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Capítulo 4

Regras e auto-regras: um estudo sobre o


comportamento de mulheres no
relacionamento amoroso1
M aria Cecília de Abreu e Silva *
Lidia Natdlia Pobridnskyj W e b e r'

Segundo Skinner (1975) o comportamento do homem é modelado pelas


contingências ambientais, e os seres humanos apresentam um subconjunto da classe
geral do comportamento modelado pelas contingências que é controlado por
contingências especiais denominadas regras. As características individuais das pessoas
foram e são construídas ao longo de suas histórias, as regras e auto-regras são
aprendidas e elaboradas desde a infância e exercem controle fundamontal no repertório
comportamental dos indivíduos (Skinner, 1975, 1982). Evidentemente são norteadoras
dos comportamentos das pessoas nas relações que estabelecem entre si e,
conseqüentemente, nos relacionamentos amorosos.
Enquanto os livros de auto-ajuda lotam prateleiras de livrarias com dicas o receitas
para relacionamentos bem sucedidos, é relativamente escassa a presença de estudos
científicos que discorram a respeito dos Relacionamentos Amorosos tendo como base a
Análise do Comportamento. O que se busca investigar, geralmente, são os comportamentos
mais freqüentes entre as pessoas envolvidas nesses relacionamentos, a partir de uma
análise dos repertórios comportamentais amorosos mais comuns na atualidade.
As relações amorosas implicam na interação entro duas pessoas com histórias
de vida diferentes e com características que não são necessariamente contingentes ao sou
sexo biológico. Segundo Possati (2002) as relações amorosas predizem um bom estar
psicológico. O desenvolvimento deste trabalho sustentou-se então na importância dos
relacionamentos amorosos como possíveis geradores deste bom estar, focando o
comportamento da mulher neste contexto e as regras que ela constrói em relação a esto
aspecto ao longo da vida. Buscou-se conhecer e estudar as regras e auto-regras que estão
presentes e são controladoras do comportamento de mulhoros no relacionamento amoroso,
bem como a origom e formulação de tais regras. Para tanto, foi realizado um ostudo de caso
múltiplo com duas mulheres com experiências distintas em relacionamentos amorosos.

1. Comportamento governado por regras


Na linguagem cotidiana a palavra regra é utilizada de muitas maneiras diferontos,
geralmente assumindo uma função normativa (Flores, 2004). Na literatura sobre o
1Trabalho derivado da monografia de conclusão do Curso de Pslcokigia da Universidade Federal do Paraná, de autoria da primeira autora,
orientada fxilw iwtguiKla milora
1 Oraduada em Psicologia pela UFPR
’ Psicóloga, mettre e doutora tmi Psicologia Experimental pela USP, Coordenadora do Núcleo de AiiAllse do Compotlamnnto
(www nac ufpr br). Professora da graduaçAo etn Psicologia e do Programa de Pós-Oradoav*" Mn EducaçAo da UFPR

Sobro Comport.imiTito c t'ognl(i1o 55


comportamento governado por regras, grande parte dos autores (Skinnor, 1975, 1982; Baum,
1999; Albuquerque, 2001; Matos, 2001;) têm considerado rogras corno estímulos
discriminativos verbais antecedentes que podem descrever contingências, isto é, que podem
descrever o comportamonto a sor emitido, as condições sob as quais olo deve ser emitido e
suas provávois consoqüôncias. O estímulo discriminativo vorbal controla o comportamento
da mesma forma que o estimulo discriminativo não-vorbal, apenas diferenciam-se na origom
do controle. Os estímulos discriminativos verbais estão ligados á história do reforçamento de
seguir regras, que goralmonto inida logo após o nascimento (Baum, 1999).
O uso cotidiano da palavra regra é mais limitado do que o significado tócnico
empregado pelos analistas comportamentais. As regras do cotidiano encaixam-se no
conceito de regra para a Análise do Comportamento, mas essa catogoria tambóm inclui
ostímulos que normalmente não seriam chamados de rogras. De acordo com
Skinnor (1982) instruções, conselhos, ordens, leis, folclores e provérbios são exemplos
particulares de regras, uma vez que todos descrevem contingências.
Desde muito cedo as pessoas estão expostas a diferentes contingências e o
comportamonto do seguir regras é modelado. Inúmeras vezes as crianças ganham
afeto ou aprovação após fazerem o que lhes podem. No inicio, as regras são verbalizadas
pela família, e depois pelos professores. Conseqüentemente, rogras são seguidas
porque o comportamento de seguir regras similares foi reforçado no passado (Matos,
2001; Skinner, 1982). Goneralizar o comportamento de seguir regras faz com que o
mundo continue, sem tal característica as possibilidades de cultura seriam limitadas
(Baum, 1999). Corroborando com este pensamento, Catania (1999) sugeriu que o
comportamento sob o controle de rogras ó determinado por uma história de reforço
social para responder de acordo com regras.
A regra sempre descreve sempre duas contingências: a contingência última e
a contingência próxima (Baum, 1999). A contingência última é aquela a "longo prazo” e a
razão primeira da regra, e a contingência próxima é a “curto prazo”, o reforço por seguir
a rogra. Diante da regra: "faça seu dever de casa para passar de ano", a contingência
próxima ó o motivo pelo qual o comportamento é denominado controlado por regras
(neste exemplo, o reforço proveniente dos país ou professores por seguir a regra) ao
passo que a contingência ultima (para passar de ano, neste caso) justifica a existência
da contingência próxima o do comportamento de seguir regras, porque incorpora uma
relação entre comportamento e conseqüência.
Nem sempro as pessoas entram em contato com as contingências últimas e ó
suficiente que aconteça à apenas uma pessoa, porque os membros de uma mesma
cultura aprendem rogras uns com os outros. O importante em uma regra é o fato de
fortalecer um comportamento que só trará compensações depois de certo tempo, mas
extremamente relevante ó a contingência em longo prazo que está indicado (Baum, 1999).
Outra importante função das regras ê simplificar as contingências de reforço,
principalmente quando estas contingências são complexas, pouco claras, atuam apenas em
longo prazo ou são pouco eflcazes. Regras também têm o efeito de ampliar o repertório dos
indivíduos, uma vez quo, ao descreverem as contingências de reforço, permitom aos mesmos
ontrarom orn contato com contingências que talvez nunca fossem contatadas naturalmonto.
Um probloma, no entanto, ocorre quando as contingências mudam e as regras não. Nosto
caso, sogundo Skinnor (1975), estas podem mais atrapalhar do que ajudar.
Skinner (1975) afirma que, embora as rogras possibilitem aos membros de
uma cultura comportar-se eficientemente sem estar em contato com as contingências,
o controle por rogras não rosulta apenas em vantagons. A vantagem do comportamonto
governado por regras ocorre quando as contingências são estáveis. Quando as

56 Mciria Crcflid de Abreu c Silvd , LltlU NdlalM Pobrí.mskyj Wcbcr


contingências não são estáveis, as regras podem ser problemáticas, considerando a
possibilidade do comportamento não se alterar, na medida em que continua seguindo
a mesma regra, mesmo que a contingência tenha mudado (Nico, 1999).
Meyer (2005) demonstra que as regras podem produzir uma redução na
sensibilidade comportamental às contingências. Quando as contingências mudam,
tornando as regras discrepantes das contingências, o comportamento estabelecido
por regras tem menor probabilidade de mudar acompanhando tais modificações do
que o comportamento inicialmente estabelecido por modelagem ou reforço diferencial.
Isso significa que o comportamento estabelecido por regras parece pouco sensível a
alterações nas contingências de reforço.
O conceito de insensibilidade ó relativizado por Nico (1999) que argumenta que
a insensibilidade parece ser a característica de não-alteração do comportamento a
despeito da mudança nas contingências implicar perdas de reforço. Pode-se afirmar
que na identificação da insensibilidade enfatiza-se a relação entre a resposta descrita
na regra e a conseqüência diretamente por ela produzida. Nico, entretanto, questiona o
termo "insensibilidade às contingências”, pois este soaria “como um contra-senso
dentro do corpo teórico da Análise do Comportamento” (p. 36).
A investigação de variáveis responsáveis pela manutenção de uma resposta é
sugerida por Nico (1999): o comportamento apenas “aparentemente parece ser
insensível às contingências” (p. 37). Há, ainda, duas possibilidades do explicação para
este padrão dito insensível. A primeira possibilidade está na suposição de que o emissor
da regra emita reforços contingentes ao seguimento desta. Neste caso, não ê possível
classificar este comportamento como insensível às contingências, pois ele é contingente
as conseqüências sociais. A segunda probabilidade é apresentada diante da seguinte
situação: as conseqüências (direta ou social) responsáveis pela manutenção do
comportamento não mais são produzidas, e a despeito deste fato a resposta continua
sendo emitida. Neste caso, tal esquema não basta para dizer que o comportamento é
insensível as contingências, pois o comportamento pode estar em esquema de
resistência à extinção. Para Nico é preciso que os reforços sociais contingentes à regra
sejam considerados, assim como os estudos a respeito da resistência à extinção,
antes de classificar tal comportamento como insensível às regras.
1.1 Auto-regras
A comunidade verbal ensina um indivíduo a descrever seu comportamento e a
identificar as variáveis das quais esse comportamento é função. Quando estas
descrições controlam os comportamentos do descritor ou do ouvinte, elas deixam de
ser meras descrições e se tornam regras. Entretanto quando elas são formuladas ou
reformuladas pelos indivíduos cujo comportamento passam a controlar, chamam-se
de auto-regras (Jonas, 1997). Alguns autores têm estudado as auto-regras e a sua
relevância no controle do comportamento humano (Banaco, 1995; Jonas, 1997; Meyer,
2005). Jonas define as auto-regras como “estímulos verbais especificadores de
contingências que são produzidos pelo comportamento verbal do próprio indivíduo a
quem estas contingências se aplicam” (p. 145).
Meyer (2005) contribui na formulação da definição das auto-regras ao dizer que
os seres humanos seguem não apenas as regras apresentadas pelos outros, como
também formulam e seguem suas próprias regras. Quando estas são formuladas ou
reformuladas pelo indivíduo cujo comportamento passam a controlar, são auto-regras.
Neste caso, uma parte do repertório do indivíduo afeta outra parte deste repertório. As
auto-regras podem ser explicitadas publicamente ou podem ocorrer de forma encoberta
quando o indivíduo pensa (Jonas, 1997).

Sobrr Comport«imrnto c C'oj}niç«1o 57


Skinner (1975) sugere que um indivíduo cujo comportamento é suscetível a um
conjunto de contingências pode formular auto-regras a respeito dessas contingências,
sendo que elo próprio pode então reagir mais eficazmente quando o controle por estas
contingências estiver enfraquecendo. Formular auto-regras é um repertório fundamental
e importante, principalmente nos casos em que o comportamento gerador de problemas
está sob maior controle das contingências diretas e imediatas (Meyer, 2005).
Assim como no comportamento controlado por regras, não ó somente o
comportamento produzido pelo seguir a auto-regra que è reforçado, mas também o
comportamento de formulá-las. Mesmo que seguir a regra não resulte em
conseqüências naturais que mantenham esse comportamento, o comportamento de
formular regras poderá ocorrer devido às conseqüências sociais (Jonas 1997).
As pessoas podem ter seus comportamentos controlados por auto-regras que
não especificam uma contingência verdadeira, o que seria causador de sofrimento
(Banaco, 1995). Segundo Meyer (2005), as desordens na formulação de auto-regras
podem ocorrer de duas maneiras básicas: a pessoa falhar na formulação do regras ou
formular regras de maneira imprecisa ou irrealista.

2. Relacionamentos amorosos
Estudos realizados no Brasil e também presentes na literatura estrangeira
demonstram uma variedade de pesquisas que enfatizam diversos aspectos das relações
amorosas e que buscam compreender melhor este componente da vida humana
(Cordova e Jacobson, 1999; Amélio, 2001; Ayala, 2001; Kiecolt-Glaser & Newton, 2001;
Rochlen e Mahalik, 2004; Kenrich, Sadalla, Groth e Trost, 1990; Sternberg, 1991, 1998;
Otero e Ingberman, 2004).
Algumas pesquisas, ao abordarem a questão da oscolha do parceiro, reportam
que tanto homens como mulheres têm preferências claras sobre certas características
físicas do parceiro que os atraem para um relacionamento casual, sem muito
comprometimento (Buss & Schmitt, 1993). Para relacionamentos mais sérios, com
maior comprometimento e envolvimento das partes, as mulheres tendem a considerar
em menor intensidade os atributos físicos que as atraem. Kenrich, Sadalla, Groth e
Trost (1990) concluem que as mulheres são mais criteriosas ao escolherem parceiros
para qualquer nível de envolvimento, enquanto os homens o são apenas quando
escolhem parceiras para fins de casamento. Neste caso, os homens procuram em
suas parceiras características como bondade, entendimento e habilidades para cuidar
de filhos, mas diferentemente das mulheres a atratividade da parceira tem uma
importância desproporcionalmente maior do que as outras qualidades (Buss, 1999).
A escolha do parceiro é também o foco de muitos estudos baseados em teorias
evolucionistas, que propõem que a atração física tem um papel muito importante na
escolha de um par romântico, pois Indicaria qualidades genotípicas e fenotlpicas de
fertilidade e potencial reprodutivo (Morris, 1996).
Um outro olhar para o evento de escolha do parceiro amoroso é feito por Otero e
Ingberman (2004), que indicam que as afinidades e diferenças existentes entre as pessoas
podem ser consideradas critérios de escolha. As semelhanças existentes entre os
parceiros levam a interações reforçadoras, auxiliando na escolha do parceiro. Os fatores
mais freqüentes são: tipo de educação, valores de vida, projetos para o futuro, escolha de
atividades e interesses parecidos. As afinidades os atraem e são vistas como elementos
de atratividade facilitadores para uma convivência futura. Por outro lado, as diferenças
existentes podem também funcionar como critérios de escolha, e serem vistas como

58 Cccllui de Abreu eSilv.i , l idui N.il.ilui Pobri.inskyi Weber


fatores de complementação, de enriquecimento. Os mais comuns, entre esses fatores,
são: maneira de ser, diferenças de opiniões, afazeres, gostos, interesses. No segundo
caso, cada parceiro atua, ora como controlador, ora como suplemento do outro.
Neste mesmo sentido, Amélio (2001) ao descrever os princípios que regem a
seleção de parceiros cita os princípios da homogamia, da heterogamia e da
complementaridade. Os princípios podem funcionar para a escolha de um grupo de
atributos, e não funcionar para outro grupo. Por exemplo: pode-se buscar alguém com
valores e religião semelhantes, porém, com características físicas diferentes.
Complementando os estudos acerca dos relacionamentos amorosos, Otero e
Ingberman (2004) discorrem a respeito de duas etapas da relação amorosa: o namoro
e o casamento, e sobre como, com o passar do tempo os problemas podem vir a surgir.
A fase do namoro é aquela em que as pessoas explicitam suas melhores idéias, a
melhor maneira de ser e de resolver questões divergontes, pois se conquistam visando
uma vida futura. Os encontros são mais esporádicos e quase sempre tem por objetivo
a recreação, o lazer e o prazer. As diferenças e semelhanças potencialmente conflitantes
geralmente não costumam se caracterizar como problemas nessa fase.
Após o tempo de convivência do namoro, e decidirem viver juntos, o aumento
do tempo compartilhado permite que os casais revelem suas características individuais,
estados de humor, hábitos de vida e preferências pessoais. Beck (1988) diz que casar
ou viver junto é bem diverso das demais formas de relacionamento vividas. Para Lazarus
(1992), na maioria dos casamentos bem sucedidos as pessoas compartilham liberdade
e espaço mútuo, contanto, nem sempre nessa fase desejam as mesmas coisas ao
mesmo tempo e da mesma maneira.
Segundo Lazarus (1992), a maioria dos casais se juntam cheios de sonhos e
expectativas irreais. Cada cultura, em sua especificidade, transmite conhecimentos, o
que alguns autores chamam de mitos relativos aos relacionamentos amorosos (Beck,
1988; Lazarus, 1992, Sternberg, 1991). Com base em alguns estudos Lazarus (1992) e
Stemberg (1991) relacionaram uma série de mitos conjugais que representam uma
crença errônea que geralmente leva a insatisfação nos relacionamentos.
Alguns mitos descritos por Lazarus (1992) merecem ser citados, pois podem
igualmente ser observados na cultura em que nos encontramos inseridos, e também
são descritos pela comunidade verbal que nos rodeia, alguns até mesmo em forma de
provérbios e ditos populares, tais como: marido e esposa sáo os melhores amigos; o
romantismo do casal faz uma boa relação: uma relação extraconjugal destrói o casamento;
marido e esposa devem fazer tudo juntos; é preciso lutar para salvar o casamento; num bom
relacionamento, um tem confiança total no outro; um deve fazer o outro feliz num
relacionamento; num bom relacionamento um pode descarregar “tudo" um no outro; os
bons maridos consertam tudo em casa e as boas esposas fazem limpeza; ter um filho
melhora um mau casamento; os que amam de verdade adivinham os pensamentos e
sentimentos do outro; um casamento infeliz 6 melhor que um lar desfeito; as pessoas
podem transformar o parceiro em uma pessoa melhor; os opostos se atraem e se completam.
Sternberg (1991) também descreve alguns mitos sobre o amor, e diz que as
pessoas são influenciadas por estes conhecimentos difundidos popularmente. Multas
vezes, diante do fracasso dos relacionamentos culpam a si mesmas, ao Invés de
questionar suas premissas básicas. A pesquisa cientifica, segundo este autor, revela
que muitas destas idéias sobre amor, que são aceitas como fato, são falhas. E que as
pessoas dificilmente comparam a realidade que se apresenta com a Idéia. Neste sentido,
há um abismo, entre as expectativas culturais e as circunstancias reais.

Sobre Comportamento r Coflniçdo 59


De acordo com Sternberg (1991) as pessoas aceitam esses mitos sobre os
relacionamentos porque aparentemente fornecem "instruções" sobre como agir (e obter
sucesso) nas relações amorosas. Para ele, o primeiro passo para um relacionamento
inteligente é verificar a falsidade dos mitos comuns sobre o amor. O autor também cita
algumas idéias, transmitidos pela comunidade verbal, que podem ser causadoras de
problemas nas relações: o amor conquista tudo; paixSo e sexo são mais importantes no
começo de um relacionamento; a "química“ 6 essencial no relacionamento; os casais
devem se amar mais do que amam qualquer outra pessoa.
Os mitos conjugais descritos por Lazarus (1992) e Sternberg (1991) podem, sob a
perspectiva da Análise do Comportamento, serem percebidos como exemplos de regras e
que transmitidas culturalmente ou formuladas a partir das experiências individuais funcionam
como estímulos discriminativos verbais controladores de comportamentos no relacionamento
amoroso. Ao ouvir histórias ou observar modelos de interações amorosas, as pessoas
passam a agir conforme as contingências descritas pelas regras. Como nem sempre as
contingências descritas pelas regras são estáveis, e como muitos de tais ditos populares
foram formulados em outra situação histórica e cultural é possível que tais "mitos" levem a
problemas por não condizerem à realidade em que estão sendo aplicados.
Segundo Otero e Ingberman (2004) é possível que, com o passar do tempo, as
características que atraíram o casal passem a ser geradoras de conflito, e tornem-se
fontes de punições mútuas, privando ambos os parceiros de reforços e expondo-os a
estímulos aversivos. Além disso, com o passar do tempo os parceiros tornam-se monos
tolerantes com as diversidades do cotidiano, e podem passar a agredir-se ou interagir
coercitivamente Otero e Ingberman também descrevem a polarização, ou seja, quando
o relacionamento ruim transforma as diferenças em deficiências, fazendo parecer
maiores do que realmente são.
Os casais que estão em um relacionamento satisfatório buscam o
desenvolvimento da afetividade conjugal e não a excitação romântica, e tem como base
a capacidade de negociar, transigir e evitar papéis rígidos. Isso presume um grau de
maturidade em que ambos são conscientes que são responsáveis pela construção e
preservação da felicidade deles (Lazarus, 1992). Além disso, quando um cônjuge deixa
de perceber o outro como uma pessoa única, com direitos, privilégios e destino próprio,
as conseqüências são bastante negativas para o relacionamento.
Os relacionamentos amorosos podem influenciar de maneiras positivas ou
negativas outros aspectos da vida das pessoas. Kiecolt-Glaser & Newton (2001) realizaram
uma revisão em artigos na última década, buscando evidências sobre a relação marital,
sugerindo que o bem estar matrimonial é conseqüência de uma boa saúde, e que aspectos
negativos da interação conjugal influenciam direta e indiretamente a saúde em doenças
como depressão, problemas cardíacos, desordens endócrinas, entre outras.
Rochlen e Mahalik (2004) demonstraram que as mulheres que perceberam
em seus parceiros aspectos como sucesso, poder e competição em detrimento de
comportamento afetuoso e emotivo obtiveram os escores mais altos nas escalas de
ansiedade e depressão. Neste mesmo sentido, Possati (2002) discorre sobre a
associação entre relacionamentos de qualidade e o bem estar psicológico, pois seriam
protetores contra eventos estressantes. Por outro lado, situações de conflito nessas
áreas podem ter um efeito devastador como evento estressor.

2.1 O papel da mulher no relacionamento amoroso


Para tentar compreender o comportamento de mulheres no relacionamento amoroso
toma-se necessário fazer uma breve discussão a respeito da formação de identidade e papel

60 Miiria Crcfliii dc Abreu c Sllv.» , l.ldl.i |)obri<in*kyj Weber


sexual. Sabe-se que a identidade feminina, bem como o papel da miilhor na sodedade e nas
relações que estabelece sofreu grandes transformações nas ultimas décadas.
O movimento feminista, iniciado após a Revolução Francesa, que a principio
reivindicava molhores condições do trabalho para as mulheres e direito ao voto, teve grande
repercussão om todo o mundo, e os osforços para a construção de uma idontidado feminina
e garantir a liberação soxual da mulhor ganham forca a partir da década de 50 (Coelho, 2002)
Importantes mudanças ocorrom com a liberação soxual: os meninos oxpressam mais sous
sontimontos. deixando transparocer fragilidade, o que era bem diferente nas décadas 50, 60
e 70. Com a pílula anticoncepcional as mulheres passam a ter controle sobro o próprio corpo,
as manifostações da sexualidade se transformam. A emancipação feminina possibilita
mudanças no amor, casamento bom como nos papéis sociais o na atividado profissional
(Benedetto, 2003).
Homons o mulheres não tôm que cumprir papéis sociais o sexuais definidos e
estagnados como nas décadas passadas. Novas formas de exprossão estão se
desenvolvendo e facilitando os relacionamentos humanos. Em tese, cada pessoa pode fazer
suas opções sexuais baseadas em seus próprios princípios, valores e proforèndas (Benedetto
2003). Atualmento, há um processo do democratização das relações pessoais, e o casamento
marcado pela dominação masculina vem dando lugar a uma relação fundamentada na
amizade e no companheirismo, onde a mulher negocia e reivindica igualdado.
Biasoli-Alves (2000) constata que há uma nova forma da mulher ser considorada. A
imagem de ser frágil e necessitado de proteção, sob o domínio dos sentimentos, atuando na
intimidade o presa aos cuidados com a prole, ganha outros contornos, fazendo dela um ser
om construção, na busca de seu desenvolvimento e realização de potencialidados,
Beauvoir (1980) ao afirmar "ninguém nasce mulher: toma-so mulher” demonstra
que há uma construção acerca do papel que a mulher exerce em suas relações. Desta forma,
muitas características universalmonte consideradas femininas, tais como passividade,
sensibilidade, dependência, sentimento maternal, podem estar relacionadas a valores
socialmente transmitidos. Segundo Sant’ Ana (2003) o papel soxual, ou papel de gênero é o
conjunto de normas referentes às atitudes, valores, reaçôos emocionais e comportamentos
que são considerados apropriados a cada sexo em uma cultura e momonto historicamente
determinados. Sob este ponto de vista, as características habitualmento apresentadas por
homens e mulhores também não são necessariamente contingentes ao sou sexo biológico.
Em suas pesquisas Franchetto, Cavalcanti e Heilbom (1981) demonstram que algumas das
características femininas são construções sociais, e por isso mesmo passaram pelas
transformações históricas e culturais vivenciadas nas ultimas décadas.

3. Método
Participantos
Participaram desta pesquisa duas mulheres com diferentes níveis de formação
o com experiências variadas em relacionamentos amorosos. Para preservar a identidado
das participantes, optou-se em chamá-las por um nome fictício. A seguir segue a
identificação e breve descrição das participantes:
Maria: 27 anos, solteira, terceiro grau completo. Pedagoga om uma escola, mora com a
irmã e não tem filhos. No momento da entrevista estava namorando havia seis meses,
a relação mais longa depois do primeiro namoro de dois anos (aos 15 anos do idade).
Ana: 30 anos, casada, segundo grau completo. Manicure, mora com o marido do 33
anos e o filho de 12 anos. Casou grávida há 13 anos.

Sobrr l'omport.imcnto c Cognifilo 61


Instrmrmntas
Foi utilizado um roteiro de entrevista previamente elaborado, com base no estudo
e revisão bibliográfica realizados. O roteiro abrangia aspectos como: dados pessoais,
situação amorosa atual, histórico em rolacionamentos amorosos, histórico familiar,
regras e auto-rogras prosontos no comportamento no relacionamento amoroso.

Procedimentos
Esta pesquisa foi dividida em duas etapas: contato próvio com as provávois
participantes o postorior realização das entrevistas. No primeiro contato foi esclarecido
o procodimonto, o objetivo e a importância da posquisa. Após assentirom a colaboração
para o estudo as participantes assinaram o Termo de Consentimonto Livro e Esclarecido.
A sogunda etapa consistiu na realização de entrevistas semi-ostruturadas. Foi realizada
urna ontrovista com cada participante.

Análise dü dados
Os dados foram analisados e codificados através do mótodo da análiso de
contoúdo, segundo a perspectiva de Bardin (1977). A análise de conteúdo foi realizada
em três fases: pró-análise, exploração do material e tratamento dos rosultados e
interpretação. O conteúdo das entrevistas foi agrupado por tomas, sondo eles: escolha
do parceiro, exposição dos sentimentos e comunicação, fidelidade, expectativas do
papel da mulher e percepção do próprio papel no relacionamonto amoroso.

4. Resultados e Discussão
Escolha do parceiro
O comportamento diante da escolha do parceiro pode ser influenciado por três
fatores: universais (relativos á espécie humana), culturais, e individuais (Amólio, 2001).
Sendo assim, ainda que muitos dos comportamentos de atração sejam regidos pelos
princípios evolucionistas de preservação e aprimoramento da espécie, a história de
aprendizagem irá delimitar as características que cada um considera no momento da
escolha e idealiza no parceiro.
Na tabela seguinte, é possível observar na fala de Maria acerca de alguns
aspectos importantes na seleção de parceiro amoroso.

Tabela 1: Apresentação das frases rolatadas por Maria e Ana sobro as caractoristicas do parcoiro.
MARIA
“Eu queria um cara bonito, e ele è feio, è japonAs. E me surpreendi, porque eu
nunca achei que fosse gostar de um cara que eu nflo acho bonito"

"E tambAm me Implico com homem meloso, grudento, nflo dá certo comigo"

De acordo com sua fala ó possível formular a hipótese da existência de regras


regentes de seus comportamentos na escolha do parceiro Ao falar "quem è que pensa
que vai gostar de um japonês" Maria indica que ela havia feito formulaçõos prévias
sobro a aparência física ideal do um parcoiro (noste caso, provavolmento um homem
que ola achasse bonito), o ser japonês não estava dontro dossa classificação.

62 Miiri.i C'ctlli.1 de Abreu e Mlv.i , I Ull.i N.if.ill.i Pobrl.mskyj Weber


Desta forma, a provável auto-regra "só vou gostar de quem acho bonito” pode ter
assumido a função de um estimulo discriminativo que lovou Maria a olhar os homens
que não considerasse bonito com desinteresse amoroso, que é o que ela relata ter
acontecido com seu atual relacionamento: "nunca tinha me interessado por ele antes,
porque ele nào è bonito e a gente quase não conversava”. O que parece tor funcionado
como atrativo, neste relacionamento, não foram as características físicas, mas
provavolmento outras, já que a entrevistada diz que antos do iniciarem o namoro ola e o
namorado já se conheciam.
Alóm da aparôncia física, a partir do relato de Maria percebe-se que ela discrimina
outras características que considera importantes na questão da escolha do parceiro. Ao
dizer "homem meloso, grudento, nào dá certo comigo", ó possível que Maria tenha
aprondido a partir de experiências anteriores que ó importante para que um
relacionamento seja bem sucedido que o homom omita comportamentos concorrentes
a “ser meloso, grudento".
Tabula 2: Aprosontação das frases relatadas por Ana sobre as características do parceiro.

ANA

"... para mim o mais importante 6 alguém que mande om mim, que me dé uns
empurrâo. (sicï. Senôo nôo vou para frente".

“Terri que ter afinidade".

A entrevistada Ana não cita características físicas, porém especifica que


precisa de alguém que “mande" nela. Ao relatar esta frase, Ana demonstra um
padrão correspondente ao descrito por Otero e Ingberman (2004), que relatam que
as diferenças existentes podem funcionar como critérios de escolha, e serem
percebidas como fatores de enriquecimento. Amélio (2001) diz que as pessoas
podem seguir mais de um principio na escolha de diferentes características do
parceiro. Ana, ao dizer que o parceiro "tem que ter afinidade" demonstra também
possuir regras que regem sua escolha sob o princípio da homogamia. Segundo
Amélio, este princípio é o mais importante da seleção de parceiros, e quando as
pessoas possuem características comuns entre si ó grande a chance dos
relacionamentos serem bem sucedidos.
Embora não seja possível a partir das entrevistas saber ao certo a origem
das regras controladoras dos comportamentos de escolha do parceiro, é possível
hipotetizar que as mesmas foram formuladas após as experiências vividas e
observação de outras relações.

Exposição dos sentimentos e comunicação


A exposição dos sentimentos é um fator de importância nos relacionamentos
amorosos. De acordo com Cordova e Jacobson (1999) a comunicação insatisfatória
em um relacionamento pode ser destrutiva, e muitos problemas são exacerbados
pela maneira como os parceiros se comunicam. As falas de Maria sobre este aspecto
podem ser vistas na tabela 3.

Sohre Comporta mento e Cofinlç.lo 63


Tabula 3: Apresentação das frases relatadas por Maria em relação à exposição dos
sentimentos

MARIA

1 "Geralm ente aquele que m ostra o que sente, que deixa o outro m uito
confiante bô bg ferra".
2. "Sou um a petisoa por n a tu re /a m uilo fechada, ao m enos em aspecios sérios
e pessoais Náo consigo nem contar pra ele a história com meu» pais. tipo até
hoje ele náo sabe por q u * eu nâo falo com m au pai... Im agina se eu tiver que
falar com ele dos m eus d e leito * simplesm ente nAo consigo".

3. "Sei lá, eu lento m anter uma postura de forte, te nho receio de falar para ele
colBas importantes sobre m im '

4. "Sou super insegura, tenho um monte de fantasm as e traumas. Sô que nflo


te nho moral, nem coragem. nem o hábito de falar isso pra ninguám . Acho que
o R m esm o nflo entende as mtnhas «Mudes porque me conheceu na versflo
m ulher m oderna super segura e bem resolvida.*.

Maria relata contingências passadas relacionadas ao comportamento de expor


os sentimentos. Ao falar da mãe relata que "... ela não era muito aberta, nào falava que
gostava de mim, e a gente nem falava das coisas do colégio. Ela era fechada, comigo,
com meu pai, com meus irmãos. Sô teve uma vez que ela disse que me amava. A gente
não expressava os sentimentos lá em casa". Pode-se se supor que Maria generalizou
para o relacionamento amoroso o padrão comportamental que ela mantinha com as
possoas de sua família.
Maria na situação da entrevista, disso acreditar quo "aquele que mostra o que
sente, que deixa o outro muito confiante, só se ferral Pode-se imaginar que esta seja
uma regra fortemente controladora de suas atitudes nos relacionamentos. A entrevistada
relata que não consegue falar para o namorado muitas coisas importantes sobre si, e
também fala que isto tem sido gerador de problemas: "um dos grandes problemas da
minha relação ó eu conseguir falar tudo isso que eu acho". De acordo com Otero e
Guerrelhas (2003) os problemas vividos por um casal, na maioria das vezes são
desencadeados pelas dificuldades relativas à comunicação entre eles.
A entrevistada Ana também discorreu sobre a exposição dos sentimentos e
idéias em seu casamento. Algumas frases podem ser observadas na Tabela 4.

Tabola 4: Apresentação das frases relatadas por Ana em relação à exposição dos
sentimentos e comunicação.

ANA

1. “Olha, tem dias que nAo dA nem para falar com «lei Vai falar alguma coim |A
leva grosseria. Oal eu lenho que ficar quieta'.
2. "E «ii sinto muita lalla, de ter alguém (Mira convarsar"
.1. "Mas Iam cotsas que au nâo posso conversar com ele Por exemplo, isso da nu
sentir falta de ter amiga. Sei que se eu falar para ale, ele vai ficar louco)".

Pode-se imaginar, a partir do relato de Ana quo ola seja controlada


coercitivamente pelo seu marido. Estando privada de uma pessoa com quem possa
conversar, ola não o faz com companheiro, e relata receber punição quando o procura
para conversar; "vai falar alguma coisa já leva grosseriá'. Otero e Ingberman (2004)

64 M.trlii C fdli.i de Abreu c Silva , I lillit N.it.ili.i Pobri.tnskyj Wcbcr


expõem que com o passar do tempo ó comum que os parceiros tornem-se intolerantes
e comecem a agredir-se ou a interagir coercitivamento, como descreve Ana. De acordo
com Cordova e Jacobson (1999) muitas vezes os parceiros lançam mão da coerção
para obter mudanças no relacionamento, e a coerção, lamentavelmente, se mostra
bastante eficaz. Além disto, Ana relata uma repetição do que viveu em sua família de
origem, uma vez que diz ter recebido uma educação bastante autoritária e coercitiva,
com um padrão de interação bastante similar ao seu casamento.
Sendo assim, ambas as entrevistadas relataram diferentes aspectos
controladores de seus comportamentos de exposição de sentimentos e comunicação
na relação amorosa. Ao que parece, o comportamento de Maria é relativamente controlado
pelas regras, e não necessariamente as contingências estão submetidas ao mesmo
osquema, gerando problemas a ela. No relato de Ana, sobressaem relatos de
comportamentos controlados diretamente pelas suas conseqüências. A história individual
de cada uma, bem como a historia de vida do marido/namorados são fatores igualmente
Importantes que devem ser considerados na análise de tais comportamentos.

Fidelidade
Embora muitas civilizações humanas sejam poligâmicas, (Morris, 1996) na
cultura ocidental a fidelidade ó um aspecto bastante considerado nos relacionamentos
amorosos. A fala de Maria sobre fidelidade e traição pode ser observada na Tabela 5.

Tabela 5: Apresentação das frases relatadas por Maria em relação ao tema fidelidade.

MARIA
1 "É uma crença muito forte, de que não existe fidelidade de que não podo
haver uma rolação perfeita Continuo acreditando nisso! Nâo existe monogamia
absoluta, fidelidade incondicional. É minha concepção da coisal Senão porquo
todos os relacionamentos fracassariam?".
2 “Aprondi que nas relações sempre vai ter alguém que explora o alguóm se ó
oxplorado Alguém que engana e alguém que ó enganado... o quo trai e o que
é traldo. Se vocè não é um, é outro. Vocé escolhe o papel que vai assumir! Isso
foi em todas as minhas relaçõesl E eu vejo isso no namoro e casamonto de
todas as minhas amigas. Geralmente aquele quo mostra o que sente, que deixa
o outro muito conflanto só se forra."
3. "... as pessoas se perdem com o passar do tempo! Não existe amor, paixão
que supere Tenho certeza disso! Dai rola traição, essas coisas... Eu sou bom
radical om rolação a isso! E profiro ficar solteira a ter que superar uma traição".

De acordo com o relato de Maria ó possível hipotetizar a ligação entre sua


história de aprendizagem, as contingências passadas e as regras sobre traição e
fidelidade. Sua experiência passada de ter vivenciado em casa a infidelidade de seu pai
no casamento com sua mãe serviu como modelo, e resultou na provável formulação
regras, que, de acordo com seu relato, sempre controlaram seu comportamento em
seus relacionamentos: M já trai muito".
A provável regra "sempre vai ter o que trai e o que é traldo" pode ter servido como
estimulo discriminativo para o comportamento de Maria de trair. Contudo, a contingência
atual parece ter mudado, pois neste relacionamento a entrevistada diz estar

Sobrr Comportamento c Cofjniç.lo 65


emocionalmente envolvida, o que não acontecia em seus relacionamentos anteriores.
Nesta situação, Maria é fiel, e como conseqüência desconfia do comportamento do
namorado, como pode ser percebido em seu relato: "tenho tido discussões com meu
namorado porque ele fala que eu sou muito desconfiada".
No caso de Maria a provável regra "não existe fidelidade" não se aplica às
contingências atuais, e ainda que tenha sido formulada com base na observação de
outros relacionamentos e tenha funcionado anteriormente, atualmente tem gerado
problemas para Maria na sua relação amorosa.
O tema fidelidade não foi amplamente investigado na segunda entrevista. Ana
relata que nunca traiu e que acredita que seu marido é fiel.

Expectativas sobre o papel da mulher


O papel da mulher no contexto familiar brasileiro tem passado por mudanças
continuas (Biasoli-Alves, 2000; Coelho, 2002; Benedetto, 2003; Sant'Ana 2003). A
diversidade de expectativas sobre o papel da mulher pode ser notada nas duas
entrevistas. O relato de Maria sobre as expectativas sobre o papel da mulher é
apresentado na Tabela 6.

Tabela 6: Apresentação das frases relatadas por Maria sobre expectativas do papel da
mulher.

MARIA

1. “Eu acho que a mulher precisa ser protegida, paparicada, mas tem que ser
independente. Se acontecer qualquer coisa ela toca a vida sozinha"
2. “... ela (a mâe) dizia que eu tinha que estudar, ter uma profissão, para não
depender de homem nenhum E eu acho que esse foi o conselho que eu mais
segui".

A partir do relato de Maria é interessante observar como as contingências


passadas podem estar relacionadas ao papel da mulher no relacionamento, uma vez
que podem ter colaborado na elaboração de regras sobre este assunto. Maria, ao
relatar que sua mãe dizia que tinha que estudar, ter uma profissão, para que não
dependesse de homem nenhum, reconhece que este foi um conselho o qual ela seguiu.
Baum (1999) diz que o conselho especifica um comportamento e implica conseqüências
positivamente reforçadoras. As conseqüências reforçadoras ("não depender de homem
nenhum") são claramente anunciadas no conselho dado pela mãe de Maria a ela.
Levanta-se a hipótese que ser independente é bastante reforçador para Maria, com
base no seu relato: "Não tem nada mais valioso do que poder estar com alguém e ser
livre para fazer o que você quiset'.
Provavelmente a partir da observação do papel assumido pela mãe, e dos
conteúdos socialmente transmitidos, Maria construiu a idéia de que, apesar de ser
“paparicada e protegida" ela deve s e r"independente
Ana por sua vez, apresenta uma maneira diferenciada de perceber o papel da
mulher. Ela mantém um referencial para o qual a mulher continua tendo papéis
específicos de cuidado da casa e do marido, e somente considera que a atividade
profissional como conseqüência da situação econômica atual, conforme frases
apresentadas na tabela 7.

66 M.irui (.cclliu ilc Abreu c Silva , L kIiü N .i I.i Im Pobri.mskyj Weber


Tabela 7: Apresentação das frases relatadas por Ana sobre expectativas do papel da
mulher.

ANA

1 O homem tem que proteger a mulher, a mulher lem que cuidar do homem,
da casa. Por mais que o homem ajude na casa, e a mulher a|ude no sustento,
Isso nunca vai mudar O meu marido limpa a casa, lava roupa Mas quando ele
faz falta um loque de mulher sabe? Al quando eu cuido, fica tudo bonito,
cheirosinho Na minha casa tem um jardim de flores. Se não fosse por mim ia
ser só grama E do homem a mesma coisa As vezes eu faço umas comldlnhas
que ele gosta, para agradar E o homem protege a mulher, faz o serviço
pesado Pelo menos lá em casa é assim, e dá certo!

Diante do relato de Ana sobre este aspecto, é importante considerar as


contingências as quais foi submetida em sua história de vida. Ana relata que em sua família
não precisava trabalhar, apenas cuidar de casa, enquanto o irmão, único homem da casa,
começou a trabalhar codo. Pode-se supor que no convívio com sua família Ana tenha
formulado tais regras que dizem que o homem e a mulher têm papéis definidos e distintos
no cuidado da casa e na relação amorosa ("a mulhor tem que cuidar do homem, da casa”).
A tônica mais marcante de sua fala ó certo conflito, entre estas regras a respeito
de um casamento marcado pela presença de uma mulher cuidadora e de um homem
provedor, e as adaptações necessárias devido à situação histórico-econômica atual.
Ana relata que atualmente muitas das brigas têm origem na situação em que o casal se
encontra: ela trabalhando e ele desempregado: "No fundo sei que ele não aceita muito
bem o fato de que quem ta mantendo a casa sou eu. É isso que mais incomoda a gente“.
O relato de ambas as entrevistadas suscita uma reflexão a respeito da
transformação do casamento ao longo do tempo. De acordo com McGoldric (2001) o
significado do casamento na nossa época é bem diferente do sou significado em toda
história anterior, quando ele estava firmemente inserido na estrutura econômica e social
da sociedade. A mudança do papel da mulher e a crescente mobilidade na cultura
forçam a redefinir o casamento. As mulheres estão priorizando as próprias carreiras e
estão cada vez mais resistentes a ficarem com as responsabilidades primárias pela
casa, pelos filhos. Contudo, as mudanças chegam muito lentamente, e ainda sustenta-
se um ideal de que o homem tenha uma posição superior (sendo mais alto, mais
esperto, mais instruído e com maior poder de ganhar dinheiro).

5. Considerações Finais
Considerando os princípios da Análise do Comportamento muitas seriam as
possibilidades de foco na compreensão dos relacionamentos amorosos. Restringlr-se
as regras e auto-regras implica em aprofundar a análise no comportamento verbal, e á
característica exclusivamente humana de descrever contingências e submeter o controle
de comportamento a essa descrição. Diante da realização deste trabalho, algumas
considerações merecem ser feitas.
A primeira constatação está no fato de que as regras e auto-regras são fortemente
controladoras dos comportamentos das entrevistadas nos seus relacionamentos. As
contingências descritas pelas regras, bem como os comportamentos controlados são
distintos, mas a presença de tais comportamentos ê bastante significativa, Não se

Sobre Comportamento e Cogni(<lo 67


pretende, através desta afirmação, subestimar a importância das contingências na
instalação e manutenção de comportamentos relativos aos relacionamentos amorosos.
As regras sâo úteis, pois descrevem contingências, ou seja, uma pessoa não precisa
necessariamente passar pela contingência para aprender uma regra. Tanto o controle
através das contingências como o controle através de regras estão presentes no
repertório comportamental das participantes.
O comportamento das entrevistadas de seguir regra provavelmente são reforçados
positivamente, seja pelas contingências, seja pelo reforço social. Isto se explica porque
regras disfuncionais são seguidas, mesmo após a constatação de que os comportamentos
por elas eliciados são causadores de problemas. Desta forma não é possível dizer que
seus comportamentos são insensíveis às contingências, pois as conseqüências colaterais
reforçam a regra. Mesmo que as conseqüências programadas nas contingências descritas
pela regra não aconteçam, o comportamento de segui-la é reforçado socialmente.
O comportamento controlado por regras é vital a existência da cultura e
sociedade humanas. Desta forma, utilizando descrições verbais o homem pode controlar
os comportamentos do outro e de si próprio sem que haja a necessidade de exposição
às conseqüências doscritas.
Outra consideração deve ser feita em relação à análise funcional das entrevistas,
quando se atribuiu ao comportamento governado por regras o controle de alguns
comportamentos. Nenhuma generalização pode ser realizada, pois o contexto de apenas
uma entrevista nâo permite tal tipo de afirmação. Os comportamentos passam polo viés
do relato vorbal da entrevistada, om determinado momonto histórico. Além disso, foi
possível perceber que outros aspectos, como a religião, que não foram abordados
neste estudo podem estar fortemente relacionados com o repertório comportamental
das entrevistadas. Sugere-se então, um estudo complementar seja realizado com a
finalidade de investigar melhor o papel de agências controladoras no comportamento
do relacionamento amoroso, sobretudo a religião.
Este estudo confígura-se ainda num alerta ás mulheres. É de extrema
importância e relevância uma reflexão que promova o autoconhecimento e quo busque
identificar as rogras e auto-regras controladoras de seus comportamentos, verificando
sua correspondência com a realidade, uma vez que o papel da mulher tem mudado
muito, e não há uma forma única de considerar o seu papel. A imagem de um ser frágil
e necessitado de proteção, sob o domínio dos sentimentos, atuando na intimidade
ganha outros contornos, dela um ser em construção, na busca de seu desenvolvimento
e realização de potencialidades.
Por fim, espera-se que os resultados sejam uma contribuição aos terapeutas,
comportamentais ou não. Percebe-se que enormes são os problemas nos
relacionamentos causados comportamentos controlados por regras imprecisas,
irrealistas ou mal formuladas. É de extrema importância que no contexto da clinica o
terapeuta auxilie na formulação de regras adequadas, ensinando ao cliente a colocar
seu comportamento verbal sob controle direto dos eventos vlvenclados e das suas
conseqüências naturais.

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