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MISSIO DEI E MISSIONES ECCLESIAE – UMA ANÁLISE BÍBLICO-HISTÓRICA


Laurenata Araújo Lima1
Luiz Felipe Xavier2

RESUMO
Este artigo apresenta os princípios bíblicos da missio Dei (missão de Deus) e das missiones
ecclesiae (missões da igreja), como parâmetros para uma efetiva atuação missionária da igreja
hoje. A consciência desses princípios ajudará a Igreja atual a não cometer os mesmos
equívocos outrora cometidos em sua história. Logo, através da pesquisa bibliográfica ou
revisão de literatura se apresentará a definição, e as perspectivas bíblico-históricas da missio
Dei e das missiones ecclesiae.

ABSTRACT
This article presents the biblical principles of missio Dei (mission of God) and missiones
ecclesiae (church missions), as parameters for effective missionary activity of the church
today. An awareness of these principles will help the Church to not make the same mistakes
previously committed in its history. Soon, through bibliographic research or literature review
this article will present the definition and the biblical-historical perspectives of the missio Dei
and missiones ecclesiae.

PALAVRAS-CHAVE
Missio Dei, missiones ecclesiae, Igreja, missão.

KEYWORDS
Missio Dei, missiones ecclesiae, Church, mission.

1 INTRODUÇÃO
No decorrer da história, a Igreja tem apresentado diferentes concepções a respeito do
seu papel missionário. Essas diferentes concepções sobre as missiones ecclesiae (missões da
igreja) implicam em distintas formas de atuação missionária. Logo, essa ação missionária ora
converge e ora diverge da missio Dei (Missão de Deus), revelada nas Escrituras Sagradas.
A partir da Bíblia, fica evidente que Deus é o autor da missão. Esse caráter
missionário da Trindade pode ser percebido do Gênesis ao Apocalipse, ou seja, da criação à
consumação. Assim, para que as missiones ecclesiae sejam, de fato, relevantes, a ação
missionária deve estar dentro dos princípios estabelecidos pela missio Dei.

1
Graduanda em Teologia pela Faculdade Batista de Minas Gerais.
2
Mestre em Teologia Dogmática, mestre em Filosofia da Religião, especialista em Estudo
da Bíblia, especialista em Teologia Sistemática e graduado em Teologia. É professor da
Faculdade Batista de Minas Gerais, no curso de Teologia, e do Centro Universitário
Metodista Izabela Hendrix, nos cursos de Teologia e Direito.
2

A relevância da presente pesquisa emerge frente aos equívocos da prática missionária


da Igreja ao longo da sua história. Infelizmente, alguns desses equívocos persistem até hoje.
Assim sendo, é imprescindível que a Igreja tome consciência do seu lugar na missio Dei e aja
em convergência com a mesma. É com essa conscientização que a pesquisa pretende
contribuir.
A metodologia aqui empregada é a pesquisa bibliográfica ou revisão de literatura,
sendo os principais teóricos consultados David Bosch3 e Christopher Wright4. Ambos
possuem algo em comum: a busca pelo verdadeiro sentido da missão conferida por Deus à
Igreja.
O presente artigo está dividido em dois tópicos. O primeiro tópico apresentará o
conceito, fundamentação bíblica e contexto histórico da missio Dei. O segundo tópico
analisará, sob esses mesmos aspectos, as missiones ecclesiae.

2 O PARADIGMA DA MISSIO DEI

2.1 Definição de missio Dei


A definição adequada da missio Dei é fundamental para a ação missionária da igreja.
Bosch (2002, p. 28) apresenta uma diferenciação entre os termos “missão” e “missões”.
Missão refere-se à missio Dei, isto é, a missão de Deus. Ao passo que missões refere-se às
“missiones ecclesiae”, as missões da igreja. Assim, a missio Dei é definida como algo
singular que consiste na:
[...] auto-revelação de Deus como Aquele que ama o mundo, o envolvimento
de Deus no e com o mundo, a natureza e atividade de Deus, que compreende
tanto a igreja quanto o mundo, e das quais a igreja tem o privilégio de
participar. Missio Dei enuncia a boa nova de que Deus é um Deus – para
as/pelas pessoas. (Bosch, 2002, p. 28).

3
David J. Bosch (1929 – 1992), proeminente missiólogo sul-africano. Prestou serviço
missionário em Transkei, foi professor de missiologia na Universidade da África do Sul,
Secretário geral da Sociedade Missiológica Sul-africana, dentre outras funções. Um ano
após a publicação de “Missão Transformadora”, morreu em um acidente de carro.
4
Christopher J. H. Wright é filho de missionários, estudou Teologia em Cambridge. Preside o
Grupo de Trabalhos Teológicos do Movimento de Lausanne e o Conselho de Recursos
Teológicos da Agência Tearfund, uma organização cristã de assistência e desenvolvimento
humanitário.
3

Percebe-se neste conceito que, a missão parte de Deus, que confere à igreja o
privilégio de participar do seu relacionamento com o mundo. Ed René Kivitz (2011)5, assim
como Bosch (2002), defende o senhorio de Deus sobre a missão. Em sua concepção, a ação de
Deus não se restringe à atuação da igreja:
Deus é o principal agente da missão, e a executa através de muitas maneiras,
não necessariamente exclusivamente (sic) debaixo do guarda-chuva da
igreja. [...] Deus age através da igreja, com a igreja, além da igreja, apesar da
igreja, e, de quando em vez, contra a igreja (KIVITZ, 2011).
Neste conceito fica evidenciado que a missio Dei não se restringe à atuação da Igreja no
mundo, mas a ação de Deus no mundo.
A partir do pensamento de Kivitz (2011), em consonância com a definição de Bosch
(2002), depreende-se que Deus é agente ativo na história, dando-se a conhecer aos seres
humanos e viabilizando a restauração da criação caída. A igreja participa dessa missão de
Deus porque ele como o principal agente, a capacita a ser uma agência missionária.
A proposta de Bosch (2002, p.26) é que “[...] a fé cristã é intrinsecamente
missionária”. Negar este fato é negar a razão de ser do cristianismo. É este caráter que “[...] dá
expressão ao relacionamento dinâmico entre Deus e o mundo [...]” (idem). Esse
relacionamento leva em conta todas as esferas da vida humana:
as pessoas vivem numa série de relações integradas: portanto, divorciar a
esfera espiritual ou pessoal da esfera material e social é indicativo de uma
antropologia e sociologia errônea (BOSCH, 2002, p.28).
O conceito de Bosch se harmoniza com a definição de Jarbas Ferreira da Silva, que
afirma que a razão de ser da igreja é a missio Dei, esse deve ser o seu foco. De acordo com
Silva (2013), “a missão de Deus é trazer pecadores a Cristo através da igreja”6.
A partir das perspectivas aqui apresentadas, conclui-se que, uma vez que a Igreja
nasceu de Deus pela obra redentora de Cristo, o trabalho em prol da missio Dei faz parte da
sua essência. Este trabalho não encontra fundamento na própria Igreja, mas em Deus.

2.2 Fundamentação bíblica da missio Dei

2.2.1 Missio Dei no Antigo Testamento: uma análise a partir da promessa de Deus a
Abraão

5
Texto extraído do site oficial do autor: <http://edrenekivitz.com/blog/2011/06/um-novo-
paradigma-da-missao> Acesso em: 16 ago. 2013. Ed René Kivitz é mestre em Ciências da
Religião pela Universidade Metodista de São Paulo.
6
Palestra proferida por Jarbas Ferreira da Silva, em abril de 2013, na Faculdade Batista de
Minas Gerais. Silva é professor no Programa de Capacitação da Junta de Missões Mundiais
da Convenção Batista Brasileira.
4

Bosch (2002, p.35) afirma que no Antigo Testamento não há indícios de que os crentes
da antiga aliança seriam enviados a conquistarem outros povos para a fé em Javé. Se houver
adesão à concepção tradicional de missão, como envio de pregadores a lugares distantes, esta
poderia ser a diferença básica entre o Antigo e o Novo Testamento, já que este último é um
livro essencialmente sobre missão. “Ainda assim o Antigo Testamento é fundamental para a
compreensão de missão no Novo [Testamento]” (BOSCH, 2002, P.35).
O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Sobre isso, Timóteo
Carriker (2000, p.15) afirma: “Toda a criação tem sua centralidade e finalidade na
humanidade”. Por possuir a imagem de Deus, o ser humano recebeu também o mandato
cultural. Este refere-se à responsabilidade imputada ao ser humano de dominar sobre a
criação, isto é, cuidar e manter a sua ordem. O texto a seguir é referente ao mandato cultural:
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu,
sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todo os répteis que
rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de
Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse:
sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os
peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja pela
terra.(Gn.1:26-28)7
Carriker esclarece que há três áreas em que se aplica o domínio da criação conferido
ao ser humano:
[...] o versículo 28 esclarece quanto ao conteúdo da função dada ao homem
de “dominar” a criação. Elabora a imagem de Deus no homem em três áreas
de responsabilidade e administração: a sua experiência social e familiar
(“multiplicar”, “encher”, “dar nome”); a responsabilidade econômica e
ecológica (“sujeitar”, “cultivar”, “guardar”) e o governo (“dominar”, “dar
nome”) (CARRIKER, 2000, p.21).
Esse domínio conferido ao ser humano manteria a harmonia de toda a criação.
Entretanto, a alienação do ser humano em relação a Deus trouxe consequências catastróficas
(CARRIKER, 2000, p.15). O pecado levou a uma ruptura do relacionamento entre o ser
humano e Deus, entre o humano e seu semelhante, entre o ser humano e a criação e do ser
humano consigo mesmo. Dessa forma, a missio Dei visa restaurar a criação trazendo
reconciliação em todas essas áreas.
John Stott (2009, p.34) afirma que o julgamento de Deus contra essa rebeldia do ser
humano “[...] é atenuado pela primeira promessa evangélica de que um dia a semente da
mulher ‘pisaria’ – na realidade ‘esmagaria’ - a cabeça da serpente (Gn. 3:15)”. Em meio a
toda alienação do ser humano Deus chama Abraão e pronuncia a promessa de que abençoaria

7
Neste artigo está sendo utilizada a Bíblia na versão Almeida Revista e Atualizada.
5

por meio dele todo o mundo. Segundo Stott (2009, p.35), a promessa de Deus a Abraão
consistia em diversas etapas: uma posteridade, uma terra e uma bênção.
Stott parte da premissa de que os autores do Novo Testamento viam o cumprimento de
uma promessa como triplo: passado, presente e futuro:
O cumprimento passado fora imediato, ou histórico, na vida da nação de
Israel. O cumprimento presente era intermediário, ou evangélico em Cristo e
sua Igreja. O cumprimento futuro será final, ou escatológico, no novo céu e
na nova terra (STOTT, 2009, p.35).
Assim, Stott (2009, p.36) conclui que o cumprimento da promessa de Deus a Abraão
acontece nos três níveis. O cumprimento histórico imediato se deu nos descendentes carnais
de Abraão, ou seja, o povo de Israel. O cumprimento intermediário se deu em Cristo e sua
Igreja. A Igreja é formada pelos crentes em Cristo, que por sua vez são a verdadeira
descendência de Abraão. Tem-se então um cumprimento espiritual para a promessa da
posteridade.
Quanto ao cumprimento escatológico, Stott (2009, p.38), mostra que esse ocorrerá
quando o Reino de Deus for estabelecido em sua plenitude, na segunda vinda de Cristo. Nessa
ocasião também se vislumbrará “[...] a terra prometida, a saber, todas as ricas bênçãos que
fluem do governo cheio de graça de Deus” (STOTT, 2009, p.39). Observa-se então, a partir
do Antigo Testamento, o movimento de Deus para o cumprimento de sua missão. De redimir
o seu povo, e direcioná-lo ao senhorio de Cristo.

2.2.2 Missio Dei no Novo Testamento: uma análise a partir do ministério de Jesus e da
teologia paulina.
No Novo Testamento, nota-se claramente a ação plena de Deus na missio Dei, com o
Verbo se tornando carne e executando o plano redentor. Observa-se também, além da
execução da obra salvífica, Jesus Cristo impulsionando a Igreja a atuar em prol da missio Dei.

2.2.2.1 Missio Dei e o ministério de Jesus


Para se compreender a missão corretamente é necessário olhar para Jesus Cristo. É o
que Hahn, citado por Bosch, demonstra:
Não podemos refletir de maneira íntegra sobre o que a missão poderia
significar hoje em dia a menos que nos voltemos para o Jesus do Novo
Testamento, já que a nossa missão está amarrada à pessoa e ministério de
Jesus (HAHN apud BOSCH, 2002, p. 41).
A missão de Jesus dirigiu-se em primeiro lugar ao povo judeu. De uma forma especial,
ele chamou pelos excluídos da sociedade, tais como pobres, leprosos, prostitutas e cobradores
de impostos, as ovelhas perdidas de Israel (BOSCH, 2002, p.46). “No ministério de Jesus,
6

Deus está inaugurando o seu reinado escatológico, e o está fazendo entre as pessoas pobres,
humildes e desprezadas” (BOSCH, 2002, p.47). Em Cristo o Reino de Deus foi inaugurado,
tornando-se acessível e mostrando, de forma ainda mais evidente, a eficácia da missio Dei.
Embora a missão de Jesus tenha sido realizada entre os judeus, encontra-se nele
também o fundamento para a missão entre os gentios.
Durante muito tempo os pesquisadores do Novo Testamento tendiam a negar
a dimensão missionária fundamental do ministério terreno de Jesus [...] e a
atribuir todo o fenômeno da missão entre os gentios após a Páscoa a várias
circunstâncias sociorreligiosas ou o imputar quase exclusivamente a líderes
cristãos individuais, como Paulo, por exemplo, embora tais opiniões ainda
sejam ocasionalmente trazidas à baila, seria, creio eu, correto dizer que as
pesquisadoras estão muito mais dispostas (sic) a atribuir ao próprio Jesus a
colocação dos fundamentos para a missão entre os gentios (BOSCH, 2002,
p.51).
Esta afirmação faz jus às palavras de Jesus em Atos 1:8: “Mas recebereis poder, ao
descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em
toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra”. Percebe-se, então, as palavras de Jesus
impulsionando o movimento missionário da Igreja, que se constitui agência de Deus para a
realização da missio Dei.
Observa-se, então, que a ação missionária da Igreja, não é algo inédito, pois faz parte
do caráter trinitário de Deus. Ele é o fundamento da missão.

2.2.2.2 Missio Dei e a teologia paulina


De acordo com Carriker (2013)8, até o século XVI, a palavra “missão” “[...] era
reservada para se referir à relação da trindade: a missão do Filho como o enviado do Pai e a
missão do Espírito Santo como o enviado do Filho e do Pai”.
A partir desta visão trinitária da missio Dei, pode-se compreender a missão no Novo
Testamento, sobretudo nos escritos paulinos. De acordo com Guilherme Vilela Ribeiro de
Carvalho (p.13)9, “A reconciliação ocorre em um desdobramento trinitário-econômico no qual
a redenção se processa e Deus simultaneamente se torna conhecido”. Para explicar a ação
dessa obra trinitária, este autor utiliza o texto de Efésios 1:3-14. Nesse, o Pai é apresentado
como aquele que projeta a obra redentora, o Filho executa o plano e o Espírito aplica esse
plano no coração do ser humano. Carvalho (p.13) faz a seguinte análise do texto:

8
Artigo publicado na revista “Ultimato Online”. Disponível em <
http://www.ultimato.com.br/conteudo/joao-calvino-e-a-teologia-missionaria > Acesso em 16
ago. 2013.
9
Apostila editada pelo Prof. Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho da Faculdade Evangélica
de Teologia de Belo Horizonte. Documento sem notas tipográficas (s.n.t).
7

“O Pai, origem”:
Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem
abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em
Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para
sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para
ele, para a adoção de filhos por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito
de sua vontade, para louvor da glória da sua graça, que ele nos concedeu
gratuitamente no Amado, [...] (3-6)

“O Filho, o ponto fulcral”:


[...] no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados,
segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre
nós em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua
vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer
convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas,
tanto as do céu como as da terra, nele, digo, no qual fomos também feitos
herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas
conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos para o louvor da sua
glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo; [...] (7-12)
Esse texto apresenta a estratégia de Deus para convergir toda criação em Cristo.
Assim, dentro desse contexto encontra-se também a salvação dos eleitos.
“O Espírito, o Penhor”:
[...] em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o
evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o
Santo Espírito da promessa, o qual é o penhor da nossa herança, até ao
resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória. (13-14)
Ao utilizar a palavra “penhor”, Carvalho (p.14) refere-se ao Espírito Santo como a
garantia do pagamento final. Isto quer dizer que através do Espírito, os crentes em Cristo
experimentam desde já as realidades escatológicas. A partir desta análise feita por Carvalho
(p.14), pode-se perceber claramente que Deus é missionário, e age de forma trinitária para
cumprir sua missão.
A reconciliação em Cristo ocorre em âmbito individual, em que cada crente é
reconciliado pessoalmente com Deus. Ocorre em âmbito coletivo, o que é demonstrado pelo
fato de que em Cristo foi desfeita a separação que havia entre judeus e gentios. A partir da
reconciliação ambos são um só povo.10 Ocorre também em âmbito cósmico, pois toda a
criação será reconciliada com a Trindade.
A partir do exposto no parágrafo anterior, pode-se afirmar que a missio Dei possui
implicações sociais. Isso quer dizer que todas as relações humanas de natureza social serão
restauradas. Ainda possui implicações cósmicas, pois o projeto é a convergência de todas as
coisas em Cristo, incluindo a criação. Assim, pode-se afirmar que a missio Dei é integral.

10
XAVIER, Luiz Felipe. Teologia Bíblica do Novo Testamento. Notas de aulas, 2013.
8

2.3 Contexto histórico da missio Dei


Bosch (2002, p.17) afirma que foram os Jesuítas os primeiros a utilizarem o termo
“missão” com referência à difusão da fé cristã, fato que era relacionado à expansão colonial
do mundo ocidental. Houve então, uma diferenciação do sentido que era dado ao termo até o
século XVI, que designava o “[...] envio do Filho pelo Pai e do Espírito Santo pelo Pai e pelo
Filho” (idem).
Missão pressupõe que alguém envia pessoas para uma determinada incumbência, e
que aquele que envia tem autoridade para tal, como afirma Bosch (2002, p.17). Sustentava-se
que era Deus quem possuía essa autoridade. Entretanto, na prática essa autoridade foi por
vezes entendida como sendo da igreja ou da sociedade missionária. As visões equivocadas
quanto à missão levaram a uma crise missionária. De acordo com Bosch (2002, p.21) essa
crise se manifesta em três áreas: “os fundamentos, os motivos e a meta, e a natureza da
missão”.
Quanto aos seus fundamentos, motivos, metas e natureza, a ação missionária deve ter
bases na soberania de Deus, e não na igreja como por vezes foi entendido. Bosch (2002, p.22)
assevera que um fundamento inadequado para a missão pode resultar em uma prática
missionária insatisfatória. Uma das consequências desses fundamentos pode ser uma
evangelização que desconsidera o contexto em que é realizada. Assim, o resultado foi, por
muito tempo, a plantação de igrejas caracterizadas por Bosch como “[...] réplicas das igrejas
da ‘frente doméstica’ da agência missionária” (idem).
Ao longo do século XX as interpretações acerca da missão foram sendo modificadas
(BOSCH, 2002, p.18). Conforme afirma Kivitz:
O paradigma da missio Dei tem origem em Karl Barth, na Conferência
Missionária de Brandemburgo em 1932. A influência do seu pensamento
atingiu o auge na Conferência do Conselho Missionário Internacional
ocorrida em Willingen (1952). [...] “foi lá que a idéia (não o termo) da
missio Dei emergiu, pela primeira vez, de maneira clara. Compreendeu-se a
missão como derivada da própria natureza de Deus. Ela foi colocada, pois no
contexto da doutrina da Trindade, não da eclesiologia nem da soteriologia. A
doutrina clássica da missio Dei como Deus, o Pai, enviando o Filho, e Deus
o Pai e o Filho, enviando o Espírito foi expandida no sentido de incluir ainda
outro ‘movimento’: Pai, Filho e Espírito Santo enviando a igreja para dentro
do mundo (KIVITZ, 2011).
A recuperação do paradigma da missio Dei na história representou um avanço. Através
disso a igreja compreende seu lugar na ação de Deus no mundo. A igreja é agência e vitrine
do Reino de Deus e deve mostrar a presença dele na história. Sua ação não deve se resumir
em persuadir pessoas a se converterem ao cristianismo, mas deve ser uma demonstração do
9

Reino, mostrando que Deus está em missão. Logo, o trabalho da igreja para a missio Dei deve
visar a glória de Deus.

3 O PARADIGMA DAS MISSIONES ECCLESIAE

3.1 Natureza das missiones ecclesiae


Conforme apresentado no tópico anterior, Deus é o Senhor da missão. Ele envia
pessoas para trabalharem nesta missão. A premissa do envio leva Wright (2012, p. 29) a uma
interrogação: “enviados para que?”. Este autor parte do pressuposto de que há uma grande
variedade de tarefas para as quais Deus envia pessoas.
Deus enviou pessoas para atuarem na libertação do povo da opressão, à semelhança do
envio de Moisés: “Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos
de Israel, do Egito” (Ex. 3:10). Outras pessoas foram enviadas para influenciar o curso da
política nacional. Exemplo disto é o profeta Elias, como demonstra o texto a seguir:
Disse-lhe o SENHOR: Vai, volta ao teu caminho para o deserto de Damasco
e, em chegando lá, unge a Hazael rei sobre a Síria. A Jeú, filho de Ninsi,
ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá,
ungirás profeta em teu lugar. Quem escapar da espada de Hazael, Jeú o
matará; quem escapar à espada de Jeú, Eliseu o matará. Também conservei
em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca
que o não beijou. (1Rs. 19:15-18)
O profeta Jeremias foi enviado para a proclamação da Palavra de Deus: “Mas o
SENHOR me disse: Não digas: não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar,
irás; e tudo quanto te mandar falarás” (Jr 1:7).
Outro tipo de envio é para a atenção aos marginalizados da sociedade, exemplo disto é
o envio do próprio Cristo, como mostra o texto a seguir:
Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga,
segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então lhe deram o livro do
profeta Isaías, e abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O
Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os
pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da
vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano
aceitável do Senhor. (Lc. 4:16-19).
“Os discípulos foram enviados para pregar e demonstrar o poder libertador e curador
do reino de Deus (WRIGHT, 2012, p. 29)”:
A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: Não tomeis
rumo aos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas, de
preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel; e à medida que
seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus. Curai enfermos,
ressuscitai os mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça
recebestes, de graça dai. (Mt. 10:5-8)
10

“Paulo e Barnabé [...] foram enviados para evangelizar e plantar igrejas” (WRIGHT,
2012, p. 30), como indica o texto a seguir:
Havia na igreja em Antioquia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão,
por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o
tetrarca, e Saulo. E servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito
Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho
chamado. Então, jejuando, e orarando, e impondo sobre eles as mãos, os
despediram. (At. 13:1-3)

Havia também o envio de pessoas para cuidarem de questões administrativas da igreja.


“Tito foi enviado para garantir uma administração financeira de confiança e transparência”
(WRIGHT, 2012, p. 30):
Suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a
abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade,
como está escrito: o que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não
teve falta. Mas graças a Deus, que me pôs Tito a mesma solicitude por amor
de vós; porque atendeu ao meu apelo e, mostrando-se mais cuidadoso, partiu
voluntariamente para vós outros. E, com ele, enviamos o irmão cujo louvor
no evangelho está espalhado por todas as igrejas. E não só isto, mas foi
também eleito pelas igrejas para ser nosso companheiro no desempenho
desta graça ministrada por nós, para a glória do próprio Senhor e para
mostrar a nossa boa vontade; evitando, assim, que alguém nos acuse em face
desta generosa dádiva administrada por nós; pois o que nos preocupa é
procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante
dos homens. Com eles, enviamos nosso irmão cujo zelo, em muitas ocasiões
e de muitos modos, temos experimentado; agora, porém, se mostra ainda
mais zeloso pela muita confiança em vós. (2 Co. 8:14-22).
Percebe-se, a partir da multiplicidade de funções para as quais Deus envia pessoas, que
há um equívoco ao se restringir as missiones ecclesiae à Grande Comissão11, transcrita a
seguir:
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do
Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas
que eu tenho mandado. E eis que estou convosco todos os dias até à
consumação do século. (Mt. 28:19-20).
Não há dúvidas de que este texto diz respeito à missão da igreja, entretanto,
isoladamente, ele não descreve todas as especificidades do envio da igreja. As missiones
ecclesiae vão além da Grande Comissão e não possuem caráter exclusivamente kerigmático 12,
ou seja, não se restringem apenas ao anúncio verbal, mas abrangem toda a ação da Igreja no
mundo, visando à glória de Deus.

11
Wright (2012, p. 43) assim conceitua a Grande Comissão: “[...] as palavras finais de Jesus
aos seus discípulos, antes da sua ascenção, enviando-os ao mundo para fazerem discípulos
de todas as nações”.
12
O caráter kerigmático diz respeito ao substantivo grego kerygma. kerygma, de acordo com
Brown e Coenen (2000, p.1857), quer dizer proclamação, anúncio, pregação.
11

Deve-se levar em conta que Deus tem uma missão e um propósito para com toda a
criação. É dessa missão que partem as missiones ecclesiae (WRIGHT, 2012, p.31). Resume-
se o conceito a respeito das missões da seguinte forma:
[...] quando me refiro a missões, estou pensando nas inúmeras atividades que
o povo de Deus pode se engajar, participando da missão de Deus [...] na
variedade de missões que Deus confiou à sua igreja, como um todo, não é
conveniente que um tipo de missão menospreze a outra [...] (WRIGHT,
2012, p.32).
As missiones ecclesiae devem ser realizadas levando em conta todos os âmbitos da
criação. O ser humano deve ser visto de maneira holística, para que o objetivo máximo da
missão, que é a glória de Deus, seja atingido integralmente e esse ser humano se conforme à
imagem de Deus em todas as dimensões de sua vida.

3.2 Fundamentação bíblica das missiones ecclesiae

3.2.1 Missiones ecclesiae no Antigo Testamento


Tendo em vista que a igreja foi formada no Novo Testamento, qual fundamentação o
Antigo Testamento apresenta para a sua missão? Esta subseção visa responder a esta questão.
O ponto de partida para a compreensão das missiones ecclesiae em uma perspectiva
bíblica, depende do conceito que se tem de missão. Bosch (2002, p.35) afirma que a
compreensão tradicional da missão como envio de pregadores a lugares distantes leva a uma
dificuldade em se compreender a missão a partir do Antigo Testamento, uma vez que na
antiga aliança não se tem relatos dos crentes sendo enviados a outras terras para pregarem a fé
em Javé.
Ainda assim, a partir de um olhar mais atento, percebe-se na história de Israel o
interesse de Deus também pelas outras nações. A eleição de Israel como povo de Deus no
Antigo Testamento não deve ser interpretada como uma maneira de Deus excluir as outras
nações. Pelo contrário, Israel foi escolhida para que através dela fossem abençoadas todas as
nações da terra. Sobre isto, Bosch (2002, p.36) afirma:
[...] desde o estágio inicial houve a convicção de que a compaixão de Deus
compreende também as outras nações. [...] Nas estórias de Abraão do javista
não há uma única que, de uma maneira ou de outra, não ilustre o
relacionamento de Abraão (e, por conseguinte, de Israel) com as nações
(Huppenbauer 1977:39s.). Toda a história de Israel revela a continuação do
envolvimento de Deus com as nações.
A afirmação de Bosch (2002, p.36) quebra o paradigma de que Deus estaria a favor de
Israel e contra todas as demais nações da terra. O texto de Is. 45:22 confirma essa tese: "Olhai
para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro”.
12

Pode-se afirmar que Israel era o caminho para que as outras nações pudessem olhar para Deus
e serem salvas.
Toda a história bíblica deve ser lida tendo-se a consciência de que ela parte de um
Deus que está em missão. Da mesma forma, em toda a Bíblia está presente a ação do povo de
Deus que age em prol do cumprimento dessa missão. Sobre o tema da missão realizada pelo
povo de Deus no Antigo Testamento, é dito “O Antigo Testamento conta não apenas a
história que leva a Jesus, mas a que leva também à missão a todas as nações” (WRIGHT,
2012, p.47).
Não se pode pensar em missão, partindo-se do Antigo Testamento, sem se considerar
alguns pressupostos. O ser humano foi criado bom. Ele se relacionava com o Criador e
recebia dele suas instruções (Gn. 2:16-17). Entretanto, o ser humano escolheu o caminho da
desobediência. Assim, tendo pecado, a humanidade se alienou de Deus. Agora era necessário
um meio para que a comunhão fosse restabelecida. Não obstante, todas as esferas de
relacionamento foram afetadas: do ser humano com Deus, com a criação e consigo mesmo.
Tem início a história da redenção, Wright (2012, p.50), define o chamado de Abraão,
para que nele fossem abençoadas todas as nações da terra, como a “primeira grande
comissão”. A história continua com Deus fazendo aliança com o seu povo, entregando-lhe a
lei, apontando para a bênção futura através dos profetas. O plano de Deus era alcançar todas
as nações da terra. Embora Israel tenha fracassado devido à sua insistente rebeldia, isso não
representou um fracasso do plano de Deus (WRIGHT, 2012, p.51). O ápice do plano seria
atingido no Novo Testamento através de Jesus, e a continuidade se daria através da igreja.

3.2.2 Missiones ecclesiae no Novo Testamento


Conforme exposto no tópico anterior, Deus é o autor da missão. Este Deus missionário
capacita e determina que a igreja faça missões, embora Ele não dependa exclusivamente da
igreja para tal. Assim, sob a direção do Espírito Santo, é encontrado no Novo Testamento o
movimento missionário da igreja primitiva.
Nos primeiros anos que sucederam a morte e ressurreição de Cristo, o movimento da igreja
permaneceu restrito a Israel. Não havia a intenção de se formar uma nova religião. Além
disso, os primeiros cristãos mantiveram hábitos judaicos, como a frequência ao templo e
sinagogas. Fato este, que só mudou após a destruição de Jerusalém em 70 d.C., conforme
afirma Bosch (2002, p. 64).
13

A respeito da evangelização dos gentios, Bosch (2002, p.64/5) afirma que havia certa
resistência dos cristãos judeus a esta prática. Desta forma, os primeiros gentios a se
converterem foram fruto da missão dirigida aos judeus, e aos mesmos era imposta a prática da
circuncisão. Neste contexto, a perseguição aos cristãos em Jerusalém representou uma
expressiva mudança do paradigma missionário na igreja primitiva. O texto a seguir descreve a
atmosfera que se desenvolveu contra os cristãos judeus: “Naquele dia, levantou-se grande
perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas
regiões da Judéia e Samaria” (At. 8:1).
A perseguição aos cristãos impulsionou a ação missionária entre os gentios. A partir
de então, deu-se início ao cumprimento da ordem de Jesus para que seus discípulos fossem
suas testemunhas em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra (At. 1:8). Duas das
principais igrejas no século I, Antioquia da Síria e Alexandria, são produto do acolhimento
dos cristãos perseguidos.
Sobre isto, Bosch (2002, p.66) afirma:
Assim, quando foram expulsos de Jerusalém, começaram naturalmente a
pregar entre samaritanos desprezados, bem como entre os gentios na Fenícia
e Síria, chegando até Antioquia. Era igualmente natural que eles
proclamassem um evangelho que não exigia mais a circuncisão e a
observância da lei ritual.
Bosch (2002, p.71) destaca alguns aspectos da missão da igreja primitiva, que não se
restringia à proclamação. Ele afirma que “a missão cristã primitiva era política e de fato
revolucionária”. Essa revolução, no mundo greco-romano, se caracterizava pela rejeição dos
deuses pagãos e apresentação de Jesus como verdadeiro Senhor. Ao fazer isso, a igreja
primitiva estava também abalando estruturas políticas.
Também houve benefícios sociais alcançados pela ação da igreja, através dos novos
relacionamentos que surgiam a partir de sua missão: “Judeus e romanos, gregos e bárbaros,
livres e escravos, ricos e pobres, mulheres e homens aceitavam uns aos outros como irmãos e
irmãs” (BOSCH, 2002, p.71).
Essa análise da missão da igreja, tendo por base o Antigo e Novo Testamento, conduz
à reflexão sobre a abrangência missionária na atualidade. Tem-se dado uma ênfase quase
exclusiva à missão kerigmática, deixando-se de lado os outros aspectos que ela deve abranger.
Entretanto, fica evidente na história bíblica a amplitude que as missiones ecclesiae devem
alcançar. É necessário um olhar integral sobre toda a criação.

3.3 Contexto histórico das missiones ecclesiae


14

Ao longo da história, a compreensão da Igreja acerca da missão sofreu diversas


modificações. Estas modificações de pensamento foram acompanhadas por mudanças nos
métodos de evangelização empregados pela igreja.
O pensamento de Agostinho teve um grande impacto na missão do período medieval,
conforme afirma Bosch (2002, p. 266). Uma das suas contribuições se deu na refutação ao
pensamento pelagiano. Pelágio afirmava que o ser humano não necessitava de redenção,
sendo Cristo apenas um modelo a ser imitado, não o Salvador. Seu pensamento expressava
otimismo em relação à natureza humana, afirmando que esta poderia atingir a perfeição. “A
isso Agostinho contrapôs as doutrinas do pecado original e da predestinação (BOSCH, 2002,
p.266/7)”. Agostinho defendeu a justificação pela fé. A completa depravação humana exigia
uma conversão mediante o encontro com a graça irresistível de Deus em Cristo.
Outra contribuição de Agostinho se deu através de sua oposição aos donatistas. Estes
protestavam contra os pecados dos líderes eclesiásticos e a união entre a Igreja e o Estado.
Embora Agostinho não tenha tentado declarar a igreja inocente, ele refutou o pensamento
donatista. Bosch, assim descreve a contraposição de Agostinho:
Agostinho insistia que a igreja não era um refúgio do mundo, mas que ela
existia em prol de um mundo sofredor. Todos, incluindo “as boas pessoas da
igreja”, eram pecadores, e a autopresunção dos donatistas podia ser pior que
os pecados dos outros. [...] Como a igreja mundial, fundada pelos apóstolos,
constituía a única igreja verdadeira, quem quer que a abandonasse estava
obviamente equivocado; as pessoas que rompiam seus vínculos com a Igreja
Católica também desfaziam sua relação com Deus (BOSCH, 2002, p.268).
Assim, conclui-se que a missão estava intimamente ligada à autoridade e santidade da
igreja. Esse pensamento culminou no uso de métodos coercitivos para a conversão de pessoas
à Igreja Católica. Esses métodos iam de multas a torturas, como demonstra Bosch (2002, p.
275). No tempo de Carlos Magno, até a morte era aplicada aos que abandonassem a Igreja
(BOSCH, 2002, p.277).
Bosch (2002, p.279) assevera que “durante a maior parte da Idade Média a Europa se
encontrava praticamente ilhada [...]”. O islamismo encontrava-se em expansão, deixando a
Europa basicamente isolada do resto do mundo. Essa situação começou a mudar no final do
século XV, com a colonização de povos não cristãos na África, América e Ásia. Foi
desencadeada uma era missionária. Neste período, de acordo com Bosch (2002, p.281), o
termo “missão”13 passou a ser aplicado ao envio de agentes eclesiásticos às colônias, para a
propagação da fé católica.

13
Até então, outros termos eram empregados para se referir à atividade missionária da
Igreja, como descreve Bosch (2002, p.281): “[...] ‘propagação da fé’, ‘pregação do
15

“O ‘missionário’ estava irrevogavelmente conectado a uma instituição na


Europa, da qual ele ou ela derivava o mandato e o poder de conferir salvação
às pessoas que aceitavam certos princípios de fé” (BOSCH, 2002, p.281).
Nota-se que, neste período, a missão não possuía uma base cristocêntrica. Seu objetivo
era a propagação de uma instituição, a Igreja Católica. Na prática, não se aplicava o princípio
de Deus como Senhor da missão. Tampouco havia zelo pelas Escrituras como norteadoras
dessa missão. A Reforma Protestante transformou este cenário.
A Reforma voltou-se para as Escrituras. Seu ponto de partida para a teologia era a
justificação pela fé, destacando a subjetividade da salvação (BOSCH, 2002, p.295). Embora
algumas pessoas afirmem que durante a Reforma não havia uma preocupação com a missão,
pode-se dizer que ela foi um movimento intrinsecamente missionário, uma vez que um dos
pressupostos era fazer com que todas as pessoas tivessem livre acesso às Escrituras. Além
disso, Bosch (2002, p.299) destaca alguns aspectos dos pensamentos dos reformadores que
demonstram o interesse pela missão:
[...] no caso de uma pessoa cristã se encontrar em um lugar onde não há
outros cristãos, ‘ela teria a obrigação de pregar e ensinar o evangelho aos
pagãos ou não-cristãos em erro motivada pelo dever do amor fraterno,
mesmo que nenhum ser humano a tivesse chamado a fazê-lo [...] (LUTERO
apud BOSCH, 2002, p. 299).
De acordo com Bosch (2002, p.300), “Calvino, por seu turno, foi mais explícito,
especialmente porque sua teologia levou mais a sério a responsabilidade do crente no mundo
que a de Lutero”. Para Calvino, a igreja é a intermediária entre Cristo e a ordem secular.
Assim, a missão da igreja deve visar estender o reinado de Cristo, através da renovação
espiritual pessoal e transformação da terra, “[...] plenificando-a com ‘o conhecimento do
Senhor’. (BOSCH, 2002, p.313)”. A própria doutrina da predestinação, interpretada
adequadamente, leva a um envolvimento missionário, uma vez que, de acordo com Bosch
(2002, p.315) “os eleitos de Deus não podem permanecer de braços cruzados”.
A teologia Calvinista dava ênfase à soberania de Deus. O propósito das missões,
baseadas no pensamento calvinista, até meados do século XVII, era fazer com que Deus fosse
o governante efetivo do sistema sociopolítico (BOSCH, 2002, p.316). Este ideal teocrático
sucumbiu com o despontar do iluminismo.
De acordo com Bosch (2002, p.320), a era iluminista, que pregava o domínio da razão
em detrimento da fé, iniciou-se no século XVII. Segundo o autor, quase tudo que aconteceu
no protestantismo desde o século XVIII teve influência do iluminismo. Contudo, este período
trouxe uma onda de empreendimento missionário, fazendo surgir diversas sociedades

Evangelho’, ‘proclamação apostólica’, ‘promulgação do evangelho’, ‘estender a fé’, ‘expandir


a igreja’ [...]”.
16

missionárias denominacionais, interdenominacionais, não-denominacionais e


antidenominacionais (BOSCH, 2002, p.395).
No século XX, a compreensão sobre a missão cristã apresentava fundamentos
equivocados. Bosch (2002, p.23) declara: “Por meio de tal raciocínio circular, o sucesso da
missão cristã tornou-se o fundamento da missão. Outras religiões eram consideradas
moribundas; todas elas iriam desaparecer em breve”. Esse raciocínio levou a uma conclusão
triunfalista, no ano de 1900, de que até 1990 o mundo inteiro seria conquistado pela fé cristã.
Bosch destaca ainda algumas compreensões equivocadas da igreja a respeito da missão
na década de 50:
Ela designava: a) o envio de missionários a um território especificado; b) as
atividades empreendidas por tais missionários; c) a área geográfica em que
missionários atuavam; d) a agência que expedia os missionários; e) o mundo
não cristão ou “campo de missão”; ou f) o centro a partir do qual os
missionários operavam no “campo de missão” [...] (BOSCH, 2002, p.17).
Esta concepção evidencia a supervalorização da Igreja como a propulsora da missão.
O fato de a previsão triunfalista feita em 1900 não estar surtindo efeito mudou o quadro de
confiança para mal estar entre os círculos missionários. Em vez da conquista de todo o
mundo, o que a Igreja estava presenciando no século XX era uma crise.
Esta crise, de acordo com Bosch (2002, p.19) não se manifestou apenas no âmbito da
missão, mas em todas as esferas da Igreja. Dentre os principais fatores destacados por Bosch
(2002, p.19), em que a crise se manifesta, está o avanço tecnológico que levou à
secularização. As pessoas não mais viam sentido em se buscar a Deus, já que poderiam sanar
as exigências da vida moderna através da tecnologia. A descristianização do ocidente foi
responsável pelo mundo se tornar pluralista no que tange à religião.
A tentativa da Igreja de agir fundamentada em si mesma revela na história, por vezes,
uma frustração de suas metas. Tais fatos demonstram mais uma vez que a Igreja está em
missão pela força e por causa da missio Dei. Desviando-se deste princípio, a realização eficaz
da missão fica comprometida.

4 CONCLUSÃO

Neste artigo foram apresentados os princípios bíblicos que norteiam as missiones


ecclesiae em plena harmonia com a missio Dei. Foi feita também, uma breve descrição
histórica do desenvolvimento da missio Dei e das missiones ecclesiae, pontuando as atuações
positivas e negativas da Igreja nesta sua trajetória missionária.
17

Durante a pesquisa, buscou-se evidenciar o fato de que a igreja precisa ser submissa a
Deus no cumprimento de sua missão. Quando ela age de forma contrária, promovendo a si
mesma ao invés do Reino de Deus, compromete-se o objetivo principal da missão, que é a
glória divina. Procurou-se ainda, demonstrar que as atribuições missionárias concedidas por
Deus à Igreja vão além da chamada “Grande Comissão”, visando transformação do ser
humano, da sociedade e do cosmos de maneira integral.
No que tange à missio Dei, observou-se que a iniciativa da missão parte de Deus. Sua
atuação missionária pode ser percebida em toda Escritura. Esta missão possui um
desdobramento trinitário: O Pai planeja a obra redentora, o Filho executa esse plano
entregando-se na cruz e o Espírito Santo aplica esse plano ao coração do ser humano. O fim é
a redenção não apenas do ser humano, mas de todo o cosmos, sendo todas as coisas
convergidas em Cristo. Através da missio Dei, serão restabelecidos todos os âmbitos das
relações corrompidas pelo pecado: do ser humano com Deus, consigo mesmo, com seu
semelhante e com a criação.
Quanto às missiones ecclesiae, conclui-se que devem ser submissas à missio Dei, uma
vez que a Igreja não é a fundadora da missão, mas agência de Deus para sua realização. Essa
submissão implica na rejeição de uma ação missionária eclesiocêntrica e na busca da
realização do propósito da missio Dei, que é redimir não apenas o ser humano, mas todo o
cosmos. Para tanto, a Igreja deve empenhar-se em promover o Reino de Deus, não apenas
através de palavras, mas também por atitudes que reflitam sua presença transformadora na
terra. Estas atitudes foram demonstradas neste trabalho através da explanação da diversidade
de funções para as quais Deus envia a Igreja. Com a Igreja agindo assim, Deus é glorificado
em sua soberania sobre toda a criação.
O intuito final deste artigo foi avaliar, à luz dos conceitos da missio Dei e das
missiones ecclesiae, os aspectos positivos e negativos do engajamento missionário da Igreja
hoje. Espera-se que o mesmo possa contribuir para uma atuação missionária mais efetiva da
igreja. Por fim, é válido destacar que, em nenhum momento houve a pretensão de esgotar esse
importante assunto. A diversidade igrejas locais e as inúmeras atividades desenvolvidas pela
Igreja em missão deixam aberto um vasto campo para a realização de outros estudos.

REFERÊNCIAS

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18

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