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http://dx.doi.org/10.

1590/2238-38752016v6310

i
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),
Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP),
Rio de Janeiro, RJ, Brasil
jmdomingues @ iesp.uerj.br

José Maurício DominguesI

WEBER, FRANKFURT, GABRIEL COHN

Cohn, Gabriel. (2017). Weber, Frankfurt:


teoria e pensamento social 1.
Rio de Janeiro: Azougue, 272p.

Uma obra, nas ciências sociais, nas para problemáticas e conceitos que
ditas ciências humanas de modo geral, muitas vezes somente depois outros
se faz tateando. Não que ao menos pesquisadores, até mesmo de gerações
alguns autores não se ponham ques- futuras, conseguem vislumbrar em sua
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tões cujo enfrentamento por vezes potência e potencialidade.


atravessa sua vida toda, ao contrário. Teço esses comentários em função
Mas, como observa Gabriel Cohn em da próxima publicação dos ensaios
páginas do livro a que esta resenha se reunidos de Gabriel Cohn, em três vo-
dedica, eles não sabem necessaria- lumes – Weber, Frankfurt. Teoria e pen-
mente o que fazem, conforme mesmo samento social, em especial de seu vo-
a citação bíblica que o decano brasi- lume 1, ao qual outros dois virão
leiro da teoria sociológica mobiliza. juntar-se. Finalmente teremos reunida
Quer dizer, isso é o que ocorre com os a maior parte de seus textos, dispersos
autores particularmente significativos, em livros e revistas variados, e será
capazes de compor obra complexa e possível ter uma visão de conjunto de
multifacetada, na qual o que encon- sua obra. Isso se acrescenta à reedição
tramos usualmente é um misto de recente de seu brilhante Sociologia da
clareza quanto a seus propósitos e comunicação: teoria e ideologia (Cohn,
certa opacidade em relação ao que 2014), que ficou durante muitos anos
efetivamente fazem – em termos de indisponível no mercado, ao que se
limitações e sobretudo de aberturas soma sua já mais facilmente encon-
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trável clássica leitura da metodologia em particular verdadeiro no que se


e teoria weberianas, Crítica e resigna- refere a seus textos de teoria mais ge-
ção: fundamentos da sociologia de Max rais, os quais se completam com con-
Weber (Cohn, 2003). Assim, será mais tribuições mais diretamente vincula-
fácil começar a tratar exatamente das das à realidade brasileira, em que al-
questões que coloquei no parágrafo gumas preocupações distintas pare-
anterior. Ou seja, poder-se-á iniciar o cem manifestar-se, ao passo que ou-
esforço de análise de sua obra em am- tros reafirmam suas preocupações
bos os sentidos mencionados: quanto gerais com foco nessa realidade espe-
aos objetivos que Cohn se pôs ao lon- cífica. Se a questão da “civilização”
go de uma vida intelectualmente in- contemporânea figura em sua genera-
tensa que – agora pode-se ter mais lidade em vários textos, com destaque
clareza disso – se traduz em um con- para os processos de inclusão/exclu-
junto articulado de ideias e textos, são que a caracterizam, em outros
bem como naquele excesso, por assim desloca-se o acento para nossa reali-
dizer, que empresta a seu pensamen- dade, por meio de temas como o de-
to denso ainda outros significados que senvolvimento e a relação entre im-
certamente comporão seu legado per- punidade, punição e civilidade, confi-
manente à sociologia e à teoria crítica gurando intervenções sobre questões
brasileiras mais diretamente e ao pen- que afligem um país que busca o fu-
samento sociológico e crítico de modo turo sem saber muito bem em que
geral. Seja como for, o ponto de par- afinal consiste sua própria moderni-
tida para sua obra é, quase de modo dade, cuja face é criticamente exami-
explícito, uma perspectiva plebeia, se nada nesses ensaios. Se a barbárie não
levamos a sério, como de fato deve- é exclusividade nossa, de modo algum
mos, sua oposição entre ela e uma e para além, obviamente, do ociden-
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outra visão, com a qual não se iden- tocentrismo, hoje cada vez mais in-
tifica, de estirpe aristocrática (oposi- sustentável, aqui apresenta peculiari-
ção mais precisa hoje provavelmente dades que possibilitam, sem falsos
que aquela que opõe pensamento pro- paradoxos, uma leitura de cunho uni-
letário e burguês, como na versão ori- versal. Nela poder de Estado e capita-
ginal da teoria crítica, ainda que as lismo predador não poderiam senão
pseudoaristocracias contemporâneas se destacar. Deve-se sublinhar que
montem mais em cima diretamente mais adiante o confronto com o pen-
do dinheiro e do poder político do que samento social brasileiro permitirá
outrora). uma visão mais ampla dessas ques-
Na introdução a esses volumes, tões em sua obra.
Cohn remete à chave analítica que Vale notar que aqui temos também
propus para o entendimento de sua uma inflexão na direção de um enga-
obra – indiferença e dominação (Domin- jamento mais direto com a tradição
gues, 2011). Creio que o diagnóstico marxista. Ela completa o círculo de
que propus se justifica com uma visão fogo de sua análise da teoria crítica
mais ampla de sua produção. Isso é frankfurtiana, sobretudo Adorno, e de
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Weber, cujas obras se situam no cen- Do mesmo modo, no confronto en-


tro das análises de Cohn. Não que es- tre Weber e Gramsci, retorna ao deba-
ses autores não estejam presentes te o tema do poder, da legitimidade e
aqui, muito ao contrário. São vários do que o primeiro definia, em sua
os textos que os focalizam, individual- própria língua alemã, como Gewalt e
mente, em confronto com outros au- Gewaltsamkeit, termos de difícil tradu-
tores (por exemplo de Weber com To- ção (força, violência, poder também,
cqueville), ou no que tange a temas ainda que com ressonâncias distintas
específicos, como poder, a comunica- das de Macht), dos quais uma fina e
ção ou a indústria cultural, preocupa- inovadora análise é proposta. Assim,
ções também perenes de Cohn. Mas a indiferença e dominação, pode-se di-
eles se juntam análises como sempre zer, retornam e se abrem para com-
finas e densas de Marx e de Gramsci, plementos em que cintilam por exem-
a forma no primeiro, o poder e a he- plo a ideia de hegemonia e questões
gemonia no segundo (em confronto, do pensamento político estratégico. De
mais uma vez, com Weber). resto, essa é questão-chave da moder-
De certa forma, temas frankfurtia- nidade política, à qual ambos esses
nos – com a questão da experiência, clássicos e o autor aqui em tela se
que Cohn retém em detrimento, ex- dedicaram com afinco, buscando ade-
plícito, da construção luckasciana da mais vinculá-la à prática, sobretudo
consciência revolucionária do prole- no que concerne ao intelectual comu-
tariado – orientam, a meu ver de for- nista italiano, ainda que no final da
ma precisa em especial no caso em vida a Weber importasse enormemen-
tela, aquela discussão sobre a forma. te como essas questões se desdobra-
Traz-se para diante do palco o que é vam na República de Weimar.
em grande medida uma temática for- Outros textos completam o volu-
temente kantiana, ainda que Hegel me, sobre temas mais específicos. In-
seja mobilizado de forma mais explí- cluem eles a identidade, a temporali-
cita ao longo do ensaio, uma vez que dade, a música e a racionalização em
tempo e dialética se acham no centro Weber, a sociedade da informação
também da análise. Isso se verifica, (em que a questão da forma retorna,
em primeiro lugar, quando a forma ao passo que o tempo se coloca como
oferece um núcleo mediante – e “me- central também na análise da forma
diação” é, como não poderia deixar de em Marx).
ser, essencial em sua análise – o qual Em suma, vários são os temas, cen-
a experiência se organiza, definindo trais e reiterados os eixos, a partir dos
aquilo que absorvemos e como cons- quais se constrói a obra de Cohn, so-
truímos a realidade, seletivamente bretudo se damos atenção aos dois li-
(“reduzindo a complexidade”, pode-se vros já citados nesta resenha, em que
dizer com Luhmann, cuja obra forne- o desassossego com a dominação e o
ce o foco de outro ensaio decisivo do poder, sua seletividade e característi-
volume, em confronto com o não me- cas específicas na modernidade, se
nos kantiano Simmel). mostra crucial. Creio que ele se rami-
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fica em outras preocupações mais par-


ticulares, que se apresentam nos di-
versos ensaios em que se retrata aqui
sua trajetória. Parece-me que Cohn
está ciente de ao menos grande parte
das questões que busquei brevemente
assinalar, embora essa seja uma leitu-
ra que se pode, entre outras, propor.
Como sugeri, isso oferece apenas o iní-
cio de uma análise que sua obra, agora
finalmente disponível de maneira mais
organizada, merece e à qual jovens
cientistas sociais poderão se dedicar
daqui para a frente, decerto fornecen-
do outras chaves de leitura e análises
mais amplas. Trata-se de iniciativa edi-
torial de grande importância para o
desenvolvimento da sociologia e do
pensamento crítico entre nós, tanto em
termos universais quanto no que se
refere a nossa autonomia intelectual.
A teoria sociológica e a teoria crítica
são tão nossas quanto de norte-ameri-
canos e europeus. Cabe a nós mesmos
dar-lhe produtividade em função dos
temas e questões que sobressaem em
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nosso meio, seja em termos de suas


particularidades, seja no que revela de
geral, sem perder jamais sua pretensão
à universalidade. Nesse sentido Cohn
nos dá uma bela lição de autonomia
intelectual e perspicácia teórica.

Recebida em 15/11/2016
Aprovada em 23/11/2016
resenha | josé maurício domingues

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cohn, Gabriel. (2014) [1973]. Sociologia da comunicação: teoria
e ideologia. Petrópolis: Vozes.
Cohn, Gabriel. (2003) [1978]. Crítica e resignação: fundamentos
da sociologia de Max Weber. São Paulo: Martins Fontes.
Domingues, José Maurício. (2011). Dominação e indiferença
na teoria crítica de Gabriel Cohn. In: Teoria crítica e (semi)
periferia. Belo Horizonte: Ed. UFMG.

José Maurício Domingues é doutor em sociologia pela


London School of Economics and Political Science (LSE) e
professor e pesquisador no IESP-UERJ. Entre seus últimos
livros encontram-se Teoria crítica e (semi)periferia (2011),
Modernidade global e civilização contemporânea: para uma
renovação da teoria crítica (2013), O Brasil entre o presente
e o futuro: conjuntura interna e inserção internacional (2a.
ed. revista e ampliada, 2015).