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Argumentação e filosofia

Argumentação, verdade e ser


Verdade e Verosimilhança
O conflito entre a filosofia platónica e a sofística tem por ase duas conceções de verdade:
Sofistas
 Enquanto os sofistas consideravam a verdade como resultado de um ponto de vista sobre a
realidade (uma tese “verdadeira”, seria, por conseguinte, não a que traduzisse o modo como
o mundo é, mas a que convencesse mais pessoas).
Platão
 Para Platão, pelo contrário, a verdade é apenas uma; ela é “visão” da realidade captada
pela razão humana, sendo o filósofo aquele que acede o modo privilegiado a essa visão do
mundo.
A argumentação retórica situa-se na esfera do verosímil (aquilo que parece ser), enquanto a
argumentação filosófica visa a procura da verdade (aquilo que é).

Caracterização da argumentação filosófica


A filosofia é uma atividade argumentativa que procura a verdade e busca fundamento para o real.
 A argumentação é o instrumento e o método privilegiados da atividade filosófica, uma vez
que as teses e teorias dos filósofos têm de ser sustentadas de maneira racional. Os
argumentos servem para sustentar racionalmente as ideias e as teses, defendê-las e justifica-
las de modo válido e convincente e procurar a sua aceitação por via de uma persuasão
racional.
 A argumentação propriamente filosófica deverá ser distinguida da argumentação retórica.
O que determina a eficácia da retórica é a adesão do auditório a uma tese ou opinião; o
que determina a verdade das teses e doutrinas filosóficas é o facto de permitirem um efetivo
conhecimento da realidade.
 É claro que também os filósofos buscam a aceitação das suas teses, e para isso servem-se
de algumas técnicas e estratégias do domínio da retórica. No entanto, em filosofia, a
aceitação não é imposta por meio de estratégias persuasivas, é proposta por meio de
argumentos; é refletida, discutida e avaliada criticamente.
O que é um bom argumento?
 O que a entende a filosofia por bom argumento? Será um argumento válido? Será um
argumento sólido? Como já estudámos, um argumento válido pode ser “bom” do ponto de
vista formal, mas revelar-se “mau” do ponto de vista material, isto é, se as suas premissas
forem todas falsas. Vimos que a lógica formal não atende ao conteúdo dos argumentos,
mas que apenas a forma é relevante para a sua avaliação.
 Um argumento sólido é aquele que para além de ser válido também tem premissas
verdadeiras, vimos que a validade preserva a verdade da conclusão no caso de partirmos de
premissas verdadeiras.
 Os argumentos sólidos só são considerados bons argumentos quando são, simultaneamente,
convincentes. Um bom argumento, ou argumento cogente, é assim um argumento sólida e
que, para além disso, tem premissas mais plausíveis do que a conclusão. Num argumento
cogente, somos levados a aceitar a conclusão também devida ao poder persuasivo das
premissas. Para além de ser válido e de ter premissas verdadeiras, um bom argumento é
um argumento convincente.
 A procura da verdade através de bons argumentos é justamente o objetivo da filosofia e o
horizonte de sentido da atividade filosófica. A verdade não é, todavia, algo que nos seja
dado, mas um processo contínuo de procura daquilo que é.
Conceções de verdade
A conceção clássica de verdade – a verdade como correspondência
 Chamamos a conceção clássica de verdade à conceção segundo a qual a verdade é uma
correspondência entre o pensamento e a realidade, ou entre a representação e o ser.
 Segundo esta conceção, que remonta à filosofia grega clássica, um juízo é verdadeiro se o
que anuncia corresponde ou se adequa a um estado de coisas reais.
Outras conceções de verdade
 Teoria da verdade como coerência
A verdade de uma proposição é aferida pela relação que estabelece com outras proposições
verdadeiras num dado sistema. A característica que tais proposições mantêm entre si é a
“consistência”. As proposições são consistentes se não são contraditórias entre si.
 Teoria pragmática da verdade
Segundo esta teoria, as crenças e as convicções, para serem verdadeiras, têm de ter
consequências adequadas, isto é, têm que funcionar ou de ser úteis. A verdade de uma
proposição (ideia, tese ou doutrina) está dependente do sucesso que ela pode ter, ou seja,
dos seus efeitos práticos.

Descrição e interpretação da atividade cognoscitiva


Estrutura do ato de conhecer
Definição
Teoria do conhecimento é a disciplina que investiga a natureza do conhecimento, a sua origem e
a sua possibilidade.
Estrutura do ato de conhecer:
No conhecimento estão presentes: um sujeito (sujeito cognoscente), um objeto (objeto cognoscível)
e uma relação (conhecimento). Portanto, conhecer é uma ato pelo qual um sujeito apreende ou
representa um objeto.
O sujeito e o objeto são entidades distintas:
 O sujeito é a entidade que apreende e interpreta os dados do mundo exterior à mente;
 O objeto é qualquer realidade apreendida pelo sujeito e passível de ser conhecida; da
apreensão do objeto resulta a sua representação, pois o objeto passa do exterior ao interior
do sujeito.
O processo de conhecimento:
Condições para que haja conhecimento de alguma coisa:
 Contato ou relação entre sujeito e objeto;
 Órgãos de sentidos, que recebem estímulos do meio e os transmitem ao sistema nervoso
central;
 Unificação ou configuração dos dados.
Diferentes faculdades humanas envolvidas no ato de conhecer:
 Sensação: recebe os dados/informações, ou matéria a organizar, através dos órgãos de
sentido.
 Perceção: descodifica, classifica e organiza os dados sensoriais, formando imagens.
 Razão/entendimento: estabelece relações logicas entre os dados percetivos; elabora
representações mentais abstratas, leis e teorias para explicar e compreender o funcionamento
da realidade.
Uma definição de conhecimento
Podemos distinguir três tipos de conhecimento:
 O conhecimento de aptidão, ou “saber-como”;
 O conhecimento por contacto, ou “conhecer algo ou alguém”;
 O conhecimento proposicional, ou “saber que”, normalmente definido como conhecimento
expresso por uma proposição do tipo “S sabe que P”, em que “S” é o sujeito do
conhecimento e “P” é o objeto do conhecimento expresso numa proposição.

O conhecimento como crença verdadeira justificada


Platão é um defensor da conceção tradicional de conhecimento. Num dos seus diálogos debate a
definição de conhecimento e analisa as condições para que haja conhecimento, afirmando que o
saber é opinião verdadeira acompanhada de explicação (logos).
Condições para que haja conhecimento
Crença, verdade e justificação
Três condições para que haja conhecimento (definição tripartida de conhecimento):
 A existência de uma crença;
 A verdade dessa crença;
 A justificação da crença.
Discussão da definição tradicional de conhecimento
O filósofo Edmund Gettier apresentou argumentos que desafiam a condição tripartida de
conhecimento como crença verdadeira justificada. Tentou demonstrar que as três condições
apresentadas podem não ser suficientes para que se possa afirmar que existe conhecimento do tipo
“S sabe que P”, apresentando contraexemplos:
 Mostra como uma crença que preenche os três requisitos considerados suficientes para que
haja conhecimento pode afinal não significar conhecimento;
 Mostra embora possa aparecer que existe justificação para as crenças verdadeiras
apresentadas, em determinados casos tal justificação não é válida e só por acaso ou
acidentalmente corresponde à verdade.

Descrição e interpretação da atividade cognoscitiva


Teorias explicativas do conhecimento
De onde provêm as ideias e princípios a partir doa quais se constrói o
conhecimento?
 O racionalismo de René Descartes;
 O empirismo de David Hume;
 O apriorismo de Immanuel Kant
O racionalismo de René descartes
Descartes relata no discurso do Método (1637) como contruiu o seu sistema filosófico. Adotando
provisoriamente o ceticismo, usou a dúvida até encontra os fundamentos de todo o conhecimento
verdadeiro, uma dúvida metódica, universal, hiperbólica, radical e provisória.
A dúvida conduziu-o a uma primeira certeza: a existência de um “eu”, cuja natureza é pensante.
“Penso (cogito), logo existo” foi a primeira verdade e princípio da sua filosofia. Este cogito é de
natureza mental e a certeza da sua existência é evidente, enquanto penso.
Partindo da justificação do cogito como primeira certeza, adotou o seguinte critério de verdade:
são verdadeiras todas as proposições evidentes, isto é, percebidas como claras e distintas como a
existência do cogito.
Em seguida, descobriu a imperfeição da sua natureza em comparação com a ideia de perfeição e
que o cogito pode criar ideias de coisas exteriores ao pensamento, mas não poderia ter criado a
ideia de “ser perfeito”.
Isto permitiu-lhe apresentar como causa da ideia inata de “perfeição” um “ser perfeito” que só
pode ser Deus. Considerou a existência de Deus a da alma mais certa do que a existência dos
seres corpóreos. Não sendo criação da mente, a existência de Deus só pode ser uma ideia inata
e indubitável.
As ideias inatas fazem parte da estrutura da própria razão e não são adquiridas pelas experiencia.
Além das ideias inatas, Descartes distingue outros dois tipos de ideias que a razão não garante
que sejam verdadeiras: as ideias adventícias e as ideias factícias. A existência de Deus é garantia
da indubitabilidade do critério da evidencia, o critério de verdade que adotou.
O empirismo de David Hume
Enquanto o racionalismo de Descartes realçou importância da razão no conhecimento, David
Hume sublinhou o papel da nossa experiencia, que principia pelas sensações, fonte a partir da
qual podemos ambicionar alcançar algum conhecimento.
Segundo Hume, as perceções (impressões e ideias) são as unidades básicas da vida mental. As
impressões são as unidades básicas da vida mental. As impressões são as perceções originais –
vivas e intensas; as ideias são cópias das impressões – menos vivas e menos intensas.
A partir das impressões, a nossa mente cria livremente todo o tipo de ideias, desde as mais
familiares às de pura ficção.
Hume distingue entre relações de ideias e questões de facto.
Relações de ideias são operações da mente derivadas exclusivamente do pensamento: este é o campo
das ciências matemáticas, que fazem uso do raciocínio dedutivo e da demonstração. Questões de
facto, ou conhecimento de factos, versam objetos do mundo.
Para Hume, o conhecimento da relação de causa-efeito não é de ordem racional e a causalidade
não é um princípio a priori, isto é, independente da experiência. A relação que estabelecemos entres
as coisas do mundo empírico não é fruto da experiencia sensível nem do raciocínio, mas unicamente
do hábito.
Hume:
 Contesta a definição vulgar de causalidade como conexão necessária entre dois
acontecimentos, em que um é a causa e outro o efeito;
 Considera que a indução, o nexo logico entre premissas e conclusão não é necessário, logo,
não nos garante de qualquer certeza sobre o futuro. Assim, o conhecimento não é certo,
mas apenas provável.
A mente limita-se a associar certos eventos a outros por força do hábito. O que nos faz
esperar que o futuro se assemelhe ao passado é a crença no princípio da regularidade da
natureza;
 Critica o racionalismo cartesiano pois não admite a existência de ideias inatas (no sentido
cartesiano) nem auto-evidentes.
O apriorismo de Emmanuel Kant
Qual a origem do pensamento? Certamente, a experiencia. Mas só a experiencia? Não existe
em nós uma capacidade para conhecer com atividade própria, independente de todas as impressões
dos sentidos? Se existir é a priori, e não empírico, a posteriori.
Um conhecimento (de um sujeito) só se pode referir a objetos mediante uma intuição; para que
haja conhecimento é necessário que um objeto afete o sujeito de algum modo.
A capacidade (ou faculdade) de receber representações chama-se sensibilidade; a sensibilidade fornece
intuições (representações sensíveis) obtidas através da experiência sensorial.
O entendimento é a faculdade de pensar os objetos fornecidos pela sensibilidade. O entendimento
produz conceitos puros.
O conhecimento provém de duas fontes:
 As impressões recebidas através da sensibilidade (matéria) – dá-nos o objeto do
conhecimento;
 Os conceitos espontâneos do entendimento (forma) – o conhecimento resulta da união da
matéria com a forma.
Os elementos do conhecimento são as intuições e os conceitos. São empíricos quando provêm de
experiência. São puros quando não provêm da experiência.
A intuição empírica (que provém da experiência sensorial) é o elemento a posteriori; o conceito
puro (que provém da atividade espontânea do entendimento) é o elemento a priori. Um conceito
sem intuição e uma intuição sem conceito não geram conhecimento.
A sensibilidade é a recetividade ou passividade do espírito; o entendimento é a atividade ou
espontaneidade do espírito.
A intuição é sempre sensível; o entendimento pensa ativamente o objeto dado na intuição. As duas
faculdades têm a mesma importância e só se produz conhecimento se atuarem conjuntamente.
O pensamento sem intuição é vazio, a intuição sem o conceito é confusa. O conhecimento resulta
da união das duas faculdades.
Assim sendo, o sujeito possui, quer ao nível da sensibilidade, quer ao nível do entendimento,
condições que tornam possível o nosso conhecimento. Estas condições moldam o nosso conhecimento,
pelo que só temos acesso ao que a realidade é para nós e não ao que ela é em si mesma.
Para Kant:
 O conhecimento tem uma natureza dupla: uma parte empírica, uma parte racional;
 A origem do conhecimento reside tanto na experiencia sensorial que fornece a matéria do
conhecimento, a posteriori, como das formas ou conceitos puros do entendimento, a priori;
 Dado que o objeto cognoscível nos é dado através da experiencia, isto é, através da captação
que a sensibilidade faz do objeto real, não podemos conhecer o que as coisas são em si
mesmas; só podemos conhecer o modo com elas nos são dadas, ou seja, o que as coisas são
para nós.
Estatuto do conhecimento científico
Conhecimento vulgar e conhecimento científico
O senso comum
O conhecimento vulgar (ou senso comum) permite-nos uma adaptação ao meio envolvente, a
resolução de problemas do dia a dia e fornece uma razoável grau de orientação para a vida. Porém,
não nos dá uma explicação e uma compreensão da verdadeira natureza da realidade, por ser
elaborado a partir das informações sensoriais e da experiencia acumulada, sem fundamentação nem
justificação racional.
O conhecimento científico
Para compreendermos o que se passa no universo, temos de combinar a informação que os sentidos
nos fornecem com o discernimento que o poder do raciocínio nos dá. É isto o que a ciência faz.
A ciência:
 Só começou verdadeiramente no a partir do século XVII, com Galileu e Newton;
 Na sua versão moderna, mudou a atitude do investigador, que descobriu que as coisas
não são como parecem ser e que é preciso investigar; usa novos procedimentos
metodológicos (método científico); tais procedimentos permitiram novas interpretações
dos dados e o processo da ciência;
 Resulta de esforço intelectual para desconstruir a imagem do mendo elaborada a partir
da perceção sensitiva;
 Consiste num processo metodológico que dá garantia de verdade;
 Torna a crença objetiva, discursiva e fundada em razões;
 Exige justificação, ou seja, demonstração e fundamentação da crença;
 Teve e tem ainda de corrigir ou substituir algumas das soluções (teorias) a que tem
chegado, apesar da sua preocupação metodológica e da procura do rigor.
Com base na compreensão científica do mundo é possível prever e modificar o seu funcionamento.
A ciência acrescenta critério metodológico, rigor e maior capacidade preditiva ao conhecimento
vulgar.
Características da ciência
Definição Justificação
A ciência é uma…
…construção racional Porque é uma interpretação lógico-racional dos dados.
…análise metódica e objetiva dos Porque define um objeto específico de investigação.
fenómenos
…explicação operativa Porque é um conjunto de procedimentos repetíveis.
…aproximação sucessiva Porque a verdade científica nunca é definitiva, está sujeita
a revisão ou substituição.
…explicação precisa, rigorosa e Porque usa um método; é uma linguagem unívoca; define
prática os conceitos; tem aplicação.