Você está na página 1de 12

DOI: 10.4025/4cih.pphuem.

289

O ESTUDO DO SIMBOLISMO NO BRASIL: COMO UMA HISTÓRIA POSSÍVEL


PARA OS LUGARES DE INTERAÇÕES CULTURAIS

Alexandro Neundorf (Doutorando pela UFPR)

O Simbolismo, como estilo literário, surgiu na França como um movimento de


oposição ao Realismo e ao Naturalismo, e como o ponto para onde confluíram as influências
da mística oriental (religião, artes), da crítica às correntes materialistas e cientificistas de uma
sociedade industrial que se desenvolvia com vigor nos inícios do século XX.
Possuidor de peculiaridades que atestam esse “dissabor” com relação aos valores
e o pensamento resultante da postura cientificista, evolucionista, progressista, o Simbolismo
era marcadamente individualista e místico (por isso também chamado pejorativamente de
“Decadentismo”), assim como portador de características tais como o subjetivismo
exacerbado, na medida em que a visão objetiva da realidade não os interessava, e o
transcendentalismo, uma vez que a ênfase voltava-se para o imaginário, a fantasia, o sonho, as
formas alegóricas de se dizer algo, o caráter vago, impreciso e indefinido de sua linguagem e,
portanto, de sua relação com o mundo. Em outros termos:

Toute Pensée émet un Coup de Dés. 1

Revelador da encruzilhada que um poema simbolista, ou mais claramente, que a


linguagem simbolista impõe ao leitor: a necessidade de “escolher”. A ambigüidade, aliada a
uma expressividade indefinida, in-objetiva...: mero mistério aparente, neste “lance de dados”,
ou uma constatação de como funcionam nossos sentidos e nossa relação com o mundo? Ou,
ainda, nesse universo de sentidos, um terceiro, quarto...
Tendo surgido no final do século XIX é reconhecido como o último grande
movimento estético deste período. Charles Baudelaire, poeta francês, é apontado como o
precursor do movimento, através de sua publicação “As Flores do Mal” de 1857. Mas é, no
entanto, especificamente o seu soneto “Correspondances” que, em geral, é apontado como
um ponto de partida para a construção dos cânones e conteúdos simbolistas. Baudelaire foi
também influenciado pelas teorias de Edgar Allan Poe, que dissertara sobre a criação poética,
onde compreendia a figura do poeta como sendo a de um intérprete do mundo sensível
emanando uma simbologia universal, do qual àquele seria a manifestação.
1986

La Nature est un temple où de vivants piliers


Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers. 2

Além de Poe, Baudelaire fora influenciado por autores como Novalis e Richard
Wagner. No entanto, somente muito posteriormente que o movimento é nomeado, pelo
manifesto de 1886 (publicação de Jean Moréas no Le Figaro) 3, como “simbolismo”. Apesar
de ter se difundido por Europa e América, é na França que o Simbolismo encontra seus
principais expoentes, nas figuras de Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, entre outros de menor
expressão.
No Brasil, o Simbolismo é recebido com relativa rapidez 4, uma vez que já em
meados do segundo quartel do século XIX, alguns autores estavam produzindo suas obras e
poesias com características nitidamente simbolistas. Naturalmente, uma certa defasagem
temporal ocorre no contexto brasileiro e, em específico, no paranaense. Se é na década de 80
que o Simbolismo alcança sua maturidade no âmbito europeu, no Brasil é já mais ao fim do
século e no Paraná ainda alcança uma duração que o permite ser o principal movimento
literário até o fim da década de 1910, pelo menos. No Brasil os principais autores foram Cruz
e Souza (que publicou já em 1893 seu “Missal e Broquéis”), Alphonsus de Guimaraens (de
“Dona Mística” de 1899) e Pedro Kilkerry, além do grupo paranaense composto por Rocha
Pombo, Emiliano Perneta, Jean Itiberê, entre outros. Este simbolismo nacional enfatizava no
plano temático, idéias como as da morte, da transcendência espiritual, da integração com o
cosmo, o mistério e o sagrado, os conflitos entre espírito e matéria, angustia e sublimação dos
apetites sexuais, etc.
Como já mencionamos, o Simbolismo tem suas origens cravadas no ano de 1857,
quando da publicação de “Le Fleurs Du Mal” de Charles Baudelaire. Esta obra causara um
grande tumulto não só nos meios literários, mas também em outras esferas da sociedade em
geral, assumindo dessa forma a pecha de uma verdadeira “divisora de águas”. De fato, após
essa publicação, novas vertentes seriam desenvolvidas pela arte literária na frança,
principalmente no trabalho com temas considerados tabus em poesia e mesmo em prosa, mas
também com propostas “revolucionarias” como a de criar um novo tipo de poesia e mesmo
uma nova moral poética.
O escândalo foi tamanho que, em um prefácio posterior, o poeta teve de explicar o
porquê de um título tão agressivo: “Poetas ilustres tinham dividido há muito tempo as
1987

províncias floridas do domínio poético. Pareceu-me prazeroso, e tanto mais agradável,


porque a tarefa era mais difícil, extrair a beleza do mal”. 5
A grande motivação por trás de um tratamento tão desconforme com relação à
tradição seria na verdade um extremo desgosto para com a então chamada “modernidade”,
fato esse exposto em um pequeno texto publicado alguns anos após “As Flores do Mal”, em
1859. Em “Sobre a Modernidade”, Baudelaire ensaia um diálogo crítico entre estética e
sociologia, refletindo sobre o papel da arte na representação da vida burguesa e dos
espetáculos da moda. De certa forma, há nesse ensaio, que foca a arte semi-anônima de
Constantin Guys, uma indicação avant la lettre dos pilares que irão fundamentar a
modernidade: a velocidade, a mudança, a transitoriedade.
Além desse desgosto com os tempos modernos, a principal aflição era para com a
tendência dominante, com relação às visões de mundo, da objetividade, que tornava todas as
esferas da vivência humana (incluindo a arte) e todas as coisas do mundo potenciais objetos
de perscrutação, de investigação minuciosa tendente a um conhecimento total através da
ciência. Em outros termos, todas as coisas haviam se tornado “cientificizáveis” e, portanto, as
dimensões do mistério, do insólito, do desconhecido, estavam propensas a desaparecer. Em
um sentido mais profundo, era a visão de mundo focada no outro pólo, no subjetivo, que
tendia a obliteração e essa “atitude irônico-maldita adotada pela poética baudelairiana frente
à desorientação e à perda de sentido, que se instaura entre o poeta e as imagens da cidade,
aponta-nos, segundo Benjamin, para uma outra dimensão: a supressão da subjetividade do
homem moderno” 6 e além: a da própria “... impossibilidade poética no mundo burguês” 7.
Extrair a beleza do feio, do mal e do repugnante, era a intenção declarada, mas
com um fim subjacente de causar espanto no leitor apático e passivo acostumado com o
convencionalismo da poesia tradicional “moralizada” por princípios embebidos nas correntes
estéticas anteriores. Até então, o fim último de toda poesia era provocar sensações boas e
agradáveis no leitor, através de uma harmonia reinante em todo texto. De toda forma, e aqui
nos repetimos, com “Le Fleurs Du Mal” o autor inicia, em um nível poético, o registro de um
descontentamento em relação a uma visão de mundo que se tornava dominante e,
conseqüentemente, “colonizava” também o modo de fazer poesia em específico e arte em
geral.
Não tardou, e todo o assombro gerado com a publicação de “As Flores do Mal”
fez escola entre os franceses. Em 1866 é lançada a coletânea “Le Parnasse Contemporain”
que, apesar de referenciar um certo “parnaso”, colhia diversos colaboradores e portadores de
diferentes estatutos estéticos. Nessa primeira coletânea (que seria seguida por mais duas
1988

publicações nos anos de 1871 e 1876) publicaram seus poemas tanto Charles Baudelaire, com
“Madrigal Triste”, como Paul Verlaine com “Mon Rêve Familier” e Stéphane Mallarmé com
“Les Fênetres”.
A seguir, no ano de 1881, é publicado um artigo crítico chamado “Théorie de la
Décadence” cuja autoria remetia a Paul Bourget. Nesse artigo, pela primeira vez a idéia de
decadência surge como um epíteto, que posteriormente seria utilizado para alcunhar aquilo
que já assumira o status de “movimento estético”, mas cuja intenção era a de nomear o estado
atual da França da segunda metade do século XIX.
No ano posterior, Paul Verlaine publica o poema “Art Poétique”, onde inicia uma
nova guinada: a da musicalidade e a da inserção da sugestão na obra poética.

A Música antes de tudo,


E para isso prefere o Ímpar
Mais vago e solúvel no ar,
Sem nada nele que pese ou que pouse.
É preciso também que não vás Escolher tuas palavras sem algum desprezo: Não há
nada mais caro do que a canção cinzenta Onde o Indeciso ao Preciso se une.8

O ano de 1884 marca a ante-sala para o auge de 1886 9 com vários acontecimentos
importantes para uma historicização e contextualização do movimento simbolista na França.
Marca a publicação de “Poetes Maudits” de Paul Verlaine, que divulga autores simbolistas
que se destacaram no devir do movimento, como Tristan Corbière e Stéphane Mallarmé. No
mesmo ano, é publicado o exemplo do decadente com o protagonista do romance “À
Rebours”, Floressas Des Esseintes, cuja autoria cabe a Joris-Karl Huysmans. Ainda em 1884,
é lançado o primeiro volume da revista “La Wallonie” na Bélgica, para divulgação de autores
simbolistas, incluindo poemas do belgo-paranaense Jean Itiberê.
Se o ano anterior serviu para consolidar a nova estética como uma “moda”, o
seguinte é marcado por críticas ferrenhas advindas da imprensa. Das mais destacadas, é a
paródia de Henri Beauclair e Gabriel Vicaire, “Les Déliquescences d’adoré Floupette”, onde
expõe uma imagem caricatural do poeta decadente.
Da mesma forma que Beauclair e Vicaire, Paul Bourde também publica um sátira,
intitulada “Les Décadents”, onde satiriza diversos autores nomeando-os como “decadentes”.
A resposta às sátiras de Beauclair, Vicaire, e Bourde, veio com Jean Moréas. Nela, a alcunha
satírica antes proposta era rechaçada e posta de lado ante a designação de “simbolistas”.
O auge do movimento é atingido em consonância com a repercussão que a nova
estética assume junto à crítica especializada. Depois da “crítica” satírica veiculada por
1989

diversos autores em 1885, surgem textos que apontam para uma reflexão mais freqüente
quanto ao estatuto estético do novo movimento. É nesse contexto que surge o “Traité Du
Verbe” de René Ghil. Nele, o autor reivindica uma correlação entre os sons fonéticos e os
sons dos instrumentos musicais, as cores e os sentimentos.
Juntando-se à crítica contrária ao movimento, Anatole Baju nega aos decadentes a
pecha de “escola”. No entanto, a contribuição mais expressiva vem do defensor do
movimento no ano anterior, Jean Moréas. No ensaio “Le Symbolisme”, ele prioriza a intenção
de determinar a essência da linguagem simbólica e uma definição precisa e instrumental do
símbolo.
Nos anos subseqüentes aos “do auge”, nota-se já um enfraquecimento do
movimento na França, com uma crescente palidez das produções e um recuo na efervescência
dos anos anteriores.
O único foco da crítica repousava em Ferdinand Brunetière que publicara variados
artigos explanando não só sobre a influência de Baudelaire sobre os poetas das gerações
posteriores, mas também sobre a necessidade de a poesia possuir um estatuto moral, algo que
a tornasse “útil” e que, portanto, extinguisse a “poesia pela poesia”.
Nesse contexto, de exaustão e de deserções, Jean Moréas, que antes defendera,
publica em tom panfletário “Les Premères Armes du Symbolisme”, uma reavaliação das bases
do simbolismo que já indica o seu esmorecimento.
Enfim, em 1891 ocorre o momento que marca não só a grande homenagem
dedicada a Stéphane Mallarmé que serviria para enaltecer e apontar o apogeu triunfal e
categórico do movimento, mas também o declínio agonizante desta escola na França,
referendado pelo pronunciamento de Jean Moréas que declara: o simbolismo morreu.

O FOCO NAS TRANSFERÊNCIAS CULTURAIS E OUTROS APORTES TEÓRICO-CONCEITUAIS.

O interesse desta pesquisa localiza-se no movimento simbolista, a nível nacional,


em um momento de formação, no período que transcorre entre 1880 e 1920, como produto de
um processo de transferências culturais que se ancora nos chamados países centrais da
produção cultural, tais como França, em um primeiro período, e Portugal, Bélgica, Itália,
Espanha, posteriormente.
Sob outro foco, em uma escala mais próxima, o interesse recai nos “lugares” onde
ocorrem os processos de transferência, recepção, circulação e adaptações culturais, entre
outros. Nesse aspecto, determinados personagens, de certa forma, “encarnam”, ou elucidam,
1990

esses “lugares”. Exemplificando: Jean Itiberê é o poeta (também jornalista, diplomata e


doutor em direito pela Universidade de Bruxelas) que assume o papel de correspondente do
Paraná na Europa, publicando inúmeros artigos, traduções, noticias em geral, sobre assuntos e
temas, em geral, franceses, ingleses ou belgas. Dessa forma, é ele quem assume (assim como
Nestor Victor, entre outros) o papel do “receptor” e também “transferidor” de elementos de
um sistema de pensamento simbolista europeu. Já Rocha Pombo e, embora posteriormente,
Emiliano Pernetta, são aqueles que promovem a circulação e o contato com outros escritores
no interior do país. Dario Vellozo e Euclides Bandeira, os atores de divulgação e, assim como
os anteriores, adaptação do Simbolismo.
Um problema principal então se encontra na compreensão das vicissitudes dos
processos, acima mencionados, e na relação estabelecida entre um Simbolismo europeu e o
que se desenvolve no Brasil, assim como a dinâmica interna de relação entre os demais
movimentos locais no país. A questão adquire uma maior complexidade quando se vincula a
esta análise, a necessidade de compreender de igual forma o ideário em voga correspondente à
época, ou em outros termos, as idéias com maior destaque e influência no âmbito dos círculos
intelectuais ou literários: evolucionismo, darwinismo social, positivismo, cientificismo,
objetivismo, materialismo, nacionalismo e regionalismo, republicanismo, romantismo, as
teorias raciológicas, entre muitas outras que interferiram na recepção e adaptação de um
sistema de pensamento e valores simbolista no Brasil.
Apesar dos objetivos mais pragmáticos e precisos exigidos em um trabalho de
tese, a intenção aqui é de também contribuir, mesmo que ligeiramente e de forma
despretensiosa, com a exploração de quatro tópicos, de coloração mais geral e universalizante,
diga-se: a) a recepção do simbolismo fora da França, ou de forma mais genérica, a recepção
de produtos culturais em países periféricos à produção dos centrais; b) o estudo mais amplo, e
ainda incipiente, dos processos de transferências culturais; c) a história dos sistemas de
valores, ou representações; d) o método para abordar tal objeto e problema.
As sucessivas crises que confrontavam os pólos de orientação do homem, no que
tange sua relação com o mundo e consigo mesmo, subjetividade versus objetividade aliado a
toda uma gama de gradações que as mixavam em uma tentativa de encontrar um ponto médio,
mesmo que tenham sua incerta origem, ao menos no mundo ocidental, apontada para a Grécia
antiga, tiveram um dos seus episódios mais importantes (ao menos no que tange a esfera das
artes, ou da estética, tratando mais genericamente) no confronto que se travou na França entre
duas formas de se fazer poesia. “Duas formas” que, apesar da dicotomização arbitrária aqui
proposta, na verdade encarnavam, cada uma a sua maneira (ou sob diferentes maneiras), os
1991

dois pólos antes mencionados. Cada um desses pólos propõe uma determinada “orientação”
para o homem em seu trato consigo mesmo e para com as coisas do mundo e, nesse sentido,
também orientavam a conduta de artistas, poetas, literatos, tanto do Romantismo e
Simbolismo, de um lado, como das correntes Realistas, Naturalistas e Parnasianas, de outro.
Ocorre que um desses pólos deitou raízes mais profundas, difusas e abrangentes
não só no campo das artes, mas expandido também para a área das ciências e da técnica, na
política e na economia. Um dos desdobramentos, dentro de um vasto horizonte de
possibilidades, desse predomínio da objetividade foi, além de uma postura cada vez mais
pragmática e utilitária, uma forte tendência ao individualismo ante o coletivo, ao claro e
compreensível ante o obscuro e misterioso, etc.
Em um trabalho que força a reflexão sobre os processos de transferências de
idéias, é verificável a existência de diferenciados momentos que, em conjunto, caracterizam
as vicissitudes de um determinado período histórico. No caso do nosso trabalho, um primeiro
momento a ser analisado é aquele simbolizado pela publicação da obra inaugural “Le Fleurs
du Mal”, do poeta Charles Baudelaire em 1857. Tal acontecimento marca o encontro de
influências e transferências iniciais que propiciaram o acontecimento “Simbolismo” como
movimento estético. Ou seja, e aqui chamamos assim, um “primeiro” processo de
transferências (ou releituras, adaptações, continuidades ou rupturas) ocorre quando Baudelaire
e seu “As Flores do Mal” (tomados como ponto inicial, mesmo que metafórico) assume
algumas idéias de Edgar Allan Poe, do Romantismo, do pessimismo schopenhauriano, do
misticismo de Swedenborg.
O momento seguinte se dá com a aceitação do proposto por Baudelaire em seus
discípulos mais diretos: Mallarmé, Verlaine e Rimbaud, mas também Huysmans, L’isle-
Adam, etc. Nesse segundo momento, temos muito mais um processo de difusão, ou
transferência, entre gerações.
No processo de difusão da estética simbolista para os países vizinhos e América
principalmente, temos um terceiro momento. Neste, enfatizaremos exclusivamente o caso
brasileiro, tomando como focos desse encontro entre as idéias vindas da Europa e o Brasil, os
poetas que se encontram em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Paraná e no Nordeste
(basicamente aqueles que colaboram com a Padaria Espiritual em Fortaleza/CE). Para este
texto, no entanto, no que tange esse terceiro momento, exporemos apenas algumas
considerações iniciais sobre o Simbolismo no Paraná.
Sim, se “para ler o Simbolismo sem cair em equívocos, é preciso interrogar-se
sobre a realidade deste fenômeno complexo, esforçando-se em não reduzir sua
1992

10
complexidade” , de igual forma deve-se notar a complexidade de um processo que o
transporta transformando-o de um espaço a outro e entre homens e choques culturais de
diferentes magnitudes. E o fenômeno sócio-dinâmico das transferências culturais, em sua
complexidade, acaba por abarcar toda uma gama variada de processos: no momento de
contato, vamos ter a recepção (ou assimilação, ou apropriação), as taxionomias (ou
classificações), a seleção; na apresentação, teremos os processos (ou poderíamos chamar, no
contexto dessa pesquisa, de “sub-processos”, na medida em que a “transferência” seria o
processo matriz) de tradução, de adaptação, hibridização, os sincretismos e releituras, as
readaptações e resignificações; em um terceiro momento, temos o lugar da divulgação com os
processos de circulação, ou publicação, ou difusão; e, por fim, um momento de refluxo,
quando o produto originário dessa seqüência, eventualmente, retorna à origem, àquela do
momento inicial do contato.
Outro aspecto que é conveniente explorar diz respeito à forma com que a difusão
ocorre ou, especificamente, nos planos em que ela ocorre. Nesse caso, o Simbolismo no Brasil
difunde-se (ou é apropriado) em dois diferentes extratos: o dos escritores e o do público leitor.
É importante notar essa diferença em casos como o paranaense, por exemplo, que contou com
uma aceitação forte por parte do público leitor de jornais e revistas locais e, de certa forma,
até garantiu a maior longevidade do movimento neste estado. Em geral, no entanto, o
Simbolismo foi um acontecimento, da história literária ou da arte, bastante hermético e de
difícil acesso para todos aqueles não iniciados contando, portanto, com uma difusão no
público-leitor bastante fraca e mitigada.
Para fins metodológicos e de sistematização, também convém diferenciar dois
tipos, ou sistemas, de transferências culturais que, embora interpenetrados e complementares,
são aqui instâncias distintas de reflexão na medida em que cada um deles fornece um conjunto
diferente de questionamentos e ponderações: o fato de as transferências se darem entre
homens (individualmente ou em grupos) e o fato de as transferências se darem entre
diferentes espaços e tempos. No primeiro, podemos exemplificar um processo de
transferência na reflexão sobre como ele acontece entre indivíduos (por exemplo, entre Jean
Itiberê e Nestor Victor), entre gerações (entre a geração de Baudelaire e as de Mallarmé,
Verlaine e Rimbaud), entre grupos (entre os grupos de poetas paranaenses e os da Padaria
Espiritual em Fortaleza). No segundo, podemos refletir sobre o fator “distância” (temporal e
espacial) intervindo nesse processo das transferências culturais (entre França e Brasil, ou
Portugal e Brasil); também podemos analisar o impacto das diferenças culturais entre os dois
espaços nos processos de recepção e adaptação, por exemplo.
1993

No que tange o primeiro “sistema” de transferências, aquele que se dá entre


homens, ocorre que aqueles que atuam como tradutores (como Baudelaire fez com Poe),
divulgadores (como Nestor Victor fez no Paraná, ou mesmo em nível nacional) ou entusiastas
(como Mallarmé fez com Poe, como Jean Moréas fez com o Simbolismo), exercem uma
função primordial de conexão nos processos de transferência. Muitas vezes, esses conectores
não são nem a versão mais acabada do processo de transferência e ainda assim conservam seu
lugar “inter” para que idéias “exo” tornem-se, enfim, “intra”. Em grande parte, esses
conectores são, na maioria das vezes, os únicos tradutores das idéias, adquirindo assim um
papel de baluartes, ou de expressão maior, de um determinado fenômeno cultural. Em casos
mais raros, são a origem de um determinado fenômeno cultural original, como no caso de
Charles Baudelaire, que atuou como um conector de diferentes aportes articulando e
traduzindo sob uma nova forma um conjunto variado de influências. Quando se tornam os
divulgadores e exemplos para uma geração, mesmo que percam o papel de monopólio na
tradução cultural, imprimem sua influência e acabam por direcionar, em partes, o fenômeno
resultante.
Uma passagem ilustrativa do que se quer expor aqui poderia ser feita com Rüsen
que, apesar de estar a tratar de outro tema em particular, pode ser utilizado de maneira
análoga ou, simplesmente, como um estopim heurístico para a reflexão que segue: “trata-se
do fato de que o agir humano jamais ocorre sem pressupostos. Em cada ponto de partida de
uma ação se encontram elementos de outras ações, anteriores, de tal modo que cada ação se
articula com os efeitos de ações já realizadas”, ou em outros termos, o que ele chama
11
também de uma “eficácia do passado no presente” . Os processos de interação culturais,
objetivados nos personagens que promovem a conexão, estão imbuídos dessa “eficácia” na
medida em que são a presentificação de influências recebidas no passado, rearticuladas a cada
instante no presente e propostas, sob uma forma narrativa, como um projeto para o futuro. Em
certo sentido, a transferência cultural, através de seu caráter de mobilidade, expõe o aspecto
temporal à análise, em seus diversos desdobramentos como o retardamento, a demora, a
espera, o atraso, a expectativa, a rapidez, o instantâneo, a aceleração. Se toda uma rede de
interações, aqui enfocadas no papel dos conectores, fosse exposta, teríamos constituída uma
espécie de “nervura” da cultura, nos seus diversificados processos sócio-dinâmicos.
Em se tratando do segundo “sistema” das transferências, assim exposto como
entre diferentes espaços e tempos, a reflexão sobre o poder de irradiação (velocidade com que
uma idéia se difunde, amplitude dessa difusão em um espaço como o Brasil, por exemplo),
sobre as “demoras” ou atrasos na transferência (que podem ser fruto de uma demanda
1994

inexistente, ou de uma tradução deficitária, etc.), sobre os contatos “intra” espaciais (entre
paranaenses e nordestinos, por exemplo) e os processos de irradiação secundária e re-
traduções, sobre os refluxos ou retornos, enfim, sobre a dinâmica cultural no interior e entre
os espaços, adquire um importante estatuto nessa pesquisa.
Algumas prerrogativas fazem parte do trabalho do historiador, de forma que são o
fator que gera identidade para esse trabalho, uma delas, nas palavras de Jörn Rüsen, são “os
métodos da pesquisa empírica [que] constituem o terceiro fator dos fundamentos da ciência
12
da história” (de um total de cinco fatores que perfazem o que ele chama de “matriz
disciplinar” 13).
Nesse sentido, temos em mente que cada vez mais, ante as críticas a abordagens
que se utilizam de modus operandi desenraizados de seus opus operatum, a necessidade de se
refletir sobre “método”, em uma proposta que leve em consideração o contexto específico de
cada pesquisa, tem tomado vulto em investigações mais recentes que, ao elaborar métodos
próprios na abordagem das “fontes”, na síntese e na análise, na investigação e seleção
bibliográficas, promovem uma maior liberdade e maleabilidade para a pesquisa, assim como
um espaço para o fazer criativo e, portanto, original. Em outros termos, é a abdicação dos
antigos e tão usuais “argumentos de autoridade”, assim como a insubordinação ante a regra,
tornada quase inconsciente, que se resume na pergunta, tão comumente feita: “qual vai ser o
referencial teórico?”, e que exige do interlocutor uma resposta que contenha ao menos dois ou
três nomes “de peso” e amplamente conhecidos (que de tempos em tempos são substituídos
por outros, ao sabor da moda). “Regra” que praticamente pressupõe que as teorias são
forjadas antes mesmo das pesquisas empíricas, ou melhor, antes de qualquer contato com o
empírico da pesquisa. Entendemos que o pesquisador não é onisciente com relação ao seu
objeto de trabalho e que toda teoria se desenvolve ao longo do trabalho de pesquisa, em seu
devir, e apresenta-se, de início, ainda que de forma tosca e preliminar, na sua resultante forma
historiográfica. Qualquer que seja a teoria contida nessa resultante, ela tende, com um
desenvolvimento posterior e insaciável, pois jamais há de ser finalizada, a se refinar e se
tornar cada vez mais completa e significativa para o campo em que ela se localiza e ancora.
Notas

1
“Todo o Pensamento emite um Golpe de Dados”. Stéphane Mallarmé, de seu poema, possivelmente, mais
conhecido, “Un Coup de Dés Jamais N’Abolira Le Hasard”, de 1897.
2
“A Natureza é um templo onde vivos pilares/Deixam às vezes brotar confusas palavras;/O homem ali passa
entre florestas de símbolos/Que o observam com olhos familiares”. Aqui, apenas a primeira estrofe de
“Correspondances”, que é quase como que uma declaração de princípios para uma poesia simbolista.
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Trad. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 114-
115.
1995

3
E que se declarava absolutamente contrário ao positivismo, realismo e ao naturalismo, ao intelectualismo, ao
objetivismo e a rigidez formalista do parnasianismo, por exemplo.
4
Tendo-se em conta as dificuldades de comunicação que só começa a se desenvolver efetivamente ao fim do
século XIX.
5
BAUDELAIRE, Charles. Prefácio. In: Les fleurs du mal. Paris: Garnier, 1961, p. 248.
6
DE MENEZES, Marcos Antonio. Um Flâneur Perdido na Metrópole do Século XIX: História e Literatura em
Baudelaire. Tese de doutorado em História. Universidade Federal do Paraná. Curitiba/PR, 2004, p. 10.
7
PONTES, Maria do Rosário. Breve história de um encontro (Baudelaire, o bobo e o saltimbanco ou o sacrifício
e a Arte). In: verificar, p. 138.
8
VERLAINE, Paul. Oeuvres Poétiques Completes. S.n.d., p. 326.
9
A grande maioria dos autores assim o aponta. Para esses, uma periodização possível (da história do movimento
na França) enalteceria 1857 como sendo o “da origem”, 1886 como o “do auge” e 1891 como o “do declínio”.
10
CAROLLO, Cassiana. In: PERNETA, Emiliano. Ilusão e outros poemas. Curitiba: Gráfica Litero-Técnica,
1996.
11
RÜSEN, Jörn. Razão histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2001, p. 76 e 82, respectivamente.
12
RÜSEN, Jörn. Razão histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2001, p. 33.
13
Objeto da teoria da história, os fundamentos e princípios da ciência da história são descritos como “matriz
disciplinar”, cuja inspiração fora retirada por Rüsen de Thomas Kuhn e sua idéia de paradigma. Cf. RÜSEN,
Jörn. Razão histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 2001, p. 29.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEGA, Maria Tarcisa Silva. Sonho e invenção do Paraná: geração simbolista e a construção
de identidade regional. Tese de doutorado em Sociologia. Universidade de São Paulo. São
Paulo/SP, 2001.

BRANDÃO, Ângela. A arte e a imagem das máquinas. In: Revista Tecnologia e Sociedade,
n° 02, 1° semestre de 2006, Curitiba, Editora UtFPR, p. 41-56.

_____. A Fábrica de Ilusão: o espetáculo das máquinas num parque de diversões e a


modernização de Curitiba, 1905-1913. Monografia de graduação em história. Universidade
Federal do Paraná, 1993.

CAROLLO, Cassiana. In: PERNETA, Emiliano. Ilusão e outros poemas. Curitiba: Gráfica
Litero-Técnica, 1996.

DE MENEZES, Marcos Antonio. Um Flâneur Perdido na Metrópole do Século XIX: História


e Literatura em Baudelaire. Tese de doutorado em História. Universidade Federal do Paraná.
Curitiba/PR, 2004.

GUÉRIOS NETO, Áureo Lustosa. Imagem, Poesia, Música: Baudelaire apresenta-nos


Wagner. In: VIII Seminário Nacional de Literatura, História e Memória, II Simpósio de
Pesquisas em Letras da UNIOESTE. Verificar

MOISÉS, Massaud. A Literatura brasileira: o Simbolismo (1893-1902). São Paulo: Cultrix,


1967, v. 4.

MOLER, Lara Biasoli. Da palavra ao silêncio: o teatro simbolista de Maurice Maeterlinck.


Tese de doutorado em Letras. Universidade de São Paulo. São Paulo/SP, 2006.
1996

ORTIZ, Renato. Cultura brasileira & identidade nacional. 5ª Ed. São Paulo: Brasiliense,
2003.

PAPOULA, Talita. Entre Dândis e Decadentistas, Uma Possível Salomé: Uma Leitura de A
Confissão de Lúcio, de Mario de Sá-Carneiro. In: verificar

PONTES, Maria do Rosário. Breve história de um encontro (Baudelaire, o bobo e o


saltimbanco ou o sacrifício e a Arte). In: verificar p. 129-42.

RAMA, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação. 3ª ed. São Paulo:


Brasil Ed., 1963.

VICENTE, Natália Simões de. O satanismo na obra de Júlio Perneta. Dissertação de


mestrado em Letras. Universidade Estadual de Campinas. Campinas/SP, 2004.