Você está na página 1de 15

Os balões n’O Tico-Tico: esqueceram de desenhar?

Guilherme Lima Bruno E Silveira1

Resumo

Este trabalho apresenta uma reflexão sobre o periódico infanto-juvenil O Tico-Tico, buscando
averiguar quais os possíveis motivos para a inexistência dos balões nas histórias em
quadrinhos dos primeiros anos da revista. O trabalho se foca em especial no caso
Chiquinho/Buster Brown, uma vez que o personagem brasileiro, inicialmente feito por
Loureiro, era decalcado da criação americana de Richard Outcault, e ainda assim eliminavam-
se os balões. A pesquisa se deu a partir da leitura de vários estudos críticos do periódico e de
análises comparadas entre algumas histórias do personagem, numa aproximação entre o
formato padronizado utilizado pela revista e a posição conservadora e moralista da mesma.

Palavras-chave: História em quadrinhos; O Tico-Tico;

Introdução

As histórias em quadrinhos não eram populares no Brasil no final do século XIX e


início do XX, diferente do fenômeno que já começava a se desenvolver nos Estados Unidos,
os jornais brasileiros ainda não haviam descoberto seu potencial popular.

Em nossas terras, até então, as narrativas visuais se difundiram com sucesso apenas
pelas habilidosas mãos do artista gráfico Ângelo Agostini. O autor que já havia feito histórias
ilustradas para O Cabrião, em 1867, e desenvolve, em 1869, “As aventuras de Nhô Quim” ou
“Impressões de uma viagem à corte”, na revista Vida Fluminense (MERLO, 2004).

Em 30 de janeiro de 1969, surge a história considerada a primeira


novela-folhetim (...) com o título ‘As Aventuras de Nhoô Quim’ ou
‘Impressões de uma viagem à corte’, na revista Vida Fluminense. A criação
de Agostini narra a história do personagem Zé Caipora, um caipira perdido
na cidade grande. Suas histórias, contadas em nove páginas duplas duraram
até o dia 15 de dezembro de 1906, completando o capítulo 75, na editora O
Malho (MERLO, 2004, p.02)

1
Guilherme Lima Bruno E Silveira é graduado em Educação Artística com ênfase em Artes Plásticas
(Licenciatura Plena) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP/Bauru; Especialista
em Teatro, música e dança para educadores, pela UNIFRAN; Mestrando em Crítica Literária pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP/IBILCE – São José do Rio Preto.
Tal narrativa se assemelha com as histórias ilustradas de Hudolf Topffer e Wilhelm
Bush, entre outros, utilizando as imagens fragmentadas seguidas de legendas, que guiavam
toda a história. Essas histórias representam os primeiros passos da narrativa gráfica na
imprensa e serviram de base para o desenvolvimento da linguagem dos quadrinhos como hoje
a conhecemos.

Fig. 1 – Rudolph Topffer


O desenvolvimento das histórias ilustradas e, posteriormente, dos quadrinhos tem
relação direta com a imprensa e as técnicas de impressão, meios técnicos, os quais permitem a
maior inserção de imagens nos periódicos, com custos cada vez menores.

Quanto à imprensa no Brasil, Merlo afirma:

A imprensa no Brasil enfrentou uma sociedade com pouca


originalidade no campo da literatura e da própria imprensa. Ambas eram
apenas voltadas ao público adulto, urbano, politizado, elitista e
intelectualizado. As imitações dos moldes europeus e americanos em nossa
cultura serviram como figurinos que trajávamos através de nossas idéias,
roupas, atitudes, cotidiano, consumo e hábitos. (2004, p.02)

Assim, seguindo os moldes europeus e americanos a nossa imprensa do final do


século XIX começou a se interessar pelo formato das revistas ilustradas, sempre com o
conteúdo voltado aos adultos. Assim como Ângelo Agostini era uma exceção e além de sua
“novela-folhetim”, a história ilustrada não se popularizou imediatamente, também as revistas
ou suplementos infantis, que aos já se popularizavam no exterior, demoraram a marcar nosso
cenário. Pouco explorados por conta de uma visão da imprensa voltada especificamente ao
público adulto, os impressos para os pequenos foram lentamente sendo implantados,
normalmente tendo como guia alguma publicação estrangeira.

O Jornal da infância, de 1898, surgiu com a popularização das revistas ilustradas:

Revista semanal e ilustrada, propriedade de João de Pino & Cia e


dirigida por Luiz de Almeida. Nela eram publicados os gêneros: religiosos,
morais, científicos, educativos, literários. Entre os literários: contos
ilustrados, lendas, crônicas, poesias e recreativos com passatempos e
concursos. Teve uma vida curta, com apenas 20 (vinte) números publicados
contendo 8 (oito) páginas em preto e branco (MERLO, 2004, p.03)

A curta investida, mesmo não alcançando êxito, mostra o crescente interesse para a
segmentação de público infantil. É nesse contexto que O Malho passa a publicar algumas
páginas dedicadas à infância, numa investigação de interesse que resultaria, em 11 de outubro
de 1905, na publicação da revista ilustrada O Tico-Tico, a qual tinha “uma postura firme em
relação a seus objetivos didático-pedagógicos, mantendo-se arraigada à missão de entreter,
informar e formar, de maneira sadia, a criança brasileira” (VERGUEIRO; SANTOS; 2007,
p.24).

A revista se manteve viva durante décadas e nunca descuidou de seu padrão, o foco
educacional e cívico, tendo grande mérito no desenvolvimento intelectual das crianças e das
HQs no Brasil.

As Histórias em Quadrinhos

A história em quadrinhos teve um processo muito lento de definição, vê-se, inclusive,


pela própria nomenclatura, diferente em muitos países, de acordo com algum aspecto ou
elemento que se considerava relevante na linguagem. Nos Estados Unidos ficaram conhecidos
como comics, claramente destacando um aspecto temático, a comicidade das histórias
embrionárias era muito visível, mas desde o início não foi totalizadora, sendo a aventura um
tema presente também em seus primórdios. Na Itália, o balão é esse elemento de referência,
no país ficou conhecido como Fumetti, algo como “fumacinha”, em relação ao aspecto visual
da representação da fala. A França se voltou à forma como as histórias ilustradas começaram
a ser publicadas nos jornais: Bande Dessineé, que pode ser traduzido como faixa desenhada,
essa nomenclatura também foi adotada por Portugal: Banda Desenhada. Mais tarde, durante
os anos 80 começou a se popularizar, nos Estados Unidos, o uso do termo Graphic Novel,
muito divulgado por Will Eisner, numa tentativa de se evidenciar o aspecto artístico das
histórias em quadrinhos, termo utilizado em histórias de conteúdo adulto, denso, em um
formato mais parecido com o romance, história com início e fim, lançadas em um álbum
único. É notável que na Europa esse viés adulto, com álbuns luxuosos, já era comum décadas
antes.
Essa variedade de termos utilizados para definir a linguagem se refletiu no Brasil,
onde a nomenclatura “histórias em quadrinhos” se firmou, constantemente vemos uma
pluralidade de definições. Por muito tempo foi chamada de historieta, como mostra Gonçalo
Junior: “As histórias em quadrinhos foram chamadas durante algum tempo de ‘historietas em
quadrinhos’ ou apenas ‘historietas’, numa suposta apropriação do termo espanhol. Foi assim
até meados da década de 1960, quando ficaram conhecidas como são hoje” (2004, p.11).

Da mesma forma, é a partir da década de 60 é que observamos alguma atenção de


teóricos para essa linguagem, em parte essa atenção vem do desenvolvimento dos estudos
sobre a comunicação de massa, a exemplo de Umberto Eco que tem parte de seu livro
“Apocalípticos e Integrados” dedicada às análises de séries de quadrinhos americanos.

O Balão

O balão é um dos elementos de representação da fala nas HQs, é “o recipiente de


texto-diálogo proferido por um emissor” (EISNER, 1989).

O recurso é muitas vezes considerado o marco inaugural dos quadrinhos, elemento de


maior identidade da linguagem, “foi o surgimento dos balões (...) que marcou o início do
gênero quadrinhos na imprensa” (NICOLAU, 2008, p.20). De acordo com Paulo Ramos, ele
passou por uma série de aparições na história das representações visuais, há registro de
“experimentos gráficos” muito próximos aos balões das HQs na cultura maia, assim como
imagens de séc. XIII e XIV, as filacteras usadas em pinturas da igreja medieval. “Houve
outras experiências nas imagens utilizadas pela imprensa nos séculos seguintes. Em todos os
casos, ocorriam ensaios de tentativas de reprodução da fala” (2009, p.34)

Dessa maneira, assim como boa parte dos elementos das histórias em quadrinhos, esse
elemento foi se esboçando durante o desenvolvimento histórico da narrativa gráfica. O
recurso não aparecia constantemente, ou de forma definida, nas histórias ilustradas do século
XIX, foi popularizando pela série que por muitos é considerada a primeira história em
quadrinhos, “The Yellow Kid”, de Richard Outcault.

O mecanismo visual foi utilizado também em The Yellow Kid, nos


Estados Unidos, a partir de 1895 (...) Nos anos seguintes, o recurso evoluiu e
passou a ser usado nas demais histórias norte-americanas que surgiam, como
Katzenjammer Kids (Os sobrinhos do capitão) e Little Nemo in Slumberland
(esse também foi o nome como ficou conhecido no Brasil). Estabilizou-se o
formato do que hoje entendemos por balão. (RAMOS, 2009, p.35).
Mas qual a mudança protagonizada pelo recurso?

O balão facilita a representação do discurso direto – mesmo que não se limite a ele
possuindo diversos formatos e usos – o que se tornou comum nos quadrinhos, dando
dinamicidade à leitura da narrativa. Até então o texto mantinha uma relação de redundância
comum nas HQs, uma vez que a legenda (texto posto em uma caixa de diálogo logo abaixo da
imagem) era praticamente autônoma e as imagens continham a mesma mensagem trazida no
texto. Eram mesmo histórias (verbais) ilustradas (as imagens reproduziam visualmente parte
do texto ou seu pano de fundo).

Fig. 2: Stevz

Como define Henrique Magalhães na introdução do Falas & Balões, de Nicolau:

“O texto nas histórias em quadrinhos evoluiu do literário até se


constituir numa expressão própria, numa simbiose – ou inter-relação – de
discurso direto, por meio do diálogo, pensamentos, reflexões, narrativas
exteriores ou vinculadas à ação” (2008, p.12).

Assim, da produção de Ângelo Agostini e Rudolph Topffer, para a de Outcault e


Dirks, houve uma grande mudança na forma de se ler, a linguagem tornou-se muito mais leve
e fluída. O uso do texto literário, externo ao quadrinho, guiando a narrativa permitia uma
maior objetividade, eliminava possíveis ambiguidades, contextualizando toda a cena, porém
foi com a leitura dinâmica permitida pelo balão, que liberou a imagem para narrar, que as
histórias em quadrinhos passaram a ser sucesso popular e a se desenvolver enquanto
linguagem.
O Tico-Tico

Fig. 3: O Tico-Tico, logo de Ângelo Agostini.

A revista O Tico-Tico teve sua primeira edição publicada em 11 de outubro de 1905,


com uma proposta nova, totalmente voltada para a infância, além de ser a primeira revista
brasileira a publicar histórias em quadrinhos de forma regular.

Fundada por Luis Bartolomeu de Souza e Silva, editor d’O Malho, foi também a
revista infantil mais longeva do país, tendo mantido sua publicação sem interrupções por 56
anos.

Assim como toda a imprensa da época, que se baseava em modelos estrangeiros, O


Tico-Tico também teve influência de outros países. Vergueiro e Santos afirmam que a revista
foi idealizada por Renato de Castro, Cardoso Junior e Manoel Bonfim, sendo que seu
fundador “acatou a idéia e ajudou a molda-la segundo o formato de outras publicações da
época, principalmente a revista francesa La Semaine de Suzette (1905-1960). O acerto da nova
publicação infantil confirmou-se pela recepção do público” (2007, p.25).

A revista foi sucesso imediato e apresentava um trabalho gráfico muito cuidadoso,


com riqueza de conteúdo, era elaborada

em tom carinhoso, com linguagem coloquial e preciosismo


lingüístico, acreditava que o avanço do País dependia do compromisso com
a educação das futuras gerações, ampliando seu sucesso às benesses da
civilização letrada. Com base nesse objetivo é que foi organizado seu projeto
editorial. (2007, p.25).
A revista tinha grande preocupação educacional, moral e cívica, e não poderia ser de
outra forma vista no ambiente em que estava inserido, um ambiente preocupado com o
desenvolvimento das crianças, com a manutenção dos bons costumes, fato este que gerava
alguma pressão sobre Luis Bartolomeu de Souza e Silva. “A princípio reticente com o projeto,
Luis Bartolomeu, calculando como aquilo influenciaria sua publicação principal, tanto
econômica quanto politicamente – pois afinal, lançar uma revista para crianças multiplicaria
em muito sua responsabilidade social” (MERLO, 2004, p.07).

Essa preocupação marca a sociedade tradicional e conservadora do Brasil daqueles


tempos, como confirmam Vergueiro e Santos:

Foi nesse ambiente, espelhando os valores almejados pelas camadas


dominantes da sociedade, que surgiu, cresceu e floresceu O Tico-Tico,
baluarte da moral tradicional e do espírito positivista da chamada República
Velha. Mesclava elementos de civismo e preceitos religiosos do catolicismo,
religião dominante no País, os quais apareciam em várias seções da revista,
como os contos infantis, as poesias patrióticas e as aventuras históricas.
(2007, p.29)
Vemos, portanto, que esse ambiente não só circundava O Tico-Tico, como também era
afirmado por ele. A revista assumia o papel de guiar as crianças em um caminho que
agradasse a elite do país, exatamente esse seu público. O fazia com recomendações e lições
moralistas em forma de um lúdico entretenimento.

(...) o público variado e extenso de O Tico-Tico – pois tanto crianças como adultos se deliciavam com
suas páginas – era formado basicamente de leitores de poder aquisitivo e que tivessem o raro acesso à
educação existente no Brasil do início do século XX. (MERLO, 2004, p.08).

Inclusive, nesse ponto, podemos ver como a revista é um importante documento


histórico, que nos revela os costumes e ideais predominantes no período. Vergueiro e Santos
observam, entre outras, a questão racial como apresentada no periódico:

No que se refere à questão racial, a revista reproduzia os estereótipos


consagrados pela sociedade: os garotos negros, por exemplo, na maioria das
vezes eram retratados como agregados de uma família branca de posses, para
a qual realizavam diversas tarefas, sem ter direito a vínculos trabalhistas ou
remuneração – sendo exemplo disso Benjamin, o garoto negro que
acompanha as travessuras de Chiquinho –, ou , ainda, eram reproduzidos
com a imagem-clichê do canibal africano, comum em quadrinhos e desenhos
animados da época. (2007, p.31)

Entendemos como os preconceitos e conservadorismos guiavam em certa medida a


publicação, que, como toda publicação, nunca foi neutra ou inocente. Em seus 56 anos O
Tico-Tico pode testemunhar e registrar as mudanças da nossa sociedade. Mudanças políticas,
econômicas e artísticas, inclusive da própria linguagem das histórias em quadrinhos, uma das
principais atrações da revista.

(...) chegar ao que se produziu de quadrinhos para O Tico-Tico, seria


entender todo um raciocínio de desenvolvimento paulatino da arte de contar
histórias por imagens e textos, desde quando utilizavam, em seus primórdios,
imagens seqüenciadas com legendas em seus rodapés até as quadrinizações
pioneiras utilizando já o recurso dos balões (MERLO, 2004, p.10)

Exatamente esse é o nosso núcleo de interesse. O Tico-Tico observou o


desenvolvimento da linguagem dos quadrinhos de perto, tinham contato com as grandes
novidades vindas do exterior, mas ousou pouco. Quanto aos balões, elemento anunciado por
muitos como o “marco” dos quadrinhos, introduzido em 1885 por Outcault, em Yellow Kid,
simplesmente inexistiu nos primeiros anos do periódico, demorando décadas para se tornar
um elemento comum. Mesmo tendo uma criação de Outcault, Buster Brown – que usava de
forma ampla o recurso do balão – como uma de suas séries iniciais de maior sucesso.

O caso Chiquinho

Buster Brown, criação de Outcault, começou a ser publicado em 1902, no jornal New
York Herald. Diferente dos jornais onde havia desenvolvido o personagem Yellow Kid, o New
York Herald se voltava para um público elitizado, assim como seu personagem: um pequeno
garoto loiro pertencente a uma abastada família, com quem aprontava inúmeras travessuras.

Quando veio para o Brasil ficou conhecido como Chiquinho, sempre acompanhado de
seu cachorro Jagunço (Tige no original). A história passou por mudanças de cenário para criar
uma conexão com nosso país. Mas o curioso fica pelo fato de não ser apresentada como uma
história estrangeira, quando trazia alguma assinatura era a do artista brasileiro responsável
pela sua adaptação, na maior parte das vezes um decalque feito direto do original.

Esse fato, quando se popularizou, causou algum espanto e fez com que tal “cópia”
fosse até apontada como criminosa. Antonio Luis Cagnin trata de esclarecer que as denuncias
são equivocadas, fruto de enganos, uma vez que essa forma adaptação era comum na época.
Além disso, assim como nunca se divulgou a origem das histórias, nunca as escondeu.
Simplesmente não parece ter sido um ponto levado em consideração no período.

No seu artigo Chiquinho, Buster Brown, a mais brasileira das personagens


americanas, Cagnin fala sobre as condições da importação da história:

Aqui, as histórias eram decalcadas do jornal pelo desenhista Loureiro. Por


isso, passaram a acusar o Loureiro pelo ‘crime inominável’ de ter sempre
escondido ser o autor daquela cópia grosseira; pior, daquele decalque
vergonhoso e em papel vegetal. (...) A imprensa ilustrada do início do século
se valia ainda, em grande parte, da litografia (...) é óbvio que não se cogitaria
em importar as pesadas matrizes de pedras litográficas (...) E mais, o
decalque de desenhos estrangeiros era um ato habitual na época, consentido
ou, talvez, até acordado entre as revista (VERGUEIRO; SANTOS, 2005,
p.32).

O decalque dessas obras, portanto, não tinha nada de criminoso, assim como não era
um segredo a se esconder.

Há claramente uma mudança do título, nomes de personagens e dos cenários, mas não
quanto ao enredo, que se mantêm praticamente idêntico. O garoto sempre apronta alguma
malcriação, algumas vezes absurdas, mas no fim acaba aprendendo a lição. Lembremos que o
periódico deveria agradar os adultos da elite, para isso contavam como currículo de seus
editores, como mostra Sonia Bibe-Luyten, no artigo A geração de meninos traquinas:

Apesar das travessuras e “malcriações”, tanto de Buster Brown como de


Chiquinho, há algo em comum entre os dois personagens que não os tornava
grotescos e eram bem aceitos pelo público. (...) No caso de Chiquinho, O
Tico-Tico também tinha bons antecedentes editoriais e respeitabilidade em
função do nome de Luís Bartolomeu de Souza e Silva, o fundador do Malho,
em 1902, publicação séria de conteúdo literário, político e humorístico,
composta por articulistas e caricaturistas de renome. (VERGUEIRO;
SANTOS, 2005, p.44).

A respeitabilidade e o trabalho já consagrado garantiam parte da aceitação dos pais,


reforçada pelo fechamento das travessuras de Chiquinho. No artigo Trajetória de um menino
peralta, Santos lembra que

A estrutura narrativa das histórias, contudo, ficou inalterada: as traquinagens


de Chiquinho eram seguidas de punição física aplicada com réguas, chinelos
e escovas. Sua mãe chegou a amarra-lo a uma árvore por ter incitado seus
colegas de escola à grave. As transgressões deveriam ser reprimidas para que
a ordem voltasse a imperar, desfecho com carga moral que reafirma a
postura conservadora da publicação. (VERGUEIRO; SANTOS, 2005, p.44).

Assim a revista conseguia conquistar seu espaço, rapidamente dominando esse


segmento e permanecendo por muito tempo com seu status inabalável.

Em contrapartida, se a estrutura narrativa, num sentido de história contada, não se


alterava, o mesmo não ocorria com o forma, a linguagem quadrinística. Nesse ponto grandes
alterações podem ser vistas, quadros eram excluídos, a diagramação modificada e todos os
balões excluídos.

Todas essas mudanças parecem buscar uma certa padronização nas histórias. Nos dois
exemplos mostrados (fig. 04 a 07) vemos páginas originais formadas por 6 e 9 quadros, além
do cabeçalho. Ambas são transformadas em histórias de 8 quadros, divididas em páginas de 4
quadros cada e sem cabeçalho. Também em ambas os balões são eliminados e somam-se as
legendas.

No momento da leitura das diferentes versões podemos perceber claramente os efeitos


das modificações. As histórias de Outcault são mais dinâmicas e tem a leitura muito visual, o
que não ocorre com a versão d’O Tico-Tico.

Fig. 4: O Tico-Tico, edição 35, 1906.

Mesmo quanto ao enredo, podemos dizer que mantem uma mesma base, em alguns
acontecimentos, travessuras e conclusões, mas as mudanças estruturais acabam por afastá-las
em muitos pontos. As versões nacionais tendem a não acontecer em apenas um dia, tornam-se
menos efêmeras. Na história Uma viagem (fig.04) o narrador brasileiro inicia a história com
“Há muito tempo já vovó tinha escrito a mamãe, pedindo que mandassem Chiquinho para
passar uns dias com ela na roça”. Na versão original (fig.05) não há indicação de quando foi
combinada a viagem de Buster Brown, ao contrário, apresenta-se no cabeçalho da página a
carta que seu pai enviou à avó, explicando o fracasso da viagem.
Também se somam elementos e personagens. Na mesma história há, no original, um
condutor branco, conversando com a mãe, e outro negro pegando as malas com o pai de
Buster. Eles não são apresentados diretamente, a conversa com a mãe e as roupas parecidas é
que mostram serem funcionários da companhia ferroviária. Na nossa versão o funcionário
negro se torna um criado da família que irá acompanhar Chiquinho.

Fig. 5: Buster Brown no N.Y. Herald, 1903.

Ainda é eliminada a voz do cão, quando ele havia sido o primeiro a perceber que
Buster Desceu do trem, n’O Tico-Tico ele apenas observa tudo.

O segundo exemplo, da história Domador de cabritos (fig.06), evidencia o caráter


moral d’O Tico-Tico. A questão temporal se mantém, enquanto antes o bode simplesmente é
entregue, indicando que a história se passa desse momento ao imediatamente posterior, sem
algum intervalo relevante, a segunda versão trás novamente um intervalo entre o início da
história e a travessura – o narrador anuncia no segundo quadro, depois de Chiquinho ter
ganhado o bode, que “Um belo dia Chiquinho cismou que devia sair com o cabrito”.

No final da história vemos Chiquinho arrasado e na legenda: “Chiquinho ficou em


mísero estado, mas agora não se mete mais a guiar bichos. Pobre Chiquinho! Até dos cabritos
apanha!”. A conclusão mostra que houve uma lição aprendida, um arrependimento, mas na
versão de Outcault (fig.07) essa história não apresenta qualquer tipo de punição final. Ou seja,
a necessidade pedagógica não parece ser tão grande no New York Herald, quanto se mostra
n’O Tico-Tico.

Fig. 6: Chiquinho, O Tico-Tico, edição 33, 1906 Fig. 7: Buster Brown, N.Y. Herald, 1903.

Ao eliminar os balões da série, trocando-os pelas legendas, como era no formato já


consagrado de Ângelo Agostini, somavam-se uma série de informações em detrimento da
velocidade e dinâmica.

Nicolau, falando de Hal Foster, acaba definindo o quadrinho produzido com legendas:

Com um texto eminentemente literário que vinha disposto fora e embaixo de


cada quadrinho. Deste modo, era o texto quem conduzia toda a narrativa, não
só explicando o que ocorria no desenho, como também, acrescentando fatos
que não eram mostrados pelas ilustrações. Os diálogos, por sua vez, vinham
incluídos no próprio texto. (NICOLAU, 2008, p.18).

A legenda muitas vezes explica o desenho, trazendo o efeito de redundância para o


texto, o que se percebe claramente no terceiro quadro de O domador de cabritos. “Nessa
ocasião estava mamãe na sala de jantar tomando café com umas moças que tinham ido visitá-
la”. Pode-se supor que existia uma necessidade de manter o texto, de não permitir que a
imagem falasse sozinha.
Numa reflexão sobre as mudanças ocorridas n’O Tico-Tico, percebemos que existe um
padrão de narrativa visual, seja nas retidas de jornais europeus, nas criadas aqui ou nas
americanas, mantém-se o padrão que já havia sido aceito no fim do século XIX.

Se o próprio trabalho anterior dos editores influenciava na adesão do público


consumidor, era também na estrutura desse mesmo trabalho que se basearia o novo trabalho.
Ao mesmo tempo parece, de alguma forma, contraditório, a equipe que foi buscar o modelo
da publicação na, então, novíssima revista francesa La Semaine de Suzette, lançada em
fevereiro de 1905, mesmo ano do nascimento d’O Tico-Tico; que encontrou seu principal
personagem numa criação de um dos revolucionários e criativos criadores da linguagem dos
quadrinhos; que trouxe a linguagem à tona quando ela ainda mal havia sido nomeada em
nosso país; mal se fez, envolta nessa aura de novidade e pioneirismo, já se fechou numa
formula que não se atreveu a ousar.

Muito disso, provavelmente, tem a ver com a grande preocupação que tinham em
agradar a todos olhares “predominantes” da nossa sociedade. Se uma das preocupações era a
de construir uma sociedade letrada e submissa aos preceitos morais, as várias sessões da
revista não podiam abrir mão, principalmente em uma divertida história de travessura, de estar
ligada à leitura e ao aprendizado.

A legenda supre quase completamente essa necessidade. A história em quadrinhos, por


mais rápida que seja, deixa de ser apenas uma brincadeira descontextualizada – que se inicia e
termina naquele mesmo instante, algo sem propósito – passando a ser uma decorrência de um
acontecimento anterior. Então, Chiquinho maltratou o bode, mas que bode é esse? É um que
ganhou para puxar seu carrinho, e algum tempo antes, há um intervalo para pensar na
traquinagem.

Como a definição de Nicolau sugere a legenda trás um texto literário que talvez
contentasse muito mais os pais, professores e padres, do que a rapidez efêmera dos balões. A
necessidade do literário em detrimento do visual confirma-se na década de 50 depois da
popularização do livro Seduction of the innocent, de Fredrich Wertham. Essa grande bomba
atômica, de acordo com Gonçalo Junior, em A Guerra dos Gibis, se espalhou pelos países, o
que inclui o Brasil, com partes do livro sendo traduzidas e publicadas em alguns jornais, mas
não foi o inicio de uma mudança de pensamento. Manifestações contra os quadrinhos foram
se mostrando pouco a pouco, num caminho oposto à popularização da linguagem.
O receio quanto aos quadrinhos, à informação visual, em detrimento da literatura e da
“boa cultura”, parece estar presente na nossa sociedade a tempos, e de certa forma O Tico-
Tico, nesse movimento contraditório de inovação e cristalização, teve o trunfo do seu sucesso,
assim como a razão de seu declínio. A partir da década de 30 começou a dividir a atenção
com outros suplementos, que traziam as novidades dos quadrinhos estrangeiros. Esses novos
personagens e autores chamaram a atenção do público.

A popularidade dessas novas publicações afetou a predominância de O Tico-


Tico, colocando um fim a seu reinado de mais de 30 anos. Os personagens
ingênuos e bem-intencionados da revista foram substituídos no gosto popular
por desbravadores de novos mundos, homens mascarados ou seres dotados
de superpoderes. (VERGUEIRO; SANTOS, 2007, p.32)

A revista do Chiquinho, nunca abriu mão da sua faceta didático-pedagógica, ainda


segundo Vergueiro e Santos, “recusando modificações que pudessem levá-la ao encontro de
uma nova geração de leitores e fazer frente ao novo modelo de publicação infanto-juvenil.
Com isso caminhou inexoravelmente para seu fechamento”.

Continuou seu caminho até 1962, firme em sua posição, com publicações com o mesmo
cuidado e qualidade, mas que já não se encaixavam no interesse das novas gerações.

Conclusão

A importância da revista O Tico-Tico para a imprensa brasileira, para a história das


publicações infanto-juvenis no Brasil é incontestável. Felizmente vários estudos já foram
feitos e continuam acontecendo, evidenciando diferentes aspectos da publicação, não apenas,
mas em grande parte das vezes voltadas à linguagem dos quadrinhos, uma das maiores
contribuições da revista.

Nesse sentido pudemos perceber que há uma estreita relação entre a forma como a
linguagem se desenvolveu e a postura da revista. Sabe-se que não é uma conclusão fechada,
ainda há muito mais a se averiguar, tendo sido lançado aqui apenas algumas hipóteses
possíveis para uma resistência tão grande a um elemento historicamente de enorme
importância para as histórias em quadrinhos.

Os balões marcam a liberdade da imagem para narrar, possibilitam diversas e criativas


formas de interação, seguidas de incontáveis possibilidades, boa parte delas inexistentes n’O
Tico-Tico, uma vez que, com certeza, conscientemente, não os desenharam.
Referências

CARDOSO, A. E. Memórias d’O Tico-Tico: Juquinha, Giby e Miss Shocking. Brasília:


Senado Federal, Conselho Editorial, 2009.

ECO, U. Apocalípticos e Integrados. 5ªed. São Paulo: 1998.

JUNIOR, G. A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos
quadrinhos, 1933-64. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

LUYTEN, S. O que é história em quadrinhos. São Paulo: Brasiliense, 1988.

MERLO, M.C. O Tico-Tico um marco nas histórias em quadrinhos no Brasil (1905-


1962). Disponível em: http://ebookbrowse.com/o-tico-tico-um-marco-nas-historias-em-
quadrinhos-no-brasil-doc-d134732787. Acesso: 28/07/2012.

NICOLAU, M. Falas e Balões: a transformações dos textos nas histórias em quadrinhos.


João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008.

RAMOS, P. A Leitura dos Quadrinhos. São Paulo: Contexto, 2009.

VERGUEIRO, W.; SANTOS, R.E. (orgs). O Tico-Tico: centenário da primeira revista de


quadrinhos do Brail. São Paulo: Opera Graphica, 2005.

VERGUEIRO, W.; SANTOS, R.E. A postura educativa de O Tico-Tico: uma análise da


primeira revista brasileira de histórias em quadrinhos. Disponível em:
http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comeduc/article/view/7715/7119. Acesso:
28/07/2012.

Periódicos:

O Tico-Tico:

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=153079&PagFis=0&Pesq=.

Buster Brown:

http://www.barnaclepress.com/comics/Buster%20Brown/.