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2019

A REFORMA DA PREVIDÊNCIA:
NOTA TÉCNICA DA PEC 06/2019

Liderança do PSOL
Assessoria Técnica
Câmara dos Deputados
13/3/2019

Responsáveis técnicos: Carolina Resende e


David Deccache com a colaboração de Diego
Scardone
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

1. Sumário

1. Sumário.......................................................................................................................................................1
2. INTRODUÇÃO: ASPECTOS GERAIS ..............................................................................................................2
3. PERSPECTIVA DE TRAMITAÇÃO ..................................................................................................................5
4. COMO FUNCIONA O RGPS HOJE?...............................................................................................................6
5. COMO FICARÁ O RGPS COM AS NOVAS REGRAS? .....................................................................................8
6. APOSENTADORIA RURAL ..........................................................................................................................10
7. REGIME PRÓPRIO DOS SERVIDORES PÚBLICOS........................................................................................11
8. PROFESSORAS E PROFESSORES ................................................................................................................15
9. POLICIAIS CIVIS E FEDERAIS ......................................................................................................................16
10. AGENTES PENITENCIÁRIOS E SOCIOEDUCATIVOS ................................................................................16
11. PENSÃO POR MORTE ............................................................................................................................16
12. APOSENTADORIA POR INCAPACIDADE PERMANENTE .........................................................................17
13. APOSENTADORIA PARA ATIVIDADES DE RISCO ....................................................................................17
14. APOSENTADORIA DE POLÍTICOS ...........................................................................................................17
15. AS REGRAS DE TRANSIÇÃO ...................................................................................................................17
16. AS ALTERAÇÕES NO BPC: O ASPECTO MAIS CRUEL DA REFORMA.......................................................21
17. A INTRODUÇÃO DO REGIME DE CAPITALIZAÇÃO DE INSPIRAÇÃO CHILENA .......................................22
18. FIM DA MULTA RESCISÓRIA E DO DEPÓSITO DE 8% DO FGTS PARA APOSENTADOS ..........................23
19. ABONO DO PIS SÓ PARA QUEM GANHA ATÉ O SALÁRIO MÍNIMO ......................................................24
20. A DESCAPITALIZAÇÃO DO BNDES .........................................................................................................24
21. A DESCONSTITUCIONALIZAÇÃO DAS NORMAS PREVIDENCIÁRIAS ......................................................25
22. ALTERAÇÃO DO FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL ...............................................................26
23. QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS ARGUMENTOS DOS DEFENSORES DA REFORMA? ....................................26
24. A REFORMA DA PREVIDÊNCIA APROFUNDA AS DESIGUALDADES ENTRE HOMENS E MULHERES. .....32
25. EXEMPLO BASEADO EM DADOS REAIS SOBRE O IMPACTO DA MUDANÇA DO CÁLCULO DO
BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO: DANDO VISIBILIDADE PARA A CRUELDADE DA REFORMA ...............................35
26. EXEMPLO BASEADO EM DADOS REAIS SOBRE O IMPACTO DO TEMPO MÍNIMO DE CONTRIBUIÇÃO
PARA AS TRABALHADORAS MAIS POBRES .......................................................................................................36
27. REFORMA DA PREVIDÊNCIA E DESIGUALDADES REGIONAIS ...............................................................37
28. ANISTIADOS POLÍTICOS ........................................................................................................................40
29. A REFORMA DO SISTEMA DE PROTEÇÃO DOS MILITARES E A REESTRUTURAÇÃO DE CARREIRAS DAS
FORÇAS ARMADAS ...........................................................................................................................................40
30. PRIVATIZAÇÃO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL – EXPERIÊNCIAS INTERNACIONAIS .....................................49
31. A REFORMA DA PREVIDÊNCIA AUMENTA A REGRESSIVIDADE DA POLÍTICA FISCAL ...........................51
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32. IMPACTO ORÇAMENTÁRIO DA REFORMA NOS DIFERENTES REGIMES ...............................................53


33. A QUESTÃO DA PREVIDÊNCIA PÚBLICA E A NATUREZA DO SISTEMA DE REPARTIÇÃO .......................54

2. INTRODUÇÃO: ASPECTOS GERAIS

A PEC 06/2019, que trata de uma ampla reforma previdenciária, representa um dos ataques
mais violentos da história ao embrionário estado de bem-estar social brasileiro construído a partir
da Constituição de 1988. A proposta, se aprovada, fará com que muitos idosos não consigam obter
o benefício previdenciário. Os que conseguirem o farão muito mais tarde e com um benefício
significativamente menor. A PEC 06/2019 penaliza, principalmente, o trabalhador mais pobre que
não possui condições mínimas de acumular poupança durante a vida.
Mais de 90 milhões de brasileiros estão incluídos do sistema previdenciário. Ainda que
modestos, os pagamentos são essenciais para reduzir a pobreza, revelando a enorme potência da
lógica de repartição. Por isso, o neoliberalismo não os tolera.
A argumentação oficial que sustenta a defesa da reforma previdenciária está ancorada em
três pilares: o combate a supostos privilégios, a resolução do problema fiscal e o envelhecimento
da população. Como veremos com mais detalhes ao longo da nota, os três pilares são frágeis e
ocultam o verdadeiro interesse do setor financeiro. Nosso atual modelo de previdência social,
universal, público e baseado no sistema de solidariedade entre gerações é um empecilho para o
avanço do lucrativo mercado de vendas de fundo de previdência privada. Dito isso, iremos apontar
algumas das principais alterações, riscos e retrocessos que a PEC 06/2019 impõe ao conjunto da
sociedade:

➢ Desconstitucionalização. A PEC foi estruturada de modo a autorizar que praticamente


todas as regras de aposentadoria sejam modificadas não mais por meio de alterações
constitucionais, mas sim por lei complementar, que exige menos votos no Congresso. É
algo que fragiliza drasticamente as garantias fundamentais dos direitos sociais.
➢ Elevação do tempo mínimo de contribuição. A PEC eleva o tempo mínimo de
contribuição para acesso à aposentadoria de 15 para 20 anos. Os mais pobres são os mais
prejudicados por este ponto, já que estão alocados nos setores mais voláteis do mercado
trabalho, estando constantemente ameaçados pela informalidade e pelo desemprego. Uma
enorme massa de trabalhadores, principalmente mulheres, não conseguiriam se aposentar
se esta regra estivesse valendo hoje. Metade das mulheres que se aposentou por idade em
2014 tinham apenas 16 anos de contribuição, ou seja, para fazer jus ao benefício
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previdenciário, caso as regras da PEC 06/2019 estivessem valendo, teriam que acumular
mais 4 anos de contribuição em uma idade extremamente avançada. Trata-se de um dos
pontos mais graves da reforma.
➢ Redução do valor dos benefícios. O tempo mínimo de contribuição de 20 anos, além de
impedir que uma enorme massa de contribuintes alcance o direito à aposentadoria, garante
apenas 60% do benefício. Além disso, atualmente, as 20% menores contribuições da vida
laboral são excluídas do cálculo, o que eleva a média do benefício. Com a PEC 06/2019,
todas as contribuições farão parte do cálculo. Portanto, mesmo que o trabalhador alcance
os 20 anos de contribuição, terá um benefício de valor significativamente mais baixo do
que o cálculo atual garante. Em simulações apresentadas no decorrer da nota,
trabalhadores que hoje se aposentam com um benefício de R$ 1.400 poderiam ter o valor
da aposentadoria reduzido para apenas um salário mínimo, ou seja, reduções de benefício
da ordem de 30% para idosos da base da pirâmide são possíveis com o novo cálculo
apresentado na PEC 06/2019.
➢ Aposentadoria Rural. Hoje, o segurado especial da aposentadoria rural não paga
contribuição social, apenas tem que comprovar que trabalhou no campo por 15 anos e,
assim, tem direito ao benefício de um salário mínimo aos 55 anos se mulher e 60 se
homem. A reforma institui a contribuição previdenciária no valor de R$ 600 por ano, com
um tempo mínimo de 20 anos de contribuição para o trabalhador do campo alcançar o
salário mínimo. Ademais, aumenta a idade mínima para as trabalhadoras rurais de 55 para
60 anos. Muitos não conseguirão cumprir as exigências e serão deslocados para o BPC,
que será ancorado em um valor de R$400,00 até os 70 anos de idade, quando, finalmente,
será convertido em um salário mínimo.
➢ Mudança no BPC. Houve uma radical alteração no BPC, que é o benefício de um salário
mínimo garantido aos idosos com mais de 65 anos em situação de miséria. Se a PEC for
aprovada, o BPC será de apenas R$ 400,00, a partir dos 60 anos. Os idosos em situação de
miséria que sobreviverem até os 70 anos farão jus ao salário mínimo. O BPC aos 60 anos
no valor de R$ 400,00 foi desenhado para absorver a enorme parcela de trabalhadores do
regime geral e do rural que não conseguirão, caso a reforma seja aprovada, obter um salário
mínimo no regime geral, dadas as novas exigências. Outro ponto grave é que não há
nenhuma previsão de correção monetária deste valor de R$ 400,00 na PEC 06/2019. Se a
regra estivesse valendo desde 2003, hoje o BPC estaria valendo apenas R$ 80,00, já que
teria o seu poder de compra corroído pela inflação. Por fim, também há a exigência de
que os beneficiários tenham patrimônio inferior a 98 mil (Faixa 1 do Minha Casa Minha
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Vida).
➢ Idade mínima. Com a PEC, ficará extinta a aposentadoria por tempo de contribuição.
Hoje, mulheres com 30 anos de contribuição e homens com 35 anos podem se aposentar
independentemente da idade. Agora, a aposentadoria, salvo exceções, dar-se-á a partir dos
62 anos de idade para as mulheres e 65 anos para os homens. Esta regra prejudica,
principalmente, os trabalhadores que começaram a contribuir muito cedo.
➢ Regime de capitalização. A autorização para a criação de um regime de capitalização é o
que faz toda a destruição descrita nos tópicos acima fazer sentido: pretende-se eliminar o
nosso atual sistema de repartição solidário (no qual a aposentadoria dos idosos é financiada
pelo conjunto da sociedade), em prol de um modelo de previdência individual gerido setor
financeiro. A criação de um sistema de capitalização irá corroer as receitas do sistema de
repartição, já que muitos dos que hoje contribuem no sistema de repartição deixarão de
fazê-lo ao migrar para a capitalização, alocando suas contribuições em contas individuais.
Apesar da capitalização ampliar o déficit que o governo alega ser um problema, não foi
apresentada nenhuma estimativa deste impacto.
➢ A reforma da previdência poderá adiar ainda mais a recuperação da economia. Ao
contrário do que divulgado pelos economistas liberais, a reforma da previdência, ao
reduzir a renda das famílias mais pobres, caso por exemplo dos beneficiários do BPC, irá
desaquecer ainda mais uma economia já fragilizada pela política de austeridade fiscal dos
últimos anos e, com isso, a própria arrecadação do governo tende a cair, o que acaba
gerando um novo ciclo de desajuste fiscal. Para exemplificar a situação com dados,
destacamos que os benefícios pagos pela Previdência Social são o principal motor da
economia de sete em cada dez municípios do país. Das 5.566 cidades brasileiras, 3.875
(70%) têm os benefícios previdenciários como maior fonte pública de renda, superando
inclusive o Fundo de Participação dos Municípios.
➢ A reforma ampliará as desigualdades regionais. Dentre outros, ao dificultar a concessão
das aposentadorias rurais, que já são bem menores, haverá um aprofundamento das
disparidades regionais, sendo os trabalhadores de estados mais pobres empurrados para a
assistência social, que terá seu valor desvinculado do salário mínimo. No Maranhão, por
exemplo, o benefício rural corresponde a 58,03% do valor total dos benefícios concedidos.
No Pará, 26,31%.
➢ A reforma é racista. É racista porque prejudica, principalmente, os trabalhadores que
mais sofrem com o desemprego e informalidade, pois eles terão mais dificuldades de
alcançar o tempo mínimo de contribuição. Mesmo compondo 54% da população brasileira
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em idade de trabalhar, os negros somam 62,6% dos desocupados. Além disso, quase
metade (46,9%) da população preta ou parda está na informalidade, enquanto o percentual
entre brancos é de 33,7%
➢ A reforma é machista. O nosso atual modelo de previdência é o único mecanismo a
reconhecer a divisão sexual do trabalho, que destina às mulheres piores salários, piores
condições de trabalho e maiores responsabilidades do trabalho não remunerado,
representado pela dupla ou tripla jornada. Com a reforma, dado o alto grau de
informalidade e desemprego entre mulheres, elas serão duramente afetadas: as taxas de
desocupação femininas são bastante superiores às masculinas e chegaram ao patamar de
11,7%, em 2015, contra 7,9%, para os homens. Além disso, existiam 35,5% de mulheres
ocupadas sem carteira de trabalho, contra 18,3% de homens nessa condição.

3. PERSPECTIVA DE TRAMITAÇÃO

Na Câmara dos Deputados, cada Proposta de Emenda à Constituição é analisada


inicialmente pela CCJC, quanto à admissibilidade – compatibilidade da PEC às cláusulas pétreas
constitucionais –, e posteriormente encaminhada para comissão especial, criada especificamente
para apreciá-la.
Assim, a tramitação da reforma da previdência não terá início enquanto as comissões
permanentes da Casa não forem instaladas. Feito esse comentário, segue tabela com perspectiva1
da tramitação da PEC 6 de 2019:

Prazo Previsão
Designação de relator - Semana de 25 a 29 de
na CCJC março.

Apresentação do - Semana de 1º a 5 de
parecer do relator na abril.
CCJC / pedido de vista
Discussão e votação do - Semana de 8 a 12 de
parecer na CCJC abril.

1
As estimativas aqui apresentadas baseiam-na nos prazos mínimos possíveis para a tramitação de uma PEC.
Provavelmente a tramitação da reforma da previdência será mais longa do que o aqui apresentado. A título de exemplo,
Reforma da Previdência de Temer tramitou por três meses na Comissão Especial.

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Constituição da - Provavelmente no
Comissão Especial mesmo dia em que a
PEC venha a ser
admitida na CCJC.
Instalação da - Semana de 15 a 19 de
Comissão Especial, abril.
eleição de seu
Presidente e
designação do relator
Prazo para 10 sessões a partir da Última semana se
apresentação de designação do relator abril / primeira de
emendas na Comissão (provavelmente duas maio.
Especial semanas)
Apresentação do - Semana de 6 a 10 de
parecer do relator na maio.
Comissão Especial /
pedido de vista
Discussão e votação do - Semana de 13 a 17 de
parecer na Comissão maio.
Especial

4. COMO FUNCIONA O RGPS HOJE?

Atualmente, há diversas formas de se obter o benefício previdenciário no regime geral,


sendo duas as principais: por tempo de contribuição, sem idade mínima (35 anos para homens
e 30 para mulheres) e por idade mínima mais tempo de contribuição (idade de 65 anos para
homens e 60 para mulheres + 15 anos de contribuição para ambos). Vamos abordar cada uma
delas.

➢ 1. Por tempo de contribuição com incidência do fator previdenciário


Independente de idade, o contribuinte pode se aposentar se tiver contribuído por 30
anos (se for mulher) ou 35 anos (se for homem). No caso dos professores, diminui 5 anos do
tempo necessário de contribuição, para ambos os sexos.
Observação:
No entanto, o contribuinte estará sujeito ao chamado fator previdenciário, um índice
criado para desincentivar a aposentadoria precoce. Com ele, quanto mais novo você for, menor
será o valor que irá receber, e claro, o inverso também é verdadeiro: quanto maior o tempo de
contribuição, maior será o valor recebido – este podendo até superar o valor de uma

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aposentadoria integral. O fator leva em conta o tempo de contribuição até o momento da


aposentadoria, a idade do trabalhador na hora da aposentadoria e a expectativa de anos que
ele ainda tem de vida A aposentadoria integral consiste na média dos 80% maiores salários
que recebeu desde julho de 1994, corrigidos pela inflação.
Exemplo: atualmente, o fator previdenciário de um homem de 60 anos, com 35 anos
de contribuição, é de 0,872. Se a média salarial desse homem é R$ 2.000, a aposentadoria vai
ser R$ 1.654 (0,872 x 2000 = 1.654). Contudo, um homem com 55 anos e os mesmos 35 de
contribuição e média salarial de R$ 2.000 teria o índice 0,682 como fator previdenciário, o
que garantiria a ele um benefício de R$ 1.362.

➢ 2. Por tempo de contribuição com a fórmula 85/95


A fórmula 85/95, implementada em 2015, consiste em uma pontuação de 85 pontos
para mulheres e 95 para homens, que é a soma da idade com o tempo de contribuição. Nesta
regra, é condição necessária que homens tenham contribuído por 35 anos e mulheres 30 anos.
Com isso, por exemplo, um homem poderá se aposentar aos 60 anos (35+60=95) e mulheres
aos 55 anos (30+55=85). A vantagem desse tipo de aposentadoria é que não existe a incidência
do fator previdenciário, ou seja, quem se aposenta dentro dessas regras, receberá o salário
integral.

Observação:
No entanto, desde o dia 31 de dezembro de 2018, passou a valer a regra 86/96. O
aumento de 1 ponto está previsto em lei para acontecer a cada dois anos, chegando à fórmula
90/100 em 2026, fixando-se dessa forma.

➢ 3. Por idade mais tempo de contribuição


É preciso ter 60 anos (mulheres) ou 65 anos (homens) e ter contribuído ao menos 15
anos. O cidadão terá direito a 70% da aposentadoria integral + 1% por cada ano de
contribuição. Ou seja, se a pessoa contribuiu apenas os 15 anos mínimos, ela irá receber
85% (70+15) da aposentadoria integral; já se ela contribuiu por 23 anos, ela irá receber 93%
(70+23) da aposentadoria integral. A aplicação do Fator Previdenciário é facultativa na
aposentadoria por idade.

➢ 4. Por tempo de contribuição com cálculo proporcional


Este tipo de aposentadoria só é válido para pessoas que contribuíram pelo menos uma
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vez antes de 16 de dezembro de 1998, quando uma emenda à Constituição extinguiu essa
forma de previdência para quem ainda não houvesse começado a contribuir. Pessoas que se
encaixam nesse critério precisam cumprir 3 critérios para receber a aposentadoria:
• Ter uma idade mínima de 48 anos (mulheres) ou 53 anos (homens);
• Ter contribuído por 25 anos (mulheres) ou 30 anos (homens);
• Contribuir com o “pedágio”: período adicional de contribuição equivalente à 40%
do tempo que faltava, em 16/12/1998, para chegar nos 25 ou 30 anos mínimos.

➢ 5. Por invalidez ou por ambiente perigoso/ insalubre


Tem direito a receber aposentadoria por invalidez aquele que não consegue mais
trabalhar por conta de um acidente ou doença, sendo feita uma perícia médica pelo INSS para
comprovar tal incapacidade.
Quem trabalhar em um ambiente perigoso ou insalubre por pelo menos 15 anos
(podendo variar para um mínimo de 20 ou 25 anos, dependendo da situação), também receberá
aposentadoria com valor integral.

5. COMO FICARÁ O RGPS COM AS NOVAS REGRAS?

Síntese: redução do alcance e do valor dos benefícios. Se o trabalhador conseguir se


aposentar, será mais tarde e com um benefício menor.

➢ A regra básica
• Será exigida idade mínima de 62 anos para mulher e 65 para homens, além de, no mínimo,
20 anos de contribuição para obter apenas 60% do benefício. A integralidade será
garantida para aquele que contribuir por longos 40 anos.
• O benefício será baseado na média de 100% das contribuições feitas ao longo da vida.
Hoje o benefício é calculado considerando-se a média das 80% maiores contribuições, ou
seja, 20% delas (as menores) são descartadas. Com a inclusão das menores contribuições
no cálculo, o benefício efetivo dos contribuintes que tiveram maior volatilidade em sua
vida laboral tende a cair de forma considerável.
• A idade mínima será elevada segundo a expectativa de sobrevida da população, de acordo
com os critérios a serem estabelecidos em lei complementar.

➢ Consequências concretas da alteração: quem será mais impactado com as


mudanças?

A nova regra é perversa, dentre outros motivos, por conta do nível de desemprego e
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informalidade no mercado de trabalho brasileiro, que impede que os trabalhadores tenham condições
adequadas de contribuírem com a previdência. Com a elevação do tempo mínimo de contribuição de
15 para 20 anos (e isso para obter apenas 60% do benefício), uma enorme parcela das trabalhadoras
e trabalhadores não conseguirão alcançar os requisitos mínimos para a aposentadoria.
Atualmente, mais de 40% dos trabalhadores brasileiros estão na informalidade, ou seja,
quase 40 milhões de pessoas2. Além da informalidade, segundo o IBGE, falta trabalho3 para 27,6
milhões de pessoas no país. No meio de tanta precarização das relações trabalhistas e de desemprego,
a elevação do tempo mínimo de contribuição é criminosa e irá atingir justamente os que estão nos
setores econômicos mais precários.
Vale destacar, que se trata de uma alteração extremamente racista e machista, já que são as
mulheres e negras e negros que mais sofrem com o desemprego e informalidade, logo serão eles que
terão maior dificuldade de cumprir os requisitos mínimos:
• Mesmo compondo 54% da população brasileira em idade de trabalhar, os
negros somam 62,6% dos desocupados4.
• Quase metade (46,9%) da população preta ou parda está na
informalidade, enquanto o percentual entre brancos é 33,7%
• Entre os 10% dos brasileiros com os menores salários, 78,5% são pretos
ou pardos. Por outro lado, apenas 24,8% dos que recebem os maiores
rendimentos não são brancos.
• A desigualdade se mantém na comparação por sexos. Uma mulher no
mercado informal recebe, em média, 73% de um homem na mesma
condição.
Sobre a alteração no tempo mínimo de contribuição, serão as mulheres as mais afetadas. Os
dados da tabela 1 deixam isso claro: metade das mulheres que se aposentaram por idade em 2014,
acumulavam, 16 anos de contribuição (mediana). Isto quer dizer que, caso as regras da PEC
estivessem valendo em 2014, estas mulheres que chegaram na casa dos 60 anos de idade com 16 anos
de contribuição precisariam, de no mínimo, mais 4 anos de contribuição para completar o mínimo de
20 anos exigidos. É muito difícil uma pessoa que chegou aos 60 anos, com 16 de contribuição,

2
Segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), entre junho e setembro de 2018,
havia 92,6 milhões de pessoas ocupadas. Contudo, 43% deste contingente não tinha carteira assinada, o que representa
39,7 milhões de pessoas.
3
O grupo de trabalhadores subutilizados reúne os desempregados, aqueles que estão subocupados (menos de 40 horas
semanais trabalhadas), os desalentados (que desistiram de procurar emprego) e os que poderiam estar ocupados, mas não
trabalham por motivos diversos.
4
Dados da síntese de indicadores sociais (SIS)

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conseguir mais 4 anos em uma fase laboral em que o mercado é ainda mais hostil. Este contingente
de mulheres ou não irá se aposentar ou migrará para o novo BPC de R$ 400,00. Inclusive, a idade do
BPC recortado em 60 anos e com benefício de R$ 400,00, foi pensado justamente para absorver estas
mulheres desamparadas pela nova reforma, bem como os trabalhadores rurais (como veremos
adiante) que não conseguirão mais cumprir os requisitos mínimos. Iremos desenvolver com mais
detalhes os impactos da reforma para as mulheres.

Fonte: Boletim Legislativo do Senado nº 65, de 2017

6. APOSENTADORIA RURAL5

Síntese: elevação da idade mínima para as trabalhadoras do campo e a imposição do


caráter contributivo.
Na regra atual exige-se idade mínima de 55 anos para mulheres e 60 anos para homens, em
paralelo à comprovação de 15 anos de atividade rural (para o segurado especial).
Agora, a idade mínima para a trabalhadora rural será elevada para 60 anos. A idade do homem
fica mantida. O caráter machista da reforma fica nítido nesse ponto. Além disso, institui-se o caráter
contributivo para a previdência rural. Hoje, basta o trabalhador comprovar 15 anos de atividade rural,
mesmo que nunca tenha contribuindo. De agora em diante, terá que contribuir por 20 anos com um
alto valor de, no mínimo, R$ 600,00 (caso do segurado especial).
Os números mais recentes da RAIS - Relação Anual de Informações Sociais - em 2017
mostram que apenas 4% dos trabalhadores rurais trabalham de carteira assinada, o que é um indicador

5
Os detalhes para o trabalhador rural na condição de empregado, trabalhador avulso ou prestador de serviço estão
descritos no quadro comparativo em anexo.

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do que a reforma da previdência, nestes moldes, poderá representar.


Vale destacarmos que a reforma aumentará a pobreza no meio rural. Haverá retrocessos no
processo de redução da pobreza. Entre 2005 e 2014, caiu de 73% para 49% a pobreza entre a
população rural. Estima-se que a Previdência Rural contribui com ao menos 1/3 da redução da
pobreza no campo nesse período.
Por fim, aprofundará ainda mais as desigualdades regionais, penalizando as regiões mais
pobres: mais de 70% da pobreza extrema está situada na zona rural do Nordeste. É justo que o
trabalhador rural do Nordeste seja submetido às regras de aposentadoria mais exigentes que as
aplicadas ao trabalhador urbano da Escandinávia?

➢ A MP 871: o ataque à aposentadoria rural para além da PEC 06/2019


A medida provisória 871, de 18 de janeiro, que transfere dos sindicatos para as prefeituras a
comprovação do tempo trabalhado no campo, criando um Cadastro Nacional de Informações Sociais
(CNIS) para segurados rurais, já foi um grande ataque à previdência rural. Com o fim da Declaração
de Atividade Rural emitida pelos sindicatos, a aposentadoria também deverá ser homologada por uma
Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), credenciada no Plano Nacional de
Assistência Técnica e Extensão Rural.
Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais (Contag), apenas 3% dos
agricultores estão cadastrados no CNIS. A transferência de autoridade para as prefeituras pode abrir
espaço para situações de corrupção e "cabresto eleitoral" – políticos poderiam utilizar o
reconhecimento do tempo trabalhado por votos e apoio político nas eleições. A medida dificultará a
comprovação do tempo trabalho e poderá ter grande impacto no número de benefícios concedidos.

7. REGIME PRÓPRIO DOS SERVIDORES PÚBLICOS

A) Sobre a mudança na alíquota de contribuição

Foram unificadas as alíquotas do regime geral (trabalhadores da iniciativa privada) e do


regime próprio (aqueles dos servidores públicos).

· até um salário mínimo de R$ 998, alíquota será de 7,5%


· faixa salarial de R$ 998,01 a R$ 2 mil, alíquota de 7,5% a 8,25%
· faixa salarial de R$ 2000,01 a R$ 3 mil, alíquota de 8,25% a 9,5%
· faixa salarial de R$ 3000,01 a R$ 5.839,45 (teto do INSS), alíquotas variam de 9,5% a
11,68%.

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Servidores públicos que recebem acima do teto do INSS terão as seguintes alíquotas, pela proposta:

· faixa salarial de R$ 5.839,46 a R$ 10 mil, alíquotas de 11,68% a 12,86%


· faixa salarial de R$ 10.000,01 a R$ 20 mil, alíquotas de 12,86% a 14,68%
· faixa salarial de R$ 20.000,01 a R$ 39 mil, alíquotas de 14,68% a 16,79%
· faixa salarial acima de R$ 39 mil, alíquota de 16,79%

B) Sobre a regra geral


➢ Como é hoje?
• Aposentadoria por idade: 60 anos para mulheres e 65 para homens (60/65)
• Aposentadoria por tempo de contribuição: 55/60 de idade + 30/35 de contribuição
• Tempo de serviço público: 10 anos
• Tempo no cargo: 5 anos
• Soma da idade com o tempo: 85/95

➢ Como ficará após a transição?


Idade mínima: 62/65
Tempo mínimo de contribuição: 25 anos
Tempo de serviço público: 10 anos
Tempo no cargo: 5 anos
Soma da idade com tempo: 100/105

C) Cálculo do benefício

12
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

Assim como no regime geral, o benefício dos servidores públicos passará a ser calculado com
base na média de 100% dos salários. Atualmente, excluem-se as 20% menores contribuições.

D) Equilíbrio financeiro e atuarial


O texto estabelece que lei complementar disporá sobre o funcionamento dos RPPSs. Os
RPPSs deverão ter equilíbrio financeiro e atuarial, que “evidenciem a solvência e liquidez do plano
de benefícios” (art. 40, § 7º). Segundo consta na Nota Técnica do DIEESE6, “Essa medida cria uma
espécie de ´lei de responsabilidade previdenciária´ para os entes públicos com RPPS”. A exigência
provocará a necessidade de promoção de ajustes fiscais fortíssimos nos estados e municípios, para
respeitar essa regra.
Esses ajustes fiscais recairão com mais força sobre os servidores estaduais e municipais, que
representam pouco mais de 83% do total de servidores públicos no país. São, também, servidores que
possuem remuneração relativa menor, se comparado aos servidores do nível federal. No nível
municipal, por exemplo, 70% dos servidores recebem até R$ 2.000,00. Nos estados, os servidores
que ganham até o equivalente ao teto do INSS – R$ 5.839,45 – representam quase 82% do total da
força de trabalho. Essa ‘lei de responsabilidade previdenciária’ recairá, portanto, fortemente sobre
servidores com poder aquisitivo moderado. Essa análise desmistifica o argumento de forte combate
aos privilégios.
faixa remuneração** (R$)
Esfera de Governo* Total
<937 937-2000 2.000-3.000 3.000-5.839,45 5.839,45-10.000 10.000-20.000 20.000-39.000 >39.000
Federal 87.527 152.557 167.613 307.475 345.491 234.234 30.934 4.116 1.329.947
6,6% 11,5% 12,6% 23,1% 26,0% 17,6% 2,3% 0,3% 100,0%
Estadual 282.580 884.569 582.200 701.581 378.892 138.165 30.784 4.947 3.003.717
9,4% 29,4% 19,4% 23,4% 12,6% 4,6% 1,0% 0,2% 100,0%
Municipal 1.545.830 2.757.544 945.232 637.549 190.465 44.930 5.009 196 6.126.755
25,2% 45,0% 15,4% 10,4% 3,1% 0,7% 0,1% 0,0% 100,0%
Total 1.915.937 3.794.669 1.695.045 1.646.605 914.847 417.329 66.727 9.260 10.460.419
18,3% 36,3% 16,2% 15,7% 8,7% 4,0% 0,6% 0,1% 100,0%

Fonte: Dados tabulados tendo por Tiago Alves, com base os microdados da PNAD Contínua 2017

A referida Nota Técnica do DIEESE aponta ainda que:

“Segundo o Anuário Estatístico da Previdência Social (tabelas do suplemento servidor


público 2017), o déficit atuarial dos RPPSs dos estados e municípios - considerando
os servidores civis e militares - era de 6,2 trilhões de reais em abril de 2018. O déficit

6
Síntese e comentários à proposta de emenda constitucional da reforma da previdência e a seguridade social (PEC
06/2019) – DIEESE.
13
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

financeiro foi de 92 bilhões, no ano de 2017. Quanto ao RPPS da União, que abrange
apenas os servidores civis, o déficit atuarial estimado no PLOA 2019 alcança R$ 1,2
trilhão. Essas cifras indicam a magnitude do ajuste que virá”.

Em caso de descumprimento, estados e municípios ficam impedidos de receber transferências,


avais, garantias e subvenções da União, bem como empréstimos de bancos públicos. Além de não
especificar se as transferências constitucionais obrigatórias estão incluídas no rol dos impedimentos,
não há garantias de que serviços públicos essenciais serão preservados nesse contexto. Existem
transferências da União, tanto obrigatórias quanto voluntárias, que são fundamentais para o
funcionamento de serviços de saúde, educação e assistência social. Por esse motivo, essa previsão é
gravíssima.
Os entes ficam ainda obrigados a criar Regimes de Previdência Complementar (RPCs), que
poderão ser privados. Como não há estimação do custo de transição dessa medida e existe a
obrigatoriedade de manutenção de equilíbrio financeiro e atuarial, é possível que sejam impostas
cobranças extraordinárias dos servidores públicos.
“Além disso, a criação de tais regimes, no curto prazo, representa um custo adicional
para o ente público, que terá que arcar, simultaneamente, com as contribuições ao novo
regime e o pagamento dos benefícios atuais e futuros do regime de repartição”.
(DIEESE7).
As idades mínimas de aposentadoria serão elevadas automaticamente conforme a expectativa
de sobrevida, na forma da lei complementar, sendo permitida a diferenciação por gênero.

E) Impactos da Reforma
Segundo dados de 2017, o grande contingente dos servidores públicos – 86,5% - recebe até o
teto do INSS. As novas alíquotas previdenciárias progressivas teriam efeitos, pois, sobre servidores
de maior poder aquisitivo, mais concentrados na esfera federal.

7
Síntese e comentários à proposta de emenda constitucional da reforma da previdência e a seguridade social (PEC
06/2019) – DIEESE.

14
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

Distribuição de servidores por faixa de remuneração


50,0% 45,0%
45,0%
40,0%
35,0% 29,4%
30,0% 25,2% 23,1% 26,0%
25,0% 23,4%
19,4% 17,6%
20,0% 15,4%
12,6% 12,6%
15,0% 9,4% 11,5% 10,4% 2,3% 0,2%
10,0% 6,6% 4,6%
3,1% 1,0%
5,0% 0,7% 0,1%0,3% 0,0%
0,0%

Federal Estadual Municipal

Fonte: Dados tabulados tendo por Tiago Alves, com base os microdados da PNAD Contínua 2017

Embora seja possível argumentar que essas alíquotas são excessivas, o maior problema parece
residir na necessidade de manutenção dos equilíbrios financeiro e atuarial, podendo ser cobradas
alíquotas extraordinárias dos servidores. Com um custo de transição ainda não precificado
publicamente, abre-se a possibilidade de cobrança de alíquotas em patamares exorbitantes.
Além disso, o texto traz a previsão de aplicação imediata de alíquota de 14% para servidores
da União, Estados e Municípios, até que entrem em vigor novas legislações que alterem os respectivos
regimes próprios de previdência.

8. PROFESSORAS E PROFESSORES8

➢ Como é hoje?
• Professores da rede pública de ensino básico:
Homens podem se aposentar a partir dos 55 anos, com no mínimo 30 anos de
contribuição; mulheres podem se aposentar com 50 anos, com no mínimo 25 anos de
contribuição. Há também professores ligados a regimes de Previdência municipais e estaduais,
com regras próprias.
• Professores da rede particular
Podem se aposentar atendendo apenas o critério do tempo de contribuição: homens
com 30 anos e mulheres, com 25 anos.

8
Ensino básico

15
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

➢ Como fica com a PEC 06/2019


Homens e mulheres só poderiam se aposentar com no mínimo 60 anos de idade e 30
anos de contribuição.

9. POLICIAIS CIVIS E FEDERAIS

➢ Regras atuais
Atualmente, não há idade mínima para que os policiais civis e federais possam se aposentar.
O tempo de contribuição é de 30 anos para homens, com 20 de exercício, e 25 para mulheres, com 15
de exercício.

➢ PEC 06/2019
Além dos Policiais civis e federais, a nova regra também se aplica à polícia rodoviária federal,
polícia ferroviária federal, polícia legislativa da Câmara dos Deputados e do Senado Federal:

• Idade mínima de 55 anos para ambos os sexos;


• 25 anos de contribuição, se mulher, e 30, se homem;
• 15 anos de exercício em cargo de natureza estritamente policial, se mulher, e 20 anos, se
homem (a partir de 2020, esse limite será acrescido em um ano a cada dois anos de efetivo
exercício, até atingir 20 anos para a mulher e 25 para o homem).
• O valor do benefício será de 60% da média salarial acrescida de 2% para cada ano que exceder
os 20 anos de contribuição, ou seja, a integralidade será com 40 anos de contribuição.
• A integralidade e a paridade são asseguradas aos que ingressaram no serviço público até a
criação do FUNPRESP ou da aprovação desta Emenda. Os demais servidores têm esse direito
condicionado ao ingresso no serviço até dezembro de 2003.

10. AGENTES PENITENCIÁRIOS E SOCIOEDUCATIVOS

Atualmente, os agentes penitenciários e socioeducativos não possuem regra especial. Com a


PEC 06/2019, terão a mesma regra dos policiais civis para idade e tempo de contribuição; e 20 anos
de exercício em cargo de agente penitenciário ou socioeducativo, para ambos os sexos (a partir de
2020, esse limite será acrescido em um ano a cada dois anos de efetivo exercício, até atingir 25 para
ambos os sexos).

11. PENSÃO POR MORTE

16
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

Atualmente, o/a pensionista recebe 100% do benefício. Com a reforma, o beneficiário


receberá apenas 60% do benefício mais 10% por dependente.

12. APOSENTADORIA POR INCAPACIDADE PERMANENTE

Hoje a regra de cálculo de benefício representa 100%. Pela proposta o benefício passará a ser
de 60% mais 2% por ano de contribuição que exceder 20 anos multiplicado pela média dos salários
de contribuição (caso o fato ocorra fora da atividade laboral).

13. APOSENTADORIA PARA ATIVIDADES DE RISCO

Para os trabalhadores que comprovem 15, 20 ou 25 anos de contribuição em exercício de


atividades com efetiva exposição a agentes nocivos químicos, físicos e biológicos prejudiciais à
saúde, ou associação desses agentes, nos termos dos arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de
1991, as idades exigidas serão de 55, 58 e 60 anos, respectivamente.

14. APOSENTADORIA DE POLÍTICOS

A aposentadoria dos congressistas, atualmente, se dá pelo PSSC (Plano de Seguridade Social


dos Congressistas), que permite que todos os políticos se aposentem com 60 anos de idade ou ao
completarem 35 anos de contribuição. Esse modelo considera os anos de contribuição com base no
subsídio. Na prática, atualmente, cada um ano representa quase R$ 1 mil na aposentadoria final.
A PEC acaba com a aposentadoria especial dos novos eleitos. Eles ficarão vinculados ao
Regime Geral. Os regimes especiais serão extintos, sendo admitida a reinscrição do ex-segurado do
regime de previdência especial que vier a ser titular de novo mandato.
Os atuais titulares de mandato eletivo poderão permanecer vinculados aos regimes de
previdência especificamente instituídos pelas casas parlamentares, devendo cumprir tempo de
contribuição adicional (pedágio de 30%) para aquisição da aposentadoria e idade mínima de 62 anos,
se mulher, e 65 anos, se homem (atualmente, a idade mínima é de 60 anos para ambos os sexos e a
aposentadoria é de 1/35 do subsídio de parlamentar para cada ano de contribuição como parlamentar).

15. AS REGRAS DE TRANSIÇÃO

➢ Regras para o RGPS – setor privado

Pelas regras de hoje, é possível se aposentar sem idade mínima, ao cumprir 35 anos de
contribuição, no caso dos homens, e 30, no caso das mulheres. Para quem já cumpriu o tempo mínimo
não há alteração: terá direito garantido de se aposentar sem idade mínima a qualquer tempo, com o
17
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

benefício calculado pelo fator previdenciário. Há três alternativas, enumeradas abaixo.


1) Aposentadoria por pontos
Uma das alternativas é a fórmula de pontos, resultado da soma do tempo de contribuição com
a idade do trabalhador. Inicialmente, essa soma deverá atingir 86 (para mulheres) e 96 (para homens),
para que se tenha direito ao benefício. Essa pontuação vai subir gradualmente até chegar ao limite de
100/105 em 2033, que é quando convergirá com o texto final.

Essa fórmula, segundo a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, é mais interessante


para quem começou a trabalhar mais cedo. Além dos pontos, é preciso, como requisito, cumprir
contribuição mínima de 35 anos para homens e 30 anos mulheres (já é assim hoje).

Fonte: infográfico do jornal O Globo

• Cálculo do benefício: O cálculo do benefício é pela regra nova, ou seja, 100% do benefício só
será possível com 40 anos de contribuição. Hoje, sem a reforma, basta o contribuinte somar os
pontos para garantir a integralidade. Com a reforma, a soma dos pontos garantirá 90% do
benefício para homens e 80% para mulheres. A porcentagem sobe 2 pontos a cada ano de
contribuição, até chegar a 100% com 40 anos de contribuição.
• Professores: Os professores terão redução de cinco pontos. A soma do tempo de contribuição com
a idade deve ser de 81 pontos para as mulheres e 91 para os homens, em 2019, desde que
comprovem, exclusivamente, tempo de efetivo exercício das funções de magistério na educação
infantil e nos ensinos fundamental e médios. O limite sobe até atingir 95 pontos para professoras
e 100 pontos para professores.

2) Aposentadoria por tempo de contribuição e idade mínima


A segunda opção exige tempo de contribuição de 35 anos para homens e de 30 para as
mulheres. Neste caso, também é necessário alcançar uma idade mínima, que começará em 61 para
18
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

homens e de 56 para mulheres. A cada ano, essa idade mínima vai crescer e, em 2031, ela será irá
convergir com a proposta final de 62/65.

Fonte: infográfico do jornal O Globo

• Cálculo do benefício: o cálculo é pela regra nova, ou seja, 100% do benefício só será possível com
40 anos de contribuição. Hoje, sem a reforma, basta o contribuinte somar os pontos para garantir a
integralidade. Com a reforma, a soma dos pontos garantirá 90% do benefício para homens e 80% para
mulheres. A porcentagem sobe 2 pontos a cada ano de contribuição, até chegar a 100% com 40 anos
de contribuição.
• Professores: terão redução de cinco anos na idade.

3) Pelo fator previdenciário, com pedágio

Trata-se de uma regra que atingirá apenas um pequeno grupo, aqueles homens com no mínimo
33 anos de contribuição e mulheres com no mínimo 28 anos de contribuição na data da promulgação
da nova lei.
Será possível se aposentar sem cumprir idade mínima, bastando contribuir 50% a mais do
tempo que falta para chegar a 35 anos de contribuição para homens, ou 30 anos para mulheres. Ou
seja, se estiver faltando um ano para se aposentar, será necessário trabalhar seis meses adicionais.

Cálculo do benefício: pelo fator previdenciário, que reduz o valor para aposentados mais jovens

Fonte: infográfico do jornal O Globo

19
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

➢ Regras de transição para o RPPS – setor público


Para os servidores públicos, a transição entra em uma pontuação que soma o tempo de
contribuição mais uma idade mínima, começando em 86 pontos para as mulheres e 96 pontos para os
homens.
A transição prevê um aumento de 1 ponto a cada ano, tendo duração de 14 anos para as
mulheres e de 9 anos para os homens. O período de transição termina quando a pontuação alcançar
100 pontos para as mulheres, em 2033, e a 105 pontos para os homens, em 2028, permanecendo neste
patamar.
O tempo mínimo de contribuição dos servidores será de 35 anos para os homens e de 30 anos
para as mulheres. A idade mínima começa em 61 anos para os homens. Já para as mulheres, começa
em 56 anos. Ao fim da transição, a idade mínima também alcançará 62 anos para mulheres e 65 para
os homens.

Fonte: infográfico do jornal O Globo

➢ Servidores com regras diferenciadas


• Servidores com deficiência: não apresenta idade mínima. O servidor deve
comprovar 35 anos de contribuição, para deficiência considerada leve; 30 anos
de contribuição para deficiência moderada; 25 anos de contribuição para

20
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

deficiência grave; 20 anos de efetivo exercício no serviço público; e 5 anos no


cargo efetivo em que se der a aposentadoria.
• Servidores que exercem atividades em condições especiais prejudiciais à
saúde: somatório da idade e do tempo de contribuição equivalente a 86 pontos
para ambos os sexos (aumento de 1 ponto a cada ano a partir de 2020, até
atingir 99 pontos); e 20 anos de efetivo exercício no serviço público; 5 anos no
cargo em que se der a aposentadoria.

16. AS ALTERAÇÕES NO BPC: O ASPECTO MAIS CRUEL DA REFORMA

Síntese: Os idosos em situação de miséria só receberão o salário mínimo aos 70 anos.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) é a garantia de um salário mínimo mensal à


pessoa com deficiência e ao idoso com 65 anos ou mais em situação de extrema vulnerabilidade
social, ou seja, que não possuem meios de prover o necessário para a própria sobrevivência (renda
por pessoa do grupo familiar inferior a ¼ de salário mínimo). Por fim, também se obriga que os
beneficiários tenham patrimônio inferior a 98 mil (Faixa 1 do Minha Casa Minha Vida).
Com a reforma do Bolsonaro, no caso do idoso, este só terá direito a receber o benefício de
um salário mínimo aos 70 anos, recebendo um pequeno paliativo de R$ 400,00 a partir dos 60 anos.
O artigo 41 das disposições transitórias diz que, até que entre em vigor nova lei
regulamentadora do BPC, a “pessoa idosa que comprove estar em condição de miserabilidade será
assegurada renda mensal de R$ 400,00 (quatrocentos reais) a partir dos sessenta anos de idade”.
Destacamos dois pontos cruciais a partir do texto:
• O valor do benefício dos idosos de menos de 70 anos deixaria de ser o mínimo estipulado pela
Constituição e passaria a ser disciplinado por legislação infraconstitucional a partir de um piso
discricionário, não ficando claro o quanto os idosos de 65 a 69 anos perderiam com a reforma.
• Não há previsão de correção monetária dos R$ 400 enquanto a lei não for editada.

Dados sobre o BPC:

➢ Segundo dados do Anuário Estatístico de Previdência Social 2014, a duração média do benefício é
de 7,9 anos, sendo que cerca de 80% das cessações do BPC Idoso foram causadas por morte. Desta
forma, os dados sugerem uma expectativa de sobrevida desses idosos mais pobres bem inferior àquela
expectativa de sobrevida das pessoas com 66 anos estimada pelo IBGE: 17,6 anos em 2014.
➢ O dado acima revela que o idoso em situação de miséria vive, aproximadamente, mais 8 anos após

21
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

começar a receber o BPC. Desta forma, com a elevação de 5 anos para o recebimento de um salário
mínimo, o beneficiário tende a viver menos de 3 anos com o benefício nas regras atuais.
➢ O BPC é um programa barato, custando apenas 0,8% do PIB e atendendo, aproximadamente, 5
milhões de pessoas. Quase metade dos beneficiários do BPC são idosos. A título de comparação, a
União teve um gasto de mais de 6% do PIB com pagamento de juros em 2017.
➢ Em média, 28% da quantidade de beneficiários projetada para receber BPC Idoso, observando as
regras atuais, estaria prejudicada pela nova regra por ter idade entre 65 e 69 anos.
Gráfico 1 – E se a regra proposta estivesse em vigência desde 2003? dois cenários

Fonte: Assessoria Técnica do PSOL. Baseado no valor do salário mínimo de janeiro de 2003.

17. A INTRODUÇÃO DO REGIME DE CAPITALIZAÇÃO DE INSPIRAÇÃO


CHILENA

O Governo prevê um regime de capitalização e o remete para Lei Complementar,


estabelecendo apenas as diretrizes gerais na PEC. O modelo de capitalização funciona como uma
espécie de “poupança” que o trabalhador faz para garantir a aposentadoria.
Nosso sistema previdenciário hoje é conhecido como regime de repartição, fundamentado na
solidariedade intergeracional. Isso quer dizer que a geração de hoje paga a previdência dos
aposentados e o governo arca com eventuais insuficiências. No regime de capitalização do governo

22
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

Bolsonaro prevalece a lógica de individualização do regime previdenciário, em que cada trabalhador


poupa para sua própria aposentadoria no futuro.
O que se pretende com a reforma previdenciária é mudar o pacto social firmado em 1988,
isentando o Estado de participação no regime. Daí vem o argumento do “déficit da previdência”.
Antes de mais nada, um sistema de Seguridade é uma decisão da sociedade acerca de direitos
fundamentais que devem ser garantidos aos cidadãos pelo Estado. Não há de se falar, pois, em
superávit ou déficit do sistema previdenciário, mas de um pacto social de financiamento coletivo.
Com a instituição de um regime de capitalização, mesmo que alternativo, haverá também a
perda de receitas para o sistema de repartição, já que uma série de contribuintes irá migrar seus
recursos para contas individuais, em vez de servirem de fonte de financiamento para o pagamento das
aposentadorias atuais, em uma lógica coletiva e solidária. Além disso, especula-se que os novos
empregos apenas serão oferecidos com a opção do trabalhador pelo regime previdenciário de
capitalização, pois é esperado que tenha uma contribuição patronal bem menor.
Os termos do regime de capitalização não estão expressos na PEC, ficando sujeitos a
regulamentação posterior. Mas sabe-se que a equipe econômica do Bolsonaro tem defendido a
capitalização como medida complementar à chamada ‘carteira verde-amarela’, um regime com
menos direitos trabalhistas que o governo pretende implementar.
Além disso, com a deterioração do regime previdenciário de repartição, haverá forte pressão para
a migração deste perfil de beneficiário para os regimes previdenciários privados ou próprios, que é o
grande objetivo dos bancos.
As experiências internacionais recentes mostraram o enorme equívoco que é a adoção desse
regime, como exposto em seção específica nesta Nota. Além do excessivo otimismo sobre a
capacidade de retorno privado das contribuições individuais, há a ampla difusão do mito da eficiência
privada. Os problemas concentram-se fundamentalmente em dois pontos principais: a) baixo valor
dos benefícios; b) restrição de alcance do sistema.
No Chile, país que primeiro adotou a capitalização, o modelo tornou idosos miseráveis: 90%
dos aposentados recebe menos de dois terços do salário mínimo do país. Como consequência, a taxa
de suicídio entre octogenários no Chile é a maior na América Latina.

18. FIM DA MULTA RESCISÓRIA E DO DEPÓSITO DE 8% DO FGTS PARA


APOSENTADOS

A PEC prevê o fim da multa rescisória de 40% sobre os depósitos do FGTS para os
trabalhadores que já estiverem aposentados. Além disso, extingue a obrigatoriedade por parte das
empresas de recolher o equivalente a 8% do salário dos funcionários para o FGTS para os empregados
23
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

aposentados.
Na prática, o fim da multa rescisória tornaria mais barata a demissão dos aposentados que
ainda estão na ativa - um contingente que chega a 1,4 milhão de pessoas, conforme os dados da
Secretaria da Previdência referentes a 2017.
Isso porque quando um trabalhador com carteira assinada se aposenta e segue trabalhando, ele
tem direito de sacar o saldo total do fundo de garantia, mas seu empregador continua sendo obrigado
a pagar 40% do valor que depositou no FGTS como indenização caso mande o funcionário embora.
Para pessoas que estão há 20 ou 30 anos na mesma empresa, essa multa pode atingir valor
considerável.

19. ABONO DO PIS SÓ PARA QUEM GANHA ATÉ O SALÁRIO MÍNIMO

O abono salarial do PIS/Pasep9 é um pagamento anual para quem cumpre,


cumulativamente, todos os critérios abaixo:

• Trabalhou com carteira assinada por, pelo menos, 30 dias no ano;


• Ganhou, no máximo, dois salários mínimos, em média, por mês;
• Está inscrito no PIS/Pasep há pelo menos cinco anos;
• A empresa onde trabalhava informou seus dados corretamente ao governo

Hoje, o valor pago varia de acordo com o tempo de trabalho. Se trabalhou o ano todo,
o cidadão recebe o valor cheio, equivalente a um salário mínimo. Se trabalhou um mês, ganha
o valor proporcional de 1/12 do mínimo.
Com a reforma da previdência, o benefício anual será pago somente para quem ganha
até um salário mínimo mensal. A mudança afetará 23,4 milhões de trabalhadores
beneficiários.10

20. A DESCAPITALIZAÇÃO DO BNDES

A reforma altera as regras do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – que todo ano precisa
repassar 40% das receitas com PIS/Pasep para o BNDES, conforme prevê a Constituição. O
percentual cairá para 28%.

9
O pagamento do abono salarial do PIS/Pasep é garantido pela Constituição Federal. O PIS e o Pasep são contribuições
feitas por empresas públicas e privadas que vão para o FAT. É esse fundo que paga o abono salarial e o seguro-
desemprego, por exemplo. Parte do dinheiro arrecadado também é destinada ao BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social)
10
O número corresponde a 91,5% do total de pessoas que hoje podem recebê-lo.
24
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

21. A DESCONSTITUCIONALIZAÇÃO DAS NORMAS PREVIDENCIÁRIAS

➢ Aspectos gerais

A proposta de reforma da Previdência foi estruturada para permitir que alterações em regimes
previdenciários passem a ser feitas fora da Constituição. Hoje, mudanças em regras da Previdência
que estão na Constituição são feitas por meio de emenda constitucional, o que exige no mínimo três
quintos de votos favoráveis —308 deputados de 49 senadores. Também são necessários dois turnos
de votação na Câmara e mais dois no Senado. Com a reforma, uma série de alterações passarão a
serem feitas por lei complementar, que exige apenas a maioria absoluta de votos favoráveis: 257
deputados e 41 senadores. O projeto passa por duas votações na Câmara e uma no Senado. Com a
aprovação da PEC, futuras reformas da previdência serão aprovadas de forma “fatiada” e com muito
mais facilidade, ou seja, trata-se da contratação de um processo estrutural de desmonte da previdência
social.
➢ Aspectos técnicos
O amplo processo de desconstitucionalização, estruturado na PEC 06/19, possibilita alteração
dos benefícios previdenciários, suas regras de concessão, de cálculo e de reajuste. Além disso, caberá
a lei complementar dispor sobre a possibilidade de adoção de idades mínimas e tempos de
contribuição diferenciados para policiais, agentes penitenciários e socioeducativos, pessoas com
deficiência, professores e trabalhadores que exercem suas atividades expostos a agentes nocivos e
prejudiciais à saúde.
Já no que tange o regime de previdência dos servidores a lei complementar irá dispor sobre
medidas de tratamento de riscos atuariais, incluídos aqueles relacionados com a política de gestão de
pessoal; equacionamento do déficit atuarial e de eventual superávit; estruturação, organização e
natureza jurídica da entidade gestora do regime. Além disso, também será objeto de lei complementar
as condições para acumulação de benefícios e sobre o sistema especial de inclusão previdenciária.
Outro ponto gravíssimo é que no caso das contribuições previdenciárias, a PEC nº 6, de 2019,
estabelece que lei complementar irá dispor sobre a forma de apuração da base de cálculo e definição
de alíquotas, cabendo a lei ordinária instituir a contribuição, ou seja, amplia-se a incerteza e
insegurança dos beneficiários
Segundo nota da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, atualmente, tais
determinações estão contidas nos arts. 40, 149 e 201 da Constituição Federal, sendo, portanto,
permanentes da Lei Maior. São normas que formal e materialmente revestem-se do status de emenda

25
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

constitucional. Para a aprovação de uma lei complementar, é exigida a maioria absoluta de votos
favoráveis: 257 deputados e 41 senadores. O projeto passa por duas votações na Câmara e uma no
Senado”. (Nota Técnica da Consultoria Legislativa - Deud e Baars, 2019)

22. ALTERAÇÃO DO FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL

A) Separação dos orçamentos da saúde, previdência e assistência social.

A proposta modifica o artigo que trata do financiamento da Seguridade Social, para que haja
segregação contábil do orçamento nas ações de saúde, previdência e assistência social, ressaltando
que a previdência social tem caráter contributivo, o que significa um grande retrocesso em relação à
atual concepção constitucional de Seguridade Social e de Previdência como um “contrato social
solidário e democrático”.
De acordo com o DIEESE11, embora o artigo 201 já preveja o caráter contributivo da
Previdência Social, a Carta Magna concebeu as políticas públicas de previdência, saúde e assistência
social como partes articuladas e integradas de um sistema de proteção social, denominado Seguridade
Social, que conta com uma base ampla e diversificada de fontes de financiamento, sem vinculação
específica a nenhuma dessas três políticas públicas. Ao promover a segregação contábil dos
orçamentos da saúde, previdência e da assistência, a PEC reforça a concepção de previdência como
um seguro relativo à perda de capacidade laboral, de natureza contributiva e desvinculado de uma
política maior, de Estado, voltada à proteção social dos brasileiros.
B) Sobre o financiamento do RPPS
Os RPPSs passarão a compor o orçamento da Seguridade Social, sendo parte das receitas e
das despesas da previdência social. Como o regime dos servidores é deficitário, a medida deteriora o
equilíbrio agregado da seguridade social.

23. QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS ARGUMENTOS DOS DEFENSORES DA REFORMA?

É extremamente necessário estarmos familiarizados com os argumentos convencionais em


prol da reforma da previdência. Trata-se da melhor maneira de combatê-los, pois só assim é
possível demonstrarmos as incoerências lógicas e limitações das premissas adotadas.

1) Combate à desigualdade e aos privilégios

O governo está defendendo que a reforma da previdência apresentada é um mecanismo de

11
https://www.dieese.org.br/notatecnica/2019/notaTec202MulherPrevidencia.html
26
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

redução das desigualdades, inclusive, citam esse argumento na exposição de motivos da PEC 06/2019
que:
“O modelo atual das regras atuariais e de acesso a benefícios
previdenciários, se tornaram rígidos em sua alteração, mas estas
políticas públicas não atenderam aos princípios constitucionais de
igualdade e distribuição de renda, já que conforme levantamento da
OCDE o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo.
Metade da população tem acesso a 10% do total da renda familiar
enquanto a outra metade tem acesso a 90%.” (Exposição de motivos da
PEC 06/2019) (SIC)

Curiosamente, logo após este trecho, alegam que: “A Seguridade Social virtualmente
erradicou a pobreza entre idosos” (PEC 06/2019). Ou seja, eles alegam que o Brasil é um país
extremamente e, apesar de culparem a Previdência por este fenômeno, são obrigados a reconhecer o
seu caráter redistributivo. Certamente a situação seria ainda pior se não houvesse sido implantada
pela constituição de 88 o modelo atual que, dentre outras coisas, teve o mérito de erradicar a pobreza
entre idosos.
Além disso, há duas formas não excludentes de se reduzir a desigualdade: elevando a renda
dos mais pobres e/ou reduzindo a dos mais ricos. E o que a reforma faz? Reduz o benefício dos mais
pobres de maneira brutal. Um exemplo: o benefício de um idoso de 65 anos em situação de miséria,
hoje é de um salário mínimo. Com a reforma do Bolsonaro o valor cairá para R$ 400,00. Enquanto
isso, os mais ricos de fato continuam recebendo mais de R$ 300 bilhões por ano de juros e outros
bilhões de lucros e dividendos com isenção total de tributação (poderíamos arrecadar mais de R$ 60
bilhões taxando lucros e dividendos isentos com alíquotas moderadas de 15%)
Ainda na linha do suposto combate aos privilégios, um argumento muito comum do governo
é o de que haverá um forte combate aos privilégios, que seriam as supostas grandes aposentadorias
do serviço público. Em entrevista recente, Rodrigo Maia disse que não é justo a sociedade pagar
aposentadorias de R$ 30.000 para servidores privilegiados. Concordamos. Porém, por questão de
honestidade, eles deveriam lembrar que todos os servidores que entraram no serviço público depois
de 2013 já estão no teto do regime geral, que hoje é de R$ 5.832,00. Ou seja, trata-se de um argumento
mentiroso para justificar a retirada de direitos dos mais pobres.
A verdade é que a Reforma da Previdência ampliará a desigualdade de renda, os dados abaixo
são ilustrativos neste sentido:

27
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

• A Reforma da Previdência ampliará a desigualdade de renda. Entre 2003 e 2012,


houve significativa redução do índice de Gini, de 0,581 para 0,527. Segundo o Ipea (2015), quase
30% desta queda decorreu do pagamento de aposentadorias e pensões pelo Estado.
• Em 2011, 24 milhões de pessoas saíram da condição de pobreza. Os dados são da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). O dinheiro repassado pela Previdência Social
reduziu em 12,8% a taxa de pobreza do Brasil. São consideradas pobres pessoas com rendimento
domiciliar per capita inferior a meio salário mínimo.
• A Previdência reduz a pobreza. Segundo estudo do próprio Ministério da
Previdência, em 2014, apenas 8% das pessoas com 65 anos ou mais viviam com renda menor ou igual
a ½ salário mínimo. Caso não houvesse a Previdência e o BPC, o percentual de idosos pobres aos 75
anos superaria 65% do total (ANFIP E DIEESE, 2017). “Sem os benefícios previdenciários, haveria
mais 23 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, ou seja, com renda familiar per
capita de R$ 232,5”.
• Sem a Previdência e a Assistência Social, a pobreza extrema e a miséria seriam
muito maiores: em 2014, apenas 0,5% da população de 60 anos ou mais estava em situação de
extrema pobreza. Sem a previdência, o BPC e as pensões (propostas pela PEC 287), mais de 50% da
população viveria em situação de pobreza extrema (DIEESE, 2017).

2) Resolução da crise fiscal estrutural


O segundo ponto do governo é que a reforma da previdência é necessária para a resolução do
problema fiscal. Inclusive, na exposição de motivos da PEC, eles argumentam que o descontrole da
dívida pública é uma das motivações da reforma.
“E esse nó fiscal tem uma raiz: a despesa previdenciária. Enquanto nos
recusamos a enfrentar o desafio previdenciário, a dívida pública subirá
implacavelmente e asfixiará a economia. A dívida bruta em relação ao
PIB subiu de 63% em 2014 para 74% em 2017.” (Exposição de motivos
da PEC 06/2019)
Contudo, a “crise orçamentária” (na verdade o que temos é uma crise social e humanitária) é
decorrência, justamente, da austeridade fiscal em vigência no Brasil desde 2015. Um dado deixa isso
muito claro: em janeiro de 2003, a dívida pública líquida era de aproximadamente 55% em relação
ao PIB e foi reduzida até chegar, em dezembro de 2014, a apenas 32% do PIB. Com a opção pela
austeridade em 2015, cristalizada na imposição do desumano teto dos gastos do Temer, chegou a 52%
do PIB. Além disso, o resultado primário, que foi superavitário de 2003 até 2013, foi deficitário
durante todo o período do chamado “ajuste fiscal”. A explicação para isso é simples: quanto mais o
28
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

governo corta gastos, mais a economia desacelera e a arrecadação cai de forma ainda mais veloz12.
A austeridade fiscal, que inclui a reforma da previdência aqui discutida, não é um mecanismo
que visa ao ajustamento das contas públicas. O fato é que a forte contração de gastos do governo visa
esmagar a capacidade do Estado em financiar o seu funcionamento básico, abrindo caminho para o
setor privado atuar mercantilizando uma série de direitos: saúde, educação, previdência e muitos
outros. A previdência sempre foi a menina dos olhos do mercado financeiro, um produto
extremamente rentável. Direitos sociais não são mercadorias e nem produtos financeiros que devam
estar, por definição, em equilíbrio contábil superavitário ao longo do tempo13.
Ainda que seja aceita a alegação de que é necessário estabilizar a trajetória futura dos gastos
previdenciários como proporção do PIB, esta equalização pode se dar por intermédio de uma
combinação de fatores. Entretanto, os economistas convencionais só focam no lado das despesas.
Mesmo de um ponto de vista fiscalista, a estabilização da trajetória das despesas em relação ao PIB
depende, fundamentalmente, do ritmo de crescimento da economia: quanto maior o PIB mais estável
a relação se torna.
Já em relação às projeções fiscais, há enormes polêmicas acerca da validade dos modelos
utilizados pelo governo. Um grupo de relevantes economistas brasileiro, organizado, dentre outros,
pela professora Denise Gentil, do Instituto de Economia da UFRJ14, averiguaram, meticulosamente,
os dados oficiais apresentados e descobriram uma série de inconsistências do modelo de projeção
atuarial do governo brasileiro. No estudo, os autores simularam três cenários para a previdência no
futuro: otimista, moderado e pessimista. Mesmo no cenário pessimista o déficit na previdência seria
50% inferior àquele previsto pelo cenário de referência do governo federal. Já no cenário moderado,
a Previdência passa a obter superávit de R$654 bilhões em 2050. Por fim, no otimista, o superávit
alcançaria R$3.796 bilhões. A discrepância com os dados apresentados pelo governo é assustadora.
Isto decorre, segundo os pesquisadores, da calibragem utilizada nos modelos do governo: consideram
um crescimento do PIB muito baixo e superestimam as despesas. A bancada do PSOL solicitou, via
requerimento de informações, que os dados sobre os modelos estatísticos utilizados sejam tornados
públicos.
Por fim, é importante destacarmos que para cada real investido na previdência, 65 centavos
retornam à economia pelo consumo das famílias e pouco mais de 50 centavos é incorporado ao PIB.

12
Sendo o gasto do governo renda do setor privado, quando o governo deixa de gastar, logicamente, alguém deixar de
receber. Sendo assim, em meio a crises econômicas, que por definição implicam contração dos gastos privados, se o
governo também contrair gastos, irá piorar a situação do setor privado, que por sua vez terá ainda menos demanda para
a sua produção, com duas consequências imediatas: ampliação do desemprego e, dada a queda no ritmo de atividade,
contração da própria arrecadação do estado.
13
Esta seria uma lógica válida para regimes de capitalização
14
https://plataformapoliticasocial.com.br/previdencia-social-como-acreditar-nas-previsoes-do-governo-para-2060/
29
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

No caso do BPC, que contempla sobretudo os idosos mais pobres, o efeito multiplicador é maior.
Para cada real transferido, agregava-se 1,19 real ao PIB nacional. Ou seja, contrações nas despesas
previdenciárias possuem óbvio impacto nas receitas, fato constantemente ignorado no debate.

3) O argumento demográfico
Os economistas que defendem a reforma da previdência apontam a mudança na razão de
dependência como um dos principais argumentos em prol da reforma. O que eles querem dizer com
isso?
No regime de repartição, as pessoas em idade de trabalho produzem o estoque de riqueza que
depois é repartido com os idosos e as crianças, que não trabalham. Dito isso, os defensores da reforma
alegam que hoje temos 12 pessoas em idade ativa para cada 6 aposentados e crianças (dependentes).
Já em 2050, teríamos apenas 8 pessoas em idade ativa para "sustentar" os mesmos 6 idosos e crianças
(Ilustração 1). Logo, eles parecem se preocupar muito com esta proporção e tentam fazer com que as
pessoas se aposentem mais tarde e ganhem menos para "aliviar" a situação dos trabalhadores do
futuro.
Há dois problemas centrais nesta análise: o primeiro é que a análise desconsidera que hoje,
dado o desemprego e a informalidade, já estamos vivendo um cenário no qual a taxa de dependência
real é baixíssima, um problema decorrente, principalmente da política de austeridade fiscal que o
atual governo pretende aprofundar. O segundo é que o trabalhador do futuro, dado o avanço
tecnológico, tende a ser mais produtivo do que o de hoje, logo teria “mais força” para sustentar os
inativos (crianças e idosos). Quanto mais produtiva e sofisticada a economia se tornar, mais tolerável
se torna a alteração na taxa de dependência.
O limite da análise convencional está no fato de que nem todo mundo em idade ativa está
produzindo riqueza por conta do desemprego e da subutilização da força de trabalho (ambos
desconsiderados das análises convencionais). Também há pessoas que estão em setores de baixíssima
produtividade, que geram pouca riqueza, como é o caso dos setores de serviços pouco sofisticados e
que tendem a crescer com o nosso processo de desindustrialização precoce (que possui forte
correlação com a informalidade).
Por conta disso, hoje já temos um cenário muito parecido com o apocalipse que eles projetam
para 2050 por conta da subutilização dos trabalhadores15 e da informalidade16: dada a nossa altíssima

15
No segundo trimestre de 2018 24,6% da população economicamente ativa, o equivalente a 27,6 milhões de pessoas,
se encontram desocupadas e subocupadas por insuficiência de horas, além da força de trabalho potencial.
16
Em 2017, o país tinha 37,3 milhões de pessoas trabalhando sem carteira assinada, o que representa 40,8% de toda a
população ocupada (que exerce alguma atividade remunerada) no país, de acordo com o IBGE.

30
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

taxa de subutilização da força de trabalho disponível, apenas 9 pessoas trabalham para produzir a
riqueza que deve ser redistribuída para os 6 inativos. E se considerarmos a informalidade, teríamos
apenas 5 trabalhadores formais para 6 dependentes. A catástrofe que eles projetam para 2050 está
acontecendo neste exato momento e nada tem a ver com um suposto alto número de aposentados,
muito pelo contrário, pois estamos vivendo um dos melhores momentos da história do chamado bônus
demográfico.

Ilustração 1: Razão de dependência considerando-se o desemprego e a informalidade

Legenda: riscos em vermelho equivalem aos trabalhadores desempregados e laranja os informais

Se eles consideram que esta baixa proporção entre dependentes e trabalhadores é algo a ser
resolvido, nós concordamos. E vamos além: é algo para ser corrigido desde já. Temos que elaborar
um programa de garantia de emprego que coloque os 27,6 milhões de brasileiros subutilizados para
produzir riqueza ao passo que devemos buscar formas de reverter o processo de precarização e
informalidade que assola o país. Também temos que reverter o processo de desindustrialização, que
torna o trabalhador menos produtivo do que pode ser (a indústria, que em 1980 representava 27% do
nosso PIB, em 2000 caiu para 19%, em 2015 recuou até os 11,4% e, segundo algumas previsões, em
2030 responderá por menos de 9% do PIB).
Já para o futuro, em 2050, não podemos deixar que mais da metade dos trabalhadores com
capacidade de produzir estejam subutilizados ou na informalidade como ocorre hoje. E como fazer
isso? Criando mecanismos de garantia do emprego desde já.

31
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

24. A REFORMA DA PREVIDÊNCIA APROFUNDA AS DESIGUALDADES ENTRE


HOMENS E MULHERES17.

De acordo com o Governo Bolsonaro, são muitos os argumentos que justificam as


modificações propostas pela Reforma, para a aposentadoria das mulheres: (i) mulheres vivem mais
do que os homens e contribuem por menos tempo, onerando mais o caixa da previdência; (ii) a
participação das mulheres no mercado de trabalho tem crescido e os diferenciais de salário, reduzido;
(iii) o trabalho doméstico não remunerado já não absorve tantas horas de dedicação das mulheres
porque houve redução no tamanho das famílias e difusão de tecnologia em eletrodomésticos nos lares
brasileiros; e (iv) não é papel do Estado corrigir distorções culturais relativas a trabalhos domésticos
das famílias. Como demonstraremos a seguir, estes argumentos além de questionáveis, não contam
com uma base empírica que os justifiquem.
Em primeiro lugar, segundo dados do IBGE, a diferença na expectativa de sobrevida entre
homens e mulheres, a partir dos 65 anos de idade, é de apenas 3 anos.
Em segundo lugar, não é difícil demonstrar que a tradicional divisão sexual do trabalho, que
atribui ao homem o papel de provedor da família e à mulher o de cuidadora da casa e dos dependentes,
ainda permanece com força na sociedade brasileira, a despeito das muitas conquistas obtidas pelas
mulheres nas esferas pública e de mercado, nas últimas décadas. Considerando a dupla jornada, ou
seja, o somatório das horas dedicadas aos afazeres domésticos e ao trabalho na ocupação econômica,
as mulheres praticaram, em 2014, jornada semanal média de 54,7 horas, contra 46,7 horas no caso
dos homens. Isso significa que elas trabalharam a cada semana, em média, 8 horas a mais do que os
homens, o que, em termos anualizados, corresponde a um excedente de 66 dias (mais de dois meses)
de trabalho, considerando jornada padrão de 44 horas semanais. E, extrapolando esse excedente para
o tempo de contribuição à Previdência, significa que, em média, com 20 anos de trabalho, que é o
mínimo requerido para elas se aposentarem, as mulheres já teriam cumprido quase 25 anos.
Em terceiro lugar, apesar dos avanços, é inegável também que as desigualdades entre homens
e mulheres no mercado de trabalho ainda são significativas. Até hoje, os indicadores mostram a menor
participação das mulheres na atividade econômica, com inserção em ocupações mais precárias e/ou
associadas ao papel do cuidado com a família, menores rendimentos e maiores taxas de desemprego
e de informalidade. A taxa de participação feminina apresentou profundo crescimento no Brasil, nos
últimos 55 anos, passando de 16,5%, em 1960, para 54,4%, em 2015. Entretanto, o envolvimento das
mulheres na atividade produtiva ainda é pequeno, quando se leva em conta que os homens tinham,
em 2015, participação de 76,2% no mercado de trabalho. Entre 2006 e 2015, houve, inclusive, queda

17
Elaborado pelo Diego Scardone. Com contribuições de Denise Gentil (1) e Dieese, Nota Técnica número 171 de
março de 2017 (2), CFEMEA (3)
32
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

de 4,4 pontos percentuais na taxa de participação feminina, ao passo que a taxa de participação dos
homens se manteve relativamente estável.
➢ Dados e fatos relevantes:
• O diferencial entre homens e mulheres na previdência social é o único mecanismo a
reconhecer a divisão sexual do trabalho, que destina às mulheres piores salários, piores condições de
trabalho e maiores responsabilidades do trabalho não remunerado.
• As taxas de desocupação femininas também permaneceram bastante superiores às
masculinas: chegaram ao patamar de 11,7%, em 2015, contra 7,9%, para os homens. Por fim, existiam
35,5% de mulheres ocupadas sem carteira de trabalho, contra 18,3% de homens nessa condição.
Lembrando que, de acordo com as novas regras da previdência, para atingir 100% da aposentadoria,
a trabalhadora deverá contribuir por 240 meses (40 anos).
• De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2014, a
permanência das mulheres no mercado de trabalho formal é menor. Elas ficam em média 37 meses
no mesmo trabalho, período inferior ao dos homens, que é de 41,7 meses.
• Segundo a Pnad, em 2006, 92% das mulheres ocupadas no país declararam realizar
tarefas domésticas e de cuidados, contra apenas 52,1% dos homens ocupados. Em 2015, quase 10
anos depois, esses percentuais praticamente não haviam mudado, com 91% das mulheres e 53% dos
homens declarando o envolvimento em algum tipo de trabalho doméstico.
• Entre as mulheres que se dedicam à atividade agrícola, 97,6% realizam afazeres
domésticos, enquanto os homens, apenas 48,22% realizam. Elas dedicam, em média, 28,01 horas
semanais a esse trabalho. É quase um terço a mais que a média das mulheres e quase três vezes mais
que os homens na mesma atividade econômica.
• Outros benefícios previdenciários, como o salário-maternidade, a pensão morte, além
do BPC (esse ligado a assistência social), também têm maior incidência para mulheres. Em 2015, do
total de dependentes que receberam pensão morte, mais de 84% eram mulheres. Os benefícios
assistenciais ao idoso, por sua vez, foram distribuídos em 58% para as mulheres e 42% para os
homens.
• Embora o percentual de beneficiárias mulheres seja superior ao dos homens, elas
recebem, em média, valores inferiores àqueles pagos a eles. Em dezembro de 2015, enquanto o valor
médio dos benefícios ativos no RGPS foi de R$ 1.101,13, o valor médio de benefícios pagos aos
homens foi de R$ 1.260,41 e às mulheres de apenas R$ 954,78. Ou seja, uma diferença a mais em
favor dos homens da ordem de 32%.

33
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

• Entre as aposentadorias femininas concedidas em 2014, as mulheres tiveram, em


média, 22,4 anos de contribuição. Considerando apenas a aposentadoria por idade, 50% das mulheres
que acessaram esse benefício comprovaram em média 16 anos de contribuição apenas. Ou seja, ao
aumentar o período de contribuição em mais 5 anos, tal medida poderá significar, para muitas
trabalhadoras, a impossibilidade de um dia acessar o benefício (MOSTAFA, 2017).
• Quanto às alterações nas pensões por morte e no acúmulo de benefícios, as mulheres
serão as principais penalizadas. Em 2015, segundo o Anuário Estatístico da Previdência Social, o
total de pessoas que recebeu pensão por morte foi de 7,4 milhões, correspondendo a 27,1% do total
de benefícios previdenciários. Nesse contingente de beneficiários, 84% (ou 6,2 milhões) eram
mulheres e 16% (ou 1,1 milhões), homens. Além desses que receberam apenas pensão, 2,3 milhões
(8% do total de beneficiários de previdência) acumularam benefícios de aposentadoria e pensão,
sendo 84% mulheres e (ou 1,97 milhões) 16% (ou 364 mil) homens.
• Embora as mulheres sejam maioria entre os pensionistas, boa parte das pensões por
morte recebidas por elas possui valor extremamente baixo. Em 2015, do total desse tipo de benefício
destinado às mulheres, 53% eram de um salário mínimo e 23% estavam na faixa de 1-2 SM. Ou seja,
três quartos das pensões por morte recebidas pelas mulheres não ultrapassavam 2SM. A importância
das pensões por morte para as mulheres é grande, sobretudo na faixa etária de 60 anos ou mais.
Segundo dados da Pnad, em 2015, enquanto 15,2% das mulheres dessa faixa etária são pensionistas,
os homens nessa condição são apenas 1,3%. E entre as pessoas dessa faixa etária que acumulam
aposentadorias e pensões, elas representam 11,1% e os homens, apenas 2,7.
• Com as regras propostas, a Reforma penalizará também as professoras da educação
básica, que representam 80% da categoria, atualmente composta por 2,2 milhões de docentes, sendo
75,6% vinculados à rede pública de ensino, segundo o Censo Escolar de 2016. Pelas regras atuais, as
professoras da educação básica podem se aposentar com 25 anos de contribuição em atividades de
magistério. Mas com a reforma proposta, as aposentadorias por tempo de contribuição, assim como
os regimes especiais, acabam e todas terão de trabalhar até́ os 60 anos de idade, desde que tenham
pelo menos 30 anos de contribuição.
• Quanto as trabalhadoras domésticas, a proposta de aumentar de 15 para 20 anos a
exigência mínima de contribuições previdenciárias reduzirá ainda mais a proporção das que
conseguem se aposentar. Hoje, essas trabalhadoras enfrentam grandes obstáculos para atingir 20 anos
de contribuição em função dos altos níveis de rotatividade, de informalidade e de ilegalidade nas
contratações, típicas do exercício desta atividade no país, além dos períodos em desemprego e das
frequentes transições entre atividade e inatividade econômica.

34
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

25. EXEMPLO BASEADO EM DADOS REAIS SOBRE O IMPACTO DA MUDANÇA


DO CÁLCULO DO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO: DANDO VISIBILIDADE
PARA A CRUELDADE DA REFORMA

Um dos pontos mais cruéis da reforma é a nova fórmula do cálculo do benefício: a fórmula
não mais excluirá as 20% menores contribuições do cálculo (como é hoje) e terá como regra uma
base de apenas 60% do benefício para 20 anos de contribuição mais 2% por ano excedente (a
integralidade é só com 40 anos de contribuição).
Isso se torna invisível no debate porque é um cálculo, além de muito particular, um pouco
complexo. E os defensores da reforma parecem não ter muito interesse em apresentar essas contas.
Para esclarecermos este ponto, elaboramos uma pequena simulação, tendo por base um caso
representativo de um trabalhador da construção civil.
João começou a trabalhar aos 15 anos de idade como ajudante de pedreiro. Em alguns
momentos da vida, conseguiu trabalhar com carteira assinada e hoje, com 65 anos, após meio século
de trabalho, conseguiu somar 31 anos de contribuição. Além disso, durante 6 anos contribuiu em cima
de um salário mínimo e no restante com base em 2 salários mínimos. Se João se aposentasse hoje,
receberia como benefício R$ 1.415,00.
Contudo, caso fosse aplicada a totalidade das regras da reforma da presidência do Bolsonaro,
João se aposentaria com os mesmos 65 anos, porém com apenas R$ 1.020,08. João perdeu R$ 394,92,
praticamente o valor do BPC que Bolsonaro quer pagar para os idosos miseráveis.

Cálculo pela regra atual:

Cálculo pela regra da PEC 06/2019

35
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

Os 31 anos de contribuição garantem 82% da média dos benefícios. (60% dos 20 primeiros
anos + 2% x 11 anos). A média de contribuição foi de R$ 1244,40. Contudo, João terá direito a 82%
deste valor: 0,82 x 1244,40 = 1.020,08

26. EXEMPLO BASEADO EM DADOS REAIS SOBRE O IMPACTO DO TEMPO


MÍNIMO DE CONTRIBUIÇÃO PARA AS TRABALHADORAS MAIS POBRES

Maria tem 65 anos de idade e trabalha desde os 14 anos como empregada doméstica. Ela
trabalhou por meio século, mas durante a maior parte do tempo sem nenhum direito trabalhista e não
pagando a contribuição previdenciária.
Hoje, Maria, uma privilegiada segundo o Paulo Guedes, recebe um salário mínimo de R$
998,00, mas paga, sem saber, aproximadamente, R$ 320,00 de tributos sobre tudo que consome (32%
de toda a sua renda). Enquanto isso, o milionário Joesley Batista, pagou apenas 0,3% de imposto de
renda em 2016 sobre os mais de R$ 100 milhões que faturou (quase toda a renda do Joesley é isenta
de impostos no Brasil). Mas vamos voltar à história de Maria.
Quando Maria chegou aos 50 anos de idade, conseguiu um emprego com carteira assinada e
hoje, com 65 anos, finalmente poderá se aposentar com 1 salário mínimo, já que, com muita
dificuldade, cumpriu os 15 anos de contribuição mínimos para demandar o benefício previdenciário.
Maria finalmente irá descansar e não precisará acordar às 5 da manhã, ficar horas em um trem lotado
e depois esfregar o chão dos patrões. Só Deus sabe como Maria aguentou por tanto tempo uma vida
tão dura.
Maria, neste ano, receberá um salário mínimo de aposentadoria, que será muito útil para ajudar
a sua família, pois sua filha não consegue emprego e nem vaga na creche para as crianças. Depois da
crise econômica iniciada em 2015, as coisas ficaram muito difíceis. Quem está segurando a barra na
família é Maria que, com o pouco que ganha, garante a alimentação dos seus netos.
Se a reforma da previdência estivesse valendo, isso faria com que Maria tivesse duas opções:
ou tentar se aposentar pelo BPC com R$ 400,00 agora ou continuar trabalhando até os 70 anos para
completar os 20 anos mínimos de contribuição, garantindo a aposentadoria de um salário mínimo.
Mas Maria já está com a saúde muito abalada devido ao trabalho pesado que se submeteu durante
toda a vida e, provavelmente, não vai aguentar continuar trabalhando até os 70 anos. Enfim, se a
reforma estivesse valendo agora, Maria se aposentaria com R$ 400,00. O que já era muito difícil para
ela e para os netos, ficará insuportável: como alimentar os netos, comprar remédios e coisas do tipo?
Uma crueldade que alguns chamam de combates a privilégios.
Por falar nisso, os patrões de Maria, acionistas de uma grande empresa e que têm seus lucros
e dividendos recebidos isentos, além de receberem muito dinheiro de juros do governo brasileiro,

36
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

estão bastante preocupados com o futuro do Brasil e torcem para a reforma da previdência ser
aprovada, já que ouviram na Globo News que é necessário que os privilégios sejam combatidos no
Brasil. E eles, como classe média alta responsável, são contra os privilégios. De Maria.

27. REFORMA DA PREVIDÊNCIA E DESIGUALDADES REGIONAIS

A reforma da previdência também agravará as desigualdades regionais. Quando se analisa a


distribuição dos benefícios concedidos, observa-se que o Nordeste corresponde a quase metade do
total de benefícios rurais. Segundo dados do Boletim Estatístico de 2018, a média dos benefícios das
aposentadorias por idade na área rural foi de R$ 958,45. Já na área urbana, as aposentadorias por
idade tiveram uma média de R$ 1.259,84. Nas aposentadorias urbanas por tempo de contribuição, a
média do benefício é de R$ 2.366,33 (quase 2,5 vezes o valor da aposentadoria rural por idade).
Ao dificultar a concessão das aposentadorias rurais, que já são bem menores, haverá
um aprofundamento das disparidades regionais, sendo os trabalhadores de estados mais pobres
empurrados para a assistência social, que terá seu valor desvinculado do salário mínimo. No
Maranhão, por exemplo, o benefício rural corresponde a 58,03% do valor total dos benefícios
concedidos. No Pará, 26,31%.

Fonte: Anuário Estatístico da Previdência Social - 201718

18
http://sa.previdencia.gov.br/site/2019/01/AEPS-2017-janeiro.pdf

37
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

% de participação do valor no benefício rural no valor total -


por estado
70,00

60,00

50,00

40,00

30,00

20,00

10,00

0,00

Fonte: Boletins Estatísticos da Previdência Social - 201819

O valor dos benefícios médios já é diferente entre os estados, como mostra o gráfico
abaixo. Estados do Norte e do Nordeste possuem, em média, valores menores que estados do Sudeste,
Sul e Centro-Oeste, tanto nas aposentadorias urbanas quanto rurais.

Valor médio dos benefícios por estado


1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0

Urbana Rural

Fonte: Boletins Estatísticos da Previdência Social – 201820

19
http://www.previdencia.gov.br/dados-abertos/boletins-estatisticos-da-previdencia-social/
20
http://www.previdencia.gov.br/dados-abertos/boletins-estatisticos-da-previdencia-social/

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CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

Outro ponto que merece avaliação regionalizada é o BPC, benefício destinado a idosos
e portadores de necessidades especiais em situação de vulnerabilidade. Dados do MDS de 2015
mostram a distribuição regional desse benefício assistencial, conforme gráfico abaixo. Considerando
a densidade populacional regional, observa-se o peso relativo maior do número de beneficiários do
BPC na região Nordeste. Com quase 42% da população do Brasil, o Sudeste possui número de idosos
e deficientes ligeiramente maior que o Nordeste, que concentra 27% dos cidadãos. Ou seja, o impacto
relativo das mudanças no BPC será maior na região Nordeste, que já possui uma concentração de
cidadãos em situação de vulnerabilidade social altíssima.

Fonte: MDS21

➢ Os benefícios pagos pela Previdência Social são o principal motor da economia


de sete em cada dez municípios do país. Das 5.566 cidades brasileiras, 3.875 (70%) têm os
benefícios previdenciários como maior fonte pública de renda, superando inclusive o Fundo
de Participação dos Municípios.
➢ O impacto nas pequenas cidades - com menos de 50 mil habitantes - será
gigantesco: vai aumentar as desigualdades regionais, uma vez que as rendas previdenciárias
sustentam a economia de pequenas cidades, que representam 88% do total dos municípios do
país. O equivalente à injeção de 5,6 bilhões de reais na economia dessas pequenas cidades em
janeiro de 2016.

21
https://www.mds.gov.br/webarquivos/arquivo/assistencia_social/boletim_BPC_2015.pdf

39
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

➢ No conjunto das cidades brasileiras com até 20 mil habitantes, o total dos
repasses de aposentadorias, pensões e outros benefícios foi de 53,2 bilhões de reais em 2015,
ante 32,4 bilhões do FPM.
➢ Os municípios mais ricos contribuem solidariamente com os mais pobres: Em
4.589 cidades brasileiras, o pagamento dos benefícios supera o valor arrecadado. Em outras
palavras, não fosse a repartição do bolo, o sistema seria inviável em quase todo o país.

28. ANISTIADOS POLÍTICOS

Foram incluídas duas regras alterando o regime dos anistiados políticos:


1.Os anistiados e seus dependentes contribuirão para a seguridade social com uma alíquota
sobre o valor da reparação mensal, nos mesmos termos dos beneficiários do RGPS;
2.Fica vedado o recebimento simultâneo da reparação mensal do anistiado político com
proventos de aposentadoria, podendo fazer opção pelo maior benefício.

29. A REFORMA DO SISTEMA DE PROTEÇÃO DOS MILITARES E A


REESTRUTURAÇÃO DE CARREIRAS DAS FORÇAS ARMADAS

O governo apresentou, no dia 20 de março, um projeto de reestruturação do Sistema de


Proteção Social das Forças Armadas, o equivalente à reforma da previdência para a categoria,
contudo, a proposição veio acompanhada de uma ampla reestruturação para a carreira. O governo
prevê uma economia líquida de economia de R$ 10,45 bilhões em dez anos, o que parece um valor
expressivo, mas que equivale a apenas 1% do total que o governo pretende economizar na reforma
da previdência para os trabalhadores privados e públicos do regime civil. Além disso, o déficit
previdenciário dos militares, por ano, passa dos R$ 40 bilhões, ou seja, o valor economizado em 10
anos seria o suficiente para cobrir apenas 3 meses do déficit da categoria.
A proposta se dividiu em duas partes: por um lado, uma ampla reestruturação na carreira que
beneficiou, principalmente, os militares de altíssima patente em detrimento da base do militarismo;
de outro lado, houve alterações pontuais, como a elevação do tempo mínimo de atividade de 30 para
35 anos e aumento nas alíquotas de contribuição de 7,5% para 10,5%.
A reestruturação da carreira irá custar, segundo informado pela equipe econômica, R$ 86,65
bilhões. O mais grave é que a reforma amplia a já elevada desigualdade de renda dentro das forças
armadas ao favorecer, desproporcionalmente, militares de alta patente. Além disso, o impacto fiscal
da medida será imediato e reduzirá ainda mais o espaço fiscal do governo para a realização de
investimentos públicos, já que as despesas dos militares irá crescer automaticamente ao passo que o
40
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

orçamento global encontra-se congelado pelo teto dos gastos. Dessa forma, os gastos com a
reestruturação das forças armadas, concentrados em militares de alto escalão, irão reduzir o espaço
fiscal do governo para realizar investimentos públicos. Vale lembrar que os investimentos públicos
para 2019 (R$ 36,2 bilhões), por conta do teto dos gastos, já são os mais baixos desde 2004 (R$ 34,2
bilhões). Como proporção do PIB, a taxa de investimento de 2017 foi a menor desde 1996. Com as
medidas adotadas pelo atual governo e com a manutenção do teto dos gastos, rapidamente, o espaço
fiscal para investimentos públicos será totalmente eliminado.
Já no lado do aumento da arrecadação, o impacto esperado se dará no médio e longo-prazo,
fazendo com que os impactos da reestruturação da carreira não sejam compensados ao menos no curto
prazo. Ainda cabe a observação de que a economia de R$ 97,3 bilhões parte de pressupostos fortes
como a redução do efetivo das forças armadas em 10% nos próximos 10 anos. Se os pressupostos de
redução do efetivo não forem satisfeitos ou se houver aumentos de soldo nos próximos anos, talvez
não haja nenhum ganho líquido com a reforma, quiçá um prejuízo líquido.

A) ASPECTOS GERAIS DO REGIME DE PROTEÇÃO SOCIAL (PREVIDÊNCIA)


MILITAR

É comum a alegação de que, formalmente, não existe um regime previdenciário para os


militares já que os mesmos, teoricamente, não se aposentam, mas sim “vão para a reserva”, ou seja,
seria possível convocá-los a qualquer momento para alguma tarefa. O termo formal utilizado para
descrever o regime “previdenciário” das forças armadas é “Sistema de Proteção Social dos Militares”.
Contudo, na prática, segundo o Ministério da Defesa, menos de 1% dos militares na reserva foi
convocado para alguma atividade nos últimos anos: entre 2012 e 2016, apenas 1.221 dos cerca de 160
mil reservistas assumiram alguma ação.
Concretamente, a pensão militar funciona como qualquer outra aposentadoria: um seguro
contra a idade avançada, o que não exclui o reconhecimento de que há especificidades na carreira
militar, da mesma forma que também há em outras carreiras, como professores e trabalhadores rurais.
Tais especificidades, de fato, exigem um tratamento diferenciado proporcional às peculiaridades.

B) DADOS FISCAIS DO SISTEMA DE PROTEÇÃO SOCIAL (PREVIDÊNCIA)


MILITAR E IMPACTOS DA REESTRUTURAÇÃO E REFORMA.
Síntese: os militares se aposentam muito mais cedo, recebem benefícios maiores e são responsáveis
pelo maior déficit per capita do regime previdenciário

41
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

• Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), em 2016, 88% dos militares foram
para a inatividade entre 45 e 54 anos. Mais da metade dos militares foram para a
reserva com menos de 49 anos de idade.

• Os militares representam hoje metade dos gastos da Previdência entre o funcionalismo


público, embora representem apenas 31% do quadro.

• São gastos R$ 43,9 bilhões com pensões e aposentadorias para cerca de 300 mil
militares e pensionistas, enquanto a União despende R$ 46,5 bilhões para 680 mil
servidores do regime civil.22

• Dados da PNAD Contínua do IBGE de 2017 mostram que os militares correspondem


a 0,9% dos trabalhadores e 0,4% da população. Contudo, dados do “Raio X do
Orçamento” da Câmara dos Deputados mostram que respondem por mais de 14% do
“déficit” do sistema previdenciário como um todo e 44% do “déficit” dos Regimes
Próprios de Previdência.

• Segundo dados do Tesouro Nacional, o déficit per capita (por beneficiário) do regime
militar chega a ser 85 vezes mais deficitário do que o apresentado pelo regime geral
urbano.

Fonte:
http://www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/0/Relat%C3%B3rio+da+Previd%C3%AAncia+
editado/

22
Relatório de Acompanhamento Fiscal, divulgados pela Instituição Fiscal Independente (IFI)

42
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

• A remuneração média dos militares reservistas é de R$ 11.621, bem acima da de um


aposentado da iniciativa privada pelo INSS, que recebe, em média, R$ 1.129
Fonte: Elaboração Própria, dados extraídos de Nery e Tafner (2018) e PEC 06/2019

R$14.000,00
APOSENTADORIA MILITAR COMPARADA
R$11.523,00
R$12.000,00

R$10.000,00

R$8.000,00

R$6.000,00

R$4.000,00

R$2.000,00 R$1.268,00
R$1.129,00
R$400,00 R$387,00
R$180,00
R$-
PENSÃO MILITAR - RENDA MÉDIA BENEFICIÁRIO INSS BPC PROPOSTO NA LINHA DA POBREZA BOLSA FAMÍLIA
RESERVA/REFORMA POPULAÇÃO PEC

• Na Previdência Social, para os trabalhadores do setor privado, o teto atual da


aposentadoria é de R$ 5.645. Já o militar que vai para a reserva não possui um limite
máximo para os valores recebidos. Em tese, ele está sujeito ao teto constitucional,
equivalente ao salário de ministros do STF, reajustado recentemente para R$ 39,3 mil.

• A composição das receitas, despesas e resultado da Previdência deixa nítida a


discrepância entre as contribuições que os militares pagam e as receitas que recebem.
A diferença é custeada pelo conjunto da sociedade.

43
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

• O efetivo das forças armadas se concentra em militares de baixa hierarquia, principalmente


cabos e soldados, que são, na esmagadora maioria dos casos, militares temporários que não
obterão os benefícios previdenciários e que não foram beneficiados pela generosa
reestruturação, focada no topo da pirâmide da hierarquia militar.

C) AMPLIAÇÃO DOS BENEFÍCIOS: A REESTRUTURAÇÃO REGRESSIVA DA


CARREIRA MILITAR.
A reestruturação da carreira está no mesmo projeto que trata das alterações no sistema de
proteção social dos militares. Basicamente, a reestruturação é um tanto quanto generosa e irá,
praticamente, eliminar o espaço fiscal gerado pela reforma no sistema de pensão dos militares. Além
disso, o custo da reestruturação é altamente regressivo e irá beneficiar, principalmente, os militares
de alta patente, ou seja, trata-se de uma reforma que ampliará as desigualdades não só entre os
diferentes sistemas, mas, também, dentro das próprias forças armadas entre praças (militares de mais
baixa patente) e oficiais (militares de patentes mais elevadas). Uma série de benefícios foram
44
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

ampliados ou criados, iremos descrevê-los a seguir.

➢ Adicional de habilitação

Trata-se de um adicional derivado de cursos que são realizados ao longo da carreira como
condição necessária para o progresso do militar. O adicional de habilitação é um benefício que já
existia sendo apenas ampliado com a reestruturação. Atualmente, o percentual extra mensal pode
variar de 12% a 30% e passará para o intervalo de 12% a 73%. É importantíssimo observarmos que
os militares da base da carreira, soldados e cabos, não tiveram nenhum reajuste no adicional. A
reestruturação será feita em 4 anos.

Fonte: apresentação da equipe econômica do governo

➢ Gratificação de representação a generais


Foi ampliada também a gratificação de representação a generais. O adicional de 10% sobre o
soldo, o salário dos militares, poderá ser levado para a reserva. Hoje, o ganho extra só vale para quem
está na ativa. Este complemento também pode ser dado temporariamente em caso de exercícios de
lideranças para missões específicas. Nesse caso, o extra não é incorporado quando o militar em
questão torna-se inativo.

➢ Adicional de disponibilidade
Trata-se de um adicional que não existia e, basicamente, é o equivalente a um reajuste no valor
dos soldos que pode chegar a 32% para os militares de alta patente. Os militares deverão passar a

45
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

receber percentual incidente sobre o soldo (salário) de oficiais e praças pago mensalmente a partir de
1º de janeiro de 2020. Incide apenas sobre a parcela do soldo. Novamente, os benefícios são
extremamente regressivos, favorecendo militares de mais alta patente: ao passo que um Coronel terá
reajuste no soldo de 32%, soldados e cabos receberão aumento de apenas 5%.

Coronel e subtenente (32%)


Tenente-coronel (26%)
Major e Primeiro Sargento (20%)
Capitão e Segundo Sargento (12%)
Primeiro tenente e Terceiro Sargento (6%)
Demais militares (5%)

➢ Ajuda de custo no momento da transferência


Hoje, quando o militar se aposenta (ou como eles dizem, vai para a reserva), recebe uma ajuda
de custo de 4 vezes o valor do soldo. Com a proposta, o valor irá dobrar para 8 vezes o valor do soldo.
Não foi apresentada nenhuma justificativa plausível para uma elevação tão significativa.

➢ Gratificação de representação
Manutenção da parcela remuneratória mensal devida aos Oficiais Generais das três Forças na
ativa e na inatividade.

D) A MINI REFORMA DA “PREVIDÊNCIA MILITAR”

➢ Contribuições

Há unificação da contribuição de todos os beneficiários do sistema, que passa a 10,5% sobre


o valor integral do rendimento bruto a partir de 2022. Não há progressividade nas alíquotas, ou seja,
militares de alta patente pagam o mesmo que os de mais baixa hierarquia.

46
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

Fonte: apresentação da equipe econômica do governo

➢ Transição para as contribuições


• A transição das contribuições de 7,5% para 10,5% será realizada em 3 anos.
• Há garantia do direito de transferência para reserva remunerada aos militares que já possuírem
30 anos de serviço ativo na data de entrada em vigor da nova Lei.
• Já o militar da ativa que ainda não preencher os requisitos para transferência para a inatividade
deverá cumprir o tempo que falta para completar trinta anos de serviço acrescido de um
pedágio de 17% do tempo faltante.

Fonte: apresentação da equipe econômica do governo

47
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

➢ Aumento do tempo mínimo de serviço

Pela regra atual, o tempo mínimo de atividade é de 30 anos, tanto para homens quanto para
mulheres. A proposta aumenta essa idade para 35 anos. Considera-se no cálculo o tempo de
Academia ou Escola Militar.
➢ Transição para o tempo mínimo de serviço
Direito de transferência para reserva remunerada aos militares que já possuírem 30 anos de
serviço ativo na data de entrada em vigor da nova Lei. O militar da ativa que ainda não preencher os
requisitos para transferência para a inatividade deverá cumprir o tempo que falta para completar trinta
anos de serviço acrescido de um pedágio de 17% do tempo faltante.

➢ Novo rol de dependentes


Houve alteração no rol de dependentes dos militares das Forças Armadas. De oito categorias
esse rol passará para duas, que são cônjuge ou companheira (o) que viva em união estável, na
constância do vínculo; e filho (a) ou enteado(a), menor de 21 anos ou inválido(a).
No rol de quem não tem rendimentos, as categorias passarão de dez para três 3 categorias.
Sendo pai e mãe; tutelado(a), curatelado(a) inválido(a) ou menor de 18 anos que viva sob sua guarda
por decisão judicial; e filho(a) ou o(a) enteado(a) estudante menor de 24 anos.

E) TRAMITAÇÃO DA PROPOSTA

1) O presidente da Câmara deve criar a comissão especial. O ato de criação será lido em
plenário e, a partir daí, começa a fase de indicação de líderes;

2) Com a comissão especial criada, iniciam-se as reuniões para A comissão a escolha do


presidente e vice-presidente. O presidente eleito designará o relator da proposta;

3) Escolhido o relator, caberá a ele elaborar um parecer sobre o mérito da proposta,


incluindo as previsões sobre adequação financeira e orçamentária, constitucionalidade,
juridicidade, técnica legislativa e redação;

4) Com o relatório apresentado, caberá aos deputados da comissão votar o parecer;

5) Caso o texto seja aprovado pela comissão especial, será enviado ao plenário da Câmara;

6) Aprovada no plenário da Câmara, a proposta será encaminhada ao Senado.

48
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

30. PRIVATIZAÇÃO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL – EXPERIÊNCIAS


INTERNACIONAIS

Segundo dados de estudo divulgado pela OIT, desde 1981, 30 países privatizaram total ou
parcialmente seus sistemas previdenciários, sendo que 18 deles reverteram, ao menos em parte, a
privatização.

Fonte: OIT23
As evidências mostram que esse sistema fracassou e provocou o empobrecimento da
população idosa, trazendo consequências sociais graves. Dentre os principais pontos abordados nos
estudos, destacamos:
1. Redução ou estagnação da taxa de cobertura: isso significa que parcela da
população ficou desassistida. “Na Argentina, as taxas de cobertura caíram mais de 20 por
cento. O similar foi observado no Chile, Hungria, Cazaquistão e México; enquanto em outros
países como Bolívia, Polônia e Uruguai, a cobertura se estagnou”;
2. Redução do valor dos benefícios: o mito da eficiência privada advoga que a
reforma previdenciária aumentaria os valores das aposentadorias, pela administração privada
dos fundos. “Na Bolívia, as pensões privadas correspondem em média a apenas 20 por cento
do salário médio durante a vida ativa do trabalhador”. Dados da BBC também mostram a
tragédia: cerca de 91% dos idosos recebem metade do salário mínimo24;

23
https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2019/03/Capitaliza%C3%A7%C3%A3o-OIT-Estudo.pdf -
Quatorze países são da América Latina: Chile (primeiro a privatizar em 1981), Peru (1993), Argentina e Colômbia (1994),
Uruguai (1996), Estado Plurinacional da Bolívia, México e República Bolivariana da Venezuela (1997), El Salvador
(1998), Nicarágua (2000), Costa Rica e Equador (2001), República Dominicana (2003) e Panamá (2008); Outros quatorze
são da Europa do Leste e da antiga União Soviética - Hungria e Cazaquistão (1998), Croácia e Polônia (1999), Letônia
(2001), Bulgária, Estônia e Federação Russa (2002), Lituânia e Romênia (2004), Eslováquia (2005), Macedónia (2006),
República Checa (2013) e Armênia (2014); E mais dois países da África - Nigéria (2004) e Gana (2010).
24
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39931826

49
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

3. Aumento das desigualdades de renda e de gênero: A substituição dos


sistemas solidários pelas contas individuais aprofundou as desigualdades sociais,
comprometendo um dos principais objetivos dos sistemas de seguridade social – a
redistribuição de renda na sociedade. “Na Bolívia, por exemplo, a proporção de mulheres
idosas que recebem uma aposentadoria caiu de 23,7 por cento em 1995 para 12,8 por cento
em 2007; na Polônia, a proporção das mulheres em risco da pobreza atingiu um recorde
histórico de 22,5 por cento em 2014”;
4. Os altos custos de transição pressionaram as contas públicas: a transição
do sistema solidário para o de capitalização traz custos quase sempre subdimensionados pelos
governos. No Brasil, o governo não divulgou tal dado, o que é objeto de Requerimento de
Informações do PSOL. “Na Bolívia, os custos reais de transição foram 2,5 vezes a projeção
inicial. Da mesma forma, na Argentina, o custo foi inicialmente estimado em 0,2 por cento do
PIB em1994; no entanto, a estimativa foi posteriormente ajustada em 2001 e aumentou 18
vezes, para cerca de 3,6 por cento do PIB”;
5. Custos administrativos elevados: o mito da eficiência privada não se
comprovou e os baixos benefícios podem ser explicados, em parte, pelos altos custos de
administração dos fundos de previdência privados.

Fonte: OIT

6. Benefício da mudança de sistema do sistema financeiro: a pressão do


sistema financeiro pelo controle dos fundos de previdência é mais uma face dos interesses do
capitalismo financeiro, em detrimento do interesse nacional. “Em muitos países, as reservas

50
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

da previdência na fase acumulativa foram usadas para o desenvolvimento nacional, como foi
feito na Europa. No entanto, o uso de fundos de previdência para investimento público
nacional em geral se perdeu nos sistemas privatizados de capitalização, que investiram as
poupanças individuais em mercados de capitais buscando retornos elevados, sem colocar as
metas nacionais de desenvolvimento como prioridade”.

Como mencionado anteriormente, 18 países trataram de reverter o processo de


privatização da previdência social, buscando restabelecer a previdência pública ou criar um
administrador público do sistema:

Fonte: OIT

31. A REFORMA DA PREVIDÊNCIA AUMENTA A REGRESSIVIDADE DA


POLÍTICA FISCAL

A reforma da previdência, nos moldes propostos, reduzirá a progressividade da política fiscal


brasileira. A política fiscal é um mecanismo de redistribuição da riqueza produzida pelo conjunto da
sociedade por intermédio dos gastos públicos e da tributação. Quanto mais os gastos são focalizados
nos mais pobres e a tributação nos mais ricos, mais progressiva e justa é a política fiscal. O oposto é
verdadeiro. Desta forma, a política fiscal pode servir para ampliar ou reduzir a desigualdade social
gerada pelos mecanismos do mercado e não se pode analisar a reforma da previdência fora do
arcabouço mais amplo da política fiscal.
No caso do Brasil, nossa tributação é regressiva, penalizando os mais pobres, ao passo que os
nossos gastos públicos (apesar da alta regressividade representada pelo pagamento de juros da dívida,
que gira em torno de 6% do PIB todo ano) ainda assim são consideravelmente progressivos.
Do lado dos gastos, Silveira e Passos (2018) afirmam que “é clara a importância do sistema

51
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

de proteção social brasileiro, em especial pela sua cobertura, na redução da desigualdade, pois as
quedas entre a renda de mercado e renda disponível e entre a renda posterior aos tributos indiretos e
a final são expressivas, ainda que insuficientes para afastar o Brasil das últimas posições na
desigualdade da renda”. Contudo, do lado da tributação, os autores concluem que “verifica-se que o
impacto distributivo da tributação é reduzido ou mesmo regressivo, pela ascendência dos tributos
sobre o consumo e a suboneração dos tributos diretos, notadamente sobre a renda da pessoa física.”
Utilizando-se do método descrito na Figura 1, Silveira e Passos calcularam a variação do
índice de Gini25 no Brasil antes e depois da execução da política fiscal, ou seja, da execução dos
gastos e tributos.

Fonte: Silveira (2012)

Os resultados obtidos demonstram que no Brasil a desigualdade de renda gerada no mercado


é altíssima em qualquer comparação internacional (coluna azul), entretanto, após a realização dos
gastos com previdência e assistência e da tributação direta, a desigualdade cai consideravelmente
(coluna cinza) e se mantém estável após a tributação indireta (coluna verde), despencando, por fim,
com os gastos em saúde e educação (Gráfico anexado).
A reforma da previdência (PEC 06/2019) irá afetar duramente a base da pirâmide (ao reduzir
o valor do BPC, impor um tempo de contribuição mínimo proibitivo para um amplo conjunto de
trabalhadores, reduzir o valor dos benefícios pelo cálculo do benefício dentre outros) haverá um efeito
negativo na nossa já alta desigualdade social. Dito isso, é inadmissível que a reforma cristalizada na
PEC 06/2019 seja apresentada como um mecanismo redutor das desigualdades. Dadas as
comparações internacionais, necessitamos do oposto do que está sendo imposto ao conjunto da
sociedade: ampliação dos gastos sociais com os mais pobres em paralelo à uma reforma tributária
progressiva.

25
O Coeficiente de Gini consiste em um número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade (no caso do
rendimento, por exemplo, toda a população recebe o mesmo salário) e 1 corresponde à completa desigualdade (onde uma
pessoa recebe todo o rendimento e as demais nada recebem).
52
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

32. IMPACTO ORÇAMENTÁRIO DA REFORMA NOS DIFERENTES REGIMES

Impacto Líquido
(R$ bi de 2019) 10 anos 20 anos

Reforma do RGPS 715 3449,4

Reforma no RPPS da União 173,5 413,5


Mudanças das alíquotas no RPPS
da União 29,3 45,2
Mudanças das alíquotas no RGPS
da União -27,6 -61,9
Assistência Fásica e Focalização
do abono salarial 182,20 651,2
Reestruturação da carreira
militar -86,65
Reforma "previdenciária" das
Forças Armadas 97,3

TOTAL 1083,05 4497,4


Fonte: Elaboração própria com base na exposição de motivos da PEC 06/2019

53
CÂMARA DOS DEPUTADOS
LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE

33. A QUESTÃO DA PREVIDÊNCIA PÚBLICA E A NATUREZA DO SISTEMA DE


REPARTIÇÃO

* Texto de Carlos Bastos Pinkusfeld26

A questão da previdência entrou definitivamente no centro do debate político e econômico


como um elemento importante da agenda de reformas conservadoras. Tal discussão oscila entre
debates contábeis, ideológicos e até demográficas. Sem diminuir a importância de tais questões, é
curioso notar que ao se tratar de um tema eminentemente econômico o que menos se observa é,
exatamente, o aprofundamento do debate, e confronto de ideias, segundo abordagens teóricas
distintas.
Entretanto, um ponto inicial, e possivelmente o mais fundamental, aquele que uma vez
compreendido elimina boa parte dos mal entendidos, é explicar o que é um sistema de previdência
público de repartição[1].
Tal sistema é um programa de tributação e transferência, ou seja, são cobrados impostos e
contribuições de um subconjunto da sociedade e tais valores são transferidos para outro subconjunto,
composto por aposentados e pensionistas. A forma como o Estado arrecada as receitas que serão
transferidas para pensionistas e aposentados depende de uma economia política específica do arranjo
de contribuições previdenciárias: as receitas da previdência podem advir de diferentes formas de
impostos dependendo de uma decisão da sociedade pactuada através de seus corpos de deliberação e
decisão política. Tais contribuições podem incidir, majoritariamente, sobre lucros, por exemplo, (e
não sobre rendimentos de trabalhadores ativos) ou sobre o consumo através de impostos indiretos
(que são pagos indistintamente por ativos e inativos). Entretanto, pode-se dizer que, usualmente, mas
não exclusivamente, as receitas do sistema são obtidas por contribuições feitas por trabalhadores
ativos, sendo esta forma de contribuição em boa medida relacionada à própria formação histórica dos
sistemas de previdência pública, como se discutirá mais à frente.
Um primeiro ponto importante a se observar é que se, por um lado, as contribuições para a
previdência podem elevar a carga tributária, as suas “despesas”, ou pagamentos, retornam à sociedade
em quase sua totalidade. Como o próprio nome deixa claro, as transferências da previdência apenas
realocam renda dentro da sociedade e seu impacto líquido sobre o conjunto desta é praticamente zero,
sendo a diferença composta pelos reduzidos gastos operacionais do sistema de previdência.
Assim, em princípio, a carga tributária requerida para o pagamento de benefícios da

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É economista, professor e pesquisador do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(IE/UFRJ)

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previdência, não é uma subtração de renda da “sociedade” como um todo, e sim sobre um grupo da
sociedade e redistribuído a outro.
Esse tipo de sistema previdenciário pode ensejar arranjos de tributação e transferências que
estimulem o nível de atividade econômica. Numa abordagem da demanda efetiva (ou
Keynesiana/kaleckiana) o produto e emprego dependem da demanda efetiva, ou seja, do resultado
dos gastos (e tributação) do governo, setor privado e setor externo, sem que haja nenhuma tendência
natural ao pleno emprego dos fatores de produção. Neste caso, há distintas formas de impacto de um
determinado desenho de sistema tributário sobre o produto. Quando ocorre a cobrança de impostos
sobre indivíduos de maior propensão a poupar e as transferências são feitas para aqueles com maior
propensão a gastar o sistema tributário tem características expansionistas. Arranjos de previdência
assim organizados, mais generosos e distributivistas, teriam um impacto positivo sobre o nível de
renda!
Como dito anteriormente, tais conclusões só se tornam claras à medida que a verdadeira
natureza de um sistema público de contribuição é explicitada, afastando-se do debate comparações
ou “metáforas” indevidas que remetem a sistemas de seguro individual; sistemas nos quais os
indivíduos acumulariam riqueza em seu período ativo para gastá-los no período de inatividade. De
acordo com tal “metáfora” os esquemas de repartição, e especificamente os pagamentos dos ativos à
previdência, emulariam as decisões de poupança relacionadas ao ciclo da vida. A contrapartida
contábil desta inadequada “metáfora” do seguro seria a acumulação de “passivos” por parte do
responsável pelos pagamentos previdenciários, o Estado.
Tal incompreensão da verdadeira natureza do sistema previdenciário não é nova; é tão antiga
quanto a própria origem do sistema. Bismarck o pioneiro na implementação da previdência na
Alemanha refutava a ideia de vincula-la a um seguro pessoal, negando assim a própria razão de ser:
a caracterização do Estado como benevolente, que cuida do bem estar dos seus cidadãos.
Outro marco na implantação de esquemas de previdência, o Beveridge Report[2], reconhecia
que um sistema público se baseava na capacidade do Estado de tributar para prover recursos aos
pensionistas e aposentados, e que tal esquema não tinha nenhuma relação com a ideia de acumulação
pessoal de ativos, que caracteriza um seguro. Entretanto, a utilização de uma “ficção de seguro”, ou
seja, a cobrança de contribuição individual que estaria relacionada aos pagamentos futuros de
aposentadorias seria uma ferramenta politicamente útil para conscientizar os trabalhadores acerca dos
custos do sistema. O próprio economista John Maynard Keynes reconhecia que a forma “ficcional”
como se apresentava um sistema de contribuições pessoais relacionado a pensões futuras, era,
simplesmente, uma característica de natureza política que tinha o objetivo de lembrar aos
trabalhadores que benefícios só seriam legítimos se tivessem como contrapartida uma contribuição
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prévia.
Essa ficção alcançou seu status teórico mais sofisticado na reflexão do economista Paul
Samuelson que desenvolveu um modelo no qual contribuição e benefício se relacionam por uma “taxa
de retorno” (que chamou de juros biológicos) igual ao crescimento dos salários.
A tentativa de apresentar uma formalização de um sistema de transferências públicos através
de uma “ficção do seguro” foi veementemente contestada tanto por economistas simpáticos a tal
esquema, como Abba Lerner, quanto por críticos, como Milton Friedman. Ambos se opunham à
tentativa de representar de forma equívoca um sistema público de tributação e transferência com o
objetivo de transformá-lo politicamente mais “aceitável”.
Uma vez entendida a verdadeira natureza do sistema torna-se mais fácil entender o debate que
o cerca a questão do pagamento de pensões no futuro.
Não há discordância que quanto maior for o produto per capita no futuro maior será o produto
a ser repartido. Repartição esta que é feita, entre indivíduos ativos e inativos, no sistema público
usual, segundo algum critério de natureza sócio-política. Segundo a abordagem da demanda efetiva
como não existe uma tendência da economia de chegar ao pleno emprego, políticas de estímulo à
demanda efetiva fazem com que aumente a renda e o consumo agregado escapando-se de um trade
off que poderia ocorrer caso se registrasse um maior grau de dependência (ou a relação) entre
trabalhadores inativos por ativos. Assim, no agregado pode-se aumentar o consumo mantendo-se os
benefícios aos trabalhadores inativos com políticas de estímulo à renda e ao emprego.
Logo, o debate de previdência não independe das formas distintas de abordagens teóricas
adotadas para a compreensão do funcionamento de uma economia capitalista e não é, simplesmente,
a consequência inelutável de cálculos demográficos. Estes fornecem as características populacionais
futuras que influenciarão a capacidade laborativa da população, mas a produção a ser repartida por
tal população depende de como se interpreta o processo de determinação do produto e da acumulação
de capital.
Uma vez compreendida que a previdência é um sistema de contribuição e transferência em
um dado período de tempo, e não um sistema de seguro intertemporal, revela-se a possível natureza
redistributiva que envolve o seu debate, e os ataques que sofre por certos setores da sociedade. Por
exemplo, uma a elevação dos salários recebidos ao longo da vida de um trabalhador, em consequência
da existência de um sistema de previdência de repartição, financiado em alguma medida pela taxação
de lucros, pode causar uma redistribuição entre lucros e salários em favor dos últimos, caracterizando
uma situação redistributiva a favor dos trabalhadores.
Vale lembrar, também, que mudanças demográficas não operam apenas na elevação de gastos.
À medida que a população envelhece uma série de gastos relacionados à infância e outros serviços
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como, por exemplo, segurança, se reduz. Há que se considerar ambos os efeitos e não apenas aqueles
que representam aumento de gastos e transferências[3]. Certamente, seria contraditório com a
abordagem da demanda efetiva defender que uma redução do gasto não teria um efeito contracionista
sobre o produto. Apenas queremos ressaltar que os fatores demográficos colocam aos gestores de
política econômica opções de alocação de recursos que devem ser levadas em conta na consecução
do objetivo de maximização do bem estar da sociedade, no qual se inclui a manutenção do alto
emprego.
A discussão importante a ser feita diz respeito a escolhas da sociedade sobre a trajetória do
desenvolvimento econômico e divisão do produto social. Se, por um lado, a metáfora do seguro foi
imposta por formuladores de sistemas públicos de previdência como uma forma de mascarar sua
verdadeira natureza redistributiva, por outro é forçoso reconhecer que os trabalhadores aderiram a
esta metáfora com a expectativa de que uma ideia de contribuição presente para futuro recebimento
de renda fosse tornar mais rígido o pacto político de manutenção do benefício previdenciário. As
propostas de reformas correntes, não apenas no Brasil como em outras partes do mundo, revelam que
a estratégia dos trabalhadores se mostrou equivocada. Uma vez aceita a verdadeira natureza
previdenciária de cobrança, contemporânea, de imposto, e transferência via pagamento de benefício,
a ideia de uma “quebra da previdência” perde seu sentido lógico. Afinal, isso só seria possível caso
houvesse uma acumulação de ativos que deveria fazer frente a compromissos fixos de remuneração
futura e uma incompatibilidade atuarial entre tais ativos e compromissos explicitaria tal “quebra”.
Num sistema de tributação e transferência não só a ideia é fora de propósito como também
esforços intertemporais de “consertar” uma crise que não pode existir em um esquema contemporâneo
são também um contrassenso. É claro que medidas como, por exemplo, a isenção tributária sobre as
contribuições de patrões, pode causar um desequilíbrio entre receitas e despesas, mas sua “solução”
deve ser um item do conjunto da política fiscal de um dado período, que se constitui de decisões de
gasto, tributação e análise dos impactos macroeconômicos de tais decisões.
Como defendido neste artigo, a preocupação do gestor de política econômica deve ser com a
manutenção de um nível de demanda efetiva compatível com um baixo desemprego, elevada
ocupação da capacidade produtiva e, indiretamente, acumulação de capital com impacto sobre a
elevação da renda per capita no futuro. Cortes de gasto presentes vão na contramão de tal lógica.
Como diz o dito popular no idioma inglês: “If it ain´t broken don´t fix it”, ou “se não está quebrado
não conserte”. Neste caso não apenas a ideia de uma quebra do sistema é equivocada como a sua
suposta correção da forma como está sendo proposta traria efeitos distributivos regressivos,
socialmente prejudiciais aos trabalhadores e indiretamente nefastos à acumulação de capital no longo
prazo. A suposta solução seria um enorme problema.
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Notas
[1] A discussão que se segue baseia-se no capítulo 1 do livro de autoria de Sergio Cesaratto “Pension Reform and
Economic Theory”. Uma referência importante para explicitar as diferenças teóricas por trás do debate é o artigo do
economista Massimo Pivetti “The ‘Principle of Scarcity’, Pension Policy and Growth” publicado no Review of Political
Economy, Volume 18, Número 3, de Julho de 2006.

[2] Um documento preparado em 1942 pelo economista William Beveridge e que estabeleceu os fundamentos do sistema
de bem estar social na Inglaterra do pós guerra.

[3] Um exemplo de exercício nesta direção é feito no Working Paper do FMI de 2005 “Aging: Some Pleasant Fiscal
Arithmetic” de autoria de David Hauner.

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