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O MARTELO DE NIETZSCHE SOBRE O

HISTORICISMO MODERNO

Antônio Flávio Figueiredo Braz


Especialista em Filosofia (PGFIL-FUNREI

Resumo: O presente artigo trata da análise crítica de Nietzsche em relação às perspectivas do


sentido histórico vigentes em sua época, bem como de sua proposta revolucionária que confere ao
homem a vontade e o poder para fazer a história. Sua crítica avalia o passado, abatendo todos os
elementos que não contribuem para a criação de novos valores e que colocam o homem sob certos
moldes universais (dogmas). Nietzsche traz a perspectiva do dionisíaco na história, revelando a
vida, o instinto, as emoções, e até mesmo o cotidiano por trás dos heróis (cotidiano este que fora
excluído pelos historiadores tradicionais). Nietzsche nos conclama a cultivar a história em função
da vida e não colocá-la como ciência “dona da verdade” sobre o nosso passado. Para Nietzsche, o
que importa é que sejamos livres para fazer história, capazes de agir sobre ela, sem que percamos
nossa individualidade em direção a uma objetividade absoluta, para a qual tenderia o sentido da
história, como diziam os hegelianos. Nietzsche nos diz, porém, que uma história que só destrói,
sem que estimule o impulso construtivo interior, com o tempo se torna desnaturada, tirana e niilista,
pois o martelo “serve tanto para destruir, como para construir”.

Palavras-Chave: História monumental. História erudita. História crítica. Valorização da vida.

Abstract: The present article treats of the critical analysis of Nietzsche in relation to the perspec-
tives of the effective historical sense in your time, as well as of your revolutionary proposal that
checks the man the will and the power to do the history. Your critic evaluates the past, abating all
the elements that don't contribute to the creation of new values and that place the man under certain
universal molds (dogmas). Nietzsche brings the perspective of the dionisiacal in the history, reveal-
ing the life, the instinct, the emotions, and even the daily behind the heroes (daily this that had been
excluded by the traditional historians). Nietzsche shouts us to cultivate the history in function of the
life and not to place her as science "lady of the truth" on our past. For Nietzsche, the one that im-
ports is that we are free to do history, capable to act on her, without we lose our individuality in di-
rection to an absolute objectivity, for which would tend the sense of the history, as they said the
hegelianos. Nietzsche tells us, however, that a history that only destroys, without it stimulates the
interior constructive pulse, with the time she becomes cruel, tyrant and nihilistic, because the ham-
mer "serves so much to destroy, as to build".

Key-Words: Monumental history. Erudite history. Critical history. Valorization of the life.


P or “martelo de Nietzsche”, de-
vemos entender a sua análise
crítica e destruidora dos valores
super-homem que tem vontade
forte, amor, embriaguez dionisíaca e
e sistemas filosóficos tradicionais, no que cria um novo sentido para a vida.
sentido de anunciar um novo espírito,
uma nova atitude, a aceitação da vida Identificaremos a seguir, o martelo
como ela é, o que não significa a nietzscheano sobre a “História como
aceitação do homem, mas de um ciência”, “cultura histórica”, “homens

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históricos”, principalmente visando as “desvalorizados” em função do agora,


teorias hegeliana e positivista. sendo um só - no sentido da expres-
Partiremos da análise da obra Consi- são “Eterno Retorno”, onde as possi-
derações Extemporâneas (1873- bilidades sempre reaparecem. Ou
seja, não são os acontecimentos
1874), Capítulo II, que trata “Da Utili- históricos que se repetem exata-
dade e Desvantagem da História mente como aconteceram, e até
Para a Vida”1 mesmo, não deve haver nenhum
acontecimento de maior importância
No início do referido Capítulo, temos que outro. Por exemplo: não haverá
considerações sobre o tema “felicida- novamente um Cristóvão Colombo
de”. Neste, Nietzsche nos diz que o que descobrirá outra vez a América,
que faz da felicidade, felicidade, é a isso para Nietzsche é impossível.
capacidade de esquecer, ou melhor, Deve-se, pois, tomar o cuidado de
a faculdade de se sentir a- não achar que o eterno retorno é o
historicamente, no sentido de insta- retorno de tudo o que já foi, pois “com
lar-se no instante e acreditar-se po- isso teríamos que admitir que, até em
tente para criar e dominar o seu des- toda a eternidade para trás, subsistiu
tino. Isto nada mais é do que acredi- algo de igual, a despeito de todas as
tar no seu próprio ser. alterações de situações globais e de
toda criação de novas propriedades –
Todo agir requer esquecimento: assim uma admissão impossível!”3. Para
como a vida de tudo o que é orgânico ele, o presente, o instante, é carrega-
requer não somente luz, mas também do com todas as possibilidades,
escuro. Um homem que quisesse
quando nele martelamos os velhos
sempre sentir apenas historicamente,
seria semelhante àquele que se for- conceitos, aniquilando-os, construin-
çasse de abster-se de dormir... (...) Há do a partir do espaço deixado por
um grau de insônia, de ruminação, de outros, valores superiores, ou seja,
sentido histórico no qual o vivente que valorizam a vida, a vontade de
chega a sofrer dano e por fim se arruí-
na, seja ele um homem ou um povo ou
potência, a liberdade de opinião etc.
2
uma civilização.
Para Nietzsche, o mundo não tem um
Esse sentir a-historicamente, pode-se alvo final a ser alcançado, como por
dizer que é uma atitude trágica, dio- exemplo: perfeição, absoluto, bem
nisíaca, que poderia ser interpretada supremo, felicidade etc. – maneira
no sentido de se viver deslocado do religiosa de pensar e desejar.
“sentido da história” imposto pelo
pensamento apolíneo e massificante. O mundo, se bem que nenhum deus
mais, deve no entanto ser apto à divina
Ou, seria o mesmo que viver o agora força criadora, à infinita força de
como um animal que vive sem lem- transmutação: deve voluntariamente
branças e sem preocupações com o defender-se de recair em uma de suas
futuro, comuns ao homem contempo- velhas formas; deve ter, não somente
a intenção, mas também os meios
râneo no seu dia-a-dia. Viver sem para se garantir contra toda repetição;
preocupações é possível, desde que deve, a cada instante, controlar cada
passado e futuro sejam igualmente um de seus movimentos para impedir
alvos, estados terminais, repetições -,
1 e tudo o mais, que possam ser as con-
Nietzsche (Pensadores), 1999, p. 273-287.
2
Nietzsche, Ibid. p. 273-274. 3
Nietzsche, Ibid. p. 439.

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seqüências de uma tal maneira imper- Nietzsche critica a história entendida


doavelmente maluca de pensar e de-
4 hegelianamente, dizendo ser ela ridí-
sejar.
cula, também no que diz respeito ao
Nietzsche nos coloca num mundo Absoluto, que perambula pela história
que não conhece saciedade, não galgando os degraus da dialética
conhece cansaço, e por isso, alterna- triádica, se auto-revelando, até che-
se como num círculo no criar-a-si- gar ao ponto culminante (que estaria
próprio e destruir-a-si-próprio, da du- localizado na própria época em que
pla volúpia, na eterna luta que já o Hegel vivia), implantando nas gera-
fisiólogo Heráclito dizia. Esse é o ções posteriores a admiração diante
mundo dos mais fortes, dos mais da “potência da história”, conduzindo
intrépidos, segundo Nietzsche. Por- à idolatria do fatual, como um “bezer-
tanto, a felicidade e o que se procura ro de ouro” – o próprio Absoluto em
no final de um sentido histórico esta- movimento. Esta visão retira do ho-
ria antes no instante – no aqui e ago- mem toda a sua individualidade, pois
ra – viva-o!, diria Nietzsche. o mesmo passa a ser espelho objeti-
vo do Absoluto. Tudo seria uma ne-
Nietzsche combate o que ele chama cessidade racional, tudo teria que ser
de “saturação de história”, o que não o triunfo do lógico, que coincide sem-
significa, contudo, que ele não dê pre com o Absoluto – o real, colocan-
importância à história, mas “martela” do os homens de joelhos diante dos
sobre as ilusões historicistas, princi- acontecimentos que retratam, por sua
palmente hegelianas, positivistas e vez, a vitória deste.
evolucionistas (Darwin), que causa-
ram uma grande ilusão à humanida- Nietzsche ironiza os hegelianos, di-
de. Primeiramente, porque tais siste- zendo que tais “homens” colocam a
mas filosófico-científicos acabaram finalidade da vida na morte, em prol
por conferir tremendo poder ao senti- do grandioso vir-a-ser soberano.
do da história (como se o homem Tentam legitimar a vida, propondo a
nada fosse diante dela), deixando o eles mesmos um fim, um alvo a pos-
homem inseguro e descrente de si teriori, sacrificando suas próprias
mesmo, tornando-se, assim, um ser vidas em prol deste.
alienado diante dos fatos – “...e con-
duz à idolatria do factual: culto este Logo em seguida, nos falará de três
para o qual, agora, aprendeu-se uni- tipos de atitudes que existem diante
versalmente a usar a formulação da história. Da primeira: “história mo-
muito mitológica e além disso bem numental”, diz que é a história de
quem procura no passado modelos e
alemã: ‘levar em conta os fatos’”5.
mestres em condições de satisfazer
Para Nietzsche, portanto, os fatos
as suas aspirações, através da imita-
nada mais são que ilusões estúpidas,
ção e adoração destes. Inclusive,
pois nem mesmo têm significações
têm-se o costume de adorar, através
próprias, à medida que precisam de
da história, personagens como Rafa-
intérpretes.
el, Goethe, Betthoven etc., esque-
4
cendo-se das milhares de vidas quão
Nietzsche, Ibid. p. 447-448. ou tão mais inteligentes ou admirá-
5
Nietzsche, Ibid. p. 284.
veis. Até então, a história monumen-
tal não poderá usar daquela veraci-

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dade total: sempre aproximará, uni- apavorados, procurando recorda-


versalizará e por fim igualará o desi- ções, desnorteados, apáticos, pregui-
gual; sempre depreciará a diferença çosos etc.
dos motivos e das ocasiões, para, à
custa das causas, monumentalizar os Nietzsche fala que na época moderna
efeitos, ou seja, apresentá-los como lançou-se um outro sentido para a
modelares e dignos de imitação.6 . vida, que é chamado de memento
vivere – lembra-te que hás de viver,
Segundo Nietzsche, a história mo- conclamando o homem a viver a vida,
numental, cheia de datas comemora- ser livre. Contudo, não conseguiram
tivas, cívicas ou religiosas, não nos ainda livrar-se daquelas idéias medi-
revela os acontecimentos, mas uma evais. Pois,
coletânea dos efeitos destes, sem
mostrar, contudo, a conexão entre as ...a história é sempre ainda uma teolo-
causas e os efeitos, que por fim, re- gia embuçada: como, do mesmo
modo, o terror sagrado com que o lei-
velaria que nunca a história se repe- go não-científico trata a casta científica
te. “Se fosse conhecida verdadeira- é um terror sagrado herdado do clero.
mente a conexão histórica de causas Aquilo que se dava outrora à igreja dá-
e efeitos, constataríamos que nunca se agora, embora com mais parcimô-
se repete um resultado exatamente nia, à ciência: mas, se se dá, isso foi
obra da igreja em outros tempos e não,
igual no jogo de dados do futuro e do somente agora, obra do espírito mo-
acaso.”7 derno, que, pelo contrário, ao lado de
suas outras boas qualidades, tem sa-
Aqui está o que Nietzsche denominou bidamente algo de avareza e desco-
8
nhece a nobre arte da generosidade.
de “homens históricos”, que são
aqueles que só vivem pensando no A segunda: “história erudita”, corres-
futuro, a partir do passado, concor- ponde a de quem compreende o pas-
rendo, portanto, com a vida presente. sado dentro dos limites colocados
Pensam sempre num futuro, onde pelos valores vigentes na sociedade
haverá justiça, desde que antes per- em que vive e de acordo com os seus
corram um longo processo (do caos à limites (regras, leis, normas, territóri-
ordem, do corruptível ao incorruptível, os, etc). “Agora pergunto eu se seria
da imperfeição à perfeição, do peca- sequer possível apresentar nossos
do à salvação) – tudo à custa da imi- literatos, homens do povo, funcioná-
tação de um modelo perfeito. Ni- rios, políticos de hoje, como romanos;
etzsche fala que os estudos desses isso não pode ser, porque estes não
homens, na verdade, não estão a são homens, mas apenas compêndi-
serviço da vida, mesmo que eles não os encarnados e, por assim dizer,
saibam disso. abstrações completas”.9
Nietzsche chama atenção também Segundo Nietzsche, pela exigência
para o fato do homem viver - como os de que a vida seja regida pela ciên-
medievais - em função do fim do cia, dominada e dissecada por esta,
mundo (profecias), ou melhor, no perdeu-se o limite (responsabilidade
temor deste memento mori – lembra-
pela vida); nunca se viu espetáculo
te que hás de morrer. Isto os deixa
8
6
Nietzsche, Ibid. p. 283.
Nietzsche, Ibid. p. 276. 9
Nietzsche, Ibid. p. 279.
7
Nietzsche, Ibid. p. 277.

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tão grande como este que mostra a ar alguns acontecimentos, em detri-


história (ciência) agora, sua perigosa mento de outros, considerados não
audácia e o lema que escolheu: fiat importantes, devido as suas regras
veritas, pereat vita (haja a verdade, metódicas, acadêmicas, racionais
pereça a vida). Este tipo de história, etc. Pensemos nas possibilidades do
segundo Nietzsche, aglomera fatos que pode ter-se perdido com essa
entre si muitas das vezes descone- exclusão ocasionada pelo dogma,
xos, transformando-os em conteúdos, pela erudição etc. Vejamos, por
que dizem não ter forma definida ain- exemplo, o que aconteceu com o
da e que são entulhados. O que pensamento de Jesus Cristo, que
chamam de cultura é apenas um sa- como nos diz o escritor Pierre Héber-
ber em torno da cultura, e não a cul- Suffrin, Nietzsche
tura efetiva, e quando conseguem
chegar a alguma efetividade, o fazem principalmente, senão exclusivamente,
recusa uma religião moralizante e cul-
através da convenção, chegando a
pabilizante – religião que não seria
se parecerem com “a cobra que en- tanto o pensamento de Jesus, mas sua
goliu coelhos inteiros e em seguida, deformação, desenvolvida pelos evan-
quieta e serena, se deita ao sol e gelistas e principalmente por São
evita todos os movimentos, além dos Paulo. (1991, p. 66).
mais necessários.”10
Assim, nas próprias palavras de Ni-
Nietzsche nos fala que o homem da etzsche:
Grécia Antiga preservava em si um
Aquilo que se pode aprender com o
sentido a-histórico. Se um erudito cristianismo, que ele, sob o efeito de
moderno pudesse ir ao passado, pro- um tratamento historicizante (grifo
vavelmente acharia os gregos sem meu), se tornou sofisticado e desnatu-
cultura, pois os mesmos não se en- rado, até que finalmente um trata-
mento completamente histórico, isto é,
chiam com o passado erudito, nem 111
justo (grifo meu), o dissolve em puro
tampouco com o futuro: viviam o pre- saber em torno do cristianismo, e com
sente. Se esse mesmo grego, entre- 12
isso o aniquila, ...
tanto, descobrisse o segredo desse
erudito moderno (que o mesmo nada Assim também se dá com a interpre-
mais é que uma enciclopédia ambu- tação do pensamento de Sócrates,
lante), e que de moderno não tem que fôra platonizado até as suas raí-
nada, a não ser a cabeça abarrotada zes. O que Nietzsche critica, na ver-
de costumes, religiões, traumas, filo- dade, não é o “Sócrates pessoa”,
sofias etc., o mesmo poderia chamá- mas principalmente o pensamento
lo de homem sábio, mas que não vive socrático teologizado ao longo da
(autômato). Portanto, neste caso, os Idade Média. Isso se faz evidente
gregos antigos poderiam dizer que o quando antes, observamos as pes-
erudito moderno tem mais sabedoria soas, e não as doutrinas constituídas
que eles, mas em contrapartida eles em torno destas, de Jesus Cristo e
têm mais vida. Sócrates, que na verdade, foram “es-
píritos de leão”, em referência ao
Segundo Nietzsche, a história tam-
11
bém tem a característica de privilegi- Numa ironia de Nietzsche, a palavra justo, aqui,
corresponde ao estabelecido, o verdadeiro, enfim,
10
Nietzsche, Ibid. p. 278. o apolíneo
12
Nietzsche, Ibid. p. 282.

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Zaratustra. Isso devido à s suas atitu- tão - , ou talvez apenas máquinas de


14
des e palavras consideradas subver- pensar, escrever e de falar? .
sivas aos sistemas morais, religiosos
e políticos vigentes em suas épocas, Numa fase de transição do homem
pois “martelavam” dogmas e verda- histórico erudito para o histórico críti-
des estabelecidas. co (do qual trataremos a seguir), pas-
samos pelo homem supra-histórico,
Isso acontece, segundo Nietzsche, que é aquele que valoriza o passado
por causa do que ele chama de dis- e o presente igualmente, iluminando
secação histórica, que é a atitude de os acontecimentos, interpretando os
estudar tudo o que têm vida de acor- signos, nunca chegando à saciedade,
do com os moldes da razão. Por isso, mas, que ao longo do caminho, se
Nietzsche contrapõe o saber à vida, tornam niilistas, passam a sentir nojo
falando-se aqui do saber histórico da vida. Nietzsche retoma a palavra
erudito, que é um tipo de saber que de Giacomo Leopardi:
só fica em torno da cultura, como
Nada vive, que fosse digno. De tuas
“sentimento-de-cultura”, “pensamen- emoções, e a Terra não merece um só
to-de-cultura”, sem contudo, se tornar suspiro. Dor e tédio é nosso ser e o
“decisão-de-cultura”. mundo é lodo – nada mais. Aquieta-
15
te. .
Forçada pelo mundo da uniformiza-
ção da verdade, também a filosofia E finalmente, da terceira: “história
permanece um monólogo erudito, crítica”, que é aquela de quem usa o
solitário, reservada aos acadêmicos, “martelo” para avaliar o passado,
gabinetes, profissionais, entre outros. abatendo todos os elementos que
Ninguém mais é fiel à filosofia como o não contribuem para o desenvolvi-
povo antigo, reclama Nietzsche. Por mento do seu potencial criativo, no
exemplo: sentido de realizar seus próprios va-
lores. É essa última, a atitude que
com aquela lealdade simples, que Nietzsche aplaude.
obrigava um antigo, onde quer que es-
tivesse, o que quer que fizesse, a por- Nietzsche, com essa sua visão, nos
tar-se como estóico, caso tivesse uma
13 traz a perspectiva do dionisíaco na
vez jurado fidelidade ao Pórtico
história, que, por sua vez, revela as
Todo o filosofar moderno está política causas (e não somente os efeitos), a
e policialmente limitado ao erudito, ao vida, o instinto, as emoções, o cotidi-
acadêmico, ao religioso etc. No inte- ano por trás dos “heróis”, “o imoral”,
rior da “Cultura Histórica”, a filosofia que na verdade nada mais é que um
não tem tido voz. preconceito criado por interpretações
históricas fundadas em espíritos ar-
Sim, pensa-se, escreve-se, imprime- raigados na moral e metafísica tradi-
se, fala-se, ensina-se filosoficamente – cionais, que têm fundamentos exclu-
até aí tudo é permitido; somente no sivamente apolíneos. Por que, por
agir, na assim chamada vida, é dife-
exemplo, a história religiosa tradicio-
rente: ali o permitido é sempre um só,
e todo o resto é simplesmente impos- nal excluiu o cotidiano de seus mes-
sível: assim o quer a cultura histórica. tres, como Jesus Cristo: este não
São homens ainda – pergunta-se en-
14
Nietzsche, Ibid. p. 279
13 15
Nietzsche, Ibid. p. 279. Nietzsche, Ibid. p. 275

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sorria?, não se irava?, não tinha Além disso:


medo, dúvidas e fantasias?, não pos-
suía as características animais co- Quando por trás do impulso histórico
não atua nenhum impulso construtivo,
muns a todos os homens?
quando não se está destruindo e lim-
pando o terreno para que um futuro já
Nietzsche nos conclama para que vivo na esperança construa sua casa
aprendamos a cultivar a história em sobre o chão desimpedido, quando a
função da vida, e não o contrário, ou justiça reina sozinha, então o instinto
criador é despojado de sua força e de
seja, a história não deve ser uma seu ânimo. Uma religião, por exemplo,
ciência soberana que tem o privilégio que seja transposta em saber histórico,
da verdade sobre o passado e até sobre a regência da pura justiça, uma
mesmo sobre a vida presente, colo- religião que em todo e por tudo seja
conhecida cientificamente, ao fim des-
cando o homem como dominado e 17
se caminho estará aniquilada. .
conduzido por uma força superior que
não a sua própria vida. A história,
Ou seja, uma história que só destrói,
quando a serviço da vida, torna-se a-
sem que estimule um impulso cons-
histórica e, portanto, nunca tornar-se-
trutivo interior, com o tempo se torna
á científica a ponto de esquecer o
desnaturada, tirana, niilista. Afinal de
lado humano-vital. Até que grau a
contas, o martelo serve para destruir
vida precisa em geral do serviço da
e construir.
história, é uma das questões e cuida-
dos mais altos no tocante à saúde de
Nietzsche quer mostrar a importância
um homem, de um povo, de uma
na história de se olhar para o passa-
civilização. Pois, no caso de uma
do com olhos críticos e limpos de
certa desmedida de história, a vida
dogmas tradicionais, religiosos, cien-
desmorona e degenera, e por fim,
tíficos, morais etc., ou seja, onde não
com essa degeneração, degenera
se coloca o ser do homem sob certos
também a própria história16
moldes universais e/ou rótulos. Mas,
como isso é possível? Somente é
Nietzsche critica, como vimos anteri-
possível à queles que realizam as três
ormente, a atitude de objetivação e
transmutações.
despersonalização diante da inter-
pretação dos fatos, dizendo que os Ele nos ensina como, partindo-se da obediên-
que assim fazem são como os eunu- cia passiva do camelo, que sempre aceita as
cos que vêem diante de si uma mu- cargas que lhe são impostas, se deve derru-
lher nua, sem nada poder fazer. Para bar todo o fardo dos valores, com a selvagem
brutalidade do leão, e depois passar à criação
Nietzsche, o que importa é fazer his- de valores novos, com a originalidade ino-
tória, ser capaz de agir sobre ela, e 18
cente da criança. .
uma vez esvaziadas as subjetivida-
des, em direção à objetividade, não A partir daí, tornar a história como
mais seremos capazes de agir sobre uma arte, ou seja, onde nela pode-se
ela. Critica aquela objetividade e conservar instintos e/ou despertá-los.
neutralidade científicas propostas
pelos positivistas, que, no fundo, tal- Uma tal historiografia, porém, estaria
vez, já estariam carregadas de juízos em total contradição com o traço analí-
e preconceitos. tico e inartístico de nosso tempo, e até

17
Nietzsche, Ibid. p. 280-281.
16 18
Nietzsche, Ibid. p. 276. Héber-Suffrin, Ibid. p. 120-121.

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mesmo será sentida por ele como fal- dos “grandes”. Nietzsche afirma ser
19
sificação. justamente estes três modos de his-
tória que predominam em sua época.
Para concluir, Nietzsche faz uma
consideração sobre a “massa”, em A partir deste estudo, pudemos ob-
três perspectivas diferentes. Primeira: servar a importância de, realizando
quando seguem a história monu- as três transmutações (com vontade
mental – cópias esmaecidas dos forte, com a valorização da vida em
grandes do passado. Segunda: todos os seus aspectos), seremos
quando eruditas – tornam-se obstá- capazes de fazer história, anunciando
culos contra os grandes do presente. um novo espírito ao homem. Pois,
E finalmente, a terceira: aquelas que poucos fazem a história, muitos não
vivem alienadas dentro do sistema, passam de meros espectadores, en-
servindo de instrumento nas mãos quanto outros, ainda, pensam ser a
19
história guiada por uma força metafí-
Nietzsche, Ibid. p. 281.
sica superior.

Referências Bibliográficas

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