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Advogado Criminal ou Advogado Criminalista?

Pode-se afirmar, sem contradita plausível, que a principal


virtude dos clássicos era a propriedade com que empregavam os
vocábulos e as construções vernáculas.
“Adaptar e apropriar sempre as palavras e o estilo à natureza das ideias e
dos pensamentos enunciados”(1), esta a pedra de toque por onde se
conheciam e encomendavam à estima pública.
Que se trata de mais que árduo ofício, bem se infere destas
palavras do insigne Rui a propósito de Flaubert: “(...) na escola dos
grandes escritores de outros tempos se matava em escavar le mot propre, vocábulo
consubstancial à ideia, carne do pensamento, específico e insubstituível na sua
função de o revestir”(2).
Este, unicamente, é o modo por que um escritor logra altear-se
além da craveira mediana e comunicar durabilidade às produções de
seu espírito.
Nisso de propriedade no falar e no escrever, cai a talho a
sentença de Carlos Lacerda, notável tribuno e infatigável lidador da
palavra: “Saber o nome de cada coisa, e não chamá-la coisa, chamá-la
exatamente pelo nome, eis o que é saber um idioma”(3).
Ao advogado importa-lhe muito conhecer, à uma com os
termos e palavras de sua língua, os do estilo jurídico ou do foro.
Vocábulos, que na linguagem vulgar podem ter cabida, são de todo o
ponto insofríveis na locução jurídica. Não é muito, assim, que o
comum dos escritores empregue inconsideradamente roubo por furto e
crime por contravenção, que esses vocábulos a maioria dos léxicos
portugueses registra como sinônimos. Ao advogado, contudo, por
amor da propriedade (ou precisão) a que deve atender a linguagem
jurídica escrita, será defeso fazê-lo. Para ele, cada uma dessas palavras
haverá de constituir termo próprio. Outro tanto com as vozes
interrogar e inquirir, citar e intimar, etc. Usá-las indiferentemente, sem
olhar por sua acepção restritiva, seria infringir de rosto um dos mais
importantes cânones do estilo do foro: a propriedade. São os outros: a
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expressão lógica, a brevidade e a clareza. Este conjunto de atributos é que


dá à linguagem do Direito, na frase cunhada por Jhering, a “elegantia
juris”, ou estética jurídica(4).
Foi a preocupação da propriedade terminológica e certo gosto,
que os temas relacionados com a Advocacia Criminal soem infundir
no espírito dos que a professam com todas as veras, o que nos moveu
a pôr em questão a seguinte matéria: a forma qual seria mais correta
advogado criminal ou advogado criminalista?
A usança do pretório depara-nos, com efeito, ambas as
expressões. Os que fazem profissão da vida forense, por outra parte,
empregam-nas indistintamente. Uma só, porém, cuidamos que
satisfaz do mesmo passo ao requisito da precisão da linguagem e ao
rigor da lógica.
À mingua de documentos jurídico-literários que nos pudessem
desatar a dúvida, lembrou-nos confiá-lo àquele que em pontos de boa
linguagem era, por unânime consenso dos doutos, árbitro
competentíssimo: o Prof. Napoleão Mendes de Almeida (v. Anexo I).
Rogamos a Sua Excelência a especial mercê de escrever-nos se
convinha ao gênio da língua, se dizia com os preceitos da lógica e
preservava a exação da gramática a locução advogados criminais,
elementar e distintiva da associação que, no Estado de São Paulo,
congrega os profissionais que atuam nas instâncias da Justiça
Criminal.
Com igual solicitude que sabedoria respondeu-nos o provecto e
abalizado mestre da boa linguagem, firme em Caldas Aulete e
Laudelino Freire (que houve pelos maiores dicionaristas), que “é
criminal o que concerne ao julgamento dos crimes, e não ao advogado. É
criminalista o advogado ou jurisconsulto que trata especialmente de assuntos
criminais”. Advogado criminalista, ou simplesmente criminalista, é,
pois, como se deve chamar ao “que trata especialmente de assuntos
criminais”. A não ser assim, houvéramos de designar também por
advogado comercial, constitucional ou tributário quem milita nestas áreas do
Direito, o que seria, sobre incurial, insólito. Por força do sufixo ista —
que inculca a ideia de atividade, profissão, partido, dedicação, etc. —,
forjou a língua viva extenso rol de locuções substantivas. “Exempli
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gratia”: médico legista, cirurgião dentista, filósofo tomista, partido


trabalhista, estado militarista, teoria finalista da ação, etc.
Nisto, portanto, já não há que debater: “Napoleo locutus, causa
finita”!
A dicção advogado criminalista, aliás, já recebera de Teófilo Braga,
em 1923, foros de cidade na língua portuguesa(5).
Fora entretanto imprudência, não só injustiça, calar os nomes
dos que, pela haverem correta e vernácula de lei, não se desdenharam
de empregar a forma advogado criminal. E, o que é mais: à conta de sua
muita autoridade, não parecera bastante escrever-lhes os nomes neste
papel; era mister gravá-los com letras de ouro, que são estas as que
convêm aos varões de grande esfera, como Eliézer Rosa(6), Romeiro
Neto(7) e Alfredo Tranjan(8).
E, pois estamos falando do advogado criminalista, leve em
paciência o pio leitor traslademos aqui este lanço primoroso de quem,
por mais de um predicamento louvável, como tal merece havido:
Paulo José da Costa Jr. Ser criminalista, ao parecer desse eminente
cultor da Ciência Penal, “ser criminalista, enfim, é dar tudo de si. Dedicação,
sacrifício. Sem temor e sem nenhuma esperança de gratidão ou de recompensa. A
grande recompensa é a paz interior. A tranquilidade serena de consciência. A
sensação confortadora do dever cumprido”(9).

Notas

(1) Ernesto Carneiro Ribeiro, Páginas de Língua e de Educação, 1939, p.


68.
(2) Réplica, nº 475.
(3) Uma Rosa é uma Rosa, é uma Rosa, 2a. ed., p. 77.
(4) Cf. Edmundo Dantès Nascimento, Linguagem Forense, 1980, p.
222.
(5) Cf. Magalhães Lima, Episódios da Minha Vida, 2a. ed., p. 17;
Livraria Universal; Lisboa.
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(6) “Há no semblante austero dos grandes advogados criminais uma discreta
sombra que atesta a convivência diuturna com a angústia alheia”
(Romeiro Neto, o Último Romântico da Advocacia Criminal, 1984, p.
21).
(7) “Eis a missão do advogado criminal em três palavras: humanizar a
Justiça” (Fora do Júri, p. 101).
(8) “Tratou do tema, em famosa carta escrita aos filhos, o maior dos
advogados criminais que o Brasil produziu: Evaristo de Moraes” (A Beca
Surrada, 1a. ed., p. 90).
(9) In Folha de S.Paulo, 6.3.77.

Carlos Biasotti
Desembargador aposentado do TJSP e ex-presidente da Acrimesp
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Anexo I
1. Transcrição da carta-consulta, com estabelecimento do texto:

São Paulo, 8 de setembro de 1992

Ao Excelentíssimo Senhor
Doutor Napoleão Mendes de Almeida
Rua Senador Paulo Egídio, 72
Nesta

Querido e abalizado Mestre:


Vimos hoje desempenhar-nos, bem que serodiamente, de grave
e natural obrigação, em que os criminalistas de São Paulo estamos
para com Vossa Excelência, (“omissis”).
—————————————————————————
Estimado Professor, antes de concluir esta missiva gratulatória,
tomáramos nos declarasse tormentosa dúvida, e é: convém ao gênio
da língua, orna com os cânones da lógica e preserva a boa exação da
gramática a locução advogados criminais, elementar e distintiva da
associação dos que professamos a advocacia criminal (Associação dos
Advogados Criminais do Estado de São Paulo)? Não lhe seria, acaso,
preferível a denominação advogados criminalistas ou criminalistas
simplesmente? Associação Paranaense dos Advogados Criminalistas, de
feito, é o nome por que se conhece, no vizinho estado das araucárias, a
entidade nossa coirmã…
Árbitro competentíssimo em pontos de linguagem, far-nos-á
Vossa Excelência particular mercê, desatando-nos esta controvérsia.
Com a mais viva afeição e profundo respeito, subscrevemo-nos
cordialmente.
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Carlos Biasotti
Presidente
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2. Carta-resposta (no lugar que interessa à consulta):


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