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CAMPANHA NACIONAL DE ESCOLAS DA COMUNIDADE (CNEC)

INSTITUTO CENECISTA DE ENSINO SUPERIOR DE SANTO ÂNGELO (IESA)


CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

RAQUEL DOS SANTOS MONTEIRO

A FRAGILIDADE DA PROVA TESTEMUNHAL NO PROCESSO PENAL


BRASILEIRO E SUAS CONSEQUÊNCIAS: UMA ANÁLISE À LUZ DO
FENÔMENO DAS FALSAS MEMÓRIAS

Santo Ângelo (RS)


2016
RAQUEL DOS SANTOS MONTEIRO

A FRAGILIDADE DA PROVA TESTEMUNHAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS NO


PROCESSO PENAL: UMA ANÁLISE À LUZ DO FENÔMENO DAS FALSAS
MEMÓRIAS

Projeto apresentado à disciplina de


Projeto de Pesquisa, turma 02, curso de
Direito do Instituto Cenecista de Ensino
Superior de Santo Ângelo (IESA), sob a
orientação da Professora Vera Maria Werle.

Santo Ângelo (RS)


2016
DADOS DE IDENTIFICAÇÃO

AUTOR DO TRABALHO: RAQUEL DOS SANTOS MONTEIRO

TÍTULO: A fragilidade da prova testemunhal no processo penal brasileiro e suas


consequências: uma análise à luz do fenômeno das falsas memórias

INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR: Instituto Cenecista de Ensino Superior de


Santo Ângelo-IESA

CURSO: Direito

ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: Processo Penal

PROFESSOR ORIENTADOR: VERA MARIA WERLE

E-MAIL DO ALUNO: raqueel_monteiro@hotmail.com


SUMÁRIO

1 TEMA ...................................................................................................................... 05

2 JUSTIFICATIVA ..................................................................................................... 05

3 PROBLEMA ........................................................................................................... 05

4 HIPÓTESE ............................................................................................................. 06

5 OBJETIVOS ........................................................................................................... 06
5.1 OBJETIVO GERAL .............................................................................................. 06
5.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ............................................................................... 06

6 PLANO DE TRABALHO ........................................................................................ 07

7 REFERENCIALTEÓRICO ..................................................................................... 07
7.1 CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS ACERCA DA PROVA TESTEMUNHAL
NO PROCESSO PENAL.............................................................................................07
7.2 A MEMÓRIA E SUAS DIMENSÕES E A RELAÇÃO COM A PROVA
TESTEMUNHAL NO PROCESSO PENAL................................................................ 09
7.3 A PROVA TESTEMUNHAL E O FENÔMENO DAS FALSAS
MEMÓRIAS ............................................................................................................... 13

8 METODOLOGIA .................................................................................................... 18

9 CRONOGRAMA …...…..….......….….………………….….…….…….….…….…….. 19

REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 20
PROJETO DE PESQUISA

1 TEMA
A fragilidade da prova testemunhal e as suas consequências no Processo
Criminal: uma análise à luz do fenômeno das falsas memórias.

2 JUSTIFICATIVA
A escolha desse tema se deve ao interesse da acadêmica pelo estudo do
processo penal, em especial, aos tipos de prova. Percebe-se que, em grande parte
dos processos criminais, a prova testemunhal ganha relevância e, muitas vezes, é a
única produzida.
Ocorre que, ao relembrar fatos passados, a memória humana,
involuntariamente, está sujeita a variáveis externas (busca constante pelo autor do
delito e influência midiática) e internas (sugestionabillidade e indução, além das
alterações próprias da memória, como o esquecimento). O transcurso de tempo que
decorre entre a prática do fato e as declarações prestadas em juízo é relativamente
longo, elevando a ocorrência do fenômeno das falsas memórias.
O fenômeno das falsas memórias na prova testemunhal do Processo Penal é
uma discussão ainda incipiente no campo do Direito, carecendo de pesquisas,
discussão e reflexão para a sua melhor compreensão, a fim de se evitar que
pessoas sejam investigadas, presas e até condenadas com base exclusivamente em
relatos testemunhais, o que justifica o presente trabalho.
Não se pretende defender a não utilização desse tipo de prova, bem pelo
contrário, busca-se, por meio deste estudo, contribuir para fomentar a
implementação de alternativas que venham a qualificar este meio de prova, como a
colheita de provas em tempo hábil, a exploração de outras teses, a adoção de
entrevista compatível, objetivando reduzir erros e compensar eventuais danos,
primando por uma jurisdição com maior senso de verdade e justiça.
3 PROBLEMA
Quais os efeitos produzidos pelas falsas memórias na prova testemunhal? Quais
os seus possíveis impactos no Processo Penal?
Quais as alternativas viáveis a fim de ser aperfeiçoada a prova testemunhal,
tendo em vista os vários fatores de contaminação aos quais está sujeita, como as
falsas memórias?

4 HIPÓTESE
É necessário, para que haja a redução de eventuais danos gerados pela
prova testemunhal precocemente realizada e sua relevante valoração no caso
concreto, a implementação e o fomento de tecnologias e métodos, os quais evitem
que esse tipo de prova contenha contaminações, permitindo a análise de todo o
conjunto probatório, não se atendo apenas às declarações prestadas pelas
testemunhas em juízo.

5 OBJETIVOS

5.1 GERAL
Analisar os efeitos das falsas memórias no que se refere às testemunhas
adultas e as repercussões das informações fornecidas por elas em um processo
criminal. Busca-se justificar a necessidade de um equilíbrio entre os depoimentos
judiciais e os demais elementos probatórios, com o intuito de não serem proferidas
decisões baseadas apenas nesse tipo de prova.

5.2 ESPECÍFICOS
a) Demonstrar, por meio de uma análise interdisciplinar, a fragilidade da prova
testemunhal, considerando a subjetividade das recordações e as diferentes
percepções de cada testemunhal em um processo judicial.
b) Analisar a prova testemunhal no que diz respeito às questões atinentes à
memória, como a atividade recognitiva, a classificação da memória e a sua
dinamicidade. Ainda, compreender a oscilação existente entre o real e o imaginário,
atrelado às técnicas de entrevistas utilizadas em juízo.
c) Fomentar discussões e estudos já iniciados por alguns autores, acerca da
vulnerabilidade do tema, a fim de reduzir danos ocasionados pela supervalorização
da prova testemunhal em processos judiciais.
d) Elucidar a necessidade de os julgadores terem sensibilidade diante de sua
condição humana e falível, para que decisões sejam constituídas com a observância
da instrumentalidade constitucional do processo penal. Dessa forma, buscando-se
apresentar alternativas de caráter preventivo.

6 PLANO DE TRABALHO

6.1 Considerações introdutórias acerca da prova testemunhal no processo penal


6.2 A memória e suas dimensões e a relação com a prova testemunhal no processo
penal
6.3 A prova testemunhal e o fenômeno das falsas memórias

7 REFERENCIAL TEÓRICO

A prova testemunhal é largamente utilizada no processo penal brasileiro para


embasar sentenças condenatórias em processos criminais. No entanto, percebe-se que
esse tipo de prova pode apresentar fatores que prejudicam a sua higidez. Dentre eles,
está o fenômeno das falsas memórias. Na sequência deste projeto de pesquisa se
apresenta o campo teórico será referência para o estudo a ser realizado.
Trata-se de compreender os principais conceitos que nortearão a pesquisa a
partir de estudos já realizados acerca da temática.

7.1 CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS ACERCA DA PROVA TESTEMUNHAL NO


PROCESSO PENAL
O Código Processual Brasileiro elencou no título VII, disposições acerca da
prova, especificando e regulamentando a produção de provas e sua convicção,
elencando as provas ilícitas e regulando o ônus probatório, o qual, em nosso
ordenamento jurídico, cabe a quem alega. Tudo em razão de uma instrução célere e
sem nulidades processuais.
Todo o estudo da prova penal, objetivando a construção da verdade real, passa pelo
estudo dos sistemas processuais clássicos, sendo indicativos de qual posição assume
o juiz no processo, se de garantidor ou inquisidor. Há três modelos políticos jurídicos: o
acusatório, o inquisitivo ou inquisitório ou o misto.
O acusatório se caracteriza pela nítida separação das funções de acusar, defender e
julgar, consubstanciados na pessoa do Ministério Público, do advogado de defesa e do
magistrado. Ainda, há a observância dos princípios da publicidade, contraditório, ampla
defesa e da presunção de inocência.
Por sua vez, o sistema inquisitivo ou inquisitório demonstra a concentração das
funções de acusar, defender e julgar atreladas unicamente na figura do juiz, o qual
possui atividade multiforme, podendo acusar e julgar indistintamente. Tal sistema não
assegura o direito do contraditório e da ampla defesa, não havendo igualdade entre as
partes, vigendo à presunção de culpa.
No sistema misto há duas fases, uma inquisitorial e outra acusatória, pois ora se
mostram presentes características do sistema acusatório e ora do inquisitório. Há, a
divisões de função entre acusar, defender e julgar, no entanto, a isonomia entre as
partes é relativizada, podendo ocorrer privilégios processuais em relação à defesa ou à
acusação.
O sistema adotado no Brasil é o acusatório, em que são asseguradas ao acusado as
garantias constitucionais do contraditório e ampla defesa, sendo as partes tratadas com
isonomia processual. Consoante Norberto Avena,

vigora no Brasil, o sistema acusatório, entendimento este respaldado em


diversas decisões do STF e do STJ. Afinal, todos concordam que, embora
inexista um dispositivo legal expresso na Constituição Federal de 1988, é dela
que se extrai o conjunto de princípios e normas que conduz ao entendimento
de que o direito brasileiro agasalhou o sistema acusatório (2014, p.54).
A prova no processo penal é, sem dúvidas, o tema mais importante de todo o
ramo processual, pois é por meio dela que é formada a convicção do julgador, que é o
destinatário da prova. Os meios de prova compreendem a prova documental, pericial e
testemunhal, não havendo limitação de provas, pois vigora o princípio da verdade real,
utilizando-se de qualquer meio idôneo como meio de prova.
O procedimento probatório se divide em momentos diferentes, sendo o inicial o
de proposição, em que, quando oferecida à resposta à acusação, esta deve ser
acompanhada de todas as provas admitidas em direito em que se vale o acusado,
como rol de testemunhas ou pedido de realização de prova pericial. Após, o juiz, admite
ou não a realização da prova requerida, momento chamado admissão, em que provas
inconclusivas ou com caráter nitidamente protelatório não iram ser deferidas. A
produção de provas é outro momento, em que todos os meios de provas produzidos
devem servir para formar o convencimento do juiz. Por fim, a valoração da prova, em
que, analisando todo o conjunto probatório produzido, o juiz formará seu entendimento
e tomará sua decisão.

7.2 A MEMÓRIA E SUAS DIMENSÕES E A RELAÇÃO COM A PROVA


TESTEMUNHAL NO PROCESSO PENAL

No sistema processual brasileiro, a prova testemunhal ganha relevância,


sendo em muitos casos é a mais utilizada, em detrimento das demais existentes, sendo
a credibilidade dessa prova ligada ao restante do conjunto probatório e de como
entendeu o julgador, pois argumenta Cristina Di Gesu “desde o abandono da tarifa
probatória, nenhuma prova tem valor específico, através da motivação da decisão ter-
se-á um controle se de fato o depoimento contribuiu ou não para o veredicto” (2008, p.
17).
A testemunha é uma terceira pessoa chamada ao processo para
contribuir, expor, falar sobre o fato objeto do processo, contribuir ao deslinde do feito
relatando algo importante. É pessoa idônea, que, por pedido das partes ou por
iniciativa do juízo, comparece para depor sobre a sua percepção do ocorrido.
Toda pessoa é capaz de ser testemunha, de acordo com o artigo 202, do
Código de Processo Penal. Isso quer dizer que qualquer pessoa pode testemunhar em
juízo, devendo ter condições psicológicas e mentais para tanto. No entanto, o
depoimento judicial poderá ter valoração diferente, tendo em vista o grau de
parentesco, amizade ou inimizade com o acusado, sendo nesse caso, necessário a
oitiva como informante, ou seja, uma testemunha não compromissada. Também não
são sujeitos ao compromisso, os doentes mentais e menores de quatorze anos, pela
sua condição mais vulnerável.
É vedado à testemunha, trazer seu depoimento escrito, tendo em vista a
espontaneidade revelada ao depoimento oral, traduzindo muito do que se quer mostrar
para o magistrado.
De acordo com Fernando Capez,

em sentido lato, toda prova é uma testemunha, uma vez que atesta a
existência do fato. Já em sentido estrito, testemunha é todo homem, estranho
ao feito e equidistante das partes, chamado ao processo para falar sobre fatos
perceptíveis a seus sentidos e relativos ao objeto do litígio. É a pessoa idônea,
diferente das partes, capaz de depor, convocada pelo juiz, por iniciativa própria
ou a pedido das partes, para depor em juízo sobre os fatos sabidos e
concernentes à causa ( 2014, p.144).

Por mais utilizada que seja a prova testemunhal no âmbito processual


penal brasileiro, insta salientar que a regulamentação dos meios de prova não é
taxativa, sendo aceitos muitos outros tipos de prova, considerados atípicos ou
inominados, de tal forma que a utilização de outros meios concernentes à produção
probatória, não é considerado violação à Constituição, tampouco às normas
processuais. Tanto é que o Código de Processo Penal adotou o sistema do livre
convencimento do juiz, no qual, o magistrado formará sua convicção pela livre
apreciação e análise da prova produzida, amparada no contraditório, de acordo com o
disposto no art. 155, CPP:

O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em


contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente
nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas
cautelares, não repetíveis e antecipadas (1941, p. 625)
A prova testemunhal, por mais que tenha sido realizada com a
observância dos princípios da oralidade, objetividade, incomunicabilidade e
individualidade é revestida de máculas que podem frustrar o andamento e,
consequentemente, o deslinde final do processo.
Consoante Adalberto José Q. T de Camargo Aranha “a prova
testemunhal, embora seja a mais comum no âmbito do processo penal, e a mais falha
das provas, mesmo quando a testemunha demonstre a maior correção e seriedade
possíveis” (p. 157, 2008).
As testemunhas, como referido, são chamadas em juízo para contribuir
para a elucidação do fato, relatando sua versão com veracidade. São três as fases do
testemunho: apreensão do fato, mantença do fato pela memória e, a reprodução do
fato pelo depoimento.
A apreensão caracteriza-se basicamente por ser a fase em que a
testemunha realiza a tomada do fato, ou seja, sente a sensação, o recebimento de
estímulos e a transmissão de como ocorreu o fato. A fase da mantença do fato vem
logo em seguida, consistindo na fixação, conservação e evocação do relato. Por fim, a
reprodução do fato, no que tange o depoimento propriamente dito, a narrativa oral,
realizada pelos momentos preservados na memória. Camargo Aranha bem explica:

A narrativa do fato sofre profundas influências do estado psicológico


do depoente, incluindo-se entre elas a imaturidade mental (pouca idade),
a enfermidade mental, um estado de embriaguez ou mesmo um
constrangimento emotivo resultante da solenidade do local, do medo de
falsear a verdade, da presença da autoridade etc (2008, p. 171).

A memória pode ser definida como a faculdade de guardar para si ideias,


perspectivas e conhecimentos adquiridos de diversas formas. É estritamente ligada às
recordações vividas e fatos vivenciados, os quais vão se apagando da memória aos
poucos, até o ponto de ser lembradas como eventos distantes.
Nereu José Giacomolli e Cristina Carla Di Gesu, referem que o processo
mnemônico é dividido em processos distintos, quais sejam: aquisição, retenção e
recordação:
No que diz respeito à aquisição [...] destaca que as recordações não são
réplicas de acontecimentos percebidos, por serem limitados pela natureza do
fato (tempo de observação, luminosidade, atenção aos detalhes, existência de
violência, caráter estressante), e nem pelas próprias características e
limitações da testemunha, tais como expectativas, estresse emocional, entre
outros. (2008, p. 4336).

O segundo processo é o denominado retenção, no qual a informação está


relacionada a outros fatores, “a informação é menos completa e exata, relacionando-se
com o transcurso do tempo entre a observação do episódio e a recordação posterior,
bem como as informações obtidas após o fato”, afirmam Giocomolli e Di Gesu (2008, p.
4336).
A recordação é o terceiro momento, de acordo com Giocomolli e Di Gesu:

Nessa fase é produzida a recuperação da informação armazenada na


memória, o que pode ocorrer tanto com sucesso, ou com fracasso, devido a
uma aquisição defeituosa ou ao próprio processo de lembrança em si [...].
Muitos dos fracassos que ocorrem na memória se devem à incapacidade de a
pessoa recordar a informação, por uma aquisição defeituosa ou pela tarefa de
lembrança em si mesmo (2008, p. 4337).

A consolidação de fatos em nossa memória é complexa e sofre variáveis


de acordo com cada pessoa, pois as recordações ficam sujeitas a fatores externos.
Ainda, os eventos não ficam armazenados de forma permanente em nossa memória,
fazendo com que com o transcurso de tempo e devido às influências externas e do
próprio dia-a-dia, elas se modifiquem cada vez mais, tornando-as cada vez menos
detalhistas. O tempo em que um determinado acontecimento ocorre e mais o
transcurso de dias em que a pessoa fala sobre ele, quando longo, acarreta confusões
na testemunha, que acaba por não distinguir o que aconteceu realmente com o que foi
incorporado após o evento.
Por lógica, não ajuda muito as pessoas terem boa aquisição e retenção
de fatos na memória, tendo em vista que, no terceiro e mais importante momento, qual
seja, nas recordações, não é capaz de relatar com clareza de detalhes, trazendo, em
juízo, um depoimento falho. Nesse aspecto, está o papel do juiz entrevistador, que,
com toda a sua experiência, deve analisar a testemunha e escolher o modo de
entrevista compatível as suas condições, produzindo uma prova mais confiável, à luz
de todos os princípios em que ela deve se nortear.

7.3 A PROVA TESTEMUNHAL E O FENÔMENO DAS FALSAS MEMÓRIAS

A testemunha, como ser humano em sua condição falível e com sua


memória ligada exclusivamente às suas vivências diárias, seus compromissos, suas
atividades habituais, ao relembrar fatos passados, muitas vezes ocorridos anos antes
da oitiva em audiência, não é capaz de traduzir a cena como realmente ocorreu, dando
espaço ao fenômeno das falsas memórias.
A memória é definida, consoante Di Gesu como “a faculdade de reter as
ideias, as impressões e os conhecimentos adquiridos, remete também à lembrança, à
reminiscência” (p. 4336, 2008).
Em que pese ser bastante utilizada em processos criminais, a prova
testemunhal, ao mesmo tempo pode se revelar um meio probatório manipulável e
pouco confiável. Isso se justifica pela impossibilidade de armazenarmos tudo o que
vivemos, seja pelo número de tarefas diárias, seja pelo fato de vivermos em uma
sociedade hiperacelerada. Nesse contexto, é preciso ter atenção em relação ao
fenômeno das falsas memórias, que não se confunde com mentiras eventualmente
ditas em juízo. Esse fenômeno é extremamente complexo e fragiliza a prova
testemunhal, tendo em vista que, em juízo, o depoente desliza no seu imaginário.
Após vários estudos entre profissionais de diversas áreas, conclui-se que
as lembranças podem ser manipuladas de forma assustadora, modificando na mente
humana os acontecimentos e até construindo fatos nunca vivenciados. Fatores
ensejadores são as informações errôneas que nos são passadas, o modo como
contamos o acontecimento para outras pessoas e como somos questionados acerca do
fato, bem como à reportagem do fato à fase ou memento vivido na atualidade, as
chamadas falsas memórias.
Aury Lopes Júnior ensina que as imagens de um acontecimento, não
permanecem muito tempo na nossa memória:
É importante destacar que, diferentemente do que se poderia pensar, as
imagens não são permanentemente retidas na memória sob a forma de
miniaturas ou microfilmes, tendo em vista que qualquer tipo de “cópia” geraria
problemas de capacidade de armazenamento, devido à imensa gama de
conhecimentos adquiridos ao longo da vida (2014, s.p. ).

O fenômeno das falsas memórias, de modo geral, ocorre quando uma


pessoa, mesmo que não intencionalmente, distingue o modo como ocorreu o evento,
cria em sua mente fatos não ocorridos, ou então, cria fatos e momentos inexistentes.
Conforme Elisabeth Loftus (apud ALVES; LOPES, p. 47) “ [...] as falsas
lembranças são elaboradas pela combinação de lembranças verdadeiras e de
sugestões vindas de outras pessoas. Durante o processo, os participantes ficam
suscetíveis a esquecer a fonte da informação. É um exemplo clássico de confusão de
fonte, em que conteúdo e fonte são distorcidos.
No processo penal, a prova testemunhal está sujeita, além do fenômeno
das falsas memórias, a outras formas de contaminação, quais sejam, o transcurso de
tempo entre a data do fato objeto do processo criminal e a oitiva da testemunha em
juízo, o viés do entrevistador, ou seja, o modo como as perguntas são realizadas,
sendo prejudicial à confiabilidade dos relatos, questionamentos indutivos e parciais.
Ainda, a mídia influenciam as pessoas que estão envolvidas no processo, sendo muitas
vezes “assalariadas”, criando-se um meio de confundir a testemunha quanto àquilo que
efetivamente percebeu no momento do delito, com o que leu sobre o fato ou ouviu por
intermédio dos meios de comunicação.
É um paradigma que está ganhando cada vez mais espaço entre
pesquisadores, tanto da área do Direito, como da Psicologia e neurociência, pois
demonstrado a importância do tema e como esse fenômeno complexo deve ser tratado
por profissionais que trabalham diretamente com a memória. Nesse sentido, bem como
a vida das pessoas sujeitas a processos criminais pode ser decidida sob a existência
dessas falsas memórias trazidas à baila por testemunhas.
A implementação das falsas memórias ocorre de duas formas distintas,
espontaneamente ou sugerida. Espontaneamente é quando a pessoa não tem o
objetivo de modificar o fato e sugerida quando por meio de outras circunstâncias,
acaba por distorcer o evento. É necessário não confundir esse fenômeno a mentiras,
pois estas são propositadamente contadas, sabendo-se do seu caráter inverídico.
No processo penal brasileiro, as falsas memórias estão atreladas na
medida em que magistrados, quando da prolatação de decisões ou sentenças criminais
utilizam como forma de fundamentação, os depoimentos orais colhidos de testemunhas
presenciais ou que, por diversas razões possam, em tese, ajudar a elucidação do
delito. A prova testemunhal é, em muitos casos, a única produzida, servindo de base à
acusação e até mesmo para a condenação.
Há muitas decisões baseadas exclusivamente na prova oral, não se
levando em conta a possibilidade de depoimentos falsas ou equivocados. O
magistrado, ao instruir e julgar um processo-crime deve adotar postura equidistante e,
é primordial que analise cautelosamente todo o conjunto probatório constante nos
autos, não se deixando persuadir pelos depoimentos prestados, observando com
atenção todos os questionamentos. É recomendável, pelo princípio da ampla defesa
adotar a prática de depoimento compatível à condição da testemunha, evitando
questionamentos indutivos e de caráter puramente acusatório. Nesse sentido

a indução ou sugestionamento pode acontecer tanto na inquirição das vítimas


e das testemunhas, através de questionamentos com viés eminentemente
acusatório, como também através da mídia, a qual procura sempre fazer do
crime um espetáculo. Lembramos ser a abordagem do tema falsas memórias
focada no depoimento das vítimas e das testemunhas – em que pese haver
indução também em relação ao imputado – pois este, além de poder utilizar o
direito constituição de silêncio, poderá faltar com a verdade (DI GESU, 2010, p.
129).

Além de assegurado o direito ao silêncio, não podendo este ser prejudicial


à sua defesa, ao acusado é assegurado à presunção de inocência, sendo vedada a
antecipação da condenação e seus efeitos, e do in dubio pro reo, assegurando ao
acusado, em caso de dúvida do julgador a sua absolvição. Muitos delitos são
cometidos às escuras, sem testemunhas presenciais, devendo a palavra do ofendido
ser levada em consideração com ressalvas, pois este quer que seu direito seja
assegurado a qualquer custo e havendo o sentimento de impunidade quando alguém
não é culpado pelo delito. Di Gesu assim expressa seu entendimento:
Com efeito, um dos grandes problemas da prova está na
contaminação da reconstrução de fatos passados, principalmente pelo modo
como a prova é colhida. O desvio do escopo do processo, ou seja, a procura
desmedida por uma “verdade real” – impossível de ser novamente retratada no
presente e resquício do sistema inquisitivo -, acaba por influenciar a memória
das pessoas que depõem no processo e até mesmo antes dele (2010, p. 136).

Diante de toda a complexidade da fragilidade da prova testemunhal em


virtude da existência do fenômeno das falsas memórias, não é o objetivo repudiar esse
meio de prova. O que se pretende é buscar meios alternativos que trarão melhor
estrutura à colheita de depoimentos judiciais, a fim de evitar decisões e sentenças com
base exclusivamente nessa prova, buscando um equilíbrio com os demais elementos
probatórios.
É necessário todo um aparato do Poder Judiciário, o qual, com um
esforço coletivo, produza a prova em tempo razoável a evitar contaminações subjetivas
pertinentes à memória. Além disso, os atores processuais, em especial a figura do
julgador, deve estar atento a todas as situações constantes no feito, em especial aos
depoimentos colhidos na instrução, sua relação com o fato e a chance de serem
manipulados e falsos. Novas tecnologias deverão ser fomentadas, em que pese a
necessidade de gravação em áudio e fita eletromagnética dos depoimentos colhidos
tanto na fase policial como na judicial, a fim de serem analisadas com vagar as
possíveis contradições.
Além disso, o modo como o julgador conduz a audiência, os seus
questionamentos, a maneira como faz as perguntas, é um grande fator que enseja a
ocorrência das falsas memórias, haja vista quando se questiona de forma indutiva e
acusatória, se espera ouvir uma determinada resposta. Somado a todos esses fatores
de contaminação, há a ausência dos demais elementos probatórios, tornando a figura
do juiz estático em relação ao processo e fiel aos depoimentos prestados.

Nesse sentido, Gustavo Noronha de Ávila sustenta a


necessidade de pesquisas em campo ou laboratório, quais possam
identificar as possíveis gerações de falsas memórias, não somente aos
depoentes e testemunhas, mas também, ao reconhecimento,
observando a forma a ser utilizada para realizar os procedimentos, bem
como fazendo comparações entre a fase policial e judicial, o que, por
certo, demandará um estudo de longa duração (2012, p. 21).

É necessário – em que pese a complexidade em que está inserido o


assunto, a redução de eventuais danos que possam ser causados aos acusados
condenados com base exclusivamente em depoimentos judiciais. O segundo
fundamental direito constitucional elencado na Constituição, após a vida, é a liberdade,
a qual somente deve ser segregada diante da inexistência de outros meios.
O objetivo é fomentar estudos já iniciados acerca de todo o risco das
contaminações da prova testemunhal, em que pese o sentido de “justo” idealizado
pelos seres humanos ante a sua condição falível de errar e até mesmo criar situações
que não existiram, ante a comprovação feita por pesquisas, que afirmam não ser o
processo mnemônico fiel à realidade. A lembrança não é capaz de reconstruir os fatos
exatamente como ocorreram.
Ensina Di Gesu,

Destarte, a colheita de prova em um prazo razoável, a exploração de outras


teses, diversas da acusatória, a adoção da entrevista cognitiva e do exame
cruzado e a gravação das entrevistas judicias e extrajudiciais contribuiriam
sobremaneira para esse fim. O ideal seria o fomento de novas tecnologias na
produção da prova, aliada a esta uma realidade ainda distante, cumprimos
nosso objetivo de alertar os profissionais do direito sobre a confiabilidade do
testemunho. (2010, p. 17)

Se pretende a implementação de novas tecnologias para que cada vez


menos ocorram injustiças diante de processos judiciais criminais, levando em conta
toda a problemática que envolve uma condenação, sem discutir a atual condição do
sistema penitenciário brasileiro. Cada vez mais, a sociedade deseja exterminar com a
criminalidade, desejando que os marginais sejam deixados à mercê, deixados “longe”,
ou seja, esquecidos dentro de presídios.
O fato de serem seres humanos, em sua maioria, pobres, sem
oportunidades, sem estrutura familiar, não é justificativa para que sejam tolhidos de
seus direitos fundamentais. O Poder Judiciário deve propiciar a todos uma defesa de
alto nível e digna, sem máculas. Não se deve buscar alguém para ser incriminado e,
sim, se deve buscar, realmente, o autor do delito.
No mais, os testemunhos colhidos em juízo devem ser analisados
criteriosamente, a fim de serem evitadas mentiras, compradas por privilégios. Quem
mente em juízo, seja para benefício próprio ou alheio se iguala aos que cometem
delitos de qualquer espécie. Não se busca repudiar a prova testemunhal, porque, em
muitos casos, ela é muito útil ao deslinde de processo criminais, mas sim, utilizá-la
juntamente com todo o conjunto probatório produzindo, propiciando uma justiça justa e
igualitária, pois, em contrapartida, inúmeros processos são julgados com base
unicamente das palavras de testemunhas e das vítimas, aliados em qualquer indício.

8 METODOLOGIA
A pesquisa será realizada a partir de um estudo bibliográfico e documental, tendo
por fontes artigos científicos publicados em revistas e periódicos, obras publicadas,
texto de lei, jurisprudência, entre outros. A abordagem do problema é qualitativa e será
empregado o método dedutivo na interpretação das fontes consultadas.

9 CRONOGRAMA
ATIVIDADES
Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro
Escolha do tema X
Revisão bibliográfica X
Elaboração do pré-
X
projeto de pesquisa
Orientações
X
individuais
Elaboração do
X
Projeto de Pesquisa
Retirada do Projeto
X
de Pesquisa
REFERÊNCIAS

AVENA, Roberto. Processo Penal Esquematizado. São Paulo: Método, 2014.


Disponível em http://pt.slideshare.net/luislovecats/processo-penal-esquematizado-
noberto-avena-2014 Acesso em 10 nov. 2016.

AVENA, Norberto Cláudio Pâncaro. Processo Penal. 4.ed. São Paulo: Método, 2008,
621 p.

ÁVILA, Gustavo Noronha de. Fraturas do Sistema Penal: o sintoma das falsas
memórias na prova testemunhal. 2012. 386f. Tese (Tese de Doutorado em Ciências
Criminais) – Faculdade de Direito, PUCRS. Porto Alegre, 2012.

CAMARGO ARANHA, Adalberto José Q. T de. Da prova no Processo Penal. 7.ed.


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