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Erick Ferreira

PORQUE NÃO SOU


LIBERAL
INTRODUÇÃO

Todos os autores que se lançaram na ingrata tarefa de definir o liberalismo,


acabaram envolvidos em teias tão embaraçosas que, ao final da empreitada, reputaram a
tarefa como impossível. Destes que reconheceram a ingratidão do tema, cabe mencionar
autores de primeira grandeza como Eric Voegelin, Erik von Küehnelt Leddihn, e
mesmo, liberais do porte de Mises e Hayek. Este último chegou a propor que os liberais
evitassem se identificar com esse nome; e o primeiro disse que nos teóricos fundadores
do liberalismo se pode encontrar uma ideia precisa do que seja o liberalismo (cf. Mises,
O liberalismo na tradição clássica, 35)

Não havendo um consenso sobre a essência do liberalismo nem mesmo entre os


liberais, no último século, alguns eventos foram realizados entre eles para tentar chegar
a um improvável consenso. Entre estes eventos, destacamos a fundação da L'entente
internationale des partis radicaux et des partis democratiques similaires, de 1924 e a
Internacional Liberal de Oxford, fundada em 1947, que culminou na publicação de um
Manifesto. Dois eventos que mostram a mobilização entre os liberais pela definição de
sua doutrina. No entanto, nem todos os liberais estavam dispostos a prestar conta de seu
modo de "ser liberal" a qualquer entidade, ou mesmo, estariam dispostos a reconhecer
um conjunto de princípios como parte de uma pretensa “ortodoxia liberal”. Por isso,
destes eventos para cá, o liberalismo já se fragmentou em tantas partes, que tornou ainda
mais embaraçoso e obsoleto pensar em uma única forma de liberalismo. E nesta
complexa resistência de um liberal a se reduzir a qualquer forma de homogeneidade ou
dogmatismo, identificamos, um caráter magno na essência do liberalismo: a
insubmissão do indivíduo ao coletivo, mesmo que tal coletivismo venha revestido sob o
embrulho de uma inexistente ortodoxia liberal. Portanto, no liberalismo, parece não
haver espaço para um “órgão central”, uma “autoridade universal”, ou uma “unificação
internacional”.

O espirito liberal já nasceu insubmisso. Por essa razão, o liberalismo nunca assume uma
forma fixa na história, embora, certos pilares se mostrem inalteráveis em sua
composição básica, como os que identificara John Gray.

Para este ensaísta, há três pilares que todas as formas de liberalismo compartilham entre
si. São eles:

1. Individualismo: a proeminência do individual sobre o coletivo.

2. Igualitarismo: igualdade como fundamento da liberdade, e vice versa. Ficando cada


um livre de vantagens desproporcionais, servindo-se apenas da posse de sua liberdade,
de modo a fazer suas escolhas livremente e a partir delas, e do mérito pessoal, ascender
ou estagnar em alguma posição.

3. Universalismo: com este princípio, o liberalismo afirma sua unidade moral

4. Meliorismo: por ver o ser humano como algo em perpétuo aperfeiçoamento e


evolução. (John Gray, Liberalism, 2º ed. Minneapolis: University Minnesota Press,
2003)

Há dissenso entre os liberais entre centenas de questões, mas todos eles parecem ceder
unanimemente a estes princípios, e tal adesão, é o que os torna, de fato, liberais.

O liberal brasileiro, José Guilherme Mérquior, por sua vez, identificava três elementos
fundamentais na doutrina liberal clássica. 1. A teoria dos direitos humanos 2. O
constitucionalismo 3. A economia clássica do laisser faire (p. 47)

Em outros pontos, além destes já notados por uma vasta gama de autores, é difícil haver
consenso entre os liberais, de modo que se pode encontra-los em posições
diametralmente opostas em relação a outras questões.

Além das já conhecidas diferenças de tendências liberais, ainda cabe estabelecer


importantes distinções entre as espécies de liberalismo. A saber: o liberalismo político, o
social e o econômico, e quais os elos que os une como “liberalismo”.
***

O filosofo alemão Eric Voegelin, em seu ensaio Liberalism and its history,
escreveu que “a essência do liberalismo só pode ser adequadamente descrita em termos
de seu confronto com outros fenômenos” (The Collected Works, Vol. 11. University of
Missouri Press, 1953-1965, p. 84) E, de fato, não há meio mais eficaz de se fazer uma
análise mais apurada deste fenômeno político-filosófico e comportamental senão da
forma proposta por Voegelin.

Todavia, observa ainda Voegelin, que, houve uma fase em que o liberalismo era
facilmente identificável ─ no século XIX, segundo ele ─, e posteriormente, acabou
adquirindo contornos extremamente complexos, chegando a nossa atualidade,
indefinível. Por isso, o mesmo filosofo adverte aos que tentam chegar a uma definição
sobre este fenômeno que contenham seu ímpeto reducionista ─ reducionista porque
neste sentido, definir é limitar algo que se alargou demasiadamente ─, e contentem-se
com a mera descrição deste fenômeno.

José Guilherme Mérquior, também reconhecia na tarefa descritiva o meio mais


eficaz de se chegar a um conceito de liberalismo. “É muito mais fácil ─ e muito mais
sensato ─, dizia ele, descrever o liberalismo do que tentar defini-lo de maneira curta”.

Portanto, diante de tarefa tão ingrata, o que importa saber, já não é como pensam
os liberais, mas como eles não pensam! E através do recurso das analogias, contrapondo
o liberalismo com seus maiores oponentes ─ o conservadorismo e o comunismo ─, e a
partir do que este rejeita e compartilha destas correntes, chegaremos a um denominador
comum. É desta forma que tentarei abordar este tema de suma delicadeza.