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As Raízes Norte-Americanas

do Nazismo
Domenico Losurdo
Outubro/Novembro de 2004

Primeira Edição: O original encontra-se em na revista argentina Enfoques


alternativos , nº 27, Out-Nov/2004.
Fonte: Resistir.info
HTML: Fernando Araújo.
Direitos de Reprodução: licenciado sob uma Licença Creative
Commons.

A invasão do Iraque, em Março de 2003, foi acompanhada por


uma curiosa campanha mediática contra os movimentos de oposição
à guerra, acusados então de anti-americanismo. É muito
significativo que neste clima ideológico e político os acusadores não
recordassem o terror exercido pelo Ku Klux Klan em nome do
"americanismo puro", ou do "americanismo cem por cento", face aos
negros e aos brancos que se opunham à supremacia branca. Tão
pouco recordavam a caça às bruxas de McCarthy contra os
defensores de ideias ou sentimentos "não americanos".

Em 1924, Correspondance Internationale (a versão francesa do


órgão da Internacional Comunista) publicava um artigo escrito por
um jovem indochinês imigrante nos Estados Unidos, no qual afirmava
sentir grande admiração pelo desenvolvimento norte-americano, ao
mesmo tempo que se horrorizava com a prática do linchamento de
negros no Sul. Um desses espectáculos de massas é descrito
cruamente nesse texto:

"O negro é cozido, flamejado e queimado, pois deve


morrer duas vezes em lugar de uma só. É depois
enforcado, ou mais exactamente, o que resta do seu
corpo é pendurado... Quando já todos estão
saciados, o cadáver é descido. A corda é então
cortada em pequenos pedaços, cada um dos quais
será vendido por três a cinco dólares". No entanto, a
denúncia do sistema de supremacia branca, não
implicava uma condenação global dos Estados
Unidos: o Ku Klux Klan tinha toda "a brutalidade do
fascismo", mas seria derrotado, não só pelos negros,
judeus e católicos (todos vítimas em diferentes
graus), como por "todos os americanos decentes".(1)

Um Maravilhoso País do Futuro

Foi um indochinês que comparou o Ku Klux Klan com o fascismo,


mas as semelhanças de ambos os movimentos eram também
evidentes para os autores norte-americanos da época. Os homens
vestidos de branco do Sul dos Estados Unidos eram frequentemente
comparados aos camisas negras italianos e aos camisas
castanhas alemães. Após assinalar as semelhanças entre o Ku Klux
Klan e o movimento nazi, um académico norte-americano da época
chegava à seguinte conclusão:

"Se a Depressão não tivesse atingido a Alemanha


tão duramente, o nacional-socialismo poderia ser
hoje considerado como o é às vezes o Klan: uma
curiosidade histórica predestinada ao fracasso".(2)

Por outras palavras, o que explica, tanto o fracasso do Ku Klux


Klan nos Estados Unidos, como o ascenso do Terceiro Reich na
Alemanha, mais que as distâncias na história ideológica e política, são
os diferentes contextos económicos. Mas deve também ser
considerado o importante papel desempenhado pelos movimentos
reaccionários e racistas norte-americanos como inspiradores da
agitação que conduziu Hitler ao poder na Alemanha.

Já nos anos vinte se tinham constituído as relações, o


intercâmbio e a colaboração entre o Ku Klux Klan e a extrema direita
alemã, para promover o racismo contra judeus, negros e outras
pessoas não brancas. Em 1937, o ideólogo nazi Alfred
Rosenberg exaltava os Estados Unidos como um "maravilhoso país do
futuro", que detinha o mérito de ter formulado a brilhante "ideia de
um Estado racial", uma ideia que devia ser posta em prática, "com
um poder jovem" através da expulsão e deportação de "negros e
amarelos".(3) Basta analisar as leis publicadas imediatamente após a
chegada dos nazis ao poder para comprovar as semelhanças com a
situação que então se vivia no sul dos Estados Unidos. A posição dos
alemães de origem judia na Alemanha correspondia obviamente à
dos afro-norte-americanos no sul estadunidense. Hitler distinguia
claramente, inclusive no âmbito jurídico, a posição dos arianos
relativamente aos judeus e aos poucos mulatos que viviam na
Alemanha.
"A questão negra", escrevia Rosenberg, "é o mais
urgente de todos os assuntos decisivos nos Estados
Unidos"; e uma vez que a noção de igualdade
deixava de ser aplicada aos negros, também deixava
de haver motivo para que não se extraíssem "as
consequências necessárias para amarelos e
judeus". (4)

Nada disto pode surpreender. Desde que o fundamento do


projecto nazi era a construção de um Estado racial, que outro modelo
possível existia nessa época? Rosenberg mencionava a África do Sul,
que devia permanecer solidamente em "mãos nórdicas e brancas", e
servia como um "sólido baluarte" diante da ameaça representada pelo
"despertar negro". Sem dúvida que, até certo ponto, Rosenberg sabia
que a política segregacionista sul-africana era amplamente inspirada
pelo sistema de supremacia branca surgido nos Estados Unidos.

Por outro lado, o objectivo de Hitler não consistia num


expansionismo colonial tradicional, mas sim num império continental
criado com a anexação e germanização de territórios vizinhos do
Leste. A Alemanha era chamada a expandir-se para a Europa de
Leste como se se tratasse do longínquo Oeste americano, tratando os
"nativos" da mesma forma que os índios norte-americanos tinham
sido tratados, sem perder de vista o modelo estadunidense, que o
Führer exaltava pela sua "força interior sem
precedentes". Imediatamente após a invasão, Hitler procedeu ao
(5)

desmembramento da Polónia: uma parte, da qual foram expulsos os


polacos, foi directamente incorporada no Grande Reich; o resto foi
transformado em "Governo Geral" dentro do qual os polacos viviam
"numa espécie de reserva", como declara o Governador Geral Hans
Frank,(6) o modelo norte-americano de liquidação da população
originária foi seguido quase literalmente.

O Estado Racial na Alemanha e nos Estados Unidos

O modelo norte-americano deixou uma profunda marca inclusive


no âmbito das categorias e linguístico. O termo Untermensch (sub-
homem), que desempenhou um papel tão central como destruidor na
teoria e prática do Terceiro Reich, não era mais que uma tradução
de Under Man. O nazi Rosenberg estava bem consciente desse facto e
expressou a sua admiração pelo autor americano Lothrop Stoddard,
inventor do termo, que aparece como subtítulo — The Menace of the
Under Man (A ameaça do sub-homem) de um livro publicado pela
primeira vez em Nova York em 1922 e traduzido para o alemão (Die
Drohung das Untermenschen) três anos mais tarde. Relativamente ao
seu significado, Stoddard afirmava que servia para designar a massa
de "selvagens e bárbaros essencialmente incivilizáveis e
incorrigivelmente hostis à civilização", que deviam ser tratados de
modo radical para evitar o colapso desta. Já antes de ser elogiado
por Rosenberg, Stoddard havia sido recomendado por dois
presidentes norte-americanos (Harding y Hoover). Mais tarde foi
recebido com honrarias em Berlim, onde se avistou com as mais altas
autoridades do regime, incluindo Hitler, que já havia começado a sua
campanha para dizimar e dominar os Untermenschen, os "nativos" da
Europa de Leste.

Nos Estados Unidos da supremacia branca, assim como na


Alemanha em poder do movimento nazi, o programa para
restabelecer a hierarquia racial estava estreitamente vinculado a
projectos de incentivo aos melhores para que procriassem, evitando
assim o risco de "suicídio racial" (Rassenselbstmord) que pesava
supostamente sobre os brancos. Em 1918 Oswald Spengler dava
a voz de alarme, citando o presidente estadunidense Theodore
Roosevelt.(7) Decerto que a advertência de Roosevelt contra o
espectro do "suicídio racial" ou a "humilhação racial" era
acompanhada pela denúncia da "diminuição da taxa de nascimentos
nas raças superiores", ou seja, "o antigo stock de norte-americanos
nativos" ou seja os WASP (Brancos Anglo-saxões e Protestantes).
Também aqui as descobertas da investigação histórica são
surpreendentes. Erbgesundheitslehre (educação para a saúde
hereditária) ou Rassenhygiene (higiene racial), outra palavra-chave
da ideologia nazi, não são mais que as traduções para alemão do
termo eugenics (eugenia) a nova ciência consagrada ao
aperfeiçoamento racial, inventada em Inglaterra durante a segunda
metade do século XIX por Francis Galton. Não é por acaso que esta
nova ciência foi recebida tão favoravelmente nos Estados Unidos. Em
vésperas da Primeira Guerra Mundial, muito antes da chegada
de Hitler ao poder, publicou-se em Munique um livro intitulado Die
Rassenhygiene in den Vereinigten Staaten von Nordamerika (A
higiene racial nos Estados Unidos da América do Norte), que no
próprio título assinala já os Estados Unidos como um modelo de
"higiene racial". O autor, Géza von Hoffmann, vice-cônsul do lmpério
Austro-Húngaro em Chicago, exaltava a América do Norte peIa
"lucidez" e "pura razão prática" demonstrada, ao afrontar com
a energia necessária, um problema muito importante
frequentemente ignorado: nos Estados Unidos violar as leis que
proíbem as relações sexuais e o matrimónio inter-racial podia ser
punido com dez anos de prisão. Não só podiam ser perseguidos e
condenados os responsáveis por esses actos como também os seus
cúmplices.(8) Já depois do acesso dos nazis ao poder, os ideólogos e
"cientistas" da raça continuavam insistindo:

"A Alemanha tem muito que aprender com as


medidas adoptadas pelos norte-americanos: eles
fazem o que deve ser feito".(9)

Merece destaque o facto de ter aparecido nos Estados Unidos,


muito antes do que na Alemanha, a noção de "solução final" a
respeito da questão negra num livro publicado em Boston em
1913,(10) levada mais tarde a cabo pelos nazis, empregando o mesmo
termo (Endlösung) para resolver a "questão judaica".

O Nazismo como Projecto Mundial de Supremacia


Branca

No decurso da sua história, os Estados Unidos tiveram de


enfrentar directamente os problemas resultantes do contacto entre
diferentes "raças" e o afluxo de numerosos imigrantes procedentes de
todo o mundo. Por outro lado, o violento movimento racista, que aí
surgiu no final do século XIX, constituiu uma resposta à Guerra Civil e
ao período de reconstrução que se lhe seguiu.

Durante os séculos XIX e XX, o Ku Klux Klan e os teóricos da


"supremacia branca" acusavam os Estados Unidos posteriores à
escravatura (com a sua maciça entrada de imigrantes procedentes
dos países europeus menos desenvolvidos e do Oriente) de ser uma
"civilização mestiça" ou um "gentio de cloaca". De forma
análoga, Hitler descrevia no Mein Kampf a sua Áustria natal como um
caótico "conglomerado de povos", uma "Babilónia de gente", um
"reino babilónico" dilacerado pelo "conflito racial". Segundo Hitler,
a catástrofe era iminente na Áustria: a "eslavização" e a
"desaparição do elemento germânico" progrediam, e o ocaso da raça
superior que tinha colonizado e civilizado o Oriente estava próximo. A
Alemanha, para onde Hitler (que era austríaco) foi viver, havia
presenciado uma convulsão sem precedentes desde o final da
Primeira Guerra Mundial, uma comoção comparável à que percorreu o
Sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil. Segundo a visão
racista, mais grave ainda que a perda das suas colónias, era que a
Alemanha se via obrigada a suportar a ocupação militar de tropas
multirraciais das potências vencedoras e que parecia ter sido
transformada numa "misturada racial". Este fantasma da proximidade
do fim da civilização era reforçado pelo surgimento da Revolução de
Outubro, apelando à rebelião dos povos colonizados. Esta revolução
estalou e afirmou-se numa área habitada por povos tradicionalmente
considerados à margem da civilização. Assim como os partidários da
abolição da escravatura foram assinalados no sul dos Estados Unidos
como "amantes dos negros" e traidores à sua própria raça, os social-
democratas e especialmente os comunistas eram considerados
por Hitler como traidores à raça germânica e ocidental. Em suma, o
Terceiro Reich apresentava-se como uma tentativa para impedir, sob
condições de guerra total e de guerra civil internacional, o suposto
fim da civilização, o suicídio do Ocidente e da raça
superior criando um regime de supremacia branca à escala mundial
e sob hegemonia alemã.

De Ford a Hitler

Alguém se lembra do elogio do Ku Klux Klan ao "genuíno


americanismo de Henry Ford"? Amplamente admirado, o magnata
automobilístico condenava a Revolução Bolchevique acusando-a de
ser, em primeiro lugar, o produto de uma conspiração judaica.
Fundou até uma revista, o Oearborn Independent, cujos artigos
publicados foram reunidos em 1920 num único volume intitulado O
Judeu Internacional. O livro transformou-se imediatamente numa
referência básica do anti-semitismo internacional, foi traduzido para
alemão e adquiriu grande popularidade. Nazis destacados, como Von
Schirach e mesmo Himmler vieram mais tarde a reconhecer terem
sido inspirados ou motivados por Ford. Segundo Himmler, o livro de
Ford desempenhou um papel "decisivo" (ausschlaggebend) não só na
sua formação pessoal, como também na do Führer.

Também aqui se evidencia o carácter inconsistente de qualquer


comparação esquemática entre a Europa e os Estados Unidos, como
se a praga do anti-semitismo não afectasse ambos. Em
1933 Spengler considerava necessário esclarecer este ponto: a fobia
anti-judaica que confessava abertamente, não devia confundir-se
com o racismo "materialista" típico "dos anti-semitas na Europa e na
América".(11) O anti-semitismo biológico que se agitava
impetuosamente no outro lado do Atlântico era considerado excessivo
mesmo por um autor como Spengler, que se expressava sem
qualquer pudor nos seus escritos, contra a cultura e a história
judaicas. Por esta razão, entre outras, Spengler foi considerado
tímido e inconsequente pelos nazis, cujas preferências se situavam
noutro lado: O Judeu Internacional continuou a ser publicado com
todas as vénias no Terceiro Reich, e com editoriais que enfatizavam o
singular mérito histórico do seu autor (por haver trazido à luz a
"questão judaica"), estabelecendo uma linha de continuidade entre
Henry Ford e Adolfo Hitler.
O Ocidente e a "Democracia do Povo Dominante"

É oportuno destacar o paradoxo que caracterizou os Estados


Unidos desde a sua fundação, sintetizada no século XVIII pelo
escritor britânico Samuel Jonson:

"Como poderemos suportar os estridentes gritos de


liberdade dos proprietários de escravos?"(12)

A democracia desenvolveu-se na América do Norte no seio da


comunidade branca simultaneamente com a escravização dos negros
e a deportação dos índios. Em 22 dos primeiros 36 anos como nação
independente, a presidência esteve nas mãos de proprietários de
escravos. Também eram proprietários de escravos os que redigiram a
Declaração de Independência e a Constituição. Sem escravatura
(mais a correspondente segregação racial) não se pode entender a
"liberdade americana": as duas estavam vinculadas, sustentando-se
uma à outra. Enquanto a escravatura assegurava o firme controlo
sobre as classes "perigosas" no âmbito da produção, a expansão para
o Oeste servia para desactivar o conflito social, transformando o
proletariado potencial numa classe de proprietários agrícolas, ainda
que a expensas dos povos originários, que seriam expulsos ou
aniquilados.

Depois da Guerra da Independência, a democracia norte-


americana experimenta novos desenvolvimentos durante a
presidência de Jackson na década de 1830: a extensão do sufrágio e
a eliminação, em grande parte, das restrições relacionadas com a
propriedade na comunidade branca, eram concomitantes com a
rigorosa deportação dos índios norte-americanos e com o crescente
ressentimento e violência contra os negros. O mesmo se pode dizer
do período compreendido entre o final do século XIX e a metade da
segunda década do século XX, onde se combinaram reformas como a
instauração da eleição directa dos membros do Senado, o voto
secreto, a introdução de eleições primárias e de instituições de
referendo, etc". com factos sobremaneira trágicos para a população
negra (alvo dos esquadrões do terror do Ku Klux Klan) e a expulsão
dos índios norte-americanos dos seus últimos territórios e a sua
submissão a uma brutal aculturação, com a intenção de os despojar
inclusive da sua identidade cultural.

Relativamente a este paradoxo, numerosos intelectuais norte-


americanos se referiram a uma Herrenvolk democracy, ou seja uma
democracia apenas para "Senhores" (para usar uma expressão do
tipo das que Hitler apreciava).
Na realidade, a categoria "democracia do povo dominante" pode
ser útil para explicar a história do Ocidente como um todo. Desde o
final do século XIX e nos princípios do século XX, a extensão do
sufrágio na Europa marcha a par com a colonização e a imposição de
relações laborais de servidão e semi-servidão aos povos submetidos.
O governo democrático na Europa estava fortemente entrelaçado com
o poder da burocracia e com a violência policial, e o estado de sítio
nas colónias. Em última análise, trata-se do mesmo fenómeno que
ocorrida nos Estados Unidos, com a diferença que na Europa era
menos evidente porque os povos colonizados viviam do outro lado do
oceano.

Missão Imperial e Fundamentalismo Cristão

Em 1899, a revista Christian Oracle explicava assim a decisão de


mudar o seu título para Christian Century:

"Cremos que o próximo século será testemunha de


triunfos do cristianismo jamais vistos, e que será
mais verdadeiramente cristão que qualquer dos
precedentes".

Mais adiante o presidente McKinley explicava que a decisão de


anexar as Filipinas procedia da inspiração do "Todo poderoso" que,
depois de escutar as incessantes preces do presidente, numa noite de
insónia, o tinha por fim, libertado de toda a dúvida e indecisão. Não
teria sido adequado deixar a colónia nas mãos da Espanha, ou
entregá-la "à França ou à Alemanha, nossos rivais no comércio do
Oriente". Nem, peIa mesma razão, teria sido correcto deixar as
Filipinas aos próprios filipinos, que eram "incapazes de se
autogovernar", o que teria Ievado o país a um estado de "anarquia e
desgoverno" ainda pior que o resultante da dominação espanhola:

"Não temos outra alternativa senão tomarmos tudo


a nosso cargo, e educar os filipinos, civilizá-los e
cristianizá-los, e, peia graça de Deus, fazer o mais
que pudermos por eles, como companheiros nossos
por quem Cristo também morreu. Voltei então para
a cama e dormi profundamente".(13)

Hoje conhecemos os horrores perpetrados durante a repressão do


movimento independentista nas Filipinas: a guerrilha desenvolvida
pelos filipinos foi enfrentada com a destruição sistemática de campos
e gados, pelo confinamento maciço da população em campos de
concentração, onde pereciam vítimas da fome e da doença, e
inclusive em alguns casos, do assassinato de todos os varões maiores
de dez anos.

Sem dúvida que, apesar das dimensões dos "danos colaterais", a


marcha da ideologia imperial-religiosa da guerra se reactivou
triunfalmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando o
presidente Wilson a eIa se referia como se se tratasse de uma
cruzada real, de uma "guerra santa, a mais sagrada em toda a
história", destinada a impor a democracia e os valores cristãos em
todo o mundo.

A mesma plataforma ideológica foi aplicada a outros conflitos no


século XX, sendo a Guerra Fria particularmente exemplar neste
aspecto. John Foster Dulles, era definido por Churchill como "um
severo puritano". Dulles orgulhava-se de que "ninguém no
Departamento de Estado conhece a Bíblia como eu". O seu fervor
religioso não era de modo nenhum um assunto privado:

"Estou convencido que aqui temos a necessidade de


fazer que os nossos pensamentos e práticas políticas
reflictam com a maior fidelidade a convicção
religiosa de que o homem tem a sua origem e
destino em Deus".(14)

A esta fé, associavam-se outras categorias teológicas


fundamentais na luta política internacional: os países neutrais que
recusavam tomar parte na cruzada contra a União Soviética estavam
em "pecado", enquanto que os Estados Unidos, à cabeça dessa
cruzada, representavam o "povo moral" por definição.

Em 1983, Ronald Reagan, quando a Guerra Fria atingia o seu


clímax, apontou a necessidade de derrotar o inimigo ateu (a URSS),
com claros acentos teológicos:

"Há no mundo pecado e maldade, e as Escrituras e


Jesus nosso senhor ordenaram-nos que nos
oponhamos a isso com todo o nosso poder".(15)

Alinhando-se com esta tradição e radicalizando-a ainda mais,


George W. Bush conduziu a sua campanha eleitoral sob um autêntico
dogma:

"A nossa nação é a eleita de Deus e foi escolhida


pela História como um modelo de justiça para o
mundo".
A história dos Estados Unidos está marcada peIa tendência a
transformar a tradição judaico-cristã numa espécie de religião
nacional que consagra o excepcionalismo do povo norte-americano
e a missão sagrada que lhe foi confiada. Não é este entrelaçamento
de religião e política sinónimo de fundamentalismo? Não foi por acaso
que o termo fundamentalismo foi utilizado pela primeira vez no
âmbito do protestantismo norte-americano.

Certamente que qualquer administração norte-americana terá os


seus hipócritas, os seus intriguistas e os seus cínicos; mas não há
motivos para duvidar da sinceridade de Wilson ou, actualmente, de
Bush Jr. Não devemos esquecer o facto de que os Estados Unidos não
são uma verdadeira sociedade secular, a arraigada convicção de
representar uma causa sagrada e divina facilita não só a constituição
de uma frente unida em tempos de crise, mas também a repressão e
banalização das páginas mais obscuras da história estadunidense.
Durante a Guerra Fria, Washington patrocinou sangrentos golpes de
Estado na América Latina e colocou no poder brutais ditadores
militares; em 1965, promoveu na Indonésia o massacre de centenas
de milhares de comunistas ou seus simpatizantes. No entanto, por
mais desagradáveis que possam ser, esses detalhes não alteram a
santidade da causa personificada pelo "Império do Bem".

Max Weber costumava referir-se à "moralina" (farisaísmo) norte-


americana. "Moralina" não significa mentira, nem hipocrisia
consciente. É tão só a hipocrisia dos que são capazes de mentir a si
mesmos, o que se assemelha à falsa consciência assinalada
por Engels. De todo o modo, não é fácil compreender totalmente essa
mescla de fervor religioso e moral, por um lado, e a clara e aberta
tentativa de domínio político, económico e militar do mundo, por
outra. É sem dúvida, esta amálgama (combinação explosiva), este
peculiar fundamentalismo, que constitui actualmente a grande
ameaça à paz mundial. O fundamentalismo norte-americano intoxica
um país que, designado e autorizado por Deus, considera
irrelevantes a ordem internacional actual e as regras humanitárias. É
neste quadro que devemos situar a deslegitimação das Nações
Unidas, o desprezo peIa Convenção de Genebra, e as ameaças
proferidas não só contra os seus inimigos, como também contra os
seus "aliados" na OTAN.

O Despotismo Imperial

Além de combater o "mal" e defender os valores cristãos e norte-


americanos, a guerra contra o Iraque (não contando com outras
guerras em perspectiva) pretende expandir a democracia por todo o
mundo. Retomemos por um momento o jovem indochinês que em
1924 denunciava o linchamento de negros. Mais tarde regressou ao
seu país e aí adoptou o nome pelo qual seria mundialmente
conhecido: Ho Chi Minh. Durante os incessantes bombardeamentos
norte-americanos no Vietnam, terá o dirigente vietnamita recordado
os horrores perpetrados contra os negros pelos defensores da
supremacia branca? Por outras palavras, a emancipação dos afro-
norte-americanos e sua conquista dos direitos civis marcaram
realmente uma mudança, ou continuam os Estados Unidos a ser
uma Herrenvolk democracy, uma democracia de "Senhores", com a
diferença de que agora os excluídos já não são os que estão dentro
da mãe pátria, mas antes os que estão fora, como aconteceu no caso
da "democracia" europeia?

Podemos examinar a questão numa perspectiva diferente,


considerando a reflexão de Kant:

"Oue é um monarca absoluto? É aquele que quando


decide que deve haver guerra, há guerra". Kant não
se referia aos Estados do Antigo Regime, mas sim à
Inglaterra, no limiar do seu século de
desenvolvimento liberal. (16)

De acordo com a posição kantiana, o actual presidente dos


Estados Unidos deveria ser considerado um déspota por dois motivos.
Primeiro, devido ao surgimento, na última década, de uma
"presidência imperial" que, quando embarca em acções militares, as
apresenta frequentemente ao Congresso como um facto
consumado. Mas estamos ainda mais interessados no segundo
aspecto: é a Casa Branca que soberanamente determina quando as
resoluções das Nações Unidas são vinculativas ou não; é a Casa
Branca que soberanamente decide que países são "Estados
delinquentes" e se é legal submete-los a embargos que irão causar o
sofrimento de toda uma população, ou ao fogo infernal de bombas de
fragmentação ou de urânio empobrecido. A Casa Branca decide
soberanamente a ocupação militar desses países, pelo tempo que
considerar necessário, condenando os seus dirigentes e os seus
"cúmplices" a prolongadas penas de prisão. Contra estes e contra os
"terroristas", chega a ser legitimado o "assassinato selectivo", ou
melhor, um assassinato que é tudo menos selectivo, como o
bombardeamento de um restaurante porque se pensava que Saddam
Hussein podia estar lá. As garantias legais não se aplicam de todo aos
"bárbaros" .
A tudo isto se junta a crescente intolerância que Washington
manifesta para com os seus "aliados" ocidentais. Também a eles
exige que sigam com humildade a vontade da nação eleita por Deus,
cujo presidente se comporta como se fosse um soberano mundial,
sem o controle de qualquer organismo internacional.

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Notas de rodapé:

(1) Wade, Wyn Craig. 1997. The Rery Cross: The Ku Klux Klan in America. New
York and Oxford: Oxford University Press. (retornar ao texto)

(2) MacLean, Nancy. 1994. Behind the Mask 01 Chivalry: The Making of the Second
Ku Klux Klan. New York and Oxford: Oxford University Press. (retornar ao texto)

(3) Rosenberg, Alfred. 1937. Der Mythus des 20. Jahrhunderts. Munich:
Hoheneichen. Publicado pela primeira vez em 1930. (retornar ao texto)

(4) lbid. (retornar ao texto)

(5) Hitler, Adolf. 1939. Mein Kampf. Munich: Zentralverlag der NSDAP. Publicado
pela primeira vez em 1925. (retornar ao texto)

(6) Ruge, Wolfgang, and Wolfgang Schumann (eds.).


1977. Dokumentezurdeutschen Geschichte. 1939-1942. Frankfurt a. M.: Radelberg.
(retornar ao texto)

(7) Spengler, Oswald. 1933. Jahre der Entsche idung. Munich: Beck. 1980. Der
Untergang des Abendlandes. Munich: Beck. Original 1918-23. (retornar ao texto)

(8) Hoffrnann, Géza voo. 1913. Die Rassenhygiene in den Vel'9inigt9n Staaten von
Nordamerika. Munich: Lehmanns. (retornar ao texto)

(9) Günther, Hans S. R. 1934. Rassenkunde des deutschen Volkes. Munich:


Lehmanns. Publicado pela primeira vez em 1922. (retornar ao texto)

(10) Fredrickson, George M. J. The Black Image in the White Mind: The Debate on
Afro-American Character and Destiny, 1817-1914. Hanover, N.H.: Wesleyan
University Press. Publicado pela primeira vez em 1971. (retornar ao texto)

(11) Spengler, op.cit. (retornar ao texto)

(12) Foner, Erich. 1998. The History of American Freedom. London: Picador.
(retornar ao texto)

(13) McAllister Uno, Brian. 1989. The U. S. Army and Counterinsurgency in the
Philippine War, 1899-1902. Chapel HiII and London: University of North Carolina
Press. (retornar ao texto)
(14) Kissinger, Henry. 1994. Diplomacy. New York: Simon and Schuster. (retornar
ao texto)

(15) Draper, Theodore. 1994. "Mission Impossible". New York Review of Books (6
October). (retornar ao texto)

(16) Kant, Immanuel. 1900. "Der Streit der Fakultaten". In Gesammelte


Schriften. vai. 7. Berlin and Leipzig: Akademie-Ausgabe. Publicado pela primeira
vez em 1798. (retornar ao texto)

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