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Análise Psicológica (1999), 4 (XVII): 687-694

A depressão nas perturbações da alimentação

NUNO NODIN (*)

1. INTRODUÇÃO Depressão mas, pelo contrário, o de procurar


compreender os elos que unem aquelas patolo-
A Anorexia e a Bulimia Nervosas são pertur- gias. Convém referir que, apesar de a Anorexia e
bações do comportamento alimentar característi- de a Bulimia constituírem elas próprias quadros
cas da adolescência cuja incidência na população diagnósticos diferentes, as duas têm diversas
parece estar a aumentar em anos recentes. áreas de contacto, não sendo incomum que num
É bem conhecida, ainda que pouco explorada, mesmo indivíduo coexista sintomatologia asso-
a estreita associação entre estas duas perturba- ciada a ambas, simultaneamente ou em momen-
ções e a depressão do humor. Se, por um lado, é tos diferentes.
característico da depressão a perda do apetite, As patologias do comportamento alimentar
por outro lado, a Anorexia e a Bulimia Nervosas são caracterizadas por uma preocupação exces-
são frequentemente acompanhadas de sintomato- siva com o peso e com as formas corporais bem
logia depressiva de variada ordem. A natureza como pela utilização de medidas extremas para o
dessa associação permanece, no entanto, pouco controlo do peso. Enquanto que na Anorexia o
clara tornando-se por vezes ténue a fronteira en- indivíduo utiliza a restrição alimentar e o exercí-
tre a perturbação do comportamento alimentar e cio físico em excesso para perder peso, na Buli-
a depressão. mia os meios privilegiados são o uso de laxantes,
Uma das primeiras referências que se conhece diuréticos e a auto-indução de vómitos, o que
relativa a esta associação é feita por Freud, num surge normalmente após surtos de voracidade
texto de 1895. Escreve este autor que «a famosa (consumo de uma grande quantidade de comida
Anorexia Nervosa das raparigas parece ser (após num período limitado de tempo), também eles
cuidada observação) uma melancolia em que a característicos desta perturbação.
sexualidade se encontra subdesenvolvida. As Do ponto de vista dinâmico, pode-se conside-
pacientes deixam bem claro que não comem rar que a Anorexia e a Bulimia são diferentes
simplesmente porque não têm apetite, e por ne- manifestações de um mesmo tipo de perturbação
nhuma outra razão. Perda de apetite – em termos cuja causa se encontra em dificuldades na reso-
sexuais, perda de libido» (p. 200). lução do processo de separação da mãe numa fa-
Tentando ir um pouco além da explicação des- se precoce do desenvolvimento infantil (Mintz,
te autor, o objectivo deste artigo não é o de tentar cit. por Gabbard, 1992), ideia esta que iremos re-
clarificar a distinção entre Anorexia/Bulimia e tomar mais à frente. Os indivíduos com estas
perturbações foram habitualmente, ao longo da
infância, crianças super adaptadas, nunca dando
(*) Psicólogo. qualquer tipo de problemas a pais ou professo-

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res, o que na verdade poderá constituir apenas estudar o modo como o humor deprimido de
uma fachada que oculta os problemas de perso- anoréticas e bulímicas pode influenciar as suas
nalidade subjacentes. É o aparecimento da pu- percepções da relação entre os pais. Os resulta-
berdade, com todas as suas alterações físicas e dos parecem indicar que a existência de relações
novos investimentos objectais, que provoca o parentais conflituosas propicia o aparecimento
aparecimento da perturbação alimentar. Sendo de depressão nestes indivíduos. Estes dados são
incapazes de regular os seus relacionamentos in- consistentes com as teorias que defendem que
terpessoais, estes indivíduos deslocam os confli- existe, nas famílias de indivíduos com perturba-
tos para a esfera alimentar. ções alimentares, a transmissão de comunicação
Porém, como refere Gabbard (1992), «en- indutora de depressão.
quanto que a paciente anorética se caracteriza Será também importante referir que se verifi-
por maior força egóica e maior controlo do su- ca uma prevalência superior à da população de
perego, a paciente bulímica pode sofrer de uma Depressão Major e Perturbação Bipolar em pa-
incapacidade generalizada de adiar a descarga rentes do primeiro grau destes indivíduos (APA,
pulsional, devido a um ego enfraquecido e um 1994).
superego frouxo» (p. 204). Esta diferença não A Bulimia, em particular, tem sido alvo de al-
impede que, tal como já foi referido, as passa- guns estudos da área da Psicologia Cognitiva
gens entre os comportamentos anoréticos e os que procuram determinar o seu grau de associa-
bulímicos sejam frequentes e imprevisíveis. ção com a Depressão. Uma das razões para que
tal aconteça é que os anti-depressivos são fre-
quentemente utilizados e com sucesso no trata-
2. A DEPRESSÃO NOS DISTÚRBIOS mento de bulímicos. No entanto, há que ter em
ALIMENTARES consideração que nem tudo o que é tratado por
anti-depressivos é depressão.
De acordo com Herzog (1984, cit. por Pettina- Dois modelos são propostos (Poulakis & Wer-
ti, Wade, Franks & Kogan, 1987) cerca de 85% thein, 1993) para esclarecer esta relação: o pri-
de anoréticos e 60% de bulímicos sofrem de de- meiro defende que a Depressão é a causa do apa-
pressão. No caso da Bulimia, sabe-se que 60% recimento e manutenção da Bulimia, enquanto
dos indivíduos declaram já ter tido ideação sui- que o segundo faz derivar tanto a patologia ali-
cida, enquanto que 20% já tentaram o suicídio mentar como os componentes depressivos de
pelo menos uma vez (Beebe, 1994). cognições disfuncionais. As conclusões dos estu-
A constatação desta elevada associação levou dos efectuados para testar estes modelos pare-
outros autores (Andrews, Valentine & Valentine, cem apontar para a independência entre a Buli-
1995) a verificar se a existência de história pes- mia e a Depressão, ainda que a coexistência de
soal de abuso físico e sexual durante a infância cognições disfuncionais e de depressão constitua
seria um factor preditivo de perturbação ali- um factor de risco para o aparecimento de Buli-
mentar na adolescência e de depressão na vida mia Nervosa (Hamilton, Lydiard, Malcom &
adulta, tendo em consideração que o abuso é tido Schlesier-Carter, 1989; Poulakis & Werthein,
como responsável por várias perturbações psi- 1993).
quiátricas, entre as quais as duas acima referidas. Também Pettinati et al. (1987) concluíram
Apesar de não conclusivos, os resultados apon- que, apesar de ser frequente a coexistência entre
tam no sentido de que um comportamento ali- depressão e perturbação alimentar (Anorexia e
mentar perturbado pode ser considerado um Bulimia estudadas conjuntamente), elas são in-
indicador de posterior depressão crónica e recor- dependentes uma da outra, estando a segunda
rente, muito em particular no caso de mulheres associada a uma idealização de características de
que foram sujeitas a abuso sexual ou físico du- personalidade femininas.
rante a infância.
Tendo em consideração que a dinâmica rela-
cional familiar é um factor relevante no surgi- 3. ADOLESCÊNCIA E DEPRESSÃO
mento das perturbações do comportamento ali-
mentar, Wonderlich e Swift (1990) procuraram Se do ponto de vista cognitivo não parece ha-

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ver, portanto, um terreno comum entre as pertur- lidade e de insuficiência acompanhados de pro-
bações sobre as quais nos debruçamos, todos os jecções sobre o meio (Ferreira, 1991). A depres-
autores parecem estar de acordo no facto de que são surge devido à distância entre o Eu e o
sintomatologia depressiva muitas vezes acompa- Ideal de Eu narcísico, sendo o equilíbrio possível
nha as patologias do comportamento alimentar, e de alcançar através do apoio no amor objectal.
isto apesar de não constituir uma das caracterís- Esta situação surge numa altura em que o «Eu é
ticas essenciais das mesmas. Porquê, então, esta vulnerável, suporta mal as mínimas frustrações,
associação? Tendo em consideração que a Ano- a que reage com intolerância, calor emocional e
rexia e a Bulimia surgem frequentemente na se- de que se defende com sublimações» (op. cit., p.
quência de situações de perdas significativas, po- 83).
derão estas perturbações constituir elas próprias Para Feinstein (1975), as reacções depressivas
substitutos depressivos? Esta hipótese faz sen- na adolescência são a manifestação de conflitos
tido principalmente se tivermos em consideração nas relações objectais, sendo também indicado-
que a adolescência é uma fase do desenvolvi- res e factores que podem potenciar dificuldades
mento caracterizada pela presença de algum co- no crescimento psíquico do indivíduo. Neste
lorido depressivo. É esta a ideia sobre a qual nos contexto, as perdas objectais podem revelar-se
vamos debruçar seguidamente. especialmente traumáticas, muito em particular
A adolescência é uma época de mudança e, quando o ego não se encontra desenvolvido de
por consequência, de crise, permitindo reelabo- modo suficiente para integrar o reconhecimento
rar problemáticas mal resolvidas na infância. De afectivo e cognitivo dessas perdas.
acordo com Feinstein (1975), a importância des- No entanto, não é necessário que exista a vi-
ta fase da vida para a maturação psíquica é vência real da perda para que surja a depressão.
equiparável à dos estadios de desenvolvimento Será mais correcto, inclusive, falar de uma de-
psicossexual infantil, uma vez que será essencial pressibilidade básica na adolescência que pode
ao estabelecimento de uma identidade adulta e ser considerada a causa de muitos dos comporta-
sólida. No entanto, isso não acontece sem so- mentos característicos deste período, nomeada-
bressaltos, e vai depender dos recursos interiores mente a passagem ao acto. A passagem ao acto é
que cada um possui para lidar com as situações uma actuação não mentalizada de impulsos e de-
com que se depara. sejos, que pode constituir uma fuga face à de-
Um aspecto particularmente importante é o pressão que, deste modo, é evitada e adiada. Por
progressivo desinvestimento objectal das figuras vezes, este tipo de actuação directa pode reves-
parentais o que, por sua vez, é acompanhado de tir-se de características mais dramáticas porque
um processo de desidealização das mesmas. É o toma frequentemente formas auto ou hetero-
culminar de toda esta fase que vai permitir que o agressivas, sendo responsável por muitos dos
adolescente estabeleça a independência afectiva suicídios e tentativas de suicídio que surgem na
dos pais. Simultaneamente, todas as transforma- adolescência.
ções ao nível físico características deste período
são factores predisponentes a que o indivíduo se
confronte com a sua própria imagem, assim co- 4. DEPRESSÃO E SUBSTITUTOS DEPRESSIVOS
mo com a dos outros, deixando em aberto a pos- NAS PERTURBAÇÕES ALIMENTARES
sibilidade de novos investimentos afectivos e li-
bidinais. No caso das patologias do comportamento ali-
Todos estes processos com que o indivíduo se mentar, a depressão muitas vezes não é manifes-
depara durante a adolescência são propícios ao ta, apesar de existirem nelas vários aspectos
reactualizar de problemáticas de depressão e, que podem ser considerados como indicadores
deste modo, não é de estranhar que esta seja con- de depressão. Somos inclusivamente tentados,
siderada das mais comuns perturbações emocio- tal como Karl Abraham (1925, cit. por Brusset,
nais desta fase. 1977), a considerar a própria recusa em comer
Surge culpabilidade ligada ao Édipo e ao como um desejo de morte. De facto, as anoréti-
componente anal da sexualidade que induz o cas alcançam, por vezes, um estado de inanição
aparecimento repentino de sentimentos de inuti- tão avançado que acabam por morrer, quer de-

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vido à falta de alimentos em si quer por desequi- deração, uma vez que se encontra frequentemen-
líbrio electrolítico, encontrando-se uma taxa de te associado à depressão. Muitas vezes o início
mortalidade de entre os 5 e os 18% nestes indi- da dieta da anorética é induzido, de acordo com
víduos. a própria, pelo o facto de se sentir gorda e, logo,
Apesar disso, não deixa de ser uma escolha ostracizada pelos seus pares. Ela utiliza desta
estranha, porque longa e incerta, esta do suicídio forma a magreza para ser aceite pelos outros por-
por recusa alimentar. Para além de que é explica- que, como se sabe, o aspecto físico é muito valo-
ção insuficiente para os casos de Bulimia, em rizado em termos sociais e, nesse contexto, a ma-
que a mortalidade é muito rara. Seria útil, talvez, greza é admirada e associada à beleza física.
a este ponto, abordar separadamente alguns as- No entanto, um indicador que algo não está
pectos sintomáticos da Anorexia e da Bulimia bem é que a magreza, uma vez alcançada, não só
para posteriormente retomar uma abordagem é sentida como insuficiente, como também não
conjunta das duas patologias. leva a uma melhoria das relações interpessoais.
Hilde Bruch (1985), ao descrever as caracte- Bem pelo contrário, o que sucede é uma progres-
rísticas essenciais da Anorexia Nervosa, indica a siva redução do mundo relacional, que acaba por
existência de um «sentimento paralisante de ine- se circunscrever ao meio familiar, teatro onde se
ficácia que invade todo o pensamento e a activi- vai desenrolar o drama da Anorexia Nervosa. O
dade da anorética» (p. 794), deixando-a com a isolamento vai-se instaurando aos poucos e pou-
sensação de que tudo o que faz não é derivado da cos até se tornar uma constante.
sua própria vontade mas sim da vontade dos ou- Outro aspecto relevante é a denegação e o de-
tros. Para esta autora, o controle da alimentação sinvestimento na sexualidade característicos das
e do peso pode ser visto como um sintoma que anoréticas. Numa época da vida em que se assis-
oculta um medo profundo de não ser competente te ao despertar da sexualidade adulta e em que
e de não merecer o respeito dos outros. O oposi- normalmente se dá o início da actividade sexual,
cionismo e negativismo encontrado nestes indi- verifica-se nestas jovens uma recusa em crescer
víduos seriam unicamente uma camuflagem des- e em assumir o seu corpo e a sua sexualidade as-
se tipo de sentimentos. sim como um desejo por regressar ao ideal físico
Na sua base é possível vislumbrar a existência assexuado da latência.
de uma falha narcísica, elemento mencionado Raramente existe actividade sexual, mas
por vários autores como sendo essencial no en- quando há, ela serve unicamente como prova de
tendimento psicodinâmico da anorética. Para que o indivíduo é capaz de controlar o seu corpo
Brusset (1985), por exemplo, subjacente à mega- e usá-lo como bem entender, sem que haja uma
lomania e aos desejos exagerados de auto-sufi- verdadeira implicação afectiva no acto, para
ciência, estaria uma grande fragilidade narcísica além de uma eventual gratificação narcísica
que se manifestaria na necessidade de valoriza- (Marcelli & Braconnier, 1989).
ção e de obtenção da aprovação dos outros. Se ambos os aspectos, o isolamento e o desin-
Desta forma, os investimentos narcísicos são vestimento sexual da anorética, podem ser enten-
maciços, de modo a compensar as falhas ao nível didos à luz da já referida necessidade de salva-
básico, e os investimentos objectais são míni- guarda narcísica, não deixa de ser interessante
mos, para não pôr em causa a integridade do su- que eles sejam também característicos da De-
jeito. As suas relações são feitas em espelho pressão.
através de identificações narcísicas com o outro No caso da Bulimia, as coisas são um pouco
que, por sua vez, não é reconhecido enquanto ser diferentes, e é já possível constatar o apareci-
único com vontades e características próprias. O mento de efectivos síndromes depressivos, nor-
objecto é escolhido de acordo com as suas seme- malmente na sequência dos episódios de voraci-
lhanças com sujeito, de modo a dissimular as fa- dade alimentar. A previsibilidade da sucessão
lhas e o vazio interior (Jeammet, 1993). Não será destes ciclos, assim como o carácter compulsivo
difícil, deste modo, compreender a ameaça de- da ingestão dos alimentos daqueles indivíduos,
pressiva subjacente a esta insuficiência narcísica levou a que se procurasse aproximar esta pato-
dos indivíduos com Anorexia Nervosa. logia da Psicose Maníaco-Depressiva, ainda que
O isolamento é outro aspecto a ter em consi- esta abordagem não seja das mais comuns.

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Beebe (1994), após ter revisto a literatura exis- Como se pode constatar, enquanto que os três
tente acerca das relações entre Bulimia e Depres- primeiros modelos procuram dar uma explicação
são, concluiu que as conceitualizações teóricas geral para a relação entre Bulimia e Depressão,
sobre o assunto se podiam agrupar em seis gran- os seguintes incidem em mecanismos específicos
des conjuntos de hipóteses: do funcionamento dos indivíduos, para fazer o
mesmo. De qualquer modo, o autor conclui, di-
– Hipótese da Variante Afectiva, que conside- zendo que todos os modelos acima indicados de-
ra a Bulimia enquanto expressão de uma depres- vem ser tomados em consideração por darem
são subjacente, o que, em termos terapêuticos, perspectivas diferentes do mesmo problema
significa que se deve procurar tratar a Depressão sendo, portanto, úteis à sua compreensão, acres-
e não a Bulimia; centando ainda que «a natureza da relação buli-
mia-depressão está ainda por ser estabelecida
– Hipótese da Consequência Bulímica, de conclusivamente» (op. cit., p. 270).
acordo com a qual os sintomas depressivos são
consequência da perturbação do comportamento
alimentar, o que seria apoiado pelo facto de que 5. HIPÓTESE DAS PATOLOGIAS ADITIVAS
é comum a rescisão daqueles sintomas com o de-
saparecimento da Bulimia; Talvez a melhor maneira de compreender a re-
lação em estudo esteja na integração das pertur-
– Hipótese da Perturbação do Espectro Afecti- bações do comportamento alimentar, Anorexia e
vo, cuja proposta é a de considerar ambas as pa- Bulimia tomadas agora conjuntamente, no con-
tologias (Bulimia e Depressão) enquanto resulta- texto das patologias aditivas, associadas a uma
do de uma perturbação biológica de base, o que, problemática de dependência não resolvida. Esta
no entanto, não parece ser suportado pelos dados perspectiva não é nova e tem sido defendida por
de outras investigações; diversos autores (Balasc, 1990; Jeammet, 1993;
Corcos, Tordjmann & Jeammet, 1993), nomea-
– Hipótese da Restrição, que indica que indi- damente de acordo com a teoria da Separação-
víduos que utilizam muito a restrição alimentar Individuação de Margaret Mahler (Sours, 1974;
têm maior propensão a ter acessos de voracidade Fisher, 1989).
alimentar do que outros que não a utilizem. Para compreensão desta perspectiva, parece-
Aqui, a depressão é vista como um dos factores -nos ser útil, a este ponto, analisar o que se co-
possíveis de desinibição, levando ao descontrolo nhece sobre o desenvolvimento infantil de ano-
no consumo de alimentos; réticos e bulímicos e sobre a sua relação com a
figura materna. A mãe destes indivíduos é des-
– Hipótese da Escapada, que explora o meca- crita como sendo tipicamente sobreprotectora em
nismo subjacente ao estabelecimento da restrição relação à criança, não a considerando enquanto
alimentar, defendendo que os bulímicos estão a um ser autónomo, mas como uma extensão do
tentar evitar uma auto-percepção negativa. Estes seu próprio corpo (Selvini, 1978). O resultado é
indivíduos teriam padrões de exigência muito que estes indivíduos teriam sido bem tratados
elevados, em relação aos quais se sentiriam di- não de acordo com as suas necessidades, mas
minuídos por não estarem à sua altura. A per- sim de acordo com as vontades da mãe. Segundo
cepção deste facto levaria à depressão e conse- John Sours (1974), a criança muitas vezes não
quente desinibição do comportamento alimentar; demonstrou nem a angústia do estranho do 8.º
mês nem a de separação, e a aquisição da loco-
– Hipótese do Desespero, de acordo com a moção bípede foi mais motivo de ansiedade e
qual os bulímicos consideram a sua incapacidade tristeza do que de alegria, tanto para a mãe como
em controlar o comportamento alimentar como para a criança. É comum também não haver en-
sendo algo de muito negativo, levando a senti- corajamento dos comportamentos de separação e
mentos de desespero e incapacidade que, por sua exploração do filho pela progenitora.
vez, provocariam depressão ou agravariam uma Deste modo, a situação de separação da mãe
depressão já existente. nunca terá sido devidamente elaborada pelo in-

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divíduo, permanecendo este dependente da figu- das emoções, das trocas afectivas e da
ra materna para a regulação das suas necessi- interiorização das ligações. Desta forma evita-se
dades vitais, prazeres, e afectos. A separação real o contacto com a possibilidade de perda do
é dificilmente tolerada porque não se efectuou objecto e com o vazio interior (Jeammet, 1993).
uma interiorização securizante do objecto e, A questão que se levanta agora parece
sendo assim, o indivíduo é assolado por senti- evidente: se as perturbações do comportamento
mentos de vazio e fortes angústias de aniquila- alimentar se podem incluir no quadro mais
ção, tornando-se necessário o recurso à realidade abrangente das patologias aditivas, qual então a
externa como contra-investimento de uma reali- sua especificidade em relação às restantes? Ou
dade interna ansiogénica. por outras palavras, porquê o enfoque em torno
Estas dificuldades vão também ter reflexos ao da esfera alimentar? A resposta a esta questão
nível da capacidade de abstracção e de concei- terá necessariamente que ser incompleta e
tualização: negada a ausência do objecto não se aproximativa, isto tendo em consideração que a
torna necessário simbolizar a sua falta. Pode-se causalidade em termos psíquicos é múltipla e
encontrar aqui a explicação para o facto de os in- ligada a diferentes fases do desenvolvimento
divíduos que sofrem de doenças do comporta- do indivíduo. Ainda assim, esta pode ser uma
mento alimentar demonstrarem habitualmente boa altura para regressar a Abraham, de acordo
lacunas a este nível, apesar de serem considera- com o qual existe uma regressão do indivíduo à
dos alunos muito dedicados aos estudos. fase oral-sádica do desenvolvimento infantil,
A dificuldade no vivenciar da carência, aliada com o desejo de destruição e incorporação oral
a esta lacuna ao nível da elaboração mental, leva do objecto materno. Sendo esses desejos
a uma actuação compulsiva, cujo objectivo é o
recalcados, o indivíduo defender-se-ia dos
da redução da dor psíquica. Esta compulsão à re-
mesmos através da recusa alimentar,
petição encontra a sua âncora num objecto subs-
comportando-se como se só uma abstinência
titutivo que no caso dos toxicodependentes é a
completa de alimentação impedisse a execução
droga e que na Anorexia e Bulimia é a alimen-
das suas pulsões mais profundas, isto no caso
tação. No entanto, a transferência que é feita
dos anoréticos. No dos bulímicos, pode-se
para este objecto nunca pode ser plenamente
pensar que os alimentos, simbolizando a figura
satisfatória nem a carência reduzida, e daí que
surja a compulsão à repetição. materna, seriam agressiva e brutalmente
As patologias do comportamento alimentar destruídos e incorporados, unicamente para
podem, deste modo, ser postas em paralelo com depois serem rejeitados. De acordo com Gabbard
as chamadas toxicomanias porque em ambas (1992), a ingestão de alimentos representaria um
existe uma urgência da necessidade do objecto desejo simbiótico de fusão com a mãe, enquanto
que nenhuma tentativa de satisfação pode que a expulsão seria já um esforço de separação
apaziguar. Essa necessidade visa um objecto em relação à mesma.
substitutivo pois, tal como refere Balasc (1990), Estas ideias são congruentes com as de
«o objecto-alimentação torna-se como que num Kestemberg, Kestemberg e Decobert (1972) que,
fenómeno transicional, numa formação defensiva a propósito da Anorexia Nervosa, escreveram
contra o vazio ligado à perda do primeiro que se verifica «uma regressão vertiginosa que
objecto» (p. 83). O objecto torna-se não não encontra nenhum ponto de fixação e de
substituível, indispensável, e a vida passa a organização ao nível das zonas erógenas. Estas,
centrar-se em torno de uma luta contra o desejo nas suas modalidades específicas de organização
de apropriação do mesmo. É com esse desejo da relação com o outro, são apagadas, varridas
que se debate a anorética e ao qual a bulímica pelo movimento regressivo que não encontra
frequentemente sucumbe. paragem senão ao nível dos percussores da
Outro aspecto em comum entre as patologias relação com o objecto e da organização do Eu. A
aditivas e as perturbações do comportamento anorética permanece fixada numa problemática
alimentar é a propensão a sobre-investir os relacional conflituosa com o objecto materno
aspectos ligados à exterioridade e às sensações primário, vivendo na inquietação de perder esse
físicas por oposição ao nível mais profundo, objecto».

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6. CONCLUSÕES alguma forma contribuído para a compreensão
desta problemática chamando a atenção para a
De acordo com o que até aqui foi referido, o importância da elaboração da depressão nos
que se pode concluir é que um dos aspectos indivíduos anoréticos e bulímicos no contexto
essenciais dos indivíduos com perturbações do terapêutico.
comportamento alimentar é a existência de um
núcleo depressivo básico decorrente do não
estabelecimento da separação em relação ao REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
objecto primário materno. É ao nível desta
relação perturbada com a figura materna que se Andrews, B., Valentine, E., & Valentine, J. (1995).
pode também encontrar explicação para a Depression and eating disorders following abuse in
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Mintz, I. (1988). Self destructive behaviour in anorexia alimentares e a depressão. São apresentados diversos
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Bulimia: Psychoanalytic treatment and theory sas hipóteses explicativas existentes nesta área. Parti-
(pp.127-171). Madison: University of Indiana cular atenção é dada à hipótese que enquadra a Anore-
Press. xia e a Bulimia Nervosas no âmbito das patologias adi-
Pettinati, H., Wade, J., Franks, V., & Kogan, L. (1987). tivas, donde os fenómenos depressivos decorreriam de
Distinguishing the role of eating disturbance from uma problemática de dependência subjacente.
depression in the sex role self-perceptions of anore- Palavras-chave: Anorexia, bulimia, depressão.
xic and bulimic impatients. Journal of Abnormal
Psychology, 96 (3), 280-282.
Poulakis, Z., & Wertheim, H. (1993). Relation among ABSTRACT
dysfunctional cognitions depressive symptoms,
and bulimic tendencies. Cognitive Therapy and
The relationship between eating disorders, like
Reasearch, 17 (6), 549-559.
Anorexia and Bulimia, and depression are known, al-
Selvini, M. (1978). Self-starvation: From individual to
though not much discussed in the literature. This ar-
family therapy. The treatment of anorexia nervosa.
ticle presents a review of the literature concerning the
New York: Jason Aronson.
relationship between those two eating disorders and
Sours, J. (1974). The anorexia nervosa syndrom. Inter-
depressive symptoms. The available information and
national Journal of Psycho-Analyse, 55, 567-576.
the different explanative hypotheses concerning this
subject are discussed. Particular attention is given to
the addictive hypothesis, according to which Anorexia
RESUMO and Bulimia are considered the reflection of a depen-
dency problem that is also the cause of depression.
É conhecida, ainda que muito pouco discutida na Key words: Anorexia, bulimia, depression.

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