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FOLHA

EXPLICA

Â\ REPÚBLICA
RENATO JANINE RIBEIRO

PUBLIFOLHA
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J .fif /o/QI '51/I

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©2oo1Pbrfu¬ -o~~ ~ ~ _
© 2001 R:-nzifg Jgninelfiiggízíe Pubhcuçoes do Emp'es° F°""° dc' M°"'“° 5-^~
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reprod 'd
' ' de nenhuma forma- ou por nen h um mero
arq uivada ou transmitida - sem permfssa
. UÊ'0 Expressa
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epo r escrito do Publifoiha - Divisão de Publicações da Empresa Falha do Manhã S A

Editor
Arthur Nestrovski

Assistência editorial
Paulo Nascimento Verano

Copa
Publifolha

Imagem de capa
O Juramento de Horácias (1784), Jacques-Louis David, Museu da Louvre Pari;
© The Art Archive/Corbis/LotinStock

Proieto grafico da coleção


Silvia Ribeiro

Coordenação de produção grafica


Marcio Soares

Assistência de produção grafica


Soraia Pauli Scarpa e Mana na Metidieri

Revisão
Mario Vilela

Fotos
© Photo Réunian des Musées Nationaux (R. M. N.)

Editoração eletrônica
Picture
Dadas internacionais de Catologação na Publicação (CIP)
"
(Camaro ' ` d o Livro , SE Brasil)
Brasileira

Pibeiro, Renato Janine, 1949- . . . d


A República / Renata Janine Ribeira. - 2. e .-
São Paulo : Publifolha, 2008. - [Falha explncal

Bibliografia.
ISBN 978-85-7402-291-8

I. República I. Título. ll. Série.

CDD-321.86
01.2906 1 _

Índices para cotãlaga sistemático:


l. República : Ciência política 321 .8ó
o Portuguesa
ovo Acordo Ortográfico do Língu
A gro f'na deste livro segue as regras do N

PUBLIFOLHA
Divisão de Publicações do Grupo Folha

Al. Barão de Limeira, 401, 6° an d ar; CEP 01202-900, São Paulo, SP


Tel.: (1 1) 3224-2186/2187/2197
v‹rvwv.publifo|ha.cam.br

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su/v\ÁR|o
1. DOIS QUADROS RESSUSCITAM
O IDEAL REPUBLICANO ............... ..

2. A VIRTUDE VARONIL ................... ..

3. UM ANTIGO INIMIGO:
A MONARQUIA ............................. ..

4. o |N|/Wao DA REPúBucA(1)z
o PATR//v\oN1Aus/vlo ................... ..
5. o |N|M|Go QA REPÚBUCA ‹2›z
A com-2uPçAo ............................. ..
ó. A REPÚBUCA EAc|uTADAz
MANDEVILLE ................................. ..
7. A REPÚBUCA Po5sí\/EL ................ ..
8. REPÚBUCA E DEA/\ocRAc|A ......... ..
EPÍLOC-.oz A
/MAA/É/vc/A E TRANSCENDEA/c/A
B|Buo<5RAE|A E s|TEs ......................... ..

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1. DOIS QUADROS
RESSUSCITA/VI O IDEAL
REPUBLICANO

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PAI E FILHOS

o Salão de 1789, em Paris, o pintorjacques


Louis David (1748-1825) expõe seu qua-
dro Os Litores Lei/om ao Cônsul Brutos os
I ` z zw. A Corpos de Seus Filhos, que hoje está no
Museu do Louvre. Todo espectador culto- entende-.de
i13lÊÊÍ.ëf.Q.._Q.-S€ntido da obra. Refere-se a um episódio da
1ʧ_o___1*_1j1_a__,a_r_1tiga,,depois de expulso to .último rei e procla-
r_n,a_dfla_a_g-gpublica. Brutus era um dos dois cônsules elei-
1:Q_s,__a_11_ua_l_mente que exerciam, em conjunto, o poder
kexeççutiyo. Seus filhos, porém, conspiraram para restau-
ranadinastia dos Tarquinios - uma dinastia etrusca, por-
tjanto de o_q_rigem externa à cidade - e foram presos.
"Oipróprio pai os condenaà morte. Na sua fun-
ç,ãopública_,_nãoqipoqderia agir de ,out,1Í0 .I'l1Q_dO.-. NO- flua'
dro,vemQs,ao fundo os cadáveres, corn 313 ,H1L1_lh€1'€S
s_QlLand_o_fi_o__d__o_ _o, desespero, toda a dor pelamortedos
rapazes._I§1_o,,,primeiro plano, .o cônsul,-em silêncio,
,n1e,dita_ndo_,:,e, na sua forma discreta, rnáscula,
se11s1s.12§ss1aissnri.nd.o imensa dor.

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Dois Quadros Rcssuscitam o Ideal Republicano 9

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Jacques Louis David, Os Litores Levam ao Cônsul Brutus os


Corpos de Seus Filhos (Museu do Louvre, Paris)

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1o A República

O quadro diz muito sobre a república, e isso me-


ses antes da Revolução Francesa e alguns anos antes
que a França adotasse essa forma de governo. Muitos
comentam a influência que terá tido a jovem república
dos Estados Unidos da América sobre a francesa: afinal,
a independência norte-americana contou com apoio
financeiro e militar da França. E Thomas Jefferson, que
redigiu a Declaração de Independência das 13 Colô-
nias, foi embaixador de seu país em Paris, de 1785 ao
inicio da Revolução.
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i\Íi21.$-P.§f_1Í1.S<if.1'l10S. urnspouco. Os-hom_<f21'1S .d&-.R,Ç:
J
volução Francesa eram cultos, estudados, assim como,
rf. ~ A
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L'

'>< aliás, os da Americana. Conheciam a tradição clássi-


I

ca. Ó quelevariam mais em conta, a experiência re.-


__! _ .ri

cente e ainda pouco testada de um punhado de


colonos numa terra distante, ou séculos de sucesso FU P Q

num dos maiores centros da civilizaçao europeia.


Roma e o neoclássico estavam em voga, naquelefinji
do século 18.
diz o uadro de David? Antes de mais
-fa Q.-avsr10S
1
a
' ` se sobrepoe
'" ao priva
` d o .E ssa
-
nada, queio bem publico
ffãsé-fl,*iqi.iemgeralmente tomamos por mero lugar-co-
mum, tem nos valores da República um claro signifi-
hciadofi devemos sacrificar as vantagens e até os afetos
pessoais ao bem comurn. O pai executa o filho, como
o filho eventualmente mataria o pai, em nome da C1-
dade. O custo dessa ação não é negado e nen1_1T1ÇS1'130
cultado
_Q____ _ . Ninguém ignora a dor de Brutus - seriatao

fácil apresentá-lo como um politico desumano, que


ao poder sacrifica o amor! -,mas ele nao pod1a-ag1r
decentemente de outro modo. _ Í
A República tem custo alto, mas e Justo paga-10-
Para sairmos, porém, da facilidade com quê 65525
palavras são ditas, vamos a um episódio mais recente,
'
também gerador de vasta iconografia, que enc h e de

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Dois Quadros Ressuscitam o Ideal Republicano 11

r::z;::ra°.:;:r.í::í ° r
I _ z u russo que denunciou o
proprio pai ao poder soviético, no começo dos anos
30, por esconder cereais. O pai foi condenado a uma
longa pena num campo de concentração, onde pro-
vavelmente morreu; já o garoto acabou assassinado
na vila em que vivia. Pois Pavel foi instituído como
o grande herói do Konsomol, a organização da ju-
ventude comunista, e estátuas em sua honra se espa-
lharam por toda a União Soviéticaf
Iiá.s_á.1:ía§-eeõssë Paffl.auss hifitórian‹2_â.s.11.<›as_‹ê.,
l_7-fa_\__f_e_lír'\aiu_,o pai.Denunciou-o não porque çonspirasf
s_e_Mç,ç)_1'_1,trja,opais, mas só porque escondia comida. Pior
q_ume¶i_¶s`s_op,, foi convertido em exemplo, em herói._D.izi,a.-
-sehaos meninos e meninas: sejam como ele. Uma cul-
turaÚÊxoi'tojL1 a denunciar os pais. I
_l\/las essa história execrável não é diferentegda
romana que vimos acima. Brutus foi herói, sobretudg
por_ter mandado executar os filhos. verdade que
eles haviam cometido crime pior que o pai de Pavel,
mas Pavel não foi o juiz que mandou matar o pai -
embora tenha pedido, ao tribunal, que o pumsse. O
cerne da questão e o mesmo: o bem comum passa a
frente dos afetos.
Tanto Roma quanto Moscou fizeram deles fi-
gu ras exemplares . Provavelmente, o que nos faz detes-
tar a história soviética é que a republica hoje passa
melhor que o comunismo: atualmente, ela e o regime
aceito pela maior parte da humanidade. ,_‹<:.~,r , f. Q,/..,.,-z,,,,;<
,'.<”:‹.? iii

JD ÔA estátua do pequeno Pavel, que reinava sobre o parque Morozov, em Moscou, foi
derrubada pelo povo da capital em meio às manifestações contra 0 golpe de 21 de
agosto de 1991, que tentara depor Gorbatchev.

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-1-uno-_..

12 A República

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¡._,_,.... ....¬_.-.l-..--›-- ›-¬‹-'-'-- '-"' - \ -I.. _
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Jacques Louis David, O Juramento dos Horacios (MUSEU 0
Louvre, Paris)

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Dois Quadros Ressuscitam o Ideal Republicano 13

PÚBL/co VE/asus PR/vAoo

Sim' a república é hoje 9 fegimfi aceito Pela maior


parte do mundo. Mas da boca para fora. No Brasil ..._____ "'¬¬-A--.-'
__ "- ¬.;'.."'..£.'¡.~-3

l onde desde 1889 o regime se chama república só!


1% ,L/I -
houve eleições minimamente decentesjpara a prêsj,
5. dênci 3 em 1,945, 19.55 e 1960 - e eleiçoes
- ~ livresde
-
f/ r1×*"
1989 para ca, mas ainda com certa manipulação dos
.meios de comunicação. De nossos cento e poucos anos
nominalmente republicanos, quantos corresponderam
ja um regime com as liberdades públicas asseguradas?
O que este livro pretende não é reiterar a velha
diferença entre monarquia e república, ficando na for-
ma e no nome da república. Quem tem dúvida de
que as monarquias do norte da Europa têmigovernos
mais respeitosos de seus cidadãos e do bem comum
do que a maior parte das repúblicas americanas, afri-
canas e asiáticas? Pouco após o golpe de 15 de no-
vembro, Eduardo Prado denunciou a ditadura militar
que se instalara
. no Brasil e defendeu
. _ a monarquiaH de- .
p osta'. muitos achavam o imperador Pedro mais
cíoso do bem comum do que os marechais e os oli-
garcas paulistas
_ ..
e mineiros que se sucederam a ele.
Mas continueiiios no Louvre. David ja pintara, em
i Hoidcios. Mais uma vez, a refe-
1784-5, O jisufomemfo cos
rência romana, que naqu
ele tempo qualquer espectador
- por ser culto - decifraria com facilidade. Muitos qua-
dros evocavam uma liis tória conhecida
_ do_ público.
. Rgza
1
a lenda que Roma eAlba coiiibinaram__decicIir uma gu_e_rra
WP O nbate
£1_111'11C01 5 ___. de trêsjovens,_ .-..romanos,
,, osii“mãos
,_ Horácios,
O O três albanos,
com__, 1 -._..._ _ os *_irmãos
_, Cur1acios.Tao logo começa
21 lut3-, dois Curiácios
__ ,______.,__,__ .- 1- matam
.. dois
. Horacios. A que,s_t,a_o
arece resolvida; os Curiacios atacam o f'o1_fnai'i_ho`_Vs_obre\n-
vente. Ele sai correndo. Mas nao e covardia e sim esper-

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14 A República

Eezë 911€ 0 Hí1QV@=S¢u§p@rS@gui<í0r@S <:or1:en1em veloci-


<lê.<í_s .<1¢S1s¬à12ê.1› @.9j1tiH1°Ji9rásÃ.9 -pQd@.-a.¢ada eaz_›.a
pararzenfffinwr Lim.ínirmgo só, 1natá‹_lo-e.reto111ar_a_.eo1;-
rida.Assim ele vence os inimigo,s__de`,Ro_1fna. Ó?-z
..-D astúcia é essencial para o defensor da república
_-j_*_§pe,t!2_'í__qW_ess,a_ amoral daihistória? Não. Ou até é, mas a
h_i_§_tóri_a_prossegue. De volta a Roma, o vencedor en-
contra, a irmã, Camila. Esta, sabendo o que se passou,
ç_;_h_ora. Era noiva de um dos Curiácios. O irmão, ven-
do-a chorar um inimigo de Roma, mata-a,
Se fosse esta uma ópera do século 19, certamen-
te o irmão não saberia do noivado e a mataria ao to-
mar conhecimento dele. Mas nossa história romana
não é melodrama: é tragédia. Horácio restante sabia
do noivado, e isso torna a história mais assustadora.
Não só ele matou a irmã, por ter traído o amor ã
pátria, mas antes disso não hesitaram ele, os irmãos e
os inimigos em lutar até a morte entre amigos, a um
passo de se tornar parentes.A república prevalece so-
‹G'‹..
bre qualquer sentimento, qualquer elo privado. .

A MULHER DESDENHADA (U

O lugar da mulher na república, não é admirável. As


'D

mulheres da gen Brutus choram ã vontade, mas por-


Cl ue valem menos que os homens.Tém
. maior liberdade
de exprimir os sentimentos, mas isso porque COI'šfâm
com menos obrigaçoes - de defender 21 P3tf13=,°_ enf
ff-É”
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comum 9 a coisaH pública. No
~ episódio
' dos
. I-Iorac1oS,.-'=`1
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C.
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.moça morta não se rfisøflhece flsm 0..<11f@1fi.°z ic.


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rar oflarnaàdo. A República Romana, que OS 1'€V0 .



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_nários franceses evocan1,.porquea.seutempo 6' 21 8 ran -- i 6
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história,.de-_sucesso,.,é..v.iril..-E-.máscula. .E-de-.homenS..

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2. A VIRTUDE VARONIL

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S uarenta anos antes de David ter pintado
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S seus quadros, Montesquieu (1689-1755)


É publicava sua grande obra, Do Espífito das
“ Leis (1747). Sua meta era mostrar que as
leis que vigoram nos diversos países do mundo, tanto
as decretadas por um rei' ou uma assembleia quanto as
encarnadas em costumes, não são puro efeito da von-
tade ou arbítrio humano, mas têm uma lógica. Uma
ló ica porém, que varia conforme várias causas: o cli-
g , u o Hu

ma (talvez a principal delas), a educaçao e os costumes


em geral.
Montesquieu vê três grandes lógicas organizan-
do as leis. São os três regimes, ou “governos”, que ele
analisa: monarquia, república e despotisino. Mesmo o
despotismo, que à primeira vista parece o reinado do
capricho, do arbítrio e da desmedida, tem uma lógicae
interna. O sultão manda a seu bel-prazer porque ess
é o único meio de controlar homens e mulheres que,s
vivendo em clima muito quente, têm literalmente o

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A Virtude Varcmil 17

nervos ã flor da pele e por isso não conhecem nenhu-


ma autodisciplina, nenhuma contenção de suas pai-
xões -- a não ser a imposta pelo medo aos piores
suplícíos.
*P lá 5 moflflf95115é›.§1iZ..M011t¢Squieu.._o.r.e.aim.@de
1105505 -d.ífl.5--NãO É O -regi111@.-.p_erfeít0- B2S¢.ía-se em
1?.1Ê£9_1_'1S3Êl.ÊQ.S_›..Ê*Ê.lÍš'.%1.ÇlQ.S_.._t.§Qric amente,-mas._.de...b.o.tn_te.-
'Í sultado prático. O principal preconceito chama-se
/' if ' honra: é o desejo que sentem os nobres de ter priori-
dade e precedência uns sobre os outros. Ora, a honra
_!
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I. ..
inviabiliza o despotismo. O nobre preza a honra mais
que a vida. Por isso, não admitirá o tipo de arbitrarie-
dade que um sultão pratica.Assim, um erro filosófico,
a excessiva crença no próprio valor, terminahprodufz
,zindo uni beneficio na prática - que é a defesa das
liberdades ou da Constituição tradicional contra os
,excessos do rei.Aliás, quando se aproxima a Revolu-
ção Francesa, vai-se tornando comum denunciar o.rei
da França como uma espécie de sultão, e entra nessa
imagem.até-_o - haiíém .que.-Luís XV, -falecido -en1_LZ.'Z..4,.
1;i_nhano ,Pai'C1U.€ doS Cervos.
Í .S.<í:Ãí§1__.Q--. _1Í!Êll?.<>1Í.-.<5l.O5.Is?.%.í111sf.S,
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1' dealmeri__t___e_,_falando. -Ma.s...é-.imp ossí-vel 5 em»~n.osso...te1'n:


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f o , diz Montes uieu. Por uma .- 1'šlZÊÍ_O..si,ni les_:,,_se___ ara
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harfif dfispvtíâiílila ë i2r<í«fÇis.0 O 111¢d.0z.¢_i2arê1 -hax¢.r.m@-
narqitiiãua h oiir_a, para a repúblicaié requisito..a.-dísposi.=
z-.l
ç`ã,o____a_fefiti_v¿a wchainada vi'rt1zz_(le.,, Por ela..,Montesq.uí.e.u
__ç_1¡1_g;ç_1_i çlew _o__çqi_1_,e chamaríamos abnegação, O a _, c_apa_cidade
deQs?.Çlsâ.11.-a.._un1.-be111 sup<:.rí0.r 215- Y¿111Ê3.8.e_1Ê.$-_ Ê...§l€?5Êi9.S
I2..Ç.S.5.Q23~í.5_z..9.9. nega1í--a._5_í _R.1í<'>.P.rio. _e.ni-_fav.or-_d.e_-algo
K mais _a1.t0..
Por que a abnegação se tornou impossível na
modernidade? Essa é a grande pergunta a formular.
Lendo Montesquieu com alguma pressa, chama a aten-
çao o grande erro dele - logo dele, que çgm 653€ hvro

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18 A República

abriu as portas para o que hoje chamamos de sociolo-


gia e de ciência política - ao dizer que a república era
inviável, poucas décadas antes de surgirem os dois gran-
des modelos republicanos da era moderna, um na
América do Norte e outro na Europa.
1§f.1eS-Pf@St@H10S =«1f@fl‹¿ã0~ê-i.¢o_úh1ica..qu@ele lou-
va, masao modo derumelogio fúnebre, é_wa_¡a_n1:iga.
Podemos hoje atérecitãras frases de Cícero e de-ou-
tros grandes romanos (em nossa República Velhase
Hestupdavai latiin, como na Europa, lendo-os), mas ,ne-
ifiçhuni de nós se disporia a repetir Brutus sem (enorme
horror. Brutus, atualizado para nosso tempo, é o infe-
liz menino sovietico, cuja fama se tornou infâmia,.ao
¡ 1
Í.
i
'I

acabar o regime que o utilizou como arma de pçropa-


ganda. Nossa abnegação, nossa virtude, é lirni_t_a_da. g..

RES |=>uBL|cA E PÁTRIA


República é uni conceito romano, como democracia
é uni termo grego.Vem de res publica, coisa publica.
Surgiu em Roma substituindo a monarquia, mas mo-
narquia e república não se definem pelo mesmo crite-
rio. Monarquia se define por quem iiianda: significa o
poder (arquia) de uni (mono) só._]_á_açpça1avra repzÍiblica_
não indica quem manda, e sim pa_ra_,@¿z_e_,nianda.çO po-
/agir: F' *der aqui estáa serviço id0-,lãfíillcoiiiuiii,_da.-cois.a.c.ole.-
É
1 tiva Oii PublicaA9..9912fiá_1fiQ.éi§_9.L1510.5-fsxinies..czem
especial da m0na1*guía,_11ar§p_úb11C21 5@b.L15.Ç2;1
n

vantagem de
'I\nn-Ô-" "'-í'-
ou_de_poucos, mas a do coletivo. F
f -ÊD jean-Jacques Rousseau (1712-7,8), contempOra-
/Óííí'5~'“i m-wehaii'v%pa.1:21£.I11I€I1C1€1'1T19S
iísso ao distinguir, no Cpmfrato_Social, a vontade geraldg
ivofltade datados. Uma.decisã.opo.d_‹šâaiis£a2¢r a gralislfi

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A Virtude Varonil 19

1212110111 ozeíodo o55í1To›5ofí1oeífio1o - quando oooião


de todos Sooá Por \oofosoo5 .oo5i5ooíSzo oãopolooom
Ç°mun'1-Q bÊ11 C°111.Ul1_1-11?710..<1oi1'1.CíC1ocomohomlío
muitos 115111 111551119 5911111 Qfoem d.e..t.o.d0s..E.i§.§.<>_p..o..r:
'_ -in' Í .

2.1.11ÊÍQÊÊS311€í€1L...i1íil..ii“§p.úbli.c.a,_nã.o_é_qiiaritos_sã.o_b.e.ne-
Íí.C.1fl.do5, oesilín o-.¢.íioo ooib ._o.iie...â.o...i>.1;‹aciii:a._Bie.i»ri
comum é um bem ú_blgi__c__o, que, çi_^i'ã_g__s,e_,_c_p_i;i_fi,.iiji_,d_e,_,corn
*"_ '--|r--- ___ ---¡._

O bem P1`lV3dQ iÊ?€Ê111B1.Q_,_L1.11_1candidat.Q p.o.de_p.ro¬


-i.-¿_ ,__ Í
f *"*._¡-;f_-_ - T;

meter vantagens a¶tNodWo_s(,_ã custa dos(,_cofres,p_ú.blicos..-..-


ooooo11fo--ooo"o› ooo 1'oo1'i_o1.o.-o-ooosso..doS.-o.os§.o.oSzo~o
.ÇJfá1'íO, SÇ1'íiá ç Cši.Êíš1ÍlÍÊi.deiro..d.efens.oLda respublica.
Aqui entra a ideia de pátria. Não há república
sem pátria. E.S_§ê1,_.ein,_priiiie.i.ro. lugar, é-o .espaço-c.0_-
SS? ii
Í `f""'
mum, coletivo, público -- diferente do quejé privado
org segundo, é um intenso alvo,,afetiv,o,.
A_p_átria envolve amor, ideiitidade, p_ert_en,ci_ment,o.E.,
e_iii___t_e;ijcÍei;iio,iÍreiiiete aopai, isto é, ao progenitor do
sexo masculino.
,.4--¢~_n-›_........,.v-_. › - - -----L . - - I- -' '

A /viui/-/ER DESDE/×1HADA(2)
Por que o lugar da mulher, na república, é secundário,
é ruim? Devemos remontar ao dramaturgo grego
Esquilo para entender. verdade que ele escreve na
Atenas antiga, que em nossa tipologia é democracia e
não república, mas o papel que confere ã mulher vale-
rá até pelo menos o século 19. Uma das sete tragédias
suas que chegaram a nós é /ls Em1iê`nides, que encerra
a trilogia conhecida como Oréstia (458 a.C.).
A trilogia começa quando Agamêmnon, rei de
Argos, voltando vitorioso de Troia, é assassinado pela
mulher, Clitemnestra, ajudada pelo amante.A filha do
rei morto, Electra, educa o irmão mais novo, Orestes,

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zo A República

para vingar o pai. Ele mata a mãe. Mas esse crime


desperta a ira das erinias ou furias, divindades que
punem as açoes cometidas contra o sangue - por exem-
plo, o crime do fillio contra o pai ou a mae. Final..
mente, as eríriias e Orestes concordam em se submeter
a um julgamento, em Atenas, presidido pela deusa da
cidade, Palas Atena (a Minerva dos romanos)
E essa a origem do júri: centenas de atenienses se
reúnem para ouvir as alegações e decidir. As erínias
seguem um modelo de sociedade que é arcaico. O
deus Apolo llies pergunta por que querem castigar
Orestes, se não puiiiram Clitemnestra. Elas respon-
dem que so perseguem o pior dos crimes, que e con-
tra o sangue. Sua visão do crime parte - como toda visao
do crime - de uma concepção da sociedade. Para elas, o
fundamento é a família ou o cla. Quem fere um con-
sanguíiieo comete ato pior do que quem ataca um asso-
ciado, que não descende dos mesmos avos. 11636.
hd-Ç;
A
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olo advogado
9 C' _ ‹..zi
de Orestes,
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cQ,i”it.£~“2,5.1;2l._,essa
_ .. - --

P-91'. q ue castioaro a quebra do elo de sangu_e,,.e na_o_a


quebraidafé da palavra dada, do compromisso çiiriiiado,
do contrato? Uma sociedade é a união de vários San-
gues. Quando me caso, o que faço fora da fl1i1iília_-e
O sangue coiiiu'iii,í vou aléni do clã,
_py_a__e”stçaçbelecero que se chama sociedade. Mas, se a
_palavra_dada não valei',iou se valerimenos que aa reite-
Qšëäo <1o.-5.o11#5oÊ› que Paz existirá Ê11.1.1Í<?.2.5 .1.1.o.o121oo.5.?
Nenhuma.
A linguageni de Apolo é a nossa. Não espanta
que Orestes seja a b so l v ido . (Nai verdade, os1 jurados
` "o se
atenienses cliegam a um enipate, e sua abso viça
deve ao desempate decidido ` ` pela deusa que pre side a
`
c orte -- p or, isso `
tal tipo ` "' e" conheci'd o como
de decisao
“voto de Minerva”.) Mas um dos argumentos do deus
e significativo.Vamos a ele.

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A Virtude Varonil 21

ç)_PÍ(âf C1”í1;l1e ãontra o sangue é o matricídio, o


assassinio a mae, izem as erínias.2
Apolo, qual é o papel da mãe e qual o dlbášãípšzigläçlí
ção da prole? A mulher é só um vaso, no quál o šarão
deposita sua semente, ou sêmen. Dá para igualar o papel
da terra, que é o elemento feminino, ao da semente?
Prevalece a contribuição do homem.
Hoje essa explicação não convence. Mas, se ela
não justifica mais a desigualdade sexual, não foi por-
que a genética mostrou que toda geração inclui em
partes iguais os cromossomos do pai e os da mãe. Foi
porque a sociedade mudou, com as mulheres claman-
do por direitos, que se tornou possível não a desco-
berta genética, mas a eventual citação dela para se
contestar a concepção esquiliana da mulher.
5- Nauçpçeça, a sociedade se constrói, coçntijaçç a_¬_fa,_mi'_li_a
e para al_éni_dela, como um espaço de contratoçs _e leis
qäsão respeitados, como uma abertura para o _o_utro,ld
para isso teve como custo i'edi42.'1'_r o papñe____W_a
i1iii11ier,l¬iquídar a memória ou a fantasia-d.o-matriaroa_‹1o-
1.5z..a. .t.oi1>..11íi. lo.1_í. ‹: a, sooi Sor -oooo.SSorio111ooF.o Hoi!P.atií.§1t¢a.s1o.
éaástia. varooilz

UM COMPROMISSO MODERNO

Fechando esta parte: a república, quando reaparece na


Idade Moderna será um meio-termo entre Roma e
Montesquieu. Ela retomará, de Roma, a ideia matriz

u-If' . - .... z - -
U@Depois da decisao, as erinias ameaçam vingar-se de Atenas. Mas a deusa Atena as
acalma, convidando-as a ficarem na cidade. Elas aceitam e se tornam divindades
benfazejas (isto é, eimiè`m'des). E a domesticação do feminino.

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-nà-

22 A República

de que ha um bem comum superior ao particular


Condenara a tendencia de quem está no poder a ge
apropriar do bem publico como se fosse seu patrimônio
privado. Mas exigira menos dos cidadãos.Aceitará que
eles sej aiii movidos, sobretudo, por seus interesses pal-_
ticulares.

L A

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3. um Awnoo |N|/viioo
A /v\oNARoo/A

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oo/5 sE/×/T/Dos DE REPÚBLICA
H Í* prendemos na escola que república se
._ .¡ 1 _
opõe a nionarquia e que as qualidades
1 '-- _ -_ .
-‹.~-.~_.--U.-.--z ~_«f~_..-;.“¿ ,
l estão com a primeira. No Brasil até hou-
« _ _ _ ve um plebiscito, em 1993, para decidir
entre elas.
O problema é que a monarquia jdfoi a an
tagonista da república, mas não entendereinos nada
dessa última se continuarmos a opô-las. Hojeqhá
monarquias que respeitam mais ,a leido que regi-
" dita-
meshiiqiiemse idizem republicanos, mas que sao _
`
duras.Nãoimdhcutireiiios
is `_ .aqui` o nome repu
ç 'bl'ica, mas .
'd f rtee
ii _ _ _núcleo
_ _ _. __ duroFseu4cçoijiçreu_V_,g__Q,
1 -
poderoso,
' re ública
if
4 Quando se o_omooa_a__ÍÍa1or__111o1$_.__om-__ _p_ _____,,
m dois senti:
i"/”'”f~""fP OrL volta do_ se_Çu1o__ _1_6,___i1,sa,;-_se;_Q_ t_eriiio,__e,
,,,.,_,_¬_ ____,______
ri dos básicos Um é mais genérico e hoje causa eatra;
e.monarqmco.-e
_1Í11Í1@Z§_-_ POI .Ç_5_5_C___ $__ÇI11l_1.<;l.0,..ate_..o._tegi.n1
2-oi>obl1oa_z.oo_11ã___11_111._ o.1oiío.oo.to_i:oPob1íoooo oo Pfooiiéë
.r.no.narquia._.Alguns-_j.uristas_fraJ1C.eseS_dÍZ_f11ÍI1_.q_L1__C,_O.I_Ç__l

LM

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Um Antigo Inimigo: a Monarquia 25

dofoodo o rooúblioo- EXo_1ioa¬so=_‹f-modo so fala om io.-


r
'i
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1

i'>11b11Co› doflfro doInonorqoia,__ooonti1o-So.o__ni_o_do¬pe1o


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ooo o1oi›rofoov_ooooiss_oobiio_zz_.o_ioisoz_is o aofooz-
- _..._.-____v__ .501` da 09153 PÚl?11CäzO__Pr0111029.11_<.Ila,ji1stiça,.o.1:ia_1a._din.o
.do bom ooimzioi..
--ii) As_siQse¬ ç_h_ega ao paradpxode 1804, quando
_1!so_o.1oeo__so__io._znaiàíp.éEaaói_a0S;rzaa;z_aai._uiàiaiz_
biê§i1t_o..s1_oÇido-_aoo_Ífo_aoxorn_o___da_Rooú_b1io_a___éioo_o-
f1_a“_d9___a"__ui;ri_,_iiiiperadorfl. Não diz :-acab_o_u__a__Re_pública.
Contínua a__lšop_úh1_í_oo.. s_ó_ que __¢9111_ 11111 1110_11fe1I<;==1f1.?_o_r
cloisarto5_i__o§__1t1_o.odossasibom» do 11111 lodo, os oti11a.s.o-o
llgnaadaú_bl,ic,a, _e__do_ o_utro,__a _efigi_e..e__O_ _Ií.tL1lQ_.d.o

,J `1É,_"¿_§_H§Q;j11i;;a;_ ,1_mi_in¢ao' deÍëxeroor_o__oo_d.or,__fâvo_iavo1


L111i1.o.ta_sío1í-__I_s_so_5Ô 5o oXP1iCo Por ¢55@5@11F1<1°~««111a'íS
amplo de república, em que ela_nãHoé_ .urn(reg1rQ§>_§$___

._¡_.._z-ø-w-4í-

. Ê1-_§Qis_a pública. 9
Çomodoziá oo_11o49 osíoe1osos_.h_azizni_doo_os-
'_

_t_o e executado seu rei, Carlos I, p1ÍOC1.211I12z1nC1O...UII1I@=


f'\
girrieíia que charnam Coiiifliofiu/EGÍÍÍÍ CUÍÍ-ÍÊ"£lÉ"_1d_-. Ç0l1í1ÍÍ“Q'.”¿
I; Ǭ_

,.ói._
eiiifofiiiunii, público, wealth ou weal e riqrreza cou b€I11.._ƒ°i
5? : 1-.
L,
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J .
_
rradução do títuloseria “bem comum j ou CO.1Sí1 1_'>.L1.-
blica” - isto é, República da Inglaterra. Seus~p21r_f1<13f10_5.›
_
I -

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.'_ _:›'‹. jp'

- f Comiiioriwealtlimeri ou republiC21I1OS, 5€1`3_9 Pfífsegm'


fi -r
gj.
i' ".If\,|¡-¬fi¡
,-_ I'
Ii
- dóisha__,_____.-.---
uiiia 'vez restauradaI a realeza,-6111
_ 1990 f Esse- ejo__
_'I:..:"'
šèig-Mundo sentido de republica, no qual ela e uni regi
-r ~ der e atribuido
111€ 0P95t9___a.n?9n__a}ÍÍ1Ê-ia_;p01'qU€ 0 P9 __________.._.-.._..-------'

:_ I _
1 . ' 'FF -P .
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~* _o1oio_oos~ 'blica_
Cromvvell, chefiando a r_epu,___
...is E CÊ`ff9_._9Pl.Ê____ _ _ _
- W' M aSSL1111111
1ng1e5a,acaba ` do todos - 5 - O5 P 0Cl€1Í€5@«m95m°
'"“'“
emblemas5 olo. ei_11_f.1_.gf=*z 1T¢ aleza.
_ Mas vemos crescer uma
i ` p recisa de repúblíCäz
acepçao mais ~ am P91`(lue nos
P ais
' es Baixos e em alguns cantoes da. Suíça* País en'
z
rã o bem atrasado, há formas republicanas. A repu-
blica porém 9 aparece ainda como regime do .atraso
(8 Sljíça) do pequeno território (Paises Baixos e
3

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_-xi.-

26 A República

Suíça), temporário e fracassado (Inglaterra). <-;-X-


âeção, mais que regra. Por isso Montesquieu podë
näííiqlqgenflâílssrcfiqpãu no passado, entre os romanos,

Na década de 1780, porém, quando as 13 pro-


víncias da América do Norte agora independentes da
Inglaterra formam os Estados Unidos, volta a haver
repúblicas importantes - sim, num território afastado
do europeu, atrasado, mas que inspira algum en1;u5j¿5_
m0 Por toda 3 Palfffi- E_›Q1fl1.._.l 192 na- p1:ática,_em_1_Z9_'5
na lei, a França se torna república. Uma grande-gu<-:rm
europe1a começa,com as monarquias atacando, quase
em bloco, o,_n,,ovo regime. A república está na ordem
do dia, e sua antagonista é a monarquia. O que é essa
monarquia?

A Mo/×/ARQU/A MED/E\/AL
E A MODERNA
\
ink.
Í

Í
A 1n,onarq,ui,a,moderna - não a contemporânea,,isto,,.é,
_adehoüj;ç,,,¡_origi11,a-se nos poderes instituídos em co_-,_
fgšizf'-""1 _njr__e§_o_s,,,da_,I_dade Média, quando os barbaros ocupgararn,
o ue restava do I1npe11o ' " R o mano. Esfacelou-fse H___Q,
JI;-Fr1) Í, Er

¡.w,_.__ Ípoder
_' _, __ ___ central l'1ti__n__o-.-am..e,,_,e,n,1
_____________,_,_,..,,..E-...... . .Í seu
._¬-, luga,_r__§,_fi_:__Í_ÍQ.1Í.L1Í1§!..1Í;:1.1”._1_1.z-,§`.1Il_ 1!-

r”*=- '-t..
~ .seen108,, Escacdos
,QrQ§eSS0r_gu,e _d_‹-:mmour a na _, _<;1.<ë^.1.11<=ztH.,1f10_r,<_.1.1z
O _f11@flSã0~.,Q1;23-_›-§ra.sia-§h.¢§¢ra14<;r,rs;íf_Q..§.9,§.¢..1;9a,va,.,<i.â.r.1z.1.111
¿ O gl-ÍUPO, dê_Ç_O_111.p.a11l1,ei,1ío,s,ea,qu,en1,,atribvuía..fu-nções~q-ue
,
\ . . 1

f}¿f?ià;;l}.,
hoje
,
diriamos pertenqç_rHa_v1da
̓__v__q_q,;,___
_,,, ,_.,_....._....,_.,., _ __
pr1vada.
_.
lÊ,Q_r,_§,X§_1_311l_1,_£2.,
_
' do che_fe,-u1n,_c,u1d.aya,dfl
UDSz-.%fi§a11Ê1@,Q1-.a.vSegu1:anvça_,,, -_ s. r .c _
Çl.Ç.§.p_€.1f1§.a,,_o.utro-do»di.nheiaro.-etc.. t ntado ou
*Ê Quando o chefe se tornava um po e _* _ _ ,_
N "' f“Ti¬
°l<?Sfl1°-fl@i›-¢fi§fiSf111ís;,s;rê,s i idiwfnaliinguagenl
12£1Yfi_,a§,, r r-......zÓÇ..
JIJ-0Jf=)-ílfiliunnain dí,u1..Çr11§í9 ÍiP§1blíCa7Í.;O,te_s_QL1L¢1:

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Um Antigo Inimigo: a Monarquia 27

£Q_¿íI;1_.l2ol5.'§LpLí\äâ.dêl..-£Í0 1'_¢í quidava do dinheiro do rei-


QsxáQ...ea§.r§.a§.pas.a9..taE1.Ç na verda-
fliâ -21S_.<;.0íS8S 1'11&1-S@ _íiistínguíanl... -Díferengiiái-ÍÍÊÃÍÊÍ
demorado.Assim só na segu_n_d__a,__,__111g¿¿_d,¢mdQ_¿èš;jj;Q“j;g;
ÃiQ_n§.fQI§..äLp£Qpriedad,§_g_ Coroa
- seus be.1:1â__1âriYa.¢l0S.,i -Para s 21 nação,..rêce.beiišílSÍ.Í..€m
-Q-§~%~z›UB1*ë-§1-Q«fifi§ÃQ~fl°-E«01"§@1'11¢
Li.a-_l5.__1a..a__@L‹Ê1.Ça.sIla...§1e-_..12.8O-.._a JQ\i¢111....rai,1aha...é§,.F.£ë..I1§a,
.M.ërla-À11tQníe.ta,-ainda evoca, nos,tá1gica,_.o_s-
em ¶13_ís9.,aYô.z duqu¢ de Lorena, Preciâzznd‹>.....d.¢.-c11.-
1111e.ir9z.,.ia.-à.igreja de Sua Capital ea pedia §i_iah¢irQa9s
cidadãos. São dois casos que mostram que_p,naalqsepg§_ç¡
par_a_,v_a,r_n_,_o¬ plano público e o privado. i
Na Idade,l\/lédia há uma fusãodos_v.ár.ios..p..o:
_§¿¿¢; ,dereps¡ há, porém, centralização deles.Issop_q,ue;_
,;¡_.' ,dizer (sempre usando a linguagem de hoje), que,__o
,fgfgy P-É (D |-li “eúne o poder executivo, o legislativo e ojudi;
P-"

f _qi_ar1o- mas _o ,duque faz a mesma c_o1sa,.._‹-Z: .Q_.._s11;r;1ples


Ô, ff?,-1 ff' ig?

7-J
cavaleiro também. Dois processos paralel,o§,§e__p_r_Q;
"'---..._ _ `_ _ -- ' -^ “' "'=*' "'-“ - ~ "' '- '* -"***" "“""“

f duzemwao longo de séculos. Pelo primeiro, diferen-


z É5. fullzš-šÊ.§i.i.lÊ.1Í1.Êš1.111¢QtÊÊ? F?lÍ1?Í<? 991
.£3l.Í~z1.5. . .1Í.1Í.1Ã.9,§-..Ç.1.0
rei (Ou Ç!u.¶1»1ez-9u_,.Çava1.eir9)r.EIa1_,l@,ai§1aEiY2z2.¶.11J.a;
dicíário 6 fiflfl1111@11ts. 11111. ¢>í?€H§iY9.,§_¢..âe.aa.ra1;1-..¢lø
mot1af<5¿íÂ1_\7íàšÍfiáÍii .Í>é131._9.§. Bar2.éi_.ei lfí>.a.i§. 1.%¿^z..s1..<â.J.@J=-
gar fi' dê 21%í1§-<1¢í>Ea1.11.,§1<?.§Ê..£?P.%1£.Ê.f .Ê.!1Ê1;<2E.¢íz..<í1~1_9B..<?«
ei sehhQL10<1..a.lz. .S›.<:r11<;1.Q.-g§_1.t_@.*z1_!R<Í>_.IÍ1. 'š. <.í>. .<¿§.I1§í§.l£L€1..@aS«~11-0
plano mais alto, _Ç,_>_.-€.1.'.~.1.Ç....í.lš?.Ê.11l.Il._.1.¿Lí.S_.'§.21.r.d.e
:ii as ivéizieisi"siéfciliiá111a1'á _}_'1_§,S2_Í_€.>...1Í1z.Í<1l. Ó'
uh" Ãwfiigliatieiiúáfállvéz seja o melhor caso a estudar.
É também um dos mais precoces.
/.\. CY/ m Parlamento, O p1'í1T1€íf0 da híSfÔ}:,Í_¿%;_.'.IÍ.QID.,D.0.bIes
9,,za /«=.à.¿1_<_›¿‹¿1_¢_§¿_‹e;,¡;1e_b.‹ê.1é..ê. .(‹;â>.1i11.1z1.1aê)l`E°išá}.$Í š.ÂÍë _B'{í1?íÊ..9lÊ-¶H2...a
O rei não cobrará impostos sem aval do Parlamento¿§__e_n__1;
Izeff 1a..a._.r‹==
ue aeeéëaêí.Íë`Íäfi`?Í5Í€ÍÍ`°T1T%"%ÍS.§ãéÍ.*1Íšãšaíf§§áIší.ã.<›,-.@1@
convoca um Parlamento oiqúial embora não seja cons:
--_-alan-'bpr-.
_ ¬
.,__ |.v-0-¢ _ _._¡`,`,_¡_¡_ _ __ .z fi_._,¬ ` __'_"' _ .h_ ___¡_¿_ d .¬ .¡,¿.__¡_p
___ .__ ____,..- ¡~_\,_
_,__`._ -.3_,_.
.`. _. .., 4 _... *"‹
_ ' -_ ' ~ 'W791 _ 1.-|\__›-\,-__ _ -_ - .n ' "

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à-_.

28 A República

tituçionalmente o poder legislativo, aproveita Bam


onse uir do rei as medidas legais que deseja.
-s> O I'Ôl=______`__mm
também "H "
delega
hnw _ q a juizes, que ele nomeia 3
__._,.. .......______,_,_____.---›--3--›-\

/=:zzz›=f'/E tarefa de julgar. Imagens como aide iSi.`Luis rei da Fran-


Wóeaaue
(4 , L H 6l1_11_1_i1éadosfl_§l,o_século 13 pessoalmente mjQj5_.

"”'f~ ffeveiufiflee Sela.E9155esírellê9›_efl1Y199e¿:1.11ʧzÊeem ee.1:.a


0 PHššad5ÍlEE{f@.1íÇ1f=1.<;l. <f*2.. <11.z.1.e. .ê.t.e._‹'z1.resä01u‹;eo...de 1_6.8B_Qâ
jÉ'_z_es ingleses eram nomeados durante bene Qlacito, ou
S.. .fi1› e_eque11.te_.e.ete,deS§@ eorei» que d.emirâaqa.e-
d.‹.2._C_1.Lu.S. <_í2.S.$. _<i?. Selll expllcaçoes. Desde -entãQ, só .p.o_dem.
Serrdelniëídesee-eemprevedenlenreagi1:em..ma1...
Não é preciso detalhar todo o processo, que3
Norbert Elias estudou em seu O Processo Civilizador.
Í I ¡ d

O fato e que as monarquias, de boa ou ma vonta e,


abriram mão dos três poderes (sempre lembrando que
esses são termos de nossa época, e não do tempo em
ue isso ocorreu) Quando os norte-americanos e fradnz
fig
ceses erguem a bandeira republicana, o rei da_I__n_g]a_-
te1*reJäiC0ÃÍêiÇlë freflšfefíl' O Poder eXeeL1tiV0 s Para
Í
3.
'..-«""

¡ q._/'i i
-.f
J
_ I
.¬ umjprimeMiro~1ninistro, que é o lider do partido_vito.-
C
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"~.
"H
fin”
f Í
â."..."'{¡:..éw'
."
rioso nas eleiiéiões ã Cãmaraidosi Co1n_t1nsi._l;\;/Fldas¿,__nH9_,L'Ç.S:
Í_%

to donlundšlãnrnonarqluia contiiluaiiieilifeixanmdo e__1;r__1


suas mães iÇ.§i<íi§Ê:Ê:.Óíffiliiiiešce i_it9dÍ0s-._-f Oflš- 'PÍÇ>31e1;eS.»E
.raesliie ne..I11a1efer1'e O 1110fle1*ee 111eflíPL11a-eê-e1e.i§.õ.ee
O século 19 será atravessado pelo conflito en-
tre república e monarquia. Mas essa última é forçada
a ceder, e muito.Amplia-se para vários países a práti-
ca, inicialmente inglesa, da monarquia constitucio-
nal. O rei continua sendo a principal figura do Estado
e individualmente a mais poderosa. . Mas. admite quee_
haja uma câmara de deputados eleitos, a1nda que g

3
Nflfbfirt Ehas, O Processo Cw:l1zador.'z-.fma História dos Costumes (Rio de]ane1ro:Zahar,
' a ø 1 , v

'b iro).
1990 [v. I] e 1992 [V- 2].trad. R.Jungmann, apresentação Renato Janine R1 e

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Um Antigo Inimigo: a Monarquia 29

ralmente equilibrada por uma câmara de nobres no-


meados (um senado), reconhece autonomia ao judi-
ciário e em alguns casos - porém nem sempre - aceita
passar o poder executivo para o partido vencedor
das eleiçoes populares.

Monarcas Brasileiros 7 6' -fe” /'i¿Í`ii'"C' f_F.f§-"L"': .›/›"*'*i"""'


'-'f.ff'›¿zt
fr' fa /Í _,
Í(¿"4/';}'

No Brasil, Pedro I exerceu diretamente o poder exe-


cutivo e ainda criou um quarto poderfšó moderador,
pelo qual o monarca intervinha no legislativo e no
Á.
judiciário. D_e,p.ois.--_do. experiii1entQ_-£ÇPP1l2lÊC3fl0-FIUÊ
/7 «fi sz; , _f9_í__P}.lf.<i.%Ê.11_Çie1. (1 83.1-40), Pedro II, qualldø .2l§Il_L11tQ›-1i2<z1$.-_
fnuj O
~- 1
Í/Lfl' 'b L' *'

`-,Ê §OU...š3‹.-11_Ql'lÂ1.ÊÊ1Í COÍÚO Pf1me1rO'n/umstro O V1t_0_1f1Q,5Q_1'}21.5..


_
z.\|
¬`
.'
eleíeãefi»-Qeeprfiblelfle éque estes eraiii-iEt.eiz1_e1a.Ç1.as.a.
Mas nossa situação ainda era melhor que a da Prús_sia,_
/'L '\ F'
l
-

na qualuoiipcoiitrole do rei era bem mais forte. K?-

MORAL E IDENTIDADE NACIONAL

A grande mudança começa, como é praxe na politica


moderna, pela Inglaterra. Em 1837 sobe ao trono a
rainha Vitória. Seu longo reinado, que terininou em
1901 P arece hoje ' um periodo
' sem nen h uma con tes-
3

ta Ç ão ao primado ideológico
. do espírito ,vitoriano.
, . Mas
em 1837 a realeza é iinpopular no pais. Os ultimos
monarcas foram loucos ou dissolutos. A causa repu-
blicana está na ordem do dia.Apesar de formalmente
o primeiro-ministro ser o líder da maioria parlamen-
tar o rei interfere na política, negocia, frauda.
, . ¡ . ‹ ; z

A genialidade deVitoria e seu marido, o princi-


pe Alberto, esteve em mudar radicalmente o papel
da monarquia. Esta saiu da política e ocupou a mo-
ral. Não foi fácil.A rainha teve seus preferidos entre

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3o A Repúbfica

os primeiros-ministros, adorando lorde Melbourne


liberal, que a orientou nos primeiros anos de reina,
do e mais tarde aceitando a adoração de Dig;-aafi
1'
5

conservador, que a lisonjeou coroando-a imperatriz


da India. Mas soube refrear a vontade de interferir
no mundo político.
4
-D Em com_pe_ns_ação, a realeza passou a oferecer ao
Q_ '------- .___ _-.- .- _. _ -.. .,_ ___ __ __ __
*~^«>/rf ~POVO. 11'lg1¢.S
- ›- 11111 1110d€1O 1'1101íal,.Essa.moral-s1g1'11.fic.aY¿1
" A . .
uma vida de faniília irreprochavel, somada a conheci-
.. ».‹.,,-= em matéria sexual que ficou associada ao
'
adjetivo 1/zatoiiano. ‹ “ Nao
" ac h amo se g 1-aiç'ai>i¿-zi4i14ii i'i íia*'”if(I×I¿'a_
are nor a1e1iaser1)i, dizia a rainha, quando se contava uma
piHa_ç_la_winpais atrevida perto dela.A família real_p_assou a
ser a faniilia ' por exce l"encia,
` o modelo das relacões
estáveis, o palco ein que se produzia o carater firme e.
honesto dioiiciavalheiro inglés.
Evidentemente essas virtudes eram as de uma
classe, a da alta ou baixa nobreza (respectivamente,
aristocracy e gentry). As classes pobres ficaram asso-
ciadas a uma vida dissoluta, em sexo e bebida, que
foi reprimida e, pior que isso, desprezada. Isso se lé
nas entrelinhas da série de livros de Arthur Conan
Doyle com o detetive Sherlock Holmes. If_o_i__L_1_1_'1'1_.
toque_ d e ge"nio ctornar as ._ qualidades . _ dos,pwob_ge_s._.e
.
' ' is. Quem._é
--VIR If ¬ _________.__ _____ _, _.,_- _ .

o temiveis mas desprezive


LI1._15Ê}Í?}YP1§-P.Ê1. - r ›
serva dignidade.(çl\p/please, se ,a,;v_i_ç;l.a__dO.S..1f1~1~1-
A z*“1fe11ií.s10,<20H ,
L F, A seráveis é considerada imoral, eles an1eaç_a_if_i;,,men.o5:
i20.<1e1i1A I SsP.-.€?-°“
já É troladios› por uma série de ações_3§;
peramente carido_sas.
' `
O projeto vitoriano foi` um sucesso.A realeza
ficou acima dos partidos. claro que isso teve seus
1imites.]orgeV, em 1924, não gostou de ter que con-
viver com um primeiro-ministro trabalhista, o p1"i1'1'l€Í1`0
da história, Ramsay MacDonald. Mas, entre liberais e
' entre conservadores e trab alhis-
C°n5@1'V21d01'€S, e hoje

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Um Antigo Inimigo: a Monarquia 31

4. O tas, a realeza é neutra. Â_lÉ_{__e_rnj.in‹¿`__iaqndo ã política, ela as;


,aa/et tz seeuteil eeersl dsfepfeseseefe Je
r f/,_,,¡._›a .r Q.
ei_e__n,a,cioiia1._dezpio.1.n§o.Í.i.:.‹Â1.i:1_i.1¿1n..cíe...i§.1.e.iitii:1ad.e.... 1-
Ç

-ix esse o sentido da monarquia constitucional,


1

1
heiei lgiefiéi.e. e1e..f.Li.ií§‹§i.‹âaê‹*`~`i”ifi›"i PleYfiei`fí2Íe;1.ê1.e.:iaía“
na.H
Hei-'<=e› Send-O .11s.B.Ei9.e.9.1ii.íee1fi1er1fe›..eã.Q-.t.ee.de.earie.
n.. 0 a0VefH.....9.z.-eã.9-xefwíe nem Sequerf HAS. sz1eís.Õ.e§›
reereSefl§e-0_1z1_-.1:1.1_e§iiie--_eo.eer.ne.. fa .fiaeire-ë9.._§..§t.e.ë.e..
Isso não é pouca coisa. Ia_l_3{_eg_S_<?_Í_§1,_1§i.zá1.S-_.1íl1Q11.211;q,uias\

*
~ íâ ç9if¿_st_i_tu.<§_í9.I1_ais.,-.dep.ois-da_ ab dicaçã o de -quase .to dos il
QS_p.apé.is_his.tór_ic.os v da realeza, que. melhor- fun cio.-.
1
1
F -eeeSePereeã0-.eiiire-.Eeeidoz ivelf um 1ed0.›-ez-eflxefe
no ou p21rtíd.os_....i;zoii-outro. E isso _justamente..p.oi:que
_o rei nao está filiado a partido algum, ao contrario "'“ - .~.- 1- fllg

das reupúblióa:s,_i,:ii,ieis,iiio no parlamentarismo. Nelas,


a ,presi¿d;_eÍ,i1_ç_ia_,,_quase, sempre cabe a um partido ,ç-no
1
..Ç1L.1_â..§.Q.r11a._díficil distinguir o Estado, que édeto-
dos, eflpwguoverno, que cabe a uma parte, ainda ,que_
.'¿p¡Il_" ."I u|U|Hn-|,_¡_ -"_

g
aeee..m.- õfii.¿ai;Í.1é1;àLiIs.ó”eieâade.ef
E Uma curiosidade: os filatelistas ou simples inte-"
ressados talvez tenham notado que um único país no

mundo nâio coloca seu nome em seus selos - a Grã-
I Lew f›i:'*~»~ -Bretanha.Talvez porque foi o primeiro a emitir selos
QG
postais, em 1840. Mas em todos os selos britânicos
iv»-=› E-*F W*. aparece a efigie do monarca reinante. (Lane identifi__ç_a
/eg i MU ii
c, /' P .e...SL1a Oãíefiílíll Ê? ímeee112_£l..Q- seiaz.a_i.‹1.entÍÊÉde,
.. 'Í:}{;' P'
'-1 _o_n_onien_aÇ.iQ.11al,_e.stá.na.figuraestilizada.do..n:ionarc_a.
I O E é or ue tggdlqsrçqsreli i.1_p_rrieili_ienfi torno da realeza que
l ia
i


1
1
Eodfim dívfiffgíf 51 V0_1Í%.F%!.£lÇ^_.1.í1.21.-R91_ítíea:-.uni..p.onto__es-
sencia , a unidade e a identidade, está preservado,
7

1
Outro Modelo Para a Realeza Britânica
“P 5.._€fä...Q1l1..ë..Q,,QB.Ê.;1ÍÊ1Hií*_.Ê;S_$.i.ÊÊÊ_C0ncebida o contrário da
re ública? E claro q_i¿ie
ais

MM

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_-In

32 A Republica

1;ep.\.1.l2lí_C_ai;1a_ _já,_que_,pres___er_y_a___dos conflitos artidái-`


I .. .3_- .__._________J .d __ _ L<

u m nucleo comum a todos, ue é exatamente a ideia


de res publica.
Isso não é fácil, e as monarquias são criticadag
por estabelecerem uma distinção de nascença entre
a familia real e os súditos, como se ela fosse melhor
do quce estes.1l)\lo ReínodUnhido, a casa real é riquíssima
e ain a rece e muito in eiro do Esta .
sabemos, os filhos de Elizabeth II não fcciiãaiijãieíeiénniii
plo de controle sexual - aliás, seria isso desejável
em nossos dias, quando a antiga condenação ao sexo
foi ,âubstittiída pela convicção difusa de que ele é
boiãii I-Ioje a realeza britânica está em busca de seu
papel. O modelo vitoriano, da autocontenção se-
xual, não faz mais sentido nem para os atores, os
príncipes, nem para o público, o povo. Mas a ideia
mais Doenérica do monarca como fiador de um es-
paço que não se esgota nos conflitos entre partes
pode continuar produtiva. _ ,_ _ z_ | ,.»__-- c I ins;
P
|¡¡l_f_¡~_/
"' 'i› / .fl
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.f .a .z 1 _ __ | , _ _I_¬ ' ,¬ ¬ :
. J . ¡ `

'ÍÀÃÓNARQU/Aff E "REPÚBL/cA"
O importante neste capítulo era libertar a discussao
daquilo que é engaiioso nos nomes. Nem republica
nem monarquia ` p odem .ser confundidas com alguma I _
forma liistori
° ' 'ca._ q ue assurmu
E seu nome. Por _ republica,
- ` ` ¬ ` 'bl' ..Pai'1doxalnjie_11t,e,
e11fe11<1<=;o1oS__o.2.o.SPs1Ê0š!__<«°1S%_PU 161* -f -I -- -
e_.‹sa_resae_iio__p__ode esto eSSoe_91e_ _o» _
ii' A A - d desde a seounda. -__...z=--zf
W oieeade do seculo' 20, e,o_i"Wf__§1__z<;_y1e1f___-i
1 --...~ «--Ç.QQ§.§J='
1smonarqu_iaS
z,tu.<;_1oI1a1Siq- _
E --,-P» Mars isso também significa que as monarqu1a%_f_-111€
( .reSte.rê111So11'Íoote_eobreif1×?eÊ1ã1 <fle1>s_e1'1_Clo_@,¿e>_1_'1_...z-lime
i\ tar a república, rendendo-se a seus Valores. Não É UC

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Um Antigo Inimigo: a Monarquia 33

elas tenham vencido a parada¿}1_lí>IfÍ_1_Í3__.1'IÍ1.f$__¢__ë!_QS te_n1p.Q_S


iiiovzósi. 1Agrailidéãiiitagonista da repÍ;_bl;i_Q&__es_tá_h_Q,j§
.e_h_'i ;1_.o__Li_t_r_o___11¬1g€1!f_ 2 __USP1!'P2!§Ê°.___<_lš%__€1__<>__._1S..%1_. Ubllofi 29.1;
interesses particulares. Disso vainos tratar agora.

Í
4

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4. o |N|/vuoo
DA REPúBL|cA (nz
O PATRIMONIALISMO

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conflito entre monarquia e república opti-
§ nha a transmissão do poder pela via here-
1
:'.
'I ,`_'¿.ditária e a sua atribuição por eleições. Mas,
-1.-~. -z1___-¬_ ~
".11i'g`;-' :Q :Qi
._.'.-_ ¿,..I
'___
_‹ z;_ _1_._
___-L_1. ':_-J

l
1

I- _ quando o rei se torna, ao menos na Euro-


pa, uma figura cerimonial, essa diferença perde senti-
do - até porque, nas nionarquias constitucionais, o
poder efetivo é conferido ao priineiro-iiiinistro pelo
voto do povo. ~ _ 1- Í 'I ' Í
-eo Qu_al_o çerne, então, da república? A definiçãoidç
l. o1._.oo___efaoia_deeiašä§iiäšfieiif exeieee o poder; eoido_foPf1l21íf
> ça parcique rserve or poder. Na monarquia manda uiii_,_ç
.f p_a_r_ep_úblicao poder é usado para o bem coiririi_ii.A§_-
\¢/A
re-
If ø
_-~"”-' Síi11,_e1i1l;_ora_q1.1 ando um único nrinde
_. c _ ele
_ __ tenda
________._____ a_L1_S2_L11
,_.._... _

" \ * 0 I1o<iof__o111-beii.e_fíoio _proprio,_o ve_ifda_deirê1_ §f1.!;1_'1o.. ._ë.1.Ç2.-1. .-'~1


r tt-1K J

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P

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'Ji || 1 J
__* _.b,
. lH* ,EP1Í1l2lica_ está nesse uso do poder, e não na forina
lnsfítuCí01^1A1_IeÀtá_iios-__finS_z_
~§ P.\esL1_111í_H§_ílQ¡ o ini,inigo__d_aJe_pública é o uso 1'1-
mio-da ¢°1SèPí1b1í<;a_..Esu_aan1;op1íí_a_ção__,¿;_,o_ni_.0._§›.‹í1.í_£.?2Sf
5Ê~ oal.

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O Inimigo da República (1): o Patrímoníalísmo 37

PATR IM ONIALISMO

Emprega-se hoje muito o termo patrimomalismo, ng


Brasil, mas há um equívoco em seu uso corrente.Tor-
nou-se sinonimo - cr1t1co e mesmo pejorativo - para
a apropriação privada da coisa pública, por políticos
ou por quem tenha poder. Ç,ont_u_c_l0,_n3 sua ¢1¿b0m_
cãopor ,Max Weber (em Economia e SQç_1'_ç›;_Íq§Z§z)Í'_,_e_,n_¿
sua _1a_0ÉáY€1ÍÉÊÉ9U??ÊÍÊl?,ÕÍ äšfífiíëíilífšlš,.Êa9rQ_(Çm,..Qs
DOHOS d.0,lÊQde1sf,_-.,1,Í-`, s e.d.,,,,,1,,9,5,8,) corno a,__,hg_ra_n_<1e_,¢h¿y_¢
â<,a1r¢,arira,_P_a1fa0 Blfafiílz Paf1°im0flialiSmQ_,é.amr:_Qrz..-
,g_;_e_ito_q,científico, definindo um tipo de_ s0,ciedade.,Tra.-
_terr_1_os_ rapidamente desse ponto, _reme,t_endo_o interessado
a Os Donosdo Poder.5
H Po1'tugal conhece um desenvolvimento precoce,
,à~v,,-,.z.;_z~,,, comparado ao resto da Europa.A revolução de 1383
9,'
51.-1'
leva ao poder o rei joão I, com forte apoio do povo e
P'
gr? Í/--I-É
da burguesia. l\/las esta é uma burguesia mercantil, e a
4

s-,.
 rprecocidade portuguesa no capitalismo, paradoxalmen-
te, fará que o país não consiga dar o salto, mais tarde,
para a indústria.
Fica-se no comércio, com tudo o que esse terá
de predatório, especialmente na expansão marítima,
que leva a estabelecer feitorias e colônias. na América,
É
Africa e Asia. 1.3./1. .21i,S_f;â1;.ér;,<;>S§§ êëliil,Çêfilšêllsrrlaaipflllllaf
‹:am‹-:nterorieafado'Í-lEaQ_r9).›_,Iiãgêšê ,dQn1ínadQ--P.@10
P .If

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11- É
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'W ÊsÉado,.1:i1_as,comel:1fÇi,_§9,11.$i§1¢1í2111§1Q.Qrprópriso, .Esta-
rf-"ía" . 2
1,'
do rcomo,,sna_..Q111pr.es.a..,E§tê É _ .Q c SCUÚÔQ, .-PÉ?Çí$9, flífi
I

E tado
' "l`~*' patrir¿g_niali§,1I1_OLO,.__,S.c -. é bem pessoal
,-patrimônio
..-..¬..,..--,..,..........

4 Max Weber, Economia e Sociedade: Frmdanwnros da Socínlqçia Cornpreensíva (Brasilia:


Editora da UnB, 1991).
5 Raymundo Faoro, Os Donos do Poder (São Paulo: Globo/Publifolha, 2000, 2 v.).

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33 A República

(termo que desigilaípropriedade ue vem d '


a_u_@_a.fl. .S__Sara<2r13.<fraa§a).z
\.f_ifl19S.¶u@..-a-H1°flaf<1uia.ma
ifl<1íSfí11Çä0_s2£¶í¢a b9.1§a-.ÇLa._r@iqueriam ,cria O
1¿s.§.9. 1z1.£.<>_.t11?11›â1i‹;0¬. A-.dif@r¢a.§aš-aaâa9.aa£r¿a1_9nàzuSmQ
¢..Ça1a..l?Q.rtaa.a1_z-¢sS.a.fL1.SãQ_-en§1f§__.Q_r2r.i_VHd<> do rei e O
p_,ú_b1i_ç9_jé,,1;>..<?.12SH<1H em fe1'mos--9api.taliS.ta.S,..çaylo uma
err1.Preâ.a. .de ‹201i11_ër<§i<>~ Há na a0Y¢fflaU§%1..PQrflÊ{išisÍa
111'1'1ä 1HÇíQ1121l.i§íade.,sup,eri.0r-.à.-d¢--mui.t.Q§. r,e.,is....n:1e.die-
\fi1íS~ Em 1.€l.Q9›_-.1Í9.r§aaa1-¢._L1_111--Ç19§._12a§.<ê..§_ma.iS. a'f..ança.-
i I

dQ_s.d_a-E.uropa.
_] _
era» <.;or1t_L1£1_9.z-_,¢SS¢. =1YêH9.Q,P_9r§.uguês.- que no fi.na1
, . . .
/91*-; za» g_1_a_l*dMade Media serv1u ao re1 contra a nobreša a Õ PJ -
¡¿fÍÍ¿, _Qo_u___e_ste1'iliza11do a economia e a sociedade - na in:
li' .,- ça_p,a_c_i_ç1_a,de de definir o indivíduo icomoi,de_t_e_r_1tgrwde
l,i_b,erdade,, o capital como produtor de riqueãasqfna.
H r_1_1_a_1_1_ufatura e o Estado como uma iesferaiipiiiflblviqcqag
d`istinguiiii*-isieldo rei e de seus piróximoisglšišolresultou
numa hipertrofia do Estado e do estaniento b,ur.O.CIâz-
t__i_c_o_ ligado a ele, em prejuízo de urna OIg§}1_'1_1Z__%.ǧ.Q.
1.1líâ1,íS2l,L_1t¿"_)no1na da sociedade, como a que houvegna,
I1Í1,gl,a,terra e em suas colônias norte-americanas. 4-
O patrimonialismo é, pois, o Estado que o prín-
cipe dirige como sua empresa pessoal, no quaClr0
do capitalismo mercantil. P`Q,r,'e;;_tensäo,ele suSC.í.É.€!-
" ,a,»z_,.¢. ÇOYÍUBQÂQ 51 SU3 3f Qlta_e_neutraliza ._,an,,i_nicia.t_íyÍ_21,.C.1.0S
.vv 1;›r<2<iL1t°r‹;S‹,I“I.Ç>.i~=ârp9r.éra,-aQ -1š3_ras.i.1-š Ç<>1í1_11z1.1.f1_.. . .C11fi*
É-¬1"f*~= 19311 Clfi*_pí1§rín1o_nj_alis11;o__g ,11 QdoFp,e_l_o qual___o__ff_,c,oz
{:zv%ez«u-›wfQn@1” _ 1;>..23~__..f€.1í1.t.Lq_t1_e,,_f_ÍQi da Guarda l\lacion.al.,..1'1.0-
.wa * - " _'"""'"a"“'"*”"*“'t" "“"e"j'*""§"“"" .
` L” ` &@mc.akLha. a.<íq1z1ar.1L1-9. .§.<?.1.1.@.1z
s fazendeiros -i_§§B1'
*»§§¿~§¿$ʧ§§¿fi@¿.@,1wca_@nzúr1§Q;.à1êa1.aõ:savzâ@.
šL»¿Tz~ä&@ÊH.3l› ._Ê¿l1.Z.;§Ê..P.šl.U`_lÊTl:9¬n_{all§.Ê»9'
HrÊ_S}§ente ao rp9gEç~â ~Ê1¬Ê...1L..El_iqu ÊE l3.iiV_Ê..i?-§i"O
r¬~-- 12£ã.íL¿£1£,&9..I1Hf!_9zâ¢._v`aͧ.112.§í9_b;@L‹“

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O Iiiímigo da República (1): o Patrímom'ali'smo 39

Comum afã âuaƒvaafagfiiilr12Líva.da._EsgS,_uS0S da


alavra orem, so cabem por analogia - Qiifomo
CÊHSÊ UCHCH fífij aia.P.1;QÇ.âêâ9_..a9.§.{Ía.9i$šH..i§š§Êi¡2z
nao era a. en,eric_aÇmeuyag¿i_¿1¿;1¿¿_¿_ç¿Q¬ppgšwquâjiqgšš
1zL1I1..<šl.H .9<2.1S_.a-12___Ub1._1..Ç.a.,.i11a.s_ sua ap.r9.p.r.ia§.ä.Q.p.e1o.prí.n.-
é;1.a<:..r1f_1;>.a9.r.Ç.ilíaa.11@..,aê1rQ...SQb.¢.taa.a.

coNsEouÊNc/As
Dois comentários. O primeiro é que a explicação pelo
patrimonialismo é uma das que pensam o atraso brasi-
leiro a partir da história portuguesa, da qual provimos.
Tal atraso se mede pela dificuldade de nutrir um pro-
jeto capitalista industrial, que, este sim, emanciparia a
sociedade da tutela estatal. Isso se nota já pelo uso, por
Weber* e Faoro, da palavra estamemfo, em vez de classe,
_ para o Estado patrimonial. C,las5_e__`rem4etpew,aau_ifi_'i_a_d_i_fç,-
Qff›'¿* r_enciação~-promovidapelo capital entre ,¬as,__categorias
;¿,«;z,'..í,z.¿,,,H,da__sociedade. já estameiitos são ordensou, ca_tegQr__Qs
0 sociais mais fechadas, definidas pelo prestígio social3
^pela_,ilio,nra mais que pelo lucro ou pelo cap_i¡ta_l¿iÔ`:
O segundo egque a exacerbação dos poderes es:
zi ?,..~,.¡i_«,-¡f¬,`1;ataisgera uma corriipção que não decorre da íflflora-
Í.`¬

._ zçzcfjidadej pëss6a,1.§1iiasi- é__.i.11t1'_íi1Se.ca-ao_-5iS.f¢111a.- “Vfidfi um


\.\-
'¬I.-Ç,

,zi1i"ÍÍ"~"- homem desses que andam perseguidos de pleitos ou


¿¿`iÍ-if* acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo.
' ‹~~**`.1l"~'i' Come-o o meirinho, coine-o o carcereiro, come-o o
1/*'W`m<i°' escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado,
5íÊ.¿¡z¡_._¿li_ come-o o inquiridor, comƒe-o a testemuriha, come-io
p L O o julgador, e ainda nao esta sentenciado, ja esta comi-
'oàèl do. São piores os homens que os corvos. O triste que
'T:,¬:,._.z~*f¡*' foi à forca, não o comem os corvos senão depois de
5' "“>“ executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não
DO “wi _ øvpb ya
uv :fl )Ul/ f Vw J
5 ¡ Ê, 311.4' I

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_...___`_`

40 A República

está executado nem sentenciado, e já está comido.”


Quem diz isso é o padre AntonioVieira, expondo comg
se dao as coisas no Brasil em meados do século 17.6

|
ze

'i

-_. ,`\ . . uso


DÊ.-CW POI' Raymundo Faoro, op. cit., v. 1,p. 212 (cap.VI, 2). Faoro faz freqüente
- das denuncias deVieira contra a corrupção.

lj §(*`l7ƒ/loga;

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5. o |N|/v\|Go
DA REPÚBUCA (2)
A co/QRUPÇÃO

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--'u-_
-~__¡

Ê ual a sua ideia de corrupção? E quase cer-


, to que vocé fale em desvio, por um admi-
‹' :._..-nistradoi desonesto, do dinheiro público.
s - E a ideia que se firmou hoje em dia. Mas,
antes disso, a corrupção era termo mais abrangente,
designando a degradação dos costumes ein geral.
Como a corrupção veio a se confinar no furto
do bem comum? Talvez seja porque, numa sociedade
capitalista, o bem e o mal, a legalidade e o crime aca-
bam referidos ã propriedade. Por analogia com a pro-
P riedade privada z o bem comum é entendido como
P ropriedade coletiva - e até como bem condominial,
aquele do qual cada um tem uma parcela, uma cota,
uma ação.
Mas o bem comum é diferente, por natureza, do
bem privado. No estatuto de uma sociedade comer-
cial, é obrigatório incluir o destino a dar aos benS,
caso ela se dissolva. Se constituo uma firma com um
sócio, caso a fechemos repartiremos os bens que per-

_.í

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O Inimigo da República (2): a Corrupção 43

L tencem a ela. Mas isso é impossível quando sf; trata da


z.¿¬U,z¿z.¿,›~‹›
C9 ,LU coisa ,publica
__ - I-Ia certos
_ _ _“bens” que só el a pro duz e
§.U(fͶ'{f - que nao podem ser divididos: virtudes, direitos e uma
~;J H.” ' ' ~ ~ 1 . _
,ff j socializaçao que nao so respeita o outro como enri-
quece, humanamente, a nós mesmos.
A -b Boasar o. n1aaiíà_o1ítio.o-.coino.._c.o.crii¡;ii0.e,.1zioi;caii- \
/c¿~=s/~ to, como 1ad1ã.o..S.i.1ín1a1ífi.s=â1síofaflís as ¢oi§a$aÉ.siaal..de
¿¡OP,,*f,,,/,ç Lo não Sg,_.<;=.g§<:>.1.”1.s1s..<> ,.<is1¿¢. abri€1%~.-.s332.§_9,.s.1.o¢1..a.‹;1o,z.Q
,.,¡¿, ä Qaur¿ta.-apena_s...ao _d.os.v1_ar dia.l1.o1ro.,.ol.o.m.aia
É ,;z o×gÊE.ÊÊf.ll.4.%1S._9u.oisso, olo ollmlna a co.nf1ança-de..um_no
ifl‹'f=W<¿°QE~1.f?°›¶U@"3lYÊé.$¢ía O maior bfim PÚl>.1.i€9i.1°ë.iI1£íig11..ê1:
i~z~› ccz ao aoioscão-..amiíëliâiccsaàiaa azoóifupoão..-nO..aza.ii.
ser ot 11om.oSSo Vís.í.9.,s.a.o.1;1íao1 1“s<íHai.1a.§19zts1do._aro.1zi_1:a_>_(.cl.o
('¿.'‹›z.a.z›'~‹i_ “f_n0§§,,Q,.Çíii1.l.1oi1"o.°”).. 21. mídia ignQr¿1¢faÃ_ig'.11o.!a.1;..:.o
f1Jišl«'‹1-'¿L;Í“ que é a ç__Qi_i__Íçiçançça, o ,queé os elo,so.ci_al,_.o.-que..é_a..v_ida
Día ll/“JH D

UM TEMA REPUBLICANO

Pode haver corrupção em outros regimes, mas sem


esse nome ou sem os perigos que traz para a reppbli-
ca Lembremos a tipologia de Montesquieu: ha tres
regimes, monarquia, república e despotismƒo. O des-
potismo é um fantasma; reside no Oriente; e a grande
ameaça ã política, porque nele tudo é comandado pelo
desejo. Os súditos do déspota desejam muito, porque,
com os nervos excitados, são sensíveis a toda impres-
são externa. Daí que sejam lúbricos, luxuriosos,
imediatistas. _ _ I ~
O império da lei e impossivel sob o calor. Nao
havendo autodisciplina, só pela irrestrita repressão ex-
terna se dá o controle social. Para conter o desejo se-
xual das mulheres, é preciso trancá-las num harém e

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44 A República

castrar os homens que as vigiam . No calor,_ governar e'


reprimir.
O curioso é que nesse regime -- mais uma cari_
catura que um retrato fiel dos sultanatos orientais -
não há o tema da corrupção. Como se corromperia
um regime cuja essência já é a degradação (a corrupção)
do ser humano? Mesmo que os ministros saqueiem
os cofres, não existe, no despotismo, uma regra da
honestidade, uma medida do equilíbrio, um padrão
da decência. Sem regra, medida ou grau, não há
como falar em desregramento, em desmedida, em
degradação.A corrupção só cabe quando o regime
social e político valoriza o homem. Não é o caso
do despotismo.
Será o da monarquia? Nç_l_a,_o__p;cm.Cípio_é_a hon-
Er/rw
ra,_e,poi*tanto uma valorizaçao está- presente.-.O.no.bt€ i'
""¬F¬.
ø
Í

prezamiiialiçs ça lioiiraç,que,a,p,rópria vida.:E isso ,oLq_u__e, üçzza/f' fpü


.-acl'
/,_-.i
lii;ni,ta,(o,(,arbítrio do soberano.,Mas há dois._,p<_iz_i_'i__tQ,_s,_,a
assinalar. Primeiro, poucos têin honra..-. só._o.s.grarides.
Seguiido, a monarquia é uma hábil ,c,on,s,trL1_çã,O. .p_H_1_'§.1
qi de um principio,filo,soñca.1ín€11f<ëÍÍ€llS0:êLClo&
gua lda_,_Ê_____Í
ci natural,._- . entre
. í .. os homens - decorram._¬resulta;
ir-
' 1
dos Soolaiasiišs 120»sitivos A enoeiiliaria pol_i_ti_ga__êLqi11
_...
Qi; queovçiçnal produza o bem. _
O preconceito é valorizado na monarquia.,Del1e
resulta uma sociedade que, se iespeita a lei, nao e pe a . -i 0 1

repressão externa, nem pela autodisciplina ou pe a con-


vicção de que é justo acatá-la. Ein SL1_1.l1šb.-11š!.,1_l1.9.1.l¿1L
~ haf um usof__sça_çb,iç;_,,Ç1,2_1_Ç]1,z1,1,l,_Q,__§|U@›
__quia f ' ' 1' .z. em
¢1}},,.1.,11.í¡š.L1lg..-¿‹_
'
republicana, seria' corigpçao. ~ '“ ° __Ç,_¿z___M__v_,____,,___,-..
la dá bons f_rtitoS_.,ltIl.2l
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. . . ,f . .I " """ ' 3-

_or1v11oe1o.Sz
ooo" ha ~~~"~~
doSiaialdadailia.-.ap.raariê‹.<¿@f>-Pzlzm
, - - ' " cia do
do que seria o bem publico. Mas isso e da essen
Iffigíme, e é usa o por e e para evitar males piores, (1116
estariam no arbítrio do rei, tornado déspota. E POI
1550 não é correto falar, aqui, em corrupção.

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O Inimigo da República (2): a Corrupção 45

.`
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Ç-OUÍUPÇÃQ
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5~ÔP0d€h21Vf:1”
E E
ÇOIIIQ nQI11e_+_______-
`4"` *Í
num re
zslms <_i~1s=a_ Vçsolaao noeaaraifâoaioma ragi-
Cafasffr ms seia s2a§_tsa21.asëifssamsaso ameaçada por eia É
5 É pMLÕxÇ,s¿_ã,Q,,al,tos. Nela o b e_rri_pe_s_
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soal é re_q_uisito_para
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produzir o bem social Indivi
-z--z-..-_: -.....-..-_.._,.,,...___.
nt àgua .dflê-ilmfiflffis. f§1'lhO,do,_&_g'lL,b€111aSQ._qi1§n1___,,atinge esse
/7 1'11VS_1..d¢ Ê_21Í1.Ê-l_lflt¿\ 6 C1d3dã0, 1121 república. OL1.,.in.versa-
J -11.1_Ê1lɧ-›-3-P»QH21S~--id0.S-.Cidadãos-se._p.,e.de....esse..p.atarnar_de.
,§O1}1pO§§§111ei1t9,_,,_Nã_ose exige isso das mulhere&,_€$-
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s.1"a.V9§z-§.s§raaao.í.ros o do todos os quo toräo uma cida- I


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çlgnia
A _ reduzi
_ da o u negadaiilEniiiioiúiiiiáêifllpalaligs, 9, f
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1_'sBúb1iC.a... š_o_-.1ío.‹sia1o'i'ElaÍé.ri.š3aÍaaf"oo1í£i'oa§¢¿'

A coRRUPçÃo A/×/T/GA
Há dois tipos de corrupção, na república, conforme
ela seja antiga ou moderna. Na república romana, fa-
lava-se ein corrupção dos costumes. Q¬,çi_da_dã_o_,roma-
no é o paterjamilias. O nome pai de fiiiifiilia nãojçquer
Qíílëf qhlšš¬ëÍ¿.ÍÊši.11b a..fillíQs; .s.ou síg.1í1ificad.o.é ..p.o1ítico-e
não biológico. Ele épocheçfe da_faiiií?lia,,_oçy_arã_o__ç_que
iiéláiiiiiafiiiidáišéiunfiimenino perder o pai e o aVó,_Q.O_d€
ê,lerá
i .°.pai.ÍÍ d.€.,.s.u a ,i11'z1§=I,.‹'zl_\?..O..,._t1.£)§...€

l)°Úf""7
ir§.1._ã.Q§z
.....¡¿.,, ie wianda. -i1a...C.asa..- .(l9_$_t_1;LI1121:SLe__dize1;.qi1.e_a
lei romana lhe confeijj_¿2}_.,Ç;_l,í,,1f<fê.í.lÊ.Q..21-.p.unir-e...até-.n1ata1;aS
--.\.-z.-.........-....¢-14-"°"'-"'-H' . Hu
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iz 9O mulheres a olo susl2s.>.1;d.1¿^â5?.<l,e.ãz.91ʧ¿119--e,.131§z..a..ssao.s.a«›


_ ,
W io ri as__1`_1.;11;1.ä.S.-,1.\i.ã.o..e..b..o131...1.§_$Q.-Ê.-P_1_Q.Iz-.l\l.o.rih.u.n1a..le1.lhe-.da
/=;, az zzzz " es.s..Ç....Ç.í_i.£¢iF.9z. p.Qrqizio..o..i1i
e.n1bro-da~o1da-
de e' ele 6 11210
"' 35 655021 s..._,.__._._._..-._.,_,_....._...
suas subor<3l1.11a.das..Elas...nao
São Cídadãs,o:nal...tem_i_deiíitidade..p.ublic.a_]2i.ii:ii.r-..qu.em
ipefzence a_s_u.a,ibiii.1ÍbÍa,.é,..d.ireito..prívado.,do..11aJ.er,,eiião
.i2Ê1.l2. 11L.<;.<.2.z. V*-

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46 A Repciblfca

O eixo do controle q u 6 o pater exerce sobre 05


seus passa pela moral. Uni homem que não contro 1 e
as mulheres que dele dependem é infame e será punj
do pelos magistrados que cuidam da moral. Essa mo-
ral nao é apenas sexual (a vitoriana será exagerada fz
centralmente sexual), mas ein parte o é. Discrição
autocontrole, contenção são alguns de seus termo;
principais.
E talvez em Roma que se elabora, ou se aprimo-
1

ra, um traço fundainental das sociedades mediterránicas,


1
L Cl ue ainda perdura ein alguina medida: a ideia de que
a inulher não tem honra própria, mas porta a honra -
ou desonra - do hoinein seu senhor. Violar ou des-
respeitar uma inulher se torna assim a melhor via para
infamar seu marido irinão ou pai. Quem perde a honra
7

não é ela, são eles.7 Daí que, ao se vingarem, eles às


vezes inatain tambem' a mulher que - mesmo se foi
' de veiculo
violentada - serviu ' '
para eles seiem deson-
rados.
' ' ` ntro/‹;l.€1
--É» Eortant0.__i1a.,-.ro.pL1l21_1Cê1_._%11'!flãfi›.O
~ ` Cê. a-
essoas serem
/if? "' são os. costumes . E piecisop as_” p ,_,,__,w,_,_,-
Corrupçaço
O
,:i,z1,,,ç__ decente_s_,_para- ` ^ ' '
que-i.líiaja-iepublica., N'
.isso,,,se,,inc1.L1í-21.
_ M-,
Ç0.1'1f€1'1çãO$Ç_,x_ual,çinas sobretudo a CflP_3C.íÊl.ël_dÊ;§l§_f.2b
zer Passar ob_e_m-.c.O.i11.L1.111. f.1í€flf¢ Cl0-PÊã§9.š1.1.z¬EV°q“€'
t ndo Roma cercada --
mos Múcio Cévola, que - es a
vai ao acampamento dos inimigos matar o genëfëll
deles. Erra e é preso. Vão executá-lo. Mas ele queima
O próprio braço numa chama, sem um gemido sequêl'
ti a pelo fracasso do
de dor, dizendo que assim o cas g
seu intento. Horrorizados, apavorados diante de gente
tao resoluta, os inimigos debandam.

7
S
Ohm esse mma' Ver R-.lflflifle Ribeiro, A Etiqueta no Antigo Regiiiie (São Pal-1103
Mfidsflsa. 1999)

l._

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O Inimigo da República (2): a Corrupção 47

Í? Não há PIOV3 doSSa histó.1'ia,iq11o talvezJ:ião_pas§.o_d§


mP~0l§aHfzo.-ë.§1u.o.io.1a...o.diio_o.d.ger.aç_õ_es.
do rom_ano.s-..n.a._c.o.r1xíação.rde,qu_e,owp_iÍ_i_bIico...passa
§._f£.ÊL'1tÊ_..<3lÊ..íi.Llêl.C11z1.¢.I.-Êl.Ç1.11ÇJ1IQpaiíticular. Como es-
cravos, mulheres e estrangeiros não sentem assim, é
obvio que não terão a dignidade de cidadão.
~o Çonfrastomos a oor.agom_.do Múcio .CévoIa-com
21 CÍOS oXë1'<;_i_f0§-..oriontais,-dos‹:Lit.os...p.o.r...M.ontesouio,u.
.nas Caiifas Persas.(loii1.l2.ra1Í!do..S§1?1£?.1;<?..¶E.¢._.¢16 Cxfigoffl
.om SU21S¿'¢fÊ1;ê_11§ias- ao- mundo-.i.s1.âi11io.o)..Ê.Qs_so1da.dÍ›§
dosLi1.fäoso.b.ato.1ii. até a o1orfo›-111as,.:-diz.-o1.o....a,a._<.:.a.r.t.a
89,,-ç s}l.€1 _\¿.alei1tia..não...é a de_ quem preza, a.$i.P.£ÓRL'Ã.Qz£
,sii_n_a__‹_:l_e_,q,ueiii se despreza. medo (ao sultão) pto_r_çna~;
do coragein (diante do inimigo). Não é o casoflddo
1*01mf10- Ã..¿.íi¿5Íäëii 5' sido 0?.féä1Í¿ã}Íl5Í.iÊã'.šii5Íd`á`.isÍoati:
do.sä.._$Qa_..\Ãi.da-
Daí, finalmente, que na república antiga a edu-
cação seja fundainental. Ninguém age - naturalmente
~ como Múcio. Pela natureza estamos mais perto da
conduta feminina.As mulheres são os seres mais natu-
rais. Querem satisfazer seus desejos. Desejam enfei- l

Í
tar-se, ter prazer. Precisam ser contidas - a fim de i

l
contermos nossa .
tendência
1
natural a ser como
'
elas.
'I '
_i§_ l
I
1

odooaoão do ¢.i.dadä.o..s.ora-i2.or1r1aooiatozools.oroP-É1Ioa
aiiálišéiiplcjldewfraçcassar. Não é uma educação, c_oi11.Q a
i5ddoÍoa› duo dosdo O 5”1.ílf”<> do Ro.os.soau (Eimle,.aa
`D"ãiliëí¿ia¿¿zciózi',` 1762) acred_ita(eii1 transformar. o sor hu-
11iiàn”o..ai:n.z1góiiâaê'1hóf`a osfavo1~asd:1£e_s.Ê.9.šbsãdaâ ›
l

dão antigo é interminável,,porque 11Ã0.hÂi 001.119 i


estabilizar seu produto.äO lioinein pode + sempre


` e c orrom,IÊ2,_,,_,,,_,.......¬-..
decair er-S6. ,Q: /5 j oíff.~í.»'r-f:_,,.`za ‹»:_-‹.¬..»~¿,‹
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- _,_( ___ ‹› .,:| E 4, _; Í .

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3Montesquieu, Ca rfas Persas (São Paulo: Pauliceia, 1991, trad. Renato Janine Ri- ,f
beiro). hp' aí hu rf f
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48 ARepúbIíca

A LIBERDADE PESSOAL

âfííâíríâârzísââiíârrtšazfšsizfe a
luçãd, muitos sonham com Roma mais talirrdifi a Revo*
Atenas. Mas isso não dura. E os Estados Uigidiiscom
antes deles a. Inglaterra monárquica, mas constitucidniill
haviam-se aberto para uma república de exigências 311:.
viadas -- como veremos com l\/Iandeville (no capítulo 6).
? f 'Í -É
-JP Benjamin Constant__(ql'7pd_(¶Z-_1p830), político liberal
.f
_
_
Í'
._
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f.!._`311C0'5Ell(š¿.2saCl.€iiÊt i1np.acto_nostécau_1o-l9,.q11.Ç._L1;71,í1 re-
publicano b rasi'l eiro
' foi batizado com
p q_ __seu nome, criticou
lu
1

p_1__m__m _'
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aqÍ1'eleͧ,i como Ílousseauq, que davam tallivmpüortanc GJs.


Antiguida_de__que nãoq coënsceguia111-.ve1:.as,_1:ea1.s.‹;:11:a‹;te11s.
ficas <íOS11OV0S f¢111P_0S. ESs¢.fø1_,ad1§§Ça,9,ǧ£ad..,...¬0S,fflaluz
cionários que quiseram 1“estau1'arua_s9§Êdad
ual a coletividade era tudo e o__i_n_dividuo, nada.
-af» Pai-as .ousa aiainziaos t- ¢>;P1ihÇas_š29c1aê§ê1at::¿1ibs>.1;f1.flrLe
111.21.ov.1:fâ_r1te§raccea
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¢aêcz_§1fi ff.r¿fâ1â¿Q¿1a,a_1a‹LQ
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@1ida<i.ä9at21C¢1afwv Sfl¢1"1fi<1fla1ff1c11¢atu.dQ.~ lYÂz.=1_$.¿19_â__.â.-c.P..a
1.110d@1"fl0S 21 Hb@1;Çl9.C1Çc-a_11s¢--Çamas é.ca..<í.Q.i11_Cli\f_í_€h_19zva1a¢
n ão aidi_i1iiúte;_se1fi111 ido pel0.510l§_Ii.Y.O..zÍ.!Ê1_§.9.l.Ê?EiYi£l3-
de para nóä É,_1.1111..peSo,,.u1n.fardo..Q_COc11}š.Í.Y..i.€?_I2.Ql.Í..llÇ.Q
e_1nes_1110-S-0;iaJ_s.eato_1;11.ou,t_cL1.m;2.§..0- AI11121__,_._.....»-»-10'~61101'
1'5`›<'3
_rn_emente a vida privada, como area de p Q
Q ômica, ço111o_te_111.p.Q..delazer..e-a§Q1110,.espaco..en1Á1L1-Ê
escolho os valores e fins mais p1'e_Ç1§)$ǧ)§J_Çl_<ÍM,IÍ1,§1_1_1;1,l1;='l.\.f.1*«ê1.~
1515SÉÍšfilíáiiiiifliiaisflcoisas_._ s_121f.i111.‹:.ía;o,....a.L1 _ ienm.
u1CI'1V¢111Í1_¢£1Ê¢a11.9âssac.lib.e.1:_da_d.e.:....í,nvsis_tin.d_o.;,co111.Q.,1.nzf
p.essom£s.cohmmhLmofiw9amL

'J B - .
F_ en-lanmlrçflllfifflllt, A Liberdade dosAr1t{ç‹1s Comparada à das Mfodcrfros (1319)-Emi
alosqfia Polmm n 2 1985

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O Inimigo da República (2): a Corrupção 49

nha religião, meu amor. Cada vez preciso dar menos


satís£ação_,_d1ss.Q.. -MaS..-_s.e. . 1_ss..Q. . I1>.. . . 21S_.S._2 H Constituír minha
_liberda__de, é porque se esvazia o alcance so1`al_d.as..es
® ' s sociedades ç -
g.ma religiao distinta
da.dQminan12fi,-fira.p.o.rque..pas.s.a3za..p.c1a..1;Ç.11g1ao...o...el.o
social, Qtlänílíl .L.L1'1'1,...b..L1.ií_S_E.8._.S.<=*_.a.l).S.t_é.:r1;1 de carne, um
muçulmano de vi11h___‹¿,¿__11_nj_ud§u de pg_r_c_:_o_,_ ele dá à sua
r_ehgi.êÍí.».o_..i.1.n1..alca.11c.e..-..hsf;1:1:1.-.1i11aí.9...12..._C1z0...qL1r:.11o,n1undo
leigo que a modernidade__c£i§tã_çmo¿1¿t_¿uju,
O que significa o casamento se tornar escolha
pessoal? A justificação romântica é que assim escolho
um cônjuge com o coração. l.\/las quer isso dizer que
eu seja mais feliz? Não é óbvio. O casamento como
contrato entre famílias tinha menor sentido sexual e
sentimental, mas seu alcance social fazia dele um es-
paço de maior satisfação pública. l\/lodernamente,
estamos condenados a buscar a realização, a felicidade,
no plano privado, quase íntimo. Perdemos a dimensão
pública e sofisticamos a particular, a pessoal. Não é
uma crítica; é uma constatação. Houve ganhos, mas
também custos, uns e outros enormes.
¿_\_.S_e_gu_nd_a.-_c,ons.e.qu.ência.._da. modernidade. ,é, ,as-
Coš~$.
§i_1a1__,.a.i'odu.ç.ã_o,. do.--es.P.fiço .púb1í<10z_T01f1'1Ç>1z1-_S§_.-êâ‹;.ía'L1.o.
Os COSfu1fi@S,t2.%1.§S21£=%P3z.._<1.<â§0.Ci21íS,.911-.-arL1i>=‹1íSaa..indi¬
Í '5- §íí“ÇlL121.iSz,-Si1rgí1z1 a. vida. PSí9L1íC.21 <_1.Ç>1f11Q. .¢a1.11p.o.. Ç_ada...v.e_z
X 11;iaio.1;-.de indagação.. dff P@fP1¢>sidad@› de -f:S.<;s21l1_21..O...;a,
1?/U,9M9» i,â.S9_ctQ.1;_11a _t1,1ƒ_=11,t§g3§1,_1_,‹i,11t.<i:_..:ê1b§ur¢1Q--.pensar ,em costumes
*U/›
_Ç9_T_£1..Q-.Í.í.ë!.<il9r@S. da-1'€pí1b1ÍC21,- Q1l2!,1'1do,,o, ,valor..básico_.éWo
Õrff/fl. da .re_al.i.Z,§¿1§,ã,_Q,,}2Ç_§§_Q§l,, __Ç_o111o-quein'1211;. a Ifnãø .Ou sacrificar
ê.§§.>.s}1@li€l@§lÊ F11z1.1fI1. ideal Søsíalitêa -99a§r.ário;..âe.z1guém
a‹_>¿_i2_â<2.1ê>1~1.â<;=.1;_¶£1.._í<11.<-1›>l ‹1a@.PaS$¢ por tais coaos,p,çs§,9ai,S,
provaremos gue só pode ser um fà|5Q_üi¿1¿ç¿L_çger¿dOr de
1'11.2Ll<'2S_.S<*11'11,.fiz1&§..ât_š..<.;l.›.Ç.ziQ_Ç..1Í1.€;á1S. E provaremos isso tão
bem quanto um antigo provaria o contrário

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5o ARepúblíca

A coRRuPçÁo oEsPoL/T/ZADA
Mas a ideia de corrupção dos costumes não desapa re-
~ceu de um momento para o outro'' provavelmenr e
passou por duas fases. Para os antigos, ela ameaçava a
república. Quando a França retoma uma república mais
proxima da romana, em 1792-3, a corrupção e seu
antônimo, a virtude, voltam à cena. l\/las isso dura p0u._
co. Dai a dois anos, Robespierre, o Incorruptível, é
deposto e guilhotinado. Na vitória dos moderados -
ou corruptos, como outros os veem -, é interessante
que as roupas femininas se tornem vaporosas e que
em flns da década de 1790 mulheres da sociedade até
exibam em público os seios nus.
Poucas sociedades se dispõem a pagar, pela repú-
blica, o preço da contenção dos costumes; talvez o últi-
mo movimento a fazê-lo tenha sido o Khmer Rouge,
que tomou o poder no Camboja em 1975 e chacinou
um terço da população, querendo purificá-la. A_lg'_1_1g§
1=.. @11'1_=-215- aämbliçanøfi» r¢.afíva<ío.s-..¢ia_ nossoadiaafflamaal
o__ _r,isç_p_jjd_eçç_resultar em crime con_tr_a íhumanidade,
Essa foi a primeira fase, tentando-se reciclar Roma
em Paris. l\/las não sumiu o tema da corrupção dos
costumes. Não deu certo articula-lo com a república,
mas ele ressurgiu,fortíssi1no, com os vitorianos. E cu-
rioso: Constant mostrou que não pagaríamos, pela re-
pública moderna, o sacrificio de nossa vida íntima.
Mas se pagou esse preço, pela monarquia moral da
rainha Vitória. A contenção dos costumes veio nã0
com a república, com o regime da autonomia ou dO
autogoverno, mas com o da heteronomia, do moralis-
mo, das reverências à realeza.
Nessa segunda fase, a corrupção tornou-se tema
exfiluslvainente moral. Sustentou, é claro, uma politica

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O Inimigo da República (2): a Corrupção 51

_ mas sustentou-a de maneira não clara e explicita, (zon-10


na republica romana, e sim implícita e índireta.Até pgr...
que a contenção dos costumes era apresentada não como
3 Cf31_'1d1Ça0 Para uma política (se quiserem ser livres
politicamente, abram mão da liberdade íntima), e sim
como a única conduta decente. No século 19, quando
alguns religiosos cristãos, chocados com o deboche se-
xual dos polinésios, procuraram ensinar-lhes um modo
tido como decente de ter relações sexuais (o papai-
-mamãe, como chamamos, ou a missionaryposition, como
ficou conhecido em inglés), o que faziam era transmitir
essa moral única para toda a humanidade.A política -
no caso, a destruição de uma cultura em proveito da
ocidental - vinha a reboque, discreta, escondida.
Enfim: a contenção e a corrupção dos costumes
deixaram de ser tema explicitamente político e essen-
cialmente republicano. Ocultaram a dimensão políti-
ca e favoreceram a opressão. Nossos políticos da
RepúblicaVelha podiam ler Cícero e reprimir as mu-
lheres de sua família: com isso nada efetuavam de re-
publicano. Temas romanos podiam ser repetidos, mas
tinham-se tornado vitorianos.

NOSSO PROBLEMA

A corrupção continua, porém, sendo um tema repu-


blicano - só que com outro sentido, outro conteúdo.
Ela ainda é o grande perigo para a república. Como
esta valoriza o bem comum, todo desvio dele para o
particular a ameaça. Mas nossa ideia de corrupçao e
mais fraca que a antiga.
Chamamos de corrupção o furto do patrimônio
público. Ora, isso faz esquecer que o bem público tem

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52 A República

natureza distinta do bem particular ou da propriedade


privada. Muitos se referem ao Estado como se fosse
equivalente a um indivíduo ou empresa. Com isso,
ficam na perspectiva patrimonialista, cujos problemas
vimos no capítulo anterior.
-l> U.1a1a_,saída -_pa1fa ia... 12QL1.Ça_-imp_.Qr1:.â1í1_cia,__hoj_é,_d_o
1:.m_.=1‹11a._.‹_:.o.rri-.1i2.Ç.ã.Q.-..ssria.-aP.9s_tar-1í1a..-s-êí_11.ca.‹;.ã.a.iD_i.i:í.af
'@.a_<;.Qt1f..L1p§ã,o..amsa.Ça ar_ap.ú.b_1iÇa,.1:;1as..não-sa--ras.u¢
m_a_ao..£ars,o-ds dittshsifs Público-Q_-§,srr11Ps0 i,1'131aâ;. .‹1«s
a.a.a_a.ssadíahsí_1“0-VáPia1faiaiiš"aiiÍ1'¿Íë,ilia aducašiãöílió trans..-
11.>. .<2..1ã§.<2z__s>.- sssi1'11 Pfsduz fiíoffsš íslíöfäflisísizisfiiííss sm
.‹;a.s..‹;.at_az.-bfl.sis ass tsd<>= Psfsarba..o-a1osQ.cia1 bâsiw
q_u\eHçéWaç_ confiança no outro. ,,Quem_ar1d.a. .potrznossas
rua.s..-‹;‹;zrn..1:aa_s:1‹;_..atsds. criamas--pfiissaasaâdaP.0is-ss
@.âP.š!1Í1E§- 09111 . 3. §l@SC0flf1'.%ÇãO_ .<í€=-IS...P.¢.§.s9.a§-._§;11_._Qy.t_ro.s
1â.as.ss.-i>.<>s1s ssstil' O Pfsss .aus Ptsaaflaas. 1a<›f.aäO si-
gernios numa república - por termosççumhregimçe que
épepuçblicanio só de nome.
...sm A saída educativa é indispensâV€l_.__.MaS,§.@._>šlg§
<hz.1;_.sll,_s§li1s.aÇä0 dos Costumes fl1fissI1Pi<10.dissinfQ-do
q_u_gte,ve-,no antigo pensamento republicano. N_ão,,se
t,rata_,,n1_ais_de conter a sexualidade, de pçrom_çover__açcasti-
d__ad_Je__e_,a, discrição. Os costumes viáveis, a educação de-
saí. áY.s. 1.-..s.1'H-..1f.¿s>.ss<>.. fsmiss têm.-.§ís.£_€.9..fÊl3..1IÊ:Élíëa.Çãa
Lssal Ssrá..ass.šisösssílííissf sssa P¶fai11<2s.ä.f?.£1._s-s.i sam
o-respe.íto_dev_ido ao .QL1C1'0- E 56125 11<'1'C@S_Sí11fí_0› Iílaísílue
tado, -racap¢rar;;9_1Lr.<âi.arsa,ta£ :...a_.i<.is.ia..~2l.s.,aa§...hai.a
a1a9¿<_>.§st>.a.‹;s.>._.s2..Q.1.'.4_11~1.1í1.1 a .fa<Il9s,,_§1\~1.s--,s siëz1?lãí.S-§l.9.-91z1§
1L1'1 §_í__m_Qes arremedo social da propriedgdg}Q_[i§f,ë__Ç1.ê.-

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ó. A REPÚBUCA FAcu_|TADA
MANDEVILLE

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l uanto mais o regime se aproximar da re-
i
! l publica antiga, mais dificil será para o ho-
v-_. _¿ _¬,.¡ _ i

i mein moderno. O século 18 acertou ao


A ç ii l entender a república como regime do pas-
sado ou da exceção - mas era que com isso ele enten-
dia uma república diferente da nossa e inodelada na
roinana. Esta, siin, é iinpossível ein nossos tempos. Mas
Bernard Mandeville (1ó70?-1733), médico holandês
radicado na Inglaterra, inata a charada da política e,
mais que isso, da sociedade modernas. Um século mais
tarde Benjamin Constant falará da diferença entre a
liberdade antiga e a moderna. Mas Mandeville ja tinha
apontado o rumo que a sociedade capitalista tomaria.
An¬tes¬iide; C.os_ta,_1,it__,,t__eijdforinulado .- . seu .diagíló-S1l1«Cs0¬›
Mandeyille já tinha receitado o_ç}'Ç111ë.dís0.
Entre Í7ÕÊiMé"i"li72`Êi,iii/láiiideville escreve e rees-
creve um poema, a Fábula das /šlbelhas,l“ ao qual 381-'€"
ga uma série de notas. Na fábula, uma sociedade de
patifes se regenera, mas isso causa inúmeros proble-

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A República Facilitada:Maudeville 55

mas. Ele explica por qué: a desonestidade é motor do


avanço econômico. Um ladrão que roube um obeso
monge, por exeinplo, põe em circulação dinheiro
entesourado, paralisado, estéril.
ÂganâncíäÉPÊÇš1£lQ,lVla.S,,-Se_Ça.d_a...uni.de__i1ó__s_,fo_i_~
géiflaílãl°§Q›-líÊ1Í1Ê211Tá...g&1Í1l1š11' mais, f eo mellioi:meio_para
isso. ëVs.115;1.s§.ii1.ais-.baraw que O oumo que _n0._p1zifi0
_m_ora.l_é_v_ício,-.e-.no-religioso é pecado s-asaavidez.-., pode
se_`ç_o_i_i_ve_if_t_eií ein vantagem para a sociedade. Por isso, o
subtítulo da Fábula é “Vícios privados,beneficios
_ Z./___ 5, 1,__..,¬..i:.,_:.....-.;- . _ A ' . 1

.b11C0S A. l4.Y1_Ê,_C0í1CQ.1.1e11¢1a, O me_rcad.o--.ca.pi.ta isfa, a


expaiisãojeçcçonóiiiica que o capital vai promover, sem,
pgeçegdeiiqtes na história, tudo isso tem uma ,base fçclizç
Maiideyille â- contrária à inoral vigente. Mas essa riãoié
uma ía1lia.-.1s.ei11.. uma 1“sZä<> Para s<›_flsis1i.ai2.a _s_9Çíe._<1aae
ein que viveijno_s.Ao. contrário, .sendo..a~-morialitão- difi-
_Ç_í.l.z_O_À..1t.()1;.da-._l-.iálmla mostra que podeinos ter um_a_vid__a
socialpçositiva,.vaiitajosa, sem pagar preÇ0- tão..alto..
São dois os grandes exemplos de Mandeville. O
primeiro, na nota G ã Fábula, é o da livre concorrên-
cia. O segundo, na nota I-I, é o da prostituição em
Amsterdã. Esse porto é governado pelos calvinistas,
que são severos ein matéria inoral - mas toleram a
prostituicão, para evitar que inarinheiros, privados de
sexo há meses, ataquein as virgens e dainas de boa
familia. O exemplo é engraçado, irônico. Mandeville
poderia ser um inoralista, desinascarando a falsa
inoralidade dos magistrados calvinistas, ein nome de
uma moral mais coerente e exigente.
Mas a novidade de Mandeville é que ele não faz
isso. C oncorda com a ação dos calvinistas, que a um

"`U»Í›l Bernard Mandeville, The Fable qftlic Bccs (Harmondsworth: Penguiii, 1970). Não
conheço tradução em português desse título.

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_¬__"

56 A República

bem pequeno e aparente preferem um bem maior. Só


que com isso el e reduz o alcance da propria
' ' moral,
em nome de algo mais abrangente.
i1a£ë2_.i.1'.1._d.1.Sí;!.Çí..L1Q,_.1.11as. -_1í1ã.0 na...e.si;a1a.,sQeial.._Çom mo
re
...._-lu 8..ar P ara - a“in"'
._ _., ¢..._.
` "` ”
- ao inxlsivel
.--_ _-.- '... do...ii __ei:e_aci_o_, de
--¬ --- -- - _ _ _ _ _

au_e.ii1ais--taide._-íalaifáiädalii Smith: a ideia de que-I'


p.ara-ale..ai._d.e..iiQ.sâa.s..inien<;ê_esz. s_9.ii.s.§iÊ12.<.3i_a-s deh`b__._.eiaz
s.äe..:. .<.>. i.<.>.e_s>. das fa1'sas sssliôsiisss ss .asisrfasuii.
5_i1..1.i.E1?..z.t29te_1i1.,fa1'á .celieessões ii fsiišiiãoíquelijiap api-
i;e_c,e_i;n.i1o.i1;ono.clasta.Ma.ndev.i.lle. WW
Qçnprincipàal alvo de Mandeville é ça moralidade
cristã,,desenvolvida ao longo da Idade Média..No seu
século 18 ideais re ublicanos circulam mas não são o
<¿i2£>..11iais.i111P.01tsa Para ele- Ceistude. o-imp.o.r.ta.1iieaq.ui
éwque Mandeville torne inútil, ou inipo.ssível,.reati.var
_o_¿,v:a_l,oíiƒ_ií;jsiigiregos ou romanços -f que naquela,,épo,ca
p¿r_eç_i__a›niñ__s_eijç ar condição, para ter um. E.S.t_ado.J;epubli.-
cano. ou deinocrático.
Pode então haver uma sociedade -çcuj_açfornia1
p,Q_l_iti_ç_,g_t_,_l§,{l,an_d,eville não se preocupa ein delin_ear_ç,-__
semQ.ÇJa.stQ-1ia0ra1. dos romanos- E111- i¿e..ë_._§l§__1Y1_Ê1_§i§..>
Carola. eu._.ds---B.fasss› 0.-1i1¢fQ.iHfsfsSS@ Ê?.99.§i1ÉE9
d.e3/.e...S.L.1.§te.ntar-as. relações- sociais. Não émprecisotanta
fo_rç_a_`d__e _vQ_n_tade, tanta abnegação, tanta renúncia ags
p1i>p1?__i,_Q§,,p.ara existir uina boa sociedâÍc,l_Ê:_:_1f}~Q
contrário;a_-..boa-sociedade- depende de ,iiitens_i_f1,Ça____1'- I I

rI1.0,s_ ngssoflçegoísiiio e mesmo nossos vicios.

o LUGAR DA ÉT/CA
âflslmi um problema se desenha.Terminamos o capí-
. _ O _ant@1'1Or
' ,._,
falando na corrupçao, como o grande
O 1-' . .
Ê republica. Do que dissemos, decorre que 21

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A Republica Facilitada:Maudeville 57

república é o regime mais ético que há. Quando ela


renasce, em fins do século 18, seja na forma nO1~te_
-americana, estável desde então se`a
mais turbulenta, vein referida ã tiiiadiiçaãõraaliiiiigãi iiííiii
diz .que na republica somos livres, mas que isso exige
muito de nos.
Ora, antes mesmo das duas grandes revoluções,
americana e francesa, Mandeville já propunha o que
se pode chamar de uma cidadania facilitada. E depois
delas Benjamin Constant explicará, em 1819, que não
há como voltar à cidadania antiga, com todos na praça
como ein Atenas, ou com as figuras exemplares de
abnegação, como em Roina. Qual é, então, o lugar da
ética nesse contexto?

"¬- ..-n-"-
._
R_es__u_i_ni,ndo,,a questão: a república pé oq regime
pg_i'__e_xceléncia da ética na política. O respeito ã res
F
l
que cada um de nós deve tratar o bem

qoiiiuiii coino sagrado. Deve até dar a vida pela pátria.


E/J
Qilalipiói' o coletivo à frente do indivíduo,_osvalore
l"h¢»-_._._*
,._,_

2_L<;Í.111.áiidióislini_tei:esses e desejos, implica uma intenã


mgi(aliz,ação_ da vida humana
Mas isso é inviável numa sociedade como a mo-
derna. Podemos explicar essa inviabilidade pelo capi-
talismo. Este eniaiicipa o einpreeiidedor das tutelas
religiosas, morais e mesmo políticas. O lucro, e não
mais o bem inoral, se torna o motor de sua açao. E
claro que para isso funcionar é preciso que o Estado
controle a economia - o que acontece ate nas socie-
dades mais liberais, mais adeptas do laissez-faire - de
modo a canalizar a energia do empresario ou empre-
endedor para longe do crime e para dentro da econo-
mia legal. Mas, construído esse quadro de instituições,
o sistema funciona. E sua maior qualidade é que, para
ele dar certo, não se precisa apostar na bondade, e sim
no interesse: o Estado e a sociedade controlam as ações

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5s A República

e os sujeitos bem menos do que se a condição fosse 3


renúncia ã vantagem pessoal.
Ou podemos explicar o mesmo fenômeno pelo
processo de individuação que ocorre na modernida-
de.A pessoa se liberta das tutelas grupais, tradicionais,
externas, e desenvolve cada vez mais matizes próprios,
numa combinação de traços que será apenas sua. A
realização pessoal se torna um valor, um fim funda-
mental. já vimos que isso muda o estatuto do sexo.
Renunciar a ele era decisivo, na moralidade vitoriana.
Hoje, porém, essa renúncia não faz sentido. Dificil-
mente conseguiríainos acreditar que ela pudesse ter
efeitos positivos, adestrando o caráter: nossa atenção
está toda voltada para seus maus efeitos, como as his-
terias relatadas por Freud - também ele, por sinal, co-
inecando suas pesquisas em plena era vitoriana.
As duas explicações se complementam. Goste-
mos ou não do capitalismo, ele propiciou uma eman-
cipação sem precedentes do indivíduo, o surgimento
de uma nova autonomia da pessoa (de auto, sí própriO-.-
e nomos, lei: autônomo é quem legisla por e para si
proprio). I _ _
Mas o que importa e que a renuncia deixa de ser
o grande valor. Tanto faz que seja a renuncia crista e
medieval, que serviu sobretudo às monarquias, ou a
renúncia republicana, que fundaria novos regimes. E,
reduzindo-se a renúncia, diminui
. . , . o ,. alcance- da etica.
Ela se torna secundária. Prioritario e o desejo,
” a rea d1-
zação pessoal.Aí está o fim de nossas açoes, a meta e
nossas vidas. A ética entra para tratar dos meios para
nossa realização: ela condena uns, aprova outros. Mas,
mesmo que respeitemos escrupulosainente os ineios,
os fins serão mais importantes do que eles.Até p0d€-
mos sugerir que a ética assume em nosso tempo um
W301' Cada vez mais negativo (como aliás já se expressa-

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A República Facilítada:Mandevílle 59

va nos Mandamentos, que começavam por“l\lão. _ . ”).


Ela diz quais ações não devemos praticar. Pouco indi-
ca o que devemos fazer, ou ser.
'Concluindo: aparece, na Revolução Francesa e
depois na Russa, o projeto de uma cidadania intensa-
mente participativa, ativa.Todos iriam às assembleias,
todos atuariain na vida política. Essa ênfase teve in-
tenso desdobramento ético. Por isso a moralização
jacobina e a bolchevista estiveram entre as mais exi-
gentes, nos últimos 2OO anos.Julgava-se não só a ação
política de cada um, mas sua vida pessoal, para ver se a
pessoa correspondia ou não aos elevados padrões éti-
cos que inaugurariam a era da justiça.
Mas isso não se realizou. Dos jacobinos ficou a
lembrança do Terror, e dos Estados comunistas uma
série de fracassos e até horrores. Os regimes que nes-
tes anos deram espaço ã liberdade devem algo aos
jacobinos e aos bolchevistas, mas talvez devam mais a
terein tomado um outro rumo. Por isso discutir a re-
pública, hoje, é entender como pôde renascer uma
forma de governo morta havia quase dois milenios -
uma forma de governo que promove eleiçoes e separa
o bem público da pessoa do governante -, mas com
uma participação do povo bem menor do que haveria
em Atenas e uma entrega de si bem inferior a que
ocorreria em Roma.

UMA CHAVE

Voltemos a Montesquieu. ParaC2ldE1-L1111.d.0.s_trésig.o.-


zzerrmeleó.iszi11aLi@._a_i1aiareza.Çapfiflflípía-_.A ww-
zezzz ea.¢e.scr.iç_ão..d_e_âuaS i11S.ti9¿í_Ç.Õ.¢_Sz_ Q .i21iíH§Ê2í0 É 8
paixão quçeçççoniorvçiniçeçntçaç, Assim, a monarquia é o go-

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60 A República

verno de um só, mas temperado por leis e contido pm


instituiçoes, enquanto o despotismo é p ggvfi-mo de
um so, porem sem leis nem contenção. E essa a nature-
za desses dois governos.
Mas só entenderemos como eles funcionam ou
o que lhes dá vida se lembrarmos que o princípio da
monarquia é a honra, e o do despotismo o medo. É
porque os súditos temem o sultão que há despotismo.
já a monarquia existe porque alguns súditos do rei,
pelo menos, valorizam a honra mais que a vida. Final-
mente, o principio da república é a virtude - que exi-
ge colocar o bem comum acima do particular.
Ora, se ça, ijepública- era impossível-«no-.tempo._de
Mlúoçiitçesçquieii, isso se devia a seu .princípio _.e-nã0,_a_.s.ua
.a‹af11fe2a~ Um Hwfieffle nãoaceitaráriXe1;1ia_ririu.de.
A__saida,eiitão, é achar um novo princíphioçparaçça,repú-
blica.
os que acontecei'á;,çuma repúbliegde_u2}fL}f§§,ë
4'
l
I

u_nl,p,_Qiico modificada (o exercício de se_L1..p_0.Cle.r_Será


|

--«_-z

;;e,p,rç_s,e,ntativo e não mais direto), teiid_o_pQ§,ç,Q¿113§ÍP¿Q


zrlgpmqufie leinbra o princípio da monarquia. Algo que
le.u1bJ;a..pQrqiie não mais a honra. çl\lç),_i1__]._1_._1,1ç'}_§zlnQ__ÇJ_L_1Ê__ff1_;z*f-,»?`_Ç.?.7
ra sui-ge,,o_.p_1tí1í1eípíoç é o interesse beni.conipre.end1d0-
N
E a honra_deSde.nhava..-o intere.S.S_¢-
1

Ji
“Ê MHS, d¢SC.1'e.Ye_11Ç10._aolionra,flM-0flÉ@5qU~1@u'df5Êe
n
i
tratar-se de uma pçrincípio errado que, POÍCW-› dava» Q;-17
ines1Êe§H1';adoS.,-E_âtaié,a..Ç1a.aye.z C01110 f2261? 0 .errado
dal' <_1_€fÊQ.Ê.. Q.ii1.1.1Q.Iël. geraçr nioralidade? ,Essa le- eX21Í3"
-hu-=In-¡|nø-u›¬.-_

\ mente, seplçlyloiiteçsq,iii,eu_,,Q,_perceb er,_2_S_O_1.1_l_<;ã9..-d~€


Man_deville: vícios privados, beiieficiços piÍ1,l_;)_li:Ç9__S_zS..llb5'
Iíwa-Seê.r5.ÇaÍ1ÍasZiÊa.Jí.2zzZi‹a__p_5`i.EzÍiÊrésšc. Oii .1:1ae.$..1i.1.1.9-£c1
fffl1-e.íS-.a-.s.aída. *-ff' as o'1'‹1:'*5r~f'*f¿f>F»s c-= ~'=~ _s‹›i" ff*'ff*°í
n,0d;f§¡§§I§¿S..§ epf1b1iç_,a,.¿â1.9ç1¿âi,‹,zrz.âa..i×/ias.S@¢ia,f‹a
,ão ,~¿,,-¿§¿¿¿ät_E;1'&aueievdouaçfâ.çé›r-c1_«â:_.1;1i-.›SSziazie__
ie ~ se -P ~- ¬“BOS°¬b@mPy1b11e0.-Sep=1rafld0:.»Q

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A República Facílítada:ManclevíÍÍc 61

da propriedade ou do patrimônio privadqo__s_,fliji'i_as ofifa-


remos por motivaç,ãoidiferenitéd§__a_un__içi;_a__i_3_t,ig_c¿_;`a_p,á¢
aa§zharei2§Êm¶@¿@sei0§
Parti,¢u1.ar<ëSf-E_.i.$§.9-§.Q91P.li.9.a..1a.9.e_a.a.r1iézílis.@ad..<>re...~aí1.a.1.e
dQ. -au_ǧgi>.zei;11Q-e.id.Q.b-e111 Ç9.I11L1I£1.-

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7. A REPÚBUCA Possí\/EL

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1,111:-I___1_-n-r f f T f f¡z__,__.

i té aqui foi enfatizada a oposição entre um


i
| l

1 A ideal antigo, do bem comum, e uma prática


Ê: i moderna -- que não é só política, mas tem
Í ss base em nosso próprio modo de ser, em nossa
formação social e psíquica - voltada para o egoísmo, oii
melhor, bem melhor, para a realização pessoal. O confli-
to entre esses dois aspectos é forte, mas não nos impede
de lutar por sua síntese, ainda que - sempre - precária. E
o que vamos procurar, agora, nas páginas que faltam.
doísçütiposçgle,regiiiie.eni-que.se..i.n.tensifi.Ç.§1__21
ética- PfÍ11?@_Í}ÍQ›..11_l23.iSÍiíeqiiente i1a.-história,.oscila_e.IjL-
He 8 fe9Cr¢1Cifl__s,2!.lalaliaraiiia.1iaada-à.r¢.1iaiã0- Eâsereaif
1Ç11€+1}_Qj e_S_e_toriiou exceção. out,i*o__QpO-e a rep.í1l31íÇ.21,
QUÊ 2}€;!e§1i1;êi 62.1111-. ÊʧͿíiiár_de.cente.o_.iiiui1d.Q__en1..C1i1e.Jciif..e:
m9i ¶_ medo a Deus ou subserv;i_Ê_1'l_Ç_Í‹Íf=1-.‹'-:1_<__2_.,.1É$Ê.Í.z›
Q-il ”-1?-Ç-1-*l-@1LLCQfii§.i<ÃiíiÃliÍ1¡iÍa.'éFi5.i@ f.Liii1aiêti.Í¿à-iQue *não ap95*
'ia 'mam 5Ê...Ê.f.!.'.1;1.,,__§.21,§,_§igos ou recompensas. A realizaçäe
11a.te,qral desse re ` i '"Hmi'WiíFii¬wii IWFW Em
Magritte ›- .ë._._1.L1'_}}_ÍÊ_: que e O republicano - s021_<l_1ʧ,,Ç_fl›
...I1a_o quer (1126,. ¬-~-¬¬-»--»~~s-~--~s~»~- ~ ~ 'P
-- « --- m11a.Ie1f1Ifl1-f-

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A República Possivel 65

E, se a república - e a democracia - modernas


soam diminuídas em face de Roma ou Atenas, pelo
menos hoje afetam uma proporção sem precedentes da
humanidade. Entre um terço e metade do gênero hu-
mano vive em Estados que pregam o respeito ã coisa
pública, lema republicano, e a igualdade dos cidadãos,
tema democrático. Mesmo quando isso não passa de
palavras, estas acabam servindo para criticar a prepotência
e a mentira.A prazo médio ou longo, as coisas mudam.

O ESTADO DE DIREITO
o

A i;e_públi_c_auestá associada ao direito. A modernid_a_de


_empolitica constrói duas grandes obras. Uma é a de-
niocisaciiãífii outra, mais antiga, avançando desde a
é o Estado de direito - ou seja, a ideia de
1

Qbedeceriãç e não ao arbítrio do poderoso. Em tese,


Q; Estado_deq_dii*eito não precisa ser democrático.-.Uma
a___i:i_s_t_9___ç,,_ra,ç_ia, de magistrados honestos -poderia aplicaij
i1i1Pereía1111eiite.a lei. . Q.-<iu.e.$.e §11eI1le.-.e- i11.1P.e.1íí.0 da
leízflile- 9.f-l¶1zf.%-.M.e§.-e.SSe e.Qiisag1'aeä0 dê1.1.ei. aei1i1a..d.os
interessesi2a1~r.i‹:ulai°es-j.á-Sie11ifie.e-- aee ...e1.e-.e. eeíS§1--i>.i1z-
blieaeaäQP1ííYe<í.e.¬-Há-.eí e. i>.1:iaeíiví.Q ç rei>i1.b1i.e=1ne-¬d=z1
ptiQ-1i,í§1_ë1.d.e..eQ11fe.ifiída...ã..rcs pieiblífa.
-Ií`1* Ççoiituçdo, para promover a coisa pública, é iij_n_-
janijndfielu que opróprio público a controle. Ele não
pode seuiqsuólõè_l§çfiieffi:çiiíáii'iió,it,eiii ser o responsável,
Ó C r .--C011f1e11..11H- b.0.nd.ade dos
%L1.1;9_1;_Çl..9_-lI.>_e111.. ---Q.1.n.i i_1.1i
/2.?
I/ /' 1 .H if*/l
me eee baste-..U!P.e.rePÊ.b1iae.asisteeráríca ren-
¡i?`; :as
( ,' ¡f~¬¬›ƒ___,b)
Mee
e Se ee .<¿§.e1;.VeJef§e 23 ReVe.1uÇã0 Francesa Nós
¡'
P.
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.-\¬
.'.¡'
-1
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em->i-<1ue..a...PÃe§.Ê<íe1D›. <.1'.~1@.1"!?. 1.1.Í.%%?~íS enfrenta .0 arbítrio
ç._b_ ,
.__ HUÀLS.
%.§š.1.9...£§.S..Jlz1.%Z.¢.S_-¿° .Perlaniente de Paris.que z aP esa1'
l __o_¶_no_ine,
-_....._ e um
- tribunal. e ,A210 .uma,assembleia
' eleita
~

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-u

66 A República

E.les_.a.s.s.i1í1.ain.do.e.1.1_1.iH...e.11..Ç.0.S..s;..o,raj9,
.iâ. niz.â.ê. .e.9aas1._e.i 9.s19.i>.â=&.£e O país
“"'p 5 ._d._QÍ5.3nÔiiš:.PJ<'3;li-ëidllll, Sem terem muâ É
aziâazaaiaipzSam.a.aP.a..aa~isz.. aizíapâa
mais C0n5€fVë_.<Ê10.Í_ͧzE...Ên}_ 9.Q.jÂʧtá
evidenteãúiíeíša
‹1.1.efe_.i1d.e.1.1i..ê.e.i1..s prirílégiQs,nsrarg§§g`_{§p
úe/« l2É.3..1lš1.lfl.<i3.é¡.1...0.1»1..C.0111pIa).,..a._p.o.siçã.0...die_.int,e__r,locutores des-
ft "=:~":r'(R`
H-v
I
.J ' al ¡"I
iii; j-,Í
feeedefi de rei, de. 1íeP1:eSentê1.n.te.S 1í1ãQ;e1eiÍSÊ㧚E›Êi§Ã
3 W
`
1'

dada A fllfidíflël (1113. ¿U1T1€flta( a liberdade de expressao


e, organização, asociedade passa a falar por si a orga
-- ------ _. __..- . .__ _ ..._ ....- ..-, ..,,.,.................,,__._____ ______~__“_2*“_`_fl-ça _-._

nizar-se, e não__que_r mais a casta de juizes como seu


porta,-voz e tutor. Para que sacudir a tutela do rei e
cair na do udiciário?A república, como coisa publica
§_¿'›__pQ_d_e”a_dequadamelntel resultar "dei eleições.ÍÊla ne-
cessçifça democracia. /~'~ ~ A

CANALIZAR A ENERGIA PRIVADA

Nossa república precisará dispensar os cidadãos de serem


intensamente virtuosos. Mas o interesse não basta como
` ' Uma sai'da é construir ins-
solução, porque ele privatiza.
tituições que canalizem o interesse - agora “bem com-
preendido”, de longo prazo - em direções socialmente
p ositivas . Por isso, a modernidade vai privilegiar o que na
política é instituição, mais do que a ação política.
Quando destacamos a ação política, o modelo doré
O Príncipe, de Maquiavel (1469-1527). O pensa
florentino concebeu um príncipe capaz de enfrentar
äfuaçõef difíceis ' e modela-las
' , segundo a sua von tade.
. ¬.
Viríšíâlgílrëg dessa vontade eo que ele chama de viria,
nem ne; repuläiëentido classico das virtudes em geral,
cidade de alguénelnto da abnegaçao - mas no da capa..
Omar as redeas do destino de seu

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A República Possivel 67

Estado. Esta assim, no eixo da política de Maquiavel, o


heroismo do governante, do estadista, do guerreiro.
“'57” Àâllštë .Y.e.111;eiíl£e.i<;l;.1_p_olí1;ic.a_1;11o.deLna_é_a_da_ia.s_-
fí¿fí§í9zDa1viê1-.I:1J4ia1e.(1vZ.1.l:7e)-.e.unade .S.euâ..<asi>..s>..e.1.i‹
PÉS: <?°1?Side£e.11e9.e 12e1i1¬ze1.11 i>e1z1_c.o ai>f.<›za<›.-h‹=:r<›isrr1‹>z
911€.. ÂPQSFQ. ÊL1.C_1Q..-11.21.-21Çã.0z- ele-. p.ergunta_.-q.u.e. ..Cí‹1.11ë!Â.S. .C
i.1Í1_5tituí..Q õÊ5...PQ.dÊ1Íl'l_..S€IfYi.1`...P_Ê!lÍ3._ q1.1e_ ,_()_, ,,eg_0_Í5_n1_Q_r__e_§
em b_.e111..<19.i11.Li1fi1,.apreguiçaem .dísciplíiiaz-rem.s.iima,
gyçdohoç que vimos em Mandeville.
s Y As.âí.iai.-.Se A ação vei Ser @>¢¢@iflfiaa.al.-a-iastitaicãeyai
ser a 1i¿_qp_ii_çi_,da política moderna. Nosso .problema_é
coino___çpn_struir instituições -.que.. protej am-.e-.promo.-
\.¡ê_1L1.z=L-.Ç;.Q.i.sa pública.
Não é preciso repetir o que já foi dito sobre
Mandeville. Ninguém teve tanto sucesso quanto o capi-
talismo, na tradução de impulsos privados, mesmo vicio-
sos, em benefícios públicos. Mas essa marca de origem
não impede que sociedades democráticas de outro perfil
se inspifém no mundo que o capital abriu.A_s_s_im Como
Q___ç_i__i_-_i_.1_§gi_ão, sabe-se desde Freud, sacia de.modo-socialz
n1e_nte_,aceitável e mesmo elogiável impulsos que,.emseu
peilie, são até sádicos e homicidas, um dos principaisƒse-
gredos do Estado moderno está ein aproveitarçnao so as
alidades humanas,
QE____. . . mas também os seus defeitos,
,_ --ê-‹ Çoiiustruilrwinstiituições é isto: _ein_ve_z_»_d_e__gp___‹)_§_t_2_1,§
Cefti mflmimiidi "lWl'da“ricoiii ele como e e
.
-.i
~.-c-rc. Hum he.m.em.be111e1 63-? 1 . .. I
daí, sabio traballio de engenharia politica, ge-
? u-igriáiisociedade ..._....-
Ilã.__________,_.._............-.......-.-..... mais.A justa,
a . A melhor.
~s Isso significa
l§OI.`I12lI` O C1'lI'I1€ 1112111 I1€gOClO 6, 210. 1'I'lÇ'S1'ç1'10,çl_Í€_1'1',lpO,_p1l`O.-
saídasipara as tensões que se expressüariaiin
nele. .Um exemplo bastante simples e, ao mesrno,tern;-
šoüqueise repriméá graÍit'agem,,ofereÇe12_,1f1”11l1fQ$_É3..P..Q1í+z
gas para os_grafiteiros decorarenijçççpoijiiprsçç,esta fazendo
espontaneamente, desdemo a_i§io,_(2_Q,_Q,O,(,i1__Q_baíIIo.._p.aulis-
tan.o_c1.Q..Brá.$.z §.ií¿ÍleHFíÍí§a.r nQY.<.>§..<.â1.ÊS€i°S @› em lee..de

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68 A República

eixar ue eles pei;t_u1;bem o


- __-_`_"""""-I-I-I*-fi-u-i
rir canais para
que o enriqueçam.

O VERDADEIRO INTERESSE

Isso significa reconhecer o que é o interesse bem com-


preencliclo. Esse termo, que será utilizado porTocqueville,
ja esta pressuposto nos filósofos políticos dos séculos
17 e 18.Todos eles contrastam uma situação de degra-
dação política, que seria a atual, e uma condição de
equilíbrio, paz ou justiça. A passagem da degradação
ao Estado, digamos, ideal exige - entre outras coisas -
que os homens compreendam qual é seu verdadeiro
interesse. As vezes, a passagem está mais nessa com-
preensão e aceitação do que na criação de novas insti-
tuições: não se trata tanto de modificar o Estado, mas
nosso modo de vivé-lo.
---¬-5* O verdadeiro interesse não está na predação,no.s
if
fz'
'J
lu_ç_ros(de_çcurto prazo, porém num cálculo de longo
. ,ç .

I .f
t_§_-:£¿_i_i;t_:›_,_queç nos faz perder certas vantagens _iineçliatas,
I _ -.,.-"'./'_ _

DI
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m.as_..,co_i1equÍis.§a,rí eistabilidade. Bem coiiipreendido, .o
-_.
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I]
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*Ir

mt.er.ess..‹;:~.Hãe..-.e.-aai)â11e.ie; É O mede 1"e¢.í.e11ë11-.de ‹:91;1.S-


truir o fut1¬,1,iz_o.,I,iitei*esse é uiiifiterino que remete.ã.eco-
fp ¡-

ir
¿:,ei'f _n_Q111ia,ii1ais_que_aoS afetos ou aos valores;a economia,
uma__\_¿ez_ i°aci,oi,ial,izada, s_ai_ijia da destriiição predatória,
mtiTuç,ãQ..
*F É tanil_›_i_é_p_i_,_i_s_s_o__o,,,que_ faz passariiios dos-desejos_aos
...f ~ ai;¢i.t.<›s._S_e_Qisià1.‹â~..f1.9§..1.e.i.e..fíi-.isresPi1*ea.eeia1eeieeie.-§.ãe
desejos - d_p_§gi_;p_ ser -, eles não bastam pgpaçfo_§i_na¬rÍu_n;ia
~1 q s盋:__i_g_=;dç_a,Acl_e,_.ç],Ê_çpçreççisõfqijiifšjãiii meiquihbfádos - que se con-
* i 'Hi ,ver.tam-em..direitos.
f....efl1P.e-.eiuezH1eS-- aeranteama-ifea.1i.z_.aÇ.äQ..1i1_e1a9.§..i.1^.i.i.ea'a1l
de. qHe. fi_2.l.Y.e...2...e..Li-gQstass.e.,.nia§,i11¶_.a%US
Se -...1;e....§19_g_L1e então

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A República Possivel 69

.S9 dašíê--Êl€ e em ue a democracia


entra no Estado ` ` ' ^' ' '
-- I - «Ha de dlfelfei. C.e.fl.V. ¿§9.e§-.Ç1.e.1.112_e..1a_.. af1eaS
l2(lCiÊÊii.¢V.3.Ê.Ê-l~1.1Í1Í13..l`ÇY0.llf1Çä9› ÚÊÉi$.Ê--¶P.Ê..§..§.Q.1}l¿Ê£.Ê.Ê.fá
em ESÍQCÊO e .<`;'I1'l d.11Íe1tOaemduraçã=o,.são_p.1f.íu§ÍPi.QS11ep.L1..-
b1iCaH0S.zf\§lem9era<;ia.12rmisa.._da.r.ep..úb1i.ca.. QL

A VIRTUDE DO AUTOGOVERNO

A virtude republicana da abnegação é sobretudo uma


virtude de quem está no poder. Quem mais precisa tê-la
não é quem apenas obedece, mas quem manda. Talvez
por isso o seg-,goi/emffiient, o autogoverno dos colonos
norte-americanos, tenha sido uma escola tão notável de
governo, foijando uma disciplina que súditos de uma
monarquia absoluta não podiam - nem precisavam - ter.
Governo, porém, não é o mesmo que poder. Na
democracia, o poder é do povo, ainda que a adminis-
, lo T V traçãoou governo se delegue a representantes. _O___ign_-
E /¿i“.Íii~i.'
/.êz›,‹'¡.i-, ` U P.QI§š!.1Í1ÍšÊ .11ãQ Ô-f9.d0S governarem, 0. qL1e.e..ín1pOS.SÍ\i€1,
4.

'Í ¬',.zi';..~.z.~;1_ji¬.as o povo controlar seus representantes,__v_(2uanto


ea .fz a..1iia.iãó.1¡o.c.c›niiQ1a.a@pa.ar...a1.aiâ.eeeaeeiáF.i99..aa9.d...e.r-
1550 pQrq11e_,iqillantø. -rna_is.,-as. pessoas .forem.virtuosas_:
isroe, ‹:iQSa.S-‹;1e. distinguir O beiii.e_9111ii1aa..e1.a.S.-iiireiesz
ses privados -, maie§..§.e§i-s.iz1a..participacão. .1.iQ..p.Qç.1.er.
nem que seja de fora, verificando,,discut_1ndo,_cobran-
de; 011.-. _S__1e'az.Qia.1á.Êš_.iT1aíS .fCP14bli'.faaas..fQ.re.níi..as pessoas..
parti;_r>í_.a.1.:1..‹;1..<.i...ii ais.._dea1Qafá.tí‹;Q sera. e-Pe.der- ei'
Um regime democrático não pode apenas satisfa-
zer desejos; precisa respeitar esse espaço público, o do
bem comum.£i.rep.1í.il:i1i.e.a..fei..a...ac1.rnirásie1..inszenção..ro-
maaaipaa reselvef ele Pafaeemaiaa enorme. óifizui-
' "°*"'=I!hi:h'~ v¡,‹__.p_..›-4-qi, .r_¡n-_,"-`,\.,1¬~.r^ 1.v¬v-_

dade_te.o.r.1.ea....e.RÉë.Ê.Ê¿Ê= 912É e..§*.S. .fí?fšf§S.fíI1 ai 12eSS.0.aS ama arem


I ° .Í " Í 1

wbedefefem- E fáCíl-e1'%f_e1'1_§1er 9115:: un.i..iii.an.de-e.Qutios

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RX

7o A República

, r
bede
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am'm._1.1ims..ac,eitar11.q_u_e__guemmanda
. .
este, fora
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J| L/zz,‹re., f§1a.@.â§0_eê11SzS0br¢wdO
_.‹2.__‹=tf^e1.s@.}.=â1..lsâ.‹-_Ç9nfi_ra-1.Ss<>. eèjaíeš.@15Bsf%@eC1fl§,@m
_ nas r@a1Q@S.-.com P iorès ífidièëš
/lg de desensíolírmento humano, o poder de algyém cn (D

;/IÍÍMÊ . mede pela capacidade dez'seriilairÃseida lei comum. E3


eea.€1s-ses.“1f graças e sua Posição soseíslzeeaaâla oa
Ê.f31.”3-.P1%“. atefidlllësflss-Prsf@r¢_1sCíe1â_Q*à1-9._<2a¶s.12...e. @SS0a
Ê aas;_Lats_a_d.ârá.-.111e1hs›r-sevocê clehecpedircimfzzzzozz do
€11z12 S6 V0_§..ê-I§iVi.n.díca.r urfl f¡f`f@1'f0- Quantos- não seirrí-
A tam, até no trânsito (essa metáfora brasileira para a clas-
E-
, se 111e_<¿1__ia),,porqt1e alguém reclama que este_jam...eníJ..fi1a
-¬_. _ _ _ _

""”“ _ _ d . d
€1_L1P.lâ.9ë!-§£11-lk!earProibldø - mflfi C6 ¢r1ama-:/.ez,.._s J

mell1o1_`.g.1.Í‹'=1.<lQz SC .O outro renunciasse a seu direitoflpara


~* tíeitear um - obséquio,-
uma gentileza...
_ Í .
Aí .|esta . um dos
_,__ ,. -_-«-_-~.z-.=
_s_i_1;1gz1i_sh¶1jnais,,,constantes de nosso drjicztfrtepzzrbllcano. L
Nlassesse saldo negativo de nossa república tambáng
tem.Os, ,_e1n.nossa, democracia. Se a ,rep,ú,blica_ cobre. o,C_a§Q
em que os mesmos mandam e obedecem, o uruco regi:
11121-6111-<1~'1<f-fivrlas nlandfrm 6 0b_ede‹:¢m_-€- adenlacracla..
O problema q_u_e milênios de formaçao adestraram nossa
@peçie,_,a,,,Qpo_r oque _é mandar ao que e .obede_cer...O
autoritarismo nasce disso. Rmnp_eLco11Lde_exige_unn
` 'd.<2..,ff»2
ênfase nos dev‹2r@s,,5;1.@--_s1,L1¢;11.ce1év1éía_.-§e..s9u.-1HV¢§9. d
,um_poder,__1_1çn_1por isso ele é minha p_r‹_:3p_r,1edad.e...:_.e__o
.__ _ i _:-'_-'_i_ñ_“ i;_ii Ji-À-“i"ñ"`FF'._.-'._-

c›.íí‹:.Lo...0.s.‹-111/.i.Ç.s.>s.a»1.‹ë.Br¢_stQ-.a§0_Ç1ss1§Ç1sz
_-›\> Daí que-seja_1:ã9_.in1_p_Q.t!ia11t,e..a.-con.te.n-çaflz-2
_ l - l .. d 21..Y01'1.t 21 de ..Q republicano
_\ ,autodi_sc.i.p1in_a,_o-cQ,11tr_Q1,€,_- {,,_fi.,-___.__-
sab_e_qu_e,_1;›.ara-3¿i\Zer.ern.soc1edade,-prec1sa-haver.=.ma1s

#›@Eduardo Portela ficou célebre pela frase que lhe custou o cargo de ministro da
Educação, no último governo militar: “Estou ministro, sou professor". No cargo
político apenas se está. Sua demissão pode ser interpretada como mostra de que,
na ditadura, pre valece a visão
z patrimonial
‹ do poder. Os verbos do poder, no
autoritarismo, são pertencer e ser. Na república, seriam servir (daí a ideia de serviço
público) e estar.

z;__

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A República Possível 71

qff S9”~éÊ-Q"-Í hçÊi€r._...u.1ÊÍ1a.Ê5fe.1L3.C0}11Um, um espaço


públlsa..um.patr.i111.ônio..c.olemwu.eÍsi1;{ia..de-.e1_Qmen:

--------. -..--...----....-.-..-.J9.ã..¶apasl1oâ..assim,
À¢_j.=Li9.g§..f!§í.Q_-1i?F9P¢.1fl janela S10 Carfë, SsJa,<1¢.ês¿iand__Q_
o1s..1.1.1.1.ea.‹;_1aí_1.b_1.í.<2s>s.¢s1 <1-.@.Straf<>-<> aaa
.zer
Es.ê.âous9¿1.rea_Z__ig;ç,1,ç_g'
. S@s.eit1??<e.i,'_q__1g_e.$_sg_ó}l,Mtererfrros
-<1.v1.e ea essa 'réšiolvidd'ioui¡';¿ç1,o
Púb1i¢a-nos.dë aa-
.t1a..e.1a_Q.S.-ateau.a<l9.Q Problelna de- ÇiEšinisEáf1ifi§,'5",š}irag9,,
1.'@;1.1.<a.sía.1;sP.ú.b1i¢<f1 00111 HOW Hflturfiraz. Cem Q.‹í.ë.â.¢jo
Q_u.c.on1.o_prin,cípio democrático de tere ser mais,,s,e,,
1201-'._..1.1ê.tá..1a1euo.r-..e_--n1aíS adnfiiniçstrável. Of R

A EDucAçÁo
A chave para reduzir o conflito entre ideal e psique é
a educação. Ela é uma das principais instituições, se
não a principal, na socialização humana. E nela pode-
mos detectar um erro de Constant, que tanto critica-
va ~ embora respeitosamente - Rousseau. Pois terá
si_‹_:1_o_p__o_r,_acaso que Rousseau publicçouno _mesmo_ano,
11§›__2_, a,gr_ar1de,plataforn1a da república moderna_,__o
_. V Contrato Social, e o grande mariifesito da edu_caçãot_a_m-
__ bém nl, ",_o_c:ler_na,
. .. _o Fmílio?
.z ¿§té_entkãfio,úa
_ re_p_§1b_l_i_ga__§;_o_gra
›s o u.m.QQn1bat§_i11C_¢$$%1Hf@ ä flëlwffizël humana-
-íe Mas com Rousseau surge a ideia de que o ser
hur_}1_a_13ço tem natureza plástica, flexível, mutavel.
Àboa educação orienta essas mudanças no melhor,
ossível t- o de valores . que incluam ou possam
uir os republicanos Talvez os rousseau1stas da Re-
1f_,Q._l_1;E§..ä:<iã.ii.ÊÍÊliÍiciesa t'enham.exagerado na esperança de
l3_a_rJi3jion%i1zar‹arepública com a natureza humana; mas,
desde__ os grandes educadores ,dog sé_c_ul_o_m__1§_,_j_á¶_1_¡;_§z;Q se

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-._____`

-4

72 A República
I

pode dizer q íblíCas.ejaimoaipo-a'vd-comapsi-


q.L.1s..11a_msflaauass.s1íf%e5s9é,.sraa£í-_E..aíque O pró-
prio C_g_r_ist_a_r1t_¢2{fi_g_<Ê1'fl-1§l.š1$§8-aatu.re.z.a,,_jnstamenr_¢
E0.S9U_....@..Ê..:._Ç,Q.11aQaele .n1ÇS1110- r¢_‹;..Qn.h_e.ce :.mutá1.e.Lna
_h_i_s__t_or,_p_o_dre ser plasmada por u111a..boa_educa.ção...E
qprem não percebe que os mais ben1-,suce_did_osp_r_oj,e,.-
tosäeducácioriais são os que investem no espaço_,p,ú_blL-
_9€L<í1i.£1%.-P§lI.t.i<;.iP.=z1Ç.ã9-da maior nú1no.rQ.-de-pessoas.:
I
9.2.ssJ_az..e111-s1.Qis--arêuides temas republicanos?
f_
4

fl.,._-l ',
If L
Finalmente, há uma prática que articula bastante
H'\

-_.-¡I.'
. I'

,l_;),_e,1ndemocracia e república. a participação. O ideal


¡J-
af

)r;'.›*_
_

J
z

re,p,ub,l_ic,ano,está na dedicação à coisa comum ou co-


.~T , '
letiva., _que_ h oj e . se chama voluntariado.-:,_o__emp.e¬
.nl .

-11-
11l1..O_g1fš1_ÊL1.ÍÍ_.O....que muitos dedicam a ajudar, causas
.'- -" n_ob1;es,s.oeiais,_s,obre1:ud0 qua11d0-n0S paí_s.e.s.p0bres.0.
|
x
EiSL.ë.£Í9...%1.I.l`.¢Cada.impostos para pagar juros ã b_anca__,-._,é
I
L___rrria__f¿:_)rn_iam_de_p,arti,cipação.Essa participação nenleserrr-
p.1I.€_._.É.-explicitamente politizada, mas é grande..o--se_u
po_t§r_1,ç,ialmp_Qlitico, porque forma as pessoas para_agi-
¿~. 1.

1
1
J;ern_s.e.mt_esperar ordens. de cima. Ora,estando :voltada
l'.

I
|
I?€1.1.l.3_O__b,,e_n1,,Qo_111u111,.é_,uma_prática r_ep¬1¿.zpblr`rcona. E,_acos-
tu133_a11d,,o_,as,pe,sso,as aq agirem de baixo para cima, ado-
E
tando.-a...persp_ectiva _d0._P.OYQ-.(CAf5 populi) e não a do
l
pri_n,c,ip,e_(cx pr1`z1c1'pis),.ela constitui uma pedagogia
É
1 democrática. A educação para a democracia acaba se
1
É1
faz.endo_na..esco1a..-da...vida,-que-.é. a da relação ,como
o_u_tI.Q.:_..o_u_seja.,-a.-particíp.ação.na vida social. ‹...

I Im I-r '

'Z A relação entre as ideias de soberania política, revolução e história - que eclodem
no século 18 - está desenvolvida em “História e Soberania", em meu livro A Última
Razão dos Reis (São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 97-119).

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8. REPÚBLICA E DEMOCRACIA

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ideia deste livro e de seu irmão gémeo,
A Democracíafi nasceu de uma observa-
ção: é cada vez mais dificil manter a ideia
de que exista um povo, um demos, para
usar a palavra grega, inteiro e íntegro.š_\l_iás,.a_d_e_m__Q_-
il i Çracia mo.de_r11a -1:1asc_e -. c01'11..-LUI1.2`1.- .YiSÃ.Q...-1iQ.1iIlš`Í1.11t_íc.a.do
Â.psI'
¿..~
X33 p
g~_\_:\_:) p_Q_v_o_,s;1u.e_s_e__exp,ress,aria poruma identidade. nacional
Fl;
r
_j:: _rnarc_a_da en:r__se*rrtin1entos fortes, e depois se orienta
“¡‹i*"í Patas s§.<111zrst.4_a sdafwlo mm -Visão .fffer><1'S_fe.--que
/fifa* ideutífiça ..9-.1;>.9xQ-Ç9t110S fIab2!ll121<l9f¢Sz -Q$-@2íP1.9f21Cl9.S
'if *i *;:Lr. o.saNos...dois .casos,-nen1- todo o mundo ...é
eflfi-W1í1ã-_ts111l?_ëfl1. 0.21nfíp0v0z.aL1¢-p0d‹f S<fr...<›.
Çfiitällgêirâdø,.noaprimeiro caso, ou o exp1orad.O_r,_.de
‹êlaSê.sz.e9.-.âsaaa‹10.z-Mas o..prob1e1nâ eqaeaosaêiduzs

'3 A Democracia, série “Folha Explica” (Publifolha, 2001), trata da democracia direta
1'

dos direitos humanos, da representação política e dos problemas e desafios atuais da


democracia.

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República e Democracia 75

Conce ões
- de PQVO deixar
1-f --- -_-. -am dfi
e- f-~ A SCI' funci '
..._ . ._z¬Qn.ais__A
Ê-C9-99_nÊí¡'L¬e§Ê_a._.C9ÊÊP.l.ÊÉÊ¿l___Ê1_Ç}}f1_a_is para distinguirmos
1-i-i-6-19-°§-Êmb%1l1ëdQ£Ê$›._Ç-%_._<?_1~1lU-ltëzl., 1;iC=1. .para idenz-
flâzz,/s,, ,.fl.fiserÂaa§-ama.azilri-i.1;.=~z1.. 1iz.z<:i.<z›naipwzz.. de "“
Czz,,_,,fifa 1 §Ê›'mO"Í,1zÍÍÍÃÍÊÍÍ.1SÊiÊidoEW?
V _, - e
semiram” d°"s"P°”°
A 1`°› fi"f=11'1CffS-011 0 que for,paraQ
/U ¿ za/~"' rqÉe,,;pOÊ1en:1Q._S___,Çl_12_1I11¡-11' (16 Sl×ll9p()V(_)5 -j gfuprO5_üm`Cn_QI¢S,
(Ú V P_(Ê'..f.....e1}._i.1...._1ÍÊÊ-Ê.l..$. ..1.lÍlÊÊ°‹1Í1$0.5 Cm suas relações. Podem .ser..os
/*¬í:'~* V5 , S__e,_1_f1_i__-j:__f;:mrra,qt1e,guardain a caracterização marxista, pois
,Í g definem pelo lugar na economia, mas igualmente
f' os niilitantesnegros, feministas ou gays.
šf rf* E__S§e,s,grupos assumem traços que eram ,tradWi_c_í_o¿-
T i1a_l.1?3s.11ts.9§.-<í.0P0v©- Mal restaram 0S1aÇ0Sf0rt¢s..<iLis,
'R

_¬_'_
nQrn_qdgelog_roiiiá.ntico ou marxista, uniamosmem-
asl
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b_rgs_do___p_qvo coino um todo. Numa sociedade com-
l* _pl_e_,xa,,,,é, dificilpeu sempre amar o compatriota ou o
l. ç omp anheiro de classe _ Mas essa intensidade afetiva
K
migilâu p:áÍraÍios._-elos,.eiitre membros, de ,gr,up.o.S.-m.eno-
`\
se Les e H1Qb.i1iZëdos.
R Aqui é preciso falar - sem sectarismo - da polí-
tica brasileira. O partido que mais aposta em vinculos
fortes ou sociabilidades aquecidas é o PT. Sua pratica
é das mais democráticas. l\/las, com sua enfase em agru-
pamentos que não são o povo como um todo - e isso
orque não lia mais povo como :mi todo -, ele se presta a
iirítica de favorecer interesses particulares, que seus
adversários chamam de corporativistas.
' ' ' ` sub-
Veja-se o paradoxo.A pratica democratica
siste, mas ela não diz mais respeito ao demos como
um todo. Ela sobrevive, intensificada, em grupos
menores, e por isso mesmo pode voltar-se contra ou-
tras partes do povo. O que a direita fez, sobretudo
na presidência Collor, foi jogar essas parcelas des-
mobilizadas contra os grupos organizados, aqueles
em que o PT melhor navega.
E

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76 A Repríblíca

Mêilfiá 01,123 Clfífiíšlšlzt I11ai,s-s_ér_ia_e. .perttineurerque


ÉÕÃZQÍÊ3- §1L1¢S_¢ Ê;I1C.š1I.na., entre nós .no-P.SDB..O
discurso Cleleš Lepubliçallø- Bëistatverr que e1e.críti‹:a o
PT porq¿.1_e, es,se,ú,lti1i1o favoreceriainteresses de gru-
¡;¿g_s¿_q¬]_E_o.¬qL1e o PSDB chama de corporativismo- a
defesa, de -uma corp oração,.em detrimento do interes-
vz FD O omum, a ênfase no meio (no caso o funcionalis-
--....._-.....,- _ = ~ S
mo pí1blico)"n1ais que no fim (o povo o público como
"*-=~.-...__ _,____. _... 7

u_;jn__todo). Qmdisctirso do PSDB é o mais consistente


que temosna defesada res prvfliíím.
Aqui, porém, também há um custo. Defendendo
a coisa pública, o PSDB formula uma questão funda-
mental - mas ao mesmo tempo se vê condenado a
atacar as práticas mais democráticas que há em nossa
sociedade, que mobilizam os grupos ã esquerda. Ou
seja, nossos republicanos se veem obrigados a criticar
a democracia. E enquanto isso nossos democráticos
não conseguem ter uma visão abrangente da coisa
pública, estando limitados a práticas que, embora im-
portantes, ficam na organização de grupos parciais.
o que desespera a minoria de marxistas dentro do PT,
que obviamente deseja uma visão totalizante da so-
ciedade, mas se vê condenada a uma dura alternativa:
ou totaliza, mas não enxerga a sociedade de hoje; ou
leva em conta a sociedade atual, e aí se vai embora a
totalização que l\/Iarx elaborou no século 19.

DESEJO E VONTADE

Vê-se que nossa discussão não é só teórica. Ela está no


cerne da política atual, inclusive brasileira. Há uma
tragédia light na nossa política, que é esse divórcio dos
dois melhores grandes partidos, os de maior convic-

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Rcptíblíca e Democracia 77

ção em suas ideias, os de propostas mais coerentes para


resolver o mal brasileiro.A tragédia é leve, porque não
causa tortura nem chacina - mas dificulta a realização
da melhor política de nosso tempo, que está no en-
contro dos princípios democráticos e republicanos.Essa
síntese talvez não seja possível. Mas é inspiradora.
*vb &__te_ie_pLi11.ci,paLdes.tes-dois livros_..ézque_asr_e¡:›,ú-
l_;zl_í_<_I_21__f}._1_1l§2i.<.>_1f1a_,p elavontade e a democracia, .p.elo..de.-
sFej2._Ifr__der11Qç1faCía expressa o desejo por mais. Bem
_o_r_i,e.n_t.ad.o,._esse.-desejo se converte em direito ãigual-
dade, d,e,,_b_.e.11s,_-_de,.oportunidades ou perante a lei.já,a
re,pú,_blí,ca,,ç_o,ns_istena necessidade ou obrigação de re-
frear O,_,pr_óprio desejo, a fim de respeitarum bem co-
i3,”_r_1;1_,n;r_q_u,e__r1ão é o património de uma sociedadepor
.21<;<Í)____<:1-S,,,1n;21_s,_,ç)__,c,ei'ne do convívio social.
S-)e-z _l§_l_ã_Q__hqáq_política digna desse nome, hoje,qque,não
¿e'La_mr_epubljica11a e democrática. O problema é que as
,c_;l_u_é_1_s_3¿e,1'te11tes não se conciliam facilmente. Se ten-
ç_1er_rn_os lã democracia, o desejo de igualdade, e o dese-
j_<›_en_1 geral, poderá inviabilizar o investimento de longo
praz_o,o reqsp,§¿ito,qa_o_oL1t1*o, a contenção.A própria con-
\_{ers_ão ,do,_,_<__fl_e,sej¿o_,,en1_direito é um elemento republi-
çan,o.__Çontudo, se enfatizarmos a república, poderá
§__ç_;j_g¿i_éS Qréspfeiitoã coisa pública se torne fim em si, e
‹_;l__<_-::__ií;‹_e__ide lado a igualdade: teremos uma república de
qíšrifpjfoiiqiotoifes),
sem o aquecimento que está
na..de.111o.c1facia. V-

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TRA

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¡.'II
|= monarquia constitucional, como vimos,
ii | pode ser mais republicana do que regi-
' mes que tenham um presidente da Re-
- públicajustamente porque o rei ou rainha
se esvaziou de poder e se tornou imagem, símbolo,
figura - na Inglaterra, uma sombra num selo -, ele
pôde servir de elo mínimo, afetivo, para as pessoas e
partidos fazerem prosperar suas diferenças. Podemos
soltar nossos conflitos ã vontade, porque um elo con-
tinua existindo.
Õ --ir» _Es_s_a argumeiitação supõe que, em última análise,
1;1_1'.ʧ§i.Sai1ios-.de.niiififeleiiíeiitoi nem racional, iiiéiii,Í,_dei;i*ii_ó_;_-
.E2-¬r}¡'1¡fi'-'17
0 c *Ç1`‹'f1l3_1_<}_Ê2=_llf`,;}Ê_}_l`f}`PUl?l1C_š1_1_1Orlèãlra ancorar as rrelaçõeshtuiia-
*,¿ 1185-Tl~1..<Ã.Q..l29£lÇ_-Í1I51.dC1`ÍV3z.‹f1S 1i@HSÕeS pOCle_m expressar-se,
1312.13§.9.l>_._¿1..C.Q.11CliÇí`íO,de que uma única amarra aiiidaheste-
ea ii j_2l-1.íg€1<Íí€! 210 Cais. Podem os ingleses viver conflitos sociais
ÓC fšfáfiiif
J e políticos intensos
_- , n-1 W"¬wm_~'
21$¬,q,co_11io se emocionam com a
'/'D líllflhël-L11Ã.¢,íllgtllnšl--CQEQ eles têm em
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išg
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..._-¢1n..entre.t.o..c19s,.a. ‹;Q.i11i.11iiçaç,ãQ.
i-0 C553-7 :S f-Í'

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Ep17ogo:Imanêncía e Transcendëncía 81

Mú) Tal S°1“9ã°.SígnÍfi°a<1U¢ 1íb¢f@m0S OS confliras


no P1afl0.r@a1zS0¢ia1.sQb iii;ii_a_c<›n.diçâ0z zonstruizàgiqs,
ÊH1 1'1f>S_S01mfls1Hár10,.e.iií1nessa.1i1.¢i1¢sz..1‹11í11.I1Éi§1s..Q.sírir‹;
S11nb011rQ-.d@ nã9.:r.Qnflito.¿\ so.1ução-é.b,Q}.i,,z5,z¿_1m¿¢I
íL11lgid0 .21..Socieda.de-.n1o.derua e.C.ëP_.i§äl.iSta, e mais ainz
da 3 P ó5'n1Q,d§_1`1_Í.3si.111_ÊÍ_.Q1Í -Pš!.lÍlÊ_ÕÍ_.d..¿1§ .Ç.l.~.1..ltU._1ÍÊ1§. ÊÊYÊ. §.OJ1I10.
í.d@a1.fl1s.U11i .§iP9-.d@pa2 ou harnimaâ..-.o__.pzobi¢mz..é
qlleíesse ideal dewordem equilibrada ,reprii'i1iu,__e_,i¡1_'i1_,_1_í¡
,'Ç_O_.O que_gS,,,pes,soas e grupos realmente sentiam.,Mui.-
E0 d2LÇ_l0_1íJ.f2.SíQ1¬1.i.C_€fl1z 1105 SëC.U1QS-1.9_ _e 20.-d.e.ve.uz.se..a.o
d.§§ÇQ111Pê1§§9..S¢flfi<l0Por tam sente entre. i§1eal.:
reli_gi_O_s,.o,.n1oral, político - e a sua realidade, afetiva ou
efetiva,,.inte.rna.ou.externa.
Ora, nossa sociedade explicita cada vez mais
conflitos. dificil saber se ela tem maior teor de con-
flitos do que outras (provavelmente, sim), ou se tem
maior consciêncía deles e lhes deu maior vazão do que
elas (isso com toda a certeza). De todo modo, o que a
solução monárquica moderna, tipo rainha da Ingla-
terra, permite é viver um acentuado nível de confli-
tos porque algo está ancorado na psique. Isso explica
certas fotos que pareciam absurdas quando foram ti-
radas - o punk ao lado do guarda da rainha, a minis-
saia e os Beatles nascendo numa sociedade formal
como a inglesa. Po_i_s_ë_ O .fO.1'I1Íl_2l1ͧ1Í11Q,-.-21.0._S_21iI_._C1í:l.-re2I.l1f
dades.inre§tir:se-ao-Simbó1í¢0› que da P-212-sima-que
eu possam, ser ,_ hoiiiossexua1,._ _p.1z1..1'_1.1<.,...n'1istic.o,_enÍi.na,...o
que quiserie-:_p:_ara_que...eu-possa .voa.r.ã.vontade,,-pefr-
que,aír1da_,cenho...c.hão..
Mas há um problema nessa equação, e vale a pena
dedicar uma espécie de epílogo a ele.A república é o
regime do autogoverno ou sefi-government. Sua grande
convicção é que os seres humanos são capazes de go-
vernar a si próprios. Isso não significa só elegermos

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82 A República

nossos dirigentes, mas definirmos, nós mesmos, o po-


der que aceitamos e queremos sobre nós.
Ei.'11..1i.asuase1n_.fi.1,QSÓ_fi¢Hz- fiilef dizer aueaaíinos
da transcendênciame¿pos_taii1os na imanência. I-Iá trans-
. __°@fl_d..ë__1'1.<šiz=¶_5>1!z1ê1..1í1i;1_<'>.-1fii11.ali bieflffi Precisa, Para ser resflf
lado, detiiaiipoder superior e externo a ele. Há imanência
quando uni sjst_ema regula a si próprio. O Deus das
religiões do Livro - judaico, cristão, muçulmano - é
transcendente. Dizemos, aliás, religiões do Livro por-
que os fiéis recebem as ordens de Deus por uma reve-
lação, o que já mostra que a divindade está acima deles
e ê diferente do mundo que ela crioujá o panteísmo -
a crença de que tudo é divino - e o ateísmo são
imanentes. Aliás, é mais dificil, em termos religiosos,
detectar a imanência do que a transcendência. Essa úl-
tima é mais fácil de perceber, embora - e talvez porque
- justamente exponha o princípio de ordenação do
mundo como estando fora deste mundo.
O que tem isso a ver com a retomada que aqui
fazemos do prélio república versus monarquia consti-
tucional? que a monarquia norte-europeia, nion-
_t_é_i_irimd_¿om_“u__p_i___espaqt,§oqqcornuni de identidade, constitui o
_il__1elhor_eqexeinplo de uma transcendência sz`ml›ólica._]á
U QQ? O é a tijansceiidêiicia do Deus cristão, judaico ou

mu
._._l ulmano .. nas
,,S3_________,_.___.- - rÊ-ras _emloga,is_,,de,, pleno poder, o_u-de
seus representantä_i:i__e_s_t.eqmuiielo,qpapas, rabinos e cdifas.
O monarca não m3P.§.lf'.'::._l..\../.Í..:'1.l.§ .Êl.¢.$ÊÍll1Pe1ll1ê›-.5Í1.1}P9.1Í.Ç?1f'
mente, ess_e__pap.eLde_.ti;anscen.d,ência. O
Aqui as coisas se dividem.Vamos terminar com
uma dúvida. Podemos achar que alguma transcendên-
cia e necessaria, justamente para que pratiquemos, na
realidade (o que quer que isso signifique), a imanência.
Para eu resolver os conflitos que tenho com os outros,
ou os que vivo em mim, precisaria transpor para meu
imaginário um porto de paz, uni lugar de não-confli-

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Epilogo: Imanêncía e Transceaclëncía 83

to_- uma transcendência que acalme e nutra minha


psique. Choro pela princesa Diana, ou me comovo
com as roupas azuis da rainha, porque isso me capacita
a aguentar um mundo para cujos conflitos não há
saída, um mundo que a cada problema me desafia a
enfrentá-lo e resolvê-lo ali mesmo.A aceitação de que
uma família em particular seja sustentada por nós to-
dos e o dinheiro que isso custa, enfim, esse vestígio de
desigualdade e de injustiça no meio de uma vida so-
cial que procura ser justa, tudo isso é um preço pe-
queno pelo que ele produz.
Mas talvez a iinanência seja possível. Essa é a outra
via. Poderíamos raclicalizar a república e entender dis-
pensável essa âncora - mesmo simbólica - no trans-
cendente. Se enfrentamos os desafios, vencendo uns
poucos, negociando uma solução intermediária com
a maior parte, assimilando a derrota ein vários casos,
por que precisaríamos ainda dar crédito a uma realeza
que, do /llmaiiaqrzfe de Gotlia, decaiu para as revistas de
fofocas sobre celebridades? Não seria mais corajoso,
mais denso de nossa parte, suprimir o que ainda resta
de dependência nossa? A transcendência aqui se torna
um resto de vício, a dependência de uma droga. Pode-
mos liberar-nos disso. E acabar com o intolerável ab-
surdo que é sustentar uns inúteis e ociosos só para nos
representarem uma velha peça, aquela que nos diz
como somos, ainda, infantis, como precisamos, ainda,
de uma escora psíquica. Não precisamos.
A essa tese iiitensamente republicana dá para res-
ponder, dizendo que ela desconhece a realidade de
nossa psique, a qual não pode ser inteiramente ilumi-
nada por valores assim racionais. Melhor aceitar um
pouco de simbologia monarquista do que deixar sem
limites os conflitos. Na Grã-Breta¿nh_a_q.alg,L1}1Sp_¢IfgL11Í1-
tavam na_décadade 198051 esqU€1Í<ÍlÊ~_ ,t1ÍêP.€1ll11St21,..C1L1€3

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-“'--.___i

84 A República

çra_,rep_ub1icanar .o _qLie.,vQÇšS.-.12_11efer.e.m.?..A rainha


Elizabeth? Ou, como presidente da Rep_úbl_i_ea,__Margaret
"[ljia_t_;_cherM?hA neutralidade nionárq_1¿1icawdá_maio_i;espaço
ã___qp_osição no interior do Estado do que se teir_1_q§
1__,_i_ij_rji,a,,liderançaiieleíiçta, mas piartidáriaf. ii
Essa questão fica em aberto. Ela interroga, em
última análise, nossa capacidade de sermos inteiramente
racionais, ou intensamente felizes, ou de realizarmos
por completo uma utopia. Talvez possamos conse-
gui-lo. Talvez, porém, apostando nisso sem comedi-
mento, percamos tudo, até aquilo de que poderíamos
pacificamente desfrutar. Pode ser que os tempos futuros
respondam a essa pergunta. Mas pode também ser que
ela seja irrespondível; que toquemos aqui num osso
duro, num problema insuperável do humano.

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A z, ntes de mais nada, há que ler os clássicos
i 4"fr '
~ , republicanos modernos, que são Maquiavel
_ '›
'›~f "›"
F: 3 (os Discursos), Rousseau (Cori trato Social),
eoiiiiri os Federalistas, Robespierre e Saint-just.
Há muitas edições de suas obras, inclusive eletrônicas.
Não podemos esquecer, de Montesquieu, as Cartas
Persas (Pauliceia, 1991) e Do Espirito das Leis (Martins
Fontes, 1993).
Quase toda a política relevante, no século 20,
aborda quer a república, quer a democracia. (Os ou-
tros dois grandes temas contemporâneos, que só
tangenciamos, são o liberalismo e o socialismo.) Re-
comendar obras sobre qualquer desses temas envol-
ve, pois, toda a teoria política recente. Destacando
alguns dos principais filósofos políticos de nosso tem-
po: de Norberto Bobbio, o Dicionário de Politica, que
ele coordenou (Editora da UnB, 1995), bem como
Liberalismo e Democracia (Brasiliense, 1988), Direita e
Esquerda (Editora da Unesp, 1995), A Era dos Direitos

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Bibliognjia e .Sites 87

(Campus, 1982), Igualdade e Liberdade (Ediouro, 1996)


e O Futuro da Democracia - uma Defesa das Regras do
jogo (Paz eTerra, 1986); de Hannah Arendt),/1 Condi-
ção Humana (Edusp, 1981), Da Revolução (Atica/Edi-
tora da UnB, 1988), As Origens do Totalitarismo
(Companhia das Letras, 1997) e O Que é Politica?
(Bertrand Brasil, 1998); de Isaiah Berlin, os Quatro
Ensaios Sobre a Liberdade (Editora da UnB, 1981), além
de seu prefácio a O Principe, de Maquiavel (Ediouro,
2000); de Claude Lefort, /1 Invenção Democrática
(Brasiliense, 1983); de jacques Rancière, O Desenten-
diniento (Ed. 34, 1996). E ainda a História Intelectual
do Liberalismo (Iinago, 1990), de Pierre Manent. Nin-
guém perde tempo lendo esses autores. Nenhum deles
perde tempo repetindo o óbvio.
Na Internet, os sites mais interessantes são os
que oferecem obras clássicas, já caídas no domínio
público, para consulta ou doumload gratuitos. Em in-
glês, vale a pena acessar wvvW.constitution.org/
liberlib, bom pela documentação mas não pelas po-
sições (é libe1'tarian, na acepção de simpatizante das
milícias de extrema direital). Para pesquisas
aprofundadas, o megalink wWw.earlham.edu/
~peters/philinl<s.htm é útil. Em francês, a Bibliote-
ca Nacional de Paris oferece muitos textos, não só
de política, em http://gallica.bnf.fr/classique. E há
um excelente site de documentos de história polí-
tica brasileira, em www.cebela.org.br/txtpolit/
socio/fr_sumar.html. uma pena que sejam pou-
cos os sites realmente interessantes com textos mais
novos - que em geral estão disponíveis em papel -
ou com discussões atuais. Uma feliz exceção é, em
inglês, o site WWW.cpn.org/sections/affiliates/
whitman_center.html, que tem ótimas discussões so-
bre participação política.

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88 A República

Deve ficar meridianamente claro que a perspec-


tiva deste livro é de filosofia política, e não de ciência
política. Sobre a diferença, ver Bobbio, 'Ieoria Geral da
Politica (Campus, 2000), cap. I. De ciência politica, re-
comenda-se enfaticamente Comunidade e Democracia -
a Experiência da Itália Moderna, de Robert Putnam (FGV,
1996)- .l ä Í 3..4._3__.02_Q,¿f11flref1.fli'ê.fado _da.---R_ep.ública,,_de
Maurice Agull_i_,o_i_i__(l,?_az,_e.Tei;ra, 1.991) , mostra-como..os
y__alores _i_;ep_ubl_icaiios, foram incorporados pelo povo
francês__gi_;_a_ç_a_s_,,ã,,t_ãoS,denegrida - sobretudo por .Marx
__-¿-___S_egi_.i_,ifii_‹_:l_a_,RepiÍiblica (1848-51).
Alguns temas deste livro foram desenvolvidos por
mim em outros lugares, especialmente em A Sociedade
Contra o Social - o Alto Custo da Vida Pública no Brasil
(Companhia das Letras, 2000),“O Entusiasmo, oTea-
tro e a Revolução” (em:Adauto Novaes, org., Tempo e
História [Companhia das Letras, 1992]) e no artigo
“DemocraciaVersus República”, que saiu em Pensar a
República (Editora da UFMG, 2000).Eu e os co-auto-
res desse último livro, entre os quais Olgária Matos,
Sérgio Cardoso, Wander Melo Miranda e Heloísa
Starling, formamos um grupo muito informal e mes-
mo discordante de discussões sobre a república.
De nieus coinpanheiros no grupo recomendo
também, de josé Murilo de Carvalho, Os Bestializaclos
e/l Formação das Almas (ambos pela Companhia das
Letras, respectivamente em 1989 e 1995); d,e,__L__i_.i_iz
\]§lei°necl<ÂÃian.na,.zf1-.Reuolução Passiva _ (Revan, ;
de Maria Alice Rezende de Carvalho, O Quinto Sé-
culo --/Élndré Rebouças e a Construção do Brasil (Revan
e Iuperj, 1998); de Marcelojasiiiin,/llexi's de 'Ibcaueville
- a Historiografia Como Ciência da Politica (Access,
1997); e, de Newton Bignotto, O Tirano e a Cidade
(Discurso Editorial, 1998) e Maquiavel Republicano
(Loyola, 1991).

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Bibliognfia e Sites 89

Finalmente, para este livro também foram con-


sultados, de Perry Anderson, Linliagens do Estadoƒlbso-
lutista (Brasiliense, 1984); de Norbert Elias, O Processo
Ciw'li2:ador (]orge Zahar, v. 1 e 2, 1990 e 1993); e, de
Richard Sennett, O Decli'nio do Homem Público (Com-
panhia das Letras, 1988).

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SOBRE O AUTOR

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e


filosofia política na Universidade de São Paulo. De-
fendeu seu mestrado na Sorbonne, em Paris, e seu dou-
torado na USP, ambos tratando do filósofo político
inglês Thomas Hobbes. As teses foram publicadas, res-
pectivamente, com os títulos A Marca do Lei/iatã - Lin-
guagem e Poder em Hobbes (Atica, 1978) e Ao Leitor sem
Medo - Hobbes Escrevendo Contra o Seu Tempo (Editora
da UFMG, 1999, 2* ed.).
Também é autor de A Etiqueta no Antigo Regime
(Moderna, 1999, 4fl ed.), A Última Razão dos Reis -
Ensaios de Filosojia e de Politica (Companhia das Letras,
1993) e A Sociedade Contra o Social - o Alto Custo da
Vida Pública no Brasil (Companhia das Letras, 2000,
Prêmio Jabuti de 2001), além de vários artigos em
coletâneas e periódicos.
Foi membro do Conselho do CNPq e do
Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência. Em 1998, recebeu a Ordem Nacional do
Mérito Científico.Atualinente, é diretor de avaliação
da Capes.

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