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Resenhas

bulo αἰσθάνεσθαι como aisthane[s]tai. ra um excepcional auxílio para o estu-


Mas tudo isso não tira o grande mérito do deste autor, que a torna indispensá-
da publicação deste léxico. vel não somente para os especialistas e
Ao vir a lume esta essencial obra de bibliotecas interessados no filósofo gre-
referência — provavelmente a melhor go, mas para compreender as raízes do
que hoje dispomos em língua portugue- pensamento ocidental e suas “notas de
sa a respeito de Platão — temos ago- rodapé”...

Diác. Felipe de Azevedo Ramos, EP


(Professor do IFAT)

TOMÁS DE AQUINO, Santo. Questões disputadas sobre a alma.


Trad. Luiz Astorga. São Paulo: É Realizações, 2012. 464p.
ISBN: 978-85-8033-122-6.

Com esta publicação contamos com no (v. 24, 1996, p. 25b), e a nota prévia do
mais uma obra do Doutor Angélico em tradutor (p. 25), as 21 questões que com-
versão portuguesa, disponível em edi- põem a obra foram disputadas provavel-
ção bilíngue. O tradutor, Luiz Astor- mente na Itália entre 1266-1267, dian-
ga — quem já possui certa experiên- te de um público não somente estudantil,
cia em traduções do Aquinate —, junta- mas também pertencente à ordem domi-
mente com Sidney Silveira, são também nicana (ed. Leon., v. 24, 1996, p. 102b).
os responsáveis pelas notas explicativas Revelando o pensamento ordenado do
encontradas ao final do livro. O prólo- autor, o texto foi estruturado em ques-
go, escrito por Carlos Augusto Casano- tões de tamanhos semelhantes, enquan-
va Guerra (p. 7-23), é bastante atraente e to a obra pode ser dividida em três par-
revela seu domínio acerca do pensamen- tes equivalentes (conforme a divisão de
to tomista, com grande capacidade de Jean de la Rochelle): sete questões dedi-
relação com outros filósofos. cadas à essência da alma, sete consagra-
Neste denso e esclarecedor escrito, das à união da alma com o corpo e outras
em princípio destinado a um público já sete que discutem a separação da alma do
familiarizado com os textos do Aquina- corpo.
te, podemos encontrar o cerne da doutri- Já desde a primeira questão é possível
na tomista a respeito da alma. Conforme encontrar alguns tópicos centrais e por
Bernardo C. Bazán, editor do texto leoni- vezes distintivos da antropologia tomis-

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ta: a alma considerada como forma do Também de grande relevo é a sétima


corpo, a sua espiritualidade (graças ao questão, que aborda a diferença entre a
modo de sua operação), a sua subsistên- alma separada e o anjo segundo a espé-
cia por si mesma e a particularidade de cie. Aqui se evidencia o quanto a essên-
ser considerada “completa” somente de cia da alma está intimamente ligada ao
acordo com a sua natureza específica, fato de ela ser destinada a se unir ao cor-
isto é, através da união com o corpo. po, o que não ocorre, como sabemos,
Entre as questões dois e cinco, encon- com os anjos.
tramos algumas das doutrinas essenciais Seguindo o mesmo raciocínio, a
do Angélico Doutor contra o monopsi- questão oito trata de como “a alma
quismo de matriz averroísta. Esta cor- racional tinha de unir-se a um corpo
rente defendia a separação tanto do inte- como o humano” (p. 163), justamen-
lecto agente quanto do possível do cor- te pelo fato de que “não possui espécies
po, bem como a unidade de ambos inte- inteligíveis naturalmente impressas [...]
lectos para todos os homens (isto é, o pelas quais possa levar-se à sua opera-
intelecto não seria individual, mas uma ção própria, que é o inteligir” (p. 171).
espécie de matriz universal). O Aquina- Nas questões seguintes (9-12) se exami-
te aponta os erros destas teses e ainda na se a alma é unida ao corpo por algum
de outras, esmiúça as objeções, contra- meio, se a alma está em todo corpo ou
riando-as com argumentos contunden- em parte dele, se alma humana é uma
tes, por vezes através do método reduc- única substância e se ela coincide com
tio ad absurdum, quer dizer, a que teo- as suas potências (e como estas podem
rias contraditórias poder-se-ia incorrer ser distinguidas umas das outras).
quem adotasse a posição averroísta. A última parte da obra trata, como
Interessante e viva é a questão seis, dissemos, acerca da alma separada. Mas
na qual São Tomás nega a possibilidade antes de se deter no cerne do tema, São
de aplicar o hilemorfismo à alma. A pro- Tomás de Aquino julga necessário pro-
va central é bastante simples: uma vez var a imortalidade da alma (q. 14), a qual
que antes já se tinha provado que ela é é sustentada, por sua vez, graças a seu
forma, não pode, portanto, ser compos- modo de operar, isto é, totalmente ima-
ta, contemporaneamente, de matéria e terial e, portanto, incorruptível.
forma. Sem embargo, isto não impede As próximas questões versam a res-
a composição de ato e potência, a qual peito do modo de intelecção da alma
é compartilhada por todas as criaturas, separada: em primeiro lugar, se ela pode
mesmo os anjos, pelo que é necessário inteligir (q. 15). Em seguida, a fim de
distinguir o ser (esse) e aquilo por meio comparar a alma separada com a unida
do qual é (essentia) em todas as coisas, à ao corpo, o Aquinate investiga se esta
exceção de Deus. pode conhecer as substâncias separadas

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(q. 16). Trata também da possibili­dade sar disso, foram acrescentadas emenda-
de a alma separada conhecer as subs- tiones desta última edição em passagens
tâncias separadas (q. 17) e todas as coi- que o tradutor julgou “relevantes” (cf.
sas naturais (q. 18). Consoante com este p. 25), como ocorre no trecho entre col-
último tema, o Santo Doutor investiga se chetes da página 96: “... non est neces-
as potências sensitivas permanecem na sarium ponere intellectum agentem, qui
alma separada (q. 19) e se esta conhece faciat phantasmata [receptibilia in intel-
os singulares (q. 20). Por último, esmi- lectu possibili]”.
úça a intricada problemática de como No que tange à tradução propriamen-
a alma pode padecer pela pena do fogo te dita, Astorga é, em geral, bastante
corpóreo (q. 21). coerente, mas podemos apontar alguns
As Questões disputadas sobre a pequenos lapsos. Por exemplo, ele tra-
alma revelam, em seu conjunto, a notá- duz o verbo intelligere do enunciado
vel estruturação do pensamento do Dou- da questão 16 no proêmio por “inteli-
tor Angélico, bem como sua clareza e gir” (p. 31), enquanto esta mesma pala-
genialidade ao se aprofundar neste tema vra contida em idêntica frase na página
fundamental de sua antropologia. 327 é traduzida por “conhecer”. Apesar
*** de ambas traduções serem pertinentes,
Quanto à tradução, é mister conside- esta ocorrência bem poderia ser compa-
rar que é superior às que normalmen- rada a um índice com um título diverso
te encontramos do latim para o nos- do enunciado no corpo do texto.
so idioma, mas com certa tendência à Além disso, assim como os erros são
literalidade (como a utilização do ver- importantes para se descobrir a trajetó-
bo “advir” para “advenio” [por exem- ria de um texto numa tradição manus-
plo: p. 33]), o que, ao cabo, é preferível crita — graças às chamadas “contami-
à excessiva liberdade, sobretudo quan- nações”, isto é, a tendência dos ama-
do se pretende ser fiel à terminologia nuenses em repetir os erros transcritos
filosófica, tão importante nos textos nas cópias antecedentes, além de acres-
dessa natureza. centar suas falhas pessoais —, pode-
Por outro lado, apesar de todas as res- mos aplicar o mesmo método para des-
salvas feitas pelo tradutor em sua nota cobrir uma possível inspiração na tra-
prévia, é difícil compreender porque foi dução espanhola do texto, ao menos em
utilizada a penúltima edição de Turim alguns trechos. Tomemos como exem-
(Marietti, 1953) — baseada por sua vez plo o corpo da questão cinco nas pági-
em edições antigas, sobre as quais foram nas 112-113:
feitas algumas correções — e não sim- Em latim lemos: “Et ideo plures
plesmente a edição crítica leonina cui- posuerunt intellectum agentem esse
dadosamente preparada em 1996. Ape- substantiam separatam”.

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Tradução: Em razão disto, alguns causis expositio (Paris, 2002, p. xv):


afirmaram que o intelecto agente seria “Nada se sabe com certeza a respeito
uma substância separada. das origens e do autor do Liber de cau-
Tradução espanhola (Navarra, 2001, sis”. Entretanto, o que podemos afirmar
2.ed., p. 120): En razón de esto, algunos sim, com certeza, é a inspiração indire-
han afirmado que el intelecto agente es ta do texto na Elementatio theologica de
una sustancia separada. Proclo, descoberta, aliás, que remonta à
Note-se que a versão portuguesa repe- análise perspicaz do próprio São Tomás
te o erro da tradução espanhola tradu- de Aquino (ibid., p. xxiv). Já na nota 69
zindo “plures” por “alguns” (“algunos”) (p. 443), o nome de Maimônides é refe-
e não por “muitos”, além de utilizar uma rido como “Salomão Moisés Maimôni-
forma pouco frequente em nossa língua, des”. Se este primeiro nome atribuído
embora correta, para traduzir “et ideo”: ao filósofo judeu é real, há de se dizer
“em razão disto”, formulação idêntica à que ao menos é incomum. De qualquer
tradução espanhola (“en razón de esto”). forma, não coincide com a nota 213 (p.
A título de comparação seguem-se duas 450), que exclui o referido prenome. De
edições em outros idiomas: modo geral, por estes e outros pormeno-
Tradução italiana (Bologna, 2001, p. res (como citações incompletas e nomes
141): “Per questo molti hanno ritenuto de obras e referências não condizentes
che l’intelletto agente fosse una sostan- com o status quo da investigação atu-
za separata”. al), parece que faltou, infelizmente, uma
Tradução inglesa (Milwaukee, 1984, revisão detalhada desta parte.
p. 85): “Consequently there are many Por fim, talvez seria útil para as edi-
who asserted that the agent intellect is a ções futuras deste importante escrito o
separate substance”. acréscimo de uma bibliografia, índices
Concernente às notas ao final, há e glossário. Outra sugestão seria incluir
relevantes comentários para a com- um ensaio introdutório que desse uma
preensão do texto. No entanto, na par- visão geral da obra, eventualmente útil
te bibliográfica, encontramos a errônea ao leitor não habituado com a linguagem
atribuição do Liber de causis a Proclo de técnica do Doutor Angélico. No entanto,
Bizâncio. Pelo que nos consta, até mes- o que foi feito nesta publicação já é um
mo na tradicional edição de Bardenhe- grande passo para a divulgação do pen-
wer (1882) citada pelo tradutor (equivo- samento tomista para o público lusófo-
cadamente datada como sendo de 1822), no, em especial no Brasil.
a autoria do referido texto era tida como Para concluir, cumpre ressaltar que
desconhecida, teoria que perdura até os este texto pode ser de grande utilidade
nossos dias. Saffrey corrobora esta posi- para o leitor pós-moderno, o qual, infe-
ção na Introdução ao Super librum De lizmente, torna-se cada vez mais adver-

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so em aceitar o estudo daquilo que não tir que o homem se interrogue natural-
é comprovado através dos sentidos ou mente acerca das questões essenciais de
por um tubo de ensaio. Mas, por outro sua existência, como de onde veio, para
lado, não se pode negar que a investiga- onde vai e para o que é destinado? Fica
ção sobre a alma se reveste de uma par- aqui o convite para a leitura desta obra:
ticular importância, porque reflete as São Tomás de Aquino já deu a respos-
indagações que brotam do mais íntimo ta detalhada a estas perguntas há quase
de nosso ser. Afinal, como não admi- oito séculos.

Diác. Felipe de Azevedo Ramos, EP


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