todos o achavam bizarro. O insuspeito Pellarin, que lhe de

dicava uma admiração imensa, informa que Fourier andava pela rua falando sozinho (Pellarin, 1843, p. 177).

Escrevia muito, todos os dias. Atendendo a insistentes pedidos de

seus amigos,dedicou-sea preparar um resumo (abrégé) de sua doutrina.

O resumo se transformou no livro O novo mundo industrial, que saiu

em 1829. Na realidade, não era um mero resumo, porque trazia uma !

importante inovação no seu pensamento: preocupado com a definição de um caminho prático para a transição à nova sociedade, Fourier in veste suas energias intelectuais no planejamento de um "falanstério"

(palavra composta de "falange" e "monastério"), onde se realizaria a

1

2

VIDA

experiência da organização de um núcleo antecipador das novas condi

ções de vida. Essa experiência demonstraria aos contemporâneos as van-

tügens do novo modelo e, ao se multiplicar, promoveria a verdadeira

transformação da sociedade.

Em 1830, para divulgar o novo livro, Fourier lançou um folheto

intitulado "Anúncio do novo mundo industrial". Mais uma vez se de

frontou com uma reação desfavorável. A revista católica Universel o

estigmatizou como "materialista" e "bufão". E na Revue Française uma

resenha não assinada equiparou-o a Saint-Simon e a Robert Owen, in

sinuando quea única coisa que o distinguia dosoutros dois erao "estilo

grotesco" em que escrevia.

A resenha anônima daRevue Française foi a que mais aborreceu o escritor, que detestou ser posto no mesmo saco que Owen e Saint-Simon.

Fourier atribuiu a perfídia a François Guizot, influente historiador e

político, que era colaborador regular da publicação. Sua raiva foi tão

grande que ele nem chegou a se alegrar muito com o primeiro comen tário favorável e bem fundamentado sobre o seu trabalho, que saiu no

Mercure de France au XDÍème Siècle, assinado por um novo discípulo:

Victor Considérant.

Aconcorrência das "seitas" de Saint-Simon e Owen o preocupava

cada vez mais. Num primeiro momento tinha ficado bem impressionado

com as iniciativas práticas de

Owen na Inglaterra e chegou a se oferecer /

para assessorá-lo (o oferecimento foi delicadamente recusado).

Depois de algumas conversas com saint-simonianos (Saint-Simon ti

nha morrido em 1825), leu uns poucos textos publicados por eles, com

pareceu a uma assembléia da "seita" e escreveu o panfleto Armadilhas e

charlatanismo das seitas de Saint-Simon e Owen, publicado em 1831.

Alguns entre os saint-simonianos estavam organizados de forma

coesa e centralizada, como uma "igreja", em torno da liderança de Pros-

per Enfantin; outros, porém, preservavam sua autonomia, sua reflexão

crítica. E dois intelectuais saint-simonianos independentes publicaram

artigos nos quais divulgavam com simpatia as idéias de Fourier: Jules

Lechevalier e Abel Transon. O mestre não se entusiasmou, mas os discí

pulos ficaram gratospelaajuda.

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7. OS ÚLTIMOS ANOS

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Pouco a poucoo escritor começava a atrair ummaior númerode leitores

e admiradores. Diversas mulheres, impressionadas com a denúnciados

prejuízos que a "civilização" acarretava para o sexo feminino, aproxi

mavam-se do teórico da "Harmonia": ClarisseVigoureux,LouiseCour-

voisier, Desirée Veret, Flora Tristan, etc. Também alguns jovens de ou

tros países vierambaterà suaporta e depoisdivulgaram suasconcepções

em seus respectivos países de origem, como Albert Brisbane (Estados

Unidos daAmérica do Norte), HughDoherty(Inglaterra), Ludwig Gall

(Alemanha), Giuseppe Bucelatti (Itália) e TeodorDiamant (Romênia). Formou-se um núcleo de "fourieristas" que começou a editarum se manário, intitulado O Falanstério. Fourier encaminhava artigos para a

publicação, mas osseus seguidores nãoapreciavam suacolaboração. Ten

taram emvãoconvencê-lo a se expressar num estilo mais acessível, mais

simples, mais jornalístico. Pediram-lhe inutilmente que não insistisse nas

ásperas críticas que fazia aos saint-simonianos. O resultado desse empenho

foi queo mestre se irritou com os discípulos; e, numa cartaao editorda

Gazette deFrance, fez questãode esclarecer, emdezembrode 1835: "Nun

ca aceitei o termo fourieristà" (Beecher,1986, p. 487).

Para Fourier, suas teorias precisavam passar pelotestede umaapli

cação prática parafinalmente demonstrarem para todoo mundo o acer

to e a seriedade do seu pensamento. A experiência da "falangeexperi

mental" ou "falanstério" seria decisiva.

Em 1832 articulou-seuma tentativa de organizar o primeiro falans

tério. Baudet-Dulary, umdeputadoda região deSeine et Oise, cedeuum

terreno em Condé-sur-Vesgre e se dispôs a financiar parte das obras

necessárias. O jornal lançou uma campanha para arrecadar os recursos

quefaltavam. Noentanto, oempreendimento passou asedefrontar com

dificuldades cada vez maiores. O arquiteto Gengembre não gostava da

idéia de se fazer "ruas-galerias" no vasto prédio onde se instalariam os

pioneiros e Fourier insistia nadefesa dasuaconcepção (acabou achando que o arquiteto era um sabotador). O dinheiro arrecadado pelo jornal

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VIDA

foi insuficiente e Baudet-Dulary, depois de gastar mais do que havia

prometido, resolveususpenderseu financiamento. Atentativa fracassou.

Nova tentativa se fez na Romênia. O discípulo Teodor Diamant

conseguiu convencer um certo Manolaite Emanuel Balaceanu a financiar

a experiência em terras que lhe pertenciam. Não se sabe exatamente o

que aconteceu, mas o empreendimento não deslanchou e Diamant es creveu a Fourier, em 1836, se queixando amargamente do outro (Bee

cher, 1986, p. 483).

Fouriernão desistia. Até o fim procurava um patrocinador. Como disse francamente a Muiron, estava convencido deque um "grande pro

tetor" era preferível a "cem pigmeus". Enquantopôde, enviou cartasa

grandes personalidades, homens ricose poderosos, dirigentes políticos

de diversas filiações partidárias. Tinha vivido noAncien Regime, na Re volução, no Império, na Restauração Monárquica e nos seus últimos anos viviasob o governodo "rei-cidadão"Louis-Philippe, entronizado

cm 1830. Achava que nada de essencial havia se modificado e que a

sociedade só se transformaria, de fato, quando fosse encaminhada a

superação da "civilização", de acordo comas teorias que expunha.

Em 1834 entregou-se à redação de uma carta aos deputados e aca

bou redigindo outro livro, que foi publicado em seguida: A. falsa indús

tria. Era um apelo veemente à mudança. O escritor Michel Butor, 136 anos mais tarde, o caracterizaria como a mensagem de uma garrafa lan çada ao mar por um náufrago (Butor, 1970). Sua saúde se tornou extremamente precária. Sentia dores no estô

mago, urinava com dificuldade, tinha náuseas. Levou uma queda, com suspeita de fratura no crânio. O braço direitoficou paralisado. Osami

gos, preocupados,erammantidosa certa distância: insistiaem passar as

noites sozinho.

Na manhã de 10 deoutubro de 1837, a porteirao encontrou morto,

inteiramente vestido com roupa de domingo, de joelhos, debruçado so

bre a cama.

1

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1. PENSAMENTO E LINGUAGEM

O pensamento de Fourier não é uma construção teórica de fácil acesso.

Mesmo em seus aspectos aparentemente mais simples, ele é, de fato,

muito mais complexo do que parece.

Sua coerência mais profunda não é ostensiva e pode escapar à ava

liação rápida de um leitor menos cuidadoso. Hámomentos em que Fou

rier se compraz em misturar intuições fulgurantes com longas digressões

argumentativas. Ou se diverte em pôr lado a lado "visões" entusiásticas

c cansativas demonstrações lógico-científicas, cheias de cálculos.

Aleitura dostextos de Fourier é, com freqüência, irritante. Eeleàs

vezes dá a impressão de não estar nem um pouco preocupado em ser

coerente. No entanto, um exame mais atento das relações entre os di

versos textos mostra que as idéias expostas em distintos contextos se

"encaixam" umas nas outras e mantêm uma perfeita coerência com o

peculiar modo de pensar do nosso bizarro teórico, que Henri Lefebvre

caracterizou como "semilouco" (Lefebvre, 1975,p. 5).

Uma das características que oleitor mais atento não pode perder de

vista éadaimportância dalinguagem naobra deFourier. Roland Barthes

|i1 chamou a atenção para isso (Barthes, 1971). Amaneira pela qual ele

«<*expressa está sempre fortemente ligada àquilo que elequerdizer. Para entendermos efetivamente o que está sendo dito precisamos observar

i Qnto ele o está dizendo.

Em determinados trechos de seus escritos podemos perceber que ele

as vezes é chato por convicção. Recusa-se a pavimentar com recursos

retóricos agradáveis o caminho pelo qual insiste em ver seus leitores

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avançarem com espírito honesto e predispostos a compreender a pro fundidade dos problemas que nos cercam.

\

Para sublinhar a novidade do que está revelando ao leitor, permite- ]

se eventualmente bombardeá-lo com neologismos, como se o advertisse

de que só assimilando a nova terminologia (Fourier é um "criador de ;

linguagem", lembra Barthes) lhe será possível digerir o caroço da nova

teoria.

Maso curiosoé que o mesmoescritorqueseempenhaem espicaçar o leitor com a chatice de seus esquemas minuciosos, suas insistentes explicações "científicas" e seus neologismos é um escritor que também mantém uma relação lúdica, prazerosa, divertida com as palavras^

Há uma carta de Fourier que só veio a ser publicada recentemente

e que é uma expressãoeloqüente de como ele brinca com as palavras. Aproveitando uma característica da língua francesa, o fato de que em

francês a palavra escrita às vezes se distancia muito do som da palavra falada, o filósofo redigiu uma carta, aparentemente dirigida a umaso

brinha (Laura), aceitandoum convite para jantarno dia seguinte. Acarta

está datada de sábado, 24 de agosto de 1827 (em francês: Samedi, 24 aoüt, dix-huit cent vingt-sept). Só que o signatário escreveu: Çamedit 24, ah!ou dix-huit tes'envintcette (Issome diz 24, ah! ou então dezoito

te veio esta).

A carta está toda redigidadesse modo. Emlugar de domingoentão

teremos a alegria de te abraçar (em francês: dimanche on auradoncIa

joiedefembrasser), o queselêé: "Dix manchons nosrats dont Vage oie deux temps bras serre" (dez regalos nossos ratoscuja idade gansa dois

tempos braço aperta). Mais adiante aparece a referência a uma tia que

insiste emestofarelamesma suascadeiras (em francês: toussesfauteuils sonttapissés parelle-même); e isso vira "toussait faute oeilsont à pisser pas, raie le m'aime"(tossia, falta olho, não são para serem mijados, eli

mina o me ama).

Simone Debout, impressionada com esta carta, chegou a lhe dedicar

todo um livro,na convicção de que setrata de uma brincadeira significa tiva, desmistificadora: "As palavras diferentes que se precipitam a partir

das mesmasfazemsurgiro que a consciência e a moralreprovam, o avesso

20

PENSAMENTO

assustador dos grandes sentimentos e dos pensamentos nobres. Eé bem

esse o objetivo que se pretendia alcançar" (Debout, 1974, p. 33).

De acordo com Simone Debout, o filósofo se comprazia em esboçar

brincalhonamente ambigüidades que não cabiam nos esquemas inter-

pretativos usuais dos "civilizados". E, na linha de Fourier, a ensaísta

sublinha a ambivalência do som da palavra esboçar em francês: griffon-

ner (que soa como griffe au nez, a garra no nariz

2. AATRAÇÃO PASSIONAL

Mas o ponto de partida de Fourier não é propriamente uma filosofia da

linguagem: é uma intuição ontológica que o convence de que tudo no universo está ligado atudo. Todas as_coisas estão postas numa relação

de interdependência. Oque se passa amõsro, sêrèTrmmãnos, tem a ver

com o que se passa com a natureza emgeral e até mesmo com osastros

no céu. As vicissitudes do ser humano afetam o equilíbrio do cosmo.

Aforça que move ouniverso egarante oequilíbrio eamagnífica

sincronização nos movimentos de todos os seres éo que Fourier chama

de atraçãopassional.

"OTmpülso amoroso que leva os seres vivos a se sentirem atraídos

uns pelos outros é o mesmo impulso que Isaac Newton descreveu na

física, na forma da atração gravitacional. Faltou a Newton, entretanto,

disposição para examiná-lo tal como ele age tanto no cosmo como na

vida social.

Foi com base nesse impulso que Deus organizou o mundo. Só que,

enquanto os astros obedecem aos desígnios de Deus, os seres humanos' aqui na Terra, se afastaram dos caminhos que lhes convinham eque lhes

estavamindicadospelainfinitabondade divina. A"civilização", comsua

peculiar mistura de lógica egoísta eirracionalidade, criou condições ins

titucionais que acarretam graves prejuízos à expressão da atração uni versal.Aatraçãodeviaserreconhecidacomoo"impulsonaturalanterior

à reflexão", que "persiste apesar da oposição da razão" (OC, VI, p. 57).

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O grande desafio que Fourier propõeà humanidade é o de superar

essa situação. Asociedade precisa sertransformada para que os homens

venham a ser felizes, atendendo à demanda de seus sentimentos mais

"naturais".

—5^ •

SimoneDebout enfatizaa originalidade da fundamentação teórica

dessa proposta de ação transformadora: Fourier "une a teoria do senti

mento à teoria das transformações sociais" (Debout, 1978, p. 171).

Como intuição ontológica, a atração passional precisava ser escla

recida, trabalhada pela reflexão, e Fourier tinha clara consciência disso.

Ao mesmo tempo, contudo, o filósofo insistia, ao longo da elaboração da sua obra, na sua convicção de que a."v.erdade" da atração passional não estava sujeita à aprovação por parte dos "ideólogos", quer dizer,

dos intelectuais "civilizados" pernósticos, "sofistas", que agiam a seuver como prepotentes profissionais da argumentação.

É Fourier não admitia quelheviessem impor padrões sancionados em orne da "ciência", critérios preestabelecidos do que devia serconside-

ido "certo" ou "errado".Seos pretensos "sábios" não entendiam a im

portância da atração passional, pior para eles; isso seria um sinal de que

haviamadotado idéiasacumpliciadas coma repressão e não conseguiam

se assumir como sujeitos desejantes. O autor da Teoria dos quatro mo

vimentos, então, era perfeitamente coerente ao entender que seria ab

surdo abrir mão de sua condição de sujeito desejante assumido, cons

ciente do poder da atração passional que sentia estar presente em sua

própria pessoa, para se impor o respeito descabido à lógica de criaturas

cujo horizonte estava comprometido com a cegueira da "civilização".

É em torno desse "caroço", dessa intuição ontológica, que o pensa

mento de Fourier se organiza. Ele não se desenvolve a partir de uma

construção doutrinária predefinida, mas em função da recusa radical da

"civilização" e da confiança na atração passional.

Procuremos lembrar aqui alguns dos marcos do movimento dopen

samento de Fourier.

11

PENSAMENTO

3. A CIVILIZAÇÃO E AS MULHERES

A civilização teve, em seus primeiros tempos, certa eficiência na intro

dução de novas técnicas e novos procedimentos organizativos na eco

nomia, contribuindo para o aumento da produção de bens materiais.

Desde o começo, porém, esses avanços foram acompanhados de efeitos

colateraisbastante negativos.

Os civilizados eram incitados a buscar o enriquecimento a qualquer

preço e isso acabava por lançá-los numa competição desenfreada uns

contra os outros, tornando-os cínicos, egoístas, calculistas, desprovidos de sentimentos comunitários. As diferenças naturais e fecundas entre

indivíduos e grupos acabaram se transformando em monstruosas desi

gualdades.

ção da opressão e dos privilégios. A ordem social passou a servir para

assegurar condições nas quais uma parte dos seres humanos podia satis

fazer seus desejos em detrimento dos mais pobres e dos mais fracos:

As leis e as instituições

passaram a ser elementos de legitima

A-

Essa situação vem gerando tensões internas cada vez mais graves no

interiordassociedades. Num texto de 1806,intitulado"O descaminho

da razão" (Uégarement de Iaraison), Fourieradvertia num tom sinistro

os detentores do poder eda riqueza, dizendo-lhes queos tronos estavam

assentados sobre barris depólvora,explosões revolucionárias sedelinea

vam no horizonte; e acrescentava: "Quando pensardes nessas verdades

terríveis, soberanos e proprietários, estremecei!" (OC, XII, p. 670).

. Nas condições criadas e mantidas pelo regime civilizado, as desi

gualdades sociais se acentuavam e as liberdades se tornavam ilusórias.

"Se não é geral, a liberdade é ilusória" (OC, III, p. 162). Os privilegiados,

oprimindo os pobres,impediam-nos de seremefetivamentelivres. Fou

rier denunciava: "Toda a classe pobre está inteiramente privada da li

berdade política ou social, reduzida a submeter-se a trabalhos assalaria

dos que aprisionam tanto a alma como o corpo. Um subalterno que

tivesse opiniões contrárias às do seu chefe seria demitido, perderia o

emprego. Ele não tem, portanto, liberdade social ativa, nãotem direito

de opinião, nem mesmo nos limites do senso comum" (OC, III, p. 158).

Acivilização está cada vez mais dominada pelo espírito mesquinho

23

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

dos comerciantes. Com a idéia fixa de obterem lucro a qualquer custo,

os comerciantessetornaram riquíssimose extremamente poderosos, em certos casos mais poderososque alguns reis. Fourier imprecava: "O co

merciante é um corsário industrial" (OC, III, p. 217). E explicava:

"Hoje, os comerciantes são livres, mas o corpo social não é livre nas relações com eles, pois somos forçados a fazer compras, não podemos

deixar de adquirir alimentos e roupas. Comisso, ficamos nasmãosdos

vendedores, entregues à velhacariadeles" (OC, III, p. 195).

^~

Astransformações ocorridas na civilização ao longo doséculo XVIII

foram contraditórias. Porum lado, houve alguns avanços tecnológicos

dignos de nota; por outro,contudo, o fortalecimento do espírito mer cantil agravou os males do regime civilizado. Ele passou a dar claros

sinais de que estava durando muito mais do que seria razoável que du

rasse. Com o prolongamento antinatural de sua existência, o sistema vinha acarretando conseqüências especialmente deletérias para a massa

dos trabalhadores e paraa metade feminina da humanidade.

De fato, a civilização impunhaaos trabalhadores condições inóspi tasdetrabalho, jornadaspenosas e cansativas, atividades mecânicas nada

criativas; paralelamente, consagravao casamento monogâmico, manti nha formas rudes de coerçãona organização da vida familiar e impunha às mulheres uma situação insuportável. Na civilização, afirmava Fourier, a mulher é pressionada para esco

lher entre a prostituição mais ou menos evidente ou disfarçada e a "es

cravidão conjugai" (OC, I, p. 150). A Revolução Francesa teria dado

uma prova eloqüente dasua inépcia aorecuar diante dodesafio deabolir

o casamento monogâmico, uma instituição que parecia ter sido inven tada parapremiaros perversos. "Quanto mais um homem é astucioso e sedutor, mais fácil é paraelealcançar por meio do casamento a fortuna e a respeitabilidade" (OC, IV, p. 99). O resultado da preservação dessa instituição era previsível: o amor, para subsistir, era obrigado a negá-la,

tornando-se subversivo. "Não tendo outro caminho para satisfazer-se,

o amor se torna um conspirador permanente,que trabalha de maneira

infatigável na desorganização da sociedade, desrespeitando todosos li

mites colocados pela legislação" (OC, V, p. 211).

24

PENSAMENTO

Ocasamento monogâmico, tal comoestá instituído pela civilização, é contrário à natureza; por isso é quase que inevitavelmente acompa

nhado pela traição. Uma incansável campanha contra o casamento leva

Fourier a se interessar pela figura do marido traído eo filósofo chega a

elaborar uma lista contendo 76 espécies diferentes de cornos. Entre os

tipos de corno se destacam: o corno putativo (que sofre as dores do uso

dos chifres antes mesmo de recebê-los), o corno marcial (que toma drás

ticas medidas militares dentro de casa para evitar que aconteça o que

afinal acaba acontecendo), o corno sarcástico (que ridiculariza os outros

cornos sem se dar conta de sua própria situação), o corno resignado, o

corno viajante, ocorno excessivamente absorvido pelos negócios, ocor

no de saúde frágil, o corno politicamente hábil (que faz

aliança com um

dos amantes da sua mulher para combater os outros), o corno tutelado

(que obedece a todas as ordens da esposa), o corno mimado (que aceita tudo, desde que o papariquem), o corno cínico, o corno perplexo, o

corno fraternal, ocorno inconformado que vive provocandoescândalos,

etc. (OC, XI, vol. 3, pp. 249 a 272).

Avisão satírica dos maridos traídos fazia parte de uma estratégia de

apoio às esposas que traíam. Em sua Teoria dos quatro movimentos, o

filósofo se solidarizava resolutamente com asmulheres e com a rebeldia

delas, explicando que era graças à persistência com que infringiam as regras que lhes eram impostas que as mulheres proporcionavam alguma

alegria aos homens e a elas mesmas. Arecusa à fidelidade obrigatória abria caminho para os prazeres do adultério, partilhados pelas esposas

e por seus amantes. "A felicidade do sexo masculino se estabelece na

proporção daresistência das mulheres aos preceitos da fidelidade con-

jugai"(OC,I,p.l38).

Trata-se de uma rebelião plenamente justificada, já que é sobre as costas das mulheres que pesa a civilização, com toda a sua carga inuma na. "Os civilizados julgam as mulheres com base em seus costumes atuais,

com base nadissimulação que é inculcada nelas, quando lhes é recusada toda e qualquer liberdade; eles acreditam que essa duplicidade é um atributo natural e invariável do sexo feminino" (OC, I, p. 90).

Toda a educação nas sociedades civilizadas tem se empenhado em

25

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

inculcar nas mulheres um espírito de docilidade e de obediência. E é a

resistência oferecidapor elasque mostra o nível das liberdades efetiva

mente alcançadas em cada povo.

Fourier chega mesmo a sustentar que a posição das mulheres é o

melhor indicadordo nível de cultura e de progresso social autêntico em cadasociedade: "O progresso social e as mudanças de períodos históri

cos acontecem na proporção em que se realiza o avanço das mulheres em direção à liberdade; e o declínio social ocorre como um resultado

da diminuição da liberdade das mulheres" (OC, I, p. 132).

Trinta e seis anosmais tarde,emseuManuscritos econômico-filosó-

ficos de 1844, Marx retomaria essa idéia de Fourier, escrevendo: "A \

relação imediata, natural, necessária do ser humano com o ser humano é a relação entre homem e mulher." E acrescentando: "Com base nessa

relação pode-se portanto julgar todoo nível de cultura alcançado pelo

ser humano" (terceiromanuscrito, "Propriedadeprivadae trabalho").

O tom com que Fourier defende a liberdade das mulheres é franca

mente polêmico. "Aliberdade amorosa desenvolve preciosas qualidades

nas classes que dela mais desfrutam: as senhoras da alta sociedade, as

cortesãs de bom-tom e as pequeno-burguesas solteiras. Éentreessas três

espécies de mulheres que podem ser percebidos os desenvolvimentos

mais felizes. Reunidas, as qualidades delas constituiriam a perfeição"

(OC, I, p. 135). As primeiras são finas, galantes, agem com segurança,

distinguem-se das burguesas vulgares e mesquinhas. As segundas são

cordiais, generosas, simpáticas, estão familiarizadas com o prazer, são

compreensivas. Eas terceiras são criaturasurbanaslivres, que, recorren

do à imprescindível dissimulação, podem desfrutar dasaventuras veda

das às moças de "boa família".

Essa posiçãose mantémao longode toda a sua obra. Fourieradverte

que uma moça inexperiente, virgem, não tem "perspicácia suficiente

para perceber as hipocrisias de seus pretendentes, a delicadeza postiça

deles" (OC, VI, p. 274), de modo que se arrisca a fazer um mau casa

mento.

As moças, então, devem adquirir experiência na vida amorosa, po rém devem ser prudentes; enquanto não se organizar a nova sociedade,

26

PENSAMENTO

o que elas têm a fazer é cuidar de se preservar, servindo-se, quando for

o caso, de artifícios e mentiras:

"É evidente que as mulheres, oprimidas,

perseguidas em todos os sentidos, não têm outra saída senão a falsidade; eaculpa disso cabe inteiramente aos seusperseguidores eàcivilização"

(OC, VII, p. 438).

4. PERIODIZAÇÃO DO MOVIMENTO SOCIAL

Fourierdesenvolveuumaclassificaçãoesquemáticadosperíodospercor

ridos pela humanidade em sua evolução social. Para ele, os seres huma

nos passaram pelos períodos (1) edênico (ou primitivo), (2) selvagem

(ou de inércia), (3) patriarcal (ou de pequena indústria), (4) bárbaro (ou de média indústria) e chegaram à fase da (5) civilização (ou de grande

indústria).

O que deverá vir após o 55 período? Aos olhos do pensador, a supe

ração da civilização apresentava inegáveis dificuldades. Segundo ele, numa

primeira etapa viria atransição: ainda sob opeso das instituições civiliza

das, os seres humanos precisariam conquistar alguns direitos, algumas ga

rantias protetoras, que poderiam conter e limitar osexcessos dedestruti-

vidade

da civilização. Essa seria a etapa do "garantismo" (o 62 período),

no qual deverá ser encaminhada a experiência do falanstério.

O falanstério assumiu no pensamento de Fourier uma importância

crescente, na medida emqueele enfrentava as dificuldades de umasu

peração da civilização sem admitir a hipótese de mudanças provocadas revolucionariamente. Excluída a via da revolução, era preciso recorrer

à via do exemplo: uma experiência bcm-sucedida numa pequena comu

nidade poderia demonstrar aos homens na prática como eles poderiam

viver bem melhor em outro sistema que não o civilizado.

° í?,anstério "~9ue será abordado em outro capítulo, mais adiante

—abriria caminho para a criação do regime "societário", permitiria o

início do 75 período, o do "sociantismo", o período da "associação sim-

27

»

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

pies". E o 8- período, então, seria o da "Harmonia" ou "associação

composta".

Ao todo, a humanidade, em sua trajetória social, atravessaria 36 períodos,que se estenderiam ao longo de oitenta mil anos, no finaldos quaisse extinguiriaa vida humana,animale vegetal, e a Terra deixaria

derealizar seumovimento derotação. NaTeoria dosquatro movimentos

há um curioso"quadro do curso do movimento social" que explicita a

previsão deumlongoperíodo "ascensional" inaugurado pelaHarmonia

e o anúnciode dois longosperíodosde "declínio",antes do fim. Fourier, contudo, recusava-se a falar sobre os períodos que viriam após a "Harmonia", alegando que seus contemporâneos não o com

preenderiam. Preferia, de fato, concentrar-se na crítica implacável à ci

vilização.

Comojá foidito, em suaanálise, a civilização era reconhecida como umaorganização que podiaproporcionar avanços técnicos e prosperidade

econômica. Impunha-se,porém, a ressalva: ela jamaisconseguiria tornar

o trabalhoem geraluma atividade agradável; e jamais poderia assegurar

bem-estar para todos. "Se o povocivilizado desfrutasse de um mínimo de

conforto e fartura, de alimentação e manutençãogarantidas,ele seentre

garia à ociosidade, porque a indústria civilizada é muito repugnante. É

preciso,portanto, que o trabalho,no regimesocietário,setorne tãoatraen

te comoo são hojeas festas e os espetáculos" (OC,VI, p. 13).

Além da vantagem de tornar-se prazeroso, o trabalho, no regime

societário, superaria amplamente a produtividade do trabalho civiliza

do: pouparia energia e obteria resultados muito melhores. Uma cozinha

societária, por exemplo, economizaria 9/10 de combustível e 19/20 da

mão-de-obra utilizada nas cozinhas civilizadas. E a produçãoindustrial

seria rapidamente quadruplicada.

Porque, então, as pessoasse aferram às instituições civilizadas e não

se dispõem a aproveitar as possibilidades oferecidas pela superação da

malfadada civilização?

Fourierexplica: "Existe umavenda,umacatarata das maisespessas,

que cegao espírito humano. Essacatarata secompõe de 500 milvolumes

que discursam contra as paixões e contraaatração, emvezde estudá-las"

28

PENSAMENTO

(OC, VI, p. 27). Em outro texto, ele fala de "600 mil volumes" (OC, II,

p. xv). O número, afinal, não tem importância. O que importa é que os

civilizados cultos estão imbuídos de uma doutrina chamada moral, que

é inimigamortal das paixões.

Amoral assume, assim, na perspectiva de Fourier, ascaracterísticas

que Marx atribuirá nageração seguinte à ideologia.

5. AS PAIXÕES

Os civilizados temem as paixões porque elas escapam ao controle da moral. Quando uma paixão irrompe, nas condições devida doshomens civilizados, elaassume formas preocupantes, freqüentemente muito des trutivas. Isso acontece porque a civilização não permite queas paixões

essenciais do ser humano sedesenvolvam todas ao mesmo tempo.

Desde 1806, quando escreveu "O descaminho da razão", Fourier se dedicou a analisar sistematicamente aspaixões radicais dos seres humanos. Comparou-as, qualificou-as e chegou à conclusão deque elas eram

doze. Ao longo de toda a sua obra, defendeu a idéia de que era necessário

que fossem criadas condições nasquais asdoze pudessem sersatisfeitas.

"Deus nos deu doze paixões, só podemos ser felizes satisfazendo todas as doze" (OC, VI, p. 413).

Nenhuma paixão radical pode sercerceada impunemente. Fourier

adverte: "Toda paixão estrangulada produz uma contrapaixão tãoma léfica quanto a paixão natural seria benéfica" (OC, VII, p. 390). As cinco primeiras entre as paixões radicais derivam, na sua opinião, dos órgãos dos sentidos: a paixão de olhar, a de ouvir, a do paladar, a

do olfato e a do tato. Todas estão sendo prejudicadas pela situação em

que se encontram os civilizados, vivendo em cidadesfeias, barulhentas

e fétidas, obrigados a se alimentar mal e submetidos a contatos físicos

desagradáveis com a sujeira.

-n

Uma segunda categoria depaixões, para Fourier, reúne aquelas que

se referem a determinados afetosuniversais: a paixãoda amizade, a do

29

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FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

amor, a da ambição e a do "familismo". São quatro paixões que lidam com as relações entre as pessoas e se distinguem das cinco anteriores,

que se referem às relações das pessoas comas coisas.

Seguem-se, finalmente, três paixões que Fourier chama de "distri-

butivas": a "compósita", a "borboleta" ea "cabalista". A"compósita" é

a paixão do entusiasmo, da entrega do sujeito a uma causa, a um ideal,

a algo que ele põe acima da sua conveniência estritamente pessoal. A

"borboleta" é a paixão de variar, a necessidade de ir "de flor em flor",

sem se fixar numa coisa só (uma espécie de contrapeso indispensável

para os possíveis excessos da "compósita"). A paixão da borboleta "é a

sabedoria apresentada sob as cores da loucura" (OC, VI, p. 102). E a*

| "cabalista" é a paixão "conspirativa", que leva o sujeito a se assumir

' como sujeito particular no interior de qualquer coletividade: é uma pai

xão essencial para que o coletivo não anule as diferenças, as contradições

em seu interior (as divisões internas, as tensões entre indivíduos e gru

pos, é que vivificam a dinâmicada comunidade).

Essas doze paixões coexistem nas criaturas e fazem de todo ser hu

mano uma unidade complexa de forças diversas. O que une as paixões

é uma espécie de décima terceira paixão, o "uniteísmo": parasobreviver

humanamente, cada indivíduo sente a necessidade de orquestrar sua

inevitável complexidade anímica.

Cada pessoa é uma combinação peculiar das doze paixões radicais. A

intensidade com que cada uma delas é vivida pode variar muito decaso para caso. Existem situações em que o sujeito pode serdominado poruma

única paixão (possui um temperamento "solitonal". O protagonista do

Avarento, de Molière, por exemplo, era possuído pela paixão da ambição, sob a forma da avareza. Outras pessoas podem ser possuídas por duas, três

ou mais paixões, isto é, têm temperamentos "bitonais", "tritonais", "te- tratonais"ou até "pentatonais". Robespierre (de quem Fouriernãogostava nem um pouco) é caracterizado como uma personalidade dominada por

três paixões: a "compósita", a "cabalista" e a ambição.

Quando aspaixõespuderemse desenvolver simultaneamente ecom

total liberdade para todas, umas equilibrarão as outras. Na civilização,

a "compósita" pode facilmente degenerar em fanatismo e intolerância;

30

PENSAMENTO

a "cabalista" pode se corromperem mesquinharias intrigantes; a ambi

ção viracarreirismooportunista; o "familismo" resulta em nepotismo,

e assim por diante.

Da mesmaforma que as paixões, os prazereslegitimamente deriva

dos delas também sãodistorcidos pelacivilização, ficam desequilibrados,

amesquinhados, supersimplificados e empobrecidos. Fourier escrevia:

"Nosso erro não é, comose acredita,o de desejar demais; é o de desejar

muito pouco" (OC, III, p. 233). Na Harmonia, liberadas as paixões e

diversificados os prazeres, as distorções desaparecerão: "Quanto mais

os prazeres forem numerosos e freqüentemente variados, menos sepo

derá abusar deles" (OC, IV, p. 551). Todos os prazeres, desde que "não

sejam nocivosou vexatórios para outra pessoa,serão úteis e proveitosos no estado societário" (OC, III, p. 23). Fourier conclamavaas pessoasa se observareme a tentarem se co

nhecer melhor, cada uma abrindo espaço em seu interior para enxergar e desenvolver suas diversas paixões, na convicção de que assim elases tavam se preparando para a vidamelhor que o futuro poderia vir a lhes

proporcionar.

6.

O AMOR

Entre as doze paixões, há uma que é especialmente maltratada pela ci

vilização e à qual o filósofo dedica especial atenção: o amor. A intensidade de que é capaza experiênciaamorosa lhe confere uma"

dimensão religiosa: "Éna embriaguez doamor que o serhumano acre

dita elevar-se ao céu e partilhar a felicidade de Deus. A ilusão não é tão

nobree tão religiosa nas outras paixões; elas não elevam tão alto o grau de embriaguez dos sentidose da alma; elasnosaproximam bem menos

da felicidade divina e são menos capazesde fornecer o embrião de uma

religião da identificação com Deus, uma religião que sejabem diferente das religiões civilizadas, já que estassão cultos da esperança pm D^ns e jiãocteassociação à sua felicidade" (OC, VII, p. 15).

31

í

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

AHarmonia, no futuro, vai se basear num amor humano a Deus que

seapoiará na experiência de felicidade conhecida pelos seres humanos pode lhes ensinar algo dafelicidade divina: a experiência do amor.

que

Aj3ajxão_arru3r43sa^ejr^^

inelimi-

náveis, que são a do corp^eajda-alma^tfxé^-a dos sentimentos espiri

tuais e a da intensidade material das sensações^jQ&dvilizados muitas

vezes sacrificam uma dessas dimensões à outra. Fourier sublinhatanto

ajmportância do^razerj^ico^^as^sualidade, como a do sentimento

depurado, que ele chama de "celadonismo^(nome extraído de um per

sonagem literário de grande sucesso no século XVII, CéladonTaTobra

de Honoré D'Urfé, LAstrée). Fourier chega a criticar Cervantes por ter ridicularizado os senti

mentos "celadônicos" deDomQuixoteemrelação a Dulcinéia. Na Har

monia, de acordo com o pensador francês, haverá muito apreço pelo

"celadonismo", as pessoas se tornarão mais "filantrópicas" no amor,

desenvolverão modos de amar mais intensos, mais^ggssasiáaisljpuis-

sanciels). O sentimento se tornará mais verdadeiro na medida em que

não estiver comprometido com a subestimação das exigências do "prin

cípio material".

Os que se destacarem na capacidade_de cultivar generosamente a

paixão amorosa serão honrados pela comunidade a que pertencerem:

receberão o título de "anjos" e farão parte de um novo "angelicato". TanxoJiomens como mulheres~serão.respeitados em suas escolhas pes

soais na vida amorosa, quaisquer que venham a ser as opções feitas; a coletividade, entretanto, prestará homenagens aos que se mostrarem

mais dadivosos em suas atividades, porque o caminho das experiências

múltiplas é o do aprimoramento individual eo daconveniência coletiva.

Eo caminho da felicidade corporal eo do fortalecimento do sentimento,

da religiosidade.

"Quando uma mulher estiver bem provida de todo o necessário

amoroso, dispondo de plena liberdade, contando com a assistência de

uma boa variedade de atletas materiais em orgias e bacanais, tanto sim

ples como compostas, então ela poderá encontrar em sua alma uma

ampla reserva para as ilusões sentimentais" (OC, VII, p. 98).

32

PENSAMENTO

7. EROTISMO E GASTROSOFIA

Areferência às orgias pode causar espanto aos leitores. Fourier conside

rava "naturais" os impulsos orgiásticos, embora admitisse que na civili

zação as orgias eram manifestações de grosseria. Nas orgias dos civiliza-

dos^jgcreyjaAudo épuro materialismo; osentimejnjonãoJ^rriJiêlínum

Jices^ojLelas" (OC, VII, p. 326). NoJu^uroi_contui^

se™bjHdji&^^

muita

uma

^Corte do Amor^TBirigida por umjvíinistroe^.PresíaBã^oTulnPontí-

fice, quecuidarãodeassegurarjm|ões deliciosas^impatiasjrratuas, en contros de efeitos duradouros entre os participantes, voluntários. (OC,

VII, p. 309), de modo que a bacanal e a orgia "serão enobrecidas como ato de unidade e função santa" (OC, VII, p. 220).

FourieTcõnfírplenamente na legitimidade de todas as manifesta

ções do amor. Nada o escandaliza. Nenhuma "mania lúbrica" lhe parece

desprezível ou meramente ridícula, já que cada uma delas expressa a seu

modo um impulso significativo da atração passional. "Cada um tem sua

razão em suas manias.amorosas, já que o amor éa paixão da desrazão"

(OC, VII, p. 384).

Não existe, para Fourier, nenhum motivo para que o homossexua-

Iismo seja condenado. O filósofo conta que, por acaso, aos 35 anos de

idade, presenciou uma cena de amor entre duas lésbicas e ficou viva mente emocionado, possuído de intensa atração pelo que vira. Oincesto

também lhe parece natural, como decorrência da junção de duas paixões

radicais, o amor eo "familismo" (OC, VII, p. 253).

De passagem, Fourier fez uma referência ao Marquês de Sade, consi

derando-o o autor de um "sistema moral" que refletia a deficiência em seu

criador de duas paixões radicais: a borboleta", que lhe teria permitido ligar-se a várias pessoas e, pela variedade, atenuar sua destrutividade; ea "compósita", que lhe teria possibilitado o equilíbrio que só a dedicação

entusiástica a um ideal positivo pode proporcionar (OC, VII, p. 391).

Há também uma rápida observação^sicanalítica" sobre uma certa

MadameStrogonoff, umasenhoranjssa.quetorturavasualindaservapor-

que se sentia enciumada de.vê-Ja tão bela. Fourier diverge da interpretação

33

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

e^dizqueela de fato sentia-se atraída gejaserva e não ousava.assumir sua

homossexualidade. Se reconhecesse a paixão que a movia, talvez as duas

JiyessemjpoaKblse!^

amantes (OC, VII, p. 391).

Além do amor, Fourier considerava extremamente importante a pai

xão derivada do paladar. Segundo ele,na Harmonia seriam conferidos

títulos honoríficos e recompensas materiais não só aos que se notabili

zassem por "virtudes amorosas", mas-também-aos-que-se-destacassem

por.conhecimentos científicos, por talentos artísticos e por"realizações

gastronômicas". Haveria-títulos de "santidade" e "heroísmo".

Como autodidata, o filósofo estudou nutrição porsua conta e che

gou à conclusão de que as crianças tinham suas razões para apreciar os

doces, já que o açúcar é altamente energético. Agula, a seu ver, possuía

sua própria sabedoria. O prazer da alimentação saborosa é "o mais ge ral", é"oprimeiro e também o último que oser humano experimenta",

um prazer "do qual ele desfruta desde o seu nascimentoaté a sua morte" (OC, VII,p. 126).

Os civilizados banalizam, vulgarizam e corrompem esse prazer. Em

geral, engolem sem atenção uma comida que não foi preparada com ca

rinho. E, quando algo lhes agrada, devoram o alimento com voracidade,

tornam-se glutões, exageram, prejudicando tanto o prazer como a saúde. '*

Fourier propunha que a paixão que se manifesta no paladar fosse

estudada seriamente por uma nova ciência, a "gastrosofia". A"gastro-

sofia" deveria ser capaz de superar o elitismo da gastronomia, contri

buindo para "obem-estar da multidão dos operários" e proporcionando "ao povo os refinamentos da boa comida, que a civilização reserva para

os ociosos" (OC, VI, p. 304). Além disso, ela deveriarelacionaro sabor

eo poder nutritivo dos alimentos com os diversos tipos de temperamen

tos humanos.

Os 810 temperamentos (ou caráteres) por ele cuidadosamente ca

talogados se tornariam muito exigentes em matéria de paladar. Assu mindo suas preferências particulares, afirmando seus respectivos gostos, eles estimulariam uma grande diversidade de sabores na preparação dos

pratos. A demanda cada vez mais refinada criaria uma oferta cada vez

mais ricamente variada. Fourier assegurava, por exemplo, que na pre-

34

PENSAMENTO

paração da galinha —"a mais preciosa das aves domésticas", "o mais

saudável dos comestíveis" —a cozinha harmoniana chegaria a inventar

três mil tipos de pratos à base de frangos e ovos (OC, V, p. 341).

8. AS "SERIES"

Os seres humanos são dotados de uma sociabilidade natural e se juntam

ouse articulam, segundo Fourier, de quatro modos elementares: a ami

zade, a ambição, o "familismo" e o amor. Sempre inclinado às aproxi

mações analógicas, o pensador socialista relaciona esses quatro modos elementares da articulação aos quatro elementos que a física clássica dos

antigos gregos conhecia: aamizade correspondia à terra, a ambição cor

respondia ao ar, o "familismo" à água; eo amor —vinculado à energia

"aromática" —contribuía para a fusão dos laços promovida pelo "uni-

teísmo", correspondente ao fogo (OC, rV, p. 539).

Aanálise prosseguia: a amizade era o modo de associação elementar que predominava na infância; o amor, na juventude; a ambição, na ma

turidade; e o "familismo" na velhice.

Fourier advertia: as relações humanas no estado societário não se

prenderiam aessesquatro modos elementares. A"falange experimental"

deveria permitir que nela

"séries".

se formassem espontaneamente as chamadas

Por mais variadas que sejam as inclinações dos indivíduos, por mais peculiares que sejam as características que elas possuem, as pessoas desco

brem afinidades entre elas; então, se aliam a determinadas criaturas em

torno dessas afinidades e a partir de uma certa contraposição a outras

criaturas, unidas porafinidades diferentes. Assim seconstituem as"séries".

As "séries" reúnem os seres humanos a partir de convergências im

portantes, porém vivem também das divergências existentes entre aque

les que as constituem. Nenhuma concórdia pode presumir a eliminação

das discórdias, que são elementos insuprimíveis da realidade humana. O que levou Simone Debout a observar: o paradoxo maior de Fourier

35

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

estána insistência com que ele se empenha em "fundar o acordosobre a diferença" (Debout, 1978,p. 11).

Asérie ganha vitalidade

por força da diversidade das preferências

de seus integrantes. Por isso, uma "série" equilibrada deve ter, em seu

interior, divisões e subdivisões. A teoria de Fourier valoriza energica

mente as diferenças de grupos e de indivíduos.

O número ideal de integrantes de uma "série" deveria ser de cin

qüenta pessoas, com um grupo mais influente no centro e outros grupos

menos influentes mas necessários à direita eà esquerda. As "séries" de veriam se inserir num conjunto de cerca de 400 pessoas, organizadas em

torno das atividades produtivas por elas reconhecidas como imprescin

díveis à sobrevivência e ao bem-estar material. Essa organização, contu

do, só se legitimaria aos olhos de todos se não manifestasse incompati

bilidade com o prazer.

Quatro desses conjuntos de 400 pessoas comporiam a "falange ex perimental". Se tivesse muito mais de 1.600 membros, a falange se tor naria caótica: se tivesse muito menos, tenderia a mostrar-se incapaz de

assimilar numa escala "de massa" as contradições entre indivíduos e

pequenos grupos, que se amesquinhariam infecundamente.

9. O FALANSTÉRIO

Fourier denominava "falanstério" o edifício onde estaria instalada a fa^

lange experimental. Essa instalação precisava ser minuciosamente pre

parada, em todos os seus

dependia da experiência. Cominfinita paciência, seu idealizador fez e refez cálculos destina

pormenores, já que o destino da humanidade

dos a verificar qual

falanstério: chegou

seria a dimensão mais desejável

ao número de 1.620 pessoas de

para a população do

diferentes condições

sociais, na maioria_agricultorese artesãos, porém assegurando a presen-

ç^e_urna-nnnoHa^e^apkalistãX^rtls^j intelectuais.

Aárea deveria ser relativamente próxima a uma cidade, com terra

3

6

PENSAMENTO

fértil, colinas, bosques e um rio. Os indivíduos selecionados para a ex

periência deveriamter váriasidades, formações distintas, diversosníveis

de cultura e de conhecimentos. "Quanto mais variedade nas paixões

e nas faculdades, mais fácil será harmonizá-los em pouco tempo" (OC

iy p. 428).

'

395

Dos 1.620 habitantes do falanstério, 415 seriam homens adultos,

seriam mulheres adultas, 810 seriam crianças (OC, IV, p. 442).

A remuneração de serviços e trabalhos seria feita de acordo com

uma avaliação que levaria em conta três fatores: o capital investido

(4/12), as tarefas práticas realizadas (5/12) eo talento ou os conheci

mentos demonstrados (3/12). Odinheiro circularia no falanstério eaju

daria a fazer o sistema funcionar.

Um "areópago" ou conselho superior, integrado por representantes

de cada ' série", zelaria pelo bom funcionamento das atividades neces

sárias, indicando as tarefas que estivessem por ser realizadas, sem jamais

dar ordens ou fazer imposições, "já que a harmonia não admite nenhuma

medida coercitiva" (OC, IV, p. 447).

Os comportamentos se estruturariam a partir de convicções livre

mente adquiridas e não no cumprimento de ordens. As pessoas desen

volveriam hábitos mais racionais que os da civilização, porque tomariam

consciênciadasvantagens oferecidas por tais hábitos para todos epara

cada um. No falanstério seriam feitas cinco refeições. As pessoas, ávidas

de participar das muitas coisas

três e meia da madrugada) e tomariam o desjejum às cinco. Asegunda

boas da vida, acordariam bem cedo (às

refeição seria às oito, a terceira às 13, a quarta às 18 horas. Ehaveria

uma ceia às 21 horas.

No estado societário, os médicos e dentistas receberiam da comu

nidade uma remuneração tanto mais elevada quanto menor fosse o nú meroeagravidade das doenças edos problemas dentários das pessoas

(ao contrário do que se pode observar no critério adotado na civiliza

ção). Aeficiência dos médicos e dentistas, já na falange experimental,

seria medida pelos resultados da medicina preventiva (OC, V, p. 68).

Fourier faz uma descrição precisa da arquitetura do falanstério, que

terá "ruas-galerias" bonitas, limpas eagradáveis, cobertas eprotegidas

:

FOURIER.

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

dos excessos de vento, frio, calor ou umidade, pelas quais as pessoas

poderão passear despreocupadamente. Haverá zonas de barulho (para

crianças, cozinha, festas, ocupações ruidosas) e zonasde tranqüilidade (para repouso, leitura, meditação). Haverá também salas especiais (os

"seristérios") planejadas para sediar as reuniões dos integrantesdas di

versas "séries".

A economia do falanstério não elimina a propriedade privada e mantém o dinheiro,bemcomopráticas demercado. Noentanto,Fourier

está convencido de que as práticas do mercado e o uso do dinheiro no

falanstério não assumirão ascaracterísticas quepodemser vistas no fun

cionamento do mercado tal como sevêna civilização, porque a preser

vação da dimensão comunitária influirá decisivamente nas ações dos

indivíduos. A civilização é inumana e o mercado emquese apoia a sua

economia também é inumano. Riviale observouque, na civilização, "o

mercado, apresentado como substituto ao mesmo tempo da virtude e do poder, encontra-se, segundo Fourier, invadido pelo vício e pelavio

lência" (Riviale, 1996, p. 56).

O falanstério criará uma situação que nunca existiu antes. Serítín-

do-se livres, seguros da legitimidade de seusdesejos e de suaspaixões, os indivíduos terão apreçopela organização que lhes possibilita a vida

que levam e nãoterão nenhum motivo paraa competição exacerbada e

destrutiva que a civilização lhesimpõe.

No mundo inteiro se poderá notar uma curiosidade crescente a res

peito do que se passa no falanstério. Turistas acorrerão emgrande nú mero (sobretudo ingleses!). Quem vier visitar o local deverá pagar in

gresso e isso constituirá uma boa fonte de renda.

10. A EDUCAÇÃO

Aeducação no falanstério não assumiria as características dasexperiên

ciaseducacionais que têm sido realizadas pelassociedades civilizadas. E

38

PENSAMENTO

também não se apoiaria nas concepções elaboradas pelos grandes teóri

cose pedagogos da civilização.

Fourier comentava sarcasticamente que Condillac só conseguiu for^)

mar um cretino, Rousseau não educou seus próprios filhos, oprincipal/ ^~

discípulo de Sêneca foi oimperador Nero eofilho de Cícero só conse-/

guiu se destacar como beberrão. Mesmo os maiores educadores civiliJ

zados acumularamestrondosos fracassos.

y

Nas bibliotecas do falanstério, os livros dos filósofos do passado se

riam certamente lidos esem dúvida muito apreciados, mas encarados co

mo monumentos divertidos da infância da humanidade (OC, II, p. 22).

Aeducação das crianças seria feita, predominantemente, pelas pró

prias crianças: as crianças um pouco mais velhas ensinariam o que soubes

sem às outras, um pouco mais jovens e ávidas por imitá-las (OC, VI, p.

218). Aintervenção dos adultos ficaria reduzida ao mínimo indispensável.

Taj_como o trabalho, a atividade educativa deverá ser prazerosa.

Uma fungõTelevante~será cumprida pelas artes, a ópera, amúsica, a

dança, oteatro, amímica, apoesia, apintura, acomposiçãodoscenários.

Todos terão acesso à fruição da arte eà expressão artística: "Não haverá

mais artistas de teatro (comédiens), porque todos o serão" (OC, V, p.

78). E ninguém serápago para sê-lo.

O falanstério não pode deixar de ter um bom teatro, onde serão

encenadas peças, óperas magníficas, espetáculos de qualidade assegura

da pelo intercâmbio com outros falanstérios. Aexpressão artística, en

tão, floresceria livremente, sem ser atrapalhada pelo moralismo, que

resulta em chatice e afugenta o público (OC, IX, p. 766).

Para cuidar das crianças muito pequenas, haveria babás, que seriam

pagas pela comunidade e se revezariam em turnos de no máximo duas

horas. Seriam pessoas qualificadas e respeitadas pelas mães.

Naturalmente gulosas, as crianças serão também desde cedo ins

truídas na arte culinária e desenvolverão conhecimentos gastronômicos

(mais tarde, gastrosóficos). Todos os seres humanos, em última análise,

serão cozinheiros competentes (OC, V, p. 105).

Para se reconhecerem parte da natureza e poderem se identificar

com ela mais profundamente, as crianças aprenderão a tratar com cari-

39

>

 

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

»

nho os animais,que se tornarão maisfelizese maishábeis na Harmonia.

Haverá educação musical para os bichos (OC, V, p. 92).

A educação societária levará em conta em cada fase de desenvol

vimento as necessidades da criança e sempre cuidará de lhe propor

cionar meios de enriquecimento individual e condiçõespara se inte

grar mais plenamente na coletividade. Ultrapassado o período inicial (o dos recém-nascidos, nourrissons), virá a fase dos lutins e dos pou-

pons; em seguida, uma etapa importante, a dos bambins (de 35 a 54

meses), na qual a criançaserá estimulada a aprimorar suasfaculdades

corporais.

A partir de quatro anos e meio, quando se torna querubim, a criança

passa a ganhar seupróprio dinheiro, prestando pequenos serviços à co munidade e tendo direito à sua própria remuneração (OC, W, p. 446).

O período seguinte é o dos serafins (dos 6,5 aos 9 anos), ao qual se

seguem as fases dos liceanos (dos 9 aos 12 anos) e dos ginasianos (dos

12 aos 15 anos).

Querubins e serafins formarão "pequenos bandos" que prestarão

ajuda nasplantações; liceanos e ginasianos formarão "pequenas hordas" que cuidarão dos animais e da limpeza. Os integrantes das "pequenas

hordas" usarão uniformes vistosos, receberão medalhas e homenagens

de todos, desfilarão em paradas e se incumbirão de trabalhos repugnan

tes,comopor exemplo a remoção dosdetritosdofalanstério. Umcódigo

de honra transformará "em filantropia religiosa o exercício das funções

maistriviais"(OC, V, p. 148).

Finalmente, aos 16 anos, a educação entrará em seu último período,

e só então Fourier entende que venham a ser abordadas as questões

interligadas do amor e do sexo. Até chegarem aos 16 anos, ascrianças

sãoconsideradas rigorosamente assexuadas e assim devem permanecer, de acordo com o paradoxal pensador.

Dos16aos 19 ou 20, osjovens deverão serencaminhados parauma

transição prudente, sem precipitações, para o exercícioda liberdadede

amar. Fourier sustentaque no falanstério existirá estímulo para o "ves-

talado", quer dizer, para uma castidade voluntária de jovens dos dois

sexos, ao longo de dois ou três anos.

40

PENSAMENTO

Aprimeira relação amorosa não deve serbanalizada; com freqüên

cia, ela será vivida entre um jovem e uma mulher madura ou entre uma

jovem e um homem maduro, já que "a naturezaama oscruzamentose gosta de aproximaras idades afastadas" (OC, "V, p. 262).

11. A HARMONIA

Fourier, conforme jáfoi dito, estava absolutamente convencido de que

existia uma forte relação deinterdependência entreo quesepassava na

Terrae o que acontecia no cosmo.Havia, segundo ele, uma interferência

mútuaentre o cósmico e o histórico. Na medida em que retardavam a

organização da sua vida nos moldes da Harmonia, os seres humanos

acarretavam danos aos astros.

Aos homens, aliás, cabia alterar o movimento dos astros. Deus criara

o universo e, para coroarsuacriação,criara o serhumano,criaturalivre,

incumbida de completar a obra divina. "Parece inconcebível que Deus tenhaassociado a uma função tão elevada uma criatura tão desprezível

como nós; parece incrível que ele tenha nos incumbido de cuidar do

movimento dos astros, de intervir nele e de modificá-lo. No entanto, é

essa a atribuição do homem" (OC, VII, p. 467). Por quê? Porque "Deus querfazer de nósseus associados e não seus escravos" (OC, II,p. xxvii). Osastros dependem denósmais doquenósdeles. O Sol, porexem

plo, está doente, porque aTerra, corrompida como está, não correspon

de ao que ele esperava dela. ALua,coitada,já morreu: o que os civili

zados contemplam com enlevo é — declara Fourier sarcasticamente —

apenas um cadáver. E Mercúrio não estánada bem: precisamos atraí-lo para umaórbita emtorno da Terra, afastá-lo um poucodo Sol.

Os planetas são bissexuados: são masculinos pelo pólonorte e fe mininos pelo pólo sul. Avida de cada planeta se beneficia dasrelações

sexuais entre o norte e o sul. Além disso, os planetas copulam uns com os outros através de "jatos aromáticos". O espaço sideral é todo cruzado

41

\

FOURIER,

O SOCIALISMO

DO

PRAZER

pelos jatos aromáricos, "como balas num campo de batalha" (OC, XII,

"Cosmogonia", p. 23).

Fourier considera a eletricidade e a luz movimentos "aromáricos".

Para ele, os seres humanos deveriam se preparar para descobrir novos segredos da natureza tanto no reino animal, vegetal e mineral como no

ainda pouco conhecido reino "aromai" (OC, IV, p. 219). "O aroma éo

que há de mais forte na natureza material" (OC, II, p. 191).

Júpiter e Marte, por meio do pólo norte, copulam —aromatica-

mente —com o pólo sul da Terra; Saturno, por meio do pólo sul,

copula com o pólo norte da Terra: essas cópulas influem no apareci

mento de plantas e animais;

das primeiras, nasceram o camelo, o boi

e a vaca; das segundas, nasceram o cavalo e o jumento (OC, VII, pp

469-471).

Outras cópulas aromáticas geraram flores e frutos. ATerra, copu-

lando com Saturno, engendrou atulipa; com oSol, engendrou a uva;

comMercúrio, engendrou omorango; ecopulando consigomesma (pó lo norte com pólo sul) engendrou a violeta (OC, IV, p. 244). Apersistência da civilização na Terra está causando graves prejuízos

ao intercâmbio com o Sol e osplanetas. Uma das evidências disso está

na proliferação de catástrofes e no aumento do número de animais ve

nenosos erepugnantes. ATerra corre o risco de morrer em pouco tempo.

Ovisionário advertia: "Nosso globo está em perigo iminente e tem ape

nas 432 anos de existência vindoura" (OC, VII, p. 488). Atragédia só pode ser evitada se os seres humanos conseguirem finalmente se reor

ganizar no estado societário e criar a Harmonia.

AHarmonia proporcionará mudanças notáveis. ATerra recuperará seu viço, sua saúde. Os animais daninhos e peçonhentos desaparecerão.

Deixarão de existir ratos, vermes, insetos nocivos, animais selvagens perigosos. Em compensação, surgirão novas espécies de animais, dispos

tos aservir aos homens: antileões, anticrocodilos, antibaleias que ajuda

rão os navios, antitubarões que ajudarão os pescadores, etc. (OC, IV, pp.

254 e 255). ATerra ingressará numa nova "adolescência" (OC, XII, p. 53). Aatmosfera se purificará, a temperatura se elevará, as calotas po

lares derreterão.

42

PENSAMENTO

ATerra está ansiosa pela mudança. Aaurora boreal é, segundo Fou

rier, "uma efusão inútil de fluido prolífico" (OC, I. p. 40) e um sinal do

que ela poderá fazer na nova era que ainda não pôde começar. Sobre o

pólo norte vai se formar uma "coroa", um "anel luminoso", que influirá

na incidência dos raios do Sol. As regiões geladas vão se tornar extraor

dinariamente férteis: São Petersburgo produzirá uvas eVarsóviaprodu

zirá laranjas. Aágua dos oceanos deixará de ser salgada ese transformará

numa espécie de "limonada" (OC, I, p. 45).

Mais surpreendentes ainda serão as mudanças que ocorrerão com

os seres humanos, que terão um enorme desenvolvimento, tanto físico

como espiritual. Os órgãos dos sentidos passarão por um fantástico aper

feiçoamento: nosso olho poderá enxergar no escuro e fitar o Sol sem

danos; nossoolfatosuperaráofaro doscachorros, nossoouvidoescutará

novos sons sutilíssimos, nosso tato e nosso paladar vão se refinar de

maneira

espantosa. Chegaremos a desenvolver a capacidade de respirar

debaixo da água.

Os indivíduos viverão mais (cerca de 140 anos), dormirão menos e

melhor (cinco horas bastarão para o repouso) e—respeitando as exi

gências impostas pela paixão da borboleta —nunca ultrapassarão a du

ração de duas horas em nenhum trabalho. Os dedos do pé, que na civi

lização são inúteis, desenvolverão importantes habilidades e se tornarão

meios eficazes para o aproveitamento de novos instrumentos musicais a

serem inventados (OC, VI,p. 208).

As pessoas aumentarão de estatura e terão mais de dois metros de

altura. O cabelo nunca deixará de crescer, de modo que não existirão

carecas. Quem ao envelhecer perder os dentes será agraciado com uma

nova dentição natural (OC, VIII, p. 441). Depois da 16* geração criada

na Harmonia, os seres humanos desenvolverão um membro-extra, que

Fourier chama de "arquibraço", e que de fato será um rabo (como'o do

macaco), um prolongamento da coluna vertebral, com uma forte mão

na extremidade, para poder agarrar com firmeza quaisquer objetos. Fou

rier garantia que o"arquibraço" seria de imensa utilidade para nós (apud

Beecher, op. cit., pp. 340-341).

Todas essas intuições se baseiam numa opção metodológica feita por

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FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

Fourier, caracterizada pela legitimação daanalogia. As"ciências" desen

volvidas pela civilização são áridas, limitadas, pobres, não estão em con dições de investigar as conexões que a analogia nos revela. Fourier preconiza a criação de "novas ciências". O teórico do falanstério, bem-

humorado, sustenta: "A analogia é a mais divertida das ciências; ela

confere uma alma a toda a natureza" (OC, XII, p. 201).

12. A PERSPECTIVA

Para Fourier existiam cinco ramos do movimento universal, interliga dos. O primeiro seria o movimento físico-mecânico, material, aquele

que Isaac Newton estudou e explicou. O segundo seria o movimento

aromai, da comunicação entre os astros, que ainda estava para ser cien

tificamente explicado. O terceiro, o movimento orgânico das formas

e das cores dos seres vivos. Oquarto, o movimento instintual, dos ani

mais. E o quinto, afinal, era o movimento passional ou social dos seres

humanos.

Fourier se orgulhava de ter sido o pioneiro desbravador que havia

lançado luz sobre esse último movimento e o chamava de movimento "pivotal". Aos seus olhos, o movimento passional erao "coordenador"

(OC, XII,

p. 160), o "arquétipo" dos demais, a chave para a compreen

são dosoutros(OC, IX, p. A2).

Nessas condições, o campo onde lhe cabia travar a batalha decisiva

na propagação de sua doutrina nãoeraa cosmogonia, não erao das es tranhíssimas imagens analógicas, mas o da radicalidade crítica em face da

civilização, com seu sistema de repressão e desvirtuamento das paixões^-

Era a civilização que estava estorvando o movimento passional,

coordenador dos outros quatro ramos do movimento universal. Em seu

último livro publicado —Afalsa indústria —ele procurou deixar isso

bem claro. Em nenhum momento manifestou qualquer dúvida a respeito

da validade de suas concepções cosmogônicas, de suas "novas ciências"

fundadas sobre a analogia. Porém insistiu na idéia de que o essencial na

44

PENSAMENTO

sua ação era a críticaà civilização. Escreveu: "Mesmo que fosse verdade

queas novas ciências aindafossem equivocadas, romanescas, continua

ria a ser seguro que sou o primeiro e o único autor a indicar um caminho

para associar as desigualdades e quadruplicar a produção através do

emprego daspaixões, temperamentos e instintos quea natureza nosdeu.

Eesse o ponto sobre o qual deve serconcentrada a atenção, e não sobre

as ciências que estão sendo apenas prenunciadas" (OC,VIII, p. 443). O adversário éa civilização. O essencial é superá-la. O máximo em

penho precisa estar dirigido para libertar osseres humanos das cadeias

que acorrentam suas paixões, amesquinham seus prazeres e os atrelam

ao trabalho.

Nas sociedades civilizadas o trabalho não pode deixar de assumir

formas desagradáveis oumesmo repugnantes, porque resulta da impo

sição por uma parte da sociedade de determinadas atividades a outra

parte da sociedade. A predominância dos interesses particulares dos

grandes comerciantes sobre os interesses dos produtores acarreta uma

situação na qual as tendências parasitárias tendem a se generalizar. "Os

que trabalham na manufatura e na agricultura criamriquezas. O comer

ciantenão produznada,é um mero agente distribuidor,umservidordos

produtos que o mantêm" (OC, XI, p. 15). Além de não produzir, o

comerciante tende a promover uma desqualificaçâo da cultura p lima

legitimação da.incultura. Diz muito sobre a civilização — anota Fourier

— "o fato de que a atividade que exige menos estudo, a atividade do comerciante, seja a mais lucrativa" (OC, XI, p. 22).

Fourier chega a falar em "despotismo",em uma "ditadura dos co

merciantes" (OC, I, p.222). Um comerciante não precisa ser culto, sen

sível, patriótico, para ser bem-sucedido. Freqüentemente severifica, ao

contrário, que a incultura, a falta de patriotismo e a insensibilidade fa

vorecem o êxito. E o patronato se aproveita do fato de ser mal formado para encarar como "normal" a pobreza característica do mundo dos trabalhadores, que o cerca.

se escandaliza com o fato de que, na civilização, a riqueza

paralelamente engendre a pobreza. "Para que existam alguns ricos", es

creve, "é preciso que existam muitos pobres" (OC, IX,p. F6). Ospobres

Potóer

45

FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER

se_sentem mais infelizes na medida em que vêem mais riquezas acumu

ladas nas mãos dos ricos. Impedida de participar do aumento da riqueza,

a classe pobre passa a ter um aumento de privação, pois "enxerga uma

variedade maior de bens, mas são bens dos quais ela não pode desfrutar"

(OC,XI,p,35).

Acivilização não pode sequer assegurar à massa dos trabalhadores

condições materiais que lhe garantam a tranqüilidade da subsistência,

porque, se isso acontecesse, como o trabalho nas sociedades civilizadas

épor definição inumano, ninguém trabalharia. Éanecessidade que obri ga os trabalhadores a trabalhar; por isso, é necessário que eles se sintam

aguilhoados pela necessidade.

-** Na geração seguinte, Marx se concentrará na análise crítica do"J

modo de produção capitalista e verá no movimento

operário o sujeito

de uma transformação revolucionária da sociedade, a força material ca

paz de forjar uma nova sociedade (e a Harmonia para ele se chamará

comunismo). Fourier, contudo, empreendia sua crítica radical do capi

talismo (para ele, a civilização) no âmbito da troca, no nível da circulação

das mercadorias. Enão lhe era possível discernir no proletariado indus-

I trial incipiente da França o núcleo de ações decisivas na criação da so

ciedade nova.

Se na teoria de Fourier não havia espaço para o reconhecimento do

papel a ser desempenhado pelo proletariado na história política das dé cadas subseqüentes, isso não impediu, contudo, que alguns trabalhado res fossem tocados pela mensagem do seu socialismo utópico.

Aproposta de

ação encaminhada por Fourier, entretanto, tinha ca

racterísticas muito peculiares e não correspondia às disposições subjeti

vas da maioria dos trabalhadoresmais combativos.

No projeto do falanstério, o pensador fundia duas aspirações de

quase impossível combinação: a da revalorização do espírito comunitá

rio ea da mais completa liberdade individual para todos. Sua exacerbada preocupação com a defesa da autonomia das pessoas o distinguia de outros teóricos socialistas da primeira metade do século XIX, por ele

tidos como "coletivistas". Sua perspectiva o levava a condenar as hierar

quias da"igreja" dos saint-simonianos, o "comunismo" deRobert Owen

46

PENSAMENTO

ea estruturação da Icâria de Étienne Cabet. Para Fourier, quaisquer

formas de convivência que fossem impostas e não-voluntárias resulta

riam num acumpliciamento com a repressão civilizada. Assim, jamais poderia ser aceita a comunidade que, tal como Cabet queria, determi

nasse aos trabalhadores o que cada um deveria produzir e lhes pagasse,

não em dinheiro, mas in natura.

A perspectiva da criação no falanstério de uma comunidade onde

cada um faria o que desejasse encantou algumas almas rebeldes, seduziu

alguns espíritos inquietos echegou asensibilizar diversos trabalhadores

politizados. Um exemplo desse efeito se encontra na carta que a operária

Desirée Veret, muitos anos após a morte de Fourier, escreveu, emocio

nada, para Victor Considérant, dando testemunho do vigor com que

fora tocada pela utopia fourierista: "A utopia é tão velha quanto o mun

do organizado. Ela éa vanguarda das novas sociedades e fará a socieda de, aHarmonia, quando ogênio dosJiomensiizer-dela-uma-realidade"

{in Rancière, Jacques, 1988, p. 407).

Como já foi dito, porém, os fourieristas e seus simpatizantes perma

neceram minoritários. Os trabalhadores politizados, em sua maioria,

preferiram seguir os caminhos indicados nas ações enas teorias de Marx,

Engels, Proudhon, Lassalle, Bakunin, Blanqui e outros.

A obra de Fourier, contudo, não foi esquecida; não desapareceu.

Teve, de fato, um efeito diferenterExerceu uma influência mais difusa,

que só pode ser notada com maior clareza quando se observa um movi

mento mais lento, que se desenvolve ao longo de um período mais ex

tenso, de maior duração.

Olegado do pensador manifestou sua vitalidade numa história que

não era a da precipitação dos conflitos mais agudos e mais imediatos da

luta política. Aeficácia alcançada pela perspectiva de Fourier, tal como

foi exposta em seus escritos, aparece num tempo especial: o tempo dos

sonhos recorrentes, que sacodem, na cultura, a poeira das estratifica-

ções, dos hábitos mentais envelhecidos, mas preservados pela inércia e

pelas manhas da ideologia. Um tempo de mudanças sociais sutis, de

transformações humanas complexas, que levam, às vezes, vários séculos

para se efetivarem.

47

"d

•---^-~-

I

>

>

1. NO SÉCULO XIX

Apósa morte de Fourier, os discípulos se dividiram. Henri Desroches

aborda, com disposição polêmica, essa divisão, em seu

livro La société

festive, caracterizando duas grandes tendências que se definiriam pelo

tipo de relação que pretendiam manter com o mestre: "deum lado, a

posição atestatória da ortodoxia teórica, que se tornava praticamente conformista; de outro, a posição contestadora da dissidência, aferrada

ao seu inconformismo" (Desroches, 1975,p. 177).

A principal corrente dos fourieristas teve como líder Victor Consi

deram, que desenvolveuao longo de váriasdécadasintensa atividade de

proselitismo./ Constituíram-se contudo, à margem da atuação do grupo

liderado por Consideram, outros grupos autônomos que tomavam suas próprias iniciativas. Eforam tomadas asprovidências iniciais paraa ins

talação de falanstérios, em diversos locais, sem que no entanto os pro

jetos tivessem podido ser levados adiante.

Um dos falanstérios que chegou a ser planejado em sua fase inicial,

segundo informação contida num livro intitulado Organisation du tra-

vail, publicado em 1845 pelo Dr. A. de Bonnard (cf. Desroches, 1975), deveria ser instalado no Brasil. Suzana Munhoz da Rocha, em 1993,

relembrou a história do grupo de franceses que, em 1841, sob a liderança

do médico homeopata Dr. Benoít Tules Mure,de Lyon, fundoua "Co lônia Industrial do Saí", no município de SãoFrancisco, em Santa Ca tarina, na mesma região onde, apóso fracasso da experiência, os imi

grantes alemães viriam a fundar Joinville (Munhoz da Rocha, 1993). Recentemente foi publicado um estudo sobre esse fascinante episó-

51

j

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FOURIER,

O

SOCIALISMO

DO

PRAZER