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estéticaremix

por Levy Mota

Poucas ciências dispõem de uma data de nascimento tão bem definida como a
estética, originária dos primeiros anos da segunda metade do século XVIII. Não apenas
isso: a estética conta com uma espécie de pai fundador, o filósofo alemão Alexander
Gottlieb Baumgarten (1714-1762), cujas obras delimitam o caráter científico e pré-
científico da área de conhecimento a que se dedicou e cujos caminhos abriu. Entretanto,
Baumgarten e, depois dele, Kant não expuseram seu pensamento, voltado sobretudo
aos problemas relativos ao valor e à percepção que o sujeito tem do belo, suscitado pela
natureza e/ou pela obra de arte, sem que recorressem a uma tradição em que esses
tópicos estavam postos. Os dois filósofos procedem, sem dúvida, a um corte na história
do pensamento ocidental, no que diz respeito àqueles assuntos; mas suas ideias estão
também presentes nas reflexões desenvolvidas desde Platão, haja vista a atitude deste
perante a arte enquanto forma e simulacro, e de Aristóteles, cuja Poética fertiliza, até
nossos dias, formulações sobre a mimese, representação e recepção da obra de arte. 1
Se a filosofia da arte começa com Platão, ela principia, paradoxalmente, por uma
condenação das “belas-artes” e da poesia. Mas, para sermos precisos, cumpre dizer que
as “belas-artes” não existiam como tais em Platão. Em contrapartida, trata-se
frequentemente de arte (tékhnê). O Político (ou Estadista) evoca a arte da tecelagem e
analisa a arte de governar; o Górgias se pergunta se a retórica não será uma arte, e o
Filebo coloca a dialética no ápice das artes. Significa isso que a pintura, a poesia, a música
não têm lugar à parte no vasto conjunto da tékhnê? Certamente que não, mas tampouco
são definidas, como as “belas-artes” modernas, pela expressão da beleza.
Inversamente, a beleza quase nunca se encarna, em Platão, nas obras de arte. É possível,
entretanto, e até necessário partir de Platão, porque a concepção moderna da arte, a
qual, a partir do século XVIII, se caracteriza, de um lado, pela vinculação da beleza às
produções de certas artes e, de outro lado, por uma definição dessa beleza que a faz
nascer de um prazer “estético”, mais ou menos puro, mas em todo caso radicalmente
subjetivo, mergulha suas raízes na filosofia platônica. Mediante uma censura que seria
ingênuo crer inconsciente, os elementos de uma “estética” estão presentes em Platão,
mas reprimidos.2
Em Aristóteles, temos o conceito de mimesis como cerne da análise da estética,
não simplesmente do drama, mas de todas as artes. Previsivelmente, a palavra é um
desafio à tradução exata. Ela significa pôr na mente de alguém, por um ato de
apresentação artística, ideias que levarão essa pessoa a associar o que está sendo
apresentado à sua própria experiência prévia. As traduções da Poética apresentam
diversamente mimesis como “imitação”, “representação” e “simulação”. Aristóteles,
falando das artes, deixa claro que mimesis, para ele, significa “imitação”. A mimesis
requer semelhança, com diferença suficiente para prender a mente do espectador, leva-
lo a participar da experiência que é a intenção da obra de arte. 3
No entanto, nos sistemas filosóficos anteriores ao século XVIII, a obra de arte, a
percepção e o belo não eram necessariamente compreendidos como pertencentes ao
mesmo âmbito filosófico. Somente a partir do século XVIII, tais conceitos, anteriormente
vinculados à tradição das faculdades perceptivas, da beleza e da arte, são unidos por
Baumgarten, que os compreende como diferentes facetas de um mesmo fenômeno, a
saber, o fenômeno estético. Posteriormente, devido, em parte, à influência do
renascimento italiano e, sobretudo, de Hegel, a obra de arte passa a ser vista como um
dos principais objetos da estética, embora alguns pensadores contemporâneos tenham
se esforçado por diferenciar a estética, enquanto ciência do belo, e a teoria da arte,
enquanto ciência das artes. Portanto, a partir do século XVIII, com Alexander Gottlieb
Baumgarten, surge a estética, uma nova disciplina filosófica, preocupada em
estabelecer, como objeto específico de estudo, a cognição sensível. O filósofo alemão
encontra, nos estudos relativos às faculdades cognitivas da alma, de um lado, e nos
estudos realizados no âmbito da poética e da retórica, de outro, as bases para formular
a existência de um domínio cognitivo paralelo ao lógico, a saber, o domínio do
conhecimento estético.4
Na tradição filosófica anterior a Baumgarten já existia a oposição entre o
conhecimento lógico e o conhecimento perceptivo. Portanto, nesse sentido, o filósofo
alemão não é inovador. Sua inovação consiste no fato de redefinir a percepção,
anteriormente vista como um mero estágio inferior (obscuro) em relação à lógica,
conferindo-lhe habilidades criativas, ligadas à produção das obras de arte e da própria
linguagem como um todo.5
Tomando emprestado de Baumgarten o termo “estética” para designar a teoria
das formas da sensibilidade, Kant recusa de fato aquilo que lhe dava seu sentido, isto é,
a ideia do sensível como inteligível confuso. Para ele, não existe uma estética pensável
como teoria do conhecimento confuso e sua obra não conhece a "estética" como teoria.
Ela conhece apenas o adjetivo "estético", que designa um tipo de julgamento e não um
domínio de objetos. Apenas no contexto do romantismo e do idealismo pós-kantiano,
através dos escritos de Schelling, dos irmãos Schlegel ou de Hegel, a estética passará a
designar o pensamento da arte – não sem se fazer acompanhar, de resto, por uma
insistente declaração de impropriedade do termo. É só a partir daí que, sob o nome de
estética, se opera uma identificação entre o pensamento da arte – o pensamento
efetuado pelas obras de arte – e certa noção de "conhecimento confuso": uma ideia
nova e paradoxal, já que, ao fazer da arte o território de um pensamento presente fora
de si mesmo, idêntico ao não-pensamento, ela reúne os contraditórios: o sensível como
ideia confusa de Baumgarten e o sensível heterogêneo à ideia de Kant. Isto é, ela faz do
"conhecimento confuso" não mais um conhecimento menor, mas propriamente um
pensamento daquilo que não pensa.6
Dito de outro modo, "estética" não é um novo nome para designar o domínio da
"arte". É uma configuração específica desse domínio. Ela não é a nova rubrica sob a qual
se organizaria aquilo que antes concernia ao conceito geral de poética. Ela marca uma
transformação no regime do pensamento da arte. E esse novo regime é o lugar onde se
constitui uma ideia específica do pensamento.7

1 KIRCHOF, EDGAR ROBERTO. A Estética Antes Da Estética de Platão, Aristóteles,


Agostinho, Aquino E Locke a Baumgarten. Editora da ULBRA, 2003.
2 LACOUSTE, Jean. A filosofia da arte. Expresso Zahar, 1986.
3 MCLEISH, Kenneth. Aristóteles: a poética de Aristóteles. Unesp, 2000.
4 KIRCHOF, EDGAR ROBERTO. Op cit.
5 KIRCHOF, EDGAR ROBERTO. Op cit.
6 RANCIÈRE, Jacques. O Inconsciente Estético. Editora 34, 2009.
7 RANCIÈRE, Jacques. Op cit.