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S. Francisco de Assis.

As proezas que alcançou a caridade e os milagres que operou a Providência na


vida de S. Francisco são de tanta profusão e clamor que qualquer seu hagiógrafo ficará tentado,
parece-nos, a neles concentrar, se não mesmo esgotar, todo seu texto. Encontrará, com efeito,
antes mesmo da busca consciente do Poverello de Assis pelo Cristo, o desprendimento que
levava o jovem Francisco a contristar-se de remorso por ter diferido a atenção que lhe solicitava
um pobre pedinte de esmola enquanto atendia um rico freguês da tapeçaria de seu pai – e assim
a correr afobadamente à sua procura para, ocorrendo-lhe às portas da cidade, dar-lhe todo o
dinheiro que portava e o casaco que trajava.
Não menos se haverá de admirar, ainda, com o episódio em que, dirigindo-se
Francisco à caverna oculta onde preparava-se, só, para a radical ascese que entrevia já para seu
futuro, deparou-se ele com um leproso arrastado por muletas, fétido de odor, de lábios comidos
e buraco ulceroso no lugar do nariz. Apesar do impulso para desviar o caminho, Francisco foi
até o doente, saltou da sela, deu-lhe o dinheiro que possuía, e, posto quisesse voltar para trás...
inclinou o rosto sobre a mão que recebera a esmola – já sem dedos e coberta de chagas, qual
tumor aberto – e beijou-a.
Ou, ainda, narrará comovido a pobreza e a extrema humildade com que viveu o
assisense quando, tendo renunciado à posição social de que gozava a sua família, e precisando
pedir do que comer, recebia de alguns comerciantes, em cuja porta batia, ríspidas e injuriosas
respostas, mas controlava a ira e, instantes depois, voltava a dirigir-lhes a palavra, agradecendo
“pelos ossos e pela humilhação que é alimento bem aceito para minha alma, pois precisa ela de
praticar a humildade”.
Isso para não falar do célebre milagre das andorinhas do povoado de Alviano,
que às centenas aglomeravam-se chilreantes em sobrevoo da praça central, onde tencionava
pregar o já afamado Santo. Como não lhe dessem trégua as aves, tomou após certo tempo a
palavra dizendo mansamente aos “irmaõ s e irmas̃ andorinhas” que se calassem, pois chegara
sua vez de falar – no que foi imediatamente atendido com o mais perfeito silêncio. Terminado
o sermão, e irrompendo o povo em hino de júbilo, ajuntaram-se-lhe simultaneamente em coro
as aves e os sinos da então vazia igreja – momento em cuja comoção centenas e centenas de
senhores e servos, homens e mulheres, confessaram seus pecados e pediram admissão às fileiras
franciscanas.
Certamente que não é sem proveito o relato extensivo destes momentos
exemplares – afinal, o fascínio pelos atos dos Santos converteu ninguém menos que um
convalescente Inácio de Loyola, e a pobreza abraçada e vivida por Francisco, entendida
enquanto virtude cristã, é aplicável a todos os que professamos a mesma Fé, considerado o
estado de vida de cada qual.
Ocorre, porém, que não foi no desapego para com os bens materiais, ou na íntima
comunhão para com toda a criação, que consistiu a perfeição da imitatio Christi de Francisco.
Antes, sua plena configuração a Cristo se deu pela Cruz: tanto espiritual, ao ser contrariado em
seu desejo de que sua ordem mantivesse a mesma inópia dos primeiros dias, quanto física, com
as Chagas que lhe foram impressas ao final de sua vida.
A Cruz é, como sabemos, a única escada de que dispomos para o Céu: Si quis
vult post me venire, abneget semetipsum, tollat Crucem suam et sequatur me. Mas, como bem
observou o Padre António Vieira, é precisamente quanto à Cruz que carregou que se distingue
S. Francisco da quase totalidade dos homens: “Manda-nos Cristo que tomemos a nossa cruz, e
o sigamos a Ele. O exemplo há de ser seu, e a cruz há de ser nossa. E não seria melhor que,
assim como a pessoa a que havemos de seguir é a de Cristo, assim a cruz que havemos de levar
fosse também de Cristo? Parece que sim. Pois, por que não diz Cristo: Quem me quiser seguir,
tome a minha cruz, senão, tome a sua: Tollat crucem suam? A razão é porque estima Cristo
tanto a sua cruz, que a não quer dar a outrem. Como se dissera o Senhor: Quem quiser seguir-
me, tome a cruz, mas essa cruz há de ser a sua, que a minha não a dou a ninguém. Não estimo
eu tão pouco os tormentos e instrumentos de minha Paixão, que os haja de dar a outrem”. E no
entanto “amou o Senhor tanto a S. Francisco, que lhe deu a melhor parte de sua glória, e a maior
glória de sua Paixão, que são as cinco chagas que lhe imprimiu no corpo”.
Conclui o grande pregador – e também nós – com admoestação ainda hoje
proveitosa: “Nas outras festas dos santos concluem-se os sermões com exortar a que os
imitemos. Nesta, a que vos hei de exortar? A que peçais a Cristo que vos imprima também as
suas chagas? Eis aqui quem é São Francisco, que nem à sua imitação é bem que aspiremos
nossos desejos. Contudo, quero deixar dois pontos à vossa meditação, que são os principais que
devemos considerar nestas chagas, enquanto dadas e enquanto recebidas: enquanto dadas, e
enquanto chagas de Cristo, considerai quanto amou Deus aos homens; enquanto recebidas, e
enquanto chagas de Francisco, considerai quanto pode um homem amar a Deus. A confusão
que daqui devem tirar nossas ingratidões fique ao juízo de cada um. Oh! se o temos, que pasmo
será o nosso do imenso que devemos a Deus, e do mal que lhe correspondemos! Não sei que
contas havemos de dar a Deus quando no-las pedir à vista de S. Francisco! (...) Enfim, Cristo
era Deus, e Francisco era homem; e, à vista de tanto dever da parte de Deus, e de tanto poder
da parte nossa, não sei que há de ser de nós, que tão pouco fazemos! Valha-nos a graça divina,
penhor da glória.”

Fontes:

Os Santos que abalaram o mundo, René Fülöp-Miller, José Olympio Editora, 8ª.
ed., 1976.
Falar com Deus – Meditações para cada dia do ano, v. 7, Francisco Fernández-
Carvajal, ed. Quadrante, 1992.
Sermaô das chagas de S. Francisco, em Lisboa na Igreja da Natividade, anno de
1646, in Sermoens de P. Antonio Vieyra da Companhia de Jesu, v. XII, 1699, fac-símile da ed.
Anchietana, 1945.