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CAPÍTULO IV

DAS FUNÇÕES ESSENCIAIS À JUSTIÇA


(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 80, de 2014)
Seção I
DO MINISTÉRIO PÚBLICO

Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função


jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime
democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.

Histórico.

O Ministério Público da forma que conhecemos foi instituído apenas


na Constituição Federal de 1988.

Antes da CF/88, o MP foi um órgão vinculado à estrutura do


Poder Judiciário na CF/67 e ligado ao Poder Executivo na CF/69, realizando
funções semelhantes os que a AGU realiza atualmente.

Hoje, o Ministério Público é uma instituição permanente essencial à


Justiça (não é um Poder), e não integra os outros Poderes, sendo independente e
sem vinculação aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Seguem as definições dos termos usados pela Constituição:

Instituição

O Ministério Público é uma entidade organizada do Estado brasileiro


com a finalidade de realizar a defesa da ordem jurídica, do regime democrático,
dos interesses sociais e dos interesses individuais indisponíveis.

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O Ministério Público é uma instituição permanente que auxilia o
Poder Judiciário a realizar a prestação jurisdicional (assim como a advocacia e
a defensoria pública), não se confundindo com os demais Ministérios do Poder
Executivo (da Fazenda, do Trabalho e Emprego, da Educação, por exemplo). Os
Ministérios do Poder Executivo são órgãos da sua estrutura criados e extintos por
lei. O Ministério Público não é um órgão do Poder Executivo e não pode ser extinto
por lei.

Permanente

A ideia de “instituição permanente” dada ao Ministério Público pelo


texto constitucional é que ele não pode ser abolido nem mesmo por Emendas
Constitucionais.

Como uma das finalidades do Ministério Público é justamente a


defesa dos direitos e garantias fundamentais (os quais são claúsulas pétreas não
podem ser abolidos por emendas constitucionais, conforme artigo 60, § 4º, da
Constituição Federal), a instituição, em decorrência lógica, também deve ser
preservada.

Essencial à função jurisdicional do Estado

O Ministério Público, a advocacia pública e privada e a defensoria


pública são essenciais à função jurisdicional do Estado, na medida em que
colaboram com o Poder Judiciário para uma melhor prestação jurisdicional. Assim,
o MP auxilia à Justiça ora como parte ora como fiscal da lei.

Jurisprudência:

 O produto da arrecadação de taxa de polícia sobre as atividades notariais e de


registro não está restrito ao reaparelhamento do Poder Judiciário, mas ao
aperfeiçoamento da jurisdição. E o Ministério Público é aparelho

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genuinamente estatal ou de existência necessária, unidade de serviço que se
inscreve no rol daquelas que desempenham função essencial à jurisdição (art.
127, caput, da CF/1988). Logo, bem aparelhar o Ministério Público é servir
ao desígnio constitucional de aperfeiçoar a própria jurisdição como atividade
básica do Estado e função específica do Poder Judiciário.

[ADI 3.028, rel. p/ o ac. min. Ayres Britto, j. 26-5-2010, P, DJE de


1º-7-2010.]

Defesa da ordem jurídica

Ordem jurídica pode ser conceituada como conjunto de normas que


regulamentam a vida em sociedade. Dessa forma, o Ministério Público deverá
apenas nas normas que estejam dentro das suas finalidades gerais como os
interesses sociais e individuais indisponíveis.

Jurisprudência

 Reconhece-se ao Ministério Público a faculdade de impetrar habeas corpus e


mandado de segurança, além de requerer a correição parcial (...). A
legitimidade do Ministério Público para impetrar habeas corpus tem
fundamento na incumbência da defesa da ordem jurídica e dos interesses
individuais indisponíveis (...), e o Ministério Público tem legitimidade para
impetrar habeas corpus quando envolvido o princípio do juiz natural (...).

[HC 91.024, rel. min. Ellen Gracie, j. 5-8-2008, 2ª T, DJE de 22-8-2008.]

Regime democrático

A CF/88 instituiu um regime democrático no qual todo poder emana


do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

O professor Emerson Garcia informa que a democracia tem como


requisitos:

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I) participação popular na escolha dos representantes e na edição das leis,
pois todo poder emana do povo (Art. 1º, parágrafo único da CF/88);
II) preservação do princípio da separação dos poderes, o qual, em última
circunstância, visa evitar o arbítrio e assegurar a liberdade (Art. 2º CF/88);
III) concreção dos direitos fundamentais assegurados na Constituição, em
especial do princípio da igualdade (Arts. 3º, I e 5º, caput, CF/88);
IV) pluralismo político, garantindo-se a participação das minorias (Art. 17
CF/88); e
V) eleições periódicas dos governantes.

Assim, cabe ao MP atuar em qualquer ato atentatório ao regime


democrático.

Interesses sociais e individuais indisponíveis

O Ministério Público atua na proteção de toda sociedade, devendo


proteger os interesses sociais e individuais indisponíveis , os quais não podem ser
privados de nenhum indivíduo, pois são essenciais para sua sobrevivência,
como o direito à vida, à liberdade, à educação, dentre outros.

Eles são considerados indisponíveis porque o individuo não


poderá se dispor, trocar, renunciar ou ceder a terceiros.

Nesse sentido, deve o Ministério Público agir no interesse de toda a


sociedade, sem olhar para individualidade ou pessoalidade..

Cumpre ressaltar que o Ministério Público pode atuar na defesa


de interesses individuais disponíveis quando se cercarem de repercussão social
(individuais homogêneos), consoante jurisprudência do STF:

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 O Ministério Público tem legitimidade ativa para a defesa, em
juízo, dos direitos e interesses individuais homogêneos, quando
impregnados de relevante natureza social, como sucede com o
direito de petição e o direito de obtenção de certidão em repartições
públicas. [RE 472.489 AgR, rel. min. Celso de Mello, j. 29-4-
2008, 2ª T, DJE de 29-8-2008.] = AI 516.419 AgR, rel. min. Gilmar
Mendes, j. 16-11-2010, 2ª T, DJE de 30-11-2010

Jurisprudência:

 Considerada a natureza e a finalidade do seguro obrigatório Danos Pessoais


Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT) (Lei
6.194/1974, alterada pela Lei 8.441/1992, Lei 11.482/2007 e Lei
11.945/2009), há interesse social qualificado na tutela coletiva dos direitos
individuais homogêneos dos seus titulares, alegadamente lesados de forma
semelhante pela seguradora no pagamento das correspondentes indenizações.
A hipótese guarda semelhança com outros direitos individuais homogêneos
em relação aos quais – e não obstante sua natureza de direitos divisíveis,
disponíveis e com titular determinado ou determinável – o STF considerou
que sua tutela se revestia de interesse social qualificado, autorizando, por isso
mesmo, a iniciativa do Ministério Público de, com base no art. 127 da
Constituição, defendê-los em juízo mediante ação coletiva.
[RE 631.111, rel. min. Teori Zavascki, j. 7-8-2014, P, DJE de 30-10-2014,
Tema 471.]

§ 1º - São princípios institucionais do Ministério Público a unidade, a


indivisibilidade e a independência funcional.

Existem três princípios institucionais do Ministério Público


expressos na Constituição Federal. Existem ainda mais dois princípios implícitos
considerados pela jurisprudência e doutrina.

Princípios expressos na Constituição Federal: unidade,


indivisibilidade e independência funcional