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UMA NEM TÃO BREVE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO


DORNELLES, Luciano do Amarali.

Resumo
A Educação foi um dos fatores de maior impacto no desenvolvimento humano ao longo dos séculos de nossa
história. Desde a pré-história, arremedos do que chamaríamos de processos educativos já ocorriam entre os
adultos e suas crianças, processo este que evoluiu durante os períodos neolíticos oriental e europeu, passando por
grandes civilizações como a Egípcia e a Grega. Com a ascensão e queda do grande império romano, a educação
também tem um período de novas transformações, com a criação de escolas, universidades e cursos regulares. E
a partir da renascença europeia, temos a inserção do pensamento de grandes cientistas, filósofos e educadores
como contribuição ao desenvolvimento da educação, como Da Vinci, Rousseau, Montessouri e Freire.
Palavras-chave: Educação, história, pensadores.

Abstract
Education was one of the factors that had the greatest impact on human development throughout the centuries of
our history. From prehistory, mockery of what we would call educational processes already occurred between
adults and their children, a process that evolved during the Eastern and European neolithic periods, passing
through great civilizations such as the Egyptian and the Greek. With the rise and fall of the great Roman Empire,
education also has a period of new transformations, with the creation of schools, universities and regular courses.
And from the European Renaissance, we have inserted the thinking of great scientists, philosophers and
educators as a contribution to the development of education, such as Da Vinci, Rousseau, Montessouri and
Freire.
Key words: Education, history, thinkers.

Resumen
La educación fue uno de los factores de mayor impacto en el desarrollo humano a lo largo de los siglos de
nuestra historia. Desde la prehistoria, arremedios de lo que llamaríamos procesos educativos ya ocurrían entre
los adultos y sus niños, proceso que evolucionó durante los períodos neolíticos oriental y europeo, pasando por
grandes civilizaciones como la Egipcia y la Griega. Con la ascensión y caída del gran imperio romano, la
educación también tiene un período de nuevas transformaciones, con la creación de escuelas, universidades y
cursos regulares. Y a partir del renacimiento europeo, tenemos la inserción del pensamiento de grandes
científicos, filósofos y educadores como contribución al desarrollo de la educación, como Da Vinci, Rousseau,
Montessouri y Freire.
Palabras clave: Educación, historia, pensadores.

História da Educação - Período Primitivo

A Educação existiu mesmo antes de ser conceituada como Educação, não existia na
forma de escolas. Seu objetivo era ajustar a criança ao seu ambiente físico e social,
através da aquisição das experiências, sendo os Chefes da família os primeiros
educadores.
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1.1 A evolução do hominídeo

O desenvolvimento da aprendizagem entre os primeiros humanos se deu de maneira


natural, pela interferência direta com o ambiente que o circulava:

 Australopithecus (viveu entre 5 milhões a 1 milhão de anos atrás) - caçador, aprendeu


a lascar pedras e a construir abrigos;
 Pitecanthropus (viveu entre 2 milhões a 200 mil anos atrás) - com um cérebro pouco
mais desenvolvido, vivia da colheita e da caça, se alimentava de modo misto, aprendeu a polir
pedras nas duas faces, era um protoartesão e embora já utilizasse o fogo, ainda vivia imerso
numa condição de fragilidade e de medo;
 Homem de Neanderthal (viveu entre 200 mil a 40 mil anos atrás) – aprende a construir
e melhorar armas, desenvolve um culto aos mortos e aprende a utilizar o tempo ocioso com a
arte (visível nas pinturas);
 Homo sapiens, que já tem características atuais - aprende a linguagem, elabora
múltiplas técnicas, educa os seus “filhotes”, vive da caça (nômade), é “artista” (arte
naturalista e animalista), está impregnado de cultura mágica, dotado de cultos e crenças, e
vive dentro da “mentalidade primitiva” marcada pela participação mística dos seres e pelo
raciocínio concreto, ligado a conceitos-imagem e pré-lógico, intuitivo mas não argumentativo.

Entre 40 mil anos e uns 10 mil anos atrás, junto do Homo sapiens temos o
desenvolvimento do nosso ramo humano, o Sapiens-sapiens, que vagueia e acaba por dominar
praticamente toda a superfície do planeta. A educação dos jovens, nesta fase, torna-se o
instrumento central para a sobrevivência do grupo e a atividade fundamental para realizar a
transmissão e o
desenvolvimento da cultura.

Nos filhotes dos animais


superiores já existe uma
disposição para acolher esta
transmissão, fixada
biologicamente e marcada
pelo jogo-imitação. Todos os
filhotes brincam com os
adultos e nessa relação se
Figura 1 Vida primitiva - fonte: cmapspublic.ihmc.us
realiza um adestramento, se
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aprendem técnicas de defesa e de ataque, de controle do território, de ritualização dos


instintos. Isso ocorre – e num nível enormemente mais complexo – também com o homem
primitivo, que através da imitação, ensina ou aprende o uso das armas, a caça e a colheita, o
uso da linguagem, o culto dos mortos, as técnicas de transformação e domínio do meio
ambiente.

Depois desta fase, entra-se (cerca de 10 mil anos atrás) na época do Neolítico, na qual se
assiste a uma verdadeira e própria revolução cultural. Nascem, as primeiras civilizações
agrícolas: os grupos humanos se tornam sedentários, cultivam os campos e criam animais,
aperfeiçoam e enriquecem as técnicas (para fabricar vasos, para tecer, para arar), cria-se uma
divisão do trabalho cada vez mais nítida entre homens e mulheres e um domínio sobre a
mulher por parte do homem (depois de uma fase que exalta a feminilidade no culto da Grande
Mãe ou a “Deusa”).

A revolução neolítica é também uma revolução educativa: fixa uma divisão educativa
paralela à divisão do trabalho (entre homem e mulher, entre especialistas do sagrado e da
defesa e grupos de produtores); fixa o papel - chave da família na reprodução das
infraestruturas culturais: papel sexual, papéis sociais, competências elementares, introjeção da
autoridade; produz o incremento dos locais de aprendizagem e de adestramento específicos
(nas diversas oficinas artesanais ou algo semelhante; nos campos; no adestramento; nos
rituais; na arte) que, embora ocorram sempre por imitação e segundo processos de
participação ativa no exercício de uma atividade, tendem depois a especializar-se, dando vida
a momentos ou locais cada vez mais específicos para a aprendizagem. Depois, são a
linguagem e as técnicas (linguagem mágica e técnicas pragmáticas) que regulam – de maneira
cada vez mais separada – os modelos de educação.
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Período Neolítico Oriental

Da linguagem oral para a escrita, os povos orientais foram os primeiros a fazer


uma transição da sociedade primitiva para a civilização. Surgem as figuras da
cidade e do estado, e a manutenção da cultura dominante se dá por meio da
educação.

2.1 Grupos chineses erguem o primeiro e mais antigo Império

A história da China está registrada em


documentos que datam do século XVI a.C. em
diante e que demonstram que aquele país é uma
das civilizações mais antigas do mundo com
existência contínua. A civilização chinesa surgiu
em cidades-Estado no vale do rio Amarelo, e por
volta do ano 221 a.C., a China foi unificada na
forma de um grande reino ou império, apesar de
já haver vários estados e dinastias antes disso.
Assim como em outras civilizações orientais, a
educação era tradicional: dividida em classes,
opondo cultura e trabalho, organizada em
escolas fechadas e separadas para a classe

Figura 2 A educação chinesa - fonte: SlideShare dirigente. O conhecimento da escrita era restrito
devido ao seu caráter esotérico. As
preocupações com educação apareceram nos livros sagrados, que ofereceram regras ideais de
conduta e enquadramento das pessoas nos rígidos sistemas religiosos. Já possuíam um sistema
de ensino organizado em nível primário, médio e superior.

Nesse período surgiu o dualismo escolar, que destina um tipo de ensino para o povo e
outro para os filhos dos funcionários, ou seja, grande parte da comunidade foi excluída da
escola e restringida à educação familiar informal. A educação física era cultuada pelos
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chineses por motivos religiosos e morais apregoados por sacerdotes e filósofos como
Confúcio1, que foi um grande ginasta.

Os monges da seita Tao-Tse criaram o Kong-fu e suas “7 regras da saúde”: levantar


cedo, purificar a boca, exercitar-se, massagear-se, banhar-se, repousar e alimentar-se. Além
do Kong-Fu, os chineses praticavam o Tsu-Chu (semelhante ao futebol), a esgrima de sabre, o
arco e flecha, o boxe, a peteca, a caça, as danças religiosas e as pantomimas (jogos de
imitação).

2.2 Grupos africanos fundam o Império Egípcio

Assim como na China, o rápido desenvolvimento cultural egípcio levou a criação de


escolas, que funcionavam como templos dentro de algumas casas nas maiores cidades. Estas
escolas eram frequentadas por pouco mais de vinte alunos a cada dia. A aprendizagem se
fazia por transcrições de hinos, livros sagrados, acompanhada de exortações morais e de
coerções físicas. Ao lado da escrita, ensinava-se também aritmética, com sistemas de cálculo,
complicados problemas de geometria associados à agrimensura, conhecimentos de botânica,
zoologia, mineralogia e geografia.

O primeiro instrumento do
sacerdote-intelectual é a escrita, que
no Egito era hieroglífica (relacionada
com o caráter pictográfico das
origens e depois estilizada em
ideogramas ligados por homofonia e
por polifonia, em seguida por
contrações e junções, até atingir um
cursivo chamado hierático e de uso
cotidiano, mais simples, e finalmente
Figura 3 Papiro egípcio - fonte: universoabierto.org
o demótico, que era uma forma ainda
mais abreviada e se escrevia sobre folha de papiro com um cálamo embebido em carbono).
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Confúcio (K'ung-fu-tzŭ, literalmente "Mestre Kong") (tradicionalmente 27 de agosto de 551 a.C. – 479 a.C.),
foi um pensador e filósofo chinês. Confúcio não pregava a aceitação plena de um papel definido para os
elementos da sociedade, mas sim que cada um cumprisse com seu dever de forma correta. Já o condicionamento
dos hábitos serviria para temperar os espíritos e evitar os excessos. Logo, a sua doutrina apregoava a criação de
uma sociedade capaz, culturalmente instruída e disposta ao bem-estar comum. A sua escola foi sistematizada nos
seguintes princípios: Ren, humanidade (altruísmo); Li, ou cortesia ritual; Zhi, conhecimento ou sabedoria moral;
Xin, integridade; Zhing, fidelidade; Yi, justiça, retidão, honradez.
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Ao lado da educação escolar, havia a familiar (atribuída primeira à mãe, depois ao pai) e
a “dos ofícios”, que se fazia nas oficinas artesanais e que atingia a maior parte da população.
Este aprendizado não tinha
nenhuma necessidade de
“processo institucionalizado de
instrução” e “são os pais ou os
parentes artesãos que ensinavam
a arte aos filhos”, através do
observar para depois reproduzir
o processo observado. Os
populares eram também
excluídos da ginástica e da
música, reservadas apenas a
casta guerreira e colocadas como Figura 4 Pilares de um templo no Egito – edificados para representar
florestas. Fonte: universoabierto.org
adestramento para guerra.

2.3 Grupos nômades se fixam entre o Tigre e o Eufrates

A Mesopotâmia (do grego antigo Μεσοποταμία; composto de μέσος, "meio", e


ποταμός, "rio", ou seja, "[terra] entre dois rios") é o nome dado para a área do sistema fluvial
Tigre-Eufrates, o que nos dias modernos corresponde a aproximadamente a maior parte do
atual Iraque e Kuwait, além de partes orientais da Síria e de regiões ao longo das fronteiras
Turquia-Síria e Irã-Iraque.

Amplamente considerado como um dos berços da civilização pelo mundo ocidental, a


Mesopotâmia da Idade do Bronze abrigava a Suméria, além dos impérios Acadiano,
Babilônico e Assírio, todos nativos ao território do atual Iraque. Na Idade do Ferro, era
controlada pelos impérios Neoassírio e Neobabilônico. Os povos sumérios e acádios
(incluindo assírios e babilônios) dominaram a região desde o início da história escrita (3100
a.C.) até a queda de Babilônia em 539 a.C., quando foi conquistada pelo Império
Aquemênida. Caiu a Alexandre, o Grande em 332 a.C. e, após sua morte, tornou-se parte do
Império Selêucida, de cultura grega.

A cultura da poderosa classe sacerdotal destaca-se, bem como a extrema dificuldade que
a escrita cuneiforme oferece aos escribas, incumbidos de ler e copiar textos religiosos.
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Na civilização babilônica, tiveram um


papel essencial o templo e as técnicas. O
templo era o verdadeiro centro social dessa
civilização, o lugar onde se condensa a
tradição e onde organizam as competências
técnicas, sobretudo as mais altas e
complexas, como escrever, contar, medir,
que dão vida à literatura, à matemática, à
geometria, às quais se acrescenta a
astronomia que estuda o céu para fins,

Figura 5 Placa com assentamentos de contabilidade em sobretudo práticos (elaborar calendários).


cuneiforme, 1980 a.C. Fonte: Centro de Pesquisas da
Antiguidade - WordPress.com Os sacerdotes (verdadeira casta de
poder, que levava uma vida separada e se dedicava a atividades diferentes dos outros homens,
ligadas aos rituais e à cultura), eram os depositários da palavra, os conhecedores da técnica da
leitura e da escrita. A experiência escolar formava o escriba e ocorria em ambientes
aparelhados para escrever sobre tabuletas de argila, sob o controle de um mestre (dubsar),
pelo uso de silabários e segundo uma rígida disciplina.

2.4 Se faltam terras... Vamos aos mares - Fenícios

Os fenícios eram povos de origem semita. Por volta de 3000 a.C., estabeleceram-se
numa estreita faixa de terra com cerca de 35 km de largura, situada entre as montanhas do
Líbano e o mar Mediterrâneo. Com 200 km de extensão, corresponde a maior parte do litoral
do atual Líbano e uma pequena parte da Síria.

Quanto à cultura, fundamental foi o desenvolvimento dos conhecimentos técnicos (de


cálculo, de escrita, mas também ligados aos problemas da navegação). A descoberta mais
significativa desse povo foi a do alfabeto, com 22 consoantes (sem as vogais), do qual
derivam o alfabeto grego e depois os europeus, e que aconteceu pela necessidade de
simplificar e acelerar a comunicação.

A primeira produção do alfabeto ocorreu em Biblos (um dos centros da Fenícia), que
deu, aliás, nome ao livro (biblos, em grego), pelas indústrias de papiro que ali se
encontravam. Quanto aos processos educativos, são aqueles típicos das sociedades pré-gregas,
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influenciados pelos modelos dos grandes impérios e pelas sociedades sem escrita em que
predomina a sacralização dos saberes e a organização pragmática das técnicas, e tais
processos se desenvolvem, sobretudo na família, no santuário ou nas oficinas artesanais.

Figura 6 Números fenícios - Fonte: Centro


de Pesquisas da Antiguidade -
WordPress.com

Figura 7 Alfabeto - Fonte: Centro de Pesquisas da Antiguidade -


WordPress.com

Os processos de formação coletiva são confiados ao “bardo”, ao “profeta”, ao “sábio”,


três figuras-guias das comunidades pré-literárias e que desenvolvem uma ação de transmissão
de saberes, de memória histórica e de “educadores de massa”.

2.5 As tribos nômades dos Hebreus

O principal legado que os hebreus deixaram foi no âmbito religioso. Eles foram os
primeiros povos a adotar o monoteísmo, ou seja, a crença em um único Deus. Também de
destacam na literatura, destacando o Antigo Testamento, que é a primeira parte da Bíblia.

Quanto aos profetas, eles eram os educadores de Israel, inspirados por Deus e
continuadores do espírito de sua mensagem ao “povo eleito”: devem educar com dureza,
castigar e repreender também com violência, já que sua denúncia é em razão de um retorno ao
papel atribuído por Deus a Israel.

A escola em Israel organizava-se em torno da interpretação da Lei dentro da sinagoga; à


qual “era anexa uma escola exegese” que, no período helenístico, se envolveu em sérios
contrastes em torno, justamente, da helenização da cultura hebraica. Aos saduceus
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(helenizantes) opuseram-se os fariseus (antigregos) que remetiam à letra das Escrituras e à


tradição interpretativa, salvaguardada de modo
formalista. Assim, além de centro de oração e de
vida religiosa e civil, a sinagoga se torna também
lugar de instrução.

A instrução que se professava era religiosa,


voltada tanto para a “palavra” quanto para os
“costumes”. Os conteúdos da instrução eram
“trechos escolhidos da Torá”, a partir daqueles
usados nos ofícios religiosos cotidianos. Só mais
tarde (no século I d.C.) foi acrescentado o estudo
da escrita e da aritmética. Nos séculos sucessivos,
os hebreus da diáspora fixaram-se, em geral, sobre
este modelo de formação (instrução religiosa),
atribuindo também a esta o papel de salvar sua
Figura 8 Moisés recebe os mandamentos - Fonte:
identidade cultural e sua tradição histórica. Centro de Pesquisas da Antiguidade -
WordPress.com
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Período Helenístico

Berço da civilização ocidental, a cultura helênica teve como principais


representantes: Sócrates, Platão e Aristóteles; Primou o desenvolvimento individual
do ser humano, a personalidade e a cidadania, ideais pautados na liberdade
política e moral e no desenvolvimento intelectual.
Neste período as crianças viviam a primeira infância em família, assistidas pelas
mulheres e submetidas à autoridade do pai, que poderia reconhecê-las ou abandoná-las, que
escolhia seu papel social e era seu tutor legal. A infância não era valorizada em toda a cultura
antiga: era uma idade de passagem, ameaçada por doenças, incerta nos seus sucessos; sobre
ela, portanto, se fazia um mínimo investimento afetivo.

A criança crescia em casa, controlada pelo “medo do pai”, atemorizada por figuras
míticas semelhantes às bruxas, gratificada com brinquedos (bonecas) e entretida com jogos
(bolas, aros, armas rudimentares), mas sempre era colocada à margem da vida social. Ou
então, era submetida à violência, a estupro, a trabalho, até os sacrifícios rituais. O menino –
em toda a Antiguidade e na Grécia também – era um “marginal” e como tal era violentado e
explorado sob vários aspectos, mesmo se gradualmente – a partir dos sete anos, em geral – era
inserido em instituições públicas e sociais que lhe concediam uma identidade e lhe indicavam
uma função. A menina não recebia qualquer educação formal, mas aprendia os ofícios
domésticos e os trabalhos manuais com a mãe.

A educação grega era centrada na formação integral do indivíduo. Quando não existia a
escrita, a educação era ministrada pela própria família, conforme a tradição religiosa. A
transmissão da cultura grega se dava também, através das inúmeras atividades coletivas
(festivais, banquetes, reuniões). Com o tempo e o aparecimento da escola, esta era elitizada,
atendendo aos jovens de famílias tradicionais da antiga nobreza ou dos comerciantes
enriquecidos.
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3.1 Esparta e Atenas: dois modelos educativos

Esparta e Atenas deram vida a dois ideais de educação: um baseado no conformismo e


no estadismo, outro na concepção de Paidéia, de formação humana livre e nutrida de
experiências diversas, sociais. Ambas alimentaram durante séculos o debate pedagógico,
sublinhando a riqueza e fecundidade ora de um, ora de outro modelo.

Foi o mítico Licurgo2 quem ditou as regras políticas de Esparta e delineou seu sistema
educativo, conforme o testemunho de Plutarco. As crianças do sexo masculino, a partir dos
sete anos, eram retiradas da família e inseridas em escolas-ginásios onde recebiam, até os 16
anos, uma formação de tipo militar, que devia favorecer a aquisição da força e da coragem. O
cidadão-guerreiro é formado pelo adestramento no uso das armas, reunido em equipes sob o
controle de jovens guerreiros e, depois, de um superintendente geral (paidonomos). Levava-se
uma vida comum, favoreciam-se os vínculos de amizade, valorizava-se em particular a
obediência. Quanto à cultura – ler, escrever, pouco espaço era dado a ela na formação do
espartano – “o estritamente necessário”, diz Plutarco -, embora fizessem aprender de memória
Homero e Hesíodo ou o poeta Tirteo.

Já em Atenas, após a adoção do


alfabeto Jônico, totalmente fonético,
que se tornou comum a toda Grécia,
teve um esplêndido florescimento em
todos os campos: da poesia ao teatro, da
história à filosofia. No século V, Atenas
exercia um influxo sobre toda a Grécia:
tinha necessidade de uma burocracia
culta, que conhecesse a escrita. Esta se
difundiu a todo o povo e os cidadãos
Figura 9 O alfabeto grego - Fonte: Matemática IFBA -
livres adquiriram o hábito de dedicar-se WordPress.com

à oratória, à filosofia, à literatura,


desprezando o trabalho manual e comercial. Todo o povo escrevia como atesta a prática do
ostracismo. Afirmou-se um ideal de formação mais culto e civil, ligado à eloquência e à

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Licurgo foi um lendário legislador da pólis de Esparta. Heródoto fala dele em meados do século V a.C., mas a
vida do legislador deve ter decorrido no século VIII a.C., mas a sua memória seria correntemente mencionada na
Esparta do século V, pois os seus habitantes nessa época sentiam a necessidade de atribuir a organização estatal
que os regia a um ser humano, e não ao acaso. (Plutarco, Vidas Paralelas, Vida de Licurgo, I.3).
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beleza, desinteressado e universal, capaz de atingir os aspectos mais próprios e profundos da


humanidade de cada indivíduo e destinado a educar justamente este aspecto de humanidade,
que em particular a filosofia e as letras conseguem nele fazer emergir e amadurecer.

Assim, a educação assumia em Atenas um papel-chave e complexo, tornava-se matéria


de debate, tendia a universalizar-se, superando os limites da polis. Numa primeira etapa, a
educação era dada aos rapazes que frequentavam a escola e a paléstrica, onde eram instruídos
através da leitura, da escrita, da música e da educação física, sob a direção de três instrutores:
o grammatistes (mestre), o kitharistes (professor de música), o paidotribes (professor de
gramática).

O rapaz era depois


acompanhado por um escravo que o
controlava e guiava: o paidagogos.
Depois de aprender o alfabeto e a
escrita, usando tabuinhas de madeira
cobertas de cera, liam-se versos ricos
de ensinamentos, narrativas, discursos,
elogios de homens famosos, depois os
poetas líricos que eram cantados. O
cuidado com o corpo era muito
valorizado, para torná-lo sadio, forte e
belo, realizado no gymnasio. Aos 18
anos, o jovem era “efebo” – no auge
da adolescência, inscrevia-se no
Figura 10 Licurgo de Esparta - Fonte: WordPress.com próprio demo (ou circunscrição), com
uma cerimônia entrava na vida de
cidadão e depois prestava serviço militar por dois anos.

A particularidade da educação ateniense é indicada pela ideia harmônica de formação


que inspira ao processo educativo e o lugar que nela ocupa a cultura literária e musical,
desprovida de valor prático, mas de grande importância espiritual, ligada ao crescimento da
personalidade e humanidade do jovem.
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3.2 Paidéia: o seu nascimento

A partir do século V a. C., exige-se algo mais da educação. Para além de formar o
homem, a educação deve ainda formar o cidadão. A antiga educação, baseada na ginástica, na
música e na gramática deixa de ser suficiente.

Surge então o modelo ideal de educação grega, que aparece como Paidéia3, que tem
como objetivo geral construir o homem como homem e cidadão. Platão define Paidéia da
seguinte maneira “(...) a essência de toda a verdadeira educação ou Paidéia é a que dá ao
homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer,
tendo a justiça como fundamento”.

A noção de Paidéia se afirma de modo orgânico e independente na época dos sofistas e


de Sócrates e assinala a passagem explícita – da educação para a Pedagogia, de uma dimensão
teórica, que se delineia segundo as características universais e necessárias da filosofia. Nasce
a Pedagogia como saber autônomo, sistemático, rigoroso; nasce o pensamento da educação
como episteme4, e não mais como éthos5 e como práxis6 apenas.

A Paidéia no período helenístico pode ser compreendida como uma orientação de vida,
ou seja, apresentava-se como um conjunto de orientações seguras, que indicavam o caminho
da felicidade. Os “novos” educadores, além de ensinar o homem a especular em torna da
verdade, buscavam enfatizar que era preciso aprender a viver de forma virtuosa. A vivência
das virtudes era a garantia de uma vida feliz, por isso, a transmissão e a prática dos valores
tornou-se o conteúdo primordial das escolas nesse período.

3.3 Helenismo e Educação

Trata-se de uma época que se delineia uma cultura cada vez mais científica, mais
especializada, mais articulada em formas diferenciadas entre si tanto pelos objetos quanto
pelos métodos: é a época em que se desenvolve a ciência física em formas quase
experimentais, em que apresentam a filosofia e a historiografia em formas amadurecidas, em

3
Paidéia: nas suas origens e na sua acepção comum, indica o tipo de formação da criança (pais), mais idôneo a
fazê-lo crescer e tornar-se homem, assume pouco a pouco nos filósofos o significado de formação, de perfeição
espiritual, ou seja, de formação do homem no seu mais alto valor. Portanto, podemos dizer que a Paidéia,
entendida ao modo grego, é a formação da perfeição humana.
4
Episteme: conhecimento verdadeiro, de natureza científica, em oposição à opinião infundada ou irrefletida.
5
Éthos: conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento e da cultura,
característicos de uma determinada época ou região.
6
Práxis: prática.
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que cresce a astronomia tanto quanto a geometria e a matemática, como também a botânica, a
zoologia, a gramática, dando vida a uma enciclopédia bastante complexa do saber.

Nesta época desenvolvem-se alguns centros de cultura: Rodes, Pérgamo, Alexandria;


Alexandria em particular – fundada por Alexandre Magno em 932 a. C. no Egito - , com a
biblioteca e o museu, afirma-se como o centro de toda cultura helenística, literária, filosófica e
científica.

Figura 11 Biblioteca de Pérgamo - Fonte: nl.wikipedia.org


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Período Romano

Não foi o exemplo de democracia que se diz, havia é um ideal de Direitos e Deveres,
e a educação dava ênfase à formação moral e física (formação do guerreiro).
O texto - base da educação romana, como atesta Cícero7, foi por muito tempo o das
Doze tábuas, fixado em 451 a.C., no bronze e exposto publicamente no fórum, para que todos
pudessem vê-lo. Nelas, sublinhava-se o valor da tradição (o espírito, os costumes, a disciplina
dos pais) e delineava-se um código civil, baseado na pátria potestas e caracterizado por
formas de relação social típicas de uma sociedade agrícola atrasada. Como modelo educativo,
as tábuas fixavam à dignidade, a coragem, a firmeza como valores máximos, ao lado, porém,
da pietas e da parcimônia.

A educação na Roma arcaica teve, sobretudo, caráter


prático, familiar e civil, destinada a formar em particular o
“civis romanus”, superior aos outros povos pela consciência
do direito como fundamento da própria “romanidade”. Os
civis romanus era, porém, formado antes de tudo em família
pelo papel central do pai, mas também da mãe, por sua vez
menos submissa e menos marginal na vida da família em
comparação com a Grécia. A mulher em Roma era
valorizada como mater famílias, portanto reconhecida como
sujeito educativo, que controlava a educação dos filhos,
Figura 12 Familia romana - Fonte:
confiando-os a pedagogos e mestres. Diferente, entretanto, é https://pt.wikipedia.org/wiki/roma

o papel do pai, cuja autoritas, destinada a formar o futuro


cidadão, é colocada no centro da vida familiar e por ele exercida com dureza, abarcando cada

7
Marco Túlio Cícero (106 – 43 a.C.) foi um advogado, político, escritor, orador e filósofo da gens Túlia da
República Romana eleito cônsul em 63 a.C. com Caio Antônio Híbrida. Era filho de Cícero, o Velho, com Élvia
e pai de Cícero, o Jovem, cônsul em 30 a.C., e de Túlia. Cícero nasceu numa rica família municipal de Roma de
ordem equestre e foi um dos maiores oradores e escritores em prosa da Roma Antiga. (Haskell, H.J.: This was
Cicero (1964)p.300–301).
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aspecto da vida do filho (desde a moral até os estudos, as letras, a vida social). Para as
mulheres, porém, a educação era voltada a preparar seu papel de esposas e mães, mesmo se
depois, gradativamente, a mulher tenha conquistado maior autonomia na sociedade romana. O
ideal romano da mulher, fiel e operosa, atribui a ela, porém, um papel familiar e educativo.

4.1 Escola romana

Foi a partir do século II a. C. que em Roma também se foram organizando escolas


segundo o modelo grego, destinadas a dar uma formação gramatical e retórica, ligada à língua
grega. No século I a. C. foi fundada uma escola de retórica latina, que reconhecia total
dignidade à literatura e à língua dos romanos. Pouco tempo depois, o espírito prático, próprio
da cultura romana, levou a uma sistemática organização das escolas, divididas por graus e
providas de instrumentos didáticos específicos (manuais). Quanto aos graus, as escolas eram
divididas em:

1. Elementares (ou do litterator


ou ludus, dirigidas pelo ludi
magister e destinadas a dar a
alfabetização primária: ler, escrever
e, frequentemente, também calcular;
tal escola funcionava em locais
alugados ou na casa dos ricos; as
crianças dirigiam-se para lá

acompanhadas do paedagogus, Figura 13 Escola romana - Fonte: jwprintsandmaps.com

escreviam com o estilete sobre


tabuletas de cera, aprendiam as letras do alfabeto e sua combinação, calculavam usando os
dedos ou pedrinhas – calculi, passavam boa parte do d ia na escola e eram submetidas à rígida
disciplina do magister, que não excluía as punições físicas);

2. Secundárias ou de gramática (nas quais se aprendia a cultura nas suas diversas


formas: desde a música até a geometria, a astronomia, a literatura e a oratória; embora
predominasse depois o ensino literário na sua forma gramatical e filosófica, exercido sobre
textos gregos e latinos, através da lectio, da enarratio, da emendatio e do judicium); 3. escolas
de retórica – política, forense, filosófica etc. – e elaboravam –se as suasoriae ou discursos
sobre exemplos morais e as controversiae ou debates sobre problemas reais ou fictícios).
17

Embora mais limitada em comparação à educação grega (eram escassas a gramática, a


música, e também a ciência e a filosofia), mais utilitária, a formação escolar romana mantém
bem no centro este princípio retórico e a tradição das artes liberais, resumidas no valor
atribuído à palavra.

Existiam também, escolas para os grupos inferiores e subalternos, embora menos


organizadas e institucionalizadas. Eram escolas técnicas e profissionalizantes, ligadas a os
ofícios e às práticas de aprendizado das diversas artes. As técnicas eram ligadas num primeiro
momento, ao exército e à agricultura, depois ao artesanato, e por fim ao artesanato de luxo.
18

Período Medieval Europeu

Doutrina da igreja católica sobre Feudos, ficando conhecido como século das
trevas. Educação critica à educação grega (liberal) e romana (prática).
No período medieval a
educação era desenvolvida em
estreita simbiose com a Igreja,
com a fé cristã e com as
instituições eclesiásticas que –
enquanto acolhiam os oratores
(os especialistas da palavra, os
sapientes, os cultos, distintos
dos bellatores e dos

Figura 14 A Idade Média - Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/ laboratores) – eram as únicas


delegadas (com as corporações
no plano profissional) a educar, a formar, a conformar. Da Igreja partiram os modelos
educativos e as práticas de formação, organizavam-se as instituições ad hoc8 e programavam-
se as intervenções, como também nela se discutiam tanto as práticas como os modelos.
Práticas e modelos para o povo, práticas e modelos para as classes altas, uma vez que era
típico também da Idade Média o dualismo social das teorias e das práxis educativas, como
tinha sido no mundo antigo.

Também a escola, como nós conhecemos, é um produto da Idade Média. A sua estrutura
ligada à presença de um professor que ensina a muitos alunos de diversas procedências e que
deve responder pela sua atividade à Igreja ou a outro poder (seja ele local ou não); as suas
práticas ligadas à lectio e aos autores, a discussão, ao exercício, ao comentário, à arguição

8
Ad hoc significa “para esta finalidade", “para isso” ou "para este efeito". É uma expressão latina, geralmente
usada para informar que determinado acontecimento tem caráter temporário e que se destina para aquele fim
específico.
19

etc.; as suas práxis disciplinares (prêmios e castigos) e avaliativas vêm daquela época e da
organização dos estudos nas escolas monásticas e nas catedrais e, sobretudo nas
universidades. Vêm de lá também alguns conteúdos culturais da escola moderna e até mesmo
da contemporânea: o papel do latim; o ensino gramatical e retórico da língua; a imagem da
filosofia, como lógica e metafísica.

5.1 Escolas Paroquiais

As primeiras remontam ao século II. Limitavam-se à formação de eclesiásticos, sendo o


ensino ministrado por qualquer sacerdote encarregado de uma paróquia, que recebia em sua
própria casa os jovens rapazes. À medida que a nova religião se desenvolvia, passava-se das
casas privadas às primeiras igrejas nas quais o altar substitui a tribuna. O ensino era reduzido
aos salmos, às lições das Escrituras, seguindo uma educação estritamente cristã.

5.2 Escolas Monásticas

Visavam inicialmente, apenas à


formação de futuros monges.
Funcionando de início apenas em
regime de internato, estas escolas
abriram mais tarde escolas externas
com o propósito da formação de
leigos cultos (filhos dos Reis e os
servidores também). O programa de
ensino era de início, muito elementar
- aprender a ler escrever, conhecer a Figura 15 Escola monástica - Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/

bíblia (se possível de cor), canto e um


pouco de aritmética – foi-se enriquecendo de forma a incluir o ensino do latim, gramática,
retórica e dialética.

5.3 Escolas Palatinas

Carlos Magno fundou ainda, junto da sua corte e no seu próprio palácio, a chamada
Escola Palatin. Para apoio do seu plano de desenvolvimento escolar, Carlos Magno chamou o
20

monge inglês Alcuíno. É sob a sua inspiração que, a partir do ano 787, foram emanados o
decreto capitular para a organização das escolas. Estes incluíam as sete artes liberais,
repartidas no trivium e no quadrivium. O trivium abraçava as disciplinas formais: gramática,
retórica, dialética, esta última desenvolvendo-se, mais tarde, na filosofia; o quadrivium
abraçava as disciplinas reais: aritmética, geometria, astronomia, música, e, mais tarde, a
medicina.

5.4 Escolas Catedrais

As Escolas Catedrais
(escolas urbanas), saídas das
antigas escolas monásticas
(que alargaram o âmbito dos
seus estudos), tomaram a
dianteira em relação às escolas
dos mosteiros. Instituídas no
século XI por determinação do
Concilio de Roma (1079),
passam, a partir do século XII
(Concilio de Latrão, 1179), a

ser mantidas através da criação Figura 16 La scuola di Salamanca, esponenti di primo grado della Chiesa che
hanno giocato un ruolo ambiguo quando non apertamente sovversivo. - Fonte:
de benefícios para a ilprimatonazionale.it
remuneração dos mestres,
prosperando nesse mesmo século. A atividade intelectual abre-se ao exterior, ainda que de
forma lenta, absorvendo elementos das culturas judaica, árabe e persa, redescobrindo os
autores clássicos, como Aristóteles e, em menor escala, Platão.

5.5 Universidades

Supõe-se que a primeira universidade européia tenha sido na cidade italiana de Salerno,
cujo centro de estudos remonta ao século XI. Além desta, antes de 1250, formaram-se no
Ocidente a primeira geração de universidades medievais. São designadas de espontâneas
porque nascem do desenvolvimento de escolas preexistentes. As universidades de Bolonha e
de Paris estão entre as mais antigas. Outros exemplos são a Universidade de Oxford e a de
21

Montpellier. Mais tarde, é a vez da constituição de universidades por iniciativa papal ou real.
Exemplo desta última é a Universidade de Coimbra, fundada em 1290.

Originalmente, estas instituições eram chamadas de studium generale, agregando


mestres e discípulos dedicados ao ensino superior de algum ramo do saber (medicina, direito,
teologia). Porém, com a efervescência cultural e urbana da Baixa Idade Média, logo se passou
a fazer referência ao estudo universal do saber, ao conjunto das ciências, sendo o nome
studium generale substituído por universitas.
22

Período do Renascimento

Interesse pela educação grega e romana, novamente o privilégio aos que detinham
o poder. Principais pensadores: Johan Amós Comennius e Jean Jackes Rousseau.
O Renascimento começou na Itália, no século XIV, e difundiu-se por toda a Europa,
durante os séculos XV e XVI. Foi um período da história europeia marcado por um renovado
interesse pelo passado greco-romano clássico, especialmente pela sua arte.

Para se lançar ao conhecimento do mundo e às coisas do homem, o movimento


renascentista elegia a razão como a principal forma pela qual o conhecimento seria alcançado.

O renascimento deu grande privilégio à matemática e às ciências da natureza. A


exatidão do cálculo chegou até mesmo a influenciar o projeto estético dos artistas desse
período. Desenvolvendo novas técnicas de proporção e perspectiva, a pintura e a escultura
renascentista pretendiam se aproximar ao máximo da realidade. Em consequência disso, a
riqueza de detalhes e a reprodução fiel do corpo humano formavam alguns dos elementos
correntes nas obras do Renascimento.

O Humanismo9 representou tendência semelhante no campo da ciência. O renascimento


confrontou importantes conceitos elaborados pelo pensamento medieval. No campo da
astronomia, a teoria heliocêntrica, onde o Sol ocupa o centro do Universo, se contrapunha à
antiga ideia cristã que defendia que a Terra se encontrava no centro do cosmos. Novos
estudos de anatomia também ampliaram as noções do saber médico dessa época.

René Descartes (1596-1650) – Escreve Lémille, onde para ele, a criança é naturalmente
boa e é a sociedade que a corrompe; a sua obra Emílio tem um enorme impacto;

Johan Comenius (1592-1670) – Escreve a Didactica Magna, ou Didática Magna,


também conhecido por Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos é a primeira obra
puramente metodológica de ensino, publicada em 1649.

9
Humanismo: O Humanismo é um movimento filosófico surgido no século XV dentro das transformações
culturais, sociais, políticas, religiosas e econômicas desencadeadas pelo Renascimento.
23

Os humanistas eram homens letrados


profissionais, normalmente provenientes da
burguesia ou do clero que, por meio de suas
obras, exerceram grande influência sobre toda a
sociedade; rejeitavam os valores e a maneira de
ser da Idade Média e foram responsáveis por
conduzir modificações nos métodos de ensino,
desenvolvendo a análise e a crítica na
investigação científica.

Figura 17 Orbis Pictus - Fonte: scielo.br


24

Período Moderno

Surge no século XVII, prega a separação entre a igreja católica e o estado.


Principais pensadores: Pestalozzi, Herbat e Froebel.
Duas instituições educativas, em particular, sofreram uma profunda redefinição e
reorganização na Modernidade: a família e a escola, que se tornaram cada vez mais centrais
na experiência formativa dos indivíduos e na própria reprodução (cultural, ideológica e
profissional) da sociedade. As duas instituições chegaram a cobrir todo o arco da infância –
adolescência, como “locais” destinados à formação das jovens gerações, segundo um modelo
socialmente aprovado e definido.

A família, objeto de uma retomada como núcleo de afetos e animada pelo “sentimento
da infância”, que fazia cada vez mais da criança o centro-motor da vida familiar, elaborava
um sistema de cuidados e de controles da mesma criança, que tendiam a conformá-la a um
ideal, mas também a valorizá-la como mito, um mito de espontaneidade e de inocência,
embora às vezes obscurecido por crueldade, agressividade etc. Os pais não se contentavam
mais em apenas pôr filhos no mundo. A moral da época impõe que se dê a todos os filhos, não
só ao primogênito, e no fim dos anos seiscentos também as filhas, uma preparação para a
vida. A tarefa de assegurar tal afirmação é atribuída à escola.

Ao lado da família, à escola: uma escola que instruía e que formava que ensinava
conhecimentos, mas também comportamentos, que se articulava em torno da didática, da
racionalização da aprendizagem dos diversos saberes, e em torno da disciplina, da
conformação programada e das práticas repressivas (constritivas, mas por isso produtoras de
novos comportamentos). Mas, sobretudo, uma escola que reorganizava suas próprias
finalidades e seus meios específicos. Uma escola não mais sem graduação na qual se
ensinavam as mesmas coisas a todos e segundo processos de tipo adulto, não mais
caracterizada pela “promiscuidade das diversas idades” e, portanto, por uma forte
incapacidade educativa, por uma rebeldia endêmica por causa da ação dos maiores sobre os
menores e , ainda, marcadas pela “liberdade dos estudantes”, sem disciplina interna e externa.
25

Com a instituição do colégio (no século XVI), porém, teve início um processo de
reorganização disciplinar da escola e de racionalização e controle de ensino, através da
elaboração de métodos de ensino/educação – o mais célebre foi a Ratio studiorum dos jesuítas
– que fixavam um programa minucioso de estudo e de comportamento, o qual tinha ao centro
a disciplina, o internato e as “classes de idade”,
além da graduação do ensino/aprendizagem.

Também é dessa época a descoberta da


disciplina: uma disciplina constante e orgânica,
muito diferente da violência e autoridade não
respeitada. A disciplina escolar teve raízes na
disciplina religiosa; era menos instrumento de
exercício que de aperfeiçoamento moral e
espiritual, era buscada pela sua eficácia, como
condição necessária do trabalho em comum,
mas também por seu valor próprio de
edificação. Enfim, a escola ritualizava o
momento do exame atribuindo-lhe o papel
crucial no trabalho escolar. O exame era o
momento em que o sujeito era submetido ao
controle máximo, mas de modo impessoal:
Figura 18 Ratio Studiorum - Fonte: Saint Louis University mediante o controle do seu saber. Na realidade,
Libraries
o exame agia, sobretudo como instrumento
disciplinar, de controle do sujeito, como instrumento de conformação.

Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) que defendeu o alargamento da educação ao


maior número de pessoas possível (democratização do ensino).

Johann Friedrich Herbart (1776-1841) foi um educador alemão considerado um dos


percursores da pedagogia científica. A pedagogia, para Herbart, tinha de estar ligada à
Psicologia.

Friedrich Froebel (1782-1852) criou o primeiro Jardim de Infância em 1837. Trata-se


de mais uma “extensão” da Educação, desta vez em direção à primeira Infância.

Maria Montessori (1870-1952) Foi a primeira médica italiana. Pretendia criar


ambientes de liberdade, capazes de permitirem a livre expressão das capacidades infantis.
26

Funda a "Casa dei Bambini", (Casa das Crianças), a primeira em 1906, em Roma. Na
sequência das suas experiências educativas publica em 1909 Il Metodo della Pedagogia
Scientifica:

1º Promover o conhecimento científico da criança;

2º Estabelecer um ambiente de liberdade e respeito pela criança;

3º O ambiente educativo deve ser esteticamente belo;

4º A criança deve ser activa;

5º A criança deve poder auto-educar-se;

6º A criança deve corrigir-se, não cabendo a correcção ao professor;

7º O professor deve, essencialmente, observar.

Atribui-se a Montessori a ideia da miniaturização do mobiliário. Existe material para a


educação motriz, sensorial e da linguagem. Executam-se exercícios manuais simples como a
jardinagem bem como a ginástica e movimentos rítmicos. O asseio pessoal é mantido. No
estudo matemático existe material destinado à aritmética e à geometria. Os exercícios de
Montessori pressupõem a disciplina.

7.1 A Escola Nova

É difícil definir com rigor o que se entende por Escola Nova, pois autores como Maria
Montessori, John Dewey ou Ovide Decroly podem enquadrar-se nela. Outros ainda, como o
pedagogo soviético Anton Semionovic Makarenko, tiveram traços que os aproximam deste
movimento, embora não se confundam com ele. Por razões de ordem metodológica e de
facilidade de exposição iremos englobar neste ponto, os autores que, como Claparède ou
Adolphe Ferrière, fundaram o Bureau International des Écoles Nouvelles, ao qual pertenceria
o português Faria de Vasconcelos.

Cecil Reddie (1858-1932) foi o fundador da primeira instituição com o nome "Escola
Nova", em 1889, na localidade de Abbotsholme. Era um internato, com métodos de ensino
novos. O ensino baseava-se em problemas reais. Dava-se ênfase à observação. Existia um
horário para as atividades desportivas e várias formas de trabalho manual como a jardinagem,
horticultura e carpintaria. Visitavam-se fábricas, tendo a ideia das visitas de estudo sido muito
27

bem acolhida por este movimento. Os alunos ocupavam-se com trabalhos artísticos,
publicando um jornal - ideia que mais tarde Célestin Freinet continuaria.

Robert Baden Powell (1857-1941), pode ser associado a este movimento. Criou o
escutismo, que visa incutir valores como a disciplina, o sentido do dever, a honra, a
responsabilidade, um espírito patriótico e universalista. As "Escolas Novas" trouxeram ideias
importantes como as visitas de estudo, a valorização do trabalho manual e da arte, as
caminhadas a pé e a prática da agricultura, tentando ligar a escola à natureza. A coeducação
dos sexos foi também realizada na maioria das "Escolas Novas".

Faria de Vasconcelos (1880-1939)

Edouard Claparède (1872-1940)

Adolphe Ferrière (1879-1960): em 1899 fundou em Genebra o Bureau International


des Écoles Nouvelles; redigiu um texto, com trinta princípios, no qual pretende definir o que
deve ser uma Escola Nova. Em 1921 foi fundada em Calais a Liga Internacional da Educação
Nova. Esta liga contou entre os seus membros e dirigentes personalidades de destaque
mundial em áreas científicas diversas, como o físico Paul Langevin, os psicólogos Cousinet e
Henri Wallon ou Gaston Mialaret.

7.2 Críticas ao processo educativo (Marxismo, Ivan Illich e a desescolarização)

Karl Heinrich Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), foram filósofos,


historiadores, economistas e políticos alemães, criadores de uma importante corrente de
pensamento que visava a transformação da sociedade, tendo a sua obra implicações no campo
educativo.

Grande parte dos seus livros foram escritos em co-autoria. A designação "marxismo"
acentua a importância de Karl Marx, no contexto desta corrente de pensamento, em relação a
Friedrich Engels.

enquanto Hegel aponta Deus como o culminar desse movimento, Marx aplica a dialética
ao desenvolvimento social: a tese é o estado atual da sociedade, a antítese é o proletariado, a
síntese (superação) será uma nova sociedade, a sociedade socialista, a qual, em movimentos
posteriores chegaria à fase "comunista".

Da obra do seu colega de Universidade Ludwig Feuerbach, retirará a noção de


alienação, importante no escrito Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844. Mas, enquanto
28

para Ludwig Feuerbach a alienação (estado de uma consciência distorcida da realidade) é


proveniente da religião - "ópio do povo" - para Karl Marx, é a situação social do homem que
determina a sua consciência.

Ivan Illich (1926 - 2002 ) Publica: Desescolarização e Libertar o Futuro. considera que
a escola massificada é pobre e empobrecedora, e, para mais, os países pobres nunca terão,
mesmo assim, possibilidades de estender a escolarização a todos.

Quer dizer, para Illich, mesmo a tentativa de escolarizar sem o emprego de grandes
meios financeiros, não é possível nos países mais pobres, pois outros sectores da sociedade
reclamam investimentos. Para Illich, a escola, o sistema de segurança social, são problemas e
não soluções de problemas. A Educação não é um meio que leve à "igualdade" dos cidadãos,
antes continua as desigualdades.

7.3 Outros autores e movimentos pedagógicos do Século XX

Anton Semionovic Makarenko (1888-1939)

Alexander Sutherland Neill (1883-1973)

Célestin Freinet (1896-1966) foi um professor primário e pedagogo francês. O alcance


da obra teórica e prática de Freinet foi grande, sendo importante, nomeadamente ao nível do
1º Ciclo do Ensino Básico.

Carl Ransom Rogers (1902-1987)

Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) Pedagogo brasileiro nascido em Recife.


Licenciou-se em Direito, chegando a exercer advocacia. De 1941 a 1947 foi professor de
português. Em 1959 doutorou-se em Filosofia e História da Educação. Foi professor de
Filosofia e História da Educação em 1961, na Universidade de Recife.

Participou numa campanha de alfabetização de adultos no Estado do Rio Grande do


Norte, Estado Brasileiro vizinho (a Norte) de Pernambuco (cuja capital é a já mencionada
cidade de Recife). O presidente João Goulart nomeou-o, em 1963, Presidente da Comissão de
Cultura Popular. Com o golpe militar de 1964, foi preso durante cerca de dois meses e exilado
por quinze anos. Durante esse período, viveu no Chile, indo em 1969 para Harvard e em
seguida para Genebra durante dez anos.
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Na obra Pedagogia do Oprimido, afirma que a educação é sexista, racista e favorece os


poderosos. Desenvolve um método de ensino baseado na aprendizagem de palavras que são
conhecidas pelo aluno, sendo divididas em sílabas que podem ser recombinadas, originando a
escrita de outras palavras. Para Paulo Freire a Educação é libertadora desde que o seu sujeito
seja o povo oprimido, sendo a finalidade da educação a libertação do povo. A Educação é
uma acção política.

Paulo Freire recusa o capitalismo liberal. A sua obra teórica retomou a ideia da
transformação da realidade social a partir da acção educativa, o que é de alguma forma um
"retorno a Rousseau", nos finais do Século XX.

As preocupações éticas de Paulo Freire são também visíveis na já referida obra


Pedagogia do Oprimido, talvez a mais famosa de todas as que escreveu.

"A violência dos opressores, que os faz também desumanizados, não instaura uma outra
vocação - a do ser menos. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo
ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os
oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem
idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas
restauradores da humanidade em ambos."

i
Professor da disciplina de Metodologia do Ensino da Educação Física na ULBRA, campus Gravataí e Guaíba.
luciano.dornelles@ulbra.br