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I e n e f a y r i e n

s a n s

G a y e t é

(Moníaigne, Des livres)

E x L i b r i s

J o s é M i n d l i n
\
I
V E R S O S
W E N C E S L A U D E Q U E I R O Z

E R S O

1 8 8 4 — 1 8 8 8

S. P A U L O

T E I X E I R A dr» I R M Ã O — E D I T O R E S

0 5 , R U A D E S. B E N T O , G5

189O
I

Typographia da Empreza Litteraria e Typographica

178, Rua de D. Pedro, 184 —Porto

4''

1
( 3 ?f m
h t u n n ai m u m e i

A d e l a i d e d e Q u e i r o z

A ti, ó bva e rara e fiel amiga,

A mais saitta e a melhor das companheiras

•6.
G O N Ç A L V E S CRESPO.
A G A R Ç A E X I L A D A

(A J O Ã O D E A R A Ú J O )

D e azas cortadas, sobre u m tarso erguida,

A nivea g a r ç a , triste c o m o u m pária,

Contemplativa, i m m o v e l , solitária,

S o n h a r parece n u m a extincta v i d a . . .

C o m o u m rei e x i l a d o , — e n t o r p e c i d a ,

R e v ê talvez a p á t r i a imaginaria,

— lndifTerente á alegre, á m u n d a n a r i a

T u r b a que passa na aflanosa lida.


8

J u n t o do lago assim os dias l e v a ;

E á noite, q u a n d o e m l u m i n o s a s m a g o a s

A l u a envolve a terra e ao c é o se eleva,

Géme a garça ao luar frouxo e dormente,

E m a i s e m a i s alonga-se nas á g u a s

A sua i m a g e m b r a n c a e transparente.

G E L O P O L A R

(A E U G Ê N I O L E O N E L )

R o l e do t e m p o na l i m o s a p e n h a

U m a n n o mais, e v e n h a m a i s u m anno,

Role este ainda, e m a i s u m o u t r o v e n h a . . .

Que importa! si no seio teu não medra

Desengano n e n h u m , n e n h u m engano,

Pois q u e elle a b r i g a u m c o r a ç ã o de pedra.


IO

A i n d i f f e r e n ç a é tanta, é tanta a neve

Q u e no teu seio algido se acama,

D o teu a m o r é t ã o gelada a c h a m m a ,

Que a amar-te, estatua, j á n i n g u é m se a t r e v e . . *

E si eu te desse o meu amor, em breve

Sei que se tornaria, altiva d a m a ,

O m e u a m o r , a m i n h a ardente c h a m m a ,

— U m urso branco u i v a n d o sobre a n e v e . . .


A C L A R E I R A

(A H E R C U L A N O D E F R E I T A S )

N a areia b r a n c a u m a d o u r a d a esteira

De sol se extende, e, nitida, f u l g u r a :

De trecho e m trecho vê-se a passageira

S o m b r a de u m a ave atravessando a a l t u r a . . .

Na orla da selva abobadada, escura,

D a s phalenas a t r i b u forasteira

Bailando assoma, e a fulva luz p r o c u r a ,

E s p a n e j a n d o as azas na clareira.
I 2

Das arvores na copa f r o n d e j a n t e

N e m u m r u m o r ! n e m u m r u m o r distante,

Vago, indeciso, n a e n t u f a d a relva.

Súbito salta um cervo da folhagem,

E da clareira na veloz p a s s a g e m

V a e de outro lado d e m a n d a n d o a s e l v a . . .

/
E D E L - W E I S S

- ( A O L A V O B I L A C )

N a c i m e i r a dos Alpes, d'entre o gelo

Eterno, d'entre os alcantis fragosos,

— N i n h o s das á g u i a s , dos falcões gulosos,

D o vento expostos ao b r u t a l flagello,

— N i v e o , a g o m a n d o os s é p a l o s m i m o s o s ,

Nasce o eclel-weiss,— o s y m b o l o singelo

D o a m o r , q u e vao buscar, cheios de zelo,

N a A l l e m a n h a , os a m a n t e s venturosos.
D e u m m o ç o c o n t a m q u e p e r d e r a a v i d a

B u s c a n d o aquella flòr, entre os fraguedos,

P a r a offertal-a á noiva e s t r e m e c i d a :

Achado morto n'uma esconsa cava,

A flòr de neve, livido, entre os dedos

Segura, c o m o u m t a l i s m a n , b e i j a v a . . .
A F R A G A T A

^tf-l' jÉt.: ...

(A FLAVIO DE QUEIROZ)

A v e do largo m a r , as azas distendendo,

A s azas t r i u m p h a e s de e n o r m e envergadura,

Remonta-se a fragata a u m a gloriosa altura,

O f l a m m e j a n t e azul dos t r ó p i c o s f e n d e n d o . . .

XJrrante o m a r estoure os v a g a l h õ e s no h o r r e n d o

C h o q u e do t e m p o r a l , — s o b e i n d a mais, procura,

E m c i m a , a doce paz de u m a r e g i ã o m a i s p u r a ,

A u m a r e g i ã o m a i s pura, altivola, a s c e n d e n d o . . .
i6

D o continente velho ao n o v o continente,

V i a j a a fragata, só, i n i p e r t u r b a v e l m e n t e ,

C r u z a n d o s e m p r e o m a r na eterna parallela.

—Na paz do lar, assim, a alma do poeta *vôa,

V ò a t ã o alto, e p a i r a , — o l h a , t r a n q u i l l a e boa,

• A v i d a —este oceano, a lucta — e s t a procella.


C A R I C I A S D E U M

P a r e ç a ao m u n d o u m desatino estulto

Isto; m a s n'esse olhar, querida, eu leio,

C o m o n u m livro, o s e n t i m e n t o occulto

Q u e a v a r a m e n t e escondes no teu seio.


4

Phrase por phrase, lettra a lettra, em meio

Dessas retinas, m e u porvir consulto;

E e m t u d o vejo, n u m crescente anceio,

A i l l u m i n u r a sacra do teu v u l t o . . .
i8

Que n u m olhar m o r n a s volupias v e j a m

Outros, que eu vejo nesse olhar a t r o p a

A z u l dos sonhos que outra vez m e b e i j a m .

Olha-me, pois, assim, d a m a querida,

Que novos ideaes m i n h ' a l m a topa

N o teu olhar de a n t í l o p e f e r i d a . . .
A L M A N E G R A

A r r a n c a - m e de vez, V e r d a d e a m a r g a ,

Esta tristeza d ' a ç o que m e o p p r i m e ,

T i r a - m e o t e m p o c o m o d u r a carga

D a v i d a m i n h a débil c o m o u m vime.

Acobardo-me ao ver o infesto crime

D a innocencia q u e b r a n d o a rija adarga,

N ã o lava o s a n g u e a honra, n ã o r e d i m e

A injuria o insulto nesta v i d a larga.


20

E m t u d o encontro o e s f o r ç o de u m a l u t a ,

L u t a incessante e cega c o m o a sorte

Que a H u m a n i d a d e n e m siquer escuta.

Eis-me a teus pés, do alfange afia o córte,

G o m o u m p e d a ç o de m a t é r i a b r u t a ,

A o n a d a atira-me este corpo, o h M o r t e !


L O U R A

É loura. O seio e m flor, t u m i d o , a p e n a s

A seda f r o u x a do r o u p ã o lhe e s t i r a . . .

L a n g u i d o o olhar, as f o r m a s t ã o serenas

Que a gente, ao vêl-as, timido, suspira.

Ai! no mundo, confesso, nunca eu vira

U m t ã o f o r m o s o par de m ã o s p e q u e n a s :

E u sei a t é de u m b a r d o q u e na lyra

C o m p a r o u - a s a d u a s a ç u c e n a s .
F a z - m e b e m q u a n d o a vejo, ao fim do

Á j a n e l l a , — o cabello farto e louro

Atravessado de u m a flecha de ouro,

A olhar, t ã o cheia de melancholia,

A l é m , da serra azul na g r i m p a nua,

A virginal a p p a r i ç ã o da l u a . . .
P O R T A S E M G O N Z O S

(A A R T H U R A Z E V E D O )

€ o l l a d a a bocca ao m á r m o r e , dizia

U m d o u d o a m a n t e á sua a m a n t e m o r t a :

« E r g u e - t e e v e m » e livido batia

A l l u c i n a d a m e n t e á q u e l l a porta.

«E ella não vem,—o doudo repetia,—

« E a noite é n e g r a e g é l i d a . . . Que i m p o r t a !

« H e i de esperal-a a t é r o m p e r o dia,

« D e joelhos sobre esta funerea p o r t a . »


24

D o u d o ! M a s desse d o u d o n ã o z o m b e m o s ;

Que, se o pezar no c o r a ç ã o se e m brusca,

H a m u i t a s portas a q u e n ó s b a t e m o s ;

Portas sem gonzos sobre céos trancadas,

A q u e b a t e m o s d o u d a m e n t e e m busca

De uns restos de illusões m u m i f l c a d a s !


C O L U M B A

N a azul esphera dos m e u s sonhos, antes

Que distendesses, p o m b a l u m i n o s a ,

A e n v e r g u r a das azas t r i u m p h a n t e s ,

De p l u m a s cor de rosa;

Dos m e u s ideaes a m u l t i d ã o m e d r o s a

Errava, á toa, e m círculos distantes,

B e m c o m o , á tarde, n a e s t a ç ã o calmosa,

A n d o r i n h a s e r r a n t e s . . .
E m plena luz, p o r é m , naquella esphera,

O n d e u m a eterna p r i m a v e r a brilha

D e c h y m é r a e m e h y m é r a ,

Dos meus ideaes o festivoso bando

E m p o z teu v ô o , p o m b a , (oh! m a r a v i l h a ! )

H o j e passa c a n t a n d o . . .
C O R A Ç Ã O D E U M E S T O I C O

(A H Y P P O L T T O D A S I L V A )

D i a e noite, h o r a a hora, e m a n c i ã e x t r e m a ,

I n d a g o , estudo e sondo,

A i n d a q u e a r a z ã o vacille e t r e m a ,

Este b a r a t h r o h e d i o n d o .

Que ninguém saiba! nelle a dor suprema

B a r b a r a m e n t e escondo;

E si u m dia eu quebrar-lhe a f é r r e a algema,

N ã o se o u v i r á o estrondo.
28

D e treva tanta encheu-m'o a l g u é m no m u n d o ,

Que, ao perscrutal-o, o teu olhar p r o f u n d o

N ã o b a s t a . . . a i n d a é p o u c o . . .

E creio até que nunca achastes, sábios,

N e n h u m a cousa igual, nos alfarrábios,

A este m ú s c u l o ò c o .
V I O L I N O M Á G I C O

(A A S S I S P A C H E C O )

Escutae-o e vereis t u d o q u e escuto e vejo:

A s y m p h o n i a irial do p r o l o n g a d o beijo

Q u e a luz canta nos c é o s a m p l í s s i m o s , apenas

R o m p e o sol, c o m o o sol de á u r e a s m a n h ã s hellenas;

As p o m p a s fulguraes dos astros,—cofre de ouro

O n d e n u m f u n d o a z u l derrama-se u m thesouro

D e g e m m a s , de r u b i n s , de prazios, de esmeraldas,

— P e d r a r i a engastada e m jóias e e m grinaldas;


As rosas a cantar,—boccas febris de a m a n t e s , —

D a viva e r u b r a c ô r os «allegros» brilhantes;

N a s almas infantis a m u s i c a dos sonhos,

Do porvir d e s e n h a n d o os p a i n é i s mais risonhos;

Os m u n d o s ideaes e m que t u d o t e m azas,

E m que tudo, a t r a v é s de transparentes gazas,

Passa, visão de l u z ! passa nos c é o s p r o f u n d o s ,

Por entre o vortilhão de milhares de m u n d o s ;

Os crebos vendavaes,—trompas de bronze,—atroando

O e s p a ç o , igneos fuzis no e s p a ç o f u l g u r a n d o ;

O m a r e m v a g a l h õ e s desfeito, no rochedo

Q u e b r a n d o a e s p u m a e m flor e recuando de m e d o ;

N a í i m p i d e z glacial dos lagos, a b r a n c u r a

Dolente do luar, e nessa luz t ã o pura.

E n t r e os salgueiros, m o r t a , Ophelia, olhos cerrados,

A boiar, a boiar,—cabellos d e s t r a n ç a d o s ,

— C a d á v e r da belleza e m v i a g e m m y s t e r i o s a

Para a região do N a d a — a p a r a g e m n e v o s a . . .

Eis o que escuto e vejo aos sons de um violino

Sob as nervosas m ã o s de u m artista divino:

O pranto, o riso, a dor, a tristeza, a alegria,

A ineffavel saudade, a f u n d a nostalgia;

O s o m , a f ô r m a , a côr, a linha, a luz, na terra

T u d o que mais ideal a natureza encerra,

— A t r a n s f i g u r a ç ã o phantastica do sonho,

O n d e m i n h ' a l m a v ô a , onde m e u s olhos p o n h o .


Conta u m s á b i o viajor que as p o m b a s do Oriente,

Azas abertas no ar, d o r m e m á luz t r e m e n t e

Das estrellas,— assim, eternos sonhadores,

A l m a s feitas de b r o n z e e feitas de fulgores,

— A s azas e s p a l m a d a s , —

L o n g e da terra, á luz de eternas alvoradas,

Cantais, brilhais, sonhais,

Entre c o n s t e l l a ç õ e s de vivos ideaes..-

»
O B E L I S C O D E O U R O

(AO C O N S E L H E I R O A N T Ô N I O P R A D O )

E i l - o ! — E u m p r i m o r artístico: de u m lado,

E de outro, e de outro, e de outro a i n d a , — v ê - s e

Que, entre florões aberto, o esmerilado

O u r o apresenta o g r a n d e n o m e d'esse

Q u e ao ex-captivo d e u u m n o m e h o n r a d o !

De um monumento é q. bella miniatura:

A I d é a e m t a n t o que eile e n c e r r a , — cresce,

D o m i n a , avulta, a u g m e n t a , e se afigura

D e altura tal que ao povo elle parece

T e r mais que alguns c e n t í m e t r o s de a l t u r a !


E N T R E M E Z L Y R I C O

De arrufos n u m desafogo

T r e m u l a a voz, (que sereia!)

U m dia, n ã o sei que i d é a

Tivera, que, ao v e r - m e , logo

I n t e r r o g o u - m e p o r q u e

Mais versos eu n ã o fazia,

E si d'antes o que eu via

O m e u olhar j á n ã o v ê - . .
V

Si n ã o era m a i s bonita,

C o m o n'outros t e m p o s era;

Si aquella g r a ç a infinita

Q u e a natureza lhe d é r a

A p a g o u - s e , c o m o u m raio

De sol poente se apaga,

E m subitaneo desmaio,

Ao cahir da noite v a g a . . .

Si ao seu olhar irrequieto,

C o m o o olhar de u m a andaluza,

N e n h u m a q u a d r a o u terceto

N ã o fazia a m i n h a m u s a ;

Si eu t i n h a e n v e r g a d o agora

A farpella de u m burguez,

A sonhar, p o r noite a fora,

Nos lucros que tive ao m e z . . .

Si e m vez de ser u m artista

T o r n á r a - m e u m argentario,

S o m m a n d o cifras, e m vista

Do m e u estado p r e c á r i o ;

Si, no i m p e t o da ira,

E m d i a de spleen m a r m ó r e o ,

As cordas tirei da lyra

P'ra fazer u m s u s p e n s o r i o . . .
P o r esta m a n e i r a , a m i n h a

E n a m o r a d a galante,

C o m o q u e m bate e acarinha,

A r g u i u - m e naquelle instante.

C o m o a ironia esfriava

A s brazas do seu olhar!

Cada gesto s u b l i n h a v a

O que ella estava a fallar!

E seu lábio acerejado

V e r t i a subtil veneno,

— V i v o antidoto do enfado

A q u e s e m p r e m e c o n d e m n o .

D e q u a n d o e m q u a n d o s o r r i a . . *

Que frio sorriso! ao vêl-o,

U m a flor m e parecia

A b o t o a n d o d'entre o g e l o . « *

Pois que saiba a m i n h a a m a d a ,

R o s a e luz do m e u c a m i n h o ,

Que, e m v e n d o - a assim a g a s t a d a r

E u sinto u m prazer, m e s q u i n h o

Talvez, m a s desconhecido,

U m a n o v a s e n s a ç ã o ,

— C o m o se ouvisse u m r u g i d o

E m m e i o de u m a c a n ç ã o .
m
A U M G R A N D E M O R T O

N a poesia celtica, u m a lenda

C o n t a que, apenas u m heroe na g u e r r a

M o r t o , resuscitava n u m a terra

L o n g i n q u a , n u m a p l á c i d a v i v e n d a

Sobre u m a ilha e n c a n t a d a — c o n s t r u i d a ,

O n d e , serena, lhe corria a vida.

D e sobre as g r i m p a s , de broqueis cobertas,

Se e r g u i a u m a á g u i a , de e s p a l m a d a s azas,

— N e g r a , do azul c o r t a n d o as leves gazas,

C o m o atalaia á s v a s t i d õ e s desertas

D o m a r , q u e v i n h a nas m u r a l h a s de o u r o

Q u e b r a r de p é r o l a s o seu t h e s o u r o . . .

E r a o p a l á c i o dos eleitos, era

A silenciosa, a m y s t i c a m o r a d a ,

O n d e u m a doce e p e r e g r i n a fada

O heroe c u r a v a c o m bondade austera,

U n g i n d o - l h e de balsamo sagrado

A s feridas do c o r p o e n s a n g ü e n t a d o .

T a l o recebe a Historia, onde a J u s t i ç a

A o seu glorioso espirito radiante

U m a vida i m m o r t a l e mais b r i l h a n t e

I m p r i m e , d a n d o - l h e u m a n o v a liça,

G o m o u m a t r a n s f u s ã o de alento n o v o

Que d é s s e a u m corpo o c o r a ç ã o de u m p o v o !
S O F F R E R É V I V E R

( C A M P O A M O R )

M a l d i z e n d o a m i n h a d ò r

A D e u s fallei desta sorte:

— « F a z e i que o T e m p o , Senhor,

V e n h a a r r a n c a r - m e este a m o r ,

Que j á m e v a i d a n d o a m o r t e . »

Minha supplica escutando,

O azul e ethereo c a m i n h o

P o r o r d e m de Deus cortando,

Correndo, o u m e l h o r , voando,

C h e g o u - m e o T e m p o m e s q u i n h o .
E « v o u teus males c u r a r »

Disse: e q u a n d o o b e m que adoro

M e foi do peito arrancar

E u comecei a c h o r a r

E de l e m b r a r - m e i n d a choro.

Por minha estranha paixão,

Penas soffri t ã o estranhas,

Q u e soube m e u c o r a ç ã o

Q u e u m a cousa m e s m a s ã o

M e u a m o r — m i n h a s entranhas.

E feliz na minha dôr,

M i n h ' a l m a c l a m o u sentida:

«Dizei ao t e m p o , Senhor,

Q u e n ã o m e a r r a n q u e este a m o r

Q u e vai a r r a n c a r - m e a v i d a . »

Minha supplica escutando,

O azul e ethereo c a m i n h o

P o r o r d e m de D e u s cortando

Correndo, o u m e l h o r , v o a n d o ,

P a r t i u o T e m p o m e s q u i n h o .
O D I O

Odeio-a. Este odio livido q u e e s p u m a

D e n t r o do peito o c o r a ç ã o m e afoga,

Se a estrella, o m u s g o , a pedra, a luz, a b r u

Se t u d o m e u espirito i n t e r r o g a . . .

Odio intranhavel! Quando ao bosque atira

A r u b r a flor do Oriente o póllen d'oiro,

A i n d a assim c o m o t ó x i c o da ira

I n f l a - m e o peito este odio i m m o r r e d o i r o .


44

A n t i t h e s e do a m o r ! A m o no entanto

T u d o o que l e m b r a essa m u l h e r f o r m o s a ;

E a l m e j o ainda, n u m s u p r e m o encanto,

Beijar-lhe as finas u n h a s c ô r de r o s a . . .
A N O I V A

T r e m u l a , casta, hesitante,

— ((Sim» — m u r m u r a s t e no altar,

E c o m e ç a s t e a chorar

Sob o t e u v é u a l v e j a n t e . . .

Tinha-te as mãos... doce instante

N a s m i n h a s , — q u a n d o , a chorar,

T r e m u l a , casta, hesitante,

— « S i m » — m u r m u r a s t e no altar.
46

C o m o u m p r i s m a de diamante,

Ferido pelo luar,

E u vi-te o f o r m o s o olhar,

Por entre o v é u ondulante,

— T r e m u l o , casto, h e s i t a n t e . , .
M A D R I G A L

De m i n h a a l m a no h u m i l l i m o recanto

0 m e u a m o r e o teu a m o r se o s c u l a m . . *

Á n o i t e , — p o m b a s g á r r u l a s , — u m canto

E n s a i a m e m o d u l a m . . .

Na doce faina de fazerem ninhos

H a m u i t o v i v e m estas aves; creio

A t é q u e os versos m e u s s ã o passarinhos

Q u e m e f o g e m do s e i o . . .
I


C A N Ç Õ E S A L E G R E S

(A S A C R A M E N T O M A cuco)

Aqui... além... longe ou perto,

U m sorriso c o m o o teu

N ã o h a na terra de certo,

M e s m o no c é o . . .

E os olhos? — vividos, n'alma

V e r t e m - m e u m negro l u a r :

F a z - m e b e m a luz t ã o c a l m a

D o teu olhar!


T u a v o z t r e m e e suspira,

C o m o u m a c a n ç ã o de a m o r ;

E h a v e r á n a l g u m a lyra

U m s o m m e l h o r ?

Ouve-me,—eu sempre diviso,

Cheio de viva e m o ç ã o ,

N a voz, no olhar, no sorriso,

T e u c o r a ç ã o . . .

II

Sinto-me bem — como quando,

N u m a o n d u l a ç ã o suave,

Olho no azul chilreando

A l g u m a a v e . . .

Entra-me a vida nos poros

A o brilho aurorai das flores;

A s aves c a n t a m e m coros

Os seus amores.

Os sonhos, em revoadas,

A m i n h a fronte p o v o a m

C o m o as phalenas d o u r a d a s

Que a l é m r e v o a m . . .
A p r i m a v e r a atavia

O m o n t e , o c a m p o , a floresta;

T u d o d e s l u m b r a e extasia

M i n h ' a l m a e m festa...

E emquanto o jardim fumega

A o beijo d a m a d r u g a d a ,

A s tuas violetas rega,

O h ! m i n h a a m a d a !

t
L E N D O A B Í B L I A

N a i n f o r m e e s c u r i d ã o cahotica do a b y s m o

O u ç o de Jehovah a f é r r e a v o z t r o a n d o :

E a luz, e o c é o , e a t e r r a , — o a b y s m o v o m i t a n d o ,

F o r m a m d a natureza o electrico o r g a n i s m o .

Novas scenas depois vão-se desenrolando,

Ora cheias de a m o r , ora cheias de e g o í s m o r

R u e m grandes n a ç õ e s , c o m o n u m c a t a c l y s m o ,

Dos p r o p h e t a s hebreus ao b r a d o f o r m i d a n d o .
Tenebrosas visões, visões sinistras passam,

Desfilam ante m i m , v o c i f e r a m , a m e a ç a m ,

— N ú n c i o s celestiaes d a c ó l e r a i n f i n i t a . . .

Tudo, porém, se esváe no aroma capitoso

Que aspiro ao seio t e u , — d o r n a de estranho goso,

Ó filha da J u d é a , ó casta S u l a m i t a !
P R E S E N T I M E N T O

Si f o i m e n t i r a aquillo,

Q u e á noite m e disseste...

( R e p a r a : estou tranquillo)

Q u e v i d a q u e m e d é s t e !

Si f o i m e n t i r a a q u i l l o . . .

— É simples; tudo passa:

O a m ô r , os s o n h o s . . . dizes

— N ã o creias; n a d e s g r a ç a

M e l a n ç a m mais raizes,

Pois q u e n e m t u d o passa..
Inexoravelmente,

Se é esse o m e u castigo,

— O a m o r , anjo inclemente,

Só m o r r e r á , c o m m i g o ,

Inexoravelmente.

Si foi mentira aquillo,

Que á noite m e disseste.. •

(Repara: estou tranquillo)

Que vida que m e d é s t e !

Si foi m e n t i r a a q u i l l o . . .
I

( D E J E A N R I C H E P I N )

P o r seres t ã o f o r m o s a m e atormentas,

H o j e q u e tens o m e u a m o r , q u e r i d a :

Curas, á noite, esta m o r t a l ferida,

P o r é m , de dia, hysterica, a e n s a n g ü e n t e s . . .

Mas, si eu amo sem conta o sonho escuro

Q u e t u m e d á s nesta p a i x ã o doentia,

E m breve c h e g a r á aquelle dia,

E m que, do teu a m o r m e n o s seguro,


58

Para fuçir ao teu d o m í n i o louco,

T a m a n h o golpe rasgarei no peito,

Que t u v e r á s m e u c o r a ç ã o desfeito,

Á luz do dia, n u m s o l u ç o rouco.

Então, querida, prantearás o instante,

O instante p r a n t e a r á s , e m que, n u m grito

V o m i t a r e i o teu a m ò r m a l d i t o

Pela bocca d a c h a g a palpitante!


O G A N G E S

N o s p é t r e o s flancos brota do H y m a l a i a

Depois, dos í n d i o s o sagrado rio

Desce, e, o r a espelhante, ora sombrio,

E n t r e florestas e j u n c a e s se e s p r a i a . . .

A natureza toda, quando raia

O sol, reflecte o seu espelho frio:

O e l e p h a n t e q u e v e m beber, tardio,

N e l l e a V i c h n ü s a ú d a sobre a praia.
6o

Q u a n d o o indio sente-se m o r r e r , p r o c u r a

As suas margens, a o n d e a a l m a i m p u r a

Pura se t o r n a das terrenas m a g o a s . . .

Pois que do indio a esperança derradeira,

A s u p r e m a a m b i ç ã o da v i d a inteira

— E m o r r e r c o n t e m p l a n d o aquellas á g u a s . . *
P O L H A D O O U T O M N O

H o n t e m , pela m a n h a , q u a n d o eu passava,

— Gelado o vento, n u m c h o r a r convulso,

A r a m a g e m das arvores d o b r a v a . . .

I n v e r n o ! I n v e r n o ! C o m o que eu sentia

A a l m a f u g i r - m e ao corpo á q u e l l e i m p u l s o ,

C o m o u m a folha m u r c h a que c a h i a . . .

De uma janella ao peitoril no entanto,

L o g o avistei u m vaso de violetas,

Cheias de viço, de orvalhoso pranto ;

E m a l o vento sacudia aquellas

F l o r e s , — r e c r e i o das gentis Julietas,—

C o m m e d o de magoal-as, de offendel-as.
62

O u v e - m e , pois, c r i a n ç a . . . R u j a e m b o r a

Sobre n ó s a m b o s a t o r m e n t a escura,

S e r á tranquilla nossa vida a g o r a ;

Pois que nos c o r a ç õ e s o a m ò r latente,

Mais que as violetas vividas, p e r d u r a ,

E t e r n a m e n t e , flòr, e t e r n a m e n t e . . .
N O I V A M O R T A

(A J Ú L I O R I B E I R O )

Morrera em Maio a pallida Clemência,

N u m a das l í m p i d a s m a n h ã s cheirosas:

C o m o a e x i s t ê n c i a e p h e m e r a das rosas,

Breve e t r a n q u i l l a fora-lhe a e x i s t ê n c i a . . .

Q u a n d o sua a l m a , — a delicada essência,

A b a n d o n o u - l h e as f ô r m a s unctuosas,

— Soltas no leito, as suas m ã o s piedosas

T i n h a m u m a r o m â n t i c a indolência.
6 4

Jamais pisou-lhe os olhos dor a l g u m a ,

N e m u m pezar t o l d o u , — a l g i d a b r u m a , —

De seus quinze annos o polido a l v ô r . . .

Fôra-lhe a vida um tremolo suave...

L e v o u , p o r é m , comsigo, —estrella o u ave,

O seu p r i m e i r o e derradeiro a m ô r .
P R O M E T H E U D E E S C H Y L O

(A F l L I N T O D'ALM£IDA)

A á g u i a lhe vae roendo o f í g a d o . . . Raivoso,

Preso ao rochedo, solta a apostrophe s u p r e m a :

— D e J ú p i t e r prediz a queda; e a voz b l a s p h e m a

G e m e n a solidão do Caucaso nevoso.

C h e g a n d o H e r m e s , a i n d a a m a l d i ç ã o e x t r e m a

O u v e de P r o m e t h e u : de J ú p i t e r — z e l o s o

A r a u t o , H e r m e s p e r g u n t a ao revoltado iroso

Q u e n o v o D e u s virá partir-lhe aquella a l g e m a . . .

i
66

N a d a r e s p o n d e . . . O O l y m p o a m e a ç a - o , t r o v e j a n d o . . .

E m v ã o ! n a d a responde o m a r t y r revoltado,

As coleras de Zeus, sereno, d e s a f i a n d o . . .

Nova interrogação! nova mudez profunda!

S ú b i t o o raio estala... e P r o m e t h e u , atado

A o Gaucaso fatal, no T a r t a r o se a f u n d a .
A M A N D R Á G O R A

Á doce luz do sol, no Oriente, á m a r g e m

D o s rios, a m a n d r á g o r a floresce,

C u j a raiz m o r t í f e r a parece

De u m c o r p o h u m a n o a e n s a n g ü e n t a d a i m a g e m .

Delia esta lenda estranha se conhece:

A o arrancar-se-lhe a raiz selvagem,

N e s s a m u d a raiz u m a l i n g u a g e m

S o t u r n a de g e m i d o s apparece.
68

O teu amor, m a n d r á g o r a m a l d i t a ,

Cuja raiz no c o r a ç ã o m e habita,

U m veneno m e e m b e b e nos sentidos.

Mas esse amor, se um dia m'o arrancares,

D o m e u seio verás, subindo aos ares,

U m dolente nevoeiro de g e m i d o s . . .
M A R E C É O , .

« P a r t o a m a n h ã » — e u repetia, q u a n d o

Beijava-te n a v é s p e r a . . . « Talvez,

( T u m e dizias, t r e m u l a , chorando)

Seja esta noite a derradeira v e z . »«

Pobre creança, amavas-me... No entanto

E u p a r t i r a no p r ó x i m o vapor,

S e n t i n d o n ' a l m a a c h u v a de teu pranto,,

Gotta a gotta, a cahir, o h ! m e u a m o r .


7o

Sentei-me ao t o m b a d i l h o . O azul r a d i a v a . . .

E m q u a n t o o m a r a helice cortava,

D e i x a n d o atraz fios de e s p u m a s , — e u

Pensava em ti silenciosamente...

Q u a n d o acordei, eu via e n t ã o somente,

Somente eu via e n t ã o — o m a r e o c é o . . .
O G R A N D E A M O R

(PARAPHRASE DE H . HEINE)

A m e i - t e ; amo-te ainda, e e t e r n a m e n t e

Creio q u e te hei de amar, e m a i s a i n d a :

A toda a gente ensinarei a inflnda

C a n ç ã o de m e u a m ô r — a toda a gente!

Direi ás aves: «Solfejai tão linda

C a n ç ã o de a m o r » e á s flores, j u n t a m e n t e

« D a p r i m a v e r a d'este a m ô r ardente

Celebrae, c o m o os p á s s a r o s , a v i n d a ! »
72

A m e i - t e ; amo-te ainda. .. E si este m u n d o ,

Preso das c h a m m a s , se esboroasse u m dia,

E u creio a t é que, por milagre, flòr,

Das ruinas fumegantes aò rotundo

P á r a m o , ao alto c é o , ascenderia

A c h a m m a t r i u m p h a l do m e u a m ô r !
N O V A S I L H A S

(A F E L I Z A R D O J Ú N I O R )

N a Oceania e t e r n a m e n t e as vagas

F e r v e m nos bancos de coraes, f o r m a n d o

N o v o m a r , novas ilhas, novas plagas,

Por o n d e v ò a m p á s s a r o s e m b a n d o . . .

C o m o u m collar de scintillantes bagas,

O polypo, a m a d r é p o r a b o i a n d o

N a s ondas — v ã o c i n g i n d o as ilhas magas,

Cada vez m a i s seu â m b i t o a l a r g a n d o . . .


74

A flora abi pollula exuberante,

As corpulentas arvores c o b r i n d o

De u m a f o l h a g e m vivida, a b u n d a n t e . . .

— Ao cavo som do pelago profundo,

Nessas ilhas ridentes vae s u r d i n d o

A p r o j e c ç ã o mirifica de u m m u n d o .
V I A J A N D O . . .

(AO D R . J. L . D E A L M E I D A N O G U E I R A )

A esfusiada horrisona do vento,

C o m o u m t r o ç o de b á r b a r o s guerreiros,

M u g e e r e m u g e , atroando o A r m a m e n t o ,

N a s fauces negras dos despenhadeiros.

Chove. Ennublado o céo ha tantos dias,

T i n a réstia de luz n e m brilha e aquece

Os arredores d'estas serranias,

O n d e e m A b r i l o coqueiral floresce...
D a c h u v a á s grossas b á t e g a s , na estrada,

O m e u cavallo, tropego, vacilla

E p á r a , olhando e m torno a m a t t a escura

A noite cahe... Nada se avista, nada...

E e m v ã o procuro a desejada villa,

Q u a n d o a luz do r e l â m p a g o f u l g u r a . . .
B I O L E T S

Disseste-me, flòr, u m dia,

Q u e n ã o gostavas do inverno:

— E r a frio, e q u e u m eterno

N e v o e i r o os c é o s e n c o b r i a —

Disseste-me, flòr, u m dia,

Q u e n ã o gostavas do inverno.
I I

E eu s e m p r e te respondia :

— Bella e s t a ç ã o que é o i n v e r n o !

Mas, n u m gesto meigo e terno,

Replicavas: — C o m o é fria!

E eu s e m p r e te r e s p o n d i a :

— Bella e s t a ç ã o que é o i n v e r n o !

I I I

Hoje, p o r é m , m e excrucia

A longa e s t a ç ã o do i n v e r n o . . .

Es de o u t r o . . . e adoras o e t e r n o

Nevoeiro que os c é o s c o b r i a . . .

Hoje, p o r é m , m e excrucia

A longa e s t a ç ã o do i n v e r n o !
A D O U S V E L H O S R O M Â N T I C O S

Velhos, contae-me, — q u a n d o o gelo da velhice

Branqueou-vos, fio a fio, os cabellós; depois,

Quem de v ó s o p r i m e i r o acolheu a calvice,

Pois que eu n ã o sei q u a l é o m a i s calvo dos dois?

Entre-olharam-se, e logo os velhos se entenderam..

E, c o m o lhes calcasse o peito a l g u m a d ò r ,

N u m a u n i s o n a voz, a m b o s m e r e s p o n d e r a m :

— N o a m o r de u m a illusão! — N u m a illusão de a m o r
T Ê T E Á T Ê T E

V e m p a r a aqui, e senta-te a m e u lado;

Fallemos do f u t u r o :

Seja isto e m b o r a c o m o u m sonho alado

A e s v o a ç a r no e s c u r o . . .

Vê... si este quadro não sahir bem feito,

A c u l p a n ã o é m i n h a :

É que estou v e n d o a c u r v a do teu peito

C o m o s o n h a d o eu t i n h a . . . —
82

— Longe, b e m longe, entre arvoredos, u m a

Casinha branca; ao vel-a,

Que, de m ã o s postas, se b e m d i g a e m s u m m a

A nossa boa estrella.

Um rio no pomar, trepido, arfando

As suas ondas claras ;

Á m a r g e m , tu —as á g u a s c o n t e m p l a n d o ,

Entre folhagens raras...

Sobre os meus joelhos (pois sentado eu quero

Ficar n'esta paysagem)

A l g u m romance de u m a m o r sincero,

Que te copie a i m a g e m .

A luz coada á medo iriando as cores

N u m p r i s m a n u n c a visto;

E aromas, cantos, p á s s a r o s e flores

E m m e i o de tudo i s t o . . .
O S D O U S E S P E L H O S

( C A M P O A M O R )

N u m fino crystal cFespelho

A o s q u a r e n t a annos m e v i ,

E a c h a n d o - m e feio e velho

D e raiva o crystal parti.

Mas d'alma na transparência

E n t ã o m e u rosto mirei,

E tal m e v i na c o n s c i ê n c i a ,

Que o espelho d'alma quebrei.


É que o h c m e m , p o b r e ! e m p e r d e n d o

A s a ú d e , a c r e n ç a , o a m o r ,

N o espelho enxerga-se — h o r r e n d o !

E n'alma vê-se — i n d a peor!


A Á G U I A E O I D E A L

( A A L F R E D O P R A T A )

Do rochedo ás grimpas, onde

A aljava de luz, ao poente,

O sol flammivomo esconde,

Costuma a águia, fremente,

E r g u e r o v ô o , scindindo

O largo azul — de r e p e n t e . . .

D'alli, no horizonte infindo.

A f u n d a o olhar penetrante,

C o m o o sol, t r e m e l u z i n d o . . .
Contempla o m a r a r q u e j a n t e

Que as vagas levanta, c o m o

U m Encelado gigante;

E em fervido e vivo assomo

Á rocha atira u m navio,

T a l si fosse u m leve p o m o . ..

Olha a planicie que o rio,

— P o l i d a franja de p r a t a , —

Cinge, — olha t a m b é m o esguio

Perfil umbroso da matta;

O l h a tudo, tudo, tudo,

Desde o insecto á cataracta!

Ar *

Naquelle rochedo mudo,

Exposto á s iras do vento

C o m o u m granitico escudo,

Ella faz, grande portento!

O ninho, onde a prole cria

AíTeita ao d e s l u m b r a m e n t o !
Q u a n d o a p e n n u g e m radia

Nessas aves pequeninas,

Vivas corno a luz do d i a ;

Em suas garras belluinas

Gondul-as a á g u i a altiva

A s t r a n s l ú c i d a s c a m p i n a s . . .

A luz do sol excessiva

Fal-as f i t a r . . : Si u m a dellas

Os olhos fecha d'esquiva,

1
M a t a - a de súbito, e aquellas

Q u e o sol fitaram s e m m e d o ,

P a i r a m no azul c o m o estrellas.

* *

Assim, Ideal, n'um rochedo

Forte, invisível, t u fitas

A terra, c o m o u m d e g r e d o . . .
-

Dessa atalaia onde habitas i

C a n t a n d o p a r t e m teus filhos,

C o m o phalanges i n v i c t a s . . .

/
D o olvido, p o r é m , nos trilhos

T o m b a m alguns, que da gloria

N ã o p o d e m fitar os brilhos!

Neste prelio formidando

Os que g a n h a m a victoria,

C o m o á g u i a s — p a s s a m v o a n d o

N o A r m a m e n t o da Historia.
A U M A V I A J A N T E

. . . E partes c o m o parte u m a a n d o r i n h a

P a r a as festas de luz da p r i m a v e r a . . .

Partes, e eu f i c o . . . Que tristeza a m i n h a

Que s a u d a d e a m i n h ' a l m a dilacera!

Levas comtigo os sonhos e a chymera,

— Essa r o u p a g e m lúcida que eu tinha

B o r d a d o á noite n a soidâo austera

P a r a vestir-te o corpo de rainha.


9o

N o entanto ea sei, eu s e i . . . c r u a certeza!

Que n ã o levas sequer u m a l e m b r a n ç a

Do m e u a m o r t ã o cheio de p u r e z a . . .

E partes hoje, ó tímida creança,

D e i x a n d o a m i n h a j u v e n t u d e presa

Ao delgado grilhão d u m a e s p e r a n ç a . . .
N E Y R O S E

(A T H E O P H I L O D I A S )

Na voragem da infinita

L o u c u r a q u e m e s u p p l a n t a

H a u m a serpente m a l d i t a

Que m e constringe a garganta.

A noite de agro remorso,

— R e m o r s o q u e m e fragòa,

{Noite e m q u e choro e m e e s t o r ç o . . . )

D e p r a n t o e s a n g u e gerou-a.
9 2

C o r r o m p e m - s e - m e os sentidos

Entre m ó r b i d o s m i a s m a s :

— O u ç o no treva g e m i d o s ,

— N a s o m b r a vejo phantasmas.

T o m a m c o r p o e f o r m a h e d i o n d a

Os sonhos m e u s m a i s secretos,

C o m o f r e n é t i c a r o n d a

D e u m a p o r ç ã o de esqueletos.

A phantasia nas garras

L e v a - m e a u m p a r a m o torvo,

A b r i n d o as azas bizarras

N o s c é o s azues c o m o u m c o r v o . . .

N ' a l m a r o e u - m e a apathia

A s rosas do seu conforto,

C o m o a larva h u m i d a e fria

R ó e a carcassa de u m m o r t o .

E o olvido (ai! corre-me o pranto...)

Vae s e p u l t a r - m e os despojos,

C o m o farrapos de u m m a n t o

Q u e se espedaoou nos tojos.


Neste incessante d e s t r o ç o ,

A r a z ã o m a i s se m e afunda,

G o m o a luz dentro de u m p o ç o ,

N u m a inconsciencia p r o f u n d a .

G o m o nas noites polares,

D e h u m i d a treva retinctas,

F a r e j a m ursos nos ares

A b r i n d o as boccas famintas.

Surgi, visões do passado,

Nesta m u d e z que m e cinge:

Eis o m e u seio golpeado,

Sugai-o, lábios de e s p h y n g e . . .

I I

N a tristeza e m q u e m e a f u n d o

N e m ar, n e m luz eu n ã o sinto;

H a lia a m a r g a no f u n d o

Escuro deste recinto.


A c i m a si os olhos volvo,

A c h o treva, e cahe-me o pranto

S u g a - m e a d ô r , c o m o u m polvo,

O sangue, n'este quebranto.

Os beijos que dou nos lábios

V e r m e l h o s da m i n h a a m a d a

T ê m os c á u s t i c o s resabios

D a blasphemia envenenada.

Si toco o p é de u m a rosa,

Muda-se e m lábio sangrento,

Q u e m e diz, e m voz chorosa,

A i m p r e c a ç a o de u m l a m e n t o .

Alguém que me segue o passo

K o u b a - m e toda a a l e g r i a . . .

Si canto, silva no e s p a ç o

A farpa de u m a ironia.

N o s astros—laivos de s a n g u e

E u encontro, q u a n d o os olho,

E entre elles perpassa, e x a n g u e ,

U m anjo, torvo o s o b r ' o l h o . . .


O u t r o anjo, e mais o u t r o e u , v e j o

A t r a z s e g u i r e m , tristonhos,

E m o r t o s , nesse cortejo,

P a s s a m - m e os anjos dos s o n h o s . . .

Os b r a ç o s ergo á s estrellas

N u m gesto supplice, e logo

A p a g a m - s e todas ellas,

G o m o a l u z d e u m fatuo fogo.

— D u v i d a , m o r d e e r e m o r d e

A s fibras d e u m peito e x h a u s t o ;

L y r a n u m u l t i m o accorde,

Q u e b r a - t e nesse holocausto.
/

N O T R E M

P a r a traz p a s s a m troncos, rios, mattas,

Valles, m o n t a n h a s , t u d o vae passando,

D e r u m o inverso ao t r e m q u e foge, u r r a n d o ,

Veloz, q u a l m o n s t r o de invisíveis p a t a s . . .

T a l , n a e x i s t ê n c i a , e m r á p i d a corrida,

V i n d o d o nada, p a r a o n a d a v a m o s :

— E n t e n d e m o s q u e a n d a m o s p a r a a vida,

M a s p a r a a m o r t e os passos desandamos,
P O E M A D A C A R N E

D a carne rosada e b r a n c a

D o t e u c o r p o p r i m o r o s o

O prazer fervido a r r a n c a

Os arrepios do g o s o . . .

Como um par de negras cobras,

L a m b e m - t e o dorso u m a s trancas,

Q u e h a m u i t o t e m p o e m m i l dobras

P r e n d e r a m - m e as e s p e r a n ç a s .
IOO

Tuas calidas narinas

A r f a m — q u a n d o , ardente e louca,

C o m o folhas de cravinas,

R o l a m - t e os beijos da b o c c a . . .

L a t e j a m - t e as fontes; todo

O delírio que t u sentes

Aflora de estranho m o d o

Á luz de teus olhos crentes.

A s e n s a ç ã o mais fugace

P e r f u m a - t e as roseas pomas,

C o m o se a l g u é m destampasse

U m frasco cheio de aromas.

T u a pelle povoada

D e i n n u m e r a v e i s desejos

T r e m e e retrahe-se irritada

Á atroz p r e s s ã o de m e u s beijos.

Quebra-te a voz na garganta

A titilação nervosa,

Que excita, que te q u e b r a n t a

O corpo, Laís formosa.


T e u s b r a ç o s c o m o c a d ê a s

C i n g e m - m e s e m p r e . . . os sentidos

I m p e r a m sobre as idéas,

G o m o u m rei sobre os vencidos.


( O R T E G A D E L A P A R R A )

Calar-me a i n d a . . . n ã o ! Partido o gelo,

Q u e a a l m a , n a apparencia, m e cobria,

— D a q u e l l a c a l m a indifferente e fria,

D o u d o e vivaz, rebenta o m e u anhelo.

Eu deixo agora espedaçado o sêllo

Q u e ao lábio m e d e i x o u a h y p o c r i s i a :

J á n ã o posso calar a d ò r s o m b r i a

A o ver q u e o c é o . . . eu tenho de perdei


O c é o do teu a m o r ! Q u e nova gloria

N a terra encontrarei, a l m a querida,

Si eu n ã o posso apagar-te d a m e m ó r i a !

Si nem ao menos posso, na partida,

Dos teus a m o r e s m a l d i z e r a historia,

Q u e é a historia infeliz d a m i n h a vida?


R O S A S D E I N V E R N O

...Son quelli

I cniiti che pensai m a che non scrissi,

Le parolc d'amor che n o n te disse.

STECCHETTT.

O i n v e r n o , folha a folha, irá despindo

T o d o o a r v o r e d o : e sob a terra, e n t ã o ,

A m a r g u r a d a , has de encontrar d o r m i n d o ,

N o r e p o u s o final, m e u c o r a ç ã o .
F e s t õ e s e m flòr has de colher, no entanto,

Nessa nevosa e frigida e s t a ç ã o ,

Q u a n d o fores saber ao C a m p o Santo,

O n d e d o r m e , onde jaz m e u c o r a ç ã o .

O segredo de amor que te occultava,

Desfeito e m rosas, b r o t a r á do c h ã o :

S ó nesse dia has de saber que a m a v a . . .

Depois de apodrecido o c o r a ç ã o .
D I A S F E L I Z E S

Felizes, c o m o f o r a m os teus dias

Dois m e f o r a m os dias, dois somente,

E m q u e o m o r c e g o das h y p o c o n d r i a s

N ã o m e s u g o u ao c o r p o o sangue ardente.

Foram os teus — manhan resplandecente

D e folguedos, auroras de alegrias,

— Os m e u s , s ó noites, p a v o r o s a m e n t e

Atravessadas d e s e m s a b o r i a s . . .
io8

Eis para m i m os dias m u i felizes:

— U m , f o i ao vèr-te pela vez p r i m e i r a ,

— Foi outro ao vêr-te a derradeira vez.

O p r i m e i r o d e i x o u - m e á r d u a s r a í z e s ;

Levou-m'as o segundo; de m a n e i r a

Q u e o a m o r nos foi u m lyrico entremez.


S E M P E R

A vê-la dia e noite a c o s t u m a d o ,

Noite e dia n ã o h o u v e e m q u e a n ã o visse,

D o feio i n v e r n o e m b o r a o v e n t o irado

Chorasse, e m b o r a a p r i m a v e r a risse.

De flores se esmaltasse embora o prado

O u de alva neve o m o n t e se cobrisse,

Delia eu t i n h a — a caricia de u m agrado,

Delia eu t i n h a — u m sorriso de m e i g u i c e .
I IO

O travôr a m a r i s s i m o do pranto

N u n c a senti c o m ella; mas c o m ella

S e m p r e cantei u m duo de ventura.

Eu não sei como foi p'ra amal-a tanto...

Mas si isto foi l o u c u r a , — e u quero tel-a,

E u adoro, eu b e m digo esta loucura.


( A . T R U E B A )

Cri, cri, cri, cantam os grillos,

Rra, rra, rra, c a n t a m as r ã s ,

Cò, c ò , r ô , c ò , canta o gallo,

C o m o o c l a r i m das m a n h ã s .

— Mas, q u e d i z e m q u a n d o c a n t a m ?

— « B e m h a j a a noite, elles d i z e m ,

A s estreitas nos e n c a n t a m ,

A s estrellas i m m o r t a e s ! »
— A s s i m eu digo, m o r e n a ,

Si perto de m i m e s t á s ,

Q u e a luz da m a n h a serena

N e n h u m a falta m e faz,

Si a luz de teus olhos t e n h o ;

Pois, para eu ver, b a s t a m elles,

Élles s ó , e n a d a m a i s .

II

D e b a i x o das n u v e n s fica

N ã o saias, ó lua bella,

•Que m u i t o b e m , á s escuras,

E u m e encontro j u n t o delia.

C o m o estou cego de amores,

N ã o m e serve a luz de n a d a ;

E si q u e m é cego — apalpa,

E u apalpo, ó l u a a m a d a !

D e b a i x o das n u v e n s fica,

N ã o saias, ó l u a bella,

•Que roseo p u d o r n ã o q u e r o

A c c e n d e r nas faces delia;

Pois de p u d o r m o r r e r i a ,

Ó lua, si apparecesses...

N ã o ; para eu ver, si quiz?sse,

S e u olhar m e bastaria.
I I I

Q u a n t o eu te quero, m o r e n a !

G o m o se g o s a m venturas,

A s escuras, no teu seio,

Sobre o teu lábio, á s escuras!

Q u e b o a v i d a nos p ó l o s

C o m t i g o n ã o passaria,

Pois l á m e t a d e de u m a n n o

É noite, e m e t a d e é d i a ! . . .

V a m o s ao pólo, m o r e n a . - .

P o r é m , n ã o ; m e l h o r é a H e s p a n h

S ã o lá de gêlo as mulheres,

A q u i s ã o de c h a m m a estranha,

S ã o a q u i p ó l v o r a e fogo;

E si u m a m u l h e r nos olha,

U m olhar nos q u e i m a l o g o . . .

I V

Moreninha de meus olhos,

V e m j á r e p o n t a n d o a aurora,

J á c a n t a m os passarinhos

Pelas c a m p i n a s a f ó r a ,
.lá o s a c h r i s t à o da aldeia,

Din, d i n , d i n , d i n , toca os sinos..

Aurora, a p a g a os teus raios,

Aves, calae esses h y m n o s , .

Sachristào, desce da t o r r e . . .

Mas, a i ! m o r e n a , j á corre

N o azul o clarão da aurora,

As aves c a n t a m os seus h y m n o s

Pelas c a m p i n a s afora,

Din, d i n , d i n , soam os sinos.

Para a casa, pois, v o l t e m o s ;

E, para alongar a noite,

Portas, janellas fechemos,

Fechemos a casa t o d a . . .

Que i m p o r t a ! assim m e s m o v e j o . .

Para m i m — s ã o os teus olhos,

P a r a ti— o m e u desejo.

Cri, cri, cri, c a n t a m os grillos,

Rra, rra, rra, c a n t a m as r ã s ,

Cô, c ô , rò, cò, canta o gallo,

C o m o o clarim das m a n h ã s .

— Mas, que d i z e m q u a n d o c a n t a m

— « B e m haja noite, elles d i z e m ,


A s estrellas nos encantam,

A s estrellas i m m o r t a e s ! »

A s s i m eu digo, morena,

Si perto de m i m e s t á s ,

Q u e a luz da m a n h a serena

N e n h u m a falta m e faz,

Si a luz de teus olhos tenho;

Pois, para eu ver, b a s t a m elles,

Elles só, e n a d a mais.


O C E G O

A r r i m a d o a u m b o r d ã o , c a m i n h a o c é g o . . . Á s vezes>

N a pupilla s e m luz, a l a g r i m a scintilla,

Olhos nos céos, p o r é m , c h o r a n d o os seus revezes,.

D á mais luz e mais v i d a a a p a g a d a pupilla.

Pára, si escuta alguém approximar-se... a esmola

Pede; e lá vae depois tacteando os c a m i n h o s ;

D o r m e ao relento; e se ergue, e m p u n h a n d o a sacola^

De m a n h ã , ao c a n t a r das aves sobre os ninhos.


n 8

Cego infeliz! O a m o r lhe n ã o atirou n u n c a

U m a restea de fogo á s trevas d a cegueira:

— É que a Miséria, tendo a m ã o á s p e r a , adunca,

Q u a n d o fere, estrangula u m a e x i s t ê n c i a inteira.


P É R O L A S F A L S A S

P é r o l a s s ó , e m vez de a m a r g o pranto,

C h o v e r p o d i a m , c o m o por encanto,

Os olhos seus n u m claro azul rasgados,

P o r q u e seu p e i t o , — m e l i n d r o s o cofre

De sentimentos nobres, delicados,

T e m pena, e se abre, q u a n d o a gente soffre.

Soffre, e não menos do que nós... Comtudo

N o seu a m o r , q u e f o i m e u longo estudo,

I l l u d i u - m e Julguei saber de sobra,

O u a n d o n e n h u m a cousa e n t ã o sabia:

— E m cada c o r a ç ã o s e m p r e u m a d o b r a

Se esconde, q u a l no seu se m ' e s c o n d i a . . .


I 20

M a s fingida seria tanta m a g u a

Naquelles olhos arrasados d'agua ?

S i m , arrasados d'agua aquelles olhos

M e n t i a m , mascarando u m sentimento,

D e sua a l m a nos Í n t i m o s refolhos,

G o m o verdade — o que era f i n g i m e n t o !

De lagrimas de amor se marejavam,

Q u a n d o n e n h u m a m o r sequer m o s t r a v a m !

— É que nao foi de p é r o l a s o p r a n t o

Que do seu peito,— cofre melindroso,

Aos olhos vinha, c o m o por encanto:

M a s s i m as falsas p é r o l a s do g o s o . . .
I D Y L L I O S

V a m o s ao b o s q u e . . . Por esta

Estrada larga e sinuosa

E x h a l a a verde giesta

U m fresco effluvio de r o s a . . .

E u quero deitar-me á s o m b r a

D a r a m a r i a m a i s alta,

E a b i d o r m i r sobre a a l f o m b r a

Q u e o o r v a l h o l í m p i d o esmalta.
Eu giso de ha m u i t o u m p o e m a

N a tela da phantasia,

O n d e t u , gloria s u p r e m a !

S e r á s m e u b r a ç o , m e u guia.

Por isso eu venho das flores

Colher a tinta mais leve

Para pintar os p r i m o r e s

De tuas faces de n e v e . . .

N o atelier da N a t u r e z a

T e n h o u m a s ricas palhetas,

Cortadas, c o m singeleza,

Das azas das b o r b o l e t a s . . .

Hei de p ô r todo o cuidado,

A o d e b u x a r os sonetos,

N a d e s c r i p ç ã o do o n d u l a d o

Dos teus contornos correctos!

V a m o s . . . C o n t e m p l a o setineo

A z u l dos c é u s luminosos,

Q u e mais parece u m escrinio

Cheio de prazios custosos...


Envolve-te o rosto santo

A pallidez das Ophelias,

C o m o da lua ao encanto

B r i l h a m as alvas camelias.

N ã o t a r d a r á que estes ares

Rosem-te os lábios e a fronte,

Pois n a s c e m nestes logares

A s rosas de Anacreonte.

Ensopa-te em luz; o dia

E s c a m p o , l i m p o e radioso,

Leva-te a n e g r a a p a t h i a

Nas azas leves de u m goso. •.

Quando meu beijo humedece

A t u a bocca v e r m e l h a ,

O sol, coitado! parece

Q u e m e c o n t e m p l a d'esguelha

Bem como um velho ciumento

D e r a i v a i n f l a m m a - s e logo,

E agita m a i s t r u c u l e n t o

A c a b e l l e i r a cie f o g o . . .
124

V e r d e j a ao longe a collina

O n d e t u m o r a s . . . D e t u a

Janella vê-se a c a m p i n a

L o n g í n q u a , virente e n ú a .

L e m b r a s - t e ? alli, nas noitadas

De frio inverno, c o m quantos

Sonhos e c r e n ç a s doiradas

N ã o p e r f u m a s t e os m e u s cantos?!

V a m o s ! E n t r e m o s na m a t t a ,

Q u e fora o calor f u s t i g a . . .

Escuta: os veios de prata

Nos c h a m a m á s o m b r a a m i g a .

Olha: aquella ave palreira,

Poisada nuns r a m o s toscos,

Junto da vasta clareira,

Canta u m idyllio de M o s k o s .

Ar

*• *•
E u c o n d u z o a tiracollo

A aljava de r i m a s d'ouro

C o m que, n a terra de Apollo,

Se locupleta o T h e s o u r o .

M a t e m o s , pois, este c ô r v o ,

— O tédio — c o m estas flexas,

E m q u a n t o o p e r f u m e absorvo

De tuas negras madeixas.

Alegra-se a m u s a m i n h a

E m seguir os v ô o s francos

D a tribu alegre e d a m n i n h a

De insectos de elyctros brancos.

Com finas azas d'estrellas,

As tuas doiradas scismas,

— C o m o elles— r e v ô a m pelas

R e g i õ e s d'encantados prismas.

No fervet opus dos ninhos

A t u r b a d'aves p e r p a s s a . . .

O u v e : c o m o os passarinhos

D ã o - n o s concertos de g r a ç a . . .
Para e s p a n c a r - m e o c a n ç a ç o

T r i n a t a m b é m c o m o as aves..

Canta! q u e v i b r e m no e s p a ç o

Uns duettinos suaves!


O B A S I L I S C O

N a Grécia, outr'ora, havia (a lenda conta)

Esse e s t r a n h í s s i m o d r a g ã o pequeno,

Que repassava de m o r t a l v e n e n o

O o l h a r , — q u a l de u m a setta a hervada ponta.

N a estrada, m u i t a vez, c a l m o e sereno,

V i n h a o v i a j o r . . . P o r é m , v i c t i m a t o n t a !

A q u e l l e olhar lhe d a n d o a m o r t e p r o m p t a ,

M o r r i a e m c o n v u l s õ e s , de angustias pleno.
128

A s s i m , u m dia, e m que passava, e m cheio

N o m e u olhar u m lindo olhar m e veio

Ferir; e desse dia angustioso,

Artéria a artéria, o sangue me percorre:

M e u c o r a ç ã o de a m o r anceia e m o r r e

Desses olhos ao fogo venenoso.


D U A S A U R O R A S

(AO D R . R U B I Ã O J Ú N I O R )

Vago r u b o r colora o c é o . . . Nas ondulantes

N u v e n s do Oriente e s m a i a a estrella m a t u t i n a .

Alvacenta-se a l é m a m a t i n a l neblina

.Sobre o respaldo azul das m o n t a n h a s distantes.

Não tarda o sol. No entanto, eil-a entre as flores, antes

Do s o l , — n o lábio a luz de u m a c a n ç ã o d i v i n a ,

J a r d i m afora, a q u i colhendo u m a cravina,

AUi u m lyrio, a l é m as violetas fragrantes.

J
i3o

Eil-a a c o r d a n d o o insecto, o passaredo, as rosas...

E o insecto brilha, e a flòr desperta, e a ave descanta

A o gesto virginal de suas m ã o s formosas.

Reponta emfim o sol. Ella, a infantil princeza,

S a ú d a o sol, b e b e n d o o orvalho n u m a planta,

G o m o u m v i n h o de luz n u m crystal de Veneza.


A N A C R E O N T E

(A V A L E N T I M M A G A L H Ã E S )

Mar jonio em fóra, á popa da galera

Medita o velho dos festins sagrados,

Entre velas de p u r p u r a , e d o u r a d o s

Mastros, f u l g i n d o a u m sol de p r i m a v e r a .

O manto ás auras solto, a barba austera

E os cabellos de e s s ê n c i a s p e r f u m a d o s ,

L e v a u m a e b u r n e a l y r a , — o s seus cuidados,

Suspensa ao peito, e á m ã o , u m thyrso de hera.

*
R u m o de A t h e n a s leva. O m a r frisando

Y a e a galera c o m festões virentes,

E m q u a n t o n'agua os corpos b a l o u ç a n d o ,

Brincam Nereidas, a fitar, curiosas,

Anacreonte, á p o p a , — a s cans luzentes —

Coroado de p a m p a n o s e rosas.
( D E M Ò N T Ú F A R )

E u penso e m t i ; vives e m m i n h a m e n t e ,

E m m i n h a m e n t e vives, douda, e m b o r a

N o m e u tranquillo rosto indifferente

N ã o se reflicta esta p a i x ã o latente,

A c h a m m a q u e e m silencio m e devora.

Á m i n h a escura e m o r t a phantasia

A t u a i m a g e m , carinhosa e pura,

D e s c e . . . T a m b é m o sol u m raio envia,

A t r a v e z de u m a a b o b a d a s o m b r i a ,

A o ròto m a r m o r de u m a sepultura.
*34

Parado, inerte, no estupor p r o f u n d o

Jaz o m e u c o r a ç ã o , mas nelle e c h ô a ,

E vibra, e ullula u m grito m o r i b u n d o ,

Quando, entre o v ã o estrepito do m u n d o

A melodia de teu n o m e s ô a . . .

Sem lucta, sem trabalho, sem tormento,

S e m agitar-me e m cego frenesi,

S e m proferir u m s ó , u m leve accento,

Conto da noite as horas, lento e lento,

A s longas horas e m que penso e m t i .


*

E S T E E L L A M O R I B U N D A

Se a l g u m a estrella ao m e i o se partisse,

E e m differentes c é o s c a d a p e d a ç o ,

E r r a b u n d o , nostálgico, se visse

O r b i t a n o v a a descrever no e s p a ç o ;

E mais e mais se lhe tornando escasso

O b r i l h o , — m é s t o e livido, sentisse

S a u d a d e m u t u a do p a r t i d o laço,

A t é que, e m luz sangrando, se e x t i n g u i s s e . . .


136

Se tal exicio acontecesse acaso

N o c é o , q u e estrella a m i g a prantearia

D a pobre estrella o miserando caso?

—Também se parte um coração amado..

Mas, c o m o a estrella m o r i b u n d a e fria,

A h ! m o r r e o c o r a ç ã o d e s p e d a ç a d o !
N U M « A T E L I E R »

O m i m o ideal daquelle olhar, aquelle

Sorriso casto c o m o a luz, a vida

Sensual porejando-lhe d a pelle,

O e b a n o da c o m a desprendida;

O seio turturino, branco e imbelle,

Q u e á l o n g a sesta a repoisar convida,

E m b o r a nelle arfando se m o d e l e

A veia azul da p o m a e n t u m e c i d a ;
A fronte eburnea, lyrial, perfeita.

Os p r i m o r e s sublimes de que é feita

Essa risonha e doce creatura;

Tudo pintaste, artista... e conseguiste

Resuscitar nessa ideal p i n t u r a

A tua a m a d a que já n ã o existe.


S A U D A D E

N ' a l m a , c o m o u m allivio, m e cahia,

Seu doce olhar f u l g i d a m e n t e negro,

Que os nervos m e e n l a ç a v a e entorpecia,

G o m o os ais de u m a l a n g u i d a h a r m o n i a ,

Cortada, á s vezes, de u m brilhante allegro.

E m q u a n t o o sol, n a crystallina esphera,

A b r i a u m c u r v o leque de esplendores,

P e l a m a n h ã (e e n t ã o feliz que eu era!)

C o m o o noivo gentil d a p r i m a v e r a ,

P u n h a - l h e aos p é s o m e u botcquet de flores.


140

E c o m a vista, de p a i x õ e s revolta,

Nas ancias de amoroso desvario,

Por entre a fòfa cabelleira solta,

E u v i a . . . a l l i . . . do seu p e s c o ç o e m volta

U m a s felpas de p ê e e g o m a c i o . . .

N o j a r d i m , u m a tarde, na alameda,

O n d e as sombras das arvores c a b i a m ,

T u d o o que á a m a d a u m c o r a ç ã o segreda

L h e disse... mas n e m s e i . . . oh ! tarde l e d a !

N e m sei o que m e u s lábios lhe d i z i a m . *.

Era bella, e mais b e l l a se tornava,

Si, joelho e m terra, eu lhe pedia u m beijo,

Pois que, fugindo, entre risonha e brava,

C o m duas m ã o s alvissimas tapava

A s suas faces rubidas de p e j o . . .

Á noite, m u i t a s vezes, na sacada,

Q u a n d o olhava no azul os astros, ella

Achegava-se a m i m , e, descorada,

T r e m i a de pavor, se na estrellada

A b o b a d a rolava a l g u m a estrella...
Depois, c o m o lhe n a d a acontecesse,

Daquelle m e d o ria-se á vontade,

E a c o m p a n h a v a , cheia d'interesse,

Os longos é c h o s que fazia esse

Riso nas serras e na i m m e n s i d a d e . . .

Aos bailes q u a n d o ia, do vestido

N o d e c ó t e levava u m a camelia,

Q u e eu m e s m o havia, no j a r d i m , colhido;

E todos, c o m o anhelito incendido,

Pela sala, a c h a m a v a m : — l i n d a Ophelia!

Si, de Chopin á musica, w a l s a n d o

Voava, leve c o m o u m a a n d o r i n h a ,

E u lhe p r e m i a , n u m contacto b r a n d o ,

A doce c u r v a de cintura, q u a n d o

Ella apertava a sua m ã o na m i n h a .

A s circumstancias m í n i m a s de outr'ora,

T u d o passou ante m e u s olhos, t u d o ;

M a s eu, de longe, c o m o u m sonho, agora

Vejo t a m b é m que t u d o se evapora

A u m m e u olhar chorosamente m u d o . . .
T H E S O U R O O C C U L T O

9
C i r c u m v a g a n d o u m vesgo olhar, p r i m e i r o

0 usurario medita, e n x a d a ao h o m b r o . . .

Resoluto, depois, de terra u m c o m b r o

Cava, possuido de u m t r e m o r l i g e i r o . . .

Cava... cava inda mais, com desassombro;

P o r é m , é v e l h o . . . Exhausto, o corpo inteiro

V e r g a ; a r e s p i r a ç ã o n u m derradeiro

E s f o r ç o perde, t r e m u l o de assombro.
H 4

M a s a c u b i ç a lhe da forra; o b r a ç o

Ergue, a e n x a d a d a cahe no c h ã o , soturna,

G o m o o s o m cavo dentro de u m a f u r n a . . .

Fuzila o vesgo olhar, adianta o passo...

Enfia as m ã o s na cova traiçoeira,

E, e m vez de u m cofre, t i r a . . . u m a caveira!


M A R I N H A

(A V I C E N T E D E C A R V A L H O )

R a s g a n d o a espessa n e b l i n a

De raios niveos bordada,

A s c e n d e a l u a o p a l i n a

Dos c é o s á c o n c h a azulada.

Os rochedos solitários

E s f u m a m - s e n o horisonte,

C o m o os brancos ossuarios

De u m antigo m a s t h o d o n t e .
E m c o n v u l s ã o estreméfce

A glauca esteira das ondas,

G o m o se a l g u é m revolvesse

O oceano c o m m u i t a s sondas.

As alcyones e m bando

M a l se v i s l u m b r a m nos ares,

Corno emigrantes — buscando

O u t r o clima, outros l u g a r e s . . .

T a l c o m o u m m o n s t r o m a r i n h o ,

A o longe u m n a v i o errante

loa o velame de linho

Que o vento e n f u n a arquejante.

Sobre o curvo tombadilho

Canta a alegre m a r i n h a g e m ,

N u m languoroso modilho,

A s aventuras de viagem.

O brilho das ardentias

Sobre as á g u a s p h o s p h o r è a ,

C o m o a luz das pedrarias

D e a l g u m a occulta sereia.
Dos c é o s nas a m p l a s veredas

Os astros v ã o e m e r g i n d o ,

Gomo um punhado de moedas

Que a lua vae espargindo...


J U L I A

Se a languidez que o a m o r n ' a l m a lhe entorna,

C o m o u m e s p u m e o e delicioso v i n h o ,

Afflue-lhe aos olhos n u m a doce e m o r n a

Scintillação suave de c a r i n h o .

Se a volúpia lhe cinge o corpo e torna

O lábio e m fogo, a r o u p a e m desalinho,

Vendo-se e n t ã o nas carnes que a m a d o r n a

A maciez d u l c i s s i m a do a r m i n h o . . .
x
'5°

Aia-se a m i n h a phantasia, c o m o

U m a ave, á luz as p l u m u l a s iriando,

Revoa e m torno de u m d o u r a d o p o m o ;

E, emquanto o seio vae-lhe contorneando,

Os m e u s desejos férvidos que eu d o m o ,

U r r a m nos ares, c o m o leões, e m b a n d o . . .


S O L E X T I N C T O

A/.as t ã o a m p l a s d e u - m e o seu a m ô r , que o m u n d o

Me pareceu estreito, e o c é o , t a m b é m estreito:

0 m u n d o e n t ã o deixei, d e i x e i o c é o p r o f u n d o ,

E u m m u n d o , e u m c é o criei, mas dentro do m e u peito

Fiz de minh'alma o céo, e alegre, satisfeito,

Nelía atirei u m s o l , — o seu a m ô r j o c u n d o ,

Que sobre o c o r a ç ã o , — m u n d o de trevas feito,

Jorrando a luz, o fez d'impulsos bons fecundo.


'52

A i n d a m a i s : povoei aquelle c é o d'estrellas,

— T ã o bellas illusões, a s p i r a ç õ e s t ã o bellas,—

E sobre aquelle m u n d o e r g u i castellos d ' o u r o . . .

Doudo! Extinguiu-se logo o amor immorredoum;

E no m e u peito, a g o r a , — e s p a ç o i n a n i m a d o , —

R o l a u m exctincto sol sobre u m m u n d o gelado.


V E N T U R A

Esse q u e a sorte, n u m tufão de neve,

L e v a r - l h e v i u os sentimentos magos,

Maldiga e m b o r a a vida q u e n ã o teve

Tranquilla c o m o o seio azul dos l a g o s . . .

Sempre, a teus pés, corra-me a vida em leve

E n c a n t o , e m vivo anceio, e m sonhos vagos,

A o casto olòr dessa m ã o s i n h a breve,

D e teu olhar aos tepidos afagos.


154

X altna n ã o tens u m s ó dos teus desejos,

Que eu n ã o possa, no fogo de m e u s beijos,

Grvstallisar e m doce r e a l i d a d e . . .

Passemos,' pois, sobre este escuro sólo,

E u — c o m o u m guia, t u — c o m o u m consolo,

Cantando e r i n d o nesta nossa edade.


O V E S T I D O A Z U L

A bella c ò r azul do teu vestido,

Cheio de rendas, de brocados cheio,

Eleva o m e u espirito vencido

A u m c é o ignoto n u m continuo anceio.

líeceio a queda, a eommoção receio,

Q u a n d o c o n t e m p l o , e m ê x t a s e embebido,

X a c u r v a t u r a h a r m ô n i c a do seio,

A bella c ô r azul do teu vestido.


E v e m - m e a i d é a u m a feliz m o r a d a ,

Á m a r g e m d u m a p l á c i d a Jagôa,

Por onde á noite a g o n d o l a e n c a n t a d a

Nos levasse a sorrir, boiando á toa,

E u — te beijando a c o m a desnastrada,

T u — desferindo u m a saudosa l ò a . . .
D U A S P H A S E S

Estavas, q u a n d o m e acheguei, f o l h e a n d o

U m livro, e n'elle p u n h a s a a t t e n ç ã o :

Leve, do o u v i d o á c o n c h a delicada

Eu segredei-te u m a p a l a v r a a m a d a . . .

T u m e d i s s e s t e : — N ã o .

Tres semanas depois, voltando, achei-te

E m r o u p ã o , a passear, no teu j a r d i m :

A p p r o x i m e i - r n e , e v i q u e estavas triste;

A m e s m a cousa disse-te — s o r r i s t e . . .

T u m e disseste: — S i m .
15»

D o m e u passado, sob os olhos, hoje,

C a h e - m e , ó flòr, este caso o r i g i n a l . . .

E a m i m p e r g u n t o , e a t i , m i n h a e x - a m a n t e :

((Qual de n ó s a m b o s foi o m a i s constante,

O m a i s constante, q u a l ? »
O L H A R D E M Ã E

N a a l m a , p o r entre as coleras funestas

D a sorte, c o m o u m salutar conselho,

M i n h a bíblia de luz, m e u evangelho,

Ó doce e a m a d o olhar, i n d a m e restas.

Como um crystal de virginaes arestas

Sobre u m golphao voraginoso e velho,

— L u z do sagrado altar onde m e ajoelho,

A c l a r a n d o - m e a vida, a paz m e prestas...


N ã o creio e m D e u s a l g u m ; e n t a n t o e u creio

E m t i , de b ê n ç ã o s e d o ç u r a s cheio,

Que a santa religião do b e m m e ensinas.

Si um dia o fado o coração ruinoso

F i z e r - m e , — ó casto o l h a r , — l u a r saudoso,

Chorando, alveja as pedras das r u i n a s . . .


A M A S C A R A

(A C O R T E B R I L H O )

Depois de amal-a, eu tenho de esquecel-a,

D i s s i m u l a n d o n u n c a haver a m a d o ,

C o m o si o a m o r , — c o n s o l a d o r a estrella,

D o peito m ' o tivessem arrancado.

Vèl-a no meu caminho e, desgraçado,

D i s s i m u l a r n ã o ser visto p o r ella!

A m a l - a s e m p r e , e s e m p r e , allucinado,

Fingir n a vida q u e detesto v ê l - a !


Collada ao rosto a m a s c a r a i m p a s s í v e l ,

A p l ú m b e a m a s c a r a da indifferença,

A r d e entre n ó s o inferno do i m p o s s í v e l .

Ainda assim viver por longos annos

E u quizera,— vivendo, nesta c r e n ç a ,

De desenganos sobre d e s e n g a n o s . . .
V I O L E T A S

(A P A U L O P R A D O )

Tonitruoso, n'amplidao estale

O raio; o c é o d'escuras nuvens cheio

Despeje a c h u v a , — a c h u v a no entre-Seio

D o valle caia, e i n u n d e todo o valle.

O temporal a tudo num bloqueio

Ponha, rouco, estou raz, c o m o u m t i m b a l e :

Q u ' i m p o r t a ! N a d a , nesta vida, vale

C o m o á noite beijar-se u m m o r n o seio...


IÒ4

Á m a n h ã , ao j a r d i m , q u a n d o t u fores,

D a m a formosa, olhar as tuas flores,

— Tuas roxas violetas feiticeiras,

Nenhuma encontradas, chorosa... Entanto

N o s teus olhos verei, cheias de pranto,

As violetas gentis cie u m a s olheiras!


E S C R E V E ! . . .

(A A L F R E D O P U J O L )

•. .Pois imagina então que ella, pensando

E m t i , c o m o t u pensas nella, agora

(Só p o r q u e t u n ã o lhe escreveste) chora,

M a s afinal desculpa-te, c h o r a n d o . . ,

Espera mais um dia... Hora a hora,

Passa u m a noite, pavida, fitando

O r e l ó g i o . . . por f i m ergue-se, q u a n d o

M a l se v i s l u m b r a no levante a aurora.
A b r e a janella.—Canta-lhe a e s p e r a n ç a

N o seio, c o m o os p á s s a r o s á m a n s a

%
L u z que jaspeia o c é o . . . Mas afinal

Não lhe escreveste, bárbaro, uma linha.

E ella, pensando q u e essa carta v i n h a ,

E s p e r a . . . (Vê que t ú fizeste m a l . . . )


O B E I T O D A O N D A

Ia do m a r na superfície u m friso

L e v e o batei d e i x a n d o . . . 0 bateleiro

Gantava á p r ô a , t e n d o e m frente o liso

E c a l m o plaino azul do m a r fagueiro.

De espaço a espaço vinha-lhe um sorriso

Á flôr do l á b i o . . . — É que elle, prazenteiro

Tlevia n ' a l m a u m vago p a r a í s o ,

' O " p a r a í s o de u m a m o r p r i m e i r o . . .
i68

Cantava, solto o r e m o . . . Nisto a vela

Rompe-se, e m p o l a o m a r , silva a procella

Nas á g u a s . . . S ú b i t o o batei n a u f r a g a . . .

E o bateleiro, em ancias delirando,

Cuida a noiva gentil beijar,— beijando

O r e g a ç o e s p u m o s o d u m a v a g a . . .
O R E L Ó G I O .

(A J. A . P E R E I R A D E Q U E I R O Z )

Disse-me: — « P o u s a a tua m ã o e m c i m a

Do m e u seio, e depois, attento, escuta:

B a t e . - , n ã o ouves? n a d a que o r e p r i m a

Existe, e bate, s e m p r e e sempre, e m l u c t a . . .

« O que m e t o r n a alegre, o que m e enlucta,

T u d o o que estimas e m i n h ' a l m a estima,

Doce illusão o u realidade bruta,

N a d a o amortece, n a d a o desanima. »
i ; o

E sobre aquelle seio, casto e branco,

A m i n h a m ã o pousei; tranquillo e f r a n c o ,

Puz-nie a escutar-lhe o c o r a ç ã o b a t e r . . .

Ma tanto tempo que isto foi... Agora,

C o m o u m relógio que n ã o d á m a i s hora,

O c o r a ç ã o p a r o u d'essa m u l h e r .
A U D È P A R T

B e m v ê s , senhora, eu c u m p r o u m a etiqueta

E m v i r dizer-te adeus;

T o m e i p o r isso u m a farpella preta,

D a c ô r dos olhos teus.

H o j e e m dia n ã o ha u m pobre diabo

O u e se n ã o traje assim,

Seja u m artista o u seja a l g u m n a b a b o

T r a z e m farpella, e m t i m .
172

N ã o ha r a z ã o para levar c o m i g o

R a n c o r a l g u m sequer,

As curtas horas que passei c o m t i g o

F o r a m sonhos, m u l h e r .

Sonhos que passam, r á p i d o s , n a vida,

Mas que m a l t r a t a m b e m ,

Pois q u a n d o vê-se u m a illusão perdida,

A h ! chora-se t a m b é m .

E e m nosso peito u m a d e s c r e n ç a a m a r g a ,

C o m o avalanche, cahe;

E p a r a longe o a m o r as azas larga

N u m derradeiro a i . . .

Esta alegria juvenil nos foge,

Foge, e n ã o volta; e n ó s

L o g o sentimos, a m a n h ã ou hoje,

U m a tristeza atroz.
I I

J á te disse ao que v i m . . . S e r á b e m pouca

A m i n h a a u s ê n c i a , c r ê . . .

Mas voltarei? esta c a b e ç a louca

Pensa n ã o sei e m q u e . . .

A m a n h ã , n u m navio, m a r e m fóra,

Estarei no convez,

O l h a n d o a m o b i l v a s t i d ã o sonora

R e b e n t a r a m e u s p é s .

Gomo uma alva oceanitide, minh'alma,

Solta no e s p u m e o v é u ,

C o m o e n t ã o s e r á bello, e m noite calma,

Ver-se entre o m a r e o c é o !

No oceano vêem-se largos horisontes,

N o v o ar, n o v a l u z ;

A v i d a alli, c o m o nos altos montes,

N o v a s f o r ç a s produz.
174

O corpo se nos enche de s a ú d e ,

A a l m a de esplendor;

N a d a nos tenta, n a d a nos illude

Das ondas ao r u m o r .

I I I

Eu n ã o creio que tomes isto a serio,

N ã o m e fizeste m a l ;

T e n h o no entanto agora u m ar funereo,

E m vez de jovial.

Talvez seja um effeito da sombria

Côr do m e u f a t o . . . a c ô r

Influe muitas vezes na alegria,

Muitas vezes na dor.

Si ao lábio a m i n h a voz, t r e m u l a , e x p i r a ,

A o f a l l a r - t e . . . P e r d ã o ,

É que u m a noite destas eu sentira

U m a c o n s t i p a ç ã o .
E n c a r a s - m e . . . Talvez penses que é p r a n t o

Isto nos o l h o s . . . mas

B e m sabes q u e m e d ó e nos olhos tanto

A c r u a luz do gaz.

R i o - m e a t é p o r ler-te no semblante

Esse e r r ô n e o p e n s a r . . .

Seria m e s m o b e m interessante

Que m e visses chorar:

B e m v é s , senhora,—escravo da etiqueta,

Quiz apertar-te a m ã o . . .

F a r á m a l q u e eu te r o u b e esta violeta,

C o m o r e c o r d a ç ã o ?
P A G I N A E S C U R A

( A M E U P A E E. J. D E O L I V E I R A Q U E I R O Z )

G e l i d a m e n t e b r a n c a v i outr'ora,

E n t r e as planchas de u m f ú n e b r e a t a ú d e ,

Essa p o r q u e m c h o r o u e a i n d a c h o r a

O g r a n d e a m o r de m i n h a j u v e n t u d e .

Lembra-me até como si fosse agora :

Prostrado e s ó , nesta e x i s t ê n c i a rude,

S u b i t a m e n t e v i - m e á q u e l l a hora,

D u r a e t r e m e n d a , e m que chorar n ã o pude.


178

A o longe, o r i o , as arvores, o vento,

G o m o u m còro de cytharas chorosas,

S o l u ç a v a m de d ò r nesse m o m e n t o .

Eu via que ella olhava e não me via;

M u r c h a s f i c a r a m do seu lábio as rosas,

E eu, perdendo-a, n e m soube o que p e r d i a . . .


Á S V I C T I M A S D A A N D A L U Z I A

V e d e : — o sólo, estrugindo, se a b r e . . . Os rios

A s p e r a m e n t e m u g e m nos abysmos,

D o n d e u m a espessa n u v e m de s o m b r i o s

G e m i d o s e ais rebenta e m p a r o x i s m o s .

De meio a meio fendem-se os rochedos

E x p l o s i n d o e m tarantulas de c h a m m a ,

Que i n c e n d e i a m os seccos arvoredos,

A t e r r o r a n d o m a i s aquelle d r a m a . . .
iSo

T o r v e l i n h a m as arvores, mostrando,

N u m esforço tétanico, as r a í z e s . . •

As avalanches r o l a m , esmagando,

N a passagem, milhares de infelizes.

Os volcões, c o m o válvulas da terra,

H o r r i d a m e n t e , pelas negras boccas,

G o m o u m p e n d ã o phantastico de guerra,

F u m o despejam e m golphadas roucas.

A l h a m b r a r u e . . . Talvez que o Cid, o Forte,

Cercado de seus validos guerreiros,

Fosse da H e s p a n h a a d e p l o r á v e l sorte

Chorar, corno u m phantasma, entre os salgueiros.-

Através dessa misera hecatomba,

O povo exangue, e m l a g r i m a s e luto,

Desfallece, delira, g e m e e t o m b a

Das r u i nas torvas no silencio bruto.


J a r d i m d a Hespanha, pobre A n d a l u z i a !

N ã o m a i s c h o r a e m teu seio a serenada,

Que, e m noites de luar, de poesia,

A c o r d a v a no leito a flòr a m a d a . . .

Sob os teus verdes laranjaes floridos,

A o p ô r do sol, n ã o m a i s r u f a o pandeiro,

N e m a g u i t a r r a solta m a i s g e m i d o s

Aos sons da voz do p o b r e aventureiro.

E, a i ! e m Granada, Gordova e Sevilha,

— M o n u m e n t o s de p o é t i c a legenda —

A m o r t e canta, e m vez da seguidilha,

F é r r e o s tercêtos de t r a g é d i a horrenda.
N E V E S E T E R N A S

És fria c o m o a nevoa alvissima do m o n t e ,

Que n u m sudario envolve u m rutilo horisonte.

Nunca sentiste o amôr—essa ave arribadora

Abrigar-se e m t e u s e i o — u m n i n h o c ô r d'aurora!

No entanto, és muito bella... arrastas preso ás trancas

Muito sonho de a m o r d o u r a d o de e s p e r a n ç a s . . .

Arrastas fascinado aquelle que te olha,

Porque u m sorriso estranho e acerbo se desfolha

M
l 8
4

N a ponta do teu lábio ardente e p u r p u r i n o ,

Q u e a respirar m u r m u r a u n i som... u m canto... u m h v m n o . . .

No teu olhar se vê um fluido que electrisa,

Que encanta, que seduz, q u e a todos t a n t a l i s a . . .

O teu perfil nervoso, esbelto, grande e nobre

I m p õ e - s e a toda a gente: ao rico, ao pária, ao pobre.

Tanto attractivo tens nos modos e nos gestos

Q u e r o j a m aos teus p é s ô s h o m e n s mais funestos

De uma alma purulenta —uma alma torpe e abjecta

Q u e de vicios senis a sociedade infecta.

Mas... passas orgulhosa e fria e indiíTerente,

S e m v ê r q u e p o r t i s ó anceia toda a gente.

E tens no grande olhar uns brilhos de cutello,

E no seio, t a l v e z . . . u m c o r a ç ã o de gelo.
R E L Í Q U I A S

Pelas noites m o n ó t o n a s do i n v e r n o ,

O r a m e i g o , o r a triste, ora tranquillo,

E u beijo-as todas, o h p e n h o r eterno!

E m seu sagrado asylo.

Aspiro melancholico e saudoso

O p e r f u m e subtil das m u r c h a s - f l ò r e s ,

Esse r e s q u í c i o pallido e choroso

D o s m e u s castos amores.
i?6

A s cartas eu releio-as decorando

Por vezes u m p e r í o d o sentido,

O n d e su'alma n u m q u e i x u m e brando,

E x h a l a v a u m g e m i d o .

Em meio dumas fitas perfumadas

D o seu retrato eu vejo o olhar sereno,

C o m o eu j á v i nas paginas sagradas

O olhar do Nazareno.

Illuminá-lhe a bocca breve e rara

U m sorriso de a n g é l i c a d o ç u r a ;

As alvas m ã o s do m a r m o r de Carrara

E x c e d e m a brancura.

Em caracóes deslisa a trança loura

N a o n d u l a ç ã o artistica do seio;

U m ideal e s t e m m a sobredoura

A sua fronte e m m e i o . . .
V E R S O S R O M Â N T I C O S

Vi-te b e m t a r d e . . . eu s e i . . . M a s c o m o agora

Volver atraz, se a noite m e apavora?

Se outro norte, o u t r a luz, o u t r o destino,

Cégo de p r a n t o e dor, n ã o descortino?

Se na vereda atroz que se me antolha,

R ô t a , suja de p ó , folha p o r folha,

Irei d e i x a n d o a flor dos m e u s amores,

— A m a i s q u e r i d a flor de m i n h a s f l o r e s . . .
T88

D i r á s : — Q u e i m p o r t a ! — E u c r e i o . . . que te i m p o r t a

U m sonho extincto, u m a illusão j á m o r t a ,

— Floreo n i n h o a boiar na correnteza?

E meus ais, minha dor, minha tristeza?

— S i m , n a d a sentes, m e u gentil verdugo,

E m quanto m i n h a s lagrimas e n x u g o . . .
D A P A S T A D E U M L Y R I C O

H o n t e m , á noite, ao recordar-me delia,

N a solidão t r i s t í s s i m a e m que vivo,

P u l s o u - m e tanto o c o r a ç ã o captivo

Q u e pensei n U n c a m a i s poder eu v e l - a . . .

Uma lagrima, como lenitivo,

O r v a l h o u - m e o p a p e l . . . N e n h u m a estrella

E u v i j a m a i s b r i l h a r no azul c o m o ella:

T u d o s o r r i u - m e ao seu fulgor t ã o vivo.


Atravez dessa gotta crystallina,

O n d e ria-se a luz, t r e m u l a m e n t e ,

E u p u d e ver-lhe a bocca p u r p u r i n a . . .

E eu, que chorava, agora estou contente,

P o r q u e entrevi na l a g r i m a d i v i n a

O rosto ideal de m i n h a a m a d a ausente.


A U M A C R E A N Ç A M O R T A

A c o m p a n h e i o prestito funereo

Q u e m a r c h a v a e m silencio e n o r m e e f u n d o ,

L e v a n d o ao c e m i t é r i o

U m a c r e a n ç a — u m anjo deste m u n d o .

Muda e soturna a multidão fitava

A q u e l l a flòr de u m dia,

— B o t ã o de flòr q u e e m sonhos abrolhava.

L e v a d o ao sopro d a nortada f r i a . . .
E n t e r r a v a m - n a , q u a n d o

V i n h a a noite dos c é o s azues t o m b a n d o

C o m o u m e n o r m e corvo n a a m p l i d ã o ;

Emquanto, envolto em sombras de tristeza,

N o lar, d a sorte — m i s e r a n d a presa!

G e m i a u m c o r a ç ã o . . .
A M O R

Pelos a b y s m o s concavos dos ares,

Q u a n d o fitas a a b o b a d a estrellada,

Seguem-te a a l m a , seguem-te a sagrada

M e d i t a ç ã o — m e u s fervidos s c i s m a r e s . . .

Tua pupilla azul então banhada

De a m o r sereno c o m o o azul dos mares,

V e r t e - m e n ' a l m a t r e m u l a , extasiada,

U m a c h u v a de l í m p i d o s luares.
194

A m o a luz, a m o o p á s s a r o , a m o as flores,

A estrella, a noite, a aurora, os resplendores,

E u a m o e m f i m u m deus — a natureza.

Mas o amor que te sagro —é bem mais fundo

Que esse o u t r o g r a n d e a m o r , é, c o m certeza,

Mais brilhante, m a i s vasto, mais p r o f u n d o . . .


O S A L C H I M I S T A S

Os a l c h i m i s t a s , — d o u d o s pertinazes,—

U m a e s p e r a n ç a a a l i m e n t a r v i v i a m ,

Á luz dos cabalisticos m a t r a z e s

O n d e os c a r v õ e s , phantasticos, a r d i a m . . .

Rasgando á nova sciencia üm novo rumo,

A l g u n s m o r r i a m , c o m o h e r ó e s valentes,

N u m a a t m o s p h e r a t u r g i d a de f u m o ,

A o brilho c r ú dos m i n e r a e s candentes.


196

Partiam-se as retortas m u i t a s vezes:

Os m í s e r o s soffrendo esses revezes

I n d a a g u a r d a v a m o f e r m e n t o d ' o u r o . . .

— Assim trabalho, num fervor insano,

Para f u n d i r n u m m o l d e s o b r e h u m a n o ,

M e u ideal — m e u ú n i c o thesouro.
P A S S E I O M A T I N A L

Encosta-te ao m e u h o m b r o . . . esta collina

T e m a subida Í n g r e m e , e s c a r p a d a . . .

P á r a s . . . M a s n ã o v ê s c o m o a c a m p i n a

A o longe ri-se aos fogos d a alvorada?

E os astros d'ouro, na cerulea umbella,

F o g e m do oriente á luz que se d e r r a m a ?

V a m o s , c o r a g e m ! v a m o s do alto delia

C o n t e m p l a r este vasto p a n o r a m a ! . . .
s

198

Envie-nos o sol u m t ê n u e raio

P a r a dourar-te a fronte que e m d e s m a i o

P e n d e c a n g a d a e t r e m u l a . . . E c h e g a m o s !

Fita naquella viride planura

U m a c a s i n h a . . . Pois f o i lá (ventura!)

Que outr'ora i n d a c r e a n ç a s nos a m á m o s !


A U M V E T E R A N O

Eil-o j á v e l h o e encanecido — o b r a v o

E valente g u e r r e i r o d'outras é r a s ,

Q u e corria da p á t r i a e m desagravo

A c o m b a t e r t e m i v e l c o m o as f é r a s . . .

Das bastas cans os flocos prateados

C o r ò a m - l h e a c a b e ç a gloriosa,

C o m o t r o p h e u s de louros conquistados

D a s balas na floresta estrepitosa.


200

N a s noites frias, ao soprar dos ventos,

A o p é do fogo o b r a v o conta aos centos

Essas historias t r á g i c a s da g u e r r a . . .

E tremulo de espanto e de enthusiasmo,

í)o ardor guerreiro no febril espasmo,

C u i d a ouvir u m c l a r i m de serra e m s e r r a . . .
A P R I M A V E R A

T u g i n d o v a i o i n v e r n o . . . A p r i m a v e r a

E n c h e de luz o cálice das flores;

Y ó a o insecto no azul, c o m o a c h y m e r a

T a m b é m recorta o azul dos m e u s amores.

N o s aditos d a m a t t a as serpes de hera

A c u r v a m - s e c o m o arcos vencedores,

Por o n d e passa t r i u m p h a n t e a fera

A o r u b r o s o m d a m u s i c a das cores.
2()2

T r i n a m aves v o a n d o e m d o u d a festa...

Pendura-se das r a m a s da floresta

A p a r a s i t a . . . E o sol glorioso, ufano,

Um punhado de luz no espaço atira...

E c o m o t r e m e e canta a m i n h a lvra

«Oh! p r i m a v e r a , gioventú d e l V a n n o ! »
R U Í N A S

A n t e u m m o n t ã o de r u i n a s pezarosas,

Cheias de m u s g o , de hervas e n l a ç a d a s

P o r entre as pedras soltas, despegadas

D o t e m p o avaro pelas m ã o s irosas;

Donde fogem, sinistras, tenebrosas,

E m l o n g o b a n d o , as aves espantadas,

T o r n a n d o as m u d a s ruinas desoladas

Mais desertas, m a i s tristes, m a i s saudosas.


204

A n t e u m a s ruinas negras c o m o a noite,

Por o n d e zune s a c u d i n d o o a ç o u t e

Do vento o sopro l a c r y m o s o e triste:

Sinto no peito o coração gelado,

Pois m e l e m b r o q u e t u , lyrio adorado,

M e u c o r a ç ã o a ruinas reduziste.
T a n t a vez eu ouvi, arrebatado, attento.

N a p r o f u n d a m u d e z da noite magestosa,

A e n c a n t a d o r a voz cheia de s e n t i m e n t o

Que ao p i a n o desfolhava essa m u l h e r formosa,

Q u a n d o o m é s t o l u a r lhe prateava a v i d r a ç a ,

Ella d e i x a v a ouvir, apaixonada, inquieta,

U m a romanza triste, u m t h r e n o que trespassa,

C o m o u m d a r d o de luz, o c o r a ç ã o de u m poeta.
206

C o m o e u gostava e n t ã o , attonito, surpreso,

D e abrir o H e i n e e ler o lvrico I n t e r m e z z o ,

Ao mavioso s o m dessas c a n ç õ e s d i v i n a s . . .

E, estranha phantasia! abi julgava insano

Que por todo o m e u ser cahia ao s o m do p i a n o

U m a cascata azul de notas c r v s t a l l i n a s . . .


N O S E R T Ã O

0 m e u cavallo i m p a c i e n t e

G a l o p a n d o pela estrada

C a m i n h a p r é s t o na frente,

E á m a n s a luz da a l v o r a d a

Sacode a c r i n a luzente.

A o perto collêa o rio,

Claro, onduloso, irisante,

E e m ledo b a n d o erradio

A passarada inconstante

R o c a - l h è o dorso m a c i o - . .
N o peristylo da m a t t a

A trepadeira e m c o r y m b o s

Cobre a verde c o l u m n a t a ,

Orlada de estranhos n i m b o s

Que o sol desfia e m cascata.

N a e n r e d i ç a da r a m a g e m

S o p r a m , cantando á surdina,

L u fadas frescas de a r a g e m

Que m e t r a z e m da c a m p i n a

U m santo a r o m a selvagem.

Ardentes c o m o scentelhas,

Z u m b e no ar i n f l a m m a d o

O louro e n x a m e de abelhas,

R e c o l h e n d o o m e l d o u r a d o

Das parasitas v e r m e l h a s .

Desde o c a b e ç o a t é a fralda,

Das m o n t a n h a s alterosas

A v u l t a a g r a m i n e a espalda,

Cheia de chispas radiosas,

C o m o u m a e n o r m e esmeralda
209

O s a n g u e m e tonalisa

D a s f l o r a ç õ e s a frescura,

D a n d o - m e a f o r ç a precisa,

E esta seivosa v e r d u r a

M e u s p u l m õ e s oxigenisa.

E e m q u a n t o ao p á r a m o lindo

A s c e n d e o sol glorioso,

P o r este s e r t ã o infindo

O m e u cavallo fogoso

Bufa, g a l o p a n i t r i n d o . . .

14
\
T R A N S F O R M A Ç Õ E S

(AO D R . A M É R I C O D E C A M P O S )

A m o r t e n ã o m e espanta, eu sei que a v i d a

T r a n s f o r m a - s e e renasce de m i l m o d o s :

P á s s a r o o u flor... Nesta e v i t e r n a lida

V i v e m , m o r r e n d o , os o r g a n i s m o s todos.

Desde o infusorio ao ente mais perfeito,

N a d a se perde; t u d o resuscita:

T a l v e z de a l g u é m u m á t o m o desfeito

P o s s u a o c o r a ç ã o q u e e m m i m palpita.
212

Talvez d ê m a i s p e r f u m e ao casto lyrio

D e u m m o r i b u n d o o derradeiro alento,

D e u m olhar talvez seja a luz de u m c i r i o . . .

Talvez seja u m philosopho o cypreste,

Que, e m noites de luar, c o m o u m l a m e n t o ,

A o c é o p e r g u n t e : — Q u e viver é e s t e ? —
R E C U E R D O

D e p o i s d a c o n f i s s ã o que t u m e ouviste,

D o m e u a m o r a c o n f i s s ã o singela,

E u m e l e m b r o . . . essa noite, a m e d o , e triste,

P e r g u n t a s t e si eu lia a Graziella.

C o m o n u m sonho, e n t ã o , de L a m a r t i n e

A d o c e a m a n t e e u v i , pallida e bella;

E, n u m gesto q u e a falia n ã o define,

E u te disse que lia a Graziella.


214

E m duas t r a n ç a s , tua c o m a escura,

Solta nos h o m b r o s , m e l e m b r o u , donzella,

(Santa visão de a m o r que e m m i m perdura!)

As t r a n ç a s virginaes de Graziella.

Sonho, e não deixo de sonhar ainda,

A o m e l e m b r a r daquella n o i t e , — a q u e l l a

E m que, t o m a d a de u m a angustia infinda,

Perguntaste si lia a Graziella.


A M A T T A V I R G E M

. .. • 1

D a s mattas v i r g e n s no seio

T u d o t e m v i d a . . . P o r t u d o

V ê - s e o r e c ô n d i t o anceio

D e u m o l h a r ardente e m u d o

D a flòr nos.leves pistillos

F o r m a - s e o póllen d o u r a d o

Q u e voa,aos ares tranquillos.

Pelas aragens l e v a d o . . .
Distiltam vivos a r o m a s

A s floreas c a ç o u l a s d ' o u r o ,

G o m o odorantes r e d o m a s

Deste e n c a n t a d o thesouro.

E m voluta bella e tosca

D e u m a f o r m a c a p r i c h o s a

A m a d r e - s i l v a se e n r o s c a

Pela c ú p u l a f r o n d o s a .

O n i n h o m u s g o s o e fofo

Suspenso a u m r a m o florido

Parece feito de estofo

D e u m engenhoso tecido.

Neste verde e irial delúbro,

O sol nascente, explosivo,

T i n g e a f o l h a g e m de r u b r o ,

D o colorido m a i s v i v o . . .

A s aves v o a m e m b a n d o

D e m i l variegadas cores,

E v i v e m s e m p r e c a n t a n d o

O idyllio de seus a m o r e s .
217

A luz vital p e n e i r a d a

Pela f o l h u d a r a m a g e m

Veste u m a seiva s a g r a d a

E m cada p l a n t a selvagem,

T r a n s m u d a as gottas de o r v a l h o

N a m a i s rica p e d r a r i a

Facetada c o m o t r a b a l h o

D e paciente phantasia.

E m t u d o a v i d a b o r b u l h a . . .

D e s d e o estribilho das aves

A t é a m í n i m a b u l h a

H a m e l o d i a s s u a v e s . . .

Nas mattas de seiva cheias,

P a r a o n d e v i m quasi e x a n g u e ,

Sinto q u e t e n h o nas veias

Mais u n s g l ó b u l o s de s a n g u e . . .
N O V O S B A R D O S

( A L U I Z M U R A T )

RAYMUNDO CORRÊA

Como um florão numa espiral senrola

A o bello p l i n t h o d ' u m a estatua, a i d é a ,

D o c e e h a r m o n i o s a c o m o u m a alva rola,

D e seus versos no m á r m o r e se enleia.

O fogo do estro fervido, nervoso,

Q u e lhe f e c u n d a o espirito, f u n d i r a ,

N u m d i v i n o crysol maravilhoso,

A s cordas t r i u m p h a e s de sua lyra.


220

A p r i m e i r a a u d i ç ã o das « S y m p h o n i a s »

V i b r o u - m e n ' a l m a as e m o ç õ e s sadias,

C o m o os cantos q u e A b r i l e m t u d o a c o r d a . .

Que a m ã o lyrial de tua m u s a , artista,

Jamais deixe o buril q u e a estrophe borda,

E a i m a g e m lavra c o m o u m a amethysta.
I I

T H E O P H I L O D I A S

Phantasio u m salão, q u a n d o o releio,

O n d e e m jarras de fina t r a n s p a r ê n c i a

L y r i o s v a p o r a m d o v i r g i n e o seio

O n d a s e ondas de subtil e s s ê n c i a . . .

A myrrha, o nardo, o aloès ardem nas pyras...

R o m p e o c o n c e r t o : o b a n d o l i m r e s ò a ,

A g u z l a g e m e a c o m p a n h a n d o as lyras,

E o violino e m l a g r i m a s se e s c o a . . .
222

E m m e i o desta m u s i c a enervante,

Que a a l m a nos leva, aligera, surpresa,

Pelo c é u da u t o p i a azul, distante,

Rompe uma orchestra valida e sonora,

O h y m n o t r i u m p b a l d a « M a r s e l h e z a » ,

G o m o u m c a n h ã o salvando a luz d'aurora.


I I I

A L B E R T O D E O L I V E I R A

É alegre a sua musa... Quando o dia

D e faixas d'ouro cinge o calvo m o n t e ,

Ella, e m p u n h a n d o a t a ç a d'alegria,

S a ú d a o sol q u e a s s o m a no horizonte.

Gosto de vel-a, de manhã, sorrindo,

C o m o avental de pedrarias cheio,

P o r m o n t e s e p o r valles desferindo

U m a c a n ç ã o n u m l i m p i d o gorgeio.
I

224

O r a canta, o r a r i , ora a c o m p a n h a ,

N a s grutas de crystal d ' u m a m o n t a n h a ,

A c o r é a das D r y a d e s f o r m o s á s . . .

Ás mãos cheias, depois, atira aos ares,

Q u a n d o , r i s o n h a , se recolhe aos lares,

U m a c h u v a de pedras p r e c i o s a s . . .
I V

A U G U S T O D E L I M A

A poesia brota-lhe fecunda,

C o m o u m a densa, tropical floresta,

O n d e floreja o p a m p a n o , a giesta,

Q u e a luz de seiva e m g o r g o l õ e s i n u n d a .

Escancaram-se abysmos — cnde, em sanhas,

R o n c a e e s t r e p í t a , caudaloso, o r i o ;

D o p a c h y d e r m e vê-se o o l h a r s o m b r i o

A p a v o r a n d o as s o l i d õ e s e s t r a n h a s . . .
226

Das arvores no dedalo frondoso,

A f o r m a , a còr, o fructo, o a r o m a , o canto,

D ã o aos sentidos u m p r o f u n d o g o s o . . .

Antistite do bello, com certeza

N i n g u é m c o m o elle adora e eleva t a n t o

A casta religião da natureza.

I
V

A R T H U R A Z E V E D O

É preciso t a m b é m q u e a gente ria

De seus c o m p a r s a s n a c o m e d i a h u m a n a ,

C u j o scenario — a T e r r a — s c i n d e a fria

M u d e z d o e s p a ç o n ' u m a c u r v a insana.

Sobre a E u r o p a , Cervantes e M o l i é r e

P a s s a r a m c o m o duas g a r g a l h a d a s . . .

— O riso é c o m o o bisturi q u e fere

F u n d o , e r e t a l h a as carnes gangrenadas
228

G o m o do lápis G a v a r n i v i b r a v a

Settas sobre u m a g e r a ç ã o escrava,

D e vicios asquerosos carcomida,

V i b r a s c o m a p e n n a a satyra m o r d e n t e

Contra esta sociedade indifferente

A o doloroso frenesi da v i d a . . .
V I

L U I Z G U I M A R Ã E S J Ú N I O R

A p a y s a g e m f o i esta q u e n a m e n t e

O seu livro t r a ç o u - m e : — e m f i o , sobre

A r e i a de oiro, m u r m u r a c o r r e n t e

F o ç e , r e g a n d o u m florejante alfòbre.

Vê-se uma turma de gentis crianças,

A q u i e a l i , c o r t a n d o r o s a s . . . P e r t o ,

A m ã e as v ê e r i . . . P o r sobre as f r a n ç a s

P a p e i a m aves n u m gazil concerto.


3o

Passa e repassa u m colibri d o u r a d o

Sobre t o u ç a s de a n e m o n a s ; de u m lado

E de o u t r o voa, e some-se v o a n d o . . •

Se alguma nuvem ha que a dôr exprima

N a paysagem, t a m b é m se avista, e m c i m a ,

O eterno c é u azul se d e s d o b r a n d o . . .
V I I

G O N Ç A L V E S C R E S P O

C o m o u m m o d e l o d a estatuaria antiga

T a l h a d o e m fino m á r m o r e de rosa,

P o e t a , — elle, d'arte n a genial fadiga,

M a r m o r i s o u a i n s p i r a ç ã o fogosa.

De imagens uma chlamyde impolluta

B o r d a v a s e m p r e ao seu a m o r v i o l e n t o ;

C o m o P y g m a l e ã o á p e d r a b r u t a

D é r a contornos, v i d a e s e n t i m e n t o . . .
A r r u l h o s d'ave, silvos de serpente,

A r o m a s de violeta, luz dolente

D e saudosos luares, tons diversos,

Tudo o que ao poeta, ás súbitas, fascine,

Elle tudo e m p r e g o u , novo Cellini,

N a bella cinzelura de seus versos.


4

V I I I

F O N T O U R A X A V I E R

Vüo-se-lhe os versos, ríspidos, vibrando,

N a v e h e m e n c i a dos ó d i o s concentrados,

G o m o se e u visse desfilar m a r c h a n d o

U m b a t a l h ã o valente de soldados.

Doiram-lhe a estrophe as syllabas flamantes,

C o m o f u l g u r a ç õ e s de meteoros,

E p a s s a m , c o m o aligeros d i a m a n t e s ,

A a l m a e s p a l h a n d o e m t u r b i l h õ e s sonoros.
234

D e suas r i m a s atravez, o u v i n d o

E u fico, ao longe, o s o m q u e faz a q u é d a ,

A q u e d a e n o r m e de u m titan r u i n o s o ;

E vae-me n'alma fundo percutindo,

D e u m a alvorada á r u b r a labareda,

O vivo toque de u m c l a r i m g l o r i o s o . . .
/

P O E M A S D O L A R

(A D . A N G E L I N A D E Q U E I R O Z )

L i n d a ! n ã o h a c o m o e l l a , — a travessa F a n t i n a ,

Q u a n d o c h o r a e sorri, q u a n d o sorri e c h o r a :

O rosto esconde atraz d a p a l m a pequenina,

P o r é m d e i x a escapar, q u a n d o a c a b e ç a inclina,

U m a g o t t a de pranto, u m sorriso de aurora.


236

Esse roseo e lyrial c o r p i n h o de tres p a l m o s ,

— A crystallisação de u m beijo a b e n ç o a d o , —

I n s p i r a - m e n ã o sei que p e n s a m e n t o s calmos,

Q u e i d é a s virginaes, que a m o r , que sonhos almos,

G o m o o p r i m e i r o alvor de u m dia de n o i v a d o .

Gomo que sobre mim canta um coro de estrellas,

Revelando o mysterio ideal do p a r a í s o ,

O n d e anjos t r i u m p h a e s , — l o u r a s c a b e ç a s bellas,

Envoltas no esplendor de brilhantes capellas,

T ê m o seu m e s m o olhar, o seu m e s m o sorriso.

E neste enlevo, e neste encanto, e n'este sonho,

Junto dessa c r i a n ç a eu s i n t o - m e c r i a n ç a :

G o m o a p a l m e i r a a p ó s u m deserto m e d o n h o ,

Beijo-a, levando assim, c o m o p r ê m i o risonho,

P a r a as lutas da vida a p a l m a d a e s p e r a n ç a .
I I

( A O R A U L )

Essa frágil creatura

De alguns dias de e x i s t ê n c i a

D á - m e este sonho — a v e n t u r a ,

D á - m e esta f o r ç a — a innocencia.

D e joelhos a c o n t e m p l o

N o b e r ç o , e fico sonhando,

C o m o si^dentro de u m t e m p l o

E u estivesse r e z a n d o . . .
E nas azas da e s p e r a n ç a

Passa-me n ' a l m a enlevada

A visão dessa c r i a n ç a

— Espiritualisada...

Vejo-a ascendendo, ascendendo,

A c i m a do m u n d o , quasi

N o s c é o s d e s a p p a r e c e n d o

N u m a finissima g a z e . . .

Nesse c a m i n h o siderio,

Entre as estrellas aberto,

Parece a v i d a — u m m y s t e r i o

Parece o m u n d o — u m deserto.

Pontas de azas luminosas

B a t e m no a z u l ; as espheras

C a n t a m , — b o c c a s m y s t e r i o s a s — y

Os h y m n o s das primaveras.

E vejo-a mysticamente,

Entre os anjos bemfazejos,

N u m a gaze alvi-nitente

De aromas, caricias, b e i j o s . . .
Essa frágil creatura.

De alguns dias de e x i s t ê n c i a

D á - m e este sonho — a v e n t u r a ,

D á - m e esta f o r ç a — a innocencia.
I I I

(A.O M A R I O )

T r a n q u i l l a a v i d a corre-te, m e u filho:

A s s i m boia, assim vai p l a c i d a m e n t e

U m a haste e m flor n a l i m p i d a c o r r e n t e :

N ' a g u a nao d e i x a a flor u m s ó r a s t i l h o . . .

Mas teu bercinho, junto ao qual me humilho

E m e prosterno s e m p r e c o m o u m crente,

O n d e i r á , — leve g o n d o l a innocente,

Cheia de tanto a r o m a e tanto b r i l h o ?


242

Que destino te a p o n t a a estrella d'alva?

O n d e prender tua ancora dourada,

De aparcelados, negros mares salva?

Tua barquinha, livre de revezes,

V e r á por f i m a terra c u b i ç a d a ,

M e u gentil a r g o n a u t a de seis mezes?


O t e u p r i m e i r o e delicado affectô,

Eil-o no b e r ç o , c o m o u m passarinho:

T o d o s s o r r i e m ao seu m e i g o aspecto,

T o d o s o b e i j a m no enfeitado n i n h o .

Paira sobre esse berço o teu dilecto

O l h a r , — e t e r n a b e n ç a m de c a r i n h o , —

G o m o u m sonho de a m o r , c o m o u m secreto

Beijo de sol sobre f r o u x e i s de a r m i n h o . . .


2 4
4

Desse risonho, p e q u e n i n o leito,

Feito de rendas, de escumilhas feito,

Para n ó s a m b o s nasce o eterno dia.

Auroras, sóes, estrellas, céo profundo...

T u d o resume, pois q u e é o nosso m u n d o ,

Nosso a m o r , nossa luz, nossa a l e g r i a . . .


O setl raíò p r i m e í r õ ô sol, p ó f üttia frésta,

D a s r a m a s atravez,— f o l h u d a s r a m a s , — c ô a . . <

E s p i a . . . d o c e m e n t e i l l u m i n a a floresta:

A f é r a no covil o raio despertou-a.

Seguindo-o, baila o insecto, õ pãssarèdo vôa

E m torno. O raio d'ouro á liana e m flòr e m p r e s t a

O b r i l h o ; e n a v e r s u d a a b o b a d a r e s ò a

U m t r e c h o m u s i c a l de p á s s a r o s e m f e s t a . . .
246

A vida vegetal, na m a t t a verde-negra,

Á q u e l l a t ê n u e luz, á s s ú b i t a s , se a l e g r a . . .

— A s s i m ao c o r a ç ã o sinto, n u m raio b r a n d o ,

A vida refluir, a alma enflorar-se toda,

Quando, ó m e u casto a m o r , no lar, o l h a n d o e m roda,

Olho-te, e vejo e n t ã o que e s t á s s e m p r e m e o l h a n d o . . .


Í N D I C E

PAG.

A g a r ç a exilada 7

Gelo polar 9

A clareira 11

Edel-weiss . m 13

A fragata . . . 15

Caricias de u m anjo 17

A l m a negra 19

L o u r a 21

Porta s e m gonzos 23

G o l u m b a 25

C o r a ç ã o de u m estoico 27

Violino m á g i c o 29

Obelisco de o u r o 33

E n t r e m e z lyrico 35

A u m g r a n d e m o r t o 39

Soffrer é viver . 41

O d i o 43 '

A n o i v a 45

M a d r i g a l . . 47

C a n ç õ e s alegres 49

L e n d o a Biblia 53

P r e s e n t i m e n t o 55
II ÍNDICE

PAG.

(De Jean Rtchepin) 57

O ganges 59

Folha do o u to m m 01

Noiva m o r t a . 63

P r o m e t h e u de eschvlo . . . . . . . . . 63

A m a n d r á g o r a 67

5M a r e c é o , 69

O g r a n d e a m ô r 71

Novas ilhas 73

V i a j a n d o 75

Biolets . . 77

A dous velhos r o m â n t i c o s 79

T ô t e à tête 81

Os dous espelhos . . . . . . . . . . . 83

A á g u i a e o ideal • . . . . 85

A u m a viajante 83

Nevrose 91

N o t r e m 97

P o e m a da carne 99

(Ortega de la Parra) 103

Ptosas de inverno 105

Dias felizes 107

S e m p e r 409

(A. Trueba) . . . 411

O c é g o 117

P é r o l a s falsas 419

Idyllios 424

O basilisco 127

D u a s auroras 429
Í N D I O ; I I I

PAG.

A n a c r e o n t e 131

(De M o n t ú f a r ) 133

Estrella m o r i b u n d a • • 135

N u m « a t e l i e r » 137

S a u d a d e 139

T h e s o u r o occulto 143

M a r i n h a 145

Julia 149

Sol extincto 151

V e n t u r a 153

O vestido azul 155

D u a s phases 157

O l h a r de m ã e 159

A m a s c a r a 161

Violetas • 163

Escreve! 165

O beijo da o n d a 167

O relógio 169

A u d è p a r t . 171

P a g i n a e s c u r a 177

Á s v i c t i m a s d a A n d a l u z i a 179

N e v e s eternas 183

Reliquias i S ü

Versos r o m â n t i c o s 1 0

D a pasta de u m lyrico i 8 9

A u m a c r e a n ç a m o r t a 1 ( J 1

. / . 193
A m o r

O s alchimistas i J O

. , 107
Passeio m a t i n a l
ÍNDICE

A u m veterano

A p r i m a v e r a

R u i n a s . . . . . . .
* * *

N o s e r t ã o

T r a n s f o r m a ç õ e s . . . .

R e c u e r d o

A m a t t a v i r g e m . . . .

N o v o s B A R D O S :

I — R a y m u n d o C o r r ê a . .

II — T h e o p h i l o Dias. . .

I I I — A l b e r t o de Oliveira .

I V — A u g u s t o L i m a . . ' .

V — A r t h u r A z e v e d o .

V I — L u i z G u i m a r ã e s J ú n i o r

V I I — G o n ç a l v e s Crespo . .

V I I I — F o n t o u r a Xavier . .

P O E M A S D O L A R :

I I .

I I I .

I V

V

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