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TEMÁTICAS RIMAS

 A representação da natureza

1. A natureza: cenário, testemunho e alegoria

Presença constante na pintura e na poesia quinhentistas, a natureza representa


algo mais do que um cenário decorativo dos retratos humanos, tanto físicos como
psicológicos, mas uma companheira que testemunha e alegoriza as vivências regista-
das. Não é já a interlocutora privilegiada das cantigas de amigo galego-portuguesas,
plena de magia quase omnisciente e omnipotente, mas também não é mera convenção
retórica, quase sempre simbólica de serenidade e harmonia, segundo o tópico clássico
do locus amoenus.
Nos sonetos camonianos, destaca-se um leque variado de ângulos e perspetivas
em que o tema da natureza é abordado e desenvolvido. Assim, a natureza:
– […] é a corresponsável demiúrgica (divindade) pelas excelsas qualidades das
figuras femininas exaltadas, conferindo-lhes a sua beleza, «luz, graça e pureza» («Pelos
extremos raros que mostrou»); […]
– apresenta uma nota agónica e nostálgica no tópico clássico do locus amoenus, pela ausência
da amada («Alegres campos, verdes arvoredos»); […]

– mostra insensibilidade, sendo incapaz de se solidarizar com a dor do sujeito poético («O céu,
a terra, o vento sossegado»); […]

– provoca, apesar da sua amenidade, um distúrbio no sujeito lírico motivado pela ausência
feminina («Alegres campos, verdes arvoredos»).
António Moniz, Para uma leitura da lírica camoniana, Lisboa, Editorial Presença, 1998,

pp. 58-62 (texto adaptado)

2. Locus amoenus (lugar ameno)

Expressão latina que designa a paisagem ideal, sempre presente na poesia amorosa em
geral e, com maior incidência, na poesia bucólica. Desde a Antiguidade Clássica que o termo
locus amoenus nos remete para a descrição da natureza e para um conjunto de elementos
específicos: o campo fresco e verdejante, com um vasto arvoredo e flores coloridas, cujo doce
odor se espalha com a brisa. […] Esta natureza mágica é conducente ao amor, ao encantamento
sensorial e espiritual do Homem, que se integra na perfeição em tal plenitude, marcada pela
harmonia e homogeneidade. Enfim, estamos perante um paraíso terrestre, onde se enquadra
o ser humano que busca a satisfação pela simplicidade. […]
Susana Alves, «Locus amoenus», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários (texto adaptado)
 A representação da amada
1. Retrato realista

A obra camoniana retrata dois tipos de mulher. A primeira é uma imagem realista e
aparece em algumas redondilhas. […] A segunda é uma imagem petrarquista: está presente nos
sonetos. […]

A própria temática da medida velha é muitas vezes retirada da vida quotidiana: por isso
as suas heroínas são mulheres apaixonadas, alegres, […] prontas a lutar pelos seus interesses
e pelos seus sentimentos. A imagem realista opõe-se à imagem petrarquista em que a mulher
personifica várias ideias: beleza, castidade, «alma gentil», «leda serenidade deleitosa», […]
harmonia: a unidade profunda entre a beleza externa e a beleza interna.
Olga Ovtcharenko «A mulher na obra camoniana»,
in Colóquio Letras n.º 125/126, 1992, pp. 9-10

2. A mulher petrarquista

Petrarca (1304-1374) é o grande cultor do «amor elevado», que celebra com múltiplos
jogos de antíteses. Toda a sua obra é atravessada pela presença de Laura, a amada que conhece
em 1327 e que lhe desperta um amor platónico. Apesar de a sua musa ter morrido em 1348,
vítima da peste negra, Petrarca continua a cantá-la até ao fim dos seus dias, projetando o amor
irrealizável numa cristalização perfeita que reflete a transcendência divina. A poesia
petrarquista, escrita sob o signo da ausência e da solidão, impõe um modelo feminino, de
cabelos loiros [pele nívea] e beleza serena, impalpável, abstrata, inacessível, símbolo de
harmonia e perfeição [tendo a capacidade de contaminar positivamente a natureza].

Maria Graciete Besse, Camões sonetos,


Mem Martins, Publicações Europa-América, 1992, p. 25 (texto adaptado)

 A experiência amorosa e a reflexão sobre o


Amor
O amor é, para o poeta, um binómio de duas faces contraditórias, a espiritual e a carnal,
correspondentes a dois tipos de mulher: a ideal e a sensual. A primeira – criatura angelical de
inspiração petrarquiana – é o objeto de culto, ser de essência divina, intocável e distante. Com
um retrato físico nem sempre evidente – todavia sempre idealizado – quando o possui, este é o
reflexo de uma superior beleza interior e moral, em que sobreleva uma alma virtuosa. Eis o que
sobressai em sonetos petrarquistas como «Um mover de olhos brando e piedoso». […] Perante
uma tal beleza [neste soneto], o sujeito lírico toma uma atitude reverente em relação à dama.
A par destes sonetos em que o eu lírico aparece fascinado pelo etéreo amor
petrarquista, outros há em que o sujeito deseja o objeto amado e, como tal, surge dilacerado
por uma torturante contradição interior. […]
No soneto «Tanto do meu estado me acho incerto» sobressai a dialética do desejo, «o
estado incerto» petrarquista, que é ainda o fascínio pela mulher superior, quase divina, de
beleza inefável. Mas o amor depurado, reduzido a manifestações espirituais, dá, não raro, lugar
a um sentimento profundo, que abrange a totalidade das manifestações eróticas, fortemente
marcado de sensualidade. Este amor tangível, sensual, expressão artística de quem «em várias
flamas ardia» [«Tanto do meu estado me acho incerto»] encontramo-lo em sonetos […] do
Renascimento. [...]

O esquema dual de representação feminina ou amorosa camoniano não dissolve a


dialética. E porque a dualidade sistemática nunca se encaminha para uma solução, dessa
questão permanentemente inconclusa nasce a dramática reflexão entre o real e o ideal. Daqui
resulta a insatisfação, a angústia, a desventura existencial, o pathos amoroso que encontramos
em sonetos como: «Erros meus, má fortuna, amor ardente».

 Reflexão sobre a vida pessoal


A poesia de Camões é infinitamente mais poderosa, rica e atual que a de Petrarca,
justamente na medida em que ele se recusa à mera evasão lírica e não se contenta com o
objeto tradicional do amor, antes procura integrar a experiência vivida. […]
O acontecimento, o facto, o tempo penetram repetidamente, por vezes sob o aspeto
mais cru, na poesia de Camões. A mais impressionante das suas canções [«Vinde cá, meu tão
certo secretário»] é uma autobiografia, e não uma autobiografia puramente espiritual, porque
nela se conta como o Destino vergou a vida do Poeta. Logo ao nascer, o horóscopo, as
«estrelas infelizes», o predestinaram, forçando-lhe o livre alvedrio; se trocou a vida de
namorado pela de guerreiro, foi porque lho impôs o «Destino fero, irado», que o fez atravessar
o mar, perder em combate um dos olhos, peregrinar. […]
O Poeta não evolui em vaso fechado; a sua história resulta do encontro do seu
impulso espiritual com o cego desencadeamento do caso1, sorte ou fortuna: «Erros meus, má
fortuna, amor ardente / em minha perdição se conjuraram.» […]

A pretensão de reconstruir a biografia de Camões para melhor compreensão da sua lírica não é
tão insensata como se tem feito crer. Os biógrafos têm errado, sim: alguns pela extrema
ingenuidade das suas hipóteses, outros pelo excessivo recurso a uma fantasia gratuita, e quase
todos por um método incientífico. Mas é evidente que a poesia camoniana ganharia muito
com um adequado comentário biográfico, justamente pela importância que nela tem o
acontecimento externo. […]
O embate do Poeta com o acontecimento [a morte] reflete-se em gritos e acenos que
são inteiramente desconhecidos de Petrarca. Não são já meramente os suspiros e exclamações
do amor insatisfeito, mas manifestações de revolta desesperada e impotente, […] de cansaço,
[…] de remorso. […]
Camões chama-lhe morte «cega», caso «duvidoso». «Cega» é aqui sinónimo de
irracional, incompreensível, arbitrária, sem sentido; «duvidoso», de inesperado, ou, melhor,
imprevisível.
António José Saraiva, Obras de Luís de Camões, 3.ª edição, Lisboa, Gradiva, 1997, pp. 72-79
(texto adaptado e com supressões)
 O desconcerto do mundo
Enquanto para Petrarca não existe o problema da ordem do mundo, […] [para Camões],
contrariamente, o problema do desconcerto do mundo está constantemente presente. […]

É absurdo o caso duvidoso que destrói o puro amor; é absurda a morte, cuja existência
brutal Camões reconhece plenamente, sem querer consolar-se com a imortalidade da alma; é
absurdo o tempo, que não só traz consigo mágoas e desastres, como também altera a alma das
pessoas, irreversivelmente, incapacitando-as para o contentamento. […]
O mundo é um «desconcerto» – tal é um dos pensamentos favoritos de Camões. Uma
extensa composição em oitavas dedicadas «Ao desconcerto do mundo» desenvolve este
pensamento especialmente em relação à vida social. [...]

O mundo é um «desconcerto» – tal é um dos pensamentos favoritos de Camões. Uma extensa


composição em oitavas dedicadas «Ao desconcerto do mundo» desenvolve este pensamento
especialmente em relação à vida social. [...]

Alguém diria que este desconcerto não é coisa nova, pelo que parece não haver razão
para espanto. Mas é, muito pelo contrário, porque, por um lado, quanto mais se prolonga tal
desconcerto, mais é para espantar; e, por outro, ninguém se habitua a ele, antes todos o sentem
e se inconformam.

O desconcerto do mundo aparece […] sob duas formas. É uma o disparate que preside
à distribuição do prémio e do castigo, a qual tem que ver com o merecimento, porque aqueles
que vivem de latrocínios, mortes e adultérios, e deveriam merecer castigo perpétuo, são
protegidos pela fortuna. […] E, pelo contrário, aqueles cuja vida limpa apareceria até mesmo a
quem pudesse vê-los com o peito aberto, são por ela perseguidos e veem negado o seu direito.
[…]

Resumindo: o desconcerto do mundo aparece a Camões sob diversas formas. É um


facto objetivo os prémios e castigos estarem distribuídos desencontradamente.
António José Saraiva, op.cit., pp. 83-93 (texto adaptado)

 O tema da mudança
Que é o tempo? Objetivamente, é a sucessão das mudanças, decreto incompreensível
da natureza. […]

As horas são diferentes na qualidade. A essência do tempo objetivo está nisso: a


sucessão das qualidades diferentes que resulta da mudança ou de que resulta a mudança. É o
pensamento do soneto justamente célebre «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades».

Cingindo-se a um tópico tradicional, Camões, neste soneto, contrapõe a esta mudança


do tempo a constância da própria alma: essa é a tese que ele herdou e glosou repetidamente.
Mas, passando além, o reverso subjetivo do tempo tornou-se para ele um problema. O facto é
que, verifica ele, a própria alma muda. […]
Como dirá em «Sôbolos rios», todos os males vêm das mudanças e todas as mudanças
vêm dos anos; e mudando-se a vida se mudam os gostos dela. […]

O efeito do tempo é psicologicamente uma mudança qualitativa de estado – mais: uma mudança
qualitativa da própria alma.

Não se perde só o contentamento, mas o gosto de ser contente. […] Ao contentamento


do passado contrapõe-se o ser triste no presente. A contraposição entre passado e presente
tende a converter-se em Camões numa oposição de estados psíquicos. O passado torna-se
meramente o oposto do presente. […]

Por esta oposição entre o passado contente e o presente descontente – oposição que
transporta para o presente o passado, retirando-lhe a qualidade de realidade empírica […] –
Camões encaminha-se para uma formulação metafísica do problema do tempo psicológico, a
qual aparece acabadamente […] nas redondilhas «Sôbolos rios». Mas, na origem, o tempo
aparece-lhe como uma dessas existências que a consciência não reconhece, como a morte cega
e o caso [acaso] duvidoso, e que fazem do mundo um grande desconcerto.
António José Saraiva, op. cit., pp. 79-83 (texto adaptado)
Tabela elaborada a partir de: José Augusto Cardoso Bernardes,

«Medida Velha», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), op. cit., pp. 579-581

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