Você está na página 1de 3

TEXTOS

O que são alterações sensoriais e como elas se relacionam com


TEA?
Ao longo do dia nós processamos diversas informações sensoriais do nosso corpo e do mundo
à nossa volta. As informações do nosso corpo vêm através dos órgãos internos, dos nossos
músculos e articulações, da orelha interna e da pele. Cada uma dessas informações nos ajuda a
lidar com sensações como a fome e a sede, a movimentação do corpo e o que entra em
contato com ele. Nós também processamos as informações que o mundo nos fornece, como
as imagens, os sons, os cheiros e os gostos. E através delas conseguimos explorar e aproveitar
os locais e as situações.

Todas as informações juntas nos permitem dar sentido ao mundo à nossa volta. Elas suportam
nossa habilidade de nos engajar e interagir com objetos, pessoas e ambientes. As sensações
nutrem o cérebro com todas as informações necessárias para sustentar nossas habilidades. Ao
nascimento o bebê apenas é capaz de integrar alguns estímulos básicos de tato, de movimento
e de sensação corporal. Conforme a criança se desenvolve ela experimenta novas sensações,
obtém aprendizados através delas e aprende como funcionar no mundo.

Ser capaz de interpretar o mundo é fundamental para estabelecer relações. Quando temos
dificuldade de processar informações, em qualquer nível, poderemos ter dificuldade de lidar
com nossa motricidade, com o equilíbrio, com os objetos que pegamos ou quando algo nos
toca, em compreender figuras e sons e até mesmo em nos alimentar.

Pessoas com Transtorno do Espectro Autista comumente tem dificuldade em organizar,


compreender e interpretar as informações sensoriais. As pesquisas e investigações¹ nessa área
levaram a inclusão das diferenças sensoriais como parte diagnóstica do Transtorno do Espectro
Autista (TEA) na quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-
5), dentro do critério de padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou
atividades.

Os sinais relacionados às dificuldades de processar os estímulos sensoriais podem aparecer


muito cedo na primeira infância e afetam a participação na vida diária. Dificuldades em
processar e integrar as sensações afetam as atividades de brincar, passeios com a família e as
habilidades necessárias para desempenhar as tarefas cotidianas, tais quais fazer a auto higiene
e vestir-se².

Como as crianças com TEA respondem às sensações?


Há três maneiras pelas quais nosso sistema nervoso central recebe e processa as informações
sensoriais. A primeira é o modo como os estímulos são registrados/discriminados pelo
cérebro, a segunda é como os estímulos são modulados, e a terceira a forma como todas as
informações sensoriais são integradas e sustentam as habilidades práxicas.

Cada pessoa com TEA é única e pode ter dificuldades especificas em cada sentido, nas
diferentes esferas do processamento. De acordo com as respostas apresentadas alguns
estudos agrupam padrões comuns de alterações sensoriais.
Relações entre sinais precoces de TEA e alterações sensoriais incluem dificuldades em ajustar
os desafios sensoriais do ambiente, como “ignorar” sons de fundo, odores, luzes e até mesmo
a sensação das roupas no corpo em detrimento de prestar atenção em uma atividade
especifica. Também podem estar relacionadas à busca de movimentos, baixa percepção à dor,
dificuldade de perceber onde o corpo está no espaço, de compreender figuras se movendo à
frente e de tolerar a intensidade do contato na pele.

Na vida diária, essas dificuldades podem tanto influenciar tarefas básicas, pois precisamos do
tato e da percepção visual para sermos capazes de colocar uma camiseta corretamente, como
habilidades em brincadeiras motoras e mesmo engajar-se nas atividades escolares com
estímulos diferentes ao fundo.

As alterações sensoriais comuns em pessoas com TEA


A modulação sensorial é a maneira pela qual o cérebro percebe cada um dos estímulos
internos ou externos. Eles podem ser percebidos com maior ou menor intensidade de acordo
com o estado de alerta e o funcionamento do indivíduo. Quando percebemos esses estímulos
com muita intensidade chamamos de hiper resposta e quando percebemos com pouca
intensidade de Hipo resposta.

A hiper ou hipo reatividade aos estímulos sensoriais é a forma mais comum de alteração
sensorial apresentada pelas pessoas com TEA. Alguns autores3 relatam relação entre as
alterações de modulação sensorial e as habilidades sociais, incluindo a comunicação social.

Os comportamentos que costumam aparecer quando uma criança tem hiper-reatividade à


algum sentido tendem a ser comportamentos de evitar ou ter aversão do mesmo e, no caso
inverso, quando a criança tem hipo reatividade à algum sentido ela tende a buscar e repetir tal
sensação.

Os sinais e sintomas comumente apresentados por pessoas com Transtorno do Espectro


Autista (TEA) podem ter relação direta com as alterações sensoriais e potenciais impactos na
vida diária. Os comportamentos de auto estimulação e as estereotipias podem estar
relacionados com uma busca de determinados estímulos sensoriais para auto regulação, tais
quais a busca por sensações táteis e proprioceptivas. O interesse aumentado e incomum por
luzes e objetos que rodam pode relacionar-se com uma hipo reatividade aos estímulos visuais.
O andar na ponta dos pés pode estar relacionado tanto à uma hiper reatividade aos estímulos
táteis sentidos nas solas dos pés, quanto à dificuldade de processar os estímulos vestibulares.

Um número considerável de crianças com TEA resiste a tocar em determinadas texturas pois
não conseguem modular a informação do sistema tátil adequadamente. As vezes elas podem
demonstrar desconforto para tocar em uma tinta na escola ou para manipular um alimento e
esse desconforto pode tornar as tarefas muito difíceis de serem realizadas.

As alterações de praxia também são muito comuns em pessoas com TEA e ficam mais
evidentes conforme a criança cresce, se torna adolescente e adulta. A praxia se refere à
habilidade de generalizar uma ideia sobre o que fazer, para formar um plano de ação e
executar uma tarefa. Assim, ela basicamente envolve três etapas: a ideação, o planejamento e
a execução. Muitas pessoas com TEA têm dificuldade em integrar todas as informações
sensoriais do ambiente e organizar possibilidades de ação de diferentes maneiras.

O planejamento das ações depende do feedback (resposta) sensorial que é processado em


cada parte da tarefa. Por exemplo, aprender a amarrar um sapato depende da percepção
visual dos laços do cadarço em cima um do outro, do tato na ponta dos dedos, da posição
corporal de quem está amarrando e da sensação da gravidade na base de suporte que estamos
utilizando para nos equilibrar e liberar as mãos para a tarefa. O feedback sensorial guia a
pessoa para aprender a sequência coordenada das ações, o uso funcional das duas mãos e
para usar a quantidade de força e pressão certa no movimento. Pessoas com dificuldade de
praxia, terão problemas em generalizar e fazer com que o planejamento das ações, como
amarrar o sapato, se torne automático.

Como manejar as alterações sensoriais


No ambiente domiciliar ou na comunidade manejar as alterações sensoriais, visando a melhor
funcionalidade do indivíduo, é fundamental. A intervenção precoce, bem como a intervenção
para adolescentes e adultos deve ter como objetivo resultados a curto prazo na vida diária e a
longo prazo na qualidade de vida.

Para atingir tais objetivos é importante:

1. Identificar os interesses e motivações do indivíduo com alterações sensoriais e incorporar


tais interesses nas atividades que serão desenvolvidas;

2. Ser um detetive sensorial identificando quais são os sistemas sensoriais que são mais
desafiadores e quais tem mais potencialidades. Para desenvolver estratégias que acessam as
áreas com dificuldades devemos considerar os sistemas sensoriais que são os pontos fortes;

3. Construir sistemas de suporte que forneçam segurança, confiabilidade, previsibilidade e


compreensão, sendo este o sistema que possibilita ao indivíduo, inclusive, identificar quais os
desafios a enfrentar nos demais sistemas.

Referências Bibliográficas

¹ Zachor and Bem-Itzchak 2014 e Robertson and Simmons 2013

² Schaaf, Toth-Cohen, Johnson, Outten and Benevides 2011


3
Ashburner, Ziviani, & Rodger, 2008; Baker, Lane, Angley, & Toung, 2008; hilton, Graver, & La
Vesser, 2007; Hilton et al., 2010; Hochhauser & Engel-Yeger, 2010; Lane, 2011; Watson et al.,
2011)