Você está na página 1de 5

PRÓLOGO

Como diz Santo Tomás: quem escreve, ou diz, um proêmio ou um prólogo, tem em vista
três coisas: a primeira é captar a benevolência do leitor; a segunda é captar a docilidade
do leitor; a terceira é prender a atenção do leitor ou do ouvinte. Seguem-se, então, três
passos:

a) Mostra-se a necessidade daquilo que se vai tratar;


b) Mostra-se a ordem que se vai tratar;
c) Exibindo a dificuldade do assunto que se vai tratar.

DA “EXISTÊNCIA” DE DEUS

A necessidade de tratar da “existência” de Deus é crucial no mundo que nos cerca, hoje
em número muito grande de ateus. Na história do mundo sempre houve uma dominante
crença em Deus, ou deuses, em suma, em algo transcendente. O número de ateus vem
crescendo por consequência de uma série de revoluções que começaram por volta dos
séculos XV e XVI. Um processo longo e demorado que não será abordado nestas aulas
por demasiada complexidade. Tenha-se como ponto de partida que o mundo de hoje é,
em grande parte, ateu ou indiferente religiosamente.

O homem não foi feito para este mundo, o homem foi feito para o outro mundo, para
Deus mesmo. Para que se atinja o seu fim último, é necessário que se creia em Deus, que
Deus É. Eis a necessidade deste curso: dar o primeiro preâmbulo para que o homem possa
alcançar o seu fim último, a sua salvação.

A primeira parte da Suma Teológica, como disse PIO XI, é o céu vista da terra [1]. Pode-
se dizer que é o ápice do intelecto humano. Trata-se da essência de Deus, dividindo-a em
três partes. A primeira destas três partes é sobre a “existência” de Deus; esta parte
subdivide-se em outras três partes, a primeira é se Deus é evidente por Si mesmo; a
segunda é se a “existência” de Deus é demonstrável; a terceira é sobre se Deus É.

Aproveite-se para dizer algo sobre a “existência” de Deus: o verbo “existir” significa,
etimologicamente, “provir de”. Ora, Deus é incausado, não provém de nada, Ele sempre
foi. Também não é certo afirmar que seja a causa de si mesmo, pois outro é causa de algo
ou de alguém ou este algo é incausado e o único que é incausado é Deus. Logo, Deus não
existe, não provém de nada, de causa alguma, é incausado, por isso não se diz,
tecnicamente, com toda precisão cientifica, ou filosófica, que Deus existe, e sim que Deus
É. Trata-se, pois, não da existência de Deus, mas do Ser de Deus. Todas as criaturas, que
provém de Deus, é que existem, mas Deus É.
Posto, portanto, a ordem que trataremos o assunto. Com efeito, o tomismo é como uma
grande árvore: seu tronco depende de suas raízes; seus galhos ou ramos, de seu tronco;
suas folhas, de seus galhos ou ramos; suas flores, de duas folhas. É como um todo
orgânico. Muito difícil é tomar uma parte já avançada da doutrina tomista, como é essa
do Ser de Deus, e explicá-la de modo absolutamente compreensível sem que o auditor,
ou leitor, tenha em mente todas as noções e concepções que estão supostas para o
conhecimento do Ser de Deus, que Deus É. Ter-se-ia que começar por uma série de
noções primeiras, como substância, essência, acidentes, gênero e espécie, etc.; ter-se-ia
que passar depois por um longo estudo da Lógica. O que é a Lógica? É a arte ciência
propedêutica das demais artes e ciências. Sem um longo, detido e disciplinado estudo da
Lógica dificilmente se tem uma boa assimilação das demais artes e ciências. A Lógica é
a arte que rege o próprio ato da razão para que a razão alcance a ciência com facilidade,
com ordem e sem erro. Com efeito, o estudo da Lógica é longo e árduo; deve ser
disciplinado, ordenado e não caótico, como em geral se faz. Terminada a Lógica em
stricto sensu ainda há as partes chamadas potenciais da Lógica; a saber: a dialética, a
retórica e a poética. Passado por tudo isso entramos na Física Geral. A Física Geral é o
primeiro degrau da ciência mais estritamente dita. Não há partes potenciais, mas
subjetivas; a saber: a cosmologia, a química, a biologia, a psicologia ou antropologia.
Conhecendo-se assim, portanto, a alma humana, passa-se para as ciências ditas práticas:
a ética, a econômica e a política. Terminadas as quais, tem-se então a metafísica, a rainha
das ciências alcançáveis pela só luz da razão humana; conhecida também por filosofia
primeira, ou teologia racional ou filosófica. Metafísica porque trata de coisas que vão
além do físico, da natureza sensível; filosofia primeira, pois trata das causas e princípios
primeiros; teologia, pois trata de Deus, ainda que o trate apenas segundo as luzes da razão
humana. Percorrido esses degraus, segundo a correta ordem, é possível que tratemos da
chamada Teologia Sagrada, que já não se alcança com nossas luzes racionais, senão pelos
princípios fornecidos pela revelação divina. E tais princípios são os Artigos de Fé.

A prova de que Se Deus É encontra-se na confluência entre a metafísica, ou teologia


racional, e a teologia sagrada, ou sobrenatural. Confluência porque a teologia sagrada,
cujos princípios são os artigos de fé, de per si, não necessitariam da filosofia; a fé e a
teologia sagrada de si não necessitam de nada, pois são reveladas. Sucede, porém, que
nosso intelecto é demasiado débil para tratar apenas do dado revelado e fazer ciência sem
apoio em mais nada. Nossa debilidade intelectual lembra-nos sempre que não somos
anjos, senão homens, o que supõe dizer que nosso intelecto é racional, é temporal, é
diacrônico; necessita de tempo para desenvolver-se, ao passo que o intelecto angélico é
intuitivo. Portanto, diga-se que pela debilidade de nosso intelecto, que só alcança as
essências pelo cabo de definições, por silogismos, por argumentações, por isso a Teologia
Sagrada necessita da filosofia como de uma serva, não por si mesma, pois ela seria
autossuficiente, mas para que nosso débil intelecto possa manter-se de forma firme na
mesma fé e na mesma teologia. É nossa debilidade que nos faz recorrer à filosofia.

O assunto Se Deus É, utrum Deus sit, é, antes de tudo, um assunto metafísico, ou seja,
antes de tudo ele é um preâmbulo da fé, ele está antes na metafísica do que na teologia
sagrada. Porém, veja-se que Santo Tomás a tratou em sua Suma Teologia, que é o ápice
de sua teologia. Por isso dizemos confluência. Poder-se-ia tratar na metafísica, mas Santo
Tomás julgou melhor tratar no âmbito da teologia sagrada. Toda primeira parte da Suma
Teológica gira em torno de preâmbulos da fé, de coisas que não são propriamente de fé,
senão que são racionais e poderiam alcançar-se pela nossa própria razão. Sucede, porém,
que, historicamente, poucos alcançaram esse êxito. Quem o melhor alcançou foi
Aristóteles, apesar de imperfeitamente, pois não chegou a considerar uma série de
verdades relativas a Deus que se pode alcançar pela razão, apesar da maioria nunca ter
conseguido. Como diz Santo Tomás, na Suma Contra os Gentios, se Deus não revelasse
sua própria existência, que Ele É, e o revela no Êxodo, quando diz a Moisés: Eu sou
aquele que sou [2]. Ao dizer Eu sou aquele que Sou Ele diz que É, ou seja, que “existe”.
Se Ele não o fizesse muitos poucos alcançariam a “existência” de Deus e isso só depois
de muito tempo e com muitos defeitos. Menos defeitos em Aristóteles, mais em Platão,
muito mais em Plotino e assim vamos entre os filósofos pagãos. Portanto, Deus, em sua
infinita misericórdia e bondade, revela-se a si mesmo quanto a coisas suas que nossa
mente, nossa razão poderia alcançar, mas não alcançou, em grande parte devido às
sequelas do pecado original.

QUESTÃO DISPUTADA

A Suma Teológica se faz segundo o método da questão disputada, um método escolástico,


que começa remotamente com Pedro Abelardo e culmina em termos de perfeição com
Santo Tomás de Aquino. Logo, explica-se como estrutura-se uma questão disputada,
neste caso, usando-se de exemplo a de Santo Tomás tratando da “existência” de Deus:

a) Primeiro, pergunta-se aquilo que se vai tratar (se Deus É);


b) Depois, apresentam-se objeções à tese do autor (Santo Tomás). Então essas objeções
dirão que Deus não É, que não “existe”;
c) Depois, Santo Tomás inclui um sed contra, que é um argumento contrário às objeções;
d) Corpus. O corpo central da resposta.
e) Por fim, responder a cada uma daquelas objeções a doutrina que se defende no artigo.

Para fins didáticos, alternaremos a ordem de exposição em prol do entendimento algo


mais fácil da parte dos estudantes. Vamos primeiro enunciar a resposta, e ao fim da
resposta geral, do corpo da resposta, então diremos as objeções e em seguida as respostas
das respectivas objeções.

A ordem em que exporemos é a ordem mesmo dos três artigos que se divide a questão
dois da Suma Teologia de Santo Tomás. Se Deus é evidente é a primeira parte; segunda
se a “existência” – o ser, mais precisamente – de Deus é demonstrável, ou é produto de
intuição ou de sentimento; finalmente, a demonstração de que Deus “existe”, de que Deus
É, nas famosas cinco vias de Santo Tomás de Aquino.

[1] (Pio XI, Alocução de 12.12.1924 no colégio Angelicum, em Roma)

[2] Êxodo 3:14