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JAMBURANA – tremor literário, ano um, número um, dezembro de dois mil e dezoito

Jamburana – tremor literário


EDITORIAL
O jornal literário Jamburana - tremor
literário é uma publicação bimestral
independente, colaborativa e gratuita
criada em 2018.
O TREMOR LITERÁRIO
EDITOR
Daniel Prestes da Silva
Jamburana, como também é conhecida a folha do jambú, é uma
REVISÃO erva típica do norte do Brasil. Muito utilizada na culinária dessa região,
Daniel Prestes da Silva
Carla C. Leão Pimentel suas folhas, ao serem mastigadas, dão uma sensação de formigamento,
o famoso “tremor no céu da boca”, sobre o qual canta Dona Onete, na
DIAGRAMAÇÃO música Jamburana, causando anestesiamento. É também considerada
Daniel Prestes da Silva uma erva daninha, infesta principalmente terrenos com solos úmidos e
ácidos.
CAPA
Jeniffer Yara Jesus da Silva Infestar a mente dos leitores com essa sensação de
formigamento é o que buscamos nesse periódico ao tratar de livros,
SITE resenhas, teoria literária, mercado editorial, leitura, dentre outras
jamburanaliteraria.wordpress.com várias áreas e questões que estão inseridas e dialogam com o campo
literário.
CONTATO / ASSINATURA
jamburanaliteraria@gmail.com Busca-se, também, formigar a mente do leitor, fazer com que as
substâncias literárias dessas páginas tenham o mesmo efeito que as
TWITTER: @JornalJamburana folhas de jambú: causem uma anestesia que, ao invés de fazer esquecer,
torne o local anestesiado como ponto de uma existência pulsante, mais
PARTICIPAM DESSA EDIÇÃO:
que notada, sentida como algo de primeira ordem.
O debate literário a partir do tremor que os livros são capazes de
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Daniel Prestes, editor da Jamburana e despertar nos leitores é o que propomos nessas páginas, na intenção de
mestrando em Estudos Literários pela criar um espaço democrático e de resistência, nos tornando assim as
UFPa. “ervas daninhas” que não permitem o engessamento do pensamento.
Fernanda Vieira de Sant’Anna,
doutoranda em Estudos de Literatura
pela UERJ.
Editor da Jamburana
Igor F. Gomes, escritor e idealizador do
Microcontos do Estômago.

Isabelle Pantoja, mestre em Educação


pela UEPa.

ÍNDICE
02 Editorial
03 Vamos tirar a poesia do Olimpo? | Isabelle Pantoja
04 Taxonomia do romance e o Campo Literário | Daniel Prestes da Silva
06 Palavras milenares: as literaturas indígenas em perspectiva | Fernanda Vieira
08 Uma aventura contra o fascismo no meio da floresta amazônica | Daniel Prestes da Silva
09 A hora da aventura | Igor F. Gomes
10 Entrevista - Roberta Spindler
JAMBURANA – tremor literário, ano um, número um, dezembro de dois mil e dezoito

VAMOS TIRAR A POESIA DO OLIMPO?*

OPINIÃO “Poesia não vende, pois a sociedade anda muito superficial, preocupada com
assuntos mais efêmeros e sem tempo para a profundidade que uma leitura de
poesia exige” | Por Isabelle Pantoja |

O que distingue a poesia de épocas diferentes? Ritual, mas eu pergunto: Quem disse isso?!
O que define sua singularidade para ser mais ou Na verdade, podemos pensar que os poemas
menos lida? Pensava eu, enquanto participava de são como deuses olímpicos, estão lá
um curso de editoração em que foi suscitada a aparentemente inalcançáveis por sua condição
seguinte questão: “Poesia não vende?”. E uma divina, mas não se deve esquecer que têm forma,
moça ao meu lado imediatamente concluiu com costumes e sentimentos como nós, meros mortais.
uma resposta e um porquê: Por isso, penso, a maioria dos leitores acredita
que é melhor não comprar um livro de poesia,
“Poesia não vende, pois a sociedade anda muito “porque não vai entender nada”. Talvez se os
superficial, preocupada com assuntos mais próprios leitores, poetas, críticos e todos que
efêmeros e sem tempo para a profundidade que gostam dessa arte tentasse desmistificar o ato de
uma leitura de poesia exige”. ler poesia, sua leitura fosse mais abrangente.
Os leitores de romance, por exemplo,
Claro que nessa pergunta, indiretamente, geralmente buscam uma história que os envolva, 3
estamos pensando na poesia enquanto leitura de que os transporte para outra realidade. Se eles se
entretenimento. Então, fiquei pensando na permitirem, em um livro de poesia há muito mais
assertiva da moça, a poesia não vende por esse que uma única história. E diferente de como ficou
motivo? Será?! consagrada, a poesia não é uma deusa cheia de
Sei que a poesia de cada época está relacionada pompa e mistérios.
aos costumes e à forma como ela (a poesia) fica Claro que esse cenário, de certa forma, vem
impressa na memória, assim, acredito que o sendo transformado; 2013 foi um ano em que
grande entrave dela, atualmente, é a forma como houve uma “febre poética” e até poeta virando
ficou guardada na memória da maioria das best-seller.
pessoas: uma arte erudita! A começar pelo Sim, tivemos um gás para a poesia! Porém,
primeiro contato do leitor com a poesia que, na ainda estamos longe de ver a poesia ser lida por
maioria das vezes, se dá no ambiente escolar. O um grande número de pessoas, como os outros
que não seria um problema, não fosse a maneira gêneros que não têm, principalmente, como carro-
historiográfica que a poesia é ensinada nas chefe em seus volumes, sucessos póstumos.
escolas, e que acaba fazendo com que ela seja A verdade é que para quem aceita a
lembrada por escolas literárias, autores aproximação com a poesia, ela torna-se uma
canônicos, e todo aquela blá blá blá que ao invés de viagem de descoberta, revelação de um gênero
conquistar, acaba afastando o leitor e impondo literário mal interpretado.
uma distancia às vezes sem volta. Até mesmo passeando pelas prateleiras de
O que dá pra perceber é que poesia acabou virando uma livraria, é possível ter um momento de
literatura para intelectuais (ou diria intimidade com um poeta, e ser laçado por um
pseudointelectuais?)! E aqui encontro a linha de poema despretensioso num livro perdido. Então,
pensamento que dá força ao discurso daquela porque não tirar a poesia do Olimpo? E permitir
moça: acredita-se que ler poesia requer uma acabar com as formalidades que foram,
preparação, um estado de espírito , quase um infelizmente, impostas para sua leitura.
ritual. *Originalmente publicado no blog Folhetim Felino em 21 de maio de 2015.
JAMBURANA – tremor literário, ano um, número um, dezembro de dois mil e dezoito

TAXONOMIA DO ROMANCE E O CAMPO LITERÁRIO

ENSAIO O mercado editorial trabalha com uma classificação que busca atrair a
atenção ou situar o leitor nas obras que se intende agradá-lo e, assim, fazer
vender | Daniel Prestes da Silva |

O romance enquanto gênero literário, apesar de completamente diferente.


algumas convenções estruturais mais ou menos Se em seu primeiro momento de circulação as
fixas, tem como sua característica a flexibilidade obras de Voltaire eram consideradas não-
de construção, já apontada em sua gênese, quando recomendadas à leitura, hoje em dia o que ocorre é
sem um modelo específico no qual se apoiar, a o movimento contrário. Ler estas obras se torna
nascente crítica literária utilizava de ferramentas um distintivo para o leitor, o alça à categoria de um
da retórica e da poética, ao lado de preceitos homem de erudição e letrado em muitos círculos
morais e de identidade nacional, para deles tecer literários.
comentários. Isso acontece pois o termo filosófico foi
No entanto, o caráter diverso do romance não apropriado pela crítica literária para denominar
se revela tão somente na sua conformação um tipo de texto que aborda questões sobre o
estrutural como também é evidenciado por nele os
mais diversos assuntos serem abordados. É em
Estado, a Igreja e a sociedade de maneira crítica e
reflexiva. 4
relação a essas aproximações temáticas que a Essa apropriação da crítica e elevação de
catalogação do gênero é feita. Essas aproximações muitos desses textos ao patamar de “boa”
criam toda uma taxonomia romanesca que agrupa literatura promove uma mudança também na
obras que têm uma estrutura narrativa ou um plot recepção desses escritos por parte dos leitores,
parecido. que é o distanciamento do leitor comum, com isso,
Contudo, dependendo da esfera do campo eles parecem perder o efeito subversivo. Claro que
literário, que toma para si o trabalho de classifica- outros fatores também influenciam e colaboram
los, o fará de acordo com os seus critérios com a apropriação da crítica não só da categoria,
próprios. É assim que a classificação feita pela como da absorção dos textos pela instituição
crítica literária se diferencia da feita pelo mercado escolar.
editorial. Isso acontece devido aos objetivos que Isso põe em evidência a dinâmica do campo
tais esferas do campo literário querem alcançar. literário no seu processo de consolidação como
Por exemplo, as obras consideradas como do pensado por Bourdieu, em seu As regras da arte,
tipo filosóficas no século XVIII e XIX eram aquelas em que o que será considerado como literário são
as quais havia algum tipo de censura, já que obras que reclamam para si o status de serem
atacavam a Igreja e o Estado, além, é claro, de aquelas que não são para todos e que são aceitas
abordarem enredos licenciosos e pornográficos. pelas Instituições de prestígio, como a crítica
Algumas dessas obras e desses autores hoje em literária e a escola. Coloca também o modo como a
dia são reconhecidos como clássicos e ainda dinâmica da recepção dos textos, para serem
constam sob a égide do filosófico, como os textos considerados literatura ou não, é mostrada por
escritos, por exemplo, de Voltaire, que se utilizou Casanova, em A República Mundial das Letras, que
de vários mecanismos para publicar os textos que aponta que o mercado editorial e a crítica literária
não recebiam a chancela do Rei da França. tem visões muito divergentes sobre a importância
Todavia, ainda que esteja sob a mesma dos textos.
classificação, o modo como esta é compreendida é
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Deste modo temos que, o mercado editorial os leitores, mas totalmente ignoradas pela crítica
trabalha com uma classificação que busque atrair literária mais acadêmica enquanto textos
a atenção ou situar o leitor nas obras em que se realmente importantes para a Literatura, tanto que
pretende agradá-lo e fazer vender, como são os nem classificação para o gênero há, podendo com
casos da classificação de romances com os quais muito custo, talvez, considerá-los como romances
El Far trabalha em Páginas de Sensação, em que românticos.
livros sob a taxonomia romanesca de “romances Nada tem se comparado ao efeito que os
para homens” indicavam que os temas ali romances YA (sigla de Young Adult) têm tido nos
abordados contrariavam os valores morais do XIX últimos anos dentro do mercado editorial.
brasileiro. Alguns dos romances que hoje Popularizado por autores como John Green e David
consideramos Naturalistas poderiam ser Levithan, por exemplo, o gênero fez escola, sendo
facilmente colocados sob epíteto “romances para boa parte da produção americana feita para o
homens”. Vale lembrar que obras consideradas público, que como o próprio nome indica é o jovem
licenciosas e/ou pornográficas também já foram adulto e aborda os diversos problemas e
denominadas em textos sobre o assunto como adversidades que os jovens e adolescentes,
“livros para se ler com uma mão só”, evidenciando geralmente com 15/16 anos passam; nessas obras,
justamente o caráter excitante delas. além da questão amorosa e das primeiras vezes,
Ora, a classificação “romances para homens”, temas como depressão, suicídio, bullying,
posta sempre em evidência nas livrarias, fazia preconceito racial, de gênero e de orientação
mais que indicar o teor delas, eram uma espécie de sexual, bem como dramas familiares são
chamariz, de estratégia publicitária para fazê-las abordados.
serem vendidas; e, sendo bem vendidas, A entrada do Young Adult enquanto categoria
acrescentavam a si mais um aspecto negativo de classificação da produção romanesca é tão
daqueles que buscavam fazer da literatura algo grande que romances de fantasia, distópicos,
sério, prática de homens distintos.
Atualmente, essas classificações do mercado
ficção-científica, chick-lit e demais classificações
hoje feitas pelas editoras a fim de chamar a
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editorial não só aumentaram como sofreram atenção para suas publiacações podem também
processo de hibridização, como podemos ver em ser consideradas como livros para jovens e
categorias do gênero fantasia-distópica, que adultos.
aglutinam no enredo dos romances o caráter Enquanto efeito recente e com forte apelo entre
distópico em mundos fantásticos, como por os leitores, ainda não há nenhuma maneira de
exemplo Half Blood; ou ficção-científica-distópica, classificá-los pelo viés da crítica literária, uma vez
como é o caso de Divergente, em que em um futuro que ainda não angariaram para si o prestígio que
pós-apocalíptico a ciência sofre avanços tais que ela exige para se dedicar aos estudos das obras,
influencia a organização social em um governo mas poderíamos pensar neles como obras que, se
ditatorial. acompanhassem a vida dos personagens até sua
Dentre as diversas classificações de mercado, fase adulta, o que não acontece, poderiam ser
com o intuito de rotular um tipo de produção e classificadas como romances de formação,
fazer a atenção dos leitores se voltar para ela, há o justamente por abordarem as questões pelas
chick-lit, que são considerados os romances de quais as pessoas passam na vida para se tornarem
mulherzinha, por trazerem como foco a vida de o que são.
mulheres em suas dificuldades em Mesmo essas outras classificações como
relacionamentos (amoroso, sexual, familiar) ou distopia, terror ou ficção-científica, embora já com
problemas relacionados ao trabalho, as vezes, um solidez taxonômica, ainda são gêneros pouco
tudo isso junto. ou não valorizados pelo cânone.
O diário de Bridget Jones, adaptado para o
cinema em 2001, é considerado um clássico do
gênero, que tem inúmeras obras de referências e
autoras importantes no mercado editorial e entre
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PALAVRAS MILENARES:
AS LITERATURAS INDÍGENAS EM PERSPECTIVA

MANIFESTO Nossos povos indígenas estavam aqui quando as caravelas chegaram,


ainda assim, vejo as literaturas dos nossos povos originários tratadas
como novidade ou como “literatura menor”.
| Fernanda Vieira de Sant’Anna |

Imagem: google images


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As literaturas indígenas me encontraram já que a história de sua família, que reflete a de
adulta, minha identidade cheia de rasgos e tantas outras famílias no território australiano,
espaços e a cabeça cheia de perguntas sem não fosse apagada e caísse no esquecimento.
respostas. Eu não sabia o que fazer com minha Janet Campbell Hale, em Bloodlines: Odyssey of
cara de índia, como reflete o poema de Eliane a Native Daughter (1998) nos carrega em uma
Potiguara. viagem de um autoconhecimento doloroso e
Encontrei melhores perguntas para minhas necessário, com um cenário estadunidense.
vagas respostas nas linhas dos nossos povos Eliane Potiguara, em Metade cara, metade
originários. Seja pela poesia de Eliane Potiguara, máscara (2004), nos mostra a luta de uma família
ou Graça Graúna ou de Marcia Wayna Kambeba, indígena que fugiu do extermínio no nordeste
seja nas linhas de Janet Campbell Hale, Lee brasileiro para as ruas de um sudeste nada
Maracle, Larissa Behrendt, ou Patricia Grace, entre acolhedor, uma família cujas raízes
outras escritoras fortes que compõem múltiplas permaneceram fincadas na ancestralidade. Graça
geografias do existir indígena. Graúna, em Contrapontos da literatura indígena
Mergulhei na escrita das nossas parentas e não contemporânea no Brasil (2013) nos traz um
sabia que mergulhava em mim mesma. panorama necessário da literatura dos nossos
Ser indigenodescendente em um país que povos hoje, em pleno século XXI, mostrando que os
insiste em negar a existência dos povos primeiros povos indígenas não são povos do passado, mesmo
desta terra é doloroso. E a realidade brasileira se que suas palavras sejam milenares.
reflete, de alguma forma, nos outros países que Marcia Wayna Kambeba traz em Ay kakyri tama:
passaram pelas experiências coloniais. eu moro na cidade (2013), poemas que atravessam
Nossos povos indígenas estavam aqui quando as identidades e vivências indígenas aldeadas e
as caravelas chegaram, ainda assim, vejo as urbanas.
literaturas dos nossos povos originários tratadas Esses são alguns exemplos de obras
como novidade ou como “literatura menor”. maravilhosas de escritoras indígenas que
Larissa Behrendt escreveu Home (2004) para precisam ser lidas. Venho aprendendo demais com
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as literaturas indígenas. E escrevo literaturas, assim no plural, para mostrar que não há espaço para
homogeneização das escritas dos povos originários como não há espaço para homogeneização das
identidades indígenas.
A palavra é plural, assim como foram as experiências coloniais, assim como são as vivências na
colonialidade. Vivemos em constante vigilância contra a homogeneização e/ou exotização das escritas
indígenas.
Ler Chrystos não é a mesma coisa que ler Patricia Grace. Como pesquisadora, escritora e
indigenodescendente, espero que as literaturas indígenas alcancem mais espaços e possam ser
ferramenta de cura e espaço para viver e trabalhar a dor, como têm sido para mim.
Precisamos desenhar novos mapas onde as identidades dos nossos povos originários e de seus
descendentes não sejam restritas à lendas e relatos de experiências, porque somos isso e muito mais.
A você que me lê, recomendo que conheça Eliane Potiguara, Graça Graúna, Marcia Wayna Kambeba,
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Larissa Behrendt, Janet Campbell Hale, Lee Maracle, Chrystos, Patricia Grace, Paula Gunn Allen, Elissa
Washuta, entre outras tantas guerreiras da palavra que preenchem as rupturas das nossas histórias
interrompidas e dão volume às vozes indígenas que nunca foram de fato silenciadas.
Caminhar pelos territórios do saber indígenas, através das suas literaturas, é um exercício de
autoconhecimento, que atravessa nossa ocidentalização forçada e nos carrega para uma margem de
rememória e reconhecimento.
Os povos indígenas são povos do agora e, especialmente no panorama atual, é mais do que
necessário viver saberes outros que não os hegemônicos eurocentrados. Nossa ancestralidade é raiz
firme, rio caudaloso, céu limpo, terra fértil para novos atravessamentos necessários e urgentes nos dias
cinzas como os de hoje.

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UMA AVENTURA CONTRA O FASCISMO NO MEIO DA


FLORESTA AMAZÔNICA
RESENHA Tupinilândia é uma espécie de parque temático, como a Disney World que
tanto o influenciou o seu idealizador, mas de caráter nacionalista
| Daniel Prestes da Silva |

___________________________________________________ como a Disney World, que tanto influenciou o seu


Samir Machado. idealizador, mas de caráter totalmente
Tupinilândia.
Todavia | 454 pp | R$ 69,90 / 39,90 [E-BOOK KINDLE]
nacionalista. É a busca de João Amadeus de incutir
___________________________________________________ nos brasileiros uma cultura de amor à pátria, o seu
amor a ela por meio da construção de uma
Tupinilândia, publicado pela Todavia, é o narrativa identitária do país através da ludicidade
terceiro romance do escritor porto-alegrense de um grande parque de diversões; ou seja, tudo
Samir Machado de Machado. O seu segundo para ser um fracasso e não só pelas reviravoltas
romance, Homens Elegantes, foi vencedor do que o romance dá, mas pela tentativa de
Prêmio Açorianos de Literatura em Narrativa transformar a cultura e os processos históricos do
Longa. Também é autor do romance Quatro país em narrativa estática, que padece de um
Soldados (Rocco) e organizador da Revista de datamento.
Polpa (Não Editora). Foge ao entendimento de Flinguer que para
uma narrativa, mesmo identitária de um povo, ou
Em Tupinilândia temos de início a visita ao
Brasil de um grupo de desenhistas e demais talvez principalmente ela, se tornar perene é 8
funcionários de Walt Disney que também preciso que seja atemporizada e, mais que isso,
acompanha a comitiva. São os anos 40 e o Brasil é transformada em uma narrativa mítica, processos
governado por Getúlio Vargas, a Europa está em esses usados pelos escritores românticos, como
frangalhos Pós-Segunda Guerra e o Disney demonstra Flora Süssekind na produção literária
enfrentando problemas dentro da indústria que visava fundar a identidade de uma nação após
cinematográfica. a proclamação da Independência em 1822.
É o encontro com este grupo que dará o tom de A caduquice dos ideais de Flinguer e do mundo
todo o romance, não só por ele ser o catalisador em que ele viveu também se apresenta após o
das ideias que o jovem João Amadeus Flinguer terá fechamento do parque, quando em um retorno à
para a construção do Parque no meio da floresta Tupinilândia entramos em contato com um mundo
Amazônica no final dos anos 80, período da ainda situado dentro da Guerra Fria, Ditadura
redemocratização brasileira, mas por já dar Militar sustentada por uma rede de pessoas
indícios de sua visão idealizada e nacionalista do apoiadoras de ideias de extrema direita e que se
Brasil e dos períodos históricos que serão pano de torna ainda mais potente, enquanto imagem, pela
fundo para o romance. deteriorização de elementos do parque e de uma
Dos anos 40, pulamos direto para o meio dos “decoração” modernista que já não faz mais
anos 80, Ditadura Militar, atentados, negociação sentido para quem vive no mundo de fora.
para a transição do governo militar para um Um mundo em que há internet, em que o muro
governo civil. As relações entre políticos e de Berlim foi derrubado, em que um homem negro
empreiteiras estão lá. João Amadeus é um dos subiu ao posto máximo de uma das maiores
muitos empresários que mantém relação com potências mundiais; um mundo em que mesmo os
políticos e numa de suas jogadas, consegue a países que se dizem socialistas são capitalistas e
propriedade de um imenso pedaço de terra no que o Partido dos Trabalhadores ao assumir por 04
meio da Amazônia e as licenças necessárias para mandatos a presidência do Brasil atuou em uma
o seu mais ambicioso projeto: Tupinilândia. frente social-democrata mesmo dentro de
Tupinilândia é uma espécie de parque temático, políticas liberais.
Samir Machado apresenta e discute todas
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essas questões brasileiras com o seu tom narrativo que lhe é marca registrada: aventuresco e histórico,
misturando o que há de melhor em referências literárias e cinematográficas, como Jurassic Park e
Fantasia, nos dando a conhecer a imagem do que seria um país afundado no fascismo e a luta para que
essa realidade fique no lugar que lhe diz respeito: o passado.

A HORA DA AVENTURA
CONTO E sim, na plateia, as crianças ovacionam, pois o dia delas chegou. Promessa é 9
dívida, tá ok?
| Igor F. Gomes |

Escola Paulo Freira, 12 de outubro. No banheiro, gente, mas chega a hora em que um homem tem
visto a fantasia de Finn, o Humano. Tiro a arma que lutar pela moral dos bons costumes. Amém.
legalizada da mochila, projeto de lei número Enxergo um pai militar, uma mãe de verde e
amarelo. Sorridentes. Na parede, uma faixa “o
3722/12. Bancada da bala. Taurus 59s, tingida de
jardim dois agradece à 17º feira da cultura de tema:
amarelo e carinhosamente batizada de “Jake, o quando a educação não é libertadora, o sonho do
Cachorro”. Linda. Defesa do lar. Autorizada oprimido é se tornar o opressor”. A professorinha
somente para posse, mas ninguém desconfiou do anuncia meu nome, subo ao palco. Parecem
porte quando passei pela portaria. Sou ex-aluno, ansiosos para o show de mágica, ouço perguntas,
garoto de família, homem de bem. Tá ok? Escondo “Cadê o Jake?”. Abro um sorriso, digo que preciso
Jake nas costas da cintura, vou em direção à de um voluntariozinho. Várias mãozinhas
branquinhas se levantam, escolho a única negra. A
biblioteca, lotada, abraços e risos de todos os
filha do militar. Ele se despede, ela vem, para em
lados, “Mamães, o Finn tá aqui, quero foto”. Que minha frente, a viro de costas para mim, de frente
nojo, como é que pode? Desrespeito! O que será da para todos. Ponho uma das mãos em seu
mente confusa dessa criança com duas mães? ombrinho, e vou levando a outra em direção as
Perdoa Deus, elas não sabem o que fazem, mas eu costas de minha cintura enquanto canto: “a
sim. Quando larguei esse local, prometi que aventura, vai começar...” E sim, na plateia, as
voltaria, e promessa é dívida. Papai me manteve crianças ovacionam, pois o dia delas chegou.
Promessa é dívida, tá ok?
protegido o quanto pôde, dos perigos desse tipo de
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LITERATURA PARAENSE JOVEM E CONTEMPORÂNEA

ENTREVISTA Heróis de Novigrath foi a oportunidade perfeita que encontrei para realizar
essa vontade, mesclando os e-sports com fantasia, que é outro assunto
que adoro.

Roberta Spindler publicou no início desse ano o romance Heróis de Novigrath. Para esse primeiro
número, conversamos um pouco sobre como ela percebe a nova geração de escritores paraenses, a
publicação de seu novo livro pela Companhia das Letras, a relação com os meios de divulgação e
criculação entre a crítica e a relação que ela tem com os leitores.

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Imagem: Divulgação

Roberta, você, assim como outros escritores


contemporêneos paraenses, produz um tipo de Heróis de Novigrath, seu segundo romance, foi
literatura que foge do esteriótipo de “literatura publicado pela Editora Suma, que faz parte do
paraense”, trazendo para dentro dos textos ficção- Grupo Companhia das Letras, no início desse ano e
científica, fantasia, distopias e, principalmente, um conta a aventura de jovens jogadores de E-Sports
diálogo forte com o público jovem. Como você que acabam tendo como missão salvar o mundo.
avalia o cenário da literatura produzida Como foi a experiência de escrever sobre E-Sports
atualmente no Pará nesse cenário, ainda mais e assinar o contrato com uma das editoras do
levando em consideração sua participação ativa Grupo Cia. das Letras?
na organização da FLiPa?
Roberta. Sou apaixonada por e-sports, acompanho
Roberta. Acredito que a literatura fantástica o cenário competitivo de vários jogos e sempre tive
paraense está crescendo e ganhando bastante vontade de falar mais sobre o assunto. Heróis de
espaço no nosso estado. Vejo talentosos autores e Novigrath foi a oportunidade perfeita que
autoras surgindo, além de eventos e iniciativas encontrei para realizar essa vontade, mesclando
muito interessantes que visam fortalecer esse os e-sports com fantasia, que é outro assunto que
cenário no nosso mercado. Um desses exemplos é adoro. Publicar o livro na Suma foi incrível, um
a Revistinha Pulp, que conta com 3 volumes até grande objetivo meu alcançado e que me deixou
agora e vários contos publicados, principalmente muito feliz. O trabalho da editora no livro foi
no âmbito do terror. Fico bem feliz em ver tanta fantástico.
gente nova engajada e só espero que nosso
cenário cresça ainda mais.
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Como você avalia a relação com os meios de


comunicação e divulgação de livros? Onde há mais
receptividade e quais os entraves que autores fora - JAMBURANA –
do eixo Rio-São Paulo enfrentam, mesmo que
publicados por editoras de grande porte? TREMOR LITERÁRIO
Roberta. As redes sociais são fundamentais para
um autor divulgar seu trabalho, na minha opinião.
Ainda é muito difícil conseguir um bom espaço nos
meios tradicionais, como televisão e jornais
COLABORE E ASSINE!
impressos, por isso vejo na internet a principal
ferramente para divulgação, principalmente para
autores fora do eixo Rio-São Paulo. Sobre os
entraves, a distância dificulta bastante a presença Serão recebidos ensaios e resenhas sobre
em eventos, que quase sempre se realizam no livros teóricos ou ficcionais de preferência
sudeste ou no sul. Assim, tenho uma sensação de de autores brasileiros e que tragam em seu
isolamento, que é amenizada pelas redes sociais, conteúdo questões raciais, de identidade de
mas não totalmente resolvida por elas. Ainda gênero, orientação sexual, feminismo e
acredito que a presença física em eventos,
demais minorias.
lançamentos de outros autores e feiras é muito
importante para um escritor crescer em sua
carreira. Também serão aceitos artigos de opinião,
assim como textos sobre projetos de
E a sua relação com os leitores, tanto em nível pesquisa, ensino e extensão voltados para 11
local como em nível nacional, como é? o literário.
Roberta. É muito positiva. Adoro conversar com
leitores e responder as mensagens deles. Quando Contos também podem ser submetidos
posso interagir pessoalmente com eles é ainda para a publicação na Jamburana.
melhor, só tenho a agradecer pelo carinho que
recebo!
Normas de envio no site:
jamburanaliteraria@wordpress.com na
aba COMO COLABORAR.

Na aba CONTATO, você pode solicitar a


assinatura do jornal e receber sempre a
nova edição na sua caixa de e-mail.
Roberta Spindler.
Heróis de Novigrath.
Suma das Letras | 296 pp
| R$ 34,90 | R$ 18,90 [E-BOOK KINDLE]

- TREMOR LITERÁRIO –

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